Você está na página 1de 14

Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD)

8(2):127-140, maio-agosto 2016


Unisinos - doi: 10.4013/rechtd.2016.82.01

O realismo de Danilo Zolo1


The realism of Danilo Zolo

Pietro Costa2
Università degli Studi di Firenze, Itália
pietro.costa@unifi.it

Resumo
O artigo se propõe a fazer uma análise de aspectos centrais do pensamento do
jusfilósofo Danilo Zolo, que completou 80 anos em janeiro de 2016. Inicialmente,
examina os fundamentos epistemológicos do realismo jurídico proposto por Zolo.
Em seguida, aborda a significância desse realismo para uma possível teoria da demo-
cracia. Por fim, analisa as contribuições do referido autor para a filosofia do direito
internacional, as quais o colocam como um dos mais destacados pensadores desta
área nas últimas décadas.

Palavras-chave: filosofia do direito, filosofia política, realismo jurídico.

Abstract
The article aims to make an analysis of the main aspects of the thought of Danilo
Zolo, who turned 80 in January 2016. Initially, we examine the epistemological founda-
tions of the legal realism proposed by Zolo.Then we deal with the significance of this
realism for a possible theory of democracy. Finally, we analyze the contributions of
that author to the philosophy of international law, which made him one of the leading
thinkers in this area in recent decades.

Keywords: philosophy of law, political philosophy, legal realism.

1
Artigo originalmente publicado como texto comemorativo: “Il realismo di Danilo Zolo” na revista Jura Gentium. Rivista di Filosofia del Diritto Internazionale e della Politica
Globale (2016, http://www.juragentium.org/topics/thil/costazolo.html). Traduzido para o português por Anderson Vichinkeski Teixeira.
2
Università degli Studi di Firenze. Dipartimento di Scienze Giuridiche.Via delle Pandette, n. 32, CAP 50127, Firenze, Itália.

Este é um artigo de acesso aberto, licenciado por Creative Commons Atribuição 4.0 International (CC BY 4.0), sendo permitidas reprodução, adaptação e distribuição
desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.
Costa | O realismo de Danilo Zolo

Considerações introdutórias termo de referência, sua ambiguidade diminui, mas não


desaparece completamente: o realismo do filósofo polí-
Aqueles que entrassem em contato, ainda que tico não tem área semântica perfeitamente coincidente
superficialmente, com o pensamento filosófico-jurídico com aquela que lhe atribui um teórico das relações in-
e filosófico-político desenvolvido por Danilo Zolo nas ternacionais. O realismo – portanto, também o realismo
duas últimas décadas não hesitariam em recorrer, para político – não é um parâmetro univocamente definido,
caracterizá-la com uma fórmula de síntese, à categoria podendo ser usado para registrar as características e a
do “realismo”. Para chegar a esta conclusão, o leitor não orientação de uma ou outra teoria político-social. Dada
precisa de particulares acrobacias hermenêuticas: é o a ambiguidade ou, pelo menos, a complexidade semân-
próprio autor que quase em todas as suas intervenções tica do termo, quando Zolo se define realista, ele não
usa o termo “realismo” (e seus derivados) para indicar, declara tanto a adesão a uma tradição perfeitamente
sinteticamente, o seu próprio quadro teórico de re- definida, quanto contribui a inventá-la: promovendo
ferência. Em sua contribuição mais desafiadora para a inéditos curtos-circuitos entre áreas – como a filosofia
análise da democracia contemporânea – Il principato de- política e a teoria das relações internacionais – vizinhas,
mocratico: per una teoria realistica della democrazia (Zolo, mas distintas e esculpindo para si um caminho “dentro”
1992) – a intenção de delinear uma teoria realista é pro- (e “entre”) delas em nome do realismo, que estava sen-
gramaticamente indicada já pelo subtítulo; e em Cosmo- do definido in itinere.
polis (Zolo, 1995) – o seu trabalho que abre a longa série Entender o realismo de Zolo demandará, por-
de escritos dedicados à filosofia do direito internacional tanto, uma tentativa de desconstrução de sua própria
– desde as primeiras páginas o autor declara pertencer analítica (ou melhor, de recognição genética de seu iti-
à tradição do realismo. nerário intelectual) que destaque as diferentes facetas
A referência ao realismo não é uma questão de do prisma realista em contato com a teoria da demo-
estilo; é uma passagem importante dentro de um discur- cracia e com a filosofia das relações internacionais. No
so caracterizado por uma forte “reflexividade”: sempre entanto, a complexidade e a peculiaridade do realismo
atento em vincular a construção do objeto (seja a de- de Zolo não derivam apenas da multiplicidade de dis-
mocracia, a ordem internacional, a guerra ou os direitos) ciplinas que ele atravessa ao longo da sua aventura in-
à exposição das estratégias linguístico-conceituais que a telectual, mas nascem também (e especialmente) das
tornam possível e lhe conferem as suas características premissas metateóricas de sua teoria política; premissas
peculiares. Por esta razão, o significado e o alcance do que afundam as raízes no terreno da epistemologia das
realismo de Danilo Zolo podem oferecer acesso con- ciências humanas (e da epistemologia em geral).
veniente à sua análise teórica, mas, ao mesmo tempo, É um terreno que Zolo explora em profundidade
oferecem o risco de despedaçar o andamento “circular”, durante os anos oitenta, chegando a conclusões que ele
separando arbitrariamente os pressupostos epistemoló- irá manter praticamente inalteradas nos anos seguintes
gicos da análise do fenômeno que toma em consideração. e assumir como o quadro de referência (ora implícito,
Vou tentar destacar as conexões que intercorrem entre ora tematizado) da sua própria reflexão político-jurídica.
os dois momentos do discurso, mas me será impossível Todavia, por uma estranha ironia do destino (ou melhor,
reconstruir, analiticamente, cada um dos aportes teóri- por consequência dos itinerários histórico-semânticos
co-jurídicos e filosófico-políticos: a estes olharei apenas aos quais o léxico teórico é rotineiramente submetido),
por meio da janela daquele realismo que Zolo apresenta no campo da epistemologia vemos que o realismo, longe
como a principal caracterização da sua filosofia. de ser a perspectiva eleita, é o principal alvo polêmico
da reflexão de Zolo.
Da epistemologia reflexiva Não é posta em questão uma das valências mais
ao realismo jurídico gerais do termo “realismo” (uma valência que surge
principalmente como um elemento de contraposição
O realismo em que Zolo afirma se reconhecer é com uma filosofia de inspiração idealista): a ideia de uma
o realismo político. O adjetivo é importante neste caso, realidade existente como tal, em vez de constituída ou
assim como o substantivo, uma vez que o termo “rea- posta pela atividade criativa do ser humano. O objeto
lismo” tem significados profundamente diferentes, de- de discórdia é mais ainda a orientação epistemológica
pendendo das tradições conceituais que o empregam: específica que havia encontrado sua expressão mais cé-
o realismo do epistemólogo não tem muito a ver com lebre no Círculo de Viena, para então dominar a filosofia
o realismo político; e mesmo quando este último é o da ciência até os anos cinquenta e sessenta.

128 Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140


Costa | O realismo de Danilo Zolo

Naquilo que foi chamado de received view neo- parece inevitável a incidência do componente valorativo
positivista (a representação dos pressupostos e das ca- nos processos heurísticos.
racterísticas de um saber que possa se dizer científico), É com esse processo de revisão interna da tradi-
as convicções mais comuns podem ser resumidas nos ção da epistemologia neopositivista que Zolo entra em
seguintes termos: (i) não só existe, independentemente contato no momento em que é levado a se questionar
dos sujeitos, uma realidade autossuficiente, mas esta é sobre os pressupostos e sobre as prestações cognitivas
cognoscível na sua objetiva configuração; (ii) a ciência dos conhecimentos especializados. A circunstância que
é fundada na observação de fenômenos e é capaz de lhe surge é a reconstrução histórico-teórica do pensa-
chegar à representação (ainda que apenas assintótica) mento de Otto Neurath. A opção por este autor não
da realidade como tal; (iii) a dimensão da subjetividade é é nem casual nem gratuita: no filósofo austríaco, Zolo
virtualmente colocada entre parênteses: o conhecimen- (1986) procura não só uma oportunidade para ques-
to é científico como avalorativo e meramente “descriti- tionar as condições de possibilidade de uma análise
vo”; (iv) não é relevante a distinção entre ciências natu- científica da dinâmica político-social, mas também argu-
rais e ciências sociais, ambas consideradas em relação a mentos para corroborar e aprofundar as hipóteses que
um método substancialmente unitário. ele já enuncia nas primeiras páginas de seu livro: a supe-
É corrente o emprego do termo “realismo” para ração da teoria da verdade como “correspondência” e a
conotar uma epistemologia que atribui à ciência a ta- rejeição do cognitivismo ético (Zolo, 1986, p. 14).
refa e a capacidade de descrever seu próprio objeto, Os textos de Neurath parecem, de fato, em con-
elaborando teorias que o representam com crescente dições de receber as solicitações que o seu leitor lhe
(ainda que assintótica) aproximação sem serem condi- apresenta. Membro fundador do Círculo de Viena e, ao
cionadas pelas inclinações e pré-juízos do observador. mesmo tempo, crítico afiado da teoria da verdade como
Tal concepção da epistemologia exerceu uma conside- correspondência entre enunciados e fatos, diretamente
rável influência não só sobre as chamadas hard sciences, envolvido na ação política e interessado na epistemolo-
mas também sobre muitas áreas das ciências sociais (da gia das ciências político-sociais, Neurath aparece a Zolo
historiografia à ciência política, à filosofia do direito, à como um dos precoces e mais importantes testemu-
teoria das relações internacionais) até os anos sessenta, nhos de um “revisionismo” epistemológico destinado a
quando lhe foi necessário lidar com pontos de vista al- aprofundar-se (além de Neurath, nos anos sessenta) em
ternativos, muito diferentes entre si, mas convergentes uma visão da ciência (e das ciências sociais) que será
em rejeitar os principais pressupostos da received view chamada “pós-empirista”.
positivista: vale, por exemplo, a referência à tradição As principais premissas que Zolo retira (por
hermenêutica, que, mesmo já sendo um componente meio de Neurath e além de Neurath) do processo de
importante da cultura europeia nos séculos XIX e XX, transformação da abrangente herança neopositivista me
vê aumentar a sua relevância no Methodenstreit dos anos parecem as seguintes:
setenta, contribuindo para questionar a ideia (positivista (a) a rejeição da ideia de verdade como corres-
e neopositivista) do sujeito como um mero “observa- pondência e a convicção de que a linguagem
dor” dos fenômenos e para sublinhar a sua intervenção não dispõe de um ponto que possa ser apro-
necessariamente ativa e valorativa. veitado para saltar sobre si mesma e atingir o
No entanto, a epistemologia positivista não en- objeto “como tal”;
tra em crise apenas pela crescente influência de orien- (b) a impossibilidade de observação “pura”
tações com ela incompatíveis. Mesmo no seu interior dos fenômenos: o sujeito não é uma tabula
toma força um processo de revisão, ou de aberto re- rasa, pois olha para o mundo através de um
púdio, das teses (muitas delas, se não todas) que tinham filtro linguístico-conceitual que impede a
apoiado a versão ortodoxa e, por um longo tempo, do- simples “reflexão” da realidade no proces-
minante. De Popper a Kuhn e a Toulmin, multiplicam-se so cognitivo;
as tensões que levam a colocar em dúvida as convicções (c) a insistência sobre os condicionamentos histó-
dadas por adquiridas: não parece possível uma obser- rico-sociais e histórico-culturais que incidem
vação pura e impessoal dos fenômenos, cuja análise, ao sobre as prestações cognitivas da ciência e a
contrário, depende dos pressupostos teóricos do cien- tematização da relação que intercorre entre
tista; cai a teoria da verdade como correspondência, a a comunidade científica e a formação e afir-
ideia de uma realidade que o discurso científico pos- mação das teorias: relacionadas com o con-
sa representar-descrever na sua consistência objetiva; senso da comunidade e, portanto, expostas

Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140 129


Costa | O realismo de Danilo Zolo

às estratégias (retóricas) de “persuasão” e ao As sugestões que Zolo retira da reflexão de


jogo dos interesses e dos conflitos; Neurath são, portanto, múltiplas: partem da epistemo-
(d) a ciência parece, por consequência, não tan- logia, mas também investem no âmbito da ética e do
to o órgão de uma progressiva aproximação direito. Antes de tudo, é propriamente no âmbito da
com a “realidade” como tal, quanto o veículo análise dos fenômenos jurídicos que faz a sua aparição
de visões reciprocamente incomensuráveis: a categoria do “realismo”; e, de fato, não parece forçoso
um ponto de vista sobre o mundo, sustenta- considerar “realista” a tese sustentada por Neurath – a
do por um quociente metafórico dificilmente necessidade de reconduzir a jurisprudence a uma análise
redutível à univocidade da argumentação de- sociológica do direito para lhe dar o status de um co-
monstrativa ou verificação empírica; nhecimento científico – a partir do momento em que
(e) a s pretensões cognitivas atribuíveis à ciência o “realismo jurídico” (apesar da grande variedade de
estão enfraquecidas em comparação com a suas expressões) sempre se distinguiu por contrapor
epistemologia neopositivista e, sobretudo, ao formalismo e ao conceitualismo da análise normativa
não são consideradas livres de juízos de valor a atenção funcionalista para com as raízes e os efeitos
implícitos ou explícitos. sociais das normas (cfr. Castignone, 1995).
Ao fazer a opção jusrealista, Zolo se encontra
A ciência não é ética e politicamente neutra, mas em uma fértil companhia (devido à propagação, ao
as suas estratégias heurísticas aparecem em certa medi- longo do século XX, das teorias antiformalistas); no
da orientadas e influenciadas por valores compartilha- entanto, é menos frequentado o caminho que ele per-
dos. Os valores, no entanto, não são susceptíveis de ser corre para chegar a esse resultado, uma vez que o jus-
racionalmente fundados: uma das maiores aquisições realismo é apenas uma das indicações que ele aponta
que Zolo tira de suas pesquisas neurathianas é não só do confronto com o pensamento neurathiano, enquan-
a rejeição do cognitivismo ético e a condenação da “fa- to a aquisição principal continua a ser a convicção de
lácia naturalista”, mas também toda uma desvalorização que deve proceder para além dos cânones originais da
do universo do discurso normativo. epistemologia neopositivista.
Para o empirista Neurath, a pretensão kelsenia- O terreno em que Zolo se coloca é conotado
na de fazer da análise de um discurso normativo uma pelo próprio Zolo como pós-empirista. Creio que po-
verdadeira “ciência”, completa em si mesma e autossufi- deríamos empregar o termo mais significativo, ainda
ciente, é uma ilusão perigosa. A análise das normas tem que indubitavelmente polissêmico, de construtivismo
uma utilidade limitada, caso objetive verificar a coerência (cfr. Villa, 1999; Delanty, 2000; Pagnini 1995; Kulp, 1997;
interna do sistema jurídico, mas carece de um adequado Marsonet, 2002). Na realidade, Zolo evita empregar este
fundamento, dependente, como é, da distinção kantiana termo, atribuindo-lhe (ou melhor, às suas formas mais
entre a esfera do ser e a esfera do dever. Pelo contrário, radicais) uma valência fortemente convencionalista e
deve-se reconduzir a norma à interação social da qual é uma medida enigmaticamente idealista: como se a ciên-
função: o saber jurídico pode adquirir um status científi- cia “produzisse” livremente o seu próprio objeto, des-
co somente convertendo-se em uma análise sociológica provida de limitações objetivas e subjetivas. Parece-me
das normas. O discurso normativo, seja jurídico ou ético, que poderíamos chamar construtivista uma epistemolo-
é cientificamente compreensível somente enquanto es- gia que rejeite a teoria da verdade como correspondên-
teja reconduzido às crenças, aos interesses, aos compor- cia, que enxergue no conhecimento não um “reflexo” da
tamentos dos quais é uma mais ou menos disfarçada e realidade, mas um processo de seleção e elaboração dos
eficaz racionalização e universalização. dados, e que insista no papel ativo e criativo do sujeito,
Acolher a crítica neurathiana do universo nor- sem por isso negligenciar as raízes e os condicionamen-
mativo significa fazer própria, no terreno do conheci- tos histórico-sociais.
mento jurídico, a perspectiva do realismo (atacando a Zolo enfatiza o caráter reflexivo da sua episte-
suposta autonomia das formas jurídicas para privilegiar, mologia, utilizando para tal fim as sugestões da célebre
como escreveu Pound, o law in action sobre o law in metáfora neurathiana de marinheiros obrigados a repa-
books), enquanto implica, no terreno da ética, a escolha rar o navio da ciência em um mar tempestuoso, sem po-
por contrapor ao universalismo do imperativo categóri- der dispor de qualquer doca seca. Esta metáfora, escre-
co kantiano uma multiplicidade de escolhas (individuais ve Zolo (1992, p. 25), “alude, na verdade, a uma situação
e coletivas) relacionadas com a contingência das formas cognitiva que proíbe qualquer possibilidade de certeza
específicas de vida. ou de aproximação à verdade, à la Popper, uma vez que

130 Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140


Costa | O realismo de Danilo Zolo

o próprio sujeito está incluído dentro do ambiente que cípios imortais” já tinha sido alimentada, de fato, pela
ele se esforça em tornar o objeto de seu próprio co- longa associação aos textos de Marx, tornados objeto,
nhecimento”. O conhecimento se move em um círculo: nos anos setenta, de acuradas reconstruções histórico-
o sujeito conhece o objeto a partir dos preconceitos -teóricas (Zolo, 1974, 1976, 1977). Por certo, a possibili-
impostos por suas raízes histórico-sociais e histórico- dade de encontrar na obra de Marx os fundamentos de
-culturais, de modo que, embora possa estar conscien- uma verdadeira “ciência da sociedade” tinha caído sob
te dos seus próprios condicionamentos, não está em os golpes da epistemologia pós-empirista. Entretanto,
condições de “olhar de fora”, de livrar-se dessas raízes, restava algo da herança de Marx: não só a desvalori-
objetivando o objeto a conhecer. zação dos enunciados prescritivos e universalistas, mas
As conclusões sobre as prestações cognitivas também a sua desconstrução e sua redução ao jogo dos
da ciência são francamente pessimistas. As teorias não interesses subjacentes. A lição marxista – o desmasca-
conduzem a uma progressiva iluminação do objeto, mas ramento da “falsa consciência” – não é descartada, mas
exprimem um ponto de vista limitado, condicionado e corrobora a intenção de arrancar do discurso normati-
subjetivo sobre o mundo, influenciado pelas aspirações, vo as máscaras universalistas para poder revelar o ros-
pelos medos, pelos valores do sujeito. Segundo Zolo to dos agentes sociais concretos. Finalmente, há uma
(1989a, p. 35), “O meu ponto de vista é conscientemen- herança adicional (e delineada há pouco tempo) rece-
te context dependent, relativista, gnoseologicamente cé- bida de Marx por intermédio de Neurath na reflexão
tico e definitivamente prejudicado pelo ponto de vista de Zolo: uma imagem do homem, que Neurath chama
cognitivo e valorativo”. epicurista (e antiplatônica) e atribui a Marx; uma ima-
Não há nenhum ponto de Arquimedes em que gem que de certa forma poderia remontar a uma antro-
confiar para sair do particularismo das mais diversas pologia iluminista, caracterizada pelo protagonismo do
formas de vida, dentro das quais a própria “ciência” vem indivíduo e pela busca da felicidade (Zolo, 1986, p. 154s.).
a existir e funcionar. Se, portanto, mesmo uma teoria O realismo jurídico de Zolo é, portanto, o resul-
que se pretenda “descritiva” é, na realidade, uma visão tado de um longo processo que tem como matriz prin-
pré-julgada pelo sujeito e pelo contexto a que pertence, cipal a adoção da epistemologia pós-empirista (enquan-
da mesma forma (ou em maior proporção) o discurso to resta em segundo plano, mantendo um pouco do
normativo (seja ético ou jurídico) deverá ser destituído seu poder sugestivo, a crítica marxista das “ideologias”).
de suas pretensões universalistas e reconduzido de vol- Longe de ser um ponto de partida, um axioma primitivo,
ta ao jogo das expectativas, dos medos, das exigências da análise político-jurídica de Zolo, o realismo jurídico é
dos indivíduos e de grupos determinados. o resultado (um dos resultados) de uma reflexão que se
Partindo de uma perspectiva epistemológica propõe a limpar o campo do realismo epistemológico
como essa, Zolo elabora uma espécie de “estratégia de característico do neopositivismo das origens.
desconfiança” em relação ao discurso normativo. Con-
frontando-se com este, deve-se, na sua opinião, evitar a O realismo político:
dupla “falácia”: não só a falácia “ontológica” ou “natura- a teoria da democracia
lista”, que ocorre quando tentamos inferir da estrutura
“objetiva” da realidade valores e enunciados prescriti- Uma conclusão que Zolo tira do seu ataque ao
vos, mas também a falácia “deontológica”, que ocorre realismo (epistemológico) é a adoção de um programa
quando esquecemos que no processo cognitivo incidem jusrealista: não ceder às reivindicações da suposta auto-
escolhas de valor relacionadas a projetos e formas de nomia do discurso normativo e reconduzi-lo à intera-
vida determinadas, ao passo que apresentamos como ção social de que é, ao mesmo tempo, função e espelho
normas de projeção universal regras de comportamen- (deformante).
to ligadas a inclinações subjetivas. Conforme rapidamente descrito, a abordagem
A análise do discurso normativo se traduz então realista do universo normativo parece subtraída ao fali-
na denúncia das suas estratégias de racionalização e de bilismo da epistemologia reflexiva. Para Zolo, de fato, é
universalização de regras “locais” e na sua reconciliação sim conjectural e incerta a prestação cognitiva de qual-
às formas de vida que constituem a sua raiz e destina- quer empreendimento científico, forçado a “construir”
ção funcional. Zolo acolhe plenamente, a este respeito, o seu próprio objeto, intervindo seletivamente na com-
a proposta neurathiana e permanece substancialmente plexidade não dominável do real e pré-julgada pelos in-
fiel a ela em toda sua reflexão posterior. Sua desconfian- teresses vitais dos pesquisadores. Porém, não é de todo
ça em relação aos enunciados prescritivos e aos “prin- incerta sua dependência (genética e funcional) da inte-

Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140 131


Costa | O realismo de Danilo Zolo

ração social do universo normativo, desprovida de uma cíficas e direcionadas, enquanto que a segunda busca-
autônoma relevância e decifrável apenas em relação às ria uma visão geral e abrangente da ação política (Zolo,
formas de vida com as quais está conectada. 1987, p. 180-181).
Não é, de qualquer modo, uma análise realista Ainda no campo da teoria política, deve-se, se-
das normas o principal objetivo perseguido por Zolo gundo Zolo, rejeitar a received view neopositivista, mas
entre os anos oitenta e noventa. É, antes de tudo, a te- sem cair na armadilha do eticismo e do normativismo.
oria política a atrair sua atenção e oferecer-se como o À primeira pars destruens segue, portanto, uma segunda,
teste mais importante para sua epistemologia reflexiva. que assume como alvo “exemplar” o neocontratualismo
Entre as ciências sociais, a ciência política tinha de Rawls. Na verdade, este repousa sobre uma suposi-
sido particularmente suscetível aos encantos do neo- ção não argumentada – a partilha universal de um senso
positivismo e muitas tinham sido as tentativas de desen- natural de justiça – contra o qual deve ser avançada, de
volver uma teoria da democracia que pudesse acolher acordo com Zolo, a acusação de falácia deontológica:
as principais sugestões: a valorização das pesquisas em- um modelo normativo universalista é construído colo-
píricas, a formulação de leis explicativas dos fenômenos, cando entre parênteses as diferenças e especificidades
a adoção de um estilo “descritivo”, preservado de con- dos indivíduos concretamente operantes, “constante-
taminações valorativas. São, essencialmente, os carac- mente envolvidos em uma trama de circuitos transa-
teres que Bobbio havia indicado, em vários ensaios do cionais dentro dos quais se expressam as exigências de
início dos anos setenta (Bobbio, 1970, p. 432-441, 1971a, segurança de cada grupo [...]” (Zolo, 1992, p. 55). O dis-
p. 23-57, 1971b, p. 367-379), como próprios de uma te- curso normativo parece para Zolo inaceitável porque
oria política que ambicionasse apresentar-se como uma transforma os valores (embora presentes em qualquer
verdadeira “ciência”: como uma ciência empírica, dotada enunciado “descritivo”, mas ligados aos interesses e ex-
de um método de análise em nada diferente daquele pectativas “locais”) em princípios de alcance universalis-
observado nas ciências físico-naturais. ta, frente aos quais ainda desempenha um bom embate
É com essa imagem de ciência que Zolo deve o “reducionismo” marxista ou de Pareto, que revelam a
se confrontar no momento em que está prestes a de- valência legitimante em relação a específicas estruturas
senhar, por sua vez, uma teoria da democracia que ele potestativas (a democracia welfarista, no caso de Rawls,
entende conotar como realista. Não é, no entanto, Bo- de forma pejorativa reconduzida por Zolo ao apólogo
bbio (mas é sobretudo Sartori), que ele toma como de Menênio Agripa).
porta-voz da epistemologia neopositivista no âmbito A alternativa é desenvolver, no terreno da análise
da ciência política (Zolo, 1987, p. 157-183). De fato, em política e da teoria democrática, os pressupostos daque-
Bobbio, mesmo no Bobbio aparentemente alinhado com la epistemologia reflexiva adotada por Zolo como sua
a tradição empirista, Zolo encontra uma inquietação e matriz metateórica. É neste ponto que entra em cena a
uma amplitude de horizontes que superam em muito categoria de “realismo político”;3 uma categoria, escreve
os limites de qualquer “ortodoxia”. Bobbio adverte so- Zolo (1992, p. 58), que se mostra “alternativa, seja ao
bre a dificuldade (ou, até mesmo, esterilidade) de uma falso realismo das teorias econômicas ou empíricas de
teoria política purificada a partir de um componente política, seja às concepções moralistas”.
valorativo qualquer e cultiva uma visão mais complexa O realismo político tem nos ombros uma lon-
e multifacetada da ação humana; uma ação cujo perso- ga e desafiadora tradição (cfr. Portinaro, 1999), que
nagem principal se comunica com seus companheiros Zolo aceita somente com reservas. Sua primeira pre-
por meio de símbolos que precisam ser interpretados e ocupação é se distanciar de uma tese famosa: a tese
age tendo em vista os fins e em obediência aos valores do primado da força sobre a justiça; a tese sustentada
que devem ser decifrados como momentos da cultura por Trasímaco, que na República, de Platão, afirma ser
da qual ele faz parte (Zolo, 1987, p. 167-169). Em segui- o “justo” somente aquilo que o mais forte considerar
da, atenua-se para Zolo (em razão de sua opção “pós- útil. Zolo acolhe do realismo “clássico” a desconfiança
-empirista”), mas também para Bobbio (de acordo com em relação à justiça, sem que, para tanto, identifique a
a interpretação que Zolo sugere), a contraposição clara, esfera da política com a dos interesses e estratégias
de natureza qualitativa, entre ciência política e filosofia do príncipe. Realista é para Zolo uma teoria que vê
política, de modo que distingui-las é sim uma diferença na política um âmbito de experiência não sujeito às
de grau, desempenhando a primeira análises mais espe- prescrições de um modelo normativo sobrejacente.

3
Para uma análise crítica aprofundada, ver Liguori (2007).

132 Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140


Costa | O realismo de Danilo Zolo

A política é o momento do particularismo dos interes- A autonomia da esfera política, a sua indepen-
ses e dos projetos, inevitavelmente diferentes e confli- dência de outros subsistemas sociais, é, portanto, um
tantes, que encontram provisórios pontos de encontro importante legado da tradição realista, que Zolo re-
e momentos de composição pactual, mas não podem cebe e valoriza, contando com duas linhas argumen-
ser disciplinados por uma norma (ética ou jurídica) de tativas diferentes, mas convergentes: a rejeição (para
impostação soi-disant universalista. ser clara, neurathiana) do universalismo normativo e a
A impossibilidade de atribuir ao universo do dis- teoria luhmanniana da complexidade social e da dife-
curso normativo um significado autônomo e a neces- renciação sistêmica.
sidade de reconduzi-lo ao particularismo das diversas Da tradição realista Zolo não parece querer aco-
formas de vida, já apresentadas por Zolo como con- lher o pessimismo antropológico amplamente circulan-
sequências obrigatórias de sua escolha epistemológica, te no seu interior: a ideia de um ser humano egoísta,
são confirmadas no campo da análise (que Zolo chama não confiável, agressivo, faminto de poder, do qual Ma-
de realista) da política. Realista é, de fato, para Zolo uma quiavel deixou uma imagem tão célebre quanto eficaz.
análise política que concentra as atenções nos interes- Não por isso ele entende que seja irrelevante para uma
ses e nas aspirações que surgem em um determinado teoria democrática qualquer referência aos pressupos-
contexto e exclui o recurso a critérios normativos so- tos antropológicos. Ao contrário, ele se conecta à visão
brepostos, na crença de que eles sejam a racionalização antropológica de Gehlen, que insiste na variedade dos
e universalização dos “pontos de vista” (de aspirações, comportamentos próprios de um ser humano, cuja ca-
interesses, valores) contingentes. racterística mais proeminente é a abertura para o mun-
A crítica daquela “falácia” que Zolo chama de do e o contínuo oscilar entre a busca por inovação e a
deontológica encontra-se com a desconfiança, típica necessidade de estabilidade, entre a assunção de riscos
da tradição do realismo político, em relação aos ideais, e a necessidade de segurança (Zolo, 1992, p. 61-62).
aos grandes princípios, retoricamente solenes e politi- A plasticidade do ser humano não é simples in-
camente covardes. Claro que, mesmo dentro da mesma determinação e abertura para qualquer conteúdo. O
tradição realista, mudam o tom e a direção de sentido nexo que Zolo pretende instaurar entre antropologia e
da argumentação, dependendo de ela se colocar ex par- política é mais forte e substantivo. Da etologia e da an-
te principis ou ex parte populi; resta, no entanto, firme a tropologia, de Lorenz e de Gehlen, ele toma a convicção
convicção (em Maquiavel, assim como em Marx) de que de que o ser humano, em sua relação com o ambiente
os princípios e os ideais não têm a ver com a essência, (com as suas excessivas tensões e com a muito ampla
com o motor secreto, da ação política, mas desta são variedade de possibilidades), sente-se exposto ao risco
apenas uma variável dependente. e à imprevisibilidade, de modo que se torna necessário
A desvalorização maquiavélica das exortações pedir ao grupo social que intervenha com decisões que
abstratas e dos sermões moralistas parece para Zolo a reduzam a complexidade, contenham os riscos, contro-
intuição precoce da autonomia da política; uma intuição lem o medo. É o medo o principal cimento da ordem
que adquire um significado maior quanto mais entramos política: o medo que pelo menos um grande clássico
na Modernidade e nos tornamos conscientes da cres- do realismo político – Hobbes – havia tomado como
cente complexidade da dinâmica social. O termo “com- o fundamento originário da ordem política. É o medo
plexidade” busca ter um significado não mais genérico, que, mesmo para Zolo, ajuda a manter o grupo unido, a
mas específico, “técnica”: é um termo-chave da sociolo- exaltar a diferença entre o que é interno ao grupo e o
gia luhmanniana que Zolo (1989b, p. IX-XXX, 1982, 9, que é externo (e potencialmente ameaçador), a conferir
p. 149-159, 1983, p. XIII-XXXIV) havia apresentado e dis- às autoridades um potencial simbólico que desempenha
cutido entre os anos setenta e oitenta, e que continua um papel relevante na estabilização da atitude potestati-
a empregar na construção de sua teoria da democra- va e na disciplina social.
cia. Nesta perspectiva, dada a enorme e não controlável Portanto, Zolo estabelece um duplo contato com
complexidade da realidade, o problema decisivo (seja te- o imaginário antropológico da tradição realista: em pri-
órico ou prático) é introduzir critérios de simplificação meiro lugar, se ele rejeita um componente (o homem
com o escopo de enfrentar os desafios do ambiente. Esta egoísta e agressivo), acolhe um outro filão (o homem as-
é a função de cada sistema social, cuja evolução é sim sustado e carente de seguranças), que já havia exercido,
caracterizada por um aumento da complexidade inter- por meio de Hobbes, uma influência decisiva na repre-
na, mas também pela formação simultânea de sistemas sentação da ordem política. Em segundo lugar, qualquer
e subsistemas diferenciados e relativamente autônomos. que seja a imagem antropológica adotada, Zolo acolhe

Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140 133


Costa | O realismo de Danilo Zolo

da tradição a convicção de que a antropologia incide de forma de uma narrativa, uma abordagem metódica e
modo relevante sobre a representação da ordem política. uma visão da política.
Porém, convém perguntar-se, a este propósito, Este é o programa heurístico ao qual Zolo se
qual é o estatuto epistemológico atribuível às teses atém ao desenvolver sua análise da democracia; e sur-
antropológicas compartilhadas. Ainda que Zolo não se ge novamente, mesmo neste terreno, o confronto com
pronuncie expressamente sobre este ponto, parece-me uma tradição, longa e articulada, que se apresenta como
que não podem ser confirmados, mesmo neste terreno, realista; uma tradição que nasceu por impulso de Gae-
os princípios de sua epistemologia reflexiva, segundo a tano Mosca e de Pareto, continua com Weber e Kelsen
qual qualquer teoria (ou pedaço de teoria) não descreve (com Kelsen como teórico da democracia), e encontra
a realidade como tal, mas constrói seu próprio objeto, a sua célebre fundação e sistematização em Schumpeter,
elaborando seletivamente os dados sem sair de um cír- influenciando profundamente a politologia da segunda
culo que encontra no sujeito o seu insuperável ponto metade do século XX (pense-se em Robert Dahl).
de partida e de chegada. O realismo político de Zolo en- Nesta perspectiva, se analisarmos, sem juízos
contra, portanto, um complemento importante na sua prévios e sem desvios ideológicos, a dinâmica concre-
subjacente antropologia (hobbesiano-gehleniana), mas ta dos atores sociais, vemos que os princípios e os
não pode tomá-la como um axioma evidente ou como símbolos que haviam sustentado as concepções de de-
um pedestal inabalável. Atenuada a diferença entre ciên- mocracia dos séculos XVIII e XIX estão destinados a
cia e filosofia, enfatizado o caráter necessariamente sub- cair como aspirações ilusórias ou modelos normativos
jetivo e valorativo de cada teoria, o realismo político é, impossíveis.
como qualquer teoria, simplesmente um ponto de vista A democracia (que Schumpeter chama de “clás-
sobre o mundo, e é forçado a renunciar ao movimento sica”) – a democracia de Rousseau (e também a demo-
retórico mais eficaz da tradição realista: o apelo à dura, cracia de Marx) – coincidia com a ideia de um povo ca-
mas indiscutível, realidade contra as ilusões das belas paz de se colocar como um sujeito ativo e propositivo,
almas e das abstrações dos filósofos. A imagem do ho- detentor de uma vontade soberana que transcende o
mem apavorado não é necessariamente mais aderente particularismo dos grupos e dos interesses, tornando
ao “real” da imagem do homem egoísta ou à imagem possível a coincidência entre governantes e governa-
do homem social e colaborativo: enfrentam-se diversas dos. Certamente, o modelo rousseauniano era muito
concepções do ser humano que correspondem a tão di- diferente da visão de Sieyès, para o qual a democracia
versas representações da política (e resta aberto, quan- moderna se realizava necessariamente na forma da re-
do muito, somente o debate sobre a coerência interna presentação. É verdade inquestionável que no curso
de suas “visões”). do século XIX iria se espalhar a ideia de uma ordem
Portanto, Zolo estabelece uma relação complexa política que poderia ser considerada legítima somente
com a tradição do realismo político: torna próprio o na medida em que se baseasse no consenso dos seus
nexo (por essa tradição amplamente cultivado) entre cidadãos, na livre expressão das suas vontades, na sua
antropologia e política, mas prefere não tratar tanto da participação (direta ou indireta) no poder.
imagem (mais difusa) do homem maquiavélico, voltando- São essas crenças a vacilar sob os golpes de uma
-se para o nexo (hobbesiano) entre o medo e a or- análise que se apresenta como realista, enquanto decidi-
dem; valoriza o tema (maquiavélico) da autonomia da da a descer do céu dos princípios, a fim de compreender
política, mas o reformula desde seus fundamentos para a mais terrena dinâmica do comando e da obediência.
reforçar suas bases com a adição da sociologia luhman- Nesta perspectiva, o demos como um centro unitário
niana; torna-se simpático à desvalorização dos “ideais” de vontade se dissolve, substituído por grupos restritos,
e dos “princípios” (em oposição à dura lição das coi- por élites político-sociais comprometidas em assegurar
sas) e reforça (refunda) tal desvalorização à luz dos uma posição de comando: não são “todos”, nem sequer
êxitos jusrealistas da epistemologia reflexiva; e é, por os “muitos”, a decidir, mas os “poucos”, os membros das
fim, precisamente como consequência de uma escolha élites. O mecanismo democrático-representativo é so-
epistemológica que ele se vê forçado a deixar cair ou, mente uma ficção jurídica, útil não porque garante a par-
pelo menos, enfraquecer consideravelmente (mesmo ticipação do povo no processo de decisão, mas porque
sem declarar apertis verbis) as pretensões de verdade torna possível uma competição regulamentada entre os
do realismo “clássico”: o realismo deixa de apresentar- líderes rivais, que pretendem agarrar o voto eleitoral e
-se como a representação estridente das “coisas em influenciar os eleitores utilizando técnicas semelhantes
si” para se tornar simplesmente um estilo intelectual, a às adotadas pelos especialistas em publicidade.

134 Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140


Costa | O realismo de Danilo Zolo

Este é o quadro de referência que Zolo acolhe. ráveis da democracia e ainda aguardavam a sua plena
Em relação ao realismo de Schumpeter, ele avança, no implementação. “As promessas não realizadas da demo-
entanto, duas reservas importantes: em primeiro lugar, cracia”: esta é a famosa e dolorida acusação formulada
a sua análise da democracia não faz exceção (como seu por Bobbio, em 1984 (Bobbio, 1984, p. 3-28; ver Porti-
autor pretendia) à regra da dimensão valorativa insupri- naro, 2008, p. 117s.). Por meio de uma desencantada e
mível de cada teoria; em segundo lugar (e, consequen- “schumpeteriana” análise da sociedade contemporânea,
temente), a sua visão da democracia (e, em particular, Bobbio denunciava a incompletude de uma democracia
as concepções pluralistas subsequentes à la Dahl) peca que prometeu, mas não realizou, a soberania do povo,
por um excesso de otimismo em ainda considerar “de- a igualdade de participação, o fortalecimento do poder
mocrático” o funcionamento hodierno das instituições decisional dos cidadãos, a transparência do poder.
representativas. Para Zolo, de fato, a crescente autor- Com o realismo de Bobbio (assim como com o
referencialidade dos partidos políticos, a invisibilidade realismo de Schumpeter) Zolo é simpático, mas entende
persistente de muitos processos decisionais, o impacto também ser necessário prosseguir (com maior intran-
do poderio da mídia sobre a tomada de decisão dos sigência) pela mesma estrada e sustentar que “as pro-
cidadãos, cada vez mais distantes da imagem idealizada messas não mantidas da democracia são, sem exceção,
de sujeitos totalmente autônomos e racionais, são fe- promessas não sustentáveis” (Zolo, 1992, p. 134). É a
nômenos que nos levam a duvidar da possibilidade de mesma realidade (a realidade “construída” por meio da
manter firme o conceito de democracia, autorizando interação entre a antropologia gehleniana e a sociologia
a hipótese de uma possível propagação do que Zolo sistêmica) a converter as promessas da democracia em
chama de “modelo de Singapura”: um tipo de sociedade “promessas de marinheiro” (Zolo, 2008a, p. 18). Nem
onde a centralidade do mercado e o aumento da produ- vale o recurso a qualquer discurso normativo divergen-
tividade coexistem com um sistema político autoritário, te, a partir do momento em que este não goze de uma
quaisquer que sejam as folhas de figueira democrático- relevante autonomia e termine se exaurindo na raciona-
-representativas das quais ele queira, eventualmente, se lização dos valores e de expectativas contingentes.
adornar (Zolo, 1992, p. 212).
Uma análise realista da democracia (uma análise O realismo político: a teoria da
onde o legado da tradição elitista está entrelaçado com ordem internacional
o léxico teórico da sociologia sistêmica) não parece,
portanto, poder identificar as forças capazes de impe- A elaboração de uma teoria da democracia tinha
dir a transformação do “elitismo democrático” em um oferecido a Zolo uma oportunidade para desenvolver a
“elitismo tout court”, ou da “democracia” em seu “opos- sua perspectiva realista e, ao mesmo tempo, aprofundar
to” (Zolo, 1992, p. 120). Dissolvidos os parâmetros da o estudo dos seus fundamentos epistemológicos. Ao re-
representação e do pluralismo, restam, para caracteri- alismo político Zolo chegava, de fato, depois de uma lon-
zar os modernos regimes “democráticos”, as articula- ga jornada que o levou a rejeitar as principais premissas
ções institucionais que “correspondem à exigência de da tradição neopositivista (da teoria da verdade como
conservar o nível de diferenciação e de complexidade correspondência à imagem de uma ciência meramente
alcançado pelas modernas sociedades industriais”: é descritiva) e contestar as pretensões universalistas do
esta “a promessa que a democracia deve manter” (Zolo, discurso normativo. As preocupações epistemológicas,
1992, p. 209-210). Respeitada esta promessa, no entanto, no entanto, não estavam destinadas a permanecer no
a democracia não parece distinguir-se, em essência, do limiar do debate politológico: mesmo neste campo o
modelo constitucional-liberal que ela tinha pretendido neopositivismo havia exercido uma influência relevante
(ou prometido) transformar em nome da igualdade. e seria, portanto, indispensável verificar, no âmbito da
Em efeito, as promessas que a democracia havia análise filosófico-política, a questão toda e os efeitos da
desenhado em sua trajetória nos séculos XVIII e XIX perspectiva pós-empirista em que Zolo se reconhecia.
eram muitas e desafiadoras. Que fossem muitas e muito Todavia, não era suficiente reiterar o nexo en-
arriscadas é uma tese que Bobbio já havia formulado tre a epistemologia reflexiva e o realismo político. Foi
na década de oitenta: por um lado, ele sustentava ser necessário definir a sua própria posição dentro de uma
necessário reduzir as expectativas, manter firme o “con- área disciplinar – ciência política e filosofia política –
teúdo mínimo” da democracia sem perseguir quimeras onde o “realismo” poderia contar com uma longa e ilus-
desestabilizantes. Por outro lado, no entanto, ele estava tre tradição. Com esta Zolo teve que acertar as contas,
convencido de que algumas promessas eram insepa- por assim dizer, duas vezes: primeiro, relatando as suas

Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140 135


Costa | O realismo de Danilo Zolo

consonâncias e dissonâncias com as visões maquiavé- ter como matriz a Guerra do Peloponeso, de Tucídides, em
lica e hobbesiana da política, de modo a destacar em seu famoso diálogo entre os melianos e os atenienses.
particular, na sequência, a partir da tradição realista, a A aspiração de Morgenthau é fornecer uma representa-
perspectiva elitista, escolhendo se mover em seu leito ção fria e desencantada da política internacional, aprovei-
por meio do desenvolvimento crítico dos pressupostos. tando as leis que regem os fenômenos. A existência de
É um análogo modus procedendi, atento a conju- princípios objetivos e inalteráveis capazes de explicar o
gar as premissas epistemológicas gerais com as “epis- comportamento dos atores internacionais nos remete,
temologias locais” e com as perspectivas e as aquisi- segundo Morgenthau, à própria natureza do ser humano
ções próprias de uma área disciplinar específica, que e às suas determinações constantes. Mais uma vez, uma
Zolo segue quando entra em uma área de pesquisa análise realista da política encontra o seu fundamento em
diferente (mas complementar): a análise da ordem e da pressupostos antropológicos precisos. Como todos os
política internacional. seres humanos são caracterizados por uma originária libi-
A mudança de cenário – da política interna à po- do dominandi, assim o são os Estados – únicos atores no
lítica internacional – é clara, mas não é surpreendente, cenário internacional – que perseguem sistematicamente
dada a crescente importância da dimensão supraestatal o próprio interesse, a própria conservação e a própria
e a consequente dificuldade de encerrar a análise dos afirmação. A uma antropologia hobbesiana correspon-
fenômenos políticos dentro dos confins das realidades dem pontualmente tanto uma relação de analogia entre
nacionais de cada país (cfr. Cerutti, 2000, p. 109s.).A deci- o indivíduo e o Estado quanto uma imagem “anarquista”
são de enfrentar o problema das relações internacionais das relações internacionais. Se ainda for hipotetizável uma
poderia até ser apresentada como o desenvolvimento moral empenhada em contrastar o egoísmo autoafirma-
natural de uma filosofia político-jurídica ciente de todas tivo do individuo, é de qualquer modo indiscutível a auto-
as facetas e da crescente complexidade do seu próprio nomia da esfera política e, portanto, a sua impermeabili-
objeto. Zolo continua a mover-se dentro de uma área, dade a critérios éticos e a aspirações universalistas.
pelo menos em última instância, homogênea e, portanto, Em relação ao realismo de Morgenthau (im-
desempenha um bom papel ao propor não só (como é pressionado tanto pela guerra mundial como pela sub-
óbvio) a sua epistemologia reflexiva, mas também aque- sequente “Guerra Fria”), Zolo pode apenas ser mode-
le realismo político que havia encontrado nos pressu- radamente simpático: pronto para abraçar as instâncias
postos epistemológicos gerais o seu fundamento, que genéricas antinormativistas e antieticistas e a subscrever
fora preenchido com mais conteúdo vivo de uma análise a tese (para ser claramente entendido como maquiavé-
dedicada à teoria da democracia. Também no campo da lico) da autonomia da política, mas muito longe tanto
política internacional, Zolo continua a desenvolver a sua de seus pressupostos antropológicos (demasiadamente
perspectiva realista. Porém, deve-se tentar compreen- impressionados com o pessimismo do realismo político
der se o seu realismo adquire novas determinações no “clássico”) como de suas coordenadas epistemológicas
seu novo campo de investigação, cultivado por tradições (também demasiadamente expostas ao risco de incor-
disciplinares específicas e diferentes (como a teoria das rer na falácia do “realismo ingênuo”).
relações internacionais e o direito internacional). Interessado em valorizar as contribuições de
Na teoria das relações internacionais, uma orien- uma disciplina – a teoria das relações internacionais –
tação (que se definia) realista havia exercido um papel de que está se construindo como uma verdadeira ciência
certa forma fundacional. De acordo com uma autorre- dedicada à análise da política em sua projeção suprana-
presentação da disciplina, é propriamente o realismo que, cional, Zolo não pode identificar-se com o realismo dos
após a Segunda Guerra Mundial, com as obras de Edward anos cinquenta e observa com atenção os desenvolvi-
Hallet Carr (1995) e Hans Morgenthau (1948)4, domina mentos subsequentes desse mesmo paradigma.
o campo, “inventa” como seu próprio antônimo o idealis- Entre eles, destaca-se a proposta neorrealista de
mo e abre a série de grandes debates que teria marcado Kenneth Waltz (1987), que acolhe a imagem “anárquica”
o posterior desenvolvimento da própria disciplina em da política internacional, mas tem a intenção de superar
questão (cfr. Neufeld, 1995;Viotti e Kauppi, 1999). as ingenuidades metodológicas e os pré-juízos antropo-
Para os realistas, a tragédia da guerra tinha varri- lógicos do realismo à la Morgenthau para elaborar uma
do as ilusões “idealistas” de matriz wilsoniana e impunha visão estrutural e sistêmica da ordem internacional. No
a recuperação de uma tradição que podia se gabar de terreno epistemológico, as coordenadas que suportam

4
Ver ainda Griffiths (1992); Frankel (1996); Spegele (1996).

136 Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140


Costa | O realismo de Danilo Zolo

a análise de Waltz são, substancialmente, simpáticas à mantém firme o princípio de que a ordem internacional
filosofia do neopositivismo (ainda que não faltem, em gira em torno da pluralidade (“anárquica”) dos Estados
suas considerações metodológicas, tensões e ideias que e não demonstra nenhum espaço em face das sereias
parecem tornar menos “ortodoxa” sua escolha); nem o universalistas, que também ele (de forma realista) sus-
quadro de referência parece mudar de modo significati- peita estarem a serviço de interesses, inevitavelmente
vo, nem mesmo com Robert Keohane (ver, em especial, particularistas, de um ou outro Estado. Em segundo lu-
1984, 1986): um autor – valorizado e reconduzido por gar, a anarquia internacional (o que também dá título ao
Zolo ao paradigma realista – que, em verdade, chega a livro de Bull) não é por completo o bellum omnium pen-
uma proposta original (que tem sido chamado de neoli- sado por Hobbes. A ordem internacional é sim recon-
beral ou neoinstitucionalista) e ainda assim permanece duzível ao estado de natureza (com a exceção de que os
por completo fiel à received view neopositivista. Uma de- sujeitos que operam nela não são os indivíduos, mas os
monstração é oferecida pela sua intervenção (Keohane, Estados); porém, deve ser entendida sem recorrer tanto
1988, p. 379-396) no debate que nos anos oitenta to- a Hobbes, mas a Locke; e o estado de natureza lockeano,
mou conta da teoria das relações internacionais; uma não contando com um soberano ou um juiz das pos-
intervenção na qual ele usa o binômio opositivo ratio- síveis controvérsias, ainda que goze de uma intrínseca
nalism/reflectivism para distinguir a tradicional epistemo- estruturação, é organizado de acordo com regras e, por
logia neopositivista da perspectiva pós-empirista, con- si só, independentemente de um centro coercitivo, de
vencida do caráter valorativo e “reflexivo” das ciências uma ordem. Da mesma forma, nas relações internacio-
político-sociais, mostrando reconhecer-se na primeira nais não existe a alternativa seca entre uma cosmópolis
orientação, muito mais do que na segunda (cfr. Kurki e convergente para um centro ou para um vértice e a
Wight, 2007, p. 19s.). desordem provocada pelo incoercível confronto de Le-
Pode parecer estranho que Zolo tenha se valido viatãs; tem existido, e pode continuar a existir, uma so-
dos aportes de alguns teóricos neorrealistas (e neoins- ciedade internacional em condições de dar vida a vários
titucionalistas) das relações internacionais sem reservar tipos de regras (pré-jurídicas e mesmo juridicamente
a eles o mesmo tratamento anteriormente dispensado formalizadas) e capazes de atingir um equilíbrio (uma
aos cientistas políticos, a partir do momento em que ordem), mesmo na presença de uma multiplicidade de
tanto aqueles como estes se reconheciam naquela epis- centros de poder (Bull, 2005, p. 63 s.).
temologia neopositivista que Zolo contestava para ex- Certamente, a perspectiva de Bull permanece
trair o próprio fundamento do seu realismo. fortemente ancorada na tese da centralidade do Esta-
Todavia, é preciso ter em mente dois elementos: do e é por meio de uma lente centrada no Estado que
em primeiro lugar, Zolo poderia dar por concluída sua ele captura as capacidades auto-ordenantes da socieda-
própria revisão crítica do paradigma neopositivista e de internacional. No que concerne a esta orientação, a
entender suficiente uma simples confirmação da episte- abordagem neoinstitucionalista de Keohane é, sem dú-
mologia reflexiva delineada no decorrer dos anos oiten- vida, mais flexível e pronta para registrar a variedade e
ta; em segundo lugar, se é verdade que ele não questiona a complexidade das instituições hodiernas capazes de
os pressupostos epistemológicos do neorrealismo (e do promover a cooperação, colocando vínculos entre os
neoinstitucionalismo), nem entra em contato com a nu- Estados e diminuindo o seu tradicional protagonismo.
trida companhia dos teóricos pós-positivistas das rela- Ao mesmo tempo, no entanto, é forte a relação que
ções internacionais, é de igual modo verdade que a sua Keohane mantém com a teoria sistêmica de Waltz e com
adesão às conclusões substanciais de Waltz ou Keohane as raízes neopositivistas que constituem a sua premissa
é apenas parcial e seletiva. epistemológica, em oposição à sensibilidade historicis-
Prova disso é a sua referência (abertamente sim- ta que tanto marca a “Escola Inglesa”. É compreensível,
pática) à “Escola Inglesa” e a Hedley Bull, que acolhe de então, que Zolo, mesmo sem falar abertamente sobre
Martin Wight (1991) a sugestão de olhar para a história isso, mostre sentir-se mais confortável com a perspec-
das doutrinas distinguindo entre as correntes realista- tiva “neogrociana”, alheia às ambições, mas também às
-hobbesiana, idealista-kantiana e grociana, declarando rigidezes, teóricas e metodológicas, dos neorrealistas e
sua vinculação a esta última. A partir da reflexão de dos neoinstitucionalistas (ainda que ao mesmo tempo
Hedley Bull, muitas reflexões importantes são extraídas esteja disposto a fazer uso de suas contribuições, sem
por Zolo.5 Em primeiro lugar, Bull (2005, p. 102-103) se preocupar muito com suas matrizes teóricas).

5
Entre as quais a crítica à domestic analogy. Sobre esta noção, ver Bottici (2004).

Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140 137


Costa | O realismo de Danilo Zolo

Quais são as ideias que de sua frequente leitura testar a coerência e a rigidez do sistema (é nesta pers-
dos teóricos das relações internacionais Zolo retira na pectiva, creio eu, que Zolo denuncia a distorção ou a
orquestração de sua perspectiva realista? flagrante não aplicação que alguns dos grandes princí-
Uma primeira, relevante aquisição parece ser a pios do direito internacional – como a igualdade, a im-
valorização da multiplicidade de centros de poder e o parcialidade do juiz, a condenação da guerra – sofrem
consequente ataque a qualquer hipótese cosmopolita sob a pressão das potências dominantes). Todavia, é ain-
de reductio ad unum da ordem internacional. As teses da mais importante olhar de fora o discurso normativo,
pós-positivistas há muito enfrentadas por Zolo encon- relacionando-o com a prática com que se encontra efe-
tram no novo ambiente uma confirmação e um desen- tivamente conectado.
volvimento: a política é o lugar onde os interesses e os Portanto, continua, no âmbito da análise da po-
projetos necessariamente particularistas confrontam-se lítica internacional, a denúncia da “falácia deontológi-
e se compõem segundo uma lógica própria que não ca”: o desmascaramento das pretensões universalistas
pode ser imposta pela aplicação de critérios normativos do discurso normativo, que oculta, racionalizando-os,
(éticos ou jurídicos) que, longe de favorecerem a ordem interesses e posições de poder particularistas. É nesta
ou até mesmo tornarem possível uma ordem “justa”, perspectiva que Zolo (2006) contrapõe à suposta “im-
operam como racionalizações indevidas de aspirações parcialidade” (terzietà) do juiz internacional a sua efetiva
contingentes. Portanto, é útil a lição dos teóricos rea- dependência das potências hegemônicas (quaisquer que
listas das relações internacionais, na medida em que de- tenham sido as realizações institucionais – de Nurem-
monstra a capacidade de pensar a ordem política, mes- berg a Bagdá, como refere o subtítulo de um livro seu
mo no cenário internacional, como convivência (frágil, – de uma instância jurisdicional como tal).
local, espontânea) dos múltiplos. Enfim, deve-se continuar aplicando também em
Se o realismo coincide com a valorização da in- relação ao direito internacional os cânones do realismo:
superável multiplicidade de Estados, povos e culturas, quebrando o invólucro formalista do universo normati-
o seu antônimo é uma perspectiva que assuma como vo e reconduzindo-o à dinâmica político-social da qual
objetivo a criação de uma ordem global, capaz de incluir é função.6 Não falta, todavia, ao lado da confirmação da
como seus próprios componentes os diferentes centros perspectiva jusrealista, uma questão ulterior, congruente
de poder. Quaisquer que sejam as manifestações da ins- com a diversidade política e cultural do cenário inter-
tância “globalista” (a exigência de um juiz como árbitro nacional: a exortação para que seja levada a sério, ao
das controvérsias, a ideia kelseniana de um universo contrário da kelseniana civitas maxima, a multiplicidade
normativo unitário/monista), elas incorrem, de qualquer de ordenamentos, opondo uma perspectiva pluralista à
modo, no erro de querer impor às dinâmicas políticas ideia de “um único, omnicompreensivo, ordenamento
concretas uma regulamentação forçosa e extrínseca jurídico” (Zolo, 1998, p. 139).
que não leva em conta a sua irredutível complexidade. O antinormativismo; a denúncia dos interesses
O globalismo jurídico é, em suma, vítima de uma imagem particularistas subjacentes à retórica dos “princípios”; a
verticista e piramidal da ordem, que, em vez disso, sob rejeição do cosmopolitismo: estas são as principais ca-
uma perspectiva realista, deve ser representada como racterísticas que marcam, segundo Zolo, uma filosofia
“uma estrutura normativa policêntrica”, como uma “teia “realista” da ordem internacional; e estes são os princi-
de aranha” ou “uma série de teias dispostas de modo pais estímulos que podem ser extraídos de uma filosofia
fractal”, compatível com “processos difusos de inte- como tal, por um lado, dos teóricos (por alguns teóri-
ração estratégica e de negociação multilateral” (Zolo, cos) das relações internacionais, e, por outro lado, da
1995, p. 130). reflexão político-jurídica de Carl Schmitt.
Contra o globalismo jurídico intervém também De Schmitt, Zolo (1995, p. 124) aprecia a “críti-
outro componente do realismo: o antinormativismo. ca corrosiva” ao normativismo kelseniano, dando-a, no
Mesmo neste caso, o programa heurístico desenvolvi- entanto, de certo modo por incorporada. É mais um
do por Zolo encontra confirmações e aplicações já por segundo componente do realismo schmittiano que ele
ocasião de suas leituras neurathianas. A análise de um enfatiza e valoriza: o desmascaramento da vontade de
aparato normativo, de acordo com o filósofo vienense, poder subjacente aos irenismos e aos universalismos ge-
também pode ter uma valência “interna” e servir para neticamente relacionados ao idealismo wilsoniano. Não

6
“Una teoria moderna e realistica del diritto internazionale dovrebbe quindi tematizzare anzitutto il rapporto che esiste fra le forme del diritto e, per così dire, le
deformità o l’assenza di forme degli arcana imperii” (Zolo, 1998, p. 138).

138 Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140


Costa | O realismo de Danilo Zolo

é por acaso que um lema de Schmitt (e de Proudhon) “uma escolha inevitável.” No entanto, quem, acrescenta
tenha sido escolhido por Zolo como o título de um Zolo (1995, p. 107),“no seu interior está empenhado em
livro seu; uma obra que convida a desconfiar “daqueles legitimá-la como ‘justa’ torna-se moralmente responsá-
que usam a palavra ‘humanidade’ no contexto de uma vel pelo que disso é inevitável” e acaba se dispondo a
guerra” (Zolo, 2000, p. 44) e denuncia as Cruzadas (au- clamar pelos “valores mais elevados [...] para justificar
tointituladas) humanitárias como a expressão de uma moralmente o mundo assim como ele é”.
estratégia retórica que legitima a própria guerra como Em uma perspectiva realista, portanto, a guerra
“justa” e deslegitima o adversário, transformando-o em pode aparecer, em determinadas circunstâncias, como
um inimigo “des-humano”. Mais uma vez, o realismo é uma solução obrigatória: pode-se fazer a guerra; o que
entendido como um exercício de “crítica da ideologia”, “não se deve” fazer é lutá-la gritando “Deus está co-
capaz de desmistificar a suposta objetividade e neutrali- nosco”. No entanto, qualquer um que assista (realisti-
dade da ética universalista. camente) à história da humanidade descobre facilmente
Finalmente, a rejeição do cosmopolitismo; uma a tendência recorrente de fundar eticamente, de justifi-
rejeição que percorre toda a análise histórica e teó- car (para tornar justa) a guerra, a própria guerra; e não
rica do Nomos da Terra. Schmitt continua a sustentar, pareceria impossível atribuir a esta tendência profun-
em nome de seu “realismo polemológico” (Zolo, 1998, das raízes antropológico-culturais. Seria possível, então,
p. 121), a soberania dos Estados nacionais e a olhar perfilar-se a possibilidade de um “outro” realismo; um
(com alguma nostalgia conservadora) o sistema do ius realismo que toma como (antropologicamente) inevi-
publicum Europaeum; e a lição que Zolo retira disso é, tável alguma sorte de fundamentação ética da guerra.
em essência, a confirmação daquela ideia de ordem in- Esta hipótese não parece, todavia, ser capaz de
ternacional delineada por alguns teóricos realistas das encontrar lugar na argumentação de Zolo. O seu re-
relações internacionais (em especial, por Hedley Bull); alismo inclui uma proibição: fazer o salto mortal do
a ideia de uma ordem caracterizada por “um regionalis- particularismo dos interesses ao universalismo dos
mo policêntrico e multipolar” e pelo “fortalecimento de valores. Porém, é verdade também que essa proibi-
negociação multilateral entre os Estados” (Zolo, 2008b). ção é constantemente desatendida pela “realidade”.
Na representação da “realidade” parece abrir-se, en-
Não mudaram, em contato com a temática po-
tão, uma tensão. É como se Zolo dissesse: acontece,
lítico-internacionalista, os perfis que têm caracterizado
mas “não deve” acontecer, porque aquela passagem
o realismo de Zolo desde sua primeira formulação, mas
(do interesse ao valor) é sim constantemente reali-
tornaram-se mais ricos ao se adaptarem ao novo con-
zada, é sim “real”, mas não é “verdadeira”. Podería-
texto. Entre estes, um elemento tão sugestivo quanto im-
mos, então, extrair duas consequências: o “momento
portante é a dimensão antropológica. A referência a um
da verdade”, no realismo de Zolo, talvez venha a se
fundo antropológico é recorrente na tradição realista.
encontrar em um degrau mais elevado do “momento
Zolo incorpora este legado, mas o desenvolve em uma
da vontade”. E, em seguida: é a vontade que se apo-
direção que não tem muito a ver com a antropologia
dera instrumentalmente dos “valores mais elevados”.
pessimista (e rudimentar) de Morgenthau. São sobre-
Torna-se possível, então, denunciar que a sua utilização
tudo as reflexões antropológicas e etológicas sobre a interessada e particularista pode talvez se tornar (para
guerra que ele coloca em foco: uma guerra que deve ser uma heterogênese singular dos fins) a estratégia mais
considerada não um episódico “desvio”, mas um com- eficaz para preservar a sua pureza incontaminada.
portamento inscrito, se não na “natural” agressividade
do ser humano, certamente em sua organização cultural,
em sua estruturação territorial e de suporte das mais
Referências
diversas comunidades políticas (Zolo, 1995, p. 173s.) BOBBIO, N. 1984. Il futuro della democrazia: una difesa delle regole del
Fenômeno intimamente “cultural” (no sentido gioco. Torino, Einaudi, 170 p.
antropológico), a guerra não pode ser banida de uma BOBBIO, N. 1971a. Dei possibili rapporti fra filosofia politica e scien-
vez por todas, como gostaria a generosa ilusão do paci- za politica. Annali della Facoltà di Giurisprudenza dell’Università di Bari,
1:23-57.
fismo absoluto, nem sequer pode ser reconhecida como BOBBIO, N. 1971b. Considerazioni sulla filosofia politica. Rivista Italia-
um “direito”, uma vez que, se assim fosse, incorrer-se-ia na di Scienza Politica, 2:367-79.
mais uma vez na falácia da universalização de uma esco- BOBBIO, N. 1970. Scienza politica. In: A. NEGRI, Scienze politiche, 1. Stato
e politica. Milano, Feltrinelli, p. 432-441. (Enciclopedia Feltrinelli-Fischer).
lha contingente e particularista. Certamente, a guerra,
BOTTICI, C. 2004. Uomini e Stati: Percorsi di un’analogia. Pisa, ETS, 155 p.
na medida em que está ligada aos interesses e proje- BULL, H. 2005 [1977]. La società anarchica: L’ordine nella politica mondia-
tos de um determinado grupo social, pode ser, por isso, le. Milano,Vita e Pensiero, 366 p.

Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140 139


Costa | O realismo de Danilo Zolo

CARR, E.H. 1995 [1939]. The Twenty Years’ Crisis: An Introduction to the VILLA,V. 1999. Costruttivismo e teorie del diritto.Torino, Giappichelli, 328 p.
Study of International Relations. London, Macmillan, 244 p. VIOTTI, P.R.; KAUPPI, M.V. 1999. International Relations Theory: Realism,
CASTIGNONE, S. 1995. Diritto, linguaggio, realtà: Saggi sul realismo giuri- Pluralism, Globalism, and Beyond. Needham Heights, Allyn and Bacon,
dico. Torino, Giappichelli, 411 p. 613 p.
CERUTTI, F. 2000. Filosofia politica e relazioni internazionali. In: F. CE- WALTZ, K. 1987 [1979]. Teoria della politica internazionale. Bologna, il
RUTTI, Gli occhi sul mondo: Le relazioni internazionali in prospettiva inter- Mulino, 382 p.
disciplinare. Roma, Carocci, p. 109-130. WIGHT, M. 1991. International Theory. The Three Traditions. London,
DELANTY, G. 2000. Social Science: Beyond Constructivism and Realism. Leiceester University Press, 286 p.
Buckingham, Open University Press, 159 p. ZOLO, D. 2008a. L’alito della libertà: Su Bobbio. Milano, Feltrinelli, 181 p.
FRANKEL, B. (ed.). 1996. Roots of Realism. London/Portland, Frank ZOLO, D. 2008b. La profezia della guerra globale. In: C. SCHMITT, Il
Cass, 426 p. concetto discriminatorio di guerra. A cura di Stefano Pietropaoli. Roma-
GRIFFITHS, M. 1992. Realism, Idealism and International Politics: A Reinter- -Bari, Laterza, p.V-XXXI.
pretation. London/New York, Routledge, 206 p. ZOLO, D. 2006. La giustizia dei vincitori: Da Norimberga a Baghdad. Ro-
http://dx.doi.org/10.4324/9780203313084 ma-Bari, Laterza, 194 p.
KEOHANE, R.O. 1988. International Institutions: Two Approaches. In- ZOLO, D. 2000. Chi dice umanità: Guerra, diritto e ordine globale. Torino,
ternational Studies Quarterly, 32(4):379-396. Einaudi, 253 p.
http://dx.doi.org/10.2307/2600589 ZOLO, D. 1998. I signori della pace: Una critica del globalismo giuridico.
KEOHANE, R.O. (ed.). 1986. Neorealism and its Critics. New York, Co- Roma, Carocci, 157 p.
lumbia University Press, 378 p.
ZOLO, D. 1995. Cosmopolis: La prospettiva del governo mondiale. Milano,
KEOHANE, R.O. 1984. After Hegemony: Cooperation and Discord in the
Feltrinelli, 217 p.
World Political Economy. Princeton, Princeton University Press, 290 p.
ZOLO, D. 1992. Il principato democratico: Per una teoria realistica della
KULP, C.B. (ed.). 1997. Realism/antirealism and Epistemology. Lanham,
democrazia. Milano, Feltrinelli, 238 p.
Rowman & Littlefield Publishers, 178 p.
ZOLO, D. 1989a. La democrazia difficile. Roma, Editori Riuniti, 110 p.
KURKI, M.; WIGHT, C. 2007. International Relations and Social Science.
ZOLO, D. 1989b. Complessità, potere, democrazia. In: N. LUHMANN,
In: T. DUNNE; M. KURKI; S. SMITH (eds.), International Relations Theory:
Potere e complessità sociale. Milano, Il Saggiatore, p. IX-XXX.
Discipline and Diversity. Oxford, Oxford University Press, p. 14-35.
LIGUORI, A. 2007. Realismo politico, democrazia, modernità: Il prin- ZOLO, D. 1987. Complessità e democrazia. Torino, Giappichelli, 363 p.
cipato democratico di Danilo Zolo, undici anni dopo. Bollettino Tele- ZOLO, D. 1986. Scienza e politica in Otto Neurath: Una prospettiva post-
matico di Filosofia Politica. Disponível em: http://archiviomarini.sp.unipi. -empiristica. Milano, Feltrinelli, 212 p.
it/571/1/zololi1.pdf ZOLO, D. 1983. Funzione, senso, complessità: I presupposti episte-
MORGENTHAU, H. 1948. Politics among Nations:The Struggle for Power mologici del funzionalismo sistemico. In: N. LUHMANN, Illuminismo
and Peace. New York, Knopf, 489 p. sociológico. Milano, Il Saggiatore, p. XIII-XXXIV.
MARSONET, M. (ed.). 2002. The Problem of Realism. Aldershot, Ashgate, ZOLO, D. 1982. Complessità e democrazia. Problemi della Transizione,
217 p. 9:149-59.
NEUFELD, M.A. 1995. The Restructuring of International Relations Theory. ZOLO, D. 1977. I marxisti e lo Stato. Milano, Il Saggiatore, 561 p.
Cambridge University Press, Cambridge, 174 p. ZOLO, D. 1976. Stato socialista e libertà borghesi. Roma-Bari, Laterza,
http://dx.doi.org/10.1017/CBO9780511598722 187 p.
PAGNINI, A. 1995. Realismo/antirealismo: aspetti del dibattito epistemolo- ZOLO, D. 1974. La teoria comunista dell’estinzione dello Stato. Bari, De
gico contemporaneo. Scandicci, La Nuova Italia, 235 p. Donato, 316 p.
PORTINARO, P.P. 2008. Introduzione a Bobbio. Roma-Bari, Laterza,
191 p.
PORTINARO, P.P. 1999. Il realismo politico. Roma-Bari, Laterza, 151 p.
SPEGELE, R.D. 1996. Political Realism in International Theory. Cambridge,
Cambridge University Press, 284 p. Submetido: 09/06/2016
http://dx.doi.org/10.1017/CBO9780511586392 Aceito: 01/07/2016

140 Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD), 8(2):127-140