Você está na página 1de 8

A LEITURA COMO MEIO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO 1

Luciane de Oliveira CORRÊA2


Raffael Lucas Fernandes COSTA3

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo trazer uma discussão a cerca das obras
clássicas e das consideradas best-sellers. A motivação deste trabalho foi a de
abordar algumas características das literaturas consideradas clássicas, de proposta
ou Grande Literatura, como Abreu (2006) define e dos best-sellers, literatura de
massa, ou como também é conhecida, literatura de entretenimento. Pra tanto,
apresentaremos uma breve abordagem dos conceitos de alguns autores para definir
clássicos. Em seguida, trataremos do que se entende por best-sellers e algumas
características que são comuns a essas obras. Por fim, será apresentada uma breve
analise que terá como objeto o foco narrativo e a linguagem de duas obras que são
Édipo Rei, representando os clássicos e As Brumas de Avalon: Senhora da Magia,
representando a literatura best-seller. O referencial teórico utilizado para a produção
deste artigo fundamentou-se nos seguintes teóricos: Abreu (2006), Bradley (1985),
Calvino (2007), Sófocles (2010) Zilberman (2012) e Aranha e Batista (2009).

1. INTRODUÇÃO
Ao longo da história da humanidade inúmeros livros, de diversos gêneros,
canônicos ou desprezados pelo cânone literário, foram escritos. Em todas as
culturas temos obras das mais diversas temáticas sendo produzidas anualmente.
Dentre todas essas obras, encontraremos um tipo especifico chamados de clássicos
da Literatura.

2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

Ao ouvir a palavra Clássicos, muitos “torcerão o nariz”, dirão que o tipo


desses livros é muito extenso, de difícil compreensão, pela linguagem rebuscada (a
grande maioria realmente tem uma linguagem mais complexa que outros livros), que
são escritos em outras épocas e os assuntos são desatualizados. Haverá aqueles
que ignoram por completo o que sejam essas obras. Por outro lado, há aqueles que

1Artigo apresentado para a Disciplina de Teoria Literaria, sob orientação da Prof. Dra. Patricia Aparecida Beraldo Romano
da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Marabá, em (20 de setembro) de 2017.
2 Graduando do Curso de Letras da UNIFESSPA – Marabá, email: tchanec@gmail.com
3 Graduando do Curso de Letras da UNIFESSPA – Marabá, email: raffael.lucas@hotmail.com
defenderão veementemente essa literatura, “tecerão mil elogios”, mencionarão
inúmeros títulos (lidos ou não), tentarão ser convincentes da grande relevância
dessas obras para a humanidade. Certamente, os que gostam e os que os não
gostam de obras clássicas ou como Abreu (2006) chama, Grande Literatura, irão ter
mencionado aspectos que os caracterizam como tal. Algumas dessas características
podem ajudar no entendimento do por que se aconselha que os indivíduos tenham
acessos a essas obras. Não que somente elas sejam apropriadas, mas quais os
aspectos destas podem contribuir para estimular o desenvolvimento do pensar
humano.
Como existem muitas maneiras de definir uma obra Clássica, dependendo do
estudioso que fala, não se pode chegar a conceitos definitivos, mas a diversos
conceitos. Italo Calvino, em seu livro Por que ler os Clássicos? propõe várias
definições, uma delas se refere ao fato de que o indivíduo nunca está lendo uma
obra clássica pela primeira vez, mas sim relendo, mesmo se estiver tendo
conhecimento dela realmente pela primeira e afirma que, se essa primeira leitura
estiver sendo feita por um adulto, julga-se que o prazer que ela proporcionará será
indiscutível. Entretanto, que não se pode generalizar, algumas pessoas sairão da
obra do mesmo jeito que entraram.
Assim, Calvino (2007) diz que:

[...] ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer
extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se
comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler
como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância
particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser
apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais [...] (CALVINO
(2006, p.10)

Percebe-se que não há um desmerecimento quanto à leitura feita pelos


jovens, mas pode se inferir que a bagagem que o indivíduo adquire ao longo de sua
jornada de vida propicia uma percepção e entendimento mais ricos. Não que a
maturidade signifique que se alcançou sabedoria, ou níveis elevados de
intelectualidade, mas que as experiências de vida contribuem para que a relação
com a obra lida se torne mais intensa.
Nesse sentido, Abreu (2006) diz que,
[...] ler um livro não é apenas decifrar letra após letra. Palavra após palavra.
Ler um livro e cotejá-lo com nossas convicções sobre tendências literárias,
sobre paradigmas estéticos e sobre valores culturais. E sentir o peso da
posição do autor no campo literário (sua filiação intelectual, sua condição
social e étnica, suas relações políticas, etc.) é contrasta-lo com nossas
ideias sobre ética, política e moral [...] (ABREU, 2006, p.99)

Pode-se observar também, que quando indivíduo dialoga com a obra clássica,
salta aos olhos uma outra caraterística mencionada por Calvino (2007, p. 11), a de
“que um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.
Ou seja, ao terminar de ler a obra ficará pensando, analisando, refletindo sobre o
assunto de que tratava, concordando ou não com as opiniões expressas, avaliando
a relevância do tema para a época em que foi escrito e na atual, talvez o leve para
ser discutido no ambiente social no qual está inserido.
Dessa forma, espera-se que a leitura de um livro considerado clássico leve o
leitor a ter um sentimento de inquietação, incomodo em relação ao conteúdo deste,
que ao concluir sua leitura ele não possa mais voltar a ser o que era antes dela. Ou
seja, que ao ler um clássico o indivíduo sofra uma catarse. Essa catarse viria a ser
nas palavras de Ziberman (2012),

[...] uma solidariedade entre a obra e seu público. Esse público se satisfaz
com o conhecimento de uma criação artística, que pode se transmitir por
escrito, caso se trate de literatura; por ações encenadas, por ocasião de
frequência de teatro; por imagens, se a comunicação depender do cinema
ou da televisão. A satisfação decorre, por sua vez, da oportunidade de
experimentar sentimentos fortes sem ter de vivencia-los diretamente, o que
incide em uma forma de conhecimento. (ZIBERMAN, 2012. P.179).

A leitura de um clássico leva a ser percebido que estas obras ultrapassam as


épocas em que estas foram produzidas, parecem possuir vidas próprias, falavam ao
indivíduo antes e continuam falando atualmente, é como que, de acordo com Duarte
(2008),

[...] as dotadas de imortalidade que chamamos de clássica sejam capazes


de sobreviver ao perecimento das condições históricas nas quais nasceram,
não porque elas criam sua própria história. Elas são tão essencialmente
históricas que trazem a história dentro de si, não só como aquele entorno
exterior empírico. Toda obra, ao se escrever, escreve também sua história.
(DUARTE, 2008, p. 194)
Um clássico, também pode ser visto como uma obra atemporal, não no
sentido de estar fora do tempo, mas por tratar de assuntos que tanto na época em
que foram escritos eram atuais como nos dias de hoje. De acordo com Pedro Duarte
(2008, p. 195), “clássica não é a obra que fica fora do tempo, mas, ao contrário,
aquela na qual o tempo pode respirar o ar fresco de seu rejuvenescimento, em
contraste com a mobilidade sufocante”.
Assim, atravessando gerações, os clássicos permanecem atuais, sendo
sempre possível estabelecer uma comunicação efetiva com a época em que o leitor
está inserido, vinculando passado e presente e trazendo um olhar inédito e bem
particular do indivíduo.
Calvino (2007, p.12) nos diz que “os clássicos são livros que, quanto mais
pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam
novos, inesperados, inéditos. Claro que esse ineditismo, a surpresa, o
estranhamento, ocorrerá em algumas pessoas. Não se quer dizer, de maneira
alguma, que todas as pessoas que lerem obras clássicas passaram pelas mesmas
experiências. Algumas passarão pela obra sem experimentar nenhuma sensação.
Ler um clássico, todavia, não é uma tarefa fácil, quer pela linguagem, que na
maioria das vezes é mais rebuscada que a de outras literaturas, quer pelo tempo
que não se disponibiliza nos dias atuais para se debruçar sobre um livro, ou pelas
temáticas desconcertantes que algumas obras podem oferecer. O fato é que essas
leituras podem contribuir para que haja uma mudança na maneira como os
indivíduos enxergam o mundo. “Os clássicos, não podem ser lidos por dever ou por
respeito, mas só por amor” (CALVINO, 2007, p.13), de outra forma, sem amor, sem
prazer, qualquer que seja a obra (consideradas clássicas ou não) provocaram
somente enfado ao leitor.

Best-sellers

Em contrapartida, tem-se os best-sellers, sendo os livros mais vendidos de


uma determinada época, são classificados por alguns teóricos como baixa literatura.
Diante disso, surge a questão: como livros dos quais conquistam corações de um
enorme contingente de leitores não são considerados pertencentes da grande
literatura?
É simples a possível resposta da questão supracitada. Há outra classificação
para os best-sellers, são considerados também literatura de massa e, geralmente,
cultura de cunho popular é dada como inferior. Entretanto, teoricamente falando, o
aspecto não é esse a ser categorizada como inferior, mas sim o de ser, segundo
Abreu (2006, p. 82),

Fruto de uma combinação incessante dos mesmos lugares-comuns:


personagens sem nenhuma densidade psicológica, situações previsíveis
ordenadas de maneira já conhecida, repetição constante das mesmas
fórmulas de estruturação do enredo, linguagem simples e sem nenhuma
dificuldade aparente. (ABREU, 2006, p. 82)

Desse modo, as expectativas do leitor serão cumpridas e ele sairá da leitura


da mesma maneira como entrou. Geralmente, o indivíduo sente prazer neste
“reencontro”, afinal, permanece na zona de conforto e não é causado o sentimento
de estranhamento. Pode-se considerar uma falta de originalidade neste tipo de
literatura, “verifica-se a maior aproximação de um ‘gosto médio’, um ponto
intermediário entre o inovador e o senso comum” (ARANHA e BATISTA, 2009, p.
125). Em razão do encontro ao que já se conhece, não se tem aqui um
aperfeiçoamento da intelectualidade e nem um olhar mais aguçado sobre a
realidade, demonstrando assim um dos pontos divergentes entre clássicos e best-
sellers.
Vale lembrar que, embora não tenha um dedicado trabalho do autor com a
originalidade da obra como é visto por Abreu (2006), é possível notar um “empenho
autoral no sentido de promover uma experiência de totalidade em relação do leitor,
ou seja, uma experiência de leitura que aposta na vinculação e aproximação da
relação texto-leitor” (ARANHA e BATISTA, 2009, p. 125). Um dos meios utilizados é
o modo como o autor pode nos faz esquecer dos obstáculos diários, envolvendo-nos
em uma situação irreal da qual se tem uma facilidade de resolução dos problemas
surgidos no decorrer da trama. Com isso, pode-se ver este tipo de Literatura como
um instrumento de escape das frustrações diárias de quem lê, sendo este um dos
prováveis motivos de se conquistar vários corações.
Aranha e Batista (2009) abordam que o trajeto linear dos fatos narrados é um
aspecto importante. A composição é dada por uma sequência lógica aristotélica de
início, meio e fim no desenrolar do enredo. Com isso, haverá o fortalecimento para a
desobstrução da leitura, o que facilitará a compreensão do leitor devido à
previsibilidade dos acontecimentos futuros.
Há também uma forte presença de dialogismos, sendo estes desenvolvidos
com uma linguagem simples, leve e objetiva. Nada mais do que esperar de uma
literatura voltada para o povo. Desse modo, este elemento muito contribui com o
objetivo de manter a atenção e o foco leitor.
Tendo em vista que os clássicos ultrapassam gerações, os best-sellers
tendem a ser diferentes. A temporalidade costuma ser curta, afinal, decorrente da
ausência de densidade psicológica. Este fator mostra o conteúdo abordado nas
obras sendo capaz de ser esgotável com facilidade.
Dado tais aspectos, podemos fazer uma comparação entre os clássicos e os
best-sellers, de maneira respectiva, que um tem o propósito de elevar o indivíduo a
um patamar mais crítico, levando a ver o meio social de outra maneira; já o outro,
ainda sim tem seu valor, mas voltado para o entretenimento. Assim, os elementos
dos quais foram supramencionados servirão de norte para a seguinte comparação
de obras da literatura culta e literatura de entretenimento, tais como o Rei Édipo e As
Brumas de Avalon.

A obra Édipo Rei, uma peça teatral constituída por diálogos, se inicia
apresentando o conflito em que a personagem principal se encontra. Está precisa
descobrir quem matou o rei que o antecedeu, pois até esta solução a cidade
continuará sofrendo com a peste. Desde de o inicio são apresentados elementos
que indicam que ele mesmo é o assassino. Já o livro As Brumas de Avalon, vol I,
traz os seus acontecimentos em ordem cronológica. Morgana, personagem principal
é também a narradora. Apresenta-se ao leitor na sua infância e o desenrolar da
história vai até fase adulta. A narração é em primeira- pessoa, há a condução do
leitor pela protagonista e está deixa impresso na obra sua visão de mundo, seus
sentimentos e como percebe a vida a sua volta.
Dessa forma, Aranha e Batista (2009), como mencionado anteriormente,
sugerem que a literatura de entretenimento segue uma ordem cronológica dos fatos,
diferente da obra clássica, ou de proposta, na qual nem sempre existirá linearidade
dos fatos, que por vezes dificultam um pouco o entendimento da obra.
Percebe-se que em ambas as obras o destino das personagens principais e
demais personagens, também são traçados por profecias. No caso do Édipo Rei, no
início da obra as profecias já se cumpriram, mesmo sem o conhecimento destes. Na
livro As Brumas de Avalon, vol I, as profecias vão surgindo no desenrolar da história
e se concretizando paralelamente, o que não traz nenhuma surpresa ao leitor.
Ao ler as duas obras, de imediato observa-se as diferenças na linguagem
utilizada. Na obra clássica a linguagem é extremamente erudita, mesmo sendo
dialógica, dificultando o imediato entendimento, enquanto no best-seller a leitura é
de uma fácil compreensão, também compõe-se de vários diálogos, só que neste
caso é um dos fatores que facilita sua leitura.
Segundo Aranha e Batista (2009, p. 127), em relação aos best-sellers:

[...] a forte presença do dialogismo no correr destas narrativas, elemento


este que contribui para uma adesão mais intensa do leitor. Aliada a esta
estrutura, encontra-se a linguagem simples e leve, objetivando transmitir
informações de fácil interpretação popular, minimizando o esforço do leitor,
no sentido de não lhe exigir erudição como pré-requisito para a fruição do
texto. O que reforça o entendimento de que o principal foco deste gênero
está na estruturação do enredo e não na exploração da linguagem.
(ARANHA E BATISTA 2009, p. 127)

3. METODOLOGIA
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

5. REFERÊNCIAS

ARANHA, G.; BATISTA, F. Literatura de Massa e Mercado. CONTRACAMPO,


Niterói, p. 121-131, 2009.

Interesses relacionados