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Mariologia - Maria na Bíblia

Frei Rinaldo Stecanela, osm

MARIOLOGIA - MARIA NA BÍBLIA


I – INTRODUÇÃO

Com as devidas autorizações do nosso Pai criador e com o consentimento de


Jesus Cristo, auxiliados e orientados pela luz maravilhosa do Espírito Santo, este
curso leva ao estudo e à descoberta da presença de Maria nas Sagradas Escrituras.
Objetiva-se refletir sobre a importância e o espaço que ocupa a Mãe de Jesus e
nossa Mãe no plano divino da salvação. Tenho certeza de que vamos aprender
muita coisa sobre Maria e creio firmemente que o nosso carinho e o nosso amor por
Maria vão aumentar muito mais a partir de agora. Que Ela nos oriente. Que Ela se
revele para nós. Que sejamos fiéis em transmitir um pouco da sua vida, sua
mensagem e sua importância na história da Salvação e sua presença sempre atual
para os dias de hoje e de todos os tempos.
Começaremos delineando a sequência cronológica (linha do tempo) do nosso
estudo, a partir de algumas passagens do Antigo Testamento e, principalmente, da
riqueza dos textos do Novo Testamento.
Essa sequência permitirá uma visão de MODO PROGRESSIVO que os autores
inspirados (evangelistas) tomaram consciência do PAPEL de Maria no decorrer de
toda a HISTÓRIA da SALVAÇÃO, desde as suas prefigurações no Antigo Testamento
até sua MISSÃO materna em relação a CRISTO e à IGREJA. No final do curso, serão
oferecidas algumas referências bibliográficas para melhor aprofundamento no tema
mariano.
Todo esse estudo de Mariologia tem como objetivo o aprofundamento nos
seguintes elementos:
 Intelectual: compreender corretamente o lugar e a Missão de Maria na
história da Salvação;
 Espiritual: crescer no amor e na piedade para com a Mãe de Jesus e
nossa Mãe;
 Moral: imitarmos Maria como exemplo de vida, de fé e de amor;
 Cultual: celebrar Maria do jeito certo na liturgia e na devoção popular;
 Pastoral: comunicar ao povo de Deus e à sociedade a maneira correta
de honrar e venerar Maria.

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Dessa forma, há o seguinte questionamento: Quais são as FONTES para buscar


dados para conhecer Maria?
Em primeiro lugar, na BÍBLIA, a principal fonte de referência;
Na Devoção popular (sensus fidelium): o jeito que o povo de Deus vive e
celebra a piedade mariana;
Na Tradição da Igreja: o que os padres da Igreja, desde as origens da Igreja,
refletiram sobre Maria. E o que a Liturgia da Igreja nos pede para celebrarmos o
culto à Maria;
No Magistério pastoral da Igreja: o que os Concílios, a Santa Sé, os Dogmas da
Igreja tratam sobre Maria;
Na Teologia: a reflexão e ensinamentos dos doutores da Igreja, os Teólogos.
É importante deixar bem claro, já no início deste curso sobre Maria: Maria
jamais vai tirar o lugar de Jesus. A nossa fé é CRISTOCÊNTRICA, ou seja, Jesus é o
centro de tudo, Ele é único mediador entre Deus e os homens. Ninguém pode e nem
deve tirar o lugar de Jesus. Porém, compreender o lugar certo de Maria, dentro da
vida de Jesus e da história da Salvação, nos ajudará a ter um respeito ainda maior
por Jesus e, consequentemente, por Maria. Muita gente nos critica, como cristãos,
como católicos, de darmos muita importância a Maria em nossas Igrejas, nas
celebrações e nas práticas de piedade etc e menos importância a Jesus. Talvez o
erro seja nosso de não compreendermos o lugar certo de Maria e sua importância
no Mistério da Salvação. Por isso que este curso ensinará o jeito certo de
compreendermos Maria. E, uma vez compreendido, vamos poder transmitir
corretamente, sem exageros, o lugar de Maria em nossa vida, na Igreja e na fé.
Maria não existe sem o Cristo. Toda sua história, sua escolha, sua preparação
está relacionada à vinda e à vida de Jesus. Ela só existe em função de Cristo. Se
Cristo é o centro de tudo, Maria vai ocupar uma importância central, porque é a
pessoa mais próxima ao Centro, ou seja, a Jesus. Maria, inclusive, é quem mais se
aproximou da Santíssima Trindade: foi escolhida pelo Pai para gerar o Filho, sob a
luz do Espírito Santo. Portanto, ela fez uma experiência trinitária em sua vida. É
claro que ela não é a “quarta” pessoa da Santíssima Trindade, mas, de Santíssima
Trindade, ela entende, porque vivenciou tudo isso em sua vida.

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Dentro dessa lógica, pode-se criar aqui alguns laços paralelos que ajudarão a
compreender melhor a relação de Maria com Jesus Cristo:

Se Jesus é Homem, Maria é a Mãe do Homem;


Se Jesus é Deus, Maria é a Mãe do Filho de Deus;
Se Jesus é o Caminho, Maria é aquela que indica o Caminho;
Se Jesus é a Verdade, Maria é aquela que testemunha a Verdade;
Se Jesus é a Vida, Maria é a que gerou a Vida dentro dela;
Se Jesus é o Doador do Espírito, Maria é o vaso espiritual que contém o
Espírito;
Se Jesus é a Sabedoria, Maria é a sede ou o trono da Sabedoria;
Se Jesus é a Aliança, Maria é a Arca que abrigou a Aliança;
Se Jesus é a Luz, Maria é o candelabro que carrega a Luz;
Se Jesus é o Sol da Justiça, Maria é a Estrela da Manhã, a Lua que irradia essa
e anuncia a chegada da Luz.
Se Jesus é a Água da Salvação, Maria é a cisterna dessa água;
Se Jesus é Fruto que nutre, Maria é a árvore que produziu esse fruto;
Se Jesus é o Tesouro precioso, Maria é o cofre que guarda esse Tesouro;
Se Jesus é o Perfume que salva, Maria é frasco desse perfume;
Se Jesus é o rosto de Deus, Maria é a moldura do quadro divino.

Portanto, há muito trabalho pela frente para conhecer essa figura tão
apaixonante que não quer outra coisa a não ser o nosso amor para com o seu Filho.
Não é possível super maximizar a figura de Maria para não tirar o lugar de Cristo.
Porém, não podemos minimizar a figura de Maria (como fazem alguns outros
credos) para não diminuir sua importância na história da Salvação. Aqui vamos
encontrar o seu verdadeiro lugar e significado.
Devemos usar duas linguagens aqui: do amor e da razão.
Do amor, porque quando se ama alguém, se exagera nos seus atributos e
qualidades. Isso é normal. Queremos tanto Maria que algumas vezes exageramos
até mesmo nas palavras quando nos dirigimos a ela, somos generosos demais! Por
exemplo, quando dizemos “Maria nós te adoramos”. Não é que ADORAMOS Maria
do mesmo jeito que devemos ADORAR a Deus. Somente Deus merece a verdadeira

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ADORAÇÃO. Mas o nosso amor por Maria é tão grande que usamos termos para
expressar o nosso amor afetivo e filial para com Maria.
É verdade: devemos purificar algumas palavras que usamos quando falamos
de Maria para evitar mal-entendido lá na frente! Devemos ser prudentes! Maria já
tem a sua honra natural, dada pelo próprio Deus. Não precisamos “inventar” coisas
ou dizer muitas coisas “do coração” para elevar Maria. Ela já tem a sua honra
garantida. Aliás, São Bernardo e São Boaventura já diziam que a Santa Virgem não
precisa de nossas mentiras exageradas para se fazer honrar. Ela já tem a sua honra
própria.
Por outro lado, é preciso conhecer racionalmente a figura de Maria, através
de estudos, cursos, faculdades etc. E é isso que estamos fazendo aqui. Maria, hoje, é
um tema de estudo. Serão três módulos neste curso sobre Maria: Maria na Bíblia,
Maria na Tradição da Igreja e Maria na Devoção Popular.
Vamos começar pela Palavra de Deus, a fonte de tudo.

II - TRAÇOS MARIANOS NO ANTIGO TESTAMENTO

Um esclarecimento importante: Maria pertence ao Novo Testamento. Ela


nasceu no tempo do Novo Testamento. Todos os relatos específicos e diretos que
falam dela estão no Novo Testamento. E tudo isso será estudado com muito carinho
mais adiante. Porém, são feitas algumas perguntas: O Antigo Testamento referiu-se
alguma vez à Mãe do Messias esperado?; Existem textos bíblicos que, mesmo em
sentido figurado, mencionam algo sobre a Mãe do Filho de Deus?; É possível
associar alguns textos do Antigo Testamento e aplicá-los à Maria?
Muitos estudiosos afirmam que o tema mariano está “escondido” sob três
modos no Antigo Testamento: preparação moral, preparação tipológica e
preparação profética.
1. Preparação moral: como a humanidade estava corrompida pelo
pecado, Deus escolhe uma linhagem de fé e santidade para que o seu filho
possa nascer da raça humana.
2. Preparação tipológica (linguagem simbólica): constata-se que, no
Antigo Testamento, muitas mulheres foram favorecidas com nascimentos
milagrosos: Sara (Gen 21, 1-2), Ana (I Sam 1, 10-20), Isabel (Lc 1, 5-25). Todas
elas fazem parte dos ancestrais do Messias esperado. Maria aparece com

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símbolo da “Filha de Sião” (Sf 3, 14-17), o lugar da residência de Javé. Maria


também é simbolizada com a nova Arca da Aliança (dentro da Arca era
depositada a LEI), que vai trazer dentro de si a Lei definitiva (revelação) de
Deus, seu próprio Filho, Jesus.

“14Solta gritos de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, ó Israel! Alegra-te
e rejubila-te de todo o teu coração, filha de Jerusalém!
15
O Senhor revogou a sentença pronunciada contra ti e afastou o teu inimigo.
O rei de Israel, que é o Senhor, está no meio de ti; não conhecerás mais a desgraça.
16
Naquele dia, dir-se-á em Jerusalém: Não temas, Sião! Não se enfraqueçam
os teus braços!
17
O Senhor teu Deus está no meio de ti como herói Salvador! Ele anda em
transportes de alegria por causa de ti e te renova seu amor. Ele exulta de alegria a
teu respeito
18
Como num dia de festa. Suprimirei os que te feriram, tirarei a vergonha que
pesa sobre ti.” (Sf 3, 14-18)

3. Preparação profética: Além do texto acima, temos mais alguns que


podem ser “aplicados” à Maria:
Ct 4,7: “És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em ti.”;
Jr 31,22: “Eis que o Senhor criou uma coisa nova sobre a terra: É a esposa que
cerca (de cuidados) o esposo”;
Gn 3,15: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela.
Esta te ferirá a cabeça e tu ferirás o calcanhar.”

Uma consideração sobre este texto:


O texto é muito significativo e apresenta, em uma primeira leitura, a luta até o
fim dos tempos entre a humanidade e o demônio. O termo “Ela te ferirá a cabeça”
pode aludir tanto a Maria, a nova Eva, como a Igreja.

Is 7,14:
“Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à
luz um filho e o chamará Emanuel, Deus Conosco.”

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Considerando o texto...
Embora o texto faça referência ao nascimento de um herdeiro na linhagem de
Davi, pode ser muito bem aproveitado como uma profecia Mariana.

Mq 5, 1-4:
“1Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá
para mim aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos
tempos antigos, aos dias do longínquo passado.
2
Por isso, (Deus) os deixará, até o tempo em que der à luz aquela que há de
dar à luz. Então o resto de seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel.
3
Ele se levantará para (os) apascentar, com o poder do Senhor, com a
majestade do nome do Senhor, seu Deus. Os seus viverão em segurança, porque ele
será exaltado até os confins da terra.
4
E assim será a paz.”

Sobre o texto...
Mesmo não apontando diretamente uma referência mariana, o texto fala
diretamente de um rei-pastor, saído da tribo de Davi. Seu nascimento se projeta
para o futuro (pois todos os verbos do texto estão no futuro).
Esses são alguns dos textos do Antigo Testamento que, em uma leitura básica,
podem fazer referência a UMA MULHER que vai DAR À LUZ ao FILHO DEUS que será
o SALVADOR DA HUMANIDADE.

III - MARIA NO NOVO TESTAMENTO


Neste item, será feito um estudo mais detalhado, em ordem cronológica, dos
livros bíblicos do Novo Testamento que falam explicitamente de Maria. São eles:
 Gálatas (escrito por volta do ano 50 d.C.) - as informações mais antigas
sobre Maria;
 Marcos (escrito por volta do ano 60 d.C.);
 Mateus (escrito por volta do ano 70 d.C.);
 Lucas (escrito por volta do ano 70 d.C.);
 Atos dos Apóstolos (também escrito por volta do ano 70 d.C);
 João (escrito por volta dos anos 90-100 d.C);

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 Apocalipse (também escrito por volta dos anos 90-100 d.C).

O tema Mariologia foi evoluindo aos poucos no Novo Testamento:


No Evangelho de Marcos, por exemplo, Maria é uma figura ainda sem perfil
definido, sua importância e grandeza sobrenatural não aparecem muito. Maria
aparece somente como a mãe carnal de Jesus, o Filho de Deus.
O apóstolo Paulo faz uma alusão à Maria no Livro de Gálatas (nascido de
Mulher), porém sua preocupação é o Kerigma, o anúncio do Ressuscitado.
Já em Mateus e Lucas, a figura de Maria começa a ser vista com mais
destaque. Em Mateus, por exemplo, Maria está relacionada ao Messias como Mãe
Virginal. O evangelista Mateus insere o nome de Maria na história e no plano da
Salvação, quando conta a genealogia de Jesus. Em Lucas, por outro lado, Maria é
uma personalidade consciente e livre. São inúmeros os dados humanos, psicológicos
e teológicos que este Evangelista nos oferece sobre Maria. No livro dos Atos dos
Apóstolos, escrito por Lucas, Maria é apresentada como Mãe da Igreja nascente.
Aliás, é bom que se diga, que dos 152 versículos do Novo Testamento que falam de
Maria, São Lucas é o que mais tem: são 90, sendo que 89 no Evangelho e 01 no livro
dos Atos.
No Evangelho de João, há uma fase de um maior aprofundamento do tema
mariano. Maria é apresentada como a MULHER, a Mãe da Fé nas Bodas de Caná e
de todos os fiéis (aos pés da Cruz) e a Mulher Universal (no livro do Apocalipse).
De tudo isso, é perceptível que Maria é:
 Criatura: ela não é deusa, ela foi criada;
 Peregrina da fé: ela fez um caminho de fé o tempo todo;
 Redimida: ela também foi salva por Cristo;
 Serva do Senhor: serviu a Deus e ao Filho o tempo todo como serva;
 Membro da Igreja: faz parte da Igreja.

Depois do período “bíblico”, o tema de Maria foi se desenvolvendo na história


da Igreja. Surgiram outras dimensões sobre Maria à luz do Evangelho que a Igreja foi
aprofundando e ensinando, como os dogmas, Concílios etc, que serão explanadas
mais adiante.

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UM ESTUDO ESPECIAL: A PESSOA DE MARIA...

Antes de estudar os livros bíblicos acima citados, é necessário refletir um


pouco sobre a pessoa de Maria. Para isso, algumas perguntas bem oportunas:
 Onde Maria nasceu?
 Como foi o seu nascimento?
 Como foi sua infância?
 Como foi o seu “namoro”, o seu “noivado” com José?
 Com qual idade o Anjo Gabriel lhe apareceu?

Como mencionado anteriormente, a base de tudo são os textos do Novo


Testamento. Porém, como será abordado, os Evangelistas não trazem detalhes
sobre a pessoa em si de Maria, pois a intenção deles é apresentar Jesus e sua
proposta do Reino para todos nós.
Sendo assim, vamos fazer uma espécie de entrevista com ela e saber mais
coisas sobre ela que os evangelhos “não dizem” sobre sua origem. Serão usadas
algumas bibliografias que estão “fora” dos evangelhos, como os escritos apócrifos,
explicados mais adiante.

1) Livros OFICIAIS da Santa Bíblia (também chamados livros “Canônicos”)


A Bíblia (Palavra de Deus) católica possui 73 livros: 46 livros no Antigo
Testamento (ou Antiga Aliança) e 27 livros no Novo Testamento (ou Nova Aliança).
Todos estes 73 livros são INSPIRADOS por Deus, ou seja, foi o próprio Deus
quem inspirou alguns ESCRITORES SAGRADOS (em várias épocas e lugares) a
escreverem o que Ele queria dizer para a humanidade de todos os tempos e lugares.
Por isso, a Bíblia é chamada de PALAVRA de DEUS.
O Antigo Testamento fala da Antiga Aliança entre Deus e a humanidade e prepara a
vinda do Salvador e o Novo Testamento fala da Nova Aliança entre Deus e a
humanidade, concretizada e selada em Jesus Cristo, o Filho de Deus, e a revelação
definitiva do sonho de Deus.
Tudo isso para dizer que A BÍBLIA ESTÁ TOTALMENTE COMPLETA. Ninguém
pode tirar ou acrescentar livro. O que está ali é definitivo e completo. Os 73 livros
contidos na Bíblia passaram por um processo de seleção muito grande para se ver a

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veracidade, o conteúdo, os autores, etc, antes de serem APROVADOS como


OFICIAIS.
Porém, muitos outros escritos surgiram no decorrer da história bíblica, mas
não foram considerados “oficiais”, embora muitos deles tratassem de temas
religiosos, inclusive “parecidos” aos textos oficiais. Estes “outros” escritos “não
oficiais” são chamados de ESCRITOS APÓCRIFOS. Isso não significa que eles não
deixam de ser válidos para uma melhor compreensão da situação que vivia o povo
na época que foram escritos.
Porém, uma coisa deve ficar bem clara: este curso levará ao conhecimento de
alguns textos “não oficiais” (texto “não oficial” refere-se a textos que não estão na
Bíblia) mas que oferecem algumas informações adicionais que os Evangelhos e
outros livros sagrados não mostram.
É importante esclarecer que os Evangelhos e outros livros sagrados não
informam muitas coisas, primeiro porque os Evangelhos foram escritos bem depois
de Jesus ter vivido na Terra entre nós (Marcos, por exemplo, o mais antigo dos
Evangelhos, foi escrito no ano 70 depois de Cristo. Isso significa que: se Jesus
morreu com 33 anos, o Evangelho de Marcos foi escrito quase 40 anos depois).
Assim, muitas informações não foram retratadas.
Depois, a preocupação dos evangelistas era relatar as palavras e gestos de Jesus
(Jesus era a figura principal).

Voltando aos escritos apócrifos...


A palavra APÓCRIFO significa ESCONDIDO, SECRETO, OCULTO. Eles foram
assim chamados porque não eram muito usados tanto como leitura comum, como
nas liturgias da época. Foram descobertos muitos escritos desse gênero como por
exemplo: Evangelho de Pedro, Atos de Paulo, Salmos de Salomão, Livro de Henoc
etc, mas que não eram muito lidos nas sinagogas. Assim, ficaram meio escondidos
como literatura oficial. Na verdade, até os autores destes livros são incertos. Pedro,
por exemplo, não sabia escrever. Então, como é que tinha um livro chamado
“Evangelho de Pedro”. Quem escreveu? E por aí vão as conclusões.
Por outro lado, muitos desses escritos apócrifos trazem informações “extra-bíblicas”
de grande importância. Pergunta: será que teve algum livro apócrifo que falou
alguma coisa sobre MARIA? Parece que tem e será desvendado esse delicioso
mistério! Foi encontrado um livro apócrifo chamado de “Proto-Evangelho de Tiago”,

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também chamado de “A História do Nascimento de Maria”. Nesse escrito, há


valiosas informações sobre a pessoa de Maria.
Foi, sem dúvida, um dos escritos apócrifos mais antigos do Novo Testamento.
Fala sobre: O nascimento de Maria, o nascimento de Cristo e a Matança dos
Inocentes, incluindo o martírio de Zacarias (pai do profeta João Batista). Possui 25
pequenos capítulos, sendo que 16 deles falam de Maria. Esse escrito foi encontrado
no Oriente e trazido para a Europa. Nunca se soube ao certo o verdadeiro nome do
autor. Se atribuiu a Tiago Menor, um dos apóstolos de Jesus. A data de sua
composição indica o final do século II depois de Cristo. Foi escrito em grego e, mais
tarde, traduzido em vários outros idiomas. Proto significa “primeiro”.
Foi através desses escritos que sabemos hoje que os pais de Nossa Senhora
chamavam-se Joaquim e Ana, cuja festa é celebrada no dia 26 de Julho do
calendário cristão. O nome “Joaquim” significa “O elevado de Deus” ou o
“preparado por Deus”. Ana significa “misericórdia” ou “Javé compadeceu-se”. O
livro fala do nascimento de Maria, seus primeiros anos de vida, seu aniversário, sua
consagração e tantas outras informações. Vale a pena comprar e ler. É um livrinho
cheio de ternura e carinho, vendido em qualquer livraria católica.

LIVROS BÍBLICOS DO NOVO TESTAMENTO

I – GÁLATAS

Por conter a informação mais antiga sobre Maria, será analisado um único
versículo referente ao estudo mariano.

Gl 4, 4:

“Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu
de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de recebermos a adoção filial”

CONTEXTO: O tema central deste versículo é sobre a ENCARNAÇÃO do FILHO


DE DEUS, ou seja, o modo através do qual Deus quis vir ao encontro do homem. E
isso se deu na “plenitude dos tempos”, isto é, quando o Pai envia o seu Filho ao

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mundo, os tempos do desígnio divino atingem a sua “plenitude”. A encarnação de


Cristo é o ponto culminante dessa etapa.
E Maria é colocada exatamente nesse vértice do plano redentor. Através do
seu ministério materno, o Filho do Pai, preexistente ao mundo, se radica na cepa da
humanidade.
Ela é a MULHER que o reveste com a nossa carne e o nosso sangue. São Paulo
quer mostrar com isso a condição real e humana de Jesus. O apóstolo declara que a
pessoa de Maria está vitalmente vinculada ao projeto salvífico de Deus.

MARIA NO EVANGELHO DE MARCOS

Marcos escreve o seu evangelho por volta do ano 60 d.C. Acredita-se que o
escritor, ao preparar o seu livro, teve em mente os cristãos gentios. O evangelista
tem com preocupação primeira mostrar que Jesus é o Filho de Deus. Esse é a sua
grande tese, verificada a partir do primeiro versículo:
“Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.” . Um Filho de Deus,
confirmado pelos discípulos, através da pessoa de Pedro (Mc 8,29) e testemunhado
pelo centurião na morte de Jesus (Mc 15,39); um Filho de Deus que se deixa
reconhecer na medida que se caminha ao seu lado, assumindo o seu projeto de
vida.
O Evangelho de Marcos está tecido em duas grandes partes:
Primeira parte (Mc 1,1 – 8,26): Neste primeiro bloco, Jesus aparece na Galiléia
inaugurando o Reino de Deus que vem com toda força. A prática de Jesus é
contestada pelos escribas e fariseus. Diante da sua proposta, vão se formando dois
grupos: os que seguem Jesus (discípulos e multidão) e os que não aceitam a
proposta de Jesus.
A segunda parte (restante do evangelho) apresenta as condições e os
elementos necessários para seguir Jesus. Seguimento que não significa “ir atrás”,
mas, sim, entrar no caminho de sua vida, identificar-se com ele, deixar tocar pela
sua pessoa, fazer parte de sua missão de inaugurar o Reino e vencer as forças do
antirreino.
Maria aparece duas vezes durante todo o seu relato. As citações são poucas,
mas muito significativas, pois a apresentam como a discípula fiel que faz parte

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essencial da família de Jesus, porque cumpre a vontade do Pai e a mulher que


acolhe a todos como filhos e irmãos de Jesus.

I – TEXTOS MARIANOS:

A família de Jesus (Marcos 3, 20 – 21):

"20Dirigiram-se em seguida a uma casa. Aí afluiu de novo tanta gente, que


nem podiam tomar alimento.
21
Quando os seus o souberam, saíram para o reter, pois diziam: ‘Ele está fora
de si’.”
CONTEXTO: No tempo de Jesus, a estrutura familiar exercia importante
influência na definição dos papeis e no lugar social ocupado pelo indivíduo. No
judaísmo, as famílias eram classificadas conforme seu grau de pureza de origem, ou
seja, se eram imaculadas de cruzamento com sangues de estrangeiros ou atingidas
por mancha de mistura étnica.
A cena bíblica é a seguinte: Jesus e os Doze, recém eleitos, vão a uma casa em
Cafarnaum. Havia uma multidão acirrada, a tal ponto que eles nem podiam e não
tinham tempo nem para alimentar-se. E quando os “seus” ficaram sabendo disso,
saíram para proteger Jesus, porque diziam que Ele tinha “perdido o juízo”. E nesse
grupo que vai até Jesus, está a figura de Maria, sua mãe.

Marcos 3, 31 – 35:

“31Chegaram sua mãe e seus irmãos e, estando do lado de fora, mandaram


chamá-lo.
32
Ora, a multidão estava sentada ao redor dele; e disseram-lhe: ‘Tua mãe e
teus irmãos estão aí fora e te procuram.’
33
Ele respondeu-lhes: ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’
34
E, correndo o olhar sobre a multidão, que estava sentada ao redor dele,
disse: "Eis aqui minha mãe e meus irmãos.
35
Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha
mãe."

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Num olhar mais profundo, Marcos quer mostrar que o seguimento de Jesus
(para fazer parte de sua família) ultrapassa os laços de parentesco.
Jesus inaugura uma NOVA FAMÍLIA constituída não mais do sangue e dos
laços de parentesco (valor absoluto nas sociedades antigas), mas, sim, daqueles que
se juntam ao redor de Jesus para fazer a vontade do Pai.
Marcos ensina que até Maria, a criatura mais estritamente ligada a Jesus pelos
laços de sangue (maternidade), teve que elevar a ordem mais alta dos seus valores.
Depois de ter levado Jesus no seu ventre, era preciso que Ela o gerasse no
coração, cumprindo a vontade de Deus. Uma vontade que se torna manifesta
naquilo que Jesus dizia e realizava.
Assim, a figura de Maria “mãe” se harmoniza e se completa com a figura de
“discípula” e “primeira cristã”.

Jesus de Nazaré (Mc 6, 1-6) - o santo de casa não faz milagres

“1Depois, ele partiu dali e foi para a sua pátria, seguido de seus discípulos.
2
Quando chegou o dia de sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos o
ouviam e, tomados de admiração, diziam: Donde lhe vem isso? Que sabedoria é essa
que lhe foi dada e como se operam por suas mãos tão grandes milagres?
3
Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas
e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E ficaram perplexos a
seu respeito.
4
Mas Jesus disse-lhes: Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os
seus parentes e na sua própria casa.
5
Não pôde fazer ali milagre algum. Curou apenas alguns poucos enfermos,
impondo-lhes as mãos.
6
Admirava-se ele da desconfiança deles. E, ensinando, percorria as aldeias
circunvizinhas.”

Contexto: O texto de Marcos refere-se a um acontecimento concreto: a


rejeição dos moradores de Nazaré ao anúncio de Jesus e à sua pessoa. Eles não se
colocam como inimigos de Jesus, mas se escandalizam dele por sua incredulidade. A
fé é um grande requisito para o seguimento de Jesus.

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O “Filho de Maria” (Mc 6, 3):


“3Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas
e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E ficaram perplexos a
seu respeito.”

No costume judeu, o nome da pessoa era conferido ou vinha relacionado por


referência ao Pai. Temos alguns exemplos:
 Simão, filho de Jonas (Cf. Mt 16,13)
 Tiago, filho de Zebedeu (Cf. Mt 4,21)
 Levi, filho de Alfeu (Cf. Mc 2,13)

Sendo assim, surge a grande pergunta: por que Jesus não é chamado “filho de
José”? Para essa pergunta, há quatro tipos de respostas:
 Marcos queria enfatizar os traços humanos de Jesus;
 É uma referência à concepção virginal de Jesus (obra do Espírito Santo);
 Foi um intento de difamação contra Jesus (desvalorizar a sua pessoa
pela profissão humilde de José);
 José não é citado porque já havia morrido.

“Os irmãos e as irmãs de Jesus” (v3):

Versículo de caráter polêmico, principalmente entre os “evangélicos”, que


afirmam a existência de outros filhos de Maria.
A verdade é que para os conceitos orientais tradicionais, não se define a
família como pequeno núcleo “pai-mãe-filhos”, como hoje, mas em um amplo leque
no qual se incluem tanto os parentes próximos, como os distantes.
No aramaico falado, usado por Jesus e seu povo, não havia uma diferenciação
nos conceitos de parentesco (primo, tio, tia, irmão, sobrinho etc). A palavra que
exprimia e englobava todo este parentesco era “irmãos”, que os gregos traduziram
por “adelfos”. Assim, quando ouvimos falar que “tua mãe e teus irmãos estão lá
fora...” significa que Maria e os parentes de Jesus queriam protegê-lo um pouco da
multidão.

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Não podemos confundir: “irmãos” de Jesus significa “parentes próximos”


dele. Tiago e José, chamados de “irmãos de Jesus”, são considerados, dentro dessa
lógica explicativa, de “parentes próximos” de Jesus e não “irmãos carnais” dele.
Se assim não fosse, qual seria a necessidade de Jesus, no alto da cruz,
entregar a João, o discípulo a quem amava, os cuidados de Maria quando disse: “
Filho, eis aí a tua mãe” (Jo 19,27)? Não seria mais comum, Tiago e José, se fossem
realmente filhos carnais de Maria, tomar conta de sua “mãe” após a morte do
“irmão” Jesus?
Quando for tratado o dogma da Virgindade de Maria, neste curso, será
possível entender melhor essa questão.
Com isso, o evangelista quer mostrar a necessidade da fé no ato do
seguimento de Jesus. Condição indispensável para reconhecer a sua presença e
caminhar com Ele.

II - RESUMINDO A MARIOLOGIA EM MARCOS

Marcos ainda não conhece a grandeza de Maria. Para ele, Maria é


simplesmente a Mãe carnal de Jesus, só isso! É uma mariologia primária e primitiva.
Sem muitos aprofundamentos sobre a real importância de Maria. Ele ainda
não sabe a real dignidade de Maria.
Olhando para Maria, como descreve o Evangelho de Marcos, parece até que
ela ainda não compreendeu a missão de Jesus. Aqui fica claro uma coisa: Maria
começou uma peregrinação na fé. Aos poucos, ela foi conhecendo quem era o seu
próprio Filho e a sua Missão nesse mundo. Apesar de abordar o tema “mariológico”
sob o prisma puramente humano e biológico da parte de Maria, o Evangelista
convida a conhecer de verdade a pessoa de Maria e ensina que Ela também passou
por todo um processo de amadurecimento na fé para conhecer a missão de Jesus.

MARIA NO EVANGELHO DE MATEUS


Mateus (também chamado de Levi), um dos Doze apóstolos, foi, sem dúvida,
um judeu que também era publicano romano.
Mateus escreveu o seu evangelho por volta do ano 70 d.C. Tinha como
destinatários principalmente os judeus. Esse ponto de vista está confirmado pelas
referências às profecias hebraicas, cerca de sessenta, e pelas aproximadamente

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quarenta citações do Antigo Testamento. Ressalta especialmente a missão de Cristo


aos judeus.
A intenção de Mateus é a de mostrar que Jesus foi o Messias prometido no
Antigo Testamento, através do cumprimento das promessas feitas a Abraão e a
Davi, passando por todos os profetas.
Maria é apresentada como a mãe virginal de Jesus que o concebe pela ação
do Espírito Santo, sem intervenção humana, mostrando a gratuidade da iniciativa
divina.
O Evangelho de Mateus amplia bastante a imagem de Maria. Ela aparece na
narrativa da origem e da infância de Jesus (Cf. Mt 1-2) e em alguns textos referentes
à vida pública de Jesus (Cf. Mt 12, 46-50 e Mt 13, 53-58).

I – GENEALOGIA DE JESUS

a) Origem de Jesus (Mt 1, 1-17)

“1 Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.


2
Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacó. Jacó gerou Judá e seus irmãos.
3
Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara. Farés gerou Esron. Esron gerou Arão.
4
Arão gerou Aminadab. Aminadab gerou Naasson. Naasson gerou Salmon.
5
Salmon gerou Booz, de Raab. Booz gerou Obed, de Rute. Obed gerou Jessé.
Jessé gerou o rei Davi.
6
O rei Davi gerou Salomão, daquela que fora mulher de Urias.
7
Salomão gerou Roboão. Roboão gerou Abias. Abias gerou Asa.
8
Asa gerou Josafá. Josafá gerou Jorão. Jorão gerou Ozias.
9
Ozias gerou Joatão. Joatão gerou Acaz. Acaz gerou Ezequias.
10
Ezequias gerou Manassés. Manassés gerou Amon. Amon gerou Josias.
11
Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no cativeiro de Babilônia.
12
E, depois do cativeiro de Babilônia, Jeconias gerou Salatiel. Salatiel gerou
Zorobabel.
13
Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliacim. Eliacim gerou Azor.
14
Azor gerou Sadoc. Sadoc gerou Aquim. Aquim gerou Eliud.
15
Eliud gerou Eleazar. Eleazar gerou Matã. Matã gerou Jacó.

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16
Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado
Cristo.
17
Portanto, as gerações, desde Abraão até Davi, são quatorze. Desde Davi até
o cativeiro de Babilônia, quatorze gerações. E, depois do cativeiro até Cristo,
quatorze gerações.”

Primeiramente, o objetivo dessa genealogia é o de mostrar que Jesus


descende de Abraão e Davi e que, portanto, Ele herda as promessas feitas a esses
dois patriarcas de Israel. De Abraão, a promessa da numerosa descendência (Cf. Gn
12); de Davi, a promessa da eterna realeza (Cf. 2 Sam 7).
A genealogia de uma pessoa e de uma família tinha enorme importância
jurídica e trazia consequências para a vida social e religiosa. A pureza de uma linha
genealógica dava participação ao descendente nos méritos de seus antepassados.
Mateus remonta a origem de Cristo a partir de Abraão, passando por todas as
gerações até chegar a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus. Esse elenco de
nomes que vai de Abraão a Cristo é subdividido em três grupos e cada grupo
abrange 14 gerações:
1° grupo: de Abraão a Davi
2° grupo: de Davi a Jeconias (exílio na Babilônia)
3° grupo: de Jeconias a Cristo

O anúncio a José (Mt 1, 18-25):

“18Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José.
Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo.
19
José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu
rejeitá-la secretamente.
20
Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em
sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o
que nela foi concebido vem do Espírito Santo.
21
Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o
seu povo de seus pecados.
22
Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo
profeta:

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23
Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel
(Is 7, 14), que significa: Deus conosco.
24
Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu
em sua casa sua esposa.
25
E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o
nome de Jesus.”

A grande novidade nessa descrição genealógica que passou de geração em


geração foi a intervenção da Providência Divina através do Espírito Santo na geração
de Jesus por Maria.
Se antes o encadeamento paterno era o elemento fundante na genealogia,
aqui nós temos agora uma ruptura visível e explícita: apesar de pertencer à
descendência de Abraão e sucessão, José não é o pai biológico de Jesus. Assim, a
mensagem do relato resume-se em: o nascimento de Jesus se deve à ação do
Espírito Santo em Maria. Mostra que Jesus, o Messias esperado, é fruto da
intervenção divina que gratuitamente irrompe a história da humanidade e oferece o
seu filho para a salvação do seu povo.
José, ao receber Maria em sua casa, e assumir seu filho, dando-lhe o nome de
Jesus, sela definitivamente o vínculo histórico da descendência messiânica. Dar o
nome significa assumir como filho, dentro da cultura judaica. Por outro lado, revela
a concepção virginal de Jesus sob a ação do Espírito Santo de Deus.

II - VISITA DOS MAGOS E FUGA PARA O EGITO

Adoração dos Magos (Mt 2, 10-12):

“10A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.


11
Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se
diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como
presentes: ouro, incenso e mirra.
12
Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra
por outro caminho.”

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O Episódio dos Magos é repleto de ensinamentos. Eles vieram do Oriente e


chegaram a Jerusalém. Jerusalém era o centro do mundo para a qual dirigem-se
todos os povos da Terra com seus reis, trazendo suas riquezas (Cf. Is 60). Porém,
aqui, os Magos não ficam em Jerusalém. Eles vão para Belém, casa do pão,
deslocando a nova “capital”, o novo lugar para ser reverenciado. Maria aparece aqui
como sendo a “nova Jerusalém” e o “novo Templo”. Em Maria, encontramos esse
novo Templo para ser adorado, Jesus, o Salvador. É indo ao encontro de Maria que
encontramos o Salvador. Ela é agora a sede ou trono do novo Rei. Quando se vai ao
encontro de Maria, se encontra o Filho de Deus, digno de todo louvor e Adoração.
Foi isso que os Magos fizeram. E o que encontraram? Uma mãe-rainha vestida da
mais pura simplicidade sem pompas e circunstâncias. E nos braços da Mãe-Rainha
encontraram o Rei dos Reis. Nesse encontro, houve prostração e adoração. Houve
entrega de presentes para uma realeza. A experiência foi tão grande que até eles, os
Magos, voltaram por um outro caminho. Quem se encontra com Jesus tem a vida
mudada e transformada e nunca mais volta pelo mesmo caminho do antigo pecado.
Começa a trilhar, depois desse encontro por um novo caminho.

b) Fuga para o Egito (Mt 2, 13-23):

“13Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e


disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te
avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.
14
José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o
Egito.
15
Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o
Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).
16
Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito
irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois
anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos.
17
Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:
18
Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar
seus filhos; não quer consolação, porque já não existem (Jr 31,15)!
19
Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no
Egito, e disse:

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20
Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque
morreram os que atentavam contra a vida do menino.
21
José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel.
22
Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai
Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a
província da Galiléia
23
e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito
pelos profetas: Será chamado Nazareno.”

Nas cenas (adoração dos Magos e Fuga para o Egito), se repete várias vezes “o
menino e sua mãe” (v.13, v.14, v.20) . Isso reforça a real maternidade de Maria não
aludindo à “paternidade real” de José. Maria se mostra como uma companheira
inseparável do Filho. Ela sempre acompanha o Redentor, ela participa da vida
humana e salvífica do Filho, sempre muito próxima...inseparável.

III – MARIA NA VIDA PÚBLICA DE JESUS

Apesar de usar a mesma fonte de Marcos quando fala de Maria e dos “irmãos
de Jesus”, e a cena da casa e da rejeição em Nazaré, Mateus interpreta num outro
sentido.

A família de Jesus e os seguidores (Mt 12, 46-50):


O texto aparece em Marcos e Lucas, porém, Mateus dá um significado bem
particular.

“46Jesus falava ainda à multidão, quando veio sua mãe e seus irmãos e
esperavam do lado de fora a ocasião de lhe falar.
47
Disse-lhe alguém: Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar-te.
48
Jesus respondeu-lhe: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?
49
E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: Eis aqui
minha mãe e meus irmãos.
50
Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu
irmão, minha irmã e minha mãe.”

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Aqui aparece clara a ideia e a importância de seguir a Jesus e fazer a sua


vontade. Não há, portanto, referência negativa à família biológica de Jesus e Maria é
apresentada como aquela que em tudo procurou fazer a vontade de Deus. Ela é um
bom exemplo para Jesus.

MARIA NO EVANGELHO DE LUCAS E EM ATOS DOS APÓSTOLOS


O livro de Lucas foi escrito por volta dos anos 79-80 d. C. Teve como
destinatário primeiro um certo “Teófilo” (Lc 1,1 e At 1,1-2), cuja identidade é
desconhecida. A evidência mostra que o livro foi escrito especialmente para os
gentios. Lucas se esforça para mostrar os costumes judaicos e, algumas vezes,
substitui nomes gregos por hebraicos.
Como bom médico que foi, Lucas retrata a figura de Cristo mostrando todo o
seu lado humano e misericordioso que socorre, cura, liberta e salva a todos sem
distinção.
Como também é autor do livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas compreende a
HISTÓRIA DA SALVAÇÃO em três tempos ou etapas e organiza toda a sua obra a
partir desta perspectiva:
1ª etapa: período preparatório à vinda de Jesus Salvador (O antigo Israel
espera com alegria a manifestação do Messias e prepara a sua vinda);
2ª etapa: A vida de Jesus: sua encarnação, sua presença, sua manifestação,
paixão, morte, ressurreição e glorificação;
3ª etapa: tempo da Igreja que se faz por obra do Espírito Santo. A Igreja é a
grande portadora da salvação a todos os povos.
Esses três períodos ou etapas se articulam a partir de Jerusalém.

Segundo os estudiosos do tema, Lucas é o evangelista que mais fala de Maria.


Em um total de 152 versículos do Novo Testamento sobre Maria, 90 são de Lucas (1
versículo aparece no livro dos Atos e 89 no terceiro evangelho).
Lucas apresenta muitas qualidades de Maria. Ela é o exemplo vivo do
discípulo e seguidor de Jesus, que acolhe a Palavra de Deus com fé, guarda e medita
em seu coração e põe em prática, produzindo muitos e bons frutos.
Maria é apresentada como a grande peregrina na fé. O “SIM” dado a Deus na
sua juventude é renovado constantemente no decorrer de toda a sua vida.

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Maria não nasce como uma santa pronta e acabada. Ela passa por crises e
situações difíceis e desafiadoras, contribuindo para o seu crescimento na fé.
Por outro lado, Maria nos lembra que Deus escolhe preferencialmente os
pobres e os pequenos para iniciar seu Reino. Maria é uma pessoa de coração pobre
todo aberto para Deus, tem um coração solidário e serviçal sempre disponível a
ajudar os mais necessitados.

MARIA NO EVANGELHO DE LUCAS


Em Lucas, Maria aparece como uma Mulher de Fé que aceita livremente o
projeto de Deus. Dois títulos se sobressaem na Mariologia de Lucas: Maria mulher
de fé e Maria como Mãe do Senhor.
Os principais textos marianos em Lucas são: anunciação, visitação e o
Magnificat.

I – ANUNCIAÇÃO (Lc 1, 26-38)

“26No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia,
chamada Nazaré,
27
a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de
Davi e o nome da virgem era Maria.
28
Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.
29
Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria
semelhante saudação.
30
O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.
31
Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.
32
Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o
trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó,
33
e o seu reino não terá fim.
34
Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?
35
Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do
Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será
chamado Filho de Deus.
36
Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já
está no sexto mês aquela que é tida por estéril,

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37
porque a Deus nenhuma coisa é impossível.
38
Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a
tua palavra. E o anjo afastou-se dela.”

Muitos autores afirmam que este é o texto mais importante sobre Maria em
todo o Novo Testamento. Algumas razões: é o início de tudo, retrata bem a figura e
a fé de Maria, é o texto mariano mais usado na liturgia, é o texto mais citado pelos
padres da Igreja dos primeiros séculos até hoje, os artistas gostam muito de pintar
seus quadros a partir dessa cena da anunciação.
É comum a ideia entre vários estudiosos de que a mensagem central deste
relato é a iniciativa de Deus que vai ao encontro de Maria, pedindo o seu
consentimento para que o seu Filho se encarne no meio da humanidade.
O relato tem característica de anúncio, vocação e de missão que segue os
esquemas de formulários típicos dos ritos de aliança entre Deus e o seu povo com as
seguintes características:
A figura de um Mediador: Deus propõe e não impõe um projeto de vida, por
exemplo, vocação de Abraão, Moisés, Sansão, Gedeão etc, que proclama que
acontecerá algo extraordinário que vai transformar a vida das pessoas;
Resposta do interlocutor: onde revela o consentimento da pessoa ou do povo,
ou seja, a aceitação do projeto de Deus. Este consentimento sempre se dá num
contexto de Diálogo com muita liberdade.
Neste caso, é o anúncio de uma criança importante, que virá para a salvação
do povo. Este anúncio foi feito pelo mensageiro Gabriel com o consentimento de
Maria.

Algumas considerações prévias:

É possível notar nesse relato da Anunciação do nascimento de Jesus um certo


paralelismo com o relato da Anunciação do nascimento de João Batista:
A anunciação de João Batista acontece no templo de Jerusalém;
A anunciação de Jesus acontece em uma cidadezinha sem importância da
Galiléia, chamada Nazaré.
Os estudiosos afirmam que, a partir dessa constatação, Deus dá a entender
que a sua morada não estará mais ligada ao templo de Jerusalém. Qualquer canto

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deste mundo, por mais simples que seja, pode ser muito bem o santuário da sua
habitação. Qualquer lugar humano pode se transformar em ocasião de encontro e
manifestação de Deus.

2) Detalhando o texto:

Nazaré: cidade sem importância


O anjo Gabriel: figura rara que aparece poucas vezes na Bíblia (Dn 8, 16-26 e
9,21-27... explicando o sentido das visões, anunciando o novo tempo que virá, no
meio das perseguições e desgraças)
Maria (significa: Amada, a escolhida, querida, preferida)
Saudação do Anjo: “Alegra-te, Maria”: Maria é convidada a participar da
alegria do novo tempo, que começa com a vinda de Jesus. Jesus é a alegria plena.
Maria representa o povo de Israel. É a “Filha de Sião” a se alegrar pois Deus vem
salvar o seu povo. Faz lembrar os oráculos messiânicos dos profetas Sofonias (3, 14-
17), Zacarias (2, 14-15 / 9, 9-10) e Joel (2, 21.27).
“Cheia de graça” (Kecharitoomene – agraciada, transbordante de graça, plena
da graça): Maria recebe um nome, um título, uma honra, que nenhuma outra
pessoa tem recebido na Bíblia. Maria recebe a graça como puro dom de Deus e se
torna “templo do Espírito Santo”.
“O Senhor está contigo”: frase usada no Antigo Testamento para as pessoas
que Deus tem um projeto especial (Isaac, Jacó, Moisés, Josué, Gedeão). Revela que
Deus estará com Maria no cumprimento de sua missão. Maria está ao lado das
grandes figuras do Antigo Testamento.
A “mensagem do Anjo”: Fala do modo como Maria dará à luz ao Filho de
Deus: “conceberás e darás à luz”.
A “objeção” de Maria: Maria compreende que foi chamada a ser mãe, mas
afirma que não é casada. Maria pergunta sobre o “como se fará isso”.
A explicação do Anjo: o nascimento de Jesus é fruto da atuação do Espírito
criador de Deus em Maria. É a “nova criação”. Maria é a nova “arca da aliança”, que
vai gerar em si o cumprimento de todas as promessas do povo de Israel.
Tu lhe porás o nome: dar o nome é um ato de compromisso e de
responsabilidade. Em Mateus, é José quem dá o nome; aqui é Maria quem assume a
responsabilidade para si.

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O Nome de Jesus: Ieshuah que significa “Deus salva”. No nome já está


implícita a missão de Jesus: salvar a humanidade.
O “SIM” de Maria: mais que uma simples palavra. No sim está todo um
projeto de vida de Maria a partir de agora. Ela confia inteiramente em Deus: “Faça-
se em mim segundo a vontade de Deus. Maria apresenta aqui todo um testemunho
de “mulher de fé” e, ao mesmo tempo, de “discípula”. Ela responde livremente. É
uma pessoa livre que responde com liberdade por toda a sua vida.

II – A VISITAÇÃO (Lc 1, 39-45)

“39Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma


cidade de Judá.
40
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
41
Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu
seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
42
E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto
do teu ventre.
43
Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?
44
Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança
estremeceu de alegria no meu seio.
45
Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da
parte do Senhor te foram ditas!”

Embora seja possível pensar, em um primeiro momento, que o relato da


visitação revele todo o caráter da ajuda e da disponibilidade de Maria à sua prima
Isabel, Lucas vai um pouquinho mais além. Sua intenção é a de mostrar a acolhida
do povo de Israel (representados por Isabel e Zacarias) à novidade Messias que
estava chegando. O encontro das duas mães simboliza e testifica o encontro das
profecias de Israel (João) com o advento da grande novidade (Jesus).
A acolhida de Isabel (“bendita és tu entre as mulheres”) recorda duas
passagens do Antigo Testamento (Jz 5,24 e Jt 13,18), lembrando as figuras de
Débora e de Judite por sua coragem na participação vitoriosa do povo de Deus.
Maria é, portanto, esta mulher forte, protagonista dos grandes acontecimentos na
história de Israel.

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Já a frase dita por Isabel, “bendito é o fruto do teu ventre”, lembra o texto de
Deuteronômio (Dt 28, 2.4.9) que corresponde à bênção de Deus àqueles que
escutam sua palavra, cumprem a aliança e realizam a sua vontade. A desobediência
era sinal de maldição. A Benção de Deus se traduz em fertilidade e uma vida feliz e
realizada. A razão da bênção sobre Maria está no fato de Ela ter acreditado:
“Bendita és tu que acreditaste”. Ela confiou inteiramente na ação de Deus e se
colocou disponível ao seu projeto. Maria leva Jesus, transporta Jesus, é a primeira
procissão de Corpus Christi. Ela é a nova Arca que transporta a nova Aliança. Nesse
encontro de duas mulheres grávidas, é o Espírito Santo quem atua. E onde está o
Espírito Santo, a alegria se faz presente. Receber Maria é receber Jesus. Quem
acolhe Maria, recebe Jesus. É isto que Ela quer: trazer Jesus para dentro de nossas
casas. E isso produz uma alegria muito grande. O coração salta de alegria. A casa fica
iluminada. O ambiente muda. Torna-se um lar abençoado porque a própria bênção,
Jesus, está presente.

III – O MAGNIFICAT (Lc 1, 46-55)

Muitos estudiosos afirmam que o Magnificat é o texto bíblico mais extenso


colocado nos lábios de Maria, ou seja, é a fala mais longa de Maria. Ela fala de Deus
e das maravilhas que Ele realizou na vida dela, no mundo e no seu povo:

“46E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor,


47
meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,
48
porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão
bem-aventurada todas as gerações,
49
porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é
Santo.
50
Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem.
51
Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos.
52
Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.
53
Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.
54
Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
55
conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade,
para sempre.”

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O Magnificat (tradução = engrandece, glorifica) de Maria é uma profissão de


fé transformada em cântico cheio de gratidão. Maria é a serva do Senhor, a
escolhida, a eleita para inaugurar o grande acontecimento na história da
humanidade. O seu canto exprime os anseios de todo o povo de Israel. Canta a ação
de Deus na história em favor do seu povo. O povo reconhece as maravilhas que
Deus realiza.
Esse texto descreve a “alma de Maria”, o “ápice de sua espiritualidade e
relação com Deus”. É uma espécie de “prelúdio do Sermão da Montanha” (Mt 5).
A origem desse canto remonta-se aos cânticos do Antigo Testamento,
principalmente ao cântico de Ana (1 Sm 2,1-10), em que, após a travessia do Mar
Vermelho, Ana canta a vitória dada por Deus ao povo frente à opressão do Egito.
O relato pode ser dividido em três partes:
 Maria lembra as maravilhas que Deus fez em seu favor;
 Maria lembra a ação salvífica de Deus em favor dos pobres e oprimidos;
 Maria lembra o cumprimento das promessas de Deus na história.

Em síntese, o relato do magnificat expressa as características essenciais de


Maria e também de Deus:
Maria é apresentada como “serva” e “humilde”.
Deus se mostra sendo JUSTO e MISERICORDIOSO.

IV – O NASCIMENTO DE JESUS (Lc 2, 1-20)

1) O recenseamento (Lc 2, 1-7)

“1Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o


recenseamento de toda a terra.
2
Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria.
3
Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
4
Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de
Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi,
5
para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida.
6
Estando eles ali, completaram-se os dias dela.

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7
E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num
presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.”

O recenseamento foi uma espécie de contagem da população que o Império


Romano resolveu fazer para saber as procedências de cada habitante de Jerusalém.
Foi uma medida inventada com a intenção de arrecadar mais impostos para o
Império.
O texto revela o modo pobre como Jesus nasceu longe de casa. Mostra,
também, o cumprimento da profecia do profeta Miquéias 5, 1-4, sobre o lugar onde
Jesus deveria nascer:

“1Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá
para mim aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos
tempos antigos, aos dias do longínquo passado.
2
Por isso, (Deus) os deixará, até o tempo em que der à luz aquela que há de
dar à luz. Então o resto de seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel.
3
Ele se levantará para (os) apascentar, com o poder do Senhor, com a
majestade do nome do Senhor, seu Deus. Os seus viverão em segurança, porque ele
será exaltado até os confins da terra.
4
E assim será a paz.”

Um detalhe muito interessante que o texto apresenta é sobre o lugar onde


Maria depositou Jesus: em uma manjedoura, lugar onde eram colocados os
alimentos dados aos animais. Ao depositar Jesus em uma manjedoura, Maria estava
apresentando Jesus como o novo alimento para a humanidade faminta do
verdadeiro pão que sacia de verdade. Jesus é este novo alimento. Um sinal da
Eucaristia!

2) A visita dos pastores (Lc 2, 8-20):

“8Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho
nos campos durante as vigílias da noite.

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9
Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles
e tiveram grande temor.
10
O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa-nova que será
alegria para todo o povo:
11
hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor.
12
Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e
posto numa manjedoura.
13
E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que
louvava a Deus e dizia:
14
Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da
benevolência (divina).
15
Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores
uns com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor
nos manifestou.
16
Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na
manjedoura.
17
Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino.
18
Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os
pastores.
19
Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.
20
Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham
ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito.”

O nascimento de Jesus provoca alegria em todo o povo. Jesus se revela aos


pastores da região. Povo simples que ganhava a vida cuidando dos rebanhos. Os
pastores eram desprezados e considerados impuros porque levavam, na maioria das
vezes, a fama de saqueadores e ladrões de rebanhos alheios. Mais tarde, Jesus vai
dizer que Ele é o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas. Por outro lado, os pastores
também representam os apóstolos que terão a missão de testemunhar ao mundo
“tudo o que viram e ouviram” de Jesus.
O texto revela a existência de um SINAL (v.12): Jesus envolto em panos,
colocado em uma manjedoura. Apesar da simplicidade da cena, revela que toda a
glória de Deus está escondida no simples.

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A Atitude de Maria era de quem guardava e meditava todas essas coisas em


seu coração. Tal atitude significa que Maria tentava entender o significado de tudo o
que estava acontecendo com ela e ao seu redor. Maria, nesse sentido, é chamada
de “Peregrina na fé”.

3) A apresentação de Jesus no Templo (Lc 2, 22-35):

“22Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no


a Jerusalém para o apresentar ao Senhor,
23
conforme o que está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito do sexo
masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2); 24e para oferecerem o sacrifício
prescrito pela lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.
25
Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e
piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele.
26
Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o
Cristo do Senhor.
27
Impelido pelo Espírito Santo, foi ao templo. E tendo os pais apresentado o
menino Jesus, para cumprirem a respeito dele os preceitos da lei,
28
tomou-o em seus braços e louvou a Deus nestes termos:
29
Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra.
30
Porque os meus olhos viram a vossa salvação
31
que preparastes diante de todos os povos,
32
como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel.
33
Seu pai e sua mãe estavam admirados das coisas que dele se diziam.
34
Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: Eis que este menino está
destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em
Israel, e a ser um sinal que provocará contradições,
35
a fim de serem revelados os pensam entos de muitos corações. E uma
espada transpassará a tua alma.”

Conforme a tradição judaica, a família da Nazaré devia cumprir as seguintes


regras religiosas:

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 Circuncisão (oito dias após o nascimento) - Conforme o que estava


prescrito na Lei de Moisés (Lv 12,3). Nessa circunstância, foi posto no menino o
nome de Jesus.
 A consagração ou o resgate:
Era uma norma aplicada aos primogênitos hebreus do sexo masculino. Era
uma oferenda de consagração do menino para Deus.
 Purificação (para a mulher 40 dias após o parto).

O texto revela que Maria e José eram fiéis aos preceitos religiosos. Eles
cumprem a lei e oferecem, por sua humilde condição, um par de pombinhos como
pagamento pela purificação da mulher (No livro do Levítico 12, 6-8, é afirmado que
exigia um cordeiro para tal purificação. Isso mostra a pobreza do casal de Nazaré).
De Simeão se sabe muito pouco. Seu nome significa “Deus ouviu”. Talvez
fosse um sacerdote. Juntamente com Ana, Zacarias e Isabel, representa a reta
religiosidade de Israel que espera o cumprimento das promessas de Deus.
Simeão fala para Maria que Jesus será “sinal de contradição”, isto é, Jesus
será como pedra de tropeço e pedra angular de agora em diante para todo Israel.
Diante de Jesus ninguém ficará em uma postura neutra. Ou se adere ao seu projeto
ou se rejeita.
Simeão alerta Maria sobre o que vai acontecer com ela por causa do seu filho:
“uma espada de dor te traspassará a alma”. Maria vai sentir todo o sofrimento e a
angústia em seu coração pela oposição que será feita contra Jesus que vai culminar
na morte de cruz. Maria provará na própria carne a espada de conflito.

V – ENCONTRO COM JESUS NO TEMPLO (Lc 2, 41-52)

“41Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa.


42
Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da
festa.
43
Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em
Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem.
44
Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva,
andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos.

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45
Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele.
46
Três dias depois o acharam no templo, sentado no meio dos doutores,
ouvindo-os e interrogando-os.
47
Todos os que o ouviam estavam maravilhados da sabedoria de suas
respostas.
48
Quando eles o viram, ficaram admirados. E sua mãe disse-lhe: Meu filho,
que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.
49
Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-
me das coisas de meu Pai?
50
Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera.
51
Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe
guardava todas estas coisas no seu coração.
52
E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos
homens.”

Todos os anos, Maria e José costumavam ir a Jerusalém para a festa da


Páscoa. Jesus já tinha completado doze anos. Segundo a tradição judaica, doze anos
significava a maioridade de uma pessoa (fim do período da infância). Jesus já era
“maior de idade” e, portanto, tinha o dever e a obrigação de aprender e colocar em
prática a lei de Moisés. Há quem diga que esta “ousadia” de Jesus ao ficar em
Jerusalém, quando todos voltavam para Nazaré, foi o começo de sua aparição
pública.
Esse episódio revela muitos dados que se associam à paixão de Jesus (Páscoa,
Jerusalém, Templo, três dias...).
Maria não compreende as palavras de seu Filho, mas guarda tudo em seu
coração. Ela é a imagem do seu povo Israel que, mesmo sem compreender, espera
atenta e vigilante a manifestação de Deus que vai cumprindo as promessas. Para
Lucas, Maria também é peregrina na fé. Como discípula, ela vai compreendendo os
mistérios de seu Filho na medida que vai participando mais de sua vida.

VI – A VIDA PÚBLICA DE JESUS

Antes de falar da vida pública de Jesus, propriamente dita, é necessária uma


pequena nota acerca de sua vida no que tange os períodos dos 12 aos 30 anos. Jesus

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começou o seu ministério público com a idade de uns trinta anos, mas o que ele fez
antes, sendo que o último registro de sua aparição foi exatamente quando ele tinha
doze anos? A resposta também é simples: Jesus viveu como um homem do seu
tempo: ajudava José nos trabalhos de Marcenaria, frequentava o Templo, estudou,
leu, rezou, pescou, conversava com as pessoas, ... tudo isso como um Galileu.

1) Jesus, Filho de José (Lc 3, 23):

“23Ora, Jesus, ao começar o seu ministério, tinha cerca de trinta anos; sendo
(como se supunha) filho de José, filho de Eli (...) filho de Enós, filho de Set, filho de
Adão, filho de Deus (38)

O evangelista Lucas não afirma que Jesus é filho de José, mas aponta a
descendência. Por isso usa o “conforme se supunha”.

2) Rejeição de Jesus em Nazaré (Lc 4, 16-30):

“16Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de


sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.
17
Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a
passagem onde está escrito (61,1s.):
18
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para
anunciar a boa-nova aos pobres, para sarar os contritos de coração,
19
para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para
pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor.
20
E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam
na sinagoga tinham os olhos fixos nele.
21
Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de
ouvir.
22
Todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que
procediam da sua boca, e diziam: Não é este o filho de José?

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23
Então lhes disse: Sem dúvida me citareis este provérbio: Médico, cura-te a ti
mesmo; todas as maravilhas que fizeste em Cafarnaum, segundo ouvimos dizer,
faze-o também aqui na tua pátria.
24
E acrescentou: Em verdade vos digo: nenhum profeta é bem aceito na sua
pátria.
25
Em verdade vos digo: muitas viúvas havia em Israel, no tempo de Elias,
quando se fechou o céu por três anos e meio e houve grande fome por toda a terra;
26
mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na
Sidônia.
27
Igualmente havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu;
mas nenhum deles foi limpo, senão o sírio Naamã.
28
A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga.
29
Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do
monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali
abaixo.
30
Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se.”

Ao contrário de Mateus e Marcos, o texto não acrescenta muita novidade


Mariana. Não menciona o nome de Maria e dos “irmãos de Jesus” ou qualquer
referência negativa à família de Jesus. Apenas indica a rejeição do profeta em sua
própria terra.

3) A mãe e a família de Jesus (Lc 8, 19-21):

“19Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se.


20
Foi-lhe avisado: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e desejam ver-te.
21
Ele lhes disse: Minha mãe e meus irmãos são estes, que ouvem a palavra de
Deus e a observam.”

Como já abordado, esse texto também está em Mateus e em Marcos. A


diferença, talvez, é que Jesus não aponta os braços para a multidão, ao contrário
dos dois evangelistas. Jesus indica, com isso, que Maria faz parte da sua família de
Jesus por dois motivos: é mãe de sangue e faz a vontade do Pai, critério essencial

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para ser membro desta santa família. Maria é a terra boa, segundo a parábola do
semeador, que ouve a Palavra de Deus e faz produzir bons frutos (Lc 8,15).

4) A homenagem feita à Maria (Lc 11,27-28)

“27Enquanto ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e
lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te
amamentaram!
28
Mas Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de
Deus e a observam!”

Quando o Antigo Testamento quer indicar a maternidade biológica, usa a


expressão “seios e ventres”. Jesus transcende, com sua resposta, os laços
simplesmente de sangue dando importância ao aspecto do discipulado (ouvir a
palavra de Deus e colocá-la em prática)

MARIA NO LIVRO DOS ATOS DOS APÓSTOLOS


Lucas é autor do livro dos Atos dos Apóstolos. O nome de Maria aparece uma
única vez, mas com um destaque todo especial e fundamental. Ela aparece com os
discípulos, no meio da comunidade, após a Ressurreição e a Ascensão de Jesus.

At 1, 14:
“Todos eles perseveravam unanimemente na oração com as mulheres, entre
elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele.”

Lucas descreve a continuidade e a consolidação dos discípulos de Jesus que


formam a comunidade dos primeiros cristãos. E Maria está com eles, no início da
Igreja de Jesus. Maria aqui é recordada com o seu nome próprio e com uma
característica muito particular: “mãe de Jesus”. Ela não está fora da Igreja. Apesar
de aparecer uma única vez no livro dos Atos, Lucas quer mostrar que Maria é parte
integrante da Igreja primitiva e participa com a sua presença, oração e missão.
Há também uma correlação muito grande e estreita entre o evento
Pentecostes e a Anunciação de Maria. Em Pentecostes, o Espírito desceu sobre

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“todos” os que estavam presentes, plenificando ainda Maria a Virgem Maria. Maria,
com a Igreja nascente, se torna testemunha do seu Filho.

MARIA NO EVANGELHO DE JOÃO

João escreveu o seu Evangelho por volta do ano 90-100 d.C. É também autor
do livro do Apocalipse. Tanto o quarto evangelho, quanto o livro do Apocalipse
apresentam, por serem os escritos mais tardios, uma reflexão bem mais madura
sobre Jesus.
O Evangelho de João está dividido em três partes:
 Prólogo (Jo 1, 1-18);
 Livro dos Sinais (Jo 1,19 – 12,50);
 Livro da Exaltação (Jo 13-20).
Menciona a Mãe de Jesus em três ocasiões: uma indiretamente, na
encarnação do Filho de Deus (Jo 1, 14) e as outras duas de uma maneira bem
explícita: as Bodas de Caná (Jo 2, 1-12) e na Morte de Jesus (Jo 19, 25-27).

Jo 1,14 (PRÓLOGO):
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos sua glória, a glória que o
Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.”

Embora o texto não mencione Maria, porque a intenção do autor é mostrar a


origem divina de Jesus (Verbo de Deus), dá-se a entender que Ela está implícita no
processo da encarnação de Jesus (“e habitou entre nós”). Não podemos, em
hipótese alguma, afirmar que este é um texto mariano, mas quando se fala em
“encarnação” do Verbo Divino, Maria é lembrada.
A mariologia de João apresenta Maria como a Mediadora da Fé (nas Bodas de
Cana), a Mãe da comunidade de fé que sofre (aos pés da Cruz) e a Mulher que é
símbolo da Igreja que sofre as perseguições porém que vencerá no final de tudo.
João apresenta só dois textos que se referem diretamente a Maria: Nas Bodas
e aos pés da Cruz. Apenas dois textos, porém, que dizem tudo, ou seja, As BODAS
representam o INÍCIO do Ministério de Jesus e aos PÉS DA CRUZ, o fim do ministério
público de Jesus. Em outras palavras, João quer nos dizer que MARIA ESTAVA DO
INÍCIO AO FIM DO MINISTÉRIO DE JESUS.

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Jo 2, 1-12 (AS BODAS DE CANÁ):

“1Três dias depois, celebravam bodas em Caná da Galiléia e achava-se ali a


mãe de Jesus.
2
Também foram convidados Jesus e os seus discípulos.
3
Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho.
4
Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não
chegou.
5
Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser.
6
Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que
continham cada qual duas ou três medidas.
7
Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima.
8
Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram.
9
Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo
de onde era (se bem que era de conhecimento dos serventes, pois eles mesmos
tinham tirado a água), chamou o noivo
10
e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os
convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o
vinho melhor até agora.
11
Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia.
Manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele.
12
Depois disso, desceu para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus
discípulos e ali só demoraram poucos dias.”

Este relato encontra-se inserido no chamado “bloco dos sinais” (a palavra


“sinais” – seeméion – aparece 17 vezes para significar algo grandioso,
extraordinário, um tempo novo, um tempo da graça). É cheio de uma simbologia
muito grande. Os sinais apresentam um sentido de revelação da pessoa de Jesus e
têm uma íntima relação com a fé. Quando Jesus realiza um milagre, este serve de
sinal para que as pessoas vendo possam acreditar em Jesus. Em Mateus, Marcos e
Lucas, os milagres que Jesus realiza indicam o poder de Deus sobre as forças do mal.
Os sinais que o quarto Evangelho menciona também expressam a Glória de
Deus que, com Jesus, aos poucos vai se manifestando ao mundo.

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Analisando o texto...
Um primeiro dado interessante, que se percebe à primeira vista, é que João
não menciona o nome “Maria”. Ele refere-se à Maria chamando-a de “Mulher” ou
“Mãe de Jesus” (seis vezes). A explicação é simples: João gosta de apresentar certas
pessoas como modelos de seguidores do projeto de Jesus. Maria, portanto, é um
modelo, uma figura símbolo que aceitou a mensagem de Jesus.
Apesar de ser uma festa de casamento, os personagens principais não são os
noivos, mas, sim, Jesus e Maria. Apesar de usar uma linguagem de um casamento,
João quer mostrar, com esse relato, que o pacto (casamento) entre o povo da Antiga
Aliança (Israel) e Deus estava desgastado, sem vida, vazio, devido ao abismo do
pecado.
O relato data muito a sequência dos dias, com destaque especial “ao terceiro
dia”, alusão simbólica à Aliança no Monte Sinai (Cf. Ex 19, 11.9) e, principalmente, à
Ressurreição de Jesus.
Ao fazer chegar até Jesus a problemática da falta de vinho, Maria se apresenta
como aquela que, conhecendo as necessidades da humanidade, pede ajuda para
Jesus. Aqui está simbolizado o papel de intercessora atribuído à Maria.
A primeira reação de Jesus ao afirmar “Mulher, isso compete a nós?” ou, que
importa a mim e a ti? (v. 4), parece ser um tanto ríspida com relação à Maria, mas
serve para ilustrar o deslocamento de perspectiva: que Jesus chama os seus
interlocutores (na pessoa de Maria) para perceber um outro nível de sua presença.
A palavra “mulher” pode representar três ideias:
 Pode lembrar Gn 3, referindo à Eva-Mulher que trouxe o pecado ao
mundo. Assim, Maria, a nova Mulher, trouxe a salvação, Jesus;
 Maria, Mulher, pode representar todo o povo de Israel (Filha de Sião);
 Pode traduzir todo o reconhecimento da figura feminina na
comunidade de João, pelo papel evangelizador que as mulheres desempenhavam no
testemunho do Evangelho.

Depois de realizar o milagre da transformação da água em vinho, o relato tem


um desfecho muito significativo e é para lá que apontava João: “Assim deu Jesus
início aos seus sinais em Caná da Galiléia e manifestou a sua glória; e os seus
discípulos creram nele.” (v.11). Com isso, o autor acentua a centralidade do relato:
mostrar quem é Jesus (aquele que traz o vinho novo, a Nova Aliança, o Novo Pacto,

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a alegria, a plenitude, a graça, a salvação) e a fé dos discípulos que aderem ao


projeto do Filho de Deus. E todo o projeto do Reino de Deus é simbolizado através
da figura das Bodas, o grande Banquete, as Núpcias do Cordeiro, a grande Festa da
plena e definitiva alegria. Jesus é o novo NOIVO.
Maria-mulher é aquela que leva os discípulos a crerem em Jesus, incentiva os
filhos a fazerem a vontade do seu Filho.

Jo 19, 25-27 (Maria junto à cruz):

“25Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria,
mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
26
Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua
mãe: Mulher, eis aí teu filho.
27
Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo
a levou para a sua casa.”

O texto mostra que estavam presentes junto à cruz de Jesus quatro mulheres:
a mãe de Jesus, uma irmã de Maria, Maria esposa de Cléofas e Maria Madalena.
Estava, também, o discípulo amado.
As mulheres, como já vimos, representam o serviço generoso e destacado que
elas exerciam na comunidade; o “discípulo amado” representa o modelo ideal de
todo cristão que, apesar das contrariedades e cruzes da vida, permanece fiel a
Cristo.
Ao colocar Maria junto à cruz de Jesus, o autor do livro quer:
 simbolizar a presença da mãe sofredora que sempre esteve ao lado de
Jesus e de todo aquele que sofre;
 fazer uma relação entre as Bodas de Caná, onde Maria esteve presente
no início das atividades do seu Filho, como no pleno cumprimento de sua missão,
através da morte da Cruz.

O discípulo amado com Maria são representações da Igreja:


 Maria como geradora de novos filhos (mulher, membro constitutivo da
Igreja e mãe da comunidade);

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 Discípulo amado como representante de todos os fiéis que seguem


Jesus custe o que custar.
Resumindo, é possível sintetizar a figura de Maria no quarto evangelho como:
 discípula fiel;
 pessoa de fé;
 mãe da comunidade;
 mulher solidária.

MARIA NO LIVRO DO APOCALIPSE 12


Todo o livro do Apocalipse é repleto de uma linguagem de muitas imagens e
números. À primeira vista, parece que o livro é enigmático, assustador e cheio de
mistérios. Mas, apesar de usar uma linguagem “não muito clara”, o autor quer
reforçar a fé e a esperança dos cristãos frente às perseguições e dificuldades em que
se encontrava a Igreja primitiva.
O uso desse tipo de linguagem (Gênero literário) é bem simples de se explicar:
João está preso. Ele manda cartas para os cristãos. Usa linguagem simbólica que só
os cristãos entendiam. Caso contrário, as correspondências não chegariam ao seu
destino. Portanto, cada imagem, cada número, cada ação tem o seu significado. Mas
nós vamos nos ater somente àquelas passagens que podem fazer referência à
pessoa de Maria. Nesse caso, o capítulo 12, principalmente porque tem algumas
referências sobre uma “mulher vestida de sol”.
O Capítulo pode muito bem ser dividido em três partes que apresentam três
cenas com os seguintes personagens:
1ª cena (Ap 12, 1-6): a mulher, o dragão e a criança;
2ª cena (Ap 12, 7-12): a guerra entre as forças de Deus (Miguel) e do mal
(Satanás);
3ª cena (Ap 12, 13-17): a mulher perseguida pelo dragão que é vencido.

1ª Cena (Ap 12, 1-6):

“1Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol,


a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.

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2
Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz.
3
Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete
cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas.
4
Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu e as atirou à terra.
Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que,
quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho.
5
Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações
pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu
trono.
6
A Mulher fugiu então para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um
retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias.”

Esse “grande sinal” significa a importância do acontecimento;


“ Céu”, mais que morada de Deus, simboliza o lugar onde estão as forças
transcendentais que interferem na história humana;
“Mulher vestida de sol”, numa primeira leitura, não se refere à Maria (Maria
não apareceu no céu, não deu à luz no céu e muito menos o menino foi levado para
junto de Deus. Foi exatamente o contrário: Ele veio de Junto de Deus, no mistério da
encarnação), mas faz alusão à glória de Deus que reveste o seu povo, o Sol que
ilumina;
“Tem a lua debaixo de seus pés” significa o domínio sobre as coisas
temporais;
“Coroa de doze estrelas” lembra as doze tribos de Israel, bem como os doze
Apóstolos recompensados no final dos tempos;
“Dores de parto” recorda todo o sofrimento vivido pelo povo do Antigo
Testamento, bem como as perseguições da comunidade do Novo Testamento, que
quer continuar gerando Jesus para a humanidade através do seu testemunho;
“Dragão de sete cabeças e dez chifres” representa o poder político e
dominador da época. As “sete cabeças” simboliza a plenitude (o número sete
significa a plenitude, a totalidade) de poder. Os “dez chifres” representam os dez
governadores senatorias do Império Romano; O “diadema” sobre cada uma das
cabeças refere-se à linhagem nobre de cada um dos governadores;

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Tanto a Mulher como o Dragão são colocados juntos e em contraposição,


simbolizando que as forças do bem e do mal travam um conflito constante na
história;
A Mulher “deu à luz a um filho, um varão que irá reger todas as nações com
um cetro de ferro” (v. 5). Esse versículo lembra o Salmo 2, 7b-9: “Tu és meu Filho,
hoje te gerei. Pede-me e eu te darei as nações por herança e as extremidades da
terra por possessão. Tu os quebrarás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás
como a um vaso de oleiro.” e não se refere ao nascimento de Jesus em Belém, mas,
sim, à Paixão, quando então sairá vitorioso pela Ressurreição;
O “deserto” tanto significa o lugar da tentação (Jesus foi tentado no deserto
durante 40 dias e 40 noites) como também o lugar da proteção de Deus.

2ª Cena (Ap 12, 7-12):

“7Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o


Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate,
8
mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles.
9
Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado
Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra e com ele
os seus anjos.
10
Eu ouvi no céu uma voz forte que dizia: Agora chegou a salvação, o poder e a
realeza de nosso Deus, assim como a autoridade de seu Cristo, porque foi
precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e noite, diante do
nosso Deus.
11
Mas estes venceram-no por causa do sangue do Cordeiro e de seu
eloquente testemunho. Desprezaram a vida até aceitar a morte.
12
Por isso, alegrai-vos, ó céus, e todos que aí habitais. Mas, ó terra e mar,
cuidado! Porque o Demônio desceu para vós, cheio de grande ira, sabendo que
pouco tempo lhe resta.”

Entram em cena novos personagens: Miguel e seus anjos. A luta que começa
no céu desce à terra. Nessa cena, não aparece mais a figura da “mulher” e sim
“Miguel e o Dragão”. O Dragão é descrito como a “antiga serpente”, fazendo
lembrar Gn 3,15 (“Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e

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a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”), que já foi
vencida. Conforme o texto, essa vitória sobre a serpente se deu “pelo sangue do
cordeiro” (sacrifício de Jesus).

3ª Cena (Ap 12, 13-17):

“13O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que
dera à luz o Menino. 14Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim
de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo,
dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente.
15
A Serpente vomitou contra a Mulher um rio de água, para fazê-la submergir.
16
A terra, porém, acudiu a Mulher, abrindo a boca para engolir o rio que o
Dragão vomitara.
17
Este, então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua
descendência, aos que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de
Jesus.
18
E ele se estabeleceu na praia.”

Essa cena tem como cenário a terra. Os personagens são: o dragão e a mulher
e sua descendência. Já que o dragão perdeu a batalha para Miguel e seus anjos, ele
volta-se contra a mulher, que, por sua vez, consegue escapar pela proteção de Deus.
Assim, a descendência da mulher (A Igreja), “os que guardam os
mandamentos de Deus e mantêm o testemunho de Jesus”, são continuamente
ameaçados pelas forças do mal (serpente). Mas Deus aparece sempre com sua força
protetora, encorajando os filhos para a vitória final.
Conclusão: O Capítulo 12 do Apocalipse é um texto que deve ser interpretado,
primeiramente como sendo eclesiológico (A Igreja peregrina que sofre, é
perseguida, mas que tem a força de Jesus e do Espírito Santo de Deus para vencer as
armadilhas do mal), depois mariológico (Maria, mãe da Igreja que caminha ao lado
dos filhos que sofrem em direção à Pátria definitiva).
Como material bibliográfico, é recomendado, para este estudo bíblico de
Maria, os seguintes livros:
Bíblia Sagrada (Jerusalém, Ave-Maria, CNBB)

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Dicionário de Mariologia. Dirigido por Stefano de Fiores e Salvatore Meo.


Paulus, 1995.
Quem é esta mulher?, de Irmão Afonso Murad, São Paulo, Paulinas, 1996.
Com Maria rumo ao Novo Milênio. CNBB, Paulus, 1997
Breve Tratado de teologia Mariana. René Laurentin, Vozes, 1965.
Introdução à Mariologia, Clodovis Boff, Vozes, 2004

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