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Aferição de prumo e medidas

17/Setembro/2003

Procedimentos de verificação reduzem custos e ocorrências de problemas estruturais.


Construtora pode optar pelos equipamentos a laser ou simplesmente respeitar os
fundamentos da engenharia

A construção industrializada está colaborando para a execução de obras mais rápidas, de


melhor qualidade e com margens de desperdício menores. Essas melhorias se devem em
parte ao controle dimensional preciso tanto dos elementos estruturais (vigas, lajes e
pilares) como não-estruturais (vedações, revestimentos e acabamentos). Porém, ainda
hoje é possível observar nas obras práticas arcaicas de medição que levam à ocorrência
de erros de prumo e de locação e, em conseqüência, a gastos desnecessários e
retrabalho.

O revestimento da fachada às vezes é considerado uma ferramenta para encobrir as


deficiências ocorridas durante a execução da estrutura e alvenaria. Não é incomum
encontrar obras com revestimento de até 20 cm de argamassa, porque foi necessário
compensar diferenças entre um ponto e outro da estrutura. A NBR 9062/01 determina
que a tolerância máxima na fachada deve ser de 1/300 da altura do edifício ou 2,5 cm de
desaprumo.

Os instrumentos de medição e aferição são uma boa garantia para evitar erros. Na falta
desses, porém, a recomendação é bastante simples: mais atenção aos bons e velhos
princípios de engenharia. "Muitas igrejas românicas e góticas têm até 30 m de altura",
conta Paulo Bina, diretor da Monobeton. "Verificamos que a qualidade de prumo dessas
obras é invejável, e no entanto não havia os instrumentos de que dispomos hoje. É
apenas boa engenharia", conclui Bina. Muitos desses erros, acredita o engenheiro,
devem-se à pratica de aferir o prumo do andar superior pelo inferior, e não pelo
primeiro andar, que deveria servir de referência para se evitar desvios de mais de 5 cm.

Estrutura em linha
Estrutura em linha

Passar uma linha entre taliscas em "V" nos cantos


da fachada é uma das formas de detectar erros de
prumo. Pode ser feita também uma forquilha pelo
lado de fora da estrutura. A mira dos andares
superiores facilita encontrar a referência do
primeiro andar. "É muito comum o engenheiro ou
mestre esquecer de descontar a espessura da
fôrma e puxar o prumo pela sua face externa",
alerta Bina. "Estamos falando de mais de 1 cm de
acabamento desnecessário."

A fôrma pode ser a grande vilã da qualidade e do


orçamento, mas, por não ficar incorporada à obra,
costuma ser negligenciada. Caso as folgas sejam acentuadas demasiadamente para se
acomodar as armaduras, a pressão exercida pelo concreto pode levar ao "descasamento"
com a estrutura. Dessa forma, será necessário mais concreto para preencher o vazio. No
entanto, esse concreto a mais terá de ser apicoado e refeito, com prejuízos enormes. O
cuidado deve ser maior com fôrmas de borda. Estas devem ser mais resistentes e menos
deformáveis.

Onde está o desvio?

O erro de prumo pode surgir principalmente de uma falha de locação das fundações ou
devido à falta de coordenação entre os projetos de fundação, arquitetura e estrutura. Às
vezes os projetos são conflitantes ou mesmo desprezam detalhes que podem
comprometer o controle dimensional.

A construtora deve atribuir a responsabilidade das medições a um profissional treinado


e pode, também, recorrer a um topógrafo para conferir o trabalho. Dessa forma, diminui
a possibilidade de alguém da cadeia produtiva - do auxiliar ao engenheiro - encobrir o
problema. "A empresa deve cercar-se de mecanismos para que o serviço seja bem
executado. Se for preciso, deve atrelar o pagamento à qualidade", recomenda Bina.

Problemas materiais

Uma pesquisa feita pelo Ceped, Universidade Federal da Bahia e SindusCon-BA há


quase dez anos verificou a qualidade dos blocos cerâmicos produzidos naquele Estado.
Foram aferidos o esquadro, a planeza, dimensões e o controle da qualidade no processo
de fabricação. Em 50% das amostras, o fck era inferior a 1 MPa, o mínimo aceitável
pela NBR 7171/92. A conclusão da pesquisa foi de que o uso de blocos fora de padrão
pode acarretar até 25% de desperdício de área. Ou seja, é necessário 1,25 m2 de bloco
para se erguer 1 m2 de parede. São necessários também 12% a mais de argamassa de
assentamento e 33% de argamassa de revestimento caso se utilizem esses blocos.
A ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) pretende fazer o mesmo
levantamento e deseja realizar testes para qualificar os blocos de concreto em todo
Brasil. A falta de laboratórios especializados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-
Oeste é o principal entrave apontado pela entidade.

"O uso do bloco é viável quando a distância máxima entre fábrica e obra não ultrapassa
400 km", observa o engenheiro do CTE Alberto Casado Lordsleem Júnior. Segundo o
consultor, embora se observem esforços para melhoria da qualidade dos blocos
produzidos nessas regiões, o controle de qualidade das fábricas ainda é muito precário.
Lordsleem sugere às construtoras locais se juntarem para formar um grupo que possa
gerar uma demanda garantida para instalação de uma fábrica bem equipada.

"Em algumas cidades da região Norte


onde não há boa matéria-prima para produção de blocos cerâmicos, o bloco de concreto
poderia ser mais competitivo", diz Lordsleem. "Mas o volume de vendas e a falta de
capital impedem a instalação de fábricas na região."

Prumo certo = viabilidade econômica

A industrialização é preponderante para a viabilidade de obras de edifícios residenciais,


principalmente se há muitas repetições. Por isso, a Construtécnica, empresa do grupo
Spenco, utiliza contramarcos pré-moldados para facilitar a montagem da caixilharia.
São feitos em fôrma metálica e colocados no requadro deixado pela alvenaria modulada,
o que impede que se ultrapassem as tolerâncias.

Para evitar desperdício de argamassa ou correção de requadros, outra construtora, a


Gafisa, conta com um programa da qualidade ISO. São preenchidas fichas de
verificação do serviço (FVS) e o pagamento só é liberado com a aprovação dessa ficha.
Todas as trenas são aferidas pelo controle da qualidade. Os caixilhos são colocados
diretamente na espuma e nos blocos de concreto, sem contramarco, graças a um
rigoroso controle e paginação da alvenaria. Antes da concretagem são conferidos os
espaçamentos das armaduras, além dos eletrodutos e tubulações de hidráulica.
Trabalhos iniciais

O topógrafo loca os pontos nas direções x e y da


edificação com o teodolito e monta o gabarito. O
engenheiro confere e aceita um erro de marcação
de até 3 mm de uma casa para outra. Após soltar
a marcação, a alvenaria já pode subir. Outra
forma de medição é estabelecer três pontos e, na
quina oposta, fechar o paralelogramo. Apesar de
ser um método simples, a margem de erro é grande. Uma construtora precisou demolir
uma caixa d'água que executava a 40 cm do muro do vizinho para refazê-la respeitando
os recuos depois de não conseguir acordos de indenização ou compra do terreno
adjacente

Fachada fina

No Jaraguá Village Park, obra da construtora Gafisa em São


Paulo, de 182 casas de dois e três dormitórios (60 m2 e 72
m2), há até 17 casas geminadas sem juntas de dilatação
formando uma grande reta e acompanhando o desnível do
terreno. O revestimento da fachada tem apenas 6 mm. Além
da argamassa texturizada aplicada diretamente sobre o bloco,
há apenas um selante. Uma camada de argamassa dessa
espessura não seria possível se a alvenaria não obedecesse a
um rigor dimensional. Se há alguma regularização a ser feita, a Gafisa utiliza massa de
cimento e areia

Laje e tijolos

Apesar de a laje sofrer deformações diferentes da


alvenaria, ambas serão revestidas com a mesma
massa de regularização de acabamento da fachada.
Para não haver problemas de tensão, uma tela
colocada na face aparente da laje escondida na
massa ajuda a fachada a trabalhar com diferentes
materiais sem fissuração ou destacamento
Alvenaria estrutural

Caso não sejam observados desvios em relação à


alvenaria de vedação, a alvenaria estrutural pode
sofrer cargas excêntricas por mudança do seu centro
de gravidade, que distribui as solicitações de
maneira desigual, vindo a ocorrerem fissuras e até o
colapso da parede

Normas tortuosas das alvenarias

NBR 8545/84 - Execução de alvenaria sem função estrutural de tijolos e blocos


cerâmicos - Procedimentos: não cita tolerâncias, não especifica alturas, pontos de
aferição, nem erros de rotação em torno do eixo horizontal, que compreendem pontos
corretos nas laterais, mas com desvios em toda a extensão.

NBR 8798/85 - Execução e controle de obras em alvenaria estrutural de blocos vazados


de concreto

Quando o elevador não passa

Fabricantes de elevadores alegam que a maioria dos problemas ocorre porque o


concreto armado é moldado ainda em fôrmas de madeira in loco, de maneira artesanal.
Além disso, as tolerâncias admitidas na construção civil (em cm) são incompatíveis com
as tolerâncias da indústria (em mm).

A NM 207 (Norma Mercosul) estabelece os princípios fundamentais de segurança e


obrigações do fabricante e dos construtores dos elementos de transporte vertical. Já a
NBR 5665/83 - Cálculo do Tráfego nos Elevadores é usada para o arquiteto definir a
capacidade do elevador dependendo do uso da edificação. No projeto, considera-se uma
tolerância do tamanho da cabine com a caixa de elevador além dos 3 cm pedidos na
norma. Essa tolerância é importante porque há casos em que a fôrma se abre,
aumentando a largura da viga. Se os 3 cm de tolerância forem ultrapassados, pode ser
necessário o aval do calculista para que se descasque a viga.

Outra solução nada agradável, quando não se observa essa tolerância ou o desvio da
estrutura é muito grande, é o construtor diminuir a capacidade da cabine e arcar com
esse prejuízo na edificação. Se o arquiteto faz uma concepção errada e subestima o
espaço do elevador, cabe ao construtor fazer uma análise crítica do seu projeto e pedir
as devidas alterações antes de iniciar a estrutura.

Para reduzir os problemas, os fornecedores elaboram manuais de montagem para


orientar o construtor. Um técnico visita periodicamente a obra para tirar a primeira
prumada e conferir os desvios junto com a subida da estrutura. "Mas infelizmente os
construtores só estão fechando os contratos de aquisição do elevador com seis a oito
meses do término da obra e não mais com prazo de um ano como era feito", diz José
Mundim, superintendente de marketing de uma grande empresa fabricante de
elevadores. "Dessa forma, o desvio pode ser detectado tarde demais."

Sistemas a laser

A verificação a laser do prumo de fachadas começa com o alinhamento do equipamento


emissor de raios paralelo à fachada do prédio. A partir do plano gerado, são verificadas
as distâncias nos andares à medida que a estrutura sobe. As medições para verificar a
correção do prumo são geradas instantaneamente. As tolerâncias máximas de
desaprumo são sensivelmente reduzidas com este método de aferição, bem como o
consumo de argamassa.

O custo desses equipamentos varia de R$ 1.950,00 a R$ 6.980,00, segundo Andrés


Natenzon, diretor da Anvi Laser Center do Brasil. Os equipamentos podem ser locados
também ao custo de R$ 400,00 mensais. O uso requer treinamento, segundo Natenzon,
mas não exaustivo, pois quase todos os equipamentos são automáticos. O equipamento
mais completo afere prumo, nível, alinhamento e esquadro. Outros equipamentos são
utilizados para nivelamento de terrenos ou lajes.

O emissor de raios é posicionado em um plano vertical. O feixe luminoso é captado


pelo receptor, que gera um plano perfeitamente horizontal.

Equipamentos de medição

Os níveis a laser, inicialmente usados na agricultura, chegaram à construção há 30 anos


e há dez ganharam força no Brasil. Adaptados às necessidades construtivas, substituem
a mangueira e o fio de prumo, recursos esses imprecisos e que demandam mais tempo
da mão-de-obra.

O laser faz marcação de esquadro com linhas de náilon, é autonivelante, não é


vulnerável ao vento e seu preço é acessível - aparelhos mais simples são encontrados a
partir de U$ 500. "A agilidade que se obtém nas marcações e a economia com os erros
não cometidos compensam o investimento", argumenta Andrés Natenzon, fornecedor de
níveis a laser.
A régua digital verifica a porcentagem de inclinação, não se deforma nem quebra. A
trena a laser dá a marcação com um erro de até 3 mm a cada 100 m. "O servente leva
algum tempo até aprender a fazer as medições, mas depois não quer voltar ao fio de
prumo", completa Natenzon.

Por Cláudia Bocchile