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II – Metainfanciofísica

1. A criança e o infantil

1.
Devir-infantil.– Não mais Ser, Uno, Idéia, Eu, alma, espírito, sujeito, pessoa.
Não mais modelo, cópia, acidente, matéria, sensível, inteligível, transcendente,
fenômeno, coisa-em-si. Não mais espécie e gênero, hipótese e princípio, contradição e
mediação. Não mais ciclo, cronologia, evolução, estágio, etapa, fase, idade, geração.
Não mais círculo, centro, vida em hierarquia, mundo em ordem. Não mais retidão do
pensamento, significante e significado, propriedade e atributo, qualidade e substância,
classificação e descrição, categorias e juízos sintéticos, juízo de Deus. Não mais “a
criança” empírica, idealizada, essencial, dotada de características comuns a um certo
número de indivíduos; não mais a forma “criança”, destinada a entrar em oposição ou
complementaridade, a vir-a-ser ou a deixar-de-ser cada uma das outras formas – recém-
nascido, bebê, púbere, adolescente, jovem, adulto, ancião... Daqui para frente, apenas
um pensamento impessoal, inconsciente e involuntário, que pensa o infantil como
paradoxo, acontecimento, devir. Um pensamento que, por não mais pensar a diversidade
como referida ao mesmo, substitui a unidade abstrata “criança” pela multiplicidade
concreta “infantil”; que se abstém de usar o termo “criança”, para não se misturar
indevidamente com outros pensamentos e ficar livre para buscar, além das próprias
crianças, as intensidades do seu devir. Devir, também ele, não mais chamado “devir-
criança”, e sim “devir-infantil”, como o movimento incessante de um pensamento que
reconstrói a própria imanência.

2.
Pensamento puro.– Distinguir uma criança-da-cronologia de qualquer outra
criança – quer seja inconsciente, selvagem, imoral, divina –, a qual deveria ser
recalcada, esquecida, negada, educada, valorizada à enésima potência... não compõe o
pensamento puro do infantil ilimitado, sem medida, que não se detém nunca. Na
simultaneidade de sua matéria indócil, esse pensamento não separa o antes e o depois, a
véspera e o amanhã, mas faz convergir o passado e o futuro, o mais e o menos, o
demasiado e o insuficiente. Ele pensa o infantil, como força ativa e vontade de potência
afirmativa, por meio dos corpos – pequenos e grandes, belos e feios, sãos e doentes,
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velhos e novos... –, que povoam sua superfície paradoxal: corpos sem fundo e sem
interior, cujo avesso prolonga o direito, cujo interior é revertido no exterior, e vice-
versa.

3.
Instância torta.– Para deixar de identificar o infantil e a criança, pensar o sentido
do infantil de maneira paradoxal, ou seja, bifurcá-lo e puxá-lo infinitamente nos dois
sentidos ao mesmo tempo. Ao movimentar, assim, o mecanismo de um plano de
imanência infantil, através de jogos de linguagem, palavras esotéricas, palavras-valise,
não-sensos..., esse pensamento não funde o infantil na espessura dos corpos das
crianças, nem o confunde com o estado de coisas da infância; assim como não converte
a infância em um processo físico, nem fundamenta o sentido do infantil em crianças
materiais, integrantes de um reino da facticidade; tampouco, entrega o infantil a
significações prévias que, ao redor das crianças, disporiam o seu mundo, traçariam vias
e lugares privilegiados de circulação, indicariam de antemão onde e como se pode
produzir conhecimento sobre ele. Para além dessa lógica de significação da infância,
gramática da primeira pessoa, consciência acerca das crianças, o infantil é pensado
como uma instância desordenada, desemparelhada, desequilibrada; portanto, como uma
instância paradoxal, que procede por disjunções múltiplas, circula entre as outras
instâncias – puberdade, adolescência, juventude, adultez, velhice...–, levando-as a se
comunicarem, ressoarem, convergirem, e também ramificando-as. Instância que, par
excellence, opera doação de sentido às outras instâncias, pois só ela é condição do
sentido infantil; e que se apresenta, às vezes, em excesso, noutras vezes, em falta, nunca
estando onde é buscada, e nunca sendo encontrada onde está.

4.
Fantasma instintivo.–
Ponto sem corpo físico,
superfície feita de quase nada,
de intocável, de névoa...
o infantil é fantasma instintivo,
orquestrado por múltiplos Triebs, pulsões, impulsos.
Pele etérea e, ao mesmo tempo, profunda
– “O mais profundo é a pele” –,
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que se desprende dos corpos.


Superabundância do impalpável:
carente de dados originários,
vazio de nostalgia e ressentimento,
muito distante duma memória de infância.
Película fina,
ele passa nas bordas do que acontece,
circula nas fronteiras entre as coisas e as proposições,
desliza nas margens entre o que se vê e o que se diz,
oscila temporalmente a diferença de sua repetição.

5.
Fronteira impenetrável.– Como evitar a analogia entre o pensamento acerca do
infantil e a consciência sobre a infância ou as crianças? Como não relacionar o infantil
ao estado de coisas da infância? Como desprendê-lo dos conceitos gerais de infância e
criança? Como pensar o infantil enquanto atualização viva? Como pensar o sentido do
infantil enquanto acontecimento? Como descolá-lo do sujeito que dele fala? Talvez,
pensar o sentido do infantil no avesso da proposição aristotélica, que atribui predicados
ao sujeito – “O infantil é alegre”; e aproximá-lo da proposição estóica, que enuncia
apenas acontecimentos – “Este infantil está rindo”. Recusar a cópula “é”, na predicação
do infantil, não evidenciando a qualidade do seu atributo, mas exprimindo-o por um
verbo, que não manifesta um conceito, mas tão-somente o acontecimento incorporal –
“Um infantil se infantiliza”. Talvez, pensar o sentido do infantil, como expresso da
proposição, irredutível aos estados de coisas individuais e à designação “infantil”;
irredutível às manifestações de imagens particulares ou crenças pessoais, do tipo – “Os
infantis adoram animais”; e às significações dos conceitos universais e gerais, tal como
– “Os infantis brincam”. Tomar o sentido do infantil não enquanto palavra, nem
enquanto corpo, representação sensível ou representação racional; mas, antes, tomá-lo
como neutro, indiferente tanto ao individual como ao coletivo, ao particular e ao geral,
ao singular e ao universal, bem como às suas oposições. Um sentido de outra natureza,
que acontece às coisas e que subsiste e insiste nas proposições. Uma fronteira
impenetrável, que marca menos uma dualidade radical entre a linguagem e as coisas do
que o seu posicionamento de um lado e de outro: fronteira que articula a sua diferença.
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6.
A super-criança.–
Como esse pensamento-do-infantil
– que não busca o verdadeiro, mas produz o acontecimento –
pode criar algo tão fugidio, tão singular como um golpe do acaso?
Como? A não ser pelo canal,
onde uma criança entoa os simulacros;
senão por seus membros fragmentados,
por seu corpo sem órgãos,
por sua pele,
na qual, se articulam as profundezas e a superfície;
senão lá, na boca de uma criança,
onde os gritos se recortam em fonemas, morfemas, semantemas;
lá, onde o corpo de uma criança
separa-se do sentido incorporal do infantil.
Nessa boca aberta,
onde cai a voz do outro,
e faz sobrevoar por cima dela os elevados ídolos;
na voz alimentícia de uma criança,
a formação do sentido infantil
e a chispa de seu pensamento
fazem passar séries divergentes que
formam a super-criança,
o além-da-criança: o infantil.

7.
Real.– Longe de se constituir como manifestação topológica do Imaginário, do
Simbólico ou do Real, o infantil é bem real: indivisível, inextenso e, sobretudo,
dinâmico, constituído por múltiplos pontos de força que explodem o Nó Borromeano.
Fica assim dissociada “a criança” – sujeito da infância, central e fundador – do infantil,
já que a este sucedem acontecimentos, enquanto aquela forma significações sobre os
acontecimentos; bem como, fica dissociado o infantil do objeto da infância, que seria o
foco e o lugar de convergência da forma reconhecida e dos atributos afirmados das
crianças. É inútil buscar detrás desse fantasma uma imaginária verdade mais verdadeira
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do que ele mesmo, da qual seria o símbolo, mesmo que confuso, indistinto,
indeterminado; é inútil fazer dele um sintoma, que esconderia a unidade real da
infância. É inútil... Pois, em sua realidade, o infantil não pode ser extraído de figuras
estáveis e de núcleos sólidos de convergência – como “a criança” –, aos quais seria
agradável retornar, quando estivéssemos solitários, doentes, velhos ou desesperançados.

8.
Impassível resultado.– Acontece que o infantil habita a superfície dos corpos –
das crianças, dos homens, das mulheres... –, percebidos pelos órgãos dos sentidos como
sólidos, mas que apenas formam complexos momentâneos e transitórios. Por isso, o
infantil é algo que apenas o pensamento pode pensar, enquanto pensa aquilo que forma
o infantil e vai se formando com este infantil que pensa. Não se pode dizer que o infantil
exista – assim como “a criança chamada Maria, filha do seu André e da dona Flávia” –,
mas que ele subsiste ou insiste na proposição, tendo este mínimo de ser que convém ao
que não é uma entidade existente. Nem agente nem paciente, nem substantivo, nem
adjetivo, ele é um extra-ser: nada mais do que um estéril efeito sonoro, ótico, de
linguagem... Destituído de qualquer eficácia causal e espiritual, o infantil faz existir o
que o exprime e se faz existir no que o exprime, embora ele só exista como sentido-
acontecimento. Enquanto os corpos – com suas tensões, qualidades físicas, relações,
mais os estados de coisas correspondentes – agem e padecem, o infantil resulta dessas
ações e paixões, como efeito incorporal: impassível resultado. Se, por acaso, os Estóicos
tivessem se encontrado com ele, por certo, murmurariam baixinho: Aliquid.

9.
Deixai vir a mim o acaso...– Em que tempo vive esse infantil, se não
corresponde mais a uma das etapas da vida humana? Em qual tempo diverso do
presente, que é o único tempo dos corpos das crianças e dos estados de coisas da
infância? Ora, o infantil vive uma das duas leituras simultâneas do tempo: Aion – o
tempo do infantil. Tempo superficial dos acontecimentos incorporais, tomados em sua
relação com o devir, que remete ao passado e ao futuro simultaneamente; e se contrapõe
a Cronos, que representa o tempo em sua relação com o presente vasto e profundo.
Tempo do infantil, que realça a onipresença do caos ou do acaso, não como o confuso e
indeterminável, mas dividindo-se ao infinito em passado e em futuro, sempre se
esquivando ao presente; tempo, em que só o presente existe no tempo e absorve o
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passado e o futuro, mas só o passado e o futuro insistem no tempo e dividem ao infinito


cada presente.
Infantil do Aion:
eternamente o que acaba de se passar
e o que se vai passar,
mas nunca o que se passa.
Tempo do infantil:
inteiro como presente vivo nos corpos,
inteiro também nos efeitos incorporais.
Caos do infantil:
no lance dos dados,
o acaso e a necessidade passam um pelo outro,
sob a forma de uma contínua repetição:
“Deixai vir a mim o acaso:
inocente é ele, como uma criancinha”.
O infantil dança sobre os pés do acaso,
entoa a canção que afirma o seu devir contra a identidade da criança,
rejeita fins ou telos determinados,
recusa a prioridade da razão sobre o afecto
e a da lei sobre a vontade de potência.

10.
Quase-físico.– O infantil, como simulacro, joga dados com os dilemas
verdadeiro-falso e ser-não-ser. Nessas ações, ele expressa a sua metafísica, a sua
materialidade incorporal. Metafísica, em tudo distinta daquela da substância, que
fundamenta os acidentes; em tudo distinta também da metafísica da coerência, que situa
os acidentes em um nexo de causas e efeitos. Materialidade, que não pertence à ordem
dos corpos, mas é efeito produzido por suas misturas. Metafísica e materialidade que
fazem o infantil inacessível aos olhos, à mão, à língua, ao nariz... A infância física e as
crianças empíricas podem até concerner às causas, mas o infantil, como acontecimento
– que é propriamente seu efeito –, já não pertence à causalidade, porque os corpos, ao se
entrechocarem, ao se separarem, formam entre si a trama de uma quase-física. Nessa
trama, a singularidade infantil é pré-individual, não pessoal, aconceitual. Trata-se de
uma singularidade neutra, que não tem nada a ver com a complementaridade entre senso
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comum e bom senso, a qual estabelece a infância e as crianças como fundamentos do


humano; mas, que subverte o bom senso, ao afirmar dois sentidos simultâneos, e
desestabiliza o senso comum, ao abolir toda identidade.

11.
A ilusão.– Se o infantil não radica num corpo de criança, com suas tensões,
qualidades físicas, relações... Se não corresponde ao estado de coisas da infância,
determinado pelas misturas entre os corpos... Se não serve de referente a uma
proposição, em relação à qual uma asserção possa ser verdadeira ou falsa... Se não serve
para verificar nada... Ele pode então ser uma desgraça? Ele pode ser um espelho que
ilude? Tememos esse seu caráter ilusório? Ora, o infantil não é nenhuma ilusão; é a
ilusão que é infantil.

12.
Infantilizar.–
A ilusão, que é infantil,
flutua no limite das coisas e das palavras,
é aquilo que se diz do infantil,
não o que lhe é atribuído,
não o infantil em-si-mesmo.
O infantil não é o processo nem o estado
é o que acontece:
de modo inocente,
desavergonhado, irracional,
cruel, sem compaixão,
de costas para todo modelo,
Bem e Mal,
ente supremo,
uma única vez,
semelhança, imitação, fidelidade...
Essa ilusão precisa de outra gramática, que
não se localize mais na proposição sob a forma de atributo
– “estar” ou “ser infantil” –,
senão que seja dita pelo verbo,
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em seu ponto infinitivo do presente.


“Infantilizar” – verbo com duas formas relevantes:
o presente, que diz o acontecimento infantil;
o infinitivo, que introduz o sentido infantil na linguagem,
e o faz circular como o elemento neutro que é isso do que se fala.
A família, a escola, a psicologia e a pedagogia
não querem saber nada disso...
O que elas querem é des-infantilizar,
isto é, separar o infantil do que ele pode,
que é infantilizar.

13.
Tripla sujeição.–
1. Uma metafísica do acontecimento incorporal;
irredutível, pois, a uma física da infância.
2. Uma lógica do sentido neutro;
em vez da significação da criança como o sujeito de infância.
3. Um pensamento do infinitivo presente;
e não o relevo do futuro do humano na essência do passado da infância.
Eis a fórmula para eliminar a tripla sujeição,
na qual o infantil vem sendo mantido.

14.
Filho de Dionísio-Ariadne.– Tratar do pensamento metainfanciofísico como se
fosse um conjunto de saberes freudianos, piagetianos, freireanos é um equívoco.
Enquanto turbilhão anônimo do discurso sobre o infantil, esse pensamento ocorre pela
emissão nômade de jatos de singularidades neutras ou de acontecimentos ideais. Ele
pensa o infantil liberto da similaridade, como desejo alegre, mil pontos dispersos,
máscara singular que não recobre nada, simulacro sem dissimulação, esquecimento
desmesurado, fantasma da dupla afirmação disjunta, repetição sem original, pura
diferença. Pensamento do devir, que não repousa no fundo dos corações, nem voa acima
das cabeças, mas nasce num campo transcendental, anunciando o plano de imanência
infantil. Plano que, ao ser traçado, reverte o platonismo da infância, destituindo a
essência da criança para substituí-la pelo acontecimento-infantil. Acontecimento, que
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corre na superfície da Terra, deixado de lado pelo discurso educacional majoritário,


núcleo noemático, objeto cognoscível, natureza sadia das faculdades em completo
acordo. Ao invés de temer ou de maldizer esse infantil, ser dignos dele, afirmando
incondicionalmente tudo o que lhe acontece e vivendo-o por inteiro, segundo uma ética
das intensidades. A metainfanciofísica é, assim, um pensamento que diz o que é, ao
dizer o que faz, em seu horizonte ético. Horizonte: campo das forças e de sentido e
valor, que transmuta todos os valores da infância, desculpabiliza a vida das crianças,
rompe com a mobilização dos afectos tristes – que são os princípios da lei, da
finalidade, da causalidade, de toda exterioridade e de todo transcendente natural ou
sobre-natural. Pensamento ético contrário à atitude ressentida ou vingativa de um deus
calculador ou de um eu seletivo, que estanca as velocidades e intensidades da infância,
por meio da lógica representativa; agrupa as crianças pela continuidade, tomando-as na
sua extensão e qualidades, segundo o modelo do idêntico; expulsa o mal da diferença
infantil. Esse pensamento mostra como o sentido do infantil deriva dos corpos das
crianças (não só delas) e dos estados de coisas da infância (não só dela); e trata,
portanto, da passagem de uma criança de Cronos a um infantil de Aion. Se tentarmos
pensar o infantil fora da metainfanciofísica, nada acontecerá, pois não existe a não ser
aí: nesse pensamento, de forma indiscernível e sem regras pré-existentes; que não
consiste numa leviandade ou recreação do espírito; que não se faz por atos simples,
claros para si mesmo; que não pode ser realizado nem por um homem nem por um deus;
mas que, envolvido pelas potências paradoxais, descobre aquele que não pode ser senão
pensado, que não pode ser senão falado: o infantil inefável – indizível e impensável.

15.
A verdadeira obra de arte.–
Nos estudos sobre a infância e as crianças,
há algo mais interessante a ser pensado do que o infantil,
única idealidade possível?
No campo transcendental
da metainfanciofísica,
o pensamento
passa da superfície física da infância
e dos corpos materiais das crianças
para o seu efeito-infantil,
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como acontecimento puro:


expressão de singularidade na cultura,
que perturba a realidade
e afirma o acaso.
Acontecimento-infantil...
mas não, nunca, de maneira alguma,
exclusivamente humano –
produtor de uma nova superfície metafísica a sua volta,
criador de outros efeitos, singularidades, acontecimentos:
animais, mundanos, terrenos, geográficos, geológicos, cósmicos...
Infantilizar: a verdadeira obra de arte.

2. O bebê e a tartaruguinha

Riso
Nem bem abres os olhos,
e vês gestos de exaustão.
Se te pegam ao colo, aspiras nostalgia.
Se te ninam, ouves lamentos
de aniquilamento, desaparecimento,
perda irreversível, estado terminal, fim.
Em tua boca, engastam palavras de restituição.
Em tua pele, riscam estratégias de ressurreição.

Oh, meu bebê,


não chores, tu também, de saudades!
Não penses que tudo isso é inoportuno.
Tem paciência...

No tempo devido,
transforma o teu pranto em riso,
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espanta a liquidação apocalíptica da infância.


Abre mão da representação como criança,
formula uma concepção expressiva,
manifesta na proposição ontológica:
o infantil é unívoco...
como máscara e travestimento.

Faz de tua singularidade


afirmação da diferença pura,
sem negação nem identidade.
Escapa das diferenças-entre,
sem intermediar os opostos.
Distingue-te do adulto,
e também da criança,
porque a tua diferença,
meu pequenino,
é apenas infantil.

Esquece o “sentimento de infância”:


sua desestabilização não se deve à globalização,
classes, gêneros, etnias, nações.
Também não afirmes que a infância nunca existiu!
“Nunca” é um constritor de problemas,
desafeto das interpretações e avaliações,
que fizeram viver as crianças.
Não te deixes aviltar
por forças reativas e potências negativas,
que só querem reconhecer, recuperar, reproduzir a criança,
refazer, reformular, restabelecer a infância.

Não postergues,
nem elimines a realidade.

Combate versões
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da criança encolhida, desfeita,


da infância danificada, defeituosa, disfuncionada.
Expulsa a criança em-si-mesma,
imortal, abstrata, universal.
Assume, de uma vez,
o simulacro como tua natureza!

Vida
Quando falarem no declínio absoluto ou relativo da infância,
imagina uma criança expropriada,
despossuída de seu eu;
que deveria ter o que não tem,
ser o que não é,
fazer o que não faz:
um ser da falta.
Então, avalia:
falar, sem parar, no declínio desse ser,
não é insuflar-lhe a vida?

Simples
O sujeito-de-infância é um imperativo?
Investir sobre a infância calca-se na crença de que, daí,
surgirá outra-criança?
E se o lugar desse sujeito ficar disponível?

Para impedir a volta do recalcado,


bloquear a presença do morto-vivo vampírico:
um dispêndio sem retorno,
um niilismo extremo,
uma morte pura e simples?

Entregue
Entregue à identidade,
a criança recebe determinação essencial:
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só aquela que é idêntica a si é ser,


e não pode tornar-se outra.
Incompatível com o movimento,
a criança que é não existe;
enquanto a multiplicidade infantil
existe, mas não é.

Aprofundamento da determinação:
selecionam-se crianças que merecem o título de ser –
há crianças que são verdadeiramente,
e aquelas que não são verdadeiramente;
há também as que são,
mas imprópria e parcialmente.

Hierarquia ontológica
de disposição das crianças,
conforme a pureza de sua essência.
Concomitante criação do sujeito-de-infância:
comum, gregário, útil, proveitoso.
Onda de mesmidade sobre hecceidades.
Língua de paz.
Ilha bem-aventurada do pensamento.

Sujeito,
a ser localizado, datado,
descentrado, desconstruído,
corporificado, fragmentado, multiplicado:
ações ainda insuficientes para subverter a filosofia do sujeito.

Acontece?
A identidade da criança
conduz à Origem,
semelhança, hierarquia imóvel,
negatividade, dialética,
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exaltação do poder, controle do heterogêneo,


constrangimento e freio da vida.

O que acontece então?


O infantil acontece à criança:
no princípio, uma vez mais, outra vez, desde sempre, sempre diferente.
Repetição e diferença positivas,
potência enésima de expansão.

Infantil alciônico,
constituído pelo devir,
no plano do mutável.

Infantil e criança:
da multiplicidade à identidade;
do potencial à posição;
do devir ao Ser;
dos rizomas à arborescência;
da esquizofrenia à subjetivação edipiana.

Desmesura
O infantil-hybris:
desmesura da força, diante do conceito-lei;
infinitude do infinito, na riqueza do eterno retorno.

Orgulho
Conceito nenhum apreende
o infantil de uma coisa, corpo, fato, fenômeno.
Sem ser representável,
encontrável ou recebível, como um dado,
orgulhosamente,
o infantil não-é...

Ele é apenas pensável,


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aplicável univocamente,
com o mesmo sentido,
a diversas singularidades.

Aberto
Despossessão afirmativa da infância:
não-volta a uma integridade perdida;
fortalecimento da iterabilidade, alterabilidade e alteridade do Mesmo.

Despedaçamento do sujeito-criança:
não-retorno ao indiferenciado;
deslocamento para o Aberto – pensamento inteiramente-outro.

Colapso
Do ponto de vista molar,
um colapso catastrófico:
explosão dos estratos codificados da infância,
desarticulação e fuga dos aparatos de captura das crianças.

Da perspectiva dos fluxos moleculares:


experimentação, complicação e invenção do infantil.

Demônio
A fluir, perdura por um contínuo romper-se.
Em ex-propriação,
curta-circuita, mistura,
joga fora propriedade, unidade, totalidade.
Variável em modificação.
Multiplicidade virtual.
Conjunção de linhas de força.
Proliferação assubjetiva, assignificante e acategórica.
Produção maquínica.
Potência demoníaca do futuro.
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Trágico
Parece ainda um “sujeito”,
mas é anterior à individuação.
Sujeito larvar.
Envoltura. Pele. Fronteira.
Efeito de função ou operação.
Dobra do lado de fora.
Universo de intensidades.
Pré-posição.
Modificação dos limites que sujeitam.
Outras políticas.

Lance de jogo:
aleatório, perigoso,
hirsuto e agressivo.

Uma atitude pueril: a nossa.

Ao olhar por cima


dos ombros dos ancestrais,
vê que, por detrás,
nada há, tudo está por fazer.
Em completa solidão,
procura novos modos de
pensar, ver e escutar,
novas maneiras de sentir –
uma outra sensibilidade.
Animalidade divina.
Sátira dionisíaca.
Tragédia grega.

Invencível
Infantil-invencível...
Tu e a tartaruguinha de Lawrence:
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“Tu sabes o que é ter nascido só,


Tartaruguinha!
Toda a criação animada sobre tuas costas,
Vai em frente, pequeno Titã, sob teu escudo de guerra.
Só, sem nenhuma idéia de que está só,
E por isso seis vezes mais solitária.
Sobre a terra do jardim,
Minúsculo pássaro,
À beira de todas as coisas.
A vida, toda ela, posta sobre tuas costas,
Invencível precursora”.

3. A canção do fim... antes devir

1.
Ó Pequena! Durante os séculos, fortaleceste o teu corpo, correndo pelo mundo,
sem te cansar? Brincaste com a fauna em madeira da arca de Noé, câmaras ópticas,
marionetes, cavalos de balanço, soldadinhos de chumbo, trenzinhos elétricos, bolas de
meias, rodas de penas, chocalhos, arcos, tacos, pipas, casinhas, bonecas – de bétula,
cera, lã, palha, plástico, porcelana, trapo –, navios de estanho, ossos, areia, argila, papel,
plastilina, metais, tecidos, vidro, vime, videogame? Jogaste com as máscaras e os
duplos, com a lírica e a música, com os fundamentos e os rostos, com os nomes
próprios? Montaste arquiteturas? Movimentaste superfícies? Geraste figuras no teatro
de sombras chinês? Fizeste micagem com o macaco? Seguiste o tranco do asno? Subiste
no dorso do camelo? A águia te carregou para o céu? A serpente se enroscou em teu
corpo, só para te abraçar? Em todo lugar onde brincavas, havia um segredo enterrado?
Agora, tua velha verdade está chegando ao fim? Tua multiplicidade torna-se irredutível
à unidade? Rasga-se a nervura de tua vitalidade? Viras nada mais do que um ser da
passagem?

Que m’importe que tu sois sage? Escreve tua autobiothanatografia.... Responde:


estás esbanjada, liquidada, des-gastada, des-apropriada, des-identificada? Estás
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mumificada, monumentalizada? Serás assimilada, homologada, neutralizada? Serás re-


interpretada, restaurada, re-inscrita?

Ó Pequena, deixaste que aqueles que te deram a vida cultivassem os espíritos,


até que seus corações estivessem mudados? Sem ti, o que será feito deles? Tornar-se-ão
seres sem luz, sem códigos, sem origem? Continuarão esperando que os alivies da
gravidade de sua existência? Almejarão, ainda, descanso e lenitivos para seus
sofrimentos? Serão funâmbulos mortos, antes mesmo de iniciarem o caminho na corda?
Prosseguirão negando o teu diferimento, marca de ausência, ruptura na presença,
disjunção no presente? Acreditarão na posse de si mesmos? Sem ti, qual será a sua
felicidade?

Como as abelhas que acumulam mel, terão eles adquirido tanta sabedoria, ou
morrerão da fria ignorância sobre si mesmos? Pequena, será que, desde a sua incerteza,
criarão outro ser para te substituir? Um outro pequenino, que os façam se rejubilar de
suas pessoas, se amarem a si próprios, novamente e sem medidas? Um ser que deverá,
um dia, tornar-se um sujeito completo? Um pequenino, a quem eles se oferecem como
resultado, incutem responsabilidades, mágoas, culpas, distribuem sonhos? Um ser, que
encarna a loucura e a pobreza, mas que, paradoxalmente, expressa a sua riqueza e
racionalidade? Um pequenino ser, para prosseguir testemunhando que suas filosofia,
moral, ciência e arte instauram valores verdadeiros, pelos quais tudo é julgado?

Para criar esse outro ser, eles precisarão baixar às profundezas, mergulhar à
noite por trás do mar, ir à caverna mais inferior! Falar a todos, abençoar a todos,
conjurar o existente, venerar o teu declínio, esvaziar o cálice de fel do teu fim... Para
que escorra a água dourada da tua não-identidade!

2.
Ó, Pequena, como estás mudada! Como o impensado te reaviva! Brilhas!

Mas, por que tornas visível esse resto teu? O que levas, aí, no colo, embrulhado
em xales? São cinzas? De quem, do quê? E de onde vem esse diadema de fogo que em
tua cabeça arde com tamanha intensidade? O que queres, agora? Abrasar o mundo? Não
tens medo dos castigos que sofrem os incendiários?
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Não nos enganes, Pequena! Olha-nos com a limpidez de quem nada quer dizer!
Espanta do teu corpo os malquereres, o cansaço, a aflição e a tristeza! Rastreia a relação
contigo mesma! Faz sobressair o que tinhas retraído!

Ó, que linda! Caminhas dançando! Tu já és uma verdadeira dançarina! Aquela


que não é criança! Aquela que não se ocupa com questões da infância! Aquela
imprevisível, despreocupada, criadora espontânea de gestos harmoniosos, de novos
valores, de uma nova cultura!

Não entendo: o que vais procurar entre os que sonham com outra-criança?

Vais viver entre gementes carpidores, que se arrancam os cabelos e uivam de


saudades? Pobre de ti! Queres, infeliz, arrastar o teu corpo ao ocaso? Desistes de fazer
dele uma estaca solidamente cravada no chão? Não seria melhor viveres na mais
completa solidão? Só tu e o ar, a água, o fogo... Não vês que o espaço inteiro
tartamudeia à tua passagem e que as amarras do tempo se desprendem? Fica aqui,
comigo!

– Sim! O amor a mim própria faria com que eu não sucumbisse. Eu amo apenas
aqueles que experimentam o além-da-criança! Por isso, lhes trago um presente! Não
vim redimir as crianças, ajudá-las a carregar os seus fardos; mas suprimi-los, para livrá-
las do mundo-da-infância!

O que estás dizendo, Pequena? Recusas, então, este preceito máximo da moral: o
amor à criança e a proteção à infância?

– Vim, para restituir dignidade à criança! Vim, para que aceitem os meus
tesouros! Eu própria vou me transformar em dádiva... O que tenho eu para dar, a não ser
a des-apropriação de mim mesma? A não ser, nesse dar-me, criar um além-de-mim?

Avalias a dimensão do desastre que estás provocando, Pequena? Desaparece a


noção de criança, o mundo-da-infância termina, ninguém acredita em outro ser
transcendente a ti! Sei, fazes claudicar o pensamento da infância negativo, negador,
42

niilista! Porém, o que será daqueles para quem a criança pouco vale? Daqueles para
quem tudo o que integra o mundo-da-infância é maculado pelo pecado, pela
incompletude, pela deformação? De qualquer modo, mesmo para esses, a criança e a
infância ainda valiam alguma coisa! Vens dizer, agora, que tudo era uma ilusão? Não
escutas, em tuas pegadas, o desmoronamento e a destruição?

– Porque estou alegre é que a criança está morta! Não é porque ela está morta
que eu estou alegre! A ação criadora de minha alegria e pensamento afirmativo é que
produz o fim da criança!

3.
– A criança é algo que deve ser superado. Eu vos proponho a super-criança!

Cuidado, Pequena! Talvez, alguns achem que não anuncias a super-criança, que
não preparas as suas vias e aplainas os seus caminhos, mas que tu própria és a super-
criança! E, assim, vão acabar te igualando a ela!

– Até agora, todos os seres imaginaram alguma coisa superior a eles! Como
podem alguns agir no reverso desse fluxo? Preferirão antes voltar à criança do que
elevar-se até a super-criança? Para esta, aquela é objeto de ignomínia! Eu vos ensino a
super-criança!

Pequena, por que isso tudo? Será a super-criança o sentido da Terra?

– Dizei à vossa vontade aquilo que eu venho repetindo desde o nascer até o pôr-
do-sol: que a super-criança seja o sentido da Terra-do-Infantil!

Entretanto, Pequena, essa super-criança é tão estranha! Ela não é uma nova
espécie, engendrada por seleção natural ou cultural, que substituiria a criança atual! Ela
é uma criança do por-vir... Ela se esquece de si mesma... Ela se deprecia... Ela se
aniquila... Ela afunda no seu ocaso...

– Neste dia saturnal, eu os conclamo a permaneceres fiéis à Terra-do-Infantil! E


a não acreditares naqueles que vos fazem promessas de uma redenção radicada na
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infância! Eu os conheço! São uns envenenadores! Antes, quando eu nem era pensada, a
ofensa à criança era a maior das ofensas! Mas, a criança está morta, e com ela morrem
também seus detratores! Antes, o terrível era que eles olhavam o corpo da criança com
desprezo, e esse desprezo era considerado o que havia de mais sublime! Por isso, eles
preferiam o corpo da criança magro, horrendo, faminto, intoxicado, violado, prenhe de
sete demônios! Pretendiam assim sobrepor-se a ele! Agora, quebrou-se a identidade
asseguradora desse corpo enjeitado. Ele acabou! Finou-se! Foi-se! Desencanta-se a
sombria casa da infância! Só o além-da-criança permanece, subsiste, insiste, repete-se,
renova-se! Engendrada por palavras ditas de maneira indizível, a super-criança levanta-
se, envolta pela nébula fluida e granulosa que dessas palavras sopra. Eu amo a super-
criança! Aprendei também a amá-la!

4.
Ó Infantil! Ensinei-te a suportar as dores da existência e a desfrutar os prazeres
do mundo! O que fazes aqui, deitado junto ao rio, lendo um livro, cujo torvelinho das
letras te envolve como flocos de neve? Cansaste de nadar? Não queres mais coletar
pedras, colher flores, capturar borboletas? Em teu falanstério, não mais esmagas as
pinhas com pedra para extrair-lhes pinhões? Paraste de seguir os espíritos? Não mais
farejas e rastejas para seguir seus vestígios escorregadios? Teu tempo de caçador
chegou ao fim? Agora, somente palmilhas as pirâmides, as criptas dos Templários, o
arsenal de armas, a estufa de plantas, os museus policiais?

Ó hóspede belicoso! Dei-te nome novo, chamei-te “infantil”, para não te


confundirem com “a criança”! Até suprimi o “criança” do “devir”, para só dizerem
“devir-infantil”... Tudo isso porque, no “devir-criança”, habitava um fantasma,
ondulante e branco, entretecido na cortina com pontos-de-cruz identitários...

Ó meu deusinho! Dei-te sapatos coloridos para dançares cirandas na Terra! Com
o Sol, aprendeste a rodar! Com os planetas, a voar alto! Com as videiras, o
esquecimento salutar da embriaguez! Os ubres das vacas sagradas te deram o leite da
pura afirmação! Os enforcados te ensinaram o valor das cordas!

Tu, passarinho, és agora o mais leve! Canta para demarcar teu território!
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Ser estelar! Profana o dia verde, como amante da noite que és! Abre o teu sorriso
mais claro do que a Lua! Galopa a escuridão! Abraça a natureza antes de beijá-la!
Experimenta a vida, num êxtase primordial de domínio! Mas experimenta-a até o fim,
até a singularidade da tua própria experimentação. Vive o tempo do eterno retorno de
todas as coisas! Converte o pesado em leve, o baixo em alto, a dor em alegria!

Ó filho do grão de areia, da palmeira, do suor, do deserto! Ó filho do musgo, do


visgo, do cipó, da umidade, da urtiga, da maria-mole, da margarida, da marcgraviácea!
Agencia a natureza!

5.
Infantil-concha! Entre o mar e o rochedo, com volumes e estrias e cores e
calcário, faz-te por ti mesmo! Doa-nos a vontade de existir para ti, de amar só a ti, de
morar em tua casa de concha retorcida em espiral! Em noites de plenilúnio, dá-nos
vontade de devir polvo, caranguejo, alga encaracolada e diáfana, conchinha silícea,
couraça quitinosa, esponja, filamento de ervas marinhas, eflorescência de corais, ouriço-
do-mar, medusa da cor de açafrão... Vontade de ir e vir com as marés...
Pois eu te amo, ó infantil!

Infantil-água! Tépido sob o sol, transmite-nos cócegas, arrepios, ardores,


vibrações, sensações, estímulos! Aquece o mar e escalda a rocha! Leva-nos a contrair
cada uma de nossas células!
Que te importa se te amo?

Infantil-labirinto! Inextrincável! Venera tua mãe Pasífae e teu pai, o touro


branco, mágico e sedutor! Pequeno Minotauro! Bastardo, ilícito, monstruoso... Sê prisão
e templo! Multilinear! Jardim de caminhos bifurcados! Corredor de errância! Sê um
viandante eterno sem rumo infinitamente...
Pois eu te amo, ó infantil!

Infantil-animal! Útero da Terra! Esterco e adubo! Decompõe e renova! Divina


loucura! Pathos sensual! Oferece-nos uma pitada de eternidade! Dionísio Zagreus
despedaçado, disseminado, disperso! Infantil do amor fati! Ama só o que acontece, o
acaso, o in-tangível, o in-dominável, o in-domável!
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Que te importa se te amo?

Infantil-imã! Afasta de mim este teu olhar de diamante! Não sabes ficar só?
Onde foi parar tua liberdade de artista? Em que canto de bronze ficou o teu excesso de
trágico? Ris! E a seiva do teu riso encharca o universo!
Pois eu te amo, ó infantil!

Infantil-aeronauta! Raro! Espantoso! Inútil! Inconcebível! Difícil! Hieróglifo!


Abismo! Vertigem! Rio de vácuo! Desafia nossa gravidade! Põe um deus a dançar
dentro de nós! Torna-nos pródigos da imanência de todos os atos!
Que te importa se te amo?

Infantil-criptógrafo! Esconde-te embaixo da cama, por baixo da mesa, no


alçapão, paiol, poço! Favorece o encobrimento, disfarce, mistério, enigma! Goza tua
ambigüidade! Não nos deixa vê-la como deformação do verdadeiro, nem dissolvê-la no
uno e no sentido único! Dobra-nos!
Pois eu te amo, ó infantil!

Infantil-harpa! Dedilha tua alegria! Tagarela com a alma! Apronta tolices com o
instante! Diz disparates à vida! Zumbe insensatez! Zomba da ordem! Cultiva o caos
dentro de nós! Caotiza-nos!
Que te importa se te amo?

Infantil-morte-e-vida! Destrói o elefante, em teu olho! O lobo, em tua barriga!


Em tuas pernas, o leão! Em teu coração e cabeça, a criança... Esperneando, eles são
sacrificados... Após suas mortes, sem intervalo, no mesmo instante, outros (elefante,
lobo, leão, criança) nascem! Comemora! Porque tu és morte-e-vida de mãos dadas!
Pois eu te amo, ó infantil!

Infantil-mago! Enfeitiça-nos, com teus perfumes, preferências, implicações,


ressonâncias, encontros ao acaso! Tem cuidado com apenas uma coisa! Se fizeres
careta, enquanto o relógio estiver batendo as horas, ficarás com a careta grudada...
Que te importa se te amo?
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Infantil-mais-uma-vez! Gênio da variação à plena potência! Faz de novo... Mais


outra vez... Pois, não te bastam duas vezes, mas sim sempre de novo, centenas,
milhares, infinitas vezes... Ensina-nos a dar um valor de eternidade a cada momento da
vida que passa! Valor que circula em ti e promove nossas metamorfoses e
transformações!
Pois eu te amo, ó infantil!

Infantil-amado! Encanta-me com teus olhos de estrela! Relâmpago de amor,


tensiona constantemente a aproximação e o afastamento! Abandona tuas galáxias à
evanescência! Entrega tuas naves ao mar do devir! E, nessa festa de pluralidade, cobre-
me da tua virtude dadivosa, lançando um arco-íris sobre o trabalho de minha vida!

Que te importa se te amo?


Pois eu te amo, ó infantil!

4. (Des)embaralhar...

Não se pode deixar de rir quando se embaralham os códigos.


(Gilles Deleuze, Pensamento nômade, p.64.)

A Metainfanciofísica critica a forma-infância e o sujeito-criança, indicando


velocidades, ausência de forma e variação infantil.

Axioma I: A criança é uma identidade demasiadamente codificada e o infantil é


uma linha de variação.
Proposição I: A codificação da criança e a variação do infantil manifestam-se
em tensões morais e históricas.
A criança é uma invariante, uma unidade de representação; enquanto o infantil é
uma variação que não cessa de variar. Encontra-se, como exemplo, um sentido positivo,
em: “Ele ainda é infantil”!; bem como um sentido negativo, pejorativo, que expressa
ultraje, ofensa, como em: “Deixa de ser infantil”!
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Essa variação infantil deforma as formas estabelecidas da infância e da criança;


propõe o infantil como uma variante anti-histórica, situando-o além da História da
Infância (Phillipe Ariès, 1973, L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Regime); faz do
infantil um intempestivo, sem futuro nem passado, pleno de devires, por meio dos quais
ele se comunica com outros tempos e espaços.

Axioma II: A criança é maioria, enquanto padrão; o infantil é minoria, ou seja,


desqualificado diante do estado de fato da infância.
Em um primeiro sentido, infantil indica a situação de grupos –
independentemente de seus nomes – que estão excluídos da maioria, ou que estão
incluídos, mas como uma fração subordinada em relação a um padrão de medida, que
estabelece a lei e fixa a maioria. Assim, os infantis compõem as minorias, mesmo que
sejam numerosos, como as mulheres, o Sul, o Terceiro Mundo, etc.
Num segundo sentido, minoria designa um devir, no qual alguém se
compromete, um devir-minoritário, que concerne a todo mundo, na medida em que todo
mundo entra nesse devir e constrói suas variações ao redor da unidade de medida
despótica; assim como indica escape do sistema de poder que faz da minoria-infantil
uma parte da maioria; de modo que, então, essa minoria é muito mais numerosa do que
a maioria.
De acordo com o primeiro sentido, os infantis constitutem uma minoria;
conforme o segundo, há um devir-infantil de todo o mundo, que é como a sua
potencialidade.

Proposição II: As crianças, tanto como os adultos, não escapam ao devir-


minoritário infantil, que é universal.
Proposição III: O infantil opera alianças mais importantes do que filiações.
Proposição IV: O infantil segue linhas de transformação.
Proposição V: O infantil fornece consciência de minoria que não tem nada a ver
com a consciência psicanalítica, marxista, nem brechtiana.
Essa tomada de consciência, que só o devir-infantil propicia, é uma grande
potência, não sendo feita para fornecer soluções, mas para minorar a sensação de
solidão. Um infantil consiste numa massa para si mesmo: a massa de seus átomos. O
infantil revolucionário é um elemento para um novo devir da consciência.
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Proposição VI: O infantil-minoria designa a potência de um devir; a criança


assinala o poder ou a impotência da situação de infância.
Proposição VII: O que diferencia a criança do infantil não é uma questão de
tamanho ou escala, mas de massa, vibração e fluxo.

Axioma III: Com o infantil-criança, foi feito o seguinte: 1) do pensamento


infantil se fez uma doutrina: a da infância como etapa de vida; 2) da maneira infantil de
viver se fez a cultura da infância; 3) do acontecimento infantil se fez a história da
criança e da infância.

Problema I: Ao invés de, assim, reconhecer e admirar o infantil-criança, não se


está normalizando-o e transformando-o em maioria?
Problema II: Como operar um tratamento menor ou de minoração com o
infantil-criança? Como minorá-lo?
Problema III: Como desprender devires-infantis contra a história da criança e da
infância?
Problema IV: Como pôr vidas infantis contra a cultura da infância?
Problema V: Como colocar pensamentos infantis contra a doutrina da infância?
Problema VI: Como experimentar favorecimentos ou desprezos infantis contra o
dogma da infância?
Problema VII: Como colocar a minorização do infantil contra a magnificação ou
normalização da criança?

Axioma IV: O infantil opera a variação necessária para a minoridade e


reencontra ou possibilita que se reencontre a força ativa da minoridade.
Proposição VIII: É a deformidade da identidade-criança ou o colapso e
desgraça da infância que possibilitam devires-infantis minoritários.
Proposição IX: Não há criança ou infância que não estejam escavadas,
arrastadas por linhas de variação inerente e contínua, isto é, pelo devir-infantil.
Proposição X: O infantil foge do controle, da pretensão unificadora e
totalizadora.
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Axioma V: Há uma subordinação da forma-infância à velocidade infantil, ou à


variação de velocidade infantil.

Axioma VI: Há uma subordinação do sujeito-criança à intensidade ou ao afecto,


à variação intensiva dos afectos infantis.

Axioma VII: O infantil é máquina de guerra; ao contrário da criança, que


permanece sob a dependência e o poder de um aparelho de Estado.
Proposição XI: O infantil, como linha de fuga criadora, é uma língua menor na
linguagem que fala a infância, um personagem menor na cena da forma-infância e do
sujeito-criança dominantes.
Proposição XII: O infantil possibilita substituir a representação da infância e da
criança pela variação do infantil, como elemento mais ativo e afirmativo, mais agressivo
e criador.

Axioma VIII: A infância e a criança já são produtos; já são codificados; já estão


institucionalizados; já estão normalizados; já estão representados; já são modelos de
poder histórico ou estrutural, ou ambos ao mesmo tempo.

Axioma IX: O infantil é variação criadora, livre e presente, que se introduz entre
as malhas dos produtos e transborda do conjunto majoritário padrão.
Assim, todo mundo é minoritário, isto é, todo mundo pode ser infantil, desde que
se desvie do modelo de poder histórico ou estrutural, ou ambos ao mesmo tempo.

Axioma X: Como variação inesperada, sub-representada ou pré-representada,


irreconhecível e não-oficial, não controlável e não previsível, a modesta e humilde
função do infantil é infantilizar.

5. Não se sabe...

Não se sabe se a sua vida consiste numa existência individual; se a sua natureza
consiste num fato biológico; ou se a sua cultura consiste num modo de ser social. Não
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há indicações a respeito, a não ser que, de jeito algum, trata-se de um animal rationale
ou de uma imago Dei. Até que um outro – mundo possível? – chegasse, foi identificado
à existência primordial. Em função de tal proveniência, através dos tempos, foi
considerado como o humano em geral. E, só muito recentemente, viu-se que a sua ação
transcorre de forma selvagemente sentida; logo, na antípoda do que é entendido por
humano. Pluralidade de forças em permanente tensão, o seu movimento estabelece
hierarquias temporárias. Pensamentos, sentimentos e impulsos encontram-se em luta,
mas também seus tecidos, órgãos e células. Atua contra sentidos estabelecidos, normas
coercitivas, querer divino, ídolos axiológicos da moral, arrière-monde. Opera, antes de
tudo, contra a morte. Não visa objetivos, não admite tréguas, não prevê fim. A partir do
combate incessante, surgem forças dominantes, que o fazem agir, e forças dominadas,
que o levam a reagir. São essas forças que constituem sua vida, natureza e cultura.
Sendo um fora-da-lei, fora-do-contrato, fora-da-instituição, tem retiradas as
possibilidades dos seus instintos atuarem, quando fica encerrado no âmbito da Família,
do Édipo, da Escola, do Estado, dos Direitos Humanos, da Paz. Então, esses instintos
voltam-se contra si mesmos e o seu desenvolvimento ruma para o espírito de
gregariedade: mediano, vulgar. Ao lutar contra a desvalorização dos instintos estéticos –
tanto apolíneos como dionisíacos – pela razão, é um rebelde, em face do saber
consciente que diminui sua sabedoria instintiva. Em seu querer, o sentir e o pensar
encontram-se imbricados e o pensamento disseminado pelo corpo. Ao articular vida e
pensamento, faz experiências com todas as coisas, sobretudo consigo mesmo. Detesta o
preceito Tudo o que é belo é racional e nunca subordina a poesia à lógica, por
considerar que os instintos vitais é que constituem sua força afirmativo-criativa. Aliando
tal força à hipertrofia da consciência e da memória, esquece. Para sentir alegria, leveza,
esperança, orgulho, basta-lhe a inconsciência salutar associada ao esquecimento.
Instalado no limiar do instante, apaga lembranças, já que sem esquecer não age e não
vive. Nas relações com o meio, a superficialidade é um dos seus traços marcantes e até
mesmo definidor. Possui a pretensão de saber como suas ações são produzidas, mesmo
que elas nunca sejam o que lhe parecem ser. Mostra-se, por vezes, como uma unidade,
forma mais alta, suprema espécie de ser, progresso da consciência, conhecimento
absoluto, critério superior de valor; embora seja apenas conjunturalmente utilizável para
a manutenção da vida em grupo. Nos conceitos, gêneros, espécies, categorias, sistemas,
encontra somente anseios e necessidades humanas de sobrevivência. Assim, desmascara
as ilusões das ciências humanas e sociais, da religião e da moral, mostrando que elas são
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sintomas de um regime utilitário do agir. Sintomas que introduzem sentidos e atribuem


fixidez a seu desregramento instintual. Necessário, assegura a própria existência, na
medida em que se dota de um caráter simplificador. Faz-se inteligível, ao tomar
consciência de si, em relação com a comunidade. Deixa, portanto, de ser incomparável,
único, ilimitadamente singular, para ir se tornando confiável e constante, raso e ralo,
generalizado e indeterminado, simétrico e estúpido, falsificável e traduzível na
perspectiva do rebanho. Dobrando-se a tudo o que é altivo, conquistador, dominador,
torna-se brando e tranqüilo, fazendo de si uma permanência na mudança. Como rede de
ligação entre os humanos, equivale à regularidade dos costumes, alma, espírito,
essência, sujeito, agente, objeto, causa, efeito, substrato, ser, razão, consciência,
verdade, Eu. Sua moralidade define-se pela capacidade de obedecer a leis, cujo
referencial regulador encontra-se na tradição, tida como autoridade superior, à qual
obedece – não porque ela lhe manda fazer algo, mas simplesmente porque ela manda.
Adestrado, conceitualiza pela identificação de dessemelhantes; pensa as coisas mais
simples do que são; e responsabiliza-se por suas ações, incluindo o ato de pensar. Desse
modo, serve aos fracos, às almas iguais, e suprime a diferença, gerando metafísicas
assentadas em falsos problemas. Caudatário de forças reativas, que se colocam em
primeiro lugar, faz com que essa reatividade elimine a primazia de suas forças
agressivas – criadoras de novas direções. Nesses arranjos mecânicos, regulações,
funções adaptativas, expressa o poder das forças dominadas; embora realize esforços
continuados por mais potência – como vitória sobre si mesmo, tendência a subir,
vontade de auto-superação. Por isso, é essencialmente mutável, princípio pelo qual a sua
própria vida se supera. Como uma ficção convencional – mas dotada de um caráter de
realidade –, vive um processo de formação, no qual a moralidade é o meio necessário
para o seu amadurecimento enquanto indivíduo soberano. Então, livre, de vontade
inabalável, prescinde da moral, liberta-se dos costumes, cria valores e organiza a
exterioridade mediante a introdução de formas, que têm seu respaldo na interpretação e
na avaliação. Como produto dessas ações, torna-se autônomo e supra-moral.
Desprendido das coordenadas sociais e do poder ordenador da lei, propugna um nada de
teórico e de prático, e tudo pelo trágico, fazendo o mundo à sua medida e tendo o
conhecimento do mundo que merece. Não se sabe se esse desterritorializado ainda pode
ser chamado infantil, como um derivado da ação genérica da cultura; ou se terá chegado
o momento, em que já não tem nenhuma importância chamar ou não chamar infantil
àquilo que dele é dito e pensado. Deslocado no tempo, precipitado e ativado, tornado
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positivo e criador, não pode deixar de existir. Só que já não é mais ele mesmo...
Desligado da falsa infância que nunca houve, faz proliferarem desejos, paixões e
conexões com o campo social e político. De maneira a ser irremediavelmente
multiplicado, enquanto condição da própria criação: “um novo começo, um jogo, uma
roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer ‘sim’” (Nietzsche,
s/d, p.44).

Referências bibliográficas
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra – Um livro para todos e para
ninguém. Tradução Mário da Silva. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
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