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Nelson Rodrigues

VELHOS ESPARTILHOS
Cada época se assoa de uma certa maneira.
(Não falo da grã-fina atual, que não se assoa, nem
usa lenço. Na belle époque, porém, a mulher não
tinha esse pudor nasal. Por exemplo: — numa frisa
de ópera, uma bela senhora puxava o lenço e, di-
ante da plateia interessada, assoava-se com um
som de trombeta. Era sublime).
Já as gerações seguintes tinham outros escrú-
pulos e recatos. E uma bonita senhora só usava o
lenço em último recurso, e quando a coriza já pin-
gava. Mas não havia o som comprometedor. Em
nossos dias, chegamos à solução ideal: — uma grã-
fina não usa nem lenço, nem som, nem coriza. Até
hoje, que me lembre, não vi nenhuma capa de Man-
chete com sinusite.
Mas, assim como uma época tem um estilo
para se assoar, usa outro para se vestir ou para se
despir. Eis a pergunta que me faço: — como se
veste ou como se despe a presente geração? A ri-

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gor, todo mundo está mais interessado em se des-
pir. Vivemos a mais despida das épocas.
Na minha infância profunda, o Brasil inteiro
cantava uma modinha que, entre outros, tinha o
seguinte verso: “Cobre, me cobre, que eu tenho
frio”. Ah, eu andava pelos quatro, cinco anos. Não
percebia a insinuação erótica, nem desconfiava que
havia, ali, uma nudez confessa. “Cobre, me cobre,
que eu tenho frio.” Hoje, nenhuma menina ou se-
nhora está interessada em se cobrir. A nudez fe-
minina perdeu todo o suspense e todo o mistério.
Nas minhas Memórias contei um dos mais vi-
olentos traumas de minha infância. Foi numa bata-
lha de confete da praça Saenz Peña. Teria seis
anos, ou cinco, talvez. Cinco. Em cima do meio-
fio, atracado às saias de uma vizinha, eu espiava o
corso. E, de repente, fez-se, na praça, um silêncio
ensurdecedor. Sim, foi um silêncio de se ouvir em
toda a cidade. Lá adiante vinha um carro aberto; e,
dentro dele, uma odalisca. Mas odalisca era o de

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menos. Seria bonita, feia, ninguém sabe. O patético
é que havia uma abertura na fantasia, um decote
abdominal. E, por aí, pela modestíssima nesga de
carne — irrompia o cavo umbigo. Daí o assombro
total.
Eis o que eu queria dizer: — a primeira nudez
que eu vi, na minha vida, foi um umbigo. Há entre
mim e essa batalha de confete toda a imensa, es-
pectral distância de meio século. Cinqüenta anos.
Pois, até hoje, o umbigo pretérito ainda atropela
meus sonhos.
Hoje, a nudez não custa nenhum esforço.
Com dois ou três movimentos, qualquer uma se
despe. É, se assim posso dizer, uma nudez fulmi-
nante. Na época do espartilho, não. Eu fui, con-
fesso, um menino fascinado pelo espartilho. Já com
dez anos, subi, certa vez, no sótão lá de casa. Mo-
rávamos, então, em Copacabana, na rua Inhangá,
nos fundos do Copacabana Palace. Na casa do
lado, havia um menino chamado Edgard, que é,

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hoje, se não me engano, engenheiro.
Mas deixemos o Edgard. Subi ao sótão e en-
contrei lá uma mala cheia de roupas antigas, exa-
tamente roupas da belle époque. No meio de velhas
plumas, de chapéus espectrais, descobri um espar-
tilho, cor-de-rosa. Muitos anos depois, escrevi mi-
nha peça Vestido de noiva. E a heroína também sobe
ao sótão, também abre uma mala da belle époque e
também descobre um espartilho. (Mas estou mis-
turando as coisas).
O espartilho explica todo um comporta-
mento feminino. Do mesmo modo, o fraque influía
nas maneiras, ideias e sentimentos masculinos. O
homem de fraque estava sempre ereto, de fronte
alta, como se estivesse ouvindo o Hino Nacional.
Não sei se me entendem, mas acho que o esparti-
lho criava entre a mulher e sua nudez, entre a mu-
lher e o pecado, uma distância física e psíquica.
Despir-se era um esforço, uma paciência, quase
um martírio. E uma bonita senhora deixava de ser

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uma Ana Karenina — por preguiça.
E outra coisa: — assim como influía nas ma-
neiras e sentimentos da mulher, o espartilho fazia
o seu tipo físico. Pode parecer exagero. Nem
tanto, nem tanto. Como se sabe, cada época tem
seus quadris típicos. Antes da primeira batalha do
Marne e até à primeira batalha do Marne, a brasi-
leira tinha outros flancos. Uma menina de catorze
anos precisava pôr-se de perfil para atravessar as
portas.
O sujeito olhava a mulher e via, nos seus qua-
dris fortes, uma generosa promessa de fecundi-
dade. Nada mais normal do que uma mulher ter
oito filhos. Lembro-me de mães de vinte, 22 filhos.
Hoje, a partir dos dez, a mãe recebe um prêmio
do Chacrinha, medalha, o diabo. Mas era a brasi-
leira. O casal que parava no primeiro filho arran-
cava os cabelos de vergonha e frustração.
Em nossos dias, cabe a pergunta alarmada: —
onde estão os quadris? Não se pode nem falar em

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“cadeiras”, porque não há mais cadeiras. E, súbito,
esbarramos numa realidade surpreendente: — o
tipo manequim. Ele se multiplica por toda a parte.
Está na PUC, na praia, nos colégios, nas calçadas.
A beleza sem quadris, sem peso, sem busto e,
numa palavra, o manequim.
Outro dia, um amigo meu, desesperado, bra-
mava: — “A brasileira nunca foi manequim!”. Bufei:
— “Nunca”. Mas tanto eu como o meu amigo so-
mos vencidos, convencidos e humilhados pela evi-
dência. Realmente, a brasileira nunca foi mane-
quim. De Debret para cá e antes e depois de De-
bret, a brasileira nunca foi manequim. Até há pou-
quíssimo tempo, não era manequim.
Não era. Um dia, porém, o brasileiro acorda
e constata o seguinte: — está namorando um ma-
nequim; vai-se casar com um manequim; e, se trair,
há de ser com outro manequim. Nas velhas gera-
ções, a brasileira não se parecia com uma alemã,
ou uma inglesa, ou uma americana. E, de repente,

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parece gêmea dos modelos profissionais que po-
sam nas revistas de Londres, Nova York, Paris.
Outro amigo me pergunta se eu não noto
menos feminilidade por aí. E, então, eu me lembro
de um Rio em que as mulheres tinham um certo
halo de histeria. Há anos e anos e eu quase dizia:
— há várias gerações que não vejo ninguém des-
maiar. Alguém poderá explicar a redução de femi-
nilidade e os pobres quadris de manequim.
Não deixa de ser alarmante para o brasileiro.
Tem que namorar, amar, trair ou esquecer a anti-
brasileira. Sob a pressão de novos usos, novas ma-
neiras, novas ideias, novos sentimentos, a brasi-
leira muda também fisicamente e vira a antibrasi-
leira. Contei o caso de um amigo, de 45 anos, que
amou uma menina de vinte. Ah, nós sabemos o que
é uma dessas paixões tardias que levam tudo de
roldão, tudo. O meu amigo estava disposto a lar-
gar família, fugir, o diabo. Até que, um dia, vai ver

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a garota e ela o recebe com uma saraivada de pa-
lavrões jamais sonhados. Mais tarde, contando-me
o episódio, ele esbravejava: — “Um manequim, um
manequim!”.
Para ele, a explicação de tudo estava nos qua-
dris estreitos. Não tinha quadris, donde tinha que
ser uma impotente do sentimento. Uma antibrasi-
leira.

[O GLOBO, 12/2/1968]

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