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CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO

NOTA TÉCNICA Nº 13, DE 8 DE AGOSTO DE 2017.

Dispõe sobre a posição do Conselho Nacional do


Ministério Público sobre o exercício das
prerrogativas de membros do Ministério Público,
previstas no art. 42, da Lei Federal nº 8.625/93,
diante da limitação imposta pela edição do Ato nº
24/2013-P e do Ato nº 045/2014-P, ambos do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.

O CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO, no exercício


das atribuições previstas no art. 130-A, § 2º, I, da Constituição da República, e nos arts. 5º, V,
e 37, § 1º, V, do Regimento Interno do Conselho Nacional do Ministério Público, EXPEDE a
presente NOTA TÉCNICA, aprovada no julgamento da Nota Técnica nº 1.00238/2016-19,
ocorrido na 15ª Sessão Ordinária, realizada em 8 de agosto de 2017, após debate sobre a
edição do Ato nº 24/2013-P e do Ato nº 045/2014-P, ambos expedidos pelo Tribunal de Justiça
do Estado do Rio Grande do Sul, com o seguinte teor:

1. Compete ao Conselho Nacional do Ministério Público, por disposição do art.


130-A, § 2°, I, da Constituição da República e dos arts. 5º, V, e 37, XXII, da Resolução nº 92,
de 13 de março de 2013 (RICNMP), zelar pela autonomia funcional e administrativa do
Ministério Público brasileiro, cuja tarefa impõe que se posicione sobre situações que possam,
direta ou indiretamente, comprometer os interesses e as garantias dos membros e da
Instituição ministerial.

2. No exercício de tal mister, o CNMP conheceu do fato de que o Tribunal de


Justiça do Rio Grande do Sul, visando aprimorar a segurança de suas instalações, expediu o
Ato nº 024/2013-P, posteriormente alterado pelo Ato nº 045/2014-P, regulamentando o acesso
de pessoas às dependências do Poder Judiciário local – cumprindo, assim, tarefa explicitada
com a edição da Lei Federal nº 12.694/2012 (em especial, no artigo 3º).
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3. Referidos atos do TJ/RS trouxeram normas administrativas que repercutiram


no exercício de prerrogativas de membros do Ministério Público, com ênfase em dois
disciplinamentos: i) a vedação do acesso de membros do Ministério Público com armas de
fogo, associado à determinação para a entrega do armamento, acaso portado, à equipe de
segurança do prédio; e ii) subordinação dos membros do Ministério Público a processo de
triagem de segurança, inclusive com o uso de equipamentos de detectores de metal, raio-X e
afins – mesmo após devidamente identificados.

4. Todavia, tais normas administrativas, necessárias à implementação da


mencionada Lei Federal nº 12.694/2012 e tendentes a aperfeiçoar a segurança física das
instalações do Poder Judiciário, acabaram por fragilizar a proteção de agentes públicos que
também compõem o sistema de Justiça – os Promotores de Justiça que, exercem relevantes
atividades no combate à criminalidade organizada, sendo o dominus litis, são merecedores de
uma pronta e imediata defesa pessoal que minimize, o quanto possível, os incontáveis riscos a
que estão submetidos.

5. Como cediço, as prerrogativas funcionais constituem atributos, instituídos


por lei, que se prestam a viabilizar o pleno e livre exercício das funções inerentes a
determinados cargos. Longe de representarem privilégios pessoais, buscam, em verdade, o
atendimento de um interesse público.
5.1. Sobre a importância das prerrogativas para o exercício da função pública,
pertinente a lição de Hely Lopes Meirelles, invocada por Hugo Nigro Mazzilli:

(...) Na lição de Hely Lopes Meirelles, as prerrogativas "são atributos do órgão ou do agente
público, inerentes ao cargo ou à função que desempenha na estrutura do Governo, na
organização administrativa ou na carreira a que pertence. São privilégios funcionais,
normalmente conferidos aos agentes políticos ou mesmo aos altos funcionários, para a correta
execução de suas atribuições legais. As prerrogativas funcionais erigem-se em direito subjetivo
de seu titular, passível de proteção por via judicial, quando negadas ou desrespeitadas por
qualquer outra autoridade (...) - (Regime Jurídico do Ministério Público, Hugo Nigro Mazzilli,
editora Saraiva, p. 272).

5.2. E Emerson Garcia, dizendo especificamente da natureza das prerrogativas


dos membros do Ministério Público, complementa:

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“Enquanto o privilégio denota de um injustificável rompimento com o princípio da isonomia,


resultando em um tratamento diferenciado a determinados indivíduos em detrimento de outros,
o termo prerrogativa está envolto pela noção de atributo, encontrando justificativa na atividade
desenvolvida por aquele que a ostenta (...) Em última ratio, visam a assegurar o exercício
isento das funções institucionais, atenuando ou mesmo suprimindo as influências exteriores, o
que melhor possibilitará a satisfação do interesse público” (Ministério Público, Organização,
Atribuições e Regime Jurídico, editora Saraiva, 5ª edição, p. 680).

5.3. Nessa linha, objetivando a concessão de atributos para o pleno e isento


cumprimento das funções institucionais, o artigo 42, da Lei Federal nº 8.625/93, confere aos
integrantes do Ministério Público dos Estados prerrogativas que tocam a identificação e o
porte de arma. Assim estabelece o mencionado dispositivo:

Art. 42. Os membros do Ministério Público terão carteira funcional, expedida na forma da Lei
Orgânica, valendo em todo o território nacional como cédula de identidade, e porte de arma,
independentemente, neste caso, de qualquer ato formal de licença ou autorização.

5.4 Prerrogativa idêntica é conferida também por lei aos integrantes do


Ministério Público da União pela Lei Complementar nº 75/93, que assim disciplina:

Art. 18. São prerrogativas dos membros do Ministério Público da União:


I - Institucionais: (...)
e) o porte de arma, independentemente de autorização;
f) carteira de identidade especial, de acordo com modelo aprovado pelo Procurador-Geral da
República e por ele expedida, nela se consignando as prerrogativas constantes do inciso I,
alíneas c, d e e do inciso II, alíneas d, e e f, deste artigo;

5.5. Daí porque, como atributos funcionais – e não meramente privilégios


pessoais –, qualquer ofensa ou atentado às prerrogativas importa, necessariamente, no
comprometimento da própria satisfação de um interesse público – razão última da instituição
daqueles. E, especificamente sobre as prerrogativas da identificação e do porte de arma –
atreladas que estão diretamente à rotina do exercício da função, é inegável o reflexo negativo
no cumprimento da missão constitucional do Ministério Público quando são mitigadas.
5.6. No que pertine às razões do atributo do porte de arma, é mister ponderar
que a vedação ao uso de arma constituiu a regra no Estado brasileiro – conforme disposição
do artigo 6º, caput, da Lei Federal nº 10.826/2003 –, excepcionada, entretanto, para atender

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situações bastante específicas que reclamam pronta defesa pessoal. Dentre as ditas exceções
reconhecidas, está o porte de arma por membros do Ministério Público, previsto em
“legislação própria”, resultado do reconhecimento inequívoco dos riscos inerentes à função
exercida pelos integrantes da Instituição e do constante embate na defesa dos interesses
fundamentais da sociedade (o que importa, dentre outras ameaças comuns, o enfrentamento
da criminalidade organizada, o embate contra o poder político e econômico desviados ou o
descontentamento diário de meros interesses privados). A atuação destemida do Promotor de
Justiça pressupõe a existência de instrumentos que lhe garantam proteção pessoal imediata e,
por conseguinte, a arma de fogo é indiscutivelmente fator de segurança para a repulsa em
situações de emergência.
5.7. Já no que diz respeito às razões do atributo da identificação, é relevante
consignar que, conforme previsão legal, as carteiras funcionais são expedidas exclusivamente
pelos chefes dos respectivos Ministério Público da União e dos Estados, porquanto, dado o
caráter especial de seus respectivos conteúdos, retratam informações relevantes para o
exercício das prerrogativas (como, por exemplo, a informação de acesso livre a recinto
público e privado, de prioridade em serviços de transporte ou comunicação, do porte de arma
ou da prisão em flagrante somente em crimes inafiançáveis).

6. Assim é que a edição dos atos administrativos do TJ/RS ensejaram os


seguintes reflexos:
6.1. Impuseram, por decisão administrativa, uma restrição ao porte de arma dos
membros do Ministério Público não prevista em lei, diminuindo, de um lado, o alcance da
proteção pessoal conferida pelos Estatutos da Instituição e, de outro, criando a obrigação de,
acaso armado quando do ingresso no Poder Judiciário, o dever de acautelar o objeto com a
segurança local – inclusive, terceirizada. E, ao estabelecer uma disciplina diferente daquela
expressamente prevista nos Estatutos – limitando o âmbito de incidência do exercício de uma
prerrogativa funcional e obrigando agentes ministeriais a cederem suas armas a custódia de
terceiros –, as normas administrativas avançaram no regramento do regime jurídico dos
membros do MP, cuja iniciativa foi reservada, privativamente, apenas ao Presidente da
República, ao Procurador-Geral da República e aos Procuradores-Gerais de Justiça dos
Estados. É a disposição contida no art. 61, § 1º, inciso II, alínea "d", da Constituição da
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República:

Art. 61. A iniciativa das leis complementares e ordinárias cabe a qualquer membro ou
Comissão da Câmara dos Deputados, do Senado Federal ou do Congresso Nacional, ao
Presidente da República, ao Supremo Tribunal Federal, aos Tribunais Superiores, ao
Procurador-Geral da República e aos cidadãos, na forma e nos casos previstos nesta
Constituição.
§ 1º São de iniciativa privativa do Presidente da República as leis que: (...)
II – disponham sobre: (...)
d) organização do Ministério Público e da Defensoria Pública da União, bem como normas
gerais para a organização do Ministério Público e da Defensoria Pública dos Estados, do
Distrito Federal e dos Territórios;

6.2. Em complemento, estabelece o art. 128, § 5º, da Constituição da


República:

Art. 128. O Ministério Público abrange: (…)


§ 5º Leis complementares da União e dos Estados, cuja iniciativa é facultada aos respectivos
Procuradores-Gerais, estabelecerão a organização, as atribuições e o estatuto de cada
Ministério Público, observadas, relativamente a seus membros:

6.3. Tal reserva de iniciativa contemplada no Texto Constitucional, indiscutível


opção do legislador constituinte, tem por objetivo assegurar a autonomia da Instituição
ministerial, alçada como pedra angular da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e
dos interesses sociais e individuais indisponíveis.
6.4. A propósito, as investidas tendentes a mitigar a iniciativa concernente à
organização, atribuições e estatutos do Ministério Público, mesmo quando oriundas de
processos legislativos, foram rechaçadas pelo Supremo Tribunal Federal, conforme ilustra o
seguinte julgado:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ART. 16, CAPUT, E SEU § 1.º DO ATO


DAS DISPOSIÇÕES CONSTITUCIONAIS TRANSITÓRIAS RORAIMENSE.
NOMEAÇÃO DO PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA. INICIATIVA LEGISLATIVA
PARA ELABORAÇÃO DA LEI ORGÂNICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL.
Tendo a norma do caput do art. 16 do ADCT de Roraima eficácia limitada no tempo, dirigida
que era a regular a nomeação do Procurador-Geral de Justiça até que os membros do parquet
do Estado atingissem a vitaliciedade, resta caracterizada a perda de objeto do feito nesse ponto
específico ante a nomeação, para o cargo em questão, de Procurador no gozo de tal garantia.
Precedente. A atribuição, exclusivamente ao Chefe do Poder Executivo estadual, da iniciativa
do projeto de Lei Orgânica do Ministério Público, por sua vez, configura violação ao art. 128, §
5.º, da Constituição Federal, que faculta tal prerrogativa aos Procuradores-Gerais de Justiça.
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Ação julgada procedente, para declarar a inconstitucionalidade do § 1.º do referido art. 16 do


ADCT da Constituição do Estado de Roraima, estando prejudicada quanto ao mais. (ADI 852,
Relator Min. ILMAR GALVÃO, Tribunal Pleno, julgado em 29/08/2002, DJ 18-10-2002).

6.5. As normas invocadas como fundamento da edição dos Atos nº 024/2013-P


e nº 045/2014-P – dentre elas, a Resolução CNJ nº 104/2010, a Resolução CNJ nº 176/2013 e
a Lei Federal nº 12.694/2012 – estiveram sempre voltadas para estabelecer mecanismos de
proteção do Poder Judiciário contra as ações das organizações criminosas.
6.6 Referidos textos jamais explicitaram normas que objetivassem restringir a
defesa pessoal já prevista em lei para membros do Ministério Público, através do porte de
arma. Ao revés, o objetivo da Lei Federal nº 12.694/2012 foi de incrementar, não só a
segurança dos prédios, mas também a proteção das autoridades – incluindo os membros do
Ministério Público, juntamente com os magistrados, como destinatários de uma proteção
pessoal específica, extensiva a familiares. É o que prevê o artigo 9º da mencionada lei:

Art. 9º Diante de situação de risco, decorrente do exercício da função, das autoridades judiciais
ou membros do Ministério Público e de seus familiares, o fato será comunicado à polícia
judiciária, que avaliará a necessidade, o alcance e os parâmetros da proteção pessoal.
§ 1º A proteção pessoal será prestada de acordo com a avaliação realizada pela polícia
judiciária e após a comunicação à autoridade judicial ou ao membro do Ministério Público,
conforme o caso:
I – pela própria polícia judiciária;
II – pelos órgãos de segurança institucional;
III – por outras forças policiais;
IV – de forma conjunta pelos citados nos incisos I, II e III.
§ 2º Será prestada proteção pessoal imediata nos casos urgentes, sem prejuízo da adequação da
medida, segundo a avaliação a que se referem o caput e o § 1º deste artigo.
§ 3º A prestação de proteção pessoal será comunicada ao Conselho Nacional de Justiça ou ao
Conselho Nacional do Ministério Público, conforme o caso.
§ 4º Verificado o descumprimento dos procedimentos de segurança definidos pela polícia
judiciária, esta encaminhará relatório ao Conselho Nacional de Justiça – CNJ ou ao Conselho
Nacional do Ministério Público – CNMP.

6.7. No mesmo sentido, as Resoluções do CNJ nº 104/2010 (art. 6º, I e III) e nº


176/2013 (art. 9º, I, IV, VII e VIII), delinearam normativas para controle de acesso, para
instalação de aparelhos de detector de metais e similares e para a restrição de entrada a
pessoas armadas. No entanto, focaram apenas agentes policiais que não estão em serviços,
excluindo, pois, outras autoridades que estão no exercício da função.
6.8. Desarmar promotores de Justiça em local que abrange gabinetes e salas de

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audiências nas quais, em regra, desempenham suas atividades – e, portanto, pela exposição
diária e contato direto com potenciais agressores, representa o lugar de maior vulnerabilidade
a suas integridades físicas –, contraria, de forma veemente, o foco divisado pela Lei Federal nº
12.694/2012, no sentido do respaldo aos representantes do Estado brasileiro contra as
investidas de organizações criminosas.
6.9. Aliás, o Ato nº 024/2013-P e o Ato nº 045/2014-P geraram situações
atípicas, na medida em que um agente de segurança privado, trabalhando para instituições
financeiras, pode se manter armado no interior do fórum para a garantia do patrimônio dos
bancos (artigo 1º, II), mas é negado a um qualificado agente público (no caso, Promotor de
Justiça) que esteja de posse de sua arma para a defesa da própria vida.
6.10. Os edifícios dos fóruns, registre-se, por constituírem a imagem da Justiça
e o local de entrada e saída permanente de magistrados e membros do Ministério Público, são
rotineiramente alvos de atentados e de resgate de presos – peculiaridade estampada nos
fundamentos para a edição da Resolução nº 104/2010, do CNJ:

“CONSIDERANDO que, faz algum tempo, em razão mesmo dessa mudança de perfil da
criminalidade que é apurada pelo Poder Judiciário, passaram a ser registrados, com frequência
cada vez maior e preocupante, os casos de ameças e atentados aos juízes que exercem as suas
atribuições nas varas criminais, sem embargo da morte de alguns magistrados”.

6.11. A propósito, no parecer ofertado pelo Comitê Gestor do Sistema Nacional


de Segurança do Poder Judiciário – que, interpretando os termos da Resolução CNJ nº
104/2010, subsidiou a decisão monocrática proferida pelo Conselheiro Carlos Levenhagen,
em 3 de dezembro de 2015 no Pedido de Providências nº 0000379-77.2014.2.00.0000/CNJ,
com intimação do CNMP – restou consignado que, a despeito da inafastável necessidade do
controle de acesso de todos às instalações do Poder Judiciário (seja por biometria, por crachá
ou identificação pessoal), não se consignou vedação ao ingresso armado daqueles que
ostentem a prerrogativa funcional.
6.12. Ao contrário, dito parecer, retratando a posição do CNJ, discorre sobre
acesso de pessoas armadas, enaltecendo o objetivo precípuo de impedir o ingresso somente de
armas ilegais:

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“Cumpre analisar que a identificação biométrica utilizada neste caso em análise permite o
prévio cadastro e a identificação permanente dos usuários no sistema. Assim, a solução
encontrada permitiria, por exemplo, a dispensa de pessoas detentoras de porte de arma de fogo
de passar por detector de metais e aparelhos de raio-X, se assim entender a administração. É
certo que a função precípua desses equipamentos é justamente identificar pessoas que ocultem
arma de fogo e intentem ingressar irregularmente no ambiente controlado portando tais
armamentos. Assim, pessoas que detenham porte e ingresso autorizado de arma de fogo não
precisam passar por tal controle cada vez que se apresentem na portaria” (fl. 63, do Processo
CNMP nº 0.00.000.000576/2014-81).

6.13. Somente o Ato nº 045/2014-P passou a conferir um tratamento


diferenciado a magistrados e membros do Ministério Público nos edifícios do Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul, porquanto, apesar de negar o acesso armado a Promotores de
Justiça, deixou de impor a mesma restrição ao porte de arma dos juízes. E, sendo reconhecido
como necessário o uso de arma por magistrados no local de trabalho, desarrazoado negar o
mesmo direito a membros do Ministério Público que estão sujeitos a idênticos riscos. Tal
diferenciação – originariamente não contemplada no Ato 024/2013-P –, representa o
comprometimento do tratamento simétrico de que são merecedoras as carreiras da
magistratura e do MP (art. 129, § 4º, da Constituição da República, que impõe para a
Instituição ministerial, no que couber, a aplicação das disposições do art. 93, da Constituição
Federal – que traçou as diretrizes para a edição do Estatuto da Magistratura). No mesmo
sentido, cumpre ressaltar a Resolução CNJ nº 133/2011, o Pedido de Providências nº
0002043-22.2009.2.00.0000/CNJ, a ACO 1924/DF/STF e o MCAO 1773/DF/STF.
6.14. Ainda, é relevante registrar que, antes da citada alteração, o Ato nº
024/2013-P vigorou preservando tratamento igualitário a tais autoridades, sob a égide,
justamente, da Resolução CNJ nº 104/2010, da Resolução CNJ nº 176/2013 e da Lei Federal
nº 12.694/2012. A alteração promovida somente no ano de 2014 com a edição do Ato nº
045/2014-P é que implicou na criação de um discrímen indevido – que, conforme antes
anotado, confronta a sistemática estabelecida pela Lei Federal nº 12.694/2012, que elencou
magistrados e membros do Ministério Público, pela posição proeminente de combate à
criminalidade, como merecedores de proteção específica.
6.15. Mesmo que sujeitos a um controle de acesso – providência inarredável
para verificação de todos que ingressam nas instalações –, a submissão de um membro do
Ministério Público a “procedimento de triagem de segurança” é providência incompatível
depois de efetivada a devida identificação funcional. Apresentada a carteira de identidade –
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que, inclusive, espelha as prerrogativas do porte de arma e do livre acesso para o exercício da
função –, a relevância e a responsabilidade do cargo, considerado como tal pela própria lei,
tornam desmedido qualquer juízo de valor acerca da conduta do membro do Ministério
Público, especialmente por seguranças terceirizados. Nessa toada, nunca é demais observar
que a Constituição da República, ao tratar da organização político-administrativa do Estado,
expressamente impede recusar fé aos documentos públicos – o que, à evidência, abarca
àqueles expedidos documentos pelos Procuradores Gerais, como chefes do MPE ou MPU.
Assim dispõe o art. 19, II, do Texto Constitucional:

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...)
II – recusar fé aos documentos públicos;

6.16. Dissertando sobre as cédulas de identidade funcionais de membros do


Ministério Público dos Estados, leciona Pedro Roberto Decomain:

Nenhum órgão da Administração Pública, quer da União, quer dos Estados, do Distrito Federal
ou dos Municípios, poderá recusar fé à cédula de identidade dos membros dos Ministérios
Públicos Estaduais, segundo preceitua o artigo 19, II, da Constituição Federal. Refere-se a
regra a documentos públicos de modo geral. Expedida que é a cédula de identidade do membro
do Ministério Público por órgão da Administração Pública (da qual, em sentido amplo, faz
parte o Ministério Público), tem-se que referida cédula corresponde a documento público,
merecendo fé da parte de outros agentes da Administração (Comentários à Lei Orgânica
Nacional do Ministério Público, Lei nº 8.625/1993, editora Fórum, p. 630).

6.17. Natural até que, em virtude da arquitetura de alguns prédios públicos (que
contam, por exemplo, com único acesso por portas giratórias ou arcos de detecção de metal),
os membros do Ministério Público também passem pelos equipamentos de segurança.
6.18. Nessa linha, a própria Lei Federal nº 12.694/2012, ao tratar do acesso às
dependências do Poder Judiciário, impôs a todos – o que inclui também magistrados e
servidores do Poder Judiciário – o dever de se submeter a aparelho detector de metais,
excepcionando, tão somente, a missão policial, a escolta de presos e os agentes de segurança
próprios. Assim dispõe o art. 3º, III, da dita Lei:

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Art. 3º Os tribunais, no âmbito de suas competências, são autorizados a tomar medidas para
reforçar a segurança dos prédios da Justiça, especialmente:
III – instalação de aparelhos detectores de metais, aos quais se devem submeter todos que
queiram ter acesso aos seus prédios, especialmente às varas criminais ou às respectivas salas de
audiência, ainda que exerçam qualquer cargo ou função pública, ressalvados os integrantes de
missão policial, a escolta de presos e os agentes ou inspetores de segurança próprios.

6.19. No mesmo sentido, a decisão proferida no PCA


000518211.2011.2.00.000/CNJ:

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO AMAPÁ. DETECTOR DE METAIS.


ISONOMIA. EXCEÇÃO PARA MAGISTRADOS E SERVIDORES. 1. A imparcialidade da
atividade jurisdicional depende, também, de uma estrutura de segurança para usuários de seus
serviços e para todos aqueles que se dedicam à concretização da prestação jurisdicional. 2. A
utilização de detectores de metais pretende proteger a integridade física de todos aqueles que
freqüentam os Tribunais e Fóruns – membros da magistratura, jurisdicionados, advogados etc.
e é parte do plano de segurança criado pelo CNJ com a edição da Resolução 104. 3. Os
advogados devem passar pelos detectores de metais e, também, todos os que pretendem
ingressar nos prédios em que eles forem instalados. A exclusão de Desembargadores, Juízes,
Membros do Ministério Público, Serventuários da Justiça e Autoridades convidadas pelos
magistrados da necessidade de atravessar os detectores de metais não só compromete o
objetivo dos equipamentos de segurança como implica em uma seleção discriminatória dos
possíveis causadores de perigo, com uma distinção não razoável entre os freqüentadores das
instalações dos Poder Judiciário. 4. Pedido julgado improcedente com determinação de ofício
para que o Tribunal requerido altere a Instrução Normativa em exame.

6.20. Inoportuno é que, depois de devidamente identificado, fique o ingresso de


um promotor de Justiça subordinado ao alvedrio dos responsáveis pela segurança do prédio,
porquanto o Ato nº 045/2014-P, conferindo amplos poderes aos responsáveis pela segurança,
se refere ao emprego de quaisquer “meios e mecanismos hábeis” e equipamentos "afins" para
a triagem, sem restrições.

7. De outro lado, os Tribunais de Justiça, assim como o Ministério Público,


detêm autonomia administrativa para estabelecer política de segurança institucional, podendo
restringir o acesso e a permanência de pessoas em suas áreas e instalações, em especial de
pessoas armadas, com vistas a proteger a integridade física de todos que frequentam esses
espaços públicos.
7.1. Nessa linha, os procedimentos de segurança adotados pelo Tribunal de

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Justiça do Estado do Rio Grande do Sul amoldam-se às diretrizes do Conselho Nacional de


Justiça e assemelham-se aos procedimentos adotados por outros Tribunais, mas limitam a
prerrogativa de livre porte de armas, pelos membros do Ministério Público.

8. Aliadas, tais circunstâncias são indicativas de que o Ato nº 024/2013-P e o


Ato nº 045/2014-P do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul limitam a prerrogativa dos
agentes ministeriais do MPRS de portar arma de fogo e que se apresenta eficaz a busca de
interlocução com o CNJ, visando a uma solução que ampare os interesses das Instituições
envolvidas, compatibilizando a autonomia do TJRS e o seu dever de zelar pela segurança de
servidores, magistrados e usuários dos serviços judiciários, com a prerrogativa de porte de
arma de fogo legalmente reconhecida aos membros do MP.

9. Ante o exposto, respeitando o posicionamento do Tribunal de Justiça do


Estado do Rio Grande do Sul, mas exercendo o dever constitucional de resguardar a
autonomia administrativa do Ministério Público, o Conselho Nacional do Ministério Público,
embasado nos art. 5°, inciso V, e 37, XXII, da Resolução n° 92/2013 (RICNMP), expede a
presente NOTA TÉCNICA, com a finalidade de recomendar a realização de interlocução entre
o CNJ e este CNMP para esclarecer os pontos objeto de controvérsia neste e em casos
similares porventura identificados em outras unidades da federação e, sobretudo, mediar em
conjunto o conflito que se apresenta acerca das prerrogativas previstas no art. 42, da Lei
Federal nº 8.625/93, diante da edição do Ato nº 24/2013-P e do Ato 045/2014-P, ambos
daquela Corte Estadual.
Brasília-DF, 8 de agosto de 2017.

RODRIGO JANOT MONTEIRO DE BARROS


Presidente do Conselho Nacional do Ministério Público

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