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1.

Igreja: continuidade histórica da Encarnação de Cristo

A História da Igreja, diferentemente de outros objetos de estudo, requer para sua compreensão
plena um esforço prévio. Isso ocorre devido à natureza complexa da Igreja. Ela não é meramente
uma instituição humana, que pode ser entendida somente no âmbito humano. Não é uma
agremiação, um grupo de pessoas unidas em sociedade com um fim específico. Não. A Igreja é
um mistério e, se este for perdido de vista, a história que dele deriva será apenas uma
caricatura.
Para ilustrar, um fato histórico: a conversão de um homem chamado Saulo de Tarso, o qual nasceu
na atual Turquia, no sopé do monte Taulus, perto do Mar Mediterrâneo. Saulo foi educado na
cidade de Tarso, dentro da cultura helenística, mas ao mesmo tempo judaica. Sendo seus pais
judeus devotos foi levado até Jerusalém para estudar na escola de Gamaliel. Saulo percebeu que
estava acontecendo algo estranho no judaísmo de sua época: um homem chamado Jesus de
Nazaré.

Quando alguém se refere a Jesus, mesmo quem não tem fé, normalmente o faz de maneira
respeitosa, reconhecendo nele alguém "iluminado", um "sábio". Contudo, só pode considerar
Jesus como um "sábio" aquele que Nele tem fé. Isso se explica porque Jesus, em sua vida
histórica, reivindicou para si o título de "Filho de Deus", por si só escandaloso. E assim é em todo
o Evangelho. Um exemplo desse escândalo é o Sermão da Montanha, uma obra literária admirada
até mesmo por quem não tem fé, no qual Ele diz: "ouvistes o que foi dito... eu, porém, vos digo..."
(conf. Mt 5,21-22). Contextualizando as palavras de Jesus é possível perceber que, de alguma
forma, Ele reformula o que está no Antigo Testamento, esclarecendo a Palavra de Deus, com uma
autoridade divina.
Para os homens daquela época, ouvir Jesus dizer: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida", não
deve ter sido nada fácil. Uma atitude possível seria crer que Jesus realmente era Deus feito
homem. A outra era acreditar que Jesus nada mais era que um louco. Por isso, desde o seu
nascimento, Jesus de Nazaré foi uma figura polêmica. Os homens que acreditaram em Jesus
possuíam fé. Ainda hoje, para crer que Jesus é Deus é necessário fé.
Ora, Saulo de Tarso percebeu o que estava acontecendo em sua época. Ele era um judeu devoto
e não podia acreditar que aquele homem que morrera crucificado em Jerusalém fosse Deus. Para
ele era impossível que Deus se fizesse homem, morresse numa cruz, ressuscitasse no terceiro
dia e subisse aos céus. Era impossível. Assim, restou a segunda alternativa e Saulo passou a
perseguir os cristãos.

Tendo em seu poder cartas de autorização do Sinédrio, em Jerusalém, Saulo percorreu diversas
cidades, chegando à Síria - cuja capital até hoje é Damasco -, pois sabia que nessa cidade havia
uma comunidade de cristãos. Com o mandado judicial nas mãos, passou a prendê-los, pois os
considerava um grupo de judeus fanáticos e perigosos, que seguiam um louco, blasfemo e,
portanto, eram também blasfemos. Com essa perseguição, Saulo cumpre a Palavra proferida por
Jesus Cristo: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a
vida julgará prestar culto a Deus."(conf. Jo 16,2).

O que aconteceu a Saulo se encontra narrado no livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 9 e vale
recordar:

"Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Ele apresentou-se ao sumo
sacerdote, e lhe pediu cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de levar presos
para Jerusalém todos os homens e mulheres que encontrasse seguindo o Caminho. Durante a viagem,
quando já estava perto de Damasco, Saulo se viu repentinamente cercado por uma luz que vinha do
céu. Caiu por terra, e ouviu uma voz que lhe dizia: "Saulo, Saulo, por que você me persegue?"
Saulo perguntou: "Quem és tu, Senhor?" A voz respondeu: "Eu sou Jesus, a quem você está
perseguindo.
Agora, levante-se, entre na cidade, e aí dirão o que você deve fazer." Os homens que acompanhavam
Saulo ficaram cheios de espanto, porque ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo se levantou do
chão e abriu os olhos, mas não conseguia ver nada. Então o pegaram pela mão e o levaram para
Damasco. E Saulo ficou três dias sem poder ver, e não comeu nem bebeu nada. Em Damasco havia um
discípulo chamado Ananias. O Senhor o chamou numa visão: "Ananias!" E Ananias respondeu: "Aqui
estou, Senhor!" E o Senhor disse: "Prepare-se, e vá até a rua que se chama rua Direita e procure, na
casa de Judas, um homem chamado Saulo, apelidado Saulo de Tarso. Ele está rezando e acaba de ter
uma visão. De fato, ele viu um homem chamado Ananias impondo-lhe as mãos para que recuperasse a
vista."

Ananias respondeu: "Senhor, já ouvi muita gente falar desse homem e do mal que ele fez aos teus fiéis
em Jerusalém. E aqui em Damasco ele tem plenos poderes, que recebeu dos chefes dos sacerdotes, para
prender todos os que invocam o teu nome." Mas o Senhor disse a Ananias: "Vá, porque esse homem é
um instrumento que eu escolhi para anunciar o meu nome aos pagãos, aos reis e ao povo de Israel. Eu
vou mostrar a Saulo quanto ele deve sofrer por causa do meu nome." Então Ananias saiu, entrou na
casa e impôs as mãos sobre Saulo, dizendo: "Saulo, meu irmão, o Senhor Jesus, que lhe apareceu quando
você vinha pelo caminho, me mandou aqui para que você recupere a vista e fique cheio do Espírito
Santo." Imediatamente caiu dos olhos de Saulo alguma coisa parecida com escamas, e ele recuperou a
vista.

Em seguida Saulo se levantou e foi batizado. Logo depois comeu e ficou forte como antes. Saulo passou
então alguns dias com os discípulos em Damasco. E logo começou a pregar nas sinagogas, afirmando
que Jesus é o Filho de Deus. Os ouvintes ficavam impressionados e comentavam: "Não é este o homem
que descarregava em Jerusalém a sua fúria contra os que invocam o nome de Jesus? E não é ele que
veio aqui justamente para os prender e levar aos chefes dos sacerdotes?" No entanto, Saulo se
fortalecia cada vez mais e deixava confusos os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que
Jesus é o Messias." (1-22)
O trecho em negrito é o prenúncio de uma revolução, pois o homem que estava convicto de que
fazia bem em perseguir os discípulos de Jesus, de repente vê-se frente a frente com o próprio
Jesus, ressuscitado, como luz que ilumina a sua vida, tão forte que lhe provoca uma cegueira.
Nesse ponto é preciso parar e analisar o que de fato aconteceu.

A conversão de Saulo não foi algo que se deu de maneira isolada, individual, em que ele sozinho
teve um contato com Jesus. Não. Ela foi eclesial desde o início. Ora, para Saulo, Jesus estava
morto e sepultado, sua ressurreição era nada mais que um engodo perpetrado pelos seus
discípulos, aos quais Saulo perseguia concretamente. No caminho de Damasco, uma luz atinge
Saulo e ele escuta uma voz que diz: "Saulo, Saulo, por que Me persegues?". O que Saulo
perseguia, então, era a Igreja. Nesse momento há uma revolução eclesiológica, pois, diante da
conversão de Saulo é possível dizer que a Igreja é uma continuidade de Jesus na história. A
continuação histórica do mistério da Encarnação. É que São Paulo tenta explicar na Primeira Carta
aos Coríntios, utilizando, no Capítulo 11, uma analogia para se referir à Eucaristia. Ele diz:

"De fato, eu recebi pessoalmente do Senhor aquilo que transmiti para vocês. Na noite em que foi
entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse: "Isto é o meu corpo que
é para vocês; façam isto em memória de mim."Do mesmo modo, após a Ceia, tomou também o cálice,
dizendo: "Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; Todas as vezes que vocês beberem dele, façam
isso em memória de mim." (23-25)

No Capítulo seguinte, ele continua a falar do Corpo de Cristo, porém, agora se refere a ele como
sendo composto por todos os homens:

"De fato, o corpo é um só, mas tem muitos membros; e no entanto, apesar de serem muitos, todos os
membros do corpo formam um só corpo. Assim acontece também com Cristo. Pois todos fomos
batizados num só Espírito para sermos um só corpo, quer sejamos judeus ou gregos, quer escravos ou
livres. E todos bebemos de um só Espírito.

O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos. Se o pé diz: "Eu não sou mão; logo, não pertenço
ao corpo", nem por isso deixa de fazer parte do corpo. E se o ouvido diz: "Eu não sou olho; logo, não
pertenço ao corpo", nem por isso deixa de fazer parte do corpo. Se o corpo inteiro fosse olho, onde
estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfato? Deus é quem dispôs cada um dos
membros no corpo, segundo a sua vontade. Se o conjunto fosse um só membro, onde estaria o corpo?
Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: "Não preciso de você";
e a cabeça não pode dizer aos pés: "Não preciso de vocês."

Os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; e aqueles membros do corpo
que parecem menos dignos de honra são os que cercamos de maior honra; e os nossos membros que
são menos decentes, nós os tratamos com maior decência; os que são decentes não precisam desses
cuidados. Deus dispôs o corpo de modo a conceder maior honra ao que é menos nobre, a fim de que
não haja divisão no corpo, mas os membros tenham igual cuidado uns para com os outros. Se um
membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento; se um membro é honrado, todos os
membros participam de sua alegria. Ora, vocês são o corpo de Cristo e são membros dele, cada um no
seu lugar." (12-27)

As palavras de São Paulo são claras no sentido de que no Corpo de Cristo (Eucaristia e Igreja)
está presente o mistério da Encarnação. Se uma hóstia consagrada for levada ao laboratório e
analisada, nada se verá além de pão. Não se verá o corpo de Cristo, não se verá Jesus. Para se
enxergar Jesus na Eucaristia é preciso ter fé. Deus permitiu, ao longo da história, inúmeros
milagres, sinais visíveis de que Jesus realmente está presente na Eucaristia. Mas Ele está
presente também na Igreja e São Paulo experimentou essa verdade (por que me persegues?).

Da mesma forma que não é possível levar a hóstia para o laboratório e enxergar Jesus, não é
possível levar a Igreja para um estudo sociológico e querer enxergá-Lo. É preciso ter fé em ambos
os casos. Se o propósito é estudar a História da Igreja, necessário se faz saber que o objeto desse
estudo será nada mais, nada menos que o Cristo vivo ao longo da história na sua Igreja.

O modo correto de se chegar à verdadeira história da Igreja é estudando a vida dos santos,
homens e mulheres que historicamente viveram a santidade (que chegaram a um estado de
perfeição), cada um à sua maneira, vez que existem diferentes graus de pertença à Igreja, de
configuração a Cristo. Para entender a história da Igreja é preciso conhecer a vida desses santos
e o modo como se entregaram a Deus.
Um bom exemplo é a vida de São Pio de Pietrelcina, que configurou-se tão intensamente a Deus
que as chagas de Cristo apareceram em suas mãos, pés e costas, cuja vida toda foi marcada
intensamente por fenômenos inexplicáveis, verdadeiros milagres. Um santo atual, falecido em
1968, e que teve seus milagres e feitos analisados pela ciência moderna. São radiografias, estudos
médicos, atestados, comprovações de verdadeiros portentos realizados por meio desse homem
santo. Não foram apenas intervenções ligadas aos carismas, mas à própria santidade dele
(bilocação, estigmas que não cicatrizaram durante cinquenta anos e que poucos dias antes de sua
morte fecharam-se inexplicavelmente e não deixaram nenhum sinal, entre muitos outros).

O núcleo da história da Igreja está na vida dos santos, no fato de Cristo viver nesses homens, os
quais são a continuação da Sua Encarnação. Porém, não se deve estudar sem fé, pois isso é
perder de vista o objeto a ser estudado. É preciso ter fé na Igreja de Cristo, só assim é possível
estudar essa história fascinante de Cristo Encarnado ao longo da história da Humanidade.
2. O surgimento das ideologias anticristãs

O surgimento das ideologias anticristãs


Antes de prosseguir com o estudo da História da Igreja é preciso compreender que existem
ideologias interessadas na destruição da Igreja. Um exemplo claro de uma intenção ideológica é
a própria historiografia recente da Igreja. É muito fácil notar que existe um preconceito contra a
Igreja e ele foi confeccionado ideologicamente por um grupo de intelectuais, filósofos
iluministas franceses do século XVIII e XIX.
A Revolução Francesa (1789) não foi um fenômeno espontâneo, pelo contrário, foi preparada
tanto política quanto ideologicamente. Para compreendê-la é preciso estudar o que a antecedeu
e os seus bastidores. Comprovadamente, existe uma vasta documentação dando conta que
pseudointelectuais, falsos filósofos foram "comprados" por um grupo de banqueiros, a então
chamada 'burguesia', para criar um movimento ideológico que tornasse possível a derrubada da
monarquia, pois não havia outro modo de eles chegarem ao poder.
Os falsos filósofos criaram uma rede de mentiras, notadamente contra a Igreja Católica, os
jesuítas, o rei, a nobreza etc, fabricando um clima de insatisfação e revolta, utilizando a literatura
como meio de propagação das mentiras. Como foi dito, esse movimento foi criado artificialmente
mediante a injeção de dinheiro, contudo, alguns pensadores acreditaram sinceramente no
movimento falso de revolta, como foi o caso de Jean Jacques Rousseau, o qual não se tem notícia
de que tenha recebido qualquer quantia da dita "burguesia", mas que, no entanto, foi um dos
melhores ideólogos desse movimento.

O início do movimento, portanto, foi dado por filósofos medíocres, mas a continuidade dele foi feita
por filósofos sérios que passaram a trabalhar para a derrocada da monarquia e da Igreja. Dentro
da ideologia Iluminista, portanto, está embutida toda uma maneira de se contar a história que não
é aquela acontecida, mas feita de modo que instaure a revolução, que mude o status quo.

Naquela época, a imprensa acabara de ser inaugurada, os jornais eram raros. Mas, uma técnica
bem sucedida, inventada por Christoph Friedrich Nicolai, cuidou de propagar com sucesso a
ideologia iluminista: as feiras de livros. Com o crescente interesse da população pelos livros,
Nicolai passou a organizar as feiras, porém, selecionava os livros que seriam postos à venda, p.
ex., se o livro era contra a Igreja, contra a monarquia, se ele pregava o materialismo, o ateísmo
era escolhido, caso contrário, não. Isso fomentou o movimento revolucionário.

Historicamente, sabe-se que o rei da França convocou os Estados Gerais, o parlamento, para
resolver um problema referente aos impostos, pois a Coroa estava indo à falência. Uma vez
reunidos, surpreendentemente, os representantes dos Estados franceses passaram a redigir uma
Constituição, planejando a derrocada da monarquia.
Deste modo, por causa das técnicas aplicadas: investimento em escritores para que
produzissem material contrário à Igreja e à monarquia, e a difusão desses livros nas feiras
idealizadas por Friedrich Nicolai, contribuiram de maneira decisiva para o surgimento desse
fenômeno artifical, em vigor até hoje, que tem por objetivo denegrir a Igreja Católica.
Outro ponto a ser frisado é que em qualquer livro de História existem divisões, classificações das
épocas. Essas divisões foram estabelecidas justamente durante o Iluminismo, portanto, imbuídas
de ideologia. Cada título atribuído aos períodos da História traz nele mesmo uma valência
ideológica: Idade Antiga e Idade Moderna. Entre uma e outra, um período de mais ou menos mil
anos no qual o Cristianismo desempenhou um papel fundamental na história do Ocidente.

Com a queda do Império Romano do Ocidente, no século V, após o que a barbárie tomou conta,
a Igreja tornou-se a referência cultural na Europa até a queda do Império Romano do Oriente.
Ideológicamente era preciso "matar" esse período. Por isso recebeu o nome de "Idade Média", em
que havia a razão na Antiguidade, com seus grandes filósofos, seguido por um período de trevas,
na qual a razão foi substituída pela superstição, pelas trevas, pelo cristianismo. A partir do século
XV, quando ressurge o paganismo, em substituição gradual ao cristianismo, o nome que se dá é
"Renascimento", seguido pelo século das Luzes, no qual a Deusa Razão triunfa e surge o
Iluminismo.

Ora, esse tipo de historiografia pode ser tudo, menos algo isento, equilibrado. É pura ideologia.
Régine Pernoud, grande historiadora medievalista, fala com toda clareza o quanto a Idade Média
foi uma época de extraordinário desenvolvimento em inúmeros aspectos. Notadamente na
situação da mulher na sociedade que durante toda a Idade Antiga nada mais era uma "coisa",
propriedade do pater familias, do pai de família, do marido, o qual tinha o poder de matá-la, caso
não estivesse satisfeito.
Ora, o cristianismo mudou radicalmente essa visão. Nele, a mulher adquiriu dignidade semelhante
a de seu esposo, aliás, estudos sérios comprovam que o cristianismo tornou-se popular justamente
porque as mulheres perceberam que a conversão dos esposos os impedia de matá-las, por isso
elas se empenhavam para que eles aderissem ao cristianismo.

Na Idade Antiga jamais se ouviu falar de uma mulher reinando, já na Idade Média ela era coroada
junto com o Rei. Muitos feudos eram comandados por abades e muitos por abadessas. Foi o
cristianismo que, olhando para a dignidade da mulher, colocou a Virgem Santíssima como Rainha
do Céu e da Terra, fornecendo um instrumental espiritual para que se compreendesse a dignidade
da mulher.

Como Renascimento a mulher é novamente coisificada perdendo a sua dignidade e importância,


justamente por causa da volta do paganismo, da visão antiga, do pré-cristianismo. A esposa do
Rei não é mais coroada como rainha, em geral, as mulheres se tornam objetos de desejo sexual,
inclusive escravas, pois foi justamente no Renascimento que a prática escravagista retornou. Na
Idade Média não havia escravos, mas tão-somente o servo da gleba, que não era propriedade do
senhor feudal, mas mantinha com ele uma aliança: impostos em troca de proteção militar.

Portanto, o Renascimento significou um apagar-se das luzes e não um retorno das


luzes. Apagaram-se as luzes dos valores cristão que plasmaram toda a cultura da Idade Média. É
preciso, deste modo, entender que toda a historiografia contrária à Igreja Católica foi
confeccionada quase que totalmente por várias ideologias cuja finalidade era e é derrubar a Igreja,
detendo a influência dos valores cristãos na sociedade, a fim de dar trela livre ao paganismo que
reina na cultura atual.
O objetivo desse curso é apresentar uma história da Igreja baseada na verdade dos fatos, dentro
de uma acurácia, uma precisão dos fatos históricos relatados enquanto tal, e depois, uma
interpretação desses fatos à luz da fé. Se a verdade histórica for dolorosa, mesmo assim será
relatada. Pecados de papas, infidelidades, traições, heresias, lutas internas, tudo isso será
abordado, mas sempre tendo em vista a Igreja de Cristo que, justamente por ser "a Igreja de
Cristo", desde o início é perseguida até mesmo internamente.
A carne, o mundo e o demônio são os três inimigos do homens e também da Igreja. Existe a força
da concupiscência nos membros da Igreja, existe a mundanidade dentro da Igreja e também existe
a ação demoníaca. Mas não só isso, existe a ação do Espírito Santo, a presença de Graça, a
certeza de que Deus conduz a sua Igreja. Nosso Senhor Jesus Cristo previa isso na Última Ceia:
"odiaram a mim, odiarão também a vós", (conf. Jo 15,18).

Portanto, para se estudar a História da Igreja é preciso estudar o amor de Deus na história da
humanidade, mas também o ódio que marcou e ainda marca a Esposa de Cristo, chagada, que
segue o caminho de seu divino fundador: a Sua Paixão e Crucifixão. A esperança do cristão é de
que haverá um dia a ressurreição e se verá a Esposa descer do alto, quando então todos serão
um só com Cristo. Será a escatologia, o fim da história da humanidade e o fim da História da Igreja.

3. O Império Romano e a expansão do Cristianismo


O nascimento e a rápida expansão do Cristianismo só foi possível pela conjunção de alguns
fatores. Dentre eles está a situação do Império Romano, tema que será abordado nesta aula.
Como texto embasador sugerimos a leitura da obra "A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires", do
escritor e historiador francês Daniel-Rops.

Trezentos anos antes do nascimento de Jesus Cristo, um jovem que fora aluno de Aristóteles,
chamado Alexandre Magno, possuidor de grandes sonhos militares, com pouco mais de trinta
anos de idade, conseguiu conquistar um império. Morreu antes de consolidar a sua conquista que
foi dividida entre os seus generais. O maior legado de Alexandre Magno foi propiciar as bases
para um fenômeno que viria a ser muito importante: o helenismo.
Alexandre Magno obteve sucesso em suas conquistas porque permitiu que a cultura dos povos
orientais subjugados fosse mesclada à cultura grega, numa espécie de sincretismo. O pensamento
helenista tornou-se como que um caldeirão de culturas, com uma riqueza enorme, inclusive de
religiões, de tal forma que havia uma abertura para a novidade religiosa e foi por essa porta que o
Cristianismo pôde entrar. E foi neste contexto que os romanos tomaram o império grego e
apoderaram-se de suas terras, a vitória militar dos romanos não significou o fim da cultura grega,
pelo contrário, foi motivo de sua expansão. Ambas as culturas, grega e romana, mesclaram-se,
surgindo o que hoje se chama de cultura greco-romana.

O poder romano teve três fases: dos reis, da república e do império. Nelas houve a elaboração e
o aperfeiçoamento da cultura romana. Jesus nasceu na época do primeiro Imperador, chamado
Otaviano Augusto, um gênio militar e político.

Na fase da República, o poder era exercido pelo Senado, contudo, havia uma previsão de que em
momentos de grandes conflitos, somente uma pessoa governava, uma espécie de ditador. Isso
dava rapidez às tomadas das decisões. O tio de Otaviano, Julio Cesar, exerceu essa prerrogativa
republicana e acabou por desferir um golpe de Estado. A desonestidade política de Júlio César foi
aproveitada pelo seu sobrinho e herdeiro político, o qual apropriou-se do título "César" e foi
aclamado ainda com outro título "Augusto", ficando conhecido como "César Augusto".

Apesar de o Império Romano ter perseguido e causado bastante transtorno ao Cristianismo, nesse
momento da história foi importantíssimo, pois o modo de César Augusto governar, ou seja, com
mão de ferro, possibilitando uma certa estabilidade para todo o império, foi um pressuposto para
a expansão do Cristianismo. A Europa sem a paz romana seria tão-somente um amontoado de
pequenos reinos conflitantes entre si, mas, embora Otaviano Augusto fosse sim um homem muito
firme, até mesmo violento, os romanos demonstravam gratidão pela paz que ele conquistou.

Atualmente, por causa da leitura marxista da história, tem-se que a religião é uma superestrutura
que só existe para sustentar a infraestrutura, formada pela realidade econômica. Para Marx, tudo
que provém da filosofia, religião, pensamento, arte, cultura, música etc., pertence à superestrutura,
montada em cima da infraestrutura para sustentar o poder econômico de um grupo, portanto, para
ele, nunca existe sinceridade num culto religioso. Trata-se sempre de um método artificial,
propagandístico, com o único intuito de manter um determinado grupo no poder. No caso dos
romanos, o Imperador.

Contudo, os documentos da época comprovam não somente a existência do culto ao imperador,


mas também a sinceridade daqueles que o faziam, reconhecendo-o como um bem. Viam como
um sinal divino a paz conquistada. O Império Romano implantou a ordem utilizando também como
instrumento o Direito Romano, o qual previa um caminho processual, tal qual ocorreu na prisão de
São Paulo, narrada nos Atos dos Apóstolos.
Quando o Império Romano tomou o poder, instaurou uma situação de paz, prosperidade
econômica, razoável harmonia que, para os moldes de hoje, ainda seria considerada uma situação
de tirania terrível, porém, para o povo da época, representou uma mudança positiva em
comparação com o que o se vivia antes. Por isso, o Imperador era cultuado como sendo um
mensageiro divino.

Deste modo, num primeiro momento, o nascimento do Cristianismo no Império pode ser
considerado como algo bom, como uma bênção. Entretanto, em breve, isso mudará. Nas próximas
aulas veremos como.

4. A perseguição dos cristãos pelo Império Romano

Na aula passada, foi estudado o ambiente no qual surgiu o cristianismo: o Império Romano, bem
como a cultura do helenismo, a chamada pax augustana, ou seja, o momento de paz e relativa
tranquilidade na qual o cristianismo floresceu e que tornou possível a sua expansão. Esse mesmo
Império foi o primeiro adversário sério que o cristianismo teve de enfrentar. Esta aula versará sobre
a perseguição aos cristãos.

O cristianismo começou a ser perseguido pelos judeus. A chamada excomunhão dos cristãos deu-
se porque os cristãos foram considerados traidores do judaísmo. Todavia, a perseguição ganhou
relevância história somente quando passou a ser feita pelos imperadores romanos. Ela se
encerrou no ano de 313 d.C, quando Constantino tornou-se o primeiro imperador romano assinou
o Édito de Milão.

Durante os primeiros séculos alguns fatos tornaram-se notórios na persecução, o primeiro a ser
citado foi a perseguição de Nero. Dono de uma moral absolutamente perversa, o imperador Nero
não era amado pelo povo. No ano 64 d.C, houve um grande incêndio em Roma e alguns
historiadores, dentre eles, Suetônio, afirmaram que o fogo fora ateado por Nero. Outros
historiadores, especialmente Tácito, não corroboraram essa informação. De qualquer modo, Nero
acusou os cristãos de terem perpetrado o incêndio, como bodes expiatórios, e passou a persegui-
los sistematicamente, culminando com o martírio de Pedro e Paulo, em Roma, o que se comprova
historicamente pelos relatos da época. Assim, pode-se afirmar com certeza que as Basílicas de
São Pedro e de São Paulo, na Cidade Eterna, foram erguidas nos locais onde os grandes da Igreja
foram sepultados.

Nero mandou construir um circo fora da cidade de Roma, do outro lado do rio, no sopé da Colina
Vaticano. Tudo indica que foi nesse circo que se deu o martírio de São Pedro. No centro desse
circo, Nero mandou colocar um obelisco, uma pedra monolítica de granito de cor rosada, trazida
de Heliópolis, no Egito. Este mesmo obelisco encontra-se hoje no centro da Praça de São Pedro.
Figurativamente, o obelisco foi testemunha do martírio de Pedro. E foi sepultado na via Aurélia,
onde havia uma necrópole. Os cristãos mandaram fazer um ornamento para o túmulo, o qual
ganhou o nome de “O troféu de Gaio" e esse enfeite foi encontrado na década de 50, em
escavações solicitadas pelo Papa Pio XII, as quais comprovaram também que São Paulo foi
sepultado realmente na via Ostiense.

A perserguição durou cerca de três séculos, porém, em diferentes intensidades. Num primeiro
momento foi dirigida aos líderes dos cristãos, depois passou para os leigos e isso ocorreu após a
ordem do imperador Septímio Severo, o qual decretou que todos os cristãos, cidadãos do império
romano, deveriam render culto e oferecer sacrifícios ao novo ídolo, o imperador, o qual seria
portador da centelha divina. Isso seria comprovado pela emissão de um libelo, espécie de
atestado.

Importante recordar que os romanos realmente criam que havia algo de divino no imperador, pois
ele havia conseguido dar uma espécie de paz ao povo. Deste modo, ao recusarem-se a cultuar o
imperador, os cristãos foram tomados como ímpios, transgressores. Além disso, os cristãos eram
malquistos pela própria população. As perseguições em Lyon são um bom exemplo disso, pois a
perseguição por parte das autoridades francesas foi precedida pelas arruaças do próprio povo que
estavam linchando os cristãos.

Os cristãos pareciam ser ateus, pois rejeitavam o culto dos deuses adotados pelo povo, não tinham
ídolos e se faziam seguidores de um Cristo. Contudo, de acordo com o que foi relatado por Tácito,
em seus Anais, Cresto (assim foi grafado) foi apenas um marginal condenado à morte, na época
do procurador Pilatos, na Judeia. Eram apenas fanáticos, seguidores de um marginal. Assim os
cristãos eram vistos pelos romanos.

Além de serem tachados de ateus, os cristãos foram acusados de fazer sacrifícios humanos,
envolvendo crianças, pelo fato de que afirmavam comer da carne e beber do sangue do Filho de
Deus. Diziam que passavam a criança numa espécie de farinha e depois imolavam-na com uma
faca especial, a comiam. Por fim, eram acusados também de terem relações sexuais incestuosas
porque chamavam-se uns aos outros de irmãos. Todas essas calúnias colaboraram para tornar o
cristianismo muito impopular.

Com o decreto de Septímio para que todos prestassem culto ao imperador, os cristãos passaram
a ser perseguidos com muito mais intensidade e violência. No ano 250 d.C., houve a grande
perseguição de Décio e em 300 d.C., a de Deocleciano. A primeira foi na época de Orígenes, o
qual proferiu a famosa frase: “diante de uma tentação, o cristão, ou sai mártir ou sai idólatra".

No ano de 313 d.C, o imperador Constantino assinou o famoso Édito de Milão, liberando o culto a
Deus. Não há uma cifra exata de quantos cristãos morreram nessas perseguições. De modo claro,
existem cerca de mil mártires cuja história e local de sepultamento são conhecidos. Numa tentativa
de se estimar o número aproximado, tem-se cerca de 20.000 mártires, o que é relativamente pouco
perto dos bilhões de mártires que o comunismo produziu no século XX.

Quando se fala em martírio o que vem à mente é justamente a perseguição ocorrida nos primeiros
séculos. Mas como, se o grande martírio se deu no século XX e se dá ainda nos tempos atuais?
Trata-se de uma situação singular em que a propaganda dos inimigos suplantou a realidade. Não
se fala em martírio hoje.

Um outro problema relacionado é o fato de que a grande maioria dos cristãos hoje já não crê que
a fé é algo pela qual não se mata, mas algo pelo qual se morre. A identidade do cristão, espelhada
nos mártires dos primeiros séculos, quase se perdeu. Com isso, nem é preciso que o inimigo
ataque, os próprios cristãos cuidam para que vença. É o que diz o livro “Cordula", do renomado
teólogo Lars Urs von Balthasar, escrito para contrapor a teoria de Karl Rahner de que todo homem
nasce cristão e que justifica o chamado relativismo religioso. Para Balthasar, aceitar a ideia de
Rahner é zombar do martírio dos primeiros cristãos, é rir deles por não saberem que todas as
religiões são iguais.

No livro do Apocalipse existem duas bestas e já o povo antigo via nelas os dois grandes
adversários da Igreja: o poder político (império) e a religião. O Império se utilizava da religião para
justificá-lo. Essas duas bestas estão bem vivas ainda hoje. No século XXI, uma pretensão de
governo mundial, encarnada concretamente na ONU e na elite globalista que tenta influenciar na
soberania dos países. Para conseguir seu intento, é preciso unificar as religiões.

Nesse sentido, existe na sede da ONU, em Nova Iorque, uma capela onde todas as religiões são
representadas, inclusive o cristianismo, ou seja, todas são colocadas no mesmo patamar. Este
pluralismo, essa nova religião justifica o poder global, o novo governo mundial. Os cristãos são
chamados a enfrentar, mais uma vez, essa grande dificuldade que se ergue. Seria, porém, muito
triste, se os inimigos da Igreja não se preocupassem com os cristãos, como o episódio descrito
em “Córdula", pois estes mesmos fazem o trabalho de se autodestruir.

5. A heresia gnóstica

Apesar da grande perseguição sofrida pelos cristãos durante o Império Romano, conforme visto
na aula passada, a Igreja continuou crescendo. Esse fenômeno foi muito bem explicado por
Tertuliano, escritor cristão do terceiro século, que viveu no norte da África: “o sangue dos mártires
é semente de novos cristãos”. Mas, a maior ameaça enfrentada pelo cristianismo recém-nascido
foi a dificuldade cultural, espiritual e religiosa do gnosticismo.
O gnosticismo era um fenômeno religioso e filosófico no qual se encontrava uma explicação para
a origem do mundo, e do mal no mundo, de uma forma mais plausível que a oferecida pelo
cristianismo. A pretensa racionalidade do gnosticismo atraiu um número considerável de pessoas
e acabou por adentrar ao seio da Igreja nascente, de certa maneira parasitando-a, sugando suas
forças e fazendo com que os devotos se tornassem falsos devotos, pois aderiam a uma filosofia
estranha ao cristianismo.

Em sua obra “A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires”, Daniel-Rops descreveu o gnosticismo,
também chamado de heresia do conhecimento, da seguinte forma:

“O gnosticismo apoiava-se em duas idéias: a da sublime elevação de Deus, idéia tomada dos judeus dos
tempos mais próximos, para quem Javé se tornara infinitamente longínquo e misterioso - o Poder, o
Grande Silêncio, o Abismo -, e a miséria infinita do homem e da sua abjeção. Mostrava-se obsessionado
por dois problemas, exatamente os mesmos que hoje continuam a prender a atenção das inteligências:
o da origem da matéria e da vida, obras tão visivelmente imperfeitas de um Deus que se diz perfeito, e
o do mal no homem e no universo. [...] Deus, único e perfeito, está absolutamente separado dos seres
de carne. Entre Ele e esses seres, há outros seres intermediários, os éones que emanam dEle por via da
degradação; os primeiros assemelham-se a Deus por terem sido gerados por Ele, mas por sua vez
geram outros menos puros, e assim sucessivamente. Cálculos esotéricos de números permitiam dizer
quantas classes de éones havia, e o conjunto formava o mundo completo, os trezentos e sesseta e cinco
graus, o pleroma.” (p.284 e 285)

Assim, para os gnósticos, principalmente para aqueles que seguiam a vertente de Valentino, era
impossível que o Deus Perfeito tivesse criado esse mundo tão imperfeito e cheio de miséria.
Criaram então um sistema de degradação que justificaria o mal no homem e no mundo. Para eles,
Deus criou pares de éons (sizígias, pares ativos-passivos, masculinos-femininos, machos-
fêmeas), os quais originaram quatro casais(octôades), degradaram-se e deram origem a outros
cinco casais (décades), novamente degradaram-se e originaram mais seis casais (duodécades).
Quanto mais degradados tanto mais distantes da divindade (éon). Na última degradação, havia
um éon passivo (feminino) chamado Sofia que, tomada pela soberba, quis dar origem a algo
sozinha. Ela criou a matéria e um outro éon muitíssimo imperfeito, chamado Demiurgo. Daniel-
Rops explica de maneira resumida:

“No meio da série, um éon cometeu uma falta: tentou ultrapassar os limites ontológicos e igualar-se a
Deus. Expulso do mundo espiritual, foi obrigado a viver a sua descendência no universo intermediário,
e foi na sua revolta que ele criou o mundo material, obra má e marcada pelo pecado. A este éon
prevaricador alguns gnósticos chamam Demiurgo, e outros o identificam com o Deus criador da Bíblia.”
(p.285)

O Demiurgo, então, “brincando” com a matéria, criou o mundo material. Como ele estava isolado
dos demais éones acabou por crer-se o único e, ainda segundo Valentino, passou a revelar-se
aos homens, originando o Antigo Testamento. Daniel-Rops continua:
“Que acontece ao homem nestas perspectivas? Em si, ele não é integralmente mau, visto que, como
suprema emanação do éon, contém uma centelha divina, um elemento espiritual cativo na matéria e
que aspira a ser libertado. A falta é existir; o mal é a vida. Aqueles que se contentam com existir, os
‘hílicos’ ou ‘materiais’, estão rigorosamente perdidos; aqueles que empreendem pela gnose o caminho
da salvação, os ‘psíquicos’, podem avançar rumo à paz divina; aqueles que renunciaram a toda a vida,
os ‘espirituais’, iniciados superiores e almas muito elevadas, são os que se salvam.” (p.285)

Para os gnósticos, Jesus não era o Filho de Deus, mas um éon que, através do conhecimento,
guiaria as pessoas presas à matéria ao verdadeiro Deus. Um psicopompo. O autor de “A Igreja
dos Apóstolos e dos Mártires”, sintetiza:

“Mesmo através de um resumo tão breve, vemos até que ponto tais especulações se opunham ao
cristianismo. A personagem histórica de Jesus desaparecia e Cristo não era mais do que um membro
da hierarquia divina de éones, e a sua carne humana uma espécie de invólucro ilusório da centelha
divina. O ideal cristão da redenção do homem inteiro, alma e corpo, pelo sofrimento e morte de Cristo
encarnado, e o da realização do reino de Deus, eram substituídos por uma espécie de apelo ao nirvana,
pela libertação da alma arrancada às abjeções do mundo material. A moral cristã cedia o lugar a uma
outra moral que, umas vezes brutalmente hostil ao corpo, conduzia a asceses excessivas; e outras, pelo
desprezo da carne, tornava-se complacente e dava livre curso aos instintos.” (p. 285)

A heresia gnóstica possuía um ar de racionalidade muito atraente. A maldade e miséria do mundo


era colocada na conta do Demiurgo, deixando Deus livre. E também pelo fato de que a salvação
era algo fácil de ser conseguido, pois bastava a pessoa tomar ‘conhecimento’ de tudo isso e seria
libertada.

Aceitar a gnose significa fazer parte de uma elite, de um grupo de ‘escolhidos’ (os pneumáticos).
A missão destes era levar o conhecimento (a gnose) ao segundo grupo, os ‘psíquicos’. Para o
terceiro grupo de pessoas, os hílicos não havia salvação, posto que não possuíam alma, nasceram
para serem destruídos.

O gnosticismo se proliferou de maneira espantosa entre o cristianismo, como bem disse Daniel-
Rops, “como um câncer espiritual”. Era necessário que a Igreja reagisse e assim se deu. “Cada
comunidade se agrupou em torno de seu bispo, que era o legítimo depositário da tradição
ortodoxa, e as instituições cristãs se tornaram mais precisas e rigorosas, para que o ácido da
heresia não as corroesse.” (p. 289) Em especial, surge a figura de Santo Irineu de Lyon, nascido
na atual Turquia, provavelmente próximo à Esmirna, que teve Policarpo como bispo. Policarpo
havia conhecido o apóstolo João que, por sua vez, havia sido o discípulo amado de Jesus. A fim
de combater a heresia gnóstica, Santo Irineu usa como argumento a sucessão apostólica.

A ideia da tradição apostólica é algo bastante documentado ao longo da história. No final do


primeiro século, quando, provavelmente, São João ainda estava vivo, houve um bispo chamado
Inácio de Antioquia, o qual foi levado para Roma a fim de ser martirizado. No caminho, Santo
Inácio escreveu diversas cartas e existem registros de sete delas. Nelas, o santo é enfático ao
dizer que para ser Igreja é preciso estar unido ao Bispo, ao episcopado. “Ubi episcopus, ibi
ecclesiae”, onde está o bispo, aí está a Igreja. Em outra carta, Santo Inácio afirma que é a Igreja
de Roma quem preside sobre as demais (a Igreja de Roma preside na caridade…), ou seja, a
Igreja não ficou católica, mas já nasceu católica. Nestas cartas se vê claramente o princípio da
catolicidade, a estrutura e a hieraquia da Igreja.

Santo Irineu viveu depois de Santo Inácio e teve de enfrentar a heresia gnóstica que estava
seduzindo o seu rebanho. Para tanto, ele escreveu a sua maior obra intitulada “Exposição e
refutação da falsa gnose”, mais conhecida como “Adversus haereses” (Contra os Hereges), em
cinco volumes:

“(...) nos dois primeiros volumes, Santo Irineu analisa com precisão todas as heresias de seu tempo; diz
ele: “Expor os sistemas é vencê-los, assim como arrancar uma fera das selvas e trazê-la para a luz do
dia é torná-la inofensiva. Por outro lado, nos últimos três volumes, apresenta a doutrina ortodoxa de
tal forma que os erros heréticos não mais serão possíveis. Assim surge um pensamento filosófico e
teológico não tão novo quanto sólido, e que no futuro servirá de base para todo o pensamento cristão.
(...)

Materialmente, não é uma sequência qualquer de pretensos iniciados cujo pensamento não se pode
determinar; é a tradição da Igreja, que todos podem conhecer, a dos bispos, cuja lista se pode
estabelecer, a de Roma, que desempenha aqui um papel eminente. Espiritualmente, não é um dado
fossilizado, que maltrata a inteligência; é um princípio de vida ‘que o Espírito rejuvenesce sem cessar’,
que orienta a razão e lhe determina o fim.” (p. 292)

Um outro fator explorado por Santo Irineu de Lyon no combate às heresias, especialmente ao
gnosticismo, foi a chamada Regula Fidei, ou seja, a Regra de Fé, a reafirmação da fé primeira de
que Deus é um só e é Ele o criador do céu e da terra. Não há outro Deus e se o mundo está mal,
não é por causa da matéria - que é boa -, mas por causa do diabo, seus demônios e dos próprios
homens. Para a Igreja Católica o pecado não tem origem na matéria.

Deste modo, com os três pilares descritos: os bispos (sucessão apostólica), a regula fidei e a
Sagrada Escritura, a Igreja foi respondendo aos poucos a grave dificuldade em que se constituiu
a heresia gnóstica.

Referência:

1. “A Igreja dos Santos e dos Mártires”, Daniel-Rops, Editora Quadrante.


6. A heresia gnóstica nos dias atuais
O gnosticismo teve seu auge na época de Valentino e foi duramente combatido pela Igreja, na
pessoa de Santo Irineu, conforme já visto. Esse pensamento pareceu ter sido aniquilado do seio
da Igreja, mas a verdade é que ele se disfarçou e se escondeu, permanecendo vivo ao longo da
história. Nunca acabou realmente. No final da Idade Média aflorou novamente com bastante força
através da heresia dos cátaros e dos albigenses e foi combatido pela Santa Inquisição. Mais uma
vez, a heresia gnóstica se retraiu e pareceu ter desaparecido.

O pensamento gnóstico parece também ser algo bastante distante dos dias atuais. Algo que ficou
no passado. Infelizmente, isso não é verdade. Grandes teólogos, como Eric Voegelin, Hans Urs
von Balthasar, Henri de Lubac, entre outros, estão de acordo em afirmar que os pensamentos de
muitos teólogos liberais são gnósticos. Não somente isso, mas que a matriz do pensamento
moderno possui uma forte influência do gnosticismo.

O atrativo do gnosticismo é o fato de que possui uma explicação para a origem do mal no mundo.
Segundo ele, o mundo está mal, está errado, porque foi mal feito. O Demiurgo criou o mundo de
maneira imperfeita. Mas, eles, os gnósticos, oferecem também a solução para esse suposto
problema: a chave é o conhecimento. A salvação não é para todos, mas para os "escolhidos", os
"eleitos", os que possuem o segredo. Isso mexe com a vaidade das pessoas.

No passado, o gnosticismo atribuía os problemas e a maldade do mundo ao Demiurgo.


Atualmente, a culpa de tudo é do sistema. Um exemplo muito claro é o pensamento marxista,
eminentemente gnóstico. As injustiças do mundo são explicadas por ele por meio da ideologia (um
sistema de ideias confeccionado para alienar as pessoas, fazendo com que elas não enxerguem
o mundo de verdade e fiquem aprisionadas no sistema de pensamento). A libertação se dá quando
a pessoa conhece a teoria crítica do marxismo, nesse momento ela se livra das amarras do
sistema. Típico esquema gnóstico.

O filme Matrix reflete o esquema gnóstico numa linguagem moderna. Ele explica que a
humanidade está dentro de um programa de computador (sistema de ideias que aprisiona). Um
enviado (Neo) tem como missão libertar o povo da Matrix, levando-o para a "realidade".
Novamente o pensamento gnóstico.

Da mesma forma, as universidades estão abarrotadas de professores gnósticos, os quais estão


convencidos de que a visão do mundo comum, ocidental, cristão, é uma visão de mundo de um
sistema opressor, errado. Então, ele tem a missão de, pelo conhecimento, levar as pessoas para
fora do mundo opressor: esquema gnóstico.
A pretendida igualdade entre os sexos também apresenta tendência gnóstica. A diferença
existente entre homem e mulher é vista pelos cristãos como algo da vontade de Deus e que,
portanto, deve ser respeitada. Cada um tem e deve cumprir o seu papel. As vocações são
diferentes, mas podem se unir na vocação matrimonial e assim, tanto homem quanto mulher,
realizar o desígnio divino. Contudo, o pensamento da ideologia de gênero vê a diferença como um
grande erro. Não atribuem o erro a Deus, uma vez que para eles Deus nem sequer existe, mas a
uma ideologia opressora machista. Não aceitam as diferenças naturais (físicas) entre os dois
sexos. Existe aí uma revolta contra a estrutura criacional, uma revolta contra Deus, o qual faria
parte também dessa ideologia opressora, patriarcal. Por isso, os gnósticos modernos lutam para
quebrar o esquema tradicional por meio da revolução de ideias.

Esse pensamento está também dentro da Igreja. É o caso da Teologia da Libertação, totalmente
permeada pelo pensamento gnóstico. A TL se apropria do vocabulário cristão, esvazia-o de seu
sentido e insere conteúdo pagão, diferente do original. Por exemplo: "Povo de Deus", no
entendimento católico significa todo o povo de Deus, o Papa, os Bispos, os sacerdotes, os leigos,
religiosos, etc., ou seja, todos. Já para os adeptos da TL, marcada pelo marxismo, a expressão
"povo de Deus" refere-se a uma classe: os proletários, os trabalhadores, os oprimidos. Nem todos
são povo de Deus. As diferenças hierárquicas dentro da Igreja são consideradas absurdas, parte
de um sistema opressor que criou uma igreja "classista". Segundo eles, o clero não é superior aos
leigos, não possuem um poder sagrado, mas são, tão-somente, funcionários do povo. E assim, a
Igreja é transformada desde dentro. Troca-se o cristianismo por um sistema gnóstico,
transformando os cristãos devotos em agentes de transformação de um novo sistema.

Na filosofia, todo o pensamento hegeliano é gnóstico (tese - antítese, negativo-positivo). A gnose


de Hegel entrou para influenciar o cristianismo, por meio de um psicólogo também gnóstico,
chamado Carl Gustav Jung, o qual critica o cristianismo, pois ele teria abolido o negativo da
divindade. Tanto para Jung quanto para Hegel, Deus tem que ter o negativo e o positivo, por isso
Satanás faz parte da divindade, mais que isso, é o princípio mais dinâmico e ativo dela, muito mais
que o Deus que os cristãos castraram tirando toda a sua potência.

O pensamento de Jung originado de Hegel é eminentemente gnóstico e, mesmo assim, existem


muitas pessoas dentro da Igreja que creem que ele é um psicólogo aceitável pelo cristianismo.
Logo se vê que a influência do gnosticismo dentro da Igreja Católica atual é enorme. Trata-se de
um fenômeno que merece toda a atenção. Monsenhor Luigi Goivanni Giussani, fundador do
movimento "Comunhão e Libertação", afirmou que o grande problema do mundo moderno não é
o ateísmo, o agnosticismo, mas justamente a gnose. É a gnose que faz com que o cristianismo se
transforme numa contrafação, numa falsidade e, ao mesmo tempo, transforma cristãos devotos
em agentes de transformação cultural a quem servem sem ter consciência.

7. A perseguição aos cristãos e o imperador Constantino


O último grande imperador do Império Romano foi Diocleciano (284-305). Ele governou durante o
período que ficou conhecido como Baixo Império e, embora esse título tenha por objetivo apenas
situá-lo cronologicamente, tem sido utilizado também para fazer referência ao declínio do Imperio,
à sua decadência em todos os aspectos.

Diocleciano percebeu que o Império estava sendo ameaçado por inimigos externos e que poderia
ser esmagado também por seus problemas internos e, com suas habilidades estratégicas,
encontrou a solução mais adequada para o momento. O grande escritor Daniel-Rops, em cuja
obra "A Igreja dos Apóstolos e dos mártires" este curso se inspira, diz a respeito da ideia de
Diocleciano:

Antes de mais, era necessário dar uma base sólida à obra de seus predecessores, os imperadores
ilíricos, e tornar impossível o retorno àquela terrível crise de anarquia que durante trinta anos
ameaçara fazer soçobrar o Império. Ocorreu-lhe que os territórios confiados à sua guarda eram
excessivamente vastos para as forças de um só homem, e que seriam indispensáveis vários chefes para
manter a ordem e defender as fronteiras. Ao mesmo tempo, esta partilha de autoridade podia servir
para resolver de uma maneira definitiva a sempre delicada questão das sucessões. Dois anos depois de
assumir o poder, em 286, associou a si um colega, Maximiano, um panônio inculto, soldado aventureiro
de pêlo hirsuto e feições obstinadas, mas dotado de uma energia feroz e que mantinha pelo seu amigo
um indefectível respeito. Maximiano adotou o sobrenome de Hércules, enquanto Diocleciano reservou
para si o de Júpiter, o que marcava bem as distâncias. O Império foi dividido em duas partes, ficando
Diocleciano com o Oriente e Maximiano com o Ocidente. Estava criada a diarquia. O sistema foi
completado em 293 com a criação de dois novos imperadores que, como os primeiros, exerciam o
poder em regiões distintas, ocupando no entanto uma categoria inferior. Diocleciano e Maximiano
detinham os títulos de Augustus, ao passo que os outros dois eram somente Césares. E assim nasceu a
tetrarquia. (p. 387)

Nos anos seguintes reinou uma relativa paz , na qual os cristãos puderam exercer a fé de modo
tranquilo, sem perseguições. Ao mesmo tempo, o Império Romano passava por transmutações,
pois, "à medida que progredia no caminho da organização pública e centralizadora, o sistema
tetrárquico podia suportar cada vez menos qualquer espécie de não-conformismo." Os tetrarcas
haviam implementado o que nem os mais loucos de seus predecessores haviam conseguido: eles
se declararam deuses em vida, inclusive com rito de adoração. Diante disso, Diocleciano entendeu
que:

A oposição entre o cristianismo e este regime de coação oficial resultava da própria natureza dos dois
adversários: já então a Igreja, em face do totalitarismo, assumia uma atitude de recusa e de resistência.
Diocleciano acabou por compreender que os cristãos nunca colaborariam nos seus esforços e que se
conservariam substancialmente, na oposição. (p. 390, 391)
Sendo os cristãos obstáculos a serem vencidos, Diocleciano inicia a perseguição mais sangrenta
e cruel da história do cristinianismo. Contudo ela não aconteceu de modo repentino, pois, como
foi dito, o Império e o cristianismo viveram em paz por cerca de trinta anos. Historiadores contam
que foi graças à instigação de Galeno junto a Diocleciano, afirmando que havia a necessidade de
uma depuração entre os oficiais que ela de fato se iniciou. Após alguns acontecimentos pontuais
envolvendo cristãos, finalmente Diocleciano decidiu-se pela força e baixou um primeiro edito
contra eles (24/02/303) proibindo os cultos, mandando que as igrejas fossem destruídas, os livros
sagrados incinerados e que os funcionários públicos abjurassem. Todavia, o edito não incentivava
a morte e a tortura dos cristãos e isso somente ocorreu após dois incêndios bastantes suspeitos
acontecerem no palácio de Diocleciano. Num deles, Galeno "abandonou a capital, gritando que
não queria ser queimado vivo e insinuando que não teria dificuldade alguma para encontrar os
responsáveis", claramente se referindo aos cristãos. Diante disso, Diocleciano foi tomado pelo
pavor e totalmente alucinado, tomou as seguintes medidas:

Exigiu que a mulher e a filha abjurassem expressamente, mandou prender o seu camareiro-mor, o
cristão Doroteu, assim como o bispo Antima e grande quantidade de sacerdotes e fiéis, que pereceram
no meio das mais horríveis torturas. Três editos sucessivos acentuaram passo a passo o rigor das
medidas, e pôs-se novamente em vigor a ordem de Décio pela qual todos os cristãos eram obrigados a
sacrificar. Desencadeava-se a perseguição sangrenta através do Império. (p. 392)

A perseguição continuou cada vez mais violenta e cruel visando sobretudo encontrar os livros
sagrados para queimá-los. Com isso inaugurou-se um novo período da era cristã: a era dos
mártires, pois muitos preferiram dar o sangue e a vida para proteger os livros e se manterem fiéis
a Cristo. A perseguição mais cruenta que o cristianismo enfrentou durou dez anos
aproximadamente e contou com toda sorte de atrocidades contra os cristãos, o que gerou
inúmeros e detalhados relatos de martírios.

O homem que poria um fim à perseguição e mudaria os rumos do cristianismo chamava-se


Constantino. Filho de Constâncio Cloro, um dos tetrarcas, a quem coube o Império Romano do
Ocidente, foi proclamado Augusto, após a morte do pai e à revelia de Galeno, que lhe concedeu
apenas o título de César. Após várias vitórias militares, Constantino torna-se o único poder no
Oriente. Esse feito gerou ainda mais inveja em Magêncio, filho de Maximiano, porque já havia sido
rejeitado em favor de Maximino Daia, filho do César Maximiano, e, com a ascensão de Constantino
ficou ainda mais enfurecido. Nesse estado de ânimo, decidiu dar um golpe de estado em Roma,
proclamou-se Augusto, assumindo o poder.

Magêncio declarou-se "o único soberano legítimo, o único descendente dos grandes imperadores",
o que motivou Constantino a empreender uma grande campanha contra ele. Marchou para Roma
com 40.000 soldados, passando incólume pelos Alpes e obtendo inúmeras vitórias e capitulações
do inimigo pelo caminho. Roma, ao saber dessas notícias, trocou o desdém por Constantino pelo
medo e entrou em polvorosa. Magêncio consulta os futurólogos e ouve do oráculo que não deve
sair da cidade, pois caso o faça, morrerá.
Constantino marcha pela Via Flamínia, acampa nas proximidades de Roma no dia 27 de outubro
e, no dia seguinte, após uma grande batalha, vence os exércitos de Magêncio, o qual perece
durante a luta, seu corpo é encontrado boiando no rio, sua cabeça é cortada e exibida pela cidade
espetada numa lança. Além da vitória estratégica de Constantino, essa batalha tem ainda um outro
significado: ela marca a conversão de Constantino ao cristianismo, num episódio cercado de
mistério e interpretações, mas que não pode ser negado historicamente. Daniel-Rops narra o
episódio da seguinte forma:

Uma noite - diz Lactâncio -, pouco antes da batalha, Constantino teve um êxtase durante o qual recebeu
de Cristo a ordem de colocar sobre o escudo das suas tropas um sinal formado pelas letras CH e R
ligadas; é este, com efeito, o monograma que se encontra nas moedas e inscrições constantinianas.
Quanto a Eusébio, informado - segundo diz - pelo seu herói imperial, que no fim da vida lhe teria
contado todos os pormenores do episódio, eis a sua versão: momentos antes de entrar na luta contra
Magêncio, Constantino apelou para o Deus dos cristãos e então, em pleno dia, viu no céu, para os lados
do poente, uma cruz luminosa com estas palavras em grego: "Com este sinal vencerás". Na noite
seguinte, Cristo apareceu-lhe e mostrou-lhe a cruz, convidando-o a mandar fazer uma insígnia que a
representasse. Esta insígnia é o Labarum, estandarte em forma de cruz que, a partir daí, acompanhou
os exércitos de Constantino. (p.407)

Muitos historiadores, ainda hoje, afirmam que a conversão de Constantino não passou de uma
manobra política para angariar a simpatia dos cristãos e unificar o Império. Contudo, os dados
históricos demonstram que Constantino era um homem que "acreditava", um crédulo.
Anteriormente havia invocado o deus sol, o chamado Sol Invictum, numa outra ocasião afirmou ter
tido uma visão de Apolo. Não era um cético. Além disso, sua mãe Helena, também era uma devota
cristã. A ideia mais plausível é que Constantino de fato converteu-se ao cristianismo, mas manteve
os seus traços supersticiosos.

O Império Romano ainda era pagão. Enquanto a elite era pagã, a classe subalterna era cristã.
Quando Constantino se converteu e foi aceito em Roma como Imperador, a classe dirigente
providenciou os rituais pagãos necessários para sua posse. Ele aceitou submeter-se aos rituais
por uma questão política, mas também porque a superstição fazia parte da sua natureza, em que
pese a conversão. Mais que isso, ele permaneceu catecúmeno durante toda a sua vida, tendo sido
batizado apenas em seu leito de morte. Esta prática era comum naquela época, pois a Igreja
administrava o sacramento da penitência de modo muito rigoroso e, caso a pessoa tivesse
cometido pecados muito graves, deveria passar longos anos em penitência e mortificações. Esse
fato não depõe contra Constantino.

Embora muitos vejam nessa conversão uma grande desgraça, pois a Igreja teria se "paganizado",
é inegável que Deus se utilizou desse homem - com todos os seus defeitos e mazelas - para dar
à Igreja um tempo de paz e de prosperidade, permitindo que ela florescesse, como de fato,
aconteceu nos séculos seguintes.