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Copyright © Editora Patuá, 2013.

Livre-me © Caio Carmacho, 2013.

Editor
Eduardo Lacerda

Projeto Gráfico, Ilustração e Capa


Leonardo Mathias | flickr.com/leonardomathias

C283l Carmacho, Caio.

Livre-me. / Caio Carmacho. – São Paulo: Patuá, 2013.

(Coleção Patuscada; v.V)

ISBN 978-85-8297-017-1

1.Poesia brasileira I.Título.

CDD – 869.91

Índice para catálogo sistemático:

1.Poesia brasileira : Literatura brasileira 869.91

Todos os direitos desta edição reservados à:

Editora Patuá
Rua Lobato, 86
CEP 03288-010 São Paulo - SP • Brasil
Tel.: 11 2911-8156
www.editorapatua.com.br
LIBERDADE

Livre-me, poeta, da poesia chata. Demorada. Da poesia


que quer ser poesia. O tempo inteiro. De nariz empinado.
Livre-me, poeta, da poesia verborrágica. Eu gosto é da poe-
sia feita nas ruas. Sem frescura. A poesia que dá nome aos
bois. Aos boys. Aos bêbados. E aos travecos. A poesia que
deseja a mudança de sexo. Em nome da beleza. Do amor.
A saber: “um dia trocaremos enfim o sexo / e os papéis /
e leremos juntos a gê magazine / do vampeta”. A poesia
cheia de humor. E de leveza. Feito a poesia feita por Caio
Carmacho. Neste seu esperado livro Livre-me. Conheço
Caio faz tempo. Das ruelas de Paraty. Em que ele soltava a
voz e as palavras. Desde sempre. Alguém que entende que
a poesia é feita assim. Na raça. No pulso. Na raiva. No li-
rismo que é libertação. Coisas que apreendemos. Quando le-
mos, por exemplo, as lições “100% algodão” que esse poeta
vem nos dizer: “a mãe adoeceu, / não teve jeito / aprendeu
sozinho / a lavar / as próprias roupas / desde então / nunca
mais tirou da / cabeça / as pequenas coisas / importantes /
a mãe, o alvejante”. Livre-me, poeta, assim, da poesia lim-
pinha. E continue nos dando (e doando) versos mínimos.
Sem pompas. Versos como esses aí de cima. E outros reu-
nidos neste bem-vindo livro. Tão leve. Tão livre.

MARCELINO FREIRE
para

minha mãe
e todos que fazem parte da minha vida

dedico este livro imperfeito


que para o bem ou para o mal,

é o melhor que nós temos


Amo a liberdade, por isso deixo as coisas que amo livres.
Se elas voltarem é porque as conquistei.
Se não voltarem é porque nunca as possuí.

- John Lennon, o poeta caminhoneiro


livre-me

ESTE LADO PARA CIMA

não se deixe enganar caro leitor,

para ler este poema é necessário


CUIDADO
muito cuidado

sua arquitetura branca e


FRÁGIL
pode não impressionar no princípio

afinal, para compreendê-lo a fundo é preciso


familiaridade e um manual prático
para interpretação de tipos

porque nem toda surpresa vem embrulhada


em papel de presente

nem toda surpresa


inclui pilhas

11
caio carmacho

nem toda surpresa


chega lacrada com um
cartão: de: para:

que nem todo entregador não


consiga violá-la

porque o poema, caro leitor,


é um eterno convite

conteúdo que cabe


numa embalagem que se abre

12
livre-me

meia furada

são trinta,
trinta e cinco
centavos

trinta e cinco
segundos

trinta, trinta
e tantos avos
desesperados

essa meia furada


sou eu
por isso amor,
não me ligue a cobrar

13
caio carmacho

porção para dois

para neném

amar
é substância estranha
insuficiente quando não boba
desnorteada

porque
antes de tudo
é palavra avulsa
solta no boçal
da boca louca

vai se metendo em tudo quanto


é brecha – clara e escura

por presságio,
quando damos conta do estrago,
já era

virou coração viajado

e uma romântica porçãozinha


de frango a passarinho

14
livre-me

a brisa como ela é

viaja meses sem passaporte


os agentes do governo nem desconfiam
a ousadia
enquanto barram imigrantes de diversas etnias
vai passando incógnita pelo detector
de metais
com seu hálito de halls preto
vitimiza rostos narizes olhos nucas orelhas
e sai pela porta da frente à francesa
sem autógrafos flashes
adeuses

atravessa ruas
descabela as horas
arranha gargantas
escapa às definições
e aos dedos

não contente
, antes de voltar ao trabalho,
tira para dançar

15
caio carmacho

todos os sacos plásticos abandonados


pelas feirinhas dos bairros

e os passantes pensam:
‘ai ai, que ventinho bom...’

e os velejadores pensam:
‘hoje é dia!’

e a mocinha do tempo:
‘uma nova frente fria se aproxima...’

e os parapentistas:
‘voar-voar subir-subir’

e a nasa:
‘houston, we have a poem’

e os andinos da praça da sé

bem... os andinos da praça


da sé
só pensam em tocar céline dion

para suas lhamas apaixonadas

16
livre-me

workaholics

às vezes um dos móveis


simplesmente estala

a pia pinga
a geladeira comunica seus
parcelados serviços

e no entanto os carros lá fora


se silenciam
dando caráter de grandeza
à vida inanimada que se gera aqui
dentro dos pequenos informes

enquanto o resto do mundo


dorme

17
caio carmacho

urbano rapaz

ele me aparece nublado

como um sentimento clínico


agendado

bate duas vezes na porta

sem resposta, vai-se embora

com aquele espectro de lixeiro


levando meu coração aos cacos

18
livre-me

horóscopo do dia

é de se pensar o que foi veio


e virá entre acertos e erros
sem o conforto da previsão
em seus direitos

enterraremos o mês de janeiro junto


aos nossos submarinos imaginários
planos de fuga irrealizáveis
receitas de bolo
e dicionários reticentes

vendados seguiremos em frente


com a nossa estranha e natural admiração
por diminutas coincidências
e pessoas sorridentes

19
caio carmacho

iniciais bb

para bruna beber

a musa de sanja
usou as palavras como rampa
e deslizou com sua prancha
através de risos e sentidos distintos

a repetição de bês abreviava


um estilo uma marca d’água
sua bunda estatelada
na calçada da fama

20
livre-me

latin lovers

um dia você vai entender


que eu não sou nada daquilo que
você esperava

príncipe de bengala
escondendo a espada

um dia você vai esperar


que eu nade a favor da corrente
rente à raia da ponta esquerda da piscina
onde você me aguarda
com raiva e uma toalha

meu piscalerta aceso


minha saída da sauna ou da praia

um dia você vai nadar e nadar e nadar


não dar em nada

e até lá talvez você me interne e eu te entenda


e passemos a nos frequentar religiosamente
às terças

21
caio carmacho

um dia trocaremos enfim o sexo


e os papéis
e leremos juntos a gê magazine
do vampeta

e desse dia em diante


todo canto de sereia
será regido
por escopetas

22
livre-me

cordão das borboletas

salvem os radicais livres


do extermínio cotidiano

máscaras de oxigênio caindo


sobre nossas cabeças

instrumentos necessários
à sobrevida do pensamento

23
caio carmacho

objeto voador

não identificado
balão de hélio
furado
estrela vulgar
a vagar
no céu de gêmeos

só por hoje
não seremos mais

os mesmos

24
livre-me

livre-me

cada qual
me soa
inteiro

quanta letra
me falta
um tanto

de ser leve
o que solto
é canto

25
caio carmacho

fuga de alcatraz

e de repente a gente arrisca


risca o fósforo sobre a monotonia
tchau colchão
zona de conforto
falsa alegria

26
livre-me

latido

eu vi os artistas da minha geração


comendo costelinha c/ molho barbecue
no outback
vagando feito espectros em blogues e redes sociais
da internet
fumando cigarros mentolados ilegais

falando sobre pós-modernidade


da moda da música do cinema da literatura
da filosofia do comportamento das novelas
da publicidade

invejando brandamente o sucesso


alheio
e pleiteando novos esquemas
espaços e vantagens

eu vi os artistas da minha geração


gritarem em vão
por reconhecimento

até serem descobertos


e descartados pelo mercado

percurso efêmero até o abismo


o ostracismo o instagramismo
e o esquecimento
27
caio carmacho

haraquiri

uma gueixa nua chorando


sobre o tatame
após uma longa luta marcial

as lágrimas empapando o arroz


afogando os pedaços de cebola
da cumbuca de sopa

não tem outro jeito, eu digo


com impostação teatral

e coloco minha armadura


como um samurai anacrônico
que esconde seus sentimentos

e que morre por dentro só de pensar


naquela racha sendo aberta
por outra catana afiada

28
livre-me

bas-fonds

entre os dias e horas


marítimas

descortinadas

carcomidas

a cidade se desliga
feito vitrolinha

e existe algo
suspeito

uma fugaz vulgaridade


teatral perdida

algo pralém
do que é corpo
trabalho
arte
vida

29
caio carmacho

existe o silêncio das coisas


que não precisam ser ditas

a mulher que gratuitamente


me mostra as tetas só quer
(naturalmente)
ser reconhecida

e vai saber

umas duzentas e quarenta


e três noites

varadas a assaduras
& biritas

30
livre-me

mulher de meia idade

para flávio de araújo

te procuro embaixo das mesas


(qualquer mesa)

ali opaco,
fazendo sombra

como uma promessa


que não se cumpre

sem prazo de validade

percorrendo enganada
a madrugada ausente

toda tola, tolinha


buscando membros dormentes

tiro a calcinha para melhor


sentir o mundo fora
de mim

31
caio carmacho

mas o mundo é acanhado


e não se aventura em patrimônios
tombados

esvazio copos de cachaça


e café

temperando ao meu modo


a vaca atolada,
prato do dia

pro primeiro maluco


que vier

32
livre-me

rins

o que me entristece
não são os 5 reais gastos,
mas a alegria
transbordando a latrina

33
caio carmacho

matrioshka

você é como uma boneca russa


dentro de outra boneca russa
dentro de outra boneca menor
e russa

quantas personalidades uma mulher


pode ter?

só os futuros cientistas
poderão saber
em uma autópsia exata de sua psique

mas não saberão de ti


o que sei

o estrondoso momento
que precede os dias sangrentos

34
livre-me

casamento/conversão

este sou eu
fumante traveco boêmio poeta palhaço
(mãozinha pro alto, aleluia sr!)
um dia antes de você me transformar em:
santo barroco, marido de louça,
codorna assexuada, manequim de
loja de 1 e 99
dessa triste cidade

nosso amor é limpo


e asséptico
não aceita devoluções
cheques nominais ou revoluções

todos esperam dele a nova safra filial


crianças destruindo o playground fugindo
pelo ladrão às pencas

nosso lindo legado é um enorme cacho


de bananas verdolengas
a música-tema da última novela das oito
pairando sobre todas as cabeças

toalhas de banho bordadas com


as nossas iniciais
e nada maaaaaaais

35
caio carmacho

laerte

como defini-la
quando está vestida
com seu batom encarnado
e sua fisionomia de tia?

como negar sua genialidade


diante de uma descoberta
eminente
uma transcendência
tardia?

como recriar a personagem


independente das convenções sociais
e toaletes da cidade?

36
livre-me

augusta

tão diferente quanto galápagos


em sua biodiversidade
& fauna sui generis

vidas paralelas,
caminhantes sem destino

câmeras no lugar de olhos


ipods ao invés de ouvidos

darwin chora nos ombros


de uma puta

enquanto piazzolla
toca um tango argentino

37
caio carmacho

cachaça coqueiro

para dudu e toda a família mello

te devo meu lirismo


minha cirrose
e uma série de coisas
que não recordo agora

38
livre-me

o enredo efêmero da passista

chove
e você sai descalça na rua
e você sai nua na rua
e você sai pintada na rua
e você é sufocada na rua
e você bebe a água da chuva
e você sorri chora
grita agoniza reza
para que o fim do mundo
seja agora
colorido nítido lírico
como um último
suspiro
de vida
numa
quarta feira de cinzas

39
caio carmacho

turismo sexual

na geografia do corpo
sou mais a pornografia

dos sentidos

40
livre-me

rio

o sol se estende
da orla das têmporas
aos mananciais
dos pés

litros de espíritos superpostos


acumulados em bancos de ônibus
e táxis clandestinos

monólito vivo da sagacidade


estandarte do descompromisso
a cidade suspira golpes
a cidade aspira mofo
a cidade urina
amores

enquanto 8 mil alto-falantes


da furacão 2000
estouram os tímpanos
do infinito

41
caio carmacho

no dia que eu parar de fumar

não haverá fogos nem rojões


de torcidas organizadas e desorganizadas
não me ofertarão virgens para serem sacrificadas
não me convidarão para surubas ou festinhas
vegetarianas
regadas a suco de laranja

no dia que eu parar de fumar


nenhuma estrela brilhará inédita no céu
nenhum feriado será decretado
nenhuma moção de aplausos acontecerá

ninguém reprovará minha loucura


ninguém recomendará terapia
ninguém dirá o que todo mundo diz

no dia que eu parar de fumar


me tornarei careta oficialmente
e dispensarei todo o álcool do planeta

e todos os poemas serão saudáveis


com o hálito fresco brotando
da boca, corpo e cabelos

no dia que eu parar de fumar


por maior que seja a minha vontade
o mundo não se acabará
42
livre-me

saravá onan!

um lance de dedos jamais abolirá


o desejo

43
caio carmacho

um oceano de candura & fetiche

que me perdoem
as castas
mas nada me deixa
mais tarado
que
você, dentro de um box,
cheirando
à água sanitária

44
livre-me

espírito natalino

que seus parentes bêbados não destruam a mesa


vomitem nas samambaias briguem no meio da
ceia no meio da rua à porta do banheiro por
causa de herança da opção sexual do time de
futebol de um dos sobrinhos afastados que até
pouco tempo atrás dividia o quarto com mais
dois universitários de curitiba imagine só a cena
sua vó chorando a morte do poodle da família
dizendo que preferia morrer a ter que continuar
os dias sem ele seu pai introspectivo registrando
tudo ao mesmo tempo com a tekpix última
geração profetizando que se o mundo não acabou
no dia 21 foi por um erro de projeção mas que
deste natal ninguém passará incólume enquanto
os menores rasgam suas caixas e agradecem
a graça recebida as bermudas e camisetas
importadas da feirinha você suando feito um
cavalo enchendo o cu de peru flertando com o
decote daquela priminha adolescente de seios
desenvolvidos e procurando as palavras certas
para se desculpar com a noiva namorada a vida é
assim mesmo meu amor todas as passas são uvas
de águas passadas.

boas festas!

45
caio carmacho

interlúdio sem pau nem cabeça

estávamos todos sentados e todos sincronicamente


acenderam cigarros. ninguém aqui é bom no carteado.
damos o papo, não as cartas. e daí, quem começa?

depois de um trago, o ansioso: não vejo razão nenhuma


pra essa reunião. um mundo inteiro lá fora e nós aqui.
que esperança há nessa porra?

o sensato intervém: temos que chegar ao fundo disso. esse


é o verdadeiro sentido de nos reunirmos.

o deprimido: não sei… não sei…

fico quieto, quieto por completo. toda a cagada começou


com um interesse comum e foi envolvendo todos os
participantes. agora perdeu o motivo de ser.

o desligado permanecia desenhando qualquer coisa no


papel. ao seu lado estava o escrachado que achava graça
na cena toda e o emotivo que se segurava pra não chorar
na frente de todos. e eu, quieto.

apesar do silêncio naquele espaço, diversas vozes


interferiam numa possível comunicação interna. uma
confusão que vinha de fora. de repente, mas não

46
livre-me

inesperadamente, a campainha tocou. levantei-me para


atender enquanto os demais continuavam se encarando.

abri a porta e escutei um comentário em tom menor


vazar da mesa: ‘ele sacou que a gente sabe’. devolvi uma
ruga de interrogação. todos os olhares se desconversaram.

passei pela mesa direto pra cozinha. um copo d’água e


um curto namoro com o escorredor. regresso à sala e uma
das vozes se exalta alterada: e você, não diz nada porra?!

por mim, vocês todos que se fodam! – e cortei meu pinto


fora com uma faca de pão e taquei no tampo da mesa.

todos se entreolharam assustados. o emotivo não se


conteve e desabou em lágrimas. pegou o pinto nas mãos e
começou a beijá-lo como se fosse um reencontro ao mais
primitivo dos seus instintos. nesse momento, todos os
olhares se encontraram e se entenderam e começaram a
acariciar o caralho e a fazer danças ritualísticas.

e todos começaram a se fuder com o meu pau e eu sem


pau agonizava agora aos pés do sofá. uma poça de sangue
foi se formando e crescendo progressivamente ao meu
redor.

eu não gritava. na verdade, eu até gostava daquela


sensação de esvaimento. todas as entidades da minha
personalidade se consumiam num só motivo, um só
objetivo.

a partir de hoje, meu nome é roberta close.

47
caio carmacho

livre-me II (um conceito)

como bíblias perdidas


num baú de família

como pecados

como pedidos

como livros trocados


e nunca lidos

como a lida diária

como a bandeira
da frança

como um bezerro
de ouro

como memórias
difusas

48
livre-me

como araras
criadas em cativeiro

como um sms
psicografado

como as canções
de gil tom zé caetano mautner jorge ben e macalé

como explosivos caseiros

como poemas impublicáveis fotografias


desbotadas máscaras de papel machê

te dedico a maior fatia do meu cinismo


& minhas sinceras desculpas

49
caio carmacho

overture XXX

augusto de campos recita poemas visuais


numa praia de nudismo
manoel de barros compra um grill
no magazine luiza
adélia prado vai com preta gil
passar o carnaval na bahia
poetas marginais dão aulas de etiqueta
na ABL
e você aí
esperando godot
comendo trakinas
perdendo noites de sono
com o monstro do ralo

50
livre-me

eu acústico

para pedrote

MÚSICA que sou som


SOM que dimensão traz
traz de DIMENSÃO em
ver o que sequer sou

música de DIMENSÃO é
dimensão de SOM foi
é de MÚSICA se
fim da lembrança de
quer quem seja fui

51
caio carmacho

1º semestre de semiótica

na faculdade
descobri essa máxima de marx
via haroldo de campos:
‘ser radical é tomar as coisas pela raiz/
e a raiz para o homem, é o próprio
homem’

na época
tudo o que eu via
era a sua bunda

e como niemeyer
sonhava linhas curvas

auscultava os tremores
produzidos nesta
fábrica de signos
escatológicos e maravilhosos

52
livre-me

toda montanha
serra arco
ficava no chinelo
comparada a esta imagem
primordial

que ao truque
de um salto agulha

revelava a beleza exata


da morte

duas luas
eclipsando o sol

53
caio carmacho

fortuna crítica

não critique a obra critique o autor não critique o autor


critique a obra o autor a obra o autor a obra

oh! sejamos críticos, meus irmãos


(amargamente críticos)

54
livre-me

a poesia contemporânea é...

a)
- marulho
- bramir de vozes geracionais
- freestyle
- estampido de biribinha
- calotas polares derretidas
- incompatibilidade de gênese
- hienas no cio
- monturo estético
- jesus desolado (je suis désolé)
- a arte bela-bélica por ela mesma
- um elefante branco atravessando a folha em branco
- tiê-sangue
- biro-biro
- o ego do poeta q está cansado de sobras
- ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ fez redução de estômago
- ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ saqueou um orquidário
- ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ saiu em turnê pela europa
- ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ ‘’ mandou lembranças

b)
- comprimidos antidepressivos
- rodinho de pia
- roda-gigante

55
caio carmacho

- toadas
- tráfico de influência
- torradas
- charutos cubanos
- tomadas
- extrema-unção
- boneca vudu
- talk show
- greve de metalúrgicos
- ausência de sentido
- hecatombe
- lado b do lp do agepê
- artigos de segunda mão
- sacolé de morango
- obturação
- golpe de karatê
- sex shop 24h
- armação ilimitada
- pompoarismo
- lasanha congelada
- desperdício de tempo
- dispersão
- fonte de proteínas
- velhas em chamas
- diversão para toda a família

c)
defina-me
ou
te deformo

56
livre-me

homenagem a ws

a palavra circunscrevendo a palavra circuncisão do prepúcio


do sentido do duplo sentir do siso da bílis sibilante sublunar
a palavra enquanto motor radiador graxa gasolina choque
de ordem
o poeta atravessa o século na faixa de pedestres (jogo de
amarelinha)
a lamborghini preta da contemporaneidade se choca com
seu corpo
o poeta é feito de ar mas ainda assim acaba na UTI
pessoas gritam mandingam entoam versos mantras –
fernando, pessoas
o poeta: - meu reino não é deste mundo
o poeta queria fazer uma tatuagem de henna: ‘não contém
glúteos’
queria esgotar a caixa de gordura do planeta
queria fazer lavagem cerebral e luzes no cabelo
o poeta-sol se põe para nascer novamente

o poeta VIVE – O POETA MENTE -


TRANSCENDE, o poeta É

57
caio carmacho

dois graus de miopia

escrever na 3ª pessoa
reconhecer
que existe vida inteligente
lá fora

que a terra gira além das órbitas


dos olhos e do umbigo

que nave e tripulante


edson e pelé
ferro e ímã

são as mesmas outras coisas


ressignificadas pelos pontos de vista

58
livre-me

afinidade

tenho carinho especial por canetas


isqueiros e bujões de gás

sem desmerecer chapéus & óculos


que também entram na lista dos favoritos

nossa relação sempre foi harmoniosa

só fico deprimido com despedidas


repentinas

muito difícil tapar o buraco que fica


transferir os sentimentos

o dom de amar deve ser mais ou menos


isso

como escreveu certa vez


paulo henriques britto

59
caio carmacho

caixa alta

não tenho feitio


para explosões

prefiro polinizar
palavras

a polemizar situações

60
livre-me

baratas aladas

vêm e vão
vão
e vêm
no
vaivém do

verão

61
caio carmacho

em algum lugar, gullar

do asteroide B612
da galáxia de saint-exupéry
o pequeno príncipe
dá uma geralzinha nos vulcões
ameaçado pelo humor instável
de uma rosa carente e
bipolar
arranca melancólico os últimos vestígios
dos baobás
e aguarda a revoada dos pássaros
para emigrar em bando para outro lugar
enquanto
no planeta terra
na cidade outrora conhecida
como são sebastião do rio de janeiro
à rua duvivier 49
um poeta de oitenta e poucos anos
ajeita os óculos e medita
sobre morte gatos galos frutas
estrelas flores vivências pessoas pinturas
ao mesmo tempo que mira o horizonte
e limpa as unhas

62
livre-me

aberto-fechado

desde que o mundo é mundo


tudo se move nessas paralelas
não adianta mudar o eixo
usar de capoeiras do sentido
para formular um desfecho
imprevisto

a beleza convulsiva
deve vir naturalmente
caso contrário o poema
se metaforiza no cárcere
da sua própria semente

63
caio carmacho

o poema pergunta ao poeta como veio ao mundo

papai fez você de pau duro

64
livre-me

genética

do pai
herdei o sobrenome
a falta de senso prático
e as mãos sem calos

a possível careca
alguns livros do italo calvino
hemorroida e dívidas hereditárias
de empreendimentos extintos

quero acreditar
que não sou a continuação de meu pai
ainda que o nariz e o sorriso
possam me denunciar

65
caio carmacho

férias frustradas

as trombetas da liberdade
soarão tão altas quanto as buzinas dos automóveis
de passeio

o sol irradiará sobre os calangos


e animais rasteiros de beira de estrada

a expectativa se perderá com as frequentes


ultrapassagens e calotas abandonadas

e mesmo assim, sensações de paz


e esperança tomarão os incautos espíritos

que seguirão obstinados e em marcha lenta


na pista única que leva até a praia

rá, a praia...
parece que é logo ali
bem longe de hoje

66
livre-me

mashup

eu de cueca abrindo uma brahma gelada


a queda do muro de berlim
o espelho do banheiro, o embaço, o suor das coisas suas
gotas
crianças atirando pedras nos jambeiros
um lençol branco um corpo estendido pessoas ao redor
de pessoas
: “não há nada para se ver aqui”
é proibido proibir
a vida com suas lentes polarizadas
convida para
uma dança espontânea
uma foto espontânea
um beijo espontâneo
um macarrão instantâneo
uma barra forte rasgando ruas sem freio
abrir os olhos dentro da piscina
abrir os olhos dentro do mar
abrir os olhos dentro da vagina:
respirar

67
caio carmacho

uma coleção de clichês pode me servir perfeitamente neste


momento
plataformas de petróleo
extraindo lágrimas dos olhos

um pavão que abre seu leque


prismático
não sabe os abalos sísmicos que provoca

a beleza é uma península situada


entre o coração o pulmão e o cérebro

de nada adianta fotos e postais

quem nunca esteve lá, além de não saber


o que estou
sentindo

não faz ideia do que estou


falando

68
livre-me

maturidade

nasci aberto para o mundo


e exatamente por isso
demorei muito para
aprender a dizer
não

o alvo preferido
das atendentes de telemarketing
dos ambulantes
dos crentes
dos bêbados
dos mendigos e
instituições de caridade

o incrível engolidor
de batráquios
que tomava no rabo
pelo chefe
que nunca negou
a vontade da mãe
da namorada
dos amigos filhos irmãos e afins

69
caio carmacho

e isso tudo pra quê?


não adianta ser
gente fina e esperar
em troca
uma estátua de bronze
a medalha da são silvestre
uma recompensa divina

divino mesmo
é ter um não sob medida
se aquecendo no ringue
ansiando a sineta
para desferir o maior golpe
da língua

70
livre-me

western spaghetti

a trégua cessou com a chegada


do carteiro
não se aproxime, eu disse
ele ignorou
adverti-o novamente
me olhou de esguelha
um feno cruzava as duas extremidades
da garagem
um carro de som anunciava as pamonhas
de piracicaba
as contas do mês
me acertaram mais rápido que
qualquer bala

71
caio carmacho

tragédia doméstica – 1º ato

- tô ficando maluco!
digo com ar grave de quem enxerga luz
no escuro

ela me encara e bebe suco

72
livre-me

cronos mandou um beijo

após a queda
de energia
todos os relógios
tornaram-se autônomos

& cada dormitório da casa


adotou um horário
específico de gestação

daí em diante
minha passada do banheiro
para a cozinha às 9h30
virou uma marcha-ré em delay descompassada
espremer as espinhas vespertinas
= um ato longuíssimo de horror e higiene
o dia por sua vez
ficou curto
para tanto sono acelerado

RETROCEDER:
o pé de feijão virou broto num king size de algodão
ex-namoradas voltaram mortas-vivas de suas tumbas
para cobrar eterna fidelidade

73
caio carmacho

regina casé se transmutou em chacrinha


a boneca nº2 da xuxa
veio buscar minha alma na calada da noite
após arranhar as coxas e costelas de toda
a família

AVANÇAR:
vejo os filhos dos meus filhos tendo
filhos e mais filhos
brigando pela herança e me mandando
prum asilo
vejo também mulheres com guelras e crianças com
nadadeiras
comprando oxigênio genérico no atacadão

PROSSEGUIR:
o tempo é o não-tempo
e o não-tempo é o não-espaço

toda lembrança é contraditória


já que a vida é invenção
o futuro uma astronave
sem gps e direção

freak show
ficção
somos todos ilhas oníricas
de sentimentos em edição

74
livre-me

informe publicitário

é necessário dizer
em caráter de urgência
que a vida não é só alarde

que a coisa mais sensacional do universo


está em falta no mercado

que o horário de funcionamento


varia de acordo com o feriado

que o preço da prateleira


não corresponde com o do caixa

que ser eleito o bebê hipoglós amêndoas


é uma vergonha desnecessária

que a promoção relâmpago


do amor-próprio
encerrou semana passada

75
caio carmacho

metralhadora giratória de currículos

tomar de assalto
o mercado
como um pirata
invadir todas as costas
com textos de apresentação
prontos
no claro pretexto
dos sem-terra
de assumir os latifúndios
improdutivos
à revelia da bandeira estatística
cravada
numa caverna escura
de ilusão e desencanto
a quimera do salário
a cercear nossos dias e alegrias
prazer, minha experiência
de vida
não faz jus a nenhum portfólio

76
livre-me

oração para ades, o deus suco

ergo o cálice de requeijão


e faço um brinde
ao deus dos deuses
invocando das profundezas
de minha gaveta de verduras decaídas
e frutas imemoriais
a fé inquebrantável em sua força
oculta

vaca profana de tetra pak sob a luz


frígida de minha geladeira

seu sangue de maçã de soja tem poder


seu sangue de uva de soja tem poder
seu sangue de manga de soja tem poder

abençoado vou à academia


onde te abro e te sorvo
como um fiel absorto
na sua própria adoração

77
caio carmacho

sejam louvados em todo o universo


todas as casas todas as camas todas as gôndolas
de todos os supermercados
paratodoosempre

ó magnificente deus sucão


e seu insólito rebanho

amém!

78
livre-me

o sonho antes do sonho

isto não é
uma notícia
ou sequer um cachimbo
não é música
poema
abismo

não são anjos caídos


tocando violinos no meio-fio da vida
não são números primos

não é concerto
a céu aberto
reunião de família
fonte alternativa
de energia

mas pode ser silêncio


seca
escassez

79
caio carmacho

pode ser o lado


escuro da lua

um enroladinho
de salsicha

a vizinha gostosa

o universo numa casca


de noz

ou tudo ao contrário

cinemas assistindo pessoas

cidades gozando
pontes

automóveis sonhando avenidas

rotinas ofuscadas
pelas supernovas destes dias

80
livre-me

lição 100% algodão

a mãe adoeceu,
não teve jeito

aprendeu sozinho
a lavar
as próprias roupas

desde então
nunca mais tirou da
cabeça
as pequenas coisas
importantes

a mãe, o alvejante

81
caio carmacho

público-alvo

não quero poesia florida


sem sal

cheia de eufemismos
e nunca mais

patéticas imagens, pornografia grátis,


previsibilidade ou ensejos
verbais

quero que minha via


tenha razão de ser

bala perdida na cabeça


de quem me ler

82
livre-me

uma balada hardcore para silvia saint

você
que de santa nunca teve nada
que povoou meu imaginário
e minhas estantes pornográficas
com audaciosas posições ornamentais
na década de 90
onde está você
silvia saint
q não te escuto/ toco/ vejo[???]
em que site te downloadear?
já pedi pro odair josé
compor uma balada
na linha de ‘cadê você’
para lhe oferecer
nu em pelo
quando aterrissar
na república tcheca
levarei todo o meu dinheiro
e uma réplica sua de silicone
e finalmente você será minha

83
caio carmacho

só minha
sem cu doce (ou com, como preferir)
quando o inverno chegar
eu quero tchu eu quero tchá
te ofertar meu leite ainda quente
me batizar na fonte do deleite
e renascer feito um lázaro ou um alien
do seu ventre

84
livre-me

mosh

para o bem e para o mal, a vida acontece. não adianta


divisá-la, evitá-la ou isolá-la com arame farpado. não
adianta, a vida atravessa. esse é o mistério, esse é o
fascínio: certeza que o tombo equivale ao salto

85
caio carmacho

da urgência das coisas

a ambição
possui 7 cabeças
que pensam sozinhas
individualmente

seu delírio
não pode ser medido
por uma trena invisível

hoje acordei e ao meu lado


dormia profundo o sonho da casa própria
o carro do ano que nunca terei
as deusas gregas do photoshop
os lençóis de 600 fios
as viagens imaginárias ao velho continente
a tv de led 3D
a ilha de caras
e o número certeiro da mega-sena

aos poucos a utopia


vira ruína
artigo de galeria

e eu te pergunto, meu chapa


sua vida sem um iPhode
foi só alegria?

86
livre-me

o amor, este náufrago

ilhado
entre o horizonte e o mar

sonhando acordado
na fenda secular
de cada dia

desastrado que é
no seu labor de

vida

engendra
gestos artificiais
&
flores do mais

no jardim onde dois


pares de remelas

são milagres matinais

87
caio carmacho

a importância do convívio

dia de velório reúne


a família

ninguém sabe ao certo


o motivo
é um aniversário
ao contrário

a morte
serve para lembrar
o que se deve guardar

plantar os vivos

cuidar

dos vivos

aguentar os vivos

viver
com os vivos

enquanto há tempo

88
livre-me

ilha grande

mergulho de risco ao íntimo


nove a dez estragos irreparáveis
corais ouriços e outras armas naturais
perfurantes

o oxigênio é pouco
e caro como as visões
acima da raridade

afundar como pregos


e barcos
no fundo profundo

mais halo
menos fôlego
mais útero

89
caio carmacho

para um coração colado com durepoxi

há vida ainda

ávida por uma birita

por uma virilha

por uma mobília

por uma cabrita

ainda vida há

no mar na rua na banana na enciclopédia no farfalhar

vida que começa vida que segue vida inquieta pós-vida

háinda?

pois sim, um soco um tombo um brinde um toco

vida de cão de vaias e vísceras

90
livre-me

renovando conceitos aparelhos convênios alegrias

tomando banho de lua de sal de rosa de sol de chuva

rindo alto nas avenidas

obliterando tristezas

sublimando desejos

cicatrizando feridas

de água-viva

desvios - atalhos - vias

vidavidavida

seja sempre bem-vinda!

91
caio carmacho

metafísica

para nádia

e antes mesmo da
grande estreia
você já é uma entidade
um nome uma data uma hora
um signo uma cidade um país um sexo
uma ideia uma ciência uma esperança
uma possibilidade

você é choro e riso


matéria de que é feito o pão
ponto de partida/
linha de chegada

você é um improviso de jazz


as manhãs chuvosas
uma pia cheia de louça
e o sal marinho

você é as suas roupas


você não é as suas roupas
às vezes você é os seus livros
a sua cama o seu quarto

92
livre-me

sua existência impregna


os dias
de sentido

em cada coisa
restar-se
o império do avesso
sobre o direito

em cada pessoa
estar coabitar
o império dos vivos
sobre os mais vivos ainda

porque todo mundo nasce sozinho


porque a vida é puro ruído
porque todo mundo morre
sozinho

mas sempre em boa companhia

93
caio carmacho

composição

e agora
que faremos

faremos nus

94
livre-me

livre-me III (ensaio & conclusão)

livre-me como um pedido do livro-objeto


um mendigo que dá moedas no semáforo
um slogan de modess

livre-me como passe de mágica


oferenda de réveillon
abolição da autorreferência

livre-me: um mantra
uma proposta
um estratagema

livre-me dos rótulos


dos complexos
olheiras
correntes

literárias ou não

livre-me dessa cruz pesada


leve-me para casa
lave-me com buchinha

and love me
como se não houvesse amanhã

95
Coleção Patuscada

Outros títulos

Pequenos delitos - Anderson Petroni


Poemas em Autoplágio - Wilson Caritta
Tempestardes - Leo Chioda
Corpos em cena - Susanna Busato
Domingo no matadouro - Marcelo Pierotti
Caravana - Carina Castro
Frágil Testemunho - Luiz Brener
Segredaria - Cel Bentin

Esta obra foi composta em Adobe Garamond Pro


em outubro de 2013 para a Editora Patuá.

‘livre-me’ é o livro de estreia de caio carmacho e traz uma seleção


de textos escritos nestes últimos 10 anos de produção poética - entre poemas
já publicados na internet (em blogs, sites, redes sociais
e revistas literárias virtuais) e inéditos.
o título é uma brincadeira com o verbo livrar
(se libertar, ler, livrar-se de, ser livre, jogar fora etc.),
e também um convite aos leitores ou um pedido do próprio livro:
LIVRE-ME = LEIA-ME. uma curiosidade: o título do livro
nasceu antes da concepção do mesmo, provavelmente no balcão do extinto
toronto, bar que funcionou muitos anos no centro histórico de paraty.

Tiragem de 1.500 exemplares