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deuses fazendo bolo

ou ingredientes pra nascer de novo


victor rodrigues
©2017 VICTOR RODRIGUES
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mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação, etc. desde que não tenha objetivo
comercial e seja citada a fonte (autor e editora).

Texto: Victor Rodrigues


Coordenação Editorial: Victor Rodrigues
Revisão: Juliana Bernardo
Projeto gráfico e capa: Daniel Minchoni
Desenho da capa: Samuel Luís Borges
Orelha: Dayse Torres

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Rodrigues, Victor, 04/06/1990-


Deuses fazendo bolo ou ingredientes pra nascer
de novo / Victor Rodrigues -- 1. ed. -- São Paulo :
Ed. do Autor, 2017.

ISBN: 978-85-919105-1-9

1. Poesia brasileira I. Título.


17-07755 CDD-869.1
Índices para catálogo sistemático:

1. Poesia : Literatura brasileira 869.1

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deuses fazendo bolo
ou ingredientes pra nascer de novo
victor rodrigues

SELO DOBURRO 2017


“O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum


convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro


nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta


uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema


enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.”

Manoel de Barros em Arranjos para Assobio


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MODO DE PREPARO

pense como deve ser se apaixonar todo dia


trocar de espelho cada vez que olhar
imagine daniel na cova dos leões
tendo apenas uma chance de escolher
[aquele que deus enviou pra lhe salvar
no diabo separando um só pecado de tantos que existem pra nos tentar
ouse quando criança torcer pra todos menos o corinthians
e desfilar na camisa verde e branco
[com o samba-enredo da gaviões na cabeça
aquele lá de noventa e cinco

querer ser os doze cavaleiros do zodíaco


os quatro do apocalipse ou coisa do tipo
sofrer e sofrer muito entre charmander squirtle bulbassauro
[e ficar com o pikachu
imagine pegar emprestado o videogame do amigo
[e nunca zerar um jogo
empinar pipa na laje sem saber qual é a sua
pense o terror que é passar o dia numa locadora
e alugar o paizão titanic ou mogli o menino lobo
de novo e de novo e de novo
acham ousado e corajoso largar empregos e cursos de faculdade
mas pense em napoleão jogando war com um exército colorido
[e cinco cartas de objetivo na mão
imagine zinedine zidane em sua melhor partida
[abandonando o campo antes do pênalti decisivo
tente aprender os princípios de jiu jistu capoeira ninjutsu
[hapkido taekwondo kung fu
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alguns em menos de uma aula


e achar que em qualquer briga sairia sem apanhar
ter uma arma novinha e não saber qual banco assaltar
ser ponta no rugby armador no basquete meio de rede no vôlei
[goleiro e zagueiro e volante no futebol
ostentando medalhas de terceiro lugar

pense num ornitorrinco


que porra afinal é esse bicho

acham lírico e aventureiro ser viajante desapegado


mas tente ser gêmeo de todo mundo
me ajude lenine
um camaleão no arco-íris um quadro do romero britto
provar as sete artes sem uma obra concluída
aos vinte anos viver cem vidas
nenhuma delas reconhecida em cartório

pense não ter morada e colecionar boletos que nem figurinhas


dar a volta ao mundo em sete dias sem aprender nenhuma língua
fazer um poema pra cada lugar
rasgar os mapas no caminho e talvez por isso nunca chegar

me diga
se ainda assim
tem vontade de continuar
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1.

hoje uma pessoa


morreu

na minha frente

tudo bem

no mundo inteiro
morrem pessoas

mas essa foi


bem
na minha frente

não tive medo

segui tranquilo
comendo meu
cachorro-quente

tudo o que pensei


foi
quem estará
na minha frente
na minha vez

de morrer
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2.

a morte está me perseguindo


não é de hoje isso
se amarrou aos meus sapatos
não consigo dar um passo
sem esbarrar na sua saia

penso numa praia


já vai ela me afogar
me mostrar que o sol se põe
que amanhã pode chover

a morte ainda me surta


se peço um presente ela embrulha
se abro a porta mostra um verso
se mordo maçã me pede um teco

quando falo de outra morte se irrita


não quer lembrar do vô
não quer me ver em protestos
se ligo a tv me xinga
diz que o país morre pouco

uma vez eu estava num ônibus


cansado de esperar
cansado desse mesmo rosto
que não parava de me atrasar
perguntei se não descia nunca
me olhou e não mexeu uma ruga
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3.

o cheiro dos rios


tem a cara da cidade
a cor das praças
diz muito sobre as leis

uma senhora que fabrica farinha


tem farinha entre os dedos dos pés
um policial fede sangue

o que há por baixo das unhas


denuncia o que fazemos à noite
dá pra entender um cachorro cansado
observando o que tem entre os dentes

tem dias em que olho pro mundo


e sinto medo
de que seja espelho
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4.

dez pequenos suicídios


ou como entrar no mercado de trabalho:

um caixa aperta o botão


que dispara o apocalipse

a parteira vai se enforcar


com o cordão do umbigo
do próximo menino

o garçom envenena o que serve


sabe que vai comer as sobras

a frentista fura o tanque


da carona de volta pra casa

o taxista dirige bêbado


não aguenta mais
o mesmo passageiro

o bicheiro cai do terraço


no sonho que teve deu galo

a professora enfrenta a polícia

a babá cai na linha do trem


no colo as crianças que amou
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o coveiro enterra todos


quer morrer também
cansou de trabalhar

um poeta não sabe o que faz


tanto corpo pra recolher
e um texto pra terminar
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5.

o moleque sente fome


o moleque mata pessoas
sente fome porque mata pessoas
a gente não consegue entender
por que o moleque tem fome
depois que mata as pessoas

ele vê carro vê moto vê filme


revista óculos escuros
sobremesa beijo na boca
seleção brasileira pedintes bêbados

quer a fome de tudo

antes de sumir
vai matar e morrer mais ainda
quanto mais mata mais fome tem
gosta de sentir
vão dizer
de ver o sangue vazando
tem vontade de beber

ele tinha a cara da fome


quando me disse isso
mas não quis me matar
pediu pernas pra correr
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6.

a bala de um soldado americano


é bem mais cara
que a de qualquer oficial da força tática

justifica o emprego
a manchete em horário nobre

nossa morte é mais barata

são dezenove em osasco


seis no parque santo antônio
cinco em artur alvim
mais milhares até aqui
a conta não bate
o saldo não fecha
um tiro é suficiente
pra matar um ser humano
na gente dão cento e onze

walter não vale um ônibus até copacabana


caio não conta um plantão de enfermeiro
nossas notícias são vendidas em atacado
são segunda-feira sem pauta
intervalo entre anúncio de carro e refrigerante

troca-se dentes pelo almoço


dez índios por um diploma
sem-terra por adubo
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nossa morte é investimento


capital de giro na roleta russa
cinzas na fogueira da guerra fria
mármore e diamante decorando o busto

nossa morte não será mais problema


desde as florestas e navios
escondemos osso por osso
a morte barata faz fila
pra construir a forca
escolher a corda
e conseguir a bolsa
nada mais barato que meu corpo
na mesa da sua faculdade
de onde inteiro não saio
e só entro sem rosto

quer saber quanto custa


pergunte a uma mãe de maio
veja se cabe no bolso
20

7.

meu vô disse que sorrir é perigo


que às vezes vale o risco
mas a gente tem que medir

ele ensinava um monte de assobio


pra conversar com passarinho
quando fosse trabalhar
meu vô cortava cana em rodelinhas pra eu chupar
roubava abacate pra comer com açúcar
fazia uns arcos de bambu e umas flechas de palito
pra atirar quando chegassem os homens da lei

os cabelos do meu vô eram proibidos


as histórias do meu vô eram proibidas
as músicas que o vô cantava davam cadeia
e a cor que meu vô tinha
alguns vizinhos não queriam ter

era triste sem saber


mas era triste escondido

roça e enxada
caça e preá

vovô até construiu uma casa

eu não gostava do vô trabalhando


não ouvia o seu assobio
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e ele tinha que sorrir


toda vez que alguém passava

meu vô também morreu de banzo

não foi preso


não apanhou de pau

mas de pouco
suas histórias
foram se acabando
22

8.

era a minha vez de jogar o videogame


ainda ontem você disse que ia deixar
pra ver se aprendi mesmo
mas sei que não vai
disse também que o palmeiras
vai voltar a ser campeão
montou uma seleção
a gente assiste o jogo
o brasil volta pros eixos
não precisa mentir papai

não precisa dizer que volta


sei me virar por aqui
você disse que ia sair
disse que era logo
nunca pensei em esperar

papai
você quieto agora
mamãe chora
vovó chora
chora pequeno minha irmã
todo mundo pensando
qual história vão me inventar

pode poupar a pensão


não quero nome em documento
sou criança e não esqueço
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brinco com a morte todo dia


ela me cuida
sei o que é um caixão

ninguém precisa mentir

não precisa dizer nada papai


seu recado eu já entendi
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9.

a gente precisa falar dos escombros

o passarinho que pousava na varanda


pousa na pedra e na poeira
depois da demolição

a gente precisa falar desse passarinho

a mãe já perdeu três filhos


e transa todas as quartas-feiras
sem anticoncepcional

a gente podia ouvir essa mãe

o senhorzinho enterra mais um compadre


e faz questão de gritar
cuidei dele até o fim
falta de trato não foi
não foi
não foi não

quero almoçar com esse senhor

sei que todos os dias alguém acorda e vai morrer


numa guerra em algum lugar do mundo
mas tem uma criança me olhando de frente
enquanto balança as pernas
e batuca na cadeira

vou conversar com essa criança


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10.

existe mesmo a possibilidade


de sermos habitantes de uma realidade paralela
como num jogo de computador de outro cosmos
de sermos bonecos de crianças entediadas
babando nos teclados
preguiçosas demais pra nos deletar
e criar outra personagem

o universo todo pode ser uma cozinha


onde deuses e deusas discutem
quantas colheres de açúcar
quantas xícaras de farinha
vão na receita que ninguém anotou
e ficam putos e cansados
porque queimaram os dedos
tirando a forma do forno

já pensei que deuses fossem


todos homens
resmungando
burocráticos
aparecendo só na hora do enterro
como os pais dos meus amigos
e os rancores das mães deixadas
como em fantasias de avós
proibidas de inventar deusas pra conversar
é claro que um ateu reza quando o avião está caindo
que uma prostituta repete o salmo vinte e três
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de madrugada sozinha
que um tenente da rota se benze
quando atira e pisa em quem bem entende

a gente olha pro céu e não se aquieta


como se tudo estivesse lá
a gente inventa deuses que podem inventar a gente
e fica querendo saber o que comem no café da manhã
se arrumam a cama
se transam com mais de uma pessoa
se acham ruim quando chamamos de outro nome

deuses são guias ganhando dinheiro


com turistas que têm medo de assalto
e não sabem por onde
conhecer uma cidade

deuses são um pouco covardes


não dão endereço pra mandar carta
não devem sangrar quando ralam o joelho
não devem xingar quando perdem o ônibus

eu quero saber deles


quando cabem no colo
e onde estão depois daquela foda
em que a gente deixa a porta destrancada
onde ficam
quando a gente grita
e o grito toma o quarteirão todo
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11.

a vida é doce
caramelo
no fogo do juízo final
sorvete caído
no chão quente
os pés de açúcar
derretendo

já pisou descalço
provou por acaso

vida é medida no dente


ranger e rosnar
marcar território
migalha espalhada
trilha
rastilho de pólvora sabor nescau
maratona sem gatorade
atrás do próprio rabo

é uva passa no meio do arroz


mesa de sobremesa proibida antes da reza
a tia briga só de olhar
um copo de sidra meio cheio
derramado no carpete
fim de ano
fim de festa fim de férias fim de mês
qual o fim
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viver é assinalar todas as alternativas


e passar de série
de fase de lado de vez
a tal viagem que todo mundo quer contar

é estrada
e mijar no acostamento
a vida te deixa sem roupa
viver é pintar a pista em dia de congestionamento
cavar na pedra com a mão
tentando esconder o amor

alguém viu quem asfaltou

vida é carro na contramão


você tentando lamber o chão

vida é sentir o gosto


antes de atropelar
29

12.

a gente quer chegar no topo


o pódio é pequeno
não há espaço pro amor
ele não sabe subir degraus
é antes de tudo um esforço
um comandante com a guerra perdida
indo à batalha morrer
só pra não morrer sozinho

o amor nunca esteve na guerra


mas nele tem muito disso

perder pro amor é perder um pênalti


pro goleiro não ser crucificado
não se importar com o troco
errado de propósito
entregar o celular pro assaltante
e desejar boa sorte no corre

o amor te deixa frouxo

jesus nunca foi compreendido


não morreu por amor de ninguém
jesus foi assassinado

falar de amor é descabimento


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tudo é questão de espaço


o trânsito o atraso o aluguel
os juros a inflação
todos falam de amor e todos dizem não

lindas histórias não dão conta


nem versinhos clichês

é difícil aprender a amar


sem antes aprender a morrer
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13.

coisas importantes para saber antes de morrer:


coisas desimportantes para saber antes de morrer:

se você descascar uma banana e pressionar o centro


[ela vai se abrir em três gomos
se uma criança comer muita cenoura
[ela pode ficar com a pele alaranjada
a hortelã só libera o perfume quando é tocada
margarina estraga se passar mais de três horas fora da geladeira
dor forte do lado direito da barriga pode ser apendicite
a expressão “cellar door” é considerada
[o maior exemplo de beleza sonora na língua inglesa
minha vó chama chinelo de chinela
minha vó chama jaqueta de japona
eu acho muito bonita a palavra “abissal”
não suporto ouvir a palavra “papete”
a cachorra da dupla sandyjúnior se chamava nicoli
não gosto de figo mas acho linda a história de como ele é feito
uma formiga pode cair de qualquer altura e não morrer
algumas borboletas não vivem mais que uma semana
[mas seus casulos podem ficar grudados na telha por meses
abelhas ficam bêbadas com néctar fermentado
[e são punidas se chegam na colmeia embriagadas
no meu país morrem treze mulheres por dia
[e das que sobrevivem uma em cada cinco já foi estuprada
algumas pessoas na argentina foram criadas
[pelos militares que assassinaram suas famílias durante a ditadura
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grupos de extermínio entram nas “villas” da colômbia para matar jovens pobres
[e fazer o “body count” como se fossem guerrilheiros das farc
no deserto do atacama existem observatórios
[onde podemos ver nebulosas
os milhos no peru são coloridos
[e variam bastante nas formas e tamanhos
faz bem presenciar uma tempestade
33

14.

quase fui convidado


para a fiesta de los muertos
quase levei flores
quase acendi vela
quase pintei caveiras
na fiesta de los muertos

estou vivo demais pra ir


meus poemas andam ruins
sinto que encontraria um amor
na fiesta de los muertos
num vestido curto e azul
que coubesse em mim
contando histórias
de quando a gente se atrasa
e as mães velhas choram

eu já morri demais
para a fiesta de los muertos
se fosse de avião
o avião não cairia
se tivesse tiro na fronteira
não encontrariam corpos

todos os dias me arrumo


para a fiesta de los muertos
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queria ter visto


as pessoas bailando
as santas tristes
o carnaval mexicano
nos meus olhos latinos
que às vezes assustam
sempre que tentam
sair do brasil

não posso ir à fiesta


tragam la fiesta pra cá
espero que em meu velório
esqueçam os sapatos
e a gente ainda possa dançar
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15.

no dia em que você me matou


minha cama virou cova rasa
quando ficamos deitados
o tempo todo quietos
contei as aranhas que tenho no quarto
cultivando minha fobia
você sabia
não houve descanso em paz
não há mais vida eterna

minha casa ficou suja


sujo é o poema que tenho que ler
só um coveiro é capaz de limpar

ver sua escova no meu lixo


foi o tiro de misericórdia
atiçou meu lado bicho
arranquei os seus cabelos dos pelos da minha barba
o pior parto do pior dos mamíferos
já de funeral marcado
um envelhecer sem desenhos animados

todo dia virou segunda


preenchi relatórios lavei a louça cortei as unhas
perdi o interesse em ficar doente

eu que tanto sabia morrer


não soube a qual inferno ir
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não consegui tecer discurso


não houve lágrima perto de mim

só um caixão dentro do bolso


as mãos escondidas
o chão horizonte
e brilho nenhum nos olhos da rua
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16.

toda vez que lembro de você


encontro sangue na minha urina

como se revivesse
o parto do filho que a gente não teve
mas quis sentir a dor

eu insisto em lembrar
das suas histórias todas vermelhas
dos seus feitos e fetiches

acordo outra vez com o lençol manchado

é veneno daqueles que vazam ouvidos e narinas


servido num copo roubado de um restaurante
o motel que a gente não teve coragem de entrar
o sexo na sala da mãe logo depois das eleições

é sangue por todos os lados

depois de você
parei de assistir tv
aprendi a comprar absorventes
passei a ter medo de bandeides

meu peito frouxo não é o mesmo


depois da cirurgia
dói nos dias de frio
que você sabe que tanto amo
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você nunca foi


de me mandar coraçõezinhos
e eu agradeço

hoje entendo

isso tudo é sobre sangue


e estancamento
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17.

a última carta de suicídio


para mãe:

eu tentava ainda
entender o que acontecia
até que veio a notícia

você agora é o homem da casa

eu tinha cinco ou seis


o mundo inteiro era minha casa
muito grande pra dar conta
longe demais pra ser homem

quantas camas teria que arrumar


quantos cachorros teria que limpar

tive que erguer paredes


só sabia engenharia de praia
tudo desabou rapidinho
e fiquei me sentindo
o homem mais de areia
da casa mais de areia do mundo

não dava mais pra dormir no seu colchão


fui fazer cabana no corredor
assim os meus monstros não podiam te encontrar
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juro que tentei pentear os cabelos


aprendi de fato a amarrar os cadarços
mesmo que soltassem quando você saía

tive dificuldade em achar


outro jeito da gente existir

você nunca percebeu


naquele dia eu morri também
como morremos todos nós

me desculpe o silêncio tanto tempo


é o que se aprende no sepulcro

e se hoje posso contar


devo às cartas de suicídio que escrevi
terminadas com a sua assinatura
e uma nota de rodapé:

“não se esqueça amanhã


de buscar sua irmã na escola
e renascer”

hoje te mando essas cartas


você nunca me deixou morrer
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18.

meu sonho era morrer jogando futebol


meu pai morreu jogando futebol
do mesmo jeito que morreu
o serginho do são caetano
e o cara da seleção do camarões
assim no meio do campo
todo mundo vendo

meu pai não foi bem desse jeito


falaram que tava no jogo e foi na hora do escanteio
não tinha assim tanta gente vendo
o escanteio era na quadra e não num campo
mas na minha cabeça tudo aconteceu perfeito
eu não tive tempo de conhecer meu pai mesmo
então meu sonho ficou sendo morrer jogando futebol

eu tentei ser jogador de futebol


eu era muito bom goleiro
só sabe o que é ser goleiro quem já foi muito bom goleiro
eu treinava a semana toda no sofá da minha casa
minha mãe tinha medo
eu conhecia todos os times
cantava de cor a música do skank
assistia todos os jogos comentava todos os lances
falavam que eu sabia bastante pra uma criança
eu pensava muito em ser
jogador de futebol
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quando fugia pra rua me sentia


o melhor jogador pra morrer
podia ser em qualquer posição
meu sonho ficava perto

sempre imaginei
quando os olheiros me chamassem
como tiraria uma bola
como faria o passe
como sou bom nos lançamentos
me pergunto como deixam de fora tanto talento

meu sonho era mesmo ter morrido jogando futebol


foi rápido com o meu pai
e ele ficou parecendo um herói
eu acho que morreria feliz

hoje faço amigos que jogam futebol


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19.

omolu chora comigo


o mundo é pesado menino
as costas já podem doer

esse mundo não sabe morrer


omolu vai chorar sozinho

ele foi se esconder


acabou me achando escondido

me ensinou a dançar
me ensinou um tanto a temer
e quando já quase caindo
omolu levantou as palhas

ele me veio num sonho


chamou pra chorar também
por favor me ensina omolu
a chorar sem ser óbvio

omolu quando chora meu bem


fica muito mais bonito
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20.

como eu desenterrava as minhocas que encontrava


e depois chorava quando morriam no sol
a vida me desenterra uma vez por semana

queimo todos os dias


e o inferno não chega
já sofri dezesseis acidentes
nunca autorizaram a eutanásia
tentei uma série de suicídios
as armas que me vendiam falhavam

não posso ser um homem-bomba


um piloto kamikaze
um gerente executivo

minha cova é muito rasa


meu sangue não é compatível

minha vida é um desenterro

as minhocas são anelídeos que respiram pela pele


vivem na terra úmida pra facilitar as trocas gasosas
por isso morrem quando secam no sol
mesmo possuindo sete corações

eu tenho alguns problemas cardíacos


não tenho sete corações
alguém por favor pare esse desenterro

preciso me desculpar com as minhocas


45

21.

que horror
diz a moça sobre a morte
sem nunca ter visto seu rosto
como se ela fosse uma velha
que passa as tardes a tricotar
a corda pra nos enforcar
enquanto dormimos
ou fechamos os olhos
pra enxaguar o xampu

a morte tem tarefas mais importantes


do que te assombrar
perseguir heróis
ou inventar deuses
ela quer ir à praia chutar as ondas
ir à lua retirar bandeiras
sentar na calçada pra contar os carros

nem foice nem flores


traz nas mãos dois sorvetes
e te alerta pra que não derretam

não há nada que a comova mais


do que assistir a um parto
participar de uma transa
ou jogar videogames às quartas-feiras
a morte
acredite
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assiste futebol
recita poesia
e te espera depois do serviço
com chocolates pra jantar

ela me ligou
perguntando de você
há tempos que não te vê
tem muito o que contar
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AGRADECIMENTOS

ao dia em que enrolaram o bidu num saco e jogaram no terreno


baldio lá perto de casa
ao bidu que no dia anterior se arrastou pelo quintal inteiro pra
ficar na porta olhando a gente
aos olhos do bidu que eram pretos como o bidu que era preto
como o saco que enrolou o bidu e era preto como muitas coisas
que gosto e no fundo preto sempre foi minha cor preferida
à minha mãe de olhos pretos que no dia seguinte me fez reparar
que o bidu tinha se arrastado pelo quintal inteiro pra ficar olhando
a gente com aqueles lindos olhos pretos
à ambulância que nem sei se podia mas não chegou em tempo de salvar
meu pai na noite daquele jogo quando ele disse pra mãe que voltava
à minha avó que mesmo velha insiste em cabelos bem pretos e deu
cabelos e olhos pretos pro meu pai que me deu novos olhos pretos
aos genes que vieram da minha mãe e me fizeram daltônico pra
que algumas pessoas achassem que enxergo tudo preto
à minha mãe outra vez que diz que ponho a culpa de tudo nela e
por causa da nossa relação eu nunca disse te amo como nos filmes
daí tive que escrever poesia pra fingir que digo direito
ao meu outro pai ivo que hoje tem cabelos brancos e me deu um
real quando eu tinha sete anos porque escrevi um poeminha da
cabeça em branco
à minha irmã que faz bolos e demora mas lê meus textos
ao meu vô caboclo que pedia pra ouvir tudo que eu escrevia
e depois falava muitas palavras daquele dicionário amarelo que
só ele sabia onde guardava
ao canário amarelo que uma vez a gente achou de noite na chuva e
eu sequei ele todinho botei comida e água só um pouquinho e deixei
dentro do tanque pra descansar e poder ir embora mas quando
chegou o outro dia ele estava afogado com a água do tanque
à joaninha que uma vez salvei do aquário e curiosamente também
era preta fiquei cuidando semanas botei folhinhas e frutas dividia
com ela a comida até que esqueci o pote no muro e ela se afogou
de novo com a chuva mas deixou ovos pretos
à tartaruga que enterrei viva mas não sabia que estava viva porque
as tartarugas vivem muito e eu nunca vi uma tartaruga morta pra
saber se aquela tava morta mesmo
aos mamonas assassinas que eu não entendia direito mas foram
rapidinho pra eu saber que tudo morria
ao ayrton senna que me mostrou pela primeira vez o que era um
caixão de perto que eu lembro
às mulheres que me mataram e me deixaram dias fedendo no quarto
às situações que realmente poderiam ter me matado como o
acidente daquele carro com a roda por cima da minha cabeça
ao meu marca-passo que não é bem um marca-passo
às pessoas que fizeram as músicas
aos desenhos animados
ao dia em que fui de roupa colorida num velório
“quero morrer num dia breve
quero morrer num dia azul
quero morrer na américa do sul”

Rodrigo Campos em Velho Amarelo


pela voz de Juçara Marçal no disco Encarnado
deuses fazendo bolo ou ingredientes pra nascer de novo
foi composto em Adobe Garamond PRO 10,
e impresso na gráfica psi7 em agosto de 2017
em papel pólen 90g/m 2 para o selo do burro.