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Resenha do filme “a maçã” de samira makhmalbaf

O cérebro de uma criança não nasce pronto. Ele se desenvolve desde


sua concepção ese modifica ao longo da vida. Isso acontece por
causa da neuroplasticidade, que é acapacidade que os neurônios têm
de fazer novas sinapses e conexões cerebrais. Os estímulosrecebidos
durante os primeiros anos de vida é que vão fazer com que novas e
mais conexõesse estabeleçam. Quanto mais estímulos, mais
conexões e, consequentemente, maiorpossibilidade do cérebro criar
condições para realizar determinadas habilidades.
O filme “A Maçã” narra a história de duas crianças que vivem isoladas
da sociedade e
do mundo externo, não recebem estímulos nos primeiros anos de
vida, e, por isso, nãoapresentam um desenvolvimento cerebral
esperado. Por falta de interação com o meio e comoutras pessoas,
algumas áreas foram comprometidas como a motricidade e
a linguagem.As meninas não adquiriram conhecimento e agiam a
partir de repetições. Limitavam-sea executar tarefas domésticas:
lavar roupa, varrer o chão... e tinham atitudes rotineiras: ver-se no
espelho, desenhar o Sol... Essas ações, que elas realizaram sem
terem tido essasexperiências anteriores de aprendizagem, podem ser
explicadas pela plasticidade cerebral,que é a capacidade que o
cérebro tem em se remodelar em função das experiências dosujeito,
reformulando as suas conexões a partir das necessidades e dos
fatores do meioambiente. O sistema nervoso central é capaz de
modificar sua organização estrutural própriae funcionamento em
resposta à experiência, e como adaptação a estímulos repetidos.O
atraso cognitivo pode ser explicado, como apresenta a neurociência,
pela falta deestímulo, principalmente, no hemisfério esquerdo do
cérebro, que é responsável pelopensamento lógicoe competência
comunicativa dos seres humanos. Em alguns casos talambiente pode
contribuir para o desenvolvimento de algum tipo de deficiência ou
retardomental. Por quê? Os estímulos são tão importantes para
modelar o cérebro que, muito antesde os sentidos começarem a
funcionar, o cérebro dá seu
“jeitinho”
de já ir seentretendo. Sem as sinapses, os neurônios
ficam silenciosos,
incapazes de transmitirsinais, ou seja, é preciso que as sinapsesfunci
onem para que os neurônios sejam mantidos. Caso isso não
aconteça, os neurônios semfunção,suicidam, morrem.Quando não
temos experiências variadas e contato com o mundo externo,
agimos, muitas vezes, por impulso ou instinto em diversas situações
não vivenciadas, no lugar deações refletidas ou planejadas. Situações
simples e corriqueiras como estabelecer um diálogo,tomar um
sorvete, demonstrar vontades, desejos, carinho ou decepção passam
a ter umgrande grau de dificuldade.Toda essa situação retratada veio
ainda cercada por um contexto familiar conturbado.Outros assuntos
como o machismo, a condição da mulher sob esse prisma, as
relaçõesafetivas familiares, a pobreza, a falta de alimentação
adequada e a falta de higienecontribuem para o enredo e desenrolar
da história.O filme retrata como atitudes tão rotineiras na vida de
uma criança: acordar, estudar,divertir-se, dormir, falar, brincar são
necessárias para o desenvolvimento cerebral.

Resenha Viviana Pérez Moreira


Revista Interlocução, v.4, n.4, p.53, publicação semestral, junho
/2011.
As consequências da falta de estímulos e dessas atividades podem
ser sérias, drásticase irreversíveis. Já expostas ao mundo, as crianças
conseguirão enfrentar os desafios doconviver.