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CRIMES RESULTANTES DE PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO

APRESENTAÇÃO .......................................................................................................................... 4
1. INTRODUÇÃO......................................................................................................................... 5
2. TUTELA CONSTITUCIONAL ................................................................................................... 5
2.1. PREÂMBULO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL ................................................................ 5
2.2. DISPOSITIVOS DA CF/88 ................................................................................................ 5
3. TUTELA DA IGUALDADE NA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DOS HOMENS 8
4. ÂMBITO DE INCIDÊNCIA DA LEI Nº 7.716/89 ...................................................................... 10
5. DIFERENCIAÇÃO DE DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO ................................................ 10
6. CONCEITOS ......................................................................................................................... 11
6.1. RAÇA ............................................................................................................................. 11
6.2. COR ............................................................................................................................... 11
6.3. ETNIA ............................................................................................................................. 11
6.4. RELIGIÃO....................................................................................................................... 11
6.5. PROCEDÊNCIA NACIONAL .......................................................................................... 12
7. OUTRAS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO ............................................................................ 13
8. CRIMES DA LEI Nº 7.716/89 ................................................................................................. 15
8.1. IMPEDIR ACESSO CARGO PÚBLICO .......................................................................... 15
8.1.1. Previsão legal e considerações ............................................................................... 16
8.1.2. Conflito aparente de normas .................................................................................... 16
8.2. IMPEDIR PROMOÇÃO NA CARREIRA.......................................................................... 17
8.2.1. Consumação ........................................................................................................... 17
8.2.2. Sujeito ativo ............................................................................................................. 17
8.3. IMPEDIR ACESSO ÀS FORÇAS ARMADAS ................................................................. 17
8.3.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 18
8.3.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 18
8.3.3. Consumação ........................................................................................................... 18
8.3.4. Tentativa .................................................................................................................. 18
8.4. RACISMO NA INICIATIVA PRIVADA (ANTES DA CONTRATAÇÃO) ............................ 18
8.4.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 19
8.4.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 19
8.4.3. Consumação ........................................................................................................... 19
8.4.4. Conflito aparente de normas (critério da especialidade) .......................................... 19
8.5. RACISMO NA INICIATIVA PRIVADA (APÓS A CONTRATAÇÃO) ................................. 20
8.5.1. DEIXAR DE CONCEDER OS EQUIPAMENTOS NECESSÁRIOS AO EMPREGADO
EM IGUALDADE DE CONDIÇÕES COM OS DEMAIS TRABALHADORES.......................... 20
8.5.1.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 20
8.5.1.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 21
8.5.1.3. Consumação ........................................................................................................... 21
8.5.1.4. Tentativa .................................................................................................................. 21
8.5.2. IMPEDIR A ASCENSÃO FUNCIONAL DO EMPREGADO OU OBSTAR OUTRA
FORMA DE BENEFÍCIO PROFISSIONAL ............................................................................. 21
8.5.2.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 21
8.5.2.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 21
8.5.2.3. Consumação ........................................................................................................... 21
8.5.2.4. Tentativa .................................................................................................................. 21
8.5.3. PROPORCIONAR AO EMPREGADO TRATAMENTO DIFERENCIADO NO
AMBIENTE DE TRABALHO, ESPECIALMENTE QUANTO AO SALÁRIO ............................ 21

CS – CRIME DE PRECONCEITO 1
8.6. RACISMO NA COLOCAÇÃO DE ANÚNCIOS DE EMPREGOS ..................................... 22
8.7. DISCRIMINAÇÃO NOS ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS ..................................... 22
8.7.1. Artigo 5º da Lei nº 7.716/89 ..................................................................................... 22
8.7.1.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 23
8.7.1.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 23
8.7.1.3. Consumação ........................................................................................................... 23
8.7.2. Artigo 7º da Lei nº 7.716/89 ..................................................................................... 23
8.7.2.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 23
8.7.2.2. Sujeito Passivo ........................................................................................................ 23
8.7.2.3. Consumação ........................................................................................................... 23
8.7.2.4. Tentativa .................................................................................................................. 23
8.7.3. Artigo 8º da Lei nº 7.716/89 ..................................................................................... 24
8.7.3.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 24
8.7.3.2. Sujeito Passivo ........................................................................................................ 24
8.7.3.3. Consumação ........................................................................................................... 24
8.7.3.4. Tentativa .................................................................................................................. 24
8.7.4. Artigo 9º da Lei nº 7.716/89 ..................................................................................... 24
8.7.4.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 25
8.7.4.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 25
8.7.4.3. Consumação ........................................................................................................... 25
8.7.4.4. Tentativa .................................................................................................................. 25
8.7.5. Artigo 10º da Lei nº 7.716/89 ................................................................................... 25
8.7.5.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 25
8.7.6. Sujeito passivo ........................................................................................................ 26
8.7.7. Consumação ........................................................................................................... 26
8.7.8. Tentativa .................................................................................................................. 26
8.8. DISCRIMINAÇÃO NA EDUCAÇÃO ................................................................................ 26
8.8.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 26
8.8.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 26
8.8.3. Consumação ........................................................................................................... 27
8.8.4. Tentativa .................................................................................................................. 27
8.9. ARTIGO 11 DA LEI Nº 7.716/89 ..................................................................................... 27
8.10. ARTIGO 12 DA LEI Nº 7.716/89 ..................................................................................... 27
8.10.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 28
8.10.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 28
8.10.3. Conflito aparente de normas (princípio da especialidade) ........................................ 28
8.11. ARTIGO 14 DA LEI Nº 7.716/89: .................................................................................... 28
8.11.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 28
8.11.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 28
8.11.3. Consumação ........................................................................................................... 29
8.11.4. Tentativa .................................................................................................................. 29
8.12. ARTIGO 20 DA LEI Nº 7.716/89 ..................................................................................... 29
8.12.1. Hipóteses em que a jurisprudência entendeu configurado o delito .......................... 29
8.12.2. Penas, efeitos da condenação e providências cautelares ........................................ 31
8.12.3. Providências cautelares ........................................................................................... 31
8.13. ARTIGO 20, §1º, DA LEI Nº 7.716/89 ............................................................................. 31
8.13.1. Sujeito ativo ............................................................................................................. 32
8.13.2. Sujeito passivo ........................................................................................................ 32

CS – CRIME DE PRECONCEITO 2
8.13.3. Consumação ........................................................................................................... 32
8.13.4. Tentativa .................................................................................................................. 32
8.13.5. Elemento subjetivo .................................................................................................. 32
9. EFEITOS EXTRAPENAIS DA CONDENAÇÃO ..................................................................... 32
10. BREVES NOTAS SOBRE A COMPETÊNCIA .................................................................... 33
10.1. RACISMO PELA INTERNET .......................................................................................... 33
10.2. BASE TERRITORIAL DO CRIME PRATICADO PELA INTERNET ................................. 33
10.3. DISCRIMINAÇÃO/PRECONCEITO CONTRA A CULTURA INDÍGENA ......................... 34

CS – CRIME DE PRECONCEITO 3
APRESENTAÇÃO

Olá!

Inicialmente, gostaríamos de agradecer a confiança em nosso material. Esperamos que seja


útil na sua preparação, em todas as fases. Quanto mais contato temos com uma mesma fonte de
estudo, mais familiarizados ficamos, o que ajuda na memorização e na compreensão da matéria.

O Caderno Legislação Penal Especial – Crimes de Preconceito possui como base as aulas
do professor Vinícius Marçal, do Curso G7 Jurídico.

Dois livros foram utilizados para complementar nosso CS de Legislação Penal Especial: a)
Legislação Criminal para Concursos (Fábio Roque, Nestor Távora e Rosmar Rodrigues Alencar),
ano 2017 e b) Legislação Criminal Comentada (Renato Brasileiro), ano 2018, ambos da Editora
Juspodivm.

Na parte jurisprudencial, utilizamos os informativos do site Dizer o Direito


(www.dizerodireito.com.br), os livros: Principais Julgados STF e STJ Comentados, Vade Mecum de
Jurisprudência Dizer o Direito, Súmulas do STF e STJ anotadas por assunto (Dizer o Direito).
Destacamos: é importante você se manter atualizado com os informativos, reserve um dia da
semana para ler no site do Dizer o Direito.

Ademais, no Caderno constam os principais artigos de lei, mas, ressaltamos, que é


necessária leitura conjunta do seu Vade Mecum, muitas questões são retiradas da legislação.

Como você pode perceber, reunimos em um único material diversas fontes (aulas + doutrina
+ informativos + súmulas + lei seca + questões) tudo para otimizar o seu tempo e garantir que você
faça uma boa prova.

Por fim, como forma de complementar o seu estudo, não esqueça de fazer questões. É muito
importante!! As bancas costumam repetir certos temas.

Vamos juntos!! Bons estudos!!

Equipe Cadernos Sistematizados.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 4
1. INTRODUÇÃO

O antigo preâmbulo da Lei nº 7.716/89 definia os crimes de preconceito como aqueles


praticados em detrimento de raça e de cor. Vejamos sua antiga redação:

Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de


preconceitos de raça ou de cor.

Em 1997, com a edição da Lei nº 9.459/97, esse dispositivo sofreu alteração:

Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de


discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

É fundamental memorizar a sigla: R.C.E.R.PN.

• Raça

• Cor

• Etnia

• Religião

• Procedência Nacional

Obs.: Algumas provas abordam o tema e incluem outros tipos de preconceitos além dos citados no
art. 1º da Lei nº 7.716/89. Portanto, imprescindível o conhecimento do dispositivo legal.

2. TUTELA CONSTITUCIONAL

2.1. PREÂMBULO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL

O preâmbulo, apesar de não ser lei, possui relevante caráter político-ideológico.

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional


Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-
estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de
uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia
social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução
pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Esses foram os valores que fomentaram a Carta Magna.

2.2. DISPOSITIVOS DA CF/88

CS – CRIME DE PRECONCEITO 5
Inicialmente, destaca-se o art. 1º, III, da CF/88:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos


Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
(...)
III - a dignidade da pessoa humana;

É de extrema importância a referida previsão, porque o bem jurídico tutelado pela Lei nº
7.716/89 é a “dignidade da pessoa humana”.

No mesmo sentido, art. 3º, IV, da CF/88:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:


(...)
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Sexo, idade e outras formas de discriminação (cláusula aberta) não estão contempladas
pela Lei nº 7.716/89.

Além disso, preveem os arts. 4º, II e VIII; art. 5º, VI; art. 7º, XXXI, todos da CF/88:

Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações


internacionais pelos seguintes princípios:
(...)
II - prevalência dos direitos humanos;
(...)
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
(...)

Art. 5º (...)
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o
livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção
aos locais de culto e a suas liturgias;

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que
visem à melhoria de sua condição social:
XXXI - proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de
admissão do trabalhador portador de deficiência;

Ressalta-se que o art. 7º, XXXI, é tão importante que se tornou crime na Lei nº 7.716/89, em
seu art. 4º, §1º, III.

Art. 4º (...)
§ 1o Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação de raça ou
de cor ou práticas resultantes do preconceito de descendência ou origem
nacional ou étnica: (Incluído pela Lei nº 12.288, de 2010) (Vigência)
(...)
III - proporcionar ao empregado tratamento diferenciado no ambiente de
trabalho, especialmente quanto ao salário.

Por conseguinte, dispõe o art. 5º, XLI, da CF/88:

CS – CRIME DE PRECONCEITO 6
Art. 5º (...)
XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades
fundamentais;

Há mandando constitucional de criminalização. A lei manda que o legislador ordinário venha


a punir QUALQUER (de lege ferenda) discriminação, entretanto, não há o tratamento generalizado.

Ademais, incisos XLII, XLIV, XLIII do art. 5º, da CF/88 afirmam que:

Art. 5º (...)
XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito
à pena de reclusão, nos termos da lei;
XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados,
civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático;
XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou
anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o
terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os
mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;

Existem três hipóteses de inafiançabilidade e duas hipóteses de imprescritibilidade.

Doutrinadores de peso (Sergio Salomão Shecaira, Guilherme de Souza Nucci) são


radicalmente contra a imprescritibilidade, pois entendem que, no caso do racismo, trata-se de algo
desproporcional, marcado por indícios autoritários.

Por outro lado, a CF/88 tratou das três hipóteses de inafiançabilidade e duas de
imprescritibilidade, não pode a doutrina relegá-las. Não existem normas constitucionais originárias
inconstitucionais, portanto, devem ser aplicadas.

O STF reconheceu a validade da imprescritibilidade constitucional afirmando que:

STF HC 82424 - jamais podem se apagar da memória dos povos que se


pretendam justos os atos repulsivos do passado que permitiram e
incentivaram o ódio entre os iguais por motivos raciais de torpeza inominável.
A ausência de prescrição nos crimes de racismo justifica-se como alerta
grave para as gerações de hoje e de amanhã, para que se impeça a
restauração de velhos e ultrapassados conceitos que a consciência jurídica e
histórica não mais admite.

QUESTIONA-SE: A discriminação em razão de cor, etnia, religião e procedência nacional


também são imprescritíveis, já que a CF/88 engloba, literalmente, o racismo por raça? Existem dois
entendimentos.

Gabriel Habib defende a literalidade, em razão da analogia in malam partem. Segundo ele,
“a CF/88 apenas fez menção expressa ao racismo, como sendo imprescritível e inafiançável, nada
dispondo em relação às demais formas de discriminação previstas na lei (cor, etnia, religião ou
procedência nacional). Dessa forma, conclui-se que a imprescritibilidade e a inafiançabilidade se
referem tão somente à discriminação em razão de raça, não podendo o preceito constitucional ser
aplicado às demais formas de discriminação, sob pena de incidência em analogia in malam partem.”

Diversamente, STF e STJ têm entendimento radicalmente oposto. Dizem os tribunais:

“Não procede a preliminar de prescrição da pretensa punitiva estatal, uma


vez que o paciente foi denunciado como incurso no artigo 20 da Lei

CS – CRIME DE PRECONCEITO 7
7.716/1989 (‘praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de
raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.’). Tratando-se de crime de
racismo, incide sobre o tipo penal e a cláusula de imprescritibilidade prevista
no art. 5º, XLII, da Constituição Federal. S jurisprudência do STF e do STJ é
firme no sentido de que o crime de racismo não se restringe aos atos
preconceituosos em função de cor ou etnia, mas abrangem todo ato
discriminatório praticado em função de raça, cor, etnia, religião ou
procedência, conforme previsão literal do art. 20 da Lei nº 7.716/1989.”

Esse deve ser o posicionamento por nós adotados em provas, eis porque entendimento
consolidado nas cortes superiores.

No mesmo sentido: HC 143.147, 6ª T.STJ, DJe 31.03.2016 e STF, HC 82424, DJ


19.03.2004.

A imprescritibilidade do racismo (art. 5º, XLIII) abrange também o crime de injúria racial?

CP, art. 140, §3º - Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes


a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora
de deficiência:
Pena – reclusão de 1 a 3 anos e multa

O posicionamento amplamente majoritário entende que não alcança. Um crime é racismo,


outro é a injúria racial. Enquanto, no racismo, a vítima é a humanidade, na injúria, a vítima é a
pessoa que sofreu a injúria e teve sua honra subjetiva maculada. No racismo, a Ação Penal é
Incondicionada, o Estado deve agir independentemente da vontade da pessoa que sofreu o
racismo, já na Injúria é Ação Penal Pública Condicionada à Representação.

Todavia, com o advento da Lei nº 9.459/79, introduzindo a denominada injúria racial, criou-
se mais um delito no cenário do racismo. Portanto, imprescritível, inafiançável e sujeito à pena de
reclusão (AgRg no AResp 686.695/DF, 6ª T.STJ, DJe 31/08/2015). Embora seja um julgado isolado,
não se tem notícia de outro que altere esse entendimento, já defendido em sede doutrinária por
Guilherme de Souza Nucci. A crítica formulada é eventual analogia in malam partem.

3. TUTELA DA IGUALDADE NA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DOS


HOMENS

Dispõe o art. 2º da Declaração Universal dos Direitos do Homem:

Artigo 2° Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades


proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente
de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra,
de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra
situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto
político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da
pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autônomo ou
sujeito a alguma limitação de soberania.

As expressões destacadas em amarelo não são tutelas pela Lei nº 7.716/89.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 8
Ainda, o artigo IV, alínea “a” da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as
Formas de Discriminação Racial (Decreto 65.810/1969):

ARTIGO IV Os Estados Partes condenam toda propaganda e todas as


organizações que se inspiram em ideias ou teorias cujo fundamento seja a
superioridade de uma raça ou de um grupo de pessoas de uma certa cor ou
de uma certa origem étnica, ou que pretendam justificar ou encorajar qualquer
forma de ódio e de discriminação raciais, comprometendo-se a adotar
imediatamente medidas positivas destinadas a eliminar qualquer incitação a
tal discriminação e, para esse fim, tendo em vista os princípios formulados na
Declaração Universal dos Direitos Humanos e os direitos expressamente
enunciados no artigo V da presente Convenção, comprometem-se,
nomeadamente:
a) a declarar como delitos puníveis por lei qualquer difusão de idéias
que estejam fundamentadas na superioridade ou ódio raciais, quaisquer
incitamentos à discriminação racial, bem como atos de violência ou
provocação destes atos, dirigidos contra qualquer raça ou grupo de pessoas
de outra cor ou de outra origem étnica, como também a assistência prestada
a atividades racistas, incluindo seu financiamento;

Observe artigo I, 4, da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de


Discriminação Racial (Decreto 65.810/1969):

Art. I (...)
4. Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais
tomadas com o objetivo precípuo de assegurar, de forma conveniente, o
progresso de certos grupos sociais ou étnicos ou de indivíduos que
necessitem de proteção para poderem gozar e exercitar os direitos humanos
e as liberdades fundamentais em igualdade de condições, não serão
consideradas medidas de discriminação racial, desde que não conduzam à
manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não
prossigam após terem sido atingidos os seus objetivos

Trata-se de ações afirmativas com prazo, justamente para não gerar discriminação reversa
ou inversa. Exemplo: cotas raciais para negros em universidades públicas (STF ADPF 186 (Unb) e
RE 597285 (UFRGS).

O ordenamento jurídico brasileiro fomenta a espécie de discriminação benigna, visualizada


nas ações afirmativas. Por outro lado, não sustenta espécie de discriminação negativa, que é objeto
da Lei nº 7.716/89.

Destacam-se os arts.1º e 6º, ambos da Lei 12.990/2014:

Art. 1o Ficam reservadas aos negros 20% (vinte por cento) das vagas
oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e
empregos públicos no âmbito da administração pública federal, das
autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades
de economia mista controladas pela União, na forma desta Lei.

Art. 6o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação e terá vigência pelo
prazo de 10 (dez) anos.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 9
4. ÂMBITO DE INCIDÊNCIA DA LEI Nº 7.716/89

Narra o art. 1º da Lei nº 7.716/89:

Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de


discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional

ATENÇÃO: Guilherme de Souza Nucci afirma “para nós, qualquer tipo de discriminação de seres
humanos é racismo... de modo que segregar pessoas em razão do sexo (homem ou mulher) e do
estado civil (casado, solteiro, divorciado, separado judicialmente) constitui manifestação racista,
sujeita aos tipos previstos na Lei nº 7.716/89. (...) homossexuais discriminados podem ser, para os
fins de aplicação desta Lei, considerados como grupo racial.”

O disposto no art. 20 da Lei nº 7.716/89 tipifica o crime de discriminação ou preconceito


considerada a raça, a cor, a etnia, a religião ou a procedência nacional, não alcançando a decorrente
de opção sexual (Inq 3590, 1ª T. STF, DJe-177 de 12-09-2017).

Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça,


cor, etnia, religião ou procedência nacional.)
Pena: reclusão de um a três anos e multa.

*MP-BA: A L.7.716/89 tipifica e estabelece punição de crimes resultantes de discriminação ou


preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, estando excluída a discriminação
ou preconceito relativo à orientação sexual.

*PC-RN: A L.7.716/89 não considera crime de racismo o ato preconceituoso contra homossexual
praticado em razão da opção sexual da vítima.

*PC-SE: A Lei nº 7.716/89 pune criminalmente algumas formas de preconceito e discriminação


praticados contra a pessoa humana. NÃO serão punidos criminalmente por esta lei o preconceito e
a discriminação decorrente de orientação sexual.

5. DIFERENCIAÇÃO DE DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO

Discriminação é a materialização do preconceito. É dinâmica, enquanto preconceito é


estático. Liga-se à ideia de segregação. Está previsto no Estatuto da Igualdade Racial.

Observe o art. 1º, §único, inciso I, da Lei nº 7.716/89:

Art.1º (...)
§ 1o Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação de raça ou
de cor ou práticas resultantes do preconceito de descendência ou origem
nacional ou étnica:
I - deixar de conceder os equipamentos necessários ao empregado em
igualdade de condições com os demais trabalhadores;

Preconceito é sentimento que a pessoa pré-possui em relação à determinada raça, etnia.


São concepções criadas por alguém de modo a desqualificar pessoas em razão de sua r.c.e.r.pn.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 10
Exemplo: A julga que B é menos inteligente e indigno de direitos por ser procedente de
determinada região do país.

6. CONCEITOS

6.1. RAÇA

A raça pode ser explicada tradicionalmente e sob o viés atual.

Historicamente, raça é conceito atrelado às características físicas e biológicas (conformação


do crânio, tipo de cabelo, cor da pele etc.) que identificam um povo. É produto da hereditariedade.

Exemplo: pensamento nacional-socialista: Judeus x Arianos.

Esse conceito está superado. O STF entendeu que diferenciação de raça em nada diz, por
existir uma única: a raça humana.

“Raça Humana. Subdivisão. Inexistência. Com a definição e o mapeamento


do genoma humano, cientificamente não existem distinções entre os homens,
seja pela segmentação da pele, formato dos olhos, altura, pêlos ou por
quaisquer outras características físicas, visto que todos se qualificam como
espécie humana. Não há diferenças biológicas entre os seres humanos. Na
essência são todos iguais. (...) A divisão dos seres humanos em raças resulta
de um processo de conteúdo meramente político-social. Desse pressuposto
origina-se o racismo que, por sua vez, gera a discriminação e o preconceito
segregacionista.” (STF, HC 82424, DJ 19.03.2004).

Em se tratando de crimes de preconceito e discriminação racial, a jurisprudência pátria


passou a utilizar a expressão “etnia” como sinônimo de “raça”. Tal revaloração deveu-se,
precipuamente, ao entendimento firmado pelo STF quando do julgamento do HC 82.424/RS – ACR
2001.72.02.00467-5, 7ª T. TRF4, DJ 247/09/2006.

6.2. COR

A cor evidencia a discriminação/preconceito fundados na cor da pele.

Exemplo: negros; brancos; amarelos (asiáticos) etc.

6.3. ETNIA

Grupo social que apresenta homogeneidade cultural e linguística.

Exemplo: comunidade indígena.

6.4. RELIGIÃO

Culto ritualístico prestado a uma Divindade; crença na existência de um poder ou princípio


superior, sobrenatural, do qual depende o destino do ser humano e ao qual se deve respeito e
obediência.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 11
Exemplo: católica; espírita; protestante etc.

ATENÇÃO: A discriminação baseada no ateísmo não é abrangida pela Lei nº 7.716/89. Do ponto
de vista doutrinário, ateísmo não é religião.

6.5. PROCEDÊNCIA NACIONAL

Exprime a discriminação e o preconceito:

• Contra nacionais de Estado-membro diverso, reconhecíveis pelo modo de falar, pela


aparência física (cariocas; paulistas; goianos; gaúchos; nordestinos);

• Contra pessoas de região diversa dentro do mesmo estado ou cidade, ainda que de
mesma naturalidade (dono de badalado restaurante no Neblon x cliente morador da
cidade de Deus);

Em razão de nacionalidade (brasileiro; paraguaio; argentino).

Caso emblemático sobre procedência nacional (STJ: RCH 19.166, 5ª T., DJ 20/11/2006):

Voo NY para RJ – desentendimento passageiro e 2 comissários em razão do assento. Já no


Brasil, o passageiro solicitou os nomes dos comissários (que não portavam crachá) – Um dos
comissários para a vítima: “Amanhã vou acordar jovem, bonito, orgulhoso, rico e sendo um
poderoso americano, e você vai acordar como safado, depravado, canalha e miserável brasileiro.”
O outro incitou a ofensa e partiu para a agressão física, mas foi contido por terceiros.

STJ:”...a intenção dos réus, em princípio, não era precisamente depreciar o


passageiro (a vítima), mas salientar sua humilhante condição em virtude de
ser brasileiro, i.e., a ideia foi exalar a superioridade do povo americano em
contraposição à posição inferior do povo brasileiro, atentando-se, dessa
maneira, contra a coletividade brasileira. Assim, suas condutas, em tese,
subsumam-se ao tipo legal do artigo 20, da Lei 7.716/89.

Obs.: a questão foi cobrada na prova de Delegado de Polícia – ES.

Vide art. o 140, §3º do CP e Lei nº 7.716/89:

Injúria Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:


Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
§ 3o Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor,
etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de
deficiência:
Pena - reclusão de um a três anos e multa.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 12
PARA FRISAR:

INJÚRIA RACIAL LEI 7.716/89


VÍTIMA Individualizada Humanidade
BEM JURÍDICO Honra subjetiva Dignidade da Pessoa
Humana e Igualdade
INAFIANÇABILIDADE E Tradicionalmente: Constitui crime
IMPRESCRITIBILIDADE afiançável e prescritível; inafiançável, imprescritível
Em sentido contrário: e sujeito à pena de
AgRg no AREsp 689.965, reclusão (Art. 5º, XLII, da
6ª T.STJ, de 2015) CF/88)
CONTEXTO FÁTICO Ofensa a 1 ou + pessoas D./P. por r.c.e.r.pn. a
determinadas (ex: “judeu revelar a “superioridade” de
safado”) um povo sobre outro (RHC
19166), ainda que dirigida
a uma só pessoa
INSTRUMENTO Preconceito: instrumento Injúria é instrumento do
da injúria preconceito
AÇÃO PENAL Representação (art. 145, Pública Incondicionada
§único do CP)
MODALIDADES Sete: r.c.e.r.pn. + idoso e Cinco: Raça, Cor, Etnia,
deficiência Religião e Procedência
Nacional

TJSP: Apelação 990.10.154240-4, 5ª C. Crim., 02.12.2010: “No caso, a


denúncia descreve claramente que a ré ofendeu não apenas a honra
subjetiva do ofendido, mas toda a raça negra, ao dizer que ‘nego fede
naturalmente e fumando fede mais ainda’, de modo que os fatos não
caracterizam o crime previsto no art. 140, §3º, do CP, conforme alega a
zelosa Defesa, pois para a tipificação da chamada injúria qualificada é
imprescindível que a ofensa à honra, consistente na utilização de elementos
racistas e discriminatórios, seja direcionada a pessoa determinada, o que,
evidentemente, não é a hipótese dos autos.”

*MP-SC: Responde pela prática do crime de injúria racial, disposto no §3º do art. 140 do CP, e não
pelo art. 20 da Lei 7.716/89, pessoa que ofende uma só pessoa, chamando-a de “macaco” e “negro
sujo”.

7. OUTRAS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO

Dispõe o art. 96, §1º do Estatuto do Idoso:

Art. 96. Discriminar pessoa idosa, impedindo ou dificultando seu acesso a


operações bancárias, aos meios de transporte, ao direito de contratar ou por
qualquer outro meio ou instrumento necessário ao exercício da cidadania, por
motivo de idade:
Pena – reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa.
§ 1o Na mesma pena incorre quem desdenhar, humilhar, menosprezar ou
discriminar pessoa idosa, por qualquer motivo.

Ao contrário da Lei nº 7.716/89, aqui a cláusula é aberta. No mesmo sentido, artigo 2º da


Lei nº 9.029/95:

CS – CRIME DE PRECONCEITO 13
Art. 2º Constituem crime as seguintes práticas discriminatórias:
I - a exigência de teste, exame, perícia, laudo, atestado, declaração ou
qualquer outro procedimento relativo à esterilização ou a estado de gravidez;
II - a adoção de quaisquer medidas, de iniciativa do empregador, que
configurem;
a) indução ou instigamento à esterilização genética;
b) promoção do controle de natalidade, assim não considerado o
oferecimento de serviços e de aconselhamento ou planejamento familiar,
realizados através de instituições públicas ou privadas, submetidas às
normas do Sistema Único de Saúde (SUS).
Pena: detenção de um a dois anos e multa.

Trata-se de lei específica. Ademais, art. 88 da Lei nº 13.146/15 (E.P.D.):

Art. 88. Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua


deficiência:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.

Aqui, há lei própria também.

Vide artigo 8º, inciso III da Lei nº 7.853/89:

Art. 8o Constitui crime punível com reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos e


multa
III - negar ou obstar emprego, trabalho ou promoção à pessoa em razão de
sua deficiência

Artigo 1º, inciso I, alínea “c” da Lei nº 9.455/97:

Art. 1º Constitui crime de tortura


I - constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça,
causando-lhe sofrimento físico ou mental:
(...)
c) em razão de discriminação racial ou religiosa
(...)
Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Cuidado: o crime é de tortura motivado pela discriminação racial ou religiosa.

Artigos 1º, 3º e 5º todos da Lei nº 7.437/85*:

Art. 1º. Constitui contravenção, punida nos termos desta lei, a prática de atos
resultantes de preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil.

Art. 3º. Recusar hospedagem em hotel, pensão, estalagem ou


estabelecimento de mesma finalidade, por preconceito de raça, de cor, de
sexo ou de estado civil.
Pena - prisão simples, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa de 3 (três) a
10 (dez) vezes o maior valor de referência (MVR).

Art. 5º. Recusar a entrada de alguém em estabelecimento público, de


diversões ou de esporte, por preconceito de raça, de cor, de sexo ou de
estado civil.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 14
Pena - Prisão simples, de 15 (quinze dias a 3 (três) meses, e multa de 1 (uma)
a 3 (três) vezes o maior valor de referência (MVR).

A Lei nº 7.437/85 intitula todas as condutas presentes na Lei nº 7.716/89, até então, crimes,
como contravenções. Ante essa divergência, existem dois entendimentos.

O primeiro entendimento advoga que, com relação a raça e cor, essa Lei nº 7.437/85 está
derrogada porque é de 1985, enquanto a Lei nº 7.716 é de 1989. Portanto, está derrogada pelo
critério cronológico. Entretanto, continua em vigor no que concerne a “sexo” e “estado civil” (Gabriel
Habib) – aparentemente, esse não é o melhor entendimento.

Doutra ponta, Guilherme de Souza Nucci, Vinícius Marçal, fundados na ideia de que a Lei nº
7.437/85 está ab-rogada, conforme a previsão do artigo 5º, inciso XLII, da CF/88 “a prática do
racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da
lei.”, fomentam que qualquer lei que diga respeito a racismo, deve necessariamente prever
crimes, sem a possibilidade de concessão de liberdade provisória com fiança, imprescritíveis e,
muito importante, sujeitos à pena de reclusão. Não há, pois, qualquer possibilidade, por força de
mandamento constitucional, de se tolerar leis penais voltadas à punição de atos de discriminação
racial com figuras típicas de contravenção penal ou com delitos apenas, tão somente, com
detenção. Essa é a razão pela qual sustentamos a inaplicabilidade da Lei nº 7.437/85 (não
recepcionada). Ofensivos ao artigo 5º, XLII são todos os tipos previstos na referida lei. Não há
salvação.

Obs. Os tipos penais previstos na Lei nº 7.716/89 devem ser lidos na perspectiva do artigo 1º,
inclusive o artigo 4º, 2º (que somente menciona “raça e etnia”), pois todos ofendem o mesmo bem
jurídico imediato (dignidade da pessoa humana e igualdade).

Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de


discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional

Quanto à necessidade da finalidade de agir, surgem duas correntes.

1ª corrente (Fábio Medina Osório) entende que não é preciso especial fim de agir. “A
consciência e a vontade de produzir atos discriminatórios e preconceituosos não são incompatíveis
com o formato das ‘brincadeiras’. Inadmissível, assim, a publicidade de manifestações jocosas, em
qualquer de suas formas, versando discriminações e preconceitos vedados na lei penal. (...) essas
manifestações jocosas, aliás, penetram mais sutilmente no inconsciente coletivo, perfectibilizando
o suporte fático da norma proibitiva.” Esse entendimento é minoritário.

2ª corrente (Guilherme de Souza Nucci, Gabriel Habib) há necessidade do fim de agir


(ofensa em razão de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional), consistente na vontade de
segregar, mostrar-se superior a outro ser humano. O animus jocandi afasta o delito. Essa é a
posição majoritária.

8. CRIMES DA LEI Nº 7.716/89

8.1. IMPEDIR ACESSO CARGO PÚBLICO

CS – CRIME DE PRECONCEITO 15
8.1.1. Previsão legal e considerações

Previsto no art. 3º Lei nº 7.716/89:

Art. 3º Impedir ou obstar o acesso de alguém, devidamente habilitado, a


qualquer cargo da Administração Direta ou Indireta, bem como das
concessionárias de serviços públicos.
Pena: reclusão de dois a cinco anos.

A lei fala em pessoa “devidamente habilitada”, ou seja, esse é um elemento normativo.

Questiona-se se seria possível a criminalização da conduta se a pessoa não atende aos


requisitos previstos para acesso ao cargo. Ora, não há que se falar em crime se não preenchidas
as condições. Outrossim, se a conduta tiver por objeto emprego público, perfazem dois
entendimentos.

• 1ª C: Gabriel Habib, Victor Eduardo Rios Gonçalves e José Paulo Baltazar Júnior
advogam que há analogia in malam partem considerar a conduta também criminosa,
portanto, se a lei só fala em cargo, se dá por excluído “emprego público”.

• 2ª C: Guilherme de Souza Nucci, Vinícius Marçal, defendem que emprego público está
abrangido pelo artigo 3º da referida lei, através de uma interpretação extensiva – essa
é a melhor posição.

8.1.2. Conflito aparente de normas

Artigos 8º e 9º da Lei nº 7.437/85:

Art. 8º. Obstar o acesso de alguém a qualquer cargo público civil ou militar,
por preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil.
Pena - perda do cargo, depois de apurada a responsabilidade em inquérito
regular, para o funcionário dirigente da repartição de que dependa a inscrição
no concurso de habilitação dos candidatos.

Art. 9º. Negar emprego ou trabalho a alguém em autarquia, sociedade de


economia mista, empresa concessionária de serviço público ou empresa
privada, por preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil.
Pena - prisão simples, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa de 1 (uma) a
3 (três) vezes o maior valor de referência (MVR), no caso de empresa privada;
perda do cargo para o responsável pela recusa, no caso de autarquia,
sociedade de economia mista e empresa concessionária de serviço público.

Conforme Gabriel Habib, a Lei nº 7.716/89 prevalece perante a Lei nº 7.437/85 pelo critério
da sucessividade. Utiliza-se a Lei nº 7.437/85 especificamente no tocante a preconceito resultante
de sexo ou estado civil.

Em sentido contrário, Guilherme de Souza Nucci abrange o racismo como crime e apenado
com reclusão, em todo caso.

Mais adiante, dispõe o art. 100, I, do Estatuto do Idoso:

Art. 100. Constitui crime punível com reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano
e multa:

CS – CRIME DE PRECONCEITO 16
I – obstar o acesso de alguém a qualquer cargo público por motivo de idade;

Se a discriminação se der por motivo de idade, pelo critério da especialidade, prevalecerá o


Estatuto do Idoso.

A mesma logística é aplicada no tocante à deficiência, oportunidade em que será utilizado o


Estatuto da Pessoa com Deficiência. Observe o art. 8º da Lei 7.853/89:

Art. 8o Constitui crime punível com reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos e


multa
II - obstar inscrição em concurso público ou acesso de alguém a qualquer
cargo ou emprego público, em razão de sua deficiência;

ATENÇÃO: verificar o princípio da especialidade diante dos confrontos das leis gerais e leis
especiais.

8.2. IMPEDIR PROMOÇÃO NA CARREIRA

Prevê o art. 3º, §único, da Lei nº 7.716/89:

Art. 3º (...)
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação
de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, obstar a promoção
funcional

Aqui, obsta-se a promoção de carreira.

Apesar de a lei não escrever, obviamente, a vítima deve estar habilitada para a promoção.

8.2.1. Consumação

O crime é formal, ou seja, independe de elemento material.

8.2.2. Sujeito ativo

Trata-se de crime próprio, porque somente quem pode figurar como sujeito ativo é o superior
hierárquico da vítima.

8.3. IMPEDIR ACESSO ÀS FORÇAS ARMADAS

Artigo 13 da Lei nº 7.716/89:

Art. 13. Impedir ou obstar o acesso de alguém ao serviço em qualquer ramo


das Forças Armadas.
Pena: reclusão de dois a quatro anos

A dúvida que circunde o referido dispositivo é se as carreiras militares (polícia militar e


bombeiros) estaduais estariam abarcados pela legislação.

• A 1ª corrente entende que sim, calcada no art. 144, §6º da CF/88 (“as polícias militares
e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares e reserva do Exército...”).

CS – CRIME DE PRECONCEITO 17
• A 2ª corrente, contrariamente, baseia-se na previsão do art. 142 da CF/88 que entende
que “as forças armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica...”
– portanto, policiais militares e bombeiros, se obstados do acesso ao serviço, seriam
protegidos pelos dispositivos 3º ou 20º da Lei nº 7.716/89. Essa é a corrente
majoritária.

O serviço mencionado no tipo penal não se trata especificamente do serviço militar


obrigatória. O tipo alcança tanto esse serviço, como também o acesso à carreira das forças armadas
(Marinha, Exército e Aeronáutica).

8.3.1. Sujeito ativo

Sujeito ativo é aquele que possui a incumbência de admitir o ingresso de alguém ao serviço
militar.

Pode ser tanto um funcionário subalterno, encarregado da seleção, como um alto dirigente
das Forças Armadas.

Trata-se de crime próprio.

8.3.2. Sujeito passivo

Sujeito passivo é a humanidade e a pessoa discriminada.

8.3.3. Consumação

É crime formal. Mesmo que o pretendente consiga seu lugar nas Forças Armadas por força
de Mandado de Segurança, por exemplo, o delito estará consumado.

8.3.4. Tentativa

Tentativa será possível, pois o iter criminis é cindível.

*PC-RJ: Constitui discriminação punível impedir ou obstar o acesso de alguém ao serviço em


qualquer ramo das Forças Armadas em decorrência da orientação sexual do candidato – a assertiva
está equivocada – pois a discriminação está direcionada a raça, cor, etnia, religião e procedência
nacional.

8.4. RACISMO NA INICIATIVA PRIVADA (ANTES DA CONTRATAÇÃO)

Artigo 4º da Lei nº 7.716/89:

Art. 4º Negar ou obstar emprego em empresa privada.


Pena: reclusão de dois a cinco anos.

Ao contrário do art. 3º (cargo geral) e 13 (restrito às Forças Armadas), aqui se trata de cargo
em empresa privada.

Destaca-se que em relação à abrangência do elemento normativo emprego, há duas


correntes:

CS – CRIME DE PRECONCEITO 18
• 1ªC – Apenas as relações de emprego previstas na CLT. Portanto, prestações de
serviço e empregos eventuais não estariam abarcados. Se obstados, enquadrar-se-
iam na previsão do art. 20º da Lei nº 7.716/89.

• 2ªC - (amplamente majoritária) considera o posto de trabalho com finalidade


remuneratória, inclusive nos casos de estágio.

ATENÇÃO: o termo “empresa privada” não deve ser entendido de maneira ampla, amparando
ONG’s, condomínios residenciais e empregador doméstico. Eventual discriminação nesse sentido
deverá ser incluída na previsão do art. 20º da Lei nº 7.716/89.

*PC-GO: Múcio, gerente de RH de uma empresa privada, durante seleção para preenchimento de
vaga para secretária executiva, diz na presença de várias pessoas que candidatas de origem
nordestina (procedência nacional) não seriam aceitas por não se encaixarem no perfil da empresa.
Valéria, uma candidata nordestina, sentindo-se humilhada, retira-se da seleção. Múcio praticou
contra Valéria o crime de preconceito, por negar ou obstar emprego em empresa privada.

8.4.1. Sujeito ativo

É crime próprio. Portanto, somente o proprietário ou encarregado pela área de contratação


de pessoal será o sujeito ativo.

ATENÇÃO: O sujeito ativo não retira a responsabilização penal do dono da empresa.

8.4.2. Sujeito passivo

Sujeito passivo serão a humanidade e a pessoa discriminada.

8.4.3. Consumação

Elemento subjetivo: dolo fundado na raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

8.4.4. Conflito aparente de normas (critério da especialidade)

Artigo 100, inciso II, do Estatuto do Idoso:

Art. 100. Constitui crime punível com reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano
e multa:
II – negar a alguém, por motivo de idade, emprego ou trabalho

Artigo 8º, inciso III, da Lei nº 7.853/89:

Art. 8o Constitui crime punível com reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos e


multa
III - negar ou obstar emprego, trabalho ou promoção à pessoa em razão de
sua deficiência

Artigo 9º da Lei nº 7.437/85:

CS – CRIME DE PRECONCEITO 19
Art. 9º. Negar emprego ou trabalho a alguém em autarquia, sociedade de
economia mista, empresa concessionária de serviço público ou empresa
privada, por preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil.
Pena - prisão simples, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa de 1 (uma) a
3 (três) vezes o maior valor de referência (MVR), no caso de empresa privada;
perda do cargo para o responsável pela recusa, no caso de autarquia,
sociedade de economia mista e empresa concessionária de serviço público.

Novamente, para Gabriel Habib, há derrogação da Lei nº 7.716/89 em relação à Lei nº


7.437/85, persistindo na última a previsão quanto a “sexo” e “estado civil”.

A posição majoritária, no entanto, entende que a Lei nº 7.716/89 não mais vige.

8.5. RACISMO NA INICIATIVA PRIVADA (APÓS A CONTRATAÇÃO)

Artigo 4º, §1º da Lei nº 7.716/89:

Art. 4º Negar ou obstar emprego em empresa privada.


Pena: reclusão de dois a cinco anos.
§ 1o Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação de raça ou
de cor ou práticas resultantes do preconceito de descendência ou origem
nacional ou étnica
I - deixar de conceder os equipamentos necessários ao empregado em
igualdade de condições com os demais trabalhadores
II - impedir a ascensão funcional do empregado ou obstar outra forma de
benefício profissional
III - proporcionar ao empregado tratamento diferenciado no ambiente de
trabalho, especialmente quanto ao salário

São previstas três hipóteses específicas de discriminação após a contratação.

O núcleo do tipo do §1º, artigo 4º da referida Lei, engloba: raça, cor, descendência ou origem
nacional ou étnica. Quanto à “religião”, é amplamente majoritário que esse crime também tem que
ser lido como todos os demais da Lei, em consonância com o artigo 1º da Lei nº 7.716/89.

8.5.1. DEIXAR DE CONCEDER OS EQUIPAMENTOS NECESSÁRIOS AO EMPREGADO EM


IGUALDADE DE CONDIÇÕES COM OS DEMAIS TRABALHADORES

ATENÇÃO: não se configura o crime da Lei nº 7.716/89 se o empregador deixar de fornecer


equipamento necessário a todos os seus empregados. A predita lei não trata propriamente da
proteção do trabalhador em si. Criminaliza-se a conduta omissiva atinente à discriminação em
igualdade de condições

8.5.1.1. Sujeito ativo

Trata-se de crime próprio. Somente a pessoa encarregada do fornecimento dos


equipamentos indispensáveis que os dispensará por critérios racistas.

Também cometerá o delito negro que eventualmente deixe de fornecer equipamentos ao


empregado branco, em razão de critérios de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 20
8.5.1.2. Sujeito passivo

Humanidade e pessoa discriminada.

8.5.1.3. Consumação

Crime formal (independe de prejuízo material).

8.5.1.4. Tentativa

Não é punível, porque é crime omisso próprio. Em crimes omissivos não são compatíveis
com o conatus (tentativa).

*PC-BA (CESPE): Pratica crime o empregador que, por motivo de discriminação de raça ou cor,
deixar de conceder equipamentos necessários ao empregado, em igualdade de condições com os
demais trabalhadores – VERDADEIRO.

8.5.2. IMPEDIR A ASCENSÃO FUNCIONAL DO EMPREGADO OU OBSTAR OUTRA


FORMA DE BENEFÍCIO PROFISSIONAL

8.5.2.1. Sujeito ativo

Crime próprio.

8.5.2.2. Sujeito passivo

Humanidade e pessoa discriminada,

8.5.2.3. Consumação

Crime formal, independe de prejuízo material.

8.5.2.4. Tentativa

O iter criminis é cindível.

*AGU (CESPE): O fato de um empresário, por preconceito em relação à cor de determinado


empregado, impedir a sua ascensão funcional na empresa, configurará delito contra a organização
do trabalho, e não crime resultante de preconceito – FALSO!

8.5.3. PROPORCIONAR AO EMPREGADO TRATAMENTO DIFERENCIADO NO AMBIENTE


DE TRABALHO, ESPECIALMENTE QUANTO AO SALÁRIO

Não alcança apenas o aspecto salarial.

Para haver crime é necessária a discriminação fundada em critérios “racistas”.

Não há crime na distinção salarial fundada na ausência de equivalência entre os postos de


trabalho.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 21
8.6. RACISMO NA COLOCAÇÃO DE ANÚNCIOS DE EMPREGOS

Artigo 4º, §2º da Lei nº 7.716/89*:

Art. 4º Negar ou obstar emprego em empresa privada.


Pena: reclusão de dois a cinco anos.
§ 2o Ficará sujeito às penas de multa e de prestação de serviços à
comunidade, incluindo atividades de promoção da igualdade racial, quem, em
anúncios ou qualquer outra forma de recrutamento de trabalhadores, exigir
aspectos de aparência próprios de raça ou etnia para emprego cujas
atividades não justifiquem essas exigências

Note que a exigência de determinada característica somente é permitida em circunstâncias


coerentes. Exemplo: realização de peça sobre a cultura nipônica, por óbvio, o elenco deverá ser
composto de pessoas da referida cultura.

Agora, exigir determinadas condições ou mesmo vedar características para recrutamento de


cozinheiros caracterizar-se-ia o delito previsto no §2º do artigo 4º da Lei nº 7.716/89.

A pena restritiva de direito verificada é diferente da sistemática da pena restritiva de direito


prevista no Código Penal. A primeira não substitui a pena privativa de liberdade, portanto, não
admite conversão, tal qual acontece na Lei de Drogas no art. 28.

Ambos são marcados pela (i) não substitutividade e (ii) não conversibilidade em Pena
Privativa de Liberdade.

Em consequência, não cabe prisão cautelar.

É crime de ínfimo potencial ofensivo.

8.7. DISCRIMINAÇÃO NOS ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS

8.7.1. Artigo 5º da Lei nº 7.716/89

Art. 5º Recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se


a servir, atender ou receber cliente ou comprador.
Pena: reclusão de um a três anos.

Existem três formas de impedir o acesso:

- negando-se a servir (prestar o serviço oferecido pela casa);

- atender (colocar-se à disposição para as demandas do cliente) ou

- receber (aceitar no estabelecimento) cliente ou comprador.

É tipo alternativo misto; subsidiário em relação aos artigos 7º a 10º da referida lei em razão
do elemento normativo genérico: estabelecimento comercial.

Há conflito aparente com a lei de contravenções: artigos 4º e 6º da Lei nº 7.4347/85 (“sexo”


ou “estado civil”).

CS – CRIME DE PRECONCEITO 22
8.7.1.1. Sujeito ativo

Crime próprio. Somente pratica o crime quem detém poder suficiente para recusar ou impedir
o acesso. Exemplo: proprietário, gerente etc.

8.7.1.2. Sujeito passivo

Humanidade e a pessoa discriminada (cliente ou comprador em potencial).

8.7.1.3. Consumação

Crime formal. A mera recusa ou impedimento de acesso de alguém ao estabelecimento


comercial – por uma dessas formas: negativa de servir, atender ou receber – já configura o tipo
(r.c.e.r.pn.).

8.7.2. Artigo 7º da Lei nº 7.716/89

Art. 7º Impedir o acesso ou recusar hospedagem em hotel, pensão,


estalagem, ou qualquer estabelecimento similar.
Pena: reclusão de três a cinco anos.

ATENÇÃO: desses crimes, somente o artigo 7º tem pena de 3 a 5 anos!

ATENÇÃO: o tipo abarca casas de famílias que alugam quartos para que terceiros passem
temporadas e motéis. O termo “qualquer estabelecimento similar” dá margem para o predito
entendimento.

O tipo reclama que o local seja aberto ao público.

Há conflito aparente de normas com o artigo 3º da Lei nº 7.437/85.

8.7.2.1. Sujeito ativo

Crime próprio (quem detém poder suficiente para impedir o acesso ou recusar a
hospedagem. Exemplo: proprietário, gerente etc).

8.7.2.2. Sujeito Passivo

Humanidade e pessoa discriminada.

8.7.2.3. Consumação

Crime formal.

8.7.2.4. Tentativa

O iter criminis é cindível.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 23
8.7.3. Artigo 8º da Lei nº 7.716/89

Art. 8º Impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares,


confeitarias, ou locais semelhantes abertos ao público.
Pena: reclusão de um a três anos.

Se a recusa acontecer em sorveteria, cafeteria, o tipo incidirá.

Há conflito aparente de normas: artigo 4º da Lei nº 7.437/85.

8.7.3.1. Sujeito ativo

Crime próprio (quem detém poder suficiente para impedir o acesso ou recurso o
atendimento. Exemplo: proprietário, gerente etc.).

8.7.3.2. Sujeito Passivo

Humanidade e pessoa discriminada.

8.7.3.3. Consumação

Crime formal. O mero impedimento de acesso ou a recusa de atendimento em bar já


configura o tipo (r.c.e.r.pn.).

8.7.3.4. Tentativa

O iter criminis é cindível.

*TJ-SP: Nos termos da Lei 7.716/89, pratica crime aquele que, em virtude de preconceito de raça,
impede ou obsta o acesso de alguém a restaurantes, bares, confeitarias ou locais semelhantes,
ainda que não abertos ao público – FALSO!

8.7.4. Artigo 9º da Lei nº 7.716/89

Art. 9º Impedir o acesso ou recusar atendimento em estabelecimentos


esportivos, casas de diversões, ou clubes sociais abertos ao público.
Pena: reclusão de um a três anos.

Clube social aberto ao público são os estabelecimentos abertos a qualquer pessoa,


conforme regras pré-estabelecidas.

Impedir o acesso não significa apenas proibir a entrada, como também impedir que seja
comprada cota/ação social. Esse entendimento é consagrado na doutrina (Cristiano Jorge Santos)
e pelo STJ:

Vide caso em que R.S.T foi “condenado, em segunda instância, a prestação


de serviços à comunidade e prestação pecuniária, por ter impedido o acesso
de pessoa negra à agremiação da qual é presidente e cofundador, negando-
lhe a possibilidade de aquisição de uma cota do clube (artigo 9º da Lei
7.716/89) – HC 137.248/MG, 6ª T.STJ, DJe 18/10/2010”.

Há conflito aparente de normas: artigo 5º da Lei nº 7.437/85.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 24
8.7.4.1. Sujeito ativo

Crime próprio (quem detém poder suficiente para impedir o acesso ou recurso o
atendimento. Exemplo: sócio-diretor do estabelecimento etc.).

8.7.4.2. Sujeito passivo

Humanidade e pessoa discriminada.

8.7.4.3. Consumação

Crime formal. Independe de resultado naturalístico.

8.7.4.4. Tentativa

O iter criminis é cindível.

Caso emblemático (RHC 12.809/MG, Rel. Min. Hamilton Carvalhido, DJ 11/04/2005)

Caso: Presidente do Uirapuru Iate Clube da cidade de Uberaba foi denunciado pelo crime
do artigo 9º, pois o casal Luiza M.N. e Marcos G.M. teria sido impedido de adquirir cotas do clube
e, consequentemente, de compor o seu quadro social, por ser ela negra.

Defesa: Alegou a atipicidade da conduta, porquanto “o Uirapuru não é um clube oscial aberto
ao público (...), é uma entidade fechada, que somente pode ser frequentada por seus associados”,
e “segundo os estatutos do clube, o ingresso no quadro social é feito mediante a apresentação de
proposta pelos interessados. A Diretoria pode aceitar ou recusar as propostas sem declinar
motivos.” Ademais, não há “na lei que alicerça a denúncia ou em outra qualquer, norma que obrigue
a um clube fechado admitir como sócio uma pessoa mediante a simples manifestação de interesse
por parte desta.”

6ª T.STJ: “A recusa de admissão no quadro associativo do clube social, em


razão de preconceito de raça ou de cor, caracteriza o inserto no artigo 9º da
Lei 7.716/89, enquanto modo da conduta impedir, que lhe integra o núcleo. A
faculdade, estatutariamente atribuída à diretoria, de recusar propostas de
admissão em clubes sociais, sem declinação dos motivos, não lhe atribui a
natureza especial de fechado, de maneira a subtraí-lo da incidência da lei.”

*CESPE: Constitui crime o fato de determinado clube social recusar a admissão de um cidadão em
razão de preconceito de raça, salvo se o respectivo estatuto atribuir à diretoria a faculdade de
recusar propostas de admissão, sem declinação de motivos – FALSO!

8.7.5. Artigo 10º da Lei nº 7.716/89

Art. 10. Impedir o acesso ou recusar atendimento em salões de cabeleireiros,


barbearias, termas ou casas de massagem ou estabelecimento com as
mesmas finalidades.
Pena: reclusão de um a três anos.

8.7.5.1. Sujeito ativo

CS – CRIME DE PRECONCEITO 25
Crime próprio (quem detém poder suficiente para impedir o acesso ou recurso o
atendimento. Exemplo: proprietário, administrador do estabelecimento etc.).

8.7.6. Sujeito passivo

Humanidade e pessoa discriminada.

8.7.7. Consumação

Crime formal. O mero impedimento de acesso ou a recusa de atendimento já configura o


tipo (r.c.e.r.pn.).

8.7.8. Tentativa

O iter criminis é cindível.

8.8. DISCRIMINAÇÃO NA EDUCAÇÃO

Artigo 6º, §único da Lei nº 7.716/89:

Art. 6º Recusar, negar ou impedir a inscrição ou ingresso de aluno em


estabelecimento de ensino público ou privado de qualquer grau.
Pena: reclusão de três a cinco anos.
Parágrafo único. Se o crime for praticado contra menor de dezoito anos a
pena é agravada de 1/3 (um terço).

No §único, o legislador diz que a pena é agravada. Entretanto, não se trata de agravante e
sim de causa de aumento de pena, que incide na terceira etapa de fixação da pena.

O termo “grau” está desatualizado, pois o artigo 21 da Lei nº 9.394/96 não agasalha mais
essa terminologia:

Art. 21. A educação escolar compõe-se de:


I - educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e
ensino médio;
II - educação superior.

Assim, a expressão de qualquer grau abrange somente estabelecimento de ensino regular


e não cursos livres (preparatórios para concursos e cursinhos para vestibular – se ocorrer nesse
âmbito redundará no artigo 20 da Lei nº 7.716/89).

Encontra previsão como contravenção no artigo 7º da Lei nº 7.437/85.

8.8.1. Sujeito ativo

Crime próprio (quem detém poder suficiente para recusar, negar ou impedir a inscrição ou
ingresso de aluno).

8.8.2. Sujeito passivo

CS – CRIME DE PRECONCEITO 26
Humanidade e pessoa discriminada.

8.8.3. Consumação

Crime formal (dispensa o resultado naturalístico).

8.8.4. Tentativa

O iter criminis é cindível.

8.9. ARTIGO 11 DA LEI Nº 7.716/89

Art. 11. Impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou


residenciais e elevadores ou escada de acesso aos mesmos:
Pena: reclusão de um a três anos.

Ocorrerá se o impedimento e acesso operar por raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional.

Note que o crime não ocorrerá se houver uma placa num determinado edifício contendo
“empregadas domésticas, apenas no elevador de serviço”. Isso porque inexiste na Lei nº 7.716/89
amparo a discriminação de classe social ou discriminação profissional. Diferente seria se a placa
contivesse “negros, apenas no elevador de serviço”, caso em que incidiria no artigo 11 da predita
lei.

São permitidas restrições de acesso com base em critérios como mudanças, carrinhos de
compras, animais, trajes de banho.

Em relação a edifícios comercias, ainda que a discriminação ocorra com base em critérios
racistas, não será o caso abarcado pelo artigo 11 da Lei nº 7.716/89 – deverá ser aplicado o artigo
20 da mesma lei.

8.10. ARTIGO 12 DA LEI Nº 7.716/89

Art. 12. Impedir o acesso ou uso de transportes públicos, como aviões, navios
barcas, barcos, ônibus, trens, metrô ou qualquer outro meio de transporte
concedido.
Pena: reclusão de um a três anos.

Se for impedido o uso de taxi, será enquadro nesse artigo, porque a previsão diz “qualquer
outro meio de transporte concedido”.

Em relação ao Uber, como ainda não há autorização do Poder Público no que lhe concerne,
não é cediço que será aplicado o presente artigo.

Obs.:Os transportes privados e vans clandestinas não estão amparados pelo artigo 12 da Lei nº
7.715/89.

Não haverá crime se a pessoa impede o acesso do serviço de transporte público baseada
em critérios como lotação, ausência de dinheiro para pagar a passagem.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 27
8.10.1. Sujeito ativo

Crime próprio (quem detém poder suficiente para controlar o acesso ao transporte público.
Exemplo: funcionário do balcão do check in).

8.10.2. Sujeito passivo

Humanidade e pessoa discriminada.

8.10.3. Conflito aparente de normas (princípio da especialidade)

Prevê o artigo 96 do Estatuto do Idoso:

Art. 96. Discriminar pessoa idosa, impedindo ou dificultando seu acesso a


operações bancárias, aos meios de transporte, ao direito de contratar ou por
qualquer outro meio ou instrumento necessário ao exercício da cidadania, por
motivo de idade:
Pena – reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa.

Se a discriminação ocorrer em razão do critério da idade, incidirá o Estatuto do Idoso.

*TJSP: Nos termos da Lei 7.716, a qual versa sobre delitos de preconceito ou discriminação racial,
pratica crime aquele que, em virtude de preconceito de raça, impede ou obsta o acesso de alguém
aos veículos de transporte públicos e privados, como aviões, navios, barcos, ônibus, trens, metrô
ou qualquer outro meio de transporte – FALSO! Art. 12º abarca apenas transporte público!

8.11. ARTIGO 14 DA LEI Nº 7.716/89:

Art. 14. Impedir ou obstar, por qualquer meio ou forma, o casamento ou


convivência familiar e social.
Pena: reclusão de dois a quatro anos.

Exemplos: impedimento de frequência a casa; impor condições que impeçam o casamento


(não consentimento em razão de o sujeito ser negro) ou convívio.

O crime abrange:

- Casamento;

- Convivência familiar (relações de parentesco em geral, namoro, união estável e


homoafetiva – mas a motivação continuará sendo raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional);

- Convivência social (qualquer forma de contato mais próximo, fora do âmbito familiar –
amizade).

8.11.1. Sujeito ativo

Crime comum.

8.11.2. Sujeito passivo

CS – CRIME DE PRECONCEITO 28
Humanidade e pessoa discriminada.

8.11.3. Consumação

Crime formal. O mero impedimento ou óbice já configura o tipo (r.c.e.r.pn.).

8.11.4. Tentativa

O iter criminis é cindível.

*PC-RJ: A Lei 7.716/89 dispõe que constitui discriminação ou preconceito punível: b) impedir ou
obstar, por qualquer meio ou forma, o casamento ou convivência familiar e social em decorrência
da classe social do indivíduo – FALSA!

*TJ-SP: Nos termos da Lei 7.716/89, pratica crime aquele que, em virtude de preconceito de raça,
impede ou obsta: d) o casamento de alguém, por qualquer outro meio ou forma, excluindo-se outros
modos de convivência familiar e social. - FALSA!

8.12. ARTIGO 20 DA LEI Nº 7.716/89

Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor,


etnia, religião ou procedência nacional.)
Pena: reclusão de um a três anos e multa.

Contempla a maioria das situações.

Sofre uma crítica da doutrina em virtude da violação ao princípio da taxatividade. Segundo


a doutrina, “a tipificação não quer dizer absolutamente nada e pode dizer respeito a absolutamente
tudo”.

Na prática, o artigo 20 da referida lei tem caráter subsidiário.

Exemplo: impedimento de um dos funcionários da empresa de entrar na casa para


comemoração em decorrência de ser ele negro.

Por força do §2º, é possível dizer que a conduta do caput se restringe às situações em que
a ação ocorre em conversas informais, aulas, palestras etc.

ATENÇÃO: Induzir e incitar (instigar) ensejarão a ocorrência de crime autônomo. Trata-se de


exceção pluralista à teoria monista. Exemplo: “A” induz “B” a impedir o acesso de “C” a ônibus
público, em virtude da cor de sua pele (art. 12). “A” será autor do delito do art. 20, em vez de partícipe
no crime de “B”

8.12.1. Hipóteses em que a jurisprudência entendeu configurado o delito

a) Em manifestação, “em programa de televisão”, de “ideias preconceituosas


discriminatórias em relação à raça indígena” (TRF4, AP 2001040010717527,
16.10.2002);

CS – CRIME DE PRECONCEITO 29
b) Na conduta de “escrever, editar, divulgar e comerciar livros ‘fazendo apologia de ideias
preconceituosas e discriminatórias’ contra a comunidade judaica” (STF, HC 82.424,
17.09.2003) – como aconteceu através de publicação, incide a forma qualificada do §2º
do artigo 20 e interessante efeito da condenação.

c) Na conduta do “agente que externa pensamentos pessoais desairosos e notoriamente


etnocêntricos, imbuídos de aversão e menosprezo indistinto a determinado grupo social
que apresenta homogeneidade cultural e linguística (comunidade indígena)” (TRF4, AC
200371010018948; 05.04.2006);

d) Veiculação de preconceito contra negros, nordestinos e judeus, além da defesa do


nazismo, em página na internet (TRF3, AC 00084398120084036181, 20.10.2011);

e) Criação de uma comunidade racista no Orkut (TRF5, AC 200881000016774,


16.02.2012).

f) Entendeu-se NÃO configurado o crime: “Racismo Religioso” – Padre – Publicação de livro


– proselitismo católico – núcleo de liberdade de expressão religiosa:

3. A liberdade religiosa e a e de expressão constituem elementos fundantes


da ordem constitucional e devem ser exercidas com observância dos demais
direitos e garantias fundamentais, não alcançando, nessa ótica, condutas
reveladoras de discriminação.
4. No que toca especificamente à liberdade de expressão religiosa, cumpre
reconhecer, nas hipóteses de religiões que se alçam a universais, que o
discurso proselitista é da essência de seu integral exercício. De tal modo, a
finalidade de alcançar o outro, mediante persuasão, configura
comportamento intrínseco a religiões de tal natureza. Para a consecução de
tal objetivo, não se revela ilícito, por si só, a comparação entre diversas
religiões, inclusive com explicitação de certa hierarquização ou animosidade
entre elas.
5.O discurso discriminatório criminoso/somente se materializa após
ultrapassadas três etapas indispensáveis. Uma de caráter cognitivo, em que
atestada a desigualdade entre grupos e/ou indivíduos; outra de viés
valorativo, em que se assenta suposta relação de superioridade entre eles e,
por fim; uma terceira, em que o agente, a partir das fases anteriores, supõe
legítima a dominação, exploração, escravização, eliminação, supressão ou
redução de direitos fundamentais do diferente que compreende inferior.
6. A discriminação não libera consequências jurídicas negativas,
especialmente no âmbito penal, na hipótese em que as etapas iniciais de
desigualação desembocam na suposta prestação de auxílio ao grupo ou
indivíduo que, na percepção do agente, encontrar-se-ia em situação
desfavorável.
7. Hipótese concreta em que o paciente, por meio de publicação em livro,
incita a comunidade católica a empreender resgate religioso direcionado à
salvação de adeptos do espiritismo, em atitude que, a despeito de considerar
inferiores os praticantes de fé distinta, o faz sem sinalização de violência,
dominação, exploração, escravização, eliminação, supressão ou redução de
direitos fundamentais.
8. Conduta que, embora intolerante, pedante e prepotente, se insere no
cenário do embate entre religiões e decorrente da liberdade de proselitismo,
essencial ao exercício, em sua inteireza, da liberdade de expressão religiosa.
Impossibilidade, sob o ângulo da tipicidade conglobante, que conduza
autorizada pelo ordenamento jurídico legitime a intervenção do Direito Penal.
9. Ante a atipicidade da conduta, dá-se provimento ao recurso para o fim de
determinar o trancamento da ação penal pendente.”
(RHC 134682, 1ª T.STF, DJe-191 de 29-08-2017).

CS – CRIME DE PRECONCEITO 30
8.12.2. Penas, efeitos da condenação e providências cautelares

Artigo 20, caput: pena é de reclusão de 1 a 3 anos e multa.

Na modalidade qualificada, verificada no §2º do artigo 20 da Lei nº 7.716/89:

§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos


meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza:
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

Há efeito automático e extrapenal da condenação. Vide artigo 20, §4º da Lei nº 7.716/89:

§ 4º Na hipótese do § 2º, constitui efeito da condenação, após o trânsito em


julgado da decisão, a destruição do material apreendido

8.12.3. Providências cautelares

Poderão ser concedidas antes mesmo da instauração do procedimento investigatório,


conforme diz a própria lei.

Vide artigo 20, §3º da Lei nº 7.716/89:

§ 3º No caso do parágrafo anterior, o juiz poderá determinar, ouvido o


Ministério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob
pena de desobediência:
I - o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do
material respectivo;
II - a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, televisivas,
eletrônicas ou da publicação por qualquer meio;
III - a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na
rede mundial de computadores.

*MP-RO: Nos crimes de injúria preconceituosa, a finalidade do agente, ao fazer uso de elementos
ligados a raça, cor, etnia, origem e outros, é atingir a honra subjetiva da vítima, enquanto que no
crime de racismo há manifestação de sentimento em relação a toda uma r.c.e.r.pn., não havendo
vítima determinada – VERDADEIRO!

*PC-PR: A incitação pública ao racismo constitui delito de incitação ao crime definido no artigo 286
do CP, não havendo na Lei 7.716/89 disposição sobre tal conduta – FALSO!

8.13. ARTIGO 20, §1º, DA LEI Nº 7.716/89

§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas,


ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou
gamada, para fins de divulgação do nazismo.
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

Esse crime foi legitimamente construído porque não pune a pessoa por ser nazista – seria
direito penal do autor.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 31
Aqui, trata-se de direito penal do fato.

8.13.1. Sujeito ativo

Crime comum.

8.13.2. Sujeito passivo

Humanidade.

8.13.3. Consumação

Crime formal.

8.13.4. Tentativa

Inter criminis cindível.

8.13.5. Elemento subjetivo

Dolo + “especialíssimo fim de agir” (ou “dois especiais fins de agir”): para fins de divulgação
(disseminação) do nazismo (que possui acentuado caráter racista).

Elementos gráficos para fins de narrativa histórica ou artístico NÃO compõem o espectro do
tipo penal.

*TJ-SC: O ato de comercializar emblemas que utilizem a cruz suástica ou gamada, ainda que sem
finalidade de divulgação do nazismo, constitui o crime previsto no art. 20, 1º, da Lei nº 7.716/89 –
FALSO!

9. EFEITOS EXTRAPENAIS DA CONDENAÇÃO

Artigo 16 da Lei nº 7.716/89:

Art. 16. Constitui efeito da condenação a perda do cargo ou função pública,


para o servidor público, e a suspensão do funcionamento do estabelecimento
particular por prazo não superior a três meses.

Aqui, a perda do cargo ocorre independentemente do quantum da pena imposta.

O efeito do artigo 16º NÃO é automático. Vide artigo 18 da Lei nº 7.716/89:

Art. 18. Os efeitos de que tratam os arts. 16 e 17 desta Lei não são
automáticos, devendo ser motivadamente declarados na sentença.

No Código Penal, o quantum da pena influenciará na perda do cargo:

Art. 92 - São também efeitos da condenação:


I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:

CS – CRIME DE PRECONCEITO 32
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a
um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para
com a Administração Pública;
b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4
(quatro) anos nos demais casos.
II - a incapacidade para o exercício do pátrio poder, tutela ou curatela, nos
crimes dolosos, sujeitos à pena de reclusão, cometidos contra filho, tutelado
ou curatelado;
III - a inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a
prática de crime doloso.
Parágrafo único - Os efeitos de que trata este artigo não são automáticos,
devendo ser motivadamente declarados na sentença.
PARA FRISAR:

AUTOMÁTICOS NÃO AUTOMÁTICOS


Art. 20 § 4º Na hipótese do
§ 2º, constitui efeito da
condenação, após
trânsito em julgado da
decisão, a destruição do
o
×
material apreendido
Art. 16. Constitui efeito da
condenação a perda do
cargo ou função pública,
para o servidor público...
Art. 16. Constitui efeito da
×
condenação a suspensão
do funcionamento
estabelecimento particular
por prazo não superior a
do
×
três meses.

10. BREVES NOTAS SOBRE A COMPETÊNCIA

10.1. RACISMO PELA INTERNET

Dependerá da marca da internacionalidade para definir sua competência.

“A Justiça Federal é competente, conforme disposição do inciso V do artigo


109 da CF/88, quando se tratar de infrações previstas em tratados ou
convenções internacionais, como é caso do racismo, previsto na Convenção
Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação
Racial, da qual o Brasil é signatário (...). Isso não obstante, o mero fato de o
delito de racismo ter sido praticado pela internet não atrai, automaticamente,
a competência da Justiça Federal, sendo necessário demonstrar a
internacionalidade da conduta e/ou de seus resultados, assim como a
intenção de atingir coletividade.” (CC 145.938/RO, 3ª Seção do STJ, DJe
04/05/2016).

10.2. BASE TERRITORIAL DO CRIME PRATICADO PELA INTERNET

CS – CRIME DE PRECONCEITO 33
Critério de Prevenção: CRIME DE RACISMO PRATICADO POR INTERMÉDIO DE
MENSAGENS TROCADAS EM REDE SOCIAL DA INTERNET. USUÁRIOS DOMICILIADOS EM
LOCALIDADES DISTINTAS.

A competência para processar e julgar o crime de racismo praticado na rede mundial de


computadores estabelece-se pelo local de onde partiram as manifestações tidas por racistas.

No caso, o procedimento criminal (quebra de sigilo telemático) teve início na


Seção Judiciária de São Paulo e culminou na identificação de alguns usuários
que, embora domiciliados em localidades distintas, trocavam mensagens em
comunidades virtuais específicas, supostamente racistas. O feito foi
desmembrado em outros treze procedimentos, distribuídos a outras seções
judiciárias, sob fundamento de que cada manifestação constituía crime
autônomo. Não obstante cada mensagem em si configure crime único, há
conexão probatória entre as condutas sob apuração, pois a circunstância
em que os crimes foram praticados – troca de mensagens em comunidade
virtual – implica o estabelecimento de uma relação de confiança, mesmo que
precária, cujo viés pode facilitar a identificação da autoria. Caracterizada a
conexão instrumental, firma-se a competência pela prevenção (...) onde as
investigações tiveram início”. (CC 116.926/SP, 3ª Seção do STJ, DJe
15/02/2013).

10.3. DISCRIMINAÇÃO/PRECONCEITO CONTRA A CULTURA INDÍGENA

STF: a incidência do inciso VI para determinar a competência da JF tem a ver


com a disputa sobre direitos indígenas, os quais, por sua vez, estão
relacionados à proteção conferida aos indígenas pelo caput do art. 123 da
CF. Na espécie, verifica-se que o paciente praticou, induziu e/ou incitou a
discriminação ou preconceito da cultura indígena, aqui abrangidos os
seus costumes, as suas crenças e as suas tradições, pelo que resta evidente
que a ação penal está ligada a questões que dizem respeito a ‘disputa sobre
direitos indígenas’. Tal circunstância excepcional é apta para, nos termos
da jurisprudência do STF, atrair a competência da JF para processar e
julgar o feito.” (HC 144.387, 6ª T.STJ, DJe 05/12/2012).

Entretanto, “crime de preconceito racial previsto no art. 20 da Lei 7.716/89, praticado contra
silvícolas, não evidencia disputa sobre direitos indígenas de forma a fixar competência da JF.

A mera participação de indígenas em infração penal, tanto como vítimas,


quanto como autores, é da competência da JE.” (3ª T.TRF1, RESE
200130000006968. DJ 24/09/2004).

Vide Súmula 140 do STJ:

Compete a justiça comum estadual processar e julgar crime em que o


indígena figure como autor ou vítima.

Como regra, os crimes da Lei nº 7.716/89 são de competência da Justiça Estadual.

Exceções, Será da Justiça Federal nos casos:

a) Art. 3º (impedir acesso a cargo público federal);

b) Art. 6º (impedir inscrição ou ingresso de aluno em estabelecimento de ensino federal);

c) Art. 13 (envolve as Forças Armadas);

CS – CRIME DE PRECONCEITO 34
d) No caso de internacionalidade do delito (artigo 109, inciso V, da CF/88);

e) Art. 20, quando praticado contra indígenas em razão de disputas sobre direitos indígenas
(Art. 109, inciso XI, da CF/88), como aquelas sobre as suas terras.

ATENÇÃO: nenhum dos crimes é de competência dos JEC’s. Excepcionalmente: crime de ínfimo
potencial ofensivo: artigo 4º, §2º da Lei nº 7.716/89.

CS – CRIME DE PRECONCEITO 35