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Ser um discípulo de Cristo quando

gritam “cortem-lhes as cabeças!”


Marcos 6.7-30 (a leitura irá ajudá-lo a entender melhor o artigo):
Chamou Jesus os doze e passou a enviá-los de dois a dois, dando-
lhes autoridade sobre os espíritos imundos. Ordenou-lhes que nada
levassem para o caminho, exceto um bordão; nem pão, nem alforje,
nem dinheiro; que fossem calçados de sandálias e não usassem duas
túnicas. E recomendou-lhes: Quando entrardes nalguma casa,
permanecei aí até vos retirardes do lugar. Se nalgum lugar não vos
receberem nem vos ouvirem, ao sairdes dali, sacudi o pó dos pés, em
testemunho contra eles. Então, saindo eles, pregavam ao povo que se
arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos
enfermos, ungindo-os com óleo.
Chegou isto aos ouvidos do rei Herodes, porque o nome de Jesus já
se tornara notório; e alguns diziam: João Batista ressuscitou dentre os
mortos, e, por isso, nele operam forças miraculosas. Outros diziam: É
Elias; ainda outros: É profeta como um dos profetas. Herodes, porém,
ouvindo isto, disse: É João, a quem eu mandei decapitar, que
ressurgiu. Porque o mesmo Herodes, por causa de Herodias, mulher
de seu irmão Filipe (porquanto Herodes se casara com ela), mandara
prender a João e atá-lo no cárcere. Pois João lhe dizia: Não te é lícito
possuir a mulher de teu irmão. E Herodias o odiava, querendo matá-lo,
e não podia. Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem
justo e santo, e o tinha em segurança. E, quando o ouvia, ficava
perplexo, escutando-o de boa mente. E, chegando um dia favorável,
em que Herodes no seu aniversário natalício dera um banquete aos
seus dignitários, aos oficiais militares e aos principais da Galileia,
entrou a filha de Herodias e, dançando, agradou a Herodes e aos seus
convivas. Então, disse o rei à jovem: Pede-me o que quiseres, e eu to
darei. E jurou-lhe: Se pedires mesmo que seja a metade do meu reino,
eu ta darei. Saindo ela, perguntou à sua mãe: Que pedirei? Esta
respondeu: A cabeça de João Batista. No mesmo instante, voltando
apressadamente para junto do rei, disse: Quero que, sem demora, me
dês num prato a cabeça de João Batista. Entristeceu-se
profundamente o rei; mas, por causa do juramento e dos que estavam
com ele à mesa, não lha quis negar. E, enviando logo o executor,
mandou que lhe trouxessem a cabeça de João. Ele foi, e o decapitou
no cárcere, e, trazendo a cabeça num prato, a entregou à jovem, e
esta, por sua vez, a sua mãe. Os discípulos de João, logo que
souberam disto, vieram, levaram-lhe o corpo e o depositaram no
túmulo.
Voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram tudo
quanto haviam feito e ensinado.

“Cortem-lhes as cabeças!” Esta icônica exasperação da Rainha


Vermelha, de “Alice no País das Maravilhas”, não difere muito daquela
da “rainha” Herodias, esposa moralmente ilegítima de Herodes, pediu.
Através de sua filha, ela cruelmente requisitou… sem demora… em
uma badeja… a cabeça de João Batista.
O interessante é que Marcos coloca o martírio do profeta (Mc
6.14-29) entre o envio (Mc 6.7-13) e o retorno (Mc 6.30) dos doze
apóstolos. Em sua comum técnica sanduíche, o autor bíblico quer
que entendamos os pães do envio apostólico junto com esse recheio
joanino (eu sei, ilustração nauseante, mas não tão execrável quanto a
atrocidade cometida no sarau sangrento de Herodes).
Marcos quer que você fique, sim, chocado, como também
devidamente avisado. Ele quer que você entenda que ser um
mensageiro de Deus em uma sociedade caída pode custar sua
cabeça – literalmente! Assim como Herodias buscou utilizar-se da
força estatal para impor à força sua vontade assassina contra a voz
que clamava no deserto, assim como os líderes religiosos
influenciaram as massas para utilizando a política (vê o padrão?)
crucificar o Enviado de Deus, assim também perseguirão a nós outros
(Jo 15.20) – utilizando o poder estatal para nos coibir ou matar.
Continua após anúncio:

E essa realidade não está mais tão longe de nós. Como bem
expressou Stephen Nichols no livro Tempo de Confiança[i]:
Para nós, talvez essa marginalização cultural seja uma novidade. O
sofrimento e a perseguição são uma novidade para a Igreja americana
ou ocidental nesse novo contexto cultural. Ao adentrarmos cada vez
mais no que tem sido chamado de cultura “pós-cristã”, será que
vamos descobrir que essa experiência, “a comunhão dos seus
sofrimentos”, será uma realidade mais próxima de nossa experiência?
É possível que aumente nossa experiência de “nos assemelharmos a
ele na sua morte”.

E essa realidade não era distante dos leitores do


evangelho. Marcos provavelmente escreveu sua epístola aos crentes
em Roma, os quais não eram ignorantes do aparato assassino do
império romano (decapitações, luta com feras no Coliseu e
crucificações). O evangelista, que não é um sadista, mas um
habilidoso escritor, almeja que seus leitores fiquem com os olhos
arregalados de espanto até interiorizarem não a barbárie, mas a
certeza que, “através de muitas tribulações, nos importa entrar no
reino de Deus” (At 14.22) e que aqueles que logo se escandalizam
chegando “a angústia ou a perseguição por causa da palavra” não são
bom solo (Mc 4.1-20).
“Mas como vivemos diante dessa realidade?” É isso que o envio dos
apóstolos ensina. Marcos quer que entendamos que viver como
enviados de Jesus significa confiar nele na morte bem como na
vida.
Os doze são enviados para o estágio não-remunerado em [ii]

“pescadores de homens”, sendo instruídos a levar nada além do


básico. Vestidos da mesma forma que os israelitas na iminente saída
do Egito, os discípulos deveriam entender o caráter urgente e
prioritário de sua missão e deveriam confiar na provisão que o
Senhor do Êxodo daria. Como bem disse o pastor Kent Hughes, “o
mínimo de provisões pretendia evocar o máximo de fé.”[iii]
Além disso, os arautos deveriam confiar na mensagem do
Rei. Eles foram enviados para replicar o ministério público de
Jesus[iv]. Era um estágio comissionado. Eles deveriam ir de cabeças
erguidas, como embaixadores do Cristo enviados com sua autoridade.
Se não os ouvissem o problema não era da semente, mas do solo (Mc
4). Se os rejeitassem, eles não deveriam diminuir o caráter profético
de suas palavras, mas as agravarem sacudindo escatologicamente os
pés, apontando de forma ilustrativa quando o Rei Jesus irá expulsar
os imundos de suas terras.
Marcos 6 relata tanto um estágio em missões como um teste de
confiança em Jesus, em sua provisão, missão e mensagem. Nós
também fomos enviados por Cristo. Como, então, exibimos a
nossa confiança no Senhor?
Mostramos que confiamos em Deus em uma sociedade pós-cristã
intolerante quando nosso maior temor é sermos infiéis a Deus, o qual
pode jogar corpo e alma no inferno, do que nos dobrarmos diante
daqueles que não podem matar a alma (Mt 10.28).

Mostramos que confiamos no Senhor do Maná em uma sociedade


pós-cristã consumista quando buscamos em primeiro lugar seu reino,
sacrificando nosso conforto no altar da missionalidade e crendo que
ele acrescentará o que precisamos para continuarmos a missão (Mt
6.33).

Bem-vindo ao Cristianismo. Nosso ofício de emissários de Cristo é


um trabalho de alta periculosidade.Esta é a nossa certeza: irá
custar sua vida! Você tomará sua cruz, seja crucificando seu ego em
prol de Cristo e seu evangelho (Mc 8.35) ou estendendo seu pescoço
enquanto a espada do martírio atravessa sua jugular.
[i] NICHOLS, Stephen. Tempo de Confiança: Confiando em Deus em
uma sociedade pós-cristã. São José dos Campos/SP: Fiel, 2018. p.
91-92.
[ii] Devo esta maravilhosa ilustração a Allan Tavares, precioso irmão
em minha igreja.
[iii] HUGHES, R. Kent. Mark (2 volumes in 1/ESV Edition): Jesus,
Servant and Savior. Crossway, 2015. p. 133. Apesar desse envio não
ser normativo, ele é muito pedagógico.
[iv] Comparte o envio dos discípulos envolvendo pregar o evangelho,
expulsar os demônios e curar os enfermos pregação do evangelho
com a forma como Marcos 1 apresenta e resume o ministério de
Jesus.

- Vinicius Musselman Pimentel