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Genes e hereditariedade mitocondrial

Fernando J. Regateiro
Unidade de Genética Médica,
Faculdade de Medicina, Universidade de Coimbra
Novembro, 2015

As mitocôndrias, como responsáveis pela produção da maioria da adenosina trifosfato (ATP)


através da fosforilação oxidativa, são as “centrais de energia” das células. Outras funções das
mitocôndrias incluem a sinalização intracelular através da geração de espécies reactivas de
oxigénio (ROS), a regulação da homeostasia do cálcio e a regulação da morte celular por via da
apoptose.
O número de mitocôndrias de uma célula varia em função do tipo de células e, para um
mesmo tipo de célula, pode variar em diferentes fases da vida. Nas células gaméticas humanas, o
número de mitocôndrias é muito diferente, sendo de cerca de 100 num espermatozóide e de
cerca de 100.000 no citoplasma de um ovócito.
O DNA mitocondrial (DNAmt) é uma molécula com 16.569 bp, bicatenar e circular, que não
está sujeita a “crossing-over”, não contém intrões e não está complexado com proteínas
histónicas. Tem elevada densidade génica (37 genes), com 93% do seu DNA como codificante. A
maioria das mitocôndrias contém entre 5 e 10 cópias do cromossoma mitocondrial, de modo
diferente da diploidia observada nas células somáticas humanas para os cromossomas nucleares.
O DNAmt humano teve origem, com elevado grau de certeza, nas mitocôndrias de uma
célula procariota que se fundiu com uma célula eucariota anaeróbica. Da simbiose resultante da
incorporação das mitocôndrias numa célula anaeróbica resultaram as células eucariotas aeróbicas.
Quatro codões do DNAmt têm especificações diferentes no DNAmt, em comparação com o
DNA nuclear: AGA e AGG funcionam como codões “stop” no DNAmt e codificam arginina no DNA
nuclear; AUA codifica metionina na mitocôndria e isoleucina no DNA nuclear; UGA codifica
triptofano na mitocôndria e funciona como codão “stop” no DNA nuclear.
O DNAmt é transcrito em RNA por uma polimerase específica codificada por um gene
nuclear, a partir de duas sequências promotoras, que geram transcrições de sentidos opostos, a
partir da respectiva cadeia de DNA. Estes transcritos são moléculas extensas de RNA que
correspondem a vários genes. A sua posterior clivagem origina as moléculas de RNA
correspondentes a cada um dos genes inicialmente transcritos em conjunto.
Treze dos 37 genes presentes no DNAmt codificam enzimas envolvidas na cadeia
respiratória necessária para a fosforilação oxidativa e produção de ATP. Dos restantes 24 genes,
dois codificam subunidades 16S e 12S do RNAr e 22 codificam RNAt. Contudo, a grande maioria
das proteínas que actuam a nível mitocondrial (cerca de 1.500) são codificadas pelo DNA nuclear
(v.g., enzimas de síntese dos nucleótidos (TK2, SUCLA2, SUCLG1, RRM2B, DGUOK e TYMP) e
proteínas envolvidas na replicação do DNAmt (POLG, C10orf2)).
As mutações encontradas no DNAmt podem ser herdadas ou adquiridas ao longo da vida de
um indivíduo. A taxa de mutação do DNAmt é cerca de 10 vezes mais alta do que a observada no
DNA nuclear, tendo como causas o ambiente mitocondrial rico em espécies reactivas de oxigénio,
o facto de o DNA mitocondrial não estar protegido por histonas e de haver um número de ciclos
de replicação do DNAmt muito superior ao do DNA nuclear e se registar uma insuficiência dos
mecanismos de reparação.
Algumas alterações da sequência de DNAmt são mutações patogénicas, outras são
polimorfismos. As mutações patogénicas encontram-se com uma frequência de 1:200 na
população. Já a frequência com que se encontram doenças graves causadas por mutações
mitocondriais numa população é de cerca de 1:10.000 a 1:11.000. Os polimorfismos podem
influenciar a penetrância das doenças mitocondriais e a susceptibilidade para a ocorrência de
condições multifactoriais comuns como sejam as doenças neurodegenerativas, cardiovasculares
ou psiquiátricas.
Os rearranjos do DNAmt associados a doença são cerca de 120. São sobretudo deleções,
embora também se encontrem duplicações. A maioria das deleções é esporádica. Estão também
registadas cerca de 100 mutações pontuais patogénicas.
Nas mulheres com heteroplasmia, a transmissão hereditária de doenças mitocondriais está
associada à transmissão de mutações pontuais e duplicações a toda a descendência de uma
mulher afectada. As delecções não são habitualmente transmitidas à descendência,
provavelmente pelas graves consequências que a sua presença provoca na mulher, a nível
reprodutivo.
As mutações esporádicas do DNAmt estão também associadas a condições somáticas
comuns, como o envelhecimento e alterações degenerativas como a doença de Parkinson.
No DNAmt encontram-se SNPs frequentes e com efeito reduzido individualmente que
podem influenciar a penetrância de doenças mitocondriais (raras) e também aumentar a
susceptibilidade para doenças multifactoriais comuns como sejam as doenças cardiovasculares,
psiquiátricas ou neurodegenerativas.
O estudo do genoma mitocondrial tem-se ainda revelado de particular interesse no
âmbito médico-legal, no esclarecimento de dúvidas de natureza histórica, como a ascendência de
determinadas personalidades, e na caracterização da evolução humana.
A sequenciação do DNAmt foi realizada, em 1981, por uma equipa de investigação da
Universidade de Cambridge, 23 anos antes da sequenciação do genoma nuclear humano, num
tempo de limitados recursos tecnológicos e de conhecimento.

Low frequency
deletion zone

High frequency
deletion zone
Mapa do DNA Mitocondrial humano.
Em: http://www.mitomap.org/MITOMAP

Hereditariedade mitocondrial

As doenças mitocondriais primárias são doenças hereditárias heterogéneas, causadas por


mutações patogénicas do DNAmt que afectam, nomeadamente, a produção de energia no corpo
humano. Contudo, o tipo de hereditariedade das doenças mitocondriais pode variar desde um
padrão hereditário caracteristicamente mitocondrial quando a mutação herdada se localiza no
DNAmt e a que não se aplicam as “leis” da hereditariedade mendeliana, até padrões de
hereditariedade autossómica e ligada ao X quando a alteração genética se encontra nos
cromossomas autossómicos ou no cromossoma X, embora a proteína actue nas mitocôndrias para
que estas funcionem.
O DNAmt de um indivíduo, seja do sexo masculino ou do sexo feminino, tem origem
exclusivamente materna, uma vez que o DNAmt de origem paterna é destruído nas fases muito
precoces do desenvolvimento embrionário após ubiquitinação.
O DNAmt de uma célula pode encontrar-se em homoplasmia ou em heteroplasmia. A
homoplasmia traduz a presença de uma única forma de DNA mitocondrial numa célula, seja
normal ou mutado, enquanto que a heteroplasmia designa a condição em que, numa célula,
coexistem DNAmt normal e DNAmt mutado. Nas condições de heteroplasmia para uma mutação
patogénica, a doença manifesta-se quando a proporção de moléculas de DNAmt mutado excede
um determinado limiar, que é variável de tecido para tecido e que é influenciado por combinações
de formas mutadas e polimorfismos do DNAmt e do DNA nuclear. O limiar para o início de
manifestações clínicas é mais alargado ou mais estreito consoante a necessidade das células em
ATP seja menor ou maior.
Durante a preparação das células para a divisão mitótica, as mitocôndrias aumentam de
tamanho e o DNAmt replica. Contudo, e de modo diferente do que ocorre com o DNA nuclear, a
replicação do DNAmt ocorre ao acaso, pelo que uma molécula de DNAmt pode replicar mais vezes
do que outra molécula presente na mesma mitocôndria. Assim, a replicação assimétrica pode
alterar a proporção de algumas moléculas de DNAmt em relação a outras. Por outro lado, nos
casos de heteroplasmia, podem formar-se, durante as mitoses e num processo aparentemente ao
acaso, diferentes linhas celulares em relação ao conteúdo em DNAmt, ou ainda linhas apenas com
DNA mutado ou com DNA normal. Por isso, quando a quantidade de moléculas de DNAmt mutado
aumenta numa célula-mãe, uma das células-filhas pode ter uma proporção de DNAmt mutado
superior à que se encontrava na célula-mãe, condição que pode ainda ser eventualmente
reforçada por via de distribuição assimétrica de mitocôndrias pelas células-filhas. Estes factos são
responsáveis pela expressividade variável encontrada nos doentes de uma família em que esteja
presente uma doença mitocondrial.
O número total de moléculas de DNAmt é reduzido nas ovogónias, sofrendo ainda divisão
pelas células filhas, durante a primeira divisão da meiose, um fenómeno designado como “gargalo
de garrafa mitocondrial” (“mitochondrial genetic bottleneck”. Posteriormente, o número de
moléculas de DNAmt aumenta bastante nos ovócitos maduros. Assim, se houver heteroplasmia, e
sendo habitual a segregação assimétrica das mitocôndrias, uma ovogónia pode dar origem a uma
célula-filha em que as poucas moléculas de DNAmt sejam maioritariamente mutadas e outra em
que sejam maioritariamente não mutadas. A primeira dará origem a um ovócito maduro com
elevada percentagem de DNAmt mutado e a segunda a um ovócito maduro com baixa
percentagem de DNAmt mutado. A gravidade das manifestações clínicas, em eventual
descendência, será maior no primeiro caso do que no segundo. Naturalmente que uma mulher
com um número reduzido de DNAmt mitocondrial mutado nas ovogónias terá menor
probabilidade de produzir ovócitos com um número elevado de DNAmt mutado, quando
comparada com uma mulher com uma elevada percentagem de moléculas de DNAmt nas
respectivas ovogónias.

70%

60% 75% 65%

70%

80% 70%

60%

Fig. I. Os valores indicam a percentagem de mitocôndrias com DNAmt mutado

Na hereditariedade mitocondrial distinguem-se as seguintes características (Fig I):


- a doença é transmitida sempre por via materna;
- nos descendentes, a expressão da doença é independente do sexo;
- na descendência de uma mulher doente, os homens e as mulheres são doentes;
- um homem afectado tem descendência saudável;
- pode-se observar heterogeneidade nos indivíduos afectados (devido a heteroplasmia);
- os órgãos são afectados de forma diversa em função do tecido preponderante;
- a penetrância e a expressividade são variáveis;
- o risco de transmissão é imprevisível.
A variabilidade da expressividade e da penetrância têm como causas:
1. o facto de a percentagem de mitocôndrias mutadas poder variar significativamente em
diferentes ovócitos de uma mesma mulher;
2. a variação do teor em DNA mutado em cada tecido de mesmo organismo;
3. o facto de o limiar de expressão celular ser específico do tecido;
4. o facto de ocorrer um défice progressivo da oxidação fosforilativa com a idade;
5. a modulação da expressão por genes nucleares;
6. as interferências do meio (v.g., alimentação, fármacos, tabaco).
Assim, nos casos em que há heteroplasmia numa mulher afectada não é possível prever o
que acontece na descendência. Um descendente pode herdar mitocôndrias normais ou
mitocôndrias com a mutação ou ainda uma mistura dos dois tipos em proporções variáveis. A
expressividade pode variar entre irmãos, devido à densidade das mutações (número de cópias de
DNAmt mutado por célula) e à presença de mutações de severidade diversa, em diferentes genes.
Por outro lado, a severidade tem ainda a ver com a percentagem de mitocôndrias com mutações
que ocorre em cada órgão, com a percentagem de células com mitocôndrias mutadas (v.g., uma
elevada percentagem de células nervosas com mitocôndrias mutadas) e com o reflexo das
deficiências provocadas nesses órgãos para o fenótipo doente. As condições de homoplasmia para
as mutações do DNAmt não serão compatíveis com o desenvolvimento embrionário.
As mutações do DNA mitocondrial desempenham um papel significativo no
desenvolvimento de doenças crónicas degenerativas, particularmente em órgãos que requerem
elevados níveis de energia como o cérebro, o músculo estriado esquelético e o músculo estriado
cardíaco. Assim, e face à elevada necessidade em energia, os neurónios e as fibras musculares
cardíacas e musculares esqueléticas são muito sensíveis à redução de ATP associada a mutações
patogénicas do DNAmt, de que decorre a elevada frequência com que se observa a encefalopatia
e a miopatia como manifestações relevantes do espectro fenotípico de múltiplas doenças
mitocondriais. Pela mesma razão, o pleiotropismo (atingimento de diversos órgãos) é também
uma característica comum.
Tomando, como exemplo, as funções mitocondriais no cérebro, verifica-se que fornecem o
ATP para a neurotransmissão, asseguram a sinalização sináptica através de ROS e regulam as
concentrações pré-sinápticas e pós-sinápticas do cálcio.
As doenças mitocondriais são raras e o diagnóstico é complexo. Assenta na identificação das
manifestações clínicas e em estudos de anatomia patológica, imagiologia, estudos funcionais (v.g.,
eletroencefalograma), bioquímicos e genéticos (pesquisa e quantificação da mutação no sangue
periférico, por PCR em tempo real).
São exemplos de doenças provocadas por mutações a nível do DNAmt, a neuropatia óptica
hereditária de Leber, a síndroma de MERRF (epilepsia mioclonal e miopatia com “fibras vermelhas
rasgadas”), a síndroma de MELAS (encefalopatia mitocondrial, acidose láctica e episódios tipo
AVC), a diabetes com surdez, a surdez associada aos aminoglicosídeos, a cardiomiopatia
hipertrófica com miopatia ou a oftalmoplegia externa crónica progressiva.
Observa-se uma assinalável variabilidade clínica associada às mutações do DNAmt, de que é
exemplo o que se passa a nível do gene MT-TL1. As substituições de bases do DNAmt nas posições
3243, 3252, 3271 e 3291 originam a síndroma MELAS. Contudo a mutação na posição 3243 pode
também dar origem a diabetes hereditária e surdez transmitida por via materna.
A neuropatia óptica hereditária de Leber é devida a alterações das proteínas envolvidas na
cadeia de transporte de electrões. O primeiro sintoma a aparecer é a perda da visão central, a que
se segue o aparecimento de escotoma central. Desenvolve-se, habitualmente, entre os 20 e os 30
anos, embora haja casos que ocorrem desde a infância e outros em idades mais avançadas. A
perda da visão observa-se para os dois olhos em simultâneo. A proporção de indivíduos do sexo
masculino afectados em relação aos indivíduos do sexo feminino é de 4:1.

Neuropatia óptica hereditária de Leber. Representação das três mutações mais frequentes,
responsáveis por cerca de 96% dos casos.
Doent Penetrân Penetrân
Mutação N AA ∆ es com Control Heter cia cia Recuperaç
t a os o- em em ão da
∆ mutaç plasm familiares homens visão
ão ia
G
MTND4*LHON117 R340
- 69% 0% +/- 33-60% 82% 4%
78A H
A
G
MTND1*LHON346
- A52T 13% 0% +/- 14-75% 40-80% 22%
0A
A
MTND6*LHON144 T- M64
14% 0% +/- 27-80% 68% 37-65%
84C C V
(+)heteroplasmia detectada; (-)heteroplasmia não detectada
Em: http://www.mitomap.org/bin/view.pl/MITOMAP/MutationsLHON

Não estão descritos tratamentos eficazes para as doenças causadas por mutações do
DNAmt, pelo que a intervenção médica se tem dirigido sobretudo para a prevenção do
nascimento de crianças afectadas, recorrendo à fecundação “in vitro” seguida de diagnóstico pré-
implantatório ou ao diagnóstico pré-natal.
Num diagnóstico pré-implantatório, as mutações do DNAmt podem-se encontrar em
homoplasmia ou em heteroplasmia.
Nos casos de heteroplasmia em que uma mutação é patogénica, a proporção de moléculas
de DNAmt mutadas e de moléculas normais encontrada na célula estudada não garante que a
mesma proporção se encontre em todas as células do embrião, pelo que não é possível tirar
ilações seguras.
Nos casos em que se encontre homoplasmia para uma mutação, todos os descendentes
herdam a mutação patogénica sendo muito elevado o risco de recorrência. A única forma de evitar
o nascimento de um filho doente assentaria no recurso a ovócitos de dadora sem doença
mitocondrial. O núcleo de um ovócito da dadora é removido do citoplasma e, para o seu lugar, é
transferido o núcleo de um ovócito da receptora. O ovócito assim obtido, com citoplasma da
dadora e núcleo da receptora é, seguidamente, fecundado por um espermatozóide do membro
masculino do casal.
Para alguns eticistas, o procedimento anterior é considerado como não ético por
corresponder à transferência génica em células germinais humanas. Contudo, outros defendem
que o processo é eticamente aceitável, dado haver apenas a doação de um citoplasma com as
respectivas mitocondriais e DNAmt, sem qualquer modificação artificial.