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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”


AVM FACULDADE INTEGRADA

A IMPORTÂNCIA DA ATUAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO EM


CRECHE/ PRÉ-ESCOLA

Por: Janaina Dias Lima Pimentel

Orientador
Prof.ª Fernanda Canavez

Rio de Janeiro
2012
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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES


PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
AVM FACULDADE INTEGRADA

Apresentação de monografia à AVM Faculdade


Integrada como requisito parcial para obtenção do
grau de especialista em Psicopedagogia.
Por: Janaina Dias Lima Pimentel
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AGRADECIMENTOS

Primeiramente a Jesus, fonte de amor e


sabedoria, pela vida, por ser meu refúgio, minha
força e meu amparo, tanto nos momentos de
alegria, como nas tribulações.

Ao meu esposo Marcelo que soube entender


ao longo desses anos de vida acadêmica os
percalços que tivemos.

Aos nossos filhos, pelo apoio, confiança,


amor e carinho, por ser suporte na realização dos
nossos sonhos. Sem isto nada em nossas vidas
seria possível.

A todos os meus familiares, e aos amigos


especiais que contribuíram de forma incisiva para a
realização do meu projeto de vida.
4
5

DEDICATÓRIA

A minha filha Giovanna que é um presente de Deus


na minha vida, e meus queridos alunos por fazerem
parte desta nova jornada.
6

RESUMO

Esta monografia objetivou investigar a importância e atuação do


psicopedagogo na educação infantil e sua relevância para a prática e na
formação continuada dos professores que atuam nesta etapa inicial da
educação básica. Inicialmente foram apresentados o conceito e um breve
histórico da psicopedagogia no Brasil e suas diferentes áreas de atuação. Em
seguida buscamos trazer o entendimento do que é a educação infantil e a
compreensão de como se dá aprendizagem nesta fase da vida, enfatizando
ainda a íntima relação do brincar como essencial para o seu desenvolvimento.
E por fim, abordamos o papel do psicopedagogo e a intervenção
psicopedagógica na educação infantil, e suas contribuições na formação
continuada dos profissionais que nela atuam. Diante desta pesquisa, concluiu-
se que a psicopedagogia contribui para a ação pedagógica na educação
infantil através da orientação e reflexões com o professor para que se tenha
como resultado um desenvolvimento infantil efetivo de qualidade e na
prevenção de futuros problemas de aprendizagem.
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8

METODOLOGIA

O presente trabalho trata-se de um estudo teórico de uma pesquisa


bibliográfica, onde os dados foram coletados através de uma documentação
indireta, com consulta a fontes secundárias (livros, revistas, sites e artigos
científicos) que abordam o tema através dos seguintes autores: BOSSA,
Nadia; OLIVEIRA, Vera; FERNANDEZ, Alícia; PORTO, Olívia, SCOZ, Beatriz,
ARIÈS, Philippe, entre outros que foram pesquisados ao longo do trabalho.

PALAVRAS CHAVES: psicopedagogia; educação infantil; formação


continuada.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 11

CAPÍTULO 1 - A PSICOPEDAGOGIA

1.1 A PSICOPEDAGOGIA 13

1.2 A PSICOPEDAGOGIA NO BRASIL 15

1.3 O CAMPO DE ATUAÇÃO DA PSICOPEDAGOGIA 19

CAPÍTULO 2 - A EDUCAÇÃO INFANTIL

2.1 O QUE SE ENTENDE POR EDUCAÇÃO INFANTIL 22

2.2 A APRENDIZAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL 25

2.3 O BRINCAR PARA O DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM 29

CAPÍTULO 3 – A PSICOPEDAGOGIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL E SUA


CONTRIBUIÇÃO NA FORMAÇÃO CONTINUADA DOS PROFISSIONAIS QUE
NELA ATUAM

3.1 O PAPAEL DO PSICOPEDAGOGO NA INSTITUIÇÃO 33

3.2 A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGOGICA NA CRECHE/PRÉ-ESCOLA 35

3.3 A RELAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO COM OS PROFISSIONAIS DE 37


CRECHE/PRÉ-ESCOLA

CONSIDERAÇÕES FINAIS 41
10

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 43
11
12

INTRODUÇÃO

Venho através de este trabalho monográfico fazer um estudo acerca da


importância do psicopedagogo na creche e pré-escola.
Ao longo dos anos várias pesquisas foram realizadas tendo como
resultado, que os seis primeiros anos de vida são fundamentais para o
desenvolvimento humano.
Diante deste fato, a educação e o cuidado na primeira infância vêm
sendo tratados com importância, pois o número de oferta deste serviço e
atendimento (creches/pré-escolas) em unidades públicas e privadas aumentou
não só quantitativamente, mas também na qualidade de sua estrutura física,
material, e na exigência de qualificação por partes dos profissionais que nela
atuam (equipe técnica pedagógica e de apoio).
A psicopedagogia tem o seu foco na aprendizagem. É neste contexto
que procuramos mostrar a importância da atuação do psicopedagogo na
educação infantil, pois é justamente nesta primeira etapa que fortes alicerces
devem ser construídos para que a aprendizagem seja saudável, rica e
prazerosa.
Diante disso, na presente pesquisa foram fundamentados vários
teóricos e conhecimentos adquiridos ao longo do curso de psicopedagogia no
qual contribuíram no desenvolvimento e compreensão da importância do
psicopedagogo em instituições de creches e pré-escolas e sua relevância para
a prática e formação de professores.
No decorrer da monografia serão apresentados três capítulos que estão
organizados da seguinte maneira:
Com o intuito de estudar a contribuição da psicopedagogia na educação
infantil, consideramos pertinente que no primeiro capítulo fosse realizado uma
síntese histórica para a compreensão da definição do que é a psicopedagogia.
Através de sua trajetória no Brasil conheceremos ainda os seus diferentes
campos de atuação.
No segundo capítulo mostraremos que a concepção de infância é
historicamente construída, pois a ideia de infância sofreu grandes
13

transformações ao longo dos tempos. Tais mudanças originaram-se através


dos aspectos sociais e econômicos. Em seguida, apresentaremos as bases
psicológicas do processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança
através das concepções sociointercionistas de Piaget, Vygotsky e Wallon. Tais
teorias se aproximam ao compreenderem que o processo de aquisição do
conhecimento acontece na relação entre o sujeito e o meio de forma dialética,
ou seja, na interação entre eles.
Ainda neste capítulo aproveitaremos para falarmos sobre o brincar como
algo essencial para a saúde física e mental das crianças, pois esta ação faz
parte do processo educativo do ser humano.
Por último identificaremos o papel do psicopedagogo na instituição e o
processo de avaliação e intervenção psicopedagógica em creches/pré-escolas
que tendo como foco a prevenção das dificuldades de aprendizagem.
Verificaremos também que a relação do psicopedagogo junto aos profissionais
que atuam na educação infantil é primordial para a orientação de meios e
instrumentos que possibilite o bom desenvolvimento das crianças.
Espera-se com o desenvolvimento deste trabalho sensibilizar todos os
profissionais da educação sobre a valorização de se ter o psicopedagogo nas
instituições de ensino, principalmente nos espaços de creche e pré-escolas.
14

CAPÍTULO I
A PSICOPEDAGOGIA

1.1 A PSICOPEDAGOGIA

De acordo com Bossa (2011) a psicopedagogia nasceu da necessidade


de buscar soluções para os problemas de aprendizagem, que são bastante
complexos, pois há uma série de fatores que levam a interferir no processo de
aprendizagem.
Ao analisarmos o termo psicopedagogia parece ser uma aplicação da
psicologia com a pedagogia, porém essa definição não se faz por completa
devida a sua origem. Para entendermos a complexidade dessa definição é
necessária uma análise histórica da psicopedagogia.
Em estudos realizados por Bossa (idem) nos diz que a preocupação com
os problemas de aprendizagem teve início na Europa durante o século XIX.
Estas pesquisas foram realizadas por médicos, psiquiatras e filósofos do
Iluminismo com uma visão organicista atribuindo o problema de aprendizagem
a chamada Dificuldade Cerebral Mínima.
Para esses estudiosos as respostas para se compreender as
dificuldades de aprendizagem eram atribuídos a problemas neurológicos ou
patológicos.
Kiguel (1991, p. 2 apud BOSSA, 2011, p.77) nos explica que “tal
concepção organicista e linear apresentava uma conotação nitidamente
patologizante, uma vez que todo indivíduo com dificuldades na escola era
considerado portador de disfunções psiconeurológicas, mentais e
psicológicas”.
Scoz (2005) fala que esse conceito organicista permitiu uma aceitação
da criança pelo professor e sua família, pois tendo problemas neurológicos ela
não poderia ser responsabilizada pelo próprio fracasso. A autora acrescenta
ainda que tal situação desmotivou educadores a investirem na sua
aprendizagem. “E nos consultórios psicopedagógicos o atendimento o reforçou
15

e explicação organicista com uma postura medicalizadora vigente na época”.


(SCOZ, idem, p.24).
De acordo com Bossa (2000, p.9).
Essa crença perdurou até fins da década de setenta e norteou os
procedimentos psicopedagógicos imprimindo na avaliação o caráter
de medida das faltas, ou seja, a avaliação como identificação dos
déficits, orientando um plano de intervenção com vista suprir tais
deficiências.

Essas concepções medicamentosas de tratamento de caráter clínico ao


longo dos anos não possibilitaram avanços para amenizar os problemas de
aprendizagem. Rubinstein (2010, p. 127) ressalta “que o que estava em
evidência era o tratamento das dificuldades, pouca preocupação havia sobre
sua origem não levando em conta a história do aprendiz”.
Bossa (2011) novamente nos trás ao debate a questão acerca do
conceito de psicopedagogia definindo-o como um estado de confusão. E logo
nos remete a seguinte pergunta: o que é o objeto de estudo da
psicopedagogia? A autora em sua obra cita diversos autores como Weiss,
Rubinstein, Scoz e Kiguel, que ambos, de forma consensual nos respondem
que o principal objeto de estudo da psicopedagogia é o processo de
aprendizagem humana. Ressalta ainda que “o tema da aprendizagem ocupa-
os e preocupa-os, sendo os problemas desse processo (de aprendizagem) a
causa e a razão da Psicopedagogia”. Assim Bossa (idem, p. 33) nos explica
que:
Como se preocupa com o problema de aprendizagem. Portanto,
vemos que a Psicopedagogia estuda as características da
aprendizagem humana: como se aprende, como essa aprendizagem
varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores, como se
produzem as alterações na aprendizagem, como reconhecê-las e
preveni-las.

Segundo Rubinstein (2010) a psicopedagogia foi buscar diálogo com as


diferentes áreas do conhecimento como: psicologia cognitiva, psicanálise,
antropologia, sociologia, linguística entre outras. Esta interação possibilitou
investigar e entender as dificuldades de aprendizagem não baseado nas
concepções neurológica e patológica, mas nos diversos fatores que podem
interferir no processo de aprendizagem.
16

(...) compreender através da iluminação das diferentes áreas do


conhecimento os aspectos envolvidos, pois a psicopatologia, a
didática e a pedagogia são insuficientes para entender o fenômeno.
Faz-se necessária a participação de conhecimentos advindos das
áreas anteriormente mencionados para fazer a leitura da problemática
em questão. (RUBINSTEIN, idem, p.128).

Para Bossa (2005) de fato, a psicopedagogia vai além da aplicação da


Psicologia à Pedagogia, pois não pode ser vista sem um caráter
interdisciplinar, que implica a dependência e contribuição teórica e prática de
outras áreas de estudo para se constituir como tal. Assim, “os psicopedagogos
têm construído seu corpo teórico na articulação da psicanálise e psicologia
genética. E a clínica tem se constituído em eficiente laboratório da teoria”.
(BOSSA, idem, p. 8).

2.2 A PSICOPEDAGOGIA NO BRASIL

Segundo Bossa (2011) no Brasil, por muitos anos acreditava-se que as


causas dos problemas de aprendizagem eram atribuídas por fatores
orgânicos.

No início da década de 80 começa a se configurar uma teoria sócio-


política a respeito do fracasso escolar e o “problema de aprendizagem escolar”
passa a ser concebido como “problema de ensinagem”. (BOSSA, 2005, p.49).
Sendo assim a prática da psicopedagogia surgiu da necessidade de contribuir
na questão do fracasso escolar apresentando um caráter reeducativo,
assumindo ao longo do tempo um enfoque terapêutico.

Bossa (2011) cita em sua obra os trabalhos e as pesquisas acerca do


fracasso escolar realizadas por Collares, Patto e Brandão, onde constataram
que suas causas são atribuídas somente aos fatores extraescolares,
desconsiderando a contribuição dos fatores intraescolares (a escola, currículo,
metodologia, práticas pedagógicas etc.), assim eximindo a instituição de sua
responsabilidade escolar do aluno.
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Foram justamente dentro deste contexto que surgiram no Brasil os


primeiros cursos de especialização em Psicopedagogia para auxiliar psicólogos
e educadores na sua formação, ambos buscavam soluções para os problemas
de aprendizagem.
De acordo com Bossa (2011, p.55) “o movimento da psicopedagogia no
Brasil remete ao seu histórico na Argentina”. Há diversos trabalhos de autores
argentinos na literatura brasileira que muito têm influenciado a nossa prática,
pois esses profissionais constituem os primeiros esforços no sentido de
sistematizar um corpo teórico próprio da psicopedagogia como: Sara Paín,
Jorge Visca, Alícia Fernandez e outros.
A autora nos explica que antes mesmo das instituições oferecerem
cursos de formação em Psicopedagogia, eram realizados grupos de estudos
com profissionais que atuavam com a problemática de aprendizagem.
Em seguida, a mesma nos diz que na Argentina já havia um estágio
mais avançado de estudos nessa área pelo professor e médico Julio Bernaldo
de Quirós que se dedicou aos estudos de leitura e escrita durante anos e
pesquisas em escolas argentinas publicando já na década de 50 e 60 essas
experiências. E nos anos70 difundindo-os em conferências pelo Brasil.
Bossa (2011) ressalta que no Brasil em Porto Alegre, vários
profissionais realizam centros de estudos destinados à formação e à
atualização em Psicopedagogia no modelo dos cursos do Centro Médico de
Pesquisas de Buenos Aires, sendo entre eles o professor Nilo Fichtner que
fundou o Centro de Estudos Médicos e Psicopedagógicos na capital gaúcha.
Para constituir a retrospectiva histórica da Psicopedagogia no Brasil,
Bossa (2011) contou também com as contribuições da psicopedagoga e
professora da Faculdade do Rio Grande do Sul, Sonia Moojem Kiguel que nos
forneceu dados a esse respeito a seguir:
• No ano de 1954, no Rio Grande do Sul surge o primeiro registro
de um curso de orientação psicopedagógica patrocinado pelo
Centro de pesquisas e Orientação Educacional (CPOE) da
Secretaria de Educação e Cultura que foi coordenado por Aracy
Tabajara e Dorothy Fossati.
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• Em 1967, é desenvolvido um curso com dois anos de duração


para professores especializados no atendimento
psicopedagógico das clínicas de leitura. O curso com meio ano
de estágio foi supervisionado pelo Dr. Julio Bernaldino de Quirós.
• A partir de 1970 iniciam cursos de formação de especialistas em
psicopedagogia na Clínica Médica-Pedagógica de Porto Alegre,
com duração de dois anos.
• O terceiro destes cursos foi desenvolvido na FACED em nível de
especialização, com um total de 1.530 horas, que oportunizou
duas especializações: área das Deficiências específicas da
Aprendizagem e Áreas dos Excepcionais (deficiência mental,
auditiva e visual).

• Durante o desenvolvimento desses cursos foram encontradas


diversas dificuldades como a falta de estrutura em termos de
estágios e a falta de pessoal especializado e com experiência,
vinculado à UFRGS, porém não houve uma interrupção no
processo de formação profissional em Psicopedagogia
Terapêutica sendo desenvolvidos em caráter particular.

• A PUCRS realizou cursos de especialização relacionados à área:


Curso de Reeducação em Linguagem (1979/80) e Curso de
Psicoeducação (1982/83).

• Em 1972 a mesma universidade mantém a área de concentração


em Aconselhamento Psicopedagógico, dentro do seu curso de
pós-graduação em Educação, nas áreas de especialização e/ou
mestrado.

Segundo Bossa (2011) o 1°Encontro de Psicopedagogos, em São Paulo


foi um marco decisivo na história da psicopedagogia no Brasil no ano de 1948,
onde foram apresentados os trabalhos de Clarissa Golbert e Sonia Moojen
Kiguel. Tal evento repercutiu grande sucesso que a partir daí o Grupo Livre de
19

Estudos em Psicopedagogia (como era chamado) passaram a se reunirem


mensalmente no período de 1984 e 85. Em seguida foi amadurecida a ideia de
o grupo ser transformado em Associação de Psicopedagogos. Neste mesmo
ano ocorreu o 1° Seminário de Estudos em Psicopedagogia e ao final deste
encontro foi criado o primeiro capítulo gaúcho da Associação Brasileira de
Psicopedagogia.
Bossa (2011) também destaca a importância do trabalho da professora
e coordenadora da PUC/SP Genny Golubi de Moraes pela sua contribuição na
compreensão e no tratamento dos problemas de aprendizagem, pela formação
de um número considerável de profissionais da psicopedagogia que
atualmente desenvolvem importantes trabalhos na área onde sempre priorizou
o trabalho preventivo para que menos crianças cheguem à clínica com
problemas de aprendizagem.
Em seguida Bossa (2011) complementa que no ano de 1979, em São
Paulo no Instituto Sedes Sapientiae é criado o primeiro curso regular de
psicopedagogia pela pedagoga e psicodramatista Maria Alice Vassimon e pela
diretora do Instituto Madre Cristina Sodré Dória. Segundo Scoz e Mendes
(1987, apud BOSSA, 2011, p.85) explicam que:

Maria Alice Vassimon, preocupada com a perspectiva de um homem


global, percebido a partir de referências intelectuais, afetivas e
corporais, questionando o mito da psicologia na época e com grande
vontade de retomar a educação como área de conhecimento mais
atuante, faz uma proposta para que o Instituto Sede Sapientiae, até
então literalmente ocupado por psicólogos e psicanalistas, abrisse o
seu espaço para um curso que valorizasse a ação do educador.

Bossa (2011) acrescenta ainda, que inicialmente a maioria dos


profissionais que procuravam fazer o curso tinha interesse para atuação no
nível clínico. Logo depois com a aquisição dos novos conhecimentos das áreas
de Linguística, Psicolinguística e Teorias do Desenvolvimento bem como as
contribuições de Emilia Ferreiro, houve uma mudança, pois “os problemas de
aprendizagem são ressignificados e os próprios cursos passam a ter outro
direcionamento”. Sendo assim, dando início a uma linha de trabalho em nível
preventivo. (BOSSA, idem, p. 86).
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A autora nos assinala que o presente curso passou por fases diferentes,
sendo o primeiro numa perspectiva da Reeducação em Psicopedagogia (e
mesmo com a preocupação às questões preventivas o curso inicialmente era
caracterizado como escola de reeducação). Em seguida o curso passa a ter
um caráter mais terapêutico, no qual, no âmbito clínico, aprofundando-se nos
aspectos afetivos da aprendizagem. Com essas mudanças passa-se a refletir e
praticar a Psicopedagogia na instituição escolar.
Vimos que historicamente a Psicopedagogia foi inicialmente reconhecida
pela intervenção clínica. Atualmente, há uma ação maior do psicopedagogo
nas instituições escolares com uma perspectiva preventiva. Assim os cursos de
especialização em Psicopedagogia (latu sensu) passaram a ser oferecidos em
diversas faculdades (estatais e privadas) e em vários estados do Brasil.
Bossa (2011) nos lembra de que ao fazermos uma breve trajetória da
Psicopedagogia no Brasil, é relevante falarmos da Associação Brasileira de
Psicopedagogia (ABPp) um órgão de classe e de referencia nacional para os
psicopedagogos que visava como objetivo inicial tornar conhecido o campo de
atuação profissional do psicopedagogo, que ainda não é totalmente definido.
Atualmente a Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp)
prossegue na luta pela regulamentação da profissão, por meio da aprovação
do projeto de Lei n.° 3.124/97. Apesar do psicopedagogo ainda não ser uma
categoria reconhecida legalmente, a entidade tem sido responsável pela
organização de eventos (encontros e congressos) e por publicações onde os
temas retratam as preocupações e as tendências na área.

1.2 O CAMPO DE ATUAÇÃO DA PSICOPEDAGOGIA

O campo de atuação do psicopedagogo refere-se não só ao espaço


físico onde se dá esse trabalho, mas também, e em especial, ao
espaço epistemológico que lhe cabe, ou seja, ao lugar deste campo
de atividade e ao modo de abordar o seu objeto de estudo. (BOSSA,
2011, p.47)

Segundo Bossa (2011) o trabalho psicopedagógico pode ser clínico ou


preventivo, porém é também teórico na medida da necessidade de refletir
sobre a práxis. A autora explica ainda que no seu campo de atuação é
21

necessário que o psicopedagogo aborde o seu objeto de estudo de acordo


com a modalidade (clínica ou preventiva), pois cada uma delas possuem
tarefas especificas.
Antes de compreendermos a diferenciação dessas modalidades e sua
atuação, Porto (2011, p.109) nos explica que:
Tanto na clínica quanto na instituição, o psicopedagogo atua
intervindo como mediador entre o sujeito e sua história traumática, ou
seja, a história que lhe causou a dificuldade de aprender. [...] O
profissional deve tomar ciência do problema de aprendizagem e
interpretá-lo para a devida intervenção.

Sendo assim o trabalho psicopedagógico na área preventiva


(institucional) é de orientação no processo ensino-aprendizagem que tem como
objetivo de levar o indivíduo a apropriação do conhecimento.
Bossa (2011) nos explica que há três diferentes níveis de prevenção: No
primeiro o psicopedagogo atua nos processos educativos com objetivo de
diminuir a frequência dos problemas de aprendizagem. O segundo diminuir e
cuidar dos problemas já instalados e criar um plano de diagnóstico da
instituição. Já o terceiro eliminar os transtornos também instalados através do
procedimento clínico.
Na área preventiva cabe ao trabalho psicopedagógico: a) detectar
possíveis perturbações no processo de aprendizagem; b))participar da
dinâmica das relações da comunidade educativa, a fim de favorecer processos
de integração e troca; c) promover orientações metodológicas de acordo com
as características dos indivíduos; d) realizar processos de orientação
educacional, vocacional e ocupacional. Essas atividades podem ser tanto na
forma individual quanto em grupos, na área da saúde mental e da educação.
Segundo Bossa (2011) na psicopedagogia clínica (mais voltada para a
terapêutica) tem como objetivo compreender de forma global e integrada os
processos cognitivos, emocionais, sociais, culturais, orgânicos e pedagógicos
que interferem na aprendizagem, para favorecer o resgate do prazer de
aprender na sua totalidade, estando presente nesse processo: pais,
professores, orientadores educacionais e demais especialistas que transitam
no universo educacional do aluno.
22

“O trabalho clínico acontece em consultórios ou em hospitais, o


psicopedagogo busca não só compreender o porquê de o sujeito não
aprender, mas também o que ele pode aprender e como.” (BOSSA, idem, p.
150).
A autora também nos informa que no tratamento clínico com o aluno, o
psicopedagogo realiza uma investigação cuidadosa que permite levantar uma
série de hipóteses indicadoras das estratégias capazes de possibilitar a
situação terapêutica, que indique um caminho satisfatório para uma
aprendizagem efetiva.
Na instituição escolar, Porto (2011) acrescenta que o trabalho
psicopedagógico se desenvolve de duas formas: os alunos com dificuldades
de aprendizagem o psicopedagogo terá como função reintegrar e adaptar o
aluno com intuito de desenvolver suas funções cognitivas relacionadas ao
afetivo desbloqueando e canalizando gradualmente para a aprendizagem dos
conceitos de acordo com os objetivos da aprendizagem formal. Na segunda,
ocorre um trabalho de assessoramento com toda a equipe técnica pedagógica
da instituição.
Além das escolas e consultórios, a psicopedagogia vem avançando sua
atuação em outras instituições como hospitais e empresas. Na área da saúde
o trabalho é realizado em consultórios privados ou hospitais com o intuito de
identificar e atender às alterações da aprendizagem sistemática ou
assistemática, de natureza patológica.
Há também proposta de sua atuação nas empresas sua intenção seria
favorecer a aprendizagem do sujeito para uma nova função, incentivando-o
para um desenvolvimento mais efetivo de suas atividades.
Através desse breve histórico sobre a psicopedagogia no Brasil, vimos a
trajetória de seus esforços e preocupações em procurar não somente sanar e
prevenir dificuldades no aprender, mas principalmente nos possibilitar a
refletirmos e compreendermos os problemas de aprendizagem que se
encontra em nosso sistema educacional.
23

CAPÍTULO 2
A EDUCAÇÃO INFANTIL

2.1 O QUE SE ENTENDE POR EDUCAÇÃO INFANTIL

Para falarmos de educação infantil, precisamos compreender que as


concepções de infância e seus direitos foram se modificando por conta das
transformações econômicas, políticas, sociais e culturais na sociedade.
Segundo Bujes (2001, p.13) “durante muito tempo, a educação da
criança foi considerada uma responsabilidade das famílias ou do grupo social
ao qual pertencia”. Ou seja, não havia nenhuma instituição que pudesse dividir
essa responsabilidade, como temos hoje na Constituição Federal de 1988, que
em relação às políticas de atenção à infância, inaugurou um novo momento na
história da legislação infantil ao reconhecer a criança como cidadã.
Ao contemplar o direito das crianças pequenas à educação a
Constituição Federal de 1988 estabeleceu como dever do Estado, a garantia
do atendimento em creches e pré-escolas às crianças de 0 a 6 anos. Dessa
forma, nomeia formas concretas de garantir, não só amparo, mas
principalmente a educação das crianças. Com isso, as creches começaram a
fazer parte das políticas públicas enquanto instituições educativas.
Contudo, Bujes (2001) nos diz que o reconhecimento da criança como
cidadão de direito em desenvolvimento nem sempre foi assim e que isso, só foi
possível porque também se modificaram na sociedade as maneiras de se
pensar o que é ser criança. Por isso, falar da infância na sociedade
contemporânea nos remete inicialmente a compreensão dos diferentes
significados que a criança recebeu no decorrer da história da humanidade.
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Segundo Ariès (1981) na sociedade medieval, a criança era considerada


um adulto em miniatura, que executava as mesmas atividades dos mais
velhos, tinha a mesma forma de se vestir, possuía baixa expectativa de vida
por conta das precárias formas de vida e participavam de reuniões e festas
onde tudo eram discutido e tratado na frente da criança.
Nesta época não existia a consciência das características e diferenças
entre adultos e crianças, os adultos se relacionavam com as crianças sem
nenhum tipo de descriminações. O autor relata em sua obra que neste período
eram altos os índices de mortalidade e práticas de infanticídio, e não existia o
sentimento de amor materno, pois a família era social e não sentimental, onde
a mortalidade infantil era algo aceito com bastante naturalidade.
Em seguida Ariès (1981) nos diz que no século XVII houve mudanças
em relação ao cuidado com a criança por parte da Igreja e do poder público de
não aceitar passivamente o infanticídio, “... como se a consciência comum só
então descobrisse que a alma da criança também era imortal. É certo que essa
importância dada à personalidade da criança se ligava a uma cristianização
mais profunda dos costumes...” (idem, p. 61).
Isso fez com que surgissem medidas para salvar a criança melhorando
as condições de higiene e a preocupação dos pais no zelo da sua saúde
passando então a ser cuidada e educada pela família.
Diante dessas circunstâncias inicia-se um olhar diferenciado sobre a
concepção de criança. Ariès (1981) destaca duas concepções de infância
desse período: o da criança ingênua e inocente, que ele traduz como o
sentimento de “paparicação” da criança por parte dos adultos, enquanto a
outra, a criança era considerada imperfeita e incompleta tendo a necessidade
do adulto moralizar a criança.
Embora esses dois sentimentos de infância tivessem origens diferentes
um provindo da família e outro do meio eclesiástico e intelectual, observamos
que a criança perde seu anonimato e assume um papel central no meio
familiar.
25

Logo surgem as primeiras propostas de educação e moralização infantil


que passa a ser designada aos colégios que propõe separá-la do adulto para
educá-la nos costumes e na disciplina, dentro de uma visão mais racional.
Para Bujes (2001) a instituição de educação infantil esteve de certa
forma ligada ao nascimento da escola e do pensamento pedagógico moderno,
entre os séculos XVI e XVII, segundo a mesma esta organização ocorreu por
conta de um conjunto de possibilidades como, por exemplo:
(...) a sociedade na Europa mudou muito com a descoberta de novas
terras, com o surgimento de novos mercados e com o
desenvolvimento cientifico (...). É preciso lembrar que, com a
implantação da sociedade industrial passaram a ser feitas novas
exigências educativas para dar conta das novas ocupações no mundo
do trabalho. (idem, p. 14).

A autora sinaliza outro fator importante para a nova maneira de encarar


a infância foi a organização de espaços especialmente para educar as crianças
e o interesse de especialistas de discutir suas características e a importância
deste momento na vida do sujeito.
Enfatiza ainda, que muitas teorias surgiram neste período para
descrever as crianças e sua natureza moral, suas intenções boas ou más e
defendiam ideias de oferecer educação como uma forma de proteger a criança
das influências negativas do seu meio e preserva-lhe a inocência, afastá-la da
ameaça, da exploração etc.
Bujes (2001) acrescenta que creches e pré-escolas têm o seu
aparecimento não somente depois do surgimento das escolas, mas
principalmente com o trabalho materno fora do lar e incorporação das
mulheres à força de trabalho assalariado, na organização das famílias e, num
novo papel da mulher na sociedade.
Diante disso, o atendimento da criança de zero a seis anos intensificou-
se com a LDB – 1996, onde o Ministério da Educação e do Desporto propôs
um documento intitulado Referencial Curricular Nacional para a Educação
Infantil, que tem como objetivo servir de referência para a elaboração dos
currículos e a definição dos conteúdos básicos para Creches e Pré-escolas,
além de oferecer subsídios para o trabalho do professor.
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Através deste percurso, podemos compreender que a criação de


creches e pré-escolas surgiu a partir de mudanças econômicas, políticas e
sociais que ocorreram na sociedade. Isso nos permitiu identificar que cada
época tem uma forma própria de considerar o que é ser criança.
Nos dias de hoje, a criança passou a ter importância como nunca havia
ocorrido antes, pois ela passou a ser descrita e estudada por muitos
estudiosos e pesquisadores passando a ser considerada como cidadão de
direito em desenvolvimento e de sujeito histórico cultural, pois ela não só
participa desta transformação, mas também é transformada pelas experiências
que vivem no mundo.

2.2 A APRENDIZAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A aprendizagem é o processo através do qual a criança se apropria


ativamente do conteúdo da experiência humana, daquilo que o seu
grupo social conhece. (DAVIS & OLIVEIRA, 1994, p. 20).

De acordo com as autoras, desde o nascimento a criança aprende


através das interações com o outro aonde ela gradativamente vai ampliando
suas formas de lidar com o mundo, construindo significados para suas ações e
para as experiências que vivem.
É através da linguagem que esses significados ganham uma proporção
maior surgindo em seguida o conceito. Além disso, a linguagem “irá integrar-se
ao pensamento, formando uma importante base sobre a qual se desenvolverá
o funcionamento intelectual”. (DAVIS & OLIVEIRA, 1994, p. 21).
A educação infantil é uma fase essencial da aprendizagem, por isso
creches e pré-escolas são locais onde a vida coletiva favorece as interações
em grupo porque recebem influências das condições socioculturais que são
importantes no processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças.
Porém Davis & Oliveira (1994, p. 23) ressaltar que “muito antes de entrar na
escola, a criança já vem desenvolvendo hipóteses e construindo um
conhecimento sobre o mundo.” Ou seja, a criança já traz consigo experiências
do cotidiano vividas com a família amigos etc. A diferença é que ela aprende
27

na instituição educativa de maneira sistemática, fora dela de forma


espontânea.
Ao longo dos anos muitos teóricos realizaram pesquisas a respeito da
aprendizagem e do desenvolvimento humano, entre eles podemos citar Piaget,
Vygotsky e Wallon ambos “concluíram que a capacidade de aprender e de
conhecer se constrói a partir das trocas estabelecidas entre o sujeito e o meio.”
(FELIPE, 2001, p.27). E que o desenvolvimento humano vive em um processo
de crescimento e mudança nos seus diferentes níveis de desenvolvimento
(físico, cognitivo, afetivo-emocional e motor).
Ao compreendermos essa concepção interacionista de que o organismo
e meio exercem ação recíproca, um influenciando o outro e que essas
interações acarreta mudanças sobre o indivíduo. Foram tais concepções que
nos trouxe a luz sobre uma nova compreensão do desenvolvimento infantil,
possibilitando ações dentro do espaço das instituições de educação infantil
como creches e pré-escolas.
Felipe (2001) nos diz que Piaget tinha preocupação em descobrir como
se estruturava o conhecimento, acreditando que se estudasse cuidadosamente
e profundamente a forma como as crianças constroem as noções
fundamentais de conhecimento lógico poderia compreender a gênese e a
evolução do conhecimento. Logo concebeu que a criança possui uma lógica de
funcionamento mental que difere qualitativamente da lógica do funcionamento
mental do adulto.
Segundo Davis & Oliveira (1994) Piaget, em sua investigação partiu de
uma concepção de desenvolvimento envolvendo um processo contínuo de
trocas entre o organismo e o meio ambiente. Para Piaget o alicerce de sua
teoria é a noção de equilíbrio. Ou seja, o desenvolvimento cognitivo do
indivíduo ocorre através de constantes desequilíbrios e equilibrações. Como
explica as autoras:
Para este autor, todo organismo vivo- quer que seja uma ameba, um
animal, uma criança procura manter um estado de equilíbrio ou de
adaptação com seu meio, agindo de forma a superar perturbações na
relação que se estabelece com o meio. O processo dinâmico e
constante do organismo busca um novo e superior estado de
equilíbrio é denominado processo de equilibração majorante. (idem,
p.38)
28

Davis & Oliveira (1994) acrescentam que para alcançar um novo estado
de equilíbrio dois mecanismos são acionados, o primeiro chamado
assimilação: transforma o objeto de conhecimento de acordo com o que temos
construído e segundo a acomodação: que significa adaptar-se ao objeto de
conhecimento através do sujeito. Sendo assim, o sujeito se transforma para
acomodar o objeto.
Piaget definiu o desenvolvimento humano como sendo um processo de
equilibrações sucessivas. Entre tanto esse processo, embora contínuo, é
caracterizado por diversas fases, etapas ou períodos descritos abaixo por
Davis & Oliveira (1994 p. 39- 46):
Período Sensório-Motor (0 a 2 anos) a criança baseia-se
exclusivamente em percepções sensoriais e em esquemas motores para
resolver seus problemas, que são essencialmente práticos: bater numa caixa,
pegar um objeto, jogar uma bola e etç.
Período Pré-Operatório (2 a 7 anos) é marcado, em especial pelo
aparecimento da linguagem oral por volta dos dois anos. Ela permitirá a
criança dispor além da inteligência prática construída na fase anterior, da
possibilidade de ter esquemas de ação interiorizados, chamados de esquemas
representativos ou simbólicos.

Período das Operações Concretas (7 a 11 ou 12 anos) nesta fase as


características da inteligência infantil, a forma como a criança lida com o
mundo e o conhece, demonstram que ela se encontra numa nova etapa de
desenvolvimento cognitivo: o desenvolvimento lógico, objetivo adquire
preponderância, o pensamento se torna menos egocêntrico, é capaz de
construir um conhecimento mais compatível com o mundo que a redeia, o real
e o fantástico não mais se misturarão em sua concepção.

Período das Operações Formais (11-12 anos em adiante) a principal


característica desta etapa reside o fato de que o pensamento se torna livre das
limitações da realidade concreta, ou seja, a criança neste nível consegue se
torna capaz de raciocinar logicamente mesmo se o conteúdo do seu raciocínio
29

for falso, criatividade para trabalhar com hipóteses impossíveis ou irreais -


raciocínio hipotético.

Davis & Oliveira (1994) nos sinalizam um fator importante as faixas-


etárias previstas para cada fase não são rigidamente demarcadas, pois
referem somente às medidas de idade onde ocorrem determinadas
construções de pensamento.

Ao falarmos das concepções de Wallon sobre o desenvolvimento


infantil, Felipe (2001) diz que o médico Frances propôs o estudo integrado do
desenvolvimento infantil, contemplando os aspectos da afetividade, da
motricidade e da inteligência. “Para ele o desenvolvimento da inteligência
depende das experiências oferecidas pelo meio e do grau de apropriação que
o sujeito faz delas”. (idem p.28).

Sendo assim, os aspectos físicos do espaço, as pessoas próximas, a


linguagem, bem como os conhecimentos presentes na cultura contribuem
efetivamente para formar o contexto de desenvolvimento infantil. Para Wallon,
as emoções é principal mediador no processo de aprendizagem e têm papel
importante no desenvolvimento da criança. É por meio delas que o aluno
exterioriza seus desejos e suas vontades.

Outro tipo de interacionismo é proposto por Vygotsky que “defende a


ideia de interação entre as mutáveis condições sociais e a base biológica de
comportamento humano”. (DAVIS & OLIVEIRA, 1994. p.49).

Para este autor funcionamento psicológico estrutura-se a partir das


relações sociais estabelecidas entre o individuo e o mundo exterior.
Tais relações ocorrem dentro de um contexto histórico e social, no
qual a cultura desempenha um papel fundamental, fornecendo ao
individuo os sistemas simbólicos de representação da realidade.
(FELIPE, 2001, p.29)
Segundo Felipe (2001) para Vygotsky a cultura e a linguagem nas
interações sociais desempenha um papel importante na organização do
pensamento complexo e abstrato individual. Ou seja, para ele a criança
inicialmente usa a fala socializada para se comunicar, e somente depois é que
ela passará a usá-la como instrumento de pensamento, com a função de
adaptação social.
30

Em seus estudos, “Vygostky observa que a criança apresenta em seu


processo de desenvolvimento um nível que ele chamou de real e outro
potencial ou proximal”. (FELIPE, 2001, p. 29).

Para ele a zona de desenvolvimento real diz respeito a etapas já


alcançadas pela criança como, por exemplo, coisas que ela já consegue fazer
sozinha, sem a ajuda de outras pessoas. No nível de desenvolvimento
potencial visa realizar tarefas com a ajuda de outros, pois há atividades que a
criança não é capaz de realizar sozinha, mas poderá fazer se outro explicar e
demonstrar como fazer. Sendo assim, Felipe (2001, p.29) conclui que “a zona
de desenvolvimento proximal ou potencial consiste na distancia entre o nível
de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial.”.

Diante desse processo o professor tem papel fundamental e consiste


em intervir e mediar na zona de desenvolvimento proximal ou potencial dos
alunos provocando avanços que não aconteceriam espontaneamente.

Vygotsky também dá ênfase a importância do brinquedo e da


brincadeira do faz de conta para o desenvolvimento infantil.“O simbolismo
representa um passo importante para o desenvolvimento do pensamento pois
faz com que a criança se desvincule das situações concretas e imediatas
sendo capaz de abstrair”. (FELIPE, 2001, p. 30).

A importância de se estudar os períodos de desenvolvimento da criança


e as diferentes concepções de aprendizagem desses autores consistem no
fato de que, a compreensão destas é de suma importância para que os
profissionais da educação promovam para as crianças pelas suas práticas,
experiências diversas e enriquecedoras para que possam desenvolver suas
capacidades resultando um ensino efetivo e de qualidade.

2.3 O BRINCAR PARA O DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM

Segundo Maluf (2009, p.18) “brincar é uma necessidade tanto da


criança quanto do adulto”. Assim, o brincar faz parte da vida do ser humano,
31

pois é uma das maneiras mais comuns do comportamento humano, sem


contar que o brincar é natural na vida das crianças.
Muitos estudos e pesquisas foram feitas a respeito da importância do
brincar para o desenvolvimento e a aprendizagem e concluíram que as
brincadeiras possibilitam o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo da
criança.
"Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento
da identidade e da autonomia. (...) Nas brincadeiras as crianças
podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como a
atenção, a imitação, a memória, a imaginação. Amadurecem,
também, algumas capacidades de socialização, por meio da interação
e da utilização e experimentação de regras e papéis
sociais.”(RCNEI,1998,p.22).

Para Dornelles (2001, p. 104) desde muito cedo se brinca, os bebes


começam a conhecer o mundo através das pessoas e objetos que estão a sua
volta e como estes interagem com ele. “É pelo jogo e pelo brinquedo que a
criança vai constituindo-se como sujeito e organizando-se.”
Através do brincar a criança conhece o mundo, pois favorece a
formação social. “A maneira como a criança brinca e desenha reflete de
maneira implícita na forma como esta lida com a realidade.” (OLIVEIRA, 2011,
p.23).
“Brincar é muito importante, pois enquanto estimula o desenvolvimento
intelectual da criança, também ensina, sem que ela perceba, os hábitos
necessários ao seu crescimento” (BETTELHEIM apud MALUF, 2009, p. 19).
Conforme a criança vai crescendo a brincadeira passa a ter uma
característica mais socializadora com um interesse mais comum de seus
pares. As crianças absorvem todas as possibilidades de aprender: como o lidar
com o mundo, partilhar brinquedos, dividir tarefas e tudo aquilo que implica
uma vida coletiva.
Para Maluf (2009) é no espaço das creches e pré-escolas que as
crianças precisam ter condições de participarem de atividades lúdicas. Por isso
se faz necessário que as crianças tenham oportunidades de vivenciar
brincadeiras, faz de conta e situações lúdicas.
Bomtempo (2001, p. 129), afirma que “no comportamento diário das
crianças, o brincar é algo que se destaca como essencial para seu
32

desenvolvimento e sua aprendizagem. Dessa forma, se quisermos conhecer


bem as crianças, devemos conhecer seus brinquedos e brincadeiras”.
Piaget foi citado por Oliveira (2000) em sua obra, que os jogos não são
apenas para fins de entretenimento, também contribuem para o
desenvolvimento intelectual, físico e mental dos indivíduos, fazendo com que
os mesmos assimilem o que percebem da realidade. Afirma também
que a partir da brincadeira a criança pode demonstrar o nível cognitivo que se
encontra além de permitir a construção de conhecimentos.
Da mesma forma a autora também cita que Vygotsky, compreendeu a
brincadeira (como qualquer outro comportamento humano) como resultado de
influências sociais que a criança recebe ao longo do tempo.
Na Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, denominada Estatuto da Criança
e do Adolescente, acrescenta no Capítulo II, Art. 16°, Inciso IV, que toda
criança tem o direito de brincar, praticar esportes e divertir-se. Este documento
reconhece a importância do brincar como parte do direito à liberdade. Isto nos
reflete que brincar não é só um direito da criança, mas um dever por parte de
todos os cidadãos.
Acreditamos que brincando a criança aprende conceitos novos, absorve
informações do mundo externo e interno. Sem contar que quando a infância da
criança tem seus direitos respeitados ela tem maiores possibilidades de um
crescimento saudável, tornando-se um adulto equilibrado físico e
emocionalmente.
Nesse sentido é primordial que profissionais de creches e pré-escolas
estejam atentos em atender as necessidades das crianças não só no cuidar e
educar, mas principalmente na observação e participação do adulto nas
brincadeiras. Esse envolvimento no universo da criança também faz parte do
processo de acompanhamento e orientação do desenvolvimento das crianças
que frequentam creches e pré-escolas.
Em uma pesquisa realizada por Kishimoto (2001), relatou que
brinquedos que incentivam o simbolismo e a socialização das crianças são
poucos explorados pelos educadores. A autora concluiu ainda que para esses
33

profissionais os brinquedos e materiais pedagógicos são bem mais utilizados,


pois são considerados por eles como educativo.
Diante desta pesquisa podemos considerar que o ato de brincar precisa
fazer parte da formação profissional dos professores, principalmente para
aqueles que desejam atuar na educação infantil onde o brincar, o faz de conta
e as brincadeiras fazem parte do cotidiano das crianças pequenas.
De acordo com Brougère (1997), o brincar exige uma aprendizagem;
sendo assim o professor terá este papel fundamental de inserir a criança na
brincadeira, criando espaços, oportunidades e interagindo com ela.
Que através deste capítulo, cada educador desenvolva e crie atividades
adequadas aos seus alunos potencializando o desenvolvimento de cada um
deles compreendendo a importância do brincar para sua aprendizagem.
34

CAPÍTULO 3
A PSICOPEDAGOGIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL E SUA
CONTRIBUIÇÃO NA FORMAÇÃO CONTINUADA DOS
PROFISSIONAIS QUE NELA ATUAM

3.1 O PAPAEL DO PSICOPEDAGOGO NA INSTITUIÇÃO

O psicopedagogo dentro da instituição escolar tem a função de observar


e avaliar as necessidades da unidade escolar e atender as suas questões para
buscar respostas e possibilidades para os problemas de aprendizagem.
Segundo Porto (2011) o papel do psicopedagogo é analisar e assinalar
os fatores que favorecem, intervêm ou prejudicam uma boa aprendizagem em
uma instituição. Propõe e auxilia no desenvolvimento de projetos favoráveis às
mudanças educacionais, visando evitar processos que conduzam as
dificuldades da construção do conhecimento.
Para Bossa (2011, p. 105) cabe ainda ao psicopedagogo:
Assessorar a escola, alertando-a para o papel que lhe compete, seja
reestruturando a atuação da própria instituição junto a alunos e
professores, seja ainda redimensionando o processo de aquisição e
incorporação do conhecimento dentro do espaço escolar, seja
encaminhando alunos para outros profissionais.

Bossa (idem, p. 105 -106) nos relata em sua obra, que como assessor o
psicopedagogo deve promover:

1. O levantamento, a compreensão e análise das práticas escolares e suas


relações com a aprendizagem;
35

2. O apoio psicopedagógico a todos os trabalhos realizados no espaço da


escola;
3. A ressignificação da unidade ensino/aprendizagem, a partir das relações
que o sujeito estabelece entre o objeto de conhecimento e suas
possibilidades de conhecer, observar e refletir, a partir das informações
que já possui;
4. A prevenção de fracassos na aprendizagem e a melhoria da qualidade
do desempenho escolar.

A autora acrescenta ainda, que este trabalho de assessoramento pode


ser desenvolvido em diferentes níveis, propiciando aos educadores
conhecimentos para:

1. A reconstrução de seus próprios modelos de aprendizagem, de modo


que ao se perceberem também como “aprendizes”, revejam seus
modelos de ensinantes;
2. A identificação das diferentes etapas do desenvolvimento evolutivo dos
alunos e a compreensão de sua relação com a aprendizagem;
3. O diagnóstico do que é possível ser melhorado no próprio ambiente
escolar e do que presa ser encaminhado para profissionais fora da
escola;
4. A percepção de como se processou a evolução dos conhecimentos na
história da humanidade, para compreender melhor o processo de
construção de conhecimentos dos alunos;
5. As intervenções para melhoria da qualidade e do ambiente escolar;
6. A compreensão da competência técnica e do compromisso político
presentes em todas as dimensões do sujeito.

A presença do psicopedagogo no espaço escolar é pertinente, pois é


justamente neste ambiente que grande parte da aprendizagem acontece,
principalmente na relação com o professor, com o conteúdo e com o grupo
social escolar enquanto um todo.
36

O psicopedagogo também irá promover a discussão dos grupos dentro


da instituição escolar, levar a reflexão de suas práticas e da dinâmica entre os
atores que a compõe possibilitando mudanças das dificuldades detectadas e
dos comportamentos e atitudes presentes.
Sendo assim, o papel do psicopedagogo é analisar e investigar todos os
fatores envolvidos; orgânicos, cognitivos, emocionais e ambientais,
relacionando esses fatores a três vertentes; o indivíduo, a família e a escola.

3.2 A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGOGICA NA CRECHE/PRÉ-ESCOLA

O diagnóstico psicopedagógico é utilizado para descobrir as causas dos


problemas de aprendizagem. O diagnóstico psicopedagógico é em si uma
intervenção, pois o psicopedagogo tem que interagir com o cliente, a família e
a escola que são as partes envolvidas na dinâmica do problema.
Antes de discutirmos esta temática precisamos compreender o conceito
da palavra intervenção, pois este termo é muito utilizado entre professores e
psicopedagogos. O dicionário Aurélio nos informa que intervenção significa
“mediação”, e para o verbo intervir “colocar-se no meio”.
Para Souza (2010, p. 115) “um dos objetivos da psicopedagogia é a
intervenção, a fim de “colocar-se no meio”, de fazer a mediação entre a criança
e seus objetos de conhecimento.”.
Esses significados nos fazem refletir sobre as diferentes formas de
mediação que acontece com a criança. “Ou seja, diversas pessoas e
instituições que se colocam no meio, entre a criança e o mundo físico e social,
desde o inicio da sua vida.” (SOUZA, 2010, p. 114).
Além da família, escola e professores são importantes mediadores que
se responsabilizam em ensinar e aprender conteúdos, desenvolver sua
inteligência e sua afetividade.
Numa perspectiva psicopedagógica Scoz (1992, p.3 apud, PORTO
2011. p.118), nos diz que o psicopedagogo deve atuar como:
(...) um mediador capaz de integrar e sintetizar as várias áreas do
conhecimento junto com a equipe escolar (...). É de fundamental
importância instrumentalizar o professor para lidar com essa questão,
tornando acessível o conhecimento necessário para o trabalho com
as dificuldades de aprendizagem.
37

Sendo assim a intervenção e avaliação psicopedagógica na primeira


etapa da educação básica permite observar desde cedo possíveis transtornos
e patologias da aprendizagem.
Souza (2010) nos diz que para se planejar uma intervenção
psicopedagógica é necessário conhecer as características próprias das
crianças e o pensamento delas.
A autora cita Piaget concluindo que nos seus estudos com crianças
pequenas “apontara as diferenças entre o pensamento da criança pequena e o
do adulto, sugerindo tratamentos diferentes para pensamentos de qualidades
diferentes”. A autora enfatiza ainda que:
Este autor apresentara um método de investigação do pensamento
infantil, ressaltando a importância de se investigarem as crenças das
crianças e sua resistência à interferência do adulto, o que pode ser
interessante quando se pensa na escola exercendo uma influencia
sobre o desenvolvimento e aprendizagem da criança. (SOUZA, 2010,
p. 113).

Segundo Sisto (2010) a teoria psicogenética de Piaget possibilitou


instrumentos, para ter noção de como anda a construção do sistema cognitivo
em termos de estágios, pois assim podem-se encontrar possíveis atrasos no
processo como um todo.
Levando-se em conta que se tratando de uma intervenção e avaliação
psicopedagógica com crianças de creches e pré-escolas (zero a seis anos),
devemos considerar que nesta faixa etária a criança fornece poucas
informações (por exemplo, o vocabulário) para se comunicar e expressar o que
sente e deseja.
Na Educação Infantil a criança está em contato de maior frequência em
situações lúdicas, por isso é necessário que o psicopedagogo possa aproveitar
a utilização do jogo, desenho e brincadeiras como instrumento de avaliação e
intervenção psicopedagógica. Nesse sentido Oliveira (2011, p. 23) nos diz que:
A maneira como uma criança brinca ou desenha reflete sua forma de
pensar e sentir, nos mostrando, quando temos olhos para ver, como
está se organizando frente à realidade, construindo sua historia de
vida, conseguindo interagir com as pessoas e situações de modo
original, significativo e prazeroso, ou não. A ação da criança ou de
qualquer pessoa reflete enfim sua estruturação mental, o nível de
desenvolvimento cognitivo e afetivo-emocional.
38

Na intervenção psicopedagógica o jogo pode ser uma técnica que


permite a articulação de aspectos objetivos e subjetivos, necessários para que
a aprendizagem aconteça sem problemas. Para Brenelli (2010, p.140)
“compreender o lugar do jogo na pedagogia ou na psicopedagogia torna-se
imprescindível para que este recurso possa ser utilizado adequadamente”.
Outra possibilidade de intervenção e avaliação psicopedagógica seria a
criatividade e o desenvolvimento de atividades que possibilitem observar os
aspectos da inteligência e da projeção da criança.
Oliveira (2011) orienta que o psicopedagogo precisa estar atento com a
escolha do material, pois a escolha é feita de acordo com a queixa trazida,
sendo na maioria das vezes material lúdico que consiste em peças figurativas
(bonecos. carrinhos, etc.), não figurativas (sucatas, módulos etc.), jogos de
regras; o material gráfico (lápis de cera e de cor e papel etc.).
A autora enfatiza que durante todo o processo de avaliação e
intervenção a escuta, a análise e observação se fazem primordial para que
ocorra um diagnostico preciso da criança nessa faixa-etária.
Caso for necessário o psicopedagogo pode também encaminhar a
criança a um psicólogo a fim de que realize uma avaliação psicológica,
efetivando um trabalho multidisciplinar.

3.3 A RELAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO COM OS PROFISSIONAIS DE


CRECHE/PRÉ-ESCOLA

A psicopedagogia na formação continuada dos professores é pertinente


porque direciona um olhar diferenciado para o aprendente, colaborando para o
entendimento do significado de aprendizagem para cada aluno respeitando e
compreendendo que a aprendizagem acontece de diferentes maneiras.
O psicopedagogo em conjunto com o professor e a equipe escolar
possibilita a identificação do significado da aprendizagem para cada aluno,
bem como da sua modalidade de aprendizagem, da etapa operatória do
pensamento, das suas dificuldades e possibilidades. Isso permite ao professor
a organização de um planejamento de ensino adequado. Nas palavras de
Porto (2010, p.118):
39

Repensar a prática pedagógica em uma dialética constante entre


pensamento e ação, à luz da teoria psicopedagógica, traz ao
educador a possibilidade da prevenção das dificuldades de
aprendizagem, na medida em que viabiliza a construção de uma ação
voltada as reais necessidades dos alunos.

Essa parceria entre o psicopedagogo e professores possibilita uma


aprendizagem enriquecedora para as crianças. Infelizmente em nossas
escolas, existem professores oferecendo materiais desatualizados com aulas
desestimulantes para as crianças motivando o seu desinteresse em aprender,
não levando em consideração suas diferenças individuais.
Sabemos que fatores afetivo-emocionais fazem influência na vida do ser
humano. Alguns fatores são momentâneos, como por exemplo: brigas,
frustrações contrariedades, conflitos etc. Outros fatores afetivos são mais
duradouros e estes podem interferir no processo de aprendizagem.
Por isso, dentro da instituição escolar as relações precisam ser a melhor
possível para uma aprendizagem efetiva, pois o relacionamento professor-
aluno também assume um caráter fundamental no processo ensino-
aprendizagem e este é um fato importante que deve ser constantemente
avaliado pelo psicopedagogo.
Olhar psicopedagogicamente o processo de aprendizagem de um
grupo de alunos/professores é buscar compreender como eles usam
os elementos do seu sistema cognitivo e emocional para aprender. É
buscar compreender também a relação do aluno/ professor com o
conhecimento, e a qual é permeada pela figura do professor e pela a
escola. (SISTO, 2010, p.10).

Este olhar diferenciado não só permite a motivação e o prazer de


aprender do aluno, mas principalmente na identificação e prevenção de
possíveis dificuldades de aprendizagem. Segundo Porto (2011, p.112) “O
professor deve apostar na capacidade da criança visando mais as suas
qualidades do que seu fracasso”.
Para Fernández (1990, p.32) o problema de aprendizagem deve ser
“diagnosticado, prevenido e curado, a partir dos dois personagens (ensinante e
aprendente) e no vínculo que se estabelece entre ambos”. Sendo assim é
necessário que na sala de aula, o trabalho com crianças de creches e pré-
escola requer uma interação maior entre os sujeitos envolvidos. Neste sentido
40

o psicopedagogo estimula o desenvolvimento das relações interpessoais, ou


seja, o estabelecimento de vínculos entre os sujeitos.
Por isso a presença do psicopedagogo nas creches e pré-escolas, se
faz necessário juntamente com todos os profissionais envolvidos no processo
de desenvolvimento da criança, para a realização de um trabalho de
orientação integração e conscientização desses através de uma postura
psicopedagógica.
O psicopedagogo tem condições de trabalhar com as concepções que
os professores têm sobre os processos de ensino-aprendizagem,
assinalando a multidimensionalidade do problema, a importância de
se considerar fatores orgânicos, cognitivos, afetivos/sociais e
patológicos, dentre outros. (FINI, 2010, p.69).

Isto requer principalmente por parte do professor a realização de um


planejamento que se leve em consideração a afetividade, o lúdico, as
vivencias, os conhecimentos que a criança trás adotando uma metodologia que
possibilite a criança ter uma aprendizagem significativa.
Neste sentido é preciso que o psicopedagogo conduza educadores a
refletirem suas práticas para que se percebam como um importante mediador
nos processos de aquisição de conhecimento. Assim ao se utilizar das
diferentes contribuições que a psicopedagogia trás, o educador certamente
ampliará a sua ação pedagógica.
Diante dos assuntos discutimos o psicopedagogo poderá atuar
preventivamente junto aos educadores das seguintes formas:

§ Explicitando sobre habilidades, conceitos e princípios para que ocorra a


aprendizagem;

§ Trabalhando com a formação continuada dos professores.

§ Na reflexão sobre currículos e projetos junto com a coordenação


pedagógica;

§ Atuando junto com a família/alunos que apresentam dificuldades de


aprendizagem, apoiado em uma visão holística, levando-o a aprender a
41

lidar com seu próprio modelo de aprendizagem, considerando que esses


problemas podem ser derivados:

§ Das suas estruturas cognitivas;

§ De suas questões emocionais;

§ Da sua resistência em lidar com o novo;

§ Ou outra derivação que possa se apresentar.

Assim sendo, pensar a escola à luz da psicopedagogia nos remete uma


análise sobre a formação do professor. “Pode-se dizer, por conseguinte, que
uma das tarefas mais importante na ação psicopedagógica preventiva é
encontrar novas modalidades para tornar essa formação mais eficiente.”
(BOSSA, 2011, p.147).

Para isso se faz necessário que as propostas de formação docente


ofereçam aos professores condições para que estabeleça uma relação madura
e saudável com seus alunos, pais e autoridades escolares.

Diante destas questões, a psicopedagogia tem uma tarefa


extremamente importante da qual se ocupa: de investigar, analisar e realizar
novas propostas para uma formação docente. As práticas e os saberes
pedagógicos e a psicopedagogia devem estar sempre presentes na formação
de professores, pois podem adquirir oportunidades para se conhecer mais
sobre como ocorre o desenvolvimento e as dificuldades de aprendizagem da
criança.
42

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A elaboração deste estudo possibilitou uma reflexão e ampliação de


nossos conhecimentos, sobre nossas práticas enquanto educador para
desenvolvermos uma aprendizagem significativa.
É neste contexto que percebemos a importância da Psicopedagogia,
sendo o Psicopedagogo um profissional qualificado, apto a trabalhar na área
da educação, dando assistência aos alunos e orientando pais, professores e
outros profissionais da instituição escolar para melhoria das condições do
processo ensino-aprendizagem, assim como para um trabalho preventivo.
O psicopedagogo trabalha o resgate do desempenho escolar do aluno,
quando houver comprometimento afetivo, intelectual ou social. Compreende-se
cada vez mais a necessidade dos educadores desenvolverem suas
experiências e habilidades para saber lidar com as questões do dia a dia sob
uma ótica psicopedagógica.·.
Para isso faz-se necessário que os profissionais da educação infantil se
dediquem ao estudo das dificuldades de aprendizagem e se empenhe na
busca de formação especializada para a intervenção apropriada dentro da
escola e da sala de aula.
É preciso que os educadores busquem conhecimentos que possam
subsidiar a sua prática escolar para auxiliar nas formas diferenciadas de
43

tratamento a serem dadas a cada aluno a cada caso com vista ao sucesso
pedagógico.
A psicopedagogia pode contribuir para o aprimoramento da atividade
docente e também em situações que envolvem um trabalho de qualidade nas
relações interpessoais.
Conclui-se que o professor deve adotar o olhar e a escuta
psicopedagógica como forma de identificar, intervir e prevenir os problemas de
aprendizagem de modo a entender seu aluno, bem como através do
diagnóstico encaminhá-lo se preciso a outros profissionais além de realizar um
trabalho preventivo para que sejam evitadas futuras problemas no processo de
aprendizagem da criança.
Nesta perspectiva, a psicopedagogia contribui proporcionando na
educação infantil mais possibilidades de buscar e reflexão com professores e
educadores estabelecendo um diálogo para adequar suas práticas e qualificar
suas ações para atender as necessidades coletivas e individuais das crianças
onde todos fazem parte deste processo.
44

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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Zahar. 1981.

BOMTEMPO, Edda. Brincar, fantasiar, criar e aprender. In: OLIVEIRA, Vera


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45

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