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CED! cata J, Comissiio Pré-indio de Sac Paulo Cublicane folka de farto ate 12/01/81 “"CRITERIOS DE INDIANIDADE” OU L{GOBS DE ANTROPOLOGIA © Presidente da FUNAI vem manifestando ha longos meses uma in- quietagao persistente, a de saber afinal “quem 6 e quem néo & indio" (veja-se por exemplo a Folha de S40 Paulo 17.09.80), in quietegiio que culmina ayora no anfneio de noditicagao de pelo menos dois artigos do Estatuto do Indio, Nao ‘se trata, ao que parece, de um problema ‘académico, para o qual alids a antropo- logia social tem respostas que veremos a seguir. Como a modifi csigo anunciada vermite’ resolver por decreto "quem é e quemnZo 6", dando & FUNAI a iniciativa, até agora reservada aos inte - ressados, de emancipar Indios mesmo & sua revelia, vemos que no parece ser a curiosidade cientifica o mével da pergunta. Es ta indéaga e ndo decreta. Trata-se isto sim, segundo tudo indi~ ca, da tentavia de eliminar indios incémodos, artimanha em ty do andloga 4 do frade da anedota, quando, naquela sexta ~ feira em que devia se abster de carne, declarava ao suculento bife que cobigava: "eu te batizo carpa"... @ comla-o em s& conscién cia. 0 alvo mais imediato deste af& classificatério parecem ser os lideres in@igenas que est&o aprendendo a percorrer os meandros da vida administrativa brasileira, agora ameagados de serem de clarados emancipados ex-officio. A medida poderia acarretar até a proibigéo de entrarem em areas inéigenas, se continuarem in- 1 08 lideres poderiam ser correndo na ira do Executivo. Ou seja separados de suas colunidades. “0 que torna a ameaga de modificagao do Estatuto mais acintosaé ter sido ela anunciaca loge desois éo julgamento do Tribunal Fe eral de Recursos, avtorizando a viagem, impedida pelo Ministé rio do Interior, do chefe xavante Mario Juruna, num claro revi, rocedi~ de a esta manifestaglo de independéncia da Justiga. 0 mento, a bem dizer, no devezia surpreender: ndo 6 a primeira = regres do jogo durante a partida. vez en que se mudam Rus Caiubi, 128, Perdizes, 08010 S20 Paulo, tol: 8641180, CGC 61 781 048/0001-72 Inscrigao: isenta my Sd ‘Acervo| ISA “cipagdo, enquanto grunos étnicamente distintos, ou sesa provi Comissao Pré-indio de Sao Paulo bee A questao real, em tudo isto, & saber o que se pretende com a polfties indtgenista, @ Estaturo do Tadia, sequindo a Conven= glo de Genebra, da aual o Brasil é signatirio, fala em seu ar- tigo 19 em vreservar as culturas indigenas e em integrar os in mente, 4 comunhdo nacional. Dis- dios, progressiva e harmonios. tingue vortanto, como o faz a Convengao de Genebre, entre a as 29.2.¢, @ a integragio. Inte = similagdo, gue rechaga seu ar gragio no node com efeito ser entendida como assimilagéo, con mo uma dissolugao na sociedade nacional, sem que o artigo 19 do Estatuto sc torne uma contradigio em termos. Integracio sig nifica pois derem-se as comunidades indigenas verdadeiros di- reitos de cidadania, o que certamente no se confunde com eman les dos meios de fazerem ouvir sua voz e de defenderem adequa- damente seus direitos em um sistema auc, deixajldo a si mesmo , os destruiria: e isto 6, teoricamente pelo menos, mais simples do que nodificar uma lei. ‘'rata-se, trocando em mites, de ga- rantir as terras, as condigdes de saiide, de educagio, resvei - tar uma autononiia e as liderangas que possam surcgir: lideran - gas que terfo de conciliar uma base interna com o maneje de ins tituicSes nacionais e parecerdo por isso mesino bizarras, com um v8 na aldeia e outro, vor que ndo, em tribunais internacio- nais. Tudo iste parece longe 4: preccupagdes da presidéncia da Fun i nai, mais interessada em “critérios de indianidade vrassem ce s aquantos [ndios “a mais". Esses critérios j& es- to consegrados na antropologia social, e St £. nighe de qualyuer qruvo étnico. Entre eles, nao ° @e "rags", entendida como una subdivide da ese apresenta earacteres comuns hereditirios, pois esta ago sé bandona= ga ante critério de pertindncia a grupos sociais, cone tact bém encusnto conceito cieniifico. Raga nap existe, esiera exis ta une continuidady histdvica de grupes de oriyen precolombla- co vodem ser invocades critéries baseadas Forn neivessan 5, mie bs con essenciainente das calturas hunanas: cual © nove auc node « 3 cult rte: > Parti a ling So) a ane Pagio, te BO4S1BO, COL 91751 G4B/0001-79 In vente Comissao Pré-indio de Sao Paulo * 3 conclusiio que os grupos étnicos s6 tropologia social chegou sados pela prépria distingSo que eles per~ podem ser caracteri| ceben entre eles'e os outros grupos com os quais interagem. Existem enquanto se consideram distintos, n&éo importando se esta disting&o se manifesta ou nfo em tragos culturais. E quan to ao critério individual de pertinéncia a tais grusos, ele depende tGo somente de uma auto-identificagio e do reconheci- mento pelo gruvo de que determinado individuo lhe pertence. Assim, 0 grupo pode aceitar ou recusar mestigos, pode adotar, ou ostracizar pessoas, ou seja,ele disnde de suas préprias re gras de inclusio e exclus < Comunidades indigenas sio pois aquelas que, tendo uma conti - nuidade histérica com sociedades precolombianas, se conside — ram distintas da sociedade nacional. E indio é quem pertence a uma dessas comunidades indigenas e é por ela reconhecido. Parece simples. $3 que conserva as sociedades indigenas o di- reito soberano de decidir quem 1hes pertencet”Hemsmnde, & esse direito que a FUNAT hes quer retirar. Claro est& que Indio e manelpade continua Indio, e portanto, detentor de direitos his téricos. Mas tal ndo parece ser a interpretagdo corrente da FUNAI, que lava as méos de qualquer responsabilidade em rela~ gao aos Indios emancipados. Assestad@A,como j& dissemos, contra as incipientes liderangas indiyenas, as modificagdes no Estatuto podem trazer malefici- os adicionais: a emancipacao leva, por caminhos que j4 foram amplamente di cutidos hi dois anos e meio, & expropriagdo das terras¥’ Salta sos Gihos, com efeito, que se trata de uma nova versio do famigerado decreto de regulamentagdo da emancipagao, rechagado pela opiniso piblica em 1978 e,em vista disso, enga vetado. Desta vez, norém, a versio é mais brutal: se o proje- to do decreto era ilegal por contrariar o Estatuto do Indio , projeta-se agora alterar o préprio Estatuto, e conferem-se po deres Giscricionarios a um tutor cuja identidade de interes - ses com seus tutelados no é patente. Na verdade, 0 que deveria estar claro é que a posigio especi~ al do Indio na socicdade brasileira lhe advem de seus direi - tos histéricos nesta terra: direitos constantemente desrespei Rua Caivbi, 126, Py izes, 05010 Sao Paulo, tel: 864-1180, CGC 51,751 048/0001-72 Inscrigao: isenta