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Como Estudar a Bíblia


Jack Kuhastschek

Todos os direitos reservados. Copyright © 2002 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias
de Deus.
Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Título do original em inglês: How to Study the Bible


InterVarsity Press, Downers Grove, Illinois, EUA
Primeira edição em inglês: 1985
Tradução: Elias Santos Silva

Preparação dos originais: Kleber Cruz


Revisão: Luciana Alves
Adaptação de capa e projeto gráfico: Rafael Paixão
Editoração: Oséas Felicio Maciel

CDD: 240 - Bíblia


ISBN: 85-263-0507-7

Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso
site: http://www.cpad.com.br

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade
Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

Casa Publicadora das Assembléias de Deus


Caixa Postal 331
20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

5ª impressão Junho 2013 - Tiragem 3.000

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Há alguns anos apareceu no jornal New York Times uma propaganda de Mortimer Adler, “Como Ler um Livro”
[atualmente: “Como ler livros”]. Logo abaixo da figura de um adolescente confuso, lendo uma carta, estavam
as seguintes palavras:

COMO LER UMA CARTA DE AMOR

Este jovem acaba de receber sua primeira carta de amor. Ele deverá lê-la umas três ou quatro vezes, mas está
apenas começando. Para ler com a precisão que ele gostaria, seriam necessários vários dicionários e um
bocado de trabalho de alguns especialistas em etimologia e filologia. Entretanto, ele se sairá bem sem eles.
Ele irá pensar sobre o tom exato do significado de cada palavra, de cada vírgula. No cabeçalho está escrito:
“Prezado John”. E ele se pergunta: Qual será o significado exato dessas palavras? Será que ela não escreveu
“Querido” porque ficou com vergonha? Será que “Meu prezado” soaria muito formal?
Ora essa! É provável que ela diga “Prezado Fulano” para todo mundo! Uma ruga de preocupação surgiu em
sua testa. Mas assim que começa a pensar na primeira frase a ruga desaparece. Ela certamente não escreveria
aquilo para qualquer um.
E assim ele vai lendo a carta, ora descontraído alegremente no sofá, ora encolhido e tristonho, sentindo-se
encurralado. A carta provocou centenas de perguntas em sua mente. Ele já sabe o texto de cor. Aliás, ele
recitará a carta — para si mesmo — por várias semanas.
A propaganda conclui: “Se lêssemos os livros com uma concentração pelo menos parecida com essa, seríamos
uma raça de gigantes intelectuais”. 1

A Bíblia é a carta de amor de Deus para nós. Mas se quisermos experimentar a avidez e a
intensidade do jovem da propaganda, temos de aprender a estudá-la sozinhos. Este livreto apresenta as
habilidades necessárias para se estudar a Bíblia. Estas habilidades são de vital importância tanto para os novos
crentes como para aqueles que já conhecem a Cristo por muitos anos.

A NATUREZA DAS ESCRITURAS

A Bíblia é singular. Ela é diferente de qualquer outro livro porque o próprio Deus é o seu Autor. Por ser
Deus o Autor da Bíblia, ela é eterna — fala de pessoas em todas as épocas, lugares, línguas e culturas. Ela
nunca perde sua relevância, e nunca fica ultrapassada.
Por outro lado, a Bíblia não é uma única obra. Pelo fato de ser também escrita por autores humanos, a
Bíblia possui muitas semelhanças com outros livros. Assim como outros livros não-fictícios, a Bíblia é
histórica — ela foi primeiramente escrita para pessoas em tempo, lugar, língua e cultura específicos. E
assim como outros livros, a Bíblia é literatura — os autores comunicam através de histórias, poemas,
cartas e parábolas.
As qualidades históricas, literárias e eternas das Escrituras exigem que sigamos três passos no estudo e na
aplicação da Bíblia:
Primeiro, se tomarmos a natureza histórica da Bíblia seriamente, temos de aprender alguma coisa sobre a
época, a língua, a cultura e a geografia do mundo bíblico. Isso nos ajudará a entender como a Palavra de Deus
falou àqueles que a ouviram primeiro.
Segundo, se tomarmos a natureza literária da Bíblia seriamente, temos de adquirir certas habilidades — o
tipo de habilidades necessárias para se entender qualquer livro. Isso nos ajudará a entender o que o autor está
dizendo.
Terceiro, se tomarmos a natureza eterna da Bíblia seriamente, nós a estudaremos cuidadosamente e em
oração. Isso nos ajudará a entender como a Palavra de Deus fala conosco hoje.

PRIMEIRO PASSO: UMA JORNADA AO PASSADO

Em 1885, H. G. Wells escreveu um livro chamado A Máquina do Tempo, onde descreve uma máquina
que podia levar uma pessoa para o passado ou para o futuro:

1
Citado por Robert A. Traina, Methodical Bible Study, (Wilmore, Ky.: Seminário Teológico de Asbury,1952), pp. 97,98.
3
“Agora quero que vocês entendam claramente que esta alavanca, quando empurrada para cima, manda a máquina
para o futuro, e que esta outra alavanca reverte a direção. Este selim é o assento do viajante do tempo. Agora vou
empurrar a alavanca, e a máquina vai desaparecer...” Todos nós vimos a alavanca virar. Tenho plena certeza de que
não houve nenhum truque. Houve um soprar de vento e a vela da lamparina pulou. Uma das velas se apagou, e de
repente a máquina girou, ficou embaçada, e por um segundo, talvez, ficou parecendo um fantasma, como um
redemoinho de marfim e latão cintilante, um pouco apagado, e sumiu - desapareceu! 2

De certa forma, estudar a Bíblia é como entrar numa máquina do tempo. Temos de atravessar as
barreiras do tempo, da língua, da cultura e da geografia para podermos entender os personagens da
Bíblia e os problemas que eles estavam enfrentando. Isso nos ajuda a assimilar como a Palavra de Deus
se aplicou à situação deles.
Depois, quando tivermos entendido como a Palavra de Deus foi aplicada às pessoas daquele século,
tornamos a entrar na máquina do tempo e voltamos para o século XXI. Agora podemos refletir sobre o
que aprendemos e como aplicá-lo à nossa época e cultura e aos problemas que nós enfrentamos.
Nossa máquina do tempo é construída das várias ferramentas disponíveis ao estudante moderno da Bíblia.
Com essas ferramentas podemos atravessar as barreiras que nos separam do mundo bíblico.
1. Atravessando a barreira do tempo. Os eventos descritos na Bíblia aconteceram há milhares de anos.
Isso cria um problema óbvio para a nossa compreensão desses eventos — nós não estávamos lá! Portanto,
sempre nos faltam informações importantes acerca do contexto histórico em que esses eventos ocorreram.
Por exemplo, quase todas as cartas do Novo Testamento foram escritas direcionadas a um problema ou
conjunto de problemas específicos: os gálatas estavam querendo ser justificados pela Lei; os coríntios queriam
respostas para questões sobre casamento, dons espirituais, carne consagrada a ídolos, e assim por diante; e
Timóteo precisava saber como restaurar a ordem na igreja.
A menos que entendamos esses problemas ou questões, ler essas cartas seria como ouvir um lado de
uma conversa telefônica. Ouvimos o que o autor está dizendo, mas não sabemos por que ele está dizendo
aquilo. O mesmo acontece quando lemos os Salmos e os livros proféticos. Só ouvimos a metade da história!
Uma forma de aprender sobre o contexto histórico é procurar dentro do próprio livro ou da própria
passagem. Por exemplo, em 1 João lemos: “Estas coisas vos escrevi acerca dos que vos enganam” (1 Jo 2.26).
Quando olhamos em outra passagem na carta, descobrimos que esses falsos mestres faziam parte da igreja
originalmente: “Saíram de nós, mas não eram de nós” (1 Jo 2.19). João chama-os de “anticristos” (1 Jo 2.18).
Há muitas outras afirmações, algumas explícitas e outras implícitas, que nos dão detalhes adicionais sobre a
situação que os leitores de João enfrentavam e por que ele escreveu-lhes.
Após examinarmos um livro ou passagem, é bom consultarmos um dicionário bíblico ou manual. Por
exemplo, sob o título de “Epístolas de João” podemos encontrar mais informação sobre o contexto histórico e o
propósito de 1 João.
Também é uma boa idéia ler passagens bíblicas relacionadas com o texto. Por exemplo, o Salmo 51 foi
escrito por Davi após seu adultério com Bate-Seba. Podemos ler sobre Davi e Bate-Seba em 2 Samuel 11 e 12
(O título do Salmo 51 nos indica por que ele foi escrito. Quando tal informação não é dada, um dicionário ou
comentário bíblico sempre fará menções de passagens correlatas.) Semelhantemente, se formos estudar o livro
de Filipenses, será necessário consultarmos o livro de Atos, que possui informações sobre a implantação da
igreja em Filipos (At 16).
Quanto mais soubermos sobre o contexto histórico da passagem bíblica, mais preparados estaremos
para entender a mensagem do autor. Tal informação pode ser como encontrar as peças que faltam em
um quebra-cabeça. Quando as peças são colocadas no lugar, toda a figura faz muito mais sentido.
2. Atravessando a barreira da linguagem. O fato de que a Bíblia foi escrita em hebraico, aramaico e
grego, em vez de português, cria uma significante barreira para compreendermos sua mensagem. Qualquer
pessoa que tenta aprender essas três línguas rapidamente, percebe quão difícil é dominá-las. Mas ainda bem que
aqueles que são peritos nas linguagens bíblicas já atravessaram essa barreira para nós (na maior parte),
traduzindo a linguagem bíblica para o português moderno. Aliás, existem inúmeras traduções para se escolher.
Há versões literais, como a Edição Revista e Corrigida, de João Ferreira de Almeida. Existe ainda a
Versão Revisada da tradução de Almeida [atualmente: Almeida Século 21], de acordo com os melhores textos
em hebraico e grego. Uma versão com uma linguagem de equivalência dinâmica é a Versão Revista e
2
H. G. Wells, The Time Machine, (Nova York: Bantam Books, 1982), pp. 9,10.
4
Atualizada, de Almeida [esta também é formal. A NVI ou NVT se encaixam melhor nessa descrição]. Um
português livre e moderno é encontrado na tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do
Brasil.
Cada tipo de tradução tem pontos fortes e pontos fracos. Uma tradução literal segue os dizeres gregos
e hebraicos o mais próximo possível, mas para nós, esses dizeres soam um pouco estranho.
A tradução livre se preocupa mais com a clareza do que com as palavras originais. Tais traduções são
fáceis de ler, mas dão a impressão de que a Bíblia foi escrita no século XXI.
As traduções de equivalência dinâmica provavelmente são a melhor escolha. Elas não tentam atualizar os
fatos históricos ou culturais. Mas traduzem as palavras bíblicas e frases em seus equivalentes em português.
Como resultado, são precisas e fáceis de ler.
O leitor sábio tira vantagem dos três tipos de tradução. Cada uma fornece uma visão diferente daquilo
que o autor disse em sua própria língua.
É melhor, no entanto, usarmos uma versão literal ou de equivalência dinâmica como base de nosso
estudo. Essas versões nos permitem interpretar as passagens sozinhos, ao invés de fazer todo o trabalho para
nós. Depois, quando alcançarmos o significado básico do texto, a tradução livre pode ajudar a esclarecer aquilo
que o autor está dizendo.
Mesmo com uma boa tradução, haverá momentos em que não conseguiremos entender o sentido de
alguma palavra. Por exemplo, as palavras justificação, propiciação, reconciliação e redenção teologicamente
são muito importantes, mas não são familiares para muitos estudantes da Bíblia. Elas não são familiares para
nós porque vêm da língua e cultura dos autores da Bíblia, e não da nossa cultura do século XXI.
É importante, então, pesquisar essas palavras em um dicionário bíblico. Isso nos capacita a
atravessar a barreira linguística, dando-nos uma definição coerente com o significado da mensagem do autor da
Bíblia. Um dicionário moderno também pode ajudar a explicar o significado de certas palavras. Mas os
dicionários modernos geralmente dizem o que as palavras significam hoje e não o que significavam nos tempos
bíblicos.
3. Atravessando a barreira cultural. Os eventos da Bíblia aconteceram em diferentes culturas: egípcia,
cananéia, babilônica, judaica, grega e romana são alguns exemplos. Não é de se estranhar, portanto,
encontrarmos costumes e crenças que soam estranhos aos nossos ouvidos, já que estão totalmente fora da
cultura do século XXI.
Por exemplo, por que Raquel roubou os ídolos da casa de seu pai? (Gn 31.19) Por que Jonas se recusou a
ir a Nínive? Quem eram os samaritanos, e por que havia tanto ódio entre eles e os judeus? (Jo 4.9) Como era a
cidade de Corinto, e que tentações em particular os coríntios sofriam por morarem lá? Quando passamos a
entender as respostas para tais perguntas, recebemos uma nova luz sobre o livro ou passagem que estamos
estudando.
Imagine que você está estudando o livro de Amós e depara com o seguinte versículo: “No dia em que eu
visitar os transgressores de Israel... e os chifres do altar serão cortados, e cairão por terra” (Am 3-14). Este
versículo não faz nenhum sentido para nós no século XXI, mas um dicionário ou uma enciclopédia bíblica nos
ajudará a entender o que Amós queria dizer. Se consultarmos a palavra altar ou chifre, descobriremos que nos
tempos do Antigo Testamento muitos judeus acreditavam que o altar era um lugar de refúgio. Adonias e Joabe
seguraram as pontas (ou chifres) do altar buscando proteção (1 Rs 1.50; 2.28). Amós está avisando que os
israelitas fugirão para o altar e descobrirão que suas pontas (isto é, sua proteção) desapareceram!
Podemos também descobrir muito sobre a cultura simplesmente no livro ou na passagem que estamos
estudando. Por exemplo, os evangelhos estão cheios de referências sobre a vida na Palestina no primeiro século.
Sabemos que os judeus estavam sob o domínio romano (Lc 3-1) e esperavam que o Messias viesse e os
libertasse de seus inimigos (Lc 1.71). Tomamos conhecimento do legalismo e do farisaísmo das autoridades
religiosas e como elas distorciam o verdadeiro conhecimento de Deus (Mt 23). Podemos compreender também
o dia-a-dia da vida nos tempos bíblicos: relações comerciais (Lc 16.1-18), casamentos (Jo 2), funerais (Jo 11),
salários (Mt 20.1-16), impostos (Mt 22.15-22), e assim por diante. É impossível estudar a Bíblia sem se
submergir na cultura antiga do Oriente Médio. Quando nos tornamos mais familiarizados com essa
cultura, somos mais capazes de atravessar essa barreira entre o nosso mundo e o deles.
4. Atravessando a barreira geográfica. Algumas pessoas têm o privilégio de visitar a Terra Santa.
Quando voltam, relatam que a Bíblia toma vida de uma forma que nunca experimentaram antes. Quem nunca

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visitou a Terra Santa também pode ter essa experiência num sentido mais limitado. Quando estudamos a
geografia bíblica, muitas passagens tomam um outro significado.
Por exemplo, em Amós 1.3 - 2.16 o profeta condena Damasco, Gaza, Tiro, Edom, Amom, Moabe, Judá e
Israel. A princípio pode parecer que Amós cita essas cidades e nações aleatoriamente, porém um exame mais
minucioso revela o contrário. As primeiras três cidades são capitais de nações pagãs que não estão relacionadas
com Israel. As outras três são parentes de sangue de Israel. Judá, a sétima, é a nação irmã de Israel, ao sul.
Finalmente, a própria nação de Israel é citada.
O efeito dessas palavras nos ouvintes de Amós deve ter sido desconcertante. Os israelitas devem ter
vibrado com os julgamentos contra as nações pagãs. Mas à medida que as cidades foram se aproximando mais e
mais deles — Amom, Moabe e Judá —, eles provavelmente começaram a suar. Com as palavras “Por três
transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo”, eles foram pegos na espiral de condenação de
Amós.
Existem várias maneiras de se familiarizar com a geografia bíblica. Muitas Bíblias incluem mapas para os
leitores consultarem. Um bom atlas da Bíblia ou um dicionário bíblico também podem fornecer informações
valiosas sobre lugares desconhecidos. Essas fontes podem nos ajudar a traçar a rota do Êxodo, podem mostrar-
nos as cidades conquistadas por Josué e identificar os inimigos vizinhos de Israel. Eles nos permitem
acompanhar o ministério de Jesus e as jornadas missionárias de Paulo. Podemos conhecer a localização das
igrejas do Novo Testamento e saber como essa localização pode ter influenciado a vida e a cultura deles. Se
consultarmos essas fontes sempre que nos depararmos com alguma localização desconhecida da Bíblia, elas
poderão nos ajudar a atravessar a barreira geográfica.

SEGUNDO PASSO: APRENDENDO A LER

Imagine que você entrou na máquina do tempo e atravessou completamente as barreiras do tempo, da
cultura e da geografia. Você está em Corinto, no século I. Está vestido com roupas gregas, fala grego
fluentemente e conhece a cultura e a geografia ao seu redor. Você é até membro da igreja de Corinto e conhece
bem as pessoas e os problemas da igreja.
Quando você está entrando numa reunião de adoração na casa de algum irmão, surge um mensageiro com
uma carta na mão, a carta que agora chamamos de 1 Coríntios. Você desenrola o pergaminho e começa a ler a
carta (em grego, é claro!). Será que o fato de você ter atravessado com sucesso as barreiras do tempo, da língua,
da cultura e da geografia significa que você vai entender automaticamente o que Paulo está dizendo? Não
necessariamente.
O apóstolo Pedro foi um dos contemporâneos de Paulo e ainda assim achou alguns “pontos difíceis de
entender” na carta dele (2 Pe 3.16). É claro que a dificuldade de Pedro pode ser porque Paulo não foi muito
claro em alguns pontos. Mas mesmo quando Paulo escreve claramente, o nosso sucesso em entendê-lo (ou
qualquer outro autor) irá depender da nossa habilidade de leitura. Portanto, um dos aspectos do aprendizado no
estudo da Bíblia concentra-se em adquirir habilidades de leitura — o tipo de habilidade que pode nos ajudar na
leitura da Bíblia, de um romance, de uma revista ou de um jornal.
Para que possamos ler com entendimento, precisamos nos concentrar em responder uma pergunta
básica: O que o autor quis transmitir aos seus leitores originais? (A pergunta sobre o que a passagem
significa hoje será apresentada na seção “De Volta ao Presente”.) Você pode descobrir o que o autor quis dizer
seguindo esse esboço de cinco diretrizes:

• Identifique o tipo de literatura que você está estudando.


• Obtenha uma visão panorâmica [geral] do livro.
• Estude o livro passagem por passagem.
• Seja sensível ao estilo do livro ou da passagem.
• Compare a sua interpretação com um ou dois comentários.

1. Identifique o tipo de literatura que você está estudando. Um dia, certo estudioso muito culto estava
dando uma palestra sobre o mormonismo. Alguns mórmons ouviram sobre a palestra e decidiram assistir. Lá
pelo meio da reunião, um deles se levantou e começou a discutir, dizendo que Deus o Pai tinha um corpo físico
como o nosso. Ele “provou” sua argumentação citando passagens que se referem à “mão”, aos “olhos”, ao
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“braço” de Deus, e assim por diante. O sábio estudioso, então, pediu que ele lesse em voz alta Salmos 17.8:
“Esconde-me à sombra das tuas asas”.
— Mas isso é só figura de linguagem — protestou o mórmon.
— Exatamente! — replicou o estudioso.
Os autores da Bíblia se pronunciaram de várias formas — através de histórias, cartas, poemas, provérbios,
parábolas, metáforas e símbolos. Cada tipo de literatura tem suas próprias características. Precisamos
identificar o tipo de literatura e linguagem que o autor está usando para interpretarmos corretamente o
seu pensamento. Se imaginarmos que ele está falando literalmente quando está falando metaforicamente (o
erro cometido pelo mórmon) o texto não terá sentido.
A literatura da Bíblia está classificada em vários tipos, que incluem:
Discurso. O discurso é uma explanação lógica e extensa de um assunto. As epístolas do Novo Testamento
são exemplos claros de discursos. Alguns sermões proféticos e os sermões mais longos de Jesus também caem
nessa categoria.
Prosa Narrativa. Este é o estilo usado nos livros como Gênesis, Josué e os evangelhos. O autor descreve
e recria as cenas e os eventos da história bíblica que são teologicamente significantes.
Poesia. Os Salmos, é claro, entram nessa categoria. A poesia bíblica usa linguagem figurada, diferentes
tipos de paralelismo e tem uma natureza emocional.
Provérbios. Os provérbios, tais como o livro de Provérbios, são ditados ou conselhos sábios. São
princípios de vida práticos, e não devem ser confundidos com mandamentos ou promessas.
Parábolas. Jesus fez uso de parábolas mais de uma vez nas Escrituras. Uma parábola explica uma
verdade espiritual através de uma história ou analogia. É uma símile ou metáfora mais extensa.
Literatura Profética. Os livros proféticos incluem os quatro profetas maiores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e
Daniel) e os doze profetas menores (Oséias, Joel e Amós até Malaquias). Os profetas eram os porta-vozes de
Deus que anunciavam as maldições e as bênçãos associadas à aliança de Deus com Israel.
Literatura Apocalíptica. Os livros de Daniel e do Apocalipse são tipos especiais de profecias conhecidas
como livros apocalípticos. A palavra apocalipse significa “descobrir” ou “revelar” algo que está escondido.
Uma característica distinta desses livros é a grande quantidade de símbolos que eles usam.
Uma vez identificado o tipo de literatura que você está estudando, consulte um dicionário bíblico. (Como
você já deve ter percebido, um dicionário bíblico é uma ferramenta valiosa que devemos possuir.) Por exemplo,
se você está estudando os Salmos, seria interessante ler um artigo sobre a poesia hebraica para aprender
como ela funciona. Do mesmo modo, se está estudando o Apocalipse, leia um artigo sobre os livros
apocalípticos. Ele irá explicar por que esse tipo de literatura parece tão estranho para nós e oferecerá sugestões
para interpretá-los corretamente.
2. Obtenha uma visão panorâmica do livro. Numa extensa planície no Peru, arqueólogos descobriram
muitas séries de linhas estranhas cobrindo uma área de 60 quilômetros de distância. A princípio, os arqueólogos
pensaram que se tratavam de estradas antigas. Mas o verdadeiro significado daquelas linhas só foi descoberto
quando sobrevoaram a área de avião. As linhas se juntavam, formando um desenho, um imenso mural que só
podia ser visto lá de cima.
Uma visão panorâmica nos ajuda a descobrir de duas maneiras o pensamento de um autor. Primeiro ela
nos permite descobrir o tema central do livro, na medida em que observamos as ideias que se repetem. Por
exemplo, o autor da carta aos Hebreus enfatiza a superioridade de Cristo. “Feito tanto mais excelente do que os
anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hb 1.4). “Porque ele é tido por digno de tanto maior
glória do que Moisés” (Hb 3.3). “Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus” (Hb 4.14).
Em segundo lugar, a visão panorâmica nos ajuda a descobrir a estrutura do livro — como as partes do
livro contribuem para o tema central. A estrutura de Hebreus demonstra claramente a superioridade de Cristo:

• Cristo é superior aos profetas (1.1-3).


• Cristo é superior aos anjos (1.4 - 2.18).
• Cristo é superior a Moisés (3.1 - 4.13).
• Cristo é superior a Arão (4.14 - 10.18).
• Cristo é superior como um novo e vivo caminho para Deus (10.19 - 12.29).

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A estrutura de um livro está intimamente relacionada com o seu estilo [gênero] literário. Uma epístola
como a de Hebreus é organizada em torno de ideias. As narrativas históricas podem ser estruturadas de várias
formas: Gênesis (após o capítulo 11) está organizado em torno das pessoas (Abraão, Isaque, Jacó e José);
Êxodo está estruturado em torno das localizações geográficas e dos eventos (no Egito, em direção ao monte
Sinai e no Sinai). A poesia do Salmo 119 está estruturada em torno das letras do alfabeto hebraico.
O tema e a estrutura de um livro são as ferramentas que o autor usa para alcançar o seu propósito
(veja a seção “Atravessando a barreira do tempo”). Por exemplo, em virtude da perseguição que os cristãos
hebreus estavam sofrendo por causa da fé em Cristo, eles foram tentados a esquecer o cristianismo e
retornar ao judaísmo. O autor de Hebreus enfatiza quão tola e séria era essa decisão, já que Cristo é
muito superior a qualquer um ou a qualquer coisa que o judaísmo pudesse oferecer.
Ter uma visão panorâmica é como olhar por uma lente de aumento. Para ter essa visão, comece a ler
superficialmente o livro, tentando descobrir as ideias repetidas ou as palavras que estruturam o pensamento do
livro. Quando não for possível ler o livro todo, examine o seu conteúdo, prestando atenção especial nos títulos
dos capítulos ou parágrafos do livro da Bíblia.
Em seguida, observe mais acuradamente, atentando mais para as seções maiores ou para as divisões do
livro. Cada seção irá focalizar basicamente um assunto. Uma vez descoberto o assunto, tente resumir, dando um
pequeno título para aquela seção. Agora você já está pronto para focalizar os detalhes do texto — os parágrafos
e palavras.
Em cada etapa do caminho procure conexões ou algo que relaciona as seções e os parágrafos. Por
exemplo, se estamos estudando Romanos, perceberemos que os versículos de 1.18 a 3.20 descrevem a
necessidade da humanidade; de 3.21 a 5.21 mostram a solução de Deus para aquela necessidade. Romanos 7.7 a
8.39 contrasta a morte que vem pelo pecado (7.7-25) com a vida que vem através de Cristo e do seu Espírito
(8.1-39). À medida que o autor prossegue de um parágrafo ou seção para outra, ele pode avançar de um
problema para uma solução, da causa para o efeito, do geral para o específico. Ele pode usar comparação,
contraste, repetição, e outros recursos. Podemos nos alertar sobre essas conexões na linha de raciocínio do
autor, se nos perguntarmos como cada seção se relaciona com a próxima e como contribui para a argumentação
global do autor.
Quanto mais vezes lermos um livro, mais familiarizados ficaremos com seu tema e sua estrutura. A
visão panorâmica que fizemos nos ajudará a entender o livro como um todo. Esta compreensão certamente
influenciará a maneira como interpretamos as partes. Mas quando nos familiarizamos com as partes, nossa
compreensão do todo talvez possa precisar de um reajuste, e assim por diante. Cada vez que passarmos por esse
ciclo, chegaremos mais perto de assimilar o pensamento do autor.
3. Estude o livro passagem por passagem. Uma vez consolidada a visão panorâmica do assunto e da
estrutura do livro, comece a estudar passagem por passagem. Nas Bíblias modernas uma passagem pode ser um
parágrafo, um grupo de parágrafos ou um capítulo. Tenha em mente, porém, que originalmente a Bíblia não
continha capítulos ou versículos (e nem mesmo pontuação!). Essas adições são muito úteis na Bíblia, mas não
devemos ficar presos a elas.
Quando estudamos uma passagem devemos procurar entender o seu conteúdo e o seu contexto.
Descobrimos o conteúdo de uma passagem lendo e relendo o texto. Enquanto lemos temos de nos
perguntar: “Qual é o assunto principal desta passagem?”
Por exemplo, o amor é obviamente o assunto de 1 Coríntios 13, já que a palavra (ou os pronomes
relativos a ela) ocorre 9 vezes em 13 versículos. O amor, contudo, é um assunto muito amplo, um tema que
Paulo abordou com centenas de perspectivas diferentes.
Portanto, devemos perguntar também: “O que Paulo diz sobre o amor?” Uma leitura minuciosa desse
capítulo revela que:
a. O amor é superior aos dons espirituais porque sem o amor todos os dons perdem a significação (13.1-
3).
b. O amor é superior aos dons espirituais por causa de suas qualidades altruístas (w. 4-7).
c. O amor é superior aos dons espirituais porque dura para sempre (w. 8-13).
Descobrimos o contexto de uma passagem lendo os versículos imediatamente anteriores e posteriores a
ela. Quando lemos, temos de nos perguntar: “Por que esta passagem está aqui? Como o autor a usa para
esclarecer o seu ponto de vista?”

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Muitas pessoas, por exemplo, lêem 1 Coríntios 13 sem considerarem como Paulo o encaixa em sua
argumentação global. Percebemos que esse capítulo está inserido entre dois capítulos que falam sobre dons
espirituais. Portanto, a discussão de Paulo neste contexto precisa ter algo em comum com o assunto mais
amplo, que é sobre os dons, como indica claramente o esboço do texto acima.
4. Seja sensível ao estilo do livro ou da passagem. A Bíblia é mais do que uma coleção de ideias. Os
autores e os personagens da Bíblia foram pessoas como nós, sujeitos a paixões e sentimentos. Tristeza e agonia
permeiam a experiência de Jesus no Getsêmani. O livro de Gálatas irradia o calor da ira de Paulo contra os
judaizantes e a sua perplexidade para com os gálatas. O Salmo 148 está repleto de louvores. Embora esse
aspecto do estudo da Bíblia seja mais subjetivo, ele pode nos oferecer ricas considerações sobre os sentimentos
e as motivações dos autores e personagens da Bíblia. Em troca, isso nos ajuda a compreender mais a fundo o
que eles estão dizendo.
5. Compare a sua interpretação com um ou dois comentários. Quando você sentir que já compreende o
tema central da passagem e o que o autor está dizendo sobre ele, compare a sua interpretação com um ou dois
bons comentários. Eles podem jogar mais alguma luz naquilo que você deixou de perceber e podem servir de
correção, no caso de você interpretar mal o autor. Entretanto, faça todo o possível para entender a passagem
sozinho, antes de consultar os comentários.

TERCEIRO PASSO: DE VOLTA AO PRESENTE

Agora já estamos prontos para entrar novamente na máquina do tempo e retornar ao século XXI.
Enquanto viajamos do mundo bíblico para o nosso, procuraremos aplicar a Palavra de Deus às necessidades e
aos problemas do nosso tempo, da nossa cultura, usando uma linguagem que é significativa para nós hoje.
A natureza eterna das Escrituras deve nos induzir a ler a Bíblia cuidadosamente e em oração.
Em 2 Timóteo 2.7, Paulo escreve ao seu jovem auxiliar: “Considera o que eu digo, porque o Senhor te
dará entendimento em tudo”. Observe as duas partes deste versículo. Primeiro, Paulo exorta Timóteo a
considerar, a pensar no que ele disse. Estudar e aplicar a Bíblia requer pensamento e reflexão. Devemos
manusear as Escrituras cuidadosamente, usando todas as ferramentas e fontes que Deus nos deu para
compreendermos a sua Palavra. Somente, então, podemos ter certeza de que estamos aplicando as Escrituras da
forma como Deus quer. Se nos apressarmos em nosso estudo da Bíblia podemos interpretá-la mal e acabar
aplicando-a erroneamente.
Na segunda parte do versículo, Paulo diz a Timóteo que é o Senhor quem dá o entendimento. Portanto,
devemos também estudar a Bíblia em oração, pedindo ao Autor divino das Escrituras que nos dê o
entendimento de tudo. É necessário que Deus abra nossos olhos para percebermos claramente o que Ele está
dizendo. É necessário que Deus revele as áreas de nossa vida que precisam ser transformadas pela sua Palavra e
pelo seu Espírito. O salmista percebeu isso quando I escreveu: “Desvenda os meus olhos, para que veja as
maravilhas da tua lei” (SI 119-18). O Senhor é quem revela as Escrituras.
Para aplicarmos apropriadamente as Escrituras, devemos lembrar do que foi dito antes sobre a natureza
delas. Cada livro da Bíblia foi escrito direcionado a problemas específicos, a necessidades e questões de
pessoas que viviam naquela época. Por exemplo, os coríntios tiveram problemas de divisões, imoralidade e
processos judiciais entre os cristãos. Eles também tiveram questões sobre casamento, alimentos sacrificados a
ídolos e dons espirituais. Paulo escreveu 1 Coríntios para falar dos problemas específicos deles e para responder
suas questões específicas.
Hoje, enfrentamos muitos desses problemas e dessas questões. Ainda é possível levar um irmão à justiça,
e ainda questionarmos sobre casamentos. Aliás, existem inúmeras maneiras em que os nossos problemas e
necessidades correspondem àqueles enfrentados pelos personagens da Bíblia. Isso é natural, já que
compartilhamos o vínculo humano.
Isso nos leva ao primeiro princípio de aplicação:

Sempre que a nossa situação corresponder àquelas enfrentadas pelos leitores originais, a Palavra de
Deus para nós é a mesma que foi para eles.

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Mas há também situações do tempo antigo que não têm correspondentes hoje. Isso também é de se
esperar por causa das diferenças entre as culturas bíblica e moderna. Por exemplo, ninguém em nossa sociedade
oferece alimentos aos ídolos.
Neste caso, devemos seguir o segundo princípio de aplicação:

Sempre que a nossa situação não corresponder àquelas enfrentadas pelos leitores originais, devemos
procurar o princípio implícito na Palavra de Deus para elas. Poderemos então aplicar esse princípio em
situações que se comparem àquelas.

Qual era o princípio implícito nas palavras de Paulo sobre os alimentos oferecidos aos ídolos? Ele estava
temeroso de que os coríntios fizessem algo que pudesse levar alguém de pensamento fraco a pecar: “Pelo que,
se o manjar escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão se não escandalize” (1
Co 8.13). Este princípio pode ser aplicado em muitas situações hoje, como por exemplo, se um cristão deve
tomar bebida alcoólica perto de um ex-alcoólatra — ou se não deve beber nunca.
Após entendermos esses princípios de aplicação, encontraremos inúmeras situações às quais a Palavra de
Deus se aplica hoje. Podemos fazer perguntas como:

• Há um mandamento para eu seguir?


• Há uma promessa a reclamar?
• Há um exemplo a seguir?
• Há um pecado a evitar ou a confessar?
• Há uma razão para ação de graças ou louvor?
• O que esta passagem me ensina a respeito de Deus, Jesus Cristo, de mim mesmo e dos outros?

A PRÁTICA PRODUZ A PERFEIÇÃO (OU QUASE!)

Aprender a estudar a Bíblia é como aprender qualquer outra habilidade — quanto mais você pratica, mais
fácil se torna. A princípio, seguir os passos esquematizados neste livreto pode parecer mecânico, como aprender
a datilografar. Mas depois de algum tempo, muitos desses passos parecerão muito mais naturais, quase
automáticos. E lembre-se, não estamos sozinhos no estudo da Bíblia. O Espírito Santo não inspirou as
Escrituras para nos confundir. Ele nos ajudará a entender e aplicar a Bíblia se orarmos, estudarmos
diligentemente e fizermos uso dos muitos materiais de apoio existentes hoje. Faça bom proveito!

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