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Dispositivo: reflexão poética

Luana Echevenguá Arrieche

O presente texto versa sobre o capítulo “o que é um dispositivo?” de


Agambem (2009) e aponta relações sobre o dispositivo de minha autoria e
coautoria de Yasmin Arrieche titulado “Me sinto Alice!”. O capítulo foi discutido
na disciplina “Paisagens do cotidiano e dispositivo de compartilhamento” no
Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade federal de
Pelotas, em 2018. E a criação do dispositivo se fez no âmbito da disciplina
contemplando os métodos de avaliação.

Para Agambem (2009) refletir sobre a terminologia das palavras é uma


ação valorativas para os filósofos, inspirado em suas referencias diz “a
terminologia é o momento poético do pensamento” (AGAMBEM, P.27, 2009).
Entretanto, reconhece que há exceções, e há terminologias que não foram
conceituadas como a “ideia” pronunciada por Platão. Mas para o autor, nesse
capítulo, seu interesse é dar visibilidade para as diferentes formas que a
palavra “dispositivo” é acessada, para tal referencia Foucault que por meados
da década de setenta conceitua dispositivo como uma ação estratégica que
captura e objetiva os sujeitos.

Agambem (2009) resume em três pontos: “O dispositivo em si mesmo é


a rede que se estabelece entre seus elementos.” (AGAMBEM, P.29, 2009), ou
seja, é toda ação linguística ou não-linguística estabelecendo relação entre
sujeito e objeto, os quais modelam e são modelados modos de ser sujeitos e
objeto; “o dispositivo tem sempre uma função estratégica concreta e se
inscreve sempre numa relação de poder” (AGAMBEM, P.29, 2009), logo é nas
relações de poder, compreendendo poder como ações não hierarquizadas e
estabelecendo relações de saber, assim saber e poder atuam como redes
disparadoras de dispositivos, com diz o terceiro ponto: “Como tal, resulta do
cruzamento de relações de poder e de relações de saber” (AGAMBEM, P.29,
2009).

Agambem (2009) no intuito de conhecer a genealogia do termo nos


estudos de Foucault, diz que por volta dos anos sessenta o autor não utiliza a
palavra “dispositivo” e sim “positivé”, termo utilizado anteriormente por Jean
Hyppolite – mestre para Foucault.

Agambem(2009 apud Hyppolite) ao refletir sobre “positive” concentra


sua análise em duas obras hegelianas “O espírito do cristianismo e seu
destino” e “a positividade da religião cristã”, para tal “destino” e “positividade”
são palavras chaves do pensamento Hegeliano.

Em particular, o termo “positividade” tem em Hegel o seu lugar


próprio na oposição entre “religião natural” e “religião positiva”.
Enquanto a religião natural diz respeito a imediata e geral relação da
razão humana com o divino, a religião positiva ou histórica
compreende conjunto das crenças, das regras e dos ritos que numa
determinada sociedade e num determinado momento histórico são
impostos aos indivíduos pelo exterior. [...] (AGAMBEM, P.30, 2009)

Agambem(2009 apud Hyppolite) diz que a oposição entre natureza e


positividade gera “à dialética entre liberdade e coerção e entre razão e história.”
(p.31). Logo para Hyppolite “positividade” é termo utilizado para pensar as
ações impostas pelos sujeitos e as coisas, Foucault retoma o conceito sobre o
termo “dispositivo”.

[...] então Foucault, toma emprestado este termo (que se tornará mais
tarde dispositivo), toma posição em relação ao um problema decisivo,
que é também seu problema mais próprio: a relação entre os
indivíduos como seres viventes e os elementos históricos,
entendendo esse termo como o conjunto das instituições, dos
processos de subjetivação e das regras que se concretizam as
relações de poder. O objetivo último de Foucault não é, porém, como
em Hegel, aquele de reconciliar os dois elementos. E nem mesmo o
de enfatizar o conflito entre esses. Trata-se para ele, antes, de
investigar os modos concretos em que as positividades (ou
dispositivos) agem nas relações, nos mecanismos e nos jogos de
poder. (AGAMBEM, P.32, 2009)

Agambem (2009) ao descrever os processos conceituais, através de


Foucault, Hyppolite e Hegel busca compreender que o termo dispositivo não é
um conceito operativo em Foucault, mas um termo que abrange um
pensamento de reflexão sobre ações de liberdade e coerção. Deste modo, ao
longo do capítulo Agambem descreve e conceitua “dispositivo”, através dos
dicionários franceses de uso comum, os quais apresentam: um sentido jurídico;
tecnológico; e militar. Também faz uma aproximação do termo com a
genealogia teológica da economia com o termo grego “oikonomia”:

Oikonomia significa em grego a administração do oikos, da casa, e,


mais geralmente, gestão, management. Trata-se, como diz
Aristóreles (Pol. 1255 b 21), não de um paradigma epistêmico, mas
de uma práxis, de uma atividade prática que deve de quando em
quando fazer frente a um problema e a uma situação particular.
(AGAMBEM, P.35, 2009)

Segundo Agambem (2009) o termo “oikonomia” surgiu frente a


necessidade, no decorrer do segundo século, de discutir sobre a Trindade (o
Pai, o Filho e o Espírito), modo de instaurar um pensamento de gestão sobre
as ações dos homens regulamentado pela ordem do divino, Deus.

[...] Os teólogos se habituaram pouco a pouco a distinguir entre um


“discurso – ou logos – da teologia” e um “logos da economia” e a
oikonomia torna-se assim o dispositivo mediante o qual o dogma
trinitário e a ideia de um governo divino providencial do mundo foram
introduzidos na fé cristã. (AGAMBEM, P.37, 2009)

Sendo a oikonomia segundo Agambem (2009): Deus uno, mas o modo


que se administra a sua casa a tríplice, pois confere a Cristo a gestão dos
homens. Entretanto, essa fragmentação centraliza Deus em ser e ação
(economia e política) distancia do homem seus processos de subjetivação.

Logo, Agambem (2009) investiga como os padres latinos compreendiam


o Dispositio “o termo latino dispositio, do qual deriva o nosso termo
“dispositivo”, vem, portanto, para assumir em si toda complexa esfera
semântica da oikonomia teológica.” (AGAMBEM, P.38, 2009). Desse modo, os
“dispositivos” do qual Foucault versa possui herança teológica

[...] O termo dispositivo nomeia aquilo em que e por meio do qual se


realiza uma pura atividade de governo sem nenhum fundamento no
ser. Por isso os dispositivos devem sempre implicar um processo de
subjetivação, isto é, devem produzir o sujeito. (AGAMBEM, P.38,
2009)

Agambem (2009) compreende a partir da investigação do termo


dispositivo que há a divisão entre dois grandes grupos: os viventes e os
dispositivos. Entendendo os viventes como substâncias e que estão sendo
capturados pelos dispositivos. Assim o autor assume para seu texto o conceito
de dispositivo:

[...]qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de


capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar,
assegurar os gestos, as condutas as opiniões e os discursos dos
seres viventes.[...] (AGAMBEM, P.40, 2009)
Para Agambem (2009) os seres viventes conforme vão sendo
capturados pelos dispositivos, formam outro grupo: os sujeitos – resultado da
relação direta entre viventes e dispositivos, e como não há total sobreposição
entre substância e dispositivo, ocorrem múltiplos processos de subjetivação. O
autor reconhece que o desenvolvimento do capitalismo gerou acumulação e
proliferação dos dispositivos, impulsionando constante capturação e
modelação. Como então poderíamos fazer frente a essa situação? Questiona,
o autor.

Como possibilidade de tensionamento, Agambem (2009) propõem a


profanação, o qual extrai da esfera do direito e da religião. Diz que sagradas
eram as coisas que pertenciam aos Deuses, quando subtraídas e colocadas
em servidão era vista como sacrilégio. E consagrar significa a mudança das
coisas da esfera do uso dos homens para o pertencimento dos deuses, deste
modo, profanar é a ação contrária – quando se subtraí o que era de uso dos
deuses para o uso dos homens “a profanação é o contradispositivo que restitui
ao uso comum aquilo que o sacrifício tinha separado e dividido” (AGAMBEM,
P.45, 2009)

Deste modo, reconhecendo os dispositivos como máquinas que produz


subjetivação, conforme Agambem (2009) que diz, como tais, também é
máquina de governo. Concluo este texto narrando meu processo de
subjetivação de vivente a ser capturada pelos dispositivos, me torno “sujeito em
vias de processo poético”.

“Me sinto Alice!” é um conjunto de seis postais,


resultante do processo vivenciado nos últimos
meses, no qual ingressei no PPG de Artes Visuais
da UFPel e estou como mestranda. Após a
experiência promovida pela disciplina “Paisagens do
cotidiano e dispositivo de compartilhamento”, já
citada no inicio do texto, no qual fiz registros
fotográficos de uma caminhada pelas ruas do município de Pelotas, RS, no
bairro Porto.
Os postais são aqui compreendidos como profanação ou
contradispositivo. Pois se propõem a capturam os viventes na busca de
sujeitos poéticos, contemplativos e questionadores de si e do mundo.
Referencias

AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó, SC:


Argos, 2009.