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Capítulo 7: Análise do Comportamento e Terapia Analítico-comportamental

Convém explicar, primeiramente, que a Análise do comportamento é um saber


que integra produções filosóficas, reflexivas, interpretativas, empíricas e aplicadas.
Por outro lado, a Terapia analítico-comportamental é uma modalidade psicoterápica
baseada no conhecimento provindo da Análise do comportamento, desenvolvendo um
atendimento amparado em filosofia, princípios, conceitos e métodos da ciência do
comportamento.

Pressupostos Filosóficos

A Terapia Analítico-Comportamental (TAC) tem como importantes


pressupostos filosóficos, o comportamento e o ambiente, bem como sua forma de
compreender os sentimentos, pensamentos e sensações, e tendo uma visão monista
de homem e uma concepção materialista e interacionista dos eventos psicológicos.

O comportamento é compreendido como a relação entre que existe entre uma


ação e o ambiente no qual o indivíduo está inserido, focalizando as condições
antecedentes que possibilitam a ação, bem como as consequências que as ações
produzem no ambiente. Este, inclui tanto o organismo como o meio, correspondendo
a lugares ou objetos inanimados e pessoas com as quais o indivíduo interage. O
ambiente estabelece a ocasião (antecedente) para a ação (resposta) do
indivíduo que produzirá consequências no ambiente, determinando a
probabilidade de ocorrência de novas ações do indivíduo.

O ambiente determina as ações em 3 processos sobrepostos e associados:


filogêneses, ontogêneses e cultura. Ao primeiro, corresponde à seleção natural de
Charles Darwin, no qual o individuo mais adaptado tende a sobreviver e transmitir
seus genes, implicando uma seleção genéticas. Isso determina os
comportamentos, produzindo organismos com diferentes estruturas físicas e
graus de sensibilidades aos eventos ambientais, produzindo dois processos de
aprendizagem: Operante (variada sensibilidade a determinadas
consequências); Respondente (favorece ou não a ocorrência de respostas
incondicionadas).

Ontogêneses refere-se à seleção comportamental ao longo da vida do


indivíduo, dando-se por meio da interação entre aprendizagem respondente (eventos
passam a eliciar respostas do organismo, a partir da associação/pareamento com
eventos que já eliciam a mesma função) e operante ( O indivíduo age/opera sobre o
ambiente produzindo consequências que retroagem sobre o organismo, alterando a
chance de uma ação futura.). No primeiro, o ambiente age sobre um repertório
comportamental limitado. No segundo, há a possibilidade de criação de novos
repertórios comportamentais e de sua manutenção.

A cultura, para Skinner, é um caso especial da aplicação do conceito de


comportamento operante, no qual o efeito sobre o grupo, e não as consequências
reforçadoras para membros individuais, que é responsável pela evolução da cultura.
As práticas culturais têm origem na variação do comportamento individual, mas são
selecionadas por suas consequências para o grupo.

A concepção monista de homem adotada pela TAC, vê o homem como


constituído de uma única substancia e seu comportamento é um fenômeno natural.
Essa visão se opõe a visão dualista de que fenômenos psicológicos tem origem na
substancia imaterial. Assim, na visão monista, o organismo como um todo opera/age
sobre e interage com o ambiente, mudando o contexto e sendo mudado em sua
totalidade pelas consequências produzidas. O Terapeuta estuda o papel que o
ambiente desempenha sobre as repostas do cliente.

Devido a essa visão, pensamentos, sensações e sentimentos são considerados


como eventos de natureza material, mas que tem ocorrência privada. Os eventos
privados podem participar de fenômenos comportamentais, podendo envolver desde
fenômenos de base filogenética até os comportamentais complexos. Entre os eventos
privados estão as respostas encobertas, sendo ações executadas com a mínima
participação do aparelho motor, não sendo visíveis aos outros. Elas podem ser
emitidas para preparar o organismo para a emissão de uma resposta abeta mais
precisa, ou serem emitidas na ausência do estímulo que controla a resposta aberta,
sob controle de outros estímulos. Há, também, entre os eventos privados, os
estímulos privados que se encontram “sob a pele” e que interage com a ação do
indivíduo.

O caráter encoberto de certas respostas é transitórios e dependente de certas


condições socioculturais. A emissão de respostas cognitivas na forma encoberta e
observação das condições corporais nos episódios emocionais favorecem uma
concepção “errônea” (não monista) de sentimentos e pensamentos como ocorrências
internas aos indivíduos. Cabe ao terapeuta um exame da dimensão relacional dos
sentimentos e pensamentos. Os terapeutas analítico-comportamentais veem os
pensamentos, sentimentos e sensações como informações relevantes para a
compreensão do fenômeno comportamental, investigando-os e intervindo sobre esses
relatos por quatro razões: Muitas vezes são eles que levam o indivíduo à terapia;
eventos privados são culturalmente apontados como motivos dos comportamentos;
respostas verbais descritivas de estímulos privados são indicadoras de eventos
ambientais relevantes; a história de interação com o grupo social modela a relação do
indivíduo com eventos privados e sua descrição.

Pesquisa e Terapia Analítico-comportamental

Três núcleos de atividades devem ser destacados na análise do


comportamento: a pesquisa básica, que tenta descobrir as leis naturais que regem o
comportamento (exemplo: lei do condicionamento operante); pesquisa aplicada, que
testa as diferentes maneiras pelas quais os resultados da pesquisa básica podem ser
aplicados na intervenção frente a problemas humanos relevantes; e por fim, a
prestação de serviços que consiste na utilização dos dados obtidos na pesquisa
básica e aplicada para a solução de problemas humanos (exemplo: a terapia analítico-
comportamental).

Assim, neste último, o terapeuta usará adequadamente o conhecimento,


identificando as contingências associadas aos problemas ou queixas do cliente,
norteando assim a intervenção terapêutica. Em clínica, é difícil focar em um único
comportamento, observando-se a existência de múltiplas classes de comportamento,
enquanto que em um experimento, é possível selecionar uma variável independente
e ver seus efeitos sobre uma variável dependente. Assim, tanto na pesquisa quanto
na intervenção clínica, observa-se o efeito de variáveis múltiplas sobre diferentes
respostas. Contudo, o primeiro preocupa-se em isolar variáveis para a produção de
uma validade interna, mas que pode diminuir a validade externa, não correspondendo,
então, ao ambiente da prática clínica usual.

Análise de contingências

Contingência é uma relação de dependência entre eventos. Como o modelo


teórico desta abordagem descreve o comportamento em termos de um processo de
seleção pelas consequências, há de se ter em mente quatro elementos básicos para
a compreensão de um comportamento: as operações estabelecedoras (OE)
(estabelecem estímulos como momentaneamente reforçadores, evocando
comportamento que no passado foi seguido de tais reforçadores); os estímulos
discriminativos (estabelecem a ocasião na qual o estimulo reforçador será produzido,
caso a resposta venha a ser emitida; a emissão da resposta; e a apresentação de
estímulos como efeito contingentes à resposta.

Pode-se imaginar um episódio ideal de interação do indivíduo com o ambiente,


no qual aquele: está suficientemente motivado, ou seja, há uma OE); responde de
forma adequada à ocasião ( em sua história, houve uma consequência reforçadora
diante sobre certos respostas, ou seja, um contexto no qual existe a probabilidade de
sua resposta ser reforçadora – estímulo discriminativo); apresenta em seu repertório
a resposta a ser emitida; sua ação produz reforçadores positivos ou negativos.

Diante disso, a queixa trazida pelo cliente pode evidencia um problema em um


desses traços: O cliente pode não estar motivado para emitir resposta; pode não ter
controle de estímulos apropriados para estabelecer a ocasião para responder quando
o reforçador está disponível (história insuficiente ou ineficaz de reforço diferencial);
pode apresentar um repertório escasso; o ambiente pode dispor consequências
inconsistentes ou dispensar reforçadores para respostas, podendo produzir
estimulação aversiva.

A partir dessa organização, o terapeuta pode ter um panorama geral do caso


clínico, apresentando em sua interação uma variedade de comportamentos
classificáveis em quatro grupos: estabelecimento da aliança terapêutica, não tendo
uma ação punitiva, sendo um agente reforçador; postura profissional; coleta de dados
referentes às queixas apresentadas pelo cliente; procedimentos de intervenções
sobre os comportamentos alvos do cliente.

Etapas do Processo Terapêutico Analítico-Comportamental.

Uma vez sabido que o comportamento do cliente é uma amostra dos padrões
de interação que ele estabelece em um ambiente social, a modelagem de repertório
social, por meio de reforço diferencial seria a principal estratégia empregada pelo
terapeuta, dispondo de reforçadores sociais em que o cliente é sensível.
Processo de Reforçamento social

O simples fato de o cliente procurar ajuda deve ser um reforçador social. O


terapeuta, com seu status profissional que pode funcionar como um reforço social,
pode servir como uma operação estabelecedora, evocando respostas do cliente de se
engajar no tratamento. Esse reforço social que o terapeuta deve prover é relacionado
a uma ampla classe de comportamentos do cliente de se engajar em um processo de
mudança.

A audiência não punitiva é parte importante desse processo. O terapeuta deve


ouvir o relato do cliente sem nenhuma crítica ou julgamento, favorecendo que o cliente
fale sobre assuntos “difíceis”. O terapeuta se estabelece como ocasião para ocasiões
reforçadoras e para a remoção do controle aversivo, tornando a terapia como algo
desejável. Além de oferecer um contexto de acolhimento, ele deve demonstrar que
entende as relações descritas pelo cliente e que dispões de estratégias para ajudá-lo.

O processo pelo qual o terapeuta se estabelece como um reforçado é chamado


de constituição da aliança terapêutica, que deve ser estabelecida desde muito cedo
na terapia.

Coleta de Informações necessárias para a Avaliação comportamental

Paralelamente à aliança terapêutica, o terapeuta deve colher informações


sobre o cliente, construindo um panorama geral sobre sua queixa e outros aspectos
de seu repertório comportamental. Esse processo de coleta é pautado na análise de
contingencias relacionada à instalação e manutenção dos problemas trazidos pelo
cliente como queixa, determinando o desenvolvimento das intervenções. Vale
ressaltar que o trabalho clínico não é um processo linear, e que as 6 etapas
apresentadas não apresentam necessariamente uma sequência temporal de eventos.

A primeira etapa diz respeito à identificação dos problemas apresentados pelo


cliente. São levantados nesse momento, informações sobre habilidades e déficits
comportamentais, bem como aspectos ambientais facilitadores e problemáticos. AS
informações sobre habilidades e metas de mudança ajudam no planejamento de
comportamentos alternativos.

Além disso, há uma identificação dos comportamentos de interesse, que


consiste no primeiro passo para realizar a análise de contingencias. Nesse sentido, a
seleção do comportamento para análise pode ser molecular (focada na queixa) ou
molar (considerando a queixa com outros aspectos da vida). Para Ferster o terapeuta
deveria lidar com o repertório geral de comportamentos do cliente e não atentar,
prioritariamente para a queixa específica. O repertório geral inclui os excessos e
déficits comportamentais, além dos comportamentos saudáveis que o cliente tenha
de fato aprendido, mas que por alguma razão esteja ocorrendo em baixa frequência.

A ampliação da análise da queixa implica também na diferenciação entre


respostas e classes de respostas (conjuntos de respostas com topografia diversa, mas
com mesma função).

O passo seguinte é o da identificação de relações ordenadas entre variáveis


ambientais e o comportamento de interesse, bem como a identificação de relações
entre comportamento de interesse e outros comportamentos, coletando informações
sobre eventos que antecedem e sucedem o comportamento ode interesse e
identificando os eventos que exercem controle sobre as respostas analisadas.

A queixa do cliente com relação aos eventos antecedentes pode envolver falta
de eventos antecedentes adequados para emissão de repostas que produziriam
reforçadores, inexistência ou inadequação de um controle discriminativo (cliente não
identificar condições sob as quais certos comportamentos produziriam reforçadores).
Com relação ao responder do cliente, podem existir problema relacionados a
excessos comportamentais, déficits comportamentais ou comportamentos
intervenientes (que impedem a emissão de outras respostas mais efetivas)

Por último, com relação às consequências, podem inexistir as consequências


que seriam apropriadas para manutenção do comportamento-alvo, podem ocorrer
consequências concorrentes ou um controle inapropriado pelas consequências
(produz reforçador para o indivíduo, mas que é inapropriada para o grupo).

Estratégias utilizadas para a Coleta de Informações

As principais são: entrevistas e a observação no contexto da terapia. A primeira


é a parte integrante de qualquer modalidade de avaliação, podendo ser inclusive a
única estratégia utilizada para a coleta de dados. O terapeuta pede ao cliente que
relate eventos, sentimentos e pensamentos que estabeleça relação entre esses
eventos. O relato do cliente pode ser, muitas vezes, impreciso. Em caso de clientes
que chegam à terapia com suas próprias teorias sobre o problema, ou do relato ser
predominantemente a respeito de eventos encobertos, o terapeuta deve apresentar
questões de reflexão, produzindo informações para uma análise das contingências e
construir um novo repertorio discriminativo.

O relato de eventos privado pode ser utilizado como estratégia, no qual serão
estabelecidas, pelo cliente, relações ou analogias entre os eventos e episódios por ele
vivido, elaborando interpretações a partir das contingencias em vigor. O terapeuta
deve se interessar não só aos eventos descritos no relato verbal do cliente, mas
também à forma com que o cliente interage com ele durante a sessão, uma vez que
respostas abertas sutis do cliente podem ser indicativas de estados emocionais.
Dessa forma, o terapeuta deve estar atento às manifestações corporais do cliente,
que podem indicar sentimentos e emoções, e por conseguinte, de contingências de
reforço em vigor na relação terapêutica.

A transposição da análise de contingências para a intervenção

Aos poucos o terapeuta passa a dirigir sua intervenção a aspectos mais


específicos do responder do cliente, construindo condições para a mudança. Um
procedimento comum é o desenvolvimento do autoconhecimento, o qual o trabalho
do terapeuta possibilitaria que o cliente chegasse à condição em que não precisasse
mais do terapeuta.

Os problemas identificados nos elos da relação comportamental exigem do


terapeuta, diferentes estratégias de intervenção. Em caso de não existirem
antecedentes apropriados para a emissão de respostas, Kanfer e Grimm propõem a
modificação direta do ambiente atual ou a busca por novos ambientes. Follette sugere
que o terapeuta facilite esta descoberta pelo cliente e incentive sua participação em
ambientes mais ricos em oportunidades de interação.

Quando não há um controle discriminativo ou há uma inadequação deste,


Follete recomenda a modelagem de um repertório discriminativo ou desenvolva
repertórios comportamentais equivalente àqueles que ocorriam em ambientes
inapropriados. Kanfer e Grim, para o caso de controle inapropriado por estímulos
autogerados, sugere o desenvolvimento de treinos discriminativos.
No caso de excessos comportamentais, Kanfer e Grimm sugere o
desenvolvimento de respostas incompatíveis com a resposta que ocorre em excesso.
Em caso de déficts comportamentais, Kanfer e Grimm sugere uma intervenção voltada
para informação sobre o desempenho correto ou sobre padrões sociais para o
comportamento apropriado a determinadas situações, além de uma possível
modelagem por aproximações sucessivas. (modelação  terapeuta oferece modelos
de respostas para que o cliente os sigas).

Em caso de comportamentos intervenientes, Follete sugere que o terapeuta


observe a ocorrência destes comportamentos em exercícios de representação ou em
observação in vivo. Estas circunstancias devem será pontada para o cliente e o
terapeuta deve alterá-las.

Comportamentos do Terapeuta na Condução de Procedimentos de


Mudança.

Meyer propôs procedimentos básicos empregados pelos terapeutas para


promover a mudança de comportamentos: fornecimento de regras, auto regras e
estimulação suplementar; modelagem de repertórios. Os dois primeiros (regras e auto
regras) envolvem a especificação de alternativas de ação ou elaboração de
descrições de contigencias. A terceira, o terapeuta identifica uma propriedade do
estimulo discriminativo que controla uma resposta e torna mais salientes outras
propriedades do mesmo estímulo. O cliente deve, então, prestar atenção a outros
aspectos da mesma situação que pode aumentar a probabilidade de que novos
aspectos passem a controlar o comportamento.

O último dos procedimentos consiste na modelagem de repertórios por meio de


resultado direto dos comportamentos do cliente. A modelagem direta envolve desde
a audiência não punitiva do terapeuta, até a seleção de outras respostas sociais do
cliente, por meio de reforço diferencial. Meyer afirma que as “regras apresentadas
pelo terapeuta podem especificar claramente uma ação que o cliente deveria seguir,
ou prescrever uma tarefa terapêutica (nesses casos, seriam regras específicas), ou,
de forma mais genérica, especificar o resultado a ser atingido, em vez da topografia
da ação a ser executada (regra genérica).”. Goldiamond (1975) recomenda que o
cliente seja conduzido a elaborar sua própria análise, ao invés de recebê-la pronta.
Meyer (2004) e Zamignani e Jonas (2007) acrescentam outros problemas
quepodem envolver o seguimento de regras. Um destes problemas é o risco de que o
indivíduo venha a responder sob controle da regra e deixe de emitir respostas de
observação dos eventos que controlariam naturalmente a resposta em questão.
Fenômeno este conhecido como insensibilidade às contingências.

Em resumo as mudanças podem ocorrer por meio da alteração do controle por


regras e autorregras, por adição de estimulação suplementar, mas também por meio
da modelagem de novos comportamentos na relação terapêutica.