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O Golpe na per spec tiv a de

Gênero

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cu lt ­— cen t ro de es t u dos
u ni v er sida de f eder a l da ba hi a mu lt idiscipl i na r es em cu lt u r a
r ei tor  coor denaç ão 
João Carlos Salles Pires da Silva Leonardo Costa
v ice-r ei tor  v ice-coor denaç ão 
Paulo Cesar Miguez de Oliveira Renata Rocha
a ssessor do r ei tor 
comissão edi tor i a l
Paulo Costa Lima
da col eç ão cu lt
Alexandre Barbalho (Universidade
Estadual do Ceará)
Antonio Albino Canelas Rubim (UFBA)
Gisele Nussbaumer (UFBA)
José Roberto Severino (UFBA)
edi tor a da u ni v er sida de
Laura Bezerra (UFRB)
f eder a l da ba hi a
Lia Calabre (Fundação Casa de Rui
dir etor a 
Barbosa – RJ)
Flávia Goulart Mota Garcia Rosa
Linda Rubim (UFBA)
consel ho edi tor i a l Liv Sovik (Universidade Federal do Rio
Alberto Brum Novaes de Janeiro)
Angelo Szaniecki Perret Serpa Mariella Pitombo Vieira (UFRB)
Caiuby Alves da Costa Marta Elena Bravo (Universidade
Charbel Ninõ El-Hani Nacional da Colômbia – Medellín)
Cleise Furtado Mendes Paulo Miguez (UFBA)
Evelina de Carvalho Sá Hoisel Renata Rocha (UFBA)
José Teixeira Cavalcante Filho Renato Ortiz (UNICAMP)
Maria do Carmo Soares de Freitas Rubens Bayardo (Universidade de
Maria Vidal de Negreiros Camargo Buenos Aires – Universidade San Martin)

coor dena dor da


comissão edi tor i a l
Antonio Albino Canelas Rubim

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col eção cult

O Golpe na per spec tiv a de


Gênero

Linda Rubim,
Fernanda Argolo
(O rga ni z adora s)

edufba
s a lva d o r , 2 0 1 8

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2018, autores.
Direitos para esta edição cedidos à EDUFBA.
Feito o depósito legal.

Grafia atualizada conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em


vigor no Brasil desde 2009.

diagramação e arte final  Marcella Felgueiras de Freitas Napoli / Maria Tarrafa


revisão  Hilário Mariano dos Santos Zeferino
normalização  Daiane Cruz de Azevedo

Sistema de Biblioteca – SIBI /UFBA

O Golpe na perspectiva de Gênero / Linda Rubim, Fernanda Argolo (Organizadoras). –


Salvador: Eduf ba, 2018.
186 p. (Coleção Cult)

ISBN: 978-85-232-1684-9

1. Mulheres na Política - Brasil. 2. Igualdade de Gênero. 3. Direitos das Mulheres -


Brasil. I. Título. II. Rubim, Linda. III. Argolo, Fernanda.

CDD– 305. 420981

editora filiada à:

edufba  Rua Barão de Jeremoabo, s/n – Campus de Ondina,


Salvador – Bahia  cep 40170 115   tel/fax (71) 3283-6164
www.eduf ba.uf ba.br   eduf ba@uf ba.br

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sumár io

7
“ Precisamos f alar de Gênero”
Linda Rubim e Fernanda Argolo

23
D ilm a – um a mulh e r p o lít i c a
Céli Regina Jardim Pinto

33
I n c o n g r u ê n c i a s e dub i e d a d e s , d e s l e g it im a ç ã o e l e g it im a ç ã o : o g o lp e
c o nt r a D ilm a R o u s s e f f
Clara Araújo

51
I m a g in á r i o , mulh e r e p o d e r n o B r a s il : r e f l e x õ e s a c e r c a d o
imp e a c hm e nt d e D ilm a R o u s s e f f
Cláudia Leitão

65
O g o lp e e a s p e r d a s d e dir e it o s p a r a a s mulh e r e s
Eleonora Menicucci

75
U m a mulh e r f o i d e p o s t a : s e x i s m o , mi s o g ini a e v i o l ê n c i a p o lít i c a
Flávia Biroli

85
D ir e it o s r e p r o du t i vo s , um d o s c a mp o s d e b at a lh a d o g o lp e
Maíra Kubík Mano, Márcia Santos Macêdo

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105
A m á quin a mi s ó g in a e o f at o r D ilm a R o u s s e f f n a p o lít i c a b r a s il e ir a
Marcia Tiburi

117
M ulh e r, n e g r a , f ave l a d a e p a r l a m e nt a r : r e s i s t ir é p l e o n a s m o
Marielle Franco

12 7
O g o lp e d e 2 016 e a d e m o niz a ç ã o d e g ê n e r o
Mar y Garcia Cast ro

147
G o lp e di s f a r ç a d o d e imp e a c hm e nt : um a a r t i c ul a ç ã o e s c u s a c o nt r a a s
mulh e r e s
Nilma Lino Gomes

161
S o b r e o g o lp e e a s mulh e r e s n o p o d e r
Olívia Santana

177
D ilm a : s ím b o l o p a r a a p a r t i c ip a ç ã o p o lít i c a f e minin a
Vanessa Gra zziot in

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“ Pr ecis amos f alar de Gênero” 1

Linda R ubim*
Fe r nanda Argolo**

* Doutora em Comunicação e
Int rodução Cultura (UFRJ). Professora dos
Programas de Pós-Graduação
“Venho para abrir portas para que muitas outras Pós-Cultura e PPGNEIM/UFBA.
Membro fundador do CULT/
mulheres, também possam, no futuro, ser presi-
UFBA, onde coordena o grupo
denta; e para que – no dia de hoje – todas as brasilei- de pesquisa Miradas.
ras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher”.
O texto acima é parte do discurso de posse da ** Jornalista, Mestre em Cultura
presidenta Dilma Rousseff, em 1º de janeiro de 2011, e Sociedade. Pesquisadora do
Centro de Estudos
durante a celebração da chegada de uma mulher à Multidisciplinares em Cultura
presidência da República do Brasil, inaugurando o (CULT-UFBA), vinculada ao
grupo de pesquisa Miradas.
que se pensava que seria uma nova página da histó-
ria cultural e política de um país, que, pela primeira
vez, havia escolhido ser liderado por uma mulher.

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É inevitável que tal fato nos leve à revisitar diversos momentos da
história das mulheres, nos quais o investimento desse gênero na con-
quista de sua cidadania tem como uma das suas mais importantes con-
quistas públicas, o direito político de votar e ser votada, ainda em um
tempo em que as mulheres estavam cerceadas por inimagináveis obs-
táculos. A conquista e consciência desse direito, também no Brasil, foi
alvo de um processo longo e intenso, através de manifestações diver-
sas, incluso campanhas em periódicos, que já eram produzidos por este
gênero à época, como o jornal feminista “Voz Feminina”, fundado em
Diamantina, Minas Gerais, por três jovens mulheres em 1900 com o
explícito objetivo da defesa dos direitos das mulheres. (RUBIM, 1984)
Um exemplo que pode ilustrar o envolvimento desse periódico na cam-
panha pelo voto feminino é o artigo de Clélia Nícia Corrêa Rabello pu-
blicado no número 18 do “Voz Feminina” em 16 de abril de 1901.

E por que não havia de ter este direito? Não somos também, como é o homem,
parte componente da sociedade? Não estamos sob o jugo da lei e não temos inteli-
gência, lucidez, vontade livre? Para que o governo seja democrático, é necessário
que todos que estejam sob seu domínio possam também agir sobre ele. Ou então
tudo é absolutismo. Para haver liberdade de um povo é evidentemente necessário
que seja o seu governo criado pelo sufrágio de todo ele. Mas se apenas uma metade
pode agir livremente, a outra agirá automaticamente: só a primeira é livre, a segun-
da escrava. São dois povos em um mesmo país, um livre e independente que confor-
me sua vontade reina sobre o segundo: os homens são os soberanos: a mulher con-
tinua a ser a súdita. (RABELLO, 1901 apud ALVES, 1980, p. 94)

Esta, e diversas outras vozes de mulheres, de variados lugares de fala


foram bastante atuantes na luta pelo voto feminino, até que finalmente
em 1932, este direito foi garantido. Se por um lado tal conhecimento
traduz o amadurecimento das lutas feministas e consequentemente
o empoderamento das mulheres, com as conquistas dos seus pleitos,
por outro é estigmatizado, e não raramente, apresentado através de

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narrativas pouco expressivas que escondem a força cultural e a impor-
tância desse momento. A respeito disso, já nos anos de 1980, Branca
Moreira Alves, na sua tese de doutorado sobre o assunto observa que,

a historiografia brasileira, se e quando se refere ao decreto de 1932 ou a constitui-


ção de 1934, concedendo o sufrágio feminino, geralmente silencia sobre o movi-
mento, deixando crer que as mulheres se tornaram eleitoras por uma dádiva gene-
rosa e espontânea, sem que tivessem lutado ou demonstrado qualquer interesse
por esse direito. (ALVES, 1980, p. 13)

A conquista do direito ao voto pelas mulheres brasileiras, no sentido


de acontecimento, dado de realidade, é um fato irrefutável. No entanto,
o olhar atento da pesquisadora sinaliza que os registros desse fato são
narrativas dispersas e excludentes que invisibilizam o processo das lu-
tas sufragistas e, de certo modo, os sujeitos que protagonizaram aquelas
lutas. Essa atitude, entretanto, não é mero silêncio, em verdade é um
“silenciamento”. Atitude política, que determinadamente produz o
apagamento a quem não se reconhece e legitima sujeito, com autono-
mia para constituir a sua história.
É uma percepção que nos parece corroborar com a da professora Céli
Regina Pinto (2007, p. 16) quando problematiza a exclusão da mulher no
texto da constituição brasileira de 1891. Também para a referida profes-
sora não acontece “como mero esquecimento”. A mulher não foi citada,
é uma ausência na carta magna do país, porque ela simplesmente não
existia, para os constituintes, como indivíduo dotado de direitos. Uma
falta que rebate diretamente nas narrativas sobre as lutas das mulheres.
Em consequência, a história desse gênero torna-se uma fragmentada e
dolorosa saga, tecida por avanços e recuos.
Assim sendo, retornamos a Branca Moreira Alves (1980, p. 14) quan-
do diz:

tratando-se da história da mulher, esse é um tema que não se esgota, num momen-
to histórico definido, já que a condição de opressão contém um elemento de conti-

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nuidade que permite criar uma ligação entre as gerações que se sucedem no inte-
rior de um mesmo sistema de poder.

Uma citação que nos ajuda a perceber o quão frágeis são os tecidos de
uma cultura, no que diz respeito ao direito à cidadania das mulheres.
Uma cultura que não tem pudor de cultivar quaisquer atos arbitrários e
conservadores em favor da dominação masculina.

Questões de gênero no impeachment de 2016


Oitenta e quatro anos se passaram desde a conquista do direi-
to ao voto pela mulher no Brasil até a deposição da presidenta Dilma
Rousseff. Optamos por fazer essa evocação de tempo, quase um século,
para enfatizar o quão conturbada é a construção da história deste gê-
nero, representada por avanços e retrocessos, solapada particularmente
no que se refere às lutas pela constituição da cidadania.
Consonante com tal realidade, somos de opinião que a eleição da
mulher Dilma Rousseff, com 55.752.483 votos dos brasileiros em 2010,
representou uma mudança significativa para a história das mulheres e,
particularmente para o perfil presidencial do país, até então, exclusiva-
mente, dominado por homens. Tal novidade acabou mobilizando redes
de tensões e expectativas, especialmente porque as instituições pre-
tensamente democráticas são majoritariamente masculinas, pensadas
e vividas numa cultura de e para homens. Basta observar que na cons-
trução do prédio do Congresso Nacional por ocasião da construção de
Brasília, não foi planejado um local para banheiro feminino. Até 2015,
portanto não havia banheiro feminino no plenário do Senado Federal
brasileiro. Como na Constituição de 1891, a mulher ainda é marcada pela
falta. Leve-se em conta que era o tempo histórico dos revolucionários e
conturbados anos 1960, na capital, ícone da modernidade, fundada por
um presidente “Bossa Nova”. Mas, nem assim, entrou no repertório

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cultural do país que o Parlamento também era lugar de mulher. O que
dizer sobre o fato de uma mulher presidente!
Deste modo, no primeiro mandato, os choques ocorreram e foi di-
fícil suportar uma mulher no comando. “Uma mulher dura”, mas com
dias contados, e que em breve iria embora. Não foi. Dilma Rousseff ou-
sou o segundo mandato.
Um pouco mais protagonista do que na sua campanha em 2010,
quando o presidente Lula lhe fazia sombra. E assim, o voto de 54.501.118
brasileiros lhe deu legitimidade para ocupar por mais quatro anos o
Palácio do Planalto. A reincidência da ousadia daquela mulher con-
quistando, mais uma vez, o direito de governar o Brasil, foi duramente
contestada. Vitória que além de provocar ressentimentos com níveis
de alta perversidade, em termos de preconceitos, como será discutido
por alguns textos desse livro, também desvelou a imaturidade do nosso
projeto democrático e, por óbvio, esgarçou duramente a famosa ban-
deira de esperança, “por um mundo menos desigual e mais humano”.
Palavras de ordem, que se, em algum momento, ativou a esperança de
construção de um Estado menos conservador e mais igual, tornaram-
se mero clichê, reminiscência nostálgica do que poderia se tornar uma
visão ampliada de uma sociedade progressista.
Enfim, o respeito às eleições como expressão de democracia foi so-
terrado. A vitória da presidenta Dilma foi duramente contestada, não
apenas pela oposição formal, que iniciou seu projeto de destituição
concomitante com o resultado das eleições de 2014.
Sob o clima desse contexto, foi urdida a ofensiva, “fora Dilma”, ten-
do como pretensa acusação “as pedaladas fiscais”, já utilizadas como
procedimento de gestão pelos presidentes anteriores. Em verdade, tais
palavras de ordem eram de fato a tradução do ressentimento dos polí-
ticos representantes das tradicionais classes dominantes do Brasil, que
tinham perdido o poder e de classes médias cada vez mais reativas a pos-
sibilidade de um país menos desigual. Inflamados por uma mídia, ab-
solutamente descompromissada com a imparcialidade da informação. 2

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Ao som das panelas, um artefato simbólico, enquanto estigma, na
vida das mulheres, o impeachment em 2016, durante o segundo man-
dato de Rousseff, deu um fim melancólico à passagem da primeira mu-
lher pela presidência da República brasileira. E mais uma vez, ao modo
de 1932, o silêncio pairou sobre as questões de gênero e sobre as con-
sequências do afastamento da presidenta à participação política das
mulheres. Muito foi dito e escrito sobre os vieses político, econômico e
jurídico do impeachment. Mas apesar do seu grande impacto simbóli-
co para as mulheres, contingente significativo da população no país, as
questões de gênero, que fizeram parte de modo contundente da campa-
nha do impeachment foram minimizadas, relegadas ao status de pro-
blema menor. O que sem dúvida denota mais uma tentativa de silencia-
mento da história das mulheres no Brasil.
Com base nesta percepção este livro tem como objetivo resgatar os
enfrentamentos de gênero que acompanharam a gestão e a crise da pre-
sidenta Dilma Rousseff, as reações das mulheres à destituição da presi-
denta, e problematiza os impactos do impeachment para a participação
política das mulheres no Brasil.
Proposta que sofreu inicialmente certa contestação, porque havia ne-
gativas de evidências do impeachment relacionadas à questão de gênero.
A compreensão majoritária era de que a deposição da presidenta esta-
ria fundamentalmente vinculada à crise econômica e ao desempenho
político de Rousseff. Sem desprezar tais perspectivas, pois reconhe-
cemos que a crise econômica foi utilizada para inflar o descontenta-
mento popular cenário ideal para que a oposição atuasse politicamente
pelo impeachment. Entretanto, a nosso ver, isso não anula a presença
da questão de gênero como elemento de disputa durante toda a gestão
da presidenta, inclusive fortemente acionada, durante a campanha po-
lítico-midiática em favor do impeachment, ora de forma mais sutil, ora
com gravíssima veemência.
Ao percorremos a trajetória de Rousseff na presidência da República
do Brasil, evidencia-se desde o primeiro momento como a catego-
ria gênero permeou a disputa pela permanência do establishment.

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A campanha eleitoral de 2010, a primeira de Dilma Rousseff como
candidata, foi marcada por estratégias vulgares e desrespeitosas, que
incluíam questionamentos à sexualidade dela, e representações este-
reotipadas da mídia, em que Rousseff figurava como o poste de Lula.
(ARGOLO, 2014)
Já eleita na cerimônia de sua posse, em 1º de janeiro de 2011, foi de-
flagrada a primeira inflexão sobre questões de gênero. Diferentemente
da posse dos presidentes anteriores, a presidenta Dilma Rousseff subiu a
rampa do Palácio do Planalto acompanhada de sua filha, Paula Rousseff
– configurando um fato novo, inaugurador na história dessa cerimônia
no Brasil. A magnitude simbólica daquele double de mulheres à fren-
te do desfile presidencial, sem dúvida estabelecia um fato jornalístico
de primeira ordem. No entanto, isso não foi considerado. Como bem o
demonstra a manchete do jornal O Globo: “A beleza da vice-primeira-
dama rouba a cena na posse da Dilma” (SETTI, 2011). O fato jornalístico
é suprimido e a atenção se desloca para a enigmática esposa do então vi-
ce-presidente Michel Temer. O texto do jornal enfatiza essa opção com a
morna e burlesca observação que a presidenta Dilma Rousseff “até se es-
forçou”, mas que foi Marcela Temer quem capturou o olhar dos homens.
A partir da objetificação do corpo feminino, traço característico da
cultura machista, o jornal banaliza o ato de transmissão de posse da
presidência da República de 2011, despreza o dado jornalístico mais im-
portante: a primeira vez que uma mulher assume aquele poder. Por fim,
a mídia cria um cenário informativo que desconsidera um momento
histórico singular para as mulheres e a nação brasileiras. Em vista de
tais faltas, não tem como não pontificar esta “derrapagem” como o pri-
meiro ato que desqualifica a presidenta Dilma como símbolo de poder.
Outra questão que merece atenção é o embate criado pelo uso do ter-
mo presidenta, adotado por Rousseff após a sua posse. Tal fato mobi-
lizou a imprensa brasileira que engendrou uma série de “seminários”
com especialistas em gramática para opinar sobre a correção da palavra,

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e se opôs a adotar a nomenclatura em seus conteúdos, como mais um
exemplo da sua parcialidade.
A propósito, o texto da filósofa Marcia Tiburi neste livro, “A máqui-
na misógina e o fator Dilma Rousseff na política brasileira”, observa,
que o poder é também um jogo de linguagem. Ao inaugurar o termo, a
presidenta Rousseff rompe com 121 anos de uma tradição de homens a
comandar a república. E não é sem sentido que, ao ser afastada do cargo
pelo impeachment, quem a substitui busca apagar, desde a linguagem
até as marcas que podem condensar a memória da sua presença. Uma
das primeiras ações de Michel Temer ao assumir interinamente o go-
verno foi “orientar” a Empresa Brasileira de Comunicações (EBC) a não
utilizar em seus conteúdos o termo “presidenta”.
Desde a primeira campanha da presidenta Dilma Roussef em 2010,
o argumento de que ela não seria uma pessoa política sustenta a crítica e
a narrativa da sua orquestrada desqualificação. Rotulada grosseiramen-
te como “gerentona”, a presidenta foi desacreditada como liderança po-
lítica. Repetia-se, recorrentemente, durante seu governo a sua falta de
habilidade para lidar com o Congresso, e, mais especificamente, para
“barganhar” com os congressistas. A inexperiência da mulher naquele
cargo embora seja um mote não explicitamente expresso, permeia as
narrativas. A professora Clara Araújo, em “Incongruências e dubieda-
des, desligitimação e legitimação: o golpe contra Dilma Rousseff ”, rati-
fica de forma muito interessante neste livro, como esse jogo de retórica
sustentou o processo de deslegitimação da presidenta caracterizada, re-
correntemente como alguém “fora de lugar”.
São narrativas que elaboram um jogo de parcialidades e estabelecem
situações confusas no intuito de provar a falta de eficiência da presiden-
ta no jogo político. Se uma parte delas reivindica enfaticamente a neces-
sidade de reforma do sistema político do Brasil, como possibilidade de
correção do alto nível de corrupção no país, em outras, a grande crítica
está centrada na inépcia e falta de capacidade da presidenta para lidar
com a barganha política. São discursos que se contraditam e deixam

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transparecer uma factível incoerência: se um deles parece legitimar a
corrupção, como um traço determinante da cultura e do povo brasilei-
ros, o outro expressa terminantemente a recusa desse modelo. Afinal
qual seria o modelo de gestor que o país precisa/deseja? Alguém que
tenha uma participação eficiente no jogo da corrupção, ou alguém que
se recuse a seguir esse modelo?
A representação da presidenta como “aventureira” no campo políti-
co serviu para manter o varejo da política brasileira em operação, como
bem observa Céli Regina Pinto, em “Dilma - uma mulher política”. No
texto escrito para esse livro, a autora desconstrói o falacioso argumento
da presidenta “não-política” e procura demonstrar como essa narrativa
operou em favor da manutenção do status quo, ou seja, pela permanência
de políticos comprometidos com a barganha e o favorecimento pessoal.
Políticos que têm apoiado projetos de lei que suprimem direitos das
mulheres e que tentam instituir políticas agressivas de controle sobre
o corpo feminino, como destaca o texto de Maíra Kubik Mano e Márcia
Santos Macêdo, “Direitos reprodutivos, um dos campos de batalha do
golpe”, sobre a polêmica em torno do Projeto de Lei 60/99.
A esse respeito, a professora Mary Castro, em “O golpe de 2016 e a
demonização de gênero”, pontua que, nos governos Dilma Rousseff, o
Congresso Nacional organizou uma ofensiva contra as políticas de gê-
nero, em especial com a criação do conceito de ideologia de gênero. Os
discursos de orientação machista e homofóbicos se multiplicaram nas
casas parlamentares. A partir do apelo à religiosidade do povo, ressalta
a autora, estimulou-se o medo e o ódio ao diferente.
Em outro patamar, a imprensa brasileira, como já dissemos antes,
esquecida dos seus critérios de noticiabilidade, em parceria com o
Congresso Nacional, atuou como o maior partido de oposição à presi-
denta. De forma contumaz, empregou marcas de gênero em sua campa-
nha de deslegitimação. Diversos estereótipos foram recuperados nesse
processo simbólico de destituição: da histérica à mal-amada, para citar
alguns. Flávia Biroli, em “Uma mulher foi deposta: sexismo, misoginia
e violência política”, demonstra que a categoria gênero foi tão incisiva

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na representação simbólica da presidenta que é marca presente tanto
das peças de oposição quanto das de defesa.
Deste modo, o sexismo, o machismo e a misoginia compuseram os
lances mais lamentáveis e perversos da campanha do impeachment. A
mídia seja abertamente, ou em articulados jogos de linguagem, utilizou
os estereótipos de gênero e double binds3 para empreender sua elabora-
da oposição a Rousseff. Mas o fato é que a presidenta rompeu estereóti-
pos de gênero e apresentou-se como uma mulher que não cabe no script
das instituições mais tradicionais da sociedade brasileira, incluindo a
imprensa. Tanto no comportamento, quanto em aparência, a presiden-
ta Dilma Rousseff – nos diz Claudia Leitão, no capítulo “Imaginário,
mulher e poder no Brasil: reflexões acerca do impeachment de Dilma
Rousseff ” – esteve no sentido oposto ao que se cristalizou no imaginá-
rio social como representação da mulher. A ofensiva de desconstrução e
deslegitimação operou então para que ela fosse identificada como “um
erro, uma disfunção”.
A rejeição ao modelo de mulher representada pela presidenta torna-
se clara quando, logo após a primeira votação pela abertura do processo,
de impeachment na Câmara dos Deputados, a revista Veja ofertou ao
leitor a antítese de Rousseff. O que poderia ser considerado um exem-
plo de mulher, devidamente enquadrada em seu devido lugar de femi-
nilidade, representada pela figura de Marcela Temer, no amplamente
criticado artigo “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar’”. (LINHARES,
2016) A edição da referida revista não poupa seus adjetivos ao perfil do
que considera ser uma “mulher perfeita”: silenciosa, bonita, vaidosa e
dona de casa.
Em contraposição, em edição posterior a revista descreve a presiden-
ta Dilma Rousseff como uma mulher solitária, de personalidade irascí-
vel, politicamente inábil, abandonada pelos aliados e temida pelos fun-
cionários. Uma mulher que não desperta sentimentos afetivos, e que,
na leitura induzida pela revista, pagou caro pela ambição e teimosia de
fugir do lugar social que lhe era devido. (OYAMA, 2016)

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É importante salientar que a ofensiva conservadora não se reduzia às
produções da imprensa brasileira, que atingia apenas Dilma Rousseff
ou o Partido dos Trabalhadores (PT). A composição do gabinete minis-
terial anunciado pelo governo interino acusava a ausência de mulheres
e negros ocupando o primeiro escalão da República. Dando a perceber
que o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, portanto, foi mais do
que uma marca simbólica para as mulheres brasileiras. Para além disso,
significou também a redução da representação descritiva feminina e o
fim de um ciclo de empoderamento de mulheres no Executivo Federal.
Assim, consolidava-se o golpe no gênero feminino.

A s mulheres no cent ro do golpe: ret rocesso e


resistência
O governo de Dilma Rousseff ficou caracterizado pela maior pre-
sença de mulheres nos ministérios. Durante as duas gestões foram em-
possadas 18 ministras e uma presidenta de empresa pública. Houve o
fortalecimento da Secretaria de Políticas para Mulheres com a indica-
ção de uma ministra ligada ao movimento feminista e o aumento do
orçamento da pasta em aproximadamente 18%. Em 2015, após reforma
ministerial, a secretaria passaria a ter status de ministério com a criação
do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos
Direitos Humanos.
No dia seguinte à posse do governo interino de Michel Temer, esse
cenário foi reconfigurado. A foto do novo gabinete ministerial revelava
a ausência de mulheres, de negros, de índios e de jovens dentre outras
faces identitárias. Denotava o início de um governo misógino e con-
servador e o consequente desmonte das políticas para mulheres, como
bem destaca o texto da Secretária do Estado Olívia Santana, “Sobre o
golpe e as mulheres no poder”. O ministro chefe da Casa Civil, Eliseu
Padilha, justificou essa falta. As críticas cerradas ao preconceito de gê-
nero especialmente conduziram Michel Temer à busca de uma mulher
para assumir a Secretaria da Cultura.

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Em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, em 15 de
maio de 2016, Temer desqualificou a ausência de mulheres no seu go-
verno observando que várias delas ocupariam cargos quase tão impor-
tantes quanto os de ministro, pois, na reorganização dos ministérios,
haveria espaço para as mulheres nas secretarias. Neste sentido, Temer
enfatizou: “para a cultura eu quero trazer uma representante do mundo
feminino”. (EM ENTREVISTA..., 2016)
A determinação de Michel Temer gerou um forte gesto de resistên-
cia das mulheres brasileiras. Ao menos cinco das mulheres que foram
sondadas para a Secretaria da Cultura, que substituiria o Ministério da
Cultura extinto, segundo a imprensa, negaram veementemente o con-
vite. A negativa baseava-se não apenas, no caráter explicitamente opor-
tunista do convite, mas também na oposição à extinção do Ministério
da Cultura (MinC). A cultura, então, foi o lugar da resistência civil ao
impeachment. Artistas, intelectuais, criadores populares, animadores
e militantes, de diversos segmentos realizaram um dos maiores movi-
mentos de oposição ao governo interino, e conseguiram reverter a de-
cisão de extinção do MinC. É preciso reforçar como a negativa das mu-
lheres ao convite do presidente representou um ato feminista contra o
projeto do governo de exclusão das mulheres dos espaços de poder.
A falta de mulheres na lista ministerial não foi o único meio de afas-
tá-las do espaço político brasileiro. O decréscimo na representação des-
critiva das mulheres tem sido feito de forma gradativa. De modo “mera-
mente circunstancial”, conforme o Ministério do Planejamento, 12,13%
dos cargos comissionados cortados do Executivo eram ocupados por
mulheres. (PRAZERES; AMORIM, 2017)
Paralelamente a isso, o governo extinguiu o Ministério das Mulheres,
da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, passando
suas atribuições ao Ministério da Justiça (MJ). Assim, a Secretaria de
Políticas para Mulheres passou a departamento do MJ, sob o comando
da ex-deputada Fátima Pelaes (PMDB-AP).
De 2016 para 2017, o corte no orçamento da Secretaria chegou
a 61%, e a maioria das políticas iniciadas nas gestões de Lula e Dilma

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Rousseff foram descontinuadas. As ministras da pasta no governo
Dilma, Eleonora Menicucci e Nilma Lino Gomes observam nos textos
que escrevem para esse livro, “O golpe e a perda de direitos para as mu-
lheres” e “Golpe disfarçado de impeachment”, respectivamente, como
o desmonte da Secretaria de Políticas para Mulheres comprometeu as
políticas de proteção e apoio às mulheres brasileiras, e tem marcado o
retrocesso de seus direitos.
Ressaltamos que mesmo com limitações, durante o governo Dilma,
desenvolveram-se políticas e ações para o enfrentamento da violên-
cia contra a mulher, bem como em prol de sua autonomia financeira.
Destacam-se a lei do feminicídio e o estímulo por mais autonomia na
gestão da vida familiar, por meio da titularidade do “Programa Minha
Casa Minha Vida” e como beneficiárias prioritárias do Programa Bolsa
Família. Em 2016 elas correspondiam a 93% dos beneficiados e 84% das
proprietárias das casas. (MULHERES..., 2016)
Estas medidas foram consideradas pela SPM de extrema relevância,
ao processo de autonomização das mulheres dado que, por exemplo, di-
minuíam as relações violentas ou abusivas, fundamentadas apenas na
dependência financeira da mulher. (CEF, 2016)
O texto da senadora e procuradora da Mulher no Senado, Vanessa
Grazziotin (PC do B-AM), “Dilma: símbolo para a participação polí-
tica feminina”, destaca a assimetria no número de parlamentares ho-
mens e mulheres no Brasil, e como esse desequilibro tem comprometi-
do a representação substantiva das mulheres brasileiras no Congresso.
Neste sentido a senadora reafirma a preocupação quanto ao modo que
as Reformas Trabalhista e da Previdência, propostas pelo atual gover-
no, tratam a questão da tripla jornada das mulheres e a desigualdade
salarial deste gênero.
Essas ponderações da senadora Grazziotin também estão em pau-
ta para a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) em “Mulher, negra,
favelada e parlamentar: resistir é pleonasmo”. Ela destaca como preo-
cupação da sua gestão a proposta de aumento do tempo contribuição

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previdenciária para os empregados domésticos de 15 para 25 anos, le-
vando em conta que, caso isto se efetive, vai penalizar ainda mais as tra-
balhadoras, visto que o maior contingente de trabalhadores domésticos
no Brasil é composto por mulheres.
A esperança contra esse movimento conservador e de retrocesso nos
direitos das mulheres são os movimentos feministas que vêm surgindo
espontaneamente pelo país. As marcas do sexismo durante a campanha
pró-impeachment e os projetos de lei que retiram direitos das mulheres
geraram movimentos em redes sociais contra o machismo e o sexismo
no país.
É possível identificar uma potência no ativismo digital que tem
mantido a agenda feminista em debate, e que em boa medida tem pau-
tado a grande mídia, apesar das posições conservadoras assumidas por
ela. A tentativa do Congresso de adoção de políticas de controle sobre o
corpo feminino também mobilizou as brasileiras no movimento inti-
tulado “Primavera Feminista”, que levou milhares de mulheres às ruas
do Brasil em protesto contra essas políticas.
Ainda é cedo para tecermos conclusões sobre a força que esses movi-
mentos terão sobre a produção legislativa e a conjuntura brasileira, mas
é possível afirmar que só por meio da participação política das mulheres
e de sua mobilização pela igualdade será possível reverter o ciclo his-
tórico e persistente da opressão de gênero. Nesse sentido é importante
manter viva a disposição para “falar de Gênero”.
Boa leitura!

Notas
1 Esse livro começou a ser gestado ainda em 2016, durante a campanha pelo impeachment
exatamente pelo incômodo da ausência de reflexões sobre o papel/a importância da questão
de gênero nas ações do impeachment. Nesse sentido manifestamos a nossa satisfação pelas
diversas manifestações que começam a preencher essa falta, em diversas modalidades de
expressões e regiões do Brasil, assim como uma espécie de questão de ordem que se espraia
pelo mundo pautando essa discussão. Com base nesse contexto é que essa publicação adota
como título da apresentação deste livro a oportuna campanha do Núcleo de Estudos

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Interdisciplinares sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia (NEIM/UFBA),
“Precisamos falar de Gênero”.
2 Pesquisa em curso desenvolvida pelas autoras deste texto aponta a imparcialidade e a distor-
ção da informação em favor da campanha pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
3 Kathleen Hall Jamieson (1995) discorre sobre as dificuldades de participação das mulheres
no campo político a partir do conceito de doublebinds, um paradoxo vivenciado pelas mulhe-
res políticas em que qualquer que seja o comportamento adotado por elas, alguma falta será
apontada. A autora classifica as principais dualidades que surgem como cobrança para elas:
Profissional ou mãe?; O mesmo ou a diferença?; Silêncio ou vergonha?; Feminina ou compe-
tente?; Idade e invisibilidade. As estratégias de participação das mulheres na política, portan-
to, se colocam como um conjunto de ações para equilibrar os traços considerados masculi-
nos e os considerados femininos.

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Dilma – uma mulher polític a

Céli R eg ina Jardim P into*

“Eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos”.


Dilma Rousseff1

No dia 17 de abril de 2016, a Câmara de Deputados, * Doutora em Ciência Política.


Professora Titular do departa-
com mais de 90% de homens, autorizou a abertu- mento de História da
ra do processo de impeachment contra a presidenta Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS).
Dilma Rousseff. No dia 31 de agosto do mesmo ano,
o Senado Federal, com mais de 85% de homens, vo-
tou e aprovou o seu impeachment. Não há nenhuma
garantia de que a ausência de mulheres nestes dois
cenários tenha tido qualquer influência no resul-
tado. Entretanto, esta mesma ausência escancara a
condição subalterna das mulheres na política. Se, por

o_golpe_na_perspectiva_de_gênero.indd 23 23/02/2018 14:42:41


um lado, não se pode atribuir o impeachment de Dilma Rousseff ao fato
de a esmagadora maioria dos representantes no Congresso Nacional ser
formada por homens, por outro, isto não afasta a presença das questões
de gênero na trajetória de vida política da primeira presidenta mulher no
Brasil, desde sua militância, ainda na adolescência, até o impeachment.
Quando se analisa a presença das mulheres na política, o Brasil é
um dos países menos igualitários do mundo. Segundo dados da União
Interparlamentar, atualizados em 1º de março de 2017, o Brasil ocupa o
153º lugar entre 194 países pesquisados, quanto à presença de mulheres
nos parlamentos. (IPU, 2017) É também muito pequeno o número de
prefeitas e governadoras eleitas ao longo da história. O total de mulhe-
res efetivamente eleitas nas Assembleias Legislativas, somadas às elei-
tas na Câmara de Deputados em 17 legislaturas, de 1950 a 2014, é de 564.
Destas, apenas 184 chegaram à Câmara de Deputados, neste período. 2
Desde 1997, com a chamada Lei das Cotas (Lei 9504/1997), os partidos
são obrigados a garantir 30% de mulheres em suas listas de candidatos
para as eleições proporcionais, uma vez que a lei impede mais de 70%
de candidatos de um mesmo sexo. (BRASIL, 1997) Tem havido muita
dificuldade para o cumprimento desta cota nos partidos, independente
de ideologia e tamanho. Mesmo quando ela é cumprida, não tem mu-
dado significativamente o quadro do resultado eleitoral. São muitos
os estudos que analisam esta ausência no Brasil, mas é generalizada a
identificação de duas causas que ajudam a explicar as dificuldades de as
mulheres chegarem a esta esfera pública: o sistema político partidário e
a manutenção de profundas desigualdades nas relações de gênero. Em
relação ao primeiro, cabe destacar o sistema de listas abertas, a oligar-
quização das burocracias partidárias, o alto custo das campanhas elei-
torais. As mulheres não encontram espaço neste cenário, mas também
estão ausentes os negros, os índios e os trabalhadores das classes popu-
lares. Nas duas casas legislativas que compõem o Congresso Nacional,
assenta-se uma robusta maioria de homens brancos, de classe média

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alta ou da burguesia, tanto urbana como rural. Na questão específica
das mulheres, soma-se ainda o sexismo generalizado da sociedade bra-
sileira que perpassa classes, raças, etnias, posições políticas e ideológi-
cas. As assustadoras estatísticas da violência contra a mulher no país são
o retrato mais nítido destas relações desiguais.
Quanto mais conservadora for a postura política de um partido ou
de uma organização da sociedade civil, mais sexistas e preconceituosos
serão seus membros em relação à igualdade das mulheres e de outros
grupos excluídos. Entretanto, não é necessariamente verdade que pos-
turas políticas progressistas sejam, por natureza, não sexistas. E aqui
habita um dos mais graves problemas relacionados às dificuldades que
as mulheres enfrentam na política. Foi neste cenário que se desenvol-
veu a trajetória política da presidenta Dilma Rousseff.
Quando Lula indicou Dilma como candidata do Partido dos
Trabalhadores (PT) para as eleições à presidência da república, as pri-
meiras reações foram de que Lula, naquele momento com alta popula-
ridade, elegeria qualquer um, uma mulher como Dilma, ou um poste.
Como havia sido secretária do município em Porto Alegre, secretária
de estado no Rio Grande do Sul, ministra de Minas e Energia e da Casa
Civil no governo Lula, não era possível desqualificá-la completamente,
então se passou a considerá-la uma técnica, não uma política. Vale ob-
servar que esta qualificação não estava diretamente relacionada ao fato
de Dilma nunca ter concorrido a cargos eletivos, mas a sua propalada
falta de tato para conversar e atender à classe política e aos interesses
privados que chegavam até ela na condição de ministra.
Ora, não é preciso uma observação muito atenta para entender que
as pessoas podem ser tecnicamente competentes ou não, mas não exis-
te possibilidade de cargos políticos, da importância dos assumidos
por Dilma, serem preenchidos por pessoas não envolvidas na política.
O famoso técnico competente apartidário sabemos que não existe, que
foi uma invenção dos governos militares do Cone Sul, retomado re-
centemente pelo fundamentalismo neoliberal. Também sabemos que

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as atividades e os comprometimentos políticos vão muito além de car-
gos eletivos e, quando se trata de mulheres, que encontram todo o tipo
de dificuldade para se elegerem, a militância fora da disputa eleitoral é
muito recorrente. Possivelmente a crítica a Dilma, por parte de alguns
homens que faziam política em Brasília, era devida a um alargado con-
ceito do que é ser político, que inclui troca de favores e favorecimentos
entre agentes públicos e entre agentes públicos e privados.
A trajetória de Dilma Rousseff é um contraponto a esta forma de fa-
zer política, como revela uma breve recorrida por sua biografia. Ela co-
meça sua militância na escola secundária (atual ensino médio) com 16
anos. Isso não é excepcional, estudos sobre carreiras políticas no Brasil
apontam, tanto para mulheres como para homens, a política estudan-
til como costumeira porta de entrada. Nascida em 1947, seu envolvi-
mento com a política ocorreu um ano antes do golpe militar que desde
a primeira hora reprimiu, censurou, prendeu e torturou. A vida política
legal dos jovens foi, pois, violentamente interrompida, e fez com que
muitos deles continuassem militando em organizações clandestinas.
Dilma Rousseff militou na Comando de Libertação Nacional (Colina)
e posteriormente na Vanguarda Armada Revolucionária de Palmares
(VAR – Palmares). Há uma discussão conservadora e moralista sobre o
fato de ela ter ou não pegado em armas. Entretanto, a questão que im-
porta, do ponto de vista da análise histórica e da análise de trajetória, é
entender que haviam sido fechadas todas as portas para a vida política
democrática no país e que a luta armada foi uma alternativa, inclusive de
altíssimo risco de vida de seus militantes, que a resistência encontrou
para lutar contra a ditadura militar. Os muitos grupos que lutavam na
clandestinidade não foram tão fracos e desorganizados como um certo
senso comum tenta impor, foram sim desbaratados por uma repressão
violenta e cruel, que prendeu, torturou e matou. Consequência disto,
Dilma foi presa e torturada em 1970, tendo ficado na cadeia até 1973.
Quando saiu da prisão, era uma jovem mulher com uma formação
política sólida. Sobre este tempo, o depoimento mais contundente é o

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da própria Dilma, décadas depois, em 2008, como chefe da Casa Civil
à Comissão de Infraestrutura do Senado, o qual dá a dimensão de seu
comprometimento político. O diálogo ocorreu entre o inquisidor, se-
nador Agripino Maia, e a então ministra. Enquanto Dilma, como vi-
mos, entrou na política ainda adolescente e logo foi obrigada a ir para
a clandestinidade devido ao golpe militar, Agripino Maia entrou na
política como prefeito de Natal, nomeado por seu primo, o governador
Lavoisier Maia Sobrinho, do Rio Grande do Norte, também nomeado
pelo general presidente Ernesto Geisel.
Agripino, pondo em dúvida a veracidade das informações que a mi-
nistra estava dando à Comissão, acusa: “que lembranças a senhora guar-
dou dos tempos da cadeia? Vª. Exª. responde: ‘A prisão é uma coisa onde
a gente se encontra com os limites da gente... nos depoimentos a gente
mentia feito doido, mentia muito, muito mesmo’, o que me preocupa...”
A resposta de Dilma é uma das peças mais importantes do discurso
político brasileiro sobre o que aconteceu na ditadura militar:

Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode


partir de quem não dá valor à democracia brasileira. Eu tinha 19 anos, fiquei 3 anos
na cadeia e fui barbaramente torturada, Senador. Qualquer pessoa que ousar dizer
a verdade para interrogadores compromete a vida de seus iguais, entrega pessoas
para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, Senador, porque mentir
na tortura não é fácil. Agora, na democracia, se fala a verdade. Diante da tortura,
quem tem coragem e dignidade fala mentira. Isto faz parte, Senador, e integra mi-
nha biografia, da qual eu tenho um imenso orgulho. Eu não estou falando de heróis,
feliz do povo que não tem heróis desde tipo, Senador, porque aguentar a tortura é
algo dificílimo, porque todos nós somos muito frágeis, somos humanos, nós temos
dor. E a sedução, a tentação de falar o que ocorre, dizer a verdade, Senador, é muito
grande. A dor é insuportável, o senhor não imagina quanto é insuportável. Eu me
orgulho imensamente de ter mentido, porque eu salvei companheiros da tortura,
da morte. Não tinha nenhum compromisso com a ditadura, eu estava em um cam-
po, eles estavam em outro. (DILMA..., 2010)

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A pergunta que se impõe frente ao diálogo entre estas duas pessoas
é: quem é político? O senador ou Dilma Rousseff? Um homem premia-
do pela ditadura, que só pulou fora de suas fileiras quando se deu conta
de que o barco estava afundando, ou Dilma, uma mulher que se for-
jou na luta contra a opressão dentro e fora da cadeia? É Maia, o homem
branco, rico e oligarca, o político? E Dilma o poste? A técnica perdida
em Brasília? O que significa, para a elite política brasileira, para a mí-
dia e até para alguns setores da esquerda, ser político? É ter lábia, é ser
matreiro, é ser homem? Que qualidades teria Agripino Maia para ser
considerado político e quais os defeitos de Dilma para ser qualificada
como poste e técnica?
Entre sua prisão pelas forças da ditadura até seu depoimento no
Senado, arguida por um dos que se tornou figura política graças às be-
nesses de generais, Dilma teve uma vida política ativa. Foi uma das fun-
dadoras do PDT, junto com Leonel Brizola. Sua saída do partido foi uma
decisão de quem pensava politicamente o futuro da esquerda no país.
Secretária de Estado de Minas e Energia do governo de Olívio Dutra
no Rio Grande do Sul, licenciou-se do PDT em 2000 para apoiar Tarso
Genro, do PT, que disputava em segundo turno a prefeitura de Porto
Alegre com Alceu Collares.
Em 2001, Dilma se filiou ao PT e, no mesmo ano, participou da cam-
panha eleitoral de Lula para a presidência da república, quando teve um
papel importante nas proposições de políticas para Minas e Energia,
tornando-se, após as eleições, ministra da pasta. Em 2005, no segundo
governo de Lula, assumiu a chefia da Casa Civil, sendo a primeira mu-
lher a ocupar o cargo. Porque teria Dilma ocupado estes cargos durante
o governo do presidente Lula, um governo com uma preocupação clara
no crescimento econômico, na infraestrutura, nas políticas sociais, mas
também eminentemente político, no sentido de ter de administrar uma
coalizão de partidos com interesses distintos e, inclusive, perspectivas
ideológicas muito distantes entre si? Dilma possuía uma capacidade
técnica indiscutível e necessária para o governo, mas tinha posições

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políticas muito claras sobre economia, que se contrapunham frontal-
mente ao neoliberalismo. Singer assim qualifica o que chama de Plano
Dilma:

A desobstrução de caminhos para a retomada industrial, os esforços pela industria-


lização integral do país, a crença no papel indispensável do Estado no planejamen-
to, a descrença nas forças espontâneas do mercado, a decisão por parte do Estado
dos setores que devem se expandir e o papel estatal no financiamento destes esti-
veram todos presentes no que se poderia também denominar de “plano Dilma”
(SINGER, 2015, p. 45)

Portanto, a presença de Dilma no governo Lula e, posteriormente,


sua atuação como presidenta da República têm uma clara perspecti-
va política. Não é admissível pensar sua trajetória no governo federal
como a de uma técnica. Dilma, por sua própria história política, tinha
uma perspectiva mais política e esquerdizante que o próprio Lula.
Dilma nunca esteve de favor em nenhum dos cargos que assumiu,
nunca foi agraciada por ser filha, irmã, sobrinha, ou em troca de favores.
Enfrentou resistências de todas as ordens: a primeira e a mais radical,
quando lutou contra a ditadura; depois, quando chegou ao PT vinda do
PDT. Era uma mulher com tradição trabalhista sem pertencer a nenhum
dos grupos que formaram historicamente o partido. Dilma nunca teve
um grupo para chamar de seu dentro do PT, nenhum que a defendesse,
que a protegesse. O PT só abraçou Dilma quando se deu conta, através
dela, de que as forças conservadoras do país pretendiam varrer o partido
das disputas eleitorais.
Apesar de toda a sua longa vida política, de sua integridade na luta
pela democracia, Dilma novamente teve de enfrentar o sistema quan-
do decidiram que ela seria deposta do poder através de um estratagema
legal que uniu quatro forças: as políticas, lideradas pelo então vice-pre-
sidente, que estavam mais profundamente ameaçadas pelas inves-
tigações da polícia federal; os representantes do capital, tristemente

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sintetizados na figura de um pato de plástico, o que deu a dimensão da
pobreza política e intelectual desta classe; uma classe média, igualmen-
te inculta e confusa politicamente, mas muito consciente de que a con-
tinuação de um governo de esquerda poderia lhe ameaçar privilégios;
o judiciário, extrapolando suas funções e se tornando um poder polí-
tico, que se estende deste a primeira instância até o Supremo Tribunal
Federal (STF).
Durante a campanha a favor do impeachment, levada a efeito nas
redes sociais por grupos conservadores, e nas manifestações de rua
lideradas por uma classe média urbana elitizada, a questão de gênero
aflorou da forma mais primária possível. Deixou de ser um preconcei-
to contra mulheres na política para ser simplesmente um preconceito
contra a mulher. A sociedade brasileira mostrou todo seu primarismo,
toda a sua ignorância, cultivada nos bairros e nos colégios de elite das
principais cidades do país. As ofensas sexuais, em adesivos e nas redes
sociais, bem como os palavrões dirigidos a Dilma Rousseff, melhor do
que qualquer pesquisa de opinião, são parâmetros do nível de educação
cívica e de preconceito contra a mulher no país.
A crise que resultou no impeachment aflorou a grande contradição
da vida de Dilma na política: por um lado, uma mulher que, desde os 16
anos, estava profundamente envolvida em política; por outro, adversá-
rios e companheiros acusando-a de não ser política, de não ter sabido
conversar com os deputados, de não ter sabido negociar. Somou-se a isto
o grito preconceituoso das ruas. Em que os que apontaram o dedo para
Dilma estavam pensando, quando a acusaram de não ser política? Hoje,
quando o presidente da República e seus ministros se dedicam quase
integralmente a articular manobras para se salvarem das investigações
da Lava Jato, a pergunta que não quer calar é: isto é ser político? Quem
era visto como verdadeiro político nas rodas de homens brancos, ricos,
conservadores e mesmo não tão ricos, nem tão conservadores? Dilma
ou Sergio Cabral? Dilma ou Eduardo Cunha? Dilma ou Romero Jucá?
Dilma ou Renan Calheiros? Dilma ou José Dirceu? Dilma ou Eunício

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de Oliveira? Dilma ou Moreira Franco? Dilma ou Delcídio do Amaral?
Dilma ou Antonio Palocci?
O último ato de Dilma como presidenta foi a arguição feita pelos
Senadores, por 14 horas seguidas, antes da votação do impeachment.
Todos que estavam envolvidos naquele evento, todas as cidadãs e to-
dos os cidadãos medianamente informados sabiam que aquela sessão
de arguição era uma farsa e havia uma única pessoa que não estava fin-
gindo: Dilma Rousseff. Sem se alterar, respondeu a todos os questiona-
mentos, respondeu para a história, não para os protagonistas da farsa.
Os senadores da República, sob a presidência de Renan Calheiros, de
posse de um parecer emitido pelo senador tucano Antônio Anastasia,
em sessão dirigida pelo diminuído ministro presidente do STF, sabiam
que não havia crime, mas que Dilma deveria ser cassada, seu mandato
tinha de ser interrompido, para que o fundamentalismo neoliberal fos-
se implantado.
Era fácil derrubar Dilma, era uma mulher, não um cacique do PT.
Depois de tudo que aconteceu, ainda se ouvia, entre detratores e mes-
mo entre militantes da esquerda, que ela era dura, ela não tinha jogo
de cintura, ela não negociava, ela não cedia às tramas necessárias, ela
não era política. Ela era apenas uma mulher. Mulheres não sabem fa-
zer política, elas podem militar desde 16 anos, ser brutalmente tortu-
radas, ocupar os principais cargos da República, mas serão ditas como
não políticas, serão no máximo técnicas competentes, que caem porque
não sabem compactuar. Definitivamente, a política está precisando de
muitas mulheres como Dilma Rousseff, uma mulher dura em meio a
homens meigos e dobráveis, nem sempre aos mais nobres interesses da
República.

Notas
1 Ainda como chefe da Casa Civil e já na condição de candidata à presidência da república
Dilma falou de sua condição de mulher: “Em condições de poder, a mulher deixa de ser vista
como objeto frágil e isso é imperdoável”, afirmou. “Aí começa a história da mulher dura.
É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos”. (NOSSA, 2009)
Posteriormente, já presidenta, deu a mesma resposta a Jô Soares. (DILMA..., 2015)

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2 Este dado considera apenas as deputadas realmente eleitas nos pleitos, não as suplentes que
assumiram mandatos.

Referências
BRASIL. Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997. Estabelece
normas para as eleições. Diário Oficial [da] República Federativa
do Brasil, Poder Legislativo, Brasília, DF, 1. out. 1997. Disponível
em: <http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.
jsp?jornal=1&pagina=1&data=01/10/1997>. Acesso em: 23 mar. 2017.

DILMA Rousseff e a resposta que demoliu o senador Agripino Maia


(DEM-RN). [S.l.]: drrosinha, 2010. 1 vídeo online (4 min), son., color.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Tiyezo1fLRs>.
Acesso em: 20 mar. 2017.

DILMA Rousseff no Jô Soares: entrevista completa. [S.l.]: j p souza, 2015.


1 vídeo online. (71 min), son., color. Disponível em: <https://www.
youtube.com/watch?v=V8m2ZL-MOP4&feature=youtu.be>. Acesso
em: 29 mar. 2017.

INTERNATIONAL ORGANIZATION OF PARLIAMENTS – IPU.


Women in national parliaments. New York, 2017. Disponível em: <http://
www.ipu.org/wmn-e/classif.htm>. Acesso em: 29 mar. 2017.

MOURA, R. M.; PIRES, B.; BULLA, B. ‘Não dá para prever duração de


julgamento da chapa’, dizem ministros. O Estado de S. Paulo, São Paulo,
29 mar. 2017. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/
geral,nao-da-para-prever-duracao-de-julgamento-da-chapa-dizem-
ministros,70001718936>. Acesso em: 29 mar. 2017.

NOSSA, L. ‘Sou uma mulher dura cercada de homens meigos’, diz Dilma.
Estadão, São Paulo, 10 mar. 2009. Disponível em: <http://politica.
estadao.com.br/noticias/geral,sou-uma-mulher-dura-cercada-de-
homens-meigos-diz-dilma,336414>. Acesso em: 29 mar. 217.

SINGER, A. V. Cutucando onças com varas curtas: o ensaio


desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014).
Novos Estudos, São Paulo, n. 102, p. 43-71, jul. 2015.

3 2    c é l i r e g i n a j a r d i m p i n t o

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Incong r uência s e dubiedades ,
desleg itimaç ão e leg itimaç ão:
o g olpe contr a Dilma R ous sef f

Clara Araújo*

* Professora e pesquisadora do
Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da
Int rodução
Universidade do Estado do
O golpe parlamentar de 2016, consubstancia- Rio de Janeiro (UERJ).

do no impeachment da presidenta Dilma, levará


algum tempo até que seus efeitos sejam mais bem
dimensionados. E isto é válido também para aná-
lises que tentam compreendê-lo a partir de pers-
pectivas de gênero. Há múltiplas vertentes a serem
observadas quando se pergunta como e com qual
intensidade o gênero perpassou e interferiu no pro-
cesso que culminou no impeachment da presidenta.
De antemão, pode-se dizer que a história do golpe

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será contada, também, como a história do forte conservadorismo pre-
sente na sociedade brasileira, relacionado com dimensões de gênero.
Independentemente das posições políticas professadas, do apoio ou
de críticas à presidenta, ao seu partido ou ainda à sua coalizão gover-
namental, o fato é que se torna difícil para pessoas com um mínimo de
compromisso com a igualdade de gênero, negar a presença dessa face,
que antecedeu em muito o impeachment em si, vale registrar.
Argumentos de que os registros da presidenta sobre os preconceitos
e a discriminação que sofreu se constituem em mera figura de retórica
não se sustenta à luz de um levantamento geral das notícias na mídia. 1
Desnecessário mencionar aqui aspectos mais brandos de coberturas de
mídia, como desfile de estereótipos de gênero nas observações sobre
roupas, cabelos, modos e estilos de vestimentas, entre outros. Os con-
teúdos midiáticos em reportagens e editoriais são registros públicos.
Por ora basta destacar a capa e a matéria da revista Isto É de nº 2417, de
06 de abril de 2016, talvez o exemplar icônico dessas abordagens.
Entre os pontos que aparecem como recorrentes, e não só na grande
mídia, mas também nessa arena hobbesiana que se tornou a internet,
está o da desqualificação como deslegitimação. Embora a intensidade e
o peso efetivo que tal aspecto adquiriu só possam ser melhor analisados
com mais tempo, a indicação aqui cumpre o propósito da edição desta
coletânea: explorar os indícios, levantar as hipóteses e pensar o proces-
so. Nessa perspectiva, o ensaio reflete sobre alguns exemplos de como
o gênero teria operado como variável importante na deslegitimação2
de Dilma Rousseff para legitimar o golpe parlamentar. Tal caminho de
deslegitimação, porém, precedeu o processo da crise e do impeachment
e ocorreu mesclado com outras dimensões da crise política em si.
A tentativa de deslegitimação como forma simbólica parece ter
acompanhado a trajetória de Dilma desde o momento em que seu nome
começou a ser veiculado como possível candidata à presidência; fez-
se presente no processo direto do golpe (BISCAIA, 2016; BOITEUX,
2016); e pôde ser notada mais de um ano após o golpe (maio de 2017).

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Tratou-se de processo ambíguo, vale sugerir. De um lado tais investi-
das, aparentemente, não surtiram muitos efeitos, ao menos eleitorais,
inclusive após a exacerbação dos ataques à presidenta, a partir de junho
de 2013.
Na eleição de 2014 o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi incisivo
no cumprimento da Lei de Cotas e no preenchimento das mesmas,
elevando, finalmente, para 30% a porcentagem de candidatas. O tema
“mulheres no poder” estava mais presente na agenda política. Dilma
ganhou as eleições e sua aprovação após junho de 2013 cresceu um pou-
co mais entre as mulheres.3 Em outras palavras, a presença de uma mu-
lher no cargo mais elevado da República parecia indicar o que a litera-
tura denomina de “efeito da representação simbólica” durante parte do
tempo em que Dilma esteve na presidência: mulheres no poder tendem
a estimular outras mulheres a pleitear ou a considerarem “normal” e
possível disputar cargos. De outro lado, o trabalho sistemático, direto
e indireto de deslegitimação foi de tal monta que parece ter dissolvido
o que poderia existir de simpatia por partes desses setores da popula-
ção em relação à experiência e presença de uma mulher na presidência.
O simbolismo inicialmente positivo (se é que de fato houve) se dissol-
veu e, parece, teve seu sinal invertido: de positivo para negativo.
É sob este prisma que o texto faz uma reflexão inicial: parte de al-
gumas manifestações explícitas e de outras nem tanto enfáticas, para
pensar aspectos da desqualificação política com viés de gênero, que te-
riam operado antes e durante o processo de impeachment. A prática,
como sabemos, não é nova e tampouco peculiar à figura da presidenta. 4
De fato, o novo está no processo, na raridade de mulheres ocuparem a
presidência; de ser atinente à primeira mulher a ocupar a presidência no
Brasil; e, mais raro ainda, dessa presidência sofrer um impeachment.

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Vejamos, pois, alguns episódios ou momentos nos quais o gênero pare-
ce ter operado como variável interveniente no processo.

Sobre premissas e contextos da democracia, do


presidencialismo e da liderança no Brasil
Como se sabe, nas democracias representativas a formação do
Executivo pode ocorrer via mecanismos plebiscitários diretos – o voto
do cidadão para presidente – ou de modo indireto, via parlamento, mas
este é legitimado anteriormente através do voto do cidadão para eleger
os parlamentares. No parlamentarismo a sobrevivência e a possibilida-
de de governo dependem do apoio direto do Legislativo na formação do
Executivo, ao passo que no presidencialismo o foco da legitimidade está
diretamente no eleitor. A negociação e apoio do congresso continuam a
fazer parte desse processo e o governante tem autonomia para nomear
ministros e cargos estratégicos, mas o poder do presidente passa pelo
voto direto do cidadão na eleição. Diferentemente do sistema parla-
mentarista, no presidencialismo o dirigente do Executivo não sai do
poder caso não consiga formar um governo. Sua legitimidade está asso-
ciada ao voto, e, claro, também ao compartilhamento de poder com par-
tidos, via distribuição de cargos, número de deputados que o apoiam,
concessão de emendas, entre outros aspectos. (BATISTA, 2016)
No Brasil vigora o que se convencionou chamar de “presidencialismo
de coalizão”, um formato peculiar ao país: a presidência necessita nego-
ciar e compartilhar os cargos entre partidos de uma coligação que ele-
geram parlamentares e ter base parlamentar para seguir governando, já
que a aprovação de medidas no congresso é fundamental. Esse presiden-
cialismo e suas “distorções” há muito são objeto de críticas de diversos
setores: os interesses partidários teriam se tornado apequenados; há ex-
cessivo número de partidos com os quais negociar e muitos partidos “de
aluguel”; e há peso excessivo em negociações individuais, prevalecendo
os interesses particulares de parlamentares, uma prática distorcida do

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exercício da representação. Haveria, assim, uma complexidade da enge-
nharia eleitoral. O indivíduo-candidato e depois indivíduo-parlamentar
tenderiam a ocupar espaço indevido e em excesso, em detrimento dos
partidos e dos interesses coletivos. Neste ambiente, os “atributos” do lí-
der como negociador tenderiam a ser bem importantes. Haveria maior
necessidade de liderança e carisma não só frente ao eleitorado, com vistas
à eleição, mas também na relação com os atores dos legislativos e nas
negociações constantes para a obtenção de votos parlamentares, através
de liberação de emendas e ocupação de cargos.
Carisma e negociação são parte dos processos políticos, como des-
tacava Max Weber.5 Segundo ele, formas de legitimação do poder e da
dominação seriam sempre necessárias. A dominação legítima passaria,
também, pelo carisma como parte da construção da liderança. Por sua
vez, o carisma como a capacidade de negociação se torna mais relevante
nas democracias representativas, notadamente nos regimes presiden-
cialistas. Com efeito, carisma, habilidade, compromisso, experiência,
competência, entre outros aspectos, compõem esse cardápio legitima-
dor das disputas político-eleitorais e da condução político-administra-
tiva governamental. Atributos e carisma, por sua vez, fazem parte do
capital político de quem disputa cargos, em particular o cargo de presi-
dente da República. Resta-nos, porém, refletir se o peso do carisma in-
dividual seria um indicador de “qualidade da democracia” e de firmeza
de suas instituições ou, ao contrário, de regimes que ainda dependem
mais de pessoas individuais do que de suas instituições. E ainda, em um
ou outro caso, refletir sobre quais seriam os atributos de fato relevantes
em cada situação... Mas este é assunto para outro texto.
O primeiro dos pontos a destacar neste ensaio é, então, que, em se
tratando de mulheres que ocupam ou tentam ocupar esse tipo de espa-
ço político de poder – cargos elevados no Executivo –, o que irá consti-
tuir carisma pesam mais em comparação com os homens; os atributos
aparentemente neutros para o exercício da liderança, como “competên-
cia” e “experiência”, tenderão a importar sobremaneira; não são de fato

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expressões neutras; e tendem a ser submetidos ao crivo público mais
intenso, em comparação com os homens.
No caso em lume – Dilma Rousseff como figura política desde a
campanha até o impeachment – ao que parece, não foi suficiente que
o carisma como “qualidade” estivesse ausente na pessoa da presiden-
ta. Tampouco foi necessário afirmá-lo como atributo e referência para
marcar o que é ser líder e exercer uma presidência. Somaram-se vários
aspectos. E alguns refletiram questões inegáveis e específicas ao con-
texto do país. Por exemplo, a referência temporalmente muito próxima
do carisma incomum do presidente Lula, o papel desse “atributo” no
presidencialismo, bem como o contexto da cultura política brasileira,
no qual a figura do líder ainda revela o peso das pessoas vis-à-vis o das
instituições. O problema, pode-se sugerir, é que em Dilma, a ausência
de carisma constituiu mais do que uma referência e um contraponto
negativos marcados e lembrados. Tornou-se a falta constante que aferia
todo tipo discurso, para (des)qualificar qualquer que fosse a sua mensa-
gem e o conteúdo de sua fala. A presidente Dilma não foi só destacada
como não-carismática, mas como aquela cujos discursos ultrapassavam
o vazio do apelo e do conteúdo e eram sempre objeto de chacota e da fal-
ta dessa “qualidade” para governar. 6 Não que isso não tivesse ocorrido
com Lula, por sua linguagem, sua escolaridade, entre outros aspectos,
mas em Dilma foi também a sua associação com “mulher burra” que
fala “besteira” e não sabe o que diz.
Ao lado do carisma, o segundo exemplo de desqualificação a des-
tacar neste tópico é o das dinâmicas de negociações entre Executivo e
Legislativo; de como a presidenta e seus apoiadores conduziram-nas,
se de forma hábil ou inábil, mais ou menos apropriadas politicamente.
Como é sabido, dadas as várias distorções e problemas de funcionamen-
to do sistema político, as formas de negociação e a cultura política brasi-
leira têm como uma das suas bases importantes o “negócio” parlamen-
tar individual ou o que denomino de “varejo”. Ou seja, a negociação do

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interesse particular do deputado, de pequenos grupos a partir de bases
locais, ou de demandas eventualmente pouco republicanas. A nature-
za problemática do “varejo” reside, entre outros aspectos, na expressão
de seu antirrepublicanismo, já que, em geral, pautaria interesses muito
particulares, sem falar de práticas corruptas.7 O “varejo” tem sido ob-
jeto de questionamentos e críticas constantes de vários setores da po-
pulação, incluindo atores políticos organizados, intelectuais e também
parte da grande mídia. Registre-se que parte das críticas não ocorre em
decorrência da natureza pouco republicana dessa prática e, nesse sen-
tido, por ser condenável e anti-política. Advém da negação da própria
política. Nessa linha, o “varejo” torna-se a substância da política, numa
associação indiferenciada e perversa com a ação política e com a figura
do representante político em geral.
Em ambas as situações o “varejo” se nos apresenta como um proble-
ma, e seria, portanto, uma prática condenável. No primeiro caso, seria
atitude antirrepublicana, porque o representante ou o indivíduo-de-
putado se locupleta com a coisa pública, e não está preocupado com o
bem-estar coletivo. Logo, atitudes para evitar esse tipo de negociação
poderiam ser consideradas como virtude política. No segundo caso, a
partir de uma percepção mais distorcida e simplificadora, o varejo es-
taria “no sangue” e o político seria alguém por natureza envolvido com
seus próprios interesses, que só entra na política para se locupletar e sua
ação estaria sempre ferindo o interesse do indivíduo-cidadão, que seria
prejudicado frente ao Estado e à política. Neste caso, a recusa a agir de
tal maneira poderia ser vista, então, como algo positivo no mar de inte-
resses escusos “dos políticos”.
À presidenta Dilma se atribuía dificuldade de lidar com o “vare-
jo” das negociações nas relações Legislativo-Executivo. Costumavam
ser destacadas a sua falta de habilidade e de “apetite” para conduzi-las.
Seria de se esperar, então que daí pudesse advir alguma nota positiva,
ou mesmo que fosse ressaltada a sua virtude de não se apequenar, de

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não se sujeitar ou praticar essa via de negociação. Mas parece que tal
leitura não se fez presente no cenário. A “falta” e o “deslocamento” da
presidenta desse campo das práticas políticas do varejo são os aspectos
destacados quanto ao seu estilo de negociar. Isto ora parece decorrer de
sua inexperiência política, ora de sua inapetência para a função, ora à sua
inabilidade, ou ainda aos três aspectos juntos. A ética como elemento
constantemente acionado no discurso midiático, também não contou,
nesse caso. Não se registram outras leituras possíveis, como por exem-
plo, a de que tal resistência poderia ser uma janela de oportunidade para
estimular ou desnudar a forma viciada de negociação, abrindo caminho
para outro formato de prática política.
O ápice foi o episódio do processo contra Eduardo Cunha. A “inabi-
lidade” de Dilma ou dos parlamentares de seu partido ficou associada
ao fato de recusarem-se a negociar com o então presidente da Câmara
dos Deputados a sua absolvição, na votação para abertura de inqué-
rito parlamentar que atingia o deputado. O ultimato fora dado como
um xeque-mate: ou a bancada da presidenta recusa seu processo ou o
deputado aceitaria pedido de impeachment contra a presidenta. Os re-
sultados são sabidos. E em que pesem todas as imputações de negocia-
tas, chantagens e outros aspectos da prática rotineira do então deputa-
do Eduardo Cunha, nos comentários da grande mídia ou nos diversos
blogs de movimentos politicamente contrários à presidenta, não foram
identificados quaisquer tipos de méritos no seu ato. No arco crítico em
relação à sua falta de habilidades e negociações, alinharam-se setores
da direita e também setores de esquerda. A pergunta que fica então é se
a mesma leitura poderia ser feita caso a presidência fosse ocupada por
um homem. Talvez... Não se pode errar em política. Errando, é melhor
que seja alguém “do ramo”. Mas “ser do ramo” pode significar muita
coisa... De início é difícil fugir à impressão de que houve forte viés de
gênero nessa ênfase desqualificadora. Viés dúbio, registre-se, pois o
que fora execrado como problema se inverte e passa a ser lido como fal-
ta e ausência de Dilma. Como diz Chapman (1993), qualquer que seja a

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característica ou o recurso necessário para estar na política, mulheres os
terão menos e serão mais cobradas segundo os padrões vigentes.

S obre a e x p e r iê nc ia , ha bilid ad e e a s for ma s d a (d e s)


legitimação
Nas democracias modernas, a política envolve participação e repre-
sentação. A participação política é um termo amplo, que abarca as di-
versas formas de ação coletiva dos sujeitos sociais com vistas a inter-
ferir intencionalmente ou não, em determinado processo ou causa. A
política é, assim, “[...] o lugar em que se entrelaçam os múltiplos fios da
vida dos homens e mulheres [...]. Diz respeito à elaboração de regras ex-
plícitas ou implícitas acerca do participável e do compartilhável [...]”.
(ROSANVALON, 2010, p. 72, grifo do autor)
A eleição é momento privilegiado para os cidadãos exercitarem seus
direitos. Eleições e partidos políticos são fundamentais, mas práticas
públicas coletivas de participação e de deliberação são igualmente ne-
cessárias, pois eleições não expressam o todo democrático, embora
representem momento importante do processo. Pode-se elencar, por
exemplo, a participação em movimentos sindicais, de bairros ou de gru-
pos de interesse e de pressão; manifestações e presença em vários tipos
de protesto, e assim por diante. Se essas e outras formas de ação coleti-
va fazem sentido e são reconhecidas como parte da política, então não
restam dúvidas de que o histórico de Dilma Rousseff é indissociável de
formas de participação política. Dilma fez movimento estudantil quan-
do secundarista. Foi de movimentos de resistência à ditadura, inclusive
o guerrilheiro, único a ser lembrado por setores conservadores. Com a
volta do exílio, atuou em movimento de mulheres, teve militância em
partidos políticos, ajudou a fundar um dos mais importantes partidos
no período da redemocratização e seguiu com militância partidária.
A sua história remete à participação política desde adolescente e até o

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presente. Remete, portanto, às experiências com dimensões da políti-
ca, embora não estritamente eleitorais.
Mas não tem sido bem assim que sua história é apresentada. Também,
neste caso, cabe destacar a característica ambígua nos registros de par-
te da grande mídia. Nota-se um misto de condenação por seu passado
guerrilheiro e de crítica, ou mesmo sarcasmo, com a “verdadeira mili-
tância revolucionária”;8 sua saída do PDT e sua subsequente filiação ao
PT aparece como se a troca de partido fosse algo excepcional no país,
além de mero oportunismo. Sua participação se dilui, desaparece, não
conta, ou conta como problema. Independentemente de posições fa-
voráveis ou contrárias a certas formas de resistência à ditadura, numa
época de perseguições e de “caça às bruxas” tratava-se de algo que exi-
gia coragem. Ser torturada, e não desistir. Ter ainda mais coragem para
prosseguir participando. E ainda, prosseguir sobre novas bases poderia
indicar, minimamente, compromisso e alguma vivência política. Mas
coragem ou atitude cívica no sentido mais amplo estão fora de ques-
tão... E com isto introduzo o terceiro exemplo de como o viés de gênero
e o viés político se mesclaram, perpassando esse requisito valorizado
da experiência e se transformaram em seu contrário – inexperiência –,
ajudando na deslegitimação de Dilma Rousseff.
Em democracias representativas plebiscitárias, presidencialistas,
é possível a eleição de chefes de Executivos ocorrer sem que determi-
nados pretendentes ao cargo sejam oriundos de mandatos legislativos
ou mesmo mandatos executivos prévios. Isto é bom? É ruim? Aqui um
posicionamento desejável ou normativo não está em questão. Pode-se
sugerir que, embora desejáveis, experiências eleitorais prévias não são
imperativas. Outras circunstâncias podem operar como mais impor-
tantes. Ou seja, não é requisito para o indivíduo percorrer a “escada”
eletiva executiva antes de concorrer a cargos mais elevados. Isto signi-
fica que o indivíduo não fez política? Ou que não seja político? A (apa-
rente) adesão ao a-politicismo, incluindo o perfil atualmente estimu-
lado do “gestor” sem nenhum compromisso básico com a política ou

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com ocupação prévia de cargos é válida ou condenável? E se sim, a quem
deve caber esse julgamento e de que modo?
A prática nos governos, nos Executivos, em cargos decisórios e de
mando é sempre prática política. Por recorte mais amplo ou recorte
mais estreito trata-se de um agir no campo da política. A indicação de
cargos nos primeiros escalões – ministérios e presidências de estatais
– muitas vezes independentemente das avaliações sobre as qualidades
técnicas dos indicados, bem como seus atributos, também tendem a ser
políticas. Em suma, a participação, seja ela institucional ou não institu-
cional, é do âmbito da política. E a suposta negação do político, também
o é. Mas com Dilma tudo parece ter operado negativamente, sempre.
Para prosseguir valho-me de dois exemplos bem recentes, ilustrati-
vos de tratamento diferenciado sobre trajetórias políticas baseadas na
experiência de governo e na falta de experiência com eleições. São os
casos do prefeito de São Paulo João Doria Jr (PSDB) e, mais recentemen-
te, o do presidente eleito da França, Emanuel Macron (En Marche). Em
ambos, o que foi apresentado como falta em Dilma se transforma, se
reveste de sentido de virtude, não apenas nos discursos dos dois políti-
cos, mas em especial na narrativa da mídia. Nesses candidatos, a inex-
periência adquire a áurea de distanciamento da “velha” política e dos
“velhos” políticos. Não se argumenta aqui que a explicação se deva ao
gênero porque os dois políticos pertencem ao sexo masculino. É mais
provável que a explicação esteja na esfera da onda conservadora em
curso no mundo. Mas é possível sugerir que o fato de Dilma ser uma
mulher tornou mais fácil e palatável a narrativa de seu “deslocamento”
devido à inexperiência política; porque de mulheres sempre se cobrará
um pouco ou muito mais; porque mulheres ocuparem cargos de diri-
gentes ainda é o excepcional, é objeto de atenção com desconfiança e
de certo estranhamento, ou de olhar mais acurado sobre e para toda e
qualquer iniciativa pública.
Vejamos então rapidamente a trajetória de Dilma Rousseff em exe-
cutivos governamentais (e sem mencionar cargos em segundo escalão):

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secretária de Finanças de Alceu Colares na prefeitura de Porto Alegre;
secretária de Minas e Energia pelo estado do Rio Grande do Sul; minis-
tra das Minas e Energia no primeiro governo Lula e, posteriormente,
ministra-chefe da Casa Civil desses governos. Neste último cargo, tor-
nou-se responsável pela coordenação e gestão de alguns dos principais
programas de políticas públicas do governo Lula, associados com pla-
nejamento e execução e que foram carros-chefes das políticas sociais
e de desenvolvimento. Como se nota, são cargos públicos e políticos,
de governo, em níveis estadual e nacional, normalmente identificados
como masculinos, estratégicos e não usualmente destinados às mulhe-
res. Por que será que “caíram” no colo de Dilma Rousseff? Não seria um
pouco lógico pensar que isto se deveu, de algum modo, à sua vivência
política e que as suas qualificações técnicas lhes credenciavam para tais
exercícios? No entanto, não foi o que se viu no Brasil. O currículo da
mulher política como aquela que não concorreu a cargos, o uso distor-
cido da trajetória de militância e da inserção coletiva e o esquecimento
proposital de exercícios de cargos públicos eminentemente políticos fo-
ram objeto das narrativas mais convenientes à grande mídia, para parte
das elites brasileiras e também para redes sociais. E, mais preocupante,
é o que continua a ser reproduzido. Já Macron e Doria...

E x pe r iê nc ia s e “ despe rsonif icação”


Como sugerido, o período que vai da campanha eleitoral de 2010 até
o impeachment da presidenta pode ser lido como experiência prática de
desqualificação do sujeito político pelo viés de gênero, mas em dinâ-
mica ambígua. Por alguns ângulos, a experiência pode ser vista como
a forma através da qual Dilma como indivíduo, como pessoa sexuada e
generificada, como candidata, como presidenta e como representante
de um projeto político foi construída (ou desconstruída) e corporificou
um ser “fora do lugar”, como costumam estar as mulheres em ambien-
tes “não-familiares”, ou mesmo nos familiares. A ambiguidade de estar

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sempre fora do lugar. (COLLIN, 1991) Essa imagem parece ter sido um
dos sustentáculos acionados para que se pudesse viabilizar a deslegiti-
mação política de alguém que precisaria ser apeado do poder.
A ambiguidade surge através da personificação de uma Dilma des-
provida de substancialidade, vazia de atributos pessoais, de capacidade
intelectual, de experiência e de capacidade política, um ser vazio, apesar
de uma trajetória de vida intensa. Ao mesmo tempo, é o ser ameaçador,
autoritário, manipulador e ambicioso. Na vida pública, em um momen-
to é guerrilheira e, portanto, pessoa (ainda mais mulher) violenta que
pega em armas; em outro, é apenas a aparência de guerrilheira incapaz,
sem coragem de pegar em armas ou de atirar; a ocupar meras posições de
apoio, conforme sugerido por um colunista. Passa-se, assim, da violên-
cia como perigo à ausência dessa violência como falha. (NUNES, 2017)
No tratamento da sua vida privada a ambiguidade tende a perpassar
a forma como suas relações familiares e afetivas aparecem: ora a mulher
solitária, separada, sem marido; ora a mulher casada duas vezes, mas
sempre submetendo sua vida (até suas escolhas de partidos) às decisões
de seu cônjuge, obediente e submissa. A sexualidade varia: da condi-
ção de assexuada à condição de lésbica; ou de assexuada à condição de
histérica, o que responderia por sua possível irascibilidade, conforme
explicitado publicamente por jornalista de uma das grandes revistas
semanais de circulação nacional, posteriormente criticado pelo movi-
mento feminista.
Como um ser “fora do lugar”, Dilma parece surgir como aquela sem
habilidades e apetite para governar (características estas marcadas por
um estereótipo de feminino ou de masculino, a depender de quem as
tenha). Ao mesmo tempo, Dilma é alguém de natureza autoritária e
perigosa. Alguém ora sem condição de exercer uma agência de poder,
ora ambiciosa em excesso, a ponto de achar que poderia direcionar essa
agência prescindindo das práticas institucionalizadas da política bra-
sileira. Sobre Dilma, transitou-se e transita-se entre excessos e faltas,
nunca o equilíbrio.

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Após uma primeira eleição bem disputada, quatro anos de mandato,
de uma reeleição em disputa acirrada, aberta, com debates, e após cerca
de um ano e quatro meses de boicotes e ataque da grande mídia, Dilma
continuou sendo apresentada por apoiadores do golpe como esse al-
guém fora do lugar. Sua defesa pública no Senado Federal foi considera-
da histórica, substantiva e corajosa. Respondeu a uma sabatina e deba-
tes por mais de 12 horas e mostrou substância ao fazê-lo. Mas após mais
de um ano do golpe, a desconstrução e a desqualificação continuam a
ser aspectos centrais na grande mídia. A guerra político-jurídica-ideo-
lógica dessa desconstrução segue sustentada pelo viés de gênero, que
imputa às mulheres, de forma aberta ou velada, lugares e papéis redun-
dantes ou aquém do esperado. Assim como na revista Veja 8 , outros ar-
tigos e manifestações poderiam ser elencados. Para este texto cabe ape-
nas e por último mencionar o editorial do jornal O Estado de São Paulo,
periódico de abrangência nacional e conhecido como porta-voz de par-
celas do empresariado e da elite econômica brasileira. Seu editorial do
dia 12 de maio de 2017, cujo objeto é a presidenta Dilma Rousseff, de
certa forma sintetiza os itens abordados acima. O texto tem o seguinte
título “Retorno à irrelevância”. Para além de críticas ao modelo político
implantado, ao PT, entre outras, o traço é abertamente desqualificador
em conteúdos e ancorados em recursos linguísticos grosseiros, embo-
ra sob aparência sofisticada. A retórica da inabilidade acompanha a da
(in)experiência. A “inabilidade” de Dilma é remetida à perda da maio-
ria parlamentar. O tratamento depreciativo consistentemente repetido
pode ser sintetizado em dois trechos do referido editorial. No primeiro,
Dilma surge num misto de agente,9 traidora e ingênua que a remete ao
seu “não-lugar”. É pelo viés da ausência e não da presença, que sua des-
personificação mais uma vez está posta. Afirma o Editorial: “Invenção
de Lula da Silva, a jejuna Dilma Rousseff traiu seu padrinho ao acreditar
que tinha sido eleita não para guardar lugar para a volta do chefão pe-
tista ao poder, mas para pensar e agir por conta própria”. Em seguida,

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contrariando a história quanto à sua trajetória política e inúmeros regis-
tros sobre sua erudição, a ex-presidenta é tratada como alguém despro-
vida de qualquer inteligência, quase uma idiota e fora do lugar. A linha
de desqualificação prossegue ao longo do editorial. A desqualificação
reside na escolha precisa dos termos ou das frases que a inabilitam em
qualquer situação, já que, segundo o editor,

[...] Dilma Vana Rousseff não apareceu por um acaso na Presidência da República.
Sem nenhuma qualidade que a credenciasse para tão relevante função pública, ela
não teria subido a rampa do Palácio do Planalto, há cinco anos, se não fosse pela
vontade do capo petista Luiz Inácio Lula da Silva [...]” (RETORNO..., 2017, grifo nos-
so)

O lugar segue dúbio, como se vê: ingênua e ambiciosa ao mesmo


tempo... Em suma, mais uma vez não se esclarece se o mal, ou a falha
estaria na sua ambição ou na sua ingenuidade. A desqualificação beira a
misoginia, sem qualquer pudor no conteúdo e na forma.

Obser vações f inais?


Uma rápida passada de olhos por algumas manchetes nos dois perío-
dos eleitorais, durante os governos de Dilma, em especial nos meses que
precederam o impeachment, permite notar como o sentido do termo
experiência política foi usado todo o tempo por atores diversos – parti-
dos de oposição, mulheres políticas pertencentes a partidos de oposição,
políticos que não se definiam como de oposição, dentre outros.
Em relação a Dilma, a dinâmica desqualificadora parece ter opera-
do como único vetor para o apagamento do histórico de sua constante
participação política. Do momento que se identificou como candidata
até o presente, todo o tempo coube à pessoa da candidata, da presiden-
ta e da figura pública marcar, lembrar e afirmar essa trajetória, resga-
tar seu passado também como coragem e compromisso de quem, por

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coerência, permaneceu por mais de 40 anos experienciando a política.
Aqui é possível sugerir, para observações mais sistemáticas, que regis-
tros apagados ou distorcidos se juntaram num matiz ideológico e mi-
sógino bem além de críticas às suas limitações como política ou gover-
nante. No passado, perigosa ou ingênua. No presente, não bastou ser
desprovida de qualquer virtude política. Foi necessário também o ridí-
culo e o desrespeito; foi necessário transformá-la em pessoa assexuada
ou sexualmente “desviante”, desprovida de atrativos e de inteligência.
O gênero foi acionado na maioria das vezes como recurso negativo da
figura pública da mulher Dilma Rousseff, o que de certa forma é o pa-
drão. Mas o espectro e diversificação das formas da deslegitimação fo-
ram tão amplos, que só estudos mais sistemáticos poderão analisar o
seu efetivo impacto no processo do impeachment. De início o que sur-
ge é um período marcado por muito preconceito e misoginia. A história
do golpe, de suas narrativas legitimadoras e de como o gênero consti-
tuiu uma dessas narrativas está começando a ser analisada. Ultrapassa
o impeachment e expressa valores que ainda bem arraigados em nossa
sociedade. Aqui foram indicados alguns tópicos para futuros estudos.

Notas
1 A exemplo de que escreveu Nogueira (2016) em seu blog no jornal O Estado de S. Paulo.
2 Usarei os termos “deslegitimação”, “deslegitimação de gênero”, ou ainda “deslegitimação
simbólica de gênero” para me referir a aspectos de um mesmo fenômeno: a desqualificação
da pessoa e do sujeito político pertencentes ao sexo feminino por ser desprovida dos “atribu-
tos” associados com a figura do político e de representações tradicionais de sexo.
3 A análise da série histórica das pesquisas feitas pelo instituto Datafolha revela que até o início
de junho de 2013 a popularidade da presidenta continuava bem elevada. Decresceu abrupta-
mente no final de junho e foi assim até dezembro de 2013. Mas voltou a se recuperar a partir
daí, a ponto de garantir a vitória eleitoral em 2014. Nos dados do Instituto pode-se notar que
embora a maior queda de popularidade na crise de 2013 tenha sido entre as mulheres, foi
também entre elas que os índices de apoio ao governo da presidenta foram mais elevados
fora desse momento mais crítico.
4 Ângela Merkel na sua primeira campanha para chanceler recebeu o apelido de “Mutti” (avó)
da parte de seus opositores. Uma forma condescendente, mas, claro, desqualificadora de tra-
tá-la como política, pois se refere a um ser do sexo feminino que deveria estar cuidando dos
netos, e não fazendo política. Dilma não teve a mesma sorte de receber apelidos carinhosos.

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5 Sobre Max Weber e o tema da Dominação e do carisma na política, ver, entre outros, Sell
(2011).
6 Não se desconsidera aqui o fato concreto do carisma do presidente Lula e do desafio para qual-
quer pessoa que o substituísse; ou ainda a importância do carisma para o/um líder. Apenas se
reflete sobre o sentido qualificador que essa dimensão adquiriu no caso em análise.
7 Não estão em questão dimensões institucionais e sistêmicas problemáticas, como por exem-
plo, o número de partidos efetivos com os quais se tem que negociar (na Câmara dos
Deputados) ou a distribuição de recursos e financiamentos.
8 Ver como exemplo os três artigos escritos pelo jornalista Augusto Nunes no seu blog na revis-
ta Veja, entre os dias 13 e 15 de maio de 2017, respectivamente.
9 Aqui, “agência” na acepção sociológica é usada como atributo do sujeito que age, e o faz in-
tencionalmente.

Referências
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parlamentarismo e presidencialismo de coalizão. Revista de
Sociologia e Política, Curitiba, v. 24, n. 57, p. 127-155, mar. 2016.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-
44782016000100127&script=sci_arttext&tlng=en>. Acesso em: 15 maio
2017.

BISCAIA, C. N. Um golpe chamado machismo. In: PRONER, C. et al.


(Org.). A resistência ao golpe de 2016. Bauru: Canal 6, 2016. cap. 17,
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BOITEUX, L. Misoginia no golpe. In: PRONER, Carol et al. (Org.)


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Routledge, 1993.

COLLIN, F. Praxis de la diferencia: liberación y libertad. Barcelona: Icaria,


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DATAFOLHA: Instituto de Pesquisas. São Paulo: 1983-. Disponível em:


<http://datafolha.folha.uol.com.br/>. Acesso em: 17 maio 2017.

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NOGUEIRA, M. A. Dilma, o feminismo e o machismo. Estadão, São
Paulo, 27 jul. 2016. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/
blogs/marco-aurelio-nogueira/dilma-o-feminismo-e-o-machismo/>.
Acessado em: 27 abr. 2017.

NUNES, A. Coluna. Veja, São Paulo, maio 2017. Disponível em: <https://
veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/>. Acesso em: 17 maio 2017.

RETORNO irrelevância. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 12 maio 2017.


Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/>. Acesso em: 17 maio
2017.

ROSANVALLON, P. Por uma história do político. São Paulo: Alameda,


2010.

SELL, C. E. Democracia com liderança: Max Weber e o conceito de


democracia plebiscitária. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília,
DF, n. 5, p. 139-166, jan./jul. 2011.

VEJA. São Paulo: Abril, 1968-. Disponível em: <http://veja.abril.com.


br/>. Acesso em: 17 maio 2017.

5 0    c l a r a a r a ú j o

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Imaginário, mulher e poder no
Brasil: reflexões acerca do
impeachment de Dilma Rousseff

Cláudia L eitão*

No dia 15 de setembro de 2011, às 15 horas, entrei * Professora e pesquisadora do


Centro de Estudos Sociais
com a ministra da Cultura Ana de Hollanda na sala Apli-cados da Universidade
da presidenta Dilma Rousseff para apresentar-lhe Esta-dual do Ceará (UECE)
e consultora para economia
o anteprojeto do Plano Brasil Criativo, voltado ao criativa da Organização
fomento da economia criativa brasileira. 1 Também Mundial do Comércio (OMC)
e Conferência das Nações
participaram da audiência a ministra da Casa Civil, Unidas sobre Comércio e
Gleisi Hoffmann, além da secretária da presidência, Desenvolvimento (UNCTAD).
responsável pela ata da reunião. Depois de uma hora
de exposição e discussão, a presidenta determinou
que a construção do Plano seria liderada e coorde-
nada de forma compartilhada entre o Ministério da
Cultura (MinC) e a Casa Civil. Saímos, a ministra da

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Cultura e eu, animadas com o êxito da empreitada. Naquele momento
festejávamos a chegada da primeira mulher à presidência e ainda não ha-
víamos percebido que aquela vitória, inspiradora de uma nova ordem,
provocaria uma grande desordem e instigaria uma reação, especial-
mente dos segmentos sociais, políticos e econômicos do país. A vitória
de Dilma Rousseff seria o nascedouro de sua futura derrota. A memó-
ria mais forte que guardo da minha experiência à frente da Secretaria
da Economia Criativa é a daquela audiência, e a imagem recorrente é a
daquela mesa, em que somente mulheres discutiam animadamente ce-
nários, desafios e novos caminhos para o desenvolvimento brasileiro.
Como se sabe, depois de disputar e ser novamente vitoriosa nas
eleições de 2014, a presidenta da República foi afastada do cargo no dia
31 de agosto de 2016, em uma votação no Congresso que se tornaria
um dos episódios mais sombrios vividos por aquela Casa. Transmitido
pela mídia para todo o país, as imagens de centenas de deputados des-
tilando o seu ódio à presidenta, em nome de um discurso pautado em
“Deus” e na “Família”, demonstravam de forma monstruosa a ânsia do
Poder Legislativo de retirar a presidenta do lugar de chefe de mandatária
maior da Nação. Havia, nas falas iradas e nos gestos patéticos daqueles
homens, um misto insuspeito de violência e de alegria. Era evidente
que a resistência da presidenta da República às pressões dos congres-
sistas, simbolizada pela sua insubmissão diante das demandas do então
presidente da Câmara, Eduardo Cunha, lhe custaria muito caro. Como
compreender aqueles discursos e atitudes?
Nesse momento, eu já havia saído no MinC e, como parte da popula-
ção brasileira, acompanhei pelas mídias a sua agonia. As análises relativas
a esse processo, quase sempre de natureza econômica e política, vêm su-
bestimando outras dimensões que podem emprestar uma maior comple-
xidade ao fenômeno da sua deposição. Penso que os estudos de gênero pro-
duzidos pela antropologia do imaginário podem contribuir para ampliar
as análises tradicionais sobre o poder, revelando novos olhares e outras
dimensões acerca do impeachment de Dilma Rousseff.

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Segundo o sociólogo francês Gilbert Durand, o imaginário “é o con-
junto de imagens e de relações de imagens que constitui o capital pen-
sado do ‘homo sapiens’”. (DURAND, 1997 apud PITTA, 2005, p. 15)
O imaginário enfatiza os significados dos símbolos e das imagens (em
um mundo onde somente os conceitos ganharam hegemonia!), permi-
tindo às análises históricas uma nova possibilidade de interpretação de
fatos, representações, comportamentos, discursos e gestos, a partir de
um olhar menos positivista e mais complexo sobre a interação dos sujei-
tos com o mundo. Subjacente aos modos de ser e de agir dos indivíduos
nas sociedades, existe um repertório ou um repositório de arquétipos,
símbolos e mitos. Desse modo, as pulsões subjetivas que respondem
às intimações objetivas das sociedades constituem o que Durand (1997
apud PITTA, 2005, p. 15) nomeia de “trajeto antropológico”, ou seja,
através dos gestos, símbolos e imagens de pessoas e grupos em um de-
terminado tempo histórico é possível compreender a “bacia semântica”
que nutre aquelas pessoas e grupos.
A antropologia do imaginário estimula novas questões e outros olha-
res sobre os estudos de gênero. Na busca de uma visão de mundo menos
cartesiana, os mitos e as constelações de imagens propostas por Durand
subsidiam a construção de uma epistemologia significativa para a mu-
dança de paradigmas nas reflexões sobre a mulher. Segundo ele, o mito
não é somente uma narrativa, mas um ato de pensar, um estado de espí-
rito em busca de razões que escamoteiam o que é. (STRONGOLI, 2005,
p. 148) O mito conjuga sensibilidade e racionalidade, transformando,
em linguagem e em relato, escolhas feitas que, por sua vez, organizam
modos e modelos de ser.
As imagens organizam-se em constelações. Durand reagrupa as
imagens em dois regimes: o diurno e o noturno. Cada cultura possui
sua dinâmica, ou seja, sua forma de estruturar imagens, símbolos e sig-
nos. O regime diurno, marcado pela luz e pelas divisões, é caracterizado
pela sua estrutura heroica, que expressa o racional, o maniqueísmo, a
excludência, a lógica da construção de heróis, o masculino. O regime

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noturno, por sua vez, caracteriza-se pela conciliação, possui uma estru-
tura mística, que se refere ao sentimento, ao intuitivo, à união, à intimi-
dade, ao feminino. (NOGUEIRA, 2005, p. 101-102)
No entanto, ao analisarmos as sociedades, em uma perspectiva tem-
poral, podemos observar passagens (sempre caóticas) das estruturas
antropológicas relacionadas ao masculino para aquelas fundamentadas
no feminino, ou vice-versa. Nas sociedades pós-industriais, por exem-
plo, o mito de Prometeu, símbolo das imagens heroicas e da força da
razão e do individualismo, presentes no século XX, começa a ser obs-
curecido pela presença de Dionísio, que representa as imagens do femi-
nino, marcadas pela prevalência do sentir sobre o analisar, enfim, pela
reintegração do inconsciente e do subjetivo ao racional e ao intelectual.
O masculino e o feminino substituiriam, por conseguinte, a dialética
entre a ordem e a desordem. Enquanto o universo masculino é solar,
diurno, apolíneo, a representação feminina é lunar, noturna, dionisía-
ca. De que forma as estruturas do imaginário de Gilbert Durand podem
apoiar nossa reflexão sobre as difíceis e complexas relações entre a mu-
lher e o poder no Brasil, contribuindo para uma hermenêutica sobre o
impeachment de Dilma Rousseff?
A imagem do trabalho no Brasil é especialmente significativa para
as análises de gênero, especialmente, para os estudos do imaginário do
poder. Afinal, a divisão do trabalho moderno segundo o sexo, destinado
a estimular relações de dependência entre homens e mulheres, é fruto
de uma sociedade prometeica, que encontrará sua anima na represen-
tação da mulher enquanto “esposa-dona de casa-mãe de família”, ofe-
recendo-lhe o lugar da vigília, dos afazeres domésticos e dos cuidados
familiares. Se, em meados do século XIX, com o surgimento da socie-
dade industrial, a força de trabalho feminino começa a escapar da esfera
doméstica, a sociedade burguesa encontrará seus modos de enfrentar
essa realidade, a partir da construção de discursos moralistas contra as
mulheres. O disciplinamento de ritos e a definição dos significados dos
símbolos acabam por domesticar desejos e destruir sonhos. Destinada

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à tarefa do “chão de fábrica”, a mulher operária não tem participação
nas entidades de classe nem nos sindicatos. É o que observa Margareth
Rago (1987, p. 65):

Certamente, a construção de um modelo de mulher simbolizado pela mãe devota-


da ao sacrifício, implicou na sua completa desvalorização profissional, política e in-
telectual. Esta desvalorização é imensa porque parte do pressuposto de que a mu-
lher em si não é nada, de que deve esquecer-se deliberadamente de si mesma e
realizar-se através dos êxitos dos filhos e do marido.

O campo profissional da mulher nas sociedades industrializadas


é, portanto, reduzido e subalterno, pois representa a antítese do lar.
A elas são interditados os cargos de chefia e os processos decisórios.
Para o imaginário operário, a mulher simbolizará a fragilidade, assim
como a figura vítima da exploração do sistema capitalista, enquanto a
maternidade lhe garantirá a simbologia de guardiã do lar e de instru-
mento da procriação. É o que estabelecem, por exemplo, os documentos
da Câmara Federal sobre as condições do trabalho da mulher, produzi-
dos pelos deputados em 1919, com o objetivo de produzir-se uma legis-
lação social (MOURA, 1982 apud RAGO, 1987, p. 69):

Somos todos concordes em considerar que o trabalho é o aviltamento e a escravi-


dão da mulher, porque é o fim da solidariedade conjugal, da família. O verdadeiro
reino da mulher é o lar. Se ela o abandona, se ela não sabe aí servir ao homem e aos
filhos, acabou-se o seu poder, foi-se a sua influência.

Ao mito do amor materno é, ainda, acrescentada a força simbólica


dos discursos científicos, que legitima os limites da atuação feminina
no mundo do trabalho. Enquanto ao homem é destinada a esfera públi-
ca, caberá à mulher a vida privada, a intimidade das alcovas, a invisibi-
lidade na vida social, política, econômica e cultural. Enfim, será con-
siderada “normal” a mulher que demonstrar o sentimento inato, puro

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e sagrado da maternidade, sentimento este considerado natural e, por
isso, presente em todas as fêmeas no planeta.
Mas as representações da natureza feminina também se identificam
às imagens bíblicas de Maria, aquela que, de forma (des)sexualizada,
torna-se mãe do salvador. Tais quais as imagens da cristandade, a mãe
-esposa-dona de casa é representada de forma pura, ordeira e passiva.
A Igreja e o Estado se encarregam de disseminar, por meio de seus sím-
bolos, mitos e representações, o ideal feminino que melhor convém ao
sistema econômico, social e cultural. Quaisquer comportamentos des-
viantes deste modelo são punidos como pecados pela Igreja ou como
atos subversivos pelo Estado.
De forma antagônica e complementar às imagens da pureza, também
surgem, ao longo das civilizações, imagens profanas da mulher eroti-
zada, mundana, de sexualidade insubmissa. Desde o Brasil Colônia, a
misoginia e o racismo estiveram presentes e foram decisivos na forma-
ção da nossa sociedade patriarcal. O imaginário do Brasil República não
se distancia da bacia semântica do Brasil Colônia. As representações da
mulher estão sempre associadas dialogicamente às imagens da mulher
do lar assim como às da mulher vadia, perdida, enfim, a louca da casa.
Essas observações nos permitem constatar que, em pleno século
XXI, a presidenta da República Dilma Rousseff será, ao mesmo tempo,
simbolizada pelo arquétipo da mãe (quando seu antecessor a nomeia
como a “Mãe do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”), ao
mesmo tempo em que é desqualificada pelos seus opositores por meio
de uma retórica sexista e homofóbica. É o caso da narrativa do deputado
Jair Bolsonaro, ao condenar a tentativa do Ministério da Educação de
adotar cartilha contra preconceitos sexuais, quando afirma que: “a pre-
sidente deve parar de mentir. Se gosta de homossexual que assuma. Se o
teu negócio é amor com homossexual assuma... Esse kit gay é o presente
de natal que a Dilma Rousseff está proporcionando para as famílias po-
bres do Brasil”. (VIRISSIMO; OLIVEIRA, 2011)
Desde os primórdios do Brasil República, o Movimento Anarquista
construiu um contradiscurso à dominação machista. Contudo, a reação

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anarquista irá corroborar as representações negativas sobre a vida po-
lítico-partidária: “A política de partidos é sinônimo de farsa, astúcia,
ambição, de hipocrisia e preconceito.” (MOURA, 1932 apud RAGO,
1987, p. 101). Se a imagem da pureza, associada à mulher, não encon-
tra respaldo na atividade política, a mulher que exerce cargo político
carrega consigo o peso da mulher sem princípios, da mulher vadia, da
mulher da rua e não da casa. Nesse sentido, o vereador José Crespo do
Partido Democrático Brasileiro (DEM) corrobora nossa observação ao
escrever, em março de 2016, na sua rede social, um post denominado:
“RENUNCIA, VAGABUNDA”. Acrescente-se a isso o artigo “Vaca até
quando?”, da jornalista Marina Rossi, no jornal El País, de março de 2015:

Durante o pronunciamento em rede nacional de Dilma Rousseff no Dia Internacional


da Mulher em 2015, centenas de brasileiros, em 12 capitais do país foram até as ja-
nelas e sacadas dos prédios e bateram panelas para se manifestar contra a presidenta.
Piscaram as luzes de casa, buzinaram nos carros e gritaram. Além do barulho da co-
lher no teflon, foi possível ouvir xingamentos, como ‘vaca’, ‘puta’ e ‘arrombada’, dire-
cionados à presidenta.

A construção simbólica do poder observa a proximidade ancestral


do imaginário político e religioso. Se observarmos através de está-
tuas, as representações do poder nas cidades do mundo, as mulheres
representadas são, na sua grande maioria, rainhas ou santas! Embora
as sociedades tenham buscado emancipar o imaginário político do re-
ligioso, não podemos afirmar que nas sociedades pós-industriais essa
dessacralização seja uma realidade, pois as imagens do chefe e do líder
continuam promíscuas às imagens do pai e do salvador no imaginário
brasileiro. Mesmo os regimes democráticos não estão infensos às repre-
sentações do poder das multidões.
Nas análises acerca da personalidade da presidenta, por exemplo, as
críticas ao seu estilo de governar sempre foram abundantes, especial-
mente, nas classes médias e altas, entre homens e mulheres. De um

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lado, o público masculino denunciava sua incapacidade de “negociar” e
sua falta de apetite em urdir acordos políticos – um talento considerado
“masculino”–; de outro, segmentos de mulheres observavam que o seu
modo de ser – de vestir-se, de portar-se – estava distante das expectati-
vas acerca de um certo ethos feminino. Essas percepções são importan-
tes para que possamos observar que, como todo o imaginário, a esfera
do político é composta por um complexo de imagens, cujas representa-
ções encontram maior ou menor acolhida na vida dos indivíduos.
As grandes construções da imaginação social estão disponíveis para
as pretensões mais antagônicas. O imaginário político é, sem dúvida,
o reflexo da cultura, do frágil equilíbrio entre as diferentes linguagens
que dispomos para dar significado ao que somos e ao que fazemos.
(ARAÚJO; BAPTISTA, 2003, p. 262) Estas reflexões nos permitem in-
dagar: o poder presidencial e suas prerrogativas, exercidos por Dilma
Rousseff, encontraram adesão pública no Brasil?
Ora, o saber foi interditado à mulher por milênios. E, por conse-
quência, à mulher foi negado o exercício do poder. O saber, como o
sagrado, foi considerado o apanágio de Deus e do homem (PERROT,
2012, p. 91) e, por isso, a interpretação dos textos religiosos, como as
escrituras do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, foi reservada
predominantemente ao mundo masculino. Para os gregos, a criação é
uma tarefa masculina, o que fundamentará o distanciamento da pro-
dução artística e científica do imaginário feminino. A educação, mesmo
na Idade das Luzes, também foi considerada um privilégio dos homens.
Mesmo Rousseau enfatizou o papel subalterno da mulher, sempre ca-
racterizado pelos seus deveres junto aos homens.
O avanço da mulher, nos últimos cem anos, na construção de um
protagonismo nas artes, nas ciências, na política, na administração e
em muitas profissões consideradas tipicamente masculinas, não tem
ocorrido sem dilemas e conflitos. Ocupar espaços interditados, sa-
ber para poder, conhecer para ser reconhecida, transfigurar símbolos
para ampliar imaginários vem sendo uma tarefa árdua e complexa. Por

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outro lado, em uma sociedade marcada pelo autoritarismo, a atividade
político-partidária se mantém conectada à bacia semântica das ima-
gens patriarcais, de um lado, marcadas pelo messianismo (simboliza-
da pela imagem do caçador de marajás, construída pela campanha para
Fernando Collor de Melo à presidência), de outro, pela negação ou mes-
mo desprezo à atividade política (simbolizada pela campanha de João
Doria Jr à prefeitura de São Paulo, que construiu a imagem do gestor
competente e antipolítico). Duas grandes representações da política
convivem no imaginário brasileiro:

De um lado, aqueles bens intencionados, por uma causa ingrata dotados de elevado
espírito público, mas ingênuos, que estariam arriscando sua segurança e de sua fa-
mília, que não lhes dará em troca senão decepções e prejuízos. De outro lado, mos-
trariam interesse pela política, as pessoas maliciosas, espertas, de escrúpulo discu-
tível, para as quais essa atividade representaria, mais que tudo, uma oportunidade
de obter vantagens pessoais à custa do erário público. (TABAK; TOSCANO, 1982,
p. 56)

Ressalvados os períodos de exceção, nos quais o interesse coletivo


desperta, como reação aos desmandos ditatoriais, a apatia, a inapetência
e a passividade no exercício da política vêm revelando, cada vez mais,
a sociedade o apartheid entre a nova sociedade de redes e os interes-
ses corporativos representados nas bancadas congressuais. Se o apetite
pela vida político-partidária arrefece no mundo e no Brasil, é evidente
que o protagonismo feminino no cenário político é reduzido. Afinal,
no imaginário brasileiro, a imagem da mulher na política é o da com-
panheira abnegada, da esposa amantíssima, da confidente e cúmplice,
sempre solidária às ambições, às agruras e aos desafios de seus maridos.
Tal qual o mito de Penélope, do amor que não se cansa de esperar, reser-
va-se, naturalmente, às mulheres, filhas e viúvas dos políticos brasilei-
ros o panteão da lealdade e da dedicação. Como Penélope, que espera
Ulisses voltar da guerra de Troia, e que borda para enganar o tempo, as

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mulheres participam das suas sombras das trajetórias de seus maridos.
Impossível lembrar do nosso Ulysses brasileiro sem a figura de Dona
Mora, de Vargas, sem a filha Alzira e, atualmente, de Eduardo Campos,
sem Renata. Portanto, no imaginário brasileiro, a ação política femini-
na encontra-se historicamente marcada, ora pelo altruísmo, solidão,
culpa e desamparo, ora pelo mundanismo, futilidade, superficialidade
e fragilidade e, por fim, pelas imagens da insensibilidade e dureza, ou
seja, pela masculinização.
Assumir suas guerras e travestir-se de Ulisses não é, portanto, uma
tarefa desejável para as “boas” mulheres, ambição inoportuna em um
país onde as próprias mulheres têm dificuldades em votar em candida-
tas mulheres. As pesquisas capazes de aprofundar esse comportamento
feminino ainda não são satisfatórias, pois necessitaríamos aprofundar
as subjetividades femininas e analisar os mitos aos quais suas represen-
tações estão historicamente conectadas: ausência de capacidade de lide-
rança, excesso de emotividade, pouca habilidade para a gestão, são algu-
mas entre várias representações negativas da mulher como um “animal
político”. A história eleitoral brasileira expressa a grande lacuna de mu-
lheres na vida política do país:

Nas primeiras eleições à Assembléia Constituinte, logo após a queda da ditadura


Vargas, apresentaram-se 18 candidatas, por diferentes Estados da Federação, não
tendo nenhuma delas obtido votação suficiente para eleger-se. Assim, a mulher,
que 14 anos havia começado a exercer o direito do voto, elegendo à Constituinte
uma deputada e uma suplente, recuara, em 1946, para uma atuação eleitoral inex-
pressiva, em termos de representatividade, e que não refletia, em absoluto, seu de-
sempenho nos agitados anos que antecederam a deposição de Vargas. (TABAK;
TOSCANO, 1982, p. 66)

Na história política brasileira, a presença feminina é, portanto, des-


contínua, com altos e baixos, diferentemente do número sempre cres-
cente da participação da mulher na força de trabalho em geral. Os mo-
vimentos feministas, que vêm conseguindo dar institucionalidade e
governabilidade a uma agenda de políticas públicas para as mulheres,

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não têm obtido êxito em atrair um contingente mais expressivo de li-
deranças femininas para os poderes legislativos municipais, estaduais
e federal. Enfim, embora com proventos desiguais relativamente aos
do homem nas mesmas funções, não se pode negar que a mulher con-
quistou novos espaços sociais, ocupando lideranças em áreas tecnoló-
gicas, acadêmicas, artísticas, de gestão de negócios, entre tantas outras,
que até bem pouco tempo eram hegemônicas do público masculino.
No entanto, esses avanços não têm ocorrido no lócus político-partidá-
rio. Mas, o que justificaria essa realidade? E em que medida esse fato se
conecta com o impeachment de Dilma Rousseff?
Estudiosos do imaginário carregam consigo alguns “vícios” na ob-
servação do social. Na posse de Michel Temer, as imagens de sua posse
não poderiam ser mais simbólicas, permitindo ver o reaparecimento
de uma velha semente mítica do imaginário brasileiro que voltaria a
germinar. A lógica aristotélica do “só encontras aquilo que procuras”
(DURAND, 1996, p. 113) não poderia ser mais oportuna. Homens de
pele branca, de idade avançada, oriundos da mesma classe social reu-
niam-se para ritualizar a volta daqueles que nunca saíram do poder. Se
um metalúrgico assume a presidência da República, oito anos antes de
Dilma Rousseff, uma leitura apressada nos levaria a acreditar que es-
ses dois mandatos simbolizariam a irrupção de um novo mito, marca-
do desta feita pelos valores prometeicos da Modernidade: a liberdade, a
igualdade e a fraternidade. Lula carrega consigo a ambição de Prometeu,
que representa o regime diurno/heroico do fazer, do superar, daquele
que rouba de Zeus o fogo para trazê-lo aos mortais. Mas a vingança de
Zeus não tardará. Acorrentado para ter seu fígado comido eternamente
pelos abutres, Prometeu pagará pela ousadia.
Na tentativa de dar perenidade às tarefas de Prometeu e aos seus valo-
res modernos, uma mulher é escolhida para ocupar o seu lugar. Afinal,
o operário e a mulher estiveram juntos ao longo dos séculos XIX e XX
lutando pelos seus direitos, irmanados, em princípio, pelas mesmas
causas, pelos mesmos sonhos de igualdade, liberdade e fraternidade.

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Mas a guerra de Penélope não se dará com as mesmas armas utilizadas
por Ulisses. O mito de Prometeu, nas mãos da presidenta, entra em
desgaste e em declínio. Afinal, Dilma não pode ser Ulisses e, enquanto
Penélope, não poderá reverter as “regras do jogo”. Estranha e previsível
repulsa por essa mulher presidenta que não poderá representar o mito
triunfalista do homo-faber. Como Georges Sand, escritora francesa que
abandona sua identidade feminina, para adentrar no mundo masculino
da literatura, assumindo pioneiramente o uso das calças masculinas,
também Dilma Rousseff o fará, para penetrar no mundo masculino da
política. Mas todas as tentativas serão vãs. Mulher e feminilidade, ca-
racterizados pelo regime noturno e sua estrutura mística não encontra-
rão acolhida na sociedade patriarcal e suas virtudes virís.
Instalado o governo Temer, seu primeiro ato foi de extinguir o
MinC. O clamor das classes artísticas e culturais, no entanto, o obri-
garam a devolver a institucionalidade ao Ministério. Nesse ínterim, o
presidente compreende a importância estratégica de convidar algumas
mulheres para compor o seu governo, na tentativa de aplacar as reações
contra a legitimidade de seu mandato. Afinal, oferecer a uma mulher
o cargo maior de uma pasta periférica seria convincente e oportuno.
Dessa forma, mulheres passaram a ser convidadas e a declinarem do
convite. Eu mesma recebi um telefonema de gestores públicos do Rio li-
gados ao PMDB que me sondaram neste sentido. Caso aceitasse, o meu
nome seria sugerido ao presidente. Uma mulher nordestina certamente
seria bem vista em um governo de homens sudestinos. Minha resposta
à sondagem foi um sonoro “não”!
Lembro de uma palestra que assisti de Gilbert Durand na Sorbonne,
quando fazia meu doutorado, e de suas palavras sobre o Brasil. O cria-
dor das estruturas antropológicas do imaginário dizia que o Brasil não
era uma pátria, mas uma nação que havia nascido sob a égide do femini-
no. Para o sociólogo, o Brasil seria, mais cedo ou mais tarde, uma grande
“mátria”, pois o homus novus brasiliensis é filho dileto da “pátria mãe
gentil”, símbolo da fecundidade e cadinho da feminilidade:

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[...] a despeito das proezas dos bandeirantes, das revoltas heroicas da inconfidência
mineira, das revoltas vãs dos paulistas e dos cangaceiros do Nordeste, as profunde-
zas da alma brasileira são esta mística terrena, essa imensa natureza feminizada,
encarnada ao mesmo tempo na mãe amamentadora negra, na amazona feroz, na
amante mestiça, na nobre companheira da pele branca [...]. (DURAND, 1996,
p. 203)

Durand e Caetano Veloso não estão errados. O nosso tropicalis-


ta maior, quando compôs “Língua” diz não ter pátria e, sim, mátria!
“Conhece-te a ti mesmo”, essa é, sem dúvida, a máxima do homo sa-
piens. Lutar contra os deuses é lutar contra a própria condição humana.
Em nosso imaginário luso-brasileiro a virtude da conquista é mascu-
lina. Mais do que construir um projeto de poder político capaz de reu-
nir cinco continentes, a colonização portuguesa hibridizou culturas e
transfigurou imaginários. Fernando Pessoa descreveu em sua poesia o
ethos navegador português. Em seu “Mar Português” (1974, p. 82) saúda
a coragem dos navegadores, mas reserva às mulheres um lugar subal-
terno: “[...] Por te cruzarmos, quantas mães choraram... quantas noivas
ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! [...]”.

Notas
1 Ver Leitão e Machado (2016).

Referências
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significados, desafios e perspectivas da economia criativa brasileira. Belo
Horizonte: Código, 2016.

i m a g i n á r i o , m u l h e r e p o d e r n o b r a s i l    6 3

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LEITÃO, C. S. Ter ou não ter o direito à criatividade, eis a questão:
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In: LEITÃO, C. S.; MACHADO, A. F. (Org.). Por um Brasil criativo:
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PERROT, M. Minha história das mulheres. 2. ed. São Paulo, Contexto,


2012.

PESSOA, F. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974.

PITTA, D. P. R. Iniciação à teoria do imaginário de Gilbert Durand. Rio de


Janeiro: Atlântica, 2005.

RAGO, L. M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar, Brasil:


1890-1930. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

ROSSI, M. “Vaca” até quando?: no Dia Internacional da Mulher, a


presidenta Dilma Rousseff é xingada e isso incomoda homens e mulheres,
eleitores dela ou não. El País, São Paulo, 9 mar. 2015. Machismo na
política. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/09/
politica/1425911342_272443.html>. Acesso em: 30 jul. 2017.

STRONGOLI, M. T. de Q. G. Encontros com Gilbert Durand: cartas,


depoimentos e reflexões sobre o imaginário. In: PITTA, D. P. R. (Org.).
Ritmos do imaginário. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2005. cap. 8,
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TABAK, F.; TOSCANO, M. Mulher e política. Rio de Janeiro: Paz e Terra,


1982.

VIRISSIMO, V.; OLIVEIRA S. PT pede cassação de Jair Bolsonaro por


discurso ofensivo a Dilma Rousseff. Sul21, [Porto Alegre], 25 nov. 2011.
Disponível em: <http://www.sul21.com.br/jornal/pt-vai-pedir-a-
cassacao-de-bolsonaro-por-discurso-ofensivo-a-dilma/>. Acesso em: 30
jul. 2017.

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O g olpe e a s perda s de dir eitos
par a a s mulher es

Eleonora Menicucci*

O golpe parlamentar que retirou do poder a pre-


sidenta Dilma Rousseff em maio de 2016, para além * Professora titular de Saúde
Coletiva da Universidade Federal
de ter sido um movimento visando interromper um de São Paulo (UNIFESP). Foi
processo de mudanças sociais no Brasil, tem tam- ministra da Secretaria de
Políticas para as Mulheres do
bém um componente forte de discriminação de gê- governo eleito de Dilma
nero. Dilma foi a primeira mulher eleita presidenta Rousseff.
em um país de cultura marcadamente patriarcal.
Assumindo o governo, não apenas continuou
o programa de inclusão social iniciado pelo presi-
dente Lula em 2003, mas aprofundou-o em muitos
de seus aspectos, principalmente em relação às po-
líticas para as mulheres. Estava dada a senha para
que os opositores do projeto – o grande capital,
notadamente o financeiro e a mídia, na qual três

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famílias detêm o controle dos principais veículos de comunicação –
pusessem em marcha a engrenagem que levou ao golpe.
A esse agrupamento logo se juntaram setores majoritários da classe
média, incomodados com a ascensão de milhões de brasileiras e de bra-
sileiros ao que se convencionou chamar de nova classe média, ou me-
lhor dito, nova classe trabalhadora, que teve o poder de compra amplia-
do como nunca visto na história do Brasil. Reclamavam, por exemplo,
de os aeroportos terem ficados parecidos com as estações rodoviárias
já que os aumentos de salários acima da inflação e uma melhor distri-
buição de renda permitiu o acesso desses emergentes às viagens aéreas.
Isso acabava com a distinção e privilégio que lhes parecia natural,
quase um dom divino de não pertencerem à mesma classe social dos até
então excluídos. Um grande número de novos consumidores passou a
ter acesso também a celulares e à internet, à compra de automóveis e
bens de consumo duráveis, acesso às universidades, entre tantas outras
conquistas que mudaram o panorama da vida brasileira.
Partindo dessa análise é que afirmo que estamos há um ano sob a
vigência de um golpe patriarcal, machista, sexista, capitalista finan-
cista, fundamentalista, mediático e parlamentar que retirou da pre-
sidência da República a primeira mulher eleita e reeleita com mais de
54 milhões de votos. Ou seja, nesse caldeirão de interesses, é preciso
enfatizar a dificuldade em aceitar que o poder era exercido por uma
mulher. E a trataram com a falta de cerimônia, civilidade e respeito
que caracterizam o comportamento machista em relação às mulheres
em geral, como veremos mais adiante.
Quem são os articuladores desse golpe em vigência? São homens
brancos, ricos, violentos e vorazes que se explicitaram como estrutu-
rantes do patriarcado brasileiro que une gênero, raça e classe. A foto da
posse do ministério de Michel Temer chocou a população. Não havia
ali uma mulher sequer, ou uma pessoa negra. Todos se caracterizam
por pertencerem à mesma classe social e aos mesmos grupos de in-
teresse. E uma grande parte acusada de corrupção, hoje comprovadas
por uma série de denúncias.

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Em menos de um ano, com uma voracidade jamais vista, desmonta-
ram as políticas sociais que sustentam a vida cotidiana, eliminam direi-
tos civis, sociais e trabalhistas que garantem a cidadania e privatizam
bens públicos. A Petrobrás, que está sendo fatiada e vendida ao capital
internacional, é um bom exemplo disso. E mais, ameaça-se vender as
terras brasileiras a estrangeiros, o que é vetado até hoje. Ou a privatizar
o enorme aquífero existente no subsolo nacional.
São retrocessos decorrentes da implantação das políticas em que o
foco não é a inclusão social e de garantia dos direitos humanos funda-
mentais. Recentemente, o Ministério da Educação publicou as Diretrizes
Curriculares Nacionais, que vão orientar o ensino em toda a educação
básica brasileira. Elas foram fruto de um minucioso trabalho de consul-
tas e discussões com todos os atores interessados durante o governo da
presidenta Dilma. No entanto, a nova versão do governo golpista elimi-
nou do texto todas as referências à gênero e orientação sexual. Um re-
trocesso enorme nos direitos humanos, que visa atender os setores mais
conservadores e fundamentalistas da sociedade.
Esse conjunto de “reformas”, com ingredientes de ordem política e
social, se assenta em especial nas mudanças da política econômica, com
forte desregulamentação e orientação para os interesses do mercado.
O foco está em arrecadar mais recursos para o pagamento dos juros
exorbitantes da crescente dívida pública. Ou seja, parte do orçamento
da União é voltado para os rentistas, isto é o que se chama economia
rentista. O capital financeiro aplaude e agradece. Enquanto a maioria da
população brasileira, pobre, é retirada do orçamento da União.
Um retrospecto da linha do tempo do golpe, que teve seu início com
as manifestações de 2013, deixa claro que o capital que rege os envol-
vidos aproveitou e financiou as manifestações de direita, conhecidas
como coxinhas. A primeira delas se deu com a violência sexual explícita
contra a presidenta na abertura da Copa do Mundo em 2014, quando
torcedores ricos e da direita gritaram contra ela palavras de baixíssi-
mo calão e de significado sexual – “Ei, Dilma VTNC”. Manifestação

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amplificada com indisfarçável prazer pela mídia. E continuou ao longo
do processo que culminou com o impedimento da presidenta.
Esse período ficou marcado por manifestações de rua que brada-
vam contra a corrupção – embora até os adversários reconhecessem que
Dilma não era corrupta. E, ainda, com slogans nitidamente fascistas,
racistas e misóginos. Ainda provoca imensa indignação, por exemplo, a
lembrança de adesivos fartamente distribuídos mostrando Dilma com
as pernas abertas para serem colados nos tanques de gasolina dos veí-
culos. Quando tal tipo de agressão seria cometida contra um homem?
Ainda causa vergonha e revolta nas pessoas sérias, ainda que de oposi-
ção ao governo Dilma, a sessão da Câmara dos Deputados que autorizou
o afastamento da presidenta. Nesta sessão um deputado, no momento
em que votava, homenageia um dos maiores torturados de nosso país.
Foi muito mais uma sessão de horrores e deboches, quando depu-
tados e deputadas se manifestaram pelo sim em nome da família, da
propriedade, da pátria e da tortura. A maioria deles e delas notoriamen-
te corruptos e de passado pouco recomendável. Interessante notar que
nenhum apresentou argumentos que comprovassem as acusações que
pesavam contra a Presidenta. Tal demonstração de baixeza e falta de de-
coro político seria o suficiente para anular o resultado da sessão. O que
não ocorreu, porque o golpe já estava em processo, independentemente
de comprovação das acusações, pois elas interessavam muito pouco.
O protagonismo das mulheres na luta da resistência, na luta contra
o golpe, teve, sem dúvida alguma, um primeiro motivo. Na eleição e na
reeleição da presidenta Dilma, as mulheres brasileiras se sentiram muito
representadas. Era uma mulher igual a elas, uma mulher divorciada, não
era mulher laranja, era uma mulher com a retidão de vida – ética, honesta
e sempre com a vida pautada na luta pela democracia e pela justiça social.
Então elas pensaram: eu posso também. Nesse eixo simbólico, sentiam
que o que estavam fazendo com Dilma também era feito com elas. E re-
sistiram, mandaram-lhe flores, abraçavam-na quando a encontravam.

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São dois fatores estruturantes desse protagonismo. O primeiro, ine-
quívoco, que é do valor simbólico – “mexeu com uma, mexeu com todas”.
O segundo é agora, porque na época do golpe o retrocesso era de gênero,
retirar uma mulher e 11 ministras do poder. Agora, na resistência, com
essa avalanche de medidas retroativas, de crueldade que o governo gol-
pista está implementando, as mulheres viram que, além desse simbóli-
co, há a perda de direitos concretos. As mulheres conquistaram com a
Constituição Federal de 1988 o direito de aposentadoria com cinco anos
a menos de idade e com cinco anos a menos de contribuição. Com essa
reforma da previdência tudo vai se igualar, elas terão que trabalhar 49
anos para receber 100% da aposentadoria. E isso foi determinante para
que elas estivessem na linha de frente da resistência ao golpe até hoje,
independentemente de partido. Houve o carnaval do Fora Temer e mar-
chas com milhares de participantes no 8 de março, Dia Internacional da
Mulher, a palavra de ordem, de novo, foi o “Fora Temer”. A greve geral
contra as perdas de direitos, as grandes manifestações pelas “Diretas
Já”, tudo isto está num crescente tomando as ruas do nosso país.
Na verdade, as mulheres experimentaram durante os governos Lula
e Dilma, conquistas importantíssimas com a implementação de polí-
ticas sociais, que beneficiaram e beneficiam a população mais pobre
do nosso país. E quem são os pobres? A população negra e a população
feminina. Foram tirados 40 milhões de pessoas da pobreza. O Bolsa
Família passa a ser visto pelas mulheres como um acesso à cidadania,
porque o cartão para saque do benefício estava em seu nome; a entrega
de mais de 1 milhão de documentos de identidade a trabalhadoras ru-
rais, até então sem qualquer registro civil; as cisternas para trazer água
para as casas da região Nordeste do país, constantemente assolada pela
seca. Nesse caso, a principal beneficiária é a mulher, porque tradicional-
mente cabia a elas andar quilômetros para buscar água que abastecesse
a casa e a família.
Em outros programas importantes, como o “Minha Casa, Minha
Vida” que beneficiou milhares de famílias pobres. A titularidade é, em

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muitos casos, para as mulheres, porque, em casos de separação conju-
gal, quando elas ficam com a responsabilidade pelos filhos, é impor-
tante garantir a moradia da família. No Programa Nacional de Acesso
ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) elas responderam pela maioria
das matrículas. O interessante é a mudança do perfil de frequência aos
cursos. Elas optaram, em grande número, não por conhecidos cursos
para as mulheres – manicure, cabeleireira, costureira – e sim pelas pro-
fissões que lhes permitiriam trabalhar nas plataformas de petróleo, na
direção de veículos pesados, mecânicas, eletricistas, em profissões na
construção civil e no conserto de produtos da indústria branca (gela-
deiras, máquinas).
A Secretaria de Políticas para as Mulheres com status de Ministério,
criada no governo Lula, avançou demais no governo da Dilma, nas po-
líticas de enfrentamento à violência, com programas importantíssi-
mos, como o Mulher Viver sem Violência no valor de 360 milhões de
reais, com seis ações para o enfrentamento à violência contra as mu-
lheres: construção de 27 Casas da Mulher Brasileira, uma em cada es-
tado para reunir, em um só espaço físico, todos os serviços necessários
para acabar com a via sacra das mulheres que foram agredidas e estu-
pradas. Inauguramos três casas (Campo Grande, Brasília e Curitiba) e
deixamos em processo de construção mais seis (São Paulo, Salvador,
Fortaleza, São Luiz, Boa Vista e Porto Velho).
Hoje é lamentável que as três que já existiam não estejam mais fun-
cionando. A de São Paulo, que foi entregue no final de 2016, encontra-se
fechada envolta pelo mato, sem nenhuma satisfação da informação so-
bre o que foi feito com os recursos públicos repassados. Também foram
entregues 54 ônibus para percorrerem áreas rurais levando atendimen-
to às mulheres vítimas de violência; o disque 180, os barcos onde estão?
Este é um dos maiores exemplos do desmonte das políticas públi-
cas para as mulheres.
Também foi sancionada a Lei do Feminicídio, Lei nº 13.104/2015,
pela presidenta Dilma, que tipifica a morte de mulher por questão de
gênero, como crime hediondo variando a pena de 12 a 30 anos.

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Feminicídio é um crime de ódio e seu conceito foi desenvolvido na
década de 1970 para reconhecer e dar visibilidade à morte violenta de
mulheres resultante da discriminação, opressão, desigualdade e vio-
lência sistemáticas.
Na área da Saúde, a presidenta sancionou uma portaria para uni-
versalizar o atendimento às mulheres em situação de violência e de
estupro, com oferta da contracepção de emergência e aborto, nos casos
previstos em lei. Registre-se, ainda, a aprovação da proposta de emen-
da à constituição, que incluiu as empregadas domésticas no acesso aos
benefícios já concedidos às outras categorias profissionais. Sancionada
pela presidenta, essa Proposta de Emenda Constitucional (PEC), ficou
conhecida como a PEC das Trabalhadoras Domésticas. Vale lembrar que
mais de 90% de trabalhadores domésticos são mulheres. A maioria ne-
gras e de baixa escolarização.
Foram avanços enormes e a maioria deles foi estancado, desestru-
turado ou paralisado. Em momentos de crises, Simone de Beauvoir já
disse que os cortes acontecem primeiro nas ações voltadas para a vida
das mulheres. Isso porque o patriarcado é o sustentáculo do capitalis-
mo, o sustentáculo das políticas neoliberais. Estamos vivendo, portan-
to, muitos retrocessos e perdas de direitos. Se a reforma da Previdência
Social (que regula a pensão e aposentadoria de todas as trabalhadoras e
trabalhadores brasileiros) for aprovada será a mais cruel e a mais trágica
para toda a população, mas, sobretudo, para as mulheres. Do ponto de
vista do ensino, a aprovação da reforma do ensino médio com a inclu-
são na base nacional do currículo da perspectiva da Escola Sem Partido,
sem as disciplinas críticas, a exemplo sociologia, filosofia e educação
física, o objetivo é formar cidadãos e cidadãs adestradas. São impactos
que provocam retrocessos e colocam as mulheres em lugares dos quais
já saíram, que são o tanque, a cozinha e o fogão, século XX. É muito re-
trocesso e muita perda de direito, isso não pode ser aceito.
Todas essas políticas exigiram um debate pesado com o Congresso
Nacional, por ser uma das legislaturas mais conservadoras que já

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passaram pelo congresso. Foram duríssimos os embates, sendo que o
debate sobre o aborto como uma questão de saúde coletiva nunca pôde
ser feito.
Esse retrocesso, no plano político, é representado, por exemplo, pelo
número irrisório de ministras (apenas duas em 27 ministérios). E no
desmonte de programas que garantiriam a emancipação e a igualdade
de gênero. No aspecto referente à mulher na sociedade, o símbolo é a
exaltação da primeira dama como o exemplo de mulher “bela, recatada
e do lar”, em clara oposição à imagem da presidenta Dilma. Ainda nesse
campo, o pronunciamento de Michel Temer na solenidade em homena-
gem à mulher no dia 8 de março foi elucidativo, particularmente quan-
do enalteceu o que vê como qualidades e responsabilidades das mulhe-
res: educação das crianças e pelo bem estar da família. E culminou com
a lembrança de que elas podem ter grande participação na economia,
porque “ninguém mais é capaz de indicar os desajustes de preços no su-
permercado do que a mulher”. (AMARAL, 2017)
Os movimentos feministas e de mulheres reagem e denunciam tal
rebaixamento nas redes sociais e nas manifestações de rua. Uma emis-
sora poderosa de televisão, em uma semana, teve que responder a essa
reação. Puniu um ator consagrado, afastando-o das novelas por assédio
sexual a uma funcionária, e eliminou um concorrente de um programa
de entretenimento chamado Big Brother Brasil, por agressão à namora-
da na casa onde os participantes ficam confinados.
Duas situações são emblemáticas da permanência e consolidação,
porque não falar legitimação da cultura da violência e do estupro: a mi-
nha condenação, por exemplo, emitida por uma juíza, a pagar a um de-
terminado ator 10 mil reais por eu ter criticado a sua postura numa rede
de TV, alegando que ele fazia apologia do estupro; a outra, recentemen-
te contra a deputada Maria do Rosário, agredida por um humorista que
divulgou via internet, gestos de violência sexual contra ela.
Também fazendo contraponto ao retrocesso, o jornal digital Brasil 247,
lembrou em artigo que “um ano depois do golpe, Dilma dá palestras na
Europa e nos Estados Unidos, enquanto Michel Temer mal consegue sair

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do seu palácio, mas a mulher brasileira foi rebaixada”. (GOLPE..., 2017)
Nesse contexto, é de se lamentar, embora não seja de se estranhar, que o
Ministério da Mulher tenha sido rebaixado ao nível de uma secretaria na-
cional, terceiro escalão da Secretaria Geral da presidência da República,
sem autonomia e sem recursos para implementar minimamente projetos
que atendam às necessidades e reivindicações das mulheres.
Do ponto de vista de avanços ou de manutenção dos direitos con-
quistados, tudo isso é muito ruim. E a perspectiva é piorar. É consolidar
a perda dos direitos. E acredito que se as mulheres não estiverem nas
ruas com informações para reivindicar, para protestar, para mostrar o
que perdemos e o que vamos perder, será muito difícil retomarem uma
questão fundamental: a democracia. Porque, como militante contra a
ditadura militar depois presa e torturada, sei quanto sangue a minha
geração derramou para reinstaurar a democracia no nosso país.
Hoje o cenário brasileiro se apresenta como um dos mais perigosos
da história do Brasil: a judicialização da política, a crescente crimina-
lização dos movimentos sociais e dos partidos do campo de centro es-
querda, a explicitação total do grupo que liderou o golpe que hoje está
no executivo, no consórcio dos três grandes grupos da mídia, no judi-
ciário, no tucanato e grandes empresários.

Referências
AMARAL, Luciana. “Temer diz que só mulher é capaz de iniciar
‘desastres’ de de preço no mercado”. G1 Online, 08 mar. 2017. Dispo´nivel
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como-figura-de- segundo-grau-no-brasil-diz- temer.ghtml>

GOLPE misógino rebaixou a mulher brasileira. Brasil 247, [S.l.], 10


abr. 2017. Disponível em: <https://www.brasil247.com/pt/247/
brasil/289739/Golpe-mis%C3%B3gino-rebaixou-a-mulher-brasileira.
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Uma mulher f oi depost a :
se xismo, misog inia e violência
polític a

Flávia Biroli*

Em 2016, um golpe parlamentar que contou * Professora do Instituto de


Ciência Política da Universidade
com o protagonismo dos meios de comunicação de Brasília (UnB), onde
e do Judiciário depôs a primeira mulher a chegar coordena o Grupo de Pesquisas
sobre Democracia e
à presidência da República no Brasil. A eleição de Desigualdades (Demodê).
Dilma Rousseff em 2010, tanto quanto sua reelei-
ção em 2014, pode ser tomada como uma indicação
de que os obstáculos para a atuação das mulheres
nas esferas de representação formal não estão loca-
lizados na disposição de eleitoras e eleitores.
O Brasil é um dos países com os menores índi-
ces de representação feminina no mundo e no con-
tinente americano. Os obstáculos à participação
das mulheres na política podem ser localizados nas

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esferas da representação política formal (ARAÚJO; ALVES, 2007) e
midiática (MIGUEL; BIROLI, 2011), mas também na divisão sexual
do trabalho no cotidiano, que rouba às mulheres tempo e recursos fi-
nanceiros, condições preciosas para que tenham voz na esfera pública.
(ARAÚJO; SCALON, 2006; BIROLI, 2016b)
Dilma Rousseff chegou à presidência em um contexto no qual as
condições para a participação política permanecem em larga medida
desfavoráveis no Brasil, mas a posição social relativa das mulheres se
modificou bastante. O percentual de mulheres economicamente ativas
aumentou significativamente no país, passando de 18,5% em 1970 para
um teto de 59% em 2005, mantendo-se desde então em cerca de 56%.
(PINHEIRO et al., 2016)As mulheres são mais escolarizadas do que os
homens, tendo em média oito anos de estudos, enquanto eles têm sete
anos e meio. Também tem havido mudanças significativas na configu-
ração das famílias; entre 2000 e 2015, a taxa de fecundidade das mulhe-
res brasileiras caiu de 2,39 para 1,72 filho. Trata-se de um processo de
profundas transformações, mas também de resiliências: mencionei os
obstáculos à participação política em conjunto com a divisão sexual do
trabalho, que onera as mulheres desigualmente por tarefas que deve-
riam ser de responsabilidade coletiva, como ocuidado com as crianças
e os idosos, e gostaria de mencionar também a cidadania restrita pela
recusa do direito ao aborto e pela violência cotidiana na forma de es-
tupros, feminicídios, mas também em suas formas mais sutis, como o
assédio moral ou sexual.
É possível afirmar que a despeito da baixa presença das mulheres
nos espaços de representação formal, elas têm atuado sistematicamente
na política. A partir da transição para a democracia nos anos 1980, essa
atuação tem ocorrido de forma mais organizada e com maior presença e
incidência no âmbito estatal. Isso se ampliou com a chegada do Partido
dos Trabalhadores (PT) ao poder em 2003, por ser esse um partido que
tem bases históricas em movimentos sociais, com maior abertura, por-
tanto, para o ativismo feminista. Ainda está por ser feito um mapa das

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políticas públicas com perspectiva de gênero que foram construídas
nesse período, em diversos âmbitos. Houve de fato uma agenda de gê-
nero incorporada às políticas de Estado nas áreas de saúde, educação,
assistência social, em políticas para o empoderamento econômico das
mulheres e profissionalização das mulheres negras, em políticas de-
senhadas para ampliar o acesso das meninas a carreiras em que os ho-
mens predominam, em um conjunto robusto de medidas para tornar
efetivo o combate à violência contra as mulheres. (MACHADO, 2016;
MATOS, 2016;MATOS; PARADIS, 2014)
A partir do Executivo, com destaque para a atuação da Secretaria
de Políticas para Mulheres e para as estratégias de ação traçadas nas
Conferências de Políticas para as Mulheres(2004, 2007, 2011, 2016),
mas também a partir de decisões conquistadas no âmbito do Judiciário
e de alianças pontuais no Legislativo, os movimentos feministas pro-
duziram avanços importantes, entre os quais cito, a título de exemplo, a
Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), sancionada em 2006, que per-
mitiu institucionalizar e ampliar o combate à violência doméstica numa
perspectiva de gênero; as Normas Técnicas do Ministério da Saúde para
garantia do acesso das mulheres ao aborto nos casos previstos por lei;1
a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 72/2013, conhecida como
PEC das Domésticas, regulamentada em junho de 2015, que equaliza os
direitos das trabalhadoras domésticas ao de outros trabalhadores, lem-
brando que, no Brasil, 98% das pessoas que exercem trabalho domésti-
co remunerado são mulheres; a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015),
sancionada em março de 2015.
Conectados a redes transnacionais e mobilizando a seu favor acor-
dos internacionais, os movimentos feministas brasileiros atuaram em
defesa dos direitos das mulheres em um contexto de democratização, a
partir de 1988 sobretudo, e em um momento favorável de maior abertu-
ra para suas agendas, com a chegada do PT ao governo federal em 2003.
Os muitos limites a essa atuação podem ser destacados, mas meu ponto

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aqui é que um dos subprodutos das mudanças sociais e da atuação polí-
tica de movimentos feministas consolidados a partir dos anos 1980 é a
maior capilarização do feminismo na sociedade brasileira, que faz dele
um fenômeno que, se não é novo, apresenta-se hoje com nova potência.
A internet e as novas formas de mobilização têm, certamente, um papel
nessa capilarização e na forma hoje assumida por debates, manifesta-
ções e campanhas.
Por que trato desse contexto? O que ele nos diz sobre o golpe?
Entendo que o golpe de 2016 depôs Dilma Rousseff em um contexto
de reação às transformações na posição social relativa das mulheres e às
poucas, mas significativas, conquistas no âmbito institucional. O con-
teúdo de classe do golpe, isto é, seu conteúdo antipopular, claramen-
te revelado nos desdobramentos posteriores – destruição da legislação
trabalhista que estabelecia garantias para trabalhadoras e trabalhado-
res, por exemplo – é uma de suas faces; o conteúdo de gênero é, sem
dúvida, outra face. Ambas compõem o processo que converge na depo-
sição da primeira mulher a chegar à presidência.
Assim que Rousseff foi deposta, o ministério de homens brancos
de Michel Temer passou a desfilar seus corpos e a disparar declarações
sexistas que indicavam sua distância em relação às transformações
sociais em curso no país e sua convicção de que o lugar das mulheres
é na vida doméstica, garantindo assim o protagonismo masculino.
O ambiente em que as performances sexistas do novo establishment se
tornaram possíveis é aquele em que a competência das mulheres para a
vida pública e, especificamente, para a política foi abertamente contes-
tada. É, também, o ambiente em que foram rompidos laços e diálogo
com os movimentos feministas.
A reação em curso contra os direitos das mulheres se tornou mais
aguda, no Brasil, a partir de 2015. Os dois anos de intensa campanha
contra Rousseff e de tramitação do golpe parlamentar foram também
aqueles em que a noção de “ideologia de gênero” foi mobilizada para se
restringir o debate sobre gênero nas escolas e a agenda da igualdade e
da diversidade nas políticas públicas. Não se trata de uma história que

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tenha se iniciado em 2015, é claro, mas foi em maio daquele ano que o
debate sobre gênero foi retirado pelos parlamentares do Plano Nacional
de Educação (PNE) e reações semelhantes pipocam em todo o país.
Multiplicam-se ações contra os direitos das mulheres, sobretudo os di-
reitos sexuais e reprodutivos. (BIROLI, 2016a)
O sexismo atravessa quase todas as relações em uma sociedade como
a nossa, mas os estereótipos mais extremos, que negavam às mulheres
competência para atuação política, vinham se tornando mais fracos e
mesmo ausentes do jornalismo empresarial e do debate nas arenas for-
mais. A visibilidade da própria Rousseff, quando ministra das Minas
e Energia (2003-2005) e da Casa Civil (2005-2010) e, depois, candi-
data à presidência seguiu padrões distintos daqueles que as ministras
mulheres dos anos 1980 e 1990 obtiveram em sua presença na mídia.
(MIGUEL; BIROLI, 2011, p. 168)
As narrativas enunciadas durante o processo de impeachment, no
entanto, mostraram-nos que os discursos misóginos não estavam, de
maneira alguma, neutralizados. Sexismo e misoginia participaram da
construção de um ambiente político no qual uma mulher eleita foi con-
testada em sua competência e deposta.Em alguns casos, a construção da
imagem de Rousseff e a configuração dos posicionamentos favoráveis
a sua deposição podem ser descritos como formas de violência política
contra as mulheres, como defendi em outro local. 2 Atingem Rousseff,
ao mesmo tempo em que colocam em xeque a condição das mulheres
como atores políticos.
Em revistas semanais3 , a estigmatização de Rousseff como incom-
petente politicamente se deu no recurso a estereótipos convencionais
de gênero, nos quais a mulher é associada ao destempero emocional.
Em jornais diários, 4 a construção da presidenta eleita em imagens que
de certo modo anunciavam sua deposição dentro de um ambiente po-
lítico no qual diferentes tipos de violência ganhavam legitimidade an-
tecipava um ambiente político em que posições de recusa aos direitos
humanos ganhariam maior espaço.

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A ideia de que se tratava de uma mulher perdendo o controle, inca-
paz de reagir com sensatez à crise política, atravessou todos os registros
e esteve presente em maior medida do que outras abordagens na mí-
dia empresarial. O conteúdo sexualmente violento ganhava espaço na
internet ao mesmo tempo em que a violência de gênero se expressava
na mídia empresarial pela estigmatização de Rousseff e das mulheres
como não capazes de atuação na política, sobretudo em contexto de cri-
se.Nas redes sociais, as imagens que circularam em memes confirma-
vam que o espectro dos estereótipos aceitáveis se alargava.
Ao mesmo tempo, nos espaços institucionais, a presença massiva-
mente masculina dava seu recado com o slogan “Tchau, querida!”, uti-
lizado por partidos e parlamentares que se articularam para a suspen-
são do mandato de Rousseff. A ironia presente no “Tchau, querida!” se
completava nos corpos. Nas imagens da votação, televisionada e tea-
tralizada, ternos e termos utilizados pelos parlamentares – 90 homens
para cada dez mulheres nessa legislatura – ao votarem pela deposição de
Rousseff e comemorarem o afastamento sem provas da primeira mu-
lher a chegar à presidência da República no Brasil apresentam uma gra-
mática de gênero bastante evidente.
Ao manifestarem seu voto, os parlamentares favoráveis à deposi-
ção defenderam repetidamente a “família tradicional”, modo de or-
ganização das relações historicamente desvantajoso para as mulheres.
O modelo de família que, para os parlamentares, permitiria um retorno
a uma ordem desejada tem sido historicamente reduto de violência e
da exploração, expondo as perspectivas de gênero em jogo. O discurso
de ódio também esteve presente, na homenagem de um deputado ao
torturador de Rousseff, que foi prisioneira política durante a ditadura
de 1964.
Dois conjuntos de problemas precisam ser destacados, no meu en-
tendimento. Um deles é o modo como sexismo e misoginia desem-
penharam um papel na caracterização de Rousseff como incompe-
tente e indesejável à frente do Executivo, definindo uma abordagem

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no processo de legitimação do impeachment sem crime de responsa-
bilidade.5 Poderiam ter sido outros os registros, mas foram, em abun-
dância, organizados por estereótipos de gênero. O segundo conjunto
de problemas diz respeito à ofensiva conservadora em curso no Brasil
e na América Latina no que diz respeito ao papel social das mulheres e
aos direitos conquistados nas últimas décadas. Convergem as ofensivas
contra os direitos de trabalhadoras e trabalhadores e o ataque frontal ao
que vem sendo definido como “ideologia de gênero”, que corresponde
ao conjunto de conquistas e conhecimento acadêmico referenciado pela
igualdade de gênero. Mas uma vez, o apelo à neutralidade é uma forma
de naturalizar perspectivas machistas. Desde a deposição de Rousseff,
acelerou-se um ajuste fiscal que restringe equipamentos públicos, res-
ponsabilidades do Estado e ações para a retirada de direitos e garantias
sociais. As reações são, assim, às mulheres na política e a uma condi-
ção de maior participação na vida pública. Em conjunto, reconfiguram
a participação social das mulheres e colocam em risco a posição em que
a ofensiva conservadora e o governo pós-deposição querem colocá-las,
a de sujeitos na vida doméstica, mas não na vida pública; em outras pa-
lavras, a de indivíduos domesticados. De muitas localizações sociais
emergem vozes que deixam claro que as mulheres não aceitam essa res-
trição à sua condição de cidadãs. Os golpes que se recolocam desde a
deposição se dão em meio a conflitos, o jogo continua a ser jogado.

Notas
1 Ver Brasil (2005).
2 Remeto a discussões feitas em Biroli (2016c), nos quais situo o debate teórico e a legislação
sobre violência contra as mulheres na política. Os exemplos de que trato a seguir já foram
utilizados no artigo ao qual remeto nesta nota.
3 Para um exemplo, ver reportagem de capa da Isto É (2016).
4 Para um exemplo, ver fotografia na capa de O Estado de S. Paulo. (FOGO..., 2016)
5 Dilma Rousseff evocou ela mesma o sexismo para explicar o impeachment. Para um exem-
plo, ver entrevista à CNN. (DILMA..., 2016)

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Dir eitos r eprodutivos , um dos
c ampos de bat alha do g olpe

Maíra Kubík Mano*


Márc ia Santos Macêdo**

“Eta, eta eta eta * Doutora em Ciências Sociais


pela Universidade Estadual de
Eduardo Cunha
Campinas (Unicamp) e
Quer controlar professora adjunta do departa-
mento de Estudos de Gênero e
Minha b...!” Feminismo da Universidade
Federal da Bahia (UFBA).
(Primavera Feminista après Caetano Veloso) É pesquisadora do Núcleo de
Estudos Interdisciplinares sobre
a Mulher (NEIM).
** Doutora em Ciências Sociais
pela Universidade Federal da
Bahia (UFBA), professora
Int rodução associada do departamento de
Estudos de Gênero e Feminismo
No primeiro dia do mês de janeiro de 2011, da UFBA e pesquisadora
Dilma Rousseff tomou posse como presidenta da permanente do Núcleo de
Estudos Interdisciplinares sobre
República. Naquele dia, diante das câmeras de tele- a Mulher (NEIM).
visão, de todas as pessoas convidadas e do público

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em geral, não estava somente a pessoa que seria a próxima mandatária
do país. Estava uma mulher. E era inevitável enxergá-la enquanto tal,
já que se tratava, após 122 anos de República, da primeira a ocupar esse
espaço, até então reservado exclusivamente para uso masculino.
Como afirma a socióloga francesa Colette Guillaumin (1992, p. 15,
tradução nossa):

Diante de um patrão, há sempre uma mulher, diante de um politécnico, há uma


mulher, diante de um operário há uma mulher. Mulheres nós somos, não é um qua-
lificativo entre outros, é nossa definição social. Tolas as que acreditam que é apenas
um traço físico, uma diferença – e que a partir desse dado múltiplas possibilidades
nos seriam abertas. [...] Não é o começo de um processo (um ponto de partida,
como acreditamos), é o fim, é o fechamento.

Assim, em uma sociedade lastreada por uma ordem patriarcal de


gênero como a brasileira, a eleição de Dilma Rousseff não significava
necessariamente que estávamos vivenciando uma maior abertura à
participação das mulheres. Pelo contrário. Longe de ser um termômetro
apontando para uma significativa transformação nas relações de gênero
no país, sua vitória nas urnas pode ser lida como, provavelmente, uma
das poucas brechas na tão consolidada divisão sexual do trabalho que
vem imputando às mulheres a responsabilidade pelo espaço doméstico
enquanto disponibiliza aos homens a direção do espaço público. Para
atestarmos tal avaliação, basta notarmos que, no mesmo período, a
porcentagem de mulheres eleitas para o Legislativo não teve alteração
significativa, permanecendo com uma taxa de participação baixíssima
– em torno de 10%. (MANO, 2015b)
Partiremos de uma compreensão crítica do conservadorismo e an-
drocentrismo estruturante da arena política brasileira para analisar o
processo que levou à deposição, em 2016, por meio de um golpe par-
lamentar-empresarial-jurídico-midiático, da primeira mulher a ocu-
par a presidência da República. É evidente que para refletir sobre esse

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processo numa perspectiva feminista e, portanto, utilizando-se das
chamadas lentes de gênero, muitos caminhos poderiam ser traça-
dos. Contudo, optamos por pensar aqui a partir do terreno onde se dá
uma das principais disputas encampadas pela pauta feminista: os di-
reitos sexuais e reprodutivos. Analisaremos particularmente o caso
do Projeto de Lei (PL) nº 60/99 – que previa acesso à contracepção de
emergência por mulheres vítimas de estupro –, as principais forças que
atuaram por sua aprovação, e também aquelas contrárias a ela, e como
essa disputa desembocou na chamada Primavera Feminista de 2015 e no
enfrentamento a um dos artífices do impeachment: o então presiden-
te da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), preso por
corrupção, posteriormente, no final de 2016. A questão que orienta essa
reflexão é discutir como a temática dos direitos reprodutivos – mais es-
pecificamente o tabu contra o aborto – demarca a fragilidade dos limites
em torno dos avanços na questão de gênero, produzindo um efeito polí-
tico tal que chegou ao ponto de pressionar a ampla aliança estabelecida
em nome da governabilidade e demonstrando, assim, a indissociabili-
dade dos marcadores de classe, raça/etnia e gênero para pensar a estru-
turação da sociedade brasileira.
Trabalharemos com a hipótese de que a tensão permanente que ron-
dou os dois governos de Dilma Rousseff não poderia ser solucionada
dentro dos parâmetros democráticos estabelecidos, dada a incomple-
tude da nossa democracia em sua vocação de massas, ao não conseguir
reconhecer direitos fundamentais de importantes contingentes popu-
lacionais e, principalmente, no que se refere aos interesses de mais de
50% de sua população, a saber, das mulheres cisgêneras – e também dos
homens transgêneros. E são, afinal, 800 mil interrupções voluntárias
de gestações por ano (SUWWAN, 2004) realizadas de maneira ilegal,
sendo que apenas a elite branca consegue realizá-las, também clandes-
tinamente, mas em condições seguras e a um alto preço nas clínicas
privadas, muitas delas camufladas como instituições particulares de
atendimento rotineiro à saúde das mulheres. 1

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Colocando as lentes de gênero
Para olhar para esse caso, consideraremos que, em um contexto de
forte desigualdade de gênero e, portanto, de ampla reprodução de um
discurso cultural dominante, estamos diante de uma situação proto-
típica “da mulher fora do lugar”. Esse deslocamento é produto de uma
lógica contraditória, baseada em percepções e práticas de gênero cons-
truídas e inter-relacionadas dialeticamente (SAFFIOTI, 1992) e que
vão se materializar em uma forte divisão sexual do trabalho e que está
baseada, como nos aponta Kergoat (2009), em dois princípios: existem
trabalhos masculinos e femininos e os masculinos valem mais do que
os femininos. Entre os trabalhos considerados masculinos estão a di-
reção das forças armadas, das igrejas e, claro, da política institucional –
por exemplo, a presidência da República. Inversamente, para as mulhe-
res, a principal responsabilidade esperada é a do trabalho reprodutivo
que envolve a gestação, o parto e o aleitamento, mas também o cuidado
ao longo da vida das crianças e pessoas incapacitadas, assim como a exe-
cução das tarefas domésticas e sexuais para o marido/companheiro e
outros membros da família. (TABET, 2004)
Nesse contexto, tais tarefas, diferentemente daquelas em que há
venda de força de trabalho, são realizadas sem remuneração direta, a
partir de uma apropriação do corpo feminino, o que a leva, como afirma
Guillaumin (1992, p. 15), à posição de “máquina de trabalho” – produz
crianças, leite, benefícios à saúde, limpeza etc. E tem como consequên-
cia a despossessão da mulher de seu próprio corpo, que passa a perten-
cer à sociedade. Entre os meios pelos quais isso ocorre e se mantém, es-
tão o estupro e o arsenal jurídico – ambos colocados em questão no caso
do PL nº 60/99.
Essa posição, que obviamente antecede o sistema capitalista, com
ele, agravou-se. (EISENSTEIN, 1980) Há uma coformação das relações
de produção capitalistas – de exploração assalariada – e das relações não-
capitalistas – de apropriação/opressão – que empurra uma mão de obra
feminina rumo a um “trabalho que não é totalmente gratuito, mas que
também não é corretamente remunerado e que nem é, nem nunca será,

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plenamente proletário”, como nos mostra Jules Falquet (2008, p. 125).
Ademais, na sociedade brasileira, é impossível refletir sobre a distri-
buição dessas tarefas sem cruzá-las com raça/etnia, uma vez que entre
as classes média e alta há uma transmissão de parte dessas atribuições
para empregadas domésticas, em sua grande maioria mulheres negras –
a “mucama permitida”, segundo Lélia González (1984). Temos, então,
não apenas uma divisão sexual do trabalho, como também uma divisão
racial do trabalho, que ocorrem de maneira concomitante e imbricada,
pois, como ressalta Moore (2000, p. 34): “o próprio poder é representa-
do, em muitos contextos, como sexualizado e racializado”.
Convém ainda destacar que, nessa perspectiva, a divisão sexual do
trabalho pressupõe, obviamente, que as relações sejam heterossexuais
para que a reprodução ocorra. Monique Wittig (2013, p. 62, tradução
nossa) alerta para o risco que incorremos quando deixamos de questio-
nar a heterossexualidade compulsória, pois

embora tenha sido aceito em anos recentes que não existe semelhante coisa como
a natureza, que tudo é cultura, permanece ainda um cerne de natureza que resiste a
ser examinado, uma relação excluída do social na análise – uma relação cuja carac-
terística é inescapável na cultura, assim como na natureza, e que é a relação hete-
rossexual.

A esse respeito, Moore (2000) ainda nos lembra que os discursos


culturais dominantes vão conferir diferentes posições de sujeitos a
homens e mulheres, limitando as opções e estratégias dessas últimas
em particular. E é através dessa insistente ideologia embasada na no-
ção de natureza que se inverte o raciocínio sobre como se constroem os
homens e as mulheres – e as desigualdades entre eles –, encarcerando-
nos na perspectiva de que “uma mulher é uma mulher porque é uma
fêmea”. (GUILLAUMIN, 1992, p. 51) Sob esse ponto de vista, qualquer
reivindicação de autonomia e poder é intolerável e, mais do que isso, é
tida como perigosa, porque, ao fazê-la, estamos sacudindo as estruturas

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que sustentam as desigualdades de gênero que, interseccionadas com
classe e raça/etnia, teriam o poder de implodir a sociedade tal como a
conhecemos.

Sit uando o problema na conjunt ura at ual


O historiador Lincoln Secco (2012) afirmou em seu livro História
do PT que a “Carta ao Povo Brasileiro”, lançada por Lula em 2002, antes
de eleger-se pela primeira vez presidente da República, foi, em termos
gramscianos, a “pá de cal” do processo de transformismo do PT – ou
seja, a absorção do maior partido da esquerda brasileira por aqueles que
já detinham a hegemonia do país. Para os dirigentes petistas, a condição
para vencer o pleito de 2002 dependeria de um amplo arco de alianças
com setores da burguesia nacional e com partidos do centro, da centro-
direita e da direita, aí incluso o Partido Social Cristão (PSC). Tais acordos
não foram temporários, pelo contrário. Permaneceram vigentes no go-
verno e no Congresso Nacional, onde foram determinantes para a cons-
trução de uma maioria para uma certa “governabilidade”. Até o ponto de
ter Michel Temer (PMDB-SP) na vice-presidência com Dilma Rousseff.
Mas, aprofundando a crítica de Secco, podemos considerar que o
longo processo de transformismo do PT teve, ainda, mais dois elemen-
tos bastante dramáticos. Primeiro: seu envolvimento em denúncias
de corrupção, em especial o conhecido caso do Mensalão, em 2005, e
aquelas decorrentes da Operação Lava Jato, que teriam feito com que
o partido perdesse, aos olhos da sociedade, o diferencial ético em rela-
ção às demais agremiações – e, quando um partido de esquerda perde
sua distinção em relação a outros, isso abre caminho para uma extre-
ma-direita, como alerta Chantal Mouffe (2015). Segundo: a divulgação
da “Mensagem da Dilma”, carta lançada pela, à época candidata, Dilma
Rousseff, em outubro de 2010. Naquele momento, mais de 19 milhões
de panfletos associando Dilma Rousseff à defesa da prática do aborto
foram apreendidos pela Polícia Federal e, somado a isso, o candidato

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do PSDB, José Serra, teria chamado a candidata petista de “abortista”.
Através da “Mensagem da Dilma”, a então candidata à presidência veio
a público para garantir que não proporia a descriminalização ou a le-
galização do aborto, caso eleita, porque acreditava que esse era um as-
sunto que dizia respeito ao Legislativo. Ela começa a sua carta dirigin-
do-se ao povo “com carinho” e “respeito que merecem os que sonham
com o Brasil cada vez mais perto da premissa do Evangelho de desejar
ao próximo o que queremos para nós mesmos”. (ROUSSEFF, 2010)
São muitas concessões feitas para um texto tão pequeno: a defesa da
manutenção da legislação atual sobre aborto; o comprometimento em
não propor “iniciativa que afronte a família” e a recusa da sanção do
Projeto de Lei da Câmara (PLC) nº 122 que torna a lesbo/homo/trans-
fobia crime, caso ele viole “liberdade de crença, culto e expressão e de-
mais garantias constitucionais individuais existentes no Brasil”.
Posicionamento semelhante foi também adotado, posteriormen-
te, pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM)2 por
Eleonora Menicucci, socióloga, feminista e professora da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), ocupante do cargo durante o governo
Dilma, entre 2012 e 2015. Ao assumir o cargo, ela declarou:

Eu já dei entrevistas, sobretudo nos anos 70, 80 e 90, quando o feminismo necessi-
tava de marcar posições e muitas mulheres ousaram dizer até da sua vida privada.
Não me arrependo, mas eu sou governo e a matéria da legalização ou descriminali-
zação do aborto é uma matéria que não diz respeito ao Executivo, diz respeito ao
Legislativo.

Tais pronunciamentos, longe de trazerem à tona posições pessoais de


Menicucci e Dilma Rousseff, fornecem indícios da pressão que envolve
tal pauta e do quanto ela foi objeto de negociação em prol da dita gover-
nabilidade. Evidentemente que essa pressão já existia nos dois manda-
tos do presidente Lula – visto que o PT historicamente se posicionou a
favor da legalização do aborto – mas certamente que ela aumentou no

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momento da candidatura e, mais ainda, quando o país passou a ser di-
rigido por uma mulher. Afinal, poderia se pressupor que ela estaria do
mesmo lado daquelas que passam por interrupções de gestações, sejam
elas desejadas ou não, por ocupar também o mesmo lado na divisão se-
xual do trabalho.

O caso do PL n º 60/99
O mais próximo que se chegou da discussão sobre aborto duran-
te os governos Dilma Rousseff foi com o PL nº 60. Proposto em 1999
pela deputada Iara Bernardi (PT/SP), tinha o objetivo de dispor sobre o
atendimento imediato e multidisciplinar para o controle e tratamento,
tanto do ponto de vista físico quanto emocional, da vítima de violência
sexual. Com a aprovação da lei, todos os hospitais integrantes do SUS
deveriam: 1) Fazer o diagnóstico e o tratamento das lesões físicas no
aparelho genital e demais áreas afetadas; 2) Fornecer amparo médico,
psicológico e social; 3) Facilitar o registro da ocorrência e encaminhá-la
a órgãos de medicina legal e delegacias especializadas com informações
que possam ser úteis à identificação do agressor e à comprovação da vio-
lência sexual; 4) Fazer a profilaxia da gravidez e de doenças sexualmen-
te transmissíveis, assim como coleta de material para exame de HIV; e
5) Fornecer informações às vítimas sobre os direitos legais e serviços
disponíveis.
Até sua aprovação, o PL nº 60/99 tramitou por apenas duas comis-
sões (BRASIL, 2013a), em ambas com relatores do PT. Em 05/03/2013,
14 anos após sua proposição, ele chegou ao Plenário da Câmara para vo-
tação após um requerimento de urgência (no 6906/2013), novamente
por ação de um homem petista, o deputado José Guimarães (PT/CE). O
motivo era aproveitar a efeméride do 8 de Março, Dia Internacional das
Mulheres, para aprovar o projeto.
A alteração do regime de tramitação proposta por Guimarães foi
aprovada imediatamente pelas lideranças de todos os partidos e o PL

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passou a ser discutido no plenário, onde recebeu apenas elogios. Cinco
deputadas se pronunciaram, entre elas Iara Bernardi (PT/SP), a autora
do projeto, que ressaltou a importância de transformar o que já era um
procedimento do SUS em lei, para garantir o cumprimento da preven-
ção às doenças sexualmente transmissíveis e à gravidez. Ela também
parabenizou a Casa “por ter concordado em colocar em pauta este pro-
jeto que está em discussão desde 1999. É uma reivindicação do movi-
mento feminista. Parabenizo a Casa inclusive pelo consenso construí-
do”. (BRASIL, 2013b)
Pelos pronunciamentos, podemos apreender alguns pontos. O pri-
meiro é que as integrantes da Bancada Feminina estavam muito gratas
ao presidente da Câmara Federal, Henrique Eduardo Alves (PMDB/
RN), hoje em cárcere, e à Casa Legislativa, por terem “permitido” que
o PL nº 60/99 fosse à votação após tanto tempo, justamente na semana
do 8 de Março. Outro ponto relevante é que Nilda Gondim (PMDB/
PB), Flávia Morais (PDT/GO) e Sueli Vidigal (PDT/CE), deputadas que
discursaram na ocasião, eram então integrantes da Frente Parlamentar
da Família e Apoio à Vida e mesmo assim defenderam o projeto de lei.
“Todo mundo concordou com o PL 66/99 porque é uma coisa tão óbvia
a proteção à mulher vítima de violência sexual que não houve, dentro da
bancada, nenhum movimento contrário”, explicou Jô Moraes (PCdoB/
MG), coordenadora da Bancada Feminina à época. (MANO, 2015b, p.
231) Em entrevista posterior, a deputada Liliam Sá (PROS/RJ), evangé-
lica, confirmou a afirmação de Jô Moraes:

É um assunto polêmico. Eu sou evangélica, eu tenho uma posição em relação a esse


projeto. Mas como eu sou um agente público, eu tenho que olhar como um todo.
Me colocar no lugar daquela família, daquela mãe. Eu sou a favor daquilo que está
escrito na Bíblia. Mas não tiro meu apoio dessas mulheres que necessitem dessa
intervenção porque eu sei que é muito duro, é muito triste e doloroso. Então eu
gosto de separar muito bem as coisas. Aquilo que eu penso, que é da religião, e
aquilo que eu tenho que fazer como agente pública. (MANO, 2015b, p. 231)

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Chama a atenção o fato da deputada Liliam Sá reivindicar a separa-
ção entre religião e a representação pública, apontando que a Bancada
Evangélica não deve, portanto, ser vista como homogênea – assim
como são diversas as denominações protestantes. Aparentemente, a
sua percepção de pertencer ao grupo de mulheres deputadas e de seu
mandato representar a população feminina se sobrepôs à sua afiliação
religiosa, o que pode demonstrar que, para algumas pautas, foi man-
tida a compreensão da necessidade de agir conjuntamente. Ainda que,
vale ressaltar, ela tenha tendência a estar à direita do espectro político.
(CORADINI, 2010, p. 247)
Mas a unanimidade durou pouco. Quando o PL nº 60/99 foi enviado
para sanção da presidência da República, a Bancada Evangélica decidiu
se mobilizar contra ele. O problema era o termo “profilaxia da gravi-
dez”, no artigo 4o, inciso IV, entendido como uma interrupção de ges-
tação e não como contracepção. A presidenta Dilma Rousseff tinha um
mês para sancionar ou vetar a lei, justamente durante o recesso parla-
mentar, e, nesse período, ouviu argumentações de ambos os lados.
Nesse ínterim, ambas as Bancadas estiveram reunidas com ela.
A presidenta recebeu, em 16 de julho de 2013, 16 cantoras gospel e o
então ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB/RJ), bispo evangéli-
co, eleito prefeito do Rio de Janeiro em 2016. “[...] é um momento de
muita pressão. O Brasil está vivendo um momento muito delicado, e
nós viemos aqui representando a Igreja Evangélica no Brasil e a apoian-
do no que ela precisar”, disse a cantora Damares de Oliveira ao jornal
O Globo, referindo-se também ao período subsequente às manifes-
tações de junho de 2013. (ALENCASTRO, 2013) Se as parlamentares
evangélicas não reforçaram o coro contrário ao PL, as cantoras gospel
cumpriram esse papel.
Para refletir sobre a contradição entre as próprias mulheres evan-
gélicas, podemos recorrer à Nicole-Claude Mathieu (2013, p. 130) que
pode ajudar a compreender a fragmentação e contradições no campo
das “dominadas”:

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Não há, no que diz respeito às relações estruturais de sexo, a “posição de consciên-
cia” dos homens e a posição de consciência das mulheres, mas a posição dos ho-
mens (com variações mais ou menos sutis) e as posições das mulheres. Há um cam-
po de consciência estruturado e dado para os dominantes, e de toda forma
coerente diante da mínima ameaça contra seu poder; e diversas modalidades de
fragmentação, de contradição, de adaptação ou de recusa… mais ou menos (des)
estruturadas do lado das/os dominadas/os, modalidades cujo entendimento pare-
ce particularmente difícil para um dominante.

As movimentações das feministas e da Bancada Feminina foram


registradas pela mesma matéria de O Globo de 22/07/2013. (ÉBOLI,
2013) Elas foram ao encontro de Gleisi Hoffmann, então ministra da
Casa Civil, acompanhadas da ministra da SPM, Eleonora Menicucci,
que apoiou publicamente o PL. Érika Kokay (PT/DF), que participou
do encontro, narrou, em entrevista, a articulação feita pelas mulheres:

Nós fizemos duas reuniões com diversos segmentos, vários representantes do gover-
no, na perspectiva de participação também com entidades femininas da sociedade
civil, para que nós pudéssemos assegurar a manutenção ou a sanção sem qualquer
tipo de veto ao projeto da deputada Iara Bernardi que estabelece o atendimento às
vítimas de violência. Isso é um pouco a demonstração do obscurantismo que nos ronda,
que está à espreita, esperando os momentos oportunos e as frestas para poder golpear
direitos básicos da mulher. (MANO, 2015b, p. 239, grifo nosso)

O Globo trouxe ainda uma montagem carregada de drama com uma


foto da deputada federal Iara Bernardi (PT/SP) e duas imagens distri-
buídas pela internet, uma contra a sanção presidencial e outra a favor.
A mesma reportagem afirma que os religiosos advertiram a presidenta
que “se o projeto não for vetado, haverá ampla campanha contra ela na
eleição presidencial de 2014”. Segundo o texto, um dos integrantes do
Movimento Pró-Vida, o advogado Paulo Fernando Melo, disse na reu-
nião que “as consequências [da sanção do projeto] chegarão à militância
Pró-Vida, causando grande atrito e desgaste para vossa Excelência [...],

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que prometeu, em sua campanha eleitoral, nada fazer para instaurar o
aborto em nosso país”. (ÉBOLI, 2013)
Ao final, Dilma Rousseff manteve o PL na íntegra, que se tornou a
Lei nº 12.845/2013. No mesmo dia, no entanto, a presidenta anunciou
que enviaria duas sugestões de alteração ao Congresso Nacional para:
(i) que o artigo 2o não trate de violência sexual de forma vaga, mas sim
a partir das formas já presentes no Código Penal; (ii) e que o inciso IV
do artigo 3o substitua “profilaxia da gravidez” por “medicação com efi-
ciência precoce para prevenir gravidez resultante de estupro” – a reda-
ção inicialmente pensada por Iara Bernardi (PT/SP). (EXPOSIÇÃO...,
2013) Derrotada, a Bancada Evangélica decidiu mudar de estratégia. Em
reportagem de 03 de agosto de 2013, intitulada “Evangélicos vão atacar
lei da pílula do dia seguinte”, anunciam, na Folha de S. Paulo, a apresen-
tação de um Projeto de Lei para revogá-la. A Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma nota, também publicada pelo
jornal, em que “lamenta profundamente a sanção da lei”, que “pode in-
terferir no respeito incondicional à vida humana individual já existente
e em desenvolvimento no útero materno, facilitando a prática do abor-
to” (FALCÃO; GUERREIRO, 2013) – como se, nesse caso, houvesse
alguma outra vida humana em questão senão a da própria mulher. O
deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), evangélico, propôs, em segui-
da, o PL nº 6.033/2013 para revogar a Lei nº 12.845/2013.

A Pr imavera Feminista
Prosseguindo a tramitação da Lei, o poder Executivo encaminhou
sua proposta de alteração ao Congresso Nacional, que se tornou o PL nº
6022/2013. O PL de Cunha foi apensado a ele em novembro de 2014 e
em maio de 2015, ambos chegaram à Comissão de Seguridade Social e
Família, onde permaneciam até a escrita desse artigo esperando o pare-
cer do relator designado, o deputado federal Jorge Solla (PT-BA).
Vale lembrar que, três meses antes dos PL chegarem à Comissão, em
fevereiro de 2015, Eduardo Cunha havia sido eleito presidente da Câmara
dos Deputados, após vencer o candidato petista Arlindo Chinaglia e

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descolar-se da base do governo. Logicamente que a tramitação pela
Câmara e a nova posição de destaque de Cunha fez com que a pressão
sobre o tema voltasse, despertando o alerta nos movimentos feministas.
Algumas organizações de mulheres, que acompanhavam mais de per-
to a movimentação dos PL no Congresso Nacional, passaram a pautar a
questão diante do risco da perda de um direito recém-adquirido.
Para fazer frente a tão grave retrocesso, no final de outubro de 2015,
milhares de mulheres saíram às ruas do país para protestar contra o PL
de Eduardo Cunha. O movimento ficou conhecido como Primavera
Feminista e fez parte de um contexto onde registrou-se, também, uma
forte mobilização online, por meio de campanhas como #meuprimei-
roassedio e #meuamigosecreto. (MANO, 2015a) As passeatas foram
agendadas via redes sociais e protagonizadas por uma juventude bas-
tante pulsante e criativa, como mostra a ousada epígrafe desse texto.
No entanto, a necessária e oportuna discussão em torno dessa movi-
mentação e se ela pode configurar uma nova onda do feminismo, ficará
para outra oportunidade.
Não é exagero afirmar que o enfrentamento que as mulheres fize-
ram à figura de Eduardo Cunha nas ruas das grandes cidades foi o mais
contundente que um deputado jamais experimentou. Cerca de um mês
depois, em 2 de dezembro de 2015, Cunha aceitou o pedido de impeach-
ment contra Dilma Rousseff feito pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel
Reale Jr. e Janaina Paschoal. Paralelamente a essa movimentação, na
manhã daquele dia, o PT havia anunciado que votaria pela cassação de
Cunha, com o aval da presidenta Dilma Rousseff, abrindo um processo
no Conselho de Ética da Câmara por quebra de decoro, sob a alegação
do deputado ter ocultado a existência de contas bancárias não declara-
das no exterior. O debate sobre Cunha foi retomado em 30 de março
de 2016, quando o relatório preliminar que demandava a continuidade
do processo disciplinar com pedido da cassação de Cunha foi aprovado,
fazendo, portanto, com que o condutor do impeachment estivesse de-
finitivamente sob suspeita.

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O gênero no golpe
O dia era 17 de abril de 2016. Da mesma forma que, cinco anos atrás, o
país havia parado para assistir à posse da primeira presidenta eleita e vi-
via o ineditismo de ter um corpo de mulher ocupando o centro daquele
ritual, mais uma vez era uma mulher o alvo daquele novo espetáculo
midiático. Com um placar final de 367 votos favoráveis e 137 contrários
ao impedimento da presidenta, cada voto favorável foi acompanhado de
um argumento que respondia às mulheres, trabalhadores/as, negros/
as, homossexuais e vários outros grupos marcados como diferentes:
“Voltem para seu lugar!”. Para Dilma Rousseff, as placas com a irôni-
ca frase “Tchau, querida!” colocavam em evidência o caráter patriarcal,
conservador e, acima de tudo, misógino do golpe em sua face mais cruel
e repugnante. Como nos lembra Burigo (2016): “patriarcado é o siste-
ma, misoginia é a indicação de sua existência, machismos são seus atos.
Na linguagem, no simbólico onde circulam informação e poder, encon-
tramos evidências de todos”.
Por outro lado, o processo atual vivido no Brasil não teve apenas um
ponto de partida. Trata-se de uma crise múltipla – política, econômi-
ca, ecológica – e não se limita às nossas fronteiras nacionais, mas é sim
permeada pelo cenário de crise global. Certamente que, na atual con-
juntura, a resposta encontrada pelas elites para a “superação da crise”
implica voltar no tempo e destruir, uma a uma, as recentes e ainda frá-
geis conquistas de nossa jovem e incompleta democracia. Parte de nos-
sas perdas do presente remetem à compreensão das profundas contra-
dições nas escolhas políticas dos últimos governos que, para chegarem
e se manterem no poder, apostaram numa estratégia de conciliação de
classes – incorporando não apenas parte do programa da direita, mas
realizando concessões na partilha do poder – e fazendo com que movi-
mentos para a ampliação da democracia fossem muito limitados, o que
impediu sua radicalização, fundamental para qualquer transformação
social de longo prazo.

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Assim, considerando-se que a desigualdade brasileira se constitui
sobre os pilares de classe, mas também de gênero e raça/etnia, tendo
como pano de fundo o colonialismo, vemos como qualquer mudança
estrutural dependeria de uma ação articulada de enfrentamento nessas
três esferas. A disputa em torno do PL nº 6022/2013 foi uma das muitas
demonstrações da falta de capacidade de construção de uma direção po-
lítica e ideológica que conseguisse garantir hegemonia. O PT ganhou a
eleição, mas não levou o governo. A sociedade brasileira não foi, ao lon-
go do tempo, convencida/conquistada pelo projeto político do Partido
dos Trabalhadores – muito provavelmente porque, a este projeto, faltou
coerência e constância em sua apresentação. Dessa forma, apesar de não
se posicionar publicamente a favor do aborto, Dilma Rousseff sancio-
nou uma lei que garantia mínimos direitos das mulheres à revelia de
uma base de apoio importante para o seu governo e viu, nesse episódio,
uma das mais agudas crises que antecederam sua deposição.
Isso pode explicar, também, porque, mesmo com todo o processo
de transformismo e do esgotamento da experiência petista, ainda era
incômodo ter uma mulher eleita pelo PT na presidência. Com o esgar-
çamento da coalizão entre o PT e a base aliada, era melhor para a elite
voltar a ter controle direto sobre o aparelho do Estado e garantir que
nenhuma concessão fosse feita – e, talvez, com isso, garantir que ne-
nhuma outra ouse chegar aonde Dilma Rousseff chegou...
Nessa perspectiva, adquirem dimensão simbólica e material vários
aspectos em jogo no período que antecedeu ao impeachment e uma série
de ocorrências que o sucederam. Merece destaque, em primeiro lugar, a
constatação de que não é sem razão que um dos principais embates des-
ses últimos tempos tenha ocorrido entre Eduardo Cunha e as feminis-
tas. Ou que a votação do impeachment na Câmara dos Deputados tenha
sido marcada por discursos a favor de uma percepção limitada de famí-
lia burguesa, da religião como guia para a política ou da tortura como
arma de destruição do contraditório. E ainda que a primeira ação dos
golpistas tenha sido a de nomear um ministério inteiramente burguês,

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masculino e branco – encerrando, portanto, qualquer possibilidade de
uma ocupação feminina “fora do lugar”.
O fortalecimento dessa nova coalizão encontra-se na dependência
da progressiva adesão às pautas conservadoras por parte dos grandes
partidos que ocupam o espectro da centro-direita no Brasil – especial-
mente o PMDB e o PSDB, ambos representantes de forças políticas que,
nos últimos 30 anos, abrigaram feministas liberais favoráveis aos di-
reitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Quanto tempo essa aliança
que articulou o golpe durará, só o tempo poderá dizer. O certo é que
teremos um longo percurso pela frente para aquelas e aqueles que ali-
mentam um horizonte emancipatório. Muitas serão as frentes para o
bom combate contra qualquer forma de conservadorismo e para que
não retrocedamos na defesa de lutas históricas dos movimentos sociais
em torno da garantia de direitos sexuais e reprodutivos – em especial na
garantia do aborto legal –, na manutenção da laicidade do Estado, nos
avanços pela igualdade de gênero e por uma educação não sexista, no
combate ao racismo e à lesbo/homo/transfobia, entre outras questões.
Em um texto de 1985, Carlos Nelson Coutinho (1993, p. 125), refle-
tindo sobre a redemocratização brasileira afirmou:

Resta ainda um longo caminho a percorrer na luta para ampliar a socialização da


política, para construir um efetivo protagonismo de massas capaz de consolidar
definitivamente a sociedade civil brasileira. Do desenlace dessa luta irá depender,
de resto, o destino do atual processo de transição da chamada ‘Nova República’: na
medida em que esse processo é fruto da combinação de pressões ‘de baixo’ e ope-
rações transformistas ‘pelo alto’, seu ponto de chegada pode ser ou a criação de
uma real democracia de massas ou a restauração do velho liberalismo elitista e ex-
cludente.

Estamos vivendo os minutos finais da Nova República e as nuvens


de tempestade nos alertam para procurarmos abrigo e cavarmos – ou
sustentarmos – nossas trincheiras.

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Notas
1 Dilma Rousseff evocou ela mesma o sexismo para explicar o impeachment. Para um exem-
plo, ver entrevista à CNN. (DILMA..., 2016)
2 Importante destacar que a SPM foi criada durante o governo Lula que depois foi objeto de
reforma – juntamente com outras pastas da área de Equidade Racial e Direitos Humanos –
ainda no governo Dilma e perdeu status de ministério com Michel Temer na presidência, sen-
do posteriormente extinto.

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A máquina mis óg ina e o f ator
Dilma R ous sef f na polític a
br a sileir a

Marcia Tiburi*

* Marcia Tiburi é graduada em


Filosofia e Artes e mestre e
doutora em Filosofia pela
Máquina misógina Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS) .
A questão da misoginia relacionada ao golpe É colunista da revista Cult.
contra a democracia vivida no Brasil atual ainda não
foi suficientemente analisada. Na tentativa de ex-
por seus fundamentos e seus efeitos redigi o texto
que segue a partir de minha participação como tes-
temunha no Tribunal Internacional em Defesa da
Democracia no Brasil presidido por Juarez Tavares
no Rio de Janeiro em 19 de julho de 2016.
Minha intenção é propor que analisemos o machis-
mo como um jogo de linguagem para que possamos

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avaliar a função central da misoginia em suas operações. Ora, a misoginia é
o discurso de ódio contra as mulheres, um discurso que faz parte da histó-
ria do patriarcado, do sistema da dominação e dos privilégios masculinos,
daquilo que podemos chamar de machismo estrutural, o machismo que
petrifica a sociedade em sua base e impede transformações democráticas.
Quero dizer com isso que a luta pela democracia hoje se confunde com a
luta contra a misoginia e todos os ódios a ela associados no espectro amplo
do ódio à diferença. Mas a misoginia não é feita apenas de ódio, o afeto
como a inveja também merece atenção conforme falaremos adiante.
O que aconteceu com Dilma Rousseff nos faz saber que o poder
violento do patriarcado não se volta apenas contra as mulheres, mas
contra a democracia como um todo, sobretudo na sua versão cada vez
mais radical intimamente relacionada com as propostas do feminismo
como luta por direitos ao longo do tempo. O que aconteceu com Dilma
Rousseff nos ensina a compreender o funcionamento de uma verdadei-
ra máquina misógina, máquina do poder patriarcal, ora opressor, ora
sedutor, a máquina composta por todas as instituições, do Estado à fa-
mília, da Igreja à escola, máquina cuja função é impedir que as mulheres
cheguem ao poder e nele permaneçam.
Dilma Rousseff é a personagem que está em jogo hoje em dia no
Brasil e será necessariamente incluída em nossa história como uma
grande heroína. É em torno de sua figura que todo um sistema de práti-
cas sedimentadas vem sendo desmontado. É em torno dela, figura cen-
tral, que se desenvolvem todas as estratégias que movem a política no
Brasil hoje.
Como mulher, sacrificada politicamente nesse momento, indepen-
dentemente das críticas pontuais que possamos tecer acerca de seu
governo, Dilma se torna uma figura exemplar, altamente simbólica
da democracia representativa, aquela mesma que é aniquilada nesse
momento pelo governo da traição golpista representada pela figura de
Michel Temer, personagem fundamental nessa história. Estamos dian-
te de personagens com narrativas, operadores, como todos nós, de um

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jogo de linguagem hegemônico, o jogo de linguagem do poder, mas,
nesse caso, o jogo de linguagem machista que é sinônimo do poder.
Para compreender essa ideia, convém colocar em questão que gover-
no não representativo de Michel Temer se enuncia como uma espécie
de ditadura do pater potestas, de uma soberania tirânica que subjuga
e exclui o povo dos processos governamentais. Seu governo dá espaço
apenas ao homem branco capitalista, coronelista e colonialista e exclui,
nesse gesto, a imensa população marcada por toda sorte de diferenças.
Michel Temer vem a representar um poder de caráter antiquado. A ex-
tinção de ministérios e a retirada de representantes negros e mulheres,
em outras palavras de todos os subrepresentados que se tornam agora
absolutamente não representados, é a prova do tom da política atual-
mente imposta como um velho jogo de linguagem. Ora, quando dize-
mos jogo de linguagem, queremos dizer dos processos discursivos, mas
não só. Tudo o que é simbólico, imaginário, todo o campo das repre-
sentações, está em questão não só no que é dito e no que é feito, mas
também no que é encenado.

Dilma, presidenta
Dilma Rousseff se confirma no gesto excludente e antidemocrático
de Michel Temer como um tabu. Sabemos como um tabu pode virar to-
tem em termos de política. Não voltando ao seu cargo, sua chance de se
transformar em heroína histórica aumenta e ela pode ser tornar publi-
camente o que já é em seu fundamento: símbolo da representação das
mulheres extirpadas da política.
Ela foi barrada do lugar ao qual chegou pelo voto que instaura a von-
tade popular democrática e soberana. Lugar, diga-se de passagem, de
mulher que foi eleita.
É preciso, contudo, ponderar sobre o papel da reeleição em seu desti-
no político. Dilma não apenas foi eleita, mas o foi duas vezes. Dilma foi
a mulher reeleita. Isso incomodou as elites machistas e se intensificou

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quando, como reeleita, insistiu em ser chamada como “presidenta” e
não como presidente.
A autodenominação serviu de afronta ao poder patriarcal e pode ser
elencada entre os fatores que aceleraram o ódio – e também a inveja –
despertado pela mulher que se afirmou como presidenta. Sabemos que
uma feminista desperta mais o ódio por se dizer feminista do que por
agir como uma feminista. O ódio à presidenta – com “a” e não com “e”
– é do nível da idiossincrasia fascista, um ódio idiossincrático, ou seja,
sem muita explicação, altamente gratuito, um ódio cujos motivos pare-
cem não existir. Mas o que realmente está em jogo no caso de uma pes-
soa que se autodefine como presidenta além de uma autoafirmação que
pode levar ao ódio? Ora, o jogo de linguagem machista opera por hetero
denominação e hetero determinação. Isso quer dizer: homens falam e
dizem sobre mulheres. Ora, o poder é uma questão de voz, de discurso,
de quem fala e de quem escuta. O poder também se cria por meio do ato
de falar sobre o outro. A categoria do “outro” é criada em um discurso.
Assim é que se cria a mulher ideal e, ao mesmo tempo, se demoniza a
mulher fora do “ideal”.
Fato é que Dilma Rousseff, ao dizer-se “presidenta” causou mal-estar
ao machismo. Interrompeu, talvez sem perceber, o jogo de linguagem
machista da história da política no Brasil. Ao afirmar-se presidenta, ela
se afirmou como eleita e reeleita potencializando seu lugar – único e pio-
neiro – de representante justamente das mulheres, histórica e atualmen-
te ainda mais sub-representadas no cenário da democracia brasileira.
No estado de exceção em que nos encontramos, em que a vigência da
ilegalidade é a lei, a figura incomum e inadequada de Dilma Rousseff é
colocada à margem. Banida de seu cargo, lançada para fora do governo
por não ser igual em nada – nem em gênero, nem em desonestidade –
aos cleptocratas que a julgam hoje e usurpam seu lugar, Dilma Rousseff
se torna hoje um fator político, aquele que define o lugar das mulheres
na política e, fundamentalmente, seu futuro em nosso país. Sabemos
que o que aconteceu com Dilma Rousseff pode acontecer com todos,

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mas talvez não tivesse acontecido se ela não fosse mulher e se, como
mulher, não fosse tão diferente de tudo o que se pode esperar de uma
mulher. No futuro, a expectativa plantada pelo governo do golpe é de
que não seja mais possível que uma mulher venha a estar no cargo má-
ximo da política. E isso quer dizer que elas – e todos os sub-representa-
dos – não terão lugar.
O voto, todos sabemos, com ou sem novas eleições, já não significa
nada no Brasil no estado de exceção velado em que estamos vivendo.

Dilma, culpada e banida


Dilma Rousseff foi a primeira mulher eleita – e reeleita – presiden-
ta de um país em que os números de participação feminina na política
são vergonhosos. Se cerca de 10% de mulheres estão presentes na vida
parlamentar é, no mínimo, sinal de que vivemos em um país em que
as mulheres não são bem-vindas na política. Atraso da nossa política?
Certamente. E um país atrasado não é atrasado por acaso.
Enquanto vimos há menos de um ano o primeiro ministro do
Canadá nomeando metade do seu ministério tendo em vista a paridade
de gêneros, buscando assim uma representação contemporânea e atua-
lizada da democracia, no Brasil podemos dizer que estamos no século
XIX. O governo atual não pretende sequer manter as aparências da de-
mocracia para não pegar mal. Honestidade e idoneidade não contaram
para a escolha dos ministros do governo no golpe, por que a questão
gênero deveria contar?
Tocar na questão gênero quando se trata de falar de Dilma Rousseff
é chover no molhado, mas quando políticos do século XIX, eviden-
temente mumificados, que praticam entre nós o populismo da igno-
rância, vêm vociferando contra a expressão gênero, é uma chuva alta-
mente política. Sabemos, desde Simone de Beauvoir, que ser mulher é
ser marcada por sua sexualidade. Gênero tem a ver com essa marcação.
A marcação a que me refiro é o jogo de linguagem do machismo do qual

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saímos apenas no momento em que nos tornamos feministas. E temos
nos tornado cada vez mais feministas.
No contexto da misoginia, fala-se mal de mulheres de muitos mo-
dos, seja inventando uma essência para elas, seja ocultando as heterode-
nominações que pesam sobre elas, seja criando e intensificando as ideo-
logias femininas, tais como a ideologia da maternidade, da juventude,
da sensualidade, todas essas que fazem parte do sistema do machismo
estrutural. Todo esse sistema ideológico não prevê mulheres no poder.
Porque o poder é coisa que os homens querem para eles. É evidente que
toda mulher vai ter que pagar um preço imenso quando tomar para si
alguma coisa desejada pelos homens.
A misoginia, cabe dizer, nunca é inocente. É preciso entender que
se ela está na base do golpe ela não é pouca coisa. Nenhuma misoginia
é pouca coisa. A misoginia é uma arma de espertos, assim como a igno-
rância (sobre a qual temos que falar mais a sério). Simbólica e prática,
estamos diante de uma misoginia de resultados, gananciosa e compe-
tente como seus defensores.
Sabemos que o capitalismo depende da culpabilização das pessoas,
de trabalhadores, de negros cujos corpos são usurpados. Ora, não é di-
ferente com as mulheres, o machismo é o sistema da culpabilização das
mulheres e Dilma Rousseff foi, até agora, tratada como a grande culpa-
da, culpada da “crise”, culpada do golpe. Na televisão e no discurso do
telespectador, vemos a construção da mulher culpada por tudo. Desde
Eva, desde Pandora, qualquer mulher, seja mãe ou não seja, é educada
para sentir-se culpada. A culpa é estrutural, está arraigada e toda a so-
ciedade ajuda a sustentá-la.
Ora, o machismo sempre foi a melhor e mais inteligente estratégia
política, uma grande estratégia de banimento das mulheres da política e
de sua culpabilização. A grande estratégia da exclusão de metade da po-
pulação mundial. Agora essa estratégia é usada contra Dilma Rousseff,
uma mulher que só pode ser excluída porque, primeiro, foi culpabili-
zada. E, culpabilizada, já foi punida, mesmo antes de seu julgamento

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e mesmo sem provas, enquanto que seus algozes seguem inocentados
por eles mesmos. Para que possa ser a culpada, ela precisa ser transfor-
mada em vilã, mesmo que seja apenas uma vítima.

Dilma, politicamente estuprada e invejada


Aqui, sou obrigada a dizer que Dilma Rousseff viveu um estupro
político. Ora, todo estupro é político porque o crime contra uma mu-
lher sempre é político já que, desde Simone de Beauvoir, podemos di-
zer que a sexualidade é política. Uma mulher está para um homem na
sociedade da cultura do estupro como é a nossa, como Dilma está para
os políticos que, mancomunados, tiraram-na de seu cargo. Como um
estuprador que considera o corpo de uma mulher um objeto para seu
uso perverso, os golpistas olham para o corpo de quem ocupa o cargo,
mas só quando esse corpo a presidir um cargo, é mulher. Por isso, olham
para esse corpo com o olhar do fabricante do caixão. Medem seu tama-
nho, seu corte de cabelo, impõem-lhe as medidas que o homem branco
europeu e capitalista, que se entende como o dono do poder, inventou.
Mas não se trata apenas disso, eles olham para essa mulher de mui-
tos modos o que nos obriga a pensar na condição desse olhar. De um
lado podemos falar do olhar estuprador típico do desejo patriarcal que
não se deve confundir com o todo do desejo masculino. Refiro-me ao
olhar daquele que objetifica o outro e que se serve dele para seus fins.
Sobre isso, no jogo imaginário misógino, podemos lembrar da imagem
de Dilma Rousseff na forma de um adesivo que circulou em carros du-
rante algum tempo, no exato instante em que, de pernas abertas, era
invadida por uma peniana bomba de gasolina. Mas podemos também
lembrar do personagem símbolo do estupro político que é o deputado
Jair Bolsonaro, que se posicionou como o grande estuprador em poten-
cial contra Maria do Rosário e que, no dia 17 de abril no momento da vo-
tação do impeachment, elogiou o conhecido torturador coronel Ustra
como o “terror de Dilma Rousseff ”. Nesse caso, não podemos falar de

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um olhar de desejo sexual, mas de um olhar de culpabilização – típico
do estuprador que precisa culpar a mulher de saias para tornar-se apto a
violentá-la. Esse olhar responde por um desejo obtuso que se expressa
como violência sexual.
Nesse caso, temos que falar de um outro olhar que, a meu ver, entra
na constelação misógina. Esse olhar implica o afeto da inveja. É o olhar
conhecido como “olho grande”, ou “olho gordo”. A inveja é a impotên-
cia para o desejo. A inveja é responsável por todo tipo de violência co-
varde. Para além da mística em torno da potência cancelada da inveja, é
preciso ter em vista que subestimamos há muito a potência dos afetos
em termos de racionalidade política. Vimos, contudo, o papel do ódio
entre nós. É o caso de vermos também o papel da inveja. A inveja quase
não se expressa, ela se oculta, porque é covarde. O desejo é o seu oposto.
O desejo está para a potência como a inveja está para a impotência.
Sabemos que o estuprador não tem desejo. Ele odeia e, no fundo, tal-
vez inveje. Não é o desejo que olha para Dilma, mas a impotência de um
homem que olha para ela. E esse olhar é destrutivo.
Não podemos crer que, sendo o poder patriarcal, capitalista, branco,
sendo o poder que impera no Brasil, um poder colonial (de um colonia-
lismo que vem de fora, mas que também foi introjetado pelos que hoje
estão dentro) que aqueles que sempre o representaram ficariam de bem
– isentos de inveja – com uma figura como Dilma Rousseff no seu posto
máximo. Além de morrerem politicamente nas urnas, morreram de in-
veja. Por isso desrespeitam o voto. A inveja do mau perdedor, do menos
votado, do inelegível, do impopular, do pouco popular.
Morreram politicamente nas urnas e depois morreram de inveja –
passaram todos os recibos – de não poderem usar aquilo que em sua
mente autoritária seria simplesmente seu. Se prestarmos atenção no
inconsciente ótico revelado na iconografia das redes sociais, nos provi-
denciou a imagem de Temer no corpo de Dilma Rousseff com o vesti-
do da posse. Talvez o poder fosse seu e do mesmo modo o vestido, em

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sua condição de veste do poder, no flagrante do olhar caído de Michel
Temer.
Dilma Rousseff, além de tudo, não é a mulher dos moldes da bran-
quitude burguesa, europeia e obediente. Ela está longe de ser a “bela,
recatada e do lar” que, conforme vimos na mídia golpista, pode-se ter
à cama nos tempos do machismo narcísico e impotente. Contra isso,
revistas tentaram fazê-la passar por louca, má, agressiva, doente.
Manipulações da imagem fazem parte da era do espetáculo político.
Desde o abnóxio segundo colocado, neto de vovô, até o vice-presi-
dente, troféu dos menos votados de seu partido (partido, aliás, acos-
tumado a presidentes não eleitos pelo voto), ilegítimo em seu cargo
interino, passando pelo ladrão histórico que renunciou há poucos dias
– todos representantes máximos entre nós do que podemos chamar de
ridículo político – todos desejam ser a presidenta. Desejam e não po-
dem porque não têm votos, nem poder, só a violência da politicagem.
Cuidado com a inveja masculina que historicamente inventou a in-
veja feminina num golpe de mestre da misoginia histórica.

“A q u e l a m u l h e r ” : i d e o l o g i a s m a c h i s t a s c o n t r a o
gênero feminino
Dilma Rousseff é uma mulher e como toda mulher terá que pagar
pelas regras compulsórias que regem suas vidas no contexto do ma-
chismo como ideologia. É a ideologia patriarcal que constrói a ideologia
da maternidade, a ideologia da sensualidade e a ideologia da beleza que
homens, sobretudo os brancos, tanto quanto as igrejas, os partidos, a
publicidade, a mídia e a sociedade civil de um modo geral jogam sobre
as mulheres sempre renovando, pela violência simbólica e estrutural, a
alienação de suas vidas e corpos como se faz há milênios.
Mulheres, como outros trabalhadores, são oprimidas e seduzidas
para que não pensem e não ajam de modo a desconstruir o que está mui-
to bem guardado por conservadores. Dilma Rousseff foi confrontada

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a todo o momento com aqueles quesitos do jogo de linguagem misó-
gino que sustenta a ideologia machista às vezes de modo mais velado,
às vezes de um modo mais escancarado, como acontece com todas as
mulheres que chegam ao poder. A qualquer tipo de poder. Imaginem
o que deve ser chegar ao poder quanto tantos inelegíveis tem você na
mira de suas armas e quando a maledicência é uma arma poderosa nos
tempos midiáticos, em que televisão e redes sociais elevam o verbal e o
discursivo ao mais importante de todos os capitais.
Dilma Rousseff tornou-se, no contexto da misoginia diária, sempre
estimulada pela mídia, “aquela mulher”. Seu nome próprio desaparecia
diariamente, num sinal de evidente falta de respeito.
Dilma Rousseff foi sempre objeto da vileza política seja ao nível ins-
titucional, seja ao nível aberto do político no qual todos exercem seus
ideais e repetem os clichês da tendência dominante bem trabalhados
pela publicidade midiática que serve como prótese de pensamento dos
ex-cidadãos transformados em telespectadores e idiotas, esvaziados de
sensibilidade e inteligência moral em nossa época.

Misoginia como ra zão de estado


Com a saída da presidenta, a misoginia torna-se razão de estado. É o
todo da política de governo. Em termos práticos, isso quer dizer o fim
do Ministério das mulheres, da igualdade racial, da cultura, da comuni-
cação, do que mais tiver relação com uma política capaz de reconhecer
pautas relacionadas a direitos fundamentais. Uma política capaz de re-
conhecer a importância da participação popular. Uma política capaz de
representar os cidadãos. É o fim da democracia representativa.
Autorização coletiva para o machismo em todos os níveis, o racismo,
os preconceitos de gênero, em uma palavra é o fascismo como negação
do outro o que entra em cena com o fim da representação. O governo
se expõe, mas de modo cínico. O rito governamental de Michel Temer,
que entrará para a história como o magno representante do ridículo

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político entre nós, como o boçal invejoso, implicou o ato simbólico de
esvaziar a política de seu sentido. Como ele conquistou essa façanha?
Tirando a representação da cena.
Se na modesta e capenga democracia brasileira denunciamos há mui-
to pouco a sub-representação de mulheres, e de mulheres negras, de ne-
gros, indígenas, quilombolas, lésbicas, de todos os grupos jogados no
campo infindável, imenso, das minorias, o governo golpista vem deixar
claro que democracia não é o seu forte. Pensando que está no tempo dos
colonizadores e dos coronéis que do século XIX, sua escola antiquada,
pensando que governará ilegitimamente deitado em seu esquife de
vampiro sugando o pescoço de nossa democracia jovem, guerrilheira
e adolescente, o governo do golpe continua mirando o povo com seus
olhos capitalistas de fabricante de caixão. Com a típica covardia mas-
culina, Michel Temer, o invotável, usurpou o lugar da presidenta eleita
legitimamente e instaurou um estado de exceção em que leis não tem
mais vigência. Um estado de exceção invisível, analfabeto político, au-
toritário e cínico.

Misoginia e luta por hegemonia


Política é luta por hegemonia. O jogo do poder é um jogo de manu-
tenção do próprio poder, mesmo que o poder tenha que se tornar vio-
lento para isso. Um reconhecimento do inimigo sempre foi necessário.
Todo governo tem seu inimigo e se deve levá-lo a sério. A direita
combate a esquerda, e vice versa. Os capitalistas sempre combateram os
comunistas e vice versa. Um governo autoritário combate a democracia
de todos os modos, nas formas mais veladas.
Ora, o inimigo existe ou é criado. As mulheres foram criadas pela
misoginia histórica como inimigas dos homens e delas mesmas. Assim
foi com Dilma Rousseff reduzida a ser “aquela mulher” cujo nome as
pessoas pararam de pronunciar como não se pronuncia o nome do
Diabo, ou um palavrão. Ora, todo poder, todo governo combate aquele

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que o fragiliza. O combate que o governo ilegítimo Temer tem em rela-
ção às minorias é do mesmo teor do combate às mulheres e à presidenta
Dilma que se tornou uma heroína fundamental, uma verdadeira metá-
fora da democracia em seu estágio atual, o da representação feminina.
Não é momento para debater isso, mas no dia em que as mulheres des-
cobrirem que o patriarcado é um inimigo sério, no dia em que o povo
perceber que o neoliberalismo e toda a religião capitalista são seus ini-
migos, aí sim, teremos uma revolução.
O governo Temer expõe-se como governo do golpe, uma abjeção po-
lítica organizada por anos, na estratégia que culminou no afastamento
da presidenta. O golpe começou com um combate diário, desde que a
presidenta era candidata. Esse combate é velho e é misógino.
A permanência da misoginia é a vitória do autoritarismo antidemo-
crático instaurado hoje no Brasil. Se há machismo estrutural é porque
há um sistema de privilégios masculino que depende das práticas e dos
discursos misóginos.
Parece-me que a responsabilidade de todos nós que respeitamos a
democracia é combater a misoginia. Hoje, lutar por democracia se con-
firma como luta contra a misoginia, ou seja, como desmontagem da
máquina misógina, aquela mesma para a qual Dilma Rousseff apontou
ao dizer-se presidenta.
A questão do golpe contra Dilma Rousseff nos coloca hoje essa gran-
de questão. Não haverá democracia se houver misoginia, pois a miso-
ginia carrega o princípio da negação do outro que nos coloca agora no
atual esvaziamento do estado de direito e do fim da democracia que
sempre será a única esperança que podemos ter na política.

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Mulher, neg r a , f avelada e
parlament ar : r esistir é
pleona smo

Mar ielle Franco*

* Vereadora do Partido
Socialista (PSOL-Rio).
É socióloga formada pela
Int rodução Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro (PUC-Rio)
O golpe no Brasil, e não estou falando de 1964, e mestra em Administração
foi uma ação autoritária, feita com a utilização do Pública pela Universidade
Federal Fluminense (UFF).
arcabouço legal brasileiro em pleno século XXI.
Os principais atores desse cenário? De um lado a
presidenta, mulher, vista por parcela da população
como de esquerda. De outro lado um homem, bran-
co, visto por parcela expressiva das pessoas como de
direita e socialmente inserido nas classes dominan-
tes. Essa conjuntura do golpe, marcada pela altera-
ção da correlação de forças políticas, também cravou

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alterações sociais significativas na esfera do poder do Estado e no ima-
ginário popular. Trata-se de um período histórico em que se ampliam
as desigualdades, pelas retiradas de direitos de um lado e, por outro,
a discriminação e a criminalização de jovens pobres e das mulheres,
principalmente as mais pobres.
No mesmo período outros elementos pulsam na cidade carioca com
caracterizações distintas para a conformação política da ordem nacio-
nal e do imaginário predominante. Para uma mulher favelada, negra e
que se assume politicamente de esquerda, ser eleita com mais de 45 mil
votos é um marco eleitoral histórico. Tais contradições, antinomias de
um mesmo ambiente, com diferentes escalas, protagonizam o cenário.
Enquanto esteve à frente da presidência da república, Dilma Rousseff
enfrentou vários desafios relacionados ao fato de ser a primeira mulher
a ocupar aquele espaço de poder e de ter no prédio ao lado o Congresso
Nacional mais conservador da nossa história. Não por acaso, seu im-
peachment revelou logo a sua faceta patriarcal, com ameaças cotidia-
nas às conquistas históricas dos movimentos de mulheres e feministas.
Nossa ação política, portanto, identifica com importância significativa
a ocupação de espaços de poder, inclusive institucionais, contribuindo
para criar ambientes nos quais mais mulheres tenham voz e visibilida-
de para pautar nossas demandas em todos os lugares.
Os estereótipos associados ao que é ser uma mulher e as expectati-
vas sobre como devemos nos comportar são facetas do discurso conser-
vador. Movimento esse que ganha força, em escala internacional, tendo
em vista que o outro, a outra, o corpo que não compõe o grupo social de
poder tende a ser “colocado para fora” ou “impedido” de conviver, com
suas “diferenças” pelas classes dominantes. Com a falácia da narrati-
va de “crise econômica”, busca-se derrubar os direitos conquistados e
uma vez feito, nós, mulheres negras, estaremos ainda mais vulneráveis
à violência e ao racismo cotidiano. Para além de resistir, trata-se de ação
fundamental alterar tal correlação de forças a nosso favor.
Apesar das nossas críticas aos governos petistas, nossa luta sem-
pre foi baseada na perspectiva de mais direitos, com enfrentamento às

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desigualdades, com políticas para construção de um Brasil com condi-
ções de vida mais dignas para todas as pessoas. Sabíamos que a concilia-
ção de classe tinha limites, e um governo ancorado em tal arquitetura,
não reuniria forças para superar as desigualdades. Nesse caso, questões
fundamentais, como o genocídio dos povos indígenas e da juventude
negra, percebem-se limitadas para acumular políticas públicas e um ar-
cabouço legal que possa superar tal situação.
O governo ilegítimo, no entanto, dá mais força às elites políticas e
econômicas que sempre estiveram no poder e reage às manifestações
populares com forte repressão policial. Temer assumiu a incumbência
de aprovar as reformas estruturais da forma como foram pensadas pelos
grandes empresários e pelas instituições financeiras internacionais. As
contrarreformas trabalhistas e da previdência, por exemplo, são peças
fundamentais para destruir os direitos das mulheres, principalmente
das que vivem dos seus trabalhos ou em condições nas quais o trabalho
de suas famílias são os meios de manutenção de suas sobrevivências.
Num país com alarmantes desigualdades de gênero que temos, lo-
cal onde as mulheres recebem salários menores, as mulheres têm mais
dificuldade de serem empregadas em trabalhos formais, sofrem mais
com o desemprego e ainda são sobrecarregadas com a dupla ou tripla
jornada, as superações e conquistas são desafios diários. Se já é difícil
para as trabalhadoras domésticas atingirem os 15 anos de contribuição
previdenciária, imagina para alcançar os 25 anos propostos no projeto
de lei enviado ao Congresso?
O golpe atinge social, econômica e simbolicamente a maioria da po-
pulação, mas chega com força destruidora para todas nós, mulheres.
A repercussão dessa onda toma todo o país em níveis nacional, nas uni-
dades federativas e nos municípios, com grande impacto nas cidades.
Antes mesmo do impeachment, os protestos da Primavera das
Mulheres chamaram a atenção para o absurdo do projeto de lei que
dificultava o acesso ao aborto nos casos já permitidos legalmente.
As Marchas das Margaridas e das Mulheres Negras, em Brasília,

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mostraram a força do nosso movimento e transversalidade das nossas
pautas. No último 8 de março, uma aliança internacional levou milha-
res de mulheres às ruas contra as reformas trabalhista e da previdência.
Estamos, portanto, organizadas, ocupando ruas e os vários cenários
públicos de diversas maneiras, com outros movimentos sociais, apesar
da dura repressão contra esses atos. Descriminalizar, barrar derrubadas
de direitos e avançar no direito à diferença e às conquistas sociais e eco-
nômicas são desafios que assumimos para o presente.
Estamos confiantes, portanto, de que ter um gabinete formado ma-
joritariamente por mulheres, voltado para os temas de gênero, favela e
negritude, reunirá forças para criar ambientes favoráveis para os em-
bates atuais. O diálogo com outras mulheres que ocupam papel de re-
presentação, no Estado ou na sociedade civil, assim como com outros
setores explorados, marginalizados e oprimidos, será uma estética cla-
ra para forjar novos ambientes favoráveis para barrar a onda das classes
dominantes e obter novas conquistas. Precisamos cultivar o bom senso
para construir uma nova estética política na perspectiva de articular gê-
nero, raça, classe e territórios populares para que a vida das pessoas seja
colocada acima do lucro.
Pode-se afirmar que uma das grandes vitórias da burguesia, das clas-
ses dominantes brasileiras, foi construir uma cultura na qual predomi-
na um estigma entre pobres e ricos de que o maior problema do Brasil
seja a corrupção. Um discurso moral, com latência imediata na vida das
pessoas. Com isso, nós da esquerda ficamos em situação desfavorável
na correlação de forças, com consequência destruidora para os mais po-
bres. Enfrentar e superar as desigualdades são desafios atuais, contem-
porâneos, que estão colocados para nós, para o nosso mando, para nossa
ação de transformação social por uma vida mais digna e para a grande
estratégia de superação do capitalismo.
Neste ensaio, quero pontuar os desafios que essa conjuntura tem nos
colocado e algumas soluções que estamos criando a partir do mandato,
com as possibilidades de escala de mudanças que podemos interagir e

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agir. Como mulher, negra, com origem na favela da Maré, feminista por
convicção, assumi o desafio de ocupar a câmara municipal do Rio com
as nossas pautas. Para além disso, assumi o desafio de conquistar um
espaço determinante para uma estética popular que consiga articular
com os sujeitos estratégicos para barrar o avanço do capital e constituir
ambientes nos quais os direitos às diferenças, à vida e a dignidade hu-
mana sejam determinantes. Portanto, a empatia com mulheres, negros
e mais pobres, são elementos centrais para enfrentar, barrar e superar os
projetos dos “donos do poder”.

A cidade do Rio
O Rio de Janeiro possui uma história que, em muito, o diferencia
de outras metrópoles brasileiras. Na maior parte de sua existência foi
capital do Brasil, passando a ser unidade federativa com uma só cidade
para em seguida, somente em 1975, integrar-se ao estado fluminense.
Condições sui generis, inclusive para criar uma identidade metropoli-
tana em uma cidade que é uma grande metrópole. Afinal, a cidade na
qual vivemos está incluída entre as 50 maiores cidades do mundo. Nos
últimos anos, viveu-se, neste local, o poder político controlado pelo
PMDB, no governo estadual e na prefeitura (até as eleições de 2016).
É importante destacar como são grandes as contradições que ainda
fluem na cidade, e um desses exemplos foi a eleição, ao mesmo tempo,
para a Câmara Federal, de Eduardo Cunha, figura chave do processo de
impeachment, e a Jean Wyllys, defensor da causa da LGBT.
A minha trajetória na coordenação da Comissão de Direitos
Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) me co-
locou em contato também com as consequências diretas do projeto,
predominantemente racista e machista, implementado pelo PMDB.
O projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) que, apesar de ter
sido premiado internacionalmente, colocou-nos num cenário desola-
dor, sobretudo diante da crise pela qual passa o governo fluminense.

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Principal marca desse cenário é a violência e o número de mortes que
segue ampliando assustadoramente, por conta dos confrontos diários,
espalhando-se pela cidade, de forma mais notória nas favelas das Zonas
Norte e Oeste e nos territórios populares. E pode ficar ainda pior soma-
do à situação do país e à incapacidade de construir um direito criminal
sustentado da defesa da vida e não na ampliação das punições.
O trabalho na comissão me fez perceber que no Rio de Janeiro era
preciso defender o que já deveria ser universalmente óbvio, a vida: que
havia direitos fundamentais a serem respeitados; que as favelas são vis-
tas como local de medo, miséria e “bandidos”, mas são territórios de
potência e sofrem o peso da falta dos investimentos do Estado, não é
natural o que nelas ocorre; que é preciso pensar e praticar uma política
de segurança pública ampla, integrada a uma perspectiva social que sir-
va para defender a vida. Inúmeras famílias, mães, irmãs, avós estão pas-
sando pelo pior: a perda de seus filhos, filhas e entes queridos, além da
convivência diária com a militarização e a violência por parte do Estado
no dito combate ao tráfico e por parte dos grupos criminosos; o que
causa efeitos psicológicos e físicos imensuráveis. Soluções como o uso
de argamassa blindada nas escolas não blindarão os corpos vulneráveis
a essa violação diária de direitos.
As questões territoriais na cidade ampliam as desigualdades em
formas e condições muito elevadas. Um exemplo simbólico disso foi
o ocorrido na Vila Autódromo durante o governo do último prefeito.
Posicionada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, esse território popular
viveu os efeitos nefastos que as remoções e desapropriações feitas em
nome de projetos nos quais o lucro tem mais importância que a vida
das pessoas: os megaeventos e os equipamentos esportivos para as
Olimpíadas e Copa do Mundo. Entre 2009 e 2013, 20.299 famílias (cer-
ca de 67 mil pessoas) foram removidas de suas casas pela prefeitura.
Outras milhares – não se sabe o número exato – tiveram as casas de-
sapropriadas por decreto, desrespeitando marcos jurídicos importante

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da legislação em prol do direito à moradia, como o estatuto das cidades.
(KONCHINSKI, 2015; PARKIN, 2015)
Com as consequências da falta da moradia e da falta de referência
territorial, pois foram removidas, as famílias lutaram, com suas pos-
sibilidades e condições, para ter seus direitos reconhecidos, ter um lu-
gar para onde ir, algum tipo de amparo pelo Estado. A história da Vila
Autódromo é muito significativa, pois é com as mais bravas guerreiras
da Vila no processo de resistência, que renovo minha certeza de levar
adiante a ideia de construir um mandato voltado para as lutas das mu-
lheres em todos os campos.
Quando lançamos a candidatura de Marcelo Freixo à prefeitura,
pelo PSOL, nossa proposta era se contrapor ao projeto de cidade imple-
mentado por Eduardo Paes. Nós defendemos um Rio para as pessoas.
Embora não tenhamos chegado à prefeitura, nossa campanha foi vito-
riosa: chegamos ao segundo turno e elegemos uma bancada de seis ve-
readores na Câmara Municipal.
Como feminista, é um desafio ter, pela primeira vez, um prefeito
que é bispo, ligado a uma das maiores igrejas do país, com o risco de
construir, na cidade, uma estética mais pigmentada pela conduta reli-
giosa que pela postura laica. Nossa primeira prova de fogo no mandato
foi a audiência pública do Plano Municipal de Educação que, apesar da
sua importância e amplitude, foi marcada pelo debate sobre “ideologia
de gênero” e “escola sem partido”. Como acontece no âmbito nacional,
há um discurso organizado que dizima as propostas em prol de uma
educação mais diversa e inclusiva. Reduz as nossas necessidades da
pauta – que são muitas – a um debate vazio.
Apesar de todos esses desafios, não ficaremos na defensiva, rea-
gindo aos avanços que o conservadorismo nos impõe. O feminismo
cresceu muito nos últimos anos, está ocupando as redes e as ruas com
emblemáticas campanhas, performances e textos provocadores. É com
esse dinamismo que estamos construindo nossas propostas.

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To r n a r l e g a l é d e t e r m i n a n t e p a r a a r e a l i d a d e n a
qual vivemos
Em 2015, milhares de mulheres foram às ruas contra o Projeto de
Lei (PL) 5069/2013. O referido projeto tinha como objetivo dificul-
tar o acesso das mulheres vítimas de violência sexual às informações
e procedimentos sobre o aborto, direito garantido por lei. A chamada
Primavera das Mulheres tomou as ruas do país e fez do movimento fe-
minista um canal importante nas lutas dos movimentos da conjuntura
pré-golpe.
As manifestações inspiraram a minha campanha e o meu compro-
misso em fazer um mandato afinado as pautas do movimento femi-
nista. Por isso, o primeiro PL que apresentei na Câmara de Vereadoras
e Vereadores foi um projeto de programa que garante o atendimento
humanizado às mulheres que têm o direito de interromper a gravidez.
Hoje, a lei garante este direito em três situações: casos de anencefalia,
risco de morte para a mulher e nos casos de gravidez em decorrência de
estupro. (BRASIL, 1940, 2012)
Apesar disso, muitas mulheres não sabem que têm esse direito, sem
contar os profissionais que se negam a fazer o atendimento, alegando
objeção de consciência – quando se sentem impedidos de fazer algo
que vai de encontro com a sua convicção religiosa –, deixando as mu-
lheres à própria sorte. Entre 2013 e 2015, 52% das mulheres que procu-
raram os hospitais para realizar um aborto legal não foram atendidas.
(MADEIRO; DINIZ, 2016)
O que nós queremos com o PL é garantir que as mulheres sejam aten-
didas de forma segura e humanizada e que não tenham que levar adian-
te uma gravidez decorrente de uma violência tão grave como o estupro.

Espaço Coruja
Eu fui mãe adolescente e sei bem as dificuldades de cuidar dos filhos
e conseguir trabalhar. Por isso, outro projeto que apresentamos foi o de

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criação de espaços noturnos para as crianças, que garantiriam que elas
pudessem permanecer nos espaços de educação infantil realizando ati-
vidades extras, lúdicas, diversas ou descansando. O objetivo é garantir
que as mulheres possam ter maior liberdade de atuar no mercado de tra-
balho, pois os limites de horários da educação infantil hoje são um dos
fatores que afetam diretamente a empregabilidade das mulheres.
Nosso objetivo não é deixar as crianças por tempo demais nas cre-
ches, nem forçá-las a uma carga excessiva de estudos, mas encontrar um
equilíbrio dos horários e tipos de atividades para que as mães não pre-
cisem ter que abandonar o emprego, recorrer ao trabalho informal ou
contar com sobrecarregar outras mulheres da família.
Assim seguimos para a construção de um mandato parlamentar,
comprometido com a vida, em suas múltiplas dimensões com refe-
rência clara nas pessoas que são exploradas, marginalizadas, discrimi-
nadas e interditadas por uma cidade dos poderosos. Avançamos para
construir insumos que contribuam para potencializar que mulheres,
negros, pobres, assumam o papel de sujeitos para uma cidadania ativa.
Conquistar uma cidade de direitos é uma ação fundamental para a re-
volução no contemporâneo. E esse é o nosso lugar, esses são os desafios
colocados para o nosso mandato.

Referências
BRASIL. Decreto-lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código penal.
Diário Oficial, Poder Executivo, Rio de Janeiro, 31 dez. 1940. Seção 1,
p. 23911, art. 128.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Argüição de descumprimento


de preceito fundamental 54, de 12 de abril de 2012. Brasília, DF, 2012.
Disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.
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KONCHINSKI, V. Paes muda discurso e desapropria sem acordo casa


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m u l h e r , n e g r a , f a v e l a d a e p a r l a m e n t a r    1 2 5

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Disponível em: <https://olimpiadas.uol.com.br/videos/?id=policia-
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1 2 6    m a r i e l l e f r a n c o

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O g olpe de 2016 e a
demoniz aç ão de g ênero1

Mar y Garc ia Ca st ro*

* Professora aposentada da
Universidade Federal da Bahia
To m a n d o a l t u r a
(UFBA), pesquisadora da
A intenção deste ensaio2 sobre o tema sugerido, Faculdade Latino-americana
de Ciências Sociais (FLACSO,
“o golpe na perspectiva de gênero”, é um texto de- Brasil) e bolsista do Conselho
sordenado3 em que se joga com teses de alguns au- Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico
tores, como a de Heleith Saffioti (2004) sobre o ca- (CNPq).
ráter de formação capitalista da sociedade brasileira
por uma “ordem patriarcal de gênero” e as de Terry
Eagleton (2015), que em livro com o sugestivo título
Esperança, sem otimismo nos anima ao identificar,
no ataque ao que se anunciava como ondas libertá-
rias, o medo:

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O fundamentalismo tem suas raízes não no ódio, mas no medo, o medo de um
mundo moderno e mutante, em que tudo está em movimento, onde a realidade é
transitória e com um final não definido, onde as certezas e os pilares mais sólidos
parecem ter desaparecido. Nesse sentido, é a outra face do pós-modernismo.
(GUMUCIO, 2016)

Eagleton (2015) mais anima ao sugerir que “a luta continua” porque


estar na luta seria a nossa sorte. Ainda que sem profecias ou otimismo,
exalta a esperança, porque estamos nos movendo, as ruas fervilham
em manifestações contra o golpe e nessas as mulheres se destacam.
Segundo ele:

A esperança é um tipo de desejo, mas um que o vincula com um tipo de expectativa.


A esperança tem que ser, de alguma forma, viável; tem que ser possível de ser reali-
zada, enquanto o desejo pode não ser. (GUMUCIO, 2016)

Recorre-se ao conceito de ordem patriarcal de gênero (SAFFIOTI,


2004), tendo gênero tanto como estruturante de relações simbólicas e
materiais do normatizado como ser ou estar homem ou mulher, assim
como da crítica a tal modelagem das relações sociais. Já a combinação
gênero e patriarcado sublinha o acento em poder de dominação, lingua-
gem que embasa instituições, qualifica e hierarquiza mais além do sexo
biológico.
Sobre o trânsito e fronteiras entre os conceitos de gênero e de pa-
triarcado e sua utilidade no debate sobre cultura no capitalismo, escla-
rece Saffioti (2004, p. 36):

Não se trata de abolir o uso do conceito de gênero, mas de eliminar sua utilização
exclusiva. Gênero é um conceito por demais palatável, porque é excessivamente ge-
ral, a-histórico, apolítico e pretensamente neutro [...]. O patriarcado ou ordem pa-
triarcal de gênero, ao contrário, como vem explicito em seu nome, só se aplica a uma
fase histórica, não tendo a pretensão da generalidade nem da neutralidade e deixan-
do propositadamente explicito o vetor da dominação-exploração [...]. Trata-se, pois,

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da falocracia, do androcentrismo, da primazia masculina. É, por conseguinte um con-
ceito de ordem política. E poderia ser de outra ordem, se o objetivo das(os) feminis-
tas consiste em transformar a sociedade, eliminando as desigualdades, as injustiças,
as iniquidades, e instaurando a igualdade?

Ainda em nível de cruzeiro, ensaio o gesto de destacar que tal for-


mação de gênero patriarcal capitalista teve, no impeachment da presi-
denta Dilma Rousseff, ponto de destaque, mas que vinha há muito se
modelando, legitimando-se junto ao povo, aproveitando o difundido
analfabetismo político, tanto por alianças com pares, como pelo fun-
damentalismo religioso, de agências no poder midiático, no judiciário
e no legislativo e pelo cultivo do medo à perda de privilégios, ao outro,
a outra não igual, apelo a inseguranças e à demonização de indícios de
viradas libertárias pregadas como ameaças à norma, à lei do pai, ao pa-
triarca. 4
O processo de analfabetismo político contou com a omissão de uma
esquerda arrogante que, para garantir poder formal na política por re-
presentatividade e um projeto de desenvolvimento econômico com-
petitivo e de integração na ordem econômico mundial, deixou campo
aberto para tal escalada político-econômico-cultural de direita, já que
as pugnas por reconhecimento e distribuição de bens e oportunidades
que focalizam categorias como gênero, raça/etnicidade, sexualidade e
geração, assim como orientadas por vetores de sustentabilidade ecoló-
gica, dignidade e do bem viver seriam em tal projeto marginalizadas
como politicas identitárias, desviantes da unidade necessária entre tra-
balhadores/trabalhadoras para a luta de classe, concebida como restri-
ta ao campo das relações econômicas, ou, no caso da esquerda liberal
ou sócio-democrática, contradições que se resolveriam por injunções
pontuais.
Mas gênero e raça/etnicidade são processos organizatórios que sus-
tentam uma formação capitalista-patriarcal-racista, não somente ins-
crições individualizadas no corpo, cujas colonialidades e subordinações

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terminariam contempladas com políticas e programas compensatórios
para algumas mulheres, alguns negros, alguns indígenas, alguns dos ti-
dos como pessoas LGBTTQ, alguns jovens e alguns velhos.
Se o ataque mais direto a direitos humanos das mulheres se dá no
governo Temer, há que ter claro que o processo de subalternidade da
trabalhadora, principalmente se negra, no terreno da economia, não é
novo, mas em muito se agudizará, no projeto neoliberal em curso:

A imensa maioria dos trabalhadores precarizados é formada por mulheres. Somos


70% [segundo estudo elaborado pela CUT em 2015] da mão de obra terceirizada
do País. Assim, podemos afirmar que a terceirização tem rosto de mulher, principal-
mente de mulheres negras. Essa realidade combinada aos cortes na educação e na
saúde, impactará brutalmente a vida da mulher trabalhadora, que em sua maioria
arca sozinha com as responsabilidades da família.

A Reforma Trabalhista, que isentará as empresas de arcarem com licença materni-


dade e outros direitos adquiridos pelas mulheres, vem acompanhada da nefasta
Reforma da Previdência, que quer estabelecer que trabalhemos “até morrer”.

O projeto original da reforma previdenciária acaba com a diferença de idade entre


homens e mulheres para se aposentar, igualando o tempo de contribuição, mesmo
com as mulheres trabalhando mais por causa da dupla jornada e começando a tra-
balhar mais cedo informalmente, fruto do trabalho doméstico, que isenta o Estado
da obrigação com o cuidado e manutenção das famílias. (MACHADO, 2017, p. 124)

A serpente do neofascismo foi se criando, alimentando-se de um


moralismo oportunista que reificou os males do sistema em um sinto-
ma, a corrupção, e não nos demos conta que dignidade é um valor básico
do povão e nos omitimos da tarefa pedagógica de desvendar a dinâmi-
ca das desigualdades sociais5 e mais pressionarmos por uma educação
de qualidade, contra o analfabetismo político. Nós, ativistas em movi-
mentos sociais, curtimos por algum tempo a euforia de que tínhamos,

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estávamos no poder e dessa posição poderíamos avançar alguma eman-
cipação política.
Contávamos com cargos, maquinarias para direitos humanos, con-
quistamos leis avançadas contra violências nas relações sociais entre os
sexos, contra discriminações raciais e de proteção a vulnerabilizadxs.
Estávamos institucionalizadxs.
Óbvio que tal reflexão é uma hipérbole, a realidade é mais comple-
xa e na correlação de forças não éramos poder. Tal apelação retórica é
mais para sublinhar a importância da educação formal e aquela que,
por diversos meios, apela para o combate ao analfabetismo político e
em especial sobre as potencialidades do ativismo/consciência em gêne-
ro e raça/etnicidade para “cidadanias insurgentes” (HOLSTON, 2013)
tanto contra violências sexualizadas ou baseadas em estereótipos sobre
sexo/gênero como para um pensamento crítico sobre o sistema como
um todo. Haveria que ter investido mais na perspectiva da interseccio-
nalidade – destacada contribuição do “feminismo negro”6 – mas não só
de inscrições individualizadas, e sim como enlace de processos simbó-
licos e materiais que fortalecem classes de subordinações e se rebelem
contra um estado de exceção, como o vigente no Brasil e que ironica-
mente, mas não acidentalmente, derrubou uma mulher da presidência
e vem minando conquistas de várixs subalternizadxs.
Mas o agito de muitos contra o golpe ilustra a propriedade do acento
na esperança, como sugerido por Eagleton (2015).

Segundo Ieda Castro, feminista, ex-gestora do governo Dilma: ‘Faltou às gestões


anteriores investir na educação política. Queríamos tanto que as políticas aconte-
cessem que não fizemos a educação política. Agora é hora de conquistar corações e
mentes para a luta geral’, completou Ieda. Na opinião dela, o formato do 8 de março
deste ano [2017] consolida o mês das mulheres para além do perfil comemorativo
mas como espaço de luta e defesa de direitos. Lúcia Ricon da União Brasileira de
Mulheres confia no impacto das manifestações do mês [maio de 2017], especial-
mente do dia 8. ‘Nós temos um movimento de mulheres em diferentes facetas e
todas unidas na ação de denúncia do golpe contra a reforma da Previdência e contra

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a reforma trabalhista. Então com certeza as atividades que acontecerão vão fazer
reverberar a denúncia’. (CARVALHO, 2017)

A Demonização de gênero: por que o medo à


educação?
Nesta seção embico mais aterrissagem. Gostaria de tratar do golpe
político cultural contra direitos à diversidade, a investida fundamenta-
lista, o alvo na educação dos golpistas, como forma de minimizar a for-
mação de uma consciência crítica, não somente em relação a costumes,
mas a um estado da nação, ressaltando que a campanha contra uma
pseudo ideologia de gênero faz parte da orientação pelo retrocesso po-
litico cultural, básico para sustentar um regime autoritário. A liberdade
é um afeto que tende a não se deixar enquadrar, exigindo ambiências
polissêmicas.
São jovens mulheres, jovens trans, gente transgressora, que, em di-
ferentes manifestações de repúdio ao golpe, fazem o nexo entre macro
e micro políticas, sugerindo que corpo e sexualidade são construtos de
orientação político-econômica e não tema menor, específico.
A força de mobilização das mulheres, dxs jovens decolando do corpo
e des ou reterritorializando regras na crítica ao processo golpista mere-
ce análises e visibilidade social maiores, sugerindo a esperança a que se
refere Eagleton (2015), a renovação da resistência.
Um dos desafios para a resistência é compreender que a onda neo-
conservadora que assola vários países e que, no Brasil, tomou a forma
de um golpe político-econômico-cultural, instalando um regime de
exceção, precisa para enfrentamento de uma “deseducação” contra o li-
vre pensar, que recorra ao pensamento crítico, ou seja, um saber pensar
para um saber agir, como há que mais demarcar que o golpe em cur-
so mescla capitalismo neoliberal com patriarcado. Precisamos refletir

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mais porque a escola, sexualidade e gênero, também no meio escolar,
são alvos prediletos de ataques fundamentalistas e conservadores.
Se o capitalismo neoliberal é contra o estado de bem estar, apoia-se
na lei do mercado, em privatizações e na precariedade do trabalho, o
patriarcado é entendido como a supremacia masculina, castradora de
desejos e de sexualidades que não se alinham com a heteronormativi-
dade. Apoia-se no poder do macho, do pai, da lei/autoridade, ou seja,
em instituições e ideologias que consideram a mulher como objeto de
reprodução e não sujeito de desejos e de escolhas próprias; e o gay, o/a
transexual, o/a transgênero e o travesti como “invertidos” ou “anoma-
lias” ideias que vêm sendo defendidas pelo fundamentalismo religioso.
Ideias que conquistam massas socializadas no familismo, no pa-
triarcado e que tem medo de perder o pater potestas para a escola, tida,
erroneamente, como libertária e, principalmente, pelo medo de perder
sua autoridade/austeridade (vocábulos caros ao golpe) para uma juven-
tude que se rebela contra as amarras castradoras de desejos.
A comum apelação para salvar a família, as declarações de fé pelos
valores “da família brasileira” nas exposições de voto na seção plená-
ria da Câmara dos Deputados, que em 17 de abril de 2016 legalizou o
impeachment da presidenta Dilma são emblemáticos de uma ideologia
jogo de cena, para conquistar uma massa levada a associar um governo,
uma gestão que se queria derrubar com uma mulher que não se encaixa-
va na norma esperada, a de mãe de família, “recatada e do lar” e que seria
uma ameaça à família, aos “bons costumes”, à moral de austeridade que
se queria nas finanças públicas – as metáforas entre a defesa da família e
o impeachment da presidenta estariam subliminarmente postas.
Não ao azar, tanto o golpe de base conservadora como uma Igreja pa-
triarcal no Brasil combatem conquistas feministas, como perspectivas
sobre gênero, exaltando a mulher cuidadora, a do lar, como se essa não
gostasse ou aspirasse também estar no bar. Governo neoliberal e igrejas
fundamentalistas contribuem para violências físicas, verbais, simbóli-
cas – ou seja, aquelas em que as vítimas indiretamente colaboram para

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sua opressão, comumente pela sedução de ideias sobre maternidade,
amor romântico e proteção familiar ou medo do “inferno”, não o aqui
vivido, mas projetado transcendentalmente. Inseguranças e medos de
várias ordens são baluartes de uma ordem conservadora que se sente
ameaçada pelos avanços de debates sobre gênero, em especial no campo
de direitos reprodutivos e sexuais, ou seja, o controle de corpo, sua fle-
xibilização quanto a performances e o poder de vida, separando repro-
dução biológica de reprodução sexo-social e destacando a importância
do desejo e dos afetos.
O patriarcado, o poder do pai, do marido, da lei, de uma crença, de
um pensamento único e de um modelo hegemônico de masculinida-
de, é um processo material e simbólico complexo, que cada vez mais se
enrosca com o capitalismo. O patriarcado é um sistema de opressão de
gênero, entendido como construções sociais sobre relações entre o sexo
e sua perfilhação cultural e normativa e, novo aporte básico, de cons-
trução também do sexo biológico.7 O patriarcado é contra mulheres,
gays, lésbicas, transgêneros e outros que não se alinham à heteronor-
matividade.
A perspectiva da interseccionalidade foge da dicotomia patriarcado
e racismo versus capitalismo, ainda que aceite que, a nível da micro po-
lítica, podem ambos os sistemas conviver sem se engalfinharem. Mas
é uma falácia de níveis equivocados se raça, gênero e orientação sexual,
por exemplo, além da inscrição corporal, não são considerados como
processos de dominação, de violências que ordenam sistemas sociais.
Ou seja, há que reconhecer a mútua colaboração da economia, da cul-
tura e da política para sustentar privilégios, competições e hierarquias
no capitalismo. Mais do que me referir à intersecção entre gênero, raça
e classe, defendo a imbricação de processos de defesa por hegemonias
normativas quanto a gênero/sexualidade, com processos por hegemo-
nias étnico/raciais em um sistema de organização da economia capi-
talista, em sua fase neoliberal, financista e entreguista a interesses do
capital internacional dominante.

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Daí a propriedade da reflexão de Saffioti (2004) sobre formação de
gênero patriarcal capitalista e porque o golpe instalado no Brasil com
o impeachment da presidenta Dilma é mais que uma troca de guarda,
ou uma mudança de projetos econômicos liberais e tanto se interessa
por minar direitos conquistados por trabalhadorxs, negrxs e pessoas
LGBTTQ.
Em outro texto desenvolvo mais a ideia de que gênero se alinha a um
paradigma de conhecimento modelado na complexidade (CASTRO,
2012), o que pede constante crítica a princípios universais, uma vez
que, ao se focalizar tanto reprodução como sexualidade, há que decolar
principalmente do território corpo, das vivências e produções de repre-
sentações sobre este. Então corpos negros, corpos transexuais pedem
modelações próprias não somente em termos de considerar violências,
discriminações, subalternidades, mas também desejos, criatividade e o
questionamento de conceitos já que abarcam uma pluralidade de vivên-
cias, de relações e de subjetividades.
Rebatendo a censura a gênero nas escolas estimulada pela aliança
golpe e fundamentalismos religiosos, insisto que gênero não é uma
ideologia, se entendido tal termo como uma “falsa consciência de ma-
terialidades vividas”, já o que fundamentalistas chamam de “ideologia
de gênero” para combater perspectiva de gênero nas escolas é sim parte
de um paradigma sexista, um paradigma da simplicidade que dicoto-
miza e hierarquiza o mundo das relações sociais e sexuais. É um gênero
de ideologia que há muito é defendido por dogmas religiosos, como o
“parirás com dor”, associação de prazer a pecado; estigmatizar a mulher
como a amiga da serpente que trouxe vários males ao mundo; reduzir a
mulher à reprodutora; considerar a família como uma instituição que
deve ser sustentada pela autoridade do pai/marido e formatar Igrejas
como organizações masculinas. Um pensamento que está de acordo
com a ideologia da submissão que pauta o golpe de estado no Brasil hoje.
O desafio quanto à reivindicação de autonomia das mulheres e dos
pejorativamente tidos como “mulherzinhas” persiste e, nestes tempos,

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é bastante ameaçado tanto por um governo golpista conservador que
cortou inclusive conquistas institucionalizadas, como a Secretaria de
Políticas para as Mulheres com legitimação de movimentos sociais,
como vem gradativamente podando a mínima rede de proteção social
que se conquistara, como o Sistema Único de Saúde (SUS), assim como
possibilidades de trabalho e, portanto, possibilidade de autonomia das
mulheres. Aliás explicitamente contra a mulher são várias as investi-
das deste desgoverno, por exemplo segundo notícia veiculada em 26
de março de 2017, o valor autorizado para gastos com atendimento à
mulher em situação de violência caiu 61% em 2017 em relação ao ano
passado segundo dados do portal do orçamento da Comissão Mista de
Orçamento do Congresso Nacional. Também houve redução de recur-
sos que deveriam ser destinados para políticas de autonomia das mu-
lheres. De R$11,5 milhões em 2016, o valor passou para R$5,3 milhões
em 2017, uma redução de 54%. (GOVERNO..., 2017)
A campanha conservadora contra o que se demoniza como “ideolo-
gia de gênero”, defendendo como a única norma possível a heterosse-
xualidade, vem contra ventos libertários, debate crítico sobre estereó-
tipos em relação ao que seria ser mulher e ser homem, questionando
desigualdades sócio-sexuais. As escolas têm sido alvo privilegiado de
tal ataque e em tal campanha vem se divulgando pós-verdades, como a
ideia de que uma educação em gênero retiraria a autoridade da família
ou que propiciaria a pedofilia. O mais terrível é o apelo para a religiosi-
dade do povo e a autoridade de religiosos junto a famílias, em especial
de baixo poder aquisitivo. Estimula-se o medo e o ódio ao diferente.
A confusão entre gênero como perspectiva sobre respeito ao outro,
à outra; ênfase em direitos sexuais e reprodutivos, combate a violências
várias contra homossexuais, transexuais com a ideia simplificadora de
que seria um conhecimento contra a família, a favor da pedofilia e da
exploração sexual das crianças bem denota uma leitura enviesada sobre
gênero e o reconhecimento da importância de debate com perspecti-
vas de gênero nas escolas. Segundo escrito da Conferência Nacional dos

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Bispos do Brasil (CNBB) dirigido a vereadores contra uma perspectiva
de gênero nos planos municipais de educação:

Essa ideologia [de gênero] comporta diversos inconvenientes para a educação:


(1) A confusão causada nas crianças no processo de formação de sua identidade,
fazendo-as perder as referências; (2) A sexualidade precoce, na medida em que a
ideologia de gênero promove a necessidade de uma diversidade de experiências
sexuais para a formação do próprio “Gênero”; (3) A abertura de um perigoso cami-
nho para a legitimação da pedofilia, também considerada um tipo de gênero; (4) A
banalização da sexualidade humana podendo aumentar a violência sexual, sobretu-
do contra mulheres e homossexuais; (5) A usurpação da autoridade dos pais, em
matéria de educação de seus filhos, principalmente em temas de moral e sexualida-
de, já que todas as crianças serão submetidas à influência dessa ideologia, muitas
vezes sem o conhecimento e o consentimento dos pais. (KRIEGER, 2015)

Ora tal pronunciamento sobre o que chamam “ideologia de gêne-


ro” desconhece a complexidade de vivências de juventudes em relação
à sexualidade e à orientação da perspectiva de gênero nas escolas contra
violências, por exemplo.
Fala-se em precocidade da sexualidade e se desconhece que, em
grande medida, a chamada gravidez precoce se associa a ideias român-
ticas sobre sexualidade e à falta de debates sobre respeito, dignidade da
mulher, autoestima e prevenção, ou seja, à falta de uma educação sexual
com perspectiva de gênero.
A fecundidade entre as mulheres jovens na faixa entre 15 e 19 anos
vem crescendo com mais intensidade desde os anos 1980. Em 2004 ti-
nha-se que cerca de 107 mil adolescentes e jovens no ensino médio e nos
dois últimos anos do fundamental, nas 14 principais cidades do país,
ou seja, 22% da população feminina entre 10 a 24 anos naqueles níveis
escolares, já haviam ficado grávida. 8 Para período mais recente, tem-se
que:

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[Em 2012] 26,8% da população sexualmente ativa (15-64 anos) iniciou sua vida
sexual antes dos 15 anos no Brasil;

Cerca de 19,3% das crianças nascidas vivas em 2010 no Brasil são filhos e filhas de
mulheres de 19 anos ou menos;

Em 2009, 2,8% das adolescentes de 12 a 17 anos possuíam 1 filho ou mais;

Em 2010, 12% das adolescentes de 15 a 19 anos possuíam pelo menos um filho


(em 2000, o índice para essa faixa etária era de 15%). (BRASIL, 2008, 2012;
NAÇÕES UNIDAS, c2013; UNICEF, 2011 apud UNFPA, [201-])

Cerca da metade dos nascidos vivos de mães entre 15 a 19 anos, com


maior probabilidade, vivem em famílias sem a presença do pai bioló-
gico. A gravidez entre adolescentes e jovens tem um perfil social pró-
prio: estima-se que mais da metade das adolescentes de 15 a 19 anos sem
nenhum ano de escolaridade já tenham se tornado mães. A taxa de fe-
cundidade das jovens com mais baixo rendimento (menos de l salário
mínimo) era de 128 por mil mulheres, entre as jovens com rendimentos
mais altos (l0 salários mínimos ou mais), a taxa de fecundidade baixaria
para 13 por mil, segundo Camarano (1998) para a década de 1990 e vá-
rios estudos indicam que tal quadro não se alterou muito nos períodos
mais recentes, a maior proporção de fecundidade está entre adolescen-
tes de baixa renda e baixa escolaridade.
Existe (e não é de hoje) um vazio inclusive no plano de políticas pú-
blicas por uma educação que colabore em questionar formas de pensar e
viver a sexualidade, que invista na autoestima das mulheres jovens, no
combate às homo, lesbo e transfobias, e na formação de uma massa críti-
ca juvenil. O universo juvenil, suas referências culturais, os sentidos de
seus corpos são silenciados por uma educação pouco crítica ou por va-
lores de uma “adultocracia” bem intencionada, mas distante de tal uni-
verso. Possivelmente tal quadro irá piorar em tempos de Temeridade,
com o empobrecimento da população, a não discussão sobre relações de
gênero e violências nas escolas.

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Lembro que o conceito de patriarcado se refere ao poder discricioná-
rio do pai, à supremacia masculina, ao poder repressivo da lei, ou seja,
o patriarcado atua no espaço privado, como a família, e nos espaços pú-
blicos.
O Congresso e o Senado são formados por muitos patriarcas que,
independentemente da idade (e até do sexo/gênero), são vetustos fun-
damentalistas. Sexistas fundamentalistas porque leem a Bíblia de uma
forma que tal leitura beneficie seus interesses. De fato há católicos e ca-
tólicos, evangélicos e evangélicos, e adianto que grande parte da ban-
cada evangélica e católica no Congresso e nas Câmaras não necessaria-
mente contam com o apoio de muitos católicos e cristãos.

Estes tempos – esperança, ainda que com moderação


Já se tem indícios de barbárie anunciadas pelas Propostas de Emenda
Constitucioal (PEC) 271 – 55 e a Reforma do Ensino Médio, o aborto das
reformas estruturais necessárias como a Reforma Tributária, a Reforma
Política, a Reforma dos Meios de Comunicação e a Reforma Agrária.
A relação entre o imperialismo, o capital dito nacional, a mídia, o ju-
diciário, o legislativo e o executivo sugere investida agressiva em uma
agenda neoliberal. A luta de classe ganha outro patamar, de enfrenta-
mentos mais explícitos de interesses
As ocupações das escolas, das universidades, a mobilização dos se-
tores organizados de trabalhadores, dos movimentos sociais, como os
de corte feminista, negro e de pessoas LGBTTQ sugerem também que a
formação política se faz hoje nas ruas, mas pede mais investimento or-
ganizativo, quando a agenda por dignidade deveria tomar acento eman-
cipacionista, colorindo, diversificando as frentes de classe, unidas na
crítica à barbárie capitalista.
Perdemos uma importante frente para mudanças na cultura patriar-
cal, quando foi retirado do texto do Plano Nacional de Educação (PNE),
que define diretrizes e metas para a educação até 2024, a menção às

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questões de gênero e orientação sexual.9 Mas a luta continua, contra a
investida do que chamam de “ideologia de gênero”. Locais de trabalho,
as periferias, as escolas, as ruas e a universidade são importantes frentes
de lutas emancipacionistas.

A supressão [de uma perspectiva de gênero] é efeito da pressão de setores religio-


sos conservadores que, incomodados com práticas pluralistas que contradizem
seus valores morais, têm dificultado, no âmbito da educação, o desenvolvimento de
políticas em nome dos direitos das mulheres, dos direitos sexuais e reprodutivos,
assim como qualquer medida no marco dos direitos humanos.

A importância de se discutir tais questões no âmbito da educação é atestada pela


amplitude e incidência de crimes homofóbicos e violência de gênero no Brasil.
Estes ocorrem no contexto de uma história e uma cultura construída com lingua-
gem machista, sexista e homofóbica que vítima, antes tudo, no âmbito simbólico.
As mulheres, as lésbicas, transexuais, travestis, bissexuais, gays e outros sujeitos
sexuais marginalizados têm suas imagens desvalorizadas, o que enseja um clima
favorável a violências de todo tipo. Tratar a discussão sobre gênero e diversidade
sexual como matéria de educação [por outra cultura] significa dar um passo impor-
tante para reduzir as desigualdades e a violência que marcam o país. (POR QUE...,
2014)

A ofensiva de parlamentares e outros atores, em nome da religião


contra o debate sobre gênero na escola, bem indica o desafio de termos
tanto na economia como na cultura como frentes de lutas políticas para
a emancipação agora e por outro amanhã. O retrocesso no PNE, sugere
que, de fato, mesmo os conservadores reconhecem e temem a impor-
tância de um conhecimento crítico à cultura, à escola, para desconstruir
preconceitos e estigmas.
O reconhecimento tanto dos nexos entre patriarcalismo e capitalis-
mo, assim como entre economia e cultura, quer no plano de micropo-
líticas quer em termos de projetos de mudanças sociais tem sido uma

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marca contemporânea, um estrutural desafio que se busca enfrentar
em diversas frentes de direitos de mulheres e daqueles de orientação
não heteronormativa no plano da corrente feminista emancipacionis-
ta10 e antirracista.
A demonização de gênero por conservadores bem indica, insisto, a
importância da cultura na viração de relações sociais, ou seja, na forma-
ção de sujeitos políticos avessos a repressões, desigualdades sociais e a
discriminações de várias ordens. E a formação de sujeitos políticos, com
a colaboração de uma educação crítica, é básica para uma outra cultura,
participativa, para mudanças no hoje e para outro amanhã. É um desa-
fio ao mesmo tempo classista e movimentista, que tem na mobilização
contra o golpe um importante momento de esperança em uma longa
caminhada.

Notas
1 Neste texto desenvolvo ideias apresentadas em diferentes seminários na Universidade
Católica de Salvador (UCSAL); Universidade do Estado da Bahia (UNEB) campus de Serrinha,
UNEB campus de Alagoinhas e Universidade Federal da Bahia (UFBA) campus de Salvador no
primeiro semestre de 2017, que muito se beneficiaram dos debates com jovens nessas uni-
versidades. É um texto em processo e que aqui toma a forma de ensaio.
2 O Ensaismo ético em Adorno joga ênfase na cultura e na ideologia para pensar criticamente
a sociedade, crítica à ideologia e à identidade. Ou seja, a tradição do ensaísmo ético seria
pensar criticamente a sociedade. Para Adorno, o ensaio não tem fecho; interessa-se pela to-
talidade, mas não é arbitrário. (ADORNO, 1986)
3 O ensaio, segundo Adorno (1986, p. 174), privilegia a desordem das ideias – “O ensaio não
compartilha o jogo da ciência e da teoria organizada, segundo as quais, como diz Spinoza, a
ordem das coisas seria a mesma que a das ideias. [...] O ensaio não almeja uma construção
fechada, dedutiva ou indutiva [...]. Vai contra a doutrina arraigada desde Platão, segundo a
qual o mutável e o efêmero não seria digno da filosofia [...e] contra a violência do dogma”.
4 “Na opinião do jornal Financial Times, a presidenta Dilma Rousseff rompeu com a rotina de
poder no Brasil. A publicação incluiu Dilma na lista de Mulheres do Ano divulgada em dezem-
bro do ano passado e ressaltou, em entrevista realizada com ela, que é outro o tratamento
dado a réus homens que estão no comando do país. Na ocasião Dilma declarou: ‘Uma mulher
exercendo autoridade é considerada dura, enquanto um homem é chamado de forte’.

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Lúcia Rincón, presidenta nacional da União Brasileira de Mulheres (UBM), não tem dúvidas
de que o fato de o país ter como presidenta uma mulher estimulou a misoginia. ‘Foi uma arma
importante na deposição de uma proposta de governo que estava comprometida com o
avanço da igualdade social e no combate à discriminação’.
De acordo com Lúcia, não foi surpresa que o ‘braço pesado do golpe’ atingisse de imediato a
Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. ‘Foi um órgão que perdeu a autonomia por
duas vezes. Hoje é uma subsecretaria dentro do ministério da Justiça, com isso dificulta o
trânsito, as possibilidades dessa secretaria ser reconhecida por outros ministérios em pé de
igualdade’, avaliou Lúcia.
O ataque às conquistas e à autonomia das mulheres brasileiras tem o Congresso Nacional
como aliado de peso. O Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cefemea) denuncia as
manobras da bancada evangélica e outras como a chamada bancada da bala e o jogo de troca
de favores com o Executivo. ‘Os direitos das mulheres são tratados pelas bancadas conserva-
doras como moeda de troca para aprovar a reforma da Previdência’, explicou Maira Abreu,
assessora técnica do Cefemea.
Na opinião dela, o direito ao aborto, seja em que condições seja, é o alvo da bancada conser-
vadora no Congresso Nacional. No dia 29 de novembro de 2016 decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF) confirmou o direito das mulheres brasileiras a interromper a gestação
até a 12a semana. O aborto é permitido por lei nos casos em que a gestação implica risco de
vida para a mulher, quando a gestação é decorrente de estupro e no caso de anencefalia.
A mais recente é a iniciativa do Deputado Alan Rick do Partido Republicano Brasileiro (PRB)
que apresentou emenda para mudar o nome do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e
do Adolescente para Conselho Nacional dos Direitos do Nascituro, da Criança e do
Adolescente, incluindo, através da emenda, as expressões como os direitos do nascituro e a
inviolabilidade do direito à vida.
‘Além das restrições totais ao aborto, a proposta sustenta um projeto de sociedade conserva-
dora, de impedimento à autonomia das mulheres e de flexibilização da laicidade do Estado
brasileiro’, avaliou Jolúzia Batista, da assessora técnica do Cefemea”. (CARVALHO, 2017)
5 Em pesquisas que participamos com jovens do ensino médio em escolas públicas em várias
cidades do Brasil, comumente a corrupção era apontada como a principal causa dos proble-
mas do país e a principal fonte de informação para tal ideário, segundo xs jovens era a TV ou o
“ouvir dizer”. Ver Abramovay, Castro e Waiselfisz (2015).
6 Ver sobre interseccionalidade, entre outros autores, Ribeiro (2016), Davis (2016) e Carneiro
(2011). Sobre feminismo negro ver também artigos em Geledés: Instituto da Mulher Negra:
<http://www.geledes.org.br>.
7 Sobre o conceito de patriarcado, Saffioti recorre a Pateman, para quem:
“A dominação dos homens sobre as mulheres e o direito masculino de acesso sexual regular a
elas estão em questão na formulação do pacto original. O contrato social é uma história de
liberdade; o contrato sexual é uma história de sujeição. O contrato original cria ambas, a liber-
dade e a dominação. A liberdade do homem e a sujeição da mulher derivam do contrato ori-
ginal e o sentido da liberdade civil não pode ser compreendido sem a metade perdida da his-
tória, que revela como o direito patriarcal dos homens sobre as mulheres é criado pelo

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contrato. A liberdade civil não é universal – é um atributo masculino e depende do direito
patriarcal. Os filhos subvertem o regime paterno não apenas para conquistar sua liberdade,
mas também para assegurar as mulheres para si próprios. Seu sucesso nesse empreendimen-
to é narrado na história do contrato sexual. O pacto original é também um contrato sexual
quanto social; é social no sentido de patriarcal – isto é, o contrato cria o direito político dos
homens sobre as mulheres-, e também sexual no sentido de estabelecimento de um acesso
sistemático dos homens ao corpo das mulheres. O contrato original cria o que chamarei, se-
guindo Adrienne Rich de ‘lei do direito sexual masculino’. O contrato está longe de se contra-
por ao patriarcado; ele é o meio pelo qual se constitui o patriarcado moderno”. (PATEMAN,
1988, p. 16-17 apud SAFFIOTI, 2004, p. 53-54)
8 Dados de 2002 da pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura (Unesco), segundo Castro, Abramovay e Silva (2004).
9 Em 22.04.2014 a repórter Mariana Tokarnia da Agência Brasil escreveu sobre a votação no
Congresso do PNE: “Após ser alvo de polêmica, deputados retiraram a questão de gênero do
Plano Nacional de Educação (PNE). O PNE começou a ser votado hoje (22) na comissão espe-
cial da Câmara dos Deputados formada para analisar o texto. A comissão aprovou o relatório
do deputado Ângelo Vanhoni (PT-PR), salvos os destaques. A questão de gênero foi suprimi-
da no primeiro destaque votado. O destaque aprovado nesta terça-feira modifica o trecho do
plano que diz: ‘São diretrizes do PNE a superação das desigualdades educacionais, com ênfa-
se na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual’, retomando o
texto do Senado, que fala apenas em “erradicação de todas as formas de discriminação”.
Para os deputados que argumentaram a favor da alteração, as formas de preconceito estão
contempladas no texto, e colocar a questão de gênero e orientação sexual vai favorecer o que
chamaram de ‘ditadura gay’. Outros parlamentares consideraram a retirada da questão de
gênero um retrocesso. “A escola, mais que outro lugar, não pode ser surda e muda e reprodu-
zir os preconceitos da sociedade”, defendeu a deputada Fátima Bezerra (PT-RN).
Dos 26 deputados presentes, 11 votaram contra o destaque. O plenário estava lotado, com
representantes de estudantes, de movimentos sociais, de entidades ligadas à educação e de
grupos religiosos. A alteração causou aplausos e vaias. Dirigindo-se aos estudantes, que pe-
diam a manutenção da discriminação dos grupos no PNE, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ)
levantou uma folha de papel na qual estava escrito: ‘Volta para o zoológico’.”
10 Ver produção da União Brasileira de Mulheres (UBM) sobre feminismo emancipacionista na
revista Presença da Mulher, da editora Anita Garibaldi e, entre outras publicações, Valadares
(2007) e Rocha (2012).

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Golpe dis f arç ado de
impe achment : uma
ar ticulaç ão escus a contr a a s
mulher es

Nilma Lino Gomes*


* Doutora em Antropologia
Social pela Universidade de
São Paulo (USP) e pós-doutora
em Sociologia pela
Universidade de Coimbra.
Professora da graduação e da
Int rodução pós-graduação da Faculdade
Era uma manhã, em Brasília, com um céu im- de Educação (FAE) da
Universidade Federal de Minas
pressionantemente azul como sempre nos apresen- Gerais (UFMG). Secretária de
ta o céu da capital do país. Dia 12 de maio de 2016. Políticas de Promoção da
Igualdade Racial (Seppir) e do
No dia anterior eu e técnicos do Ministério das Ministério das Mulheres,
Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Igualdade Racial, Juventude e
Direitos Humanos da presiden-
Direitos Humanos arrumávamos às pressas as úl- ta legitimamente eleita Dilma
timas caixas com os nossos pertences, separando o Rousseff (2015-2016).

que era da administração pública e o que era pessoal.

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Fomos no carro oficial até a minha residência colocar as caixas den-
tro do apartamento e, ao nos despedirmos, choramos: eu, o motorista,
o segurança, o chefe de gabinete e a secretária. Não chorávamos por-
que havia terminado o mandato de quatro anos para o qual a nossa
presidenta fora eleita e havia nos escolhido como parte da sua equipe.
Chorávamos de desilusão com a política institucional, por sabermos
que o impeachment era um golpe parlamentar, midiático, jurídico, fun-
damentalista, de classe, raça, gênero e com orientação heteronormati-
va. O coração apertava por saber que estávamos sendo obrigados a sair
e que entraria para o governo federal um grupo de políticos corruptos,
fundamentalistas, ruralistas, empresários, apoiados pelo capital nacio-
nal e internacional, pelas famílias donas da mídia hegemônica do país
e que instituiriam, sem pestanejar, o Estado mínimo tão almejado pelo
neoliberalismo. E ainda, que retomariam com vigor as relações colo-
niais, patriarcais e racistas contra as quais alguns de nós tanto lutamos
para superar e desenraizar da sociedade, das instituições e da gestão pú-
blica brasileira.
O poder do voto de cada cidadã e cidadão – mesmo daqueles que vo-
taram contrários ao partido que estava no poder e sua candidata – estava
sendo usurpado e a tão batalhada Constituição de 1988 tinha uma de
suas páginas rasgadas. Tudo feito premeditadamente, a ponto de mo-
mentos após o desfecho do golpe, passadas 14 horas de arguição pelo
Senado Federal, senadores de oposição declararem que não havia crime
de responsabilidade fiscal, mas era impossível ter governabilidade, por
isso a presidenta da República deveria sair.
As fontes de todo esse processo estão na internet, nos jornais e nas
redes sociais. Basta acessá-las com uma boa consulta no Google. Tudo
está registrado na história e na vida das brasileiras e brasileiros que
acompanharam esse processo violento. O dia 12 de maio foi a data de
oficialização da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff,
primeira mulher legitimamente eleita presidenta do Brasil. No dia 13 de
maio, o governo interino e ilegítimo assumiria o poder até a votação

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final do Senado em 31 de agosto, substituindo Dilma Rousseff, uma
mulher com uma história política reconhecida e honrada de luta contra
a ditadura militar nos anos 1960, 1970 e 1980, no Brasil. Aquela que dis-
se com orgulho que, apesar de todas as torturas sofridas, nunca delatou
ninguém na época dos interrogatórios torturantes dos militares e seus
asseclas.
Em 2016, o Brasil se encontrava mergulhado em um processo inter-
nacional e nacional de crise econômica, alimentada pelo capitalismo
global. Uma crise que forçava os países, cuja opção econômica dos úl-
timos governos mais à esquerda, legitimamente eleitos, tinha sido de
cuidar da população e construir políticas sociais para combater a po-
breza, a fome e a desigualdade social, a adotar medidas de austeridade
impostas pelos organismos internacionais e abandonar a pauta das po-
líticas sociais por uma outra de arrocho econômico e abertura ao capital.
Nós, a presidenta Dilma e sua equipe, tentávamos, dentro das condi-
ções possíveis, construir um equilíbrio interno à nossa economia, sem
perder de vista o investimento nas políticas sociais que foram a marca
dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e que revolucionaram
a situação de fome, pobreza, assistência, educação superior, moradia
e saúde da população ao longo dos últimos 13 anos, tornando-se um
exemplo internacional.
Tudo correu às mil maravilhas? Sem limites, sem equívocos, sem
tensões? Não. Construir políticas sociais em um país marcado pelas de-
sigualdades socioeconômicas, de raça, gênero, sexualidade, localização
geográfica e regional não é algo que se faz em uma quinzena de anos.
É preciso mais tempo para realizar, avaliar, superar ambições e arrogân-
cias, rever ações inadequadas e ouvir as demandas da base. Mas, sem dú-
vida, foi e continua sendo um passo necessário para que o protagonista
do Brasil como nação democrática não seja o grande capital nem o mer-
cado econômico, mas, sim, o povo brasileiro na sua diversidade étnico
-racial, cultural, de gênero, de classe, regional. A diversidade do Brasil

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precisa estar representada nas suas políticas como reconhecimento e
afirmação da nossa característica pluriétnica e pluricultural.
Esse foi o projeto para o qual fui convidada pela presidenta eleita,
como ministra de Estado, para integrar a equipe do seu segundo manda-
to. Primeiro como ministra chefe da Secretaria de Políticas de Promoção
da Igualdade Racial (Seppir) e depois no Ministério das Mulheres, da
Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos (MMIJDH).
Nesse curto período (2015-2016) pude acompanhar de perto o desafio
das mulheres para se manterem em cargos de poder, decisão e conheci-
mento. Os boicotes à presença feminina na mais alta função do país iam
desde piadinhas nos corredores até xingamentos à forma dura como os
homens se sentiam tratados, às escolhas da presidenta, à imposição de
um determinado tipo de ordem, à sua negação de se aliar com políticos
e empresários corruptos.
A imagem que construí desse momento da minha trajetória pro-
fissional e de vida era de um mundo pertencente aos homens, dizendo
que ali estava uma mulher e, só por esse fato, ela não os representava,
mesmo que fosse uma mulher branca, de esquerda e de classe média,
conforme ainda é consentido no contexto da branquitude presente
nas relações de poder.
Havia exceções masculinas? Sim. Havia alguns poucos homens que
se esforçavam para superar o machismo. E é sempre bom recordar que
o machismo é um sistema de dominação que ultrapassa a classe, a raça,
a posição ideológica e política. O machismo é estrutural e estruturante.
Este é um fato do qual alguns podem discordar, mas não há como negar.

Golpe disfarçado de impeachment: uma articulação


escusa
A articulação escusa para a retirada da primeira mulher presidenta
significou não somente colocar em prática muito do que o machismo
e a misoginia são capazes, como, também, o temporário fechamento

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político a um governo federal que se eleja, no Brasil, com uma proposta
de esquerda, de combate à fome, à pobreza, ao machismo e ao racismo.
O golpe disfarçado de impeachment significa a retomada do lugar do
capital e do mercado como eixos orientadores da política econômica e,
com eles, todo um processo de diminuição de direitos das trabalhado-
ras e dos trabalhadores, com aumento dos privilégios dos capitalistas.
Representa a retomada do eixo norte-sul da cooperação internacional,
o enfraquecimento dos BRICS e do lugar do Brasil no Mercosul. Tudo
isso com a ajuda das alas de direita, conservadoras, religiosas fun-
damentalistas, ruralistas e moralistas do Congresso Nacional, sob
o olhar literalmente cego de setores do Judiciário e municiados pela
mídia hegemônica de empresários. E ainda, por uma parcela da classe
média que sonha um dia ser elite e por setores populares cuja visão de
honestidade e moral, tão caras para as pessoas que lutam cotidiana-
mente pela sua sobrevivência, foi bombardeada pela leitura tenden-
ciosa da direita via mídia, novelas, rádio, pequenos jornais, internet,
igrejas fundamentalistas e escolas.
E o crime de responsabilidade fiscal? Única permissão constitucio-
nal para a retirada legítima de um chefe do Executivo do poder? Ele foi
comprovado? Não. Portanto, os argumentos de que o impeachment
seria pelo “conjunto da obra”, como afirmaram alguns parlamentares,
não se sustentam juridicamente. Não se comprovou, mas se manipulou
a opinião pública, através de um teatro do Legislativo, apoiado pelo ju-
rídico e pela mídia hegemônica que induziram a população, à dúvida e
à desconfiança. Colocaram em xeque a competência e a honestidade da
primeira mulher chefe de Estado no Brasil.
Por isso, para mim, o impeachment da presidenta eleita Dilma
Rousseff foi um golpe. E não foi um golpe qualquer. Repito que foi um
golpe parlamentar, midiático, jurídico, fundamentalista, de raça, clas-
se, gênero e com uma orientação heteronormativa. Essas características
do golpe estão explicitamente representadas na foto do governo golpis-
ta, um dia após usurpar definitivamente o poder, e em todas as ações

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desencadeadas pelo Executivo, parte do Legislativo e do Judiciário e
pela mídia hegemônica desde então.
Trata-se de um alinhamento de forças e grupos conservadores, não
somente no Brasil, mas na América Latina e demais países da conjuntu-
ra internacional. A ofensiva da direita europeia, os retrocessos na polí-
tica norte-americana após a última eleição de Donald Trump e os dife-
rentes perfis que disputam a presidência e cargos de primeiro ministros
na Europa, África e Ásia com viés conservador atestam isso.
Um novo contexto de dominação política, econômica e cultural
está se configurando no mundo e as forças capitalistas querem minar
as políticas sociais, impondo uma pauta de ajuste fiscal e econômico.
Querem a retomada da primazia do Estado neoliberal nos países onde
este perdeu força ao longo dos últimos 15 anos. O golpe brasileiro está,
portanto, dentro de um contexto macro e micro, global e local.
Todas as medidas destruidoras implementadas pelo governo golpista,
assim que tomou posse, em relação às políticas sociais dos governos Lula
e Dilma só reforçam que a questão não estava com a condução, nem com o
jeito de ser da presidenta, mas, sim, com o projeto de sociedade, de gover-
no e de Estado que ela representava: um Estado democrático e de direito e
não um Estado neoliberal, como temos visto nos últimos meses.

A dimensão do machismo e da misoginia


A mídia teve uma participação intensa na propagação da miso-
ginia no processo do golpe. Seja pelas opiniões dos telejornais, pelos
comentaristas, Facebook, Twitter e documentários tendenciosos.
Participamos de uma campanha midiática que demonizou o partido ao
qual a presidenta Dilma é vinculada, bem como a sua trajetória política
e institucional.
Apresentada como uma mulher com valores subversivos, que “pe-
gou em armas” durante a ditadura, neurótica e sem controle emocional,
a imagem da presidenta foi se construindo socialmente como a antítese

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da mulher “bela, recatada e do lar”. Ora a mídia propugnava que o pro-
blema estava na incompetência do fato de ela ser uma mulher e isso não
lhe dava condições de gerir um país e uma grande economia, ora a apre-
sentava como alguém sem as características emocionais necessárias
para ouvir as pessoas, os partidos, os políticos e fazer negociação.
O mais interessante é que se passarmos em revista os diversos ho-
mens presidentes e primeiro-ministros do mundo, encontraremos tais
características comprovadas pela forma como fizeram política e passa-
ram pela gestão, mas não me lembro de ouvir ou ver tais características
atribuídas ao fato de serem homens, mas, sim, péssimos políticos ou
gestores ruins. O gênero não contava nesses momentos de crítica aos
governos masculinos.
A ação da mídia dos grandes empresários, dos ruralistas, dos políti-
cos conservadores e de direita, dos grandes jornais e das famílias que há
anos dominam o mercado midiático do rádio, da televisão e da internet
tinha objetivos claros. Sendo todos eles capitalistas de primeira linha,
o seu objetivo era derrubar o partido, o projeto político e a presidenta
que interpunha dificuldades aos processos corruptos de negociação e
acumulação de riquezas, do uso privado do orçamento público. A ideia
de um Estado mínimo perseguida pelos neoliberais tomou ares ainda
mais radicais na primeira década do século XXI e vem se exacerbando.
A batalha contra a visão machista e misógina da primeira mulher pre-
sidenta divulgada pela mídia hegemônica foi e vem sendo travada pelas
mídias sociais, de caráter progressista.
Na realidade, desde o golpe disfarçado de impeachment têm sido
as mídias e redes sociais a divulgarem publicamente a imagem, as opi-
niões, o trabalho internacional da presidenta eleita Dilma Roussef. Ela
continua sendo recebida internacionalmente com honras de chefe de
Estado, enquanto o presidente ilegítimo e o seu governo têm sido visi-
velmente suportados nos meios políticos internacionais e muito criti-
cados pela imprensa internacional.

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A diferença de tratamento é de tal ordem que mesmo com todos
os desmandos, corrupção, pronunciamentos autoritários na internet,
ordens equivocadas, como colocar as tropas do Exército nas ruas de
Brasília para massacrar manifestantes pacíficos, o governo ilegítimo
não sai das imagens e programas de entrevista na televisão, dos jornais
televisivos, rádios, internet, Facebook e Twitter. Mesmo que seja para
criticar, a imagem do homem branco, de classe média, usurpador do po-
der não sai de cena.
Só esse fato já nos dá a dimensão da misoginia e do machismo. Esses
mesmos meios de comunicação, desde o início do segundo mandato da
presidenta eleita, silenciaram sobre os seus feitos, sabotaram a sua ima-
gem e do seu governo, como se o país não tivesse uma chefe de Estado.
Enquanto isso esbanjavam notícias negativas sobre a economia, atri-
buindo-as ao Partido dos Trabalhadores e suas políticas dos últimos
13 anos, envolvendo as suas principais lideranças no Executivo Federal:
Lula e Dilma. A misoginia é de tal ordem que até revistas publicaram
capas altamente machistas e estereotipadas com a imagem da presi-
denta eleita, insinuando que a mesma não estava bem das faculdades
mentais, que estava descontrolada. Se essa deturpação ficasse retida
apenas à mídia hegemônica ou veículos das redes sociais conservadores
e contrários à presidenta e ao seu partido, já seria sério. Mas o pior é que,
sendo formadores de opiniões, revistas e jornais, enfim, o mundo da
mídia, conseguiu expandir a visão negativa da primeira mulher eleita
presidenta no Brasil e no exterior.
Mesmo com todas as denúncias dos últimos tempos, que provam
como o impeachment foi tramado por uma articulação escusa de em-
presários, mídia hegemônica, políticos, ruralistas, capital internacio-
nal, vários setores da população brasileira ainda alimentam essa ima-
gem estereotipadamente construída da primeira mulher presidenta e
do seu governo.
Não se trata de fechar os olhos para aquilo que foi limite no ato de
governar ou na forma de governar escolhida pela presidenta eleita.

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Trata-se de abrir os olhos para comparar o tratamento dado à primeira
mulher que ocupou o Executivo e que até hoje não teve comprovado
qualquer crime de responsabilidade fiscal em relação ao tratamento
dado ao homem, vice-presidente que usurpou o poder, com todo um
histórico de envolvimento ilícito em propinas com grandes empresá-
rios e com um fazer político, dos velhos tempos, recheado de jantares
caros e promessas para indução de votos no Parlamento.
As perguntas são: por que esse tratamento diferenciado? Simplesmente
porque estamos falando de partidos de esquerda e de direita? Por que esta-
mos avaliando “a melhor” forma de fazer política e conduzir a economia?
Será que é só isso?
A situação nos mostra o tipo de tratamento dado a nós, mulheres,
quando ocupamos lugares de poder e decisão em uma sociedade que fin-
ge aceitar os avanços do feminismo, mas que, na realidade, alimenta-se
do patriarcado, do racismo e do machismo estrutural. Fenômenos que a
luta das mulheres tem desvelado e denunciado. São construções sociais,
políticas e culturais alicerçadas em estruturas profundas. E essas estru-
turas compõem o sistema de dominação masculina: o machismo.
E é contra esse sistema de dominação que qualquer mulher que o
desafia e disputa cargos e funções tidas como masculinas tem que lu-
tar. E já que a sociedade brasileira se alimenta de desigualdades estru-
turais, se somarmos a raça, a origem socioeconômica, a sexualidade,
a idade e a localização geográfica e regional, as dificuldades e desafios
serão ainda mais intensos para as mulheres. Esse mesmo sistema de
dominação masculina, quando quer desqualificar especialmente as
mulheres em lugares de poder e decisão associam a sua forma de ser e
de agir às questões da sexualidade, à suposta sensibilidade feminina,
ao fato de ser ou não ser mãe, ter ou não um companheiro, ficar ner-
vosa por estar “naqueles dias” ou na fase da menopausa. Quem já não
ouviu esse tipo de associação feita nos discursos machistas de homens
(e mulheres!) quando julgam os atos de uma mulher que ocupa lugar de

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poder e decisão, principalmente, quando discordam dos encaminha-
mentos por ela feitos?
O golpe dado à presidenta eleita Dilma Rousseff foi uma tacada do
patriarcado e do machismo sobre todas nós, mulheres, mesmo para
aquelas que abertamente se mostram contrárias às ideias, ao partido e
o modo de agir da presidenta. Se entendemos o machismo como um
sistema de dominação presente na realidade social, cultural e política, a
vitória desse sistema somado ao patriarcado ao expulsar a primeira mu-
lher presidenta eleita recai sobre as demais mulheres. Simbolicamente,
coloca em xeque a nossa competência. E mais, afirma para os homens
machistas que eles continuam liderando os espaços de poder e que, so-
mado aos lugares que ocupam na hierarquia social e econômica, eles
podem se beneficiar do imaginário machista para se manter no poder,
mesmo quando não tiverem razão.
Pode parecer uma avaliação radical, mas aquelas que já ocuparam
esses lugares sabem muito bem como tudo isso funciona. Por isso foi
muito importante que, desde o início do seu primeiro mandato, Dilma
Rousseff tivesse instituído que a chamassem de presidenta, como uma
demarcação de gênero. Logo em seguida ouvimos homens, mulheres,
especialistas na língua portuguesa e juristas se horrorizarem com tal
ato. Mas, como sempre, depois de tudo, descobrimos que tal tratamen-
to é possível dentro da língua portuguesa.

Tc h a u q u e r i d a e v o l t a q u e r i d a !
A frase “Tchau, querida!”, como um deboche à imagem da mulher/
presidenta e à relação profissional e de amizade desta com o ex-presi-
dente Lula, adotada pela oposição durante todo o processo de admis-
sibilidade do impeachment, comprova também a misoginia. A frase é
uma crítica que mistura o desprezo ao lugar do feminino e a afirmação
de que o Executivo não é um espaço para as mulheres. No seu lugar,
o Movimento de Mulheres e demais movimentos sociais cunharam a

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frase “Volta, querida!”, contrapondo-se à ridicularização um sentimen-
to de afeto e reconhecimento da competência.
O fato de um homem branco, de direita, deputado federal, dar o seu
voto no fatídico dia 17 de abril de 2016 – dia da vergonha – homenagean-
do o comandante Ustra, reconhecido torturador durante o período da
ditatura militar, e um dos torturadores da própria presidenta quando
esta atuava na militância de esquerda contra o golpe militar de 1964,
é mais um exemplo de misoginia. No voto e na saudação do deputado
estavam representados uma posição favorável à cultura do estupro, o
desprezo, a violência e o ódio contra a mulher.
No Legislativo, assistimos essa pactuação sinistra entre o machismo
e a misoginia vinda também das próprias mulheres. Ninguém está livre
desse imaginário de dominação masculina, nem as próprias mulheres.
Quem não se lembra da deputada federal que, histericamente, pulou e
balançou a bandeira brasileira dizendo “Sim! Sim! Sim!” ao impeach-
ment e ainda dedicando o seu voto ao marido, na época prefeito de uma
cidade do interior de Minas Gerais, que, dias depois, foi preso por cor-
rupção e perdeu o mandato?
Alguém se lembra de alguma entre as pouquíssimas mulheres do
Poder Judiciário, dentro da liberdade que a posição lhes proporciona,
emitir alguma opinião denunciando o trato machista e misógino dado
à presidenta eleita durante todo esse processo? Enquanto isso, vários
homens do Judiciário encheram as redes sociais e a mídia hegemônica
com comentários desrespeitosos.
A desigualdade de gênero e a misoginia alimentadas durante todo o
processo do golpe disfarçado de impeachment e sofrido por todas as mu-
lheres, representadas pela figura da presidenta eleita Dilma Rousseff,
não ocupou os programas de análise de conjuntura, nem, tampouco,
os debates dos partidos da própria esquerda. Se não fossem as mulheres
ativistas dentro dos partidos de esquerda, nas redes sociais, no movi-
mento feminista, de mulheres negras, nos demais movimentos sociais
e sindicatos e nas universidades, essa questão não teria visibilidade.

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Pude observar vários livros e seminários que abordaram o golpe em
uma perspectiva progressista serem escritos e realizados apenas com a
presença de autores homens do campo progressista. Por que? Nós, mu-
lheres, não podemos fazer análise econômica, política e de conjuntura?
E ainda, muito raramente essas publicações de caráter crítico admiti-
ram as questões de gênero e a misoginia como parte da análise do gol-
pe. Ou seja, até mesmo no campo emancipatório nós, mulheres, ainda
enfrentamos a luta por reconhecimento, visibilidade, lugares de poder
e decisão, o que comprova o caráter estrutural do machismo e do pa-
triarcado que ajudam a exacerbar a misoginia.

Repercussões do machismo e da misoginia do golpe


Se já temos uma diminuição do número de mulheres eleitas nas úl-
timas eleições federais, estaduais e municipais, corremos o risco de ver
esse quadro se agravar ainda mais com o advento do golpe. Já tivemos
esse resultado negativo nas eleições municipais de 2016 e teremos que
trabalhar muito para uma mudança em 2018. Não se trata apenas de as
mulheres tomarem coragem, candidatarem-se e disputarem lugares
de poder. Aquelas e aqueles que participam dessas instâncias políticas
de gestão e partidárias sabem que uma candidatura precisa ser previa-
mente construída. Principalmente, se seguimos o caminho legítimo de
como se deve organizar uma candidatura.
Sabemos que os caminhos ilegítimos elegem muito mais rapida-
mente alguns artistas, humoristas, jogadores de futebol, empresários
que nunca se interessaram pela vida política e que, de um dia para o
outro, aproveitam-se da sua imagem pública e de recursos financeiros
investidos na campanha para se elegerem ou ganharem disputas em ou-
tros pleitos. Estes costumam vir a público dizer que não são políticos e
nem são pobres, por isso, não “precisam e não serão fáceis de corrom-
per”. Eles autointitulam-se como “gestores”. E, na sua grande maioria,
são homens. E brancos. Afirmam que, por isso, farão um bom mandato,

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quer seja no Legislativo ou em outros lugares de poder e decisão. Será?
A realidade da política brasileira tem nos mostrado quão perigosa e
equivocada é essa situação.
Mas se entramos na disputa política de maneira digna, sabemos que
uma candidatura feminina, diante de tudo o que já foi exposto neste ar-
tigo, não se dá da mesma forma que a masculina, pois o campo da polí-
tica não foi e nem está sendo pensado para nós, mulheres, e para a nossa
presença, forma de pensar e fazer política. Nem sempre as bandeiras que
muitas de nós carregamos são aceitas, inclusive, em parte do universo
feminino conservador. O esforço é maior, a disputa é mais acirrada e há
que se analisar muito bem as condições e o momento da disputa.
Não tenho muita certeza de que o bom negócio é concorrer de qual-
quer jeito para colocar toda e qualquer mulher nos espaços de poder,
como defendem algumas companheiras. Numa sociedade tão conser-
vadora, patriarcal, machista e racista precisamos muito de mulheres
com perfil de esquerda, com diferentes pertencimentos étnico-raciais e
socioeconômicos. Com isso, não quero dizer que em alguns momentos
essa estratégia “universalista de gênero” não seja necessária. Mas há que
saber muito bem como, quando, qual o melhor e qual seria o momento
para adotá-la.
Considerando o machismo, o patriarcado, o racismo e a misoginia,
faz-se cada vez mais necessário que nós, mulheres, articulemos a nossa
presença nos diferentes espaços com uma proposta política emancipa-
tória. Que analisemos o perfil, as condições, os recursos e as alianças
que poderão ser feitas. E que as pautas de gênero e de raça façam parte
das nossas propostas.

Considerações f inais
Finalizo relembrando uma parte da reflexão que registrei em um ar-
tigo publicado no livro Mídia, misoginia e golpe, organizado por Elen
Geraldes e colaboradores (2016):

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As mulheres no poder, nessa concepção machista e racista, são vistas como inferio-
res e sofrem os mais terríveis tipos de assédio moral e sexual. Quando as mulheres
tornam público esse comportamento machista e misógino dos homens, disputando
com eles posições de poder, recusando-se a agir como eles desejam e deles diver-
gem, tornam-se fonte de ódio, de desejo, de disputa. Encontram nos homens não os
seus parceiros, mas verdadeiros opositores e algozes que se aproveitam das desigual-
dades de gênero e da pouca presença de mulheres em lugares de poder e decisão
para tentar inferiorizá-las, subjugá-las, desrespeitá-las e até mesmo violentá-las física
e psicologicamente. Há uma outra história que se esconde por trás do processo de
golpe disfarçado em impeachment sofrido pela presidenta Dilma Rousseff. Uma his-
tória da relação de poder em uma sociedade machista, racista e classista que despre-
za as mulheres, duvida da nossa capacidade e inteligência, constrói armadilhas moti-
vadas pelas questões de gênero e misoginia. Lamentavelmente são os mesmos
conteúdos da cultura do estupro e da violência contra a mulher, porém, com roupa-
gem refinada, na maioria das vezes, de terno e gravata. (RAMOS, 2016, p. 241)

Referências
GERALDES, E. C. et al. (Org.). Mídia, misoginia e golpe. Brasília, DF: FAC
Livros, 2016.

RAMOS, L. de S. Nilma Lino Gomes. In: GERALDES, E. C. et al. (Org.).


Mídia, misoginia e golpe. Brasília, DF: FAC Livros, 2016. p. 237-241.

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Sobr e o g olpe e a s mulher es no
poder

Olívia Santana

Manhã de sabor amargo, aquela do dia 12 de maio * Pedagoga e atual Secretária


do Trabalho, Emprego, Renda e
de 2016, data em que a presidenta Dilma Rousseff Esporte da Bahia. Foi vereadora
foi afastada por 180 dias, após a abertura do pro- por três mandatos em Salvador
(BA) e também Secretária
cesso de impeachment no Senado. Muitas de nós,
Estadual de Políticas para as
mulheres feministas, estávamos em Brasília, par- Mulheres.
ticipando da IV Conferência Nacional de Políticas
para as Mulheres, cujo tema era “Mais Direitos,
Participação e Poder para as Mulheres”. Uma ironia
dramática.
Ainda antes da Conferência, na comissão organi-
zadora, coube a mim escrever um texto – colhendo
também contribuições de outras companheiras –
refutando a possibilidade do golpe. Li na plenária a

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“Carta Aberta às Mulheres Brasileiras”, naquele clima em que a realida-
de era tão chocante que mais parecia um pesadelo.
Foi um protesto sentido, lido com a voz embargada de quem esta-
va estupefata e indignada com a imposição de semelhante injustiça.
Consegui dizer que retirar com pretextos fúteis uma mulher que fora
eleita e que cumpria suas funções, era um golpe revoltante. Atenta,
atônita e compartilhando do mesmo sentimento, a plateia me ouvia.
Disse que os golpistas queriam suspender a aplicação do programa de
governo que ganhara quatro eleições seguidas e pôr em prática o pro-
grama derrotado nas urnas. Ao final, a emoção se entrelaçou com a em-
polgação e aquela plenária de mulheres brancas, negras, indígenas, qui-
lombolas, ciganas, filhas do povo, umas universitárias, outras não tão
letradas, mas todas carregadas da sabedoria que só a labuta da vida traz,
levantou-se a uma só voz e por aclamação aprovou o documento que eu
lera como se fosse um manifesto, ao som dos gritos improvisados: “Não
vai ter golpe!”.
Ovações concluídas, todas se entreolhavam naquele misto de dor,
revolta e esperança, quem sabe, na expectativa de que algo pudesse
acontecer para repor as coisas nos seus devidos lugares e salvar o man-
dato da presidenta.
Entretanto, a dura realidade se impôs e, a despeito da veemência
de todas, de nossas plataformas e da manifestação do nosso desejo de
preservação da democracia e da mais importante conquista de empo-
deramento que tivemos na história (a chegada de uma mulher à presi-
dência), não logramos forças para barrar o golpe. Assim, o velho poder
patriarcal e oligarca, expresso em cores berrantes pelo então vice-pre-
sidente Michel Temer, usurpou a faixa presidencial, com o benepláci-
to de congressistas, membros do Ministério Público e do Judiciário.
Cumpriu-se o planejado, com a facilidade de quem remove um intruso
da sua poltrona predileta.
Vale lembrar, ainda no governo Lula, a forma como duas mulhe-
res negras foram também excluídas da alta esfera do poder, a ministra

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Benedita da Silva, da Assistência Social, (2003 a 2004) e a ministra
Matilde Ribeiro, de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (2003 a
2008). A passagem de Benedita pelo governo foi meteórica. Após ter fi-
cado apenas um ano à frente da pasta, ela saiu sob acusação de ter usado
recursos públicos em uma viagem à Argentina para um evento religio-
so de interesse particular. Matilde foi descartada por ter sido acusada
de fazer mal uso do cartão corporativo, com direito a uma humilhante
coletiva de imprensa, que mais parecia um pelourinho eletrônico, vir-
tual. Ambas sofreram duros ataques da grande mídia, eivados de pre-
conceitos machistas e racistas, e, lamentavelmente, as vozes de defesa
foram de baixo potencial audível. Não se trata aqui de defendermos ati-
tudes não probas, sob qualquer pretexto. Como destaca Rita Tourinho
(2009), o poder discricionário de um gestor ou de uma gestora pública
deve levar em conta os princípios da legalidade e da moralidade, por-
tanto, toda má utilização de dinheiro público deve ser combatida.
Entretanto, não se pode ter dois pesos e duas medidas. Muitas au-
toridades públicas praticam delitos infinitamente maiores que os erros
cometidos pelas mulheres que ilustram a situação aqui em análise, mas
são sujeitos que gozam de elástica tolerância por parte de instituições de
fiscalização e punição. Esses são invariavelmente homens brancos que
detêm poderoso networking, rede de contatos influentes, que garantem
a blindagem de suas presenças nos espaços de poder, a despeito de tur-
bulências que possam experimentar. Mas as mulheres, especialmente
as negras, não dispõem do direito de errar. Aqui cabe recepcionar a aná-
lise feita pela ativista Sueli Carneiro (2009, p. 6) acerca da sub-repre-
sentação e dos estereótipos construídos sobre a figura da mulher negra
que “determinam tanto a sua ínfima presença nas instâncias de poder
como as dificuldades adicionais que lhes espreitam quando ousam
romper portas e adentrar lugares para os quais não foram destinadas”.
Em entrevista ao jornal The Washington Post, ao comentar so-
bre a crise política que impactava o seu governo, a presidenta Dilma
Rousseff fez a seguinte afirmação: “Eu acredito que tem um pouco de

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preconceito sexual ou preconceito de gênero. Eu sou descrita como uma
mulher dura e forte, que coloca seu nariz em tudo que ela não deveria”.
(WEYMOUTH, 2015, tradução nossa) Sem dúvida Dilma foi muito
polida ao diagnosticar “um pouco” de preconceito sexual ou de gênero
na saga implementada por forças conservadoras e de direita para des-
bancá-la do poder. Na verdade, desde sempre o sexismo fez-se presente
em seu caminho, da escolha do seu nome até a sua gestão presidencial.
Quando entrou em pauta a escolha de um nome para suceder a Lula na
presidência, não foram poucos os que torceram o nariz ao se surpreen-
derem com a escolha feita pelo presidente de uma mulher para dispu-
tar as eleições. Afinal, entre tantos homens, por que uma mulher? E seu
nome só prevaleceu porque Lula gozava de alto prestígio, chegando ao
final do seu segundo mandato com mais de 80% de aprovação. E para os
que clamavam por um Hércules, eis que é apresentada uma Joana D’Arc
que, mais adiante, não escapou da fogueira simbólica em que se conver-
teu o linchamento midiático, levando-a à perda do mandato.
A chegada de Rousseff ao poder foi, portanto, um ponto fora da cur-
va. As tensões de gênero permearam enormemente o processo sistemá-
tico de tornar ilegítima sua liderança. Isto se deu misturado à grande
carga de ataque ultraliberal dos setores conservadores da elite nacional
e grupos estrangeiros, que estavam determinados a pôr fim à agenda
democrática e popular desenvolvida por Lula e continuada por ela.
Apesar de todas as tentativas de sabotagem, a era Lula/Dilma foi
exitosa. Foi um ciclo em que se afirmou a soberania nacional e se ergueu
o Brasil no concerto das nações; o PIB que era de R$1,2 trilhão em 2001
pulou para R$5,2 trilhões, em 2014; o Brasil saiu do mapa da fome das
Nações Unidas (FAO, 2015); novas universidades foram construídas e a
política de cotas, assegurou assento para a juventude mais pobre, e para
os negros; as mulheres ganharam prioridade nos programas de trans-
ferência de renda e Minha Casa Minha Vida; as trabalhadoras domésti-
cas, majoritariamente negras, conquistaram alguns direitos com a Lei
Complementar 150/2015; o salário mínimo saltou de 86,21 dólares para

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305,00 dólares em 2014; o pré-sal foi descoberto, passando a ser base de
um grande projeto de emancipação energética, econômica e social para
o país. Enfim, um ciclo virtuoso começara a se erguer, proporcionando
algum bem-estar a milhões de brasileiras e brasileiros.
Mas a crise econômica, que fez estrago em diversos países, também
chegou a Pindorama. E ao invés de termos um governo unido para en-
frentá-la, o que vimos foi um desnorteamento generalizado e ao final
uma capitulação indecorosa às exigências do rentismo que, para não ver
reduzidos seus lucros, exigiu do governo impostor que jogasse toda a
carga dos prejuízos nas costas das camadas mais vulneráveis da popu-
lação, os mais pobres, as mulheres, os negros, os trabalhadores e as tra-
balhadoras do campo.
Foi uma verdadeira desconstrução nacional e social, facilitada e feita
a toque de caixa, em função dos mecanismos que tiveram que lançar
mão Lula e Dilma para chegarem ao poder, aliando-se a partidos ideolo-
gicamente divergentes, conservadores, como PMDB, PP, PTB e outros.
Sem aquelas alianças, seria impossível conquistar a presidência, pois a
esquerda sozinha poderia chegar a 30% do eleitorado, e só atraindo se-
tores do centro e dividindo a direita, teria a possibilidade de ultrapassar
os 50%. Afinal, para além de ideários, política também é matemática.
Ademais, o golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016 se deu
num contexto de crise mundial e de enormes pressões dos EUA para
manter-se como potência hegemônica, retendo a emergência de uma
nova ordem mundial multipolar, de maior equilíbrio entre as nações.
Ventos democráticos sopraram ao sul do Equador, a partir de 2000.
Além do Brasil, na Argentina, Venezuela, Bolívia e no Uruguai, gover-
nos populares foram eleitos, encamparam agendas de afirmação de so-
berania, e apostaram em acordos de integração e desenvolvimento da
América do Sul e de toda a América Latina. O Brasil teve papel estraté-
gico de liderança regional. Além de enfrentar o poderio estadunidense,
contribuiu com a criação e desenvolvimento dos BRICS, em contrapo-
sição ao G7.

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A vingança veio no galope da espionagem. O WikiLeaks revelou
que o governo Dilma foi vasculhado pelos Estados Unidos. Edward
Snowden chegou a afirmar e apresentar dados de que o Brasil seria o país
mais espionado da América Latina, especialmente em área estratégica
como o setor petrolífero, especificamente a nossa Petrobrás e a extraor-
dinária riqueza que a descoberta do pré-sal representou. (VIANA, 2015)
A presidenta da República, sua secretária, ministros, e até o avião
presidencial foram alvos de grampos telefônicos. Ao tomar conheci-
mento desses absurdos, a presidenta cancelou viagem oficial aos Estados
Unidos, fez um duro pronunciamento contra a prática de espionagem
estadunidense e levou o caso para a 68ª Assembleia da Organização das
Nações Unidas (ONU), alertando que o grave incidente diplomático
feria o direito internacional. Defendeu com maestria e firmeza a sobe-
rania das nações. Mas o mal já estava feito e o golpe, longe de ser uma
ação doméstica, com certeza tem seus tentáculos no coração do impé-
rio, como o tempo mostrará.
No passado, os golpes de Estado por essas bandas, eram à base das
quarteladas (todas fomentadas por interesses estrangeiros em articula-
ção com grupos nacionais de direita). As botas e baionetas revelavam a
autoria militar de tomada do poder por via da força. Hoje há uma mo-
dernização da forma como se interrompem mandatos e se trocam o co-
mando de nações, vergando-as a uma tradição de subalternidade.
Aqui mesmo, na América Latina, uma onda desestabilizadora, de
poucos anos para cá vem modificando a configuração política de diver-
sos países. Golpes têm sido dados, mas de forma modernosa: não é mais
o golpe militar de estilo clássico, mas articulações preponderantemente
parlamentares-jurídicas-midiáticas, com eventual participação secun-
dária dos militares. Em Honduras, Zelaya foi deposto, num golpe mi-
litar-jurídico-parlamentar, em 2009; no Paraguai, em 2012, Fernando
Lugo foi deposto através de um impeachment forjado, aprovado no par-
lamento, em 24 horas; no Brasil, o golpe parlamentar-jurídico-midiáti-
co de 2016, teve, aos olhos do senso comum, aparência de legalidade; na

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Argentina, duros ataques, acusação de corrupção, abalaram sobrema-
neira o governo de Cristina Kirchner, abrindo o caminho para a vitória
do direitista Mauricio Macri; na Venezuela, Nicolás Maduro, embora
tenha ganho duas eleições disputadíssimas e altamente fiscalizadas,
mantém-se no comando, sabotado e agredido diuturnamente.
Em todos esses países, os governos impostos, ou mesmo eleitos, as-
sumiram uma concepção neoliberal, e as agendas anteriores, de desen-
volvimento com distribuição de renda e de integração regional, foram
abandonadas. Os problemas se agravaram e o povo sofre as mais du-
ras consequências. Vale aqui resgatar a dramática reflexão de Eduardo
Galeano (2010, p. 5) em As Veias Abertas da América Latina:

Alguns países especializam-se em ganhar, e há outros que se especializaram em


perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi pre-
coce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do
Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta.

A ação golpista nos impõe o retrocesso. Fica a questão: que país pode
se impor como nação soberana se parte significativa da sua elite eco-
nômica e política está vocacionada a apenas buscar nacos de vantagens,
atendendo a interesses estrangeiros que nos mantêm sob amarras neo-
colonialistas? Tal prática é histórica por essas bandas e tem matado nos-
sas melhores perspectivas de futuro.
Este cenário tão complexo esvazia a tese misógina de alguns que in-
sistem em afirmar que Dilma teria caído por ser mulher, e não ter com-
petência para dirigir o Brasil. A presidenta foi derrubada porque, na qua-
dra da disputa de poder sobre a região, o governo dela era um empecilho
à consecução de interesses neoliberais de alta monta. Decididamente
razões de gênero não foram determinantes para o golpe. Entretanto,
converteram-se em um importante ingrediente facilitador da investi-
da golpista, já que, numa sociedade machista e misógina, como a nossa,

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violar os direitos das mulheres é tolerável, ainda que se trate daquela que
fora ungida pelo povo com mais de 54 milhões de votos para governar o
país.
Há que se examinar também a composição das forças presentes no
Congresso Nacional. Em 2014, segundo a pesquisa Radiografia do
Novo Congresso feita pelo Departamento Intersindical de Assessoria
Parlamentar, o eleitorado brasileiro elegeu o Parlamento com a pior
composição desde 1964, ano do golpe militar. (DIAP, 2014) Cresceram
os religiosos de feição obscurantista, segmentos conservadores ligados
às forças de segurança pública, os ruralistas e os que acham que a defesa
dos direitos humanos é algo a ser desprezado.
Esses setores ganharam o apelido de bancada BBB – da bala, do boi
e da bíblia. Já a bancada que tem origem na luta dos trabalhadores, fi-
cou reduzida, de 83 para apenas 50 parlamentares, sendo que a peque-
na bancada mais identificada com a luta antirracista perdeu nomes
importantes a exemplo do ex-deputado e ex-ministro da Promoção da
Igualdade Racial, Edson Santos, do Rio de Janeiro, da deputada Janete
Pietá, de São Paulo, e do deputado Luiz Alberto, da Bahia. Mesmo a ban-
cada feminina tendo crescido levemente, saindo de 46 para 51 deputa-
das, ainda tem uma representação feminista verdadeiramente pequena.
Na votação em favor do impeachment, 29 mulheres disseram sim,
20 votaram contra, uma se absteve e outra não compareceu. Se com-
parado aos homens, proporcionalmente, as mulheres foram mais soli-
dárias à presidenta, já que não chegou a dois terços as que apoiaram o
golpe. Entretanto, considerando todas as lutas que foram pavimentan-
do o caminho para que as mulheres pudessem chegar ao parlamento,
esperava-se bem mais consciência dessa parcela de parlamentares, para
a compreensão de que a trama do impeachment era falsa, golpista, e que
estava em jogo o mandato da única mulher na história da República a
conquistar a faixa presidencial.
Em uma apreciação, ainda que rápida do desempenho da bancada fe-
minina no Congresso Nacional, há que se considerar ainda as limitações

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subjetivas das mulheres na esfera de poder, de difícil superação. Muitas
dessas mulheres, ainda que estejam na paisagem do poder, são prisio-
neiras das amarras de gênero, não se comportando como senhoras ple-
nas de seus mandatos, mas atuando como instrumentos para atender
aos projetos e expectativas dos homens. Não raro entraram para a po-
lítica institucional pela porta do matrimônio ou pelos laços de filiação.
São esposas ou filhas de poderosos e influentes que fazem do poder
que o povo lhes conferiu a extensão do pátrio poder. É, portanto, uma
forma de se manter nos marcos da imanência – como diria Simone de
Beauvoir 1 – sem transcender para recriar a política a partir da prioriza-
ção das pautas de afirmação das mulheres e de promoção da emanci-
pação de todas. Vale aqui ilustrar com o exemplo da deputada Raquel
Muniz que, ao gritar desesperadamente pelo “sim” ao impeachment da
presidenta, afirmou que o Brasil tinha jeito, como comprovava a gestão
do seu marido, o prefeito de Montes Claros. No dia seguinte ele foi pre-
so pela Polícia Federal, acusado de crime de corrupção pela Operação
Máscara da Sanidade II – Sabotadores da Saúde. 2
Tem-se falado sobre as dificuldades de Dilma lidar com o Parlamento.
Sem dúvida, a experiência política da presidenta era de outra ordem,
mais voltada para a gestão dos projetos do que para lidar com as pessoas
e suas mais diversas expectativas frente ao governo. Isto pode ter aden-
sado problemas com o Congresso. Mas, não percamos de vista que as
características altamente retrógradas desse Congresso, as que eram co-
nhecidas e as que se revelaram vergonhosamente nos últimos tempos.
Neste particular, parlamentares altamente permissivos encontraram-
se com uma presidenta impávida, indisposta a barganhas e chantagens.
Dilma montou seu governo buscando contemplar o leque de forças par-
tidárias que lhe ajudaram a obter a vitória. Entretanto, a formação de
um governo de coalização não foi o bastante. O fisiologismo daqueles
que a traíram exigia da governante infinita capacidade de atender a es-
tômagos insaciáveis. A julgar pela feição do governo Temer – seu ex-vi-
ce-presidente – e os incríveis lances de alta corrupção, comprovada por

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malas milionárias e gravações, era impossível a uma mulher da índole
de Dilma Rousseff conciliar interesses daqueles que, na verdade, veem
a política como um ambiente de negócios escusos com vistas a enrique-
cimento ilícito, não como estratégia de transformação do país e da vida
das pessoas.
Mas há também que se analisar as insuficiências e as limitações do
projeto erguido nos governos Lula e Dilma. Doze anos se passaram sem
que, pelo menos, os governos populares pautassem a realização de re-
formas estruturais que pudessem criar as bases de um novo Estado, de
caráter efetivamente democrático, mais desenvolvido e menos desi-
gual. Uma reforma da Educação, com vistas a elevar a qualidade do sis-
tema público, do pensamento crítico e a torná-la acessível a todos; uma
reforma dos meios de comunicação, reduzindo oligopólios e democra-
tizando o acesso aos meios modernos de comunicação, especialmente
dos grupos historicamente silenciados; uma reforma tributária com
taxação diferenciada das diferentes rendas, tributação das grandes for-
tunas e promoção da justiça fiscal; uma reforma política democrática
que reduzisse a influência do poder econômico nas disputas eleitorais e
com critérios de promoção de mulheres, negros e jovens na democracia
representativa. Todo esse elenco de reformas estruturais seria funda-
mental para a consolidação da experiência que estava em curso. E isto
não foi feito. Criar um pacto social, com participação ampla, em torno
das reformas, era um caminho que poderia gerar o cimento da sustenta-
ção do governo. As políticas compensatórias de transferência de renda
para os mais pobres foram acertadas, mas elas não substituiriam políti-
cas estruturantes para o desenvolvimento nacional.
O golpe de Estado que solapou o mandato da presidenta foi um ver-
dadeiro ataque às conquistas democráticas e um assalto à história de
empoderamento das mulheres no Brasil. O que vimos foi uma quadri-
lha de homens brutos perfilados à direita de um cabo de guerra entre
democracia e autoritarismo, fazendo valer a pior das alternativas, jo-
gando a nação na trilha da incerteza e dos descaminhos. Tudo tem sido

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feito com alguns mestres em corrupção levantando hipocritamente a
bandeira da luta contra a corrupção.
A Operação Lava Jato, potencializada pelos holofotes da mídia,
lamentavelmente, tem sido, em várias das suas etapas, meticulosa-
mente seletiva, transparecendo que o seu alvo maior é o Partido dos
Trabalhadores (PT), e seu objetivo fora a derrubada da presidenta.
Muitos pesos e muitas medidas estão sendo usados na arena dos julga-
mentos e no uso das delações premiadas. Juízes tendenciosos substi-
tuem a venda de Temis, a deusa da justiça, por lentes de aumento, para
enxergarem seus desafetos e salvaguardarem seus protegidos; tomam
nas mãos a espada da punição e da perseguição e abrem mão da busca
da justiça e do respeito às leis. E magistrados e promotores desprezam
provas que ligam figuras de proa do PSDB e PMDB a altos esquemas de
corrupção e, por outro lado, tomam indícios como provas cabais, quan-
do se trata de incriminar lideranças políticas ligadas ao PT e ao campo
aliado da presidenta Dilma. Lula foi, e continua sendo, o alvo absoluta-
mente destacado para ser desconstruído aos olhos do povo, às custas do
que for preciso, para que jamais possa voltar à cadeira da presidência.
O dia em que o impeachment foi votado ficará na história como uma
página tão bizarra como as narrativas de Gabriel García Márquez sobre
os fatos terríveis e surreais que aconteciam em Macondo, cidade imagi-
nária do romance Cem anos de solidão.
A era Temer, marcada pelo pragmatismo tosco, de um presidente
ilegítimo, que procura apagar todas as marcas progressistas do governo
anterior, foi iniciada eliminando a presença de mulheres, de negros e de
gente de extração popular do seu primeiro escalão. A fotografia de um
governo constituído por 24 homens brancos comandando ministérios
evidenciou a marca misógina e falocêntrica da nova gestão, divorciada
da mais remota perspectiva de promover a igualdade entre os sexos na
ocupação de espaços de poder. As reações foram imediatas, no Brasil e
no mundo. Diferente do que sugeriu a revista Veja (LINHARES, 2016),
pouco tempo antes do golpe, sobre Marcela Temer, a esposa “bela,

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recatada e do lar”, como se esta devesse ser a vocação das brasileiras, as
mulheres bradaram nas ruas e nas redes sociais sua insatisfação com o
golpe e com o profundo retrocesso que ele significou na sua representa-
ção política e em todos os aspectos da vida social.
Vale refletir, investigar melhor o que realmente queriam as pessoas
que foram manipuladas para respaldar a derrubada do governo Dilma.
O que queriam? Como se sentiram em relação ao que veio depois da
saída da presidenta? O governo Dilma foi envolto numa imensa tor-
menta. A presidenta foi perseguida, hostilizada, demonizada. A cada
pronunciamento público ouvia-se batidas de panelas em todo o Brasil;
um adesivo simulando o seu estupro foi distribuído quando houve
aumento da gasolina; o cartunista Chico Caruso (2015) estampou no
jornal O Globo, a infame charge da presidenta em posição de ser de-
capitada por um carrasco do Estado Islâmico em pleno 8 de Março de
2015, Dia Internacional da Mulher. Enfim, em pleno século XXI, os
insultos misóginos sofridos por Dilma, figura pública, mas, sobretu-
do, uma mulher de carne, osso e sensibilidade, revelaram que o nosso
self cultural de hoje não anda muito distante do self cultural vigente no
Renascentismo, em 1484.
Como bem analisou a saudosa feminista Rose Marie Muraro (2009),
na breve introdução histórica do livro O martelo das feiticeiras, foi uma
terrível contradição que, justo no apogeu da Renascença, a humanidade
tenha permitido que se acendesse a fogueira da inquisição e nela fossem
consumidas as vidas de milhares de mulheres acusadas de bruxaria,
simplesmente por exercerem seu poder divergente dos códigos e nor-
mas vigentes na época, e por buscarem liberdade e autonomia.
Fato é que uma histeria coletiva tomou larga parcela do povo brasi-
leiro, emulada pelos grandes meios de comunicação. O país ficou pola-
rizado entre antipetistas e petistas, chamados, respectivamente, “coxi-
nhas” e “mortadelas”, e não viu a luz da razão. E o maniqueísmo se fez
golpe e habitou entre nós.
Havia mulheres dos dois lados, entre os que queriam o golpe e os
que defendiam a permanência da presidenta e a democracia. Vale, en-
tretanto, valorizar as manifestações das jovens e de outras gerações que

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denunciaram o sexismo, a misoginia dos novos governantes. O desmon-
te do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos,
fruto de uma fusão feita na reforma administrativa no governo Dilma,
foi duramente criticado, repercutindo internacionalmente. Temer
voltou atrás e recriou a Secretaria de Políticas para a Igualdade Racial,
a Secretaria de Políticas para as Mulheres e a Secretaria de Direitos
Humanos. Não mais com o status de ministério ou como secretarias li-
gadas à presidência, todas foram para dentro do Ministério da Justiça.
Se antes já existiam sem a devida substância econômica, tornaram-se
organismos precarizados e esvaziados na formulação das políticas pú-
blicas e, sobretudo, nos recursos para materializá-las. Acrescente-se a
isso o fato de que, num governo de caráter extremamente conservador,
não há ambiente propício ao processo de transversalização das políticas
para mulheres, para os negros, e para a promoção dos direitos humanos,
consubstanciando-se num verdadeiro desmonte de tais políticas. Mais
adiante, Temer criou um Ministério de Direitos Humanos, como uma
resposta à ausência de mulheres e negros no primeiro escalão e nomeou
ministra a desembargadora Luslinda Valois, medida que jamais ultra-
passou o perímetro do simbólico.
A democracia no Brasil retrocedeu terrivelmente. A Constituição
passou a ser sistematicamente violada. O governo Temer, com sua base
aliada, tem adotado medidas que impactam diretamente a vida dos que
mais precisam da proteção do Estado. Congelou por 20 anos as verbas da
educação e da saúde públicas, além de outras áreas sociais; impôs a Lei
da Terceirização indiscriminada; fez a Reforma Trabalhista que, entre
outros absurdos, permite que mulheres grávidas e lactantes trabalhem
em locais insalubres, mediante autorização médica; pautou a Reforma
da Previdência, buscando imputar aos trabalhadores um suposto défi-
cit previdenciário de 152 bilhões, dados desmentidos pela Associação
Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip) e
outras instituições. (ANFIP; DIEESE, 2017) O desmonte só empurra
o país para o abismo. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios

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Contínua de abril de 2017 indicava que 14,04 milhões de brasileiros es-
tavam desempregados. (IBGE..., 2017)
Quando escreveu Quarto de Despejo em 1950, a catadora de papelão
que se revelou uma genial escritora, Carolina Maria de Jesus, fez um re-
lato chocante: “Eu, quando estou com fome, quero matar o Jânio, que-
ro enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades cortam o
afeto do povo pelos políticos”. (JESUS, 1999, p. 33) Há que se ter em con-
ta que o rebaixamento da política é a estrada que se abre para a barbárie.
Estamos vivendo um tempo de perplexidade, desalento e desencanto no
seio do povo brasileiro, o que convoca os setores mais comprometidos
com a luta coletiva a buscar resgatar o país das mãos daqueles que usur-
param o poder central. Este fato imponderável acontece há apenas 30
anos desde a redemocratização do Brasil. Nos vemos diante do desafio
de, mais uma vez, lutar por eleição direta para presidente da República.
E só a luta ampla, que resulta da aliança entre os diferentes movimentos
sociais, pode impulsionar a consciência crítica pelo resgate da democra-
cia e pelo reposicionamento do país no rumo do desenvolvimento e da
promoção do bem-estar social. Um novo e generoso projeto de nação
precisa surgir após o caos que estamos vivendo. Porém, sem as mulheres
e sem os negros a democracia representativa nunca será capaz de espe-
lhar a grandeza da diversidade do povo brasileiro.

Notas
1 Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma escritora, filósofa existencialista, memorialista e
feminista francesa que produziu uma densa obra sobre as desigualdades de gênero e emanci-
pação das mulheres.
2 O exemplo apresentado ganhou ampla repercussão na imprensa. Destaco reportagem do
jornal O Dia, com o título “Marido de deputada que fez discurso inflamado pelo impeach-
ment é preso”, publicada em 18 de abril de 2016. (NASCIMENTO, 2016)

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Acesso em: 26 maio 2017.

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Dilma : símbolo par a a
par ticipaç ão polític a f eminina

Vanessa Gra z ziot in*

* Senadora da República pelo


Partido Comunista do Brasil
Int rodução
(PCdoB) do Amazonas (AM) e
Há uma relação perversa entre gênero e política, Procuradora Especial da Mulher
no Senado.
que é nossa tarefa transformar. A pequena partici-
pação feminina nos espaços de poder é a face mais
visível desta relação. Não tenho dúvidas de que isso
foi um componente importante no processo de im-
peachment, aspecto abordado por mim, Vanessa
Grazziotin, e outras/os parlamentares “no calor da
hora”, 1 em pronunciamentos nas comissões e no
plenário, bem como em artigos externos à luta par-
lamentar. 2

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Primeira mulher a assumir a presidência do Brasil, Dilma Rousseff,
foi vítima de xingamentos sexistas, de depreciação da figura feminina e
de outras violências por ser mulher.
Este componente discriminatório, sabemos, está presente até mes-
mo nas democracias mais sólidas e afeta líderes como a primeira-minis-
tra alemã Angela Merkel e líderes de outras nações.
No Brasil, a misoginia conjugou-se a interesses ocultos e o alvo acabou
sendo uma presidenta honesta, afastada sem nenhuma acusação sólida.3
Nesse triste episódio de nossa história, houve uma conjugação de in-
teresses, todos eles reptícios, e uma plêiade de traições capitaneada por
setores do PMDB e pelo vice-presidente Michel Temer.
O golpe começou no dia seguinte às eleições de 2014, quando o can-
didato derrotado Aécio Neves levantou a tese do impeachment. Ao lon-
go de 2015, o golpe foi aglutinando vários setores da mídia, segmentos
sociais com interesses contrariados, como a indústria petrolífera inter-
nacional, e políticos preocupados com o avanço da Operação Lava-Jato,
como o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Tivemos uma intervenção da mídia sem precedente na história.
Foram dias de intenso bombardeio, de ações ilegais como a interceptação
dos telefonemas dela e do ex-presidente Lula, e de uma emulação goeb-
belsiana das massas, manipulando o ódio, a raiva e o preconceito social.
Em várias oportunidades, percebemos que a aglutinação desses se-
tores poderia representar uma quebra das regras democráticas, mas o
momento simbólico foi a aceitação de um pedido de impeachment sem
respaldo jurídico pelo ex-deputado Eduardo Cunha.
Milhões de brasileiros lutaram bravamente contra o impeachment:
movimentos sociais, setores progressistas da intelectualidade, da igreja
e Parlamento.
Mas o nível de articulação dos setores mais conservadores, conjuga-
do com um apoio maciço da mídia, levou a uma conjuntura que conso-
lidou o golpe.
No Senado, fizemos um debate aprofundado sobre as questões fis-
cais arroladas na denúncia, mostrando que não havia nenhum respaldo

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e nenhuma justificativa legal para um afastamento como o que foi feito.
Também pudemos expor as reais intenções dos que ardorosamente de-
fendiam o impeachment.
Nós procuramos ouvir e dialogar com todas as forças, e com todos
os segmentos, e conseguimos construir uma bancada da legalidade.
Parafraseando a heroína comunista Olga Benário Prestes, neste proces-
so lutamos pelo bom, pelo justo e pelo melhor para o Brasil.
Infelizmente, a maioria de ocasião que se formou já havia decidido
pelo impeachment, independentemente da acusação ou dos motivos.
A questão de gênero transparecia em muitos discursos, mas além do
preconceito, da misoginia e do machismo, houve também a perfusão de
outros interesses que impactaram no voto dos senadores e das senadoras.
Pessoalmente, posso dizer que tivemos apoio de várias regiões do
país, mas também recebemos manifestações de ódio e intolerância vin-
das de diversas cidades. Ouvimos inúmeras críticas e recebemos milha-
res de mensagens de eleitores que eram favoráveis ao impeachment.
Respeitei as críticas e aceitei que muitos eleitores estivessem insatis-
feitos, pois sabia que a campanha midiática poderia nublar a percepção
das reais intenções de Temer e seus aliados. Mas nunca tive dúvidas do
meu papel e da responsabilidade que tinha na luta contra o golpe.
Hoje a história mostra que estávamos certos. O que temos vivido
desde o afastamento da presidenta Dilma Rousseff corrobora o alerta
feito por ela própria presidenta, na data de seu afastamento efetivo, de
que o maior risco para o país era ser dirigido por um governo sem voto
nem legitimidade.

Um balanço
Um ano 4 se passou desde que Michel Temer assumiu a presidência da
República, após uma decisão inicial da Câmara dos Deputados em reco-
mendar a abertura de um processo de impeachment contra a presidenta

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Dilma, e a autorização para abertura do processo no Senado, no dia 12
de maio.
De fato, uma grande parte apoiou a saída da presidenta Dilma por-
que acreditava nas promessas de que tudo melhoraria.
Nos bastidores do Congresso, ou até mesmo nos microfones, alguns
diziam que a questão não era mais jurídica ou legal – já que a presidenta
Dilma perdera o seu apoio no Congresso Nacional e nenhum presiden-
te governaria sem o apoio do Congresso Nacional.5
Com viés mais econômico, outros diziam que, diante da situação
grave da economia nacional, só haveria uma saída, tirar a presidenta
Dilma e substituí-la pelo vice-presidente Michel Temer. (COSTA, 2015)
O simples fato de um novo presidente assumir – argumentavam – já
levaria uma segurança maior ao mercado financeiro, e que nossa econo-
mia, portanto, voltaria a crescer.
Precisamos, efetivamente, fazer um balanço do que aconteceu nesse
último ano no Brasil e o que poderá vir a acontecer nestes próximos anos.
Um ano após a usurpação, o governo de Michel Temer só colecionou
números extremamente negativos, piores ainda se comparados com as
promessas feitas por ele e pela maioria dos parlamentares que cassaram
o mandato de uma presidenta que nenhum crime cometeu.
O que aconteceu com as contas do governo, que dizia que o déficit
público era insuportável e que precisava alguém para pôr ordem na casa?
Fechamos o ano passado aprovando, contra o nosso voto, o teto de
gastos – a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55/2016 –, para
quê? Para cortar gastos em investimentos, gastos na área social, gastos
na área de educação, mas mantiveram intactos os gastos financeiros,
num orçamento em que metade dos recursos vai para pagar rolagem e
o principal de uma dívida pública.
A dívida pública do governo brasileiro, em abril de 2016, era de 71%
do Produto Interno Bruto (PIB). Em março de 2017, era 79,9% do PIB.
Em abril de 2016, as contas do governo registravam um déficit da ordem

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de R$149 bilhões; em março de 2017, esse déficit subiu para R$156 bi-
lhões. Já a taxa de desemprego no Brasil, em abril de 2016, que era em
torno de 11,2%; hoje é superior aos 13%, ou seja, quase 14% são a taxa de
desemprego. (FRAGA; CARNEIRO, 2017)
Também prometeram que os juros baixariam significativamente e
tentam enganar a população, dando conta de que, nas últimas reuniões
do Comitê de Política Monetária (Copom), houve queda na taxa de juros.
De fato, houve queda, mas temos que analisar se as quedas da taxa
do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), dos juros oficiais
do Brasil, foram superiores à queda da inf lação. E aí chegamos à con-
clusão simples: em que pese nominalmente terem baixado as taxas
Selic de juros nos últimos meses, do ponto de vista dos juros reais, as
taxas aumentaram, para o consumidor as taxas de juros permanece-
ram em torno de 41%, 42%.
São esses os números com que o governo presenteou a nação brasi-
leira, o povo brasileiro, com um ano de exercício.
Agora estamos, a Câmara e o Senado, debatendo duas reformas que
foram entendidas como as prioridades do governo federal – a Reforma
da Previdência e a Reforma Trabalhista. 6
O objetivo dessas reformas é equilibrar os gastos públicos às expen-
sas dos trabalhadores e das trabalhadoras, no sentido de que isso pos-
sa contribuir para a superação de uma crise econômica estrutural do
sistema capitalista – porque não é uma crise econômica só do Brasil –,
mesmo que venha em detrimento do bem-estar e do atendimento das
necessidades de cidadãs e cidadãos.
Agora o governo passa a divulgar que em torno de R$2 bilhões serão
liberados para pagamento das emendas dos parlamentares da base do
governo. E para que liberar emendas de parlamentares? Para aprovar a
Reforma da Previdência, para aprovar a Reforma Trabalhista.
Que governo austero é esse?
Não podemos aceitar, de forma pacífica, que promovam essas refor-
mas absurdas contra o povo. Isso não é reforma; isso é contrarreforma,

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isso é supressão de direitos, contra a qual não há senão a possibilidade
da resistência política.
Hoje há uma crise fiscal estrutural porque o governo optou por dis-
cutir e por resolver o problema do gasto e não o problema da arrecada-
ção. Isso é algo lamentável em qualquer nação do mundo, entretanto
com perversão acentuada numa nação com as características do Brasil.
O país, no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), ao lado da Estônia, é o único país que não cobra tri-
buto sobre distribuição de lucros e dividendos. As Nações Unidas já divul-
garam inúmeros relatórios mostrando como o Brasil é o paraíso fiscal dos
ricos, dos poderosos, desses que não pagam tributo.
Precisamos de uma reforma tributária, não da destruição de nossa
Previdência Social e de nossas leis trabalhistas – mas carecemos tam-
bém de uma reforma política que considere a fundo a imensa distorção
de gênero que hoje caracteriza a eleição de nossos representantes.

Por mulheres no poder


O segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff – iniciado em
2015 e terminado no triste 31 de agosto de 2016 –, coincidiu com o lança-
mento da campanha Mais Mulheres na Política, um esforço conjugado
da bancada feminina na Câmara e no Senado para confrontar a sub-re-
presentação feminina nos lugares de poder político, que é um dos ele-
mentos centrais da reforma política que precisa ser feita no país.
Na história do Brasil, as eleições têm servido de indicador para ave-
riguar a precariedade da democratização de gênero na sociedade brasi-
leira.
O impacto do voto feminino – de mulheres e em mulheres – é repre-
sado por outros fatores do sistema eleitoral. Barreiras históricas e so-
ciais ainda inibem a entrada, a permanência e as perspectivas de futuro
das mulheres na política, de modo que a representação masculina no
Parlamento continua inflacionada.

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A modificação desta situação é objeto principal da bancada femini-
na, por meio da PEC 134/2016 e da campanha Mais Mulheres na Política.
Com esta proposta de emenda constitucional, pretende-se criar a reser-
va de gênero para a ocupação efetiva de um percentual de vagas, a partir do
voto proporcional, em lista fechada e com regra de alternância de gênero.
Desde 2015, a campanha foi lançada oficialmente em 12 capitais e em
11 outras cidades brasileiras, além de ter produzido e divulgado farto
material de pesquisa, como o livro Mais Mulheres na Política e o mapa
das mulheres no poder, encartado no mesmo.
Lançada no fim de 2016, a terceira edição desse livro contém análise
quantitativa e qualitativa sobre a desigualdade de gênero na política, a
partir dos dados das eleições de 2014 e de 2016.
Na história do Brasil, as eleições têm servido de indicador para averi-
guar a precariedade da democratização de gênero na sociedade brasileira.
Os dados das eleições de senadoras, deputadas, prefeitas e vereado-
ras mostram um panorama de crescimentos ínfimos, de estagnação, de
diminuição e mesmo de ausência total de representantes femininas. Em
2016, 1.284 municípios brasileiros ficaram sem uma vereadora sequer.
Nos melhores cenários, resultados mostram que as mulheres brasi-
leiras parecem ter atingido um “teto” difícil de ultrapassar espontanea-
mente, a despeito de medidas que garantiram um número de pelo me-
nos 30% de candidaturas femininas e também regulamentaram o uso
do tempo de propaganda para mulheres.
Hoje o sistema existente favorece uma sistemática sub-representa-
ção feminina e uma super-representação masculina que resulta menos
da disputa efetiva que das regras que pré-definem como o jogo eleito-
ral pode ser jogado.
Talvez nem seja o caso de continuar chamando de representativo um
sistema assim. Há uma grande diferença entre representar e substituir.
Estes homens não nos representam – nos substituem, usurpam um lu-
gar que seria de outras de nós.

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Há muito tempo se reconhece que a exclusão das mulheres do espa-
ço de poder torna a política indiferente e hostil às questões femininas,
as quais continuam a ser tratadas, sob a ótica masculina, como proble-
mas privados, caseiros, alheios ao mundo público da política.
Sobretudo, chegou o tempo de dizer que as mulheres não querem
só transformar a política para chegar ao poder, mas vão transformar a
política ao chegar ao poder.
É preciso prestar atenção ao fato de que a equivalência demográfica
entre homens e mulheres precisa ser consonante com a presença de
ambos nos espaços de poder.
A presidenta Dilma Rousseff compreendia profundamente que a
democracia é importante para as mulheres, mas as mulheres são muito
mais importantes para a democracia.

Notas
1 Ver, por exemplo, as notas taquigráficas de minha intervenção na sessão de 2 de agosto de
2016, na Comissão Especial do Impeachment 2016, disponíveis em Brasil (2016b). Neste
sentido, também, a intervenção da senadora Regina Sousa (PT-PI), no dia 29 de agosto de
2016, nas considerações que dirigiu à presidenta Dilma Rousseff.
2 Por exemplo, ver Grazziotin (2016) e também o artigo da senadora Fátima Bezerra (2016).
3 Conforme o voto em separado apresentado na Comissão Especial do Impeachment de 2 de
agosto de 2016, por mim, pelas senadoras Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffmann (PT-PR)
e Kátia Abreu (PMDB-TO); e pelos senadores Humberto Costa (PT-PE), Lindbergh Farias
(PT-RJ), Randolfe Rodrigues (REDE-AP) e Telmário Mota (então PDT, hoje PTB-RR): “[...]
Sempre afirmamos, desde o início dos trabalhos desta Comissão, que a Denúncia nº 1, de
2016, não se lastreava em fundamentos jurídicos sólidos. Sustentávamos que os dois eixos da
denúncia – os decretos que tratavam de créditos suplementares, editados em 2015, e a equa-
lização da taxa de juros do Plano Safra referente ao ano de 2015 – jamais poderiam dar ensejo,
numa análise isenta, desapaixonada e criteriosa, ao impeachment da Senhora Presidenta da
República, pelo singelo e robusto motivo de não caracterizar crime de responsabilidade exi-
gido pelo art. 85 da Constituição Federal e elencado pela Lei nº 1.079, de 1950”. Voto em
separado da senadora Vanessa Grazziotin e outros senadores referente à pronúncia. (BRASIL,
2016a, p. 35)
4 Este artigo foi escrito em abril de 2017.
5 Ver, por exemplo, o jornalista Ricardo Noblat (2015).

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6 Muito prejudicial a trabalhadoras e trabalhadores, a reforma trabalhista proposta pelo gover-
no foi aprovada e sancionada pelo presidente. A tramitação da reforma da previdência tem
sido dificultada pelas sucessivas denúncias de corrupção enfrentadas pelo governo Temer.

Referências
+ MULHERES na política: retrato da sub-representação feminina no
poder. Brasília, DF: Senado Federal, 2016. Disponível em: <https://
www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/proc-publicacoes/
mais-mulheres-na-politica-retrato-da-subrepresentacao-feminina-no-
poder>. Acesso em: 5 maio 2017.

BEZERRA, F. O golpe misógino contra a democracia. Jornal Senado


Mulher: Informativo da Procuradoria Especial da Mulher do Senado,
Brasília, DF, ano 3, n. 25, p. [4], set. 2016. Disponível em: <https://
www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/proc-publicacoes/
jornal-senado-mulher-setembro-2016>. Acesso em: 10 maio 2017.

BRASIL. Congresso. Senado. Comissão Especial do Impeachment. Voto


em separado. Brasília, DF, 2 ago. 2016a. Disponível em: <http://legis.
senado.leg.br/comissoes/comissao?15&codcol=2016>. Acesso em: 7 abr.
2017.

BRASIL. Congresso. Senado. Notas taquigráficas, 29ª Comissão Especial


do Impeachment 2016, de 2 de agosto de 2016b. Atividade Legislativa,
Brasília, DF, 2016. Disponível em: <http://www25.senado.leg.br/web/
atividade/notas-taquigraficas/-/notas/r/5216>. Acesso em: 20 abr. 2017.

COSTA, R. Temer propõe plano de ação imediata para área econômica.


Valor Econômico Online, São Paulo, 30 out. 2015. Disponível em: <http://
www.valor.com.br/politica/4294100/temer-propoe-plano-de-acao-
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FRAGA, É.; CARNEIRO, M. Sob Michel Temer, retomada da economia


é lenta. Folha de S. Paulo, São Paulo, 8 maio 2017. Poder. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/05/1881993-sob-michel-
temer-retomada-da-economia-e-lenta.shtml>. Acesso em: 23 out. 2017

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GRAZZIOTIN, V. O golpe de 2016 e a violência política de gênero. In:
RAMIRO, J. F.; MORALES, R. S. de. Somos todas. Somos uma: formas de
pensar a mulher na sociedade brasileira. Porto Alegre: ArteLíngua, 2016.
cap. 16.

MAPA mulheres na política 2016. Brasília, DF: Senado Federal, 2016.


Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/institucional/
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Acesso em: 10 maio 2017.

NOBLAT, R. Sem apoio, como Dilma imagina governar por mais três
anos? O Globo, Rio de Janeiro, 22 out. 2015. Disponível em: <http://
noblat.oglobo.globo.com/meus-textos/noticia/2015/10/sem-apoio-
como-dilma-imagina-governar-por-mais-tres-anos.html>. Acesso em:
10 maio 2017.

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Este livro foi composto na EDUFBA por Marcella Napoli.
O projeto gráfico deste livro foi desenvolvido no Estúdio
Quimera por Iansã Negrão com auxílio de Inara Negrão
para a EDUFBA, em Salvador. Sua impressão foi feita na
Reprografia da EDUFBA. A capa e o acabamento foram
feitos na Gráfica I. Bigraf.
A fonte de texto é DTL Documenta. As legendas foram
compostas em DTL Documenta Sans, família tipográfica
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O papel é Alcalino 75 g/m².

400 exemplares.

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