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IMPROVISAÇÃO: organização e aplicação de fragmentos e motivos melódicos

Alexandre Luís Sampaio de FREITAS1

Wilson DITTRICH FILHO2

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Licenciado em Música pela Universidade Vale do Rio Verde (UninCor) e pós-graduado (Lato Sensu) em Educação
Musical pelo Centro Universitário Claretiano. alexandrefreitasfeeling@hotmail.com
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Professor do Curso de Pós Graduação em Educação Musical à distância no Centro Universitário Claretiano.
wilsondittrich@claretiano.edu.br

Recebido em: 28/06/2016 - Aprovado em: 10/09/2017 - Disponibilizado em: 3/12/2017

RESUMO:
A improvisação musical consiste em criar em tempo real melodias inéditas sem que estas sejam previamente compostas.
O músico improvisador tem ideias imediatas e com a prática adquire um ouvido apurado e personalidade própria.
Porém o iniciante deste processo necessita de referências, ou seja, ideias de outros músicos, decorando-as e aplicando-
as em vários contextos. Posteriormente o mesmo começará a criar as suas próprias frases. Este trabalho consiste em
realizar uma pesquisa através de experiência de prática musical onde o aluno será orientado com fragmentos melódicos,
os quais serão executados dentro das estruturas da escala pentatônica menor em Lá, elencados em níveis de dificuldade
e colocados em prática dentro das aulas do instrumento guitarra.
Palavras-chave: Improvisação. Prática de conjunto. Fragmentos melódicos. Linguagem musical. Escala pentatônica.

ABSTRACT:
The musical improvisation is to create real time unreleased tunes without their being previously made. The
improvisational musician has immediate ideas and practice acquires a keen ear and own personality. But the beginner
this process needs references, or ideas from other musicians, decorating them and applying them in various contexts.
Later you will begin to create your own phrase. This work is to conduct a search through musical practice experience
where students will be oriented with melodic fragments, which will run within the minor pentatonic scale structures in
A, listed in difficulty levels and put into practice within the classes of the instrument electric guitar.
Keywords: Improvisation. Set practice. Melodic fragments. Musical language. Pentatonic scale.

Introdução qualquer atividade musical, porém não


Segundo o Dicionário Aurélio bastam se não houver referências para
(versão online), improvisar significa algo construção de melodias. Padrões rítmicos e
repentino, súbito ou sem preparo. Dentro do melódicos previamente compostos aplicados
contexto musical essa definição é aplicável, às escalas podem ser considerados como
porém é necessário conhecimento prévio dos pontos de partida para esta prática musical.
elementos musicais e recursos necessários. Em poucas palavras, segundo Diógenes
Segundo Les Wise, “Improvisação Torres, estes motivos ou padrões podem ser
musical é uma linguagem, assim como o considerados os “embriões da frase”
inglês, o francês, o espanhol e o alemão. Ela (TORRES, 2011. p.11).
deve ser aprendida.” (WISE, 1982. p.4). O A prática do improviso musical com
estudo de escalas, tríades, modos e arpejos melodias aleatórias é antiga. Na Grécia antiga,
(elementos fundamentais) devem ser a música "era quase inteiramente
elaborados e regrados para o começo de improvisada" e a improvisação "foi,
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provavelmente, também a única [forma de cultural a arte da improvisação, se tornando
execução] no Ocidente até cerca do século até mesmo uma forma de linguagem
XI". (GROUT; PALISCA, 2007, p. 19 e 96). apropriada e obrigatória para o estilo. "A
Desde o século XVI, em meados do improvisação é o coração do jazz. Tocar uma
período Renascentista, o sistema de notação melodia e não improvisar não é jazz- por mais
em partituras passou a ser utilizado pelos "jazzística" que possa soar a execução e a
compositores para registrar suas obras. Neste harmonia da música" (BRANDT, Claudio,
tipo de registro, que se tornou oficial desde 2005, p.1).
então, a execução do arranjo é programada Entre os demais gêneros da música
quanto aos timbres, alturas, duração, popular que foram surgindo depois do Jazz
intensidade, volume e métrica, ou seja, a exata (Cowntry e rock1,por exemplo)a improvisação
maneira de se tocar aquele determinado era o diferencial. Desde então a arte de
arranjo instrumental ou vocal. Os improvisar melodias sobre escalas musicais se
compositores foram ficando cada vez mais tornou novamente prática recorrente do
rígidos com a visão que tinham para com a músico contemporâneo. O instrumento
sua própria composição, e isto teve como guitarra elétrica surgiu em meio a este
consequência uma escrita cada vez mais contexto, portanto sua história e antropologia
apurada a qual não dava mais margens para remetem à realidade e sonoridade dos maiores
improviso. Porém temos exemplos históricos gêneros da improvisação: Jazz,
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de improvisadores desta fase, como Wolfgang Country e Rock e Blues .
Amadeus Mozart, gênio prodígio do período Existem materiais musicais que são
da música conhecido como Clássico (que não trabalhados de forma pedagógica para o
deve ser confundido com o período clássico músico iniciar esta prática: arpejos, motivos
da história universal, embora este empréstimo melódicos, células rítmicas, padrões em
de nomenclatura possa trazer referências do arpejos e escalas e frases já existentes. Tudo
período greco-romano), o qual improvisava isso é viável a partir do conhecimento prévio
melodias de maneira majestosa a ponto de o de tonalidades e suas escalas originárias,
público desavisado entender como se o ato intervalos e arpejos do campo harmônico.
fosse uma de suas composições já escrita. Segundo John Sloboda, através de
No início do século XX a música sua analogia com a lingüística, “uma
popular voltou a ser o centro das atenções quantidade limitada de palavras pode gerar
juntamente com todos os outros estilos um número ilimitado de frases” (apud
musicais. O então novo gênero norte SLOBODA, p.20). Associado a este
americano intitulado "Jazz" priorizou e tornou raciocínio podemos concluir que ao

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elencarmos fragmentos melódicos retirados estar munido destas informações. Em outras
de frases completas daremos início a todo o palavras, é preciso estudar idéias de outros
processo de linguagem individual de cada compositores e improvisadores para, a partir
músico, seja em improvisação ou composição. de um processo de amadurecimento, criar seu
Através da prática destes elementos próprio estilo. “Busca-se, com isso, a sua
irão surgir frases e melodias inéditas com um assimilação e, num estágio posterior, a
propósito melódico associado à harmonia e à fluência, virtude indispensável em situações
tonalidade da obra a ser trabalhada. de improviso” (TORRES, 2011. p.12). Idéias
e raciocínios contemplados em obras de
Metodologia autores diversos auxiliam no processo de
A improvisação necessita de pontos criação e aprendizagem, assim fornecendo
de partida baseados em motivos melódicos. informações necessárias para sua aquisição do
Nesse sentido Diógenes Torres escreve: “para conhecimento.
Schoenberg (2008) os motivos são
constituídos a partir de fatores intervalares e Materiais Pedagógicos
rítmicos, mas sem grande diversidade entre Os seguintes materiais pedagógicos
estes” (TORRES, 2011. p.17). foramapresentados aos alunos:
O processo de aprendizagem musical - Escala pentatônica3 menor em Lá
se fundamenta na execução e entendimento demonstrada no pentagrama e na tablatura4
das bases teóricas. Após este processo dá-se (figuras 1 e 2);
início à etapa da criação musical. E neste - Compilação das idéias melódicas
momento do desenvolvimento do aluno o fragmentadas de outros autores (figuras 3 e
mesmo necessita de referências musicais, 4), todas na pentatônica menor em Lá;
entre elas: linguagem, estilos, timbres, - Playback5no modo Eólio original
tendências e padrões estéticos. Não há como Lá e repertório escolhido para a atividade.
ser inserido no universo criativo musical sem
Figura 1

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Figura 2

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Figura 3

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Figura 4

Através de pesquisa qualitativa6 Pessoas envolvidas


realizada pelo autor deste artigo, desde 2005, Todos estes materiais pedagógicos
foram selecionados fragmentos e motivos foram expostos aos alunos iniciante do
melódicos (que podem ser agregados com processo de improvisação da escola livre de
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elementos sonoros e característicos), porém música "Feeling Ritmos & Cordas” , em
sem melodia definida, retirados de obras de Lorena/SP, onde organizaram e
alguns guitarristas improvisadores (figuras 3 e transformaram estes fragmentos em idéias
4) e elencados por relevância didática e nível melódicas. Ou seja, através de tentativas,
técnico. Estes fragmentos poderiam ser erros e acertos, os alunos deram início a
executados de maneiras isoladas formatos melódicos, de forma livre, para que
aleatoriamente ou de formas repetitivas. fosse fomentado, estimulado e desenvolvido
todo o processo de improvisação melódica em
cada um deles.

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Esta experiência de criação musical um para que fosse objeto desta pesquisa de
foi limitada somente aos alunos de níveis campo.
intermediários e entre eles foi eleito somente

Procedimento melódicos além de criar suas próprias frases


Em cima de uma base gravada musicais. Esta base era um Blues e estava no
(playback) este aluno escolhido improvisou modo eólio original, Lá.
melodias (solos) aplicando os fragmentos

Figura 5

Figura 6

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Logo depois desta etapa o aluno deu https://soundcloud.com/feeling-
início ao processo de improvisar dentro de studio/sempre-mais-ensaio-alunos/s-qKQko.
espaços apropriados no arranjo da música Este registro passou por um processo de
“Sempre Mais”, da banda Oficina G3 tratamento sonoro de mixagem8, porém não
(https://www.youtube.com/watch?v=ZwLrA sofreu nenhuma edição em relação ao
HUgygA), a qual é uma das obras do desempenho deste aluno.
repertório contemplado no conteúdo Poderemos observar pela gravação
programático da escola de música que os fragmentos mais utilizados por este
"Feeling Ritmos & Cordas". Esta obra está na aluno foram os de número 1, 3, 9 e 10 (figuras
tonalidade de Si menor e para o 3 e 4). Em outros momentos destes
desenvolvimento da atividade o aluno improvisos ele também procurou criar
precisou demonstrar conhecimento de espontaneamente uma melodia que remetesse
tonalidades para transportar um tom acima à sonoridade do arranjo, conforme orientação
conforme foi estipulado pelos modelos do professor, para que sua criação não soasse
apresentados. superficial ou previsível.
O espaço para a improvisação
melódica foi preservado de acordo com o Discussão
arranjo original, ou seja, o aluno improvisou O processo de aquisição de
somente no final da obra. conhecimento para o aluno iniciante
conseguir improvisar necessita de exemplos
Resultados práticos. Podemos exemplificar e
Depois que o aluno participante desta contextualizar pequenos exemplos ou trechos
pesquisa de campo conseguiu executar a melódicos para que o mesmo possa ordená-
tarefa descrita anteriormente contemplando los e construir suas próprias linhas melódicas
em seu fraseado melódico os fragmentos de forma espontânea. Este processo de
selecionados nesta pesquisa, ele foi orientado composição instantânea contempla padrões
a executar estes arranjos com prática de rítmicos aleatórios, automatização espontânea
banda, juntamente a outros alunos de outros através do próprio movimento, imitação ou
instrumentos, em ensaio dentro de estúdio de adaptação emergencial e análise estética em
gravação. E assim que obtivemos resultados tempo real, sendo assim adquire habilidade de
satisfatórios, tendo o aluno criado criatividade musical espontânea.
espontaneamente melodias inéditas, este Os fundamentos teóricos para esta
ensaio foi gravado. prática, como conhecimento de escalas,
Esta gravação está disponível, em campo harmônico e seus intervalos, são
duas sessões, em obrigatórios, mas não bastam só eles. Os

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exemplos de movimentos melódicos prontos e pequenos trechos melódicos, retirados de
suas variações de altura, intensidade, timbre e solos prontos, tem mais eficácia que o
ritmo são essenciais para que o iniciante tenha aprendizado da frase inteira inserida em outro
contato direto e decisivo com possibilidades contexto harmônico, de arranjo musical
efetivas dos resultados que poderá obter. diferente e com finalidades definidas.
Sendo assim, dissecar pequenas
Conclusão ideias melódicas promove a criação musical
É eficaz apresentar fragmentos espontânea com embasamento teórico e
melódicos prontos aos alunos iniciantes no prático, munindo o aluno de possibilidades
processo de improvisação. Este método afim de que possa formalizar suas próprias
pesquisou e comprovou que a reunião destes idéias melódicas.

Referências GROUT, Donald; J. PALISCA, Claude V.


História da Música Ocidental. 5. Lisboa:
BORGO, David. Sync or Swarm: Improvising Gradiva, 2007.
Music in a Complex Age. Ed. Continuum:
San Diego, 2005. LEE, Colin. Improvising in Styles: A
Workbook for Music Therapists, Educators,
CHEDIAK, Almir. Harmonia e Improvisação and Musicians. Ed. Barcelona Publishers,
Vol. I, Editora Lumiar: Rio de Janeiro, 1986. 2011.

DAUELSBERG, C. A importância da POLLACO. Tudo Sobre Escalas e Arpejos.


improvisação na formação musical do Revista, Editora HMP: São Paulo, 2008.
intérprete. [s.l.] UFRJ, 2001. SANT’ANA, Doriedison Coutinho de.
Melodia Cênica: Um paralelo entre a melodia
DIÓGENES, T. Torres. Na Mosca: Criação musical e o movimento corporal do ator.Belo
de Frases Cromáticas Para Improvisação Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG,
Jazzística. Escola de Música do Maranhão 2012.
“Lilah Lisboa”: São Luís, 2011.
SLOBODA, John A. A Mente Musical:
FARIA, Nelson. A Arte da Improvisaçao. Rio Psicologia da Música. Tradução de Beatriz
de Janeiro: Lumiar, 1991 Ilari e Rodolfo Ilari. Londrina: EDUEL, 2008.

FREEMAN, Steve. Jazz-Rock Licks for WISE, Les. Bebop Blble: 824 Jazz Ideas for
Guitars: Over 20 Soloing Ideas. Ed. Hal the All Instruments. Ed. Hal Leonard
Leonard Publishing Corporation, 1984. Publishing Corporation, 1982.

WISE, Les. Improvisational Concepts of the


Masters. Ed. Pró Licks, 1982.

1
Estilos ou gêneros musicais que surgiram em meados do século XX.
2
Idem.

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3
Escala característica da música popular mundial composta por cinco notas.
4
Sistema de notação para instrumentos de teclado ou de cordas dedilhadas, que indica a tecla ou traste onde o dedo do
intérprete deve ser posicionado para tocar as notas.
5
Gravação instrumental contendo os elementos da base do arranjo musical.
6
Pesquisa realizada por Alexandre Freitas, desde 2005, que consistiu em elencar trechos de solos completos de vários
guitarristas improvisadores dos gêneros Rock e Blues, os quais estão descritos respectivamente na tablatura da figura 3.
7
Escola livre de música de Lorena/SP fundada em 1999 por Alexandre Freitas, o qual é professor e diretor da mesma.
Maiores informações: http://feelingritmosecordas.com.br/
8
É o balanço final entre tudo o que foi gravado, estabelecendo os níveis de volume, equalização, ambiências,
panoramas, limpeza de ruídos e compressão de cada instrumento na música.

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