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Peirce e o signo como abdução

Paulo Serra
Universidade da Beira Interior

Índice habitada por uma "tribo planetária- possibi-


litadas, uma e outra, pelas novas tecnolo-
1 Razões de um percurso 1 gias de informação e comunicação da "ga-
2 A dupla origem da semiótica 3 láxia Marconi"...
3 Peirce e a semiótica 5 Para outros, a sobrecarga de "informa-
4 Pragmatismo e abdução 6 ção"e "comunicação"não se traduz, necessa-
5 Os signos e a sua classificação 9 riamente, em maior aproximação e solidari-
6 Signo e abdução 16 edade entre os homens, conduzindo antes a
7 Bibliografia 18 novas formas de individualismo e etnocen-
trismo.
1 Razões de um percurso Seja como for, vivemos seguramente no
século das Ciências da Comunicação.
As definições de ’signo’ que circulam nos Viver no século das Ciências da Comu-
manuais de semiótica corrente são diversas nicação significa que a comunicação, para
mas não contraditórias e são muitas vezes além de um facto (que ninguém pode ne-
complementares. Para Peirce, o signo era gar), se tornou para nós um problema (que
"algo que está para alguém por algo sob não pode-mos iludir). Centradas nesse pro-
algum aspecto ou capacidade."(1897, trad. blema, surgem disciplinas científicas como a
it. p. 132); definição que retraduz de modo Sociologia da Comunicação, a Psicologia da
mais articulado o clássico aliquid stat pro Comunicação, a História da Comunicação,
aliquo. etc. Cada uma dessas disciplinas delimita,
no entanto, um aspecto de um objecto que dá
Umberto Eco, "O Signo", in Enciclopédia
como constituído.
Einaudi, Vol. 31 (O Signo), Lisboa:
Determinar os princípios formais subja-
Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p.
centes à totalidade do que se entende por
11-51.
"comunicação", é a tarefa de uma disciplina
específica - a Semiótica da Comunicação.
Vivemos no século da comunicação. Para
Ela deverá assegurar, em relação à Comuni-
alguns, como McLuhan, o nosso mundo
cação, o papel que Aristóteles e Kant atri-
constituiria já uma autêntica "aldeia global",
buíam à Lógica: a de "organon"ou intru-
2 Paulo Serra

mento que possibilita a sistematização do co- tudo nas revistas Popular Science Monthly
nhecimento 1 . (1877-1878) e The Monist (1891-1893). No
"Comunicar"significa, etimologicamente, entanto, a maior parte dos seus trabalhos
"pôr em comum". No processo de comuni- inéditos, reunidos nos Collected Papers (em
cação, que simplificadamente podemos en- 9 volumes), só foi publicada entre 1931 e
tender como a troca de uma mensagem en- 1958.
tre um Emissor e um Receptor, os Signos Daqui resulta que muitas das teorias mais
desempenham um papel fundamental. Sem interessantes de Peirce, nomeadamente no
Signos, não há mensagem, nada podemos âmbito da Semiótica ou Lógica (disciplinas
pôr em comum. Os Signos são tão importan- que Peirce identificava), fossem mal conhe-
tes que se pode (e costuma) definir, de forma cidas, ou mesmo desconhecidas, até há rela-
essencial, a Semiótica como a "ciência dos tivamente pouco tempo. À medida que es-
signos". A Semiótica da Comunicação po- sas teorias forma sendo "descobertas"e estu-
deria, desta forma, ser definida como "Ciên- dadas (por exemplo por autores como Eco),
cia dos signos da (utilizados na) Comunica- Peirce foi ganhando uma importância cres-
ção"... cente no campo da Semiótica, da Lógica e
Um dos principais estudiosos contempo- da Filosofia em geral.
râneos dos Signos (e um dos fundadores da Tomando como mote a citação de Eco,
moderna ciência semiótica) foi Charles San- este trabalho procura, fundamentalmente, es-
ders Peirce (1830-1914). Considerado por clarecer e relacionar duas dessas teorias de
alguns como sendo, porventura, o maior fi- Peirce: a do Signo e a da Abdução. Assim,
lósofo norte-americano 2 , Peirce teve uma faremos um percurso que implicará três mo-
vida afectiva, profissional e académica bas- mentos, correspondendo, cada um deles, à
tante conturbada e infeliz 3 . procura de resposta às questões que se indi-
Em matéria de obras científico- cam:
filosófiicas, a única publicada em vida,
por Peirce, foi Photometric Researches, de 1. A Semiótica: o que é a Semiótica?
1879, resultado do seu trabalho nos domí- como surgiu? qual a importância de
nios da geodesia e da astronomia . Deixou Peirce nes-se surgimento? qual a con-
um segundo livro terminado, The Grand cepção Peirceana de Semiótica?
Logic, e publicou vários artigos, sobre- 2. O pragmatismo e a abdução: em que
1
António Fidalgo, Semiótica: a Lógica da Co- consiste o pragmatismo de Peirce? o
municação, Covilhã: Universidade da Beira Interior, que trouxe Peirce de novo com a sua te-
1995, pp. 5-7 oria da abdução?
2
J. Resina Rodrigues, "Peirce (Charles Sanders)",
in Logos - Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 3. O Signo: como se construiu historica-
Lisboa: Editorial Verbo, Volume 4, p. 38 mente a noção de Signo? como se liga
3
Para uma biografia de Peirce, ver António Fi-
Peirce a essa história? qual a concep-
dalgo, "Dados biográficos de C. S. Peirce", in Charles
S. Peirce, "Como tornar as nossas ideias claras", tra- ção Peirceana de Signo? como classi-
dução policopiada na Universidade da Beira Interior, fica Peirce os Signos? qual a relação
1994, pp. I-V entre Signo e abdução?

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2 A dupla origem da semiótica nado de semiótica, ou a doutrina dos signos;


e sendo as palavras os mais vulgares, é tam-
A Semiótica é uma ciência recente.
bém adequado designá-lo por lógica: o seu
Embora o projecto de construir uma "ciên-
objectivo é considerar a natureza dos signos
cia dos signos"existisse desde os princípios
que a mente utiliza para a compreensão das
do século XX, em Saussure e Peirce, pode
coisas, ou para transmitir o conhecimento a
dizer-se que o aparecimento efectivo dessa
outrém"6 .
ciência se verifica apenas nos meados do sé-
No entanto, a Semiótica do século XX vai
culo XX. No entanto, o estudo dos signos
demarcar-se claramente dos estudos filosófi-
remonta às próprias origens do pensamento
cos dos signos em dois aspectos fundamen-
filosófico 4 .
tais:
Assim, Todorov, que considera Sto Agos-
tinho o primeiro dos semióticos, situa as ori- 1. Na definição do estatuto epistemológico
gens da Semiótica ocidental nas "tradições dos estudos semióticos, do lugar des-
particulares"da semântica, da lógica, da retó- tes no contexto mais geral dos estudos
rica e da hermenêutica antigas, sendo o Crá- científicos. Esta preocupação é visível
tilo de Platão, que viveu nos séculos V/IV quer em Saussure (que enquadra a Se-
AC, o melhor testemunho dessa antiguidade miologia, enquanto teoria geral dos sig-
da Semiótica. A consideração de Sto Agosti- nos, na Psicologia Social e esta, por sua
nho como primeiro semiótico explica-se pelo vez, na Psicologia Geral, considerando,
facto de, segundo Todorov, ter sido aquele por outro lado, a Linguística como parte
Padre da Igreja o primeiro a satisfazer os dois da Semiologia), quer em Peirce (para
requisitos fundamentais implicados na noção quem a Semiótica, enquanto ciência dos
de semiótica: ter como objectivo o conheci- signos, é uma ciência geral, uma es-
mento, a teoria; ter como objecto de estudo pécie de "matemática universal"que en-
signos de espécies diferentes, e não exclusi- globa todas as outras ciências);
vamente os linguísticos 5 .
Esta inspiração filosófica dos estudos so- 2. Na sistematização da semiótica, com a
bre os signos está bem patente na definição sua consequente subdivisão em discipli-
que, já no século XVIII, John Locke, ao pro- nas (nomeadamente, e a partir de Char-
por o neologismo Semiótica (do grego se- les Morris, em Sintaxe, Semântica e
meion, "signo"ou "sinal"), para substituir a Pragmática) e a sua compendiação es-
palavra Lógica, dá da "nova"ciência: "O ter- colar (traduzida no aparecimento cres-
ceiro ramo (da ciência, sendo os outros dois cente de manuais de semiótica, obras de
a Física e a "Prática"ou Ética) pode ser desig- introdução, dicionários, etc.)7 .
4
António Fidalgo, Semiótica: a Lógica da Co- A moderna "ciência dos signos"tem ori-
municação, Covilhã: Universidade da Beira Interior, gem em duas diferentes tradições, que po-
1995, pp. 9-11
5 6
Tzvetan Todorov, Teorias do Símbolo, Lisboa: John Locke, Ensaio sobre o Entendimento Hu-
Edições 70, 1979 ("Origens da semiótica ocidental", mano (1706), citado em Jurgen Trabant, Elementos
pp. 15 e seguintes) de Semiótica, Lisboa: Editorial Presença, 1980, p. 4
7
Fidalgo, ibidem, pp. 13-16

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demos sintetizar em dois nomes: Semiolo- receptor); Peirce- ideia de semiose, que
gia (correspondente à tradição europeia, ini- exige apenas o intérprete; b) Delimitação:
ciada por Saussure) e Semiótica (correspon- Saussure - a Semiologia como parte da Psi-
dente à tradição anglo-saxónica, iniciada por cologia Social (o domínio exterior a este li-
Peirce). Tendo o mesmo o radical (semeion, mite escapa à Semiologia); Peirce - tudo é
que se pode traduzir por "signo"ou "sinal"), semiotizável (Semiótica ilimitada); c) Con-
as duas palavras traduzem, no entanto, duas cepções de Signo: Saussure - relação sig-
maneiras diferentes de entender a "ciência nificado/significante; Peirce - o signo como
dos signos"8 . "processo de mediação"que abre para a "in-
A Semiologia aparece definida por Saussure, finitude", um significante remetendo sempre
no Curso de Linguística Geral (editado pela para outro significante, numa cadeia intermi-
primeira vez em 1915), da seguinte forma: nável. Na opinião de Jeanne Martinet 12 , a
"Pode portanto conceber-se uma ciência que distinção fundamental reside nas diferentes
estuda a vida dos signos no seio da vida so- concepções de signo. Já Adriano Duarte Ro-
cial; ela constituiria uma parte da psicologia drigues 13 destaca que, enquanto a reflexão
social e, por conseguinte, da psicologia ge- de Saussure se centra na linguagem verbal,
ral; nós chamá-la-emos semiologia (do grego a de Peirce centra-se nos quadros lógicos do
semeion, signo). Ela ensinar-nos-ia em que conhecimento científico. Jurgen Trabant 14
consistem os signos, que leis os regem. (...) acentua, por seu lado, que a diferença fun-
A linguística não é senão uma parte desta ci- damental entre Semiologia e Semiótica as-
ência geral (...)."9 . senta nas diferentes tradições de que são ori-
Quanto à Semiótica ela é definida, por ginárias, a linguística e a filosófica: a tradi-
Peirce, num fragmento de 1897, nos seguin- ção linguística, dando atenção especial aos
tes termos: "Em seu sentido geral, a lógica é, signos linguísticos, tende a ver a Semiologia
como acredito ter mostrado, apenas um outro como uma extensão analógica da Linguística
nome para semiótica, a quase-necessária, ou (que funciona como modelo) a outros domí-
formal, doutrina dos signos"10 . nios da cultura que não a língua; a tradição
Diferentes autores têm sublinhado várias filosófica, dando atenção aos signos em ge-
distinções entre estas duas tradições (e con- ral, e preocupando-se sobretudo com o papel
cepções) da "ciência dos signos". Para Edu- da linguagem no conhecimento, tende a en-
ardo Prado Coelho 11 , as distinções centram- carar a Semiótica como parte de uma Teoria
se nos seguintes aspectos: a) Ponto de par- do Conhecimento. Bem ilustrativa da tradi-
tida: Saussure - acto sémico como facto so- ção linguística é a posição de Roland Barthes
cial que relaciona dois indivíduos (emissor- que, ressaltando o carácter de sistema mode-
8
lizante primário da língua, propõe, mesmo,
Fidalgo, ibidem, pp. 16-17; Jurgen Trabant, ibi-
dem, pp. 13-17 nos Elementos de Semiologia, de 1964, in-
9
Ferdinand de Saussure, Cours de Linguistique verter a relação entre Semiologia e Linguís-
Générale, Paris: Payot, 1978, p.33 12
10
Charles Sanders Peirce, Semiótica, S. Paulo: Edi- Ibidem
13
tora Perspectiva, 1977, p. 45 Adriano Duarte Rodrigues, Introdução à Semió-
11
Citado em Fidalgo, ibidem, p. 17 tica, Lisboa: Editorial Presença, 1991, p. 76
14
Trabant, ibidem, p. 13

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tica, avançada por Saussure: "Em suma é ticas de Peirce "demonstraram ser fecundas
necessário admitir a partir de agora a pos- na lógica e na semiótica contemporâneas, do
sibilidade de inverter um dia a proposição mesmo modo que se tornaram fecundas as
de Saussure: a linguística não é uma parte, múltiplas distinções e classificações de sig-
mesmo privilegiada, da ciência geral dos sig- nos que ele forneceu nos seus escritos."19
nos, é a semiologia que é uma parte da lin- Para Peirce, Lógica e Semiótica
guística (...)"15 . Note-se que esta ideia de identificam-se: "Em seu sentido geral,
Bartthes já está, de certa maneira, presente a lógica é, como acredito ter mostrado,
no próprio Saussure, quando este afirma que apenas um outro nome para semiótica, a
"a língua, o mais complexo e difundido dos quase-necessária, ou formal, doutrina dos
sistemas de expressão, é também o mais ca- signos". A Semiótica é "quase-necessária"ou
racterístico de todos; neste sentido a linguís- "formal"no sentido em que, segundo Peirce,
tica pode tornar-se o padrão geral de toda a procede por "observação abstractiva", par-
semiologia, ainda que a língua não seja se- tindo dos signos particulares (do que os
não um sistema particular"16 . signos "são"), para as afirmações gerais (o
Apesar destas diferenças, as duas tra- que os signos "devem ser") 20 .
dições vão confluir na formação de uma A importância que Peirce atribui à Semió-
mesma "ciência dos signos". Deste modo, tica (Lógica) está bem patente no seguinte
Pierre Guiraud reconhecia, nos finais da dé- fragmento de uma carta sua a Lady Welby:
cada de 70, que: "... as palavras semiologia "Desde o dia em que, com doze ou treze
e semiótica recobrem hoje a mesma disci- anos, apanhei no quarto do meu irmão um
plina, sendo o primeiro termo utilizado pelos exemplar da Lógica de Whately nunca mais
europeus e o segundo pelos anglo-saxões"17 . fui capaz de estudar o que quer que fosse
A essa disciplina dá-se hoje, habitualmente, - matemática, moral, metafísica, gravita-
o nome de Semiótica - o que denota, desde ção, termodinâmica, fonética, economia,
logo, a absorção da semiologia linguística história das ciências, homens e mulheres,
pela semiótica filosófica 18 . vinho, metrologia - senão como estudo de
semiótica"21 . A Semiótica aparece, assim,
concebida como uma espécie de "matemá-
3 Peirce e a semiótica
tica universal"que, à maneira leibniziana,
Refere Abbagnano que, no que respeita à Se- abarca todas as restantes ciências 22 .
miótica, Peirce "retomou a teoria estóica do Como o Signo envolve a relação com três
significado, em termos que lhe deram direito coisas (com o próprio signo ou representa-
de cidadania na lógica moderna."Ainda se- men, o objecto e o interpretante), a Semió-
gundo o mesmo autor, as concepções semió- tica tem três ramos:
19
15
Roland Barthes, Elementos de Semiologia, Lis- Nicola Abbagnano, História da Filosofia, Lisboa:
boa: Edições 70, 1977, p. 87 Editorial Presença, Vol. XIII, 1979, pp. 9-11
20
16
Saussure, ibidem, p. 101 Ver nota 10
21
17
Pierre Guiraud, A Semiologia, Lisboa: Editorial Rodrigues, ibidem, pp. 89-90
22
Presença, 1978, p. 9 Fidalgo, ibidem, p. 14
18
Fidalgo, ibidem, p. 19

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1. Gramática Pura (segundo Peirce, Duns (que trata da relação entre os signos e os ob-
Escoto chamava-lhe grammatica specu- jectos a que se aplicam) e Pragmática (que
lativa) - "a sua tarefa é determinar o que trata da relação entre os signos e os intérpre-
deve ser verdadeiro quanto ao represen- tes). Como sabemos, Sintaxe, Semântica e
tamen utilizado por toda a inteligência Pragmática constiuem, hoje em dia, os três
científica a fim de que possa incorpo- grandes domínios da Semiótica 24 .
rar um significado qualquer". Segundo Peirce distingue, ainda, entre Semiótica ge-
Sebeok, é a teoria geral da relação de ral e "ciências psíquicas"(a que, mais pro-
representação e dos vários tipos de sig- priamente, poderíamos chamar "ciências se-
nos. mióticas"), em que inclui as ciências psico-
lógicas e sociais, a linguística, a história, a
2. Lógica Pura (ou Crítica) - "ciência do estética, etc. 25 .
que é quase necessariamente verdadeiro
em relação aos representamen de toda a
inteligência científica a fim de que pos- 4 Pragmatismo e abdução
sam aplicar-se a qualquer objecto, isto
é, a fim de que possam ser verdadeiros.
4.1 A máxima pragmatista
(...) ciência formal da verdade das re- Charles Sanders Peirce consta, nas Histórias
presentações.". Segundo Sebeok, com- da Filosofia, como um dos fundadores do
preende a teoria unificada da dedução, pragmatismo.
da indução e da retrodução (inferência O pragmatismo é, segundo Abbagnano, "a
hipotética ou abdução). forma que foi assumida, na filosofia contem-
porânea, pela tradição clássica do empirismo
3. Retórica Pura (ou Especulativa) - "o seu inglês", na sequência de Locke, Hume e Stu-
objectivo é o de determinar as leis pelas art Mill. Ainda segundo o mesmo autor,
quais, em toda a inteligência científica, o pragmatismo constitui "o primeiro contri-
um signo dá origem a outro signo e, es- buto original dos Estados Unidos da Amé-
pecialmente, um signo acarreta outro.". rica para a filosofia ocidental". Assentando
Segundo Sebeok, refere-se à eficácia da ambos na noção de "experiência", empirismo
semiose 23 . clássico e pragmatismo diferem, no entanto,
em relação à maneira como entendem essa
Esta tripartição da Semiótica viria a ser noção. Assim, enquanto o empirismo clás-
retomada por Charles Morris em 1938, nas sico entende "experiência"como experiência
suas "Foundations of the Theory of Signs". passada (e, como tal, constituindo um "pa-
Morris substitui as designações de Peirce pe- trimónio limitado que pode ser inventari-
las de Sintaxe (que trata da relação formal
24
dos signos uns com os outros), Semântica Charles Morris, "Fundamentos da Teoria dos Sig-
nos", tradução policopiada na Universidade da Beira
23 Interior (Tradução de António Fidalgo), 1994, p.7;
Peirce, ibidem, p.46; Thomas Sebeok(Org.),
Enciclopedic Dictionary of Semiotics, Berlin, New Rodrigues, ibidem, pp. 94-95; Bertil Malmberg, Les
York, Amsterdam: Mouton de Gruyter, 2ž volume, Nouvelles Tendances de la Linguistique, Paris: PUF,
p. 693; Rodrigues, ibidem, p. 94 1972, p. 192
25
Sebeok, ibidem, pp. 693-694

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ado e sistematizado de forma total e defini- mente só pode transformar conhecimento,


tiva"), o pragmatismo entende a experiência mas nunca originá-lo, a menos que alimen-
como abertura para o futuro, "posibilidade tado com factos de observação"27 . Como
de fundamentar a previsão": uma verdade podemos, então, estar seguros da clareza de
é-o não em confronto com uma experiência uma ideia? Para responder a esta questão,
passada, mas em relação com o seu possível Peirce avança a sua concepção do pensa-
uso futuro. A previsão desse possível uso fu- mento como "engenharia". O pensamento é
turo (limites, condições, efeitos) é o signifi- comparado, por Peirce, à "linha de uma me-
cado dessa verdade. Nesse sentido, segundo lodia através da sucessão das nossas sensa-
Abbagnano, a tese fundamental do pragma- ções"28 : enquanto os sons são o imediata-
tismo é "a de toda a verdade é uma regra mente percebido, o pensamento é uma su-
de acção, uma norma para a conduta futura, cessão ordenada de ideias, mediada por essas
entendendo-se por "acção"e por "conduta fu- sensações e orientada para uma certa função.
tura"toda a espécie ou forma de actividade, Essa função é a produção de uma crença.
quer seja cognoscitiva quer seja emotiva.". A crença tem três propriedades, segundo
O pragmatismo vai assumir duas formas fun- Peirce: é algo de que nos damos conta; sos-
damentais: a metafísica (incluindo, entre ou- sega a irritação do pensamento (provocada
tros, William James), que procura constituir- pela dúvida); implica a determinação, na
se como uma teoria da verdade e da reali- nossa natureza, de uma regra de acção ou
dade; e a metodológica (fundada por Peirce hábito (por "hábito"deve entender-se, aqui, o
e incluindo também Mead e Dewey). Para conjunto de acções, tanto reais como possí-
distinguir esta segunda forma da primeira, veis, que se baseiam numa crença). No en-
Peirce propõe mesmo um novo termo, "prag- tanto, a acção com base numa determinada
maticismo", que no entanto acabou por não crença produz uma nova dúvida, e esta novo
vingar. 26 pensamento; assim, a crença, sendo lugar de
É dentro deste quadro geral que devem ser paragem, é também lugar de recomeço para
entendidas as afirmações de Peirce no ar- o pensamento. Sendo a essência da crença
tigo "Como tornar as nossas ideias claras", a produção de um hábito, as diferentes cren-
de 1878. Neste artigo o pragmatismo apa- ças distinguem-se pelos diferentes modos de
rece concebido como um método lógico de acção a que dão origem. Parafraseando um
clarificação de ideias, pondo em causa o mé- exemplo de Fidalgo, se eu acreditar que um
todo cartesiano baseado na clareza e na dis- objecto é um garfo, então servir-me-ei dele
tinção. A crítica central de Peirce ao método para levar à boca alimentos sólidos; mas, se
cartesiano reside na tese de que não é possí- for chinês, por exemplo, e acreditar que se
vel distinguir entre uma ideia que apenas pa- trata de um anchinho, utilizá-lo-ei para tratar
rece clara e distinta e outra que o é efectiva- 27
Charles Sanders Peirce, "Como tornar as nossas
mente. Contestando a teoria inatista de Des- ideias claras", tradução policopiada na Universidade
cartes (retomada, posteriormente, por Leib- da Beira Interior (Tradução de António Fidalgo),
niz), Peirce observa que "...o mecanismo da 1994, p. 7; sobre este artgo, ver comentário de
Fidalgo, ibidem, pp. 43-49, que seguimos aqui.
26
Abbagnano, ibidem, pp. 7-9 28
Ibidem, p. 15

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das flores. tipo for, se encontra na mente sem ter


Portanto, e ao contrário do que pretendia passado primeiro por um juízo percep-
Descartes, a "clareza das ideias"não resulta tivo, ou seja, o juízo perceptivo é a fonte
das ideias inatas, mas da aplicação de uma do conhecimento. No entanto, esta
máxima pragmatista, que Peirce formula da concepção coloca o seguinte problema:
seguinte maneira: "Considera quais os efei- sendo os juízos perceptivos juízos par-
tos, que podem ter certos aspectos práticos, ticulares, como se passa deles para os
que concebemos que o objecto da nossa con- conceitos e juízos universais? Este pro-
cepção tem. A nossa concepção dos seus blema leva Peirce à segunda proposição
efeitos constitui a nossa concepção do ob- cotária.
jecto."O que significa que a nossa ideia (sig-
nificado) de um objecto é a ideia dos efeitos 2. Os juízos perceptivos contêm elemen-
sensíveis que concebemos que esse objecto tos gerais: embora os juízos percepti-
tem 29 . vos sejam singulares, a nível do sujeito
("Esta mesa é...) eles não deixam de en-
volver a generalidade, a nível do predi-
4.2 A lógica da abdução cado (....verde"), possibilitando, assim,
As sete conferências que Peirce fez em a dedução de proposições gerais. Como
Harvard, em 1903, a convite de William se faz a introdução da generalidade nos
Ja-mes, procuram dar uma resposta lógica juízos perceptivos? Pelo tipo de racio-
(e não psicológica) ao problema da má- cínio a que Peirce chama abdução.
xima pragmatista, formulado nos seguintes A Lógica e a Teoria do Conhecimento
termos: "Qual é a prova de que os efei- tradicionais distinguem dois tipos de ra-
tos práticos de um conceito constituem a ciocínio: a dedução (prova que algo
soma total do conceito?". A resposta a deve ser, é uma inferência necessária
este problema leva Peirce a afirmar que a que extrai uma conclusão contida em
questão do pragmatismo não é mais que a certas premissas, cuja verdade deixa, no
questão da abdução30 . Para "afiar"a máxima entanto, em aberto) e a indução (prova
pragmatista, Peirce propõe as seguintes que algo realmente é, é uma inferên-
proposições "cotárias"(do latim cotis, afiar): cia experimental que não consiste em
descobrir, mas em confirmar uma teoria
através da experimentação - e que, por-
1. "Nada está no intelecto que primeiro tanto, não cria algo de novo). A criação
não tenha estado nos sentidos": este quer das premissas (fundamentoras da
princípio aritotélico significa, para dedução) quer das teorias (fundamento-
Peirce, que nenhuma ideia, seja de que ras da indução), é, deste modo, exterior
29 aos dois tipos tradicionais de raciocínio,
Ibidem, p. 17
30
Sobre "Pragmatismo e abdução", ver Charles e reside na abdução. A abdução, que
Sanders Peirce, Semiótica, S. Paulo: Editora prova que algo pode ser, é uma infe-
Perspectiva, 1977, pp.225-237; ver também exposi- rência hipotética, é o verdadeiro método
ção de Fidalgo, pp. 49-5 para a criação de novas hipóteses ex-

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plicativas. O modelo da inferência ab- questão do pragmatismo é a questão da


dutiva pode ser traduzido da forma se- abdução. Só são admissíveis as hipóte-
guinte: "Um facto surpreendente, C, é ses das quais podemos conceber deter-
observado. Mas, se A fosse verdadeiro, minados efeitos práticos sensíveis, que
C seria natural. Donde há razão para vão guiar a conduta de quem as formu-
suspeitar que A é verdadeiro"31 . lou. Assim entendida, a máxima pra-
Mas como entra, através da abdução, gamatista pode formular-se do seguinte
a generalidade nos juízos perceptivos? modo: "uma concepção não pode ter
Esta questão conduz-nos à terceira pro- efeito lógico algum, ou importância a
posição cotária. diferir do efeito de uma segunda con-
cepção, salvo na medida em que, to-
3. A inferência abdutiva transforma-se no mada em conexão com outras concep-
juízo perceptivo sem que haja uma linha ções e intenções, poderia concebivel-
clara de demarcação entre eles: os juí- mente modificar a nossa conduta prática
zos perceptivos são casos extremos de de um modo diverso do da segunda con-
inferências abdutivas. A percepção tem cepção"32 .
sempre, segundo Peirce, um fundo ab-
dutivo e interpretativo, não se limita a
ser um mero "dado". Seja o seguinte 5 Os signos e a sua classificação
exemplo de juízo perceptivo, feito num
lindo dia de sol: "Está a cair água do 5.1 História breve de um
telhado". A partir deste juízo percep- conceito
tivo, várias inferências abdutivas são Sendo a Semiótica a "doutrina ou ciência dos
possíveis, por exemplo: "Alguém está signos", a noção central desta disciplina é,
a deitar água no telhado"ou "A neve obviamente, a noção de Signo.
acumulada no telhado está a derreter". Apesar de, segundo Morris, ser muito pos-
Enquanto a inferência abdutiva admite sível "que os signos nunca tivessem sido es-
sempre a possibilidade de ser negada tudados tão intensamente, por tantas pessoas
(para afirmarmos uma outra), no caso e de tantos pontos de vista, como nos nos-
dos juízos perceptivos não nos é possí- sos dias", interessando a linguistas, filóso-
vel conceber a sua negação ("prova da fos, biólogos, antropólogos, psicopatologis-
inconceptibilidade"). Como distinguir, tas, estetas e sociólogos 33 , não é fácil en-
de entre a infinidade de hipóteses expli- contrar uma definição de signo que toda a
cativas de um fenómeno teoricamente gente aceite. Dessa precisa dificuldade dão
possíveis, as que são admissíveis e as conta os dicionários correntes. A título de
que não o são? A resposta a esta per- exemplo, Eco, em O Signo, refere a existên-
gunta reside na máxima pragmatista - é cia de 20 acepções diferentes da palavra, em
ela que nos fornece o critério de admis- três Dicionários da Língua Italiana consulta-
sibilidade das hipóteses explicativas. É
32
neste sentido que, segundo Peirce, a Peirce, ibidem, p. 232
33
Morris, ibidem, p. 3
31
Peirce, ibidem, p. 229

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10 Paulo Serra

dos 34 . pode traduzir por "prova", "indício"ou "sin-


Correspondendo ao grego semeion (que tam- toma"(a distinção clara entre os dois termos
bém se pode traduzir por "sinal"), e ao la- só surge na Retórica de Aristóteles).
tino signum ( que também significa "marca", Mas Hipócrates, enquanto médico, não
"entalhe"), a definição clássica de signo dá-o está interessado no signo linguísitico, o ter-
como aliquid stat pro aliquo (uma coisa que mo semeion não se aplica às palavras ou
está por outra coisa). Esta definição do signo onoma. Parménides, por seu lado, distin-
pressupõe dois planos, que Trabant exempli- gue entre onomaxein, como nome arbitrário,
fica assim: coisa 1 - coisa 2, fumo - fogo, tomado por verdadeiro, quando não corres-
tabuleta do artesão - artesão, palavras - coi- ponde à verdade (o nome é uma etiqueta fa-
sas e conceitos. No entanto, este esquema, laciosa, ocultadora) e semeion, como prova
que funciona perfeitamente no que se refere evidente, princípio de inferência que conduz
às linguagens ditas artificais, da lógica e da à via do Ser.
matemática (em que há uma correspondência Platão e Aristóteles vão distinguir, no que
perfeita entre a coisa que significa e a coisa se refere às palavras, entre significado e sig-
significada), torna-se complicado nas lingua- nificante, e sobretudo entre significação e re-
gens naturais, levantando uma série de pro- ferência. No entanto, Aristóteles não usa, ha-
blemas, de que Trabant destaca os dois se- bitualmente, a palavra semeion para se refe-
guintes: a relação ou conexão entre a coisa 1 rir às palavras (a que se refere normalmente
e a coisa 2 é arbitrária, convencional, imoti- como symbolon). Os signos (semeia), referi-
vada ou necessária, natural, motivada? a re- dos na Retórica, são uma das fontes dos enti-
lação entre o signo e a coisa a que o signo memas ( a outra são os eikota ou verosímeis).
se refere é directa ou é feita através de um Os signos são distinguidos em duas catego-
conceito? 35 A estes problemas acrescenta rias: o tekmerion, no sentido de "prova",
Eco os seguintes: qual a unidade sígnica mí- que poderíamos traduzir por "signo necessá-
nima? como classificar os signos? qual a rio"ou "forte"("se tem febre, então está do-
relação entre signo e inferência (lógica)? 36 ente"), governado pela relação de implica-
Não pretendendo fazer aqui uma histó- ção e indo do universal para o particular; e o
ria do conceito de signo 37 , referiremos, no "signo fraco"("se tem a respiração alterada,
entanto, que semeion aparece como termo então tem febre"), a que Aristóteles não dá
técnico-filosófico no século V AC, com Par- um nome particular, governado pela relação
ménides e Hipócrates, sendo muitas vezes de conjunção e indo do particular para o par-
tomado como sinónimo de tekmerion, que se ticular.
34
Os Estóicos, apesar da articulação da
Umberto Eco, O Signo, Lisboa: Editorial Pre-
sença, 1981, pp. 13 e segs sua semiótica, ainda não vão unificar, de
35
Trabant, ibidem, pp. 22 e segs forma clara, a doutrina da linguagem ver-
36
Ver Eco, ibidem, pp. 27-67 bal e a doutrina dos signos. No que
37
Para isso, ver Umberto Eco, "O Signo", in En- se refere à linguagem verbal, os Estói-
ciclopédia Einaudi, Vol. 31 (O Signo), Lisboa: Im-
cos distinguiam entre "expressão"( semai-
prensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, pp. 11-51,
de que seguimos aqui algumas linhas essenciais non), "conteúdo"(semainomenon) e "refe-
rente"(tynchanon). Apesar de parecem re-

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Peirce e o signo como abdução 11

produzir a tríade já sugerida em Platão e são semântico-representativa quer a sua di-


Aristóteles, na opinião de Eco trabalham-na mensão comunicacional (representando, esta
de forma mais elaborada do que muitos dos última, uma novidade em relação aos Es-
seus imitadores subsequentes, mesmo con- tóicos): "Um signo é o que se mostra a si
temporâneos. Quanto aos signos, os Estói- mesmo ao sentido, e que, para além de si,
cos distinguem entre signos comemorativos mostra ainda alguma coisa ao espírito"e "A
(que associam dois eventos observáveis, por palavra é o signo de uma coisa que pode
exemplo "fumo"e "fogo") e signos indicati- ser compreendida pelo auditor quando é pro-
vos (em que o signo remete para algo não ferida pelo locutor". Em vez dos três ele-
observável, por exemplo "o riso"que remete mentos referidos pelos Estóicos, Sto Agosti-
para "o contentamento"). Em qualquer dos nho indica quatro elementos constitutivos do
casos, é central a noção de inferência, feita signo: a palavra (verbum), o exprimível (di-
com base na associação que resulta da expe- cibilis), a expressão (dictio) e a coisa (res),
riência (p => q). Mas o signo (p), de que se ainda que verbum e dictio pareçam poder ser
retira a inferência (q), não é um evento físico, tomados como sinónimos, referindo-se o pri-
mas a proposição em que se exprime (não "o meiro ao aspecto comunicativo e o segundo
fumo"mas "Ali há fumo"; não "o riso"mas ao aspecto semântico-referencial do signo 38 .
"O João está a rir"). O signo é uma proposi- A esta concepção triádica do signo, pro-
ção antecedente ( "Se ali há fumo..."; "Se o fundamente radicada na tradição filosófica,
João está a rir...") que revela um consequente vai opor-se claramente Saussure (e a tradição
("...então há fogo"; "...então está contente"). que dele emana). Saussure define o signo
A semiótica estóica une, assim, doutrina da (linguístico) da seguinte forma: "O signo
linguagem e doutrina dos signos (embora os linguístico une não uma coisa e um nome,
Estóicos ainda não digam que as palavras são mas um conceito e uma imagem acústica.
signos): todo o signo se revela como uma Esta última não é o som material, coisa pu-
proposição, toda a proposição implica, na ramente física, mas a marca psíquica desse
sua organização, a utilização da sintaxe ló- som, a representação que dela nos dá o teste-
gica que regula os signos, e que só se torna munho dos nossos sentidos; ela é sensorial,
visível através da sintaxe linguística. Poder- e se nos acontece chamar-lhe "material", é
se-ia dizer que, para os Estóicos, a língua apenas neste sentido e por oposição ao outro
aparece como sistema modelizante primário termo da associação, o conceito, geralmente
(Lotman). mais abstracto"39 . O signo apresenta, assim,
No entanto, será só com Sto Agostinho uma dupla face: significante ("imagem acús-
que, segundo Eco, se fará a união defini- tica") e significado ("conceito"), excluindo-
tiva entre teoria dos signos e teoria da lin- se claramente o referente (e, em consequên-
guagem, aparecendo os signos linguísticos cia, pelo menos assim o pensava Saussure,
como uma espécie ( entre outras espécies, 38
Fidalgo, ibidem, pp. 12-13. Saussure, ibidem, p.
como as dos letreiros, dos gestos, dos sinais 98
ostensivos) do género signo. Quanto à no- 39
Saussure, ibidem, p. 98
ção de signo, Sto Agostinho dá duas defi-
nições que contemplam quer a sua dimen-

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a concepção da língua como nomenclatura, 5.2 A concepção peirceana de


ligando palavra-coisa). signo
O que, de facto, Saussure também pre-
tendia eliminar eram os problemas filosófi- Sobre a importância que atribui aos signos,
cos (lógicos e gnoseológicos) colocados pela escreve Peirce numa carta a Lady Welby:
concepção triádica do signo. Problemas cla- "Gostaria de lhe escrever a respeito dos sig-
ramente levantados (e tornados incontorná- nos que, para si como para mim, têm tão
veis) pelo artigo de Frege sobre o significado grande importância. Mais para mim do que
(sinn) e a referência (bedeutung), de 1892, para si, julgo eu. É que, penso eu, o mais
em que este lógico e filósofo procura, nome- elevado grau de realidade só é alcançado pe-
adamente, distinguir entre a dimensão refe- los signos, isto é, por ideias tais como a Ver-
rencial e a dimensão significativa dos signos. dade e o Direito e outras. Isto parece parado-
Limitando-nos a um exemplo de Frege: "A xal; mas quando lhe expressar inteiramente
estrela da manhã"e "A estrela da tarde"têm a minha teoria dos signos, parecer-lhe-á me-
diferentes significados (entendendo-se por nos"42 .
"significado"o modo segundo o qual o ob- São diversas, quanto à forma, as defini-
jecto se apresenta à mente), embora tenham ções que, em vários passos da suas obra,
a mesma referência (entendendo-se por "re- Peirce dá de Signo. Vejamos quatro das mais
ferência"o objecto ou a classe de objectos a importantes:
que se refere o signo, neste caso o planeta
1. "Um signo, ou representamen, é aquilo
Vénus). Pode, por outro lado, haver signifi-
que, sob certo aspecto ou modo, repre-
cados a que não corresponda nenhuma refe-
senta algo para alguém. Dirige-se a al-
rência, como no caso de "O corpo mais afas-
guém, isto é, cria na mente dessa pes-
tado da Terra"40 .
soa um signo equivalente, ou talvez um
A concepção Peirceana do signo é clara-
signo mais desenvolvido. Ao signo as-
mente herdeira da tradição lógico-filosófica
sim criado denomino interpretante do
(estóica e agostiniana) do signo e ultra-
primeiro signo. O signo representa al-
passa, claramente, a concepçao Saussuriana
guma coisa, seu objecto. Representa
do mesmo. Foi inspirando-se nos trabalhos
esse objecto não em todos os seus as-
de Peirce que C.K. Ogden e I.A. Richards, na
pectos, mas com referência a um tipo de
sua obra The Meaning of Meaning, de 1923,
ideia que eu, por vezes, chamei funda-
propuseram o seu célebre "triângulo semió-
mento do representamen. "Ideia"deve
tico"(incluindo os seguintes termos: Sym-
ser aqui entendida num certo sentido
bol, Thought or reference e Referent 41 ), que
platónico..."43 .
se constitui como um dos conceitos de base
da Semiótica contemporânea. 2. "Um Signo é tudo aquilo que está re-
40
Fidalgo, ibidem, pp. 27-32 lacionado com uma Segunda coisa, seu
41
Malmberg, ibidem, p. 191 42
Peirce, citado em Rodrigues, ibidem, p. 85
43
Charles Sanders Peirce, Semiótica, S. Paulo: Edi-
tora Perspectiva, 1977, p. 46

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Peirce e o signo como abdução 13

Objec-to, com respeito a uma Quali- criado na mente de alguém (o "intérprete")


dade, de modo tal a trazer uma Terceira pelo representamen; c) o Objecto: é aquilo
coisa, seu In-terpretante, para uma rela- (algo) que é representado (porque este Ob-
ção com o mesmo Objecto, e de modo jecto é representado, pelo signo, não na sua
tal a trazer uma Quarta para uma relação totalidade, mas de um certo ponto de vista,
com aquele Objecto na mesma forma, em relação apenas a determinados aspectos,
ad infinitum. Se a série é inter-rompida, Peirce refere-se-lhe também como "funda-
o Signo, por enquanto, não corresponde mento"do representamen. Assim, para recor-
ao carácter significante perfeito."44 rermos a um exemplo, se eu me quiser sentar
e disser a um amigo: "Passa-me aí a cadeira",
3. "Um Signo, ou Representamen, é um "cadeira"é visada como "objecto em que me
Primeiro que se coloca numa relação posso sentar", e não por exemplo como "ob-
triádica genuína tal com um Segundo, jecto que tem efeitos decorativos").
denominado seu Objecto, que é capaz Nas definições anteriores assumem especial
de determinar um Terceiro, denomi- relevância as seguintes relações :
nado seu Interpretante, que assume a a) Relação entre o Signo (representamen) e
mesma relação triádica com seu Ob- o Objecto: Peirce diz que o primeiro "repre-
jecto na qual ele próprio está em relação senta", "está relacionado com", "coloca-se
com o mesmo Objecto."45 numa relação com", "refere-se a"o segundo.
4. Signo: "qualquer coisa que conduz al- No entanto, a relação do Signo com este Ob-
guma outra coisa (seu interpretante) jecto incide sempre e apenas num certo "as-
a referir-se a um objecto ao qual ela pecto", "modo"ou "qualidade"do Objecto,
mesma se refere (seu objecto) de modo não na totalidade do Objecto (daí que Peirce
idêntico, transfor-mando-se o interpre- fale, na 2a definição, em "fundamento do re-
tante, por sua vez, em signo, e assim presentamen").
sucessivamente, ad infinitum. (...) Se Estas duas maneiras de entender o Objecto
a série de interpretantes sucessivos vem levam Peirce a distinguir entre Objecto Ime-
a ter fim, em virtude desse facto o signo diato e Objecto Dinâmico. O que o Signo ex-
torna-se, pelo menos, imperfeito."46 prime imediatamente é o Objecto Imediato,
mas para dar conta de um Objecto Dinâmico;
Estas definições permitem identificar, na por outras palavras: o Objecto Imediato é o
tríplice relação que é o Signo, três elemen- modo (sempre incompleto, por vezes incor-
tos: recto) como o Objecto Dinâmico (a "coisa
a) o Signo propriamente dito ou represen- em si") é dado pelo Signo ("para mim") 47 .
tamen (Morris chamar-lhe-á "veículo síg- b) Relação entre o Signo (representamen) e
nico"): é "aquilo que representa"; b) o In- o Interpretante: Peirce diz que o primeiro
terpretante ou "imagem mental": é o signo "cria", "traz", "determina", "conduz a"o se-
47
44
Ibidem, p. 26 Umberto Eco, "O Significado", in Enciclopédia
45
Ibidem, p. 63 Einaudi, Vol. 31 (O Signo), Lisboa: Imprensa Nacio-
46
Ibidem, p. 74 nal - Casa da Moeda, 1994, p. 80; Sebeok, ibidem, p.
680

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gundo. Estabelecer o significado de um 5.3 A classificação dos signos


Signo é representar o seu Objecto Imedi- A classificação dos signos é um dos proble-
ato, traduzindo-o através de um Interpre- mas que a Semiótica ainda não conseguiu
tante. Nas palavras de Peirce, "o significado resolver de forma totalmente satisfatória.
de um signo é o signo no qual ele deve ser A prova disso são as sucessivas classifica-
traduzido. (...) a tradução de um signo nou- ções, mais ou menos inspiradas em Peirce,
tro sistema de signos"48 . tentadas por Eco 50 . Segundo este autor,
Nisto consiste, segundo Eco, o processo de o único pensador que, até hoje, tentou
semiose ilimitada, descrito e fundado por uma classificação global dos signos foi
Peirce, e bem explícito nas definições 2 e Peirce, tendo no entanto a sua classificação
4: não há modo de estabelecer o significado ficado incompleta. Apesar disso, muitas
de uma expressão, de a interpretar, sem ser das distinções feitas por Peirce ganharam
traduzindo-a noutros signos (interpretantes), direitos de cidadania na Semiótica 51 e, por
pertencentes ou não ao mesmo sistema se- isso, importa fazer aqui a sua análise, ainda
miótico. Para ilustrar este processo, Eco dá o que sumária.
seguinte exemplo: /gato/ significa (pode sig- Peirce distinguiu três grandes divisões
nificar) a imagem visual de gato, a definição ternárias ou tricotomias, a partir das quais é
("Gato é um mamífero que mia"), a inferên- possível obter dez classes de signos. Assim,
cia ("Se gato, então animal que mia quando teoricamente, o número possível de tipos
lhe pisam a cauda"), etc. Mas, por seu lado, de signos seria de 310 = 59 049! Desse
cada um destes interpretantes pode, por sua número, no entanto, apenas sessenta e seis
vez, ser Signo que leva a outras interpreta- classes serão significativas.
ções, ad infinitum, segundo Peirce... Os signos podem ser classificados a partir de
A fecundidade da noção Peirceana de In- três pontos de vista: Signo em si, rela-ção do
terpretante reside, na opinião de Eco, nos Signo com o Objecto e relação do Signo com
seguintes aspectos: descreve o único modo o Interpretante. Obtêm-se, assim, as três
como os seres humanos estabelecem, estipu- tricotomias e as nove categorias seguintes:
lam e reconhecem os significados dos signos
que usam; mostra a "circularidade"dos pro-
cessos semióticos (a referência de um signo • Signo em si: Qualisigno (Tone), Sin-
a outros signos ou a outras cadeias de sig- signo (Token), Legisigno (Type);
nos); os Interpretantes são dados objectivos
que não dependem das representações men- • Signo em relação com o Objecto: Ín-
tais dos sujeitos e são colectivamente verifi- dice, Ícone e Símbolo;
cáveis nas enciclopédias, nas intertextualida- 50
Essas tentativas de classificação constam do livro
des, nas "bibliotecas"49 . O Signo e do Artigo "O Signo"(ver Bibliografia)
51
48 Ver, por exemplo, Jeanne Martinet, Chaves para
Peirce, citado em Eco, ibidem, p. 80
49 a Semiologia, Lisboa: Publicações D. Quixote,
Eco, ibidem, pp. 79-80; ver igualmente Sebeok,
1983, que distingue entre "tipo"e "ocorrência"e clas-
ibidem, pp. 675-679
sifica os signos em índices, ícones e símbolos

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Peirce e o signo como abdução 15

• Signo em relação com o Interpretante: Ícone de qualquer coisa, na medida em


Rema, Dicisigno, Argumento. que for semelhante a essa coisa e utili-
zado como um seu signo"(inclui, como
Da combinação destas categorias derivam sub-categorias, as imagens, os diagra-
dez classes de signos (as outras combina- mas e as metáforas; exemplos: foto-
ções teoricamente possíveis não têm signi- grafias, desenhos, diagramas, fórmulas
ficado), que nos dispensaremos de analisar lógicas e algébricas, imagens mentais,
aqui 52 . Classes que, no entanto, nem sempre etc.);
é fácil saber como aplicar. Como diz Peirce,
"é um terrível problema dizer a que classe • Índice: "é um signo que se refere
um signo pertence"53 . ao Objecto que denota em virtude
Vejamos, a maneira como Peirce define, de ser realmente afectado por esse
num texto de 1903, cada uma das nove cate- Objecto"(funda-se não na semelhança,
gorias anteriores (indica-se, entre parêntesis, como o Ícone, mas na conexão física
a respectiva exemplificação e/ou interpreta- com o Objecto; exemplos: dedo apon-
ção): tado para um objecto, catavento, fumo
como sintoma do fogo, pronome /este/,
• Qualisigno (Tone): "é uma qualidade referido a um objecto, os quantificado-
que é um Signo"(tom de voz, vestuário, res lógicos, etc.);
etc);
• Símbolo: é um signo que se refere
• Sinsigno (Token ou "ocorrência"): "é ao Objecto que denota em virtude de
uma coisa ou evento existente e real que uma lei, normalmente uma associação
é um Signo"(por exemplo, todos os /o/ de ideias gerais que opera no sentido
deste texto); de fazer com que o Símbolo seja inter-
pretado como referindo-se àquele Ob-
• Legisigno (Type ou "tipo"): "é uma jecto"(exemplos de Peirce: todas as pa-
lei que é um Signo"(traduz-se nos sin- lavras, frases, livros e outros signos
signos, que são as suas "ocorrências"; convencionais);
exemplo: o artigo definido "o", que se
traduz nos /o/ deste e de outros textos); • Rema (Termo): "é um Signo que , para
o seu Interpretante, é um Signo de Pos-
• Ícone: "é um signo que se refere ao sibilidade qualitativa, ou seja, é enten-
Objecto que denota apenas em virtude dido como representando esta e aquela
dos seus caracteres próprios, caracte- espécie de Objecto possível"(é ou um
res que ele igualmente possui quer um termo simples, ou uma descrição, ou
tal Objecto realmente exista ou não"; uma função; por exemplo: "Sócrates",
"qualquer coisa, seja uma qualidade, "alto", "e", etc.);
um existente individual ou uma lei, é
52
• Dicisigno (Proposição): "é um Signo
Encontram-se descritas em Umberto Eco, O
Signo, Lisboa: Editorial Presença, 1981, pp. 66-67
que, para o seu Interpretante, é um
53
Eco, ibidem, p. 67

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Signo de existência real"(uma propo- Neste exemplo, "metros"e "da-


sição como, por exemplo, "Sócrates é qui"funcionam como Índices, e os restantes
mortal"); signos como Símbolos.
Sobre a relação entre Índices, Ícones e
• Argumento: "é um Signo que, para o Símbolos, Peirce diz ainda que ela está
seu Interpretante, é Signo de lei (é um presen-te em qualquer proposição, sendo im-
raciocínio complexo, por exemplo um possível encontrar uma proposição, por mais
silogismo) 54 . simples que seja, que não faça apelo a pelo
menos dois destes tipos de signos.
Para percebermos melhor o funciona-
Especialmente importante é o papel que
mento daquela que Peirce considera ser "a Peirce atribui ao Ícone, que considera a
mais importante divisão dos signos", em Íco- única maneira de comunicar directamente
nes, Índices e Símbolos, vejamos os seguin- uma ideia, levando a que todo o método
tes exemplos de Peirce - que mostram como,
de comunicação indirecta de uma ideia deve
na linguagem do quotidiano, Símbolos, Íco-
passar pelo uso de um Ícone. Assim, toda a
nes e Índices se relacionam:
asserção deve conter um Ícone ou um con-
Exemplo 1. Um homem, que caminha junto de Ícones, ou signos cujo significado
com uma criança, levanta o braço para o só seja explicável por Ícones. No dizer de
ar e aponta, dizendo: "Lá está um balão". Peirce, o Predicado de uma asserção é "a
A criança pergunta: "O que é um balão?".
ideia significada por um conjunto de ícones
Responde o homem: "É parecido com uma
(ou o equivalente a um conjunto de ícones)
grande bolha de sabão".
contido numa asserção"55 .
Neste exemplo verifica-se que: o braço De qualquer modo, só num determinado
apontado para o ar funciona como um Índice contexto podemos determinar se um signo
(denota um individual), a bolha de sabão fun- funciona como um Índice, um Ícone ou
ciona como um Ícone, e as palavras funcio-
um Símbolo (por exemplo: o fumo tanto
nam como Símbolos.
pode significar fogo, como nevoeiro, como
Exemplo 2. Se eu digo "Todo o homem
"aproxima-se um rosto-pálido", no caso dos
ama uma mulher", isto equivale a dizer "Tu- "sinais de fumo"...) 56 .
do o que for homem ama algo que é mulher".
Neste exemplo verifica-se que: "tudo
o que"(quantificador universal) e "algo 6 Signo e abdução
que"(quantificador particular) funcionam
Com a sua teoria da abdução, Peirce vai rom-
como Índices; "for homem", "ama"e
per com os paradigmas referencialista e idea-
"mulher"funcionam como Símbolos.
cionista do Signo, ambos baseados na noção
Exemplo 3. A diz a B: "Há um fogo". B
de equivalência (ou entre signo-refe-rente
pergunta: "Onde?". Responde B: "A cerca
ou entre significante-significado). Trata-se,
de mil metros daqui".
55
54
Peirce, ibidem, p. 64
Charles Sanders Peirce, Semiótica, S. Paulo: Edi- 56
Sobre a relação entre estes tipos de signos, ver
tora Perspectiva, 1977, p. 51 e sgs.; ver também Eco, Peirce, ibidem, pp. 71-75
ibidem, pp. 29-30, 51-52

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Peirce e o signo como abdução 17

agora, de substituir a noção de equivalência Usamos igualmente a abdução quando in-


pela de implicação: "Um signo é algo através terpretamos figuras retóricas, vestígios, sin-
do qual nós conhecemos algo mais"57 . tomas, indícios, o valor de uma palavra-
Se o signo fosse uma simples relação de chave ou de um episódio num texto, etc. No
equivalência, a sua descodificação seria um entanto, essa interpretação (como qualquer
mero processo dedutivo (da regra geral para hipótese abdutiva) pode sempre falhar, já que
o resultado), como se verifica nas equivalên- ela representa "o propósito, a tentativa arris-
cias das semias substitutivas: "/.-/ está sem- cada, de um sistema de regras de significação
pre por /a/; dá-se o caso que /.-/ ; logo, /a/ ". à luz das quais um signo adquirirá o seu sig-
O que, manifestamente, não acontece. nificado"58 .
Assim, se não conhecermos o significado Um dos exemplos clássicos de abdução
de um signo, e tivermos de obtê-lo a partir (no domínio dos "signos naturais") é dado
de experiências sucessivas, o processo pare- pelo próprio Peirce, e poderíamos apresentá-
cerá indutivo (partindo dos resultados parti- lo assim: Kepler verifica que a órbita de
culares para a regra geral). Para darmos um Marte passa pelos pontos x e y (facto surpre-
exemplo: "cada vez que o nativo (que fala endente C); mas, se a órbita de Marte fosse
uma língua desconhecida) pronuncia a ex- elíptica ( hipótese A), o facto C seria natu-
pressão /x/, indica o objecto ’y’ (resultados); ral; donde, há razão para supor que A seja
então, a expressão /x/ significa, provavel- verdadeira. Verificação de A: x e y são signo
mente, "y"(regra). No entanto, este processo de que Marte deveria passar pelos pontos z
só aparentemente é indutivo: a repetição da e k (aplicação da máxima pragmatista). Ve-
experiência, por si só, não basta para relacio- rificada a hipótese, alarga-se a abdução aos
narmos /x/ e "y"; exige-se um "quadro de re- outros planetas - o comportamento de Marte
ferência"ou "regra metassemiótica"("quando torna-se signo do dos outros planetas.
o nativo aponta o objecto "y"está a indicar Este exemplo de Peirce mostra bem, se-
o significado de /x/") que possibilite a pas- gundo Eco, que todo o signo, mesmo que na-
sagem do signo para o seu significado; ora, tural, implica a descoberta (Eco fala de "in-
a descoberta desse "quadro de referência"só venção") de uma regra - e, como tal, é de
se pode efectuar por abdução. natureza abdutiva ou interpretativa. O nascer
O mesmo acontece aquando da descodi- do Sol, que para os Antigos era signo do mo-
ficação de signos que possam pertencer a vimento solar, passa a ser, para os Modernos,
duas línguas diferentes: /cane!/ pode signifi- signo do movimento terrestre...
car quer "canta!", em latim, quer um insulto, A condição do signo é, assim, como viu
em italiano. Sem a suposição (abdutiva) do Peirce, não apenas a da substituição e equi-
quadro de referência do código linguístico, valência (aliquid stat pro aliquo) mas tam-
é impossível decidir qual das alternativas é bém a da interpretação. Interpretação em
correcta. que o interpretante não se limita a retradu-
57
Peirce, citado em Umberto Eco, "O Signo", in zir o "objecto imediato"(conteúdo do signo)
Enciclopédia Einaudi, Vol. 31 (O Signo), Lisboa: Im- mas alarga a compreensão daquele, partindo
prensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p. 39 58
Eco, ibidem, p. 39

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do signo para a semiose ilimitada. No dizer Ducrot, Oswald, Todorov, Tzvetan, 1978,
de Peirce, um termo (/Pai/) é uma proposi- Dicionário das Ciências da Linguagem,
ção rudimentar ("Se pai, então alguém que Lisboa: Publicaçóes D. Quixote (espe-
é filho deste pai") e esta uma argumentação cialmente os artigos "Semiótica", pp.
rudimentar ("Todos os pais têm ou tiveram 111-123 e "Signo", pp. 127-133)
filhos; Este homem é pai; Então este homem
tem ou teve um filho") 59 . Eco, Umberto, 1981, O Signo, Lisboa: Edi-
Sendo todo o signo eminentementemente torial Presença
abdutivo, podemos afirmar, de forma reci- Eco, Umberto, 1994, "O Signo", in Enciclo-
proca, que toda a abdução é eminentemente pédia Einaudi, Vol. 31 (O Signo), Lis-
sígnica. A abdução parte sempre de um boa: Imprensa Nacional - Casa da Mo-
"resultado"(facto surpreendente) para uma eda, pp. 11-51
"regra"(hipótese explicativa), funcionando o
primeiro como signo da segunda. Toda a ab- Eco, Umberto, 1994, "O Significado", in En-
dução envolve um acto de interpretação, de ciclopédia Einaudi, Vol. 31 (O Signo),
semiose, de atribuição de significado (que Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da
não tem nem o rigor formal da dedução nem Moeda, pp. 79-81
o carácter de confirmação experimental da
indução). Fidalgo, António, 1995, Semiótica: a Ló-
Esta dupla implicação entre Signo e Abdu- gica da Comunicação, Covilhã: Uni-
ção esclarece, a uma nova luz, a identifica- versidade da Beira Interior
ção Peirceana entre Semiótica (do Signo) e
Guiraud, Pierre, 1978, A Semiologia, Lisboa:
Lógica (da Abdução). Simultaneamente ga-
Editorial Presença
nha um novo sentido a afirmação de Peirce
de que todas as ciências (todos os factos) não Kneale, William e Martha, 1972, O Desen-
são , no fundo, senão Lógica - Semiótica: to- volvimento da Lógica, Fundação Ca-
das as ciências procuram, a partir de determi- louste Gulbenkian ("Teoria das rela-
nados fenómenos (signos naturais), abduzir ções: de Morgan a Peirce", pp. 432-
as leis explicativas (regras gerais da interpre- 439)
tação) dos mesmos...
Kristeva, Julia, s/d, História da Linguagem,
Lisboa: Edições 70
7 Bibliografia
Malmberg, Bertil, 1972, Les Nouvelles Ten-
Abbagnano, Nicola, 1979, História da Filo-
dances de la Linguistique, Paris: PUF
sofia, Lisboa: Editorial Presença, Vol.
(especialmente pp. 190-192)
XIII, ( "O Pragmatismo", pp. 7-15).
Martinet, Jeanne, 1983, Chaves para a Semi-
Barthes, Roland, 1977, Elementos de Semio-
ologia, Lisboa: Publicações D. Quixote
logia, Lisboa: Edições 70
59
Ver Eco, ibidem, pp. 38-40 e 46-49

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Peirce e o signo como abdução 19

Morris, Charles W., 1994, "Fundamentos da Todorov, Tzvetan, 1979, Teorias do Símbolo,
Teoria dos Signos", tradução policopi- Lisboa: Edições 70 ("Origens da semió-
ada na Universidade da Beira Interior tica ocidental", pp. 15-54)
(Tradução de António Fidalgo)
Trabant, Jurgen, 1980, Elementos de Semió-
Mounin, Georges, 1977, Introdução à Lin- tica, Lisboa: Editorial Presença
guística, Lisboa: Iniciativas Editoriais

Peirce, Charles S., 1994, "Como tornar as Acta no 1O


nossas ideias claras", tradução polico- Universidade da Beira Interior
piada na Universidade da Beira Interior Mestrado: Ciências da Comunicação
(Tradução e Introdução de António Fi- Disciplina: Semiótica da Comunicação
dalgo) Docente: Prof. Doutor António Fidalgo
Ddata da sessão: 2 de Fevereiro de 1996
Peirce, Charles S., 1977, Semiótica, S. Secretário: J. M. Paulo Serra
Paulo: Editora Perspectiva

Rodrigues, Adriano Duarte, 1991, Introdu- Tema da Sessão: Os Estóicos


ção à Semiótica, Lisboa: Editorial Pre- (doutrina da linguagem e doutrina
sença
dos signos)
Rodrigues, J. Resina, 1992, "Peirce (Char- Pressupostos: Na sessão anterior ti-
les Sanders)", in Logos - Enciclopé- nha sido visto que, no que se refere à
dia Luso-Brasileira de Filosofia, Lis- linguagem ver-bal, os Estóicos distin-
boa: Editorial Verbo, Volume 4, pp. 38- guiam entre "expressão"( semainon),
39 "conteúdo"(semainomenon) e "refe-
rente"(tynchanon). Também tinha sido
Saussure, Ferdinand de, 1978, Cours de Lin-
explicitada, nessa sessão, a forma como
guistique Générale, Paris: Payot (Intro-
os Estóicos entendiam a "expressão". Na
duction, Chap. III "Object de la lin-
sessão a que a presente Acta se refere,
guistique", pp. 23-35; Première Partie
tratava-se de completar a análise da sua
"Principes Généraux", Deuxième Partie
doutrina da linguagem verbal, analisar a sua
"Linguistique Synchronique", pp. 97-
doutrina do si-gno e procurar estabelecer a
192); as citações feitas por nós foram
relação entre as duas doutrinas.
traduzidas do francês

Sebeok, Thomas (Org.), 1986, Enciclopedic Doutrina da linguagem (verbal)


Dictionary of Semiotics, Berlin, New
Para os Estóicos, o conteúdo não é uma
York, Amsterdam: Mouton de Gruyter,
ideia, mas um "incorporal".
2o volume (Artigo sobre "Peirce", pp.
Sendo radicalmente materialistas, os Es-
673-695)
tóicos negam a realidade das ideias entendi-
das, à maneira de Platão, como algo de auto-

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20 Paulo Serra

subsistente. Assim, só restam duas maneiras "mesa"nem o "verde", mas que "É verdade
de conceber o conteúdo: ou como estando que a mesa é verde").
nas coisas, na realidade empírica (solução do Um dos problemas postos pela doutrina
empirismo) ou como estando na Razão (so- estóica da linguagem verbal é o da relação
lução do idealismo alemão). Os Estóicos de- entre o semainomenon e o lektón. Para Sexto
fendem a primeira solução. Empírico eles são sinónimos. Esta interpre-
Os "incorporais"são entes de razão (entia tação não se afigura, no entanto, aceitável a
rationis), existem apenas na medida em que Eco.
há uma apreensão cognitiva da sua realidade. O lektón pode ser completo (uma propo-
Tal não significa, no entanto, que não sejam sição, por exemplo: "Dione caminha") ou
dotados de uma identidade própria, que per- incompleto (parte de uma proposição, no-
mite a sua predicação (exo do triângulo: três meadamente o sujeito ou o predicado; por
lados, três ângulos, etc.). Não são coisas, exemplo: "Dione", "caminha"). O lektón in-
mas "estados de coisas", "modos de ser", "re- completo não é uma categoria da "expres-
lações", "maneiras de ver". São exemplos de são", mas do "conteúdo": ele traduz uma
"incorporais"o vazio, o lugar, o tempo, as re- posição, um lugar dentro de uma proposi-
lações espaciais, as sequências cronológicas, ção. Um exemplo elucidativo poderia ser
as acções e os eventos. o seguinte: nas proposições "Ele tem um
Esta concepção da idealidade da signifi- coração de oiro"e "Um coração de oiro é
cação aproxima os Estóicos das semânticas uma riqueza espiritual", "um coração de
chamadas ideacionais ou conceptualistas (de oiro"exprime "conteúdos"diferentes porque
que Ockham e os nominalistas em geral, ocupa posições diferentes (de complemento
Locke, Husserl e Saussure são os principais directo e de sujeito, respectivamente). Nas
representantes).60 línguas ditas flexionais (com "casos"), como
Entre os "incorporais"conta-se o lektón, o latim e o alemão, a "posição"(função) é in-
que tem sido traduzido por "exprimível", dicada pela desinência, pela forma que a pa-
"dictum"ou "dizível". O lektón (completo) lavra assume .61
é uma proposição que se refere a um estado Assim, sendo o lektón completo ("Dione
de coisas (não a uma coisa) e que, como caminha") um "incorporal", também os lek-
tal, pode ser verdadeira ou falsa (Exo : Se eu tá incompletos que o constituem ("Dione",
afirmo "A mesa é verde", não afirmo nem a "caminha") são "incorporais".
60 61
Ver Carlos Bizarro Morais, "Estoicismo", in José Nunes de Figueiredo e Maria Ana Almen-
LOGOS - Enciclopédia Luso-Brasileira de Cul- dra, Compêndio de Gramática Latina, Porto: Livra-
tura,Volume 2, Lisboa: Verbo, 1990, que refere os es- ria Avis, 1967, definem "casos"como "as diferentes
tóicos como "sensistas e nominalistas"(p. 295). Ver formas que toma um substantivo, um adjectivo ou
também Manuel de Costa Freitas, "Conceptualismo", um pronome, segundo as diferentes funções (sujeito,
in LOGOS - Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, complemento directo, indirecto, de posse, determina-
Volume 1, Lisboa: Verbo, 1989, que classifica o es- tivo, circunstancial)."(p. 22) (itálicos nossos).
toicismo antigo como "conceptualismo empirista"(p.
1083).

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Peirce e o signo como abdução 21

Doutrina dos signos aparece como sistema modelizante primário


Os Estóicos distinguem entre signos come- (Lotman), no sentido em que, no dizer de
morativos (que associam dois eventos ob- Barthes, "qualquer sistema semiológico se
serváveis, por exemplo "fumo"e "fogo") e cruza com a linguagem".62
signos indicativos (em que o signo remete Em termos de teorias contemporâneas, po-
para algo não observável, por exemplo "o deria traduzir-se a relação entre termo lin-
riso"que remete para "o contentamento"). guístico e signo natural recorrendo ao mo-
Em qualquer dos casos, é central a noção de delo hjelmesleviano da conotação 63 a um
inferência, feita com base na associação que 1o nível, denotativo, a palavra /fumo/ (E)
resulta da experiência (p => q). Mas o signo remete para o conteúdo "fumo"(C); a um
(p), de que se retira a inferência (q), não é 2o nível, conotativo, E/C torna-se expres-
um evento físico, mas a proposição em que são que conota o conteúdo "fogo"(semântica
se exprime (não "o fumo"mas "Ali há fumo"; intensional dos termos), a proposição "Há
não "o riso"mas "O João está a rir"). O signo fogo"(semântica intensional dos enuncia-
é uma proposição antecedente dos) ou, ainda, a proposição "então aqui
("Se ali há fumo..."; "Se o João está a há fogo"(semântica extensional dos enunci-
rir...") que revela um consequente ("...então ados).
há fogo"; "...então está contente"). Este tipo
de inferências, feitas por todos os homens,
no seu dia a dia , releva de uma logica utens
(do utilizador), não de uma logica docens
(teórica). Na linguagem de Peirce, poderá
dizer-se que o signo é tipo (relação geral en-
tre fumo e fogo) e não ocorrência (relação
entre este fumo e este fogo particulares).
Sendo o signo um lektón (proposição), ele
conta-se também entre os "incorporais".

Relação entre doutrina da


linguagem e doutrina dos signos
A semiótica estóica une, assim, doutrina da
linguagem e doutrina dos signos (embora os
Estóicos ainda não digam que as palavras são
signos): todo o signo se revela como uma
proposição, toda a proposição implica, na
sua organização, a utilização da sintaxe ló- 62
Roland Barthes, Elementos de Semiologia, Lis-
gica que regula os signos, e que só se torna boa: Edições 70, 1977, p. 86.
63
visível através da sintaxe linguística. Poder- Ibidem, pp. 165-169. Ver também António Fi-
se-ia dizer que, para os Estóicos, a língua dalgo, Semiótica: a Lógica da Comunicação, Covi-
lhã: Universidade da Beira Interior, 1995, pp. 73-76

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