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Editora Penalux

Guaratinguetá, 2016
EDITORA PENALUX
Rua Marechal Floriano, 39 – Centro
Guaratinguetá, SP | CEP: 12500-260
penalux@editorapenalux.com.br
www.editorapenalux.com.br

EDIÇÃO
França & Gorj

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS
Furio Lonza

IMAGEM DA CAPA
“Houdini” de Joniel Santos /
Boneco em papel e intervenções 3D de Vivian Albuquerque

FOTO DE CAPA
Mauricio Wanderley

PROJETO GRÁFICO E CAPA


Alexandre Guarnieri

FINALIZAÇÃO E DIAGRAMAÇÃO
Ricardo A. O. Paixão

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Vagner Rodolfo CRB-8/9410

G916c Guarnieri, Alexandre. 1974 -

Corpo de festim / Alexandre Guarnieri. - Guaratinguetá, SP:


Penalux, 2016.
132 p. : 23 cm.

ISBN 978-85-5833-053-4

1. Literatura brasileira. 2. Poesia. 3. Poema. I. Título.

CDD B869.1
2016-93 CDU 82-1

Índices para catálogo sistemático:


1. Literatura Brasileira

Todos os direitos reservados.


A reprodução de qualquer parte desta obra só é permitida
mediante autorização expressa do autor e da Editora Penalux.
Sumário

Capítulo hum:
Darwin não joga dados, Mallarmé sim
o átomo de carbono (i) 16
sangue | suor / e celulose (i) 18
o átomo de carbono (ii) 20
sangue | suor / e celulose (ii) 22
o átomo de carbono (iii) 24
\\ livro aberto // 26
o átomo de carbono (iv) 28
(( ( útero ~ incubadora ) )) 32
bem-vindo à terra firme 34

Capítulo dois:
Corpo-só-órgãos
|( os órgãos internos )| 38
(/no filtro: (o baço), (os rins), (o fígado)/) 40
<< no coração >> 42
>( os pulmões )< 44
mecânica dos fluidos
/ o sangue 46
/ o suor 48
/ a lágrima 50
/ a saliva 52
/ do sêmen ao leite materno 54
/ a urina 56
/ a bile 58
/ o pus 60
/ a fleugma 62
/[ todo corpo ]\ 64
[| a pele |] 66
| ||| são oito ||| | 68
| cabeça / ombro / joelho / e pés | 70
( | o crânio humano | ) 72
) ) os dois ouvidos ( ( 74
labirintite 76
( ) os dois olhos ( ) 78
o glaucoma 80
:| resta um rosto |: 82

Capítulo três:
Vigiar e punir
ânus humano ( . ) ônus santo 86
o sono / a preguiça 88
[ ] corpo de prova [ ] 90
biótopo 92
pílula 96
cotidianometria 98
/ limitrofagia / 100
< < < retrogressão 102
outra coisa | dismorfofobia  106
+ necrópsia + 108
mandala de houdini 110

Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita:


dois estudos para o Corpo de festim
a mão direita: No corpo do texto: A poesia atual (e real) de
Alexandre Guarnieri 115
a mão esquerda: Nosso Corpo de Festim 123
À minha mãe
Afonsina Guarnieri
guerreira e amiga

Aos parceiros de escrita e vida


Úrsula Hartalian Lautert
Mariel Reis
Roberto Dutra Jr.
Furio Lonza
Alberto Bresciani
Izacyl Guimarães Ferreira
Adriano Wintter
André Luiz Pinto
Jorge Elias Neto
Luciana V. P. de Mendonça
Gabriel Resende Santos
Alexandre Dacosta
e Mauro Gama

Aos magos
de mallarmargens.com
Mar Becker
Wesley Peres
Nuno Rau
e Andréia Carvalho Gavita

Aos queridos amigos


da oficina de poesia
Adele Weber
Astrid Cabral
Helena Ortiz
Jacinto Fabio Corrêa
Lila Maia
Márcia Cavendish Wanderley
Faisons d'abord le poème avec sang
Nous mangerons le temps du sang
Et en avant le po-ème en chant et sans sang
Ce qui était fait avec du sang,
nous nous en avons fait un poème...
Antonin Artaud
(art poétique, 1959)

I am just a copy of a copy of a copy


Everything I say has come before
Assembled into something
into something into something
I am never certain anymore
I am just a shadow of a shadow of a shadow
Always trying to catch up with myself
I am just an echo of an echo of an echo
Listening to someone's cry for help
Nine Inch Nails
(Hesitation marks, 2013)

[...] chamemos de Universo esse úmido esteio


da multiplicação dos homens, chamemos
de Sangue esse tenebroso rio por onde flui
com desenvoltura petulante nossa memória [...]
coloquemos as coisas da seguinte forma:
se são figuras tradicionais de retórica,
fracassaremos antes mesmo de ter nascido,
pois nos apunhalam ainda no ovo.
Furio Lonza
(História impossível, 2007)
um:
ítu lo h
Cap
é sim
Ma llarm
dados,
ga
nn ão jo
wi
Dar
o átomo de carbono (i)

( 16 (
toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada;
deuses ferveram-na numa caldeira aquecida
ante o clarão do big bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que [...]

( 17 (
sangue | suor / e celulose (i)

( 18 (
a carne, que cada corte desonra,
cintila nesse mal que tarda a sarar
a pressão de toda ofensiva tardia,
qualquer soco, avaria / aí cada agulha
se calcula ou se anula / balbúrdia,
barulho, algazarra que cada palavra
declara, tingindo toda ou alguma
área da página mais alva / à nudez
do papel, a rápida mancha a vio
lentá-la / da pálida celulose, violada,
o que sangra é tinta tipográfica.

( 19 (
o átomo de carbono (ii)

( 20 (
sob o delicado aquário
de oceanos amnióticos
( ou a redoma de gaia
como a mais esbelta
esfera atmosférica ),
é apenas este ventre
de inumeráveis entes
( a arca noética vaga
entre tantos outros
astros gravitacionais )
// até que [...]

( 21 (
sangue | suor / e celulose (ii)

( 22 (
no livro corporal (sob o martírio
de ser escrito) o sal que cada talho
encontra, arde, demora a curar
a chaga criada por cada frase exata /
todo golpe, pancada, cada agressão
que se aplique, fulgor, alarido de sílabas,
busca sobrepujar no parágrafo o que tinja
ou apenas preencha a claridade da página,
que seu terreno, até então anêmico,
esteja repleto / são números e letras
de chumbo o suor de sua pele impressa.

( 23 (
o átomo de carbono (iii)

( 24 (
no interior do planeta, uma bilha líquida
de bilhões de graus centígrados brilha /
na cela férrea, a energia centrífuga
esteve apresada aos polos magnéticos da terra /
um íntimo dínamo, o único núcleo
do seio incandescente de todos os vesúvios /
placas de treva rodopiam entre si, inter
cambiando os óculos e portas desse gás próspero,
que vez por outra escapa para a crosta,
pelos poros, em erupções vulcânicas
// até que [...]

( 25 (
\\ livro aberto //

de pele é revestido o corpo, tecido


vivo \ no livro, chama-se capa
(o couro sob o título) \ abri-lo:
gráfico grito \ mas como ouvi-lo
se é branco o ruído da celulose,
– tão silenciosa? todo livro fechado
se cala \\ cada nova leitura o amplia.

( 26 (
de órgãos o corpo é preenchido,
de vírus, microrganismos, avisos /
no livro, diz-se texto / há páginas
em que apenas a aparência é pueril /
decifrá-las nem sempre é fácil, há vários
níveis de sentido ou, ainda, na entrelinha,
o seu estilo // neste exercício: o mais difícil.

( 27 (
o átomo de carbono (iv)

( 28 (
resfriados na água pelo gládio glacial, ácidos, esporos
e átomos rearrumaram a forma, nadaram para fora
e já longe das margens (de charles darwin a richard
dawkins), fabricaram nova roupagem, asas, caudas,
quatro patas, penas, pelos, couros secos, ou em pé sobre
as duas pernas / agruparam manadas, alcateias,
revoadas, tribos de hominídeos (de neander a denisova),
grupos distribuídos, técnicas agrícolas e revoluções científicas,
indústrias, silício e cristal líquido, do carbono à carne
e de volta ao carvão, da morfogênese à individuação,
do mercado ao contingenciamento humano, da barbárie
do canibalismo ao individualismo citadino
e daí ao tráfico de órgãos / é fantástica e bizarra
a via crucis de todos os vivos
// até que [...]

( 29 (
[ ... ] [ . ]
[~] [ : ]
( . ) (~)
( : ) ( ; )
( 30 (
( / ) ( | )
( \ ) ( - )
( \. ) ( |. )
( , ) (( ,
( 31 (
(( ( útero ~ incubadora ) ))

( hábitos aquáticos no estágio embrionário – ( ~ mar ~


matre ~ mater ~ ) a placenta atravessada a nado por
alguma criatura inicial – ( ~ girino ~ feto ~ enguia ~ ) cujo
único exercício preparatório é o respiro amniótico nesta
antessala líquida do mundo ( a câmara salina na bolha viva
da barriga ) | o que da ova retida leva o solitário
ovócito confortado, do óvulo revelado eva
adentro, é toda fértil a terra materna |
o filho, no início, bicho tão mínimo, indis
tinguível de qualquer outro seixo mode
lado sob o rio sanguíneo ( do íntimo nilo ((
ao assomo do amazonas ) , grão humano
aguardando subir tantos degraus quanto
necessários para tornar-se um corpo, na man
jedoura dos ovários, do zigoto ao todo, gomo por
gomo ( diagrama, fractal ), mandala gráfica o amálgama
dos gametas | ( da nutrição pelo umbílico o bebê é depen
dente, umbrívago ), ossos desenvolvem-se, órgãos, cérebro,
segue-se o desenvolvimento de todos os membros ) desde
o sêmen [ do pai, macho da espécie, apenas o mero reme
tente de seus genes ] e dentro por nove meses [ da mãe,

( 32 (
tenro invólucro amoroso, tendo sob sua guarda algo novo ]
a cápsula carnal que alargará o canal vaginal, túnel extre
mo do músculo, porque se haverá de abandonar (a qual
quer momento) essa hospedagem ( quando nascer começa
a doer ) será outro o destinatário neste parto – o pai não
pare –, a porta (exaurida na expulsão) serão duas
pernas abertas ) ao espetáculo dá-se o nome:
“nascimento” (no clímax, destaca-se o ticket )
ansioso o silêncio ) o primeiro choro inter

, rompe o suspense ) “não há defeito con


gênito!”, celebram os obstetras, aos
berros ] ESTE É O LADO DE FORA!
[o ar arranha] é áspero o primeiro oxigênio
[ a partir de agora, sob uma sequência de cho
ques, somente interrompida pela morte, serão mui
tas auroras de fuligem e pólvora! ] a menos que este neo
nato, acometido por estranhíssima epifania pré-natal, (o
caso mais raro!) escolhesse enforcar-se no cordão umbilical
| mas ao recém-nascido saudável restará, desde já,
[ a verdade ainda indisponível ], revoltar-se /
(( , )) < < < < < < < < < < < < < < < < < ou voltar!

( 33 (
bem-vindo à terra firme

( 34 (
a carne humana, terrânea, é também marinha, e encerra,
na híbrida simetria dos membros, seu mistério anfíbio:
no corpo seco, oco e trêmulo, há água salgada por dentro;
este feto, em terra, recém-saído do útero materno,
sangra, urina e vaza, ou quando submetido a extremos
( caso o alimentem de mais ou de menos ) /
imagens, palavras, ideias, nadarão no cérebro,
compartimento menos matérico; haverá
vermes e vírus hostis entre outras coisas vivas,
habitando seus muitíssimos interstícios;
oscila entre o quente/ o frio,
o rígido/ o maleável/ e líquido
( a carne se abisma nesse enigma ) no que é vivo,
há algo entre se molhar e permanecer ressecado,
já quando o corpo tem início, como progredisse
– no íntimo –, um conjunto mecanismo.

( 35 (
dois:
ítulo
Cap
órgãos
po -só-
Cor
|( os órgãos internos )|

( 38 (
\ ( persegue as vértebras a massa
dos sangues coligidos / ( dentre os quais
há indício, de que alguns ( mais ou menos
líquidos ) \ cada qual a seu tempo, distintos,
consolidem sacos do caldo biológico,
coagulados \ ( carnes que existem da diferença
entre si de seus tecidos / ( se especializaram
as células, em aparelhos e sistemas ) /
delas monta-se um puzzle cujas lacunas
se completam ) \ o corpo expande,
tanto quanto se destrói ( por escasso o cálcio )
no rígido osso que esfacela / ( conforme
a vida lhe habita, o conjunto luta
sob o mesmo pulso \ ( o mesmo insumo bruto
lhe insufla a labuta / ( plantada já
na samambaia dos nervos \ ( enclausura-lhe
a elástica amarra dos músculos / ( a obstrução
sob medida de uma única fornalha viva ) \
trocam fluidos entre si tantas partes
aparentemente separadas \ ( interno
o mar hemorrágico, apenas visitável numa
viagem fantástica / ( mas quando lhe autopsiam
a frio \ ( sangria & bisturis / ( se mostra,
um monstro sob as próprias ataduras \
( o frankenstein exposto, que, apenas por medo
do escuro, só morto poderiam demonstrá-lo ) \

( 39 (
(/no filtro: (o baço), (os rins), (o fígado)/)

1.

o filtro imbrica baço, rins (integrados)


no fígado definitivo (todos, na íntegra, definidos) /
discrimina impurezas ao limbo, metaboliza líquido
e película, nega, entrega e delega a certas partículas
e células os abismos da urina que instiga e destila
/ mesmo ágeis (destarte, o que decantam é descarte),
os rins retroagem, ainda que, nesse ínterim (período
restritivo), limpem / este filtro (intrínseco), retraído
e tímido, (no fígado) quanto menos decidido
(seria o vírus? icterícia?), quando vítima
da hepatite: (grita) adoece sua usina,
absorve o ódio, a raiva, toda a intriga;

2.

há falhas na malha do filtro, ou no plasma,


destituído do próprio destino, do propósito biológico
/ e onde o baço insta, briga, trinca, incha ou,
se a cirrose o corrói, destrói-se noutro órgão, ou quase /
se exibe, azulando, alguma exótica necrose (não obstante,
só tratável mediante um único transplante), ante a falência
que aniquila e dribla toda a extensão de sua fibra

( 40 (
3.

que pouco a pouco, abre / se entreabre,


esgarça sob outros arcos que o desgastam
mas reage, regenera, desde que sempre obedeça
à genética : se chega lá, quase ao fim, refaz-se,
sua pele persevera, resiste quando prestes a entregar-se,
triplica (sintetiza na glicose) as proteínas que afina, refina
e suprematiza / quando tange o próprio apêndice, renega
o não, sem denegrir-se (entre secreções, decreta que seca,
cria as pedras que excreta em plena crise renal);

4.

se organiza entre glândulas este filtro, definitivo,


dentre as quais a hepática (elimina hemácias),
que deflagra (maior) sobre o diafragma, ou
as suprarrenais, fabricando adrenalina
(adrenais no córtex e medula) / nega, denigre,
delega, entrega / abre, reage, excreta, regenera,
tal é o filtro definitivo, integrados baço, rins e fígado.

( 41 (
<< no coração >>

<< átrio e ventrículo direitos

apenas sugerida, em abstrato diagrama pseudo


mecanicístico, toda a compleição cardíaca mostrada
em perspectiva explodida ( a hidrografia da fúria contida
pela escala humana, aprisionada a um contorno
reconhecível, contínua ilha viva, o império regulatório
cuja sede é este autônomo castelo, palácio da polaridade
( ora expulsa o sangue das câmaras, ora reclama-o,
em súbitos ou consolidados fluxos, ora inundadas as alas
internas ( átrios tangendo o mediastino ( ora dragadas
as cavernas, é tenso o sistema de cisternas, contínua
a troca ( dentro ( fora ( preenche ( entorna ), vasculha
curvaturas, a cada nova onda morna – em varredura
a órbita – sua vascularizada borda, em tantas roldanas
se enrola, a tropa de cordas sob o miocárdio, novelo
de veias, n’algumas afirma o fio ( estica ( embala ),
noutras, se trôpego, duvida da linha ( embola em trombose
( há um mal hidráulico contra o qual qualquer vásculo
não-irrigado corrobora ) < no tórax houvesse portinhola
( o peito aberto ) um compósito do homem de lata
de oz, devotado a dorothy, e andrew, o andróide
de asimov ), a ferragem rangesse contra algumas
dobradiças e, logo abaixo das axilas, saltasse
uma aldraba contráctil entre balizas >

( 42 (
átrio e ventrículo esquerdos >>

são pistões massacrando o plasma a certo compasso,


a pressão sanguínea grita, há um ritmo escondido sob
a exata frequência enaltecida, muito embora se admita,
vez por outra, desligado o velocímetro, ou ainda,
porque deslocado o grau, verificar nova condição
marcada acima ( retumba ( bate ( pula ( pulsa ); qual
ferrugem o suja quando o sangue coagula na gordura
antes que uma artéria o obstrua, na gruta muscular
onde se oculta, no intervalo entre o plexo e a coluna?
onde estará guardado o coração das coisas físicas? Qual
o limite do ajuste fino combinando o ímpeto ao destino
no abismo do mesmo ventrículo? habitando a cavidade
de almofada, subjaz cansado o órgão sitiado ( esfera cárnea
em estado crítico ), oferecido ao transplante de suas molas
tolas e catracas atrasadas; do paciente jacente a tal placa
defeituosa, largada na bancada, ( que alguém esperaria
descartá-la, como sobre a fria maca da sala de cirurgia,
induzi-lo ao coma por potentíssima anestesia ); quem
carrega em si essa peça emotiva ( pedra ou pluma
( completa ou nula ) acima da cintura ou do diafragma, em
colunata, transversos, costela e omoplata, provavelmente
à esquerda ( se o externo ao centro, desviado do eixo )? qual
a relação entre o juízo, a moral ( o bem ( o mal ) e o pulso,
o osso, esse túnel ensanguentado atravessando o corpo?

( 43 (
>( os pulmões )<

> ( o pulmão direito )

dois cilindros de tecido complacente, que esvaziam /


e enchem enquanto requisitam quando inspiram ( vitais
troca e simetria ), quando expiram, vão desistindo
do vento morno, carbônico ( frações ainda do primeiro
sopro ); tropo que entra / e sai do corpo: se abrem,
brônquios dilatam / e fecham se há retração /
são páginas análogas da capa à contracapa,
como a traqueia equidistante fosse a costura central
de um livro carnívoro, único ( como o de barrio,
carnal, perecível ), repartido ao meio, insufla inscrições
que recriam seu sentido, sua delimitação de signos:
a troca – hematose – entre o dentro / o fora, à mercê
do pneumotórax; e cada expiração é uma pequena morte
contra a qual reage uma ressurreição igual, cheio /
e vazio ( sem ar : morre-se de embolia, asfixia, entretanto
se hiperventila, quando o volume de ar, interminável,
ultrapassa determinado nível ); quanto mais se move
( por vontade própria, ou a certa contínua voltagem

( 44 (
( o pulmão esquerdo ) <

movimentam-se, involuntários, todos os seus sistemas ),


tanto mais livre o organismo exige ( se vivo e
irrepreensível ) o seu respiro; dois módulos lobulados
capazes de dar forma ao gás incorpóreo ( bolhas ),
conformá-lo a duas fôrmas orgânicas, domesticá-lo como a
um escravo, no consecutivo jogo da captura depois de
alforriado ( no ar que vem e vai ) e vice-versa; sanfonados,
dois balões fibrosos inflam ( novelos gasosos evolam
nos alvéolos ) quando revolvem, removendo do ar
( processado desde o resfrio da terra, quiçá da atmosfera
inteira ) o oxigênio infinito que engendra, misterioso,
o indecifrável número de ciclos respiratórios ( cada qual,
uma página do livro ), cuja origem teria sido o primeiro choro
desde recém-nascido, daí a progressão irrefreada até o último
suspiro ( quando fosse lida a última página do seu livro
da vida ), interrompido para sempre o ritmo, d’algum
paciente anônimo ( crônico ) domiciliado em leito terminal.

( 45 (
mecânica dos fluidos

/ o sangue

( 46 (
no corpo
há tão pouco espaço
entre um osso e outro

só o óleo dos glóbulos


passa ( o plasma )
quando não é pálido

( na ampulheta viva /
sangue é tempo )

como a graxa
( da máquina )
escorre entre

as engrenagens
do relógio
bio lógico

( 47 (
mecânica dos fluidos

/ o suor

( 48 (
cada poro
um escoadouro
pelo qual
cada glândula
sudo rípara
res pira

se re pele
seu líquido
se re move
seu vis go

é o que
per mite
que a
epi derme
se lim pe
e trans pire

( 49 (
mecânica dos fluidos

/ a lágrima

( 50 (
a glândula a carrega cega
( como na ostra a pérola )
( como no arco a seta )
o sal na medida certa
( no escuro algo coagula )
pedra
até que a concha da pálpebra
abra
é quando a gota vem à tona )
( fria e quente
( simultaneamente

( 51 (
mecânica dos fluidos

/ a saliva

( 52 (
da língua aos intestinos

há um caminho
como o rio nilo
ligando o alto
ao baixo egito

da saliva ao suco gástrico


há microrganismos

que quebram as moléculas

do bolo ingerido
digerindo-o
entre reentrâncias
de mucosas róseas
há crocodilos
e papiros
pelas margens escondidos

o alimento
uma barcaça arcaica

percorrendo
lento
a superfície plácida

( 53 (
mecânica dos fluidos

/ do sêmen ao leite materno

( 54 (
afunda /
fende /
fode /
funde

espermatozoides lançados ao alvo


do pênis ao óvulo
do falo à trompa de fa lópio
e ungidos de lúbrico eflúvio
ovário e testículo
unidos
mãe e pai o urdiram
no útero
macho e fêmea o fizeram
o filho /
o feto /
alfabeto
que apenas de leite se alimente
( e nada da proveta se aproveite )
o ventre / o centro / o seio materno

( 55 (
mecânica dos fluidos

/ a urina

( 56 (
é d’ ouro
a urina,
m e l í f l u a,
oriunda da bexiga,
que antes
de aliviá-la,
incha

( 57 (
mecânica dos fluidos

/ a bile

( 58 (
uma usina ( o fígado )
produzindo a própria toxina
muito embora ( a bile )
só se fabrique
quando suficientemente
poluído o rio ( em desequilíbrio
químico ) o velho amarelo
o resíduo intruso
( porque é nociva a icterícia )

retido pelo entupimento dalgum duto


de escoamento e sobre cujo derrama
mento há que se solucionar a tempo
fazendo o possível
para prover à vesícula
o viço o devido brilho
do r e s p e c t i v o
e definitivo
a l í v i o

( 59 (
mecânica dos fluidos

/ o pus

( 60 (
( do bul bo
à bo lha,
pús tu la,
an tes que
ex plo da )
e enoje
quem
quer
que o
ex plo re

( 61 (
mecânica dos fluidos

/ a fleugma

( 62 (
( lesma de gel )
atra
vessando

nesgas /
/ gretas
mas
até
que
sinta
a
s a í d a,
brinca
no
labirinto
como o
único muco
multi
colorido

( 63 (
/[ todo corpo ]\

( 64 (
das treze articulações primárias, sete expandem da linha
dos ombros ( braços abaixo / a cabeça acima do pescoço ),
há outras seis partindo dos quadris ( pernas / sexo
sob o degrau da cintura ), nas vértebras, onde, invariavel
mente haverá hérnia, pilhas de anéis lhe atravessam
na transversal ( do crânio ao cóccix, pelo meio ), encapsulam
a geleia eletrificada na medula, feita desde o feto no eixo
estrutural deste esqueleto; ( no hinduísmo, cada chakra
receberia na coluna a chave-mestra de sua própria
fechadura ); esse homem-móbile suspende, em trânsito,
carnal o óbice de sua própria transitoriedade; se livre,
seu complicado equilíbrio é dinâmico, há dispositivos
antipânico, simetrias ( são contrapesos os ossos por dentro,
as câmaras hiperbáricas onde o sangue se tranca, em caixas
outro fluido chacoalha, o que os músculos ocultam sob o
couro exterior, e como javacheff christo faria noutra escala,
seus embrulhos com cordas e tecido, de botero a giacometti,
há um aspecto familiar e reconhecidamente humano
recobrindo tudo ); no cerne de cada complexa célula
coube o germe de sua inalienável moradia; com endereço
fixo, todo homem tem o corpo como o próprio logradouro.

( 65 (
[| a pele |]

( 66 (
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat ( algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras );
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, ( hidratado
adequadamente cada intrincado recanto ) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?

( 67 (
| ||| são oito ||| |

( 68 (
1. que haja, em potência, o erro
( é mais fácil zelar pela cabeça )
ou algum tropeço preso a cada membro;

dois joelhos /

2. há que se usar os braços


para protegê-la da queda,
no caso de qualquer fraqueza;

+ dois cotovelos / são quatro

3. ainda que, oculto e súbito, um


obstáculo se interponha às pernas,
( é mais frágil na cabeça o cocuruto );

+ dois tornozelos / são seis

4. convém usar mãos como escudos, quando


do inequívoco óbice, cobrir ( no rosto )
sempre que se possa, dos olhos, os óculos;

+ dois pulsos/ na soma, são oito

( 69 (
| cabeça / ombro / joelho / e pés |

( 70 (
cabeça, pernas, braços / quatro membros
o carregam, veículo e organismo;

( de antemão, haja algo sujo, alojado ao lajeado,


resíduo ou óleo onde os pés escorreguem,
( nada é mais vulnerável que a cabeça ),
há que se usar os joelhos para corrigir
a fraqueza, no caso de qualquer mazela );

são vinte e oito: cotovelos, joelhos /


punhos, dedos, tornozelos, tudo justo e conexo;

que haja em potência, o tropeço de cada perna,


quando da inequívoca queda, ou algo desnorteie;

são mais frágeis, no rosto, cada olho,


convém usar duas mãos como escudos,
sempre para protegê-los, olhos, joelhos
e cabeça, do que quebre, emperre ou enfraqueça;

polegar, indicador, médio, anular e mínimo,


( no corpo, os extremos ) hálux e pododáctilos:
dos pés / das mãos / e todos os seus dedos.

( 71 (
( | o crânio humano | )

( 72 (
compósito ósseo por sobre cujos orifícios inteiramente
desobstruídos encaixam-se os módulos dos olhos,
narinas, da boca, e ouvidos; a tampa de louça calcinada
pelo couro, ( marfim fissurado sob cabelo ) um trono
ocupa o topo desta cúpula / uma armadura de juntas,
parcialmente recoberta por ranhuras em cruz, pelas quais,
de sua furna interna ( o antro intracraniano ), escapam-lhe
tantos juízos – como se fugissem pássaros deste
receptáculo craquelado; lacrado sob a caixa manchada do
crânio humano, jaz, moldado aos miolos, à forma de uma
noz que alucina e racionaliza, o gerador unigênito – razão
pela qual congelam o cérebro de um gênio –, de cada
inédita eureka, e de todas as ideias velhas, de séculos,
de décadas, guardadas em antiquíssimas bibliotecas; sob
o palato, escondida, esteve a língua, quase retilínea ( um
único músculo, infatigável, modulou todos os dialetos ),
a dentição se encaixava, cobrindo-a, esta fila de lanças
fincadas, abaixo das maxilas, e na base da mandíbula.

( 73 (
) ) os dois ouvidos ( (

) o ouvido direito

da estereofonia aos tímpanos, são mecanismos


de filtro ( para vesti-los, pela lateral da carenagem,
pendem adornos de cada lóbulo perfurado ),
são pórticos acústicos na entrada, o mundo entendido
como um labirinto audível; em dois radares,
orelhas são conchas de cartilagem captando
comprimentos de onda; em variada oferta: ouve-se
música clássica, rádio de pilha, esporro em família,
punk rock, voz de aeroporto, gemido íntimo, confissão
de assassino, chiado, ruído, os gritos no vizinho,
conselho de amigo ( por que a voz da consciência é
a de um grilo enquanto anjo e diabo, cada qual sobre um
ombro, se digladiam num combate apocalíptico? );

( 74 (
o ouvido esquerdo (

cada ouvido localizado num dos lados de um


semicírculo imaginário, arco cujo raio tem seu centro
no hipotálamo; contrários, são cântaros que absorvem,
tanto sons de córrego, quanto o maremoto em
decibéis enérgicos, grave tambor estrondoso; pelos receptáculos
dos ouvidos, conquanto não seja, na audiometria,
diagnosticada a surdez em grau algum, se a palavra é prata
pode ser adaga, diria confúcio, a perfurar o tímpano,
e ainda que trancada pela aldrava ( da boca fechada )
na aljava inteira do corpo, se desembainhada, não há
aquele que deseje, na mesma hora, ao invés da mútua
guerra ( onde aos berros, errem, em julgamentos
sem trégua ), o ouro sincero do silêncio benemérito?

( 75 (
labirintite

ao contato incauto com quaisquer destas pegadas


presumidamente compassadas, os degraus de uma escada
sem direção ameaçam o estilhaço e mesmo no vácuo, é
necessário ocupá-los, sem chão, sob sério risco de se
despencar o paço; a rachadura aberta sob os pés, o passo
em falso, o corpo tragado por algum lugar onde nada
é certo ou faz sentido; se falham as pernas, abolido o
equilíbrio, resta no caos uma dança antigravitacional
banhando com choques elétricos o ouvido interno: seria
até possível aceitá-la, mesmo que não se oferecesse nada,
ainda que extinta a terra firme, por perto sequer parcela
de qualquer apoio ou nenhuma das partes mútuas ao voo,

( 76 (
simétricas, hélices ou asas-delta, o corpo entregue
à gravidade zero, planando sob a “garagem hermética”
da atmosfera, até que sobrevenha da queda, num átimo,
decerto a consciência da doença, de que jamais se poderá
confiar nas próprias pernas; segue-se a consulta médica,
a escolha da droga, a hora do remédio, estima-se o efeito,
o tempo de administração do medicamento; mais tarde,
recobra-se o centro de gravidade, todos são bem-vindos
ao refúgio do produto químico, injusto, sempre sujeito ao
abuso: ridículo à primeira vista, dicloridrato de flunarizina
( vertix ou vertizine, nomes fantasia, ajustam o labirinto )
o que está aqui, admita-se : é equilíbrio convertido em pílula.

( 77 (
( ) os dois olhos ( )

( ) o olho direito

são bilhas feéricas estas bolas, ou bolhas esféricas


à visão periférica, inseridas na cabeça, entre as maçãs
e as sobrancelhas, simétricas ao meridiano do nariz /
são orbes sobre os nervos ópticos, para enxergar
ao redor, se deverá alternar o ângulo do pescoço,
são globos que abrem nas pálpebras, na íris,
colorida, se obtura um disco contra a invasão
de raios nocivos, muita luz ofusca, e queima,
sobretudo no cômodo escuro onde jaz o segredo;

( 78 (
o olho esquerdo ( )

nem tudo é preciso ser visto ou reconhecido / fechar


os olhos é sempre possível / enquadrar o mundo /
olhar para os lados, ou para o “passado”, são escolhas
imprevistas, ainda que se desista controlar a paisagem
consumada, não há dia em que se acorde, e os olhos não se
abram, ou que não se reconheça nada, a não ser na morte,
ou na cegueira, para as quais estas duas pelotas anatômicas
serão apenas gelatina fria, outrora oculta nos óculos
escuros, ou carcomida por formigas, às órbitas vazias.

( 79 (
o glaucoma

( 80 (
em cada globo ocular ( no crânio )
sobre o reboco da órbita,
este involuntário abismo ameaçasse a b r i r - s e,
a princípio em progresso lento,
o glaucoma erodindo os olhos que,
porosos, devorassem da anatomia,
carcomidas nas próprias fímbrias,
da íris ao nervo óptico, ( na flor )
da pétala ao pólen, e uma cegueira,
meramente hipotética, coroasse
algum egoísmo, àquela sala negra
muitíssimo estreita

( onde há esse jardim


de um único transeunte que,
imobilizado pelo medo,
faz da sensação do mundo
esse único plano escuro do tamanho de tudo,
mas cujos limites apenas se definem
se habitáveis por seus obstáculos ).

( 81 (
:| resta um rosto |:

, | a face direita

a pessoa e sua suposta autonomia / o anonimato


é seu antônimo; a persona e seu dito automatismo /
na autenticidade sua antítese / a testa, as maçãs, o perfil,
a simetria da mandíbula, o couro vestido pelo occipital,
como se ilhoses aos pares apertassem um cadarço, justo,
da nuca ao cocuruto, permitindo o ajuste / só osso sob o
rosto ( sóbrio ou jocoso / austero ou cômico ) / a cada
emoção desfaz-se o traço, antes que se refaça ( dessa face
a cada farsa ), na armadilha do carisma o álibi justificando
o disfarce de carrascos e mártires / nada se revela ou
reforça senão a máscara fácil, mímese cujo fascínio por
teatros ( sombra ou batom, barba, rímel, cavalheiro ou
senhorita? ) marcou não só fascínoras, mas tantos santos,
dos bailes em veneza à tragédia grega, da commedia
dell’arte ao kabuki, do nô aos sioux ( quem os estudou
senão levi strauss? ) e a todos aceita ( diária ) sua generalizada
festa de maquiagens ( da sombra das sobrancelhas
ao brilho dos olhos sobre as glândulas lacrimais,
das olheiras colecionáveis na cidade à cosmética
avançada, ou à cirurgia plástica )

( 82 (
a face esquerda |*

são 23 músculos modulando toda a conversação humana


numa arena de bufões / são destroços as expressões faciais,
capazes das mais estranhas façanhas, sorriso ou medo,
o mesmo / alegria ou fracasso, iguais / pois toda dor jaz
interna ( centelha muda à bocarra obscura de munch ), um
supercílio franzido carrega o peso do mundo, contra o qual
careta alguma faria jus, qualquer cara incapacitada de
expressá-lo, medusa ou budha ( ternura, luxúria ) / jeckyll
& hyde ( desgraça ou paz ) / cada olhar, o reconhecido traço
familiar, cada boca ( ou voz rouca ), cada rosto mostra nada
mais que um rastro no conjunto de rasgos, o dos lábios,
as rugas quase reguláveis, narinas e pálpebras seguem
a mediatriz nem sempre equidistante, cicatrizes, poros,
óculos, piercings, as tatuagens restantes, completariam
o quadro com o qual, alinhando um número limitado de
elementos intercambiáveis ( ilustrados nas páginas de um
livro espesso, encadernado em espiral ) se constituiria o
retrato-falado necessário à polícia para identificar o único
suspeito de um crime hediondo : a toda fala errada,
basta um rosto anônimo, para declará-la válida.

( 83 (
ês:
ítulo tr
Cap
punir
Vigiar e
ânus humano ( . ) ônus santo

acompanha o corpo este túnel obscuro,


dúbio/ lúbrico, sujo/ úmido, ao
longo da coluna – quando ereto, sua
verticalidade se sujeita à força da gravidade
e quando não, há tão somente – silenciosa
– a peristalse; na boca é seu início, e
por aí se precipitam alimento (líquido/
sólido) e sexo (um pórtico, em colunata,
comporta os dentes, todos pelo lado
de dentro), tem no ânus o mais íntimo
destino (e é sabido que também mastiga o
intestino); do uso chulo se evocam as
mais transgressoras e ráficas imagens
da bíblia sagrada retraduzida, d’algum
idioma babilônico, ou na língua solta de
sodoma & gomorra: o sopro divino fosse
tão somente gás metano proveniente de
um orifício no cio, o meteorismo pelo anel
do delírio, ânus sanctus tal cloaca larga
sob ancas fartas, o buraco sacro abaixo do
qual descansaria o peso do saco escrotal
do diabo, comendo-lhe o rabo, e contra o
qual mergulhasse ainda o incisivo tridente
luciferino ou qualquer outro objeto

( 86 (
longo e pontiagudo/ e o laborioso barro
primordial (o chão onde pisaram eva, adão,
o éden, a terra) fossem tão somente a poeira
das estrelas, compacta à fôrma dos planetas, e
de todas as outras esferas outrora nascidas da
mesma labareda – se misturam yin e yang no big
bang – como um eterno jacto de merda, tendo
jorrado o mundo fosse, enfim, o fiat lux no
fim do túnel, lá, onde nenhum sol (na bunda,
afinal) devesse (ao menos tradicionalmente)
iluminar, mas duma luz estranha e curva que
só einstein pudesse flagrar em cálculos, no
decúbito ventral de infinitesimais centímetros
cúbicos, não interna, mas avessa, de fora
pra dentro, ou inversa, à fórceps & ósculos
lambuzando a vaselina/ fezes & almíscar fossem
a tinta do livro mais antigo; o maior poro essa
lacuna obrigatória (zona erógena), pelos
puritanos se suporia inóspita, muito embora
em ambos os sexos a fisiologia admita a
massagem no períneo, mas só nos homens,
se extraia da próstata, pelo nervo pudendo,
e com algum ímpeto, um outro estímulo
que começado pelo esfíncter, reclame da
lama anal esse binômio ambíguo, um
doloroso alívio, entre a punição e o prêmio.

( 87 (
o sono / a preguiça

( 88 (
essa sonolência desalenta o epitélio
( inexato, ausente ou quase cego );
parte do tato adormece, inapto, da
triste anestesia que mescla um
abandono à resistência; ainda que
recordações insistam, não fixem,
ao contrário, como peixes de aquário,
raros, apenas fluem sem que o olho
escolha um só brilho entre outros signos,
vácuo sem foco, entre o sono e o ato
de flagrar-se assíduo em qualquer
que seja o raciocínio; largar-se ao ócio
de um limbo sem equilíbrio, mero exercício
de algum desígnio entregue à lentidão
da trajetória entre o agora e o daqui
a muito muito muito pouco.

( 89 (
[ ] corpo de prova [ ]

( 90 (
toda sua farinha química luta contra a obviedade, algo nele
se transforma, varia a certa dosagem, prisma numa medida
expressa em milímetros ou cilindro resolutamente preenchido
pela própria matéria-prima, o que se quer extrair da mistura é
o que dela impere contra qualquer intempérie, a comprovação
de certas características específicas, seu uso provável e o quanto
do material resistirá e, se ajustado, como programá-lo a esta ou
aquela finalidade? porque há nele algo posto longe do mundo,
apartado de tudo, testando-o desde o núcleo e sobre cujo interesse
futuro será preferível adaptá-lo, se aqui ou lá (terra firme ou
alto mar, determiná-lo ao lugar) onde o império da indústria
necessite depositá-lo, quiçá sob águas agressivas, mergulhá-lo
em sulfatos, em sais de magnésio e amoníaco, ou contra o vasto
aluminato (nunca volatilizado) que, apesar de leve e maleável, é
duro e reativo ao perigo; composto, que o enxofre sofra fora do
óleo, no cálcio só reste o arbítrio do silicato bicálcico; há sílica
aditivada ao cimento contra a retrogressão, porque algo nele se
transtorna a certa dosagem (a rocha inda incha) [corpo de prova]
mediado pelas condições da mais forte obviedade, ou contra as da
máxima adversidade, assim este sólido, cilíndrico ou prismático,
copo/ bloco, deve referendar a resistência, a duração dos materiais
recolhidos à anatomia, rumorosa ou silente, da sua própria provação.

( 91 (
biótopo

( 92 (
1.

da silhueta ao recheio
por fora / por dentro
crescem muitos adendos
nervos / cabelos / dedos
e até estar concluído
o crescimento, também
se esticam os membros
à certa extensão usual

( 93 (
2.

mas as condições do ambiente


também interferem no substrato
cada molécula o clima o ímpeto
do inimigo podem dificultar
o acesso ao suprimento necessário
à perpetuação do acordo entre
meio ambiente e o corpo entre
os homens / mulheres / crianças
e algum complexo ecossistema
a limitada autonomia condiciona
a rede infinita de relações
de dependência há doenças em que
o câncer exaure a anatomia míngua
à poliomielite noutras o corpo avulta
fora de controle acromegalia síndrome
de proteus elefantíase tumor na hipófise

( 94 (
3.

muito embora haja dos mais variados gêneros


os aleijamentos congênitos entre outras
condições que exijam limitantes (ou “desafios
de superação” alguns diriam) uma ou
múltiplas amputações desde a nutrição células
se multiplicam e dependendo do que digira
o corpo aumenta do estômago aos ombros
à velocidade estimada pela ciência biomédica
da qual dependem os números da altura do peso
e do perímetro cefálico do aumento da massa
corpórea à curva da metabolização do alimento

( 95 (
pílula

( 96 (
mergulha goela adentro a miniatura duma ogiva,
atravessada pela arcada dentária, o mínimo submarino
ingerível pela gelosia das gengivas, luta o ácido
dessa remessa medicinal contra o refluxo do esôfago,
porque administrado via oral, o único remédio necessário
é essa mínima bomba química cuja engenharia
da reação em cadeia buscaria atingir certos tecidos,
alvos de registros específicos ( um nódulo, pústula
ou o cancro n’algum recanto ) entretanto, enquanto
( exponencialmente ) progride esta ou aquela epidemia,
hordas de mamíferos humanos aportam às farmácias
como insanos, mas homo sapiens, são espécimes adultos,
cuja mais completa farmacopéia não acorre,
não há em todos os estoques ( que logo se esgotam
nas prateleiras da indústria farmacêutica ) algo que
resolva o medo a náusea o mal-estar da civilização
à época da reprodutibilidade técnica de doenças genéticas,
vendidas conforme qualquer outro mercado se regula
( malogra o lucro se não há juro, já não há jura
quando a demanda se dana ) até que se descubra
que o veneno e o antídoto ( a fartura / a carestia ),
a doença e a cura, indissociáveis siamesas,
são partes da mesma mistura.

( 97 (
cotidianometria

“fitter, healthier and more productive/


a pig in a cage on antibiotics”

Radiohead (OK Computer, 1997)

( 98 (
suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / é necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral a la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / tome mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
( opte pela salada crua ) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi,
ao som do fábio de melo
guarde-se para o cara certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema ( assista a um filme inédito )
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho.

( 99 (
/ limitrofagia /

( 100 (
ainda que ande muito / não percorrerá o mundo
se atravessa a ponte / abdica de um dos lados
se cala / não declara a vontade
mesmo que fale / não esgota o assunto
que infrinja a lei / será posto entre muros
se espalma o punho / não há muito
explana os braços / não voará no vazio

vive, mas entre limites / se livre, não é para sempre


quando alcança a outra margem | retroage \
se realiza o máximo fica | e se reafirma
se não fixa ( desloca / reage ) abandona a cidade
ficar / fugir falar / calar ( ação ou ócio )
sobre poucas coisas se têm escolha
morrer / viver ( sempre ou nunca ) ontem / hoje
algumas outras | só dobram os homens

( 101 (
< < < retrogressão

3.

( para aplacar a vontade ( inútil? ) de habitar um corpo /


( desde o útero ) todo esforço é doloroso / experimentá-lo
aos poucos ( lançá-lo ao mar e ao mundo / primeiro
na praia / no raso ) como qualquer operário aprenderia
um novo trabalho / em treinos práticos ( quanto mais tarde
( à maré alta ) mais para o fundo ) alcançar gradualmente
o diâmetro de todos os gânglios ( reordenar do hormônio
o átomo de carbono ou destilar a linfa ) requer uns
apetrechos necessários / um espelho / agulhas / frutas
( algumas pelo cheiro / o apelo do perfume / outras
( desde a língua ) pelo estímulo à papila gustativa )
entretanto há inúmeras outras ferramentas ( todas
guardadas num labirinto de gavetas ) é estranho esse
gabinete mecânico dos cinco sentidos ( uma oficina onde
se suporia o laborar pacífico / mesmo entre ruídos
( desbravando em si mesmo o sensorialismo )
um taxidermista / ou talentoso artista
da sua própria fenomenologia íntima )

( 102 (
2.

( primeiro livrar dos órgãos internos a caixa externa /


que essa só pesa ) drenar-lhe um tanto de sangue
( como na árvore / em camadas ásperas / descarnar-lhe
das tantas membranas ) pelas lentes dos olhos gelatinosos
( encarar finalmente o núcleo oculto / e acendê-lo /
esse coração na sombra ) de todas as lições / primeiro
as da epiderme / depois as mais internas ( terceiro
as da ossatura / dos membros à medula ( obtidos
os cálculos frios / do cálcio / na densitometria )
por último as do cérebro ( esbranquiçado /
sua esponja cinza ) mas antes arrancar-lhe ( porque tidas
como reprimidas ) todas as supostas lembranças
( traumas da infância )

( 103 (
1.

( agora / diante do espelho / inicia-se o ritual / a análise )


seguir ( entre outros pormenores ) a trilha lenta das rugas
sulcadas sob o nervo do sereno ( que onde a faca do frio
feriu / o calor curou exsudando o sal dos poros ) mas
deixou espalhado o vestígio / às vistas / e sem disfarce /
num corpo de espantalho ( o cabelo desgrenhado que o
tempo recolheu / colheita / aberta a clareira no topo
da cabeça ( coroa ou redemoinho ) diz-se dessa calvície
da qual é impossível desistir ) porque o vazio esculpiu
o caminho ( ou um abismo ) pensamento adentro ( ao
despir-se diante de si mesmo ao espelho / descobrir ali /
na própria ruína desvestida ( um arremedo ) / no entanto
o monumento ao período vivido / esconde ainda ( sob o
escombro dos ombros ) a batalha travada e perdida no talo
da coluna ( as décadas da hérnia / tendo invertido as vér
tebras ) o eixo dorsal destituído dos pontos cardeais / ou
do centro de gravidade ) onde fracassa o espetáculo da
locomoção humana / ainda que ressoem os sonhos desde
a idade placentária ( agora à base de insônia / uísque /
remédio / do sexo mediocremente recíproco da parceira /
quando não mediante o pagamento ) nem toda
falência há de vencer uma carência maior
( às vezes sobra a sanha mais que o sonho )

( 104 (
0.

( assim vem se abrindo ( precário ) o sustentáculo


de um velho ( gasto / uma antiga cópia em sépia )
cujo elástico já lasso escapa da sua própria ação /
em gradual e irreversível descompasso ( os músculos
acumulando só o cansaço / e infla como um balão /
crescendo desde dentro ) até tomar de assalto
e por completo um corpo outrora jovem ( anteviu o fóssil
do próprio obituário na rocha ) do trajeto obrigatório que
submete o tempo ao envelhecimento ( isento / sem que
importe cada vítima ter vivido sob excesso ou privação
( nunca escolhe a quem oferecer seu grilhão ) o esforço
da forca apenas reforça a corda contra o pescoço de todos
( sejam bem-vindos / senhoras / senhores / precoces /
tardios / que agora está próximo o alívio /
sejam bem vindos sempre / ladrões / pilantras /
cidadãos de bem / amigos / esta é a hora
da vossa própria estrangulação )

( 105 (
outra coisa | dismorfofobia

aquilo ali era outra coisa/ uma coisa qualquer/


uma coisa pouco clara, quase inadaptada
aos arredores de onde deveria instalar se,
intacta mas ameaçada/ uma coisa desabitada de si
enquanto afirmada, mas coisa quase vazia /
uma coisa firmada no nada, no vácuo, fora
de qualquer foco, no vestígio de um vulto e no
entanto lá, entre moléculas, entre partículas
elétricas, entre ondas de rádio, entre vórtices de
ar circundando a presença de alguma força, invi
sível mas sensível dessa coisa incrustada entretanto
aberta, mas completa, indivisível – seria possível
dividi-la? a uma distância segura dir-se-ia que
o espaço se embrulhava nela, nessa aura desencontrada,
rara, que só percebê-la num distúrbio ocular abrupto,
entre a fronteira do campo de visão e uma esfera
de conceito, metaperceptiva, era julgar tê-la apre
endido tão velozmente que só uma configuração parcial
pudesse ser extraída desse contato elástico, variável,
ora confirmado, ora desconfiando dela/ essa coisa não
envelhece, impura, parasitária, sugando os interstícios
alinhados entre as partículas de duração com as quais
se perpetua, simbiotizando a persistência falsamente
temporária e a suspensão de sua existência inseminada /
essa coisa alimenta-se daquilo entre o tempo e o silêncio,
entre a hora e o atraso, entre o vivo e o morto/

( 106 (
essa coisa fagocita a substância do trâmite /
uma coisa translúcida, ânsia atravessada por estímulos
mas camuflada aos sentidos – seu acesso é restrito,
entretanto receptivo, tanto pela frente quanto pelo avesso
(se tivesse isso)/ uma coisa tão estranha cuja alteridade
indefinida pudesse dividi-la em duas, uma sempre presente,
mas outra metade remota, e como não se encontram – as duas
partes dessa coisa incrivelmente fora de sincronia –
descarnam a própria aparência/ impossível imaginar
o que seriam se avistadas por que, se vistas, retornariam,
seriam de novo unitária/ onde estaria essa coisa se parece
tão contígua mas não se consegue enxergá-la? onde poderia
estar se jamais vista? ela estaria entre eles? talvez exista
essa coisa pelo espaço vazio entre os corpos; por mais
que um abraço pretenda fundi-los sem junção visível, quanto
mais microscópico, mais aparece (entre) o vazio insolúvel /
aquilo que existe pela deficiência da pele talvez faça
nascer essa coisa irresolvida (a causa da saudade?)/ seria
essa coisa a consequência daquilo nascido ao alcance
e no entanto logo bloqueado, inócuo? algo inglório, outra
coisa, aquilo ali era o que poderia impedir de evadir-se
a si própria, coisa que por isso se mantinha, por isso
se queria assisti-la, mesmo não sendo possível (seria sensato
destruí-la?)/ desde o princípio o enigma grita, mas no eco
a resposta é a repetição de uma dúvida inequívoca.

( 107 (
+ necrópsia +

( 108 (
se estoura a clepsidra do tórax, se explode o delicado
vidro, outrora incólume, da mina íntima escorre
o líquido dos glóbulos pelo túnel dos ossos; a falência
múltipla destilou dos órgãos a fina hemorragia, antes que
coagulasse ( à protombina ), por dentro cintilasse
essa brasa acesa sobre a base onde agiu a febre, algo
( sob a pele ) regendo desde o ápice, o ardiloso auge
destes graus centígrados; que horário declararia com
justiça, a ruína desta balança cardíaca? quais das horas
vividas permitiria, limpa, cristalina, uma só plataforma
na memória? declararia o último suspiro toda a obviedade
da vida? mas o frio cronômetro do não exige tão só o dia /
a hora / a causa mortis / caronte já o leva para longe,
o legista conclui o exame, descobre o nome, sutura
o abdômen, do esterno à pélvis a linha dessa costura
contínua desenha a letra ípsilon, ainda enluvado,
preenche o dado no obituário, tramita o atestado de óbito;
deitado na maca, ou deslizando na gaveta, o cadáver
já navega ( a balsa compulsória sobre a lâmina d’água ),
entregue ao necrotério, refrigerado, rijo como aço, ]
frio como alabastro, outro homem se extingue,
vai-se mais um morto para o rio estige.

( 109 (
mandala de houdini

uma redoma, cujo âmago equidistante a qualquer ponto escolhido


na linha do perímetro, contivesse prisioneira (imobilizada por
correntes pesadas) a mais egoísta das partículas, ali, isolada num
labirinto de espelhos, hiperexposta apenas a si própria, e entretanto
o oroboro contorcido no centro de um picadeiro de marketing (ou o
projeto meramente calculado por qualquer das grandes agências de
publicidade), oferecida às massas como o único produto de consumo,
que a si mesmo se consuma para o deleite sadista de todos os olhares
do mundo; duvidasse ainda esta partícula (numa tormenta, um
pesadelo), vítima de uma espécie autoconsentida de escravismo, se
inteira ou bipartida, se estéril ou fecunda, íntegra ou pulverizada, não
obstante na medida em que EU fundo o poema no qual me refugio
sozinho (dr. jekyll ou mr. hyde), EU me revelo subitamente egresso
de algum túnel até então ocultado e surjo não menos demiúrgico,
neste exato momento do espetáculo, talvez o mais obscuro, por sobre
cujas palavras arbitrárias, se erguem unicamente as escolhas do MEU
monstruoso critério estético e, como frankenstein, EU sou este poeta,
sou o autor deste poema (onde o excêntrico cientista e a brutal criatura
se misturam), sou EU o prisioneiro solitário desta cela simétrica a 35
graus centígrados (são braços e pernas, são duas janelas) cujas paredes
de células me encerram na vigília das sensações que se elevam à quase
exaustão do estar em mim, enquanto criador deste específico livro de
poemas cujo título corpo de festim revisita a minha própria sina de estar
vivo e produtivo, mas não faria mal descobrir o mecanismo, o gatilho,
de cometer o único crime previsível, quiçá um icônico suicídio pela
honra, ritualizado à moda nipônica, para destituir-me enquanto
símbolo terrível, do self à tal persona poética, de toda a libido, do
meu “EU lírico” (esse serial killer, ou o meu místico inner being),
lançar-me aos ares num assento ejetável, pôr o ego em gravidade zero,

( 110 (
pois desisto de permanecer no cio desse rossio, nesse recinto sonoro
de letras ciciosas, e me esquivo, insidioso, e me livro de encontrá-lo
do outro lado, no virar da página, na linha de chegada, me ausento,
austero e frígido, da cópula contigo, meu leitor (o rei que deponho do
trono da alteridade), eu me livro de você a quem dirijo estas palavras
que escrevo sem segredo e nenhum delírio, enquanto eu mesmo me
incluo (ou excluo) destas inscrições por alguma convicção oriunda das
teses, da mais seleta baderna, da efeméride dos mais sérios intelectos,
das disputas da academia sobre esta ou aquela forma da poesia, sobre
se estar decerto derivado ou negando aquela certa métrica palimpsesta,
aquela lírica policialesca de protagonista perseguido, oriunda dos
tantos diários da dor de cotovelo dos mais célebres poetas jovens de
todos os tempos, e como num número de mágica tão misteriosamente
brotado do papel impresso, como a justificativa mais esdrúxula para a
suposta geração espontânea dalguma coisa viva em qualquer ambiente
mal fechado por descuido, este aceite que tomado por verdade pela
infância da ciência exigiria agora, passado o susto, o mais habilidoso
passe do escapista (“ah se harry houdini voltasse às vistas!”), o artista
desaparecido sem deixar vestígio, pois quantas vezes, tanto faz se no
poema ou no cotidiano, o “EU”, essa celeuma trêmula, essa centelha
presa ao medo da morte, fincada bem no centro de uma mandala
tramada no nada contra a angústia do esquecimento, se quereria
extinguir-se, retirar-se da estrutura outrora concebida para receber
a suntuosa presença da realeza no palácio da autoria, este “EM SI”
físico do próprio criador, senão aquele quem assina sua própria obra
fazendo de si sua única chave explicativa (mas sendo assim, quase um
assassino, não a mataria por asfixia?), “ah se harry houdini voltasse à
vida!” e se pudesse aprender com ele (sem a interferência do medo),
nestes dias de cansaço e desastre, na sentença dessas tardes dominicais
de tamanha descrença, num ato máximo de coragem, livrar-se dos
cadeados e das grades, (como se recebesse dele este presente célere,
entregue de uma só vez), num flash, num splash, no zás-trás ou
abracadabra, num golpe de mestre, ah se fosse possível simplesmente,
e para sempre, D E S A P A R E C E R D E V E Z

( 111 (
Não saiba a tua mão esquerda
o que faz a direita:
dois estudos para o Corpo de festim
a mão direita

No corpo do texto: A poesia atual (e real) de


Alexandre Guarnieri
Mauro Gama

Um dos melhores indicadores do talento poético de Ale-


xandre Guarnieri se revela, até a data, no espectro temático de seu
trabalho. Inicialmente, em Casa das Máquinas (Editora da Pala-
vra, 2011), suas maiores preocupações se detêm nas “extensões do
homem”, ou seja, em seu universo tecnológico e nas implicações
culturais, morais, sociais, da interação que desse modo se processa.
É como se nos dissesse, e nos provasse literariamente, o fato aqui
e ali racional e frio, aqui e ali talvez patético, de que o homem
ocidental dos nossos dias valoriza bem mais a máquina do que
seus semelhantes e, à relação com estes, vem preferindo a relação
com aquela (ou com quem se conduza como tal...). Em seguida,
para onde se desloca a ótica do poeta? Para a máquina humana
propriamente dita, para seu corpo físico e, nada gratuitamente,
situado numa perspectiva de fraude, balela ou ilusão: um corpo...
de festim (como um cartucho de tiro falso, pólvora seca, inofensi-
vo). Guarnieri, tanto num livro como no outro, se debruça sobre
o que nos resta, nessa aventura planetária da existência humana.
Num recorte histórico em que as religiões ou se pervertem
nos deleites do sexo, ou se voltam para a traição chamada “teologia
da prosperidade”, ou ainda para a rapina e guerra de conquista,
em que a reflexão filosófica ou se omite ante os desafios teóricos
cada vez maiores, ou se deixa cooptar pelos gigantescos interesses
econômicos em causa, ficam em destaque, na crista do cotidia-
no, os fetiches tecnológicos e fisiológicos, dando origem a uma
espécie de novo hedonismo de rés-do-chão e superficialidade. As
modernas sociedades de massa, e de consumo, afastam-se das ar-
tes, cultivam mais os resultados e técnicas da ciência do que seu
desenvolvimento, e vão-se tornando o falso paraíso do bicho-ho-
mem quase exultantemente destituído de senso crítico, devotado
à mesa, à cama, às distrações do turismo e do desfrute imediato.
É nesse contexto que se movimenta a sensibilidade de Alexandre
Guarnieri, disposto a dissecar – como artesão da palavra – o em-
basbacante mundo que nos cerca.
O Corpo de festim nos faz lembrar, em alguns momentos,
um grande pioneiro da crítica às agruras da modernidade, ou da
pós-modernidade, o arrojado Wilde de “The Remarkable Rocket”,
um dos contos de The happy prince and other tales, cujo final, de-
pois das portentosas pretensões, proclamações e esfuziantes prog-
nósticos, é apenas “Fizz! Fizz! Fizz!”, para subir, e uns tímidos “Bang!
Bang! Bang!” que ninguém ouviu. Sobra dele, e de tudo, apenas a
vareta, que vai cair perto de uma gansa. Há, tanto neste caso quan-
to na perquirição poética de Guarnieri, um retrato alegórico da
condição de todos nós no séc. XXI, quando as pessoas conseguem
reinventar e reificar o corpo ao mesmo tempo, como se divididas
entre um mergulho no futuro desconhecido e nos mais primiti-
vos ritos de um passado imemorial. Um fotógrafo americano, acho
que Spencer Tunick, se especializou em grandes nus coletivos. Em
muitos centros urbanos importantes, suas imagens, cada vez mais
perturbadoras, causaram debates significativos. Ao ser entrevistada,
uma moça que se despira totalmente para um desses eventos, falou
do alívio que tivera por se ter finalmente “livrado de sua intimida-
de”. Foi quando nos perguntamos quando poderemos separar, com
segurança, a nossa intimidade da nossa identidade.
Afinal, o que é o corpo de cada um? É tudo e é nada. É, até
o momento, o nosso único vetor mais ou menos seguro da exis-
tência e a substância do... festim, explosão malograda e inerme em
que, além de tudo, nos identificamos com todos os outros seres
vivos, dos anelídeos ao meio-irmão chimpanzé. Não por outro
motivo o genial alemão Gottfried Benn, a certa altura, vai dar em
sua poesia prioridade ao cadáver, ao corpo tout court despojado
de toda a consciência que nos suplicia, e tão parecido com o das
formigas que se amontoam após o desastre de sua grande casa
destroçada. E também não por outro motivo Alexandre Guarnieri
se desloca da máquina para o corpo humano, separa suas partes
e o disseca. Por outro lado, é apenas um passo adiante. Se reúne
sua poesia atual num livro chamado Corpo de festim, em vez de
tratar de um mundo oposto à Casa das máquinas ou coisa pare-
cida, mergulha na sua essência, na “máquina humana” subjetiva e
objetivamente refletida, recriada em sua dinâmica interior, em seu
mundo fisiológico e psíquico em pleno desempenho, assim como
em suas interações com o contexto sociocultural em que se inse-
re, e atua. A nosso ver, a perspectiva do poeta se aprofunda nessa
fase, avança mais fundo na mesma problemática, confirmando
desse modo a posição de seu trabalho na linha de maior criativi-
dade da criação poética brasileira pós-cabralina. Numa época de
enorme dispersividade das tendências e concepções, de diluição
formal e paupérrimo lirismo nas receitas neoimpressionistas de
“oficina literária”, Guarnieri progride num formalismo de temas
essencialmente contemporâneos, desenvolvendo-se com segu-
rança e extraordinária independência. Esta última se mostra tão
viva e verdadeira que o poeta se nos afigura como se administrasse
uma versão própria (sem dúvida algo mórbida, e incômoda, para a
maioria dos leitores) ao mesmo tempo do caos gestativo e da ruína
desagregadora da condição humana.
Como, porém, Alexandre Guarnieri chega a essa etapa de
sua escrita? Como consegue explicitá-la desse modo? Vejamos.
Num dos últimos segmentos, o “Biótopo”, em que as “amputa-
ções desde a nutrição” adquirem caráter estritamente fisiológico e
prosseguem com a assertiva de que “todo esforço é doloroso”, rea-
firma-se que o investimento no êxito do corpo, qualquer que seja,
exige um ferramental a um tempo de reconhecimento e destruição
– espelho, agulhas, frutas – (em seguida, em “Retrogressão”); é a
caracterização, digamos assim, da incerteza e ambiguidade ineren-
tes a toda vida física. A viagem se iniciara manifestamente no úte-
ro, e a linguagem de Guarnieri se tensiona, quase sem mediações
referenciais no esmiuçamento que chega ao cérebro (ou “sua es-
ponja suja”, na estupenda imagem do autor). Aqui, à medida que
ingressamos também no território de surda destruição que cerca o
velho e todas as categorias de seres humanos (“sejam bem-vindos
sempre / ladrões / pilantras / cidadãos de bem /amigos / esta é a
hora da vossa própria estrangulação”), a gente recorda o desampa-
ro e a sanguinolenta crueza do corpo no pioneirismo hiper-realista
de Frida Kahlo (que rejeitava com veemência a atribuição de sur-
realismo a suas opções mais poderosas: era a “sua realidade” que
ela expunha).
Na verdade, há igualmente amplos sinais de hiper-realismo
no trabalho de Guarnieri, e isso se pode observar claramente neste
Corpo de festim, por sua anatomia plástica e intransigentemente
figurativa: afinal, sua matéria-prima são órgãos do corpo humano,
compõe-se deste, como, nas artes plásticas, a obra de outro inquie-
tante artista do nosso tempo, o australiano Ron Mueck (*1958):
vai além dele, porém, o poeta brasileiro, já que invade o organis-
mo fisiológico e lhe retrata cada um dos componentes, desde o
testemunho de sua fecundidade primeira em do óvulo revelado
eva adentro, é toda fértil a terra materna, com essas duas últimas
palavras de viva síntese cosmológica. Sabe, porém, que surpreende
no sangue a dinâmica maior dessa temática vital: e sabe-o, mais
ainda, sujeito à circunstância do tempo, em que tudo se faz e se
desfaz: só o óleo dos glóbulos/passa ( o plasma )/quando não é
pálido/( na ampulheta viva “[...] Apesar disso, de verbalizar a vida
material em sua aflitiva fluidez, notemos um achado de aspec-
to curiosamente paradoxal, à beira da transcendência que insiste
em marcar a fragilidade do humano: no texto do “crânio”, “trono
[que] ocupa o topo desta cúpula / uma armadura de juntas, par-
cialmente recoberta por ranhuras em cruz, pelas quais, de sua fur-
na interna ( o antro intracraniano )”, os vocábulos ‘trono’, ‘topo’,
‘cruz’, ‘furna’ e ‘antro’ detêm o sentido da solidão individual, e de
seu drama.
Não se trata, porém, dos sinais de uma transcendência ins-
titucional, ou “religiosa”, mas da própria humanidade consciente
e indagadora. Isso fica mais claro que nunca no poema do “ânus”,
que comparece como equívoca fonte de prazer e resistência, mais
afeita à “língua solta de sodoma & gomorra”, e onde a continua-
ção é intencional e sarcasticamente blasfema: “o sopro divino [...]
tão somente gás metano” (daí depois o “ânus sanctus”...).
Nota-se nitidamente, em tudo, uma espécie de luminoso
testemunho do conflito em todas as suas dimensões. Quer nos
textos do “Corpo-só-órgãos” quer na “Mecânica dos fluidos”, ti-
vemos de nos lembrar de Augusto dos Anjos (em meio a uma
supermoderna encarnação que palpitasse imersa nas enormes
transformações dos nossos dias) e, naturalmente, de Benn, de sua
poética às vezes traumatizante, mas serena e radicalmente reno-
vadora, obsessivamente debruçada sobre a miséria físico-química
de todos os ardis do nosso arcabouço vital. E, no Corpo de festim
de Guarnieri, a partir da ambivalência terrível da expressão, pois
um tiro de festim, como o assinalamos, é um tiro falso, que suja
e estraga (lembram-se daquele que deixa preto de pólvora o rosto
do estupendo ator Gunnar Björnstrand nos Sorrisos de uma noite
de verão, de Ingmar Bergman?), mas não mata, sua criação poé-
tica se ocupa diretamente da realidade fisiológica, submete a esse
crivo sua invenção imagística, invade o corpo como quem invade
o mar, seus líquidos, sua “ilusionística” organicidade. Não utiliza-
mos aqui a referência ao ‘ilusionismo’ sem uma intenção peculiar.
Guarnieri pouco depois vai sintetizar essa visão num retrato de su-
blimação suicida, a “Mandala de Houdini”, em que seus motivos
se concentram (num EGO, numa supliciada e supliciante galáxia
existencial) para em seguida implodir, fragmentar-se e “desapare-
cer de vez”.
Ora, Houdini (1874-1926) foi um prodigioso mágico,
acrobata e ilusionista húngaro-americano que assombrou milha-
res de admiradores no mundo inteiro com proezas excepcionais.
Teria sido, para muitos dos que se dedicam à história dessas artes
estranhas e milenares, o mais impressionante de todos os tempos
no que se refere à habilidade de se desvencilhar de qualquer tipo
de aprisionamento, fosse feito com cordas, cabos, correntes, fosse
com caixas, celas, recintos que lhe obstruíssem os movimentos e
a própria respiração (tudo isso, por certo, pode ser “lido” como
metáfora do corpo: estaria devotado a se “livrar do” corpo). Como
o leitor pode verificar em informações do Google, na Inglaterra o
velho criador de Sherlock Holmes, Conan Doyle, conheceu Hou-
dini e, interessado em explicações espiritualistas, imputou grande
parte de suas façanhas a aptidões paranormais. Mas uma impor-
tante corrente de opinião, especialmente nos EUA, insistiu no
uso (de intensidade quase implausível) do “ilusionismo”: Houdini
teria, principalmente, uma capacidade incomparável de dominar
suas plateias, e convencê-las.
É de especial interesse que, muito depois, na terceira déca-
da do século XX, um dos maiores gênios da poesia de nossa épo-
ca, e de nossa língua, Fernando Pessoa, também admirava de tal
modo o trabalho dos magos e prestidigitadores, que se correspon-
deu com um dos mais conhecidos em seu tempo, o inglês Aleister
Crowley. Deu-se, então, um dos mais misteriosos acontecimentos
da vida do poeta, documentado por seu biógrafo maior, João Gas-
par Simões: a 2 de setembro de 1930, Crowley chegou a Lisboa,
para visitar Pessoa; algumas semanas depois, a 25 do mesmo mês,
o mago desapareceu totalmente, e para sempre: quer em Portugal,
quer na Inglaterra, nunca mais se teve notícia sua. E a “Mandala
de Houdini”, de Alexandre Guarnieri, se encerra com o tópico
do “desaparecer de vez”. Em nossa percepção, a “mandala”, que
coroa uma série de textos focados na carne e no sangue do finito,
na matéria corruptível sempre à mercê de um sacrifício intrínseco
e definitivo, é uma ritualização da morte voluntária, ou de sua
“ilusão” gerenciada no rito da palavra poética. Repare o leitor em
quantas vezes o eu é mencionado, em caso direto e oblíquo (ego e
id ?), nessa paciente e enigmática estilização do fim de todos nós.
Recordemos, em “(Os órgãos internos”) do “Corpo-só-ór-
gãos”, como “O conjunto luta sob o mesmo pulso” e “o mesmo
insumo bruto lhe insufla a labuta”, momentos exemplares dessa,
por assim dizer, “desconstrução construtiva”, em que vida e morte
trocam escuridão e claridade, ora reacendendo a luta inútil no
u vocálico sombrio, ora se abrindo no “mar hemorrágico” (mais
adiante, no mesmo texto), de significado ainda mais sinistro em
sua aparente e suposta libertação. É assim que chegamos à “man-
dala”, redoma “hiperexposta apenas a si própria”, foco, matéria
primordial da personalidade construída e destruída, tormentoso
símbolo cosmogônico da obsessiva poética existencial de Alexan-
dre Guarnieri.

Mauro Gama
nasceu em 1938, no Rio de Janeiro.
É poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário.
Foi redator em várias revistas, jornais, enciclopédias e
dicionários. Publicou Corpo verbal (1964), Anticorpo (1969),
Expresso na noite (1982) e Zoozona seguido de Marcas na noite
(2008). Traduziu sonetos de Michelangelo (2007) e poemas de
Gérard de Nerval (2013). Colabora com a revista eletrônica
mallarmargens.com.
a mão esquerda

Nosso Corpo de Festim


Jorge Elias Neto

Ler “Corpo de festim” de Alexandre Guarnieri foi uma vol-


ta no tempo. Não só pela temática, mas também pelo processo
catártico na realização dos poemas.
Há cerca de trinta anos, ainda jovem, tive minhas primei-
ras aulas de anatomia. Sobre as mesas azulejadas do anatômico,
corpos inteiros, corpos abertos, expostos – corpos sem nome –,
com alfinetes multicoloridos sinalizando pequenos detalhes que
persegui com o Atlas de Anatomia em minhas mãos. Tudo muito
vazio, oco – sem humanidade (ou quem sabe, com toda a huma-
nidade possível).
Depois de tanto tempo, a sensação de desconforto nova-
mente se faz presente. O corpo agora é outro, mas também é outro
o leitor, e esse, já familiarizado com o sangue, se depara com o
avesso de um corpo – travestido em poemas rascantes.
Na capa, o grande mágico e ilusionista Houdini nos mos-
tra sua arte de sobreviver, driblando falsamente a morte com suas
algemas e cadeados que ele preparava com maestria. É o novo
paradoxo do homem “pós-moderno”, com sua casca, seus subter-
fúgios, indo ao extremo – no seu processo histórico de negação
da morte. Mas no branco da capa as gotas de sangue nos alertam:
embora de festim, esse corpo-poema nada tem de festa ou de ame-
nidades inócuas; ele possui um tipo de visgo que pode persistir
no leitor, com sua multiplicidade de tons vermelhos irrigando a
engrenagem do nada.
Mas antes que nos adentremos nesse corpo guarnieriano,
cabem algumas considerações sobre a pontuação-ilustração utili-
zada pelo autor.
“O ofício de um escritor”, diz-nos o linguista José Augusto
Carvalho, “não é o de seguir as normas, mas o de subvertê-las”.
É o que também afirma Ortega y Gasset quando diz que “não se
atreva a escrever aquele que não se atreve a inovar”. E este “Corpo
de festim” é um excelente exemplo de um uso inovador dos sinais
de pontuação. Guarnieri não utiliza dos sinais, preferencialmente
aqueles cuja função essencial é marcar a MELODIA, a ENTOA-
ÇÃO (dois pontos, aspas, parênteses, colchetes e travessão) com
esse objetivo (na verdade existe um nítido esvaziamento melódico,
quase uma ausência de lirismo nos poemas), e é na crueza que o
poeta demonstra a força de seus versos, enriquecendo o sentido
dado ao corpo humano.
Os sinais se apresentam ao leitor no título dos poemas
como que ilustrando órgãos ou partes do corpo. Assim, nos de-
paramos com: parênteses-orelhas, útero-parêntese dentro de pa-
rêntese, articulações-barras... Fazendo isso, Alexandre Guarnieri
aproxima seu poema da pintura, aproxima seu poema do corpo
fragmentado.
No primeiro capítulo, denominado Darwin não joga dados,
Mallarmé sim, Guarnieri nos diz de suas influências, já presentes em
seu livro anterior, Casa das máquinas. É de Einstein a célebre frase
que “Deus não joga dados”, e o poeta se utiliza do deus dos evolu-
cionistas para reiterar essa afirmativa. Ao completar essa ideia com
a célebre máxima de Mallarmé, o poeta define qual bisturi utilizará
para destrinchar o homem de lata, o homem-móbile – a razão crítica.
O poeta se aproxima da página em branco, símbolo do ab-
soluto para Mallarmé, e elabora, com riqueza de detalhes estilísti-
cos herdados de seus cânones, a criação do Universo e o surgimen-
to do homem. Eis o herói possível, o artista, usando do lenitivo
de tornar o vermelho a tinta tipográfica lançada sobre a nudez do
papel. Mas nesse processo o poeta não renega, não ignora a página
da pele. Ele nos mostra a última pele – a palavra –, e nos contradiz
quando afirmamos que a arte permite um legado sem tragédia,
pois são números e letras de chumbo o suor de sua pele impressa. O
corpo de festim também sangra.
O homem que aguarda na antessala líquida do mundo
não escolhe estar presente; ele recebe um nome, decidido entre
uma trepada e uma palmada do obstetra, e, a partir de seu nas-
cimento, sofre uma sequência de choques, somente interrompida
pela morte, pois o que aguarda o ser consciente são muitas auro-
ras de fuligem e pólvora. Esse ser, com sua consciência plantada
na samambaia dos nervos, se adentra no absurdo, e sua carne se
abisma nesse enigma.
No capítulo seguinte, Guarnieri nos apresenta um corpo-só-
-órgãos. E não nos propõe uma viagem fantástica, mas uma autópsia
a frio, um corpo ao avesso, um corpo oco, uma imersão nas entra-
nhas de um frankenstein.
Passamos então a contemplar um mundo sem deus, sob
um teto espelhado e um piso de excrescências. Alexandre Guar-
nieri leva ao extremo a visão de muitos poetas contemporâneos.
Cansado de tantas almas dissecadas, e não pouco idealizadas, des-
trincha o corpo, de dentro para fora. Rompe as falsas amarras e os
cadeados viciados correndo o risco da impermanência, da extin-
ção do ideal humano.
E segue o poeta com sua anatomia do sem sentido, des-
crevendo a mecânica dos fluidos, porque na ampulheta viva/sangue
é tempo, metáfora perfeita para descrever o paradoxo do homem
atual. Um ser que, apesar do arcabouço, da ossatura estruturada,
articulada, apesar da célebre postura bípede – com seus pés imor-
talizados no esqueleto lunar – se impõe um salto na liquidez mo-
derna, aproximando-se da máquina por ele criada. Daí a ênfase
do poeta, o que causa estranheza aos habituados, aos tratados
de anatomia e aos leitores comuns, em preterir os órgãos ditos
nobres (cérebro e coração) e optar pelo grande tubo que inge-
re prazer (com extrema urgência) e excreta a impureza sobre o
trono divino. Não faz isso por tratar-se de um corpo formado
basicamente de água, e que se alimenta dela para sobreviver, mas
por ter-se transformado em um “corpo fluido”, moldável pelo
instante. E são inúmeras e infinitamente renováveis as “ofertas
de instantes” do deus-mercado...
Mas o que acontece quando o instante se fluidifica, se tor-
na cada vez mais instantâneo, insatisfatório; quando o instante
passa veloz; quando um piscar de olhos nos impõe uma limitação
fisiológica para vivenciá-lo? “Pode”, como disse Valery, “a mente
humana” – essa noz que alucina e racionaliza – “dominar o que a
mente humana criou?”. Quanto cabe de assombro na engrenagem
do homem-móbile?
No capítulo final, “vigiar e punir”, Alexandre Guarnieri se
remete a um dos títulos do filósofo “pós-moderno” Foucault. E
nada mais oportuno. Não é questão de paranóia, de uma teoria
da conspiração, mas o poeta percebe exatamente o que o filósofo
francês deixa claro em seu livro: “Cada época criou suas próprias
leis penais, instituindo e usando os mais variados processos pu-
nitivos, que vão da terrivelmente macabra violência física – o
suplício do corpo, tendo como motivação legal a salvação da
alma do condenado.” E que prisão mais eficiente que o corpo?
Estabelecer um link entre o prazer e a autopunição inconsciente?
O domínio das massas em tempos de nanotecnologia é exercido
mediante a pílula do instante, que faz naufragar a consciência
enquanto viaja no submundo intestinal e mental dos filisteus.
Eis outro questionamento que os poemas de Guarnieri nos
propõem: seria então a liberdade um rombo no rebo6co da consci-
ência, uma boca aberta e um ânus carente – um funil empurrando
o fluido-promessa-de-gozo, goela abaixo, do homem incoerente?
Tudo isso nos leva a pensar que talvez os escritores de scien-
ce fiction não tenham apenas tido êxito em sinalizar os grandes
avanços tecnológicos da humanidade que permitiram ultrapassar
fronteiras inimagináveis aos seus contemporâneos. Eles foram
também capazes de antever uma nova possibilidade para o “salto”
camusiano – o salto para a perversão, como recurso ao desespero
perante o sem sentido. Vivenciamos uma mudança de paradigmas,
não que a aproximação de Deus tenha tornado o homem melhor;
a perversão sempre existiu como traço da humanidade. Entretanto
o reconhecimento de um deus menor ou de sua inexistência não
foi acompanhado de um processo de desconstrução do homem.
O homem optou pelo hedonismo extremo em detrimento
da busca de sua irrelevância relativa.
Considerando que isso ocorre pari passu com o avanço tec-
nológico que possibilita uma densidade demográfica nunca vista
sobre o planeta, projeta-se, em níveis insustentáveis, a possibilida-
de de posturas pervertidas por parte da humanidade.
O homem se apega a um deus mais próximo, seu parceiro
ou ele próprio. Se acerca desse deus e não tem como ignorar sua
fragilidade e incongruência – não tem como mitificá-lo. Mas
é o único deus possível, e a única existência possível – e urge
vivê-la. A consciência mais uma vez se molda à necessidade do
novo deus.
E o poeta lúcido, diante disso, vê-se atormentado, entorpe-
cido – pois persiste atrelado à sua consciência e às circunstâncias,
ao seu entorno. Fica claro o absurdo do homem “pós-moderno”,
abraçado a esse novo tempo liquido e fractal.
É um novo espelho, esse no qual se mira o poeta. Ele tem
mais reentrâncias e, em decorrência disso, reflete mais o que se vê
e o que se rejeita com a razão.
Qual transcendência possível a esse homem corporificado
em festim?

Jorge Elias Neto


nasceu em 1964, em Vitória, ES. Poeta, médico e pesquisador.
Membro do Conselho de revisores dos Arquivos Brasileiros de Car-
diologia e do Conselho Editorial da Revista Latino-Americana
de Marcapasso e Arritmia. É membro da Academia
Espirito-Santense de Letras. Publicou “Verdes Versos” (2007), “Ras-
cunhos do absurdo” (2010) e “Os ossos da baleia”
(prêmio SECULT-ES 2012). Colabora em blogues, revistas e no
Portal Literário Cronópios.
www.editorapenalux.com.br

penaluxeditora@gmail.com

/penaluxeditora
Composto em Garamond e
impresso em Pólen Bold 90g/m²
em São Paulo para Editora Penalux,
em Maio de 2016.