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A Paixão de Gabriel (é clichê esse título?

Nas primeiras imagens de Gabriel e a Montanha vemos a imponência do Monte Mulanje;


estamos em Malawi, África. Homens negros sobem colhendo plantas quando encontram
o corpo sem vida do protagonista do filme: “Mzungo!” (Branco!), dizem se referindo a
ele. Nas sequências seguintes acompanhamos os últimos dias de Gabriel em sua viagem
pelo continente até o momento da sua morte, quando tenta subir a montanha sozinho e,
perdido, sucumbe à imensidão do que não alcança.

A história é baseada em fatos reais e o filme se apresenta como uma homenagem do


diretor ao seu amigo de infância. As imagens se esforçam para que vejamos em Gabriel
um jovem aventureiro, sensível e sonhador que, apesar de pertencer a elite branca carioca,
tem a pretensão de mudar o mundo. O resultado, porém, é outro. O que vemos é o
deslumbre da branquitude que, acostumada a poucas fronteiras, acredita sempre poder se
movimentar livremente.

Quando chamado de Mzungo pela primeira vez, Gabriel retruca: “não sou branco, sou
brasileiro”. E é neste cinismo que o filme pretende resolver questões raciais e coloniais
que emergem do encontro cinematrográfico entre o Brasil e países africanos. O apelo à
mestiçagem opera como apaziguamento das relações estabelecidas entre o personagem e
as pessoas e lugares que ele encontra no decorrer da viagem.

Gabriel não enxerga a pobreza no Rio de Janeiro, precisa atravessar o oceano para se
aproximar da miséria dos outros. Nas primeiras cenas vemos imagens de crianças negras
enquanto o escutamos falar orgulhoso dos seus gestos assistencialistas: “Com 40 dólares
eu paguei um ano inteiro de estudos de um menino!”. Assim ele acredita anular as tensões
hierárquicas ativadas por sua existência naqueles espaços.

Na tentativa de construir uma imagem carismática do amigo, a estratégia principal do


filme é a de docilização africana que reatualiza o olhar branco colonial sobre a negritude.
Gabriel corre de braços abertos como um adolescente abobalhado em meio ao povo preto,
tendo acesso livre às ruas e às casas das pessoas, sempre dispostas a recebe-lo e a
esclarecer pacientemente as suas dúvidas mais exóticas. “Estou com pouco dinheiro,
posso dormir na sua casa?”, pergunta o jovem a um morador de uma cidade que visita,
levando ao limite a caricatura do privilégio branco.
O trânsito livre de Gabriel se confunde com a circulação da própria equipe de produção
nos 7 mil quilômetros percorridos durante a filmagem. Assim como o personagem eles
também estiveram ali com seus aparatos de privilégio e segurança, tendo passagem
garantida pelo alto investimento financeiro conseguido para a realização de um trabalho
no qual a África é disposta como um grande playground.

A metáfora da montanha é perfeita, pois resume o gesto individualista de superação que


em nada tem a ver com qualquer perspectiva de solidariedade ou coletividade. A imagem
de Gabriel no topo da montanha levantando a bandeira do Brasil e seus dizeres positivistas
que clamam por ordem e progresso dão a dimensão exata de um problema que envolve
território e dominação.

Nos últimos momentos do filme Gabriel está perdido e exausto. Ele se deita encolhido e
olha para a câmera enquanto sente a sua vida se esvair. Olha para nós como quem faz um
último pedido de atenção, mas a essa altura a nossa distância parece já muito longa.

Gabriel e a Montanha tenta construir uma África sem violência, tornando os povos
africanos sempre dispostos às vontades do protagonista, que se mostra irritado sempre
que contrariado.

mas acaba revelando muito mais que isso


O filme é uma homenagem do diretor Fellipe Gamarano ao seu amigo de infância

A história é real e aconteceu em 2009. A tragédia a morte do brasileiro em terras africanas


logo tomou a mídia e a memória de Gabriel passou a mover as engrenagens do capital
através das matérias jornalísticas

Agora, em 2017, o diretor Fellipe Gamarano homenageia o amigo de infância através da


reconstituição do seu trajeto pelo continente africano.

Ao ser chamado de branco pela primeira vez Gabriel reaje: “Eu não sou mzungo, sou
brasileiro!”.

O filme é uma homenagem do diretor Fellipe Gamarano Barbosa ao amigo que perdeu

A homenagem feita pelo diretor Fellipe Gamarano Barbosa ao seu amigo Gabriel
Buchmann nos é apresentada em imagens que fabulam em torno dos últimos dias de vida
do colega de infância.
Em 2009 Gabriel encontrou a morte ao tentar escalar sozinho o Monte Malanje, no
Malawi.

Através de e-mails, cartas e fotos

e acompanhamos os últimos dias de Gabriel, brasileiro que encontrou sua morte ao tentar
escalar sozinho a imponente montanha. O filme

O cinema funciona como máquina de fabricar memórias. Quando imagens são


produzidas, geramos também presença. Decidimos quem ou o que é me

Gabriel anda pela África como se fosse o playground do seu prédio.

“Eu não sou branco, sou brasileiro” Diz o personagem principal

Gabriel e a Montanha é o

conta a história real do jovem Gabriel

Quais vidas são passíveis de luto? Quem tem a possibilidade de construir monumentos
para memória dos seus? Qual o custo de tudo isso?
“carência de representação desse lugar do mundo.”

A África, no cinema, geralmente é muito violenta, miserável e, de certa maneira,


estereotipada. E eu percebi, através das minhas viagens de pesquisa, que o Gabriel era uma
oportunidade uma cartografia humana dessa região do mundo – uma cartografia que fosse
mais justa com eles, né?"

Isso não quer dizer que os personagens africanos são perfeitos.


Eles têm muito interesse nele também, como um branco, que é o
cara que supostamente tem dinheiro.

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