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Pedro Henrique Aquino de Freitas – IRI/USP

A atuação do Ministério Público Federal na persecução penal das graves


violações de direitos humanos ocorridas na ditadura militar no Brasil

Resumo expandido

Em 2008, vinte anos após a promulgação da Constituição de 1988, o Ministério


Público Federal apresentou as primeiras representações criminais contra os agentes do
Estado que cometeram graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar
no Brasil. Naquele momento, a tentativa de dois procuradores da área cível de
representar para a área criminal com vistas a iniciar investigações sobre os crimes da
ditadura não obteve respaldo interno na instituição e, em geral, foi barrada por
promoções de arquivamentos de procuradores de atuação criminal.
Pouco depois, em 2010, o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana de
Direitos Humanos no caso Gomes Lund, no qual a corte internacional determinou que
fossem realizadas as investigações e a responsabilização dos perpetradores das graves
violações de direitos humanos. Como esta condenação impactou a atuação do
Ministério Público Federal neste tema? Busco analisar o impacto da sentença da Corte
Interamericana de Direitos Humanos na atuação do Ministério Público Federal sobre a
persecução penal dos agentes da ditadura, entender como ocorre a interação entre os
mecanismos de justiça transicional no Brasil e o papel do Ministério Público Federal,
qual a permeabilidade da instituição ao tema e quais os limites deste encontro.
A condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos
impactou diretamente o trabalho realizado pelo Ministério Público Federal na
persecução penal das graves violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura
militar no Brasil. Abriu-se uma janela de oportunidades, que foi aproveitada por um
grupo de procuradores do MPF para debater o tema e as possibilidades de
responsabilização dos agentes da ditadura, e ocorreu uma gradual institucionalização da
pauta. Se, em 2008 e 2009, apenas dois procuradores tentavam iniciar investigações
criminais, depois da decisão da CorteIDH houve uma tomada de decisão institucional, e
é possível afirmar hoje que o Ministério Público Federal é favorável à persecução penal
dos agentes da ditadura e tem atuação organizada com vistas a isso.
A condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso
Gomes Lund, fruto de um processo de mobilização transnacional do direito por partes
dos familiares de mortos e desaparecidos políticos, gerou o que na literatura se chama
de efeito bumerangue. Os reclamos domésticos por responsabilização foram remetidos à
corte internacional e retornaram para o plano doméstico de modo a destravar a atuação
institucional do Ministério Público Federal, instituição que ganhou autonomia e
independência dos demais poderes com a Constituição de 1988.
O Ministério Público Federal até a Constituição de 1988 era submetido ao
Ministério da Justiça, não havendo assim possibilidade de iniciar ações penais naquele
momento. Mesmo após a Constituição de 1988 não havia condições políticas na
instituição para fazer a pauta avançar, pois os procuradores com mais tempo de carreira
tinham feito parte da instituição durante a ditadura. Somente com a entrada de uma nova
geração de procuradores é que haverá maior permeabilidade ao tema.
Familiares de mortos e desaparecidos políticos procuraram o Ministério Público
Federal no final dos anos 1990, com demandas na esfera cível de localização e
identificação de corpos de desaparecidos políticos, e encontraram dois procuradores que
iniciaram um processo de debate interno favorável à responsabilização dos agentes da
ditadura. A primeira representação para a área criminal do Ministério Público Federal
por parte destes dois procuradores ocorreu em 2008, mas houve em todos os casos,
exceto um, promoções de arquivamento internamente, aceitas pela Justiça Federal.
Naquele momento, a posição era muito minoritária no interior da instituição. Cabe
ressaltar que estes procuradores utilizaram, já nestas representações, uma
fundamentação baseada na noção de direito internacional segundo a qual os crimes da
ditadura se tratam de crimes contra a humanidade e fizeram uso da jurisprudência da
Corte Interamericana de Direitos Humanos, mesmo que o caso brasileiro ainda não
tivesse sido analisado pela CorteIDH. Posteriormente, em abril de 2010, no entanto, o
então Procurador-Geral da República apresentou posição contrária à responsabilização
criminal perante o STF no julgamento da ADPF nº 153.
A condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em
2010 se tratou de um verdadeiro ponto de virada na atuação institucional do Ministério
Público Federal. A procuradora que havia assumido a coordenação da 2ª Câmara de
Coordenação e Revisão era favorável à tese da persecução penal dos crimes da ditadura,
de modo que se formou um grupo de procuradores que aproveitou as oportunidades
abertas com a sentença, conseguiu fazer o debate interno avançar, institucionalizou um
novo posicionamento e criou um grupo de trabalho institucional para coordenar a
atuação na pauta. O Ministério Público Federal tomou para si a responsabilidade de
fazer cumprir a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos no que diz
respeito à responsabilização criminal dos agentes que cometeram graves violações de
direitos humanos durante a ditadura militar e iniciou as estratégias para oferecer
denúncias nestes casos. A posição se institucionaliza ao máximo quando é acolhida pelo
Procurador-Geral da República que tomou posse em 2013.
O Ministério Público Federal ofertou vinte e seis denúncias à Justiça Federal
sobre casos da ditadura militar nos últimos cinco anos. Primeiramente, os Procuradores
optaram por apresentar denúncias sobre os crimes permanentes de sequestro e ocultação
de cadáver, que, por ainda estarem em execução, se afastariam da abrangência da Lei de
Anistia e poderiam ter uma recepção mais favorável do Judiciário. Posteriormente,
passaram a oferecer denúncias nos crimes de homicídio, lesão corporal, falsidade
ideológica, entre outros. A fundamentação geral do Ministério Público Federal nestes
casos é de que estes são crimes contra a humanidade de acordo com o direito
internacional, o que afasta os óbices da anistia e da prescrição à persecução penal, e que
o Brasil deve cumprir a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, por se
tratar de uma obrigação internacional do Estado brasileiro, visto que o Brasil se
submeteu voluntariamente à jurisdição da CorteIDH. Assim, vemos como o Ministério
Público Federal é um ator judicial fundamental para as relações internacionais e que tem
feito uso do direito internacional dos direitos humanos.
Em geral, a recepção do Judiciário foi muito ruim. As poucas denúncias
recebidas em primeira instância foram trancadas ou sobrestadas em segunda instância
ou nos tribunais superiores. Como tanto o Ministério Público Federal quanto a defesa
dos acusados apresentam recursos, inevitavelmente o Judiciário será chamado a se
manifestar mais vezes sobre a responsabilização penal dos agentes da ditadura nos
próximos anos e este tema voltará a ficar em evidência na opinião pública e no debate
acadêmico.