COLONDINA A ENFERMEIRA DO QUILOMBO
Esta é a história de MARIA DE COLODINA, mãe de santo, curandeira, benzedeira,
parteira e, já nos últimos anos de vida, enfermeira, por artes e graças do dr.
Drumonnd, de Camaçari, Bahia. Infelizmente, a maioria das pessoas que
conheceram COLÓ já faleceu, restando poucas, talvez umas dez, para prestarem
noticia, assim mesmo vagas, da mais caridosa das almas que já habitou o
povoado de Montegordo.
MARIA DE COLODINA, mais conhecida por MÃE COLÓ, filha de ex-escravos,
fugidos ou libertados por seus senhores, nasceu por volta de 1860 e faleceu em
1945, vivendo toda sua vida em Montegordo, onde até hoje, é lembrada, ou
melhor, venerada como um anjo de bondade, candura e caridade. Dedicou toda
sua existência, todos os minutos de sua extensa vida, a cuidar dos outros,
próximos ou não, sacrificando, não digo sua vida particular, porque isso ela nunca
teve, mas tudo o que nós reles mortais, chamamos de prazeres mundanos. Nunca
casou ou pariu filhos, embora, adotivos os teve uma penca. Suspeita-se que ela
viveu um grande amor, um amor platônico, casto, fraterno, fiel e que durou para
sempre, todavia não nos adiantemos.
O que era Monte Gordo, topônimo igual ao de uma vila do Algarve, litoral sul de
Portugal, na época do nascimento de MÃE COLÓ ? Um Quilombo, na verdadeira
acepção da palavra, valhacouto de negros fugidos? Acho que não, pois demais
perto da Casa da Torre, castelo de Garcia d’Ávila e num local impossível de ser
defendido militarmente, prefiro crer que fosse uma área de terra doada ou
distribuída a escravos libertados, provavelmente filhos do senhor ou dos seus
capatazes portugueses com as escravas destinadas aos serviços sexuais
dos mesmos.Isso deve ter se dado quando da decadência da Casa de Garcia
d’Ávila, no século XVII e XVIII. O que nos leva a formular essa hipótese é a não
predominância da cor negra e a existência de pessoas de cor clara, descendentes
de famílias radicadas no local a tempos imemoriais. Outra observação, é a divisão
de terras, toda ela em pequenas roças, possíveis de suprir a subsistência da
família, não havendo grandes propriedades, com poucas exceções. Aliás, não
havia nem propriedades, havia “posses”. Se o “posseiro” necessitasse, venderia o
coqueiro ou o pé de piaçaba existente no terreno. Passando a ser essas arvores,
mercadoria de uso corrente. Por causa dessa divisão de terra, não se formou uma
vila, no sentido lato da palavra. Não havia um arruado, se quer um aglomerado de
casas, de taipa e cobertas com palmas de piaçava, todas dispersas, embora perto
umas das outras, ao alcance de chamados vocais. De vila, mal tinha uma igrejinha
e um descampado em forma de praça, nada parecendo com a “agora” dos gregos.
Não havia nenhum sinal de progresso e civilização. Não havia estradas, luz
elétrica (1980), telefone (1987), água encanada (1998), posto médico ou policial,
nem escola de qualquer grau e o ensino apenas, do ABC e das quatro operações,
era feito precariamente, por professoras leigas em suas próprias casas.
Sobre a população, o historiador local, Adelmo Borges dos Santos, faz a seguinte
apreciação : “ A forma de convivência das pessoas tinha como principio
compartilhar voluntariamente a vida. Era considerada mais importante a
sobrevivência do grupo que o individuo. Os membros do Quilombo viviam e
trabalhavam de forma comunitária e todos os benefícios do trabalho era
compartilhada (os chamados mutirões ou muxirões – nota do autor) ). As decisões
eram tomadas conjuntamente, bem como os cuidados com as crianças,
preservando-se os vínculos especiais entre os pais biológicos e filhos”. E,
continua: “Muito religiosos os escravos tinham como padrão adorar a natureza e,
em suas manifestações e cultos à mesma, encontravam a razão e a presença de
DEUS. Respeitavam e prestavam devoção principalmente às entidade
relacionando-as com os fenômenos naturais…”.
A alimentação era praticamente gratuita: Criavam bois e vacas, bodes e cabra.
porcos e galinhas. Peixes, camarões e pitus eram do mar, lagoas e rios,
caranguejos tirados dos mangues. Farinha de mandioca era feita em alegres
mutirões, frutas, verduras e temperos de suas próprias roças, o sal vinha do mar.
Faziam alguns tostões levando o excedente desses produtos para vender na feira
de Camaçari e, com eles, adquiriam a essencial cachaça, o gás para o candeeiro,
pão e biscoitos, o tecido e aviamentos para costurarem suas próprias roupas etc .
Como vemos, os habitantes de Montegordo viviam, salvo pouquíssimas exceções,
em estado de miséria, mesmo para os padrões da época. ERAM, ENTRETANTO,
FELIZES E SABIAM DISSO MUITO BEM.
Neste ambiente, nasceu e viveu o primeiro ano de vida, a menina COLÓ.
Mantendo nos anos da juventude, a pureza de procedimentos dessa pura
sociedade, cedo se manifestando seus sentimentos de amor ao próximo,
externados pelos seus cuidados com as crianças e a preocupação com os
desvalidos e doentes. Ainda menina, era a ela que os vizinhos recorriam, quando
necessitavam de uma “babá” ou de alguém que “olhasse” um enfermo. Era o seu
destino sendo traçado e a ele se entregou e seguiu até o ultimo instante de sua
longa vida.
Filha de uma “Mãe de Santo”, seguia todos os preceitos da sua religião, tornando-
se no devido tempo uma “Filha de Santo” e, posteriormente com a morte de sua
mãe, assumiu a chefia da casa, do Terreiro, Yle-Ansã-Ofunjá, mas delegava
muitas de suas obrigações às suas “Filhas”, para que pudesse dedicar atenção,
quase integral, às grávidas e parturientes, às crianças e aos enfermos. A quem a
criticava por isso, dizia:
– – Iansã (orixá dos ventos, tempestades e morte) e Osaê (das folhas medicinais e
litúrgicas), fizeram a minha cabeça e me dizem que minha missão principal é
cuidar dos outros.E pegava da parede, o cetro com rabo de cavalo, o sacudindo
para espantar os espíritos do mal que provocam perturbações físicas e psíquicas
nas pessoas que subjugam, gritava sua saudação: “Eparrei Iansã !”
Interessada desde pequena aprendeu com as curandeiras e rezadeiras, os
segredos milenares do uso das ervas e das palavras santas. Nas técnicas, nos
usos e costumes das velhas parteiras e “ aparadeiras ”, introduziu melhorias,
principalmente a perfeita higiene e assepsia, passando a ser a preferida de todas
as parturientes. A mesma higiene que pregava para as crianças e utilizava no
tratamento dos “seus” doentes. Hábil costureira fechava os feios cortes que a
profissão impunha aos pescadores, usava ungüentos de sua fabricação própria e
com ele curava as piores feridas. Possuía um estoque inesgotável de pomadas,
pós e ervas para chás milagrosos para todos e quaisquer males, desde dor de
cabeça, espinhela caída, menstruação desregulada e até unha encravada.
E ia muito bem, tratando e assistindo seus pacientes, respeitados e queridos por
todos, quando lá pelos anos 20, teve que acompanhar um enfermo, pessoa das
mais gradas da localidade, para consulta com um medico na cidade de Camaçari,
já que suas benzeduras não tinham produzido efeito. O transporte do doente, na
falta de um veiculo automotor, foi feito numa rede suspensa num caibro levado por
dois fortes negros e MÃE COLÓ foi caminhando, “de peis”, toda a viagem
segurando na mão do desvalido, que não a soltava um instante. Nos três ou
quatro dias quanto durou o tratamento, ela não arredou pé do lado da sua cama,
fazendo sua higiene, ajudando o doutor em tudo que fosse preciso. O medico, Dr.
Drumonnd, muito conceituado em Camaçari só a tratava por “Enfermeira”, termo
que até então nunca ouvira e ao dar alta ao paciente, fez questão de lhe
presentear seu retrato, com dedicatória que dizia: “À enfermeira, Dona Colondina,
com a admiração do Dr. Drumonnd, fev/1923”. Narciso, do Amarelinho e Lourinho,
marido de Linda, ainda lembram do retrato, já esmaecido pelo tempo, que ela
mantinha pendurado na parede da sua “sala de visitas”.
Ao voltar a Montegordo, MÃE COLÒ, avisou a todos que daí em diante o
tratamento que lhe era devido, seria: ENFERMEIRA COLÓ, graças ao diploma
que lhe havia sido outorgado pelo Dr. Drumonnd e apontava para o retrato na
parede. E passou a usar sempre, roupas brancas e para distinguir do branco “de
preceito” das “filhas de Oxalá”, pregou uma baita cruz vermelha no bolso de sua
blusa, sendo chamada pela sua “clientela” de FERMERA COLÓ. E alem das rezas
e benzeduras, passou a distribuir “amostras grátis” que o bondoso medico lhe
mandava de Camaçari, para as doenças mais corriqueiras, dores de cabeça,
barriga e quartos, impaludismo, eczemas etc, mas sempre fazendo questão de
explicar:
– – Minhas rezas e poções são fortes, mas tome esses remédios que o Dr.
Drumonnd me deu, que é para ajudar à minha benzedura!
A sua grande magoa, entretanto, foi o fato da família do Sr. Rafael Vieira, pai de
Joãozinho, dar preferência a uma sua concorrente de Barra do Pojuca, embora
mantivessem excelentes laços de amizade.
Dizia com orgulho, que nunca havia recebido um tostão sequer pelos seus
serviços, entretanto confessava que, com os adjutórios ofertados, mantinha a si e
aqueles a quem ela ajudava.
E por muitos anos ainda, continuou dividindo seu tempo entre o candomblé e sua
profissão, e agora, ajudada por um forte rapaz a quem chamava de filho, que
diziam que foi o seu grande amor, puro e platônico. Até o dia de sua tranqüila
morte, nem uma vez sequer, negou-se a atender aqueles que lhe procuravam.
Seu sepultamento se constitui no maior acontecimento de todos os tempos na
região. Além de toda, mas toda mesmo, população de Montegordo, vieram
delegações de todos os povoados visinhos, como Barra do Jacuipe, Jordão, Barra
do Pojuca, Arembepe, Jauá e até Abrantes. De Camaçari, veio uma delegação
encabeçada pelo prefeito e pelo velho Dr. Drumonnd. Todos os terreiros de
Candomblé se fizeram representar e com seus atabaques e cantos das yalorixás
acompanharam todo o cortejo, que foi recebido na porta da igreja de São Bento,
ao lado do Cemitério, pela Filarmônica de Camaçari e sob intenso foguetório, pois
comemoravam a subida de MÃE COLÓ aos céus, ocupando seu merecido lugar
junto a DEUS e aos seus ORIXÁS.