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UNIVERSITY OF TORONTO

by

Dr. António Gomes

Da Rocha Madahil

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SANTUÁRIO

MARIANO,

E Hiftoria das Imagens milagrofas

DE NOSSASENHORA,

E das milagrofamenteapparecidas 3 qiiefe veneraõemos

Biípados do Porto, Vizeu, & Miranda.

Em gra§a dos Pregadores, & dos devotos da mefm* Virgem , & Senhora.

TOMO Q^U INTO.

Que confagra, offertce, & dedica

AO ILLUSTRISSIMO SENHOR

D- JERONYMO SOARES,

Bifpo de Vizeu, do Confelho de Sua Mageftade,

Fr. AGOSTINHO DE S. MARIA,

VIGÁRIO GERAL DA CONGREGARAM DOS

Agoftinhos Defcalços de S. Agoftinho de Portugal,éf ChrO'

ifijta da mefma Religião, natural da Vúla de Ejlremoz,

Na Officina de

»

LISBOA,

ANTÓNIO

PEDROZO GALRAM

'

Com todas as licenças necejjanas.

Avvnode 1716.

./

V-

'**.

DEDICATÓRIA.

SENHOR.

Arte dos defejos a inventou difere ta a vontade , pa-

ra defeulpar as obras > com que ofendo ejta toda da

Soberana imperatriz da gloria Alaria Santiffi-

ma,parece fica oeiofa adijeulpa ; mas como o âmbi- to dos defejos , que na eh*, ma aehu n agradecido co-

ração fefragoa , tem diverjos motivas 5 pojjojaztr^ que nefla

§bra,qie he toda de Mar :a Santijjima 9fajM mftà occafiav a von-

tade pelo entendimento alguafineza. Não confagro eJiedomÇfe

pequeno no corpo y agigantado no affumptó) nas aras da grande-

za de V~ IllijÍriffima> movido do meu agradecimento , quemn-

daque efte he taofenhor da alma^ quepudejje mconfiderado fa-

zerme atrevido , não lhefaltai tanto as luzes razão ^ que nao

conheça^ que o pezo de tantos favor es > nemfe podem aliviar' com

retribuição de dons, nem minorar o pezo com aeção de graças.

Si tibi

(

fallo com vozes , &> (entir

de São Jeronjmo ) putem

gratias à me referri pofle , non fapiam , potens eft Deus fu-

per perfonamea , fanftseanimsetLisereftituere quod mere- ro *

-

tur. Egoenim indignus nèc^ílirnare unquam potui, nec

optare ut mihi tantumlargiremeífeftum.

Toda a minha Religião reconhece as honras , & os favores

que V. Ilhflrtjjima lhefezemRoma,amparando-a,patrccman-

do-a, & defendendo- a j & os que faz aos feus filhos quando che-

gai) a ejfe Palácio de V. Illujlriffima y aonde com afua eoftumada

piedade os regala ( como eu experimente)' indo a ejja Cidade 3 na

bemgnidadt}& agrado que achey em feus olhosQ & affim remeto

z

§

afatisfa-

êfwttfaçãofcom o mefmo Sa%Jer(mymo^ no fiador infinita*

mente rico>deyxando a divida impre/fa perpetuamente na, alma, fiâ%'a o meu agradecimento.

. Hxcmihifeixjper crunt imis infixa meduIKs»

je

Trifh

Jrcrpctiuisque animx debitor hiyus ero.

Dirij.o e/le quinto Torno dos Santuários de Maria SantiJ]Jma 9 em qnefe comprehmdtm os que neffa Diocefife veneram 3 a ter-

nura com que V. Illufiriffima afèrve, & a veneração com que a

JmReligioJa vida fe emprega em feus ohfeqmos , efmaltando a;

glorta defèugenerofaammoyá* a alteza de taofuprema dignida-

de $ mm o piedefa refplandor das fuás opera faes. Ofereço dehay-

*co de tantafoberama efles Santuários da Mãy deDeos,foUcitan-

delhe a abrigo dafombra de V.IlluJlriJJma , o afylo dajua au-

thoridade y & aghria dofeu nome ,feja natvoa r como com na*

tural impnlfiy a effa esfera dafuafeguridaâe : pois em V. llluf trifflma concorrem tantas prendas^motivos dofeu amparo, que

tm nenhum outro lhopoffo prometter maisfiguro.

Sendapois V. UlufiriJJlma tão Pay deffa Illuflre Dmefi , em

folicitar QsfeM$crcditos>& em dilatar afuafama 3 &

augmentar

afita honra-, na piedofa devoção y que toda tem com a Raitíha da

gloria y que em ordem a efiefim , nemperdoa trabalho > nemefatm

fa diligencias.

Tu ci vem* Patremque geras, tu confufe cu-n£tis>

Clara » Nec tibi nec tua te moveant, fed publica vota. ** Com que fendo efie o motivo y que teve o meu agradecimento*

fará confagrar à protecção de VJllufirijfima hnma obra tãopia 9

& ião devota y efpero ver adiantado > a medida dofeu zelo , o cul-

to y <& a veneração das Sagradas Imagens da Mãy de Deos y que

venera effa Diocefi. Profpere o Ceo a vida de F. Illufiriffima em

fua mayor grandeza j para credito deffa Igreja y & para engran- decer as dignidades que merece > & que com tantajuftificação &

ifperao.

HumildiíEmo Capelíaõ»& Orador de VJlIuíEriíUms

WvrJgoJlinhoieS^^^^

fnõnío dos t e#pos,q com a fua variedade tinhaõ arruinado; li confumido a invejofa antiguidade , como diífc o Poeta:

Tempus edax rerum , tuque inVidtofa Vetufías

Omnia confumis } (Sc.

Merece grande attenção a todos também efta fua armo-

nia de noticias, & doce confonancia de palavras, com que efereve , fenda cm tude muyto uniforme , & obfervante fem

affedação de hum claro > & lhano títylo ; & aflim não o fize^

ra grande o excelfo doaffumpto ,[fe lhe faltara a boa difpo-

íiçlo , & arte com que faz agradável para todos a material

TSlonfat ejl( s dizia Piinio o fegundo jinVenirepneclarè, emiti- PU*. %i

À

tiare magntficè, ( quod interdum barbar ifacerefolent) feddtfpo ** Pa-

nere apta } figuratè

Soube valerfe

}

Varie, hoc t nifi erudito, negatumejl*

negir*

dos Authores fidedignos>citando mas fen* *%

tenças fem oíFender a verdade , antes declarando a em favor

do que affirma, que com a força da razão, explicada com cla-

reza, & evidencia poflGvel , & modeflia Religiofâ deyxa fatis-í

íey ta^íblta toda a duvida, verificando fe aqui y q N. P. S

Agoílinho diz,no livro de dodcínaChriíiiana s Bloquem m

yerbisfuls agere debet À ut Veritas pateat Verita*, placeat , Vez

fitas moVeat,(J? tu pateat debet loqui clarèjtf placeat debet lo*

qiii compofitè,l? ornatèjit moVeat debet loqutferVenter.is de- Vote. Tudo iíiotem erte Tomo,como poderão teílemunhai?

os que o lerem y fem que fe encontre nelle coufa alguma con- tra a pureza de noíTa , & bons coíkimss 3 pelo que fe hz

digno da effampa que procura. Efk o meu parecer, V. R,

mandarão que for fervido. Lisboa, Convento da Boa Hor£

sm 15. de Dezembro de J709.

Súbdito de V. R*

Fr. Nicolao de Tclmino*

o

D Amos licença em quanto ao que nos to?a para qued

fupplicantepcflTadaràlmprenfa o livro de que trata a

petição íuprk Monte Qlmtc 29* de Abril 'Ar ryw.

Geral Vigário*

Do Santo Oííicio.

ILLUSTRISSIMO SENHO Rs

DE

mandado de V.llluflriflima vicflc quinto Tomo dos

Santuários niiíagrofos de Noffa Senhora 9 que compoz o Reverendo Padre Frey Agoflinho de Santa Maria, Exdefi-

nidor Geral Congregação dos Agoftinhos Defcalços , &

nãoacheycouía alguma contra noffa Santa Fé, ou bons cof-

tumesfilvo,&c. Lisboa, Convento de Noffa Senhora de JE-

SUS, 19. de junho de 171 o.

Fr. Jofeph do Efpirlto Santo:

VI

o quinto Tomo, que compoz o Reverendo Padre FcJ

Agoflinfto de Santa Maria, Exdefinidor gerai da Con-

gregação dos Agoítínhos Defcalços,que fe intitula, Santuá-

rio Mariano, das Imagens milagrofas de Noffa Scnhoraj

que fe venera© nos Bifpados do Porto , Vizeu ^& Miranda,;

& nelle não achey coufa alguma contra noffa Santa ,

bons co ftumes. Iflo me parece, falvo, &c. São Domingos dç

Lisboaemzi.de Julho de 1710.

Fr. António de Almeydai

VIftas as informaç8es,póde- fe imprimir o quinto Tomo

dos Santuários milagrofos de N. Senhora , de que fasg menção eíla petição,& impreffo tornará para fe conferir r K

dar licença, que corra, & fcmellanãg correrá. Lisboa 29,

de julho dei 71 o*

Monl^. Hafe- Monteyro, Ribeyre. Rocha*

Fr. Encarnação. ÍBamto.

DoOrcfc

Do Ordinário.

POdc- fc imprimir o quinto Tomo dos Santuários miía-

geofos de Noflt Senhora , de que trata efta petição, &

impreflo torne para fe conferir , & d*r licença que corra ,, &

fiem cila não correrá, Lisboa 24, de Setembro de 1710.

M.BijpodeTagaJte.

Do Paço*

S

E N

H

O

R:

OtJtravezbeyjo a Real mão de V. Nfagéííadepormc

repetir a honra de mnndarme rever huns livros, cuj*

lição faz g >ftofa toda a obediência, & cuja obra traz comíigo i

tndaaapprovação. Hfeefte livro quinto Tomo, quedo fe»

Marial,ouSantua^ioMarianoefcreve oM»R. P. FivAgof-

tinho de Santa Maria, iníígnc Chroniíh da fua Real Con-

gregação de Agoftinhos Defcalços , & Exdefinidor gcrtl dí

mefma Congregação- E fe jà a Águia de Ezechiel fe diz voa-

va fobre os quatro efpiritos di carroça , efte Author^qual

Águia por Agoílinho,& por filho de Agoflinho todo Aguía^. voa nefte Tomo quinto , & fe remonta fobre osfeuspri-

1 meyros quatro Tomos: Factes JqúiU defuper ipjorumqua-

tUQY.

Atèaqui me fufpendeoa vaflidão das noticias com que"

o Author * pezar das ruínas do cempo , excitou nas memo-

rias dos vindouros as tradições dos antepaíTadõsjporèlJi ho- je acho que huínv^ noticias cão iavefiigjivds , mais que ftu-

manamcnt&'

mmamentc adquiridas', me p^fecem divinãmêtrfe infpiradssí

Voou cila Águia gcne-rofa, & com incanfaveis peregrina-

ções , correndo de terra em terra , & difc©rrendo de monte

cm monte , fubio aos Cedros do Líbano ( ido faõ as Imagens

sltiílímasda Míy de Deo^) & dcírnterrando noticia?,iefeo-

brindo antiguidades ,& defenvolvendoduvidas ,©âo parou

até nãodefcntranharnamedulía do Cedro o âmago da ver-

dade : Veriít Libanum > ÍS tulitmedtdlamCedri. Gencrofa

Águia, de quem tomo do Pay que a gerou podemos dizec

agora : £tue obfcurapriusermt nobis plana faciens. Nefte livro pois, &nosjnaisque o Authorefcreve, naô

me parece haver coufa que lhe contradigs a eftampa ; fó fim ,

onãofuverletrasdeouroemque fe poffa imprimir ; ou ca-

rafteres de luzes em q fe pudeffe eflampar.Nelle o Author fe

acredita não iode Águia, mas Águia ReaI,pois comoChrõ-!

niíla q he da Mãy deDeoSjte jà na fui penna a fua coroa.Nem

merecia menos título que efte hum Heroe > que não he fi-1

lho, mas filho primogénito daquella Congregação , que per

fer fundada pela Real mão da Sereniífima Rainha Dona Lui^

Zh Avo que foy de V.Mageftade, logra em tudo os créditos

de Congrega ção Real ; & podem juntamente gloriarfe os fif?

lhos delia, ( & com mais razão efte ditofo filho ) que fem cm^

bargo | Senhor * de que os Reys não tem parentes , V, Ma*

gefkde, & eíles nafcèrão todos de hum mefmo bcrço,& bro*- tàraô de hum mefmo tronco. Por onde fendo efte o Author,'

& fendo o feu livro efte 3 me parece muytas vezes digno da

licença que pede. V» Mégeftadermndarà o que fer fervido»

Lisboa, Coiíegio de Santo Agoftinho em 6. de Dezembro de

1710,

Fr. Manoel de GovVea*

Q*

QUe fe pofTa imprimir , viftas as licenças do Santo OíBf

c»o, & Ordinário , & depois de impreffo tornará para te co :.fe r ir ,& taxar, & fero lílb não correrá, Lisboa tg» de

Dezembro de i/io.

E

OlíVeyra.

Lacerda.

Carneym

Cofia.

íBotelfo*

Sú conforme com p feu original, Saõ Domingos do

Lisboa em 31. de Julho de 1716.

V

Fr. António de Ahwyàa*

líloeftar conforme com o original póie correr* L&-

boa 18. de Agoílo de 171 5.

fí^. Monteyro. Wbeyro. Fr. Rodrigo Lancafire*

Gnerreyro.

P

T

Ode correr. Lisboa 2 1. de Agoílo de 171 6.

M&ifpo de Ta&ajte.

Axão efle livro em dous cruzados cm- papei. Lisboa 21.

de Agoflodci7i6.

Andrade.

.

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Mortinha* 2). Guedes*

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PREFACCAM

Exhortatoria

AO q^uinto tomo;

1 AM tem expreíTaõ de palavras ] nem fe pode declarar com razoens*

o quanto o Senhor JESUS Chrifto

|b^lf dcieja honrar a fua Santiílíma Mãy,

gjSÕÉP principalmente havendo fido o

Ventre puriíTímo de Maria o Con-

íiftorio, & a Real Salado Divino Confelho, quan-

do fe fez a eleyção dosPredeftinados para a glo-

ria , & a repartição das graças de Deos-,

E

ifto

quando eftava freíco aquelle ierviço qae a Senho-

ra havia fey toa feu Santiífimo Filho, & o teve a

Senhor por grande beneficio , o hofpedallo em fua c punífimas entranhas ,, repartindo do feu pu- riflímo íangue com o Divino Verbo r para que to-

maííe corpo, & tiveííe vidahumana .j porque ne-

nhum Martyr deo por Deos o feu íangue com ma--

yor amor, do que nefta occafiaõ o fez Maria San-

tiííuna.qeaindaque não deo o fangue perdendo a

vida , por dar a Deos vida humana deo o langue <Je íuas entranhas*

jNão^

Pr e facção Exhortaforia

Naõ íe pócle duvidar , que havia de ter Chriílo

JESUS lembrança de fua Mãy > & eleger para lhe

fazer mayores favores , os que fofíem íeus verda-

ideyros fervos, & devotos , & aquelles que conhe-

cia (com a fua altiflimafabedoria) ella havia de

amar, agradecendolho mais, & rogando por elles.

Não fe hão fey to , nem tratado na terra , nem no

Ceo, coufas mayores,que as que naquella fagrada

Sala do puriflimo ventre de Maria íe obrarão. Alli

fe fez a mayor obra , & a mais eftupenda maravi-

lha, que Deos tem fey to, & que podia fazer , por-

que não he poílível fazer Deos coufa mayor , que

a que alli fez , nem obra de mayor virtude , nem de

mayor poder, porque aindaque a Omnipotência

Divina eftivera fazendo por eternidades obras

maravilhofas, aniquilando por mométos,& criado

infinitos mundos, não podia exceder àquella obra,

de fe fazer Deos homem , & áquella nunca imagi-

nada junta da uniaõ hypoílatica.

Tratou-fe também nefte lugar ( no ventre da

Puriííima Virgem Maria digo ) o mayor ne-

gocio que ha decretado a infinita íabedoria, &

Providencia de Deos , o perdão dos peccados , a

predeftinação dos Santos, o paéto, & concerto do

Padre Eterno com o Filho, que puzeííe a fua vida

pelos homens, & o confentimento , que o Divino JESUS deo, & aaceytaçãoqueíez,, devida, 8c

morte tão cruel , & afrontofa ; fazendo alli , com

grande

Ao quinto Tomo.

grande ccnflrancia ,& inexplicável fervor , Sc de-

voção voto de não recufara morte mais dolor@~

ia, Sc afrontoía , que no mundo fe vio, nem ouvio >

por obedecer a feu Eterno Pay, & fazer favor a

Maria Santiílima , & a todos os de íua humana ge-

ração. Alli naquelle mefmo lugar, & Sagrada

Ventre da Senhora reprefentou o Eterno Pay à Alma deíeu Santifíimo Filho JESUS, que jàna-

quelles terniflímos membros eftava chea de fabe-

doria ) todos os Santos Padres , que erão mortos*

«Jefde que criou a Adam , atè a íua Conceyçao ,

quaes elegeo com a efperança, ou com aquelle an-

ticipado conhecimento da fua infinita fabedoria,

de que lho havia de agradecer o SenhorJESUS, o

haver efcolhido aquelles. Também lhe propoz

todas as almas,q depois da Conceyçao do melmo

Senhor nas puriííimas entranhas da Virgem Ma*

ria, havião de íer criadas, para que delias eíco-

IheíTe os feus predefteftinados : o quaí ( como fica

dito) o fez o Senhor JESUS Chrifto eftando na

ventre puriílimo de fua Mãy , quando dependia a

fua vida de Maria Santiílíma. E fez efta eleyçãa

com defejosdedargofto a fua Mãy. E aííim po-*

demos entender , fer ella a noíía predeftinação , &

todos os benefícios , & graças innumeraveis , que

nefta palavra Predeftinação fe encerrão , divida

de Maria Noífa Senhora , & que dependeo delia,

Sc do Senhor }ESUS. De }ESUS originalmcnte,&

%

te

Prefacção Exfortatorla

de Maria inftrumentalmente , ifto he, mediando

elia, & coai reípeytaáfua honra, & dignidade. Tudo fe declarou a huma ferva do Senhor com

Çefarw. }lurna admirável vifaõ que teve, ( como refere Ce-

fario. )Huma Santa Virgem eftando hua vezcon- fiderando no abifmo dapredeftinação, ficou ab-

forca, & elevada em hum admirável extafi, via

a Santiííima Virgem ptenhada do mefmo JESUSjr divifando ao Menino- nas puriffimas entranhas d&>

May ( aonde eftava reclinado ) como fe foííem dei

hum puriífimoeriftal. Eftava coroado a Menino

Deos y de hua Coroa de Rey , da qual fahião qua4

tro flores fermofiííimas, que paíTando pela cabeça

da Mãy j pouco a pouco fe converterão em arvo* res tão grandes , que cobrião as quatro partes do

mundo. Os frutos que tinhão erão fermoíiílimoSy

fragrantiííimos , & faborofiííimos. Debayxo das

arvores eftavão todos os filhos de Adam , mas fa os predeftinados colhiao 3 & comiãodafruta.Com

cfta vifaõ ficou a Efpofa de Chrifto tão cheado

dom dafahedoria, queconheceo qual era predef-

tinado 3 ou reprobo ; goftando muyto de tratar com

os predeftinados, como com aquelles que erãa

íbus companheyros. Significàrãolhe com efta ad-

mirável reprefentação o que havemos dito, coma a eleyção dos Santos,. & Predeftinados fe fez ef-

tando o Senhor JESUS em o ventre de Maria San-

íiífima; mediando também ella, O que he confor-

ma

Âo quinto Tomo.

me ao que muytos Santos dizem , & conforme ao

amor, «^agradecimento, que o Santiflitno Filho

tem a íua May. Do qual cambem fe fegue > que grande final da predeílinação, a devoção da Vir-

gem Maria.

Daqui fe conhecerá também , que a períeve-

rança neceíTaria para a predeílinação, não he

huma multidão 5 mas para melhor dizer, bua infi-

nidade de graças , que Deos faz a hum Santo ate

que o colloque no Ceo,& ifto fe deve a MariaSan^

tiflima.E aífim não íó a devemos fervir,& amar pe-

los benefícios que delia , & de Deos havemos re-

cebido 5 mas também pelos que efperamos rece- ber, não em acção de graças dos paífados , mas

por merecer, & negociar outros novos. Havemos

de chegar a efta piedoía Senhora como a Sacra-

mento geral de todas as graças,& mercês de Deqs t

que por feu meyo nos vem. E fe de veras acodir-

nios a tal Mãy , & lhe pedirmos ( como devemos

as podemos ter por infalliveis. E aflím o Venerá-

vel Padre Martinho Guterres da Companhia, que

foy devotiílimo de NoíTa Senhora, dizia,que nun-

ca lhe havia pedido a efta Senhora > <jue ella lhe

não concedeíTe.

Importa muyto entendermos ifto todos, o amor

defta bcnignaMãy ,& a grade força da fua intercef-

íaõ, pela qual alcança de Deos o q parece impoííi-

tfel, £ comfer Deos tão obfervante das fuás Leys,

Vrefacçao Exhoriatoria

interpondo-fe os rogos de íuaSantiííímaMãyí

não repara em nada. E aííim fe tem vifto , reíufci-

tarem homens , para confeíTarem os feus peeca-

âosj por interceííaódefta grande Senhora,que co-

mo lie Rainha de tudo , para que fe cumpra a fua

vontade , não íe repara em nada. E quer feuSan-

tiííimo Filho moftrar a Mageftade do feu Império

cm a declararSenhora dasLeys ; atropellando com

as mais invioláveis, querendo que todas ascoufas

firvão, &eftejãoàfuadifpofição. Masquemuyto*

obedeção todas as couías a quem obedeceo o

Creador de todas ellas ? Que ainda agora noCea

( dizSaõ Pedro Damiaõ,& Gotfrido Abbade )at-

tende às petições de Maria Santiílima, naõ como

rogos, mas como imperios,& mandatos,reconhe->

çendo o direyto de May

Coníideremos também que he oquemerecea

a Virgem Maria por hum a&o fomente de virtu-*

de, para que acabemos de nos fatisfazer daeffica-

çia da fua interceiíaõ , em que allega todos o$ me-

recimentos da fua vida , porque com hum aóto, ainda antes de fer Mãy de Deos; ifto he,com íodi-

&er de coração aqueliarepofta que deo ao Anjoi, Aqui e/ia a e/crava do Senhor , faça-fe fegundo fc vojja palavra. Mereceo mais que todas ascreatu-

ras juntas, Anjos ,.& homens, em todos quantos

bons penfamentos tiveraõ , & obra? que fizeraõ*

& faràõ. Coiia efte aíto mereceo o Principado íb*

bre*

Ao quinto Tomo.

bre os Serafins cio Ceo , o Império fobre toda a

creatura,o Sceptro do Reyno de Teu Santiííimo Fi-

lho , a enchente de codas as graças, de todos os

frutos , & dons do Efpirito Santo , & o íer May de

ChriftoJESUS, & Corredemptora, & Côprinci-

piodonoífobê. E quêmereceo ferMay deDeos,

que nao mereceria , & alcançaria , com tanta im~

meníídadede a£tos interiores, obras, & trabalhos

exteriores, que em toda a fua vida padeceo?

Tudo o que temos dito do refpey to , que fede-*

veà Virgem Maria SenhoraNoíTa na faudedos

peccadores, ôc na felicidade dos predeílinados , 8c

à força da fua interceífaõ , para nos alcançar mife-

ricordia , & ávida eterna confirma a vifaõ que re-

fere na Chronica dos Menores , & teve o fervo de

Deos Frey Leaõ.Vio efte duas efeadas que chega~ vaõ da terra atè o Ceo, huma vermelha , & enfan-

goentada , & a outra branca. Na vermelha eílava

Chrifto Senhor noífo era o alto delia r & ao pè Saõ Francifco y que dava vozes aos feus Frades

para que íubiífem ao Ceo , veyo hua grande mul-

tidão delles,que começarão a fubir; mas todos ca-

lmo, huns no principio, outros no meyo , & ou-

tros do fim. Entaõ o S anto Patriarca lhe deo vo-

zes, que nãodefconfiaíTem, mas que foííem a

outra efeada branca, aonde eftava no fim delia a

Virgem Santiííima. Forão voando para ella, &fu-

bindo fem trabalho; a Virgem Santiííima os rece-

beo^

Prefação Exhovtatorla.

beo, & meteonoReyno deíèaSantiííímoFiíh^

Efte he o privilegio q concedeo o agradecidiílimo

JESUS a íua Santiííima May , que quer faivar aos

feusefcolhidos com ella,& por cila. E aííim(diz

Santo Anfelmo , Miguel Iníulano, & outros Dou-

tores) que era impoíTivel perderíe aquelle que

foíTe devoto da Rainha dos Anjos Maria Santiííi-

ma. E ao contrario, (diz o meímo Santo Anfelmo,

que era necelíario perderfe todo o que íe aparta

deita noífa Proteótora. Quem pois deyxarà de a

fer vir , & de a amar , íè na lua amizade eftà todo o

noíío bem , & remédio. E nas maravilhas que fe

referem neíles noflbs Santuários , fe o quanta

todos fomos devedores a eftanoíTaamorola, &

piedoía Mãy«

Noticia

Noticia dos livros , que o Author tem

dado à eftampa, 5c tem fahido.

1

/^x Primeyro Tomo dos Santuários de Nofla Scnhol

V_/ ra, da Corte , & Cidade de Lisboa.

2

OiegundodosSantuariosdamcfma Senhora, que fc

Venerão em todo o Arcebifpado de Lisboa,

3 O terceyro Tomo dos Santuários contém as Imagens

que fe venerão nos Bif pados íuffraganeos a Lisboa.

4 O quarto, os Santuários que fe venerão em Braga , Sc

Coimbra.

5 O quinto he o prefente, que contém as Imigens/jue fc

venerão no Bifpado do Porto, Vizeu, & Miranda.

6 A Hiftoria prodigiofa da fundação do Real Converi^

to de S. Mónica de Goa, com muy tos fucccflbs da índia.

7

8

9

A prodigiofa vida de S. Liduvina.

A Vida da Venerável Soror Brizida de Santo AntonioJ

Rofas do