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Poetaria

O POETA CAIU MORTO

outras poesias e um pequenino conto

Felipe Koeller R. Vieira

Rio de Janeiro
2015
© Felipe Koeller Rodrigues Vieira, 2015.

Poetaria

O POETA CAIU MORTO


outras poesias e um pequenino conto

Felipe Koeller R. Vieira

Ilustrações do autor
Foto da Capa: Autor, 2014

Rio de Janeiro
2015

Edição do autor

Direitos reservados conforme a Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

3
Índice
Apresentação, 5 Amor Acorrentado, 50
Meu Destino, Suave Surto, Cantoria de O Balão, Farmacocinética do Amor, 51
Cantaria, 6 Meus Heróis, 52
“F”, Um Dia Desses, 7 A Borboleta, 53
A Pantera-Sereia, 8 Pena: Gravidade, 54
Sublime Céu, O Que Você Tem Feito, 9 Poema da Concepção, 55
O Lado Oculto, 10 Última Fotografia, 56
Bala Perdida, 11 O Que Será de Mim, 57
O Enigma, Poetaria, 12 O Poeta Caiu Morto, 58
A Morte Heróica, 13 Espinho Cravado, 59
Epitáfio Poético, Anjo Tarado, 14 Vagabundo, 60
Enterro no Mar, 16 Camaleoa, Ins, 61
Pares em Amor, 17 Espelho, 62
Aproveite para Amar Agora, 18 Galada, 63
Poesia Bela, 19 É Foda, Réquiem D’Uma Órbita Solar, 64
O Nome do Sentimento Que Te Aflige, 20 Risca e Rabisca, 65
O Preço do Sangue, 21 Precisão Precisa (conto), 66
Sabe a Vida, Cerveja com Alface, 22 Não Me Negue a Poesia, 68
Triste Montanha, 23 Curto Curtidas, 69
Sonho em Par, Poesia Póstuma, 24 A Minha Amada, 70
Alfajores, 25 Brincadeiras, Resumo da Ópera, 71
A Solidão do Tolo, Amor Armado, 26 Pequenina Menina, 73
Noite no Theatro, 27 Então É Isso, 74
Soneto sem Conserto, Bom Menino, 28 Amantes, 75
Têmpera Temperada, 30 Picolé de Índio, 76
Poema Trabalhista, 32 Mulher de Poeta, 77
Poetaria II, 33 Lavando a Alma, Titia Senil, 78
O Cio da Gatinha, Menino Valente, 34 Pecado, 79
Pensar na Velhice, 35 Discurso Pro Lixo, 80
Soneto de Celular, O Cheiro, 36 Será, 81
Cemitério Amoroso, 37
Reticências, Chiclete, 38
Poema Aliterado, 39
Meditação, 40
Mido, Vá, 41
Gatoiaba, 42
Amar ou Não Amar, 43
Onde Está, 44
O Príncipe, 45
Redondas Redondilhas 46
Cantada Cantada, 47
Loucura, 48
Vazio, 49

4
Apresentação

Esta obra é uma coleção de poemas compostos para publicação em


uma página no facebook chamada de Poetaria.

www.facebook.com/poetariafkrv

A mesma começou de forma totalmente despretensiosa, apenas como


uma maneira de guardar os poemas escritos no celular ou no computador,
inspirados pelos mais diversos pensamentos e fontes. A repercussão dos
poemas, os comentários, as curtidas de pessoas conhecidas e desconhecidas
estimularam a criação desta pequena edição, iniciada em concluída em duas
horas de trabalho defronte ao computador.
Obviamente, eu gostei dos poemas. Não de todos por igual, mas mais
de uns do que de outros. Também não houve revisão de texto, ortográfica ou
gramatical. Saiu do jeito que está aí. Por favor, sejam complacentes com os
erros e com o estilo.
Tem um pouco de cada coisa que há em mim. Coisas explícitas e coisas
ocultas. E coisas que eu tento ocultar, mas que são óbvias para muitas
pessoas que me conhecem... Enfim, são poemas. Não necessariamente,
confissões de culpa ou preferência. Gosto, também, de brincar com as palavras
e com as idéias. Tenho tido também bem um gosto gostoso pelas aliterações
lidas aqui e ali e escritas sem crítica ou cri-cri.
Eu comecei a escrever poemas no celular usando o whatsapp. Troquei
muitos haicais, ainda não publicados, com uma amiga distante. Quando migrei
do whatsapp, que é feito para comunicação, para um aplicativo de notas para
celular, os poemas cresceram de tamanho. Pode-se dizer que as sementes de
haicai germinaram em sonetos e outras formas poéticas maiores e mais livres.
De qualquer forma, esta foi o meio de criação deles.
Estão organizados em ordem cronológica, e possuem a data de criação
ao final, por pura conveniência, uma vez que foram “cortados” e “colados” da
Poetaria FKRV diretamente para o editor de texto.
Enfim, não me alongarei mais aqui, visto que a poesia é uma via turva,
que nunca é de mão única, mas de mão dupla. Sua beleza cabe tanto ao autor
quanto ao leitor, que as degusta, interpreta e vivencia de acordo com suas
próprias experiências, expectativas, visão de vida e gosto.
Gostei de compô-los, acredito que eu vá continuar com isso.
Espero que vocês gostem e façam bom proveito da leitura.

Felipe.

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2015

5
MEU DESTINO

Meu destino
É vagar sem destino
Desatino
Destemido e franzino
Enfrentando o mundo
E seus perigos tiranos
Desatando os nós
Que nos atam ao chão
Como a um balão
Que solto, clandestino
Ascenderá ao céu
E acenderá a esperança
Nos corações meninos.

FKRV - 21NOV2014

SUAVE SURTO

A poesia me veio
Como sangue na veia
Como ouro no veio
Como leite no seio
Como brilho na vela
Como as velas no mar...

FKRV - 21NOV2014

CANTORIA DE CANTARIA

Escrevo poesia no whatsapp


Enquanto a vida concreta
Cimenta-se ao meu redor.

FKRV - 21NOV2014

6
"F"

de Felipe
Mera letra
Efêmera
Sem mérito
Sem elipe
Que a limite
Em elipse
Sem nada

FKRV - 21NOV2014

UM DIA DESSES

Adorei sua cara de espanto


Quando eu, no canto
Sem ser um santo
Te pequei de jeito
E ajeitando num ponto
Alcancei o peito
Abracei seu tronco
Entrei quase bronco
Fundo e calmo
Como um lago
Tornando largo
O nosso encontro

FKRV - 21NOV2014

7
A PANTERA-SEREIA

- Contramestre, quem vem lá por boreste?

- Não sei, marinheiro, vamos checar!

- Timoneiro, roda o leme para o norte.


Mantenha a proa.

- Rizem a grande, enrolem a genoa...

- Proeiro, guarneça o croque, vamos içar da água o que é


que estiver lá.

- Senhor, venha ver! É uma quimera-do-mar... parece


fantasia dos meus olhos me enganando! É uma cruza de
pantera com sereia...

- Meu Deus, tomem cuidado, homens! Não a façam


acordar... Esta é a Jerusa! Ela vai roubar o coração de
todos a bordo com seu olhar de águas negras...

- Mas capitão, ela está se mexendo...

- Estamos perdidos!

- Só nos resta esperar nosso destino: uma vida inteira


subjugados pela sua força avassaladora...

- Nunca mais nos livraremos. Óh, Senhor, por quê?


Estamos fadados a termos para sempre, sobre a mente,
os olhos enfeitiçados pela pantera-sereia...

- Que venha a nós nosso destino, homens. Nossas almas


já não nos pertencem, escravizados que foram nossos
corações pela visão de tão formosa Deusa.

8
E assim, depois do incauto ato de salvamento, o barco
lentamente foi descendo, descendo, até ser envolvido
pelas águas...

Até hoje, quem navega por ali ouve o canto apaixonado


dos homens de Jerusa e reza ao Senhor para poder ter a
benção de um destino como aquele: viver para sempre
envolto nos braços de uma Deusa-Feiticeira.

FKRV - 02SET2014

SUBLIME CÉU

Amo-te,
meter-te,
meteoriticamente
comer-te,
cometa!

(Em referência ao primeiro pouso de uma sonda


terráquea em um cometa)

FKRV - 21NOV2014

O QUE VOCÊ TEM FEITO?

Ando escrevendo...
... escrevo andando...
.......andevo escrando...
...........escravo trabalhando...
.............sob a pena do peso da pena...

FKRV - 22NOV2014

9
O LADO OCULTO

O lado oculto
Da tua lua
Me dá ares de astronauta

Redonda lua que


Como tua
Atua oculta
Como imagem de um
culto
Oculto
Onde escuto
O sussurro
Dos seus lábios
Num convite:

- Me possua, A tua lua


pois minha lua Oculta
oculta Redonda
é toda sua... Na via-láctea
No rodopio
Dos lençóis
Da sua cama
É a tua lua
Onde pouso
Talentoso
Meu repouso
No interior
O cu lto
Redondo
Redundo
Da tua lua

FKRV - 22NOV2014

(Poema incidental, A Bunda, Que Engraçada, Carlos


Drummond de Andrade)
10
BALA PERDIDA

Me retiro em retiro
Tiro ou não tiro
Espiritual respiro

Piro ou não piro


Vitória de Pirro
Ritual vampiro

Bala perdido
Reencontro achado
Carneiro balido
Acachapado
e baleado

Respiro.

FKRV - 22NOV2014

11
O ENIGMA

Eu poeto
Tu poetas
Ele lê

O sol nasce
A lua nasce
As estrelas estão
Sempre lá
Brilhando

O enigma
Segue...
Automático
Enigmático

Eu poeto
Tu poetas
Ele lê.

FKRV - 23NOV2014

POETARIA

Palavra vai
Ideia vem
Palavra vem
Ideia vai

Pavraia tem
Idenha pai
Ideia tem
Ordenha vai

12
Pensa mais
Relaxa vem
Ideia vai
Palavra tem

Ideia nem
Palavra pão
Apenas tem

A pena à mão
Afaga vai
Quideia vem

FKRV - 23NOV2014

A MORTE HERÓICA

Era lindo subir ao céu


Suas asas eram minhas
Seu motor, minha potência
Avião, você sou eu!

Unidos num arrepio


Minha coragem, sua braveza
Juntos, só rodopios
Seu metal, minha certeza

Dependurados no espaço
Por um fio de amor
Voando até tarde
Aerodinâmica vontade

E para selar a união


Como se fosse um casamento
Despencamos ao chão
Arrebentamos no cimento

13
Não falem mal de ti
De mim, também não falem
Se dentre os anjos caí
Comigo até o fim
Estava você, também

Se há uma tristeza
Não é pela saudade
Mas a indizível certeza
De negar suas asas
A mais uma tarde.

FKRV - 23NOV2014

EPITÁFIO POÉTICO

Vai-te, morte, que eu ainda estou forte


Não é a morte que se vai
A gente é que se vai nela
A morte esvai

(para Maria Aparecida Morand, in memoriam)

FKRV - 10NOV2014

ANJO TARADO

Ao comando divino
Crescei e multiplicai-vos
Cresceu o desatino
Dentre todos os povos

Quando então um menino


Viu pela primeira vez
Pela fresta, correndo
Um par de seios, em nudez

14
Cresceu nele uma vontade
Um fogo, talvez
De possuir tal beldade
E matar de uma vez
Toda a curiosidade

Por Deus ou caridade


Que ela uma vez permitisse
Saciar sua fome
De beijar sem pressa
Toda aquela carne

Se à imagem de Deus
Foi feito o homem e a mulher
O fogo que sente é sagrado
Não há porque escolher
Se castidade ou agrado

Obedeça ao comando
Obedeça, meu filho
Pois é com todas amando
Que perceberás meu brilho

Veja que coisa feliz


Pois aceitando o comando
Escapou por um triz
De viver pecando

O que Deus quer é amor


Não há nada mais sagrado
Seja um anjo tarado
Que o diabo é viado.

FKRV - 24NOV2014

(Sem conotação homofóbica, por favor!)

15
ENTERRO NO MAR

Barcos e mais barcos


No fundo do mar
Naufragados

Vestígios de um povo
Que mais não há
Que não vive cá
Que não nada

A cada casco
Que afunda
Cai sobre nós
Aqui no fundo
Um destroço

Do povo que não vive


Que aqui não respira
Que não nada na água
Que não peixe
Que não vive
Que não beija
Que não ama

Porque o marujo não vive


Nunca está aqui
Nunca está lá
Sempre a navegar
Sempre a pescar
A tirar de nós
Nossos amigos
Nossos pais peixes
Nossas mães peixes
E os amigos camarões

Pois a cada barco a naufragar


Mais uma alma a sufragar
16
A colher os votos da vastidão
Da imensidão
Da planície
Do fundo
Do mar

FKRV, 24NOV2014, Picinguaba-SP

PARES EM AMOR

Quem vai à festa da família?


Perguntou a minha prima
Você e seu amor
O pai, a mãe e a filha
A avó e o avô

Até o cachorro e a cadela


A gatinha e o gato
São como uma rima,
Juntos dão uma escapadela
Ou então dividem um rato

Mas até a periquita


Em exame recente dos ovos
Comprovou-se irrequieta
E conseguiu-se a prova
Até então impensável,
Em exame do DNA
Mas obtida de modo irrefutável
Dum comportamento de danar

17
Pois aquela passarinha
Capaz de para sempre amar
Também deu uma passadinha
Bem pra fora do pomar

E os ovos bonitinhos
Dos periquitos em casal
Criados com tanto carinho
E livres de todo mal
Completam de verdade o ninho
Mas foram feitos com o pardal

Então minha resposta


Para a festa da família
É que vamos eu e meu filhote
E completando a passada
Vai também meu amor eterno
Em vigor na data aprazada.

FKRV - 25NOV2014

APROVEITE PARA AMAR AGORA

Meu amor, sendo meu


Ainda é por inteiro seu
Porque não poderia amar
Sem ter, no peito, ar

Assim você fica


Dentro de mim, inteira
Então fica a dica
Pára de bobeira

18
Por que a vida é breve
É coisa que se a aproveite
De forma branda e leve

E se demorar muito
Ao invés de um namorado
Vais beijar um defunto!

FKRV - 25NOV2014

POESIA BELA

Se eu pudesse,
E você aceitasse,
Cada sopro meu
Seria um respirar seu

Se você soubesse
Do que sinto uma parte
Saberia que sem a arte
Talvez eu não respirasse

Porque no coração
Tenho um amor contido
Que sem explicação,

Talvez um amor bandido,


Não chega a virar canção
Mas é com poesia sentido.

FKRV - 25NOV2014

19
O NOME DO SENTIMENTO QUE TE AFLIGE

O nome do sentimento que te aflige


É solidão
O monstro que te persegue
Que te espreita, então
É apenas o mundo que te engole

Por que viemos só


E o abraço que existia
Por chegar antes ao mundo
Se vai embora antes, algum dia

Sem seu amor, fica difícil


É como viver sem ter calor
Ser pilar de um edifício
Sem ter a rocha embaixo

A mãe, referência presente


Se vai para a memória
E quem fica é que sente
Como faz falta essa história

FKRV - 25NOV2014

20
O PREÇO DO SANGUE

Quanto custa a morte


De um herói valoroso e forte
Um verdadeiro cavalheiro
Que desafiava a sorte?

Isso vejo todo dia


Em torno da chama quente
Que, em fogo ainda ardia
No local do acidente

É muito triste investigar


O porquê de um desastre
Do aviador que não pousará

Mas apesar do revés


Tudo iria piorar
Se da tragédia ao invés
De algum ensinamento tirar
Sobrassem apenas lágrimas
E alguém a criticar.

FKRV - 25NOV2014

21
SABE A VIDA

Sabe a vida?
Às vezes ela é chata
Às vezes é sofrida,
Às vezes é ingrata...

E cada um de nós nela?


Cada um sabe de si mesmo
Porque mesmo numa galera
Você pode se sentir ermo

Então, o que fazer?


Você, eu não sei,
Mas eu, resolvi escrever

Não resolve nada, não


Mas, ainda assim,
É melhor que solidão.

FKRV - 27NOV2014

CERVEJA COM ALFACE

Um chope ou uma cerveja?


Quem sabe, talvez, um vinho?
Pode ser no Rio ou Fortaleza
Demorado ou devagarzinho...

Um tempo pra gente conversar


Bater um papo, se conhecer
Vento pr’os coqueiros balançar
E qualquer coisa para comer

Me parece boa ideia


Má não é, com certeza
E, se a coisa ficar feia
Podemos fritar calabreza
22
É até engraçado o que se come
Batendo papo sem saber o nome
Da pessoa que está ao seu lado
Só coisas para dar asco,

Pizza, batatas fritas, churrasco


Enfim, tudo que é errado.
Mas não dá é para beber cerveja
Comendo alface e nabo

FKRV – 27NOV2014

TRISTE MONTANHA

Uma montanha triste


Que estava no caminho
Nunca quis um ninho
De uma aeronave morta

Ah, aviador descuidado


Por que não virou pro lado
Ou subiu mais alto?
Só me viu num sobressalto

Quando não havia mais tempo


Espatifou seu avião
Em cheio no meu flanco

E eu, que não queria, não


Ainda tive o contratempo
De te enterrar, irmão.

FKRV - 28NOV2014

23
SONHO EM PAR

O sonho de uma vida


Bem pode servir para duas
Se com alegria incontida
Encontrar seu par nas ruas

Serena como o orvalho


Macia como uma pluma
Forte como um carvalho
Gostosa como a espuma

Meu amor ideal


Tem tudo de bom
Num sorriso angelical

E consegue esquentar
Todo o meu coração
Apenas com seu olhar

FKRV - 28NOV2014

POESIA PÓSTUMA

Poesia póstuma
Feita ligeiro
Antes que o coveiro
Feche a tumba

Sem luz no caixão


É ruim de enxergar
Como vou acertar,
Meu irmão,

A conjugação,
A rima, a flexão
E todas as coisas
24
Da vida que tive? Então
Corro para escrever
Essas palavras em vão.

FKRV - 28NOV2014

ALFAJORES

Alfajores, alfajores
De argentinos amores
De amores, as juras
Dos amores, as curas

Doces amargores
Amargos amores
Danças de tango
Tangidos suores

Em cada milonga
Em cada casal
Um doce de leite

Chocolate e tal...
A mais pura fantasia
De uma noite quente e fria

FKRV - 29NOV2014

25
A SOLIDÃO DO TOLO

Como pode uma sereia


Tomar ares de medusa
Sonho tornar-se areia
Coisa que não se usa

Inteligente virar tolo


Sentimento virar pó
Depois de tanto rolo
Ficar completamente só

Não há nada de errado


Dentro de mim, eu sei
Mas, coração ferrado,

Tentei tanto, e me ferrei.


Não me sinto mais curado,
Meu progresso, desandei.

FKRV - 28NOV2014

AMOR ARMADO

A metralha diz ao arco e flecha


Enquanto eu à esmo atiro
Sua sinceridade me desarma
Sua mira serve ao cupido

Tiros, tantos tiros, desperdício


Tiros de trajetória torta
Para se acertar o alvo
A precisão é o que importa

Arco e flecha e metralha


Lança chamas, bomba
Granada, mina, faca
26
Nada nunca espalha
Tanta gente que se ama
Quanto um beijo na boca

FKRV - 28NOV2014

NOITE NO THEATRO

Toda a magia das artes


Toda a beleza da vida
Uniram-se consortes
Na orquestra ouvida

Eu e meu filhote,
Meu filho e seu paizinho
Sentamos no camarote
Plenos de amor e carinho

Uma noite de magia


Uma noite de amor
E a cada sinfonia

Uma bela surpresa


Escondida nos acordes
Da mais incrível beleza

FKRV - 28NOV2014

(Alusão ao Concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira,


Tributo a John Williams, no Theatro Municipal do Rio de
Janeiro, dia 08 de setembro de 2014, assistido junto com
meu filho)

27
SONETO SEM CONSERTO

Dentro de mim há dois corações


Que estão numa briga eterna
Com a ferocidade de leões
Sempre me passando a perna

Se um coração ama
Outro logo desdenha
E a flor, nascida em rama
Num instante, definha

Por que corações em atrito


Matam todo o amor que há
Restando eu, aflito!

Essa guerra parará?


Algum dia terei alento?
Ou minha vida é procurar?...

FKRV - 28NOV2014

BOM MENINO

Mãezinha bonita e pobre


Desiludida desde cedo
Cuidou de toda sua casa
Graças a Deus, foi forte

Desde cedo via a mãezinha


Saía tarde, cedinho chegava
Sempre cheirosa, ia ganhar o pão

28
O pão nosso de cada dia
Era pau, porrada, cuspe, dedada
E ela, mesmo sem querer, fazia
Tudo que o cliente pedia
Ela, mesmo sem gostar, sorria
E ganhava o pão nosso, de cada dia

Todo dia
Pão nosso que o diabo amassou
E Deus abençoou
Era pobre, era bonita
Era sobretudo nobre
A mãezinha aflita

E seu filho
Limpo, honesto, educado
Foi sempre criado com mimo
Seu bom menino
Aprendeu com ela
A ser bom, honesto e reto

Adulto, andava pela cidade


Vejam só que disparate
O filho da puta
Distribuía caridade

FKRV - 01DEZ2014

29
TÊMPERA TEMPERADA

Pessoas glaciais
Frias como gelo
Do espaço sideral
Polares
Setentrionais
Meridionais

Pessoas tropicais
Quentes, ardentes
Fogueiras
Como o núcleo do sol
Equinociais
Equatoriais

Pessoas temperamentais
De pimenta
Ou hortelã
Temperadas
Quem aguenta?

A água agüenta
Benta
Corrente
Borbulhante
Gasosa
Purificada
Ozonizada
Oxigenada
E boricada

Sabores da vida
Amores
Suores
vida vivida
Bandida
Desvalida
30
Válida
Plena
Inválida
Finita
Água

Aquarela
Aguarraz
Aqui
Jaz
Caqui
Jasmim
Fim

FKRV - 01DEZ2014

31
POEMA TRABALHISTA

O engenheiro de segurança
Muito cioso de seu trabalho
Perguntou, seguindo a lista
Ao pintor surrealista:

Conhece os riscos do seu trabalho?

Arrisco um risco arisco


Riscado como um corisco
Respondeu ríspido
O pintoso pintor

Ok, marcou o engenheiro


Em sua extensa lista
O pintor risca e arrisca
Ser mordido de aranha
Ao pintar o seu letreiro
Sem sequer sentir a manha

De subir assim tão alto


À altura de um pinheiro
Nascido bem no topo
Da mais elevada montanha

Levado pelo vento leve


Que leva de leve a neve
Neva, e junto com a neve
Se mistura a cinza e a lava
Formando mistura breve
Que gruda e não se lava

32
Pois ao risco de queda
O pintor também sofre
A perigosa sina azeda
De ser também sem sorte
E para ter seu trabalho findo
Findar-se também na morte

FKRV - 01DEZ2014

POETARIA II

Poeta tecendo um poema


Palavras com muita rima
Se divertia, até mesmo ria
Pensando em tanta putaria

Por que poesia não é pura


Poesia nem é limpa
O verso é como se tatua
A pele de uma estátua

A sexta forma de arte


Usando a terceira
Sobre a quarta

E quem não entendia


Nem explicação pedia
Uma busca fazia na wikipedia

FKRV - 01DEZ2014

33
O CIO DA GATINHA

A gata era feiosa


Seu nome era Léa
Apelidada de porcaria
mas até era charmosa

Léa entrou no cio


Mas era gata sozinha
Assim, por dias a fio
Mia, mia, mia, mia

Ficava com pena da gata


E também dos vizinhos
Pois é uma vida ingrata

Pois ao meio de tantos mios


Nem mesmo um gatinho
Pra apagar esse pavio

FKRV - 02DEZ2014

MENINO VALENTE

O menino era valente


Mais do que muita gente
E muito, muito forte!
Pros seus irmãos, o norte

Tão veloz que alcançava


O pensamento dos outros
E disso nem cansava
Apesar de ter nascido depois

E que voz de trovão!


Fala mansa e serena
Direto ao coração
34
José Marcos, Zeca
Em sua vida terrena
Foi bem mais que um sapeca!

FKRV - 01DEZ2014

(Em homenagem ao meu Tio Zeca, caçula dos meus


avós Henrique e Nair, que viveu 21 anos com muito amor
e paralisia cerebral)

PENSAR NA VELHICE

Por que o tempo passa


Pensar no futuro importa
Não só pensar no nosso
Mas no futuro do pretérito

Os avós de hoje
São pais pretéritos
Os aposentados
Trabalhadores pretéritos

As velhinhas
Gatinhas pretéritas
De saias justas

Como seria justo


Preterir o preferido pretérito?
Só por que o tempo passa?

FKRV - 02DEZ2014

35
SONETO DE CELULAR

Quatro versos, mais quatro


Duas estrofes já prontas
Soma mais duas de três
Está pronto um soneto

Essa arte do poeta


De compor na métrica
Não importa o assunto
De flor até defunto

Diz-se que é arte nobre


Fala-se que é difícil
Mas, num instante se descobre

Que por acaso do destino


O tamanho da tela
Do celular cabe certinho

FKRV- 02DEZ2014

O CHEIRO

Qual a função da fundação?


Qual o significado do signo?
Qual o apelo do pelo
Quando somos pegos
Por um sorriso singelo?

O som tem sono? ou não?


A manteiga tem o pão?
E se num arroubo
Eu roubo
Seu coração?
36
Pensa numa prensa
Que esprema limão!
Com cachaça e açúcar...
Delícia, meu irmão

E o fogo no fogão?
O cheiro do tempero
É de caranguejo com queijo!

FKRV - 03DEZ2014

CEMITÉRIO AMOROSO

A poesia que transborda


Todo dia dentro de mim
Me afoga e me engasga
Náufrago do mar sem fim

Meu coração é um solo fúnebre


Onde se enterram os corações
Das mais antigas paixões
Amores tão longos e breves

Consciência e arrependimento
São âncoras que puxam meu
Bote salva-vidas para o fundo

Morto e destroçado me afogo


Destino triste, pavoroso, funesto
Mas muito menos qu'eu mereço

FKRV - 03DEZ2014

37
RETICÊNCIAS

Reticências
Consciências
Reminiscências
Retas
Ciências
Reticentes
Cientes
Mentes
Entes
Tes
&
S
...

FKRV - 03DEZ2014

CHICLETE

Motocicleta
Ciclope
Chiclete
Motochicleta
Moto
Contínua
Continua
Móvel
Moto
Mobi
Mobi Dick
Dick
Dick Vigarista
Vigarista
Seu filho
Que vende chiclete
38
Na avenida
Foi pego
Pela motocicleta

No céu
Sem chiclete
Vai brincar
De patinete

FKRV – 08DEZ2014

POEMA ALITERADO

O poeta letrado
Escreve um poema
Aliterado
Ali terá som!
Da aliteração
Nem em
Alter-do-Chão
Haverá alteração

Em inglês, filho é son


Só mineiro diz sô
So, my son, letrado
Lerá inalterado
Todo som que há
Aliterado ou não

E por todo lado


Alterado
Ou inalterado
Aliteradamente
O poeta
Sente...

FKRV – 08DEZ2014
39
MEDITAÇÃO

Tenho aprendido que crescer


Faz a calça pescar siri

Que crescer
Faz o cabelo
Dia após dia
E o cortamos

Se crescermos sempre
A cama fica pequena
E as pernas escapolem à noite
Do lençol
Os pés gelam
E por uma misteriosa relação
O nariz
Coriza-se

FKRV – 08DEZ2014

40
MIDO

Deprimido
Reprimido
Comprimido
Apertado
Espremido
Esquecido

E com medo
Muito medo
Mido
Não meço
Somente
Peço

FKRV – 05DEZ2014

Vapap!

Utaqueupa...

Riu?

FKRV – 05DEZ2014

41
GATOIABA

Da goiabeira velha
Velha como a infância
O gato pula pra telha
Por que lhe deu na telha

E a goiaba bichada
Desprezada pelo bichano
Vai virar goiabada
Num pote tapado c’um pano

Se o bichano
Ao invés de virar churrasco
Fosse posto no pote

Não seria nem um fóssil


Nem doce de goiaba com gato
Talvez, simplesmente, nada fosse

FKRV – 08DEZ2014

42
AMAR OU NÃO AMAR

Amar ou não amar


Como vou saber
Amar é só trepar
Só buscar prazer?

Como saber amar


Se na escola
Não há mar
E, por mais que se saiba
Amar
Amar o mar
Não é se afogar

FKRV – 08DEZ2014

43
ONDE ESTÁ

Presente, cadê?

Você sempre está aqui

Mas cadê?

Me mostra!

Traz aqui...

Você está sempre presente, Presente

Mas...

Onde está o Futuro?

FKRV - 05DEZ2014

44
O PRÍNCIPE

Inteligente, bonito
Ardente, febril...
Será ele maduro
Ou um amor pueril?

Mil e uma noites


Mil e um sonhos
Dois mil e dois
Sonhos e prazeres

É culto e cultua
A inteligência
E a vontade sua

A mulher que o conheceu


Se deu muito bem
Ou se fudeu!

FKRV - 05DEZ2014

45
REDONDAS REDONDILHAS

Acabei de acordar
Num espetáculo espetacular
Sobre uma fábula fabulosa
Do céu celestial

Uma fera feroz


Violentou violenta
Uma florida flor
De bela beleza

A histórica estória
Contava a epopéia épica
Do reinado real do Rei

Ao final finalmente findava


Num noturno crepúsculo
De rara raridade

FKRV - 05DEZ2014

46
CANTADA CANTADA

Te canto num canto


Contando um conto
De canos desencanados
Cantando cantos

Viramos, de viragem
Vibrações vibrantes
Como uma virgem
Numa viagem de antes

Sonoros sons ressoam


E meu coração me espanca
Como a sina de um sino
Que martelado por dentro, soa

Um desencantado encanto
Perpassa de passagem
Nosso passado

Fomos, não somos, sofro

FKRV - 05DEZ2014

47
LOUCURA

Loucura, loucura, loucura


A lua, louca
Cura

Lunática curandeira
Fanática
Fã asmática
Faz tanto
Que tanto faz

Se cura ou não cura


Para de frescura
Quem sabe talvez
não cure
O afã da fã do The Cure
De vez

FKRV - 05DEZ2014

48
VAZIO

Vazio
Como o vácuo

Como um vazinho
De uma flor
Morta

Como o nada que se diz


Para quem se vai

Vazio

Como o nada

Vazio vai só

Vazio
Vaisó

FKRV - 05DEZ2014

49
AMOR ACORRENTADO

Ouvido no bicicletário:
Não sei se caso
Ou compro-me...

Enquanto isso,
O patinete que caiu
Por cima do velocípede
Foi preso por pedofilia

A bicicleta vagabunda
Deu a roda para outra
E o triciclo, coitado
Foi acusado
De bigamia

FKRV - 08DEZ2014

50
O BALÃO

FARMACOCINÉTICA DO AMOR

Oxitocina
Excita
A menina

Dopamina
Dopa
A mina

Serotonina
Será to-
da minha

Para o genro
Adrenalina
Que não para
A nora

Noradrenalina
Para...

FKRV - 09DEZ2014
51
MEUS HERÓIS

Marconi, Pascal
Maxwell, Dalí
Amundsen, Strauss
Ygor Sikorsky

Dumont, Noel
Lavoisier, Paracelso
Newton, Galileu
Euclides, Tchaikovsky

Pasteur, Descartes
Socrates, Hawkins
Ravel, Carl Rogers

Chuck Eager, Epicuro


Lillienthal, Darwin
Armstrong, Homero

FKRV - 10DEZ2014

52
A BORBOLETA

De flor em flor
Cuidadosamente
Como se escolhesse
Seu amor

Voa borboleta
Voa com o vento
Voa sempre alto
Voa sua rota incerta

Nasceu com as lagartas


Já dormiu no seu casulo
Aproveita suas asas

Voa pelo mundo


Espalhando belezura
Encha meus olhos de candura

FKRV - 10DEZ2014

53
PENA: GRAVIDADE

Pobre avião sucateado


Sem motores, cauda, asas
Largado no pátio do aeroporto
Velho abandonado em sua casa

Vê o céu que não mais domina


Sofre a chuva, não sente o vento
Ouve os motores mas não vibra
Outros voam, pousam, desalento

Seus parabrisas não podem ver


As paisagens e nuvens brancas
Pneus não tocam outras pistas

És imóvel, corroído, estático


Quebrado, doído, incompleto
Estorvo, inútil, sofrido, terrestre

FKRV - 10DEZ2014

54
POEMA DA CONCEPÇÃO

Um dia, com amor, te concebi


No primeiro dia da sua vida
Eu estava lá
O cordão do seu umbigo
Eu cortei
Seu primeiro choro
Eu ouvi
Seus primeiros passos
Filmei enquanto você ria
Para o primeiro dia
Te trouxe à escola

Meu filho, hoje é o último dia


Do primeiro ano
Da sua escola
Você agora sabe ler
Você já escreveu para mim
O mundo se abre diante de ti

Livros, músicas, filmes, idéias, conceitos


Histórias épicas, dramas, tragédias...
Quem sabe como será o mundo?
Melhor? Pior? Quem sabe?
Ainda temos muito tempo juntos
Ainda faremos muitas coisas juntos

Até o meu último dia


E para o futuro de seus filhos
Eu tentei, de coração,
Fazer a minha parte
Este é o presente da minha existência
Para eles e para o mundo:
Você.

FKRV - 11DEZ2014

55
ÚLTIMA FOTOGRAFIA

Bom dia, pessoas felizes


Vão viajar? Fazer um passeio?
Voar de avião? De helicóptero?
Bom dia.

Que tal morrer agora?


Aceitam?
Querem?
Quem sabe se essa foto
Sorridente de todos juntos
Será a última?
(Sem contar as do legista)

Como saber que o passeio dos sonhos


Terminará em tragédia
Medo
Terror
Desgraça

Quem pensa nisso?


Quem antecipa as tragédias?
Quem sempre pensa no pior,
Para garantir a segurança?
A segurança de todos
A sua segurança
A segurança de voo

Quem estuda, cuida, pensa,


Antecipa, verifica, inspeciona,
Vistoria...?

São eles...
Os Deuses da anti-gravidade!

FKRV - 13DEZ2014

56
O QUE SERÁ DE MIM

O que será de mim


No poente da história?
Será também o fim
De toda essa glória?

Onde se perde a inocência


Que vem conosco ao mundo?
Em que ponto da infância
O limpo se torna imundo?

Possível não é mais


O torto se fazer reto
Pois não se conserta

Nem com o maior esforço


Não se endireita jamais
Quem foi ao fundo do poço!

FKRV - 16DEZ2014

57
O POETA CAIU MORTO

Saiu assim, o poema


Inteiro, pronto, torto
E nem bem baixou a pena
O poeta caiu morto

Morto de tristeza
De desilusão, de cansaço
Morto por sentir a perda
De quem lhe amparava o braço

Alguém que de alguma forma


Continua lá, mas está em falta
Pois não ve mais o poeta

Com olhos de poetisa


E para navegar em sua rota
Prefere outro mar e outra brisa

FKRV - 17DEZ2014

58
ESPINHO CRAVADO

Ao final, se deu por satisfeita


Partiu desta para outra
Se sentindo refeita
Se sentindo melhor

Tal qual a roseira


Que crava um espinho
Na mão do jardineiro
Que recolheu a rosa

Tatuou sua lembrança


Com gosto amargo
No coração e mente

Do amante e, sem cobrança,


Disse-lhe que o amou
Mas não perdidamente

FKRV - 17DEZ2014

59
VAGABUNDO

Era tão vagabundo


Que jogando xadrez
Dava cheque-mate
Com cheque sem fundo

Seu sentimento não servia


Pois mesmo sendo bom
Bonito e gostoso, não havia
Uma só que aceitasse o tom

E assim ele seguia a vida


Às vezes junto, outras só
Se sentindo miserável

Saía, bebia, dançava


Uma ou outra, conquistava
Em sua vida descartável

FKRV - 18DEZ2014

60
CAMALEOA

Na vida
Uma camaleoa

Na cama
A Leoa...

FKRV - 20DEZ2014

INS

Inspirado para a ação


Inspiração
Piração
Pirotécnica
Ação
São
Inspirados
Para
Ação
Ins Pira Ação

Inspiração!

FKRV - 20DEZ2014

61
ESPELHO

Quando palavras se arranjam


Em certa ordem e algum sentido
Muitos afirmam: é poesia
Eu não sei, não tomarei partido

É um espelho do poeta?
É um tipo de confissão?
Ou apenas uma forma careta
De expressar opinião?

Que fale também da gente


Ou disserte sobre outro
Mas mostre, sinceramente

Que mesmo estando errados


Temos que agir livremente
Para não sermos comandados

FKRV - 16DEZ2014

62
GALADA

Um pombo galou a pomba


A galinha viu aquilo
Olhou para o galo
E ele... nada

A galinha ficou empombada!


O galo, nada bobo
Preparou para a galinha
Uma noite de gala

Trouxe a lua
Iluminando o galinheiro
Trouxe a brisa
Refrescando de leve
Reservou o melhor poleiro

E a noite, foi-se chegando


Para perto da galinha
Pé ante pé
E no pescoço
Uma bicadinha

Assim, com toda a pompa


O galo galou sua galinha
E ela se sentiu mais especial
Que aquela pomba galada
E bem melhor
Que uma galinha
Empombada!

FKRV - 21DEZ2014

63
É FODA

É foda quando a pessoa


Acha que o poeta ama
Só por causa da poesia

Se assim fosse
Só haveria drama,
Nunca fantasia...

FKRV - 22DEZ2014

RÉQUIEM D’UMA ÓRBITA SOLAR

É... começou mais um


Espero que vá tudo bem
Comigo e contigo também
Não sou nenhum guru

Mas neste ano


Nascerão bebês
Partirão vovôs
Beijar-se-ão amores

A cada volta do planeta


Em rodeio da estrela sol
Não é ele que fica tonto
Pois nos olha com destreza

Nós que na nossa tontice


Própria das cabecinhas humanas
Damos com a mesma na pedra
Repetindo a mesma tolice
64
De achar que o ano é novo
Se nós fizermos o mesmo
É negar a renovação
Para cada antiga ação

Pois a galinha põe um ovo


Para a gente guardar num cesto
Assim é o ano novo
Eterno palimpsesto

FKRV - 05JAN2015

RISCA E RABISCA

Risca e rabisca
Não pensa
Não pisca
Levanta da cadeira

Senta e rabisca
Que risco!
E se te pega a bisca?

Não te salvas
Nem o bispo
Batendo palmas

Salva tua alma


Risca e rabisca
Mas esconde teu rabicho

FKRV – 05JAN2015

65
PRECISÃO PRECISA

Senhores passageiros, aqui vos fala o Comandante.


Dentro de, aproximadamente vinte-e-um minutos
pousaremos no Aeroporto de Brasília. Vamos acertar
nossos relógios pois, no tempo que fiquei falando, já se
passaram trinta e dois segundos, então, o pouso será em,
aproximadamente, vinte minutos e vinte-e-oito segundos,
vinte-e-sete, vinte-e-seis...

O tempo no destino é bom. O tempo para


chegarmos lá é de dezenove minutos e dez, não, nove
segundos.

Por favor, desliguem todos os aparelhos eletrônicos,


com exceção dos relógios de pulso digitais e os
marcapassos cardíacos, exceto se você agüentar o
fôlego até lá...

Ponham suas poltronas na posição vertical e


fechem e travem a sua mesinha. Não pensem que isso é
só para deixar o avião arrumado, ou por que as forças do
pouso podem amassar sua coluna vertebral... Que
besteira. É só por uma questão de tempo: tempo para
todo mundo sair do avião caso ele se esborrache na pista
e comece a pegar fogo. Se cair de bico e todos morrerem
amassados, não há problema. Apenas algum retrabalho.
As equipes de emergência vão cavar, cavar, cavar...
desenterrar vocês todos... lá no fundo eu e meu
companheiro, o copiloto, para depois sermos enterrados
de novo, para o choro e conforto de nossas famílias.
Depois... os advogados!

Pois bem, nesta lenga-lenga, já estamos quase


pousando. Faltam nove minutos e trinta e seis segundos,
não, trinta e cinco... Por favor, parem de chorar e
arrumem logo essa bagunça, o tempo se esvai rápido.

66
A temperatura em Brasília é de dezoito graus. Não
peguem seus casacos ainda. Mantenham os
compartimentos de bagagem fechados. Do avião até a
esteira de bagagens é um longo caminho se paramos
junto ao terminal, porém não fará frio. Já se pararmos do
outro lado do pátio, neste caso, sugiro colocarem os
casacos. O vento está moderado.

Nada que atrapalhe o pouso que, aliás, já, já,


acontecerá, mas pode diminuir a sensação térmica para
catorze ou treze graus. Daí é frio do lado de fora do avião,
exceto se houver fogo ou explosão. Espero que não
aconteça.

Mais dois minutos e três segundos. Todos


desligaram seus celulares? Não adianta mandar
mensagem dizendo que ama sua família, ela já deveria
saber disso! De qualquer forma, como saber se é
verdade ou não? Melhor sobreviver ao pouso e contar
isto pessoalmente.

Pousamos?

Eu realmente sugeriria ao pessoal do marketing


que colocasse outra musiquinha para o filmete de
chegada... Essas harpas tocando e os violinos sempre
me lembram o paraíso... Se bem que eu acho que iria
para um lugar mais quente.

Dizem que quem é bom na terra, vai para o céu. Eu


sou piloto, dizer o que mais além disso?

Foi um prazer possuí-los a bordo, um bom dia a


todos e espero vê-los novamente voando pelos ares
conosco!

FKRV - 10DEZ2014 - 05JAN2015


67
NÃO ME NEGUE A POESIA

Não me negue a poesia


Por pura futilidade
Nem comigo se torne fria
Por causa da vaidade

Aceite-me sendo um poeta


Pleno de sinceridade
E caso um pecado eu cometa
Será o pecado da castidade

Pois peca quem deserda


De toda a graça e vontade
A boca a ser beijada
E os lábios de uma beldade

Pois morro bem morto


Pecador sem pecado torto
Que respeita seu amor
Como quem abraça a verdade

FKRV - 05JAN2015

68
CURTO CURTIDAS

Amo quando você curte meus poemas


Não que eles sejam grande coisa
Alguns nem valem a pena
De ser coisa que se leia

É que os sinais do seu retorno


As marcas de que esteve aqui
Aquecem meu peito morno
Como Peri, ao ver Ceci...

Será assim que platonicamos


Um tele-amor presente?
Deixando web-marcas
Na densa cyber floresta digital?

Só sei que gosto


E curto as suas curtidas
Curtindo ao quadrado
Me sentir um poeta amado

FKRV - 08JAN2015

69
A MINHA AMADA

Linda... e as vezes, triste


De uma clareza essencial
Minha amada traz sempre
Na face, um sorriso angelical

Me acalma por inteiro


De toda a dor me alivia
Me embriago em seu cheiro
E onde antes nada havia

Eu agora ali via


Uma casa e um lar
Para onde retornar

Com peito cheio de amor


Aconchegado e quente
Agora sou seu, para sempre

FKRV - 24DEZ2014

70
BRINCADEIRAS

Compus um poema
Pensando em você
Que não fala do passado
Pois o futuro é um bebê

Para ser cuidado


Com amor e carinho
E nós, lado a lado
Construiremos o ninho

Para nossos filhos


Onde crescerão brincando
Como bons amigos

E, escondidos dos dois


Também nós brincamos
Brincadeiras de casais

FKRV - 24DEZ2014

RESUMO DA ÓPERA

Cai o pano
A platéia, de pé, aplaude
A soprano beija o ar
Sorrindo e acena

A moça que se matara


Após um canto tão belo
Agora ressuscitara
Após a última cena
71
Amanhã morrerá de novo
Entre agudos e solfejos
E, no meio do povo
Escutará gracejos

Linda voz, interpretação divina


Cantando a história
Do marinheiro que noivou
E enganou a menina

E após seu casamento


Sumiu no mundo
Como uma estrela
Que cai do firmamento

Ao voltar ao Japão
Encontra a moça crescida
E a borboleta se suicida
Com uma faca no coração

Pois seu marido a traiu


E veio levar seu filho
Ela, cantando o estribilho
Do palco, e da vida, saiu

FKRV - 08JAN2015

(Obra incidental: Madame Butterfly)

72
PEQUENINA MENINA

Assim, pequenina menina


Sempre com um sorriso
Como um sol que ilumina
Esse corpo gracioso

Faceira, espevitada
Ora alegre, ora brava
Sempre bonita
Sempre levada

Ela briga e grita


Bate no chão o pé
E diz: não me irrita

Depois me abraça e beija


Com seu anel de ouro
Dançando em minha cabeça

FKRV - 08JAN2015

73
ENTÃO É ISSO

Então, é isso
Acabou
Tudo tem um fim
Como teve um começo

Sentimentos
Sensações
Cimentos
Balões
Tudo tem seu fim
Como teve seu começo

Nosso começo
Um tropeço
Amoroso, surpreendente
Abençoado tropeço

Seguido de um amasso
Um monte de amassos
E, de rosas, maços
E beijos no pescoço

E na boca fica assim


Um gosto de quero mais
E a sensação chimfrim
De que sua boca, jamais...

FKRV - 07JAN2015

74
AMANTES

Num susto perguntou


Quer ser meu amante?
É o que nos restou
Não dá para ser como antes

Lembrei com saudade


Dos tempos despreocupados
Ao vê-la no fim da tarde
E ficando toda noite ocupado

Assim já não mais posso


Parti para outra mas
Cachorro não larga o osso

Por mim, sem grilo


Podemos dar uns amassos
Mesmo correndo perigo

FKRV - 08JAN2015

75
PICOLÉ DE ÍNDIO

Por uma graça do destino


Um índio mudou para o gelo
Saiu da praia de mansinho
E foi para a neve, nu em pelo

Pobrezinho do curumim
Pensou que era esquimó
Agora olha para mim
Com um frio de dar dó

Calma, calma, indiozinho


Espere que o sol vai voltar
Só não passe frio sozinho

Aqueça-se dentro do lar


Pois amor alimenta a alma
E traz, ao frio, uma calma

FKRV - 08JAN2015

(Para meu irmão, Kicão, em seu primeiro inverno


canadense)

76
MULHER DE POETA

É foda ser mulher de poeta


Fica insegura, parece pateta
Nunca sabe se a musa da rima
É a esposa, namorada, amante
Ou uma mulher da esquina

Como se tudo o que se pensa


Tudo o que se escreve
Seja coisa que se faça
Não podendo o pensamento
Ser apenas coisa de momento

Se eu escrever que sou rico


Pelo menos menos pobre fico?
Caso fale da morte, desalmada
Serei uma alma penada?

Pois relaxe, meu amor


Você é uma mulher de sorte
Todo mundo sabe de cor
Que cão que ladra, não morde!

FKRV - 08JAN2015

77
LAVANDO A ALMA

Planejei este carnaval


Pra fazer retiro espiritual
A bebida está gelada
Sagrado néctar de cevada

Chamei uma menina


Para ser sacerdotisa
A carne está temperada
Pronta para entrar na brasa

A meditação na rede
Em ritual sagrado
Cerveja para matar a sede

E a sacerdotisa de meu agrado


Com seu corpo, o meu unge
Em um preito de desbunde

FKRV - 09JAN2015

TITIA SENIL

Titia tá ficando senil


Trocou o telefone da afilhada
Trancou um gato no canil
Sai de casa atrapalhada

Pinta cabelo na manicure


Corta as unhas na cabeleireira
Mas não há merthiolate que cure
Tanta loucura e tanta besteira

Titia amada, não exploda


Deixe o fogão na cozinha
Pois disseram que quietinha
78
Destruiu a cozinha toda
Mas todos nós te amamos
E, de tanto rir, choramos!

FKRV - 08JAN2015

PECADO

Você é viciante
Sua pele macia
Me enlouquece
Fome que não sacia
Corta como gilete
Fogo que aquece
Não há noite vazia
Dia que amanhece

Aluna com maestria


Faz com perfeição
Tudo que o mestre manda
Pede, implora, comanda
Chora, gargalha, faz cantoria
Beija, suga, espalha
Segredos, sussurraria
Ou melhor
Gritaria
Aos sete ventos
Aos sete céus
Com sete véus
Sou
Todo
Seu

FKRV - 14JAN2015

79
DISCURSO PRO LIXO

Amor, o que eu quero te dizer


É algo do seu interesse
Não que ninguém o dissesse
Mas cabe a mim o fazer

Em relação ao assunto
Quero tratá-lo com carinho
Pois nós dois, em conjunto
Resolveremos tudinho

Não há porque brigar


Uma vez que ambos
Concordamos em concordar

Assim, nós conseguimos


Resolver tudo, nos amamos!
Basta conversar, sem ser prolixo...

FKRV - 14JAN2015

80
SERÁ?

Por que não ter nada sério


Por que não confiar?
Foi alimentando os lobos
Que foram criados os cachorros

Salta de pára quedas


Quem não tem medo de cair?
Ou é melhor escapar
Antes do avião explodir?

A verdade é nossa escrava?


"Quem não teme os fatos
Não se assusta com palavras"

Ou um grande erro comete


Quem com sinceridade fala
Mas, na verdade, mente?

FKRV - 14JAN2015

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© Felipe Koeller Rodrigues Vieira, 2015.

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