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Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos

n.º 05
GENEBRA

Série de Formação Profissional


Direitos Humanos e Aplicação da Lei
Direitos Humanos
e Aplicação
da Lei
MANUAL DE FORMAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS
PARA AS FORÇAS POLICIAIS

Procuradoria-Geral da República
Gabinete de Documentação
e Direito Comparado
Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos

n.o 05
GENEBRA

Série de Formação Profissional


Direitos Humanos
e Aplicação
da Lei
MANUAL DE FORMAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS
PARA AS FORÇAS POLICIAIS

NAÇÕES UNIDAS
not
a

*
Os conceitos utilizados e a apresentação do material constante da presente publi-
cação não implicam a manifestação de qualquer opinião, seja de que cariz for, da
parte do Secretariado das Nações Unidas relativamente ao estatuto jurídico de
qualquer país, território, cidade ou região, ou das suas autoridades, ou em relação
à delimitação das suas fronteiras ou limites territoriais.

*
* *
O material constante da presente publicação pode ser livremente citado ou
reproduzido, desde que indicada a fonte e que um exemplar da publicação con-
tendo o material reproduzido seja enviada para o Alto Comissariado/Centro para
os Direitos Humanos, Nações Unidas, 1211 Genebra 10, Suíça.

HR/P/PT/5

PUBLICAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS

N.o de Venda E.96.XIV.5


ISBN 92-1-154121-2

ISSN 1020-1688
A administração da justiça, incluindo os departamentos policiais […]
em total conformidade com as normas aplicáveis constantes de ins-
trumentos internacionais em matéria de Direitos Humanos, são
essenciais para a concretização plena e não discriminatória dos
Direitos Humanos e indispensáveis aos processos da democracia e do
desenvolvimento sustentável.

[…]

Os serviços consultivos e os programas de assistência técnica do sis-


tema das Nações Unidas deverão ser capazes de responder imedia-
tamente a pedidos dos Estados relativos a actividades educacionais
e de formação em matéria de Direitos Humanos, bem como à edu-
cação específica sobre normas contidas em instrumentos internacionais
de Direitos Humanos e de Direito Humanitário e a sua aplicação a
grupos especiais tais como […] os funcionários responsáveis pela apli-
cação da lei […].

DECLARAÇÃO E PROGRAMA DE ACÇÃO DE VIENA


(Parte I, parágrafo 27; Parte II, parágrafo 82)

III
Nota para os utilizadores do manual O presente manual é parte integrante de um conjunto
de três materiais de formação em matéria de direi-
tos humanos destinados às forças policiais. Este kit
de formação para a polícia inclui também um dos-
sier para formação de formadores e uma compilação de bolso das normas
de direitos humanos aplicáveis à actuação das forças policiais. Os três
componentes deste kit são complementares e, no seu conjunto, contêm todos
os elementos necessários para a organização de programas de formação
em direitos humanos para os funcionários responsáveis pela aplicação da
lei, segundo a abordagem adoptada pelo Alto Comissariado das Nações Uni-
das para os Direitos Humanos/Centro para os Direitos Humanos.

O presente manual (primeiro componente do kit) contém informação apro-


fundada sobre as fontes, sistemas e normas de direitos humanos relativas
à aplicação da lei, bem como orientações práticas nesta área, incluindo em
anexo o texto de diversos instrumentos internacionais.

O Guia para Formadores (segundo componente do kit) contém instruções


e conselhos práticos destinados aos formadores, exercícios adicionais e
materiais-tipo de formação, tais como acetatos para retro projecção, a ser
utilizados em conjunto com o manual no decorrer dos cursos.

O Livro de Bolso de normas (terceiro componente do kit) foi concebido para


funcionar como um material de referência portátil e de fácil acesso para
os funcionários responsáveis pela aplicação da lei, contendo centenas de nor-
mas simplificadas, organizadas segundo os deveres e funções da polícia e
por tópicos, a partir das quais se remete para notas finais mais detalha-
das.

Os utilizadores do manual interessados em obter exemplares do Guia de


Formadores e do Livro de Bolso deverão contactar o Alto Comissaria-
do/Centro para os Direitos Humanos das Nações Unidas.N.T.

Para mais informação relativa ao sistema internacional de protecção dos


direitos humanos e instrumentos jurídicos aplicáveis, consulte a web page
do Gabinete de Documentação e Direito Comparado, www.gddc.pt

Relativamente a esta edição em língua portuguesa, os interessados pode-


rão contactar o Gabinete de Documentação e Direito Comparado, Rua do
Vale de Pereiro, n.o 2, 1169-113 Lisboa.

N.T.
As notas do tradutor (N.T.) constantes da presente publicação são da responsabilidade do Gabinete de Documentação
e Direito Comparado da Procuradoria-Geral da República e não responsabilizam a Organização das Nações Unidas.

IV
Prefácio

Tenhamos em conta a lógica sim- a As referências das fontes humanos. Estes mitos sobrevivem, apesar de a his-
dos instrumentos interna-
ples da Declaração Universal dos cionais de direitos huma- tória nos ter demonstrado, uma vez e outra, que nada
nos citados no presente
Direitos do Homema (preâmbulo): manual estão indicadas pode estar mais longe da verdade.
na lista de instrumentos
constante das páginas
XIX a XXV, infra.
Considerando que é essencial a Para o utilizador deste manual, a tarefa que lhe pro-
protecção dos direitos do homem através de um pomos consiste em trabalhar para fazer desaparecer,
regime de direito, para que o homem não seja de uma vez por todas, estes mitos absurdos mas
compelido, em supremo recurso, à revolta con- persistentes; declarar que as violações dos direitos
tra a tirania e a opressão […] humanos por parte das forças policiais podem
apenas tornar mais difícil a já de si árdua missão
A mensagem é tão clara hoje como o era em 1948. de aplicar a lei e convencer disso os polícias seus
Sem a subsistência do Estado de Direito, ocorrem colegas; lembrar ao mundo que, quando um res-
violações de direitos humanos; e, quando ocor- ponsável pela aplicação da lei viola a lei, o resul-
rem violações, fomenta-se a rebelião. A conclusão tado é, não apenas um atentado à dignidade
é inevitável: a violação dos direitos humanos não humana e à própria lei, mas também um erguer
pode contribuir para a manutenção da ordem e de barreiras à eficaz actuação da polícia.
segurança públicas, pode apenas exacerbar a sua As violações da lei por parte das forças policiais têm
deterioração. Esta mensagem deveria já ser vista múltiplos efeitos práticos:
como um axioma. Pelo menos para as Nações Uni- • diminuem a confiança do público;
das, nada pode ser mais claro. • agravam a desobediência civil;
• ameaçam o efectivo exercício da acção penal
Então, porque continuam a subsistir velhos mitos pelos tribunais;
em alguns círculos responsáveis pela aplicação da • isolam a polícia da comunidade;
lei? Todos ouvimos já o argumento segundo o qual • resultam na libertação dos culpados e na puni-
o respeito pelos direitos humanos é, de alguma ção dos inocentes;
forma, incompatível com a efectiva aplicação da • deixam a vítima do crime sem que se lhe faça jus-
lei – a velha e estafada noção de que, para aplicar tiça pelo seu sofrimento;
a lei, capturar o delinquente e garantir a sua con- • comprometem a noção de "aplicação da lei", ao
denação, é necessário "ludibriar" um pouco a lei. retirar-lhe o elemento "lei";
Já todos assistimos à tendência para utilizar a força • obrigam os serviços de polícia a adoptar uma
de forma excessiva para controlar manifestações, ou atitude de reacção e não de prevenção;
pressão física para obter informação dos detidos, ou • provocam críticas por parte da comunidade inter-
ainda um excessivo uso da força para garantir uma nacional e dos meios de comunicação social e
captura. Para esta forma de pensar, a aplicação da colocam o respectivo Governo sob pressão.
lei é uma guerra contra o crime, constituindo os
direitos humanos meros obstáculos colocados no Pelo contrário, o respeito dos Direitos Humanos
caminho da polícia pelos advogados e organiza- por parte das autoridades responsáveis pela apli-
ções não governamentais de protecção dos direitos cação da lei reforça de facto a eficácia da actuação

V
dessas autoridades. Neste sentido, o respeito da polí- tos humanos, coloca-o na vanguarda do combate
cia pelos direitos humanos, além de ser um em prol destes direitos.
imperativo ético e legal, constitui também uma exi-
gência prática em termos de aplicação da lei. A importância de garantir que os direitos huma-
Quando se verifica que a polícia respeita, protege nos sejam protegidos no quadro de um Estado de
e defende os direitos humanos: Direito tem sido sublinhada pelas Nações Unidas
• reforça-se a confiança do público e estimula-se a desde a elaboração da Declaração Universal, tendo
cooperação da comunidade; vindo a orientar a Organização nas suas activida-
• contribui-se para a resolução pacífica de confli- des em prol da promoção e protecção dos direitos
tos e queixas; humanos desde essa altura. Esta tem sido uma
• consegue-se que a acção penal seja exercida com noção central no trabalho do Programa de Servi-
êxito pelos tribunais; ços Consultivos e de Assistência Técnica no Domí-
• consegue-se que a polícia seja vista como parte nio dos Direitos Humanos das Nações Unidas.
integrante da comunidade, desempenhando uma Este programa foi iniciado em 1995 para apoiar os
função social válida; Estados, a seu próprio pedido, na criação e reforço
• presta-se um serviço à boa administração da jus- de estruturas nacionais com impacto directo na
tiça, pelo que se reforça a confiança no sistema; observância dos direitos humanos pelas pessoas em
• dá-se um exemplo aos outros membros da socie- geral e na manutenção do Estado de Direito.
dade em termos de respeito pela lei;
• consegue-se que a polícia fique mais próxima da À medida que o programa foi evoluindo, o mesmo
comunidade e, em consequência disso, em posi- sucedeu com as áreas de assistência em que se
ção de prevenir o crime e perseguir os seus auto- centra. Orientado por sucessivas resoluções da
res através de uma actividade policial de natureza Assembleia Geral e da Comissão dos Direitos do
preventiva; Homem, bem como pela natureza dos próprios
• ganha-se o apoio dos meios de comunicação pedidos dos Estados, o programa tem vindo a
social, da comunidade internacional e das autori- aperfeiçoar progressivamente a capacidade de
dades políticas. assistência em diferentes domínios, constituindo
hoje um enquadramento útil dos esforços
Os agentes policiais e serviços responsáveis pela empreendidos a nível nacional para o reforço dos
aplicação da lei que respeitam os direitos huma- direitos humanos e do Estado de Direito. Assim,
nos colhem, pois, benefícios que servem os pró- o Alto Comissariado/Centro para os Direitos
prios objectivos da aplicação da lei, ao mesmo Humanos aborda actualmente a questão do esta-
tempo que constroem uma estrutura de aplicação belecimento de instituições de defesa dos direitos
da lei que não se baseia no medo ou na força humanos de forma global, considerando funda-
bruta, mas antes na honra, no profissionalismo e mentais uma série de elementos constitutivos das
na dignidade. medidas empreendidas a nível nacional para asse-
gurar a protecção dos direitos humanos no quadro
Esta visão do agente policial está na base da abor- de um Estado de Direito e dispensando atenção
dagem adoptada pelo Alto Comissariado/Centro prioritária, nomeadamente, ao reforço da boa
para os Direitos Humanos das Nações Unidas administração da justiça e à adopção de políticas
relativamente à formação das forças policiais em e práticas humanas no domínio da aplicação da lei.
matéria de direitos humanos. Considera os agen-
tes policiais, não como inevitáveis violadores de Acreditamos que a publicação da obra Direitos
direitos humanos, mas antes como a primeira Humanos e Aplicação da Lei constitui um acon-
linha de defesa destes direitos. Na verdade, cada vez tecimento importante no contexto dos esforços
que um funcionário responsável pela aplicação da actualmente empreendidos pelas Nações Unidas
lei intervém em auxílio de uma vítima de crime, para promover e proteger os direitos humanos.
tudo o que faz para servir a comunidade e defen- Na verdade, a crucial interdependência entre a
der a lei, incluindo as normas relativas aos direi- protecção dos direitos fundamentais e a manu-

VI
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
tenção da lei e da ordem merecem particular aten- direitos humanos em cada sociedade. Não obs-
ção. Foi precisamente este nexo fundamental que tante, só em Janeiro de 1992, após uma cuidadosa
esteve no espírito dos autores da Declaração Uni- avaliação da metodologia e impacto desses cur-
versal quando redigiram o artigo 29.o, n.o 2, deste sos, foi adoptada pelo Alto Comissariado/Centro
histórico instrumento: para os Direitos Humanos uma abordagem nova
e inovadora à formação em matéria de aplicação da
No exercício destes direitos e no gozo destas liber- lei, que resultou na publicação do presente
dades ninguém está sujeito senão às limitações esta- manual.
belecidas pela lei com vista exclusivamente a
promover o reconhecimento e o respeito dos direi- Durante anos, o Programa de Serviços Consultivos
tos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as e de Assistência Técnica das Nações Unidas pro-
justas exigências da moral, da ordem pública e do moveu inúmeros cursos de formação para forças
bem-estar numa sociedade democrática. policiais em todas as regiões do mundo. Em mui-
tos casos, estes cursos permitiram que os partici-
Nesta conformidade, a missão da polícia nas socie- pantes tomassem contacto pela primeira vez com
dades modernas consiste em proteger os direitos as normas internacionais de direitos humanos
humanos, defender as liberdades fundamentais e que disciplinam a sua conduta profissional. Como
manter a ordem pública e o bem-estar geral numa tal, parece inquestionável que tais exercícios se
sociedade democrática, através de políticas e prá- justificaram. Mas quão eficazes foram efectiva-
ticas que sejam legais, humanas e deontologica- mente? Há três anos atrás, o Alto Comissa-
mente correctas. riado/Centro para os Direitos Humanos iniciou um
processo com o objectivo de responder a esta ques-
A profissão de polícia é, de facto, nobre e absolu- tão. Os resultados deste inquérito alteraram pro-
tamente vital para o bom funcionamento de uma fundamente a nossa forma de conceber as
sociedade democrática. A polícia dever-se-ia orgu- actividades desenvolvidas para ajudar os serviços
lhar de isto ter sido implicitamente reconhecido na de polícia a respeitarem os direitos humanos.
Declaração Universal há meio século atrás e expli-
citamente declarado em tantos instrumentos de As tradicionais abordagens aos cursos de forma-
direitos humanos adoptados no âmbito do sistema ção em matéria de direitos humanos apresentavam
das Nações Unidas desde então, nomeadamente o certamente algumas vantagens para os partici-
Código de Conduta para os Funcionários Respon- pantes. No mínimo, ajudavam a sensibilizar os
sáveis pela Aplicação da Lei, os Princípios Básicos funcionários responsáveis pela aplicação da lei a
sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo nível nacional para a existência de fontes, sistemas
pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da e normas internacionais de direitos humanos na
Lei e uma série doutras declarações e directrizes. área da administração da justiça. Mas o Alto
Trata-se de normas internacionais directamente Comissariado/Centro para os Direitos Humanos,
relevantes para o trabalho da polícia, desenvolvi- na avaliação que efectuou destas actividades, não
das, não para entravar a aplicação da lei, mas a fim ficou convencido de que tais cursos estivessem a
de fornecer orientações precisas para o desempe- contribuir para aperfeiçoar as aptidões e condutas
nho dessa função que é fundamental numa socie- necessárias para garantir que os participantes tra-
dade democrática. duzam esses princípios internacionais em com-
portamentos operacionais apropriados e eficazes.
De qualquer forma, para que possa proteger os
direitos humanos, a polícia deverá primeiro saber Os cursos iniciais compreendiam uma série de
em que consistem estes direitos. As Nações Uni- palestras essencialmente teóricas e destinadas aos
das têm vindo a contribuir desde há três décadas profissionais, ministradas por especialistas na
para a formação dos funcionários responsáveis área dos direitos humanos, sobre noções gerais des-
pela aplicação da lei, em reconhecimento da fun- tes direitos. Como os formadores não possuíam
damental influência deste grupo na situação dos qualquer experiência prática enquanto funcioná-

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* VII
rios responsáveis pela aplicação da lei, fazia-se peritos e de recolhas de boas práticas actualmente
pouco esforço para assegurar uma formação com seguidas na profissão em causa.
efeitos duradouros em termos da aplicação das
normas internacionais no trabalho quotidiano das O Centro convenceu-se, assim, de que, para ser
forças policiais, havendo de resto poucas possibi- genuinamente prática, a formação dos elementos
lidades de tal acontecer. Na maioria das vezes, a das forças policiais deverá incluir a participação de
informação era ministrada através de palestras, formadores com experiência no domínio da apli-
centrando-se quase exclusivamente em prescri- cação da lei. Constatou que se obtêm muito
ções negativas, tais como: "a polícia não deverá uti- melhores resultados através da utilização de uma
lizar força excessiva no desempenho das suas abordagem colegial, segundo a qual os polícias
actividades". discutem com outros polícias seus colegas, do que
com o clássico modelo professor-aluno. Em con-
É evidente que a polícia deverá conhecer as regras. sequência, o Centro começou a elaborar uma lista
Mas isto, só por si, revelou-se claramente insufi- de formadores e consultores orientada para a prá-
ciente para alterar o comportamento dos agentes tica.
de forma significativa. De acordo com o relatório
de uma comissão parlamentar encarregada da Ao invés de reunir painéis compostos exclusiva-
investigação de violações da lei nas esquadras de mente por professores e teóricos, o Centro inclui
polícia do seu país, os agentes policiais, quando con- formadores com experiência no domínio da apli-
frontados com provas da existência de abusos, cação da lei. Esta abordagem tem-lhe permitido ava-
diziam que não compreendiam os métodos e téc- liar a cultura profissional própria da polícia e
nicas de interrogatório, que interrogavam de tornar as sessões de formação muito mais práticas
acordo com métodos ultrapassados e que ignora- e adaptadas ao trabalho dos agentes policiais. Por
vam a forma como os interrogatórios eram con- outro lado, os estagiários e formadores das forças
duzidos em países democráticos e desenvolvidos. policiais raramente são peritos em direitos huma-
Para comparar os métodos por si utilizados e aper- nos; necessitam por isso de ser acompanhados e
feiçoá-los, queriam ter a possibilidade de fazer orientados por pessoal qualificado do Centro e da
estudos e observar os métodos de interrogatório uti- Divisão para a Prevenção do Crime e Justiça Penal,
lizados nos países democráticos. assim garantindo que o essencial das normas das
Nações Unidas se veja plena e sistematicamente
Tais declarações põem em destaque duas impor- reflectido no conteúdo dos cursos. Painéis de for-
tantes áreas nas quais deverá incidir a formação das madores compostos por estes dois grupos com-
forças policiais. Em primeiro lugar, o facto de plementares oferecem as melhores possibilidades
serem apresentadas justificações para graves vio- de ministrar cursos adequados tanto em termos de
lações de direitos humanos, como a tortura, substância como do tão importante elemento que
demonstra falta de familiaridade com as normas são as actividades práticas.
mais fundamentais de direitos humanos no domí-
nio da administração da justiça. Não existem jus- O processo de avaliação promovido pelo Centro
tificações legítimas para semelhantes actos. Em permitiu também tirar outras importantes lições.
segundo lugar, a polícia, no mundo real, quer O Centro apercebeu-se de que os cursos de for-
saber não só quais as normas aplicáveis, mas tam- mação de agentes policiais deverão, se quiserem
bém como desempenhar o seu trabalho de forma obter a efectiva participação dos seus destinatários,
eficaz com observância destas normas. As inicia- ser organizados em torno das tarefas quotidianas
tivas de formação que ignorem qualquer uma des- da polícia (investigações; capturas; detenção; uti-
tas áreas não serão provavelmente quer credíveis lização da força e armas de fogo) e não em função
quer eficazes. Nesta conformidade, o Centro inclui de determinados instrumentos de direitos huma-
informação de índole prática sobre técnicas com- nos. Deverá ser prestada a devida atenção aos
provadas para o desempenho das funções do direitos das vítimas dos crimes, com as quais a polí-
público-alvo, proveniente de recomendações de cia simpatiza mais facilmente. As exposições orais

VIII
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
deverão deixar espaço para a utilização de técnicas Genebra, em Maio de 1993, um seminário para dis-
de formação interactivas (por exemplo, dramati- cutir a abordagem e o manual propostos pelo Cen-
zação, exercícios e casos práticos), a fim de asse- tro. Participaram neste seminário formadores e
gurar a participação activa dos formandos. Deverá membros das forças policiais de todas as regiões
ser seguida uma abordagem de "formação de for- do mundo, bem como importantes organizações
madores", por forma a multiplicar o impacto de não governamentais e peritos de direitos humanos
cada curso e reforçar as capacidades locais. Uma da área. Nos cursos experimentais realizados ao
cuidadosa exposição das normas deverá ser com- abrigo do programa, o Centro beneficiou dos pre-
plementada por sessões concebidas com o objec- ciosos conhecimentos especializados de dezenas de
tivo de sensibilizar os elementos das forças consultores policiais oriundos do mundo inteiro.
policiais para a importância dos direitos huma- O Alto Comissariado/Centro para os Direitos
nos e para o risco que correm de os violar, mesmo Humanos deixa aqui o seu agradecimento por
sem intenção. Finalmente, cada curso organizado todo este apoio fundamental.
segundo esta concepção deverá ser cuidadosa-
mente concebido por forma a ter em conta a par- Um especial reconhecimento é devido à Divisão
ticular realidade cultural, educativa, histórica e para a Prevenção do Crime e Justiça Penal do Cen-
política do país que os destinatários têm por mis- tro para o Desenvolvimento Social e Questões
são servir e proteger. Humanitárias das Nações Unidas, em Viena. Este
manual e o programa para forças policiais do Cen-
Estas lições fundamentais constituíram a base da tro para os Direitos Humanos são dois dos ele-
elaboração do programa do Centro destinado à mentos de um projecto desenvolvido em conjunto
formação das forças policiais. Cada uma delas foi com a Divisão para a Prevenção do Crime e Justiça
tida em conta na abordagem da formação policial Penal desde 1992, numa parceria plena e frutífera
formalmente introduzida em 1992, já aplicada a pela qual o Alto Comissariado/Centro para os
título experimental em numerosos países da Direitos Humanos está profundamente grato.
África, Ásia, América Latina e Europa. Formado-
res, comandantes e agentes das forças policiais Finalmente, e muito em especial, as Nações Uni-
nacionais, bem como agentes que prestam ser- das manifestam o seu reconhecimento e os seus
viço nos contingentes de polícia civil (CIVPOL) agradecimentos ao principal autor do primeiro
das operações de manutenção da paz das Nações projecto deste manual, Ralph Crawshaw, do Cen-
Unidas, têm vindo a beneficiar de cursos minis- tro de Direitos Humanos da Universidade de
trados ao abrigo deste programa. É importante Essex, no Reino Unido.
salientar que cada curso experimental foi seguido
da adequada avaliação e revisão do programa, num
esforço permanente e concertado para delinear
um programa de formação que culminou na
publicação do presente manual.

O programa beneficiou, desde a N.T.1 José Ayala Lasso,


do Equador, foi o primeiro
sua criação, da preciosa contri- Alto Comissário
das Nações Unidas para
buição de diversos parceiros do os Direitos Humanos,
tendo desempenhado
Centro. Conselhos úteis foram estas funções de 5 de Abril
de 1994 a 15 de Março
prestados pela Comissão Inter- de 1997.
nacional de Juristas, Instituto
Raoul Wallenberg para os Direitos Humanos e
Direito Humanitário, Instituto Henry Dunant,
INTERPOL, ACNUR, CICV e diversos departa-
mentos de polícia e institutos de formação policial JOSÉ AYALA LASSO
espalhados pelo mundo. Além disso, realizou-se em Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos HumanosN.T.1

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* IX
Índice

Página
Prefácio V
Abreviaturas XXIII
Instrumentos internacionais citados no presente manual XXIV
Declaração de objectivos XXX

Primeira Parte 1
FORMAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS RESPONSÁVEIS
PELA APLICAÇÃO DA LEI
Teoria e Prática
Parágrafos
Cap. 01 Método do Alto Comissariado / Centro para
os Direitos Humanos nas Nações Unidas
para a Formação da Polícia 1-10 3

a. Método colegial 3
b. Formação de formadores 3 3
c. Técnicas pedagógicas 4 3
d. Especificidade dos destinatários 5 4
e. Orientação prática 6 4
f. Explicação pormenorizada das normas 7 4
g. Sensibilização 8 4
h. Flexibilidade de concepção e aplicação 9 5
i. Instrumentos de avaliação 10 5

Cap. 02 Participantes nos programas de formação 11-20 7

a. Definição e categorias 11-13 7


b. Razões específicas que justificam a formação de diversas categorias
de funcionários responsáveis pela aplicação da lei 14-18 8
c. Características particulares dos organismos e funcionários
pela aplicação da lei 19-20 8

XI
Parágrafos Página
Cap. 03 Técnicas de formação eficazes 21-44 11

a. Objectivos da aprendizagem 21-22 11


b. Recomendações gerais 23 11
c. Método participativo 24-26 12
d. Técnicas participativas 27-42 13
1. APRESENTAÇÃO E DEBATE 28-29 13
2. CONFERÊNCIAS-DEBATE 30-31 13
3. GRUPOS DE TRABALHO 32 14
4. ESTUDO DE CASOS PRÁTICOS 33-34 14
5. RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS/SESSÕES DE REFLEXÃO CONJUNTA 35-36 14
6. SIMULAÇÃO/DRAMATIZAÇÃO 37-38 14
7. VISITAS DE ESTUDO 39 14
8. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 40 15
9. MESAS REDONDAS 41 15
10. MATERIAL AUDIOVISUAL 42 15
e. Locais para a realização dos cursos 43 15
f. Planificação tendo em conta as necessidades dos participantes 44 15

Cap. 04 Educadores e Formadores 45-49 17

a. Utilizadores do manual 45-46 17


b. Selecção dos educadores e formadores 47 17
c. Orientação dos educadores e formadores 48 17
d. Funções do formador 49 18

Cap. 05 Utilização do Manual 50-89 19

a. Segunda parte (Conceitos fundamentais) 53-58 19


b. Terceira parte (Deveres e funções da polícia) 59-67 20
c. Quarta parte (Grupos necessitados
de protecção especial ou tratamento distinto) 68-73 21
d. Quinta parte (questões de comando, direcção e controlo) 74-76 22
e. Estrutura dos capítulos 77-78 22
f. Anexos 89 24

Cap. 06 Estrutura e conteúdo dos cursos 90-115 25

a. Introdução 90-92 25
b. Observações sobre os temas dos capítulos 93-102 25
c. Estrutura dos cursos 103-114 27
1. CURSO COMPLETO 105-107 27
2. SEMINÁRIO PARA FUNCIONÁRIOS SUPERIORES DE POLÍCIA 108-111 27
3. CURSO BÁSICO PARA AGENTES SEM FUNÇÕES DE COMANDO 112-114 28
d. Observações finais 115 28

XII
Parágrafos Página
Segunda Parte 29
CONCEITOS FUNDAMENTAIS

Cap. 07 Fontes, sistemas e normas de Direitos Humanos


no domínio da Aplicação da Lei 116-172 31

a. Importância das normas internacionais 116-119 31


b. Fontes fundamentais 120-148 33
1. CARTA DAS NAÇÕES UNIDAS 120-122 33
2. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM 123 33
3. TRATADOS: PACTOS E CONVENÇÕES 124-138 33
4. PRINCÍPIOS, REGRAS MÍNIMAS E DECLARAÇÕES 139-148 38
c. Mecanismos de direitos humanos das Nações Unidas 149-163 41
1. MECANISMOS CONVENCIONAIS (BASEADOS NOS TRATADOS) 153-156 41
2. MECANISMOS EXTRACONVENCIONAIS (BASEADOS NA CARTA) 157-163 42
(a) Procedimento 1503 158-159 42
(b) Alguns relatores especiais e grupos de trabalho 160-163 43
d. Fontes, sistemas e normas a nível regional 164-170 44
1. O SISTEMA EUROPEU NO ÂMBITO DO CONSELHO DA EUROPA 165-168 44
2. O SISTEMA INTERAMERICANO NO ÂMBITO DA ORGANIZAÇÃO

DE ESTADOS AMERICANOS 169 44


3. O SISTEMA AFRICANO NO ÂMBITO DA ORGANIZAÇÃO

DE UNIDADE AFRICANA 170 44


e. Conclusões 171-172 45
f. Revisão básica do capítulo 45
g. Exercício prático 45
h. Tópicos para discussão 45

Cap. 08 Conduta policial lícita e conforme aos princípios éticos 173-192 47

a. Normas internacionais sobre uma conduta policial lícita e conforme


aos princípios éticos – Informação para as apresentações 173-192 48
1. INTRODUÇÃO 173-176 48
2. ASPECTOS GERAIS DE UMA CONDUTA POLICIAL LÍCITA

E CONFORME AOS PRINCÍPIOS ÉTICOS 177-186 48


(a) Princípios fundamentais 177 48
(b) Disposições específicas sobre uma conduta policial lícita
e conforme aos princípios éticos 178-186 48
[ I] Ética policial e utilização da força 182-183 49
[II] Conduta policial lícita e conforme

aos princípios éticos responsabilidade individual 184 49


[III] Conduta policial lícita e conforme aos princípios éticos – dever

de denunciar as violações 185 50


[IV] Conduta policial lícita e conforme aos princípios

éticos – circunstâncias excepcionais e situações de emergência pública 186 51


3. OBSERVAÇÕES FINAIS 187-192 51
b. Normas internacionais sobre uma conduta policial lícita
e conforme aos princípios éticos – Aplicação prática 52
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 52
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 53
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 54

XIII
Parágrafos Página
Cap. 09 O papel da polícia numa sociedade democrática 193-224 55

a. Normas internacionais sobre direitos humanos e actividade policial


numa sociedade democrática – Informação para as apresentações 193-224 56
1. INTRODUÇÃO 193-198 56
2. ASPECTOS GERAIS DA ACTIVIDADE POLICIAL

NUMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA 199-222 57


(a) Princípios fundamentais 199 57
(b) Disposições específicas sobre a actividade policial
numa sociedade democrática 200-206 57
[I] Direito à liberdade de pensamento, consciência e religião 201-202 57
[II] Direito à liberdade de opinião e de expressão 203-204 57
[III] Direitos à liberdade de reunião e de associação pacíficas 205-206 57
(c) Os direitos políticos e o papel da polícia 207-209 58
(d) Disposições específicas sobre actividade policial e eleições
democráticas 210-215 58
(e) Disposições específicas sobre uma actividade
policial democrática 216 59
[I] Polícia representativa 217-218 59
[II] Polícia receptiva às necessidades da comunidade 219-220 60
[III] Polícia responsável 221-222 60
3. OBSERVAÇÕES FINAIS 223-224 60
b. Normas internacionais sobre direitos humanos e actividade policial
numa sociedade democrática – Aplicação prática 61
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 61
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 62
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 63

Cap. 10 Polícia e não discriminação 225-298 65

a. Normas internacionais sobre não discriminação – Informação


para as apresentações 225-298 66
1. INTRODUÇÃO 225-229 66
2. ASPECTOS GERAIS DA NÃO DISCRIMINAÇÃO 230-296 66
(a) Princípios fundamentais 230-231 66
(b) Disposições específicas sobre a não discriminação 232-251 66
[I] Direito ao reconhecimento da personalidade jurídica 233-234 66
[II] Direito à igualdade perante a lei 235-237 67
[III] Direito a um julgamento equitativo 238-240 67
[IV] Direito de acesso à função pública em condições de igualdade 241-243 67
[V] Incitamento à discriminação 244-247 68
[VI] Derrogação das obrigações durante os estados de emergência 248-251 68
(c) Disposições de instrumentos com especial relevância
no domínio da aplicação da lei 252-262 69
[I] Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis
pela Aplicação da Lei 252-254 69
[II] Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas
de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei 255-256 69
[III] Conjunto de Princípios para a Protecção de Todas as Pessoas
Sujeitas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão 257-258 69
[IV] Declaração dos Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas
da Criminalidade e de Abuso de Poder 259-260 69

XIV
Parágrafos Página
[V] Declaração sobre a Protecção de Todas as Pessoas contra
a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos
ou Degradantes e Convenção contra a Tortura e Outras Penas
ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes 261-262 70
(d) Discriminação racial 263-270 70
[I] Declaração das Nações Unidas sobre a Eliminação
de Todas as Formas de Discriminação Racial 264-267 70
[II] Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação Racial 268-270 70
(e) Discriminação por motivos de religião 271-276 71
[I] Declaração Universal dos Direitos do Homem 272 71
[II] Declaração sobre a Eliminação de Todas as Formas
de Intolerância e Discriminação Baseadas na Religião
ou na Convicção 273-276 71
(f) Discriminação contra as mulheres 277-283 71
[I] Declaração sobre a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres 278-280 71
[II] Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas
de Discriminação contra as Mulheres 281-283 72
(g) Discriminação e crianças 284-296 72
[I] Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos 285 72
[II] Convenção sobre os Direitos da Criança 286-288 72
(h) Manifestações particulares de discriminação 289-296 73
3. OBSERVAÇÕES FINAIS 297-298 73
b. Normas internacionais sobre não discriminação
– Aplicação prática 74
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 74
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 75
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 75

Terceira Parte
DEVERES E FUNÇÕES DA POLÍCIA 77

Cap. 11 Investigação policial 299-344 79

a. Normas internacionais sobre investigação policial


– Informação para as apresentações 299-344 80
1. INTRODUÇÃO 299-302 80
2. ASPECTOS GERAIS SOBRE DIREITOS HUMANOS

E INVESTIGAÇÃO POLICIAL 303-344 80


(a) Princípios fundamentais 303 80
(b) Normas específicas sobre a investigação 304-326 80
[I] Presunção de inocência 305-307 80
[II] Direito a um processo equitativo 308-310 81
[III] Garantias mínimas para assegurar um processo
equitativo 311-321 81
(a) A ser informado pronta e detalhadamente

das acusações contra si formuladas 311-313 81


(b) Julgamento num prazo razoável 314-316 82
(c) A interrogar, ou fazer interrogar, as testemunhas

de acusação 317-319 82

XV
Parágrafos Página
(d) De não ser obrigado a testemunhar contra

si próprio ou a confessar-se culpado 320-321 82


[IV] Intromissões arbitrárias na vida privada 322-326 82
(c) Aspectos técnicos da investigação 327-330 83
(d) Relação com os informadores da polícia 331-337 84
(e) Vítimas 338-342 85
3. OBSERVAÇÕES FINAIS 343-344 86
b. Normas internacionais sobre investigação policial
– Aplicação prática 87
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 87
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 88
3.. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 89

Cap. 12 Captura 345-380 91

a. Normas internacionais sobre captura – Informação


para as apresentações 345-380 92
1. INTRODUÇÃO 345-347 92
2. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS HUMANOS E CAPTURA 348-378 92
(a) Princípios fundamentais 348 92
(b) Normas específicas sobre captura 349-365 92
[I] Proibição da detenção arbitrária 350-353 93
[II] Procedimentos a seguir na sequência da captura 354-356 93
[III] Salvaguardas adicionais 357-360 94
[IV] Captura de jovens 361-362 94
[V] Indemnização em caso de captura ilegal 363-365 95
(c) Medidas de derrogação 366-371 95
(d) Desaparecimentos forçados ou involuntários 372-378 96
Relatos de desaparecimentos 377-378 96
3. OBSERVAÇÕES FINAIS 379-380 96
b. Normas internacionais sobre captura – Aplicação prática 97
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 97
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 98
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 99

Cap. 13 Detenção 381-438 101

a. Normas internacionais sobre detenção – Informação


para as apresentações 381-438 102
1. INTRODUÇÃO 381-384 102
2. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS HUMANOS DURANTE A DETENÇÃO 385-435 103
(a) Princípios fundamentais 385-386 103
(b) Normas específicas sobre a detenção 387 103
[I] Proibição da tortura 388-397 103
[II] Exigências gerais de um tratamento humano dos detidos 398-403 105
[III] Jovens detidos 404-410 106
[IV] Mulheres detidas 411-415 107
(c) Audição ou Interrogatório dos Suspeitos 416-427 108
[I] Normas internacionais pertinentes 418-420 108
[II] Objectivo das normas 421-422 108
[III] Implicações das normas sobre os processos de audição
ou interrogatório 423-427 109

XVI
Parágrafos Página
(d) Medidas de derrogação 428-433 110
(e) Desaparecimentos forçados ou involuntários 434-435 110
3. OBSERVAÇÕES FINAIS 436-438 110
b. Normas internacionais sobre detenção – Aplicação prática 111
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 111
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 113
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 115

Cap. 14 Utilização da força e de armas de fogo 439-471 117

a. Normas internacionais sobre a utilização da força


– Informação para as apresentações 439-471 119
1. INTRODUÇÃO 439-442 119
2. ASPECTOS GERAIS DA UTILIZAÇÃO DA FORÇA 443-469 120
(a) Princípios fundamentais 443 120
(b) Disposições específicas sobre a utilização da força 444-460 120
[I] Regulamentos; utilização diferenciada da força 448 120
[II] Recurso inicial a meios não violentos 449 121
[III] Moderação; medidas humanitárias 450 121
[IV] Participação do uso da força 451 121
[V] Utilização de armas de fogo 452-454 121
[VI] Manutenção da ordem durante reuniões públicas 455 121
[VII] Utilização da força sobre pessoas detidas 456 121
[VIII] Recrutamento e formação 457 122
[IX] Participação e recurso 458 122
[X] Responsabilidade hierárquica 459 122
[XI] Ordens ilícitas 460 122
(c) Utilização da força e direito à vida 461-464 122
(d) Utilização da força e execuções extrajudiciais 465-466 123
(e) Utilização da força e desaparecimentos 467-469 123
3. OBSERVAÇÕES FINAIS 470-471 123
b. Normas internacionais sobre utilização da força
– Aplicação prática 123
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 123
2. EXERCÍCIO PRÁTICO 125
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 125

Cap. 15 Distúrbios Internos, Estados de Excepção


e Conflitos Armados 472-569 127

a. Normas internacionais sobre conflitos armados, estados de emergência


e distúrbios internos – Informação para as apresentações 472-569 129
1. INTRODUÇÃO 472-480 129
2. ASPECTOS GERAIS 481-566 130
(a) Princípios fundamentais 481-482 130
(b) Disposições específicas 483-490 131
[I] Direitos humanos especialmente vulneráveis 483 131
[II] Direito dos conflitos armados 484-486 131
[III] Tipos de conflito armado e categorias de pessoas 487-490 132
(c) Conflito Armado Internacional 491-499 132
[I] Estatuto da polícia 494-499 133
[II] Direitos, deveres e responsabilidades da polícia 500-502 133

XVII
Parágrafos Página
(d) Conflito armado não internacional 503-519 135
[I] Artigo 3.o comum às Convenções 505-507 135
[II] Protocolo Adicional II 508-517 136
[III] Estatuto 518 137
[IV] Deveres e responsabilidades da polícia 519 137
(e) Distúrbios internos 520-536 138
[I] Definições e características dos distúrbios internos 522-523 138
[II] Normas internacionais 524-526 139
[III] Princípios e normas humanitárias 527-534 140
[IV] Deveres e responsabilidades da polícia 535-536 141
(f) Terrorismo 537-554 141
[I] Definições e tipos de terrorismo 538-544 141
[II] Actos de terror praticados durante conflitos armados 545-547 142
[III] Cooperação internacional na luta contra o terrorismo 548-553 142
[IV] Deveres e responsabilidades da polícia 554 143
(g) Estados de excepção e medidas de derrogação 555-566 143
[I] Disposições convencionais 556-565 143
[II] Responsabilidades da polícia 566 145
3. CONCLUSÕES 567-569 145
b. Normas internacionais sobre conflitos armados e distúrbios
internos – Aplicação prática 145
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 145
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 149
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 150

Quarta Parte
GRUPOS NECESSITADOS DE PROTECÇÃO
ESPECIAL OU TRATAMENTO DISTINTO 153

Cap. 16 Polícia e Protecção de Jovens 570-675 155

a. Normas internacionais sobre a polícia e a


protecção de jovens – Informação para apresentações 570-675 156
1. INTRODUÇÃO 570-572 156
2. ASPECTOS GERAIS RELATIVOS AO PAPEL DA POLÍCIA E À PROTECÇÃO DOS JOVENS 573-671 156
(a) Princípios fundamentais 573 156
(b) Disposições específicas em matéria de direitos humanos,
polícia e protecção de jovens 574-671 157
[I] Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração
da Justiça de Menores (Regras de Beijing) 575-607 157
[II] Princípios Orientadores das Nações Unidas para a Prevenção
da Delinquência Juvenil (Princípios Orientadores de Riade) 608-615 160
[III] Regras das Nações Unidas para a Protecção dos Menores
Privados de Liberdade 616-626 163
[IV] Convenção sobre os Direitos da Criança 627-653 165
[V] Regras Mínimas das Nações Unidas para a Elaboração
de Medidas não Privativas de Liberdade (Regras de Tóquio) 654-671 167
3. CONCLUSÕES 672-675 169
b) Normas internacionais sobre polícia e protecção
de menores – Aplicação prática 170
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 170
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 171
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 172

XVIII
Parágrafos Página
Cap. 17 Aplicação da Lei e os Direitos das Mulheres 676-757 175

a. Normas internacionais sobre a aplicação da lei e os direitos


das mulheres – Informação para as apresentações 676-757 176
1. INTRODUÇÃO 676-680 176
2. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS DAS MULHERES E A APLICAÇÃO DA LEI 681-754 177
(a) Princípios fundamentais 681-682 177
(b) Disposições específicas relativas aos direitos das mulheres
e à aplicação da lei 683-754 177
[I] A Protecção das mulheres 684-754 177
(a) As mulheres e a discriminação 684-702 177
(b) As mulheres vítimas de violência doméstica 703-719 179
(c) As mulheres vítimas de violação e de outros delitos sexuais 720-726 181
(d) As mulheres detidas 727-731 182
(e) A protecção das mulheres em período de conflito 732-746 183
[II] As mulheres polícias 747-754 184
3. CONCLUSÕES 755-757 186
b. Normas internacionais sobre a aplicação da lei e os direitos
das mulheres – Aplicação prática 186
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 186
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 188
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 189

Cap. 18 Refugiados e não nacionais 758-823 191

a. Normas internacionais sobre refugiados e não


nacionais – Informação para apresentações 758-823 193
1. INTRODUÇÃO 758-765 193
2. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS HUMANOS DOS REFUGIADOS
E DOS NÃO NACIONAIS 766-819 194
(a) Princípios fundamentais 766 194
(b) Disposições específicas sobre os direitos humanos
dos refugiados e dos não nacionais 767-771 194
(c) Disposições da Convenção de 1951 que visam especificamente
o estatuto dos refugiados 772-782 195
(d) Disposições específicas do direito internacional dos direitos
humanos e do direito internacional humanitário aplicáveis
à situação dos refugiados 783-790 196
(e) Pessoas deslocadas no interior do território 791-794 197
(f) Disposições específicas da Declaração sobre os direitos humanos das
pessoas que não possuem a nacionalidade do país em que vivem 795-802 198
(g) Disposições específicas do direito internacional dos direitos
humanos e do direito internacional humanitário aplicáveis
à situação dos não nacionais 803-808 199
(h) Disposições específicas da Convenção de 1954 sobre o Estatuto
dos Apátridas 809-817 200
(i) Disposições específicas do direito internacional dos direitos
humanos e do direito internacional humanitário aplicáveis
à situação dos apátridas 818-819 201
3. CONCLUSÕES 820-823 201
b. Normas internacionais sobre refugiados e não nacionais– Aplicação prática 201
1. MEDIDAS PARA A APLICAÇÃO PRÁTICA DAS NORMAS INTERNACIONAIS 201
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 202
3. TÓPICOS DE DISCUSSÃO 203

XIX
Parágrafos Página
Cap. 19 Protecção e indemenização das vítimas 824-877 205

a. Normas internacional sobre os direitos humanos, protecção


e indemnização de vítimas – Informação para as apresentações 824-877 206
1. INTRODUÇÃO 824-829 206
2. ASPECTOS GERAIS SOBRE OS DIREITOS HUMANOS, PROTECÇÃO

E INDEMNIZAÇÃO DAS VÍTIMAS 206


(a) Princípios fundamentais 830 206
(b) Disposições específicas relativas aos direitos fundamentais
das vítimas, protecção e indemnização 831-836 207
(c) Protecção das vítimas de criminalidade 837-857 208
(d) Protecção das vítimas de abusos de poder 858-863 210
(e) Recomendações para a aplicação da Declaração dos Princípios
Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da Criminalidade
e de Abuso de Poder 864-866 211
(f) Protecção das vítimas de conflitos 867-873 212
3. CONCLUSÕES 874-877 213
b. Normas internacionais sobre os direitos das vítimas – Aplicação prática 213
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 213
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 214
3. TÓPICOS DE DISCUSSÃO 215

Quinta Parte
QUESTÕES DE COMANDO, DIRECÇÃO E CONTROLO 217

Cap. 20 Direitos Humanos nas questões de comando,


direcção e organização da polícia 878-943 219

a. Normas internacionais sobre comando, gestão e organização


policial – Informação para as apresentações 878-943 221
1. INTRODUÇÃO 878-884 221
2. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS HUMANOS NAS QUESTÕES DE COMANDO,
DIRECÇÃO E ORGANIZAÇÃO DA POLÍCIA 885-940 221
(a) Princípios fundamentais 885-887 221
(b) Implicações de certas disposições em matéria de direitos humanos
nas questões de comando, direcção e controlo da polícia 888-889 222
(c) Fins e objectivos de uma organização policial 890-893 222
(d) Ética profissional 894-901 222
(e) Planificação estratégica e elaboração de políticas 902-907 224
(f) Sistemas de comando, direcção e controlo 908-923 225
[I] Sensibilidade e responsabilidade da polícia 909-910 225
[II] Direitos humanos e investigações policiais 911-915 225
[III] Direitos humanos e captura 916 226
[IV] Direitos humanos no período de detenção 917-919 226
[V] Direitos humanos e utilização da força pela polícia 920-923 226
(g) Recrutamento 924 227
[I] Direitos humanos, policia e não discriminação 925 227
[II] Os direitos humanos e a missão da polícia nas democracias 926-927 227
(h) Formação 928-940 227
[I] Utilização da força 932-933 228
[II] Tratamento dos detidos 934-935 228

XX
Parágrafos Página
[III] Conflito armado e distúrbios internos 936-937 228
[IV] Protecção dos jovens 938 228
[V] Protecção das vítimas e sua indemnização 939-940 229
3. CONCLUSÕES 941-943 229
b. Normas internacionais sobre o comando, gestão
e organização policial – Aplicação prática 230
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 230
2. EXERCÍCIO PRÁTICO 231
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 231

Cap. 21 Investigação das violações cometidas pela polícia 944-985 233

a. Normas internacionais sobre a investigação de violações


de direitos humanos pela polícia – Informação para as apresentações 944-985 234
1. INTRODUÇÃO 944-948 234
2. ASPECTOS GERAIS 949-979 234
(a) Princípios fundamentais 949-950 234
(b) Disposições precisas relativas às queixas, controlo e investigação 951-973 235
[I] Código de Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis
pela Aplicação da Lei 952-955 235
[II] Declaração sobre a Protecção de todas as Pessoas contra a Tortura
e outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes 956-957 236
[III] Convenção contra a Tortura e outras Penas ou Tratamentos Cruéis,
Desumanos ou Degradantes 958-961 236
[IV] Princípios Relativos a uma Prevenção Eficaz e Investigação
das Execuções Extra-judiciais, Arbitrárias ou Sumárias 962-964 237
[V] Conjunto de princípios para a protecção de todas as pessoas
sujeitas a qualquer tipo de detenção ou prisão 965-969 237
[VI] Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo
pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei 970-973 238
(c) Desaparecimentos forçados ou involuntários 974-978 238
(d) Procedimentos e organismos internacionais estabelecidos com vista
a supervisionar o respeito pelas normas de direitos humanos 979 239
3. CONCLUSÕES 980-985 239
b. Normas internacionais sobre investigações de violações
de direitos humanos pela polícia – Aplicação prática 240
1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS 240
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 241
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO 243

ANEXOS

I. PRINCIPAIS INSTRUMENTOS INTERNACIONAIS EM MATÉRIA DE APLICAÇÃO DA LEI 245


II. PLANO GERAL DE UM ESTÁGIO 287
III. QUESTIONÁRIO A PREENCHER ANTES DO ESTÁGIO 291
IV. EXAME DE FIM DE ESTÁGIO 293
V. QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO DO ESTÁGIO A SER PREENCHIDO

DEPOIS DA REALIZAÇÃO DO MESMO 297

XXI
XXII
Abreviaturas

ECOSOC Conselho Económico e Social


CICV Comité Internacional da Cruz Vermelha
INTERPOL Organização Internacional de Polícia Criminal
OUA Organização de Unidade Africana
ACNUR Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

XXIII
Instrumentos Internacionais
citados no presente manual

Compilação Human Rights: A Compilation of International Instruments, vol. I (2 partes),


Universal Instruments (Publicação das Nações Unidas, N.o de Venda E.94.XIV.1); vol. II,
Regional Instruments (Publicação das Nações Unidas, N.o de Venda E.97.XIV.1) [em por-
tuguês: "Direitos Humanos: Uma Compilação de Instrumentos Internacionais", vol. 1
(2 partes), "Instrumentos Universais"; vol. 2, "Instrumentos Regionais"]

Relatório do Oitavo Congresso Eigth United Nations Congress on the Prevention of Crime
and Treatment of Offenders, Havana, 27 August - 7 September 1990, report prepared by the
Secretariat [em português: "Oitavo Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção do
Crime e o Tratamento dos Delinquentes, Havana, 27 de Agosto - 7 de Setembro de
1990: relatório preparado pelo Secretariado"] (Publicação das Nações Unidas, N.o de Venda
E.91.IV.2)

Os instrumentos referidos no presente manual são listados por ordem cronoló-


gica em cada uma das categorias abaixo indicadas. Sempre que apropriado, a desig-
nação abreviada pela qual o instrumento foi identificado aparece indicada.

Instrumentos Universais

Carta Internacional dos Direitos Humanos Fonte

Declaração Universal dos Direitos do Homem • Resolução 217 A (III) da Assembleia Geral, de
10 de Dezembro de 1948; Compilação, vol. I, p. 1.
Vide também infra, anexo I.1.
Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Cul- • Resolução 2200 A (XXI) da Assembleia Geral,
turais (entrada em vigor: 3 de Janeiro de 1976) de 16 de Dezembro de 1966, anexo; Compila-
ção, vol. I, p. 8.
Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (entrada em • Resolução 2200 A (XXI) da Assembleia Geral,
vigor: 23 de Março de 1976) de 16 de Dezembro de 1966, anexo, Compila-
ção, vol. I, p. 20. Vide também infra, anexo I.2.

Protocolo Facultativo referente ao Pacto Internacional sobre os • Resolução 2200 A (XXI) da Assembleia Geral,
Direitos Civis e Políticos (entrada em vigor: 23 de Março de 1976) de 16 de Dezembro de 1966, anexo; Compila-
ção, vol. I, p. 41.
Segundo Protocolo Adicional ao Pacto Internacional sobre os Direi- • Resolução 44/128 da Assembleia Geral, de 15 de
tos Civis e Políticos com vista à Abolição da Pena de Morte Dezembro de 1989, anexo; Compilação, vol. I,
(entrada em vigor: 11 de Julho de 1991) p. 46.

Instrumentos de Carácter Geral

Convenção de Viena sobre Relações Consulares (Viena, 24 de Abril de • Nações Unidas, Treaty Series N.T.2
, vol. 596,
1963) (entrada em vigor: 19 de Março de 1967) p. 261.

Declaração dos Princípios de Direito Internacional relativos às • Resolução 2625 (XXV) da Assembleia Geral,
Relações Amigáveis e à Cooperação entre Estados em confor- de 24 de Outubro de 1970, anexo.
midade com a Carta das Nações Unidas

Declaração e Programa de Acção de Viena • Adoptada pela Conferência Mundial sobre


Direitos Humanos, Viena, 25 de Junho de 1993
(A/CONF.157/24 (Parte I), cap. III).
N.T.2
Em português. Série de Tratados

XXIV
Direitos Humanos na Administração da Justiça

Tratamento dos reclusos


Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos • Primeiro Congresso das Nações Unidas sobre
a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delin-
quentes: relatório do Secretariado (publicação das
Nações Unidas, N.o de Venda 1956.IV.4), anexo
I.A; aprovadas pelas resoluções 663 C (XXIV), de
31 de Julho de 1957, e 2076 (LXII), de 13 de Maio
de 1977 do Conselho Económico e Social; Com-
pilação, vol. I, p. 243.
Normas para a Aplicação Efectiva das Regras Mínimas para o Tra- • Resolução 1984/47 do Conselho Económico e
tamento de Reclusos Social, de 25 de Maio de 1984, anexo.

Conjunto de Princípios para a Protecção de Todas as Pessoas Sujei- • Resolução 43/173 da Assembleia Geral, de 9
tas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão de Dezembro de 1988, anexo; Compilação,
vol. I, p. 265. Vide também infra anexo I.5.
Regras Mínimas das Nações Unidas para a Elaboração de Medi- • Resolução 45/110 da Assembleia Geral, de 14
das não Privativas de Liberdade (Regras de Tóquio) de Dezembro de 1990, anexo; Compilação,
vol. I, p. 336.

Princípios Básicos Relativos ao Tratamento de Reclusos • Resolução 45/111 da Assembleia Geral, de 14


de Dezembro de 1990, anexo; Compilação,
vol. I, p. 263.
Tortura e Maus Tratos
Declaração contra a Tortura
Declaração sobre a Protecção de Todas as Pessoas contra a Tor- • Resolução 39/46 da Assembleia Geral, de 10
tura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou de Dezembro de 1984, anexo; Compilação,
Degradantes vol. I, p. 293.

Convenção contra a Tortura


Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos • Resolução 39/46 da Assembleia Geral, de 10
Cruéis, Desumanos ou Degradantes (entrada em vigor: 26 de Junho de de Dezembro de 1984, anexo; Compilação,
1987) vol. I, p. 293.

Pena de morte
Garantias para a Protecção dos Direitos das Pessoas Sujeitas a • Resolução 1984/50 do Conselho Económico e
Pena de Morte Social, de 25 de Maio de 1984, anexo; Compilação,
vol. I, p. 310.

Segundo Protocolo Adicional ao Pacto Internacional sobre os Direi- • Vide supra, Carta Internacional dos Direitos
tos Civis e Políticos com vista à Abolição da Pena de Morte Humanos

Execuções extrajudiciais
Princípios sobre a Prevenção Eficaz e Investigação das Execuções • Resolução 1989/65 do Conselho Económico
Extrajudiciais, Arbitrárias ou Sumárias e Social, de 24 de Maio de 1989, anexo;
Compilação, vol. I, p. 409. Vide também infra
anexo I.8.

Aplicação da Lei • Resolução 34/169 da Assembleia Geral, de 17


Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela de Dezembro de 1979, anexo; Compilação,
Aplicação da Lei vol. I, p. 312. Vide também infra anexo I.3.

XXV
Princípios Orientadores para a Aplicação Efectiva do Código de • Resolução 1989/61 do Conselho Económico e
Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação Social, de 24 de Maio de 1989, anexo.
da Lei

Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo • Relatório do Oitavo Congresso, capítulo I, sec-
pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei ção B.2; Compilação, vol. I, p. 318. Vide tam-
bém infra anexo I.4.
Justiça de Menores
Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Jus- • Resolução 40/33 da Assembleia Geral, de
tiça de Menores (Regras de Beijing) 29 de Novembro de 1985, anexo; Compilação,
vol. I, p. 356. Vide também infra anexo I.9.
Convenção sobre os Direitos da Criança (entrada em vigor: 2 de Setembro • Resolução 44/25 da Assembleia Geral, de 20
de 1990) de Novembro de 1989, anexo; Compilação,
vol. I, p. 174.

Princípios Orientadores das Nações Unidas para a Prevenção da • Resolução 45/112 da Assembleia Geral, de 14
Delinquência Juvenil (Princípios Orientadores de Riade) de Dezembro de 1990, anexo; Compilação,
vol. I, p. 346.

Regras das Nações Unidas para a Protecção dos Menores Priva- • Resolução 45/113 da Assembleia Geral, de 14
dos de Liberdade de Dezembro de 1990, anexo; Compilação,
vol. I, p. 275.

Protecção das vítimas


Declaração dos Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas • Resolução 40/34 da Assembleia Geral, de 29
da Criminalidade e de Abuso de Poder de Novembro de 1985, anexo; Compilação,
vol. I, p. 382. Vide também infra anexo I.6.

Desaparecimentos forçados • Resolução 47/133 da Assembleia Geral, de 18


Declaração sobre a Protecção de Todas as Pessoas contra os de Dezembro de 1992; Compilação, vol. I,
Desaparecimentos Forçados p. 401. Vide também infra anexo I.7.

Prevenção da Discriminação

Raça
Declaração das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as • Resolução 1094 (XVIII) da Assembleia Geral,
Formas de Discriminação Racial de 20 de Novembro de 1963; Compilação, vol. I,
p. 61.

Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas • Resolução 2106 A (XX) da Assembleia Geral,
da Discriminação Racial (entrada em vigor: 4 de Janeiro de 1969) de 21 de Dezembro de 1965, anexo; Compilação,
vol. I, p. 66.

Sexo
Declaração sobre a Eliminação da Discriminação contra as • Resolução 2263 (XXII) da Assembleia Geral,
Mulheres de 7 de Novembro de 1967; Compilação, vol. I,
p. 145.

Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discri- • Resolução 34/180 da Assembleia Geral, de 18
minação contra as Mulheres (entrada em vigor: 3 de Setembro de 1981) de Dezembro de 1979, anexo; Compilação,
vol. I, p. 150.

XXVI
Manifestações particulares de discriminação
Convenção Relativa à Escravatura (Genebra, 25 de Setembro de 1926) (entrada • Liga das Nações, Treaty Series, vol. LX, p. 253;
em vigor: 9 de Março de 1927) Compilação, vol. I, p. 201.

Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocí- • Resolução 260 A (III) da Assembleia Geral, de
dio (entrada em vigor: 12 de Janeiro de 1951) 9 de Dezembro de 1948, anexo; Compilação,
vol. I, p. 673.

Protocolo que altera a Convenção Relativa à Escravatura, assinado • Resolução 794 (VIII) da Assembleia Geral, de
em Genebra a 25 de Setembro de 1926 (entrada em vigor: 7 de Dezembro 23 de Outubro de 1953; Compilação, vol. I, p. 206.
de 1953)

Convenção Suplementar Relativa à Abolição da Escravatura, do • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 266, p. 3;
Tráfico de Escravos e das Instituições e Práticas Análogas à Compilação, vol. I, p. 209.
Escravatura (Genebra, 7 de Setembro de 1956) (entrada em vigor: 30 de Abril de 1957)

Convenção Internacional para a Eliminação e Repressão do • Resolução 3060 (XXVIII) da Assembleia


Crime de Apartheid (entrada em vigor: 18 de Julho de 1976) Geral, de 30 de Novembro de 1973, anexo; Com-
Religião ou convicção pilação, vol. I, p. 80.

Declaração sobre a Eliminação de Todas as Formas de Intolerância • Resolução 36/55 da Assembleia Geral, de 25 de
e Discriminação Baseadas na Religião ou na Convicção Novembro de 1981; Compilação, vol. I, p. 122.

Trabalhadores migrantes
Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de • Resolução 45/158 da Assembleia Geral, de
Todos os Trabalhadores Migrantes e Membros das Suas Famílias 18 de Dezembro de 1990, anexo; Compilação,
vol. I, p. 554.

Terrorismo

Convenção Internacional contra a Tomada de Reféns (entrada em • Resolução 34/146 da Assembleia Geral, de 17
vigor: 3 de Junho de 1983) de Dezembro de 1979, anexo.

Medidas contra o terrorismo internacional • Relatório do Oitavo Congresso, capítulo I, sec-


ção C, resolução 25, anexo.

Nacionalidade, apátridas e refugiados

Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (Genebra, 28 de Julho • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 189, p. 137;
de 1951) (entrada em vigor: 22 de Abril de 1954) Compilação, vol. I, p. 638.

Convenção Relativa ao Estatuto das Pessoas Apátridas (Nova Iorque, • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 360, p. 117;
28 de Setembro de 1954) (entrada em vigor: 6 de Junho de 1960) Compilação, vol. I, p. 625.

Protocolo Relativo ao Estatuto dos Refugiados (Nova Iorque, 31 de • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 606,
Janeiro de 1967) (entrada em vigor: 4 de Outubro de 1967) p. 267; Compilação, vol. I, p. 655.

Declaração sobre os Direitos Humanos dos Indivíduos Que não • Resolução 40/144 da Assembleia Geral, de
são Nacionais do País onde Vivem 13 de Dezembro de 1985, anexo; Compilação,
vol. I, p. 668.

XXVII
Conflitos Armados Internacionais

Convenção da Haia de 1907


Convenção da Haia (IV) relativa às Leis e Costumes da Guerra • J. B. Scott, ed., The Hague Conventions and
em Terra (Haia, 18 de Outubro de 1907) (entrada em vigor: 26 de Janeiro de 1910) Declarations of 1899 and 1907N.T.3, 3.a edição
(Nova Iorque, Oxford University Press, 1918),
pp. 101-102; Supplement to the American Jour-
nal of International LawN.T.4 (Nova Iorque),
vol. 2 (1908), Official DocumentsN.T.5, p. 90.

Primeira Convenção de Genebra • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 75, p. 31;
Convenção I de Genebra para Melhorar a Situação dos Feridos Compilação, vol. I, p. 685.
e Doentes das Forças Armadas em Campanha (Genebra, 12 de Agosto
de 1949) (entrada em vigor: 21 de Outubro de 1950)

Segunda Convenção de Genebra • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 75, p. 85;
Convenção II de Genebra para Melhorar a Situação dos Feridos, Compilação, vol. I, p. 711.
Doentes e Náufragos das Forças Armadas no Mar (Genebra, 12 de Agosto
de 1949) (entrada em vigor: 21 de Outubro de 1950)

Terceira Convenção de Genebra • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 75, p. 135;
Convenção III de Genebra relativa ao Tratamento dos Prisioneiros Compilação, vol. I, p. 732.
de Guerra (Genebra, 12 de Agosto de 1949) (entrada em vigor: 21 de Outubro de 1950)

Quarta Convenção de Genebra • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 75, p. 287;
Convenção IV de Genebra relativa à Protecção das Pessoas Civis Compilação, vol. I, p. 803.
em Tempo de Guerra (Genebra, 12 de Agosto de 1949) (entrada em vigor: 21 de Outu-
bro de 1950)

Protocolo I Adicional • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 1125, p. 3;


Protocolo I Adicional às Convenções de Genebra de 12 de Agosto Compilação, vol. I, p. 866.
de 1949 relativo à Protecção das Vítimas dos Conflitos Armados
Internacionais (Genebra, 8 de Junho de 1977) (entrada em vigor: 7 de Dezembro
de 1978)

Conflitos Armados Não Internacionais

Protocolo II Adicional • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 1125, p. 609;


Protocolo II Adicional às Convenções de Genebra de 12 de Compilação, vol. I, p. 934.
Agosto de 1949 relativo à Protecção das Vítimas dos Conflitos
Armados Não Internacionais (Genebra, 8 de Junho de 1977) (entrada em vigor:
7 de Dezembro de 1978)

N.T.3
Em português. “As Convenções e Declarações da Haia de 1899 e 1907”
N.T.4
Em português. “Suplemento ao Jornal Americano de Direito Internacional”
N.T.5
Em português. “Documentos Oficiais”
XXVIII
Instrumentos Regionais Fonte

Convenção Europeia dos Direitos do Homem


Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liber- • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 213, p. 221;
dades Fundamentais (Roma, 4 de Novembro de 1950) (entrada em vigor: 3 de Setem- Compilação, vol. II.
bro de 1953)

Protocolo Adicional n.o 1 à Convenção Europeia dos Direitos do • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 213, p. 221;
Homem (Paris, 20 de Março de 1952) (entrada em vigor: 18 de Maio de 1954) Compilação, vol. II.

Protocolo Adicional n.o 4 à Convenção Europeia dos Direitos do • Conselho da Europa, European Treaty
Homem (Estrasburgo, 16 de Setembro de 1963) (entrada em vigor: 2 de Maio de 1968) SeriesN.T.6, n. 46; Compilação, vol. II.
o

Convenção Americana sobre Direitos Humanos (“Pacto de São José • Nações Unidas, Treaty Series, vol. 1144, p. 123;
da Costa Rica”) (São José, 22 de Novembro de 1969) (entrada em vigor: 18 de Julho de 1978) Compilação, vol. II.

Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos (Nairobi, 26 de • OUA, documento CAB/LEG/67/3/Rev.;
Junho de 1981) (entrada em vigor: 21 de Outubro de 1986) International Legal MaterialsN.T.7 (Washington,
D.C.), vol. XXI (1982), p. 58; Compilação, vol. II.
Convenção Europeia para a Prevenção da Tortura e das Penas ou • Conselho da Europa, European Treaty Series,
Tratamentos Desumanos e Degradantes (Estrasburgo, 26 de Novembro de n.o 126; Compilação, vol. II.
1987) (entrada em vigor: 1 de Fevereiro de 1989)

N.T6
Em português. “Série de Tratados Europeus”
N.T.7
Em português. “Materiais Jurídicos Internacionais”

XXIX
Declaração de objectivos

O presente manual, o método que enuncia e os cursos sugeri-


dos em conformidade com este método têm por objectivos:

a) Fornecer informação sobre as normas internacionais de direi-


tos humanos relevantes para o trabalho da polícia;

b) Estimular a aquisição de conhecimentos e a formulação e apli-


cação das políticas necessárias à tradução desses conhecimen-
tos em condutas práticas;

c) Sensibilizar os participantes para o particular papel que desem-


penham na promoção e protecção dos direitos humanos e para a
possibilidade de as suas actividades quotidianas afectarem os
direitos humanos;

d) Reforçar o respeito e a confiança dos funcionários responsáveis


pela aplicação da lei na dignidade humana e nos direitos huma-
nos fundamentais;

e) Promover e reforçar um sistema de valores baseado na legalidade


e na observância das normas internacionais de direitos huma-
nos no seio dos organismos responsáveis pela aplicação da lei;

f) Ajudar os organismos responsáveis pela aplicação da lei e seus


agentes a exercer eficazmente as suas actividades mediante a
observância das normas internacionais de direitos humanos;

g) Habilitar os instrutores e formadores das forças policiais a


ministrar educação e formação em matéria de direitos huma-
nos aos funcionários responsáveis pela aplicação da lei.

Os principais destinatários são:

• Formadores e instituições de formação das forças policiais;


• Agentes da polícia nacional, tanto civil como militar;
• Contingentes de polícia civil [CIVPOL] das operações de
manutenção da paz das Nações Unidas.

XXX
*
Pri
m eira
Par
t e

FORMAÇÃO
DOS FUNCIONÁRIOS RESPONSÁVEIS
PELA APLICAÇÃO DA LEI
TEORIA E PRÁTICA
cap
ítu
lo

01
Método do Alto Comissariado / Centro
para os Direitos Humanos nas Nações
Unidas para a Formação da Polícia

1. O Alto Comissariado para os Direitos Humanos/ Unidas, assim assegurando que o essencial das
/Centro para os Direitos Humanos (AC/CDH), normas das Nações Unidas se veja plena e sis-
através do seu programa de serviços consultivos tematicamente reflectido no conteúdo dos cur-
e de assistência técnica, participa desde há mui- sos. 1
tos anos na formação de profissionais de todas as
áreas da administração da justiça, nomeada- b. Formação de formadores
mente a aplicação da lei. O presente manual 3. Os participantes nacionais nos cursos do
baseia-se no método desenvolvido ao longo des- AC/CDH são seleccionados no pressuposto de
ses anos, cujos elementos fundamentais são os que as suas responsabilidades se manterão uma vez
seguintes: concluída a actividade de formação. São encarre-
gados da organização das suas próprias actividades
a. Método colegial
1
Quando não haja disponi-
bilidade por parte dos peri-
de formação e divulgação após regressarem aos res-
2. O AC/CDH recorre a uma tos de direitos humanos das
Nações Unidas, os organi-
pectivos postos. Desta forma, os cursos têm um
lista de peritos orientada para a zadores de cursos prepara-
dos com base no presente
efeito multiplicador, à medida que a informação é
manual poderão conside-
prática. Em lugar de reunir pai- rar a possibilidade de pedir
difundida no seio das instituições em causa.
a participação de peritos de
néis compostos apenas por pro- organizações não governa-
Desde 1992, os cursos do AC/CDH incluem com-
mentais de defesa e pro-
fessores e teóricos, o AC/CDH moção dos direitos
ponentes de formação de formadores, tais como
humanos.
escolhe profissionais da área lições e materiais concebidos para dar a conhecer
em questão, nomeadamente agentes e formadores aos participantes diversas técnicas pedagógicas,
das forças policiais. De acordo com a experiência assim os habilitando a ministrar eles próprios for-
do AC/CDH, obtêm-se melhores resultados mação, para além do conteúdo substancial das ses-
recorrendo ao método colegial através do qual os sões. Para melhores resultados, os organizadores
polícias discutem entre si do que seguindo um dos cursos deverão procurar seguir este mesmo
modelo baseado na relação professor-aluno. Esta modelo de formação.
abordagem permite ao AC/CDH aperceber-se
da cultura profissional própria das forças policiais. c. Técnicas pedagógicas
Ao mesmo tempo, formandos e formadores são 4. Todos os cursos desenvolvidos pelo AC/CDH
acompanhados e orientados por pessoal espe- incluem uma diversidade de técnicas eficazes para
cializado do AC/CDH e da Divisão para a Pre- a formação de adultos. Em particular, sugere-se a
venção do Crime e Justiça Penal das Nações utilização de métodos de ensino criativos e inte-

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 3
ractivos, que oferecem as melhores possibilida- tudo, embora as recomendações práticas constituam
des de garantir a participação activa dos poten- um dos componentes essenciais dos cursos, não
ciais formandos. Discussões recentemente seria possível assegurar uma formação aprofundada
realizadas entre pessoal do AC/CDH e diversas sobre as aptidões técnicas necessárias ao bom
organizações não governamentais e instituições desempenho da actividade policial num manual ou
com larga experiência na área da formação levaram curso de direitos humanos. Em vez disso, há que
à identificação das seguintes técnicas como sendo destacar a existência dessas técnicas, que deverão
especialmente adequadas e eficazes na formação mais tarde complementar a formação em matéria
de adultos em matéria de direitos humanos: gru- de direitos humanos. A formação técnica das polí-
pos de trabalho, conferências-debate, estudo de cias é assegurada, a nível internacional, por diver-
casos práticos, discussões em grupo, mesas redon- sas instituições nacionais de formação policial, no
das, sessões de reflexão, simulação e dramatização, quadro de programas de âmbito internacional há
visitas de estudo, exercícios práticos (nomeada- muito estabelecidos.
mente a elaboração de curricula de cursos e
regulamentos internos) e meios audiovisuais. f. Explicação pormenorizada das normas
Recomendações sobre a maneira de utilizar tais téc- 7. Os cursos ministrados pelo AC/CDH pre-
nicas podem ser encontradas no capítulo III, infra. tendem expor de forma detalhada as normas inter-
nacionais pertinentes. Para este fim, são
d. Especificidade dos destinatários traduzidos e distribuídos pelos participantes os
5. O AC/CDH constatou que a mera enuncia- instrumentos internacionais relevantes, bem
ção de vagos princípios de aplicação geral apre- como materiais pedagógicos simplificados. De
senta poucas probabilidades de influenciar o qualquer forma, o pessoal especializado do
comportamento concreto dos destinatários. Para AC/CDH controla o conteúdo dos cursos e das ses-
serem eficazes – e, no fundo, para valerem de sões e completa a explicação das normas, conforme
todo a pena – as actividades de formação e educação necessário. O presente manual sugere uma estru-
devem ser concebidas e desenvolvidas tendo em tura pré-definida para esse conteúdo, a fim de faci-
conta o público específico a que se destinam, litar o trabalho dos formadores.
sejam polícias, pessoal dos serviços de saúde,
juristas, estudantes ou outros. Nesta conformi- g. Sensibilização
dade, as actividades pedagógicas do AC/CDH 8. Para além de ensinarem as normas e de
colocam maior ênfase nas normas directamente transmitirem conhecimentos práticos, os cursos do
relevantes para, por exemplo, o trabalho quoti- AC/CDH incluem exercícios concebidos para sen-
diano da polícia, e menos na história e estrutura sibilizar os formandos para a possibilidade de eles
dos mecanismos das Nações Unidas. próprios atentarem contra os direitos humanos,
mesmo que de forma involuntária. Por exemplo,
e. Orientação prática podem ser muito úteis os exercícios bem concebidos
6. No mundo real, a polícia quer saber não só (nomeadamente a dramatização) destinados a
“quais são as regras”, mas também como desem- consciencializar os formandos para a existência
penhar o seu trabalho de forma eficaz dentro dos de preconceitos raciais ou de género nas suas pró-
limites impostos por essas regras. As actividades prias atitudes ou comportamentos. Do mesmo
de formação que ignorem qualquer um destes modo, a particular importância de determinadas
aspectos não serão provavelmente credíveis nem normas no que se refere, por exemplo, às mulhe-
eficazes. Neste pressuposto, o AC/CDH inclui em res nem sempre resulta de imediato evidente.
todos os seus cursos informação prática sobre téc- Os formandos deverão conseguir compreender,
nicas comprovadas para o bom desempenho das nomeadamente, que o termo “tratamento degra-
funções do grupo-alvo, proveniente de recomen- dante”, que encontramos em diversos instru-
dações de peritos e de publicações sobre as actuais mentos internacionais, se pode traduzir em
melhores práticas para a profissão em causa. Con- diferentes actividades ou restrições consoante se

4
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
aplique a mulheres ou a homens, ou a distintos gru- truir as suas próprias notas e material de apresen-
pos culturais. tação, com base no conteúdo do manual e na reali-
dade específica no terreno.
h. Flexibilidade de concepção e aplicação
9. Para serem de utilidade universal, os cursos de i. Instrumentos de avaliação
formação devem ser concebidos de forma a facili- 10. Os cursos do AC/CDH incluem exercícios de
tar a flexibilidade da respectiva utilização, sem avaliação anteriores e posteriores ao próprio curso,
impor aos formadores enfoques ou métodos rígidos. tais como questionários de exame, com três objec-
Os cursos deverão ser passíveis de adaptação às tivos principais. Os questionários prévios, quando
necessidades específicas e às particulares circuns- correctamente utilizados, permitem aos formado-
tâncias culturais, educativas, regionais e vivenciais res adequar o curso às particulares necessidades dos
de uma ampla diversidade de potenciais destinatá- destinatários. Os questionários finais e as sessões
rios no seio de um determinado grupo-alvo. Por de avaliação permitem aos formandos avaliar os
conseguinte, o presente manual não se destina a ser conhecimentos adquiridos e contribuem para a
“lido” textualmente aos formandos, devendo antes modificação e para o aperfeiçoamento contínuo (e
o formador seleccionar o material relevante e cons- crucial) dos cursos sugeridos no presente manual.

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 5
cap
ítu
lo

02
Participantes
nos programas
de formação

a. Definição e categorias hierárquicos como funcionais, a fim de asse-


11. Os programas de formação indicados no pre- gurar que os programas de formação se ade-
sente manual destinam-se aos funcionários res- quam aos diversos tipos de participantes. As
ponsáveis pela aplicação da lei. Estes funcionários seguintes categorias genéricas de funcionários
são definidos no comentário ao artigo 1.o do são identificadas para os fins dos programas
Código de Conduta para os Funcionários Respon- de formação e para a utilização do presente
sáveis pela Aplicação da Lei da seguinte forma: manual:

a) A expressão «funcionários responsáveis pela apli- Funcionários superiores nacionais responsáveis


cação da lei» inclui todos os agentes da lei, quer nomea- pela aplicação da lei – aqueles que desempenham
dos, quer eleitos, que exerçam poderes de polícia, funções de definição política ou estratégica e têm
especialmente poderes de prisão ou detenção. responsabilidades de comando no seio das orga-
nizações policiais.
b) Nos países onde os poderes policiais são exercidos Instrutores e formadores de funcionários respon-
por autoridades militares, quer em uniforme, quer não, sáveis pela aplicação da lei – pessoas responsáveis
ou por forças de segurança do Estado, a definição dos pela instrução e formação dos funcionários res-
funcionários responsáveis pela aplicação da lei incluirá ponsáveis pela aplicação da lei em todos os domí-
os funcionários de tais serviços. nios da formação policial.
[…]
12. Para maior brevidade e diversidade linguís- Funcionários nacionais responsáveis pela apli-
tica, o termo “polícia” é também utilizado neste cação da lei sem funções de comando – aqueles
manual como alternativa à expressão “funcionários que exercem funções “nas ruas” e os que têm res-
responsáveis pela aplicação da lei”. Ambas as ponsabilidades de supervisão imediata sobre
expressões se referem à categoria de pessoal abran- esses funcionários. É também útil identificar
gida pela definição acima indicada, bem como aos subcategorias neste escalão hierárquico, por
contingentes de polícia civil (CIVPOL) das operações exemplo: investigadores criminais, pessoas que
de manutenção da paz das Nações Unidas. desempenham funções específicas de luta con-
tra a instabilidade civil e polícia “generalista”
13. Convém distinguir entre as diferentes cate- que desempenha uma ampla variedade de fun-
gorias de agentes policiais, tanto em termos ções de policiamento.

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 7
Funcionários que prestam serviço nos contingen- tudes e condutas. Isto é verdade quer tais funcio-
tes de polícia civil (CIVPOL) das operações de nários desempenhem funções gerais de policia-
manutenção da paz das Nações Unidas. mento quer sejam especialistas em matérias como
investigação criminal ou manutenção da ordem
NOTA PARA O FORMADOR: em função das estruturas pública. É no desempenho efectivo e quotidiano da
hierárquicas e de outros factores de organização, actividade essencial da polícia que os direitos
os funcionários responsáveis pela aplicação da lei humanos são respeitados ou, pelo contrário, viola-
de grau intermédio ou “quadros médios” podem dos. Além disso, os agentes a este nível operam fre-
ser incluídos nos programas de formação desti- quentemente sozinhos ou em pequenos grupos –
nados quer aos funcionários superiores quer aos muitas vezes sem supervisão. É, pois, de importância
que não desempenham funções de comando. fundamental que reconheçam que o respeito dos
direitos humanos constitui um elemento indis-
b. Razões específicas que justificam a for- pensável para o bom desempenho das suas funções.
mação de diversas categorias de funcionários
responsáveis pela aplicação da lei 18. Os contingentes de polícia civil (CIVPOL) das
14. É importante formar os funcionários superiores operações de manutenção da paz têm uma parti-
a fim de dar credibilidade ao programa de formação cular responsabilidade de respeitar as normas de
para a organização policial no seu conjunto, bem direitos humanos das Nações Unidas, uma vez
como por aquilo que representam – não apenas no que trabalham sob a égide da organização que
seio da instituição, mas também no âmbito dos sis- criou essas normas. As suas funções incluem tam-
temas político e de justiça penal. Por exemplo, os bém o dever de aconselhar os organismos locais
polícias deste escalão poderão exercer pressão para que encarregados da aplicação da lei com base, não na
sejam introduzidas as alterações que considerem lei do respectivo Estado, mas nas normas inter-
necessárias ao desempenho da função policial; nacionais indicadas no presente manual. Assim,
podem integrar organismos nacionais criados para for- os agentes da CIVPOL devem respeitar escrupu-
mular recomendações sobre alterações ou reformas losamente e promover activamente as normas das
constitucionais ou legais; podem definir directrizes Nações Unidas em matéria de aplicação da lei.
a seguir dentro da organização e podem adoptar deci-
sões operacionais com amplas repercussões. c. Características particulares dos organis-
mos e funcionários responsáveis pela aplicação
15. Em particular, é importante ministrar for- da lei
mação em matéria de direitos humanos e normas 19. Nem todas as características dos organismos
humanitárias a esta categoria de funcionários para encarregados da aplicação da lei, ou da cultura policial
alcançar os objectivos (b) e (e) enunciados na são universais; existem variações em função da per-
“Declaração de Objectivos” supra referida (pág. 1). sonalidade, geração e orientação profissional dos agen-
tes. É, porém, possível fazer uma série de observações
16. A importância da formação dos instrutores e gerais a respeito das organizações e funcionários de polí-
formadores das forças policiais é reconhecida na cia, relevantes para os programas de formação em direi-
política de formação de formadores do AC/CDH. tos humanos. Até que ponto e de que forma as
Ao formar esta categoria de funcionários, é possí- organizações e os funcionários individualmente con-
vel cumprir todos os objectivos enunciados na siderados se afastam destas generalizações são aspec-
“Declaração de Objectivos”. tos que devem, naturalmente, ser apreciados ao nível
do local onde se levam a cabo os programas.
17. É obviamente importante que os funcionários
responsáveis pela aplicação da lei com responsa- 20. Essas observações gerais são as seguintes:
bilidades de policiamento directo “nas ruas” conhe- Podem existir divisões significativas no seio dos
çam as normas de direitos humanos e direito organismos, em função dos diversos níveis hie-
humanitário e que tais normas orientem as suas ati- rárquicos e funcionais.

8
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Existe a tendência para fazer grandes distinções da lei considerarem que o trabalho da polícia é
entre as actividades definidas como “o verdadeiro uma actividade essencialmente prática que
trabalho do polícia” (tarefas operacionais e práti- exige respostas pragmáticas e muitas vezes
cas) e outras funções necessárias nos organismos expeditas para situações a que dão uma solução
encarregados da aplicação da lei. imediata, embora por vezes meramente tem-
porária.
Existe frequentemente um sentimento de que os
imperativos da actividade policial prática são NOTA PARA O FORMADOR: As observações e
incompatíveis com os requisitos legais e admi- comentários constantes do presente capítulo ser-
nistrativos. viram de base a algumas das recomendações cons-
tantes dos capítulos seguintes. Deverão ser tidos
Um corolário destas tendências é o facto de em conta pelos organizadores e intervenientes nos
muitos funcionários responsáveis pela aplicação cursos.

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 9
cap
ítu
lo

03
Técnicas
de Formação
Eficazes

a. Objectivos da aprendizagem • Ficar sensibilizado, ou seja, experimentar uma


21. O formador tem por objectivo satisfazer as mudança de atitudes (negativas) ou reforçar atitudes
necessidades do aluno. Nesta conformidade, são três (positivas) e assim aperfeiçoar a sua conduta – por
os objectivos fundamentais de aprendizagem que ser- forma a que os agentes da lei reconheçam, ou conti-
vem de base a este programa e reflectem as seguin- nuem a reconhecer, a necessidade de promover e pro-
tes três necessidades de educativas dos participantes teger os direitos humanos e o façam, de facto, no
em todos os programas de formação para forças exercício das suas funções. Tudo isto tem a ver com os
policiais: valores do funcionário responsável pela aplicação da
lei. Este é, também, um processo de longo prazo que
• Receber informação e adquirir conhecimentos – deverá ser reforçado mediante uma formação com-
sobre o que são e o que significam as normas de plementar e práticas adequadas de comando e gestão.
direitos humanos e direito humanitário;
• Adquirir ou reforçar aptidões – para que as fun- 22. Assim, uma formação eficaz deverá procurar
ções dos organismos responsáveis pela aplicação aperfeiçoar:
da lei e as tarefas dos agentes possam ser desem- • conhecimentos
penhadas com eficácia e dentro do respeito dos • aptidões
direitos humanos. O simples conhecimento das • atitudes
normas não é suficiente para que a polícia as tra- a fim de contribuir para: um comportamento adequado.
duza numa conduta operacional apropriada. A
aquisição de conhecimentos deve ser olhada b. Recomendações gerais
como um processo gradual, já que as aptidões se 23. Com base na informação e nos comentários
aperfeiçoam com a prática e a aplicação. Pode, relativos à classificação dos participantes estabe-
assim, haver necessidade de prolongar o pro- lecida no capítulo II, podem formular-se as
cesso, se as necessidades de formação que se seguintes recomendações gerais sobre a forma-
identifiquem em áreas específicas da actividade ção da polícia em direitos humanos:
policial assim o exigirem, através dos programas
de assistência técnica das Nações Unidas ou de for- a) Quando for possível, devem ser organizados
mas de cooperação estabelecidas ao abrigo de pro- programas de formação diferenciados para as diversas
gramas bilaterais de carácter técnico no domínio categorias de funcionários responsáveis pela apli-
da actividade policial. cação da lei, segundo as respectivas funções e posi-

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 11
ção hierárquica. Isto permite que a formação se 25. Recordemos os nove elementos do método
centre nos seguintes aspectos: proposto pelo Alto Comissariado/Centro para os
• estratégia e formulação de políticas em matéria Direitos discriminados no capítulo I:
de aplicação da lei para os funcionários superiores • apresentações colegiais;
de polícia; • formação de formadores;
• questões pedagógicas para instrutores e forma- • técnicas pedagógicas interactivas;
dores; • especificidade dos destinatários;
• táctica e policiamento “de rua” para os funcio- • orientação prática;
nários não incluídos nas categorias anteriores; • explicação pormenorizada das normas;
• questões de particular relevância para os fun- • ensino orientado para a sensibilização;
cionários com funções específicas, por exemplo de • flexibilidade de concepção e aplicação;
investigação criminal ou manutenção da ordem • utilização de instrumentos de avaliação.
pública, ou agentes da polícia civil (CIVPOL).
Este método exige uma abordagem interactiva,
N OTA PARA OS FORMADORES : Tal como supra flexível, pertinente e variada, tal como explicitado
indicado no capítulo II.A, dependendo das em seguida:
estruturas hierárquicas e de outros factores
organizacionais, os funcionários responsáveis Interactivo – O programa implica a utilização de um
pela aplicação da lei de grau intermédio podem método de formação participativo e interactivo. Os
ser incluídos nos programas de formação des- agentes policiais, tal como outros grupos de for-
tinados quer aos funcionários superiores, quer mandos adultos, absorvem com mais facilidade o
aos que operam “nas ruas”. Caso se considere conteúdo dos cursos quando a informação não lhes
que a participação de funcionários com dife- é “injectada”. Para que a formação seja eficaz, os par-
rentes funções no mesmo programa é inevitá- ticipantes devem intervir em pleno no processo. Como
vel, ou mesmo desejável, poder-se-ão então profissionais que são, os formandos podem contri-
explorar as diferentes experiências dos partici- buir com um importante acervo de experiências que
pantes, para fins pedagógicos. As distintas pers- devem ser activamente aproveitadas para transfor-
pectivas e prioridades de uns e outros podem ser mar o curso numa actividade interessante e eficaz.
comparadas, para conseguir melhores resulta-
dos. Flexível – Contrariamente a certos mitos associados
à formação das polícias, não é recomendável a
b) A orientação predominantemente prática e prag- adopção de uma metodologia “militar”, obrigando
mática dos agentes policiais deverá ver-se reflec- os alunos a participar. O resultado mais frequente
tida nos métodos pedagógicos e formativos de tais técnicas é o suscitar de um ressentimento
adoptados. Isto significa: entre os participantes e, em consequência, a obs-
• criar oportunidades para traduzir em termos prá- trução das vias de comunicação entre formadores
ticos as ideias e os conceitos; e formandos. Embora o formador deva manter
• permitir aos participantes concentrar-se nos um certo controlo, a primeira regra deverá ser a
reais problemas da actividade policial; flexibilidade. As questões colocadas pelos partici-
• responder a questões de interesse imediato para pantes – mesmo as mais difíceis – devem ser bem
os participantes, por estes colocadas no decorrer do acolhidas e respondidas pelos formadores de
programa. forma positiva e franca. Da mesma forma, um
horário excessivamente rígido pode ser motivo de
c. Método participativo frustração e ressentimento entre os participantes.
24. Para obter os melhores resultados possíveis,
devem ser tidos em conta alguns princípios bási- Pertinente – A pergunta que o aluno se fará em silên-
cos na aplicação do método participativo enun- cio ao longo de todo o curso será: “O que tem isto a
ciado no capítulo I. ver com o meu trabalho diário?”. A forma como o

12
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
formador consiga dar resposta continuamente a essa adaptarem-se às necessidades dos destinatários
pergunta será um factor importante para o seu êxito. ao longo do curso.
Assim, deve fazer-se tudo quanto seja possível para
assegurar que todo o material apresentado é rele- d. Técnicas participativas
vante para o trabalho dos participantes e que essa rele- 27. Indicam-se em seguida algumas técnicas par-
vância é posta em destaque sempre que não for ticipativas.
imediatamente evidente. Esta tarefa pode ser mais
fácil na abordagem de temas operacionais, como a
captura ou utilização de armas de fogo. Pode, porém, 1. APRESENTAÇÃO E DEBATE
exigir um planeamento mais cuidadoso relativa-
mente às questões de carácter essencialmente teó- 28. Depois da exposição (conforme acima des-
rico, como a actividade da polícia numa sociedade crita, no parágrafo 26), é conveniente promover um
democrática ou a protecção de grupos vulneráveis. debate informal para esclarecer alguns pontos e faci-
litar o processo de tradução das ideias na prática.
Variado – Para conseguir e manter a participação Este debate é moderado pela pessoa que proce-
activa dos formandos, será conveniente variar as deu à exposição que deve tentar suscitar a inter-
técnicas pedagógicas utilizadas ao longo do curso. venção de todos os participantes. Convém que os
Os agentes não estão, na sua maioria, acostuma- formadores tenham preparada uma lista de ques-
dos a longas sessões de estudo e uma rotina abor- tões a fim de iniciar o debate.
recida e monótona fá-los-á tomar mais consciência
da própria aula do que das questões que nela se 29. No final da exposição e do debate, o formador
abordam. Dever-se-ão seleccionar técnicas diver- deverá fazer um resumo ou dar uma panorâmica
sificadas, alternando a discussão com a dramati- geral da discussão. Deverá também complemen-
zação e o estudo de casos práticos com sessões de tar a sessão com a utilização de suportes audiovi-
reflexão colectiva, consoante o tema em análise. suais previamente preparados ou material de
estudo distribuído antecipadamente a todos os
26. Assim, em linhas gerais, devem adoptar-se os participantes.
seguintes métodos e abordagens:

Exposição das normas – uma breve apresentação das 2. CONFERÊNCIAS – DEBATE


normas de direitos humanos e direito humanitário
relevantes para um determinado aspecto da acti- 30. A constituição de um painel de formadores
vidade policial e implicações dessas normas no tra- ou peritos, eventualmente depois de uma expo-
balho do agente; sição feita por um ou vários deles, é por vezes
muito útil. Este método é particularmente eficaz
Utilização de técnicas de participação – permite aos par- quando os peritos têm experiência em diversos
ticipantes utilizarem os seus conhecimentos e a aspectos de um mesmo tema, em resultado das
experiência adquirida no desempenho da actividade respectivas trajectórias profissionais ou países de
policial para traduzir na prática as ideias e os con- origem. O ideal é que este grupo seja composto
ceitos enunciados na exposição teórica; permite-lhes por peritos de direitos humanos e por especia-
também considerar as repercussões práticas das listas na actividade e formação das forças poli-
normas de direitos humanos e direito humanitá- ciais.
rio nas actividades quotidianas das forças poli-
ciais. 31. Um dos formadores intervenientes na exposi-
ção deverá servir de mediador, a fim de permitir uma
Enfoque e flexibilidade – permite aos participantes participação tão ampla quanto possível, garantir
concentrarem-se em questões de interesse real e que as necessidades dos formandos sejam satisfei-
actual; e permite aos instrutores e formadores tas e fazer um resumo ou exposição das linhas

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 13
gerais do debate no final do mesmo. Este método tem depois encontrar soluções para o mesmo. Os
deverá incluir a interacção directa entre os próprios exercícios de reflexão colectiva encorajam e exigem
membros do painel e entre estes e os participantes. um elevado grau de participação e estimulam ao
máximo a criatividade dos participantes.

3. GRUPOS DE TRABALHO 36. Depois da apresentação do problema, todas as


ideias que surjam para resolvê-lo serão anotadas
32. Os formandos podem ser divididos em peque- num quadro ou painel. Serão tidas em conta todas
nos grupos de cinco ou seis participantes. A cada as respostas, sem pedir que se expliquem e, nesta
grupo será dado um tema para debater, um problema fase, não se julgará nem rejeitará nenhuma delas.
para resolver ou algo concreto para produzir num Em seguida, o moderador classifica e analisa as res-
curto período de tempo – até 50 minutos. Se neces- postas e é nesta altura que algumas se combinam,
sário, pode ser afecto um moderador a cada grupo. adaptam ou rejeitam. Por último, o grupo formula
Em seguida, reúnem-se de novo todos os forman- recomendações e delibera sobre o problema. O pro-
dos e um porta-voz de cada grupo apresenta as deli- cesso de aprendizagem ou de sensibilização ocorre
berações do seu grupo. Os formandos podem então em resultado do debate em grupo sobre cada proposta.
debater os temas e as respostas de cada grupo.

6. SIMULAÇÃO/DRAMATIZAÇÃO
4. ESTUDO DE CASOS PRÁTICOS
37. Nestes exercícios, os participantes são chama-
33. Além de debater os temas propostos para dis- dos a desempenhar uma ou mais tarefas numa situa-
cussão, os grupos de trabalho podem analisar ção plausível que simula a “vida real”. No contexto
casos práticos. Estes dever-se-ão basear em situa- dos direitos humanos e aplicação da lei, os exercí-
ções plausíveis e realistas que não sejam excessi- cios de simulação ou dramatização podem ser utili-
vamente complexas e girem em torno de duas ou zados para praticar os conhecimentos adquiridos ou
três questões principais. A solução dos casos prá- para que os participantes possam experimentar situa-
ticos deverá permitir aos participantes exercitar ções que até então lhes eram desconhecidas.
as suas aptidões profissionais e aplicar as normas
de direitos humanos e direito humanitário. Os 38. O resumo da situação deverá ser distribuído
funcionários superiores de polícia deverão exerci- por escrito a todos os participantes, atribuindo-se
tar as suas aptidões de comando e gestão. a cada um deles uma personagem (o agente da
polícia, a vítima, o juiz e outros). Durante o exer-
34. A situação que se propõe para análise pode ser cício não se deverá permitir que alguém abandone
apresentada aos participantes para que a examinem a sua personagem qualquer que seja o motivo. Esta
no seu conjunto ou sucessivamente desenvolvida técnica revela-se particularmente útil para sensi-
perante eles (“hipóteses evolutivas”) mediante a bilizar os participantes para o respeito dos senti-
sucessiva introdução de novos elementos a que mentos e da perspectiva de outros grupos, assim
têm de dar resposta. como para a importância de certas questões.

5. RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS/SESSÕES 7. VISITAS DE ESTUDO


DE REFLEXÃO CONJUNTA
39. As visitas em grupo a instituições ou locais
35. Estas sessões podem ser conduzidas como com interesse (esquadras de polícia, campos de
exercícios intensivos para solucionar problemas refugiados, centros de detenção) podem ser bastante
simultaneamente teóricos e práticos. Exigem que úteis. O objectivo da visita será explicado de
se proceda à análise de um problema e que se ten- antemão, devendo pedir-se aos participantes que

14
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
prestem especial atenção e anotem as suas obser- b) A sala utilizada deve ter capacidade suficiente
vações para posterior debate. para o número previsto de participantes.

c) Devem existir pequenas salas auxiliares em


8. EXERCÍCIOS PRÁTICOS número suficiente para acolher os grupos de tra-
balho, de modo que os participantes se possam
40. Os exercícios práticos supõem a designação ocupar sem interrupção dos temas que lhes
de participantes para que apliquem e façam tenham sido atribuídos.
demonstrações de determinadas aptidões profis-
sionais sob a supervisão dos formadores. Pode d) As cadeiras e mesas devem ser cómodas e
solicitar-se aos agentes policiais que redijam regu- fáceis de transportar, a fim de permitir a utiliza-
lamentos internos em matéria de direitos huma- ção de diversas técnicas pedagógicas.
nos sobre um aspecto particular da actividade
policial. Os formadores das forças policiais podem f. Planificação tendo em conta as necessi-
ser encarregados de redigir um plano de estudos dades dos participantes
ou de ministrar uma das sessões do curso. 44. O nível de conforto físico dos participantes no
curso repercutir-se-á directamente nos resultados
do mesmo. Tenha presentes, em termos de pla-
9. MESAS REDONDAS neamento, os seguintes factores básicos:

41. Para a realização de mesas redondas, como de a) Deverá ser possível regular a temperatura e
conferências-debate, é necessário reunir um grupo ventilação da sala.
diversificado de especialistas em diversas áreas, com
diferentes perspectivas do tema a abordar. Para que b) O número de participantes nunca deverá
o debate seja animado, é necessário que estejam exceder a capacidade das salas.
presentes os seguintes elementos fundamentais: um
moderador firme e dinâmico, conhecedor quer do c) As casas de banho deverão ser de fácil acesso.
tema em debate quer do uso da técnica de “advogado
do diabo”, e a utilização de hipóteses. O moderador d) O programa diário deverá incluir um inter-
deve provocar intencionalmente os participantes, valo de 15 minutos durante a manhã, um intervalo
estimulando o debate entre os peritos e os forman- para almoço de pelo menos uma hora e outro
dos e controlando o desenrolar da discussão. intervalo de 15 minutos durante a tarde.

e) Deverá permitir-se aos participantes que,


10. MATERIAL AUDIOVISUAL entre os intervalos previstos, se levantem e esti-
quem as pernas ocasionalmente. Dois ou três
42. A formação dos adultos pode ser aperfeiçoada minutos são suficientes, com intervalos apro-
mediante a utilização de quadros, acetatos, posters, priados, eventualmente duas vezes por dia.
exposições, painéis, fotografias, diapositivos e
vídeos ou filmes. f ) Sempre que possível, deverá colocar-se à dis-
posição dos participantes presentes na sala água,
e. Locais para a realização dos cursos café ou bebidas sem álcool.
43. Em termos ideais, o local de realização dos cur-
sos deverá reunir as seguintes condições: g) Os intervalos para almoço deverão ter lugar
durante o período a que os participantes estão
a) Os cursos devem realizar-se num local distinto habituados. Isto pode variar em função das regiões
do habitual local de trabalho dos participantes. e dos locais de trabalho.

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 15
cap
ítu
lo

04
Educadores e Formadores

a. Utilizadores do manual direitos humanos para forças policiais seja feita


45. Os principais utilizadores do presente com base nos seguintes critérios:
manual são os seguintes: • conhecimentos especializados na área em ques-
• formadores e organizadores nacionais que preparam tão;
cursos de direitos humanos para elementos das for- • capacidade para adoptar a metodologia do pro-
ças policiais; grama de formação, em particular no que diz res-
• pessoal das instituições e programas de forma- peito aos aspectos participativos;
ção policiais; • credibilidade e reputação, especialmente entre os
• pessoal dos organismos e programas das Nações agentes policiais a quem o programa se destina.
Unidas que proporcionam formação às forças poli- Em termos ideais, o grupo de formadores deverá
ciais; ser composto principalmente por instrutores das
• formadores das forças de polícia civil (CIVPOL) forças policiais e pessoas com experiência no
das Nações Unidas; domínio da aplicação da lei, que deverão ser acom-
• especialistas na área policial que participam em panhados por pelo menos um especialista na área
cursos de formação em matéria de direitos huma- dos direitos humanos.
nos;
• estudantes que tenham concluído cursos reali- c. Orientação dos educadores e formadores
zados no âmbito deste programa; 48. É importante que os educadores e formado-
• peritos de direitos humanos e organizações não res recebam informação adequada relativamente
governamentais que participam em cursos de for- aos seguintes aspectos:
mação para polícias. • elementos básicos sobre a história, geografia,
demografia e questões políticas, económicas e
46. O manual pode também servir de referên- sociais do país onde o programa se vai desenvolver;
cia aos profissionais responsáveis pela aplica- • elementos básicos sobre as disposições consti-
ção da lei. tucionais e legais em vigor nesse país;
• tratados de direitos humanos e direito humani-
b. Selecção dos educadores e formadores tário de que o Estado é parte;
47. É importante que a selecção das pessoas res- • organização e dimensões do organismo ou organis-
ponsáveis pelas exposições e outras actividades mos responsáveis pela aplicação das leis existentes
desenvolvidas no âmbito dos cursos de formação em no país;

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 17
• categorias e número de agentes policiais, bem mente a cada um dos temas que lhe tenham sido
como questões actuais relativas à aplicação da lei e atribuídos.
aos direitos humanos de particular interesse no
país onde o programa irá ser desenvolvido. e) Formule recomendações práticas com base
na sua experiência profissional no decorrer dos
d. Funções do formador debates e das reuniões dos grupos de trabalho,
49. Os formadores que participam nos cursos nomeadamente durante as sessões dirigidas por
organizados com base no presente manual deve- outros formadores.
rão receber as seguintes instruções:
f ) Seleccione um dos exercícios práticos suge-
ANTES DO CURSO: ridos no presente manual para cada uma das
sessões que esteja encarregado de dirigir, a fim
a) Estude o manual, prestando especial atenção de a utilizar com os grupos de trabalho.
às sessões em que irá participar.
g) Utilize material visual auxiliar sempre que
b) Prepare notas muito breves para o auxilia- possível.
rem nas exposições, tendo em conta as limitações
de tempo estabelecidas no programa de curso. h) Assegure-se de que quaisquer recomendações
ou comentários formulados sejam conformes às
c) Prepare recomendações práticas para os assis- normas internacionais indicadas no manual;
tentes, com base na sua experiência profissional, a
fim de os auxiliar a aplicar as relevantes normas de i) Estimule a participação e discussão activas
direitos humanos no seu trabalho quotidiano no seio do grupo.
enquanto agentes policiais.
j) Dê conselhos e formule observações a res-
d) Participe numa reunião prévia em conjunto peito dos materiais de formação utilizados no
com toda a equipa de formadores, pelo menos um curso, incluindo o presente manual.
dia antes do início do curso.
k) Assista a todas as cerimónias de abertura e
DURANTE O CURSO: encerramento e a todos os eventos que acompa-
nhem o programa de formação.
a) Participe em reuniões de informação diárias,
antes e depois das aulas, em conjunto com toda a DEPOIS DO CURSO:
equipa de formadores.
a) Participe numa reunião final em conjunto
b) Assista e participe em todas as sessões do curso. com toda a equipa de formadores.

c) Em caso de exposições conjuntas, reúna-se com b) Estude o manual para aperfeiçoar o seu
o colega que consigo irá dirigir a sessão no dia anterior conhecimento de qualquer matéria na qual não se
a cada apresentação, a fim de a preparar em conjunto. sinta completamente confortável.

d) Faça exposições breves, respeitando os limi- c) Aperfeiçoe e reveja os seus materiais didácticos
tes de tempo estabelecidos no manual, relativa- pessoais antes de cada curso subsequente.

18
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cap
ítu
lo

05
Utilização do Manual

50. Uma vez considerados quatro aspectos parti- sociedade democrática e a não discriminação.
culares da teoria e prática da formação nos capí- Aborda questões de princípio que são importantes
tulos anteriores, convém agora explicar a estrutura a nível da definição de políticas e estratégia poli-
e o conteúdo do restante manual. cial, logo relevantes para os funcionários que tra-
balham a esse nível. O seu conteúdo é igualmente
51. As partes segunda a quinta do manual contêm importante para educadores e formadores das for-
a informação e os materiais essenciais para a formação ças policiais, que devem conhecer devidamente
dos agentes policiais em matéria de direitos huma- os conceitos e princípios fundamentais no domí-
nos, abordando os seguintes aspectos: conceitos fun- nio da aplicação da lei e direitos humanos. Alguns
damentais (segunda parte); deveres e funções da dos tópicos abordados na segunda parte são tam-
polícia (terceira parte); grupos necessitados de pro- bém importantes para os funcionários que traba-
tecção especial ou tratamento distinto (quarta parte); lham “nas ruas”.
e questões de comando, direcção e controlo (quinta
parte). Como veremos, algum do material assume Capítulo VII – Fontes, sistemas e normas de direi-
uma relevância distinta para cada uma das diversas tos humanos relevantes no domínio da aplicação
categorias de funcionários e este aspecto será objecto da lei
de comentários à medida que o conteúdo específico
de cada capítulo seja exposto. Os anexos contêm tex- 54. Este capítulo dá-nos uma panorâmica geral do
tos dos principais instrumentos internacionais, bem sistema internacional de protecção dos direitos
como outra informação que complementa os capí- humanos na área da aplicação da lei. Nele se resu-
tulos substantivos abaixo apresentados. mem os diversos organismos, instrumentos e
mecanismos de controlo internacionais, ao
52. Na secção E do presente capítulo, onde se mesmo tempo que se destacam determinados
descrevem a forma e o conteúdo geral dos capítu- tipos de violação para os quais a polícia deverá
los, serão dadas mais indicações a respeito da uti- estar sensibilizada. Este capítulo constitui a base
lização e aplicação do material pedagógico. de uma sessão introdutória com a qual se deverão
iniciar todos os cursos preparados com base no pre-
a. Segunda parte (Conceitos fundamentais) sente manual. Fornece, essencialmente, os alicer-
53. A segunda parte trata dos conceitos amplos ces em que deverá assentar o remanescente do
que são a ética policial, o papel da polícia numa curso.

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 19
Capítulo VIII • Conduta policial ética e lícita para qualquer curso de formação em matéria de
direitos humanos para forças policiais. Abordam
55. A exigência de respeitar a dignidade essencial as normas directamente relevantes para os domí-
da pessoa humana, assim como os fundamentos nios fundamentais da actividade da polícia, no
jurídicos das normas de direitos humanos, são âmbito da qual os direitos humanos são, quer res-
elementos fundamentais neste capítulo e apre- peitados e protegidos, quer violados. Por estes
sentam um interesse considerável para todas as motivos, todos os capítulos têm interesse directo
categorias de agentes policiais. para qualquer uma das categorias de funcionários
responsáveis pela aplicação da lei, embora a forma
Capítulo IX • O papel da polícia numa sociedade de apresentação da matéria possa variar de acordo
democrática com as necessidades dos participantes.

56. Este capítulo trata da necessidade de respon- Capítulo XI • Investigações policiais


sabilizar a polícia pelas suas acções perante a socie-
dade, através das instituições políticas democráticas, 60. Neste capítulo, são identificadas as normas
bem como de a sensibilizar para as necessidades e internacionais com impacto directo sobre as acti-
anseios da população. Estas exigências devem ser vidades de investigação da polícia. Os agentes com
dadas a conhecer, ou recordadas, a todos os funcio- funções especiais de investigação devem examinar
nários responsáveis pela aplicação da lei. o seu conteúdo com algum pormenor. Não obstante,
quase todos os agente policiais levam a cabo inves-
Capítulo X • Polícia e não discriminação tigações em maior ou menor grau, por poucas que
sejam; por isso, todos os participantes devem
57. O respeito do princípio da não discriminação tomar contacto com os elementos fundamentais da
é fundamental para a protecção dos direitos huma- questão.
nos e para que a actuação policial seja eficaz, lícita
e humana. Este princípio é importante a todos os Capítulo XII • Captura
níveis da actividade policial.
61. A competência para efectuar capturas é um dos
OBSERVAÇÕES GERAIS mais importantes poderes das forças policiais,
SOBRE A SEGUNDA PARTE tendo particular impacto em termos de direitos
humanos; por isso, é indispensável que todos os
58. Embora os aspectos fundamentais dos capítulos funcionários responsáveis pela aplicação da lei
supra referidos sejam de interesse para todas as cate- conheçam as normas internacionais que discipli-
gorias de funcionários responsáveis pela aplicação nam esta questão. Os agentes operacionais, que
da lei, o conteúdo das apresentações deverá variar em levam directamente a cabo as operações de captura,
função das necessidades dos participantes. Os prin- devem conhecer bem as salvaguardas e os limites
cípios básicos podem ser apresentados de forma estabelecidos nesta matéria.
breve e sucinta aos funcionários que não necessitem
de analisar todas as suas repercussões na actividade Capítulo XIII • Detenção
policial no seu sentido mais amplo. Contudo, haverá
que desenvolver e alargar os conceitos teóricos e dis- 62. Alguns agentes da lei têm responsabilidades
cutir as questões mais amplas, sempre que necessá- específicas em relação aos detidos, devendo debru-
rio (por exemplo, com os funcionários superiores de çar-se sobre o conteúdo deste capítulo com algum
polícia e com os instrutores e formadores). pormenor. Contudo, a protecção dos detidos é uma
matéria de tal forma importante que todos os fun-
b. Terceira Parte (Deveres e funções da policia) cionários responsáveis pela aplicação da lei devem
59. Os capítulos compreendidos na terceira parte conhecer as normas internacionais concebidas
proporcionam o enquadramento indispensável para a garantir.

20
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Capítulo XIV • Utilização da força e de armas c. Quarta parte (Grupos necessitados de
de fogo protecção especial ou tratamento distinto)

63. A aplicação da lei e a manutenção da ordem 68. A quarta parte é importante devido à vulne-
implicam a possibilidade de recorrer à força para rabilidade das pessoas a que se refere cada um dos
alcançar estes objectivos; daí a importância que o capítulos e ao impacto da actividade da polícia
tema reveste para todos os agentes policiais. sobre a situação dessas pessoas. Embora o seu
conteúdo seja mais teórico do que prático, não é
64. Alguns funcionários são mais susceptíveis de menos importante do que outras secções.
ser chamados a recorrer à utilização da força do
que outros, sendo aliás especialmente treinados Capítulo XVI • Polícia e protecção dos jovens
para o fazer (por exemplo, aqueles que desem-
penham funções específicas no domínio da 69. Alguns agentes policiais têm especiais res-
manutenção da ordem pública). O capítulo XIV ponsabilidades relativamente aos jovens, sendo
assume particular relevância para os polícias este capítulo claramente importante para eles. Con-
dessa categoria. tudo, nele se identificam as normas internacionais
relativas à captura e detenção dos delinquentes
Capítulo XV • Distúrbios internos, estados de juvenis, pelo que reveste interesse para todos os fun-
excepção e conflitos armados cionários responsáveis pela aplicação da lei.

65. Neste capítulo, são apresentados os prin- Capítulo XVII • Aplicação da lei e direitos das
cípios e as normas de direito internacional mulheres
humanitário, por forma a sublinhar o impera-
tivo de uma conduta humana e da protecção 70. Neste capítulo, as mulheres são considera-
das vítimas no decorrer de um conflito. Para das não apenas como vítimas ou potenciais vítimas
além disso, são analisados outros períodos de de violações de direitos humanos e da criminali-
tensão aguda, tais como os distúrbios internos dade, mas também como agentes e participantes
e estados de excepção, explicando aos polícias as na administração da justiça. Por esta razão, todas
limitações jurídicas que acompanham as medi- as categorias de funcionários responsáveis pela
das de emergência. aplicação da lei necessitam de ser confrontados com
as questões que aborda.
66. Os funcionários responsáveis pela aplicação
da lei são, na sua maioria, chamados a intervir Capítulo XVIII • Refugiados e não nacionais
em situações de conflito e desordem ao longo da
sua carreira e a importância da matéria torna-a 71. Por razões históricas e geográficas, alguns
num elemento essencial de qualquer curso de for- países têm enormes e imediatas responsabilidades
mação em direitos humanos destinado à polícia. em relação aos refugiados. A maioria dos países tem
de dar resposta às necessidades dos estrangeiros
OBSERVAÇÕES GERAIS e apátridas seus residentes. Embora existam, por
SOBRE A TERCEIRA PARTE vezes, unidades especializadas da polícia encarre-
gadas de lidar com essas pessoas, qualquer polícia
67. Em todas as matérias abordadas nesta parte, pode, em determinado momento, ser confrontado
é importante concentrar-se nos aspectos estratégicos com elas.
e de definição política com os funcionários supe-
riores de polícia e nos aspectos práticos com os 72. A medida e a forma como este capítulo pode
agentes operacionais. A formação destes últimos ser utilizado como base para um curso dependem
dever-se-á centrar nas imposições legais e na con- da situação do país em causa e das categorias de
dução efectiva das actividades policiais. funcionários participantes. Em qualquer caso, a par-

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 21
ticular vulnerabilidade dos refugiados e não nacio- agentes operacionais conheçam alguns aspectos
nais, bem como a função protectora da polícia, desta questão.
fazem com que este tema mereça atenção particular.
e. Estrutura dos capítulos
Capítulo XIX • Protecção e indemnização das víti- 77. Os capítulos estão estruturados de forma a faci-
mas litar a consideração das repercussões práticas das maté-
rias sobre a actividade da polícia e a auxiliar na explicação
73. Todos os agentes policiais devem conhecer as da informação em causa às diferentes categorias de
formas de prestar apoio às vítimas de delitos e vio- funcionários responsáveis pela aplicação da lei.
lações de direitos humanos. A criação de esquemas
e sistemas capazes de cumprir este objectivo é cla- Princípios fundamentais
ramente da responsabilidade dos funcionários
superiores, sendo o conhecimento das normas 78. Cada capítulo substantivo começa pela enu-
internacionais relativas à protecção das vítimas de meração dos respectivos princípios fundamentais.
grande importância para eles. Estes são definidos com base nos princípios que
fundamentam as detalhadas normas internacionais
d. Quinta parte (Questões de comando, de direitos humanos e direito humanitário e em
direcção e controlo) princípios de importância fundamental no domí-
74. A quinta parte assume particular relevância nio da aplicação da lei. Constituem um resumo
para os funcionários superiores de polícia, apesar sucinto do essencial de cada um dos temas e todas
de as matérias que aborda não dizerem respeito ape- as categorias de funcionários responsáveis pela
nas a esta categoria de funcionários. Tanto os for- aplicação da lei devem conhecê-los.
madores e instrutores das forças policiais como
alguns funcionários de grau intermédio deverão 79. Os capítulos VIII a XXI estão, por sua vez, divi-
conhecer o conteúdo dos capítulos XX e XXI. didos em duas secções, conforme explicado em
seguida.
Capítulo XX • Direitos humanos nas questões de
comando, direcção e organização da polícia Secção A

75. Uma vez conhecidas as matérias abordadas nos 80. A secção A contém as informações necessá-
capítulos precedentes do presente manual, deverá ser rias à apresentação do tema, divididas em três
dada aos funcionários responsáveis pela aplicação da rubricas: Introdução, Aspectos gerais (do tema) e
lei com funções de comando e gestão a oportunidade Observações finais.
de considerarem as implicações das normas inter-
nacionais de direitos humanos e direito humanitá- Introdução – Situa o tema dentro do contexto da
rio nessas responsabilidades. O capítulo XX tem por actividade policial.
função facilitar e estimular este processo.
Aspectos gerais – Fornece informação organizada
Capítulo XXI • Investigação das violações cometi- em torno de diversas sub-rubricas:
das pela polícia
Princípios fundamentais – Exposição e explicação dos
76. A investigação das violações cometidas pela princípios fundamentais de direitos humanos e
polícia cabe evidentemente aos comandantes e direito internacional humanitário que servem de
dirigentes das forças policiais, mas o conteúdo do base às disposições concretas relativas ao tema;
capítulo XXI será também útil para outros fun-
cionários, nomeadamente para os que desempe- Disposições específicas – Exposição das normas per-
nham funções disciplinares a nível interno. Em tinentes relativas ao tema constantes dos diversos
certos casos, será também conveniente que os instrumentos.

22
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Qualquer informação adicional baseada em normas Secção B
internacionais com interesse para o tema em
causa é então exposta nas sub-rubricas seguintes. 84. A Secção B trata da aplicação prática das nor-
Por exemplo, no capítulo XIV, relativo à Utilização mas de direitos humanos e direito humanitário.
da Força e das Armas de Fogo, existem três sub- Contém uma lista de medidas práticas a adoptar
-rubricas sobre “Utilização da força e direito à pelos organismos e funcionários responsáveis pela
vida”, “Utilização da força e execuções extrajudiciais” aplicação da lei a fim de garantir o cumprimento
e “Utilização da força e desaparecimentos”, res- das normas, uma série de exercícios práticos e
pectivamente. uma lista de temas para discussão.

Observações finais – Apresentação das conclusões Medidas práticas


tiradas com base na informação precedente
quanto à actividade policial no domínio em ques- 85. As medidas práticas aparecem divididas em
tão. duas categorias: as que se aplicam a todos os fun-
cionários e as que se aplicam apenas aos funcio-
Apresentações para formadores e instrutores nários com funções de comando e supervisão.
Podem ser utilizadas de diversas formas no con-
81. Deverão incluir uma exposição completa de texto da formação, por exemplo:
todo o material constante da secção A. Os deba-
tes informais que se seguem à apresentação a) como base para os debates informais com
deverão incidir nas questões pedagógicas susci- formadores e instrutores das forças policiais sobre
tadas pelo material e nos aspectos conceptuais do aspectos pedagógicos importantes;
tema.
b) para identificar os aspectos do tema que sejam
Apresentações para funcionários superiores de relevantes em termos de estratégia, definição de
polícia políticas, comando e gestão policial nas apresenta-
ções destinadas aos funcionários superiores;
82. Deverão destacar os princípios fundamen-
tais, resumindo os pormenores das disposições c) para identificar os aspectos do tema que
específicas. Os debates informais subsequentes sejam relevantes em termos de táctica e activida-
deverão incidir sobre as questões relevantes em ter- des operacionais, nas apresentações destinadas
mos de estratégia, definição de políticas, comando aos funcionários sem funções de comando;
e gestão policial.
d) como tema central para os debates com o
Apresentações para funcionários sem funções de grupo de especialistas;
comando
e) para proporcionar novos tópicos de discussão
83. As apresentações destinadas aos agentes no seio dos grupos de trabalho;
operacionais deverão colocar ênfase nos porme-
nores das disposições específicas, em especial f ) como base para as sessões de resolução de pro-
das que definem normas de conduta. Deverá blemas ou reflexão colectiva (por exemplo, pode
recorrer-se às declarações de princípio a fim de pedir-se aos participantes que procurem as
reforçar as proibições e obrigações. As discus- melhores formas de cumprir as obrigações).
sões informais deverão privilegiar os aspectos
tácticos da actividade policial e formas de desem- EXERCÍCIOS PRÁTICOS
penhar as acções policiais concretas em confor-
midade com as normas de direitos humanos e 86. Estes exercícios baseiam-se na prática e exi-
direito humanitário. gem que os participantes se pronunciem sobre

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 23
determinadas questões concretas. Devem ser uti- Temas para discussão
lizados para aperfeiçoar a compreensão das normas
internacionais e analisar formas de as cumprir 88. Estes temas foram concebidos para estimular
através de uma actividade policial eficaz. o debate, quer informalmente, na sequência de
uma apresentação, quer no seio dos grupos de tra-
87. Segundo a forma como estão concebidos, os balho ou em outros contextos apropriados. Podem
exercícios podem ser utilizados como tópicos para ser utilizados para aperfeiçoar o conhecimento
discussão no seio dos grupos de trabalho, como das normas internacionais e dos fundamentos que
exercícios de resolução de problemas ou reflexão serviram de base à sua formulação.
colectiva, ou como estudo de casos práticos. Alguns
abordam questões estratégicas e de definição polí- f. Anexos
tica, sendo por isso particularmente adequados para 89. O presente manual compreende diversos
os funcionários superiores de polícia. Outros tratam anexos que, no seu conjunto, se destinam a
de questões tácticas e práticas, pelo que assumem complementar o conteúdo das primeira e
especial relevância para os funcionários sem res- segunda partes e a facilitar a organização e exe-
ponsabilidades de comando. Por vezes, é indicada cução dos programas de formação. É conve-
a categoria de funcionários a que os exercícios são niente que os formadores e organizadores dos
especialmente dirigidos. Outros, porém, são apro- cursos consultem os anexos antes de prosseguir
priados para consideração por todas as categorias de no programa, a fim de se familiarizarem com
funcionários responsáveis pela aplicação da lei, não algum do precioso material de referência que
sendo dada qualquer indicação a seu respeito. neles se encontra.

24
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cap
ítu
lo

06
Estrutura
e Conteúdo
dos Cursos

a. Introdução humanos podem, além disso, depender dos


90. A estrutura geral e o conteúdo dos cursos de seguintes factores:
formação em matéria de direitos humanos para
funcionários responsáveis pela aplicação da lei orga- a) resultado das acções de avaliação de necessidades
nizados com base no presente manual foram defi- levadas a cabo em relação a determinado país e seu
nidos em função das considerações expostas nos organismo ou organismos responsáveis pela aplica-
capítulos anteriores, em particular: ção da lei, bem como aos potenciais participantes;

a) a abordagem adoptada pelo Alto Comissa- b) tempo disponível para o curso ou cursos.
riado/Centro para os Direitos Humanos das
Nações Unidas, em especial a importância atri- 92. Formularemos em seguida algumas reco-
buída aos aspectos práticos da formação; mendações a respeito da importância a atribuir a
determinados temas abordados em diferentes
b) os participantes nos programas de formação, capítulos do presente manual, nos cursos destina-
tendo em conta as respectivas características e cate- dos a distintas categorias de funcionários respon-
gorias em que se integram; sáveis pela aplicação da lei. Estas recomendações
deverão ser tidas em conta ao considerar o tempo
c) as técnicas pedagógicas, que privilegiam a a destinar a cada um dos temas no programa de
participação dos destinatários; curso. Em seguida, serão propostos três modelos
possíveis para a estrutura dos cursos.
d) os formadores e instrutores, que devem ser
especialistas, credíveis e demonstrar flexibilidade; b. Observações sobre os temas dos capítulos

e) o próprio manual, como enquadramento para a Segunda parte (conceitos fundamentais)


conceptualização e divisão temática da ampla área da
aplicação da lei e direitos humanos, conforme resulta NOTA PARA O FORMADOR: tenha em conta as
dos títulos de cada uma das partes e capítulos. observações formuladas no capítulo V.A, supra.

91. A estrutura e o conteúdo concretos de cada um 93. Cada um dos capítulos deverá ser abordado
dos cursos de formação em matéria de direitos em relativa profundidade com os formadores e ins-

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 25
trutores das forças policiais. Deverá solicitar-se aos em direitos humanos destinados a todas as cate-
participantes que considerem os temas numa gorias de agentes policiais. Em consequência,
perspectiva conceptual e teórica, bem como em estes temas deverão ocupar a maior parte de qual-
termos práticos e operacionais. quer um dos cursos, apesar de o tempo atribuído
a cada tema em concreto dever variar em função
94. Os funcionários superiores de polícia deverão das responsabilidades dos participantes.
também estudar em pormenor o conteúdo da
segunda parte, pois esta abrange amplas matérias Quarta parte
de princípio importantes para as suas funções de
comando e decisão. NOTA PARA O FORMADOR: tenha em conta as
observações formuladas no capítulo V.C, supra.
95. Os funcionários sem responsabilidades de
comando deverão conhecer os temas da segunda 99. A importância atribuída aos temas aborda-
parte, pois fornecem uma base sólida capaz de os dos na quarta parte depende essencialmente da
incitar a adoptar as atitudes e, assim, as condu- situação concreta do país em causa (por exemplo,
tas que se impõem para a promoção e protecção existe algum problema sério em matéria de refu-
dos direitos humanos. Contudo, conforme supra giados? Está em causa o tratamento dispensado aos
indicado no capítulo V.A, os princípios básicos de cidadãos estrangeiros?) e das responsabilidades
cada um dos temas poderão ser apresentados de dos participantes no curso (por exemplo, têm os par-
forma breve e sucinta a esta categoria de funcio- ticipantes algumas responsabilidades especiais
nários policiais. relativamente a alguma das categorias de pessoas
em questão?).
96. A segunda parte é particularmente impor-
tante para os contingentes de polícia civil (CIV- 100. Os formadores e instrutores devem receber
-POL), pois define o enquadramento que permite informações e orientações completas a respeito
compreender a importância das normas interna- de todos os temas.
cionais (das Nações Unidas) relativas aos direitos
humanos no domínio da aplicação da lei. 101. Se o tempo destinado ao curso assim o per-
mitir, os funcionários superiores de polícia e agen-
Terceira parte tes de grau inferior deverão receber informação e
orientação semelhantes. Se isto não for possível,
NOTA PARA O FORMADOR: tenha em conta as deverão ser-lhes dadas a conhecer as questões de
observações formuladas no capítulo V.B, supra. interesse actual que se colocam relativamente a cada
um dos temas, a forma como as normas interna-
97. Dever-se-ão ter presentes as observações cionais abordam essas questões e as soluções
formuladas no capítulo V.B sobre a relevância adoptadas em diferentes países ou regiões para
dos diversos capítulos para as diferentes cate- dar resposta aos problemas identificados. (Este
gorias de funcionários responsáveis pela aplica- último aspecto é particularmente importante para
ção da lei (por exemplo, o capítulo XI para os os funcionários superiores, em virtude da sua res-
investigadores, o capítulo XIII para os funcio- ponsabilidade de definição política e estratégica.)
nários com especiais responsabilidades em rela-
ção aos detidos e os capítulos XIV e XV para os Quinta parte
funcionários especializados na manutenção da
ordem pública). NOTA PARA O FORMADOR: tenha em conta as
observações formuladas no capítulo V.D, supra.
98. Tal como referido no capítulo V.B, os temas
dos capítulos da terceira parte do presente manual 102. O tema central de cada capítulo da quinta
deverão constituir o cerne dos cursos de formação parte deverá constituir uma parte importante dos

26
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cursos destinados aos funcionários superiores, Organização de um dia de trabalho: Supõe-se que
bem como aos formadores e instrutores da polícia. um dia de curso tem início cerca das 09:00 horas
Sempre que possível, alguns elementos do capí- e termina ao redor das 18:00, com um intervalo para
tulo XXI (Investigação das violações cometidas almoço cerca do meio-dia e duas pausas mais cur-
pela polícia) deverão ser incluídos nos cursos des- tas, uma a meio da manhã e outra a meio da tarde,
tinados aos funcionários sem responsabilidades de a fim de assegurar que os participantes se mantêm
comando. bem dispostos e atentos. Os intervalos para almoço
deverão ser marcados em função dos costumes
c. Estrutura dos cursos locais. Deverá reservar-se algum tempo para que o
103. Propõem-se em seguida três modelos possí- grupo de formadores se reúna para uma breve ses-
veis para a estrutura dos cursos. Podem basear-se são preparatória antes das sessões e para fazer o
em variações do modelo proposto no anexo II ou ponto da situação no final de cada dia.
ser adaptadas às necessidades e circunstâncias
locais. Os modelos-tipo são os seguintes:
• Cursos completos – para todas as categorias de 1. CURSO COMPLETO
funcionários responsáveis pela aplicação da lei,
sempre que possível (com um estudo menos deta- 105. O curso completo é composto por uma sessão
lhado da quinta parte do manual para os agentes sobre cada um dos temas de todos os capítulos das
sem funções de comando), formadores das forças partes segunda a quinta do manual, segundo a
policiais e elementos da CIVPOL. sequência neste estabelecida. A fim de permitir:
• Seminários – para funcionários superiores de • uma apresentação aprofundada de cada tema;
polícia. • um debate informal suficiente depois da apre-
• Cursos básicos – para funcionários sem funções sentação; e
de comando. • um tratamento completo de todos os exercícios prá-
104. Relativamente a estas propostas, convém ter ticos e tópicos para discussão, recomenda-se que cada
em conta as seguintes questões: sessão ocupe meio dia de curso, o que significa que
Sequência dos temas: Deverá seguir-se a sequên- cada um dos temas deverá ser abordado durante esse
cia das partes e capítulos do presente manual. Esta período de meio dia. Existem 15 temas a analisar deste
sequência obedece a uma determinada lógica. Por modo (partes segunda a quinta).
exemplo:
• é preferível abordar as questões tratadas na 106. Recomenda-se que seja dedicada uma sessão
segunda parte como temas introdutórios, uma vez adicional de meio dia à introdução e apresentação do
que derivam de conceitos fundamentais; curso e seus participantes e uma outra aos procedi-
• os temas da quinta parte serão mais proveitosa- mentos de encerramento e avaliação da formação.
mente abordados no final do curso, quando os
participantes adquiriram já conhecimento das 107. O curso completo deverá, pois, ser composto
normas internacionais; por 16 sessões de meio dia, ou seja, oito dias com-
• em termos de procedimento, a captura antecede a pletos de formação.
detenção, daí que as questões de direitos humanos
suscitadas por estas situações devam seguir a mesma
sequência (capítulos XII e XIII da terceira parte); 2. SEMINÁRIO PARA FUNCIONÁRIOS SUPERIORES
• qualquer análise das questões de direitos huma- DE POLÍCIA
nos no contexto de situações de conflito e desor-
dem (capítulo XV) deve pressupor o conhecimento 108. Caso os funcionários superiores não dispo-
das questões genéricas de direitos humanos e apli- nham de tempo para seguir um curso completo,
cação da lei abordadas nos anteriores capítulos da pode organizar-se um seminário de curta dura-
terceira parte (em especial no capítulo XIV, sobre ção. A sequência dos capítulos constante do
a utilização da força). manual deverá ser mantida. Para permitir um

Formação dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei


* 27
tratamento adequado de cada um dos temas num A sequência dos capítulos constante do manual
período de tempo reduzido, recomenda-se que deverá ser mantida. Recomenda-se que cada ses-
cada sessão de trabalho de meio dia seja dedicada: são de trabalho de meio dia seja dedicada:
aos quatro capítulos da segunda parte (em con- aos capítulos VII e VIII da segunda parte (em con-
junto); junto);
aos capítulos XI a XIII da terceira parte (em con- aos capítulos IX e X da segunda parte (em con-
junto); junto);
aos capítulos XIV e XV da terceira parte (em con- aos capítulos XI e XII da terceira parte (em con-
junto); junto);
aos quatro capítulos da quarta parte (em conjunto) ao capítulo XIII da terceira parte;
e ao capítulo XIV da terceira parte;
a ambos os capítulos da quinta parte (em conjunto). ao capítulo XV da terceira parte;
aos capítulos XVI e XVII da quarta parte (em con-
109. Recomenda-se que seja dedicada uma sessão junto); e
adicional de meio dia aos procedimentos de apre- aos capítulos XIX da quarta parte e XXI da quinta
sentação e de encerramento (por exemplo, meio dia parte (em conjunto).
dividido entre o início e o fim do seminário).
113. Recomenda-se que seja dedicada uma sessão
110. O seminário para funcionários superiores de adicional de meio dia à apresentação do curso e seus
polícia seria, assim, composto por seis sessões de participantes e uma outra aos procedimentos de
meio dia ou três dias de formação. encerramento e avaliação da formação.

111. A fim de conseguir contemplar os temas dos 114. O curso básico para funcionários responsáveis
capítulos nestas sessões e responder às necessidades pela aplicação da lei sem funções de comando seria,
dos funcionários superiores, recomenda-se que assim, composto por 10 sessões de meio dia, ou seja,
os princípios fundamentais de cada um dos temas 5 dias de formação.
sejam explicados numa apresentação e se façam
algumas referências às normas constantes de ins- d. Observações finais
trumentos internacionais. Podem ser dados exem- 115. As anteriores recomendações pretendem
plos de algumas destas normas. A primeira parte servir de base aos diversos tipos de cursos e
de cada sessão de meio dia ficaria então concluída seminários, sendo naturalmente possíveis algu-
com um debate informal, reservando-se a segunda mas alterações. Por exemplo, tanto o curso com-
parte para a realização de exercícios práticos. pleto como o curso básico podem sofrer
modificações a fim de responder às exigências dos
funcionários com funções especializadas, por
3. CURSO BÁSICO PARA AGENTES SEM FUNÇÕES forma a que os temas pertinentes para as res-
DE COMANDO pectivas áreas de especialização sejam alargados
e outros correspondentemente reduzidos. Em
112. Caso os agentes sem funções de comando regra, ao planear a estrutura dos cursos, os seus
não disponham de tempo para seguir um curso organizadores devem prestar atenção às neces-
completo, poderá organizar-se um curso básico. sidades dos destinatários.

28
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
*
Seg
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e

CONCEITOS FUNDAMENTAIS
cap
ítu
lo

07
Fontes, Sistemas
e Normas de Direitos Humanos
no domínio da Aplicação da Lei

Objectivos do capítulo • Dar a conhecer aos formadores e, através deles, aos participantes no curso
o enquadramento geral do sistema estabelecido no âmbito das Nações Uni-
das para a protecção dos direitos humanos no domínio da aplicação da lei.

• Fornecer uma panorâmica geral dos principais instrumentos, mecanismos


de controlo e organismos das Nações Unidas relevantes para o trabalho da
polícia.

• Destacar determinados tipos de violações de direitos humanos para os quais


a polícia deverá estar sensibilizada.
}
}

Princípios fundamentais • As normas internacionais de direitos humanos são obrigatórias para


todos os Estados e seus agentes, incluindo funcionários responsáveis pela
aplicação da lei.

• Os direitos humanos constituem um objecto legítimo do direito interna-


cional e o seu respeito pode ser controlado pela comunidade internacional.

• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei estão obrigados a


conhecer e a aplicar as normas internacionais de direitos humanos.
}

a. Importância das normas internacionais gressos periódicos das Nações Unidas para a
116. As normas internacionais de direitos huma- Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delin-
nos no domínio da aplicação da lei foram adop- quentes. A adopção destas normas pela Assem-
tadas por diversos organismos do sistema das bleia Geral e pelo Conselho Económico e Social,
Nações Unidas. Entre eles, assumiram particular dois dos principais órgãos das Nações Unidas,
relevância a Comissão dos Direitos do Homem, conferiu às mesmas um carácter de universali-
a sua Sub-Comissão para a Prevenção da Dis- dade, uma vez que significa que a comunidade
criminação e Protecção das Minorias e os Con- internacional no seu conjunto as aceita e consi-

Conceitos Fundamentais
* 31
dera como regras mínimas em matéria de apli- regras mínimas, examinadas neste manual a
cação da lei, independentemente do sistema jurí- par das pertinentes convenções, não deve ser
dico ou do direito interno do Estado Membro negligenciado com base em argumentos jurídi-
em causa. cos teóricos. A nossa posição justifica-se com
base em, pelo menos, três razões fundamentais:
117. Por outro lado, o conteúdo normativo de tais
regras e os detalhes da sua adequada aplicação a a) Tais instrumentos não convencionais consti-
nível nacional são definidos pela jurisprudência em tuem afirmações de valores partilhados pelas prin-
constante evolução do Comité dos Direitos do cipais culturas e sistemas jurídicos. Podem ser
Homem das Nações Unidas, órgão de controlo da encontrados no direito interno dos principais sis-
aplicação do Pacto Internacional sobre os Direitos temas jurídicos a nível mundial e foram elabora-
Civis e Políticos instituído em virtude deste ins- dos através de um processo internacional, com a
trumento. contribuição da generalidade dos Estados Membros
das Nações Unidas. Por conseguinte, têm uma
118. Antes de analisar as diversas fontes, siste- incontestável força moral.
mas e normas existentes a nível internacional,
há que fazer referência à força jurídica dessas b) Os tratados escritos não são a única fonte
normas. O conjunto das normas examinadas de normas imperativas. Devido à sua origem
no presente manual abrange disposições com for- internacional e ampla aceitação nas legislações
ças jurídicas muito diferentes, desde obriga- nacionais, as disposições das declarações, con-
ções imperativas estabelecidas em pactos e juntos de princípios e outros instrumentos são
convenções até orientações universais que se consideradas por muitos juristas como “princí-
impõem no plano ético e estão contidas em pios gerais de direito internacional”, que cons-
diversas declarações, regras mínimas e con- tituem uma das fontes de direito internacional
juntos de princípios. No seu conjunto, estes reconhecidas pelo Estatuto do Tribunal Inter-
instrumentos definem um enquadramento jurí- nacional de Justiça. Muitas destas disposições
dico internacional completo e pormenorizado, são consideradas cláusulas declarativas de
tendo em vista assegurar o respeito dos direitos princípios em vigor do chamado “direito inter-
humanos, da liberdade e da dignidade no con- nacional consuetodinário”, isto é, normas vin-
texto da justiça penal. culativas originadas com base na prática
reiterada dos Estados (uma vez que os Estados
119. Em termos estritamente jurídicos, pode têm a convicção de que se encontram obriga-
argumentar-se que apenas os tratados oficiais dos por tais princípios) e não em disposições
ratificados pelos Estados, ou a que estes hajam concretas de quaisquer tratados.
aderido, são juridicamente vinculativos. Entre
estes, contam-se, por exemplo, o Pacto Inter- c) As normas internacionais enunciadas nos
nacional sobre os Direitos Civis e Políticos, o tratados formais não são, por vezes, suficiente-
Pacto Internacional sobre os Direitos Econó- mente detalhadas para permitir que os Estados
micos, Sociais e Culturais, a Convenção sobre interpretem o seu valor normativo, ou determi-
os Direitos da Criança e a Convenção para a Pre- nem as suas repercussões ao nível da aplicação.
venção e Repressão do Crime de Genocídio. As disposições mais detalhadas das directrizes,
Deverá também ser referida a Carta das Nações princípios e regras mínimas, entre outros ins-
Unidas, ela própria um tratado juridicamente trumentos, representam, pois, um valioso com-
vinculativo no qual todos os Estados Membros plemento jurídico para os Estados que se
são necessariamente Partes. No entanto, o valor esforçam por aplicar as normas internacionais a
prático das diversas declarações, directrizes e nível interno.

32
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
b. Fontes fundamentais dotam de força jurídica vinculativa: o Pacto
Internacional sobre os Direitos Económicos,
1. CARTA DAS NAÇÕES UNIDASN.T.1 Sociais e Culturais e o Pacto Internacional
sobre os Direitos Civis e Políticos. O conjunto
120. A principal fonte que serve N.T.1 Portugal foi admitido destes instrumentos é designado por Carta
como membro das Nações
de base à adopção de normas de Unidas em sessão especial da Internacional dos Direitos Humanos.
Assembleia Geral realizada a
direitos humanos pelos orga- 14 de Dezembro de 1955, no
âmbito de um acordo entre
nismos das Nações Unidas é, os EUA e a então União
Soviética (resolução 995 (X)
sem dúvida, a própria Carta. No da Assembleia Geral). A
declaração de aceitação por
2. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS
seu segundo parágrafo pream- Portugal das obrigações cons-
tantes da Carta foi deposi-
DO HOMEMN.T.2
bular, afirma-se que um dos tada junto do
Secretário-Geral a 21 de Feve-
principais objectivos da organi- n.o 3155),1956
reiro de (registo
estando publicada
123. A Declaração Universal N.T.2 Publicada no Diárioo da
República, I Série A, n. 57/
zação consiste em: na United Nations Treaty
Series, vol. 229, página 3, de
representa um importante pro- /78, de 9 de Março de 1978,
mediante aviso do Ministé-
[…] reafirmar a nossa fé nos 1958. O texto da Carta das
Nações Unidas foi publicado
gresso alcançado pela comuni- rio dos Negócios Estrangei-
ros.
direitos fundamentais do no Diário da República I
Série A, n.o 117/91, mediante dade internacional em 1948.
o aviso n.o 66/91, de 22 de
homem, na dignidade e no Maio de 1991. O seu valor de persuasão moral deriva do facto de
valor da pessoa humana, na ser reconhecida como uma declaração de normas
igualdade de direitos dos homens e das mulheres, internacionais de aceitação geral. Essa compila-
assim como das nações, grandes e pequenas […] ção de objectivos de direitos humanos foi elaborada
em termos amplos e genéricos, tendo constituído
O artigo 1.o, n.o 3, da Carta estabelece o princípio a fonte – e o enquadramento substantivo – dos dois
de que a cooperação internacional deverá ser rea- outros instrumentos que compõem a Carta Inter-
lizada: nacional dos Direitos Humanos. Por outro lado, na
[…] promovendo e estimulando o respeito pelos Declaração Universal foram enunciados e defini-
direitos do homem e pelas liberdades fundamen- dos os direitos fundamentais proclamados na
tais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua Carta das Nações Unidas. Os artigos 3.o, 5.o, 9.o, 10.o
ou religião […] e 11.o da Declaração Universal são particularmente
relevantes no domínio da administração da justiça.
121. Estas disposições não devem ser vistas como Estes artigos abordam, respectivamente, o direito
meras declarações de princípio, destituídas de sig- à vida, à liberdade e à segurança pessoal; a proibição
nificado; pelo contrário, como atrás ficou dito, a da tortura e das penas ou tratamentos cruéis,
Carta é um tratado juridicamente vinculativo do desumanos ou degradantes; a proibição da deten-
qual todos os Estados Membros são partes. Tais nor- ção arbitrária; o direito a um julgamento equitativo;
mas tiveram como efeito jurídico fazer cessar, de o direito à presunção de inocência até prova em con-
uma vez por todas, a polémica sobre se os direi- trário; e a proibição da retroactividade da lei penal.
tos humanos e o seu gozo pelos indivíduos cons- Embora estes sejam os artigos que mais directa-
tituem questões de direito internacional ou apenas mente se relacionam com a aplicação da lei, todo
dizem respeito à soberania dos Estados. Conse- o texto da Declaração Universal fornece orientações
quentemente, é agora incontestável que tais nor- para o trabalho da polícia.
mas obrigam a polícia.

122. As Nações Unidas, na sua actividade para- 3. TRATADOS: PACTOS E CONVENÇÕES


legislativa, produziram, desde aí, diversos ins-
trumentos, cada um dos quais reforça e Pacto Internacional sobre os Direitos Civis
completa os que o antecederam. Os mais impor- e Políticos
tantes, para os fins do presente manual, são a
Declaração Universal dos Direitos do Homem de 124. O conteúdo dos direitos acima enumera-
1948 e os dois pactos de 1966 que a aplicam e dos ficou definido de forma mais precisa com

Conceitos Fundamentais
* 33
a entrada em vigor, em Março de 1976, do c) Os dois conjuntos de direitos protegidos por
Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e ambos os Pactos são universalmente reconheci-
Políticos. Este instrumento, nos seus artigos 6.o, dos como sendo interdependentes e tendo igual
7. o , 9. o , 11. o , 14. o e 15. o , define em maior deta- importância.
lhe o direito à vida, a proibição da tortura, a
proibição da prisão ou detenção arbitrárias, a 126. Nesta conformidade, tenha-se em atenção
proibição de aplicação de uma pena de prisão que o Pacto Internacional sobre os Direitos Eco-
por impossibilidade de cumprimento de uma nómicos, Sociais e Culturais protege uma ampla
obrigação contratual e a proi- N.T.3 Assinado por Portugal a variedade de direitos, nomeadamente o direito ao
bição da retroactividade da lei 7aprovado de Outubro de 1976 e
para ratificação trabalho, a condições de trabalho razoáveis, à
pela Lei n.o 29/78, de 12 de
penal. Com mais de 100 Esta- Junho, publicada no Diário constituição de associações sindicais, à segu-
da República, I Série A,
dos Partes N.T.3 , o Pacto é um n.o 133/78. O instrumento rança social e a mecanismos de seguro social, à
de ratificação foi depositado
instrumento juridicamente junto do Secretário-Geral protecção das famílias e das crianças, a um nível
das Nações Unidas a 15 de
vinculativo que deve ser res- Junho de 1978. de vida suficiente, à saúde, à educação e à parti-
peitado pelos Governos e cipação na vida cultural. A aplicação deste Pacto
suas instituições, nomeadamente a polícia. A é controlada pelo Comité dos Direitos Económi-
sua aplicação é controlada pelo Comité dos cos, Sociais e Culturais.
Direitos do Homem, órgão criado em confor-
midade com as disposições do próprio Pacto. Primeiro Protocolo Facultativo referente ao Pacto
Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos,
Sociais e Culturais 127. O primeiro Protocolo N.T.5 Assinado por Portugal
a 1 de Agosto de 1978 e
Facultativo referente ao Pacto aprovado para adesão pela
Lei n.o 13/82, de 15 de
125. As publicações como o N.T.4 Assinado por Portugal Internacional sobre os Direitos Junho, publicada no Diário
a 7 de Outubro de 1976 e da República, I Série A,
presente manual, que se aprovado para ratificação Civis e PolíticosN.T.5 entrou em n.o 135/82. O instrumento
pela Lei n.o 45/78, de 11 de de adesão foi depositado
ocupam das normas aplicá- Julho, publicada no Diá- vigor em simultâneo com o junto do Secretário-Geral
rio da República, I Série A, das Nações Unidas
veis no domínio da aplicação n.o 157/78. O instrumento Pacto. Este instrumento adicio- a 3 de Maio de 1983.
de ratificação foi deposi-
da lei, fazem essencialmente tado junto do Secretário- nal atribui ao Comité dos Direi-
-Geral das Nações Unidas
referência aos instrumentos a 31 de Julho de 1978. tos do Homem competência para receber e
de carácter civil e político. Não obstante, seria considerar comunicações de indivíduos que ale-
um erro prosseguir sem mencionar o Pacto guem ser vítimas de violações de qualquer um dos
Internacional sobre os Direitos Económicos, direitos enunciados no Pacto. Ao examinar tais
Sociais e Culturais, que entrou em vigor em queixas, o Comité tem vindo a desenvolver um
Janeiro de 1976 N.T.4. Existem pelo menos três considerável corpo de jurisprudência, que propor-
bons motivos para isso: ciona preciosas orientações para interpretar as
repercussões do Pacto sobre o trabalho da polícia.
a) A lei não é administrada no vazio. A polícia
deve desempenhar as suas funções no contexto Segundo Protocolo Adicional ao Pacto Internacio-
da realidade económica concreta enfrentada pela nal sobre os Direitos Civis e Políticos
população que se comprometeu a servir e proteger.
128. Embora o Pacto Internacional sobre os Direi-
b) Não é correcto supor que os direitos econó- tos Civis e Políticos não proíba a pena de morte,
micos e sociais, no seu conjunto, são irrelevan- impõe estritas limitações à sua aplicação. Perante
tes para o trabalho da polícia. Claros exemplos de uma opinião pública internacional cada vez mais
direitos económicos com relevância directa neste favorável à completa abolição da pena de morte, a
domínio são, entre outros, a não discriminação, Assembleia Geral adoptou, em 1989, o Segundo Pro-
a protecção contra as expulsões forçadas e as nor- tocolo Adicional ao Pacto Internacional sobre os
mas fundamentais de direito laboral. Direitos Civis e Políticos com vista à Abolição da

34
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Pena de MorteN.T.6, que interdita
N.T.6
Assinado por Portugal nacional, tendo por objectivo N.T.7 Aprovada para ratifica-
a 13 de Fevereiro de 1990 e ção por Portugal pela Reso-
aos Estados Partes a utilização da aprovado para ratificação reforçar a cooperação interna- lução da Assembleia da
pela Resolução da Assem- República n.o 37/98, de 14
pena de morte. bleia da República cional com vista à erradicação de de Julho e ratificada pelo
n.o 25/90, de 27 de Setem- Decreto do Presidente da
bro, publicada no Diário da
República, I Série A,
tal atrocidade. Refere, em parti- deRepública n.o 33/ /98, de 14
Julho. Ambos os
Convenção contra n.o 224/90. Ratificado pelo
Decreto do Presidente da
cular, os actos cometidos com a documentos se encontram
publicados no Diário da
o Genocídio República n.o 54/90, de 27
de Setembro, publicado no
intenção de destruir, no todo ou República, I Série A,
n.o 160/98. O instrumento
Diário da República,
I Série A, n.o 224/90. O ins-
em parte, um grupo nacional, de ratificação foi depositado
junto do Secretário-Geral
129. A Convenção para a Pre- trumento de ratificação foi
depositado junto do Secre-
étnico, racial ou religioso através a 9 de
das Nações Unidas
Fevereiro de 1999.
venção e Repressão do Crime de tário-Geral das Nações Uni-
das a 17 de Outubro
do assassinato de membros
Genocídio entrou em vigor em de 1990. desse grupo, atentado grave à respectiva integri-
1951N.T.7. Resultou, tal como as próprias Nações Uni- dade física e mental, submissão deliberada do
das, do horror e da indignação universais sentidos grupo a condições de existência passíveis de acarretar
pela comunidade internacional face às graves vio- a sua destruição física, imposição de medidas des-
lações de direitos humanos que caracterizaram a tinadas a impedir os nascimentos no seu seio ou
Segunda Guerra Mundial. A Convenção confirma transferência forçada das crianças do grupo para
que o genocídio constitui um crime de direito inter- outro grupo.

* Nota para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da lei


GENOCÍDIO
• Actos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um
grupo nacional, étnico, racial ou religioso, nomeadamente:
a) assassinato de membros do grupo;
b) atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;
c) submissão deliberada do grupo a condições de existência destinadas a
provocar a sua destruição física, total ou parcial;
d) imposição de medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do
grupo;
e) transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.

Conceitos Fundamentais
* 35
Convenção contra a Tortura obrigados a adoptar medidas eficazes nos planos
legislativo, administrativo, judicial e outros para
130. A Convenção contra a Tor- N.T.8 Assinada por Portugal a impedir a ocorrência de actos de tortura; a respei-
4 de Fevereiro de 1985 e
tura e Outras Penas ou Trata- aprovada para ratificação tar a proibição de expulsar, entregar ou extraditar
pela Resolução da Assem-
mentos Cruéis, Desumanos ou de bleia da República n.o 11/88,
21 de Maio, publicada no
uma pessoa para outro Estado quando existam
Degradantes entrou em vigor Diário o
da República, I Série A,
n. 118/88. Ratificada pelo
motivos sérios para crer que o indivíduo possa ser
N.T.8
em Junho de 1987 . A Con- Decreto do Presidente submetido a tortura; a garantir às vítimas de tortura
da República n.o 57/88,
venção vai consideravelmente Diário daJulho,
de 20 de publicado no
República,
o direito de queixa perante as autoridades compe-
I Série A, n.o 166/88. O ins-
mais longe do que o Pacto Inter- trumento tentes, que deverão examinar o caso rápida e
de ratificação foi
nacional sobre os Direitos Civis depositado junto do Secretá-
rio-Geral das Nações Unidas
imparcialmente; a proteger os queixosos e teste-
e Políticos na protecção do indi- a 9 de Fevereiro de 1989. munhas; a excluir qualquer elemento de prova ou
víduo contra o crime internacional que é a tortura. testemunho obtido através do recurso à tortura; e
Nos termos da Convenção, os Estados partes estão a compensar as vítimas e pessoas a seu cargo.

* Nota para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da lei


TORTURA
Actos cometidos com a intenção de provocar dor ou sofrimento agudo, físico
ou mental, a uma pessoa, com os fins de, nomeadamente:
a) obter dela uma informação ou confissão;
b) punir, intimidar ou coagir essa pessoa.

Convenção sobre a Eliminação da Discriminação mento internacional que aborda o problema da dis-
Racial criminação contra as mulheres nas esferas polí-
tica, económica, social, cultural e civil. Exige que os
131. A Convenção Internacio- N.T.9 Aprovada para adesão Estados Partes adoptem medidas específicas em
pela Lei n.o 7/82, de 29 de
nal sobre a Eliminação de Abril, publicada no Diário cada uma destas áreas para pôr fim à discrimina-
da República I Série A,
Todas as Formas da Discrimi- n.o 99/82. O instrumento ção contra as mulheres e garantir-lhes o exercício
de adesão foi depositado
nação Racial entrou em vigor junto do Secretário-Geral e o gozo dos direitos humanos e liberdades fun-
das Nações Unidas a 24 de
em Janeiro de 1969N.T.9, proi- Agosto de 1982. damentais em condições de igualdade com os
bindo todas as formas de discriminação racial nas homens.
esferas política, económica, social e cultural.
Entre outras disposições, impõe a igualdade de tra- Convenção sobre os Direitos da Criança
tamento perante os tribunais, agências e orga-
nismos que participam na administração da 133. A Convenção sobre os N.T.11 Assinada por Portugal
a 26 de Janeiro de 1990 e
justiça, sem distinção quanto à raça, cor ou origem Direitos da Criança entrou em aprovada para ratificação
pela Resolução da Assem-
nacional ou étnica. vigor em Setembro de 1990, bleia da República n.o 20/90,
de 12 de Setembro. Ratifi-
contando agora com mais de cada pelo Decreto do Presi-
dente da República
Convenção sobre a Eliminação da Discriminação 100 Estados PartesN.T.11. Garante n.o 49/90, da mesma data.
Ambos os documentos se
contra as Mulheres alguns direitos especiais aos encontram publicados no
Diário da República,
delinquentes juvenis, em reco- IOSérie A, n.o 211/ /90.
instrumento de ratifica-
132. Após a sua entrada em N.T.10
Assinada por Portugal nhecimento da sua particular ção foi depositado junto do
a 24 de Abril de 1980 e Secretário-Geral das Nações
vigor, em Setembro de 1981, a aprovada para ratificação vulnerabilidade e do interesse Unidas a 21 de Setembro
pela Lei n.o 23/80, de 26 de de 1990.
Convenção sobre a Eliminação Julho, publicada no Diário da sociedade na sua reabilita-
da República I Série A,
de Todas as Formas de Discrimi- n.o 171/80. O instrumento ção. Em concreto, a Convenção estabelece a proi-
de ratificação foi depositado
nação contra as MulheresN.T.10 junto do Secretário-Geral bição de aplicar a prisão perpétua a menores, bem
das Nações Unidas a 30 de
tornou-se o principal instru- Julho de 1980. como a sua protecção contra a pena de morte e a

36
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
tortura. A privação da liberdade dos menores deve 136. Como fontes temos, N.T.14 Portugal assinou os
Protocolos Adicionais I e II
ser sempre uma medida de último recurso e, nomeadamente, os dois Proto- a 12 de Dezembro de 1977,
procedeu à respectiva ratifi-
quando imposta, deve sê-lo pelo período de tempo colos Adicionais (de 1977) às cação a 27 de Maio de 1992
e declarou aceitar a compe-
mais curto possível. Em qualquer circunstância, a Convenções de GenebraN.T.14. O tência da Comissão Interna-
cional para o Apuramento
Convenção exige que os menores em conflito com Protocolo I reafirma e desen- dos Factos, ao abrigo do
artigo 90.o do Protocolo I, a
a lei sejam tratados com a humanidade e o respeito volve as disposições das Con- 1 de Julho de 1994.
devidos à dignidade da pessoa humana e de venções de Genebra no que diz respeito aos
maneira que tenha em conta a idade da criança e conflitos armados internacionais, ao passo que o
as possibilidades de a reabilitar. Esta Convenção será Protocolo II faz o mesmo relativamente aos con-
analisada em maior detalhe no capítulo XVI, sobre flitos internos, sem carácter internacional.
Polícia e Protecção dos Jovens.
137. Em conformidade com estes instrumentos, o
Convenção sobre os Direitos dos Trabalhadores direito internacional humanitário deverá ser apli-
Migrantes cado a todas as situações de conflito armado, no
decorrer das quais os princípios de humanidade
134. A Convenção Internacio- N.T.12 Não ratificada por devem ser sempre respeitados, qualquer que seja
Portugal até 29 de Novem-
nal sobre a Protecção dos Direi- bro de 2000. o caso. Neles se dispõe ainda que os não comba-
tos de Todos os Trabalhadores Migrantes e tentes e pessoas colocadas fora de combate devido
Membros das Suas Famílias foi adoptada pela a ferimentos, doenças, captura ou outras causas
Assembleia Geral em Dezembro de 1990N.T.12. Foi devem ser respeitadas e protegidas, e que as pes-
elaborada pelas Nações Unidas em reconheci- soas que sofrem em consequência da guerra
mento do grande impacto dos fluxos de trabalha- devem ser auxiliadas e tratadas sem discriminação.
dores migrantes sobre os Estados e pessoas em O direito internacional humanitário proíbe os
causa e da necessidade de desenvolver normas seguintes actos, em todas as situações:
capazes de contribuir para a harmonização das • assassínio;
atitudes dos Estados mediante a aceitação de prin- • tortura;
cípios básicos de protecção dos trabalhadores • castigos corporais;
migrantes e suas famílias. A Convenção enumera • mutilações;
os direitos fundamentais deste grupo particular- • atentados à dignidade da pessoa;
mente vulnerável de pessoas e garante a protecção • tomada de reféns;
de tais direitos. • penas colectivas;
• execuções sem julgamento regular;
Direito internacional humanitário • tratamentos cruéis ou degradantes.

135. Para fins de formação das N.T.13 Portugal assinou as 138. Os mesmos instrumentos proíbem também
quatro Convenções de
forças policiais, o direito inter- Genebra a 11 de Fevereiro as represálias contra os feridos, doentes ou náu-
de 1950, tendo procedido à
nacional humanitário pode ser respectiva ratificação a 14
de Março de 1961. Portugal
fragos, pessoal e serviços médicos, prisioneiros
definido como o subconjunto ratificação, uma
apôs ainda, no momento da
reserva ao
de guerra, pessoas civis, bens civis e culturais,
das normas de direitos humanos referidas
artigo 10.o/10.o/10.o/11.o das
Convenções.
ambiente natural e instalações que contenham
aplicáveis em tempo de conflito forças perigosas. Eles estabelecem que ninguém
armado. Esta área será explicada em maior deta- pode renunciar, nem ser forçado a renunciar, à
lhe no capítulo XV. O conteúdo fundamental do protecção conferida pelo direito humanitário.
direito humanitário está definido, artigo por Finalmente, dispõem que as pessoas protegidas
artigo, nas quatro Convenções de Genebra de devem poder recorrer a todo o momento a uma
1949 que protegem, respectivamente, os feridos e potência protectora (Estado neutro que protege
doentes das forças armadas em campanha, os náu- os seus interesses), ao Comité Internacional da
fragos, os prisioneiros de guerra e as pessoas Cruz Vermelha ou a qualquer outra organiza-
civisN.T.13. ção humanitária imparcial.

Conceitos Fundamentais
* 37
4. PRINCÍPIOS, REGRAS MÍNIMAS E DECLARAÇÕES desempenho de funções legítimas no domínio da
aplicação da lei. Este instrumento resultou de um
Código de Conduta para os Funcionários cuidadoso equilíbrio entre o dever da polícia de
Responsáveis pela Aplicação da Lei garantir a ordem e a segurança pública e o seu dever
de proteger os direitos à vida, à liberdade e à segu-
139. Em Dezembro de 1979, a Assembleia Geral rança da pessoa. As suas disposições serão analisa-
adoptou o Código de Conduta para os Funcioná- das em maior profundidade no capítulo XIV, sobre
rios Responsáveis pela Aplicação da Lei. Este Utilização da Força e de Armas de Fogo.
Código é composto por oito artigos fundamentais,
que definem as responsabilidades específicas dos Conjunto de Princípios para a Protecção
funcionários responsáveis pela aplicação da lei no de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma
que diz respeito às seguintes questões: serviço da de Detenção ou Prisão
comunidade; protecção dos direitos humanos; uti-
lização da força; tratamento de informação confi- Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos
dencial; proibição da tortura e das penas ou
tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes; pro- Princípios Básicos Relativos ao Tratamento
tecção da saúde dos reclusos; corrupção; e res- de Reclusos
peito da lei e do próprio Código. Cada artigo é
seguido de um comentário detalhado, que clarifica 141. Estes três instrumentos estabelecem um
as implicações normativas do preceito. Este regime geral de protecção dos direitos das pes-
Código constitui, na sua essência, o critério fun- soas sujeitas a detenção ou prisão. O Conjunto
damental com base no qual a polícia – civil ou mili- de Princípios foi adoptado pela Assembleia
tar, uniformizada ou não – deverá ser julgada pela Geral em Dezembro de 1988. As Regras Mínimas
comunidade internacional. foram adoptadas pelo Primeiro Congresso das
Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o Tra-
Princípios Básicos sobre a Utilização da Força tamento dos Delinquentes, realizado em 1955
e de Armas de Fogo na cidade de Genebra, e mais tarde aprovadas pelo
Conselho Económico e Social. Os Princípios
140. Os Princípios Básicos sobre a Utilização da Básicos, adoptados pela Assembleia Geral em
Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Res- Dezembro de 1990, completam o regime, com
ponsáveis pela Aplicação da Lei foram adoptados em 11 parágrafos normativos.
1990 pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas
para a Prevenção do Crime e o Tratamento dos 142. O conteúdo destes instrumentos será exami-
Delinquentes. Os Princípios têm em consideração nado em maior detalhe no capítulo XIII, sobre a
o carácter muitas vezes perigoso da actividade de Detenção. Em resumo, eles prevêem que todos os
fazer cumprir a lei, assinalando que uma ameaça à presos e detidos devem ser tratados com o res-
vida ou à segurança dos funcionários responsáveis peito devido à sua dignidade humana, no que con-
pela aplicação da lei constitui uma ameaça à esta- cerne às condições de detenção, tratamento e
bilidade da sociedade no seu todo. Ao mesmo disciplina, contacto com o mundo exterior, saúde,
tempo, estabelecem normas estritas para a utiliza- classificação e separação, queixas, registos, traba-
ção da força e de armas de fogo por parte da polí- lho e lazer e religião e cultura.
cia, nomeadamente quanto às circunstâncias em
que se pode recorrer a elas e formas de o fazer, pro- Declaração dos Princípios Básicos de Justiça
cedimentos a seguir após essa utilização e respon- Relativos às Vítimas da Criminalidade
sabilidade decorrente do seu uso indevido. Os e de Abuso de Poder
Princípios sublinham que apenas se pode recorrer
à força quando estritamente necessário e unica- 143. Nas suas actividades de construção normativa,
mente na medida em que tal seja necessário para o as Nações Unidas têm-se também ocupado da

38
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
importante questão dos direitos das vítimas. Para servem a causa da justiça, ao mesmo tempo que
este fim, a Assembleia Geral adoptou, em Novem- reduzem a aplicação das penas de prisão, as quais
bro de 1985, a Declaração dos Princípios Básicos devem, em qualquer caso, ser vistas como uma
de Justiça Relativos às Vítimas da Criminalidade sanção extrema. As Regras estabelecem que tais
e de Abuso de Poder. Esta Declaração exige, medidas deverão ter em conta os direitos huma-
nomeadamente, que os Estados garantam às víti- nos e a reabilitação do delinquente, a protecção
mas o acesso à justiça, que as vítimas sejam tra- da sociedade e os interesses das vítimas. Este
tadas com compaixão pelo sistema jurídico, que lhes instrumento fornece orientações relativamente a
seja concedida reparação sempre que possível e atri- matérias como autorizações de saída, libertação
buída compensação caso a reparação se revele para fins de trabalho, liberdade condicional,
impossível e que tais pessoas recebam assistência remissão da pena, indulto, serviço cívico e san-
médica, material, psicológica e social. ções pecuniárias, entre outros aspectos.

Garantias para a Protecção dos Direitos Princípios Orientadores das Nações Unidas
das Pessoas Sujeitas a Pena de Morte para a Prevenção da Delinquência Juvenil
(Princípios Orientadores de Riade)
144. As Garantias para a Protecção dos Direitos das
Pessoas Sujeitas a Pena de Morte foram aprovadas Regras Mínimas das Nações Unidas
pelo Conselho Económico e Social em Maio de para a Administração da Justiça de Menores
1984. Elas estabelecem que a pena de morte só (Regras de Beijing)
poderá ser aplicada aos crimes mais graves e proí-
bem a execução de pessoas que eram menores de Regras das Nações Unidas para a Protecção
idade à data da prática do crime, bem como de dos Menores Privados de Liberdade
mulheres grávidas ou que tenham sido mães
recentemente e de dementes. Além disso, este 146. Estes três instrumentos, em conjunto com a
instrumento consagra determinadas garantias Convenção sobre os Direitos da Criança, consti-
processuais e exige que, caso a pena de morte seja tuem as normas essenciais no domínio da admi-
aplicada, a execução seja levada a cabo de forma a nistração da justiça de menores. Tal como a
causar o menor sofrimento possível. Convenção, estes textos (adoptados pela Assem-
bleia Geral em Dezembro de 1990, Novembro de
Regras Mínimas para a Elaboração de Medidas 1985 e Dezembro de 1990, respectivamente) exi-
não Privativas de Liberdade gem que os sistemas jurídicos nacionais tenham
em conta a situação e a vulnerabilidade particula-
145. Em Dezembro de 1990, a Assembleia Geral res dos menores que hajam entrado em conflito
adoptou as Regras Mínimas das Nações Unidas com a lei. Ocupam-se tanto da prevenção como do
para a Elaboração de Medidas não Privativas de tratamento, com base no princípio de que o inte-
Liberdade (Regras de Tóquio), com o objectivo resse superior da criança deve ser a consideração
de estimular a aplicação pelos Estados deste tipo primordial no domínio da justiça de menores. O seu
de medidas. Elas promovem a participação da conteúdo será analisado em maior profundidade no
comunidade na administração da justiça penal e capítulo XVI, sobre a Polícia e Protecção dos Jovens.

Conceitos Fundamentais
* 39
Declaração sobre os Desaparecimentos dos a prevenir os actos pelos quais se priva alguém
Forçados de liberdade sem deixar qualquer rasto do seu para-
deiro, assimilando-os a crimes contra a Humani-
147. Em Dezembro de 1992, a Assembleia Geral dade. Exige a adopção de medidas eficazes nos planos
adoptou a Declaração sobre a Protecção de Todas as legislativo, administrativo, judicial e outros para pre-
Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados. Esta venir e pôr fim a tais actos, indicando expressamente
Declaração exprime a preocupação da comunidade algumas dessas medidas, que dizem respeito,
internacional perante esta atrocidade de proporções nomeadamente, às garantias processuais, responsa-
mundiais. O texto compreende 21 artigos destina- bilização, aplicação de sanções e reparação das vítimas.

* Nota para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da lei


DESAPARECIMENTOS FORÇADOS OU INVOLUNTÁRIOS
Captura, detenção, rapto ou outra privação de liberdade, perpetrada pelo
Governo ou seus agentes, ou com a sua cumplicidade, tolerância ou aquies-
cência, sempre que o destino ou paradeiro da vítima não seja revelado, ou
a privação de liberdade não seja confirmada.

Princípios sobre as Execuções Extrajudiciais, damente através de uma cadeia de comando cla-
Arbitrárias ou Sumárias ramente definida, sobre os organismos responsá-
veis pela aplicação da lei, bem como de assegurar
148. Os Princípios sobre a Prevenção Eficaz e cuidadosos sistemas de registo, inspecção e noti-
Investigação das Execuções Extrajudiciais, Arbi- ficação das detenções às famílias e aos represen-
trárias ou Sumárias foram recomendados aos tantes legais. Exigem ainda a protecção das
Estados pelo Conselho Económico e Social em testemunhas e dos membros da família, bem
Maio de 1989. Os Princípios proporcionam orien- como a cuidadosa recolha e apreciação das provas
tação aos funcionários responsáveis pela aplicação pertinentes. Os Princípios desenvolvem em deta-
da lei e outras autoridades nacionais sobre a pre- lhe as disposições dos tratados de direitos huma-
venção e investigação desses crimes e procedi- nos que garantem o direito à vida. O seu conteúdo
mentos judiciais a seguir para levar os autores a será analisado em maior detalhe no capítulo XXI,
responder perante a justiça. Sublinham a impor- sobre Investigação das Violações Cometidas pela
tância de exercer um controlo rigoroso, nomea- Polícia.

* Nota para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da lei


EXECUÇÕES EXTRAJUDICIAIS, ARBITRÁRIAS OU SUMÁRIAS
Privação da vida sem um procedimento judicial completo e com a parti-
cipação, cumplicidade, tolerância ou aquiescência do Governo ou seus
agentes. Inclui a morte provocada por uma excessiva utilização da força
pela polícia ou pelas forças de segurança.

MASSACRES

Execução extrajudicial, arbitrária ou sumária de três ou mais pessoas.

40
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
c. Mecanismos de direitos humanos das Nações em alternativa, determinados fenómenos relativos
Unidas aos direitos humanos, como a tortura, a detenção arbi-
149. As Nações Unidas instituíram um complexo trária e os desaparecimentos. Estes mecanismos
sistema de mecanismos para a elaboração de nor- não se baseiam em nenhum tratado de direitos
mas de direitos humanos, sua aplicação e respec- humanos em particular, mas antes na autoridade do
tivo controlo. Conselho Económico e Social e suas comissões fun-
cionais, em conformidade com a Carta das Nações
150. As normas de direitos humanos relevantes no Unidas. Alguns deles aparecem abaixo indicados.
domínio da aplicação da lei foram adoptadas por dife-
rentes organismos do sistema das Nações Unidas,
nomeadamente a Assembleia Geral, o Conselho Eco- 1. MECANISMOS CONVENCIONAIS

nómico e Social, a Comissão dos Direitos do Homem (BASEADOS NOS TRATADOS)

e os Congressos periódicos das Nações Unidas para


a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delin- 153. Diversos organismos do sistema das Nações
quentes. O processo de produção normativa com- Unidas foram criados ao abrigo de pactos e con-
preende a participação de todos os Estados Membros, venções internacionais a fim de controlar a obser-
representando todas as tradições culturais, jurídicas, vância pelos Estados Partes das disposições desses
religiosas e filosóficas existentes no mundo. Esse instrumentos. Tais organismos, designados por
processo beneficia também da contribuição de orga- órgãos de controlo da aplicação dos tratados, foram
nizações não governamentais, associações profis- estabelecidos, nomeadamente, em conformidade
sionais e especialistas no domínio da aplicação da lei. com as disposições dos dois Pactos Internacionais,
Convenção contra a Tortura, Convenção sobre a Eli-
151. No desempenho destas actividades, os orga- minação da Discriminação Racial, Convenção sobre
nismos acima mencionados recebem considerável a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres
assistência da parte de duas unidades do Secreta- e Convenção sobre os Direitos da Criança.
riado das Nações Unidas. O Alto Comissariado/Cen-
tro para os Direitos Humanos funciona como o 154. No desenrolar das suas actividades, estes comi-
centro de coordenação no âmbito do sistema das tés proporcionam importantes orientações para uma
Nações Unidas para todas as questões relativas aos correcta aplicação da lei, não apenas aos Estados cuja
direitos humanos. A Divisão para a Prevenção do situação está sob exame, mas a todos os Estados que
Crime e Justiça Penal funciona como o centro de coor- se esforçam por realizar os direitos consagrados nos
denação para as questões relativas à justiça penal. instrumentos em questão. As disposições dos trata-
dos são muitas vezes de carácter bastante genérico,
152. Os mecanismos de aplicação e controlo mas necessitam de ser postas em prática através de
podem ser divididos em duas categorias funda- disposições específicas e detalhadas ao nível do direito
mentais, de acordo com a origem dos respectivos interno. Por exemplo, os direitos à vida, à liberdade
mandatos: e à segurança pessoal não podem ser assegurados
a) Mecanismos convencionais (baseados nos tra- por normas legais meramente declaratórias. Pelo
tados): Trata-se de organismos criados em confor- contrário, há que adoptar legislação e procedimen-
midade com as disposições de determinados tratados tos detalhados em matéria penal, civil e administra-
internacionais de direitos humanos para controlar a tiva a fim de garantir a reparação das vítimas e a
aplicação desses mesmos tratados. A lista desses seis punição dos infractores, assim como as indispensá-
organismos pode ser encontrada mais adiante. veis garantias processuais. Os funcionários e orga-
b) Mecanismos extraconvencionais (baseados na nismos responsáveis pela aplicação da lei
Carta): A Comissão dos Direitos do Homem desempenham um papel central na aplicação das
nomeou diversos relatores especiais e estabeleceu normas internacionais, mediante uma observância
grupos de trabalho a fim de supervisionar a situa- rigorosa de normas e procedimentos humanos, legais
ção dos direitos humanos em diferentes países ou, e éticos no desempenho das suas funções.

Conceitos Fundamentais
* 41
155. A actividade dos órgãos de controlo da aplicação interno e para auxiliar os organismos responsáveis
dos tratados – e em especial, para os fins do pre- pela aplicação da lei nos seus esforços de inter-
sente manual, do Comité dos Direitos do Homem – pretação e garantia dos direitos consagrados nos ins-
que elaboram uma abundante jurisprudência no trumentos internacionais.
decurso da análise das comunicações e dos relató-
rios estaduais que lhes são apresentados e através 156. Os seis principais tratados de direitos huma-
da formulação de comentários gerais e directrizes, nos e organismos criados para controlar a respec-
serve para informar os processos legislativos a nível tiva aplicação são os seguintes:

Tratado de direitos humanos Correspondente órgão de controlo


da aplicação

Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Cul- • Comité dos Direitos Económicos, Sociais e
turais Culturais

Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos • Comité dos Direitos do Homem
Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas • Comité para a Eliminação da Discriminação
de Discriminação Racial Racial

Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discri- • Comité para a Eliminação da Discriminação
minação contra as Mulheres contra as Mulheres

Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos • Comité contra a Tortura


Cruéis, Desumanos ou Degradantes

Convenção sobre os Direitos da Criança • Comité dos Direitos da Criança

2. MECANISMOS EXTRACONVENCIONAIS (a) Procedimento 1503


(BASEADOS NA CARTA)
158. Em conformidade com a resolução 1503
157. Diversos procedimentos foram instituídos ao (XLVIII) do Conselho Económico e Social, de 27
abrigo dos poderes conferidos pela Carta das de Maio de 1970, a Subcomissão para a Prevenção
Nações Unidas ao Conselho Económico e Social e, da Discriminação e Protecção das Minorias (órgão
através deste, aos seus órgãos subsidiários que das Nações Unidas composto por peritos de direi-
são a Comissão dos Direitos do Homem e a Sub- tos humanos), através do seu Grupo de Trabalho
comissão para a Prevenção da Discriminação e sobre Comunicações, analisa anualmente milha-
Protecção das Minorias. Tais procedimentos res de comunicações que lhe são apresentadas por
podem ser públicos ou terem carácter confidencial. indivíduos e grupos que alegam a existência de vio-
O chamado “procedimento 1503”, por exemplo, é lações sistemáticas de direitos humanos. Caso o
confidencial, ao passo que os diversos relatores Grupo de Trabalho considere que existem provas
especiais e grupos de trabalho temáticos ou encar- suficientes da existência de um padrão regular de
regados de examinar a situação de determinados graves violações de direitos humanos, remete a
países, operam publicamente. questão para exame pelo pleno da Sub-Comissão.

42
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Esta pronuncia-se, então, sobre a questão de saber Relator Especial sobre a Tortura
se o caso deverá ser submetido à Comissão dos
Direitos do Homem, por revelar um padrão regu- 161. Em 1985, a Comissão dos Direitos do Homem
lar de violações de direitos humanos. Caberá designou um Relator Especial sobre a Tortura, para
depois à Comissão decidir sobre a realização de um acompanhar as questões relativas à tortura e outras
estudo aprofundado da situação que inclua um penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degra-
relatório e recomendações ao Conselho Econó- dantes através da comunicação com os Governos,
mico e Social. realização de visitas aos países para consultas sobre
a prevenção dos crimes em causa e recepção de pedi-
159. Todas as fases iniciais do processo são con- dos de acção urgente. O Relator Especial dá segui-
fidenciais, apesar de ser dada oportunidade aos mento a estas solicitações, contactando o Governo
Governos em causa de formular observações. O pro- em causa a fim de garantir a protecção dos indiví-
cedimento torna-se, porém, público quando a situa- duos em questão. Deverá ser sublinhado que o man-
ção é remetida ao Conselho Económico e Social. dato do Relator Especial não se sobrepõe ao do Comité
Desta forma, as violações sistemáticas ocorridas num contra a Tortura, criado ao abrigo da Convenção con-
determinado país para as quais não seja encontrada tra a Tortura, uma vez que a Convenção se aplica ape-
uma solução no decurso das fases iniciais do processo, nas aos Estados que nela são partes, ao passo que o
podem ser levadas ao conhecimento da comunidade mandato do Relator Especial é de âmbito universal.
internacional através do Conselho Económico e Social
– um dos principais órgãos das Nações Unidas. Grupo de Trabalho sobre os Desaparecimentos
Forçados ou Involuntários
(b) Alguns relatores especiais e grupos
de t rabalho Relator Especial sobre execuções 162. Em 1980, a Comissão dos Direitos do Homem
extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias instituiu o Grupo de Trabalho sobre os Desapareci-
mentos Forçados ou Involuntários para acompanhar
160. Este mecanismo foi criado em 1982 com o o fenómeno, que se verifica em diversos países, do
objectivo de permitir à Comissão dos Direitos do “desaparecimento” de pessoas, ou seja, situações em
Homem supervisionar a situação das execuções que estas são raptadas pela força por determinados
arbitrárias no mundo e reagir com eficácia à Governos ou grupos que não deixam rasto do destino
informação que lhe seja apresentada, em parti- que lhes é dado. O Grupo de Trabalho já examinou
cular quando esteja iminente uma execução cerca de 20 000 casos individuais registados em mais
deste tipo ou existam receios de que se possa veri- de 40 países, recorrendo a procedimentos de acção
ficar. O Relator Especial, com a assistência Alto urgente para impedir a ocorrência de desapareci-
Comissariado/Centro para os Direitos Huma- mentos, apurar o paradeiro das pessoas supostamente
nos, recebe e aprecia a informação pertinente “desaparecidas”, processar queixas e canalizar infor-
sobre tais casos, podendo comunicar com os mação entre os Governos e as famílias afectadas.
Governos em causa a fim de evitar execuções
iminentes ou solicitar uma investigação oficial Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbitrária
e medidas penais apropriadas nos casos em que
tenha ocorrido uma execução arbitrária. 163. O último mecanismo a ser mencionado nesta
rubrica é o Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbi-

* Nota para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da lei


PRISÃO E DETENÇÃO ARBITRÁRIAS
Privação de liberdade, sem motivo legal ou processo adequado, por acto do
Governo ou dos seus agentes, ou com a sua cumplicidade, tolerância ou aquies-
cência.

Conceitos Fundamentais
* 43
trária, instituído pela Comissão dos Direitos do 166. A Comissão é um órgão parajudicial que recebe
Homem em 1991 para investigar tais situações e apre- queixas (petições), procura encontrar uma solução
sentar as suas conclusões à Comissão. O Grupo de amigável para a questão e formula pareceres não
Trabalho recorre a procedimentos de acção urgente vinculativos sobre a ocorrência ou não de uma vio-
para intervir em casos em que se suspeita de que lação da Convenção.
alguém tenha sido detido arbitrariamente e que a sua
vida ou saúde esteja em perigo em resultado dessa 167. O Tribunal é um órgão judicial que emite
detenção. O Grupo de Trabalho formula recomen- pareceres consultivos e decide sobre os casos já
dações que apresenta directamente aos Governos em submetidos à Comissão, a pedido de um dos Esta-
causa e submete os casos confirmados à Comissão. dos em causa ou da própria Comissão, sendo estas
decisões vinculativas. Os indivíduos não podem
d. Fontes, sistemas e normas a nível regional recorrer directamente ao Tribunal.
164. O presente manual, que se destina a servir de
instrumento de formação utilizável em todo o 168. O Comité de Ministros é um órgão político
mundo, baseia-se nas normas de N.T.15 composto pelos Governos. Decide sobre os casos já
O sistema europeu
âmbito universal adoptadas pela sofreu recentemente profun- examinados pela Comissão mas não submetidos à
das alterações: já o Protocolo
Organização das Nações Unidas. n.o 9 à Convenção Europeia apreciação do Tribunal. O Comité vela pela execução
dos Direitos do Homem,
Não obstante, os formadores e entrado em vigor a 1 de das sentenças do Tribunal, adopta resoluções
Outubro de 1994, abriu aos
formandos devem conhecer requerentes individuais a pos- mediante as quais solicita aos Estados que tomem as
sibilidade de submeter o caso
também os instrumentos e meca- ao Tribunal, cumpridos que medidas necessárias a este respeito e pode suspen-
estivessem
nismos de âmbito regional exis- alguns requisitos. A entrada der ou expulsar um Estado do Conselho da Europa.
em vigor, a 1 de Novembro
tentes na Europa, nas Américas de 1998, do Protocolo n.o 11
à Convenção Europeia trans-
e em África (na Ásia não exis- formou o sistema por com-
pleto, extinguindo a
tem ainda mecanismos deste Comissão Europeia, abolindo
os poderes de decisão do
2. O SISTEMA INTERAMERICANO NO ÂMBITO
género). Comité de Ministros e admi- DA ORGANIZAÇÃO DE ESTADOS AMERICANOS
tindo expressamente a possi-
bilidade de recurso dos
particulares a um Tribunal
Europeu único e perma-
nente. O sistema de protec-
169. No continente americano, os direitos humanos
1. O SISTEMA EUROPEU ção dos direitos do Homem estão protegidos a nível regional pela Convenção
no âmbito do Conselho da
NO ÂMBITO DO CONSELHO Europa transformou-se,
assim, no primeiro sistema
Americana sobre Direitos Humanos, que entrou
DA EUROPAN.T.15 internacional de protecção em vigor em Julho de 1978. No sistema interame-
dos direitos humanos de
carácter puramente jurisdi-
cional.
ricano, a Comissão Interamericana de Direitos
N.T.16
165. O principal instrumento de Assinada por Portugal
a 22 de Setembro de 1976 e
Humanos recebe queixas por violação da Conven-
direitos humanos existente no aprovada para ratificação
pela Lei n.o 65/78, de 13 de
ção, investiga o caso e formula recomendações, de
espaço da Europa é a Convenção Outubro, publicada no Diá-
rio da República, I Série A,
carácter não vinculativo, destinadas ao Governo em
para a Protecção dos Direitos do n.o 236/78. O aviso de depó-
sito do instrumento de ratifi-
causa. As petições dirigidas contra um Estado Parte
Homem e das Liberdades Funda- cação (aviso 1/79, de 2 de
Janeiro) encontra-se publi-
na Convenção podem acabar por ser submetidas à
mentaisN.T.16 (geralmente desig- cado no Diário da
República, I Série A,
apreciação do Tribunal Interamericano de Direitos
nada por Convenção Europeia n.o 1/79. O instrumento de
ratificação foi depositado Humanos, que profere decisão vinculativa.
junto do Secretário-Geral do
dos Direitos do Homem), que Conselho da Europa a 9 de
Novembro de 1978. O Proto-
entrou em vigor em Setembro colo n.o 11 foi assinado a 11
de Maio de 1994, aprovado
de 1993. Os órgãos do sistema para ratificação pela Resolu- 3. O SISTEMA AFRICANO NO ÂMBITO
ção da Assembleia da Repú-
europeu relacionados com esta blica n.o 21/97, de 3 de Maio DA ORGANIZAÇÃO DE UNIDADE AFRICANA
e ratificado pelo Decreto do
Convenção são a Comissão Presidente da República
n.o 20/97, da mesma data.
Europeia dos Direitos do Ambos os documentos se 170. A Carta Africana dos Direitos do Homem e dos
encontram publicados no
Homem, o Tribunal Europeu Diário da República, I Série Povos foi adoptada pela Organização de Unidade
A, n.o 102/97. O instrumento
dos Direitos do Homem e o de ratificação foi depositado Africana em 1981, tendo entrado em vigor em
junto do Secretário-Geral
Comité de Ministros do Conselho do Conselho da Europa Outubro de 1986. Nos termos da Carta, foi criada
a 14 de Maio de 1997.
da Europa. a Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos

44
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Povos com a missão de promover e proteger os ponder às questões que se coloquem a respeito
direitos humanos em África. A Comissão inter- do mesmo sistema.
preta ainda as normas da Carta e tem competên-
cia para receber queixas de violações de direitos 172. A mensagem essencial a ser retirada do pre-
humanos apresentadas por Estados, indivíduos e sente capítulo é a seguinte: os direitos humanos
grupos. Com base em tais queixas, pode procurar não são uma questão sob a jurisdição exclusiva
uma solução amigável, empreender estudos e for- do Estado ou dos seus agentes. Pelo contrário,
mular recomendações. constituem uma preocupação legítima da comu-
nidade internacional, empenhada há mais de
e. Conclusões meio século na definição de normas, criação de
171. O presente capítulo destina-se apenas a dar mecanismos para a aplicação das mesmas e con-
uma panorâmica geral das fontes, sistemas e trolo da respectiva observância. Os funcionários
normas internacionais de direitos humanos e organismos responsáveis pela aplicação da lei
relevantes no domínio da aplicação da lei. que desempenham as suas importantes funções
Embora os formadores se devam familiarizar de forma a respeitar e proteger os direitos huma-
tanto quanto possível com as matérias abordadas, nos honram, não só a si próprios, mas também
não é aconselhável tentar transmitir toda a infor- o Governo que os emprega e a nação que servem.
mação contida neste capítulo numa só sessão. Ao Aqueles que cometem violações de direitos
invés, ele deverá ser utilizado como fonte da humanos acabarão por chamar a atenção da
informação necessária para transmitir aos par- comunidade internacional e ser por ela conde-
ticipantes, numa sessão introdutória, o conhe- nados. O desafio do verdadeiro profissional de
cimento básico do sistema internacional que polícia deverá, pois, consistir em aplicar e defen-
disciplina a respectiva actividade e, ao longo do der as normas de direitos humanos, em todas as
curso, como material de referência para res- ocasiões.

f. Revisão básica do capítulo Primeira Revisão


Principais organismos do sistema das Nações Unidas relevantes no domínio da
aplicação da lei

• Assembleia Geral
• Conselho Económico e Social
• Comissão dos Direitos do Homem
• Subcomissão para a Prevenção da Discriminação e Protecção das Minorias
• Congressos periódicos das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e
o Tratamento dos Delinquentes

Segunda Revisão
Principais instrumentos de direito internacional relevantes no domínio da apli-
cação da lei

• Declaração Universal dos Direitos do Homem


• Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
• Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais
• Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei
• Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos
Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei

Deveres e funções da Polícia


* 45
• Conjunto de Princípios para a Protecção de Todas as Pessoas Sujeitas a
Qualquer Forma de Detenção ou Prisão

•Declaração dos Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da Cri-


minalidade e de Abuso de Poder

• Declaração sobre a Protecção de Todas as Pessoas contra os Desapare-


cimentos Forçados

• Princípios sobre a Prevenção Eficaz e Investigação das Execuções Extra-


judiciais, Arbitrárias ou Sumárias

• Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça de Menores

Terceira Revisão
Principais mecanismos internacionais de direitos humanos relevantes no
domínio da aplicação da lei

• Órgãos de controlo da aplicação dos tratados das Nações Unidas em maté-


ria de direitos humanos

• Procedimento confidencial 1503


• Relator Especial sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias
• Relator Especial sobre a Tortura
• Grupo de Trabalho sobre os Desaparecimentos Forçados ou Involuntários
• Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbitrária

g. Exercício prático h. Tópicos para discussão


Você foi designado como conselheiro para as ques- 1. Por que motivos se deverão os funcioná-
tões de polícia da delegação oficial do seu país a uma rios responsáveis pela aplicação da lei preocu-
conferência das Nações Unidas sobre direitos par com as normas internacionais de direitos
humanos. A conferência tem por objectivo elabo- humanos?
rar uma nova declaração internacional sobre a pro-
tecção dos direitos humanos, para ser submetida 2. Em que medida a lei do seu país incorpora as
ao Conselho Económico e Social. Enquanto con- normas internacionais? Existem algumas áreas
selheiro para as questões de polícia e com base na em que a lei interna oferece maior protecção em
sua experiência profissional: termos de direitos humanos do que as normas
internacionais? Existem algumas áreas em que
a) Considera que existe algum grupo particular- oferece menor protecção?
mente vulnerável que, na sua opinião, necessite de
maior protecção no âmbito do sistema internacional 3. Podem as violações de direitos humanos por
de direitos humanos? parte da polícia tornar mais difícil a missão das for-
ças da ordem? Como?
b) Considera que existem algumas práticas con-
cretas no domínio da aplicação da lei que, na sua 4. Por que razão o papel da polícia nacional
opinião, deveriam estar sujeitas a um controlo inter- é tão importante na protecção dos direitos
nacional mais rigoroso? humanos?

46
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cap
ítu
lo

*08
Conduta policial lícita
e conforme
aos princípios éticos

Objectivos do capítulo • Familiarizar os formadores e, através deles, os participantes no curso, com


os princípios éticos fundamentais que derivam dos instrumentos interna-
cionais relevantes e se aplicam aos seus deveres profissionais.
}
}

Princípios fundamentais • Os direitos humanos derivam da dignidade inerente à pessoa humana.


• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão respeitar e cum-
prir a lei em todas as ocasiões.

• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão cumprir os deve-


res que lhes são impostos pela lei em todas as ocasiões, servindo a sua comu-
nidade e protegendo todas as pessoas contra actos ilegais, em conformidade
com o alto nível de responsabilidade exigido pela sua profissão.

• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei não deverão cometer


qualquer acto de corrupção. Dever-se-ão opor frontalmente a tais actos e
combatê-los.

• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão respeitar e pro-


teger a dignidade humana, bem como defender e garantir os direitos
humanos de todas as pessoas.

• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão participar as


violações de leis, códigos e conjuntos de princípios que promovem e prote-
gem os direitos humanos.

• Todas as actividades da polícia deverão respeitar os princípios da legali-


dade, necessidade, não discriminação, proporcionalidade e humanidade.
}

47
*
Segunda Parte
a. Normas internacionais sobre uma con- • o respeito da dignidade da pessoa humana;
duta policial lícita e conforme aos princípios éti- • o respeito e a protecção dos direitos humanos.
cos – Informação para as apresentações
São estes os princípios fundamentais que servem
de base a uma conduta policial ética e lícita e dos
1. INTRODUÇÃO quais derivam todas as obrigações e disposições
específicas neste domínio que passamos a enun-
173. As normas internacionais de direitos huma- ciar:
nos relevantes no domínio da aplicação da lei pro-
porcionam uma base sólida para uma actividade (b) Disposições específicas sobre
policial ética e lícita. Contudo, algumas normas uma conduta policial lícita e conforme aos
dizem particularmente respeito à ética policial, e princípios éticos
outras colocam questões de ordem ética aos orga-
nismos e funcionários responsáveis pela aplicação 178. Os princípios supra mencionados estão con-
da lei. O presente capítulo centra-se nessas normas sagrados nos artigos 2.o e 8.o do Código de Conduta
particularmente importantes. para os Funcionários Responsáveis pela Aplica-
ção da Lei. Ao adoptar este Código, na sua resolu-
174. Os direitos humanos baseiam-se na noção de ção 34/169 de 17 de Dezembro de 1979, a
respeito pela dignidade inerente à pessoa humana. Assembleia Geral reconheceu as importantes tare-
Estes direitos são inalienáveis: ninguém pode ser fas que os funcionários responsáveis pela aplica-
deles privado. Além disso, os direitos humanos são ção da lei desempenham, com diligência e
protegidos pelo direito internacional e pela lei dignidade, em conformidade com os princípios
interna dos Estados. de direitos humanos, e instou a que o conteúdo e
o significado das normas do Código fossem incul-
175. A polícia, enquanto força responsável pela cados a todos os funcionários responsáveis pela apli-
aplicação da lei, tem claramente a obrigação de res- cação da lei, através da educação, da formação e do
peitar esta mesma lei, nomeadamente a legislação estabelecimento de mecanismos de controlo.
adoptada para promoção e protecção dos direitos
humanos. Ao fazê-lo, estará a respeitar o princípio 179. O Código de Conduta é composto por oito
fundamental que serve de base à própria lei – o prin- artigos, cada um dos quais seguido de um comen-
cípio do respeito pela dignidade humana. Estará tam- tário explicativo, que podem ser resumidos nos
bém a reconhecer a inalienabilidade dos direitos seguintes termos:
humanos de todas as pessoas.
O artigo 1. o exige que os funcionários responsá-
176. As bases de uma conduta policial ética e lícita veis pela aplicação da lei cumpram, a todo o
são, pois, o respeito da lei, o respeito da digni- momento, o dever que a lei lhes impõe. A
dade humana e, consequentemente, o respeito expressão “funcionários responsáveis pela apli-
dos direitos humanos. cação da lei” é definida no comentário,
incluindo todos os agentes da lei que exercem
poderes de polícia, especialmente poderes de
2. ASPECTOS GERAIS DE UMA CONDUTA POLICIAL captura ou detenção.
LÍCITA E CONFORME AOS PRINCÍPIOS ÉTICOS
O artigo 2.o exige que os funcionários responsáveis
(a) Princípios fundamentais pela aplicação da lei respeitem e protejam a dig-
nidade humana e que defendam e garantam os
177. A aplicação e a manutenção da ordem pública direitos humanos. O comentário enuncia os ins-
devem ser compatíveis com: trumentos internacionais de direitos humanos
• o respeito e o cumprimento da lei; relevantes no domínio da aplicação da lei.

48
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
O artigo 3.o restringe a utilização da força por parte tações para o cumprimento das obrigações jurídi-
dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei cas de promover e proteger os direitos humanos,
ao estritamente necessário e na medida exigida ao mesmo tempo que reafirma algumas destas
pelo cumprimento do seu dever. O comentário faz obrigações. O Código constitui a base ideal para a
referência ao princípio da proporcionalidade no uso elaboração de códigos deontológicos nacionais
da força e considera a utilização de armas de fogo destinados aos agentes policiais.
como uma medida extrema.
[i] Ética policial e utilização da força
O artigo 4.o estabelece que as informações de
natureza confidencial em poder dos funcionários 182. O presente manual compreende um capítulo
responsáveis pela aplicação da lei devem ser man- autónomo dedicado à utilização da força pela polí-
tidas em sigilo, a menos que o cumprimento do cia. Contudo, é importante referir nesta fase o
dever ou as necessidades da justiça exijam abso- princípio 1 dos Princípios Básicos sobre a Utiliza-
lutamente o contrário. ção da Força e de Armas de Fogo pelos Funcioná-
rios Responsáveis pela Aplicação da Lei, nos
O artigo 5.o consagra a proibição absoluta da tor- termos do qual “os Governos e os organismos de
tura e de outros tratamentos cruéis, desumanos ou aplicação da lei devem manter sob permanente
degradantes. Afirma ainda que nenhum funcionário avaliação as questões éticas ligadas à utilização da
responsável pela aplicação da lei poderá invocar força e de armas de fogo”.
ordens superiores ou circunstâncias excepcionais,
tais como a guerra ou a ameaça à segurança nacio- 183. A exigência de avaliação permanente das
nal, para justificar a prática da tortura. questões éticas implica a necessidade de instituir
sistemas para esse fim e tem implicações nos pro-
O artigo 6.o exige que os funcionários responsáveis gramas de formação que abordam os aspectos teó-
pela aplicação da lei assegurem a protecção da ricos e práticos da utilização da força.
saúde das pessoas à sua guarda.
[ii] Conduta policial lícita e conforme
O artigo 7.o proíbe que os funcionários responsá- aos princípios éticos – responsabilidade
veis pela aplicação da lei cometam qualquer acto de individual
corrupção.
184. A responsabilidade individual dos agentes
O artigo 8.o exige que os funcionários responsáveis policiais é abordada nos seguintes instrumentos:
pela aplicação da lei respeitem a lei e o Código de
Conduta e que evitem e se oponham vigorosa- Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou
mente a quaisquer violações dos mesmos. Impõe- Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes
-lhes ainda a obrigação de denunciar as violações – o artigo 2.o, n.o 3, estabelece que: “Nenhuma
do Código. ordem de um superior ou de uma autoridade
pública poderá ser invocada para justificar a tor-
180. As “ordens superiores” e “circunstâncias tura”. Esta norma aplica-se a qualquer funcioná-
excepcionais”, referidas no artigo 5.o do Código, bem rio público ou pessoa actuando a título oficial. De
como a obrigação de participar violações enun- qualquer forma, conforme já indicado, o Código de
ciada no artigo 8.o, são claramente importantes Conduta para os Funcionários Responsáveis pela
no domínio da ética da actividade policial e serão Aplicação da Lei inclui uma norma semelhante.
analisadas em maior detalhe mais adiante, uma vez
que relevam também de outros instrumentos. Código de Conduta para os Funcionários Respon-
sáveis pela Aplicação da Lei – o artigo 5.o, que rei-
181. O Código de Conduta pode ser considerado tera a proibição da tortura, dispõe que nenhum
como um código deontológico que fornece orien- funcionário responsável pela aplicação da lei

Conceitos Fundamentais
* 49
poderá invocar ordens superiores para justificar a Princípio 19 – dispõe que, sem prejuízo do prin-
prática da tortura. cípio 3, uma ordem de um superior hierárquico ou
Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de de uma autoridade pública não poderá ser invocada
Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis como justificação para tais execuções; e estabe-
pela Aplicação da Lei – Incluem três princípios rela- lece que os superiores hierárquicos ou outros fun-
tivos à responsabilidade individual, a saber: cionários públicos poderão ser responsabilizados
pelos actos cometidos pelos agentes sob as suas
Princípio 24 – exige que os Governos e organismos ordens caso tivessem tido uma possibilidade
responsáveis pela aplicação da lei garantam que os razoável de impedir a ocorrência desses actos.
funcionários superiores são responsabilizados caso
tenham, ou devessem ter, conhecimento de que os [iii] Conduta policial lícita e conforme
funcionários sob as suas ordens utilizam ou aos princípios éticos – dever de denunciar
tenham utilizado ilicitamente a força ou armas de as violações
fogo, e não tomem as medidas ao seu alcance para
impedir, fazer cessar ou denunciar tal abuso. 185. O dever dos agentes policiais de denunciarem
as violações de direitos humanos que cheguem
Princípio 25 – exige que os Governos e organismos ao seu conhecimento está consagrado nos seguin-
responsáveis pela aplicação da lei assegurem que tes instrumentos:
não é imposta qualquer sanção penal ou discipli-
nar aos agentes policiais que, em conformidade com Código de Conduta para os Funcionários Respon-
o Código de Conduta para os Funcionários Res- sáveis pela Aplicação da Lei: conforme já ficou
ponsáveis pela Aplicação da Lei e com os Princí- dito, o artigo 8.o ocupa-se da denúncia das viola-
pios Básicos, se recusem a cumprir uma ordem para ções. Em termos concretos, isto significa que os
utilizar a força ou armas de fogo ou denunciem essa agentes policiais que tenham motivos para crer que
utilização por parte de outros funcionários. se produziu ou está prestes a produzir-se uma vio-
lação do Código de Conduta deverão dar conta
Princípio 26 – estabelece que a obediência a desse facto aos seus superiores e, se necessário, a
ordens superiores não pode ser invocada caso os outras autoridades ou instâncias de controlo ou de
agentes policiais soubessem que a ordem de uti- recurso competentes. O comentário a este artigo
lização da força ou de armas de fogo de que reconhece a necessidade de preservar a disciplina
resultaram a morte ou lesões graves era mani- interna do organismo em questão. Os funcionários
festamente ilegal e tivessem uma possibilidade responsáveis pela aplicação da lei só deverão, pois,
razoável de se recusar a cumpri-la. efectuar tais denúncias junto de outras entidades
Princípios sobre a Prevenção Eficaz e Investigação que não os seus superiores imediatos caso não
das Execuções Extrajudiciais, Arbitrárias ou Sumá- exista, ou não seja eficaz, outra alternativa.
rias – Incluem dois princípios, cada um dos quais
compreende diversas disposições, que se relacio- Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de
nam com a responsabilidade individual, nos termos Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis
seguintes: pela Aplicação da Lei: a obrigação de denunciar as
violações dos Princípios não está explicitamente
Princípio 3 – impõe aos Governos a obrigação de consagrada mas, como já tivemos oportunidade de
proibir ordens de funcionários superiores ou auto- referir, o princípio 25 proíbe a imposição de san-
ridades públicas que autorizem ou incitem outras ções penais ou disciplinares aos funcionários que
pessoas a levar a cabo execuções extrajudiciais, procedam a essas denúncias.
arbitrárias ou sumárias; exige que todas as pessoas
tenham o direito e o dever de se recusar a cumprir Conjunto de Princípios para a Protecção de Todas
tais ordens; e estabelece que a formação das for- as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de Detenção
ças policiais deverá destacar estas disposições. ou Prisão: Incluem um princípio, composto por

50
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
várias normas, que obriga à denúncia das violações. cação para a prática de execuções extrajudiciais,
O n.o 2 do Princípio 7 estabelece que os funcionários arbitrárias ou sumárias.
que tenham razões para acreditar que ocorreu ou
está iminente uma violação do Conjunto de Prin-
cípios, deverão comunicar esse facto aos seus 3. OBSERVAÇÕES FINAIS
superiores e, se necessário, a outras autoridades
competentes de controlo ou de recurso. 187. As demais partes relevantes dos instrumen-
tos de direitos humanos acima mencionados serão
[iv] Conduta policial lícita e conforme analisadas nos capítulos seguintes. É evidente que
aos princípios éticos – circunstâncias a observância por parte dos agentes das disposições
excepcionais e situações de emergência pública destes instrumentos garantirá uma conduta poli-
cial ética e lícita nas áreas pelos mesmos abrangidas.
186. Os seguintes instrumentos abordam as ques-
tões relativas às circunstâncias excepcionais e 188. Para além das normas do Código de Conduta
situações de emergência pública: para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação
da Lei, que dizem respeito à ética policial em geral,
Declaração sobre a Protecção de Todas as Pessoas as disposições dos outros instrumentos referidos no
contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos presente capítulo foram destacadas uma vez que
Cruéis, Desumanos ou Degradantes: o artigo 3.o tratam de questões específicas relativas à ética e
afirma que não se poderão invocar circunstâncias licitude do comportamento policial.
excepcionais tais como o estado de guerra ou
ameaça de guerra, a instabilidade política interna 189. Por exemplo, a questão da responsabilidade indi-
ou qualquer outra situação de emergência pública vidual – dos funcionários superiores que emitam
como justificação para a prática da tortura ou de ordens ilícitas e de outros funcionários que even-
outros maus tratos. tualmente recebam semelhantes ordens – é muito
importante numa instituição disciplinada e hierar-
Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou quicamente organizada. As disposições dos instru-
Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes: mentos examinados no presente capítulo são bastante
o artigo 2.o, n.o 2, contém uma disposição seme- claras quanto a determinar quem incorre em res-
lhante à da Declaração. ponsabilidade individual: a pessoa que profere a ordem
ilícita e a pessoa que comete o acto ilícito, não obstante
Código de Conduta para os Funcionários Respon- este ter ou não sido ordenado por um superior.
sáveis pela Aplicação da Lei: conforme supra men-
cionado, o artigo 5.o proíbe expressamente aos 190. Quanto às disposições que exigem que a polí-
agentes policiais a invocação de circunstâncias cia denuncie as violações de direitos humanos, os
excepcionais ou situações de emergência pública instrumentos não se limitam a elevar esta obriga-
para justificar a prática da tortura ou outros maus ção de denunciar à categoria de norma interna-
tratos. cional, eles indicam também as situações em que
o agente pode e deve recorrer a instâncias exteriores
Princípios sobre a Prevenção Eficaz e Investiga- à instituição policial para o fazer.
ção das Execuções Extrajudiciais, Arbitrárias ou
Sumárias: nos termos do Princípio 1, que exige 191. A terceira questão de relevância específica
que os Governos proíbam por lei quaisquer exe- que abordámos, isto é, a proibição de invocação
cuções desse tipo, as circunstâncias excepcio- de circunstâncias excepcionais ou situações de
nais, nomeadamente o estado de guerra ou a emergência para justificar uma conduta policial
ameaça de guerra, a instabilidade política interna ilícita ou anti-ética, reveste-se da maior impor-
ou qualquer outra situação de emergência tância. Sempre que se verifiquem circunstâncias
pública, não poderão ser invocadas como justifi- excepcionais, bem como durante situações de

Conceitos Fundamentais
* 51
emergência, a polícia pode ficar sujeita a consi- ciais individualmente considerados e as organi-
deráveis pressões no sentido de demonstrar efi- zações de polícia se devem esforçar por ser efica-
cácia e “conseguir resultados”. Esta pressão pode zes e, ao mesmo tempo, por respeitar a lei, a
ser imposta pelo poder político, pela opinião dignidade humana e os direitos humanos. Garan-
pública ou ter origem dentro do próprio orga- tir a eficácia da acção policial é, em parte, uma ques-
nismo responsável pela aplicação da lei. Tais tão de competência profissional e técnica; mas,
situações colocam dilemas tanto éticos como independentemente do nível de competência, esse
jurídicos a todos os agentes de polícia, consti- objectivo não poderá ser atingido sem o apoio
tuindo as normas internacionais, que são bas- activo e a cooperação efectiva do público em geral.
tante claras na matéria, um importante ponto de É mais fácil conseguir e manter tal apoio e coo-
referência tanto para estes últimos como para as peração caso a actividade policial seja desenvolvida
instituições policiais. de forma lícita e humana. Uma polícia arbitrária,
violenta e desrespeitadora da lei suscita o medo e
192. A exigência de uma conduta policial ética e o desprezo. Tal polícia não recebe, nem merece, o
lícita significa essencialmente que os agentes poli- apoio do público.

b. Normas internacionais sobre uma conduta policial lícita


e conforme aos princípios éticos – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS


}


RECOMENDAÇÕES DESTINADAS Inscreva-se em programas de formação contínua para compreender
A TODOS OS AGENTES POLICIAIS melhor as competências que a lei lhes atribui e respectivas limitações.

• Lembre-se que a “obediência a ordens superiores” não poderá ser invo-


cada para justificar violações graves de direitos humanos, tais como exe-
cuções extrajudiciais e actos de tortura.

• Procure conhecer bem os procedimentos, tanto internos como externos,


de queixa e denúncia.

• Denuncie as infracções à lei e as violações de direitos humanos.


• Organize acções de formação contínua a fim de garantir que todos os agen-
tes policiais compreendem plenamente as suas competências legais e os direi-
tos dos cidadãos.

• Através do exemplo e de uma boa prática de comando e gestão, assegure-


-se de que todos os agentes policiais respeitam a dignidade de todas as pes-
soas.

• Assegure-se de que toda a política e estratégia policiais, bem como as


ordens dadas aos subordinados, têm em conta a exigência de proteger e
promover os direitos humanos.

• Assegure-se de que todas as participações e queixas por violações de


direitos humanos são adequada e cabalmente investigadas.

• Elabore e aplique regulamentos internos que incorporem as normas


internacionais de direitos humanos.

• Elabore um código deontológico para o corpo de polícia a que pertence,


incorporando as normas internacionais referidas no presente capítulo.
}

52
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS tário explicativo, para distribuição por todos os
agentes policiais. O documento será também tor-
Exercício n.o 1 nado público. Redija um instrumento que preen-
cha os requisitos enunciados na presente hipótese.
Os instrutores e formadores das forças policiais,
sobretudo os que se ocupam dos novos agentes, Exercício n.o 3
deparam-se com o problema de as atitudes e os
conhecimentos adquiridos nos programas de for- O Princípio 1 dos Princípios Básicos sobre a Uti-
mação serem por vezes contrariados pelas atitudes lização da Força e de Armas de Fogo pelos Fun-
e comportamentos prevalecentes no seio da insti- cionários Responsáveis pela Aplicação da Lei exige
tuição policial. Por outras palavras, a cultura da orga- que os Governos e organismos responsáveis pela
nização pode ser hostil a algumas atitudes e aplicação da lei mantenham “sob permanente ava-
conhecimentos considerados desejáveis num liação as questões éticas ligadas à utilização da
agente de polícia. Isto é especialmente verdade no força e de armas de fogo”.
que diz respeito à formação policial em matéria de
direitos humanos. 1). Que práticas e procedimentos podem ser
adoptados a fim de manter as questões éticas liga-
O que pode ser feito para solucionar este problema das à utilização da força e de armas de fogo sob per-
por parte dos: manente avaliação?

a) Formadores e instrutores das forças policiais? 2). Analise e descreva formas de abordar as
questões éticas relacionadas com a utilização da
b) Comandantes e supervisores das forças policiais? força e de armas de fogo pela polícia no âmbito
da formação dos agentes policiais.
Elabore uma pequeno texto com os conselhos que
daria aos novos agentes colocados às suas ordens Exercício n.o 4
ou sob a sua supervisão, sobre a forma como
podem ser polícias eficazes e ao mesmo tempo res- O Princípio 7, n.o 2, do Conjunto de Princípios para
peitadores dos direitos humanos. a Protecção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer
Forma de Detenção ou Prisão estabelece:
Exercício n.o 2
Os funcionários com razões para crer que ocorreu
Imagine que foi nomeado para um comité encar- ou está iminente uma violação do presente Con-
regado de elaborar um código deontológico para a junto de Princípios devem comunicar esse facto aos
polícia do seu país. Você deverá ter em conta: seus superiores e, sendo necessário, a outras auto-
ridades ou instâncias competentes de controlo ou
a) O princípio do respeito pela dignidade inerente de recurso.
à pessoa humana;
1). Que dificuldades poderá um agente policial
b) O Código de Conduta para os Funcionários que faça uma denúncia desse tipo ter de enfren-
Responsáveis pela Aplicação da Lei, das Nações tar dentro da instituição a que pertence?
Unidas;
2). Como podem essas dificuldades ser ultra-
c) As circunstâncias do seu país, nomeadamente passadas?
quaisquer preocupações com a actual evolução da
criminalidade e com a actividade policial, e elabo- 3). Caso um agente policial tenha motivos para
rar um código deontológico composto por diversos acreditar que ocorreu uma violação do Conjunto de
artigos, cada um dos quais seguido de um comen- Princípios, terá ele o direito de, em todas as cir-

Conceitos Fundamentais
* 53
cunstâncias, levar a questão ao conhecimento de 6). O artigo 7.o do Código de Conduta para os Fun-
entidades estranhas à organização policial – por cionários Responsáveis pela Aplicação da Lei
exemplo, à imprensa? proíbe que os agentes policiais cometam qualquer
acto de corrupção. Como definiria um acto de cor-
4). O que aconselharia aos novos agentes em rupção? Indique as três condições que considera
fase de formação sobre a maneira de responder mais importantes para prevenir a corrupção no
caso sejam testemunhas de maus tratos cometi- seio da polícia.
dos por colegas seus contra detidos?
7). A utilização da força por parte da polícia con-
tra uma pessoa levanta questões tanto éticas como
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO jurídicas. Que nível de força terá um agente de exer-
cer para que se coloquem tais questões? Por outras
1). Que vantagens tem a afirmação de que os direi- palavras, pode a mais pequena utilização de força
tos humanos são inalienáveis e inerentes a todas colocar questões no domínio da ética e da legali-
as pessoas e não direitos concedidos pelos Estados? dade, ou tal só acontecerá caso se verifiquem
lesões corporais?
2). Porque sentem alguns polícias existir uma
certa incompatibilidade entre a aplicação da lei e 8). Uma vez que a polícia tem a obrigação de
a protecção dos direitos humanos? cumprir as disposições da lei interna, que define
as competências das forças policiais e protege os
3). O que pode ser feito para fazer desaparecer a direitos humanos, qual a finalidade dos códigos
ideia presente em alguns polícias de que o respeito deontológicos adoptados nos diferentes países?
dos direitos humanos pode ser incompatível com
a aplicação da lei? 9). Na sua opinião, que qualidades deverá reunir
um candidato ao ingresso na polícia, tendo em
4). Que utilidade têm os códigos adoptados a conta que deverá ser capaz de agir com eficácia e
nível internacional, tais como o Código de Conduta em conformidade com os princípios éticos
para os Funcionários Responsáveis pela Aplica- enquanto agente policial?
ção da Lei, para cada agente policial e organismo
responsável pela aplicação da lei? 10). Existem algumas vantagens na elaboração de
códigos deontológicos distintos para as diferentes
5). Que procedimentos de gestão e supervisão categorias de agentes policiais, por exemplo, para os
podem ser adoptados para garantir que todos os fun- funcionários responsáveis pela investigação penal?
cionários de polícia respeitam a obrigação de confi- Em que medida seria esse código distinto das dis-
dencialidade imposta pelo artigo 4.o do Código de posições fundamentais do Código de Conduta para
Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Apli- os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei
cação da Lei? das Nações Unidas?

54
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cap
ítu
lo

*09
O papel da Polícia
numa Sociedade democrática

Objectivos do capítulo • Sensibilizar os formadores e os formandos para as normas e concepções


relativas à actividade policial que sejam conformes aos princípios da ordem
democrática, por confronto com os modelos baseados no autoritarismo.
}
}

Princípios fundamentais •No exercício dos seus direitos e liberdades, cada pessoa está sujeita ape-
nas às limitações estabelecidas pela lei.

• As limitações ao exercício dos direitos e liberdades serão apenas as neces-


sárias para assegurar o reconhecimento e o respeito dos direitos dos outros
e para satisfazer as justas exigências da moralidade, da ordem pública e
do bem-estar numa sociedade democrática.

• Todos têm o direito de tomar parte na direcção dos negócios públicos do


seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livre-
mente escolhidos.

• A vontade do povo constitui o fundamento da autoridade do poder político.


• A vontade do povo deve exprimir-se através de eleições honestas, a rea-
lizar periodicamente por sufrágio universal e igual.

• Cada organismo responsável pela aplicação da lei deve ser representa-


tivo da comunidade no seu conjunto, responder às suas necessidades e
ser responsável perante ela.

• Todas as pessoas têm direito à liberdade de opinião, expressão, reunião


e associação.

• Todos os agentes policiais são parte integrante da comunidade e têm o


dever de a servir.
}

55
*
Segunda Parte
a. Normas internacionais sobre direitos nal contêm disposições análo- N.T.1
Assinado por Portugal a
22 de Setembro de 1976 e
humanos e actividade policial numa socie- gas: aprovado para ratificação
por Portugal pela Lei
dade democrática – Informação para as apre- n.o 65/78, de 13 de Outu-
bro, publicada no Diário da
sentações Carta Africana dos Direitos do República, I Série A,
n.o 236/ /78. O aviso de
depósito do instrumento de
Homem e dos Povos ratificação (aviso n.o 1/79,
– artigo 13.o: de 2 de Janeiro) encontra-se
publicado no Diário da
1. INTRODUÇÃO República, I Série A, n.o
1/79. O instrumento de rati-
ficação foi depositado junto
Convenção Americana sobre do Secretário-Geral do Con-
193. O termo “democracia” tem múltiplos sig- Direitos Humanos selho da Europa a 9 de
Novembro de 1978.
nificados e existem diversas formas de – artigo 23.o;
governo democrático. Como este manual se Protocolo n.o 1N.T.1 à Convenção
destina a ser utilizado no mundo inteiro, e diz Europeia dos Direitos do Homem
respeito aos direitos humanos e à aplicação da – artigo 3.o.
lei, há que interpretar esse termo em sentido
muito amplo e conforme consagrado em diver- Convém também fazer referência a estes textos,
sos instrumentos de direitos humanos. sempre que necessário.

194. Por exemplo, a maior parte dos Princípios 196. A democracia está relacionada com dois
Fundamentais acima enunciados figuram na outros ideais importantes no domínio da aplicação
Declaração Universal dos Direitos do Homem, cujo da lei:
artigo 21.o estabelece que toda a pessoa tem direito: • o princípio do Estado de Direito;
• de tomar parte na direcção dos negócios públi- • a promoção e protecção dos direitos humanos.
cos do seu país, quer directamente, quer por inter-
médio de representantes livremente escolhidos; De facto, estes três ideais são interdependentes, pois
• de acesso, em condições de igualdade, às funções a melhor forma de proteger os direitos humanos
públicas do seu país. consiste em garantir a existência de processos
democráticos eficazes e a manutenção do Estado
O artigo 21.o refere ainda que: de Direito; além disso, os textos de direitos huma-
• a vontade do povo é o fundamento da autoridade nos consagram direitos e liberdades que são
dos poderes públicos; essenciais tanto para os processos democráticos
• esta vontade deve exprimir-se através de eleições como para o Estado de Direito.
honestas a realizar periodicamente;
• as eleições serão realizadas por sufrágio univer- 197. Um aspecto significativo da actividade policial
sal e igual, com voto secreto ou segundo processo numa sociedade democrática que deverá ser refe-
equivalente que salvaguarde a liberdade de voto. rido nestas observações iniciais é a questão do
“policiamento democrático”. Este conceito é
195. O Pacto Internacional sobre os Direitos importante, uma vez que a actividade policial é um
Civis e Políticos (artigo 25.o) consagra os mes- dos meios através dos quais se governa um
mos direitos: Estado. Como os processos e as formas de governo
• direito de tomar parte na direcção dos negócios democráticos constituem direitos humanos fun-
públicos, directa ou indirectamente; damentais, a noção de policiamento democrático
• direito de aceder, em condições gerais de igual- baseia-se nestes direitos. Um dos requisitos de
dade, às funções públicas do seu país; um policiamento democrático é a responsabili-
• direito de votar em eleições genuínas e perió- dade da polícia perante a população que serve.
dicas.
198. Os direitos essenciais numa democracia e o
NOTA PARA OS FORMADORES: Os seguintes ins- papel da polícia relativamente a esses direitos são
trumentos de direitos humanos de âmbito regio- questões de que nos ocuparemos mais adiante,

56
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
assim como o policiamento democrático e seus são claramente importantes para que as pessoas,
requisitos. individualmente ou em grupo, possam conceber
e desenvolver ideias e ideais. Isto constitui, por
outro lado, um elemento fundamental dos pro-
2. ASPECTOS GERAIS DA ACTIVIDADE POLICIAL cessos políticos democráticos.
NUMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA
[ii] Direito à liberdade de opinião
(a) Princípios fundamentais e de expressão

199. Os princípios democráticos fundamentais 203. Este direito é protegido pela Declaração Uni-
enunciados nos textos de direitos humanos são versal dos Direitos do Homem (artigo 19.o), Pacto
os seguintes: Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
• participação directa e por intermédio de represen- (artigo 19.o), Carta Africana dos Direitos do Homem
tantes na direcção dos negócios públicos (de onde e dos Povos (artigo 9.o), Convenção Americana
decorre o direito de todas as pessoas de participar, sobre Direitos Humanos (artigo 13.o) e Convenção
directa ou indirectamente, no governo do seu país); Europeia dos Direitos do Homem (artigo 10.o).
• igualdade de acesso à função pública;
• sufrágio universal e igual com base em eleições 204. A liberdade de opinião é indispensável aos pro-
livres e periódicas; cessos políticos, da mesma forma que a liberdade
• respeito das liberdades fundamentais. de consciência. A possibilidade de comunicar pen-
samentos e opiniões é mais um dos elementos
As normas específicas dos instrumentos de direi- necessários ao exercício da democracia.
tos humanos foram concebidas para tornar efecti-
vos os princípios acima enunciados e serão [iii] Direitos à liberdade de reunião
analisadas em seguida. e de associação pacíficas

(b) Disposições específicas sobre 205. Estes direitos são protegidos pela Declaração
a actividade policial numa sociedade Universal dos Direitos do Homem (artigo 20.o),
democrática Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Polí-
ticos (artigos 21.o e 22.o), Carta Africana dos Direi-
200. Os direitos essenciais aos processos políticos tos do Homem e dos Povos (artigos 10.o e 11.o),
democráticos e aos princípios acima enumerados Convenção Americana sobre Direitos Humanos
(que se encontram, eles próprios, consagrados em ins- (artigos 15.o e 16.o) e Convenção Europeia dos
trumentos de direitos humanos) são os seguintes: Direitos do Homem (artigo 11.o).

[i] Direito à liberdade de pensamento, 206. As actividades políticas só podem ser desen-
consciência e religião volvidas em associação com outras pessoas e a par-
tir do momento em que existam instâncias para a
201. Este direito é protegido pela Declaração Uni- comunicação de ideias, propostas e estratégias. Por
versal dos Direitos do Homem (artigo 18.o), Pacto estes motivos, os direitos à liberdade de reunião e
Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos de associação pacíficas são tão importantes quanto
(artigo 18.o), Carta Africana dos Direitos do os direitos referidos nas rubricas precedentes.
Homem e dos Povos (artigo 8.o), Convenção Ame-
ricana sobre Direitos Humanos (artigo 12.o) e Con- NOTA PARA OS FORMADORES: 1. A liberdade de reu-
venção Europeia dos Direitos do Homem (artigo 9.o). nião pacífica é referida no princípio 12 dos Prin-
cípios Básicos sobre a Utilização da Força e de
202. A liberdade de consciência, bem como a Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis
liberdade de ter e de manifestar as suas convicções pela Aplicação da Lei. Esse princípio, bem como

Conceitos Fundamentais
* 57
os dois que se lhe seguem, relativos à utilização da • manter a imparcialidade e não discriminar entre
força em caso de reuniões ilegais e em caso de reu- as pessoas e os grupos que pretendem exercer tais
niões violentas, respectivamente, aparecem repro- direitos.
duzidos no capítulo XV, secção A.2 (e), infra, que
se ocupa dos distúrbios internos. 209. De uma forma mais geral, a polícia deverá man-
ter a ordem social (paz e tranquilidade sociais) para
2. Na introdução ao presente capítulo, foram que os processos políticos possam ser conduzidos
identificados os três ideais interdependentes da em conformidade com a Constituição e com a lei e
democracia, Estado de Direito e protecção dos de forma a que os direitos políticos indispensáveis
direitos humanos. Após examinarmos os direitos a esses processos possam ser exercidos. De facto, o
essenciais à democracia, cabe agora referir os artigo 28.o da Declaração Universal proclama:
direitos essenciais ao Estado de Direito. Deles são
exemplos o direito à presunção da inocência e o Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano
direito a um julgamento equitativo em caso de social e no plano internacional, uma ordem capaz
dedução contra a pessoa de qualquer acusação em de tornar plenamente efectivos os direitos e as
matéria penal. Estes direitos são protegidos pela liberdades enunciados na presente Declaração.
Declaração Universal dos Direitos do Homem
(artigos 10.o e 11.o), Pacto Internacional sobre A manutenção da ordem social é uma das princi-
os Direitos Civis e Políticos (artigo 14.o), Carta pais funções da polícia.
Africana dos Direitos do Homem e dos Povos
(artigo 7.o), Convenção Americana sobre Direitos (d) Disposições específicas sobre actividade policial
Humanos (artigo 8.o) e Convenção Europeia dos e eleições democráticas
Direitos do Homem (artigo 6.o). Outros exemplos
podem ser encontrados e, na verdade, pode enten- 210. A polícia e as forças de segurança desempe-
der-se que todos os chamados “direitos civis” nham um duplo papel nos processos eleitorais.
reforçam o Estado de Direito. A eficaz administração da justiça em período
eleitoral exige um equilíbrio entre, por um lado,
(c) Os direitos políticos e o papel da polícia a necessidade de segurança e manutenção da
ordem durante o período eleitoral e, por outro, a
207. Os direitos políticos acima enunciados, con- necessidade de não atentar contra os direitos dos
sagrados em normas internacionais juridicamente cidadãos e de garantir um ambiente livre de inti-
vinculativas para os Estados Partes nos diversos tra- midação. O Código de Conduta para os Funcio-
tados, têm implicações na actividade e prática poli- nários Responsáveis pela Aplicação da Lei impõe
ciais. Para que possam ser exercidos, é necessário a todos os agentes da ordem a obrigação de servir
que a polícia adopte uma série de medidas, infra a comunidade. Esta noção exige necessariamente
indicadas na secção B.1: “Medidas práticas para a que as forças de segurança se esforcem por garan-
aplicação das normas internacionais”. Porém, é tir que todos os cidadãos participem em eleições
conveniente considerar nesta fase o importante que sejam regulares no plano administrativo e
papel desempenhado pela polícia no que diz res- tenham lugar ao abrigo de qualquer intervenção sus-
peito aos direitos políticos. ceptível de colocar entraves à livre expressão da von-
tade popular.
208. Em muitos aspectos, a polícia pode ser con-
siderada como uma promotora dos direitos polí- 211. O Código de Conduta estabelece também que
ticos, permitindo que estes sejam exercidos pelos “os funcionários responsáveis pela aplicação da
indivíduos. Isto significa: lei devem respeitar e proteger a dignidade
• assegurar um justo equilíbrio entre a ordem humana, manter e apoiar os direitos fundamentais
pública e o exercício de tais direitos pelas pessoas de todas as pessoas” (artigo 2.o), o que abrange, não
e grupos de pessoas; só o direito de participar em eleições, mas todos

58
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
os direitos humanos. As instituições policiais que para inspirar a confiança dos votantes na neu-
não respeitam os direitos humanos fundamentais tralidade, regularidade e segurança do processo.
arriscam-se a criar uma atmosfera de intimidação Os agentes da CIVPOL devem, como é evidente,
inibidora do eleitorado e, assim, subverter a vera- comportar-se de forma absolutamente objectiva
cidade da eleição. e, tal como os seus colegas da polícia nacional,
demonstrar o mais alto grau de disciplina e pro-
212. Para além disso, em conformidade com o fissionalismo.
Código de Conduta, os funcionários responsáveis
pela aplicação da lei devem “opor-se rigorosa- 215. Tanto os funcionários nacionais de polícia
mente e combater” qualquer acto de corrupção como os agentes da CIVPOL têm por missão con-
(artigo 7.o). Assim, eles estão claramente obrigados tribuir para uma verdadeira e manifesta atmosfera
a impedir quaisquer tentativas de fraude eleitoral, de ordem e segurança, comportando-se com objec-
falsificação de identidade, suborno, intimidação e tividade e defendendo os direitos das partes, dos
todos os outros actos que possam afectar a vera- candidatos, dos votantes e do público em geral,
cidade dos resultados eleitorais. O Código estabe- durante os períodos eleitorais.
lece ainda que os funcionários responsáveis pela
aplicação da lei “não devem cometer qualquer acto (e) Disposições específicas sobre
de corrupção” (artigo 7.o). Esta obrigação reveste- uma actividade policial democrática
-se da maior importância, dada a tendência de
associar a polícia e as forças de segurança com uma 216. Na sua resolução 34/169, de 17 de Dezembro
ou outra das partes nos processos eleitorais em cer- de 1979, pela qual adoptou o Código de Conduta para
tos países. Por último, e com o objectivo de asse- os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da
gurar a imparcialidade das forças de segurança, o Lei, a Assembleia Geral declarou que como qualquer
papel da polícia na manutenção da ordem em órgão do sistema de justiça penal, todos os órgãos
período eleitoral subordina-se frequentemente ao de aplicação da lei devem ser representativos da
dos supervisores eleitorais. comunidade no seu conjunto, responder às suas
necessidades e ser responsáveis perante ela […]
213. No caso dos serviços nacionais de polícia, os
agentes presentes nos locais de recenseamento Uma polícia representativa, receptiva às necessi-
ou de voto devem agir de forma discreta, profis- dades da comunidade e responsável perante ela, por
sional e disciplinada. Em geral, isto exige que, em outras palavras, uma actividade policial democrá-
cada local, sejam colocados funcionários de polí- tica, é fundamental numa democracia.
cia e segurança no número mínimo necessário
para assegurar a segurança do espaço em causa. [i] Polícia representativa
Este “número mínimo necessário” é geralmente
determinado em conjunto com os supervisores 217. Isto significa que a polícia deve assegurar-se
eleitorais. Em caso algum a polícia deverá estar posi- de que os seus agentes são suficientemente repre-
cionada de forma a impedir o legítimo acesso ao sentativos da comunidade que servem. Os grupos
local de voto, intimidar os eleitores ou desencora- minoritários devem estar adequadamente repre-
jar a sua participação. sentados dentro das instituições policiais,
mediante políticas de recrutamento justas e não dis-
214. Em geral, solicita-se aos contingentes de criminatórias e de medidas destinadas a permitir
polícia civil (CIVPOL) das operações de manu- que os membros de tais grupos desenvolvam a
tenção da paz que adoptem uma postura um sua carreira no seio dos organismos em causa.
pouco diferente. O seu mandato compreende
alguns elementos de reforço da confiança e a 218. Além disso, a polícia deve ter em conta a
própria visibilidade desses funcionários nos composição do pessoal ao seu serviço em termos
locais de recenseamento e de voto pode contribuir qualitativos, bem como quantitativos. Isto significa

Conceitos Fundamentais
* 59
garantir, não só que os efectivos policiais existem [iii] Polícia responsável
em número suficiente e são devidamente repre-
sentativos da população, mas também que os 221. Este objectivo pode ser alcançado de três prin-
agentes têm a vontade e a capacidade de exercer a cipais formas:
sua missão no quadro de um sistema político • legalmente – tal como todos os indivíduos e ins-
democrático. tituições nos países onde vigora o princípio do
Estado de Direito, os polícias são responsáveis
[ii] Polícia receptiva às necessidades perante a lei;
da comunidade • politicamente – a polícia é responsável perante a
população que serve, através das instituições políticas
219. Para este fim, a polícia deve conhecer as democráticas do Estado. Desta forma, as suas políti-
necessidades e expectativas do público e saber cas e práticas no domínio da aplicação da lei e manu-
como lhes dar resposta. É evidente que a popula- tenção da ordem ficam sujeitas ao controlo público;
ção necessita e espera que a polícia: • economicamente – a polícia é responsável pela
• previna as infracções e, caso elas sejam cometi- forma como utiliza os recursos que lhe são atri-
das, descubra os seus autores; buídos. Este aspecto vai além do controlo das suas
• mantenha a ordem pública. principais funções no domínio da aplicação da lei,
constituindo uma forma suplementar de controlo
Estas são, porém, necessidades e expectativas democrático sobre todos os escalões de comando, ges-
muito genéricas. A polícia deverá também ter em tão e administração de uma instituição policial.
consideração:
• a forma como a população deseja que esses 222. É também possível encontrar métodos de
objectivos sejam alcançados (por exemplo, de controlo mais informais a nível local, por exemplo
maneira lícita e humana); mediante a criação de grupos de ligação entre a polí-
• as necessidades e expectativas específicas de cada cia e os cidadãos. Por outro lado, esta forma de con-
população num dado momento e em determinado trolo pode funcionar como um meio capaz de
lugar. permitir à polícia conhecer e dar resposta à neces-
sidades locais imediatas.
Compete aos comandantes das forças policiais
compreender as necessidades e expectativas da
comunidade que servem, fazer a sua própria ava- 3. OBSERVAÇÕES FINAIS
liação profissional e ter ambos os factores em
conta na definição das políticas e estratégias de 223. A análise da actividade policial numa sociedade
actuação policial. democrática destaca os aspectos políticos desta
actividade. Esta pode ser uma área sensível e difí-
220. Um outro aspecto da actividade policial cil, pelas seguintes razões:
receptiva às necessidades da comunidade – que se
relaciona com a noção de actividade policial res- a) algumas circunstâncias dos países em processo
ponsável – é a necessidade de que os actos dos agen- de transição para formas de governo democráticas
tes da polícia fiquem sujeitos ao escrutínio colocam dificuldades especiais à polícia. Nestas
público. No parágrafo d) do preâmbulo da resolu- situações, a polícia tem de estar particularmente
ção 34/169 da Assembleia Geral sugerem-se algu- consciente da necessidade de permanecer impar-
mas formas de garantir o exercício deste tipo de cial e de adoptar uma atitude não discriminatória;
controlo. Entre elas, incluem-se o controlo por
parte de uma comissão de avaliação, ministério, b) em países com uma longa tradição democrá-
órgão especializado, poder judicial, provedor, tica, existe a tendência para ignorar e minimizar
comité de cidadãos, ou qualquer combinação de os aspectos políticos da actividade policial, ten-
todos estes métodos. dência essa que resulta, em parte, da preocupação

60
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
da própria polícia de se manter independente e imparcial. Para que isto seja conseguido, todos os
imparcial. Isto pode levar a alguma ingenuidade agentes da polícia devem ter consciência de que
na abordagem de situações altamente politizadas. não estão ao serviço de qualquer Governo ou
regime em particular.
Contudo, em sentido bastante amplo, a activi-
dade policial é por vezes uma actividade vinca- 224. O fundamento de toda a actividade policial
damente política. Há que garantir que a acção das reside na Constituição e na lei. A polícia está ao ser-
forças policiais se mantém independente e viço do Estado de Direito e dos fins da justiça.

b. Normas internacionais sobre direitos humanos e actividade policial numa sociedade


democrática – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS


}

Recomendações destinadas • Demonstre independência política e imparcialidade em todas as oca-


a todos os agentes policiais siões.

• Conheça a população da comunidade onde exerce as suas funções.


• Aproxime-se da comunidade. Regra geral, não permaneça na esquadra
caso possa fazer a patrulha de automóvel e não faça o patrulhamento de
automóvel caso o possa fazer a pé.

• Ofereça-se como voluntário para missões de serviço à comunidade.


• Em locais de voto, no decorrer de missões de segurança eleitoral, reúna-
-se primeiro com os responsáveis pelas operações eleitorais e mantenha uma
atitude discreta, disciplinada e profissional perante os votantes.

• Quando lhe forem atribuídas missões de policiamento em concentrações


e manifestações políticas, dê provas de tolerância e lembre-se de que os objec-
tivos da segurança pública e da prevenção de conflitos devem prevalecer sobre
os restantes.
}

Conceitos Fundamentais
* 61
}
Objectivos do capítulo • Recomendações destinadas a todos os funcionários com responsabilida-
des de comando e supervisão

• Defina e aplique, no âmbito da instituição policial, políticas e estratégias


baseadas no respeito pelo governo democrático.

• Introduza, no seio da comunidade, estratégias de acção policial que impli-


quem o estabelecimento de uma relação de parceria entre a polícia e a comu-
nidade e façam com que a polícia seja vista como parte integrante dessa
mesma comunidade.

• Realize consultas públicas para apurar as necessidades específicas da


comunidade local e adopte medidas a fim de responder a essas necessida-
des. Institua programas de relações públicas que estimulem a cooperação
entre a polícia e a comunidade.

• Assegure-se de que os membros da instituição policial são representati-


vos da comunidade no seu todo mediante a adopção de políticas e práti-
cas de recrutamento e gestão justas e não discriminatórias.

• Estabeleça procedimentos de recrutamento e programas de formação des-


tinados a recrutar para a organização e a manter no seu seio agentes
desejosos e capazes de responder às exigências de uma actividade policial
democrática sob a autoridade de um governo democrático.

• Estabeleça laços de cooperação estreitos com as autoridades responsá-


veis pelas operações eleitorais, dirigentes sindicais e organizações não gover-
namentais.

• Sempre que possível, coloque agentes em missões de segurança eleitoral


de acordo com as necessidades apuradas pelas autoridades responsáveis pelas
operações eleitorais.

• Coloque o número mínimo necessário de funcionários nas missões de segu-


rança eleitoral.

• Crie um mecanismo acessível ao público para a apresentação de queixa


e sugestões e para a comunicação de inquietações.
}

2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS d) manifestar opiniões políticas?


e) escrever cartas para o correio de leitores de um
Exercício n.o 1 jornal?

Uma das mais importantes obrigações da polícia Para fins de debate, imagine que é membro de um
numa sociedade democrática consiste em perma- grupo de trabalho encarregado da elaboração de um
necer politicamente imparcial e independente. conjunto de directrizes destinadas aos agentes
policiais sobre a forma de se manterem politica-
Tendo presente esta exigência, deverão os agentes mente imparciais. As directrizes serão utilizadas
policiais ser autorizados a: na formação dos novos agentes e para recordar
aos agentes em serviço as suas obrigações a tal res-
a) votar? peito. Estas directrizes deverão consistir numa
b) pertencer a partidos políticos? série de conselhos práticos destinados a orientar
c) pertencer a associações sindicais? a acção dos agentes no desempenho das suas fun-

62
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
ções, assim como no âmbito das suas vidas priva- 1). De que formas pode um organismo respon-
das. Qual deverá ser o conteúdo dessas directrizes? sável pela aplicação da lei responder às necessidades
da comunidade e ser responsável perante ela?
Exercício n.o 2
2). Responder às necessidades da comunidade sig-
Na resolução 34/169 da Assembleia Geral, pela qual nifica conhecer essas necessidades e encontrar
foi adoptado o Código de Conduta para os Funcioná- uma forma de as satisfazer. De que formas pode
rios Responsáveis pela Aplicação da Lei, declara-se: um organismo responsável pela aplicação da lei
tomar conhecimento das necessidades da comu-
[…] como qualquer órgão do sistema de justiça nidade?
penal, todos os órgãos de aplicação da lei devem
ser representativos da comunidade no seu con- 3). Os funcionários superiores de polícia são res-
junto, responder às suas necessidades e ser res- ponsáveis pelo comando e pela gestão das insti-
ponsáveis perante ela, tuições policiais. São também responsáveis pelo
comando estratégico das actividades operacionais.
1). De que formas pode um organismo respon- De que forma podem as exigências de responder
sável pela aplicação da lei ser representativo da às necessidades da comunidade e ser responsável
comunidade no seu conjunto? perante ela afectar tais responsabilidades?
2). Uma forma de assegurar que o organismo é
representativo da comunidade no seu conjunto Exercício n.o 4
consiste em recrutar para os seus quadros um
número proporcional e representativo dos mem- Tendo em conta as obrigações da polícia de:
bros dos grupos minoritários existentes no seio da
sociedade. Tendo presente esta consideração: • assegurar um policiamento eficaz;
• respeitar e proteger os direitos humanos;
a) identifique um grupo minoritário presente • permanecer representativa da comunidade no
na sua comunidade que não esteja devidamente seu conjunto, responder às suas necessidades e ser
representado dentro do seu organismo; responsável perante ela:

b) indique os obstáculos que se colocam à ade- a) Que qualidades e características pessoais


quada representação desse grupo no seio do orga- deverá possuir um agente policial?
nismo no momento presente;
b) Que qualidades e características são indese-
c) considere formas de ultrapassar esses obstá- jáveis?
culos e defina as linhas gerais da estratégia para
o conseguir. c) Que métodos e técnicas podem ser utilizados
para identificar as qualidades e características
Exercício n.o 3 desejáveis e indesejáveis nos candidatos ao
ingresso nas forças policiais?
Na resolução 34/169 da Assembleia Geral, pela qual
foi adoptado o Código de Conduta para os Funcioná-
rios Responsáveis pela Aplicação da Lei, declara-se: 3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO

[…] como qualquer órgão do sistema de justiça 1). Considere as diferenças entre a actividade
penal, todos os órgãos de aplicação da lei devem policial no seio de uma sociedade democrática e a
ser representativos da comunidade no seu con- actividade policial no seio de uma sociedade não
junto, responder às suas necessidades e ser res- democrática. Indique as cinco diferenças que con-
ponsáveis perante ela, sidere mais significativas.

Conceitos Fundamentais
* 63
2). O artigo 21.o da Declaração Universal dos 7). Pense em formas de a polícia proteger o
Direitos do Homem consagra o direito de todas as direito à liberdade de reunião e de associação no
pessoas de participarem na direcção dos negócios seio de uma sociedade. Indique as cinco formas que
públicos do seu país, quer directamente quer atra- considere mais importantes.
vés de representantes livremente escolhidos. De que
formas pode este direito político reforçar a protecção 8). De que forma pode a polícia desempenhar o
de outros direitos civis e políticos? seu papel da melhor maneira durante os períodos
eleitorais, de maneira independente e imparcial e
3). O que entende pela expressão “Estado de por forma a manter a ordem, a segurança e a paz
Direito”? Por que razão é importante que todas as durante o escrutínio? Deverá a polícia apoiar
pessoas e instituições do Estado se subordinem ao publicamente as campanhas eleitorais dos candi-
princípio do Estado de Direito? datos que defendem políticas firmes em matéria
de lei e de ordem?
4). Quando o princípio do Estado de Direito pre-
valece num país, de que forma isso promove e 9). Pense no sistema em vigor no seu país para
protege os direitos humanos? responsabilizar a polícia perante a comunidade
que serve através de instituições políticas demo-
5). Pense em formas de a polícia proteger o cráticas. É satisfatório? Em caso negativo, que defi-
direito à liberdade de pensamento, consciência e ciências tem? Como poderá ser aperfeiçoado?
religião no seio de uma sociedade. Indique as
cinco formas que considere mais importantes. 10). Embora seja fundamental que a polícia res-
ponda perante a comunidade através de instituições
6). Pense em formas de a polícia proteger o políticas democráticas, é também essencial que os
direito à liberdade de opinião e de expressão no seio políticos não interfiram nas operações quotidianas
de uma sociedade. Indique as cinco formas que con- da polícia. Porque é indispensável que a polícia man-
sidere mais importantes. tenha esta forma de independência operacional?

64
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cap
ítu
lo

*10
Polícia
e não discriminação

Objectivos do capítulo • Familiarizar a polícia com as exigências legais de uma conduta não dis-
criminatória e sensibilizá-la para os efeitos nefastos das atitudes discrimi-
natórias.
}
}

Princípios fundamentais • Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direi-
tos.

• Os direitos humanos derivam da dignidade inerente à pessoa humana.


• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão cumprir, em
todas as ocasiões, os deveres que a lei lhes impõe, servindo a comunidade
e protegendo todas as pessoas contra os actos ilegais.

• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão respeitar e


proteger a dignidade humana e defender e garantir os direitos humanos
de todas as pessoas.

• Todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito, sem discrimina-
ção, à igual protecção da lei.

• Ao proteger e servir a comunidade, a polícia não deverá discriminar ile-


galmente com base na raça, no sexo, na religião, na língua, na cor, na opi-
nião política, na origem nacional, na fortuna, no nascimento ou em
qualquer outra condição.

• Não será considerada discriminação ilegal a aplicação por parte da polí-


cia de determinadas medidas especiais concebidas para atender à especial
condição e necessidades das mulheres (incluindo mulheres grávidas e mães
de crianças de tenra idade), menores, doentes, idosos e outras pessoas que
necessitem de tratamento especial em conformidade com as normas inter-
nacionais de direitos humanos.

• As políticas de recrutamento, contratação, colocação e promoção adop-


tadas pelas instituições policiais não deverão admitir qualquer forma de dis-
criminação ilegal.
}

65
*
Segunda Parte
a. Normas internacionais sobre policiais compreendam e respeitem o princípio
não discriminação – Informação fundamental da não discriminação. É também
para as apresentações importante que os polícias compreendam as dis-
posições dos textos internacionais de direitos
humanos, bem como da legislação nacional, que
1. INTRODUÇÃO procuram tornar efectivo esse princípio.

225. Na Carta das Nações Unidas, os Estados Mem- 229. O presente capítulo analisa as normas inter-
bros reafirmam a sua fé nos direitos humanos fun- nacionais relativas à não discriminação, fazendo
damentais, na dignidade e no valor da pessoa particular referência às mais significativas no
humana e na igualdade de direitos entre homens e âmbito do processo de aplicação da lei e manu-
mulheres. Comprometeram-se também a promover tenção da ordem.
e estimular o respeito pelos direitos humanos e
pelas liberdades fundamentais para todos, sem dis-
tinção quanto à raça, sexo, língua ou religião. 2. ASPECTOS GERAIS DA NÃO DISCRIMINAÇÃO

226. O artigo 2.o da Declaração Universal dos (a) Princípios fundamentais


Direitos do Homem dispõe que:
230. A não discriminação constitui, em si própria,
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as um princípio fundamental, essencial à promoção
liberdades proclamados na presente Declaração, sem dis- e protecção de todos os direitos humanos e liber-
tinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, dades fundamentais. Todos os membros da famí-
de língua, de religião, de opinião política ou outra, de lia humana têm direitos iguais e inalienáveis.
origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento Estes direitos derivam da dignidade e valor inerentes
ou de qualquer outra situação. à pessoa humana e têm carácter universal.
[…]
231. A não discriminação relaciona-se com os
227. Diversos tratados em matéria de direitos seguintes três princípios fundamentais:
humanos obrigam os Estados Partes a respeitar e • igualdade de direitos;
garantir a todos, sem discriminação, os direitos • inalienabilidade dos direitos;
neles consagrados. Por exemplo, o artigo 2.o, • universalidade dos direitos.
n.o 1, do Pacto Internacional sobre os Direitos
Civis e Políticos estabelece: (b) Disposições específicas sobre
a não discriminação
Cada Estado Parte no presente Pacto compromete-se a
respeitar e a garantir a todos os indivíduos que se 232. Todas as disposições concretas que passamos
encontrem nos seus territórios e estejam sujeitos à sua a enunciar têm relevância directa no domínio da
jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto, aplicação da lei ou da actividade policial em geral:
sem qualquer distinção, derivada, nomeadamente, de
raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião [i] Direito ao reconhecimento
política, ou de qualquer outra opinião, de origem da personalidade jurídica
nacional ou social, de propriedade ou de nascimento,
ou de outra situação. 233. Este direito está consagrado no artigo 6.o da
Declaração Universal dos Direitos do Homem,
228. Uma vez que os Estados cumprem, ou não, as que dispõe:
suas obrigações jurídicas internacionais através
da acção dos funcionários que agem em seu Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento em
nome, é claramente importante que os agentes todos os lugares da sua personalidade jurídica.

66
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Encontra-se expresso em termos praticamente [iii] Direito a um julgamento equitativo
idênticos no Pacto Internacional sobre os Direitos
Civis e Políticos (artigo 16.o) e na Convenção Ame- 238. Este direito é protegido pelo artigo 10.o da
ricana sobre Direitos Humanos (artigo 3.o). Declaração Universal dos Direitos do Homem,
O artigo 5.o da Carta Africana dos Direitos do que estabelece:
Homem e dos Povos garante o direito ao reco-
nhecimento da personalidade jurídica. Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a
sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um
234. Este direito aplica-se a “todos os indivíduos”, tribunal independente e imparcial que decida dos seus
sendo o reconhecimento da personalidade jurí- direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusa-
dica fundamental num sistema que protege os ção em matéria penal que contra ela seja deduzida.
direitos humanos através da lei. A negação deste
direito pode conduzir à negação de outros direitos. 239. O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis
Exige-se, pois, que a personalidade jurídica seja ple- e Políticos (artigo 14.o), a Carta Africana dos Direi-
namente reconhecida a todos os cidadãos de um tos do Homem e dos Povos (artigo 7.o), a Conven-
Estado, em condições de igualdade. ção Americana sobre Direitos Humanos (artigo 8.o)
e a Convenção Europeia dos Direitos do Homem
[ii] Direito à igualdade perante a lei (artigo 6.o) garantem o direito a um julgamento
equitativo. Acrescentam também alguns requisitos
235. Este direito é protegido pelo artigo 7.o da destinados a garantir essa finalidade. Muito impor-
Declaração Universal dos Direitos do Homem, tante, neste contexto, é o facto de estabelecerem
segundo o qual: que este direito se aplica a “todas as pessoas”, ou a
“toda a pessoa” ou a “qualquer pessoa” ou a “todos”.
Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm
direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a pro- 240. Embora tais disposições imponham obrigações
tecção igual contra qualquer discriminação que viole a aos tribunais e sistemas jurídicos em geral, é
presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal importante lembrar que uma conduta contrária à
discriminação. ética, ilegal ou discriminatória da parte da polícia
pode comprometer o direito a um julgamento
236. O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis equitativo. Para que o processo seja justo, é neces-
e Políticos contém disposições similares e exige que sário que os tribunais possam analisar provas
a lei proíba a discriminação por motivos de, nomea- autênticas e imparciais, obtidas por meios lícitos
damente, raça, cor, sexo, língua e religião (artigo 26.o); e conformes aos princípios éticos. Esta é uma das
a Carta Africana dos Direitos do Homem e dos condições necessárias para garantir o direito de
Povos estabelece que todas as pessoas beneficiam de todas as pessoas a um processo equitativo.
uma total igualdade perante a lei e têm direito a uma
igual protecção da lei (artigo 3.o); e a Convenção [iv] Direito de acesso à função pública em condições
Americana sobre Direitos Humanos dispõe no de igualdade
mesmo sentido, acrescentando no entanto que esse
direito deverá ser reconhecido a todas as pessoas 241. Este direito relaciona-se com o direito de toda
“sem discriminação” (artigo 24.o). a pessoa a tomar parte na direcção dos negócios
públicos do seu país e com o direito de voto em
237. Estes requisitos são muito significativos em eleições livres e genuínas. Está consagrado no
termos de policiamento, uma vez que determi- artigo 21.o, n.o 2, da Declaração Universal dos
nam que, na aplicação da lei, a polícia deve conceder Direitos do Homem, que dispõe:
uma protecção igual a todos. Não deverá assim
haver qualquer discriminação de natureza adversa Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de
aquando da aplicação da lei. igualdade, às funções públicas do seu país.

Conceitos Fundamentais
* 67
242. O artigo 25.o, alínea c), do Pacto Internacio- 247. Dada a gravidade dos actos que infringem essa
nal sobre os Direitos Civis e Políticos estabelece que legislação, as suas consequências negativas sobre os
todos os cidadãos têm direito de aceder “em con- direitos humanos e o risco de a incitação à discrimi-
dições gerais de igualdade” à função pública do seu nação, à hostilidade ou à violência poder conduzir a
país. Este direito é igualmente reconhecido na graves situações de distúrbio civil, a resposta da polí-
Carta Africana dos Direitos do Homem e dos cia a essas infracções deverá ser rápida e eficaz.
Povos (artigo 13.o) e na Convenção Americana
sobre Direitos Humanos (artigo 23.o). Todos estes [vi] Derrogação das obrigações durante
artigos consagram o direito de participar nos os estados de emergência
negócios públicos ou no governo do país, bem
como o direito a eleições livres e honestas. Estes 248. O artigo 4.o do Pacto Internacional sobre os
direitos deverão ser garantidos sem discriminação Direitos Civis e Políticos permite aos Estados toma-
a “todos os cidadãos”. rem medidas que derroguem algumas das obriga-
ções assumidas em virtude do Pacto em situações
243. A actividade policial é uma função pública de emergência pública que ameacem a existência
importante. Todos os cidadãos devidamente qualifi- da nação. Estes estados de emergência devem ser
cados, e que o desejem fazer, deverão ter a oportu- oficialmente declarados e as medidas derrogató-
nidade de aceder a essa função e de nela participar. rias adoptadas dever-se-ão limitar às estritamente
O ingresso nas corporações de polícia de um país exigidas pela situação. Além do mais, tais medidas:
deverá depender exclusivamente das qualificações, • não deverão ser incompatíveis com outras obriga-
aptidões para o desempenho da função e compe- ções impostas ao Estado pelo direito internacional;
tência dos candidatos. Ninguém deverá ser excluído • não deverão envolver uma discriminação fun-
com base apenas na respectiva raça, cor ou sexo. dada unicamente na raça, na cor, no sexo, na lín-
gua, na religião ou na origem social.
[v] Incitamento à discriminação
Alguns artigos não podem ser objecto de derro-
244. O artigo 20.o, n.o 2, do Pacto Internacional gação, nomeadamente os que protegem o direito
sobre os Direitos Civis e Políticos estabelece: à vida e a proibição da tortura e dos maus tratos.

Todo o apelo ao ódio nacional, racial e religioso que cons- 249. Disposições semelhantes figuram no artigo 27.o
titua uma incitação à discriminação, à hostilidade ou à da Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
violência deve ser interditado pela lei. (As normas derrogatórias constantes do artigo 15.o
da Convenção Europeia dos Direitos do Homem não
Esta obrigação dos Estados Partes no Pacto signi- fazem qualquer referência específica à questão da
fica que lhes incumbe adoptar e reforçar legislação discriminação).
que proíba o incitamento à discriminação nos ter-
mos enunciados nesse artigo. 250. A exigência de que as medidas de derrogação não
sejam discriminatórias reveste-se de considerável
245. Conforme acima indicado, o artigo 7.o da importância. As situações de emergência pública são
Declaração Universal dos Direitos Humanos con- muitas vezes declaradas em períodos de tensão e desor-
sagra o direito a igual protecção contra qualquer dem civil. Nessas circunstâncias, um Governo pode,
discriminação que viole a Declaração e contra por exemplo, considerar necessário reforçar os pode-
qualquer incitamento a tal discriminação. res da polícia em matéria de captura, assim derrogando
as normas dos tratados que protegem o direito à liber-
246. As normas da Declaração Universal têm claras dade e segurança da pessoa. Caso sejam adoptadas
implicações no domínio da aplicação da lei, pois quando medidas nesse sentido, é fundamental que os pode-
os Estados adoptam legislação em conformidade com res suplementares atribuídos à polícia sejam exerci-
essas normas, incumbe à polícia aplicá-las. dos rigorosamente dentro dos limites impostos por lei

68
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
e sem discriminação. O exercício ilegal ou discrimina- assistência e socorros médicos às pessoas feridas
tório das competências policiais em períodos de ten- ou afectadas, tão rapidamente quanto possível. Isto
são e desordem civil pode contribuir significativamente significa que existe uma obrigação geral de res-
para o exacerbar dessa mesma tensão e desordem. peitar a vida humana – toda a vida humana – e de
garantir a prestação de assistência médica.
251. A questão das medidas derrogatórias será
analisada em maior detalhe no capítulo XV sobre NOTA PARA OS FORMADORES: Este instrumento
Distúrbios Internos, Estados de Excepção e Con- será analisado em maior detalhe no capítulo XIV,
flitos Armados. sobre Utilização da Força e de Armas de Fogo.

(c) Disposições de instrumentos [iii] Conjunto de Princípios para a Protecção de


com especial relevância no domínio Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de
da aplicação da lei Detenção ou Prisão

[i] Código de Conduta para os Funcionários Res- 257. O Princípio 1 impõe que todas as pessoas
ponsáveis pela Aplicação da Lei sujeitas a qualquer forma de detenção ou prisão
sejam tratadas de forma humana e com respeito
252. Os artigos 1.o, 2.o e 8.o do Código relacionam- pela dignidade inerente à pessoa humana.
-se com a questão da discriminação.
258. O Princípio 5, n.o 1, exige que o Conjunto de
253. O artigo 1.o estabelece que os funcionários res- Princípios se aplique a todas as pessoas que se encon-
ponsáveis pela aplicação da lei devem servir a comu- trem no território de um determinado Estado, sem
nidade e proteger todas as pessoas contra actos ilegais. distinção alguma, nomeadamente de raça, cor, sexo,
O artigo 2.o exige-lhes que protejam a dignidade humana língua, religião ou convicção religiosa, opinião polí-
e que mantenham e defendam os direitos fundamentais tica ou outra, origem nacional, étnica ou social, for-
de todas as pessoas. O artigo 8.o estabelece que os fun- tuna, nascimento ou qualquer outra situação. Contudo,
cionários responsáveis pela aplicação da lei devem res- o n.o 2 acrescenta uma importante condição:
peitar a lei e o próprio Código de Conduta. As medidas aplicadas ao abrigo da lei e exclusiva-
mente destinadas a proteger os direitos e a condição
254. A referência a “todas as pessoas” constante dos especial das mulheres, especialmente das mulhe-
artigos 1.o e 2.o exclui claramente qualquer hipótese res grávidas e mães de crianças de tenra idade, das
de discriminação, enquanto que as normas do artigo crianças e dos adolescentes, dos idosos, dos doen-
8.o significam que quaisquer disposições legais que tes ou das pessoas deficientes não serão conside-
proíbam a discriminação, bem como as disposições radas medidas discriminatórias. A necessidade de
do próprio Código de Conduta, devem ser respeitadas. tais medidas, bem como a sua aplicação, serão
sempre ser objecto de reapreciação por parte de uma
[ii] Princípios Básicos sobre a Utilização autoridade judiciária ou outra autoridade.
da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários
Responsáveis pela Aplicação da Lei NOTA PARA OS FORMADORES: Este instrumento
será analisado em maior detalhe no capítulo XIII,
255. O princípio 5 deste instrumento refere-se a sobre Detenção.
situações em que é inevitável a utilização da força
e de armas de fogo por parte da polícia. [iv] Declaração dos Princípios Básicos
de Justiça Relativos às Vítimas
256. Nos termos do princípio 5 b), a polícia deverá da Criminalidade e de Abuso de Poder
esforçar-se por reduzir ao mínimo os danos e lesões
e respeitar e preservar a vida humana. O princípio 259. Conforme declarado pela Assembleia Geral na
5 c) exige que a polícia assegure a prestação de sua resolução 40/34, de 29 de Novembro de 1985

Conceitos Fundamentais
* 69
(terceiro parágrafo preambular), pela qual adoptou (d) Discriminação racial
esta Declaração:
263. Existem dois instrumentos que se ocupam
[…] as vítimas da criminalidade e as vítimas de abuso especificamente da discriminação racial.
de poder e, frequentemente, também as respectivas
famílias, testemunhas e outras pessoas que acorrem [i] Declaração das Nações Unidas sobre
em seu auxílio sofrem injustamente perdas, danos ou a Eliminação de Todas as Formas
prejuízos e […] podem, além disso, ser submetidas a pro- de Discriminação Racial
vações suplementares quando colaboram na persegui-
ção dos delinquentes. 264. O artigo 1.o proclama que a discriminação entre
seres humanos com base na raça, cor ou origem étnica
260. O parágrafo 3.o da Declaração exige que as constitui um atentado à dignidade humana e deverá
disposições do instrumento se apliquem a todas as ser condenada enquanto negação dos princípios da
pessoas, sem distinção de qualquer espécie. Acres- Carta das Nações Unidas, violação dos direitos humanos
centa aos fundamentos habituais (nomeadamente e liberdades fundamentais consagrados na Declaração
a raça, a cor e o sexo), as “crenças ou práticas cul- Universal dos Direitos do Homem, obstáculo às rela-
turais” e a “capacidade física”. ções amistosas e pacíficas entre as nações e facto sus-
ceptível de perturbar a paz e segurança entre os povos.
NOTA PARA OS FORMADORES: Este instrumento
será analisado em maior detalhe no capítulo XIX, 265. O artigo 2.o, n.o 2, exige que nenhum Estado
sobre Protecção e Indemnização das Vítimas. estimule, defenda ou apoie, mediante a actuação da
polícia ou de qualquer outra forma, qualquer dis-
[v] Declaração sobre a Protecção de Todas criminação baseada na raça, cor ou origem étnica pra-
as Pessoas contra a Tortura e Outras Penas ticada por qualquer grupo, instituição ou indivíduo.
ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes
e 266. O artigo 7.o determina que toda a pessoa tem
Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou direito à igualdade perante a lei e a igual justiça nos
Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes termos da lei, direito à segurança pessoal e à pro-
tecção do Estado contra qualquer violência ou
261. Ambos os instrumentos contêm parágrafos atentado à sua integridade física e direito a um
introdutórios (no preâmbulo da resolução da Assem- recurso e protecção efectivos contra qualquer dis-
bleia Geral que adopta a Declaração e no texto da pró- criminação de que possa ser vítima com base na
pria Convenção) onde se declara que, em conformidade raça, cor ou origem étnica.
com os princípios enunciados na Carta das Nações
Unidas, o reconhecimento dos direitos iguais e ina- 267. Nos termos do artigo 9.o, n.o 2, todos os actos
lienáveis de todas as pessoas constitui o fundamento de violência contra qualquer raça ou grupo de pes-
da liberdade, da justiça e da paz no Mundo. soas de outra cor ou origem étnica, bem como
qualquer incitamento à prática de tais actos,
262. Além do mais, ambos os instrumentos com- devem ser punidos por lei.
preendem disposições (artigo 8.o da Declaração e
artigo 13.o da Convenção) que garantem a qual- [ii] Convenção Internacional sobre a Eliminação
quer indivíduo que alegue ter sido submetido a tor- de Todas as Formas de Discriminação Racial
tura o direito de apresentar queixa junto das
autoridades competentes do Estado em causa. 268. A discriminação racial é definida pelo artigo 1.o
nos seguintes termos:
NOTA PARA OS FORMADORES: Ambos os instru-
mentos serão analisados em maior detalhe no […] qualquer distinção, exclusão, restrição ou prefe-
capítulo XIII, sobre Detenção. rência fundada na raça, cor, ascendência na origem

70
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
nacional ou étnica que tenha como objectivo ou como Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos
efeito destruir ou comprometer o reconhecimento, o gozo (artigo 8.o), pela Convenção Americana sobre Direi-
ou o exercício, em condições de igualdade, dos direitos tos Humanos (artigo 12.o) e pela Convenção Euro-
do homem e das liberdades fundamentais nos domínios peia dos Direitos do Homem (artigo 9.o).
político, económico, social e cultural ou em qualquer
outro domínio da vida pública. [ii] Declaração sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Intolerância e Discriminação
o
269. Nos termos do artigo 2. , os Estados Partes na Baseadas na Religião ou na Convicção
Convenção condenam a discriminação racial e com-
prometem-se a prosseguir uma política tendente a 273. O artigo 1.o deste instrumento protege o
eliminar tal discriminação em todas as suas formas. direito à liberdade de religião e convicção nos mes-
mos termos que o artigo 18.o da Declaração Uni-
270. Em conformidade com o artigo 5.o, os Estados versal dos Direitos do Homem.
Partes obrigam-se a garantir o direito de todos,
sem distinção quanto à raça, cor ou origem nacio- 274. O artigo 2.o proclama que ninguém será
nal ou étnica, à igualdade perante a lei, nomeada- objecto de discriminação por parte de qualquer
mente no gozo de uma série de direitos. Entre Estado, instituição, grupo de pessoas ou indiví-
estes, incluem-se: duo por motivos de religião ou outra convicção.
• o direito à igualdade de tratamento perante os tri-
bunais; 275. A discriminação com base na religião ou con-
• o direito à segurança da pessoa e à protecção do vicção é condenada pelo artigo 3.o como um atentado
Estado contra a violência ou os atentados à res- à dignidade humana e uma violação dos direitos e
pectiva integridade física, infligidos quer por fun- liberdades proclamados na Declaração Universal.
cionários públicos quer por qualquer indivíduo,
grupo ou instituição. 276. Nos termos do artigo 4.o, os Estados deverão
tomar medidas eficazes para prevenir e eliminar
(e) Discriminação por motivos de religião a discriminação por motivos de religião ou con-
vicção, devendo adoptar ou revogar legislação,
271. O direito à liberdade de pensamento, cons- segundo necessário, a fim de proibir qualquer dis-
ciência e religião é protegido por diversos ins- criminação deste tipo.
trumentos universais e regionais de direitos
humanos e a discriminação por motivos religiosos (f ) Discriminação contra as mulheres
é objecto de uma declaração específica.
277. Existem dois instrumentos que abordam
[i] Declaração Universal dos Direitos do Homem especificamente a questão da discriminação con-
tra as mulheres. Tal como acontece com os
272. A liberdade religiosa é protegida pelo artigo 18.o, instrumentos específicos sobre discriminação
nos seguintes termos: racial e discriminação por motivos religiosos, eles
complementam as disposições em matéria de dis-
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, criminação constantes dos instrumentos gerais de
de consciência e de religião; este direito implica a liber- direitos humanos de âmbito universal e regional.
dade de mudar de religião ou de convicção, assim como
a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozi- [i] Declaração sobre a Eliminação
nho ou em comum, tanto em público como em privado, da Discriminação contra as Mulheres
pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
278. O artigo 1.o condena a discriminação contra
É igualmente protegida pelo Pacto Internacional as mulheres, considerando-a fundamentalmente
sobre os Direitos Civis e Políticos (artigo 18.o), pela injusta e um atentado à dignidade humana.

Conceitos Fundamentais
* 71
279. O artigo 2.o exige que sejam abolidas as leis, (g) Discriminação e crianças
costumes, regulamentos e práticas em vigor que
constituam discriminação contra as mulheres. 284. O problema da discriminação contra a
criança é abordado em dois instrumentos.
280. O artigo 10. o exige que sejam adoptadas
medidas a fim de garantir a igualdade de direi- [i] Pacto Internacional sobre os Direitos
tos entre mulheres e homens nos domínios eco- Civis e Políticos
nómico e social. Impõe, em particular, que sejam
assegurados às mulheres o direito a receber for- 285. O artigo 24.o, n.o 1, estabelece:
mação profissional, o direito ao trabalho e o
direito à livre escolha da profissão e do emprego, Qualquer criança, sem nenhuma discriminação de
bem como o direito à progressão na carreira e pro- raça, cor, sexo, língua, religião, origem nacional ou
fissão. social, propriedade ou nascimento, tem direito, da parte
da sua família, da sociedade e do Estado, às medidas de
[ii] Convenção sobre a Eliminação de Todas protecção que exija a sua condição de menor.
as Formas de Discriminação contra as Mulheres
[ii] Convenção sobre os Direitos da Criança
281. A discriminação contra as mulheres é definida
no artigo 1.o desta Convenção como: 286. Tal como a maioria dos instrumentos interna-
cionais de direitos humanos, os direitos iguais e
[…] qualquer distinção, exclusão ou restrição baseada no inalienáveis de todos os membros da família
sexo que tenha como efeito ou como objectivo com- humana são referidos nos parágrafos preambulares.
prometer ou destruir o reconhecimento, o gozo ou o exer-
cício pelas mulheres, seja qual for o seu estado civil, com 287. O artigo 1.o deste instrumento define a
base na igualdade dos homens e das mulheres, dos criança como todo o ser humano menor de 18
direitos do homem e das liberdades fundamentais nos anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for apli-
domínios político, económico, social, cultural e civil cável, atingir a maioridade mais cedo.
ou em qualquer outro domínio.
288. Em conformidade com o artigo 2.o, os Esta-
282. Nos termos do artigo 2.o, os Estados conde- dos Partes obrigam-se a:
nam a discriminação contra as mulheres e
comprometem-se, entre outros aspectos, a abste- […] respeitar e a garantir os direitos previstos na presente
rem-se de qualquer acto ou prática de discrimi- Convenção a todas as crianças que se encontrem sujei-
nação contra as mulheres e a assegurar que as tas à sua jurisdição, sem discriminação alguma, inde-
autoridades e instituições públicas se conformam pendentemente de qualquer consideração de raça, cor,
com esta obrigação. sexo, língua, religião, opinião política ou outra da
criança, de seus pais ou representantes legais, ou da sua
283. Em conformidade com o artigo 1, alí- 11.o, n.o origem nacional, étnica ou social, fortuna, incapaci-
nea b), os Estados Partes deverão garantir o direito dade, nascimento ou de qualquer outra situação.
à igualdade de oportunidades no emprego entre
mulheres e homens, nomeadamente a aplicação dos e a:
mesmos critérios de selecção em matéria de
emprego. […] toma[r] todas as medidas adequadas para que a
criança seja efectivamente protegida contra todas as
NOTA PARA OS FORMADORES: Ambos os instru- formas de discriminação ou de sanção decorrentes da
mentos serão analisados em maior detalhe no situação jurídica, de actividades, opiniões expressas ou
capítulo XVII, sobre Aplicação da Lei e Direitos das convicções de seus pais, representantes legais ou outros
Mulheres. membros da sua família.

72
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
(h) Manifestações particulares 293. Existe uma Convenção N.T.1
Ratificada por Portugal
a 2 de Janeiro de 1929
de discriminação Relativa à EscravaturaN.T.1, que (aviso publicado no Diário
do Governo, I Série, n.o
contém detalhadas disposições 1/29).
N.T.2
Portugal não é parte
289. O genocídio, a escravatura e o apartheid cons- destinadas a prevenir e a erra- neste instrumento.
N.T.3
Assinada por Portugal
tituem formas particulares e graves de discrimi- dicar a escravatura, um Proto- a 7 de Setembro de 1956 e
aprovada para ratificação
nação que analisaremos brevemente. coloN.T.2 de emenda a esta pelo Decreto-Lei n.o 42/172,
de 2 de Março de 1959,
Convenção e uma Convenção publicado no Diário do
Governo, I Série, n.o 47.
290. Nos termos do artigo 2.o da Convenção para Suplementar Relativa à Aboli- O instrumento de ratifica-
ção foi depositado junto do
a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, ção da EscravaturaN.T.3. Secretário-Geral das Nações
Unidas a 10 de Agosto de
entende-se por genocídio: 1959. O aviso de depósito
do instrumento de ratifica-
ção encontra-se publicado
294. O apartheid é qualificado no Diário do Governo, I
[…] os actos abaixo indicados, cometidos com a Série, n.o 116, de 21 de Maio
como um crime contra a Hu- de 1959.
intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo manidade ao abrigo do artigo 1.o
nacional, étnico, racial ou religioso, tais como: da Convenção Internacional para a Eliminação e
Repressão do Crime de Apartheid.
a) Assassinato de membros do grupo;
295. Esta Convenção contém disposições detalha-
b) Atentado grave à integridade física e mental de das destinadas a prevenir e abolir o apartheid. Em
membros do grupo; conformidade com o seu artigo 1.o, n.o 2, os Esta-
dos Partes declaram criminosas as organizações,
c) Submissão deliberada do grupo a condições de instituições e indivíduos que cometam o crime de
existência que acarretarão a sua destruição física, total apartheid.
ou parcial;
296. O crime de apartheid é pormenorizadamente
d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no definido no artigo 2.o, compreendendo diversos
seio do grupo; actos específicos cometidos com o objectivo de
instituir e manter a dominação de um grupo racial
e) Transferência forçada das crianças do grupo para de seres humanos sobre qualquer outro grupo
outro grupo. racial de seres humanos e de o oprimir de forma
sistemática.
291. O artigo 4.o exige que as pessoas que tenham
cometido genocídio sejam punidas, quer sejam
governantes constitucionalmente responsáveis, 3. OBSERVAÇÕES FINAIS
funcionários públicos ou particulares.
297. Sendo a não discriminação um aspecto
292. A escravatura é proibida pelo artigo 4.o da extremamente importante da protecção e pro-
Declaração Universal dos Direitos do Homem, nos moção dos direitos humanos, ela está relacio-
seguintes termos: nada com as questões abordadas em todos os
capítulos do presente manual. Afecta todos os
Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; aspectos do trabalho dos funcionários responsá-
a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, veis pela aplicação da lei e constitui um elemento
são proibidos. essencial de uma actividade policial ética, lícita
e democrática.
É também proibida pela Carta Africana dos Direi-
tos do Homem e dos Povos (artigo 5.o), Convenção 298. O presente capítulo concentrou-se nos ele-
Americana sobre Direitos Humanos (artigo 6.o) e mentos da não discriminação que assumem par-
Convenção Europeia dos Direitos do Homem ticular relevância para a teoria e prática da
(artigo 4.o). actividade policial, bem como para o comando e ges-

Conceitos Fundamentais
* 73
tão das organizações policiais. Ao apresentar o espera-se dar-lhes a conhecer, ou recordar-lhes, a
tema desta forma intensiva e detalhada aos fun- exigência absoluta de desenvolverem a sua activi-
cionários responsáveis pela aplicação da lei, dade de forma imparcial e não discriminatória.

b. Normas internacionais sobre não discriminação – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS

}
Recomendações destinadas • Procure conhecer bem a comunidade que serve. Encontre-se com líderes
a todos os agentes policiais e representantes dos diversos grupos étnicos e raciais.

• Participe em patrulhas a pé e actividades de serviço comunitário em bair-


ros multiétnicos.

• Insurja-se contra os estereótipos ou insultos com fundamentos étnicos ou


raciais na comunidade e dentro da esquadra de polícia.

• Participe em programas de formação oferecidos pelo seu serviço que


abordem a temática das relações étnicas ou raciais.

• Fale com membros dos grupos minoritários existentes na comunidade onde


presta serviço, para se aperceber das respectivas necessidades e receber os
seus comentários e sugestões. Seja sensível e receptivo.
}
}

Recomendações destinadas
a todos os funcionários • Organize programas de formação contínua para sensibilizar a polícia para
com responsabilidades a importância da existência de boas relações inter-étnicas e inter-raciais e
de comando e supervisão de uma aplicação da lei justa e não discriminatória.
• Elabore uma plano de acção para as relações inter-raciais, em consulta
com as diversas comunidades étnicas.

• Emita ordens claras sobre a linguagem, atitudes e comportamento ade-


quados face aos diversos grupos étnicos e raciais.

• Avalie as suas políticas de recrutamento, contratação e promoção a fim


de garantir a representação equitativa dos diversos grupos.

• Recrute activamente membros de minorias étnicas e raciais, bem como


de grupos sub-representados no seio do seu serviço.

• Estabeleça mecanismos permanentes para receber as queixas e sugestões


dos membros dos diversos grupos étnicos, raciais, religiosos e linguísticos
existentes na sua comunidade.

• Adopte estratégias de policiamento da comunidade.


• Designe um coordenador para as relações com as minorias no âmbito do
seu serviço.

74
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
• Aplique sanções aos funcionários que demonstram um comportamento
profissional discriminatório, insensível ou inadequado.

• Recompense os agentes que tomam iniciativas a fim de melhorar as rela-


ções entre as diferentes comunidades.

• Organize cursos de formação contínua em matéria de relações inter-raciais


e inter-étnicas para todos os funcionários de polícia.

}
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 3). Elaborar um pequeno conjunto de directrizes
para os agentes sobre os dois novos crimes, a fim
Exercício n.o 1 de facilitar a aplicação da lei que os institui”.

Para fins de debate, imagine que foi adoptada no Exercício n.o 2


seu país uma nova lei destinada a manter e con-
trolar a ordem pública. Contém disposições que con- Foi-lhe solicitado que proferisse uma palestra aos
sideram infracções penais os seguintes actos: novos agentes sobre o tema “Não discriminação e
• Palavras, escritos ou comportamentos destinados aplicação da lei”.
a incitar o ódio ou o ressentimento contra qualquer
grupo racial, étnico ou religioso ou a ridicularizá- 1). Prepare o plano geral da exposição (em tópicos).
-lo ou que, nas actuais circunstâncias, sejam sus-
ceptíveis de produzir tais efeitos; 2). Indique os princípios e normas internacionais
• Palavras, escritos ou comportamentos injurio- de direitos humanos relevantes para a sua exposição
sos ou insultuosos que se destinem a provocar e enumere as disposições da lei interna do seu
violência ou agressões físicas contra quaisquer país a que fará referência.
pessoas em virtude de estas pertencerem a um
determinado grupo racial, étnico ou religioso, ou 3). Resuma as orientações gerais e práticas que
sejam susceptíveis de ter tais consequências. daria sobre o tema, enquanto agente policial expe-
riente, aos novos funcionários.
Você foi designado para membro de um grupo de
trabalho com as seguintes atribuições:
“Analisar a nova lei que qualifica como infracções 3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO
penais o ódio racial e a violência racial.
1). No que diz respeito à não discriminação, qual
1). Formular recomendações destinadas ao seu é a importância do princípio: “Todos os seres
superior hierárquico dentro da instituição policial humanos nascem livres e iguais em dignidade e
a respeito da política a seguir relativamente aos em direitos”?
novos delitos. Elabore uma breve exposição (um
parágrafo) sobre esta política, a ser transmitida 2). Enumere sucintamente as diversas formas
aos meios de comunicação social. mediante as quais um Estado pode cumprir a sua
obrigação de garantir os direitos humanos de
2). Preparar uma breve declaração destinada a cir- todas as pessoas sujeitas à sua jurisdição sem dis-
cular no âmbito da instituição policial a fim de lem- tinção quanto à raça, à cor, ao sexo, à religião e à
brar aos agentes a sua responsabilidade de agir convicção.
imparcialmente e sem discriminação, indicando as
três razões mais importantes que justificam tal 3). Enumere sucintamente as formas mediante as
obrigação. quais a polícia pode ajudar o Estado a cumprir a sua

Conceitos Fundamentais
* 75
obrigação de garantir os direitos humanos de todas 7). A Declaração Universal dos Direitos do
as pessoas sujeitas à sua jurisdição sem distinção Homem (artigo 6.o), tal como outros instrumen-
quanto à raça, à cor, ao sexo, à religião e à convicção. tos de direitos humanos, estabelece que todos os
indivíduos têm direito ao reconhecimento da sua
4). Pense no direito de todas as pessoas a bene- personalidade jurídica. Que perigos enfrenta um
ficiarem de igual protecção da lei e indique quais ser humano cuja personalidade jurídica não é
as repercussões deste direito sobre a actividade reconhecida?
policial.
8). Por que motivo é importante, para efeitos da
5). O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis promoção e protecção dos direitos humanos, que
e Políticos (artigo 20.o) impõe que todo o apelo ao estes direitos sejam considerados inalienáveis e uni-
ódio racial seja proibido por lei. Existe também o versais?
direito à liberdade de opinião e de expressão.
Como podem conciliar-se estes dois imperativos? 9). Embora a maioria das formas de discrimina-
Qual é o mais importante? ção contra pessoas constituam violações de direi-
tos humanos, a discriminação que favorece
6). A Convenção sobre a Eliminação de Todas as determinadas categorias de pessoas (tais como
Formas de Discriminação contra as Mulheres mulheres e crianças) é estimulada e por vezes
(artigo 11.o) exige que os Estados Partes garantam obrigatória. Em que domínios da aplicação da lei
às mulheres as mesmas oportunidades do é esta forma de discriminação “positiva” importante
emprego que aos homens, nomeadamente a apli- e necessária?
cação dos mesmos critérios de selecção em maté-
ria de emprego. Que dificuldades coloca esta 10). Redija um artigo para inclusão num código de
exigência no domínio do recrutamento dos agen- disciplina policial nos termos do qual a discrimi-
tes policiais? Como podem estas dificuldades ser nação passe a constituir uma infracção a esse
ultrapassadas? código.

76
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
*
Ter
c eira
Par
t e

DEVERES
E FUNÇÕES DA POLÍCIA
cap
ítu
lo

*11
Investigação policial

Objectivos do capítulo • Apresentar as normas internacionais relativas à investigação criminal e


explicar a respectiva relevância para a actividade da polícia.
}
}

Princípios fundamentais • Durante as investigações, audição de testemunhas, vítimas e suspeitos,


revistas pessoais, buscas de veículos e instalações, bem como intercepção
de correspondência e escutas telefónicas:

• Todo o indivíduo tem direito à segurança pessoal;


• Todo o indivíduo tem direito a um julgamento justo;
• Todo o indivíduo tem direito à presunção da inocência até que a sua culpa
fique provada no decurso de um processo equitativo;

• Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, família,


domicílio ou correspondência;

• Ninguém sofrerá ataques à sua honra ou reputação;


• Não será exercida qualquer pressão, física ou mental, sobre os suspeitos,
testemunhas ou vítimas, a fim de obter informação;

• A tortura e outros tratamentos desumanos ou degradantes são absolu-


tamente proibidos;

• As vítimas e testemunhas deverão ser tratadas com compaixão e consi-


deração;

• A informação sensível deverá ser sempre tratada com cuidado e o seu carác-
ter confidencial respeitado em todas as ocasiões;

• Ninguém será obrigado a confessar-se culpado nem a testemunhar con-


tra si próprio;

• As actividades de investigação deverão ser conduzidas em conformidade


com a lei e apenas quando devidamente justificadas;

• Não serão permitidas actividades de investigação arbitrárias ou indevi-


damente intrusivas.

79
*
Deveres e funções da Polícia
a. Normas internacionais sobre investiga- os direitos humanos, e cumprir a lei. Numa socie-
ção policial – Informação para as apresenta- dade democrática, o investigador criminal deverá
ções mostrar-se receptivo e ser responsável perante a
comunidade. Além do mais, as investigações deve-
rão ser conduzidas tendo devidamente em conta
1. INTRODUÇÃO o princípio da não discriminação. As normas rela-
tivas à ética policial, actividade policial numa
299. A investigação do crime constitui a primeira sociedade democrática e não discriminação são
etapa fundamental na administração da justiça. analisadas atrás nos capítulos VIII, IX e X e deve-
Trata-se do meio pelo qual aqueles que são acusa- rão ser consultadas para mais informação.
dos de um crime poder ser levados a comparecer
perante a justiça a fim de determinar a sua culpa-
bilidade ou inocência. É também essencial para o 2. ASPECTOS GERAIS SOBRE DIREITOS
bem-estar da sociedade, pois o crime causa sofri- HUMANOS E INVESTIGAÇÃO POLICIAL
mento entre a população e compromete o desen-
volvimento económico e social. Por estas razões, (a) Princípios fundamentais
a condução das investigações criminais de forma
eficaz e em conformidade com a lei e com os prin- 303. A investigação criminal tem por objectivos a
cípios éticos é um aspecto extremamente impor- recolha de provas, identificação do presumível
tante da actividade policial. autor do crime e apresentação das provas em tri-
bunal para que a culpabilidade ou inocência do
300. O objectivo do presente capítulo consiste em arguido possa ser determinada. Os princípios fun-
analisar a investigação do crime enquanto actividade damentais que emanam das normas internacionais
policial autónoma. Assim, serão consideradas as nor- são, assim, os seguintes:
mas internacionais de direitos humanos parti- • presunção da inocência de todos os arguidos;
cularmente relevantes no domínio da investigação • direito de todas as pessoas a um julgamento justo;
criminal. Contudo, todas as restantes normas • respeito pela dignidade, honra e privacidade de
importantes para o exercício da actividade policial todas as pessoas.
em geral, referidas nos capítulos precedentes e
subsequentes, continuam a ser aplicáveis. (b) Normas específicas sobre a investigação

301. No decorrer de uma investigação, os agentes 304. Os princípios acima enunciados encontram-
podem efectuar capturas, mas apenas quando tal seja -se consagrados nas disposições dos instrumentos
necessário e caso disponham de autoridade legal de direitos humanos que garantem o direito à pre-
para o fazer. Os suspeitos da prática de um crime sunção de inocência até prova em contrário, o
sob investigação podem ser detidos, mas deverão direito a um processo equitativo e a interdição de
ser sempre tratados com humanidade. Poderá ser intromissões ilícitas e arbitrárias na vida privada.
necessário utilizar a força para capturar ou deter um
suspeito, mas apenas quando estritamente neces- [i] Presunção de inocência
sário e na medida exigida para alcançar o objectivo
lícito prosseguido. Dever-se-ão consultar os capítu- 305. Este direito está consagrado no artigo 11.o,
los XII, XIII e XIV, infra, para uma análise por- n.o 1, da Declaração Universal, onde se lê:
menorizada das normas internacionais relativas a
estes aspectos da actividade policial. Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-
se inocente até que a sua culpabilidade fique legal-
302. Para que a investigação policial seja feita em mente provada no decurso de um processo público em
conformidade com os princípios éticos, os inves- que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam
tigadores deverão respeitar a dignidade humana e asseguradas.

80
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
É também garantido pelo Pacto Internacional julgada em razão de qualquer acusação em maté-
sobre os Direitos Civis e Políticos (artigo 14.o, ria penal contra si deduzida, toda a investigação do
n.o 2), Carta Africana dos Direitos do Homem e dos crime ou crimes que servem de base a tal acusa-
Povos (artigo 7.o, n.o 1, alínea b)), Convenção Ame- ção deverá ser conduzida dentro do respeito dos
ricana sobre Direitos Humanos (artigo 8.o, n.o 2) princípios éticos e em conformidade com as dis-
e Convenção Europeia dos Direitos do Homem posições jurídicas que disciplinam a investigação.
(artigo 6.o, n.o 2). O respeito das normas é particularmente impor-
tante no que diz respeito aos seguintes aspectos:
306. Duas importantes questões decorrem destas • obtenção de provas;
disposições: • interrogatório dos suspeitos (também analisado
infra, no capítulo XIII);
a) A culpabilidade ou a inocência só podem ser • imperativo de declarar a verdade perante o juiz
determinadas por um tribunal regularmente cons- ou tribunal.
tituído, na sequência de um processo regular no
âmbito do qual tenham sido concedidas ao 310. As disposições dos instrumentos de direitos
arguido todas as garantias necessárias para a sua humanos atrás mencionados incluem uma série de
defesa; garantias mínimas consideradas necessárias para
assegurar o direito a um processo equitativo. Ana-
b) O direito à presunção de inocência até prova lisaremos em seguida aquelas que têm particula-
em contrário é essencial para garantir um julga- res implicações na condução das investigações
mento justo. criminais.

307. A presunção de inocência tem uma importante [iii] Garantias mínimas para assegurar
consequência sobre o processo de investigação: um processo equitativo
todas as pessoas sob investigação deverão ser tra-
tadas como inocentes, quer tenham sido detidas ou a) A ser informado pronta e detalhadamente
presas preventivamente quer permaneçam em das acusações contra si formuladas
liberdade no decurso do inquérito.
311. Esta norma reitera e reforça uma das obriga-
[ii] Direito a um processo equitativo ções que os funcionários responsáveis pela aplicação
da lei deverão cumprir ao efectuar uma detenção.
308. Este direito está consagrado no artigo 10.o da Por exemplo, o artigo 9.o, n.o 2, do Pacto Interna-
Declaração Universal dos Direitos do Homem, cional sobre os Direitos Civis e Políticos dispõe:
que estabelece:
Todo o indivíduo preso será informado, no momento
Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a da sua detenção, das razões dessa detenção e receberá
sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um notificação imediata de todas as acusações apresenta-
tribunal independente e imparcial que decida dos seus das contra ele.
direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusa-
ção em matéria penal que contra ela seja deduzida. Isto significa que, ao capturar uma pessoa, há que
seguir o seguinte procedimento:
Aparece também, em termos mais desenvolvidos,
no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Polí- NO MOMENTO DA CAPTURA – a pessoa deverá ser
ticos (artigo 14.o), Carta Africana dos Direitos do imediatamente informada dos motivos da captura;
Homem e dos Povos (artigo 7.o), Convenção Ame-
ricana sobre Direitos Humanos (artigo 8.o) e Con- LOGO QUE POSSÍVEL APÓS A CAPTURA – a pessoa
venção Europeia dos Direitos do Homem (artigo 6.o). deverá ser informada das acusações contra si for-
309. Para que uma pessoa seja equitativamente muladas.

Deveres e funções da Polícia


* 81
312. Caso a pessoa sujeita a investigação não haja tem repercussões sobre as investigações criminais.
sido detida, ela tem também o direito de ser infor- Um exemplo é dado em seguida, mas outros podem
mada, logo que possível, das acusações contra si surgir nos diversos sistemas jurídicos e policiais
deduzidas. dos Estados Membros das Nações Unidas.

313. É evidente que a natureza das investigações pode 318. No decorrer das investigações, a polícia pode
influenciar o período de tempo durante o qual a pes- encontrar testemunhas do crime cujo depoimento
soa deverá ser informada das acusações contra si for- não corrobore as acusações contra a pessoa que se
muladas. Em casos muito complexos, esse período encontra a ser investigada. É evidente que tal
de tempo poderá ser mais longo do que em casos depoimento pode ser suficiente para indicar que
menos complexos. Contudo, a regra é sempre a mesma: o suspeito do crime não foi, de facto, o seu autor.
a pessoa deverá ser informada logo que possível. Nesse caso, a pessoa em causa deve deixar de ser
objecto de investigação.
b) Julgamento num prazo razoável
319. Por outro lado, essa prova pode simples-
314. Esta garantia significa que a investigação mente enfraquecer as acusações formuladas con-
deverá ser efectuada e concluída tão rápida e efi- tra o suspeito, sem as fazer desaparecer
cazmente quanto possível. completamente. As restantes provas podem ser
suficientes para deduzir acusação contra o sus-
315. Tal como a primeira das garantias referidas, peito e levá-lo a julgamento. Porém, o facto é que
a complexidade do caso poderá afectar o período uma testemunha cujo depoimento enfraquece a
que efectivamente decorre até que a pessoa seja acusação é uma testemunha de defesa, pelo que
levada a julgamento. Outros factores, tais como a deverá ser citada para comparecer em julgamento.
disponibilidade das testemunhas e o comporta-
mento da pessoa no decorrer da investigação, d) De não ser obrigado a testemunhar contra si
podem também influir na duração das investiga- próprio ou a confessar-se culpado
ções. Não obstante, o julgamento deverá ter sem-
pre lugar num prazo razoável. 320. Sendo certo que esta garantia protege a pes-
soa acusada na fase de julgamento, ela afecta tam-
316. A maneira de conduzir a investigação policial bém as investigações aquando do interrogatório do
não deverá dar azo ao desrespeito desta garantia. suspeito pelas autoridades policiais.

NOTA PARA OS FORMADORES: Existe também uma 321. Os interrogatórios e exames das pessoas sus-
garantia mínima impondo que a pessoa acusada peitas da prática de um crime são objecto de nor-
disponha do tempo e dos meios suficientes para mas específicas, que analisaremos mais adiante no
preparar a sua defesa, o que deverá ser conjugado capítulo XIII. Algumas destas normas destinam-
com a exigência de que o julgamento tenha lugar -se exactamente a impedir que se exerça uma pres-
num prazo razoável. são excessiva sobre os suspeitos para que se
confessem culpados. É evidente que, se alguém tiver
c) A interrogar, ou fazer interrogar, as testemu- sido ilicitamente compelido a confessar-se cul-
nhas de acusação pado durante a fase de inquérito, esta garantia, que
se destina a proteger os arguidos durante o julga-
e a obter a comparência e o interrogatório das testemu- mento, terá sido violada.
nhas de defesa nas mesmas condições que as testemunhas
de acusação [iv] Intromissões arbitrárias na vida privada

317. A primeira parte desta garantia diz respeito à 322. A privacidade, a honra e a reputação dos indi-
forma de condução do julgamento, mas a segunda víduos são protegidas pelo artigo 12.o da Declara-

82
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
ção Universal dos Direitos do Homem, que diz o obtêm informações que podem ser potencial-
seguinte: mente prejudiciais à reputação de outras pessoas.
Sublinha que se deverá tomar a máxima cautela no
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida tratamento de tais informações e que qualquer
privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua divulgação das mesmas para outros fins que não
correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. o desempenho do dever ou os interesses da justiça
Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem é totalmente abusiva.
direito a protecção da lei.
326. A divulgação abusiva de informação confi-
323. Disposições semelhantes estão consagradas na dencial prejudicial à reputação de um indivíduo vio-
Convenção Americana sobre Direitos Humanos laria certamente as disposições da Declaração
(artigo 11.o) e na Convenção Europeia dos Direitos Universal e Convenções Americana e Europeia,
do Homem (artigo 8.o), embora este último ins- acima referidas.
trumento limite tal direito (artigo 8.o, n.o 2) nos
seguintes termos: (c) Aspectos técnicos da investigação

Não pode haver ingerência da autoridade pública no exer- 327. A eficácia das investigações, se levadas a cabo
cício deste direito senão quando esta ingerência estiver pre- com base no respeito pela dignidade humana e pelo
vista na lei e constituir uma providência que, numa princípio da legalidade, depende em larga medida
sociedade democrática, seja necessária para a segurança dos seguintes factores:
nacional, para a segurança pública, para o bem-estar eco- • disponibilidade de recursos científicos e técnicos
nómico do país, a defesa da ordem e a prevenção das e utilização inteligente dos mesmos;
infracções penais, a protecção da saúde ou da moral, ou • aplicação intensiva de técnicas policiais elemen-
a protecção dos direitos e das liberdades de terceiros. tares;
• conhecimentos e preparação dos investigadores;
324. Estas normas têm repercussões óbvias sobre • observância das disposições legais que discipli-
as investigações criminais: nam as investigações, bem como das normas
Revistas e Buscas – em especial das pessoas e internacionais de direitos humanos.
suas casas, outros bens e veículos,
e 328. Os recursos científicos e técnicos compreen-
Intercepção – de correspondência, mensagens dem, por exemplo:
telefónicas e outras comunicações, deverão res- • meios para examinar o local do crime, elemen-
peitar escrupulosamente a lei e ser absolutamente tos descobertos nesse local e outro material com
necessárias para fins legítimos de aplicação da lei. eventual valor probatório;
• meios para registar e referenciar a informação
325. A protecção da intimidade é reforçada pelas recolhida durante as investigações. As investigação
disposições do artigo 4.o do Código de Conduta para em larga escala podem exigir o recurso a meios
os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, informáticos.
que estabelece:
329. As técnicas policiais elementares dizem res-
As informações de natureza confidencial em poder dos peito, nomeadamente, aos seguintes aspectos:
funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem • interrogatório de testemunhas e suspeitos (são téc-
ser mantidas em segredo, a não ser que o cumprimento nicas diferentes que exigem abordagens diferen-
do dever ou as necessidades da justiça estritamente ciadas);
exijam outro comportamento. • buscas em diversos locais, tais como espaços
abertos, edifícios e veículos, bem como revistas pes-
O comentário ao artigo assinala que, devido à soais (mais uma vez, são técnicas diferentes que
natureza das suas funções, os agentes policiais exigem abordagens diferenciadas).

Deveres e funções da Polícia


* 83
330. Os conhecimentos e a preparação dos investi- 332. Os informadores são uma fonte extremamente
gadores dependem, designadamente, dos seguin- importante de informação sobre o meio criminal e
tes factores: os delinquentes, constituindo por vezes a única forma
• recursos e meios ao seu dispor; de levar alguns criminosos, em especial os envolvi-
• conhecimentos e aptidões básicas que possuem; dos no crime organizado, a responder perante a jus-
• competências legais que lhes estão atribuídas e tiça. A manutenção e utilização de informadores por
princípios éticos que regem a sua conduta. parte dos investigadores policiais pode contribuir
significativamente para aumentar a eficácia das inves-
NOTA PARA OS FORMADORES: A disponibilidade de tigações e da instituição policial no seu conjunto.
recursos, a aquisição de conhecimentos técnicos no
domínio da aplicação da lei e o nível de prepara- 333. Contudo, este processo reveste-se de consi-
ção dos investigadores são matérias em que os deráveis perigos, pelas seguintes razões:
agentes dependem dos Governos e das instituições
policiais. Para manter um sistema de polícia efi- a) os próprios informadores são por vezes cri-
caz e humano, os Governos deverão dotar os orga- minosos, ou mantêm estreitas ligações com eles;
nismos responsáveis pela aplicação da lei dos
necessários recursos e, através deles, ministrar b) a informação é geralmente fornecida a troco
formação aos agentes policiais e garantir-lhes a de dinheiro ou outros favores;
atribuição dos meios de que necessitam para
poderem desempenhar as suas funções. c) os contactos entre os agentes policiais e os
informadores são necessariamente secretos.
Estes exemplos de aspectos técnicos da actividade
policial foram incluídos no presente capítulo com 334. O processo apresenta os seguintes perigos:
os seguintes objectivos:
a) o informador pode explorar a situação de maneira
• Estabelecer ou reforçar, no espírito dos partici- a conseguir cometer o crime e evitar ser detectado;
pantes, a ligação entre a competência profissional
e a protecção dos direitos humanos; b) o informador pode encorajar terceiros a
• Dar oportunidade para discutir os programas de cometerem crimes a fim de ser pago pelas infor-
assistência técnica do Centro para os Direitos mações fornecidas relativamente a estes;
Humanos e da Divisão para a Prevenção do Crime
e Justiça Penal das Nações Unidas ou a possibilidade c) um agente pode levar a que o informador
de vir a beneficiar dessa assistência através do con- encoraje terceiros a cometer crimes que o mesmo
tacto directo com os Estados Membros das Nações agente possa depois detectar, a fim de demonstrar
Unidas que dispõem de organismos e funcionários maior eficácia;
responsáveis pela aplicação da lei com conheci-
mentos especializados nas áreas em questão. d) o agente pode tornar-se corrupto através das
Deverá ser feito notar aos participantes que a insu- transacções financeiras com os informadores.
ficiência de conhecimentos técnicos ou de recur-
sos não constitui desculpa para as violações de 335. Pelas razões acima expostas, os organismos
direitos humanos. responsáveis pela aplicação da lei devem definir
e aplicar regras disciplinadoras das relações e
(d) Relação com os informadores da polícia transacções entre os agentes e os informadores
da polícia. Estas regras devem ter em conta os
331. Esta subsecção ocupa-se de um aspecto técnico seguintes aspectos:
da investigação, o qual, tendo em conta as impor-
tantes questões éticas e jurídicas que coloca, a) Cada informador deve tratar apenas com um
merece uma análise autónoma e particular. agente policial, sendo este último o único res-

84
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
ponsável, no seio da instituição policial, pela procedimentos contabilísticos bem definidos e de
manutenção dos contactos e realização de todas as uma fiscalização rigorosa. O funcionário que
transacções. Isto permite responsabilizar um decide sobre a autorização de pagamento deverá
determinado agente por todos os contactos com o ignorar a identidade do informador, mas é indis-
informador em questão; pensável que conheça os pormenores do crime e
a natureza da informação fornecida.
b) Embora a identidade do informador deva em
geral permanecer confidencial, para protecção do 336. Ainda relativamente às relações entre a polí-
agente que com ele contacta e do próprio infor- cia e os informadores, devemos acrescentar que a
mador deverá ser mantido um registo oficial com probabilidade de corrupção de alguns agentes, em
indicação da identidade de cada informador e do determinadas fases, é tão alta, que se torna quase
agente responsável pela ligação com ele. Esse inevitável. Os funcionários superiores de polícia têm
registo deverá poder ser consultado apenas por assim a enorme responsabilidade de:
um superior hierárquico especificamente designado
para o efeito. a) definir uma política clara que sirva de base a
procedimentos reguladores e directrizes eficazes
c) As actividades dos informadores deverão ser e permita optimizar os benefícios a retirar da reco-
cuidadosamente vigiadas. Acontece frequente- lha de informação confidencial sobre o crime e os
mente que o informador, não só tem conheci- delinquentes;
mento do planeamento de um crime, como está
também envolvido nesse mesmo planeamento e b) estabelecer procedimentos reguladores estri-
pode ser considerado um potencial participante na tos e directrizes explícitas a fim de que os agentes
sua execução. Regra geral, isto não é aceitável, seus subordinados compreendam exactamente de
uma vez que significa, quase inevitavelmente, que que forma deverão conduzir as suas relações com
o informador irá cometer um delito. os informadores e até que ponto essas relações
são vigiadas.
d) Muito raramente, a actividade criminosa em
planeamento é de tal magnitude, e a não participa- 337. A criação de um sistema para a utilização efi-
ção do informador colocá-lo-á em tal perigo, que ele caz dos informadores policiais é fundamental na
poderá ter de participar na sua execução. Tolerar prevenção e detecção do crime. A corrupção desse
quaisquer crimes, incluindo os cometidos pelos sistema implica a corrupção dos próprios agentes,
informadores, coloca graves questões jurídicas e éti- a subversão do sistema de justiça penal e a viola-
cas. Qualquer decisão de o fazer deverá ser tomada ção dos direitos humanos.
ao mais alto nível no seio da instituição policial e ape-
nas depois das devidas consultas com as autoridades (e) Vítimas
judiciárias. Estas decisões e consultas deverão ser sem-
pre tomadas e efectuadas caso a caso. Não deve 338. A questão das vítimas do crime será abor-
jamais conceder-se qualquer imunidade geral. dada em detalhe no capítulo XIX, infra. Contudo,
uma vez que diversas questões relativas às víti-
e) As contrapartidas económicas oferecidas aos mas de crime se relacionam estreitamente com o
informadores nunca devem ser excessivas. Os processo de investigação, é importante fazer-lhes
pagamentos não devem constituir um grande ali- aqui referência.
ciante ao fornecimento de informações, caso con-
trário o informador poderá ser tentado a encorajar 339. Um dos três princípios fundamentais que
terceiros a perpetrar novos crimes. referimos no início do presente capítulo é aquele
que exige o respeito da dignidade, honra e priva-
f ) Os pagamentos efectuados aos informadores cidade de todas as pessoas. Este princípio aplica-
deverão ser estritamente controlados através de -se particularmente às vítimas. O parágrafo 4.o da

Deveres e funções da Polícia


* 85
Declaração dos Princípios Básicos de Justiça c) Prestando às vítimas a assistência adequada ao
Relativos às Vítimas da Criminalidade e de Abuso longo de todo o processo;
de Poder proclama: d) Tomando medidas para minimizar, tanto quanto
possível, as dificuldades encontradas pelas vítimas, pro-
As vítimas devem ser tratadas com compaixão e respeito teger a sua vida privada e garantir a sua segurança,
pela sua dignidade. Têm direito ao acesso às instâncias bem como a da sua família e a das suas testemunhas,
judiciárias e a uma rápida reparação do prejuízo por si preservando-as de manobras de intimidação e de repre-
sofrido, de acordo com o disposto na legislação nacional. sálias;
e) Evitando demoras desnecessárias na resolução
340. As vítimas do crime são frequentemente das causas e na execução das decisões ou sentenças
importantes testemunhas desse mesmo crime. É que concedam indemnização às vítimas.
importante que os investigadores se preocupem
com o bem-estar das vítimas, em virtude de impe- 342. Os agentes policiais encarregados da investi-
rativos humanitários fundamentais, e que asse- gação criminal estão muitas vezes numa posição
gurem a sua cooperação voluntária no decorrer única para garantir que as normas consagradas no
do inquérito e subsequente julgamento. Para o texto acima transcrito são respeitadas e que as
conseguir, poderão alertar os organismos de assis- vítimas encontram resposta para outras neces-
tência social competentes para as necessidades de sidades que possam sentir. Podem fazê-lo
cada vítima, ou informar as próprias vítimas a res- informalmente ou em conformidade com meca-
peito da existência desses serviços e organizações. nismos estabelecidos para o efeito. Alguns Estados
Membros das Nações Unidas conseguiram criar
341. Para além das necessidades derivadas da sua mecanismos eficazes de apoio às vítimas do crime.
condição de vítimas, essas pessoas enfrentam tam-
bém necessidades decorrentes da sua participação
em quaisquer processos judiciais ou administra- 3. OBSERVAÇÕES FINAIS
tivos subsequentes. A Declaração dos Princípios
Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da Crimi- 343. Deverá recordar-se aos participantes do curso
nalidade e de Abuso de Poder, acima mencionada, que todas as normas de direitos humanos aplicá-
identifica essas necessidades e enuncia formas de veis à actuação policial em geral se aplicam tam-
lhes dar resposta. O parágrafo 6.o estabelece o bém aos procedimentos de investigação criminal.
seguinte As normas analisadas no presente capítulo têm
especial relevância no domínio do inquérito.
A capacidade do aparelho judiciário e administra- Dever-se-á também lembrar que um sólido conhe-
tivo para responder às necessidades das vítimas deve cimento dos aspectos técnicos da investigação é
ser melhorada: importante, não só para a eficaz detecção do
crime, mas também para promoção e protecção dos
a) Informando as vítimas da sua função e das pos- direitos humanos.
sibilidades de recurso abertas, das datas e da marcha dos
processos e da decisão das suas causas, especialmente 344. Diversos Estados Membros das Nações Uni-
quando se trate de crimes graves e quando tenham das possuem conhecimentos especializados e
pedido essas informações; experiência em todos os aspectos da investigação
b) Permitindo que as opiniões e as preocupações das analisados no presente capítulo, nomeadamente no
vítimas sejam apresentadas e examinadas nas fases que diz respeito à utilização de informadores. Os
adequadas do processo, quando os seus interesses pes- formandos deverão ser estimulados a aproveitá-los,
soais estejam em causa, sem prejuízo dos direitos da bem como a partilhar a experiência e os conheci-
defesa e no quadro do sistema de justiça penal do país; mentos que eles próprios tenham adquirido.

86
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
b. Normas internacionais sobre investigação policial – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS

}
Recomendações destinadas • Institua procedimentos normalizados para o registo de informação no
a todos os agentes policiais decorrer das investigações.

• Sempre que possível, em caso de dúvida sobre a legalidade de uma acti-


vidade de investigação, esclareça-se com os seus superiores antes de pros-
seguir.

}
}
Recomendações destinadas • Trate todos os suspeitos como pessoas inocentes, de forma educada, res-
a todos os agentes policiais peitosa e profissional.
• Mantenha um registo detalhado de todos os interrogatórios efectuados.
• Participe em acções de formação contínua a fim de aperfeiçoar os seus
conhecimentos no domínio da investigação.
• Antes de qualquer interrogatório, informe sempre as vítimas, testemu-
nhas e suspeitos dos respectivos direitos.
• Antes de empreender qualquer acção no âmbito de um inquérito, pergunte
a si próprio: É legal? Será admitida em tribunal? É necessária? É indevida-
mente intrusiva?
• Nunca procure nem se apoie numa confissão para fundamentar um
processo. Pelo contrário, o objectivo da investigação consiste em reunir ele-
mentos de prova independentes.
• Sempre que possível, solicite um mandado ou ordem judicial antes de
empreender quaisquer buscas. As buscas sem mandado devem ser excep-
cionais e efectuadas apenas na medida do razoável e com motivo justifi-
cado, na sequência de uma captura lícita, quando livremente consentidas
ou quando a obtenção de um mandado prévio seja impossível, dadas as
circunstâncias.
• Conheça a comunidade onde trabalha. Desenvolva estratégias activas de
prevenção do crime, nomeadamente tomando consciência dos riscos exis-
tentes no seio dessa comunidade.
}
}

Recomendações destinadas • Recomendações destinadas a todos os funcionários com responsabilida-


a todos os funcionários des de comando e supervisão
com responsabilidades
de comando e supervisão • Institua mecanismos administrativos destinados a acelerar o processo de inves-
tigação.
• Emita ordens de serviço que salientem as garantias jurídicas aplicáveis
ao processo de investigação.
• Organize programas de formação incidentes sobre as normas jurídicas apli-
cáveis e técnicas científicas eficazes no domínio da investigação criminal.
• Institua procedimentos de supervisão rigorosos para o tratamento de
informação confidencial.

Deveres e funções da Polícia


* 87
• Institua, em coordenação com os organismos de segurança social com-
petentes, mecanismos de apoio às vítimas.
• Formule directivas que limitem o recurso à confissão.
• Desenvolva estratégias de policiamento voltadas para a comunidade, por
forma a que a polícia se aproxime da sociedade e, assim, da informação
necessária à prevenção e solução dos crimes.
• Solicite cooperação técnica, nomeadamente, e quando necessário, de pro-
gramas técnicos internacionais no domínio da actividade das polícias,
sobre as técnicas e tecnologias modernas de investigação policial.
• Aplique sanções rigorosas em caso de violação das normas relativas à lega-
lidade das práticas de investigação e divulgue a existência de tais sanções.
}

2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 4). Caso os investigadores se sintam tentados a vio-


lar as normas jurídicas e os princípios éticos, que
Exercício n.o 1 implicações tem isto sobre a supervisão e comando
das investigações – especialmente em relação aos
Um dos objectivos da investigação policial con- exemplos de recolha de informação indicados no pri-
siste na recolha de informação. Isto pode ser feito meiro parágrafo do presente exercício?
através do recurso a meios técnicos (por exemplo,
escutas telefónicas) ou a meios tácticos (por exem- Exercício n.o 2
plo, utilização de informadores).
Imagine que é membro de um grupo de trabalho esta-
Os investigadores policiais podem ser seriamente belecido com o objectivo de aconselhar a estrutura
tentados a ignorar os princípios éticos e as normas de comando do seu organismo a respeito dos prin-
jurídicas, em especial nas fases mais críticas da cípios éticos aplicáveis às investigações criminais.
investigação de um crime grave, por exemplo
quando possa estar iminente uma captura. Na ver- 1). Elabore um código deontológico para orien-
dade, um investigador pode considerar que, em cer- tação dos agentes encarregados das investigações
tas ocasiões, é indispensável violar determinadas sobre a forma de conduzir as mesmas em con-
normas para garantir o sucesso das investigações. formidade com os princípios éticos.

1). Indique os argumentos que utilizaria nessa 2). Pense nos conselhos que daria acerca da apli-
ocasião para convencer um investigador da neces- cação desse código: deveriam as violações a esse
sidade de respeitar as normas jurídicas e os prin- documento constituir fundamento para a instau-
cípios éticos. ração de processo disciplinar por infracção do
código de disciplina policial, ou deveriam os códi-
2). Alguma vez se justifica a violação da lei com gos e procedimentos disciplinares permanecer dis-
o objectivo de aplicar a lei? sociados dos códigos deontológicos? Indique as
razões que justificam qualquer uma das conclusões.
3). Se forem dados argumentos para justificar a
violação da lei com o objectivo de aplicar a lei, Exercício n.o 3
como podem eles ser conciliados com a presunção
de inocência de todas as pessoas suspeitas ou Para fins de discussão, imagine que a sua instituição
acusadas de um crime? policial está a investigar uma organização envolvida

88
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
no tráfico de droga. Os membros desta organização 3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO
são implacáveis e extremamente eficientes. Os resul-
tados da investigação desenvolvida até ao momento 1). Por que razão é importante respeitar o direito
indicam que só poderão ser feitos progressos infil- à presunção de inocência?
trando agentes na organização a fim de obter provas 2). De que forma contribui a presunção de ino-
das actividades a que esta se dedica. Caso tal táctica cência para o respeito do direito a um julgamento
seja bem sucedida, a intenção será capturar imedia- equitativo?
tamente todos os implicados nas actividades crimi-
nosas da organização. O responsável do seu serviço 3). De que forma contribui o direito de uma pes-
autoriza a táctica da infiltração, mas pretende que soa a ser informada prontamente das acusações
sejam elaboradas algumas directrizes destinadas aos deduzidas contra si para o respeito do direito a um
agentes a infiltrar, a fim de assegurar que a sua actua- julgamento equitativo?
ção seja eficaz e conforme aos princípios éticos.
4). Por que razão é importante que uma pessoa
1). Elabore as directrizes solicitadas pelo res- acusada da prática de um crime não seja obrigada
ponsável do seu serviço. a testemunhar contra si própria?

2). Durante quanto tempo, na sua opinião, deverá 5). Quais são as qualidades essenciais de um
um agente policial trabalhar no seio de uma orga- agente da polícia especializado na investigação cri-
nização do tipo da descrita no presente exercício? minal?

3). Deverão os agentes infiltrados participar nas 6). Indique sucintamente os conselhos que daria
actividades criminosas da organização? Que con- a um novo agente sobre a forma de proceder a revis-
selhos lhes daria a este respeito? tas pessoais.

Exercício n.o 4 7). Descreva sucintamente os riscos a que se


expõe um agente policial que utiliza os serviços de
O Ministro da Justiça solicitou a diversas fontes a um informador.
apresentação de recomendações e conselhos sobre Como podem reduzir-se esses riscos?
as práticas das escutas telefónicas e intercepção de
correspondência pela polícia para fins de investi- 8). Descreva sucintamente os riscos que coloca
gação criminal. a utilização de informadores ao desenvolvimento
da actividade policial em conformidade com os
1). Indique as recomendações e conselhos que princípios éticos. Como podem reduzir-se esses ris-
daria enquanto: cos?
(a) funcionário superior de polícia;
(b) director de um grupo de defesa das liberda- 9). Dever-se-ão aplicar os mesmos princípios éti-
des cívicas preocupado com o excesso de poderes cos à investigação de crimes graves e à investiga-
da polícia e a invasão da privacidade. ção de pequenos delitos?

2). Elabore uma declaração de princípios desti- 10). Os criminosos não respeitam as normas. Por-
nada ao ministro, com base no exame imparcial de que deverá a polícia fazê-lo?
ambos os conjuntos de recomendações e conselhos.

Deveres e funções da Polícia


* 89
cap
ítu
lo

*12
Captura

Princípios fundamentais
}

Objectivos do capítulo • Apresentar as normas internacionais aplicáveis a qualquer acto das autori-
dades que tenha por efeito privar uma pessoa de liberdade, nomeadamente por
ter alegadamente cometido um delito, e destacar alguns aspectos práticos da
aplicação dessas normas.
}
}

• Todo o indivíduo tem direito à liberdade e à segurança pessoal, bem como


à liberdade de movimentos.

• Ninguém será objecto de prisão ou detenção arbitrárias.


• Ninguém será privado de liberdade, a não ser pelos motivos e de acordo
com os procedimentos estabelecidos por lei.

• Todo o indivíduo capturado será informado, no momento da captura, das


razões que a justificam.

• Todo o indivíduo capturado será prontamente informado de qualquer


acusação deduzida contra si.

• Todo o indivíduo capturado será presente sem demora a uma autoridade


judicial.

• Toda o indivíduo capturado terá direito a comparecer perante uma auto-


ridade judicial a fim de que esta decida sem demora sobre a legalidade da
sua captura ou detenção e será libertado caso a detenção seja considerada
ilegal.

• Todo o indivíduo detido tem direito a ser julgado num prazo razoável ou liber-
tado.

• A prisão preventiva será uma excepção e não a regra geral.


• Todas as pessoas capturadas ou detidas têm direito aos serviços de um
advogado ou outro representante legal e deverão dispor de oportunidades
suficientes para se comunicarem com ele.

• Todas as capturas efectuadas deverão ficar registadas e este registo


incluirá os seguintes elementos: motivo da captura; dia e hora da captura;

91
*
Terceira Parte
dia e hora da transferência para um local de detenção; dia e hora da com-
parência perante uma autoridade judicial; identidade dos agentes envol-
vidos; informação precisa sobre o local de detenção; e pormenores relativos
ao interrogatório.

• O registo da captura será comunicado ao detido, ou seu representante


legal.

• A família da pessoa detida será prontamente notificada da captura e local


de detenção.

• Ninguém será obrigado a confessar-se culpado nem a testemunhar contra si


próprio.

• Sempre que necessário, a pessoa será assistida por um intérprete durante


o interrogatório.
}

a. Normas internacionais sobre captura – É de importância fundamental que os funcionários


Informação para as apresentações responsáveis pela aplicação da lei conheçam per-
feitamente a forma como o termo “captura” é defi-
nido na lei dos seus países e os poderes de captura
1. INTRODUÇÃO que essa legislação lhes confere.

345. Capturar uma pessoa significa privá-la de


liberdade. No domínio da aplicação da lei, os fins 2. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS HUMANOS
habituais de uma captura são: E CAPTURA
• impedir que a pessoa cometa, ou continue a
cometer, um acto ilícito; (a) Princípios fundamentais
• permitir a realização de investigações em relação
ao acto ilícito alegadamente cometido pela pessoa 348. A liberdade individual é um dos princípios
capturada; ou fundamentais de onde emanam todos os direitos
• levar uma pessoa a comparecer em tribunal para humanos. A privação da liberdade individual é
que este examine as acusações formuladas contra ela. uma questão extremamente grave que apenas se
pode justificar quando for simultaneamente
346. Qualquer que seja o seu objectivo, ou objec- legal e necessária. Os três princípios da liber-
tivos, a captura de uma pessoa deve ser baseada na dade, legalidade e necessidade estão subjacen-
lei e efectuada de modo profissional, competente tes a todas as normas específicas em matéria de
e eficaz. Isto significa que, ao efectuar uma cap- captura.
tura, a polícia deverá fazer uso tanto dos seus
conhecimentos como da sua perícia técnica. (b) Normas específicas sobre a captura

347. O termo “captura” não aparece definido nos 349. Os instrumentos internacionais de direitos
instrumentos de direitos humanos que proíbem a humanos compreendem diversas disposições des-
detenção arbitrária, mas sim no Conjunto de Prin- tinadas a proteger a liberdade individual. Aquelas
cípios para a Protecção de Todas as Pessoas Sujei- que dizem especificamente respeito à captura são
tas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão, sob a proibição da detenção arbitrária; as normas que
a secção “Terminologia”, nos seguintes termos: definem procedimentos a seguir na sequência de
uma captura; as normas relativas à detenção de
[…] acto de deter um indivíduo por suspeita da prática menores; e as que exigem a compensação das víti-
de infracção ou por acto de uma autoridade. mas de detenção ilegal.

92
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
[i] Proibição da detenção arbitrária nados mentais, alcoólicos, toxicodependentes ou
vagabundos;
350. Esta proibição está consagrada no artigo 9.o f ) para impedir a entrada ou residência ilegais
da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de uma pessoa no país.
que estabelece: Estes casos inscrevem-se em três amplas catego-
rias, apesar de haver alguma sobreposição entre
Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou elas. As situações referidas nas alíneas a) e c)
exilado. dizem claramente respeito à lei e aos procedi-
mento penais; os casos mencionados nas alíneas b)
351. A mesma proibição está expressa no artigo 9.o, e e) relacionam-se sobretudo com a protecção ou
n.o 1, do Pacto Internacional sobre os Direitos o controlo sociais; e a alínea f) tem a ver com a cha-
Civis e Políticos, nos seguintes termos: mada “detenção administrativa”.

Todo o indivíduo tem direito à liberdade e à segurança NOTA PARA OS FORMADORES: Apesar de estas
da sua pessoa. Ninguém pode ser objecto de prisão ou últimas disposições se aplicarem apenas aos
detenção arbitrária. Ninguém pode ser privado da sua Estados que são Partes na Convenção Europeia,
liberdade a não ser por motivo e em conformidade com é altamente provável que normas semelhantes
processos previstos na lei. estejam em vigor em muitos Estados espalhados
pelo mundo. Cada uma das diferentes categorias
352. A detenção arbitrária é também proibida pela de casos tem repercussões sobre a actividade da
Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos polícia que variam de local para local, podendo ser
(artigo 6.o), Convenção Americana sobre Direitos analisadas durante sessões de debate formais e
Humanos (artigo 7.o, n.os 1 a 3) e Convenção Euro- informais. Algumas das questões levantadas
peia dos Direitos do Homem (artigo 5.o, n.o 1). Cada pelas normas acima indicadas são colocadas nos
um destes textos proclama o direito à liberdade e Tópicos para Discussão, no final do presente
segurança pessoal, a proibição da detenção arbitrária capítulo.
e a exigência de que os fundamentos de qualquer
detenção estejam definidos na lei. [ii] Procedimentos a seguir na sequência
da captura
353. Com efeito, o artigo 5.o da Convenção Euro-
peia dos Direitos do Homem afirma que ninguém 354. Os procedimentos a seguir na sequência da
será privado de liberdade excepto em casos espe- captura encontram-se descritos nos n.os 1 e 2 do
cificamente determinados e que, em resumo, con- artigo 9.o do Pacto Internacional sobre os Direitos
sistem na captura ou detenção: Civis e Políticos, que dispõe:
a) na sequência de condenação por um tribunal
competente; 2). Todo o indivíduo preso será informado, no
b) por desobediência a uma ordem legítima de momento da sua detenção, das razões dessa detenção
um tribunal ou para garantir o cumprimento de e receberá notificação imediata de todas as acusações
uma obrigação imposta por lei; apresentadas contra ele.
c) a fim de comparecer perante uma autoridade
judicial competente por suspeita razoável de ter 3). Todo o indivíduo preso ou detido sob acusação
cometido uma infracção; de uma infracção penal será prontamente conduzido
d) detenção de um menor em virtude de ordem perante um juiz ou uma outra autoridade habilitada pela
proferida em conformidade com a lei, para fins de lei a exercer funções judiciárias e deverá ser julgado num
educação sob vigilância ou para o fazer comparecer prazo razoável ou libertado. A detenção prisional de
perante a autoridade competente nos termos da lei; pessoas aguardando julgamento não deve ser regra
e) detenção de pessoas a fim de impedir a pro- geral, mas a sua libertação pode ser subordinada a
pagação de doenças infecciosas, bem como de alie- garantir que assegurem a presença do interessado no

Deveres e funções da Polícia


* 93
julgamento em qualquer outra fase do processo e, se for Disposições do mesmo tipo podem ser encontra-
caso disso, para execução da sentença. das na Convenção Americana sobre Direitos
Humanos (artigo 7.o, n.o 6) e Convenção Europeia
355. Estas disposições são reiteradas na Convenção dos Direitos do Homem (artigo 5.o, n.o 4), mas
Americana sobre Direitos Humanos (artigo 7.o, não na Carta Africana dos Direitos do Homem e
n.os 4 e 5) e na Convenção Europeia dos Direitos dos Povos.
do Homem (artigo 5.o, n.os 2 e 3). Não existem
preceitos análogos na Carta Africana dos Direitos 359. O princípio 37 do Conjunto de Princípios
do Homem e dos Povos. para a Protecção de Todas as Pessoas Sujeitas a
Qualquer Forma de Detenção ou Prisão dispõe:
356. Quatro normas do Conjunto de Princípios
para a Protecção de Todas as Pessoas Sujeitas a A pessoa detida pela prática de uma infracção penal deve
Qualquer Forma de Detenção ou Prisão referem- ser presente a uma autoridade judiciária ou a outra
-se a procedimentos a seguir na sequência da cap- autoridade prevista por lei, prontamente após a sua
tura, nos seguintes termos: captura. Essa autoridade decidirá sem demora da lega-
Princípio 2 – A captura só deve ser efectuada em lidade e necessidade da detenção. Ninguém pode ser
conformidade com a lei e pelas autoridades com- mantido em detenção aguardando a abertura de instrução
petentes ou pessoas autorizadas para o efeito. ou julgamento salvo por ordem escrita da referida auto-
Princípio 10 – A pessoa capturada deve ser infor- ridade. A pessoa detida, quando presente a essa auto-
mada, no momento da captura, dos motivos desta ridade, tem o direito de fazer uma declaração sobre a
e notificada sem demora das acusações contra si forma como foi tratada enquanto em detenção.
formuladas.
Princípio 12 – Será lavrado registo de onde cons- 360. O Princípio 2 dos Princípios sobre a Preven-
tarão os motivos e o momento da captura, o ção Eficaz e Investigação das Execuções Extraju-
momento de chegada da pessoa ao local de deten- diciais, Arbitrárias ou Sumárias estabelece:
ção e o da primeira comparência perante uma
autoridade judicial ou outra autoridade, a identi- A fim de prevenir a ocorrência de execuções extrajudi-
dade dos funcionários responsáveis pela aplica- ciais, arbitrárias ou sumárias, os Governos deverão
ção da lei que tenham intervido e indicações assegurar um controlo rigoroso, nomeadamente atra-
precisas sobre o local de detenção. vés de uma estrutura hierárquica claramente definida,
Princípio 13 – As pessoas capturadas devem rece- sobre todos os funcionários responsáveis pela retenção,
ber informação, bem como uma explicação, a res- captura, detenção, custódia e prisão, bem como sobre
peito dos seus direitos e modo de os exercer. os funcionários autorizados por lei a utilizar a força e
armas de fogo.
[iii] Salvaguardas adicionais
[iv] Captura de jovens
357. Diversos instrumentos prevêem garantias
adicionais, concebidas para assegurar o controlo do 361. A regra 10 das Regras Mínimas das Nações
processo de captura. Unidas para a Administração da Justiça de Meno-
res (Regras de Beijing) exige:
358. O artigo 9.o, n.o 4, do Pacto Internacional a) que os pais ou o tutor do menor detido sejam
sobre os Direitos Civis e Políticos estabelece: imediatamente notificados da captura;
b) que um juiz ou outro funcionário ou orga-
Todo o indivíduo que se encontrar privado de liber- nismo competente examine imediatamente a pos-
dade por prisão ou detenção terá o direito de intentar sibilidade de libertar o menor;
um recurso perante um tribunal, a fim de que este c) que os contactos entre os funcionários res-
estatua sem demora sobre a legalidade da sua detenção ponsáveis pela aplicação da lei e o jovem delin-
e ordene a sua libertação se a detenção for ilegal. quente sejam estabelecidos de forma a respeitar o

94
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
estatuto jurídico do menor e a evitar prejudicá-lo, liberdades individuais em nome do interesse
tendo em conta as circunstâncias do caso. público mais vasto e com o objectivo de assegurar
outros benefícios, designadamente a ordem
362. A Convenção sobre os Direitos da Criança pública e a segurança da população.
aborda também a questão da captura de jovens.
O artigo 37.o, alínea b), estabelece: 367. A necessidade de restringir o exercício de
direitos humanos para salvaguardar a existência
Nenhuma criança será privada de liberdade de forma ile- da nação é reconhecida e permitida pelo Pacto
gal ou arbitrária: a captura, detenção ou prisão de uma Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
criança devem ser conformes à lei, serão utilizadas uni- (artigo 4.o), pela Convenção Americana sobre
camente como medida de último recurso e terão a dura- Direitos Humanos (artigo 27.o) e pela Convenção
ção mais breve possível. Europeia dos Direitos do Homem (artigo 15.o).

NOTA PARA OS FORMADORES: Deverá também 368. Em termos gerais, é necessário que se esteja
fazer-se referência ao capítulo XVI, sobre Polícia perante uma situação de emergência pública que
e Protecção dos Jovens. ameace a existência da nação, só podendo as medi-
das de derrogação ser introduzidas na estrita
[v] Indemnização em caso de captura ilegal medida em que a situação o exigir. Continua a
haver algum controlo por parte da comunidade
363. O artigo 9.o, n.o 5, do Pacto Internacional sobre internacional sobre os Governos em causa sempre
os Direitos Civis e Políticos exige que as vítimas de que tais medidas são adoptadas.
prisão ou de detenção ilegal tenham direito a obter
compensação. O artigo 5.o, n.o 6, da Convenção Euro- 369. Alguns direitos não são passíveis de derro-
peia dos Direitos do Homem reitera esta exigência. gação, continuando protegidos em todas as cir-
cunstâncias. Variam ligeiramente consoante as
364. Não existe disposição semelhante quer na disposições do instrumento em causa, mas
Carta Africana dos Direitos do Homem e dos incluem sempre:
Povos quer na Convenção Americana sobre Direi- • o direito à vida
tos Humanos. Contudo, o artigo 10.o deste último • a proibição da tortura;
instrumento estabelece que os indivíduos terão • a proibição da escravatura.
direito a indemnizações caso sejam condenados,
por sentença transitada em julgado, com base 370. A questão das medidas derrogatórias será
num erro judiciário. A captura ou detenção ilegais examinada em maior detalhe no capítulo XV,
podem ser elementos de um erro judiciário. sobre Distúrbios internos, estados de excepção e
conflitos armados. A breve referência feita no
365. O princípio 35 do Conjunto de Princípios para presente capítulo destina-se a assinalar que a
a Protecção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer derrogação pode ter algumas consequências. Por
Forma de Detenção ou Prisão determina que todos exemplo, podendo os mecanismos destinados a
os danos emergentes de actos ou omissões de um garantir o controlo das autoridades judiciárias
funcionário público contrários aos direitos previs- sobre a captura e detenção de indivíduos ser
tos no Conjunto de Princípios serão passíveis de suprimidos ou restringidos, corre-se o risco de
indeminização, nos termos das normas de direito abrir caminho à ocorrência de detenções arbi-
interno aplicáveis em matéria de responsabilidade. trárias, torturas e outras formas de maus tratos
dos detidos.
(c) Medidas de derrogação
371. Deverá insistir-se no facto de que, ao serem
366. Em certas circunstâncias, os Governos adoptadas medidas de derrogação, os agentes poli-
podem considerar necessário e correcto limitar as ciais deverão respeitar escrupulosamente as

Deveres e funções da Polícia


* 95
garantias que permanecem em vigor para a pro- de captura e a violar o direito à liberdade e à
moção e protecção dos direitos humanos. segurança da pessoa. Estarão também a violar
diversas normas destinadas a funcionar como
(d) Desaparecimentos forçados garantias adicionais para protecção das pessoas
ou involuntários sujeitas a detenção.

372. Um exemplo de um desaparecimento forçado 376. Incumbe aos funcionários responsáveis pela
ou involuntário é apresentado na Ficha Informa- aplicação da lei:
tiva n.o 6 (Rev.1) do Centro para os Direitos Huma- a) prevenir e detectar todos os crimes relacio-
nos das Nações Unidas, que se ocupa do tema, nados com o fenómeno dos desaparecimentos for-
nos seguintes termos (página 2): çados ou involuntários;
b) velar para que os outros agentes da institui-
[…] uma pessoa é presa, detida ou raptada contra a sua ção policial onde trabalham não participem em
vontade ou de outra forma privada de liberdade por tais crimes.
agentes governamentais de qualquer ramo ou nível,
ou ainda por grupos organizados ou particulares que RELATOS DE DESAPARECIMENTOS
actuam em nome, ou com o apoio, directo ou indi-
recto, consentimento ou aquiescência do Governo, que 377. Através da sua resolução 20 (XXXVI), de 29
de seguida se recusam a revelar o destino ou paradeiro de Fevereiro de 1980, a Comissão dos Direitos do
da pessoa em causa ou se recusam a reconhecer a pri- Homem estabeleceu o Grupo de Trabalho sobre os
vação de liberdade, assim subtraindo essa pessoa à pro- Desaparecimentos Forçados ou Involuntários,
tecção da lei. composto por peritos nomeados a título indivi-
dual, para examinar as questões relativas ao desa-
373. Sempre que funcionários responsáveis parecimento de pessoas nas circunstâncias atrás
pela aplicação da lei participam em actos con- referidas.
ducentes a um desaparecimento forçado ou
involuntário, subvertem de forma muito grave 378. O Grupo de Trabalho recebe e examina
o papel da polícia, uma vez que a pessoa “desa- denúncias de desaparecimentos apresentadas por
parecida” é subtraída à protecção da lei e, em con- familiares das pessoas desaparecidas, ou por orga-
sequência, privada de todos os seus direitos nizações de direitos humanos que actuam em seu
humanos. nome. Depois de determinar se a comunicação
preenche determinados requisitos, o Grupo de
374. Os desaparecimentos forçados ou involuntá- Trabalho transmite os casos individuais aos Gover-
rios implicam a violação de diversos direitos nos em causa, solicitando-lhes que procedam a
humanos fundamentais, nomeadamente: investigações e o informem do resultado das mes-
• o direito à liberdade e à segurança pessoal; mas.
• o direito do detido um tratamento humano;
• o direito à vida.
3. OBSERVAÇÕES FINAIS
NOTA PARA OS FORMADORES: Breves referências
ao fenómeno dos desaparecimentos forçados ou 379. O poder de captura é uma das principais
involuntários serão feitas mais adiante, nos capí- prerrogativas das autoridades policiais. É essencial
tulos XIV e XXI. à aplicação da lei e à administração da justiça. O
direito à liberdade individual é um direito humano
375. É evidente que, se os funcionários respon- fundamental. É essencial ao gozo de outros direi-
sáveis pela aplicação da lei forem responsáveis pela tos e constitui uma condição prévia indispensável
prática de desaparecimentos forçados ou invo- de um governo democrático no seio de uma socie-
luntários, estarão a exercer ilegalmente poderes dade democrática.

96
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
380. As normas internacionais indicadas no pre- tes deverão também possuir as aptidões práticas e
sente capítulo demonstram como um poder essen- tácticas necessárias ao exercício desses poderes
cial da polícia pode ser conciliado com um direito dentro dos limites que lhes estão impostos. É no
humano fundamental. A polícia necessita de com- desempenho concreto e prático da actividade poli-
preender em pleno os poderes de que dispõe neste cial que tais poderes são correcta ou incorrecta-
âmbito, bem como os limites dos mesmos. Os agen- mente exercidos e os direitos respeitados ou violados.

b. Normas internacionais sobre captura – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS


}
Recomendações destinadas • Reveja regularmente os poderes de que dispõe em matéria de captura e os
a todos os agentes policiais procedimentos a seguir no momento e na sequência da captura, a fim de asse-
gurar que os compreende plenamente.

• Participe em acções de formação para adquirir e aperfeiçoar capacida-


des de relação interpessoal, em particular capacidades de comunicação, que
lhe permitam efectuar as capturas de forma profissional, discreta e com o
respeito devido à dignidade humana.

• Caso a pessoa não ofereça resistência, fale calmamente, utilizando


uma linguagem educada e dissuasora, e recorra a tons enérgicos e auto-
ritários apenas quando necessário.

• Adquira e aperfeiçoe os conhecimentos técnicos e tácticos necessários para


que possa efectuar as capturas de forma profissional, discreta e com o res-
peito devido à dignidade humana.

• Adquira e aperfeiçoe as técnicas relativas ao uso de algemas e outros dis-


positivos de restrição de movimentos.

• Desenvolva a sua autoconfiança, nomeadamente através da aprendiza-


gem de técnicas de defesa pessoal.

• Estude cuidadosamente o capítulo XIV do presente manual, sobre a uti-


lização da força, em tudo quanto se aplique à captura.

• Solicite uma ordem ou um mandado de captura, sempre que possível.


• Transporte sempre consigo, no uniforme, um cartão de onde constem os
direitos da pessoa detida e leia-o textualmente à pessoa em causa uma vez
que esta esteja controlada.

• Estude técnicas de resolução de conflitos, no âmbito de acções de formação


contínua ou de programas pedagógicos oferecidos pela sua comunidade.

• Mantenha um registo detalhado de todas as capturas, com todos os por-


menores necessários (questão prática fundamental).
}

Deveres e funções da Polícia


* 97
}
Recomendações destinadas • Adopte e faça aplicar regulamentos internos claros sobre os procedi-
a todos os funcionários mentos a seguir em caso de captura.
com responsabilidades
de comando e supervisão • Proporcione a todos os agentes acções de formação contínua sobre os pro-
cedimentos a seguir em caso de captura, direitos da pessoa capturada e téc-
nicas para efectuar uma captura de forma segura e humana.

• Proporcione formação em matéria de técnicas de comunicação interpessoal,


resolução de conflitos, defesa pessoal e utilização de dispositivos de restri-
ção de movimentos.

• Crie formulários normalizados para o registo da informação relativa à cap-


tura, com base nas indicações fornecidas no presente capítulo, bem como
na legislação e procedimentos de captura aplicáveis no âmbito da sua
jurisdição.

• Sempre que uma captura possa ser antecipadamente planeada, assegure-


-se de que os agentes dispõem de diversas opções e de que o planeamento,
a preparação, a informação fornecida e as tácticas seguidas são adequa-
das às circunstâncias e condições em que a captura deverá ser efectuada.

• Depois de cada captura, reúna-se com os agentes que nela participaram


e peça que lhe apresentem informação sobre a mesma, verificando cuida-
dosamente o registo respectivo a fim de se assegurar de que está completo.

• Estabeleça procedimentos destinados a assegurar que a pessoa detida pode


comunicar livremente com o seu advogado ou representante legal.
}

2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS de polícia sobre o exercício do poder de captura e


prevenção das detenções arbitrárias.
Exercício n.o 1
(d) Meios utilizados pelos mecanismos de controlo
O direito de não ser sujeito a captura ou detenção existentes no seio das instituições policiais a fim
arbitrária é um direito humano fundamental que de prevenir a ocorrência de capturas arbitrárias.
assume grande relevo no domínio da actuação dos
agentes policiais. (e) Elabore um breve conjunto de directrizes e ins-
Comente o disposto nas alíneas seguintes: truções para os funcionários de polícia, destinadas
a assegurar que todas as capturas efectuadas são
(a) De que forma é este direito protegido pela lícitas e necessárias.
Constituição e pelas leis do seu país?
Exercício n.o 2
(b) Eficácia de quaisquer directrizes formuladas
pelos poderes públicos ou pelas autoridades Considere as seguintes disposições do artigo 9.o do
judiciárias para ajudar a polícia a respeitar este Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Polí-
direito. ticos (n.os 1 e 2):

(c) Eficácia de quaisquer instruções específicas Todo o indivíduo tem direito à liberdade e à segu-
emitidas pelos comandos policiais ou supervisores rança da sua pessoa. Ninguém pode ser objecto de

98
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
prisão ou detenção arbitrária. Ninguém pode ser 4). Que implicações tem a presença na casa de
privado da sua liberdade a não ser por motivo e em quatro pessoas, além da pessoa a capturar, sobre
conformidade com processos previstos na lei. os seus planos operacionais?

Todo o indivíduo preso será informado, no Exercício n.o 4


momento da sua detenção, das razões dessa deten-
ção e receberá notificação imediata de todas as Num prazo de seis meses, quatro mulheres foram
acusações apresentadas contra ele. brutalmente assassinadas na capital do seu país.
Existem indícios de que os homicídios foram
1). Tendo em conta estas normas, pense que cometidos pela mesma pessoa – um homem – e
outras salvaguardas poderiam ser necessárias para que têm motivação sexual. A população em geral
proteger as pessoas contra a detenção arbitrária. está extremamente sobressaltada, as mulheres
aterrorizadas, enquanto que os órgãos de comu-
2). Discuta até que ponto as disposições da lei do nicação social e a classe política questionam a
seu país são suficientes para proteger as pessoas competência da polícia. Não tem havido qualquer
contra a detenção arbitrária. progresso nas investigações.

3). Que formação recebem os agentes policiais do 1). Considera que estes são motivos suficientes
seu país em matéria de poderes e técnicas de captura? para que se afaste a protecção contra a detenção arbi-
trária, a fim de que mais homens possam ser deti-
4). Diga de que forma considera que essa for- dos e interrogados sobre os crimes?
mação poderia ser aperfeiçoada, a fim de garantir
que todas as capturas efectuadas por agentes poli- 2). Exponha os argumentos a favor do aumento
ciais são lícitas e necessárias. dos poderes de captura da polícia nas circunstân-
cias enunciadas. Quais deveriam ser esses pode-
Exercício n.o 3 res?

Imagine que foi incumbido de proceder à captura 3). Exponha os argumentos a favor da manu-
de uma pessoa que se julga estar armada e ser peri- tenção em vigor, em tais circunstâncias, das dis-
gosa. Essa pessoa encontra-se escondida numa posições e procedimentos legais destinados a
casa na cidade que é ocupada por mais quatro pes- garantir a protecção das pessoas contra a detenção
soas. A pessoa a capturar não sabe que a polícia des- arbitrária.
cobriu o seu paradeiro e considera a casa um
esconderijo seguro. Sabe-se que a pessoa em causa 4). Para além do exercício de poderes acresci-
resistiu a anteriores capturas, tendo utilizado uma dos, que outras medidas poderiam ser adoptadas
arma de fogo contra a polícia. pela polícia para tranquilizar a população?

1). De que informação adicional necessitaria


para planear a operação de captura com um risco 3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO
mínimo de provocar quaisquer lesões corporais?
1). Por que é tão importante o direito à liberdade
2). Indique quais os elementos essenciais de um e à segurança pessoal?
plano destinado a assegurar que a pessoa é cap-
turada de forma eficaz, lícita e segura. 2). Relativamente à questão das capturas des-
necessárias, exponha os motivos pelos quais
3). Indique as instruções que daria aos agentes, nem sempre é conveniente capturar uma pes-
antes da operação de captura, sobre a utilização de soa, mesmo que esteja legalmente habilitado a
armas de fogo no decorrer da mesma. fazê-lo.

Deveres e funções da Polícia


* 99
3). Os textos internacionais de direitos huma- involuntário? Que violações da lei interna do seu
nos proíbem a captura arbitrária. Elabore uma país seriam cometidas nessas situações?
definição de captura arbitrária.
7). Por que razão são importantes as capacidades
4). Para além dos poderes habituais de captura e de relacionamento interpessoal, em especial a
detenção (por exemplo, no caso de pessoas que pos- capacidade de comunicação, ao efectuar uma cap-
sam ter cometido uma infracção penal), a polícia tura?
tem por vezes a faculdade de deter pessoas a fim
de prevenir a propagação de doenças infecciosas, 8). Poder-se-ão ensinar com êxito as capacida-
bem como de capturar pessoas dementes, alcoóli- des de relacionamento interpessoal, incluindo a
cos, toxicodependentes e vagabundos. Considera capacidade de comunicação? Imagine que lhe soli-
que compete à polícia ocupar-se de todas estas citaram a preparação de um curso para formação
categorias de pessoas? De qual, ou quais, destas dos agentes policiais nesta matéria. Elabore um
categorias se deveria ocupar a polícia? Será sem- esboço do programa de curso, indicando as maté-
pre necessário fazer uso dos poderes de captura rela- rias a abordar.
tivamente a tais pessoas?
9). Enumere os principais conselhos que daria aos
5). Tanto os textos internacionais de direitos novos agentes sobre a forma de efectuar capturas
humanos como a legislação interna exigem que lícitas e necessárias, de forma profissional e dis-
todas as pessoas detidas por suspeita de haver creta.
cometido uma infracção penal sejam levadas pron-
tamente à presença de um juiz ou outra autoridade 10). Para fins de debate, imagine que uma equipa
judicial. Por que motivos considera que foram de agentes policiais procedeu à captura de uma série
introduzidas tais disposições? de pessoas suspeitas de haverem cometido um
crime grave, na sequência de uma operação poli-
6). Que violações das normas internacionais de cial previamente planeada. Que pontos gostaria
direitos humanos são cometidas quando uma pes- de passar em revista ao reunir com os agentes
soa é vítima de um desaparecimento forçado ou após a operação?

100
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cap
ítu
lo

*13
Detenção

Objectivos do capítulo • Apresentar as normas internacionais relativas às condições de detenção


e ao tratamento dos detidos e dar oportunidade aos utilizadores do manual
e formandos de praticar a aplicação dessas normas.
}
}

Princípios fundamentais • A prisão preventiva deverá constituir a excepção e não a regra.


(vide também Capítulo XII,
Captura) • Todas as pessoas privadas de liberdade deverão ser tratadas com huma-
nidade e com respeito pela dignidade inerente à pessoa humana.

• Todas as pessoas acusadas de uma infracção penal serão consideradas ino-


centes até que a sua culpabilidade tenha sido legalmente provada.

• Nenhum detido será sujeito à tortura ou a penas ou tratamentos


cruéis, desumanos ou degradantes, nem a qualquer forma de violência
ou coacção.

• Os detidos serão mantidos apenas nos locais de detenção oficialmente


reconhecidos, devendo as suas famílias e representantes legais receber
informação completa a tal respeito.

• Nos locais de detenção, os menores deverão ser separados dos adultos,


as mulheres dos homens e as pessoas condenadas daquelas que aguardam
julgamento.

• As decisões relativas à duração e legalidade da detenção deverão ser


tomadas por uma autoridade judicial ou equivalente.

• Os detidos têm o direito de ser informados dos motivos da detenção e de


quaisquer acusações contra si formuladas.
• A pessoa detida tem o direito de contactar com o mundo exterior e de
receber visitas dos membros da sua família, bem como o direito de comu-
nicar em privado e pessoalmente com o seu representante legal.
• Os detidos deverão permanecer em instalações que ofereçam condições
de detenção humanas, concebidas para preservar a sua saúde e receber ali-
mentação, água, abrigo, vestuário, serviços de saúde e artigos de higiene
pessoal, devendo ainda ter a possibilidade de praticar exercício.
}

101
*
Terceira Parte
}
Princípios fundamentais • As convicções religiosas e morais dos detidos deverão ser respeitadas.
(vide também Capítulo XII,
Captura) • Toda a pessoa detida tem o direito de comparecer perante uma autori-
dade judiciária que decidirá sobre a legalidade da sua detenção.

• Os direitos e a condição especial das mulheres e dos delinquentes juve-


nis deverão ser respeitados.

• Ninguém se deverá aproveitar da situação de uma pessoa detida para


coagir essa pessoa a confessar qualquer facto, incriminar-se por qualquer
outro modo ou testemunhar contra terceiro.

• Só serão adoptadas as medidas de disciplina e manutenção da ordem pre-


vistas na lei, não devendo os regulamentos ir além do necessário para
garantir a segurança da detenção ou ser desumanos.
}

a. Normas internacionais sobre detenção para os Direitos Humanos ou através dos Cen-
– Informação para as apresentações tros de Informação das Nações Unidas existen-
tes na maioria dos Estados Membros (n. o de
Venda E.94.XIV.6).
1. INTRODUÇÃO
382. Todas as pessoas privadas de liberdade são vul-
381. As normas internacionais de direitos neráveis aos maus tratos. Algumas categorias,
humanos, bem como a maioria dos sistemas tais como as mulheres e as crianças, são parti-
jurídicos nacionais, distinguem entre “detidos” cularmente vulneráveis. Além do mais, conforme
e “presos”. Um detido é alguém que se encon- acima referido, os detidos à guarda da polícia não
tra privado de liberdade, mas não foi condenado foram em geral condenados pela prática de qual-
pela prática de qualquer delito. Um preso é uma quer crime. São pessoas inocentes relativamente
pessoa privada de liberdade em resultado de às quais se aplica a regra da presunção de ino-
uma condenação. Uma vez que a polícia, na cência.
maior parte dos sistemas jurídicos, lida princi-
palmente com detidos na fase prévia ao julga- 383. Por estas razões, a conduta da polícia rela-
mento, o presente capítulo centra-se nessa tivamente a um detido deverá ser humana e
categoria de pessoas. estritamente conforme à lei e aos regulamentos
que disciplinam o tratamento das pessoas priva-
N OTA PARA OS FORMADORES : Os utilizadores das de liberdade. Isto é particularmente impor-
do manual deverão estar alerta para o facto de o tante aquando do interrogatório ou exame de
tema do presente capítulo ser analisado em pro- pessoas acusadas ou suspeitas da prática de um
fundidade na obra Direitos Humanos e Prisão crime.
Preventiva: Um Manual de Normas Internacio-
nais relativas à Prisão Preventiva (n.o 3 da Série 384. As normas internacionais relativas ao trata-
de Formação Profissional), publicada pelo Cen- mento dos detidos consagram disposições deta-
tro para os Direitos Humanos das Nações Uni- lhadas e princípios fundamentais que, se
das e pela Divisão para a Prevenção do Crime e respeitados, irão garantir que as pessoas privadas
Justiça Penal das Nações Unidas. Este manual de liberdade à guarda da polícia beneficiam de
pode ser obtido directamente através do Centro condições de detenção humanas e lícitas.

102
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
2. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS HUMANOS É também proibida praticamente nos mesmos ter-
DURANTE A DETENÇÃO mos pelo Pacto Internacional sobre os Direitos Civis
e Políticos (artigo 7.o), Carta Africana dos Direitos do
(a) Princípios fundamentais Homem e dos Povos (artigo 5.o), Convenção Ameri-
cana sobre Direitos Humanos (artigo 5.o, n.o 2) e Con-
385. As pessoas passam a ficar à guarda da polícia venção Europeia dos Direitos do Homem (artigo 3.o).
na sequência do exercício de poderes legais de
captura por parte das autoridades policiais ou por 389. No âmbito das Nações Unidas, foram adop-
decisão de um juiz ou outra autoridade com com- tadas uma Declaração e uma Convenção contra a
petência legal para o exercício do poder judicial. tortura, que estabelecem um conjunto de medidas
específicas para combater esta odiosa prática.
386. A detenção é objecto de um processo disci-
plinado por lei, beneficiando os detidos de formas Declaração sobre a Protecção de Todas as Pessoas
específicas de protecção que se baseiam nos contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos
seguintes princípios: Cruéis, Desumanos ou Degradantes
• ninguém será sujeito à tortura ou a outros maus
tratos; 390. A Declaração define a tortura no seu artigo 1.o.
• todos os detidos têm direito a um tratamento Esta definição interessa aos agentes policiais, uma
humano e ao respeito pela dignidade inerente à pes- vez que nela se afirma que a tortura consiste em
soa humana; todo acto pelo qual penas ou sofrimentos graves,
• todas as pessoas se presumem inocentes até que físicos ou mentais são intencionalmente infligidos
a sua culpabilidade seja provada nos termos da a uma pessoa por um funcionário público, ou outrem
lei. por ele instigado […] com o fim de obter dela ou de ter-
ceiro uma informação ou uma confissão, de a punir por
(b) Normas específicas sobre a detenção um acto que tenha cometido ou se suspeite que come-
teu, ou de intimidar essa ou outras pessoas […]
387. Os instrumentos internacionais de direitos
humanos contêm disposições muito detalhadas 391. Diversas disposições da Declaração exigem:
sobre a detenção, que abrangem a proibição da
tortura, exigências genéricas de um tratamento a) a proibição da tortura pelos Estados;
humano e exigências específicas relativamente ao
tratamento dos menores e das mulheres. Todas elas b) a investigação dos alegados casos de tortura;
serão analisadas no presente capítulo, juntamente
com outras questões relevantes: interrogatório e c) que a formação dos agentes policiais e outros
exame dos suspeitos, detenção na sequência de funcionários públicos tenha plenamente em conta
medidas derrogatórias das disposições dos tratados a proibição da tortura;
tomadas pelos Governos e desaparecimentos for-
çados ou involuntários. d) a inclusão da proibição da tortura nas normas
ou instruções gerais relativas aos deveres e funções
[i] Proibição da tortura de todos aqueles que possam ser chamados a
intervir na guarda ou tratamento dos detidos;
388. A tortura foi absolutamente interditada pela
comunidade internacional. É proibida pelo artigo 5.o e) o controlo sistemático pelos Estados dos
da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que métodos e práticas de interrogatório;
estabelece:
f ) o exame periódico das disposições relativas à
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou custódia e ao tratamento das pessoas privadas de
tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. liberdade.

Deveres e funções da Polícia


* 103
Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou NOTA PARA OS FORMADORES: Existe também a
Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degra- Convenção Europeia para a Prevenção da Tor-
dantes tura e das Penas ou Tratamentos Desumanos ou
Degradantes. Em conformidade com este ins-
392. A Convenção baseia-se na Declaração, mas trumento, foi criado um Comité que, por inter-
alarga muitas das suas disposições. Por exemplo, médio de visitas, examina o tratamento prestado
a definição de tortura é alargada, no artigo 1.o da às pessoas privadas de liberdade com o objectivo
Convenção, por forma a incluir todo o acto por de reforçar, se necessário, a protecção dessas pes-
meio do qual uma dor ou sofrimento agudos, físi- soas contra a tortura e as penas ou tratamentos
cos ou mentais, são intencionalmente causados a desumanos ou degradantes (artigo 1. o). Cada
uma pessoa por um agente público ou qualquer outra Estado Parte deverá permitir a realização de visi-
pessoa agindo a título oficial, a sua instigação ou com tas, em conformidade com as disposições da
o seu consentimento expresso ou tácito […] Convenção, a qualquer local sujeito à sua juris-
dição onde se encontrem pessoas privadas de
Isto significa que a responsabilidade dos funcio- liberdade por ordem de uma autoridade pública
nários públicos é alargada, a fim de incluir os fun- (artigo 2.o).
cionários de todos os níveis, que podem ser
responsabilizados caso tenham conhecimento da 395. Deverá ser feito notar aos funcionários res-
possibilidade de ocorrência de um acto de tortura ponsáveis pela aplicação da lei que a tortura não
e nada façam para o impedir. pode ser considerada lícita nem justificável quais-
quer que sejam as circunstâncias. Por exemplo:
393. O artigo 2.o da Convenção assume particular • As quatro Convenções de Genebra de 1949 e
significado para os agentes policiais. Este artigo diz seus dois Protocolos Adicionais de 1977 proíbem
o seguinte: a tortura em período de conflito armado interna-
cional e não internacional. (Voltar-se-á a fazer refe-
1). Os Estados partes tomarão as medidas legislati- rência a estes instrumentos no capítulo XV, infra.)
vas, administrativas, judiciais ou quaisquer outras que • O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e
se afigurem eficazes para impedir que actos de tortura Políticos, bem como diversos tratados de âmbito
sejam cometidos em qualquer território sob a sua regional, não admitem qualquer derrogação das nor-
jurisdição. mas que proíbem a tortura, durante os estados de
excepção.
2). Nenhuma circunstância excepcional, qualquer
que seja, quer se trate de estado de guerra ou de ameaça 396. O artigo 5.o do Código de Conduta para os Fun-
de guerra, de instabilidade política interna ou de outro cionários Responsáveis pela Aplicação da Lei
estado de excepção, poderá ser invocada para justificar demonstra todo o alcance da proibição da tortura:
a tortura.
Nenhum funcionário responsável pela aplicação da lei
3). Nenhuma ordem de um superior ou de uma auto- pode infligir, instigar ou tolerar qualquer acto de tortura
ridade pública poderá ser invocada para justificar a tor- ou qualquer outra pena ou tratamento cruel, desumano
tura. ou degradante, nem invocar ordens superiores ou cir-
cunstâncias excepcionais, tais como o estado de guerra
394. A Convenção contém normas destinadas a ou uma ameaça à segurança nacional, instabilidade
garantir que as pessoas acusadas da prática da tor- política interna ou qualquer outra emergência pública
tura respondam perante a justiça, independente- como justificação para torturas ou outras penas ou tra-
mente da respectiva nacionalidade ou do local tamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
onde o crime tenha sido cometido. A Convenção
instituiu ainda o Comité contra a Tortura, a fim de 397. A tortura nunca se justifica sejam quais
controlar a sua própria aplicação. forem as circunstâncias e nenhum funcionário

104
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
público pode invocar qualquer argumento para para o tratamento humano das pessoas detidas ou pre-
justificar a prática da tortura. sas. O princípio 6 consagra a proibição da tortura.

[ii] Exigências gerais de um tratamento humano 401. As normas específicas constantes deste ins-
dos detidos trumento podem ser discutidas com os partici-
pantes do curso e as suas disposições comparadas
398. As exigências gerais de um tratamento com a legislação interna, com os regulamentos e ins-
humano das pessoas detidas estão definidas no truções a que obedecem no desempenho das res-
artigo 10.o do Pacto Internacional sobre os Direi- pectivas funções e com a verdadeira prática policial.
tos Civis e Políticos, que impõe: São particularmente importantes as disposições
que estabelecem:
a) que todas as pessoas privadas de liberdade
sejam tratadas com humanidade e com o devido a) o controlo judicial dos detidos (princípios 4,
respeito pela dignidade inerente à pessoa humana; 11 e 37);

b) que as pessoas acusadas sejam separadas das b) o direito dos detidos a comunicarem com o seu
pessoas condenadas e submetidas a um regime dife- advogado ou defensor (princípios 11, 15, 17 e 18);
renciado, adequado à sua condição de pessoas não
condenadas; c) o direito dos detidos a comunicarem e man-
terem contacto com as suas famílias (princípios 15,
c) que os menores acusados da prática de uma 16, 19 e 20);
infracção sejam separados dos adultos;
d) o acompanhamento médico adequado das
Disposições semelhantes podem ser encontradas pessoas detidas (princípios 24 e 26);
na Convenção Americana sobre Direitos Humanos,
mas não na Carta Africana dos Direitos do e) a manutenção de registos das circunstâncias
Homem e dos Povos nem na Convenção Europeia da captura e detenção (princípio 12);
dos Direitos do Homem.
f ) o registo detalhado das circunstâncias de
399. A definição do conceito de “pessoa detida”, qualquer interrogatório (princípio 23).
constante do Conjunto de Princípios para a Protec-
ção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma 402. A questão da responsabilidade individual
de Detenção ou Prisão na secção entitulada “Ter- dos funcionários responsáveis pela aplicação da
minologia”, interessa directamente aos funcioná- lei é abordada no princípio 7, n. o 2. De acordo
rios responsáveis pela aplicação da lei: com esta disposição, os funcionários que tive-
rem razões para crer que ocorreu ou está imi-
pessoa privada da sua liberdade, excepto se o tiver sido em nente uma violação do Conjunto de Princípios
consequência de condenação pela prática de uma infracção. deverão comunicar esse facto aos seus superio-
res e, se necessário, a outras autoridades ou
assim como a definição de “pessoa presa”: instâncias competentes de controlo ou de
recurso.
pessoa privada da sua liberdade em consequência de con-
denação pela prática de uma infracção. 403. O Conjunto de Princípios contém disposi-
Em geral, é a primeira categoria de pessoas que se ções mais relevantes no que concerne aos indiví-
encontra sob custódia policial. duos sob custódia policial do que as Regras
Mínimas para o Tratamento dos Reclusos. Contudo,
400. O Conjunto de Princípios é composto por 39 os funcionários responsáveis pela aplicação da lei
princípios. O princípio 1 define os requisitos básicos com responsabilidades importantes no que diz

Deveres e funções da Polícia


* 105
respeito à guarda de detidos devem conhecer tam- c) A regra 11 trata do recurso a meios extraju-
bém este último instrumento – em especial, a sec- diciais nos casos que envolvem menores e exige
ção C da Parte II (regras 84 a 93) intitulada que os funcionários responsáveis pela aplicação
“Reclusos detidos ou aguardando julgamento”. da lei que disponham de poderes discricioná-
rios para o tratamento dos casos de delinquên-
[iii] Jovens detidos cia juvenil façam uso desses poderes, evitando
recorrer ao processo penal estabelecido sempre
404. Para além das normas e princípios gerais que possível.
relativos ao tratamento dos detidos acima enun-
ciados, aplicam-se também aos jovens detidos as d) A regra 12 impõe que o tratamento dos meno-
disposições dos seguintes instrumentos: res e dos casos de delinquência juvenil sejam con-
fiados a agentes e serviços policiais especializados
Regras Mínimas das Nações Unidas para a Admi- na matéria.
nistração da Justiça de Menores (Regras de Beijing)
Regras das Nações Unidas para a Protecção dos
405. Este instrumento é composto por 30 regras, Menores Privados de Liberdade
cada uma das quais com um comentário explica-
tivo, estando dividido em seis partes. 408. Este instrumento é composto por 87 regras e
está dividido em cinco capítulos. Foi concebido a
406. Deverão ser lembrados aos participantes do fim de assegurar que os jovens são privados de liber-
curso os fins da justiça de menores, definidos na dade e mantidos sob detenção unicamente em
regra 5, que afirma: casos de necessidade absoluta; e que os delin-
quentes juvenis detidos são tratados humana-
O sistema da Justiça de menores deve dar a maior mente, tendo devidamente em conta o seu
importância ao bem-estar destes e assegurar que qual- estatuto de menores e com o devido respeito dos
quer decisão em relação aos delinquentes juvenis seja seus direitos humanos.
sempre proporcional às circunstâncias especiais tanto
dos delinquentes como do delito. 409. A secção III, “Menores sob detenção ou que
aguardam julgamento”, é aquela que mais direc-
407. A segunda parte das Regras é aquela que diz tamente se relaciona com a actividade policial. As
mais directamente respeito ao tratamento dos duas regras que compõem essa secção (regras 17
jovens por parte da polícia, pois tem por objecto a e 18) destacam que os menores se deverão presu-
“Investigação e Procedimento”. Deverão ser des- mir inocentes e ter direito ao tratamento especial
tacados os seguintes aspectos: que decorre dessa condição. Estas Regras estabe-
lecem também as condições mínimas para a
a) As regras 10.1 e 10.2 estabelecem que, sem- manutenção dos menores sob detenção, entre as
pre que um menor é detido, os seus pais ou tutor quais se incluem:
devem ser imediatamente notificados do facto e um
juiz ou outro funcionário ou organismo competente a) o direito aos serviços de um advogado e a
deverão examinar sem demora a possibilidade de assistência judiciária;
o libertar.
b) oportunidades de trabalhar contra remune-
b) A regra 10.3 diz que os contactos entre o orga- ração;
nismo responsável pela aplicação da lei e o menor
deverão ser estabelecidos de forma a respeitar o esta- c) oportunidades de estudar e receber formação;
tuto jurídico do menor, a favorecer o seu bem-
-estar e a evitar prejudicá-lo, tendo em conta as d) possibilidade de receber e guardar materiais
circunstâncias do caso. de lazer e recreio.

106
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Convenção sobre os Direitos da Criança rada a adopção e aplicação das mesmas na admi-
nistração dos estabelecimentos penitenciários e cor-
410. A Convenção sobre os Direitos da Criança é reccionais, o princípio da separação consagrado na
composta por 54 artigos, estando dividida em três regra 8 é relevante para a situação das mulheres deti-
partes. Este instrumento reitera e reforça muitas das à guarda da polícia. Esta regra exige:
das proibições e garantias enunciadas no presente
capítulo. O artigo 37.o assume particular relevân- a) que as diferentes categorias de reclusos
cia, dispondo da seguinte forma: sejam mantidas em instituições separadas ou em
zonas distintas da mesma instituição, tendo em
a) A alínea a) proíbe a tortura e os maus tratos consideração, nomeadamente, o respectivo sexo,
da criança, bem como a imposição da pena de idade e antecedentes criminais;
morte e da prisão perpétua;
b) que mulheres e homens sejam mantidos,
b) A alínea b) proíbe a privação da liberdade de tanto quanto possível, em instituições separadas;
uma criança de forma ilegal ou arbitrária; nos estabelecimentos que recebam pessoas de
ambos os sexos, as instalações destinadas às
c) A alínea c) exige que a criança privada de mulheres devem ser completamente separadas.
liberdade seja tratada com a humanidade e o res-
peito devidos à dignidade da pessoa humana. 413. Embora, em geral, a existência de estabeleci-
Deverá também ser tratada de forma consentânea mentos e instalações separadas para as mulheres
com as necessidades das pessoas da sua idade, colocadas sob custódia policial não seja necessária
permanecer separada dos adultos e ter o direito de nem exequível, o princípio segundo o qual as mulhe-
manter contacto com a sua família. res devem permanecer alojadas em locais distintos
dos dos homens deve ser rigorosamente respeitado.
d) A alínea d) concede à criança privada de liber-
dade o direito de aceder rapidamente à assistência 414. A questão da DISCRIMINAÇÃO é tratada no
jurídica, bem como o direito de impugnar a lega- princípio 5 do Conjunto de Princípios para a Pro-
lidade da sua privação de liberdade perante um tri- tecção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer
bunal ou outra autoridade competente. Forma de Detenção ou Prisão. Este preceito esta-
belece que:
NOTA PARA OS FORMADORES: Deverá também ser
feita referência ao capítulo XVI, sobre a Polícia e a) os Princípios se aplicam a todas as pessoas,
Protecção dos Jovens. sem discriminação alguma, nomeadamente de
raça, cor, sexo e língua;
[iv] Mulheres detidas
b) as medidas aplicadas nos termos da lei e
411. A especial condição das mulheres é reconhe- exclusivamente destinadas a proteger os direitos
cida e protegida por dois tipos de disposições: umas e a especial condição das mulheres, em especial das
que exigem que as mulheres detidas permaneçam mulheres grávidas e lactantes, não serão conside-
alojadas em locais separados dos dos homens e radas discriminatórias.
outras relativas à questão da discriminação.
415. As leis e regulamentos internos que exigem:
412. LOCAIS DE DETENÇÃO – esta questão é abordada
na regra 8 das Regras Mínimas para o Tratamento a) que a vigilância das mulheres detidas seja
dos Reclusos. Apesar de a resolução 663 C (XXIV) efectuada por mulheres polícias,
do Conselho Económico e Social, de 31 de Julho de
1957, pela qual o Conselho adoptou as Regras, ter b) que as revistas pessoais sejam efectuadas por
recomendado que fosse favoravelmente conside- funcionários do mesmo sexo que os detidos em

Deveres e funções da Polícia


* 107
causa, devem ser escrupulosamente aplicados e res- pessoas que possam intervir na guarda, no interro-
peitados. gatório ou no tratamento dos detidos (artigo 10.o);

NOTA PARA OS FORMADORES: Deverá também ser b) exerçam uma vigilância sistemática sobre as nor-
feita referência ao capítulo XVII, sobre Aplicação mas, instruções, métodos e práticas de interrogatório,
da Lei e Direitos das Mulheres. a fim de evitar qualquer caso de tortura (artigo 11.o).

(c) Audição ou interrogatório 420. O Conjunto de Princípios para a Protecção de


dos suspeitos Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de
Detenção ou Prisão estabelece que:
416. A audição ou o interrogatório dos suspeitos fazem
necessariamente parte do processo de investigação. a) será proibido abusar da situação da pessoa
Contudo, uma vez que as pessoas interrogadas como detida para a coagir a confessar, incriminar-se por
suspeitas se encontram em geral detidas e as normas qualquer outro modo ou testemunhar contra ter-
internacionais sobre a matéria se referem aos deti- ceiro (princípio 21, n.o 1);
dos, a questão será abordada no presente capítulo e
não no capítulo XI, relativo à Investigação Policial. b) nenhuma pessoa detida será submetida,
durante o interrogatório, a violência, ameaças ou
417. As audições ou interrogatórios de suspeitos exi- métodos de interrogatório susceptíveis de com-
gem conhecimentos técnicos particulares. Existe prometer a sua capacidade de decisão ou de dis-
sobre esta matéria um abundante acervo de conhe- cernimento (princípio 21, n.o 2);
cimentos teóricos e práticos que não é possível
nem conveniente tentar transmitir no decorrer de c) a duração do interrogatório de um detido e dos
um curso de formação sobre direitos humanos e intervalos entre os interrogatórios, bem como a
aplicação da lei. Será, porém, conveniente: identidade dos funcionários que conduzem os
• identificar as normas internacionais pertinentes; interrogatórios e de outras pessoas presentes no
• considerar as implicações dessas normas no pro- decorrer dos mesmos serão registadas e autenti-
cesso de interrogatório; cadas nos termos impostos pela lei;
• assinalar a necessidade de recorrer aos conheci-
mentos teóricos actualmente disponíveis e às boas d) o incumprimento das disposições dos Prin-
práticas policiais nesta área. cípios na recolha de provas deverá ser tida em
conta na determinação da admissibilidade de uti-
[i] Normas internacionais pertinentes lizar tais provas contra o detido (princípio 27);

418. A Declaração sobre a Protecção de Todas as Pes- e) um detido suspeito ou acusado de um delito
soas contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos criminal presume-se inocente até que a sua cul-
Cruéis, Desumanos ou Degradantes estabelece que os pabilidade tenha sido legalmente provada perante
Estados “examinarão periodicamente os métodos de um tribunal (princípio 36, n.o 1).
interrogatório” a fim de prevenir a tortura e os maus
tratos das pessoas privadas de liberdade (artigo 6.o). [ii] Objectivo das normas

419. A Convenção contra a Tortura e Outras Penas 421. O objectivo das normas relativas à audição e
ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degra- ao interrogatório consiste em garantir o trata-
dantes exige que os Estados: mento humano dos detidos:

a) garantam que a educação e informação relativas a) como um fim em si próprio – em conformi-


à proibição da tortura sejam incluídas na formação dade com o princípio do respeito pela dignidade
do pessoal responsável pela aplicação da lei e de outras inerente à pessoa humana;

108
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
b) a fim de prevenir a ocorrência de erros judi- b) procurar apurar os factos ou recolher infor-
ciários – devido ao facto de os detidos poderem con- mação, isto é, não ter unicamente em vista obter
fessar crimes que não cometeram na sequência da a confissão da pessoa interrogada.
sujeição a torturas ou maus tratos.
425. A atitude do funcionário que interroga deverá
422. As falsas confissões de um crime são, nessas estar condicionada pelo respeito da dignidade ine-
circunstâncias, um perigo muito real, devido: rente à pessoa humana e pelos fins da audição ou
interrogatório, conforme acima indicados.
a) à vulnerabilidade dos detidos em geral;
426. Os conhecimentos e a preparação do funcio-
b) à particular vulnerabilidade de alguns detidos, nário que procede ao interrogatório deverão abran-
devido a factores pessoais e psicológicos passíveis ger:
de afectar a sua capacidade de decidir livremente
e de pensar de forma racional; a) as normas éticas e jurídicas aplicáveis ao pro-
cesso de audição ou interrogatório;
c) à compreensível tendência das pessoas sujei-
tas a maus tratos de tudo fazer para que esses b) toda a informação disponível sobre o crime ou
maus tratos cessem, nomeadamente confessando incidente sobre o qual irá incidir o interrogatório;
crimes que não cometeram.
c) os factores psicológicos que intervêm no pro-
[iii] Implicações das normas sobre os processos de cesso de interrogatório, particularmente aqueles que
audição ou interrogatório afectam a capacidade dos indivíduos de decidir
livremente e pensar de forma racional;
423. As normas acima referidas têm repercussões
tanto sobre as finalidades da audição ou interro- d) a personalidade e o carácter da pessoa a ser
gatório como sobre a atitude, os conhecimentos e ouvida.
a preparação dos funcionários que conduzem
esses actos, bem como as respectivas competências É fundamental que as duas últimas áreas de conhe-
técnicas. cimento e preparação tenham por base o trabalho
teórico actualmente desenvolvido nesta área.
424. A audição ou interrogatório de um detido não
poderá ter por finalidade: 427. As aptidões técnicas da pessoa que interroga
resultarão da formação e da experiência adquiridas
• obrigar a pessoa a confessar-se culpada, a incri- com base nos conhecimentos actualmente dispo-
minar-se a si própria ou a testemunhar contra ter- níveis sobre a teoria e a prática do interrogatório.
ceiro;
• sujeitar a pessoa a um tratamento susceptível de NOTA PARA OS FORMADORES: As observações for-
comprometer a sua capacidade de decisão ou dis- muladas centraram-se no interrogatório de pessoas
cernimento. suspeitas ou acusadas da prática de um crime. O
interrogatório das testemunhas do crime é também
A audição ou interrogatório dos detidos é parte inte- extremamente importante para uma investigação
grante do processo de investigação e visa a recolha criminal eficaz. Cada tipo de interrogatório exige
e a análise de informação. Ambas as finalidades uma diferente abordagem e a aplicação de diferentes
serão melhor servidas se o funcionário adoptar a conhecimentos e técnicas.
seguinte atitude:
a) demonstrar abertura de espírito, isto é, não ten- Profissionais na área da psicologia e agentes poli-
tar utilizar o interrogatório para reforçar ideias ciais têm vindo a acumular significativos conhe-
preconcebidas; cimentos especializados na teoria e prática dos

Deveres e funções da Polícia


* 109
interrogatórios, tanto de suspeitos como de teste- conflitos armados. A breve referência feita no pre-
munhas. Diversos Estados dispõem de compe- sente capítulo destina-se a:
tências técnicas especializadas neste domínio,
devendo recorrer-se a elas sempre que se constate a) sublinhar que a proibição da tortura é absoluta
que os conhecimentos nesta área são insuficien- e mantém-se, sejam quais forem as circunstâncias;
tes. As dificuldades no domínio das técnicas de
interrogatório continuam a conduzir aos maus b) assinalar que a derrogação pode ter algumas
tratos dos detidos e a provocar erros judiciários. consequências. Por exemplo, podendo os meca-
nismos destinados a garantir o controlo das auto-
(d) Medidas de derrogação ridades judiciárias sobre os detidos ser suprimidos
ou restringidos, corre-se o risco de abrir caminho
428. Em certas circunstâncias, os Governos à ocorrência da tortura e outras formas de maus
podem considerar necessário e correcto limitar as tratos das pessoas sujeitas a detenção.
liberdades individuais em nome do interesse
público mais vasto e com o objectivo de assegurar 433. Deverá insistir-se no facto de que, ao serem
outros benefícios, como a ordem pública e a segu- adoptadas medidas de derrogação, os agentes
rança da população. policiais deverão respeitar escrupulosamente as
garantias que permanecem em vigor para a pro-
429. A necessidade de restringir o exercício de moção e protecção dos direitos humanos.
direitos humanos para salvaguardar a existência
da nação é reconhecida e permitida pelo Pacto (e) Desaparecimentos forçados
Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos ou involuntários
(artigo 4.o), pela Convenção Americana sobre Direi-
tos Humanos (artigo 27.o) e pela Convenção Euro- 434. Deverá ser feita referência à análise dos desa-
peia dos Direitos do Homem (artigo 15.o). parecimentos forçados ou involuntários feita no
capítulo XII, sobre Captura (parágrafos 372-376,
430. Em termos gerais, é necessário que se esteja supra). Foi aí assinalado que o direito do detido a
perante uma situação de emergência pública que um tratamento humano é um dos direitos funda-
ameace a existência da nação, só podendo as medi- mentais violados sempre que ocorre um desapa-
das de derrogação ser introduzidas na estrita recimento forçado ou involuntário.
medida em que a situação o exigir. Continua a
haver algum controlo por parte da comunidade 435. Deverá recordar-se aos participantes do curso
internacional sobre os Governos em causa sempre o exemplo de um desaparecimento deste tipo dado
que tais medidas são adoptadas. no capítulo XII (parágrafo 372, supra), bem como
as responsabilidades dos funcionários responsáveis
431. Alguns direitos não são passíveis de derro- pela aplicação da lei relativamente a tais desapare-
gação, continuando protegidos em todas as cir- cimentos, conforme descrito no mesmo capítulo.
cunstâncias. Variam ligeiramente consoante as
disposições do instrumento em causa, mas
incluem sempre: 3. OBSERVAÇÕES FINAIS

• o direito à vida; 436. O tratamento e a guarda dos detidos são


• a proibição da tortura; aspectos extremamente importantes da actividade
• a proibição da escravatura. policial. Apesar do facto de o tratamento das pes-
soas sujeitas a detenção ser estritamente regula-
432. A questão das medidas derrogatórias será mentado, tanto pelo direito internacional como
examinada em maior detalhe no capítulo XV, pelo direito interno dos diferentes Estados, conti-
sobre Distúrbios internos, estados de excepção e nuam a ser cometidos abusos.

110
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
437. O tratamento humano dos detidos não exige é essencial que a formação se baseie em conheci-
um alto nível de conhecimentos técnicos especia- mentos teóricos sólidos e nas boas práticas actual-
lizados; exige apenas o respeito pela dignidade mente desenvolvidas.
inerente à pessoa humana e a observância de algu-
mas regras de conduta elementares. De todas as 438. A forma como uma instituição policial trata as
questões abordadas no presente capítulo, apenas pessoas colocadas à sua guarda revela-nos a medida
a audição ou o interrogatório dos detidos exigem do profissionalismo dos seus agentes; dos princí-
conhecimentos particulares. Um interrogatório pios éticos que é capaz de respeitar; e demonstra até
eficaz e, ao mesmo tempo, conforme aos princí- que ponto a instituição poderá ser considerada como
pios éticos exige um alto nível de competência prestadora de um serviço à comunidade e não como
técnica da parte dos agentes, que pode ser adqui- um instrumento de repressão. A longo prazo, estes
rida através da formação e da experiência. Contudo, factores irão determinar a eficácia do organismo.

b. Normas internacionais sobre detenção – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS


}

Recomendações destinadas • Inscreva-se em programas de formação para aperfeiçoar as suas aptidões


a todos os agentes policiais técnicas nos domínios do aconselhamento, controlo da desordem pública,
primeiros socorros, defesa pessoal, resolução de conflitos e supervisão.

• Estude os antecedentes e o processo de todos os detidos para se aperce-


ber daqueles que se encontram em perigo.

• Facilite as visitas dos sacerdotes ou outros religiosos, representantes legais,


familiares, inspectores e pessoal médico.

• Estude e utilize as melhores e mais modernas técnicas de interrogatório.


• Ostente uma placa com a sua identificação claramente visível, em todas
as ocasiões.

• Não entre nas instalações de detenção transportando uma arma de


fogo, a menos que seja para conduzir um detido ao exterior.

• Reviste regularmente os detidos, para garantir a segurança.


• Aconselhe-se com o pessoal médico sobre todas as questões relacionadas
com a alimentação, os meios de coacção e a disciplina.

• Participe imediatamente qualquer suspeita de maus tratos, físicos ou men-


tais, sobre os detidos.

• Nunca utilize os dispositivos de restrição de movimentos como um cas-


tigo. Utilize-os apenas, se necessário, para prevenir a fuga durante as trans-
ferências, por motivos médicos certificados; ou por ordem do director, caso
tenham falhado outros métodos, para evitar que o detido se magoe a si
próprio ou a terceiros, ou danifique as instalações.

• Facilite a utilização de materiais recreativos, livros e material de escrita.

Deveres e funções da Polícia


* 111
• Estude cuidadosamente o capítulo XIV do presente manual, sobre a uti-
lização da força.

• Estude e aplique as relevantes recomendações para os funcionários com


responsabilidades de comando e supervisão, abaixo formuladas.

}
}
Recomendações destinadas • Estabeleça, divulgue, aplique e reveja regularmente regulamentos inter-
a todos os funcionários nos relativos ao tratamento dos detidos.
com responsabilidades
de comando e supervisão • Proporcione formação especializada a todos os funcionários que traba-
lham nas instalações de detenção.

• Adopte medidas especiais para garantir o respeito pelas convicções reli-


giosas e morais dos detidos, incluindo os seus hábitos alimentares.

• Adopte um sistema de notificação em três fases: notificação dos motivos


da detenção (imediata); notificação das acusações (no mais curto espaço
de tempo); notificação dos direitos do detido (em duas ocasiões: aquando
da notificação dos motivos da detenção e de novo com a notificação das
acusações);

• Ao decidir sobre a colocação dos agentes, mantenha os funcionários


encarregados da vigilância dos detidos independentes dos funcionários que
procedem às capturas e efectuam as investigações.

• Reúna-se periodicamente com os delegados do Ministério Público, juizes,


investigadores criminais e assistentes sociais a fim de identificar as pessoas
cuja detenção tenha deixado de ser necessária.

• Designe agentes do sexo feminino para vigiar, revistar e supervisionar as


mulheres detidas.

• Proíba a entrada de funcionários do sexo masculino nas zonas destina-


das a mulheres dentro das instalações de detenção, excepto em situações
de emergência.

• Destine uma sala especial, separada da área de visitas familiares, para


os detidos se reunirem em privado com o seu advogado.

• Assegure-se de que existe uma área destinada às visitas normais, com uma
grelha, mesa ou divisória semelhante entre o visitante e o detido.

• Proíba em absoluto, investigue de imediato e puna severamente, nomea-


damente através da instauração de processo penal, qualquer acto de tor-
tura, penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.

• Providencie para que as refeições satisfaçam as necessidades alimenta-


res básicas e sejam servidas a intervalos regulares, não devendo o período
entre o pequeno-almoço e o jantar exceder as 15 horas.

112
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
}
Recomendações destinadas • Providencie para que esteja sempre de serviço pelo menos um agente com for-
a todos os funcionários mação ao nível da psicoterapia e apoio psicológico, nomeadamente no domínio
com responsabilidades da prevenção do suicídio.
de comando e supervisão
• Examine todos os detidos, no momento da admissão, procurando detectar sinais
de doença, ferimentos, intoxicação por álcool ou drogas ou alienação mental.

• Trate dos problemas disciplinares de menor gravidade de forma discreta e como


assuntos de rotina. Trate dos problemas mais graves em conformidade com os pro-
cedimentos estabelecidos, que deverão ser dados a conhecer e explicados a todos
os detidos no momento da admissão.

• Dê instruções aos agentes que trabalham nas instalações de detenção para que
não transportem consigo armas de fogo, excepto quando devam conduzir os deti-
dos ao exterior.

• Providencie para que todos os agentes colocados em áreas de detenção recebam


formação em métodos de controlo não letais, bem como em técnicas e utilização
de equipamento anti-motim.

• Exija que todos os funcionários das instalações de detenção usem placas de iden-
tificação claramente visíveis, a fim de facilitar a denúncia de qualquer infracção.

•Estabeleça uma relação construtiva com o Comité Internacional da Cruz Ver-


melha e outras organizações similares.

• Estabeleça sanções por eventuais violações, informando todo o pessoal a esse res-
peito. Tendo em conta a gravidade do acto, essas sanções poderão ir desde a sus-
pensão, multa e expulsão da instituição até à instauração de processo criminal em
caso de violações graves.
}

2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS 1). Defina um procedimento e elabore um con-


junto de instruções, para utilização no seio da sua
Exercício n.o 1 instituição policial, a fim de garantir:

O artigo 6.o da Declaração sobre a Protecção de a) um exame periódico dos métodos e práticas
Todas as Pessoas contra a Tortura e Outras Penas de interrogatório;
ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degra-
dantes afirma: b) um exame periódico das disposições relativas
à custódia e ao tratamento das pessoas privadas de
Todos os Estados examinarão periodicamente os liberdade.
métodos de interrogatório e as disposições relati-
vas à custódia e ao tratamento das pessoas priva- 2). Elabore uma lista sucinta de directrizes e ins-
das de liberdade no seu território, a fim de truções destinadas aos funcionários responsáveis
prevenir qualquer caso de tortura ou de outras pela aplicação da lei para garantir que aos detidos seja
penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou prestado um tratamento humano entre o momento
degradantes. da captura e a chegada ao local de detenção.

Deveres e funções da Polícia


* 113
3). Elabore um outro conjunto de directrizes e a) Identifique as dificuldades que se colocam à
instruções para assegurar que aos detidos seja eliminação de todas as restrições a estes direitos.
prestado um tratamento humano enquanto per-
manecem no local de detenção. b) Sugira formas de ultrapassar essas dificulda-
des.
Exercício n.o 2
3). Considera-se, por vezes, que o acesso de cer-
O artigo 9.o do Pacto Internacional sobre os Direi- tos suspeitos a um advogado ou à família pode
tos Civis e Políticos estipula (n.os 3 e 4) que todo comprometer o sucesso de uma investigação cri-
o indivíduo detido sob acusação de haver cometido minal. Indique com exactidão os motivos pelos
uma infracção penal terá direito a: quais isto poderá acontecer; depois, encontre
soluções para conciliar as exigências da investi-
a) ser prontamente conduzido perante um juiz gação com os direitos dos suspeitos a receber
ou uma outra autoridade habilitada pela lei a exer- assistência judiciária e a que a sua família seja
cer funções judiciárias; informada da detenção.

b) ser julgado num prazo razoável ou libertado; Exercício n.o 3

c) intentar um recurso perante um tribunal, a fim O princípio 21 do Conjunto de Princípios para a Pro-
tecção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer
de que e≤ste decida sem demora sobre a legalidade
Forma de Detenção ou Prisão afirma:
da sua detenção.

1. É proibido abusar da situação da pessoa detida ou presa para


O Conjunto de Princípios para a Protecção de a coagir a confessar, a incriminar-se por qualquer outro modo
Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de ou a testemunhar contra outra pessoa.
Detenção ou Prisão incorpora as normas
acima enunciadas e estabelece que aos sus- 2. Nenhuma pessoa detida pode ser submetida, durante o inter-
rogatório, a violência, ameaças ou métodos de interrogatório
peitos ou detidos deverá ser garantido o
susceptíveis de comprometer a sua capacidade de decisão ou
acesso:
de discernimento.

a) à assistência de um advogado;
1). Estão normas semelhantes consagradas na
legislação do seu país, ou nas instruções e direc-
b) às suas famílias; trizes destinadas à polícia?

c) a um médico. 2). Caso normas semelhantes estejam consa-


gradas na legislação do seu país, ou nas instru-
1). Segundo a lei do seu país, em que cir- ções e directrizes destinadas à polícia, será
cunstâncias pode qualquer um destes direitos, realista esperar que os funcionários superiores
ou todos eles (reconhecidos pelo Pacto Inter- assegurem o respectivo cumprimento, ou será
nacional e Conjunto de Princípios), ser negado sempre necessária alguma forma de controlo
ou diferido? judicial ou legal?

2). Imagine que é membro de um grupo de 3). Uma das consequências do princípio 21 é
trabalho constituído para considerar os direi- obrigar a polícia a utilizar técnicas de interroga-
tos dos detidos a serem levados prontamente tório que não se baseiem na coacção física ou
à presença de um juiz ou outra autoridade psicológica. Considera que os agentes policiais do
judicial, e a terem acesso à assistência de um seu organismo conhecem e sabem utilizar tais téc-
advogado. nicas?

114
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
4). Imagine que é membro de um grupo de tra- c) Nenhuma condenação pela prática de uma
balho encarregado de formular recomendações infracção penal se poderá basear exclusivamente
sobre: na confissão como elemento de prova. Quaisquer
confissões deverão ser sempre corroboradas por ele-
a) as medidas de controlo e mentos de prova adicionais que demonstrem a
culpabilidade da pessoa.
b) os programas de formação
d) Sempre que alguém confesse a prática de um
necessários para assegurar que os agentes poli- crime a um agente policial, essa pessoa será de ime-
ciais interrogam os suspeitos de forma eficaz e em diato conduzida a um tribunal para que um juiz
conformidade com os princípios éticos e com a lei. ou outra autoridade judicial possa verificar que a
confissão foi feita voluntariamente e sem qual-
Enumere os principais aspectos das suas reco- quer pressão abusiva.
mendações e indique resumidamente formas de as
aplicar. O Governo deixou claro que iria introduzir pelo
menos algumas destas recomendações.
Exercício n.o 4
Para fins de debate, imagine que é membro de um
Imagine que ocorreram recentemente no seu país grupo de trabalho da polícia encarregado de dar
diversos casos de pessoas condenadas a longas parecer, em nome das autoridades policiais, sobre
penas de prisão pela prática de crimes graves com estas quatro recomendações. Exponha os argu-
base em confissões que mais tarde se veio a mentos contra e a favor de cada uma delas e selec-
demonstrar que eram falsas. Esta situação levou a cione a recomendação ou recomendações que
uma grande perda de confiança no sistema judi- julga deverem ser adoptadas. Indique os motivos
cial e policial. A principal razão para estas falsas da sua escolha.
confissões foram os maus tratos por parte da polí-
cia, especialmente dos agentes responsáveis pela
condução dos interrogatórios. 3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO

As infracções cometidas pelos agentes estão a ser 1). Você capturou um homem que escondeu
objecto dos normais inquéritos judiciais, bem uma bomba algures no centro da cidade. O enge-
como de procedimentos disciplinares internos. nho deverá explodir dentro de uma hora e ele
recusa-se a dizer onde o colocou. Tem o direito de
A Comissão de Inquérito nomeada pelo Governo torturar esse homem para o obrigar a revelar o
a fim de estudar as reformas do sistema de justiça esconderijo da bomba?
penal e do procedimento de interrogatório dos
suspeitos pela polícia formulou diversas reco- 2). De que formas poderá a formação dos fun-
mendações, nomeadamente as seguintes: cionários responsáveis pela aplicação da lei
assegurar que seja plenamente tomada em consi-
a) O advogado ou representante legal do sus- deração a proibição da tortura, conforme disposto
peito deverá estar sempre presente durante os na Declaração sobre a Protecção de Todas as Pes-
interrogatórios a que este seja sujeito por parte da soas contra a Tortura e Outras Penas ou Trata-
polícia. mentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes
(artigo 5.o)?
b) Todas as audições dos suspeitos pela polícia
serão filmadas e as gravações serão utilizadas 3). Por que motivo é importante que as pessoas
como prova em quaisquer procedimentos legais acusadas sejam separadas das pessoas condenadas
subsequentes. e recebam um tratamento diferenciado?

Conceitos Fundamentais
* 115
4). Por que motivo é importante tratar o caso 8). Que qualidades pessoais deverá possuir um
dos delinquentes juvenis evitando o recurso ao agente policial para conduzir os interrogatórios
sistema de justiça penal, conforme exigido pelas com eficácia e em conformidade com os princípios
Regras Mínimas das Nações Unidas para a Admi- éticos? Poderão estas qualidades ser adquiridas
nistração da Justiça de Menores (Regra 11)? através da formação, ou são talentos inatos?

5). Quais são as vantagens de dispor de unidades 9). Quais são as vantagens e as desvantagens da
policiais especializadas no tratamento das questões gravação em vídeo do interrogatório policial dos sus-
relativas aos menores e à delinquência juvenil? peitos? Indique todos os fins para os quais essas
gravações poderão ser utilizadas.
6). Que factores pessoais e psicológicos podem
afectar a capacidade do detido que está a ser inter- 10). Foi demonstrado que algumas pessoas que
rogado de decidir livremente e formular juízos confessam a prática de um crime sem que o
racionais? tenham cometido conseguem relatar a sua parti-
cipação de forma convincente porque os agentes
7). Quais serão as diferenças entre um interroga- policiais que conduzem os interrogatórios lhes
tório que visa o apuramento dos factos e a recolha fornecem involuntariamente suficiente informação
de informação e um outro que tem exclusivamente com base na qual são construídos os relatos. De que
por objectivo obter a confissão do suspeito? formas poderá esta situação ser evitada?

116
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
cap
ítu
lo

*14
Utilização da força
e de armas de fogo

Objectivos do capítulo • Dar indicações aos funcionários responsáveis pela aplicação da lei sobre
a utilização da força e de armas de fogo, seu impacto sobre os direitos à
vida e à segurança pessoal e normas internacionais relativas à adequada
utilização da força e de armas de fogo para fins policiais legítimos.
}

Nota: Contrariamente aos anteriores, o presente capítulo apresenta cinco grelhas de


Princípios Fundamentais e não apenas uma. Estas grelhas foram concebidas para apre-
sentar com clareza a formadores e formandos as normas relativas a este aspecto altamente
técnico da actividade policial.
}

Princípios fundamentais Utilização da força

• Deve tentar recorrer-se em primeiro lugar a meios não violentos.


• A força deverá ser utilizada apenas quando estritamente necessário.
• A força deverá ser utilizada apenas para fins lícitos de aplicação da lei.
• Não serão admitidas quaisquer excepções ou desculpas para a utilização
ilícita da força.

• A utilização da força deverá ser sempre proporcional aos objectivos líci-


tos prosseguidos.

• A força deverá ser sempre utilizada com moderação.


• Os danos e as lesões deverão ser reduzidos ao mínimo.
• Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão dispor de
uma série de meios que permitam a utilização da força em diferentes
graus.

• Todos os agentes policiais deverão receber formação sobre o uso dos dife-
rentes meios capazes de permitir a utilização da força em diferentes graus.

•Todos os agentes policiais deverão receber formação sobre a utilização de


meios não violentos.
}

117
*
Terceira Parte
}
Princípios fundamentais Responsabilidade pela utilização da força e de armas de fogo

• Todos os incidentes de utilização da força e de armas de fogo serão par-


ticipados aos funcionários superiores, que os examinarão.

• Os funcionários superiores serão responsabilizados pelas acções dos agen-


tes seus subordinados caso conhecessem ou devessem conhecer os abusos
mas não tenham tomado medidas concretas adequadas.

• Os funcionários que se recusem a cumprir ordens superiores ilegais não


serão punidos.

• A obediência a ordens superiores não poderá ser invocada para justificar


a utilização ilícita da força ou de armas de fogo.

Circunstâncias que poderão justificar a utilização de armas de fogo

• As armas de fogo deverão ser utilizadas apenas em caso de extrema


necessidade.

• As armas de fogo deverão ser utilizadas apenas em caso de legítima defesa


do agente ou de terceiros contra uma ameaça iminente de morte ou de feri-
mentos graves.
– ou –

• Para impedir a ocorrência de um crime particularmente grave que colo-


que em sério risco vidas humanas
– ou –

•Para capturar ou impedir a fuga de uma pessoa que constitua uma


ameaça semelhante e que resista aos esforços para afastar tal ameaça
–e–

• Em qualquer caso, unicamente quando as medidas menos extremas se


revelem insuficientes.

• A utilização intencional da força e de armas de fogo com consequências


mortais apenas será permitida quando for absolutamente inevitável e tiver
como objectivo proteger a vida humana.
}

118
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
}
Princípios fundamentais Procedimentos relativos à utilização de armas de fogo

• O funcionário deverá identificar-se como agente policial.


–e–
• O funcionário deverá advertir claramente da sua intenção de utilizar a
arma de fogo
–e–

• O funcionário deverá dar tempo suficiente para que o delinquente se con-


forme com tal advertência
– mas –

• Isto não será necessário se a demora puder resultar na morte ou em lesões


corporais graves do agente ou de terceiros
– ou –

• Se a espera for claramente inútil ou inadequada, dadas as circunstân-


cias.

Após a utilização de armas de fogo

• Deverá ser prestada assistência médica a todas as pessoas feridas.


• Os parentes ou amigos das pessoas afectadas deverão ser notificados.
• Dever-se-á permitir a investigação do incidente quando tal for solicitado
ou requerido.

• Deverá ser feito um relatório completo e detalhado do incidente.


}

a. Normas internacionais sobre a utilização a polícia tem também a grande responsabilidade


da força – Informação para as apresentações de assegurar que a sua autoridade é exercida de
forma lícita e eficaz. A missão da polícia é difícil
e delicada, reconhecendo-se que a utilização da
1. INTRODUÇÃO força por parte das autoridades policiais, em cir-
cunstâncias claramente definidas e controladas,
439. Todas as sociedades confiam à polícia uma é inteiramente legítima. Contudo, o abuso do
diversidade de poderes para fins de aplicação da lei poder de utilizar a força ofende o princípio essen-
e manutenção da ordem. Inevitavelmente, o exer- cial que serve de base à noção de direitos huma-
cício, por um agente policial, de qualquer um dos nos – o do respeito pela dignidade inerente à
poderes que lhe estão atribuídos tem um efeito pessoa humana. É, assim, fundamental, que
directo e imediato sobre os direitos e liberdades dos sejam adoptadas medidas para prevenir tal abuso,
seus concidadãos. bem como para garantir a existência de meca-
nismos de reparação, investigação e sanção,
440. A par da faculdade de recorrer à força, em quando se tenha verificado uma excessiva ou abu-
certas circunstâncias e dentro de limites precisos, siva utilização da força.

Deveres e funções da Polícia


* 119
441. O conceito de “força” não aparece definido nos O comentário ao artigo 3.o reitera a exigência de pro-
textos internacionais relativos à utilização da força porcionalidade no recurso à força e afirma que a
pelas autoridades policiais. As habituais defini- utilização de armas de fogo é considerada uma
ções dos dicionários invocam termos como medida extrema.
“potência”, “poder”, “violência” e “esforço”. Os
funcionários responsáveis pela aplicação da lei 445. Os Princípios Básicos sobre a Utilização da
devem conhecer bem a forma como o conceito de Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Res-
“força” é definido pela sua lei e códigos nacionais, ponsáveis pela Aplicação da Lei fornecem orien-
devendo ser lembrados dessas definições ao abor- tações específicas e precisas sobre a forma de
dar a questão objecto do presente capítulo. assegurar que os princípios da necessidade e da pro-
porcionalidade são respeitados.
442. As secções seguintes expõem os princípios
e as normas internacionais que deverão orientar 446. No preâmbulo destes Princípios, reconhece-
a conduta da polícia no que diz respeito à utili- -se que:
zação da força. Tais normas tentam conciliar as
exigências da manutenção da ordem e da segu- […] o trabalho dos funcionários responsáveis pela apli-
rança públicas com o respeito da segurança pes- cação da lei representa um serviço social de grande
soal dos agentes policiais e a protecção dos importância […]
direitos humanos. […] a ameaça à vida e à segurança dos funcionários res-
ponsáveis pela aplicação da lei deve ser considerada
como uma ameaça à estabilidade da sociedade no seu
2. ASPECTOS GERAIS DA UTILIZAÇÃO DA FORÇA todo,
[…] os funcionários responsáveis pela aplicação da lei têm
(a) Princípios fundamentais um papel essencial na protecção do direito à vida, à liber-
dade e à segurança da pessoa, tal como garantido pela
443. Os princípios da necessidade e da proporcio- Declaração Universal dos Direitos do Homem e reafir-
nalidade estão subjacentes a todas as detalhadas dis- mado no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e
posições que regulamentam a utilização da força Políticos,
pela polícia. Estes princípios exigem, respectiva-
mente, que a força seja utilizada apenas quando […]
estritamente necessário para fazer respeitar a lei
e manter a ordem pública, e que a aplicação da força 447. Os Princípios podem ser resumidos nos
seja proporcional, ou seja, que a força seja aplicada seguintes pontos:
apenas na medida exigida para os fins legítimos da
aplicação da lei e manutenção da ordem pública. [i] Regulamentos; utilização diferenciada
da força
(b) Disposições específicas sobre a utilização da
força 448. Os Governos e organismos responsáveis pela
aplicação da lei deverão adoptar, aplicar e rever
444. Os princípios acima indicados estão consa- constantemente normas que regulamentem a uti-
grados no artigo 3.o do Código de Conduta para os lização da força e de armas de fogo. A fim de limi-
Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, tar o recurso a meios susceptíveis de causar a
que estabelece: morte ou ferimentos pessoais, deverão providen-
ciar pela disponibilização de uma série de meios
Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei só capazes de permitir uma utilização diferenciada da
podem empregar a força quando tal se afigure estrita- força. Estes últimos incluem armas neutralizantes
mente necessário e na medida exigida para o cumpri- não letais e equipamentos de defesa pessoal, tais
mento do seu dever. como escudos e capacetes.

120
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
[ii] Recurso inicial a meios não violentos terceiros, ou claramente inútil ou inadequado,
dadas as circunstâncias.
449. Tanto quanto possível, os agentes policiais
deverão utilizar meios não violentos antes de 454. As normas e regulamentos sobre a utilização
recorrer à força ou a armas de fogo. de armas de fogo por parte de funcionários res-
ponsáveis pela aplicação da lei deverão fornecer
[iii] Moderação; medidas humanitárias orientações sobre as circunstâncias em que tais fun-
cionários estão autorizados a transportar armas
450. Caso a utilização legítima da força ou de armas de fogo, garantir que as armas de fogo sejam uti-
de fogo seja inevitável, os funcionários responsáveis lizadas apenas nas circunstâncias adequadas e de
pela aplicação da lei deverão recorrer a tais métodos maneira conforme a diminuir os riscos de lesões,
com moderação e reduzir ao máximo os danos e disciplinar o controlo, armazenagem e distribuição
lesões, bem como respeitar e preservar a vida de armas de fogo e prever um sistema de partici-
humana. Para estes fins, deverão garantir a presta- pação sempre que os agentes policiais façam uso
ção de assistência médica a qualquer pessoa ferida de uma arma de fogo no exercício das suas funções.
ou afectada no mais curto espaço de tempo e asse-
gurar-se de que os familiares ou amigos das pessoas [vi] Manutenção da ordem durante reuniões
feridas ou afectadas são avisados do incidente. públicas

[iv] Participação do uso da força 455. No dispersar de reuniões ilegais mas não vio-
lentas, os funcionários responsáveis pela aplicação
451. Os ferimentos ou mortes resultantes da uti- da lei deverão evitar o recurso à força ou, quando
lização da força ou de armas de fogo deverão ser tal não seja possível, restringi-lo ao mínimo neces-
participados aos funcionários superiores e toda a sário. No dispersar de reuniões violentas, os fun-
utilização arbitrária ou abusiva da força deverá ser cionários responsáveis pela aplicação da lei apenas
tratada como um crime. As circunstâncias excep- podem utilizar armas de fogo caso o recurso a
cionais ou situações de emergência pública não jus- meios menos perigosos seja impraticável. Em
tificam a violação dos Princípios. qualquer situação, conforme acima indicado, só é
permitida a utilização de armas de fogo em legí-
[v] Utilização de armas de fogo tima defesa do próprio ou de terceiros, para afas-
tar um perigo iminente de morte ou lesões físicas
452. Permite-se a utilização de armas de fogo em graves, ou a fim de proceder à captura de uma
legítima defesa do próprio ou de terceiros contra pessoa que apresente tal perigo. É proibida a uti-
um perigo iminente de morte ou lesões físicas lização intencional de armas de fogo com conse-
graves, ou a fim de proceder à captura de uma quências fatais, a menos que absolutamente
pessoa que apresente tal perigo, caso as medidas inevitável com o objectivo de salvar uma vida.
menos extremas se revelem insuficientes. É proi-
bida a utilização intencional de armas de fogo com [vii] Utilização da força sobre pessoas detidas
consequências fatais, a menos que absolutamente
inevitável a fim de salvar uma vida. 456. Os funcionários responsáveis pela aplicação
da lei não poderão utilizar a força sobre as pessoas
453. Antes de utilizar uma arma de fogo contra sujeitas a detenção a menos que tal se revele abso-
alguém, o polícia deverá identificar-se e advertir cla- lutamente indispensável à manutenção da segu-
ramente da sua intenção de utilizar a arma em ques- rança e da ordem dentro da instituição, ou em
tão. Deverá ser dado tempo suficiente para que o caso de ameaça à segurança pessoal. As armas de
delinquente se conforme com a advertência, a fogo não poderão ser utilizadas contra tais pessoas,
menos que tal se mostre susceptível de resultar na excepto em legítima defesa do próprio ou de ter-
morte ou em lesões físicas graves do agente ou de ceiros contra um perigo iminente de morte ou

Deveres e funções da Polícia


* 121
lesões graves ou para impedir a fuga de um detido (c) Utilização da força e direito à vida
que apresente tal perigo.
461. O exercício do poder de utilizar a força pode
[viii] Recrutamento e formação afectar o mais fundamental dos direitos huma-
nos: o direito à vida. A utilização da força por parte
457. Todos os funcionários responsáveis pela apli- das autoridades policiais em termos tais que resul-
cação da lei deverão possuir as características tem numa violação do direito à vida significa uma
morais, psicológicas e físicas adequadas e receber clara derrota de um dos principais objectivos da acti-
formação apropriada. A sua aptidão para o desem- vidade policial: a manutenção da segurança dos
penho das respectivas funções deverá ser reexa- cidadãos. Dependendo das circunstâncias, poderá
minada periodicamente. A formação deverá constituir também uma violação muito grave da lei
incidir sobre a legítima utilização da força, os penal interna e do direito internacional.
direitos humanos e as técnicas policiais, devendo
ser prestada especial atenção às alternativas à uti- 462. O direito à vida é protegido pelo direito inter-
lização da força e de armas de fogo, nomeada- nacional consuetudinário e pelo artigo 3.o da
mente métodos de resolução pacífica de conflitos. Declaração Universal, que afirma:
Deverá ser garantida a prestação de apoio psico-
lógico aos funcionários que intervenham em Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e
situações de utilização da força e de armas de fogo, à segurança pessoal.
a fim de lhes permitir ultrapassar a tensão própria
de tais situações. É também protegido pelo Pacto Internacional
sobre os Direitos Civis e Políticos (artigo 6.o) e por
[ix] Participação e recurso diversos instrumentos de âmbito regional, tais
como a Carta Africana dos Direitos do Homem
458. Deverão ser postos em prática procedimentos e dos Povos (artigo 4.o), a Convenção Americana
eficazes de participação e recurso, aplicáveis a sobre Direitos Humanos (artigo 4. o) e a Con-
todos os incidentes de utilização da força e de venção Europeia dos Direitos do Homem
armas de fogo. As pessoas afectadas deverão ter (artigo 2.o).
acesso a processos judiciais independentes.
463. O Pacto Internacional exige que o direito à vida
[x] Responsabilidade hierárquica seja protegido por lei e proíbe a privação arbitrá-
ria da vida; a Convenção Americana e a Conven-
459. Os funcionários superiores deverão ser con- ção Europeia estabelecem que o direito à vida
siderados responsáveis pela utilização ilegal da deverá ser protegido por lei; a Carta Africana e a
força ou de armas de fogo por parte dos seus Convenção Americana afirmam explicitamente
subordinados caso tenham conhecimento, ou que ninguém poderá ser arbitrariamente privado
devessem ter tido conhecimento, de tais abusos e da vida.
não tomem medidas adequadas para lhes pôr fim.
464. Pode considerar-se “arbitrária” uma acção
[xi] Ordens ilícitas que não é conforme à lei, bem como uma acção que
é injusta mesmo respeitando a lei. As privações arbi-
460. Os funcionários que se recusem a obedecer trárias da vida incluem atrocidades como o geno-
a ordens ilícitas para utilização da força ou de cídio, os crimes de guerra, as mortes resultantes
armas de fogo não deverão ser objecto de quaisquer de execuções não precedidas dos devidos procedi-
sanções. A obediência a ordens superiores não mentos judiciais, as mortes resultantes da tortura
iliba de responsabilidade os funcionários que uti- ou maus tratos e as mortes resultantes do exces-
lizem ilicitamente a força ou armas de fogo da sivo uso da força por parte dos funcionários res-
sua responsabilidade. ponsáveis pela aplicação da lei.

122
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
(d) Utilização da força e execuções b) velar para que os outros agentes do orga-
ex trajudiciais nismo onde trabalham não participem em tais
crimes.
465. A expressão “execuções extrajudiciais”
designa as privações arbitrárias da vida acima des-
critas, quando perpetradas, por exemplo, pela polí- 3. OBSERVAÇÕES FINAIS
cia, pelo exército ou por outros agentes do Estado.
As execuções extrajudiciais constituem uma 470. Para além dos motivos éticos e jurídicos que
forma de terrorismo de Estado, sendo por vezes obrigam a que a polícia respeite as normas inter-
cometidas por unidades que se tornaram conhe- nacionais relativas à utilização da força e de armas
cidas como os “esquadrões da morte”. de fogo, existem também considerações de índole
prática e política. Os abusos e excessos na utiliza-
466. Os Princípios sobre a Prevenção Eficaz e ção da força por parte da polícia podem ter como
Investigação das Execuções Extrajudiciais, Arbi- efeito levar a que um trabalho, já de si difícil, se
trárias ou Sumárias enunciam medidas de combate torne impossível. Para além disso, tais abusos e
a estas flagrantes violações do direito à vida. Este excessos comprometem um dos principais objec-
instrumento é composto por 20 princípios desti- tivos da actividade policial – a manutenção da paz
nados a prevenir a ocorrência de execuções extra- e estabilidade social. Casos houve em que a utili-
judiciais e a garantir a cuidadosa investigação das zação excessiva da força por parte da polícia resul-
mesmas, caso se verifiquem. Os Princípios exigem tou numa instabilidade pública em tão larga escala
que se exerça um controlo rigoroso sobre os fun- e de tal forma violenta que as instituições res-
cionários que exercem poderes de captura e deten- ponsáveis pela aplicação da lei se tornaram tem-
ção, bem como sobre aqueles que se encontram porariamente incapazes de manter a ordem e
autorizados a utilizar a força e as armas de fogo. proteger a segurança pública. As consequências
generalizadas de tais incidentes, bem como as
(e) Utilização da força e desaparecimentos suas enormes repercussões mediáticas, compro-
metem seriamente o fundamental apoio da popu-
467. Deverá ser feita referência ao capítulo XII, lação à actividade policial.
sobre Captura, na medida em que contém obser-
vações gerais sobre os desaparecimentos forçados 471. Em resumo, as normas internacionais de
ou involuntários (parágrafos 372-376, supra). direitos humanos exigem que a utilização de
armas de fogo pela polícia seja uma medida excep-
468. O fenómeno dos desaparecimentos forçados ou cional; que a utilização da força por parte da polí-
involuntários é referido no presente capítulo uma vez cia seja necessária e proporcional ao objectivo
que uma pessoa desaparecida nessas circunstâncias pretendido; e que a utilização da força e de armas
terá muito provavelmente sido vítima de uma utili- de fogo pela polícia seja regulamentada, controlada
zação indevida da força. Além do mais, as vítimas e compatível com os direitos fundamentais à vida,
deste tipo de abuso são muitas vezes ilegalmente exe- à liberdade e à segurança da pessoa.
cutadas, assim se vendo privadas do seu direito à vida.
b. Normas internacionais sobre utilização da
469. Será conveniente recordar aos funcionários res- força – Aplicação prática
ponsáveis pela aplicação da lei as suas respon-
sabilidades relativamente ao fenómeno dos
desaparecimentos forçados ou involuntários, 1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO
nomeadamente: DAS NORMAS INTERNACIONAIS

a) prevenir e detectar todos os crimes relacio- Recomendações destinadas a todos os agentes


nados com este fenómeno; policiais

Deveres e funções da Polícia


* 123
Inscreva-se em programas de formação para armas de fogo, comportamento das multidões,
aumentar os seus conhecimentos e melhorar as resolução de conflitos, controlo das situações de ten-
suas aptidões nos seguintes domínios: primeiros são e persuasão, mediação e negociação.
socorros, defesa pessoal, utilização de equipa-
mento defensivo, utilização de dispositivos não Adquira e distribua equipamento defensivo,
mortíferos, utilização de armas de fogo, compor- nomeadamente capacetes, escudos, coletes à prova
tamento das multidões, resolução de conflitos e con- de bala, máscaras de gás e veículos blindados.
trolo das situações de tensão. Adquira e distribua dispositivos incapacitantes
não letais e de dispersão de multidões.
Adquira e aprenda a utilizar escudos defensivos,
coletes à prova de bala, capacetes e dispositivos não Adquira a maior variedade possível de meios capa-
mortíferos. zes de permitir uma utilização diferenciada da
força.
Adquira, pratique e utilize diversos meios capazes
de permitir a utilização diferenciada da força, Providencie pela inspecção periódica dos agentes,
nomeadamente armas incapacitantes não mortí- a fim de conhecer o respectivo estado de saúde física
feras. e mental, bem como a sua capacidade de avaliar da
necessidade e adequação de utilizar a força ou
Participe em sessões de apoio psicológico, para armas de fogo.
aliviar o stress.
Organize sessões de apoio psicológico para todos
Acondicione cuidadosamente e de forma segura os funcionários que utilizam a força, a fim de os
todas as armas que lhe sejam entregues. ajudar a lidar com o stress.

Parta do princípio de que todas as armas estão Defina directivas claras para a participação de
carregadas. todos os incidentes que envolvem a utilização da
força ou de armas de fogo.
Estude e utilize técnicas de persuasão, mediação
e negociação. Regule de forma rigorosa o controlo, acondicio-
Planeie antecipadamente a utilização gradual e namento e distribuição de armas de fogo, nomea-
progressiva da força, começando pelos meios não damente instituindo procedimentos destinados a
violentos. garantir que todos os funcionários se responsabi-
lizam pelas armas e munições que lhes são con-
Esteja atento ao estado físico e mental dos seus cole- fiadas.
gas e intervenha sempre que seja necessário para
assegurar que recebam atenção, orientação e acon- Proíba a utilização de armas e munições que pro-
selhamento adequados. voquem lesões, danos ou riscos injustificados.
Assegure-se periodicamente de que os agentes
Recomendações destinadas a todos os funcionários apenas transportam consigo as armas e munições
com responsabilidades de comando e supervisão. que lhes são oficialmente atribuídas. Preveja san-
ções adequadas para qualquer agente em cuja
Estabeleça e aplique regulamentos internos cla- posse sejam encontrados materiais não distribuí-
ros sobre a utilização da força e de armas de fogo. dos pela via oficial (especialmente dispositivos
como balas de fragmentação, projécteis de ponta
Organize regularmente cursos de formação nos oca ou “dumdum”).
seguintes domínios: primeiros socorros, defesa
pessoal, utilização de equipamento defensivo, uti- Defina estratégias para diminuir o risco de os agen-
lização de armas não mortíferas, utilização de tes se verem forçados a utilizar armas de fogo.

124
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
2. EXERCÍCIO PRÁTICO 2). De que forma a utilização excessiva e abusiva da
força pela polícia torna o trabalho desta mais difícil?
Para fins de debate, imagine que, na zona onde tra-
balha, ocorreram os seguintes incidentes: 3). Qual o significado da expressão “utilização pro-
porcional da força” no contexto da actividade policial?
a) Durante uma patrulha, um agente policial
deparou-se com um homem que roubava um tran- 4). Que alternativas existem à utilização da força?
seunte. O ladrão ameaçou a vítima com uma Que conhecimentos técnicos especializados exigem
arma, roubando-lhe a pasta e a carteira e pondo- essas alternativas e de que forma podem os agen-
-se, de seguida, em fuga. O agente ordenou-lhe que tes receber formação neste domínio?
se detivesse. Como tal não acontecesse, puxou da
arma e disparou sobre o assaltante, que resultou 5). Em que circunstâncias se justifica a utilização
mortalmente ferido. intencional da força com consequências mortais por
parte da polícia?
b) Durante uma patrulha, um agente policial
deparou-se com duas pessoas que partiam a mon- 6). Por que razão o direito internacional não
tra de uma joalharia e furtavam uma grande quan- aceita a invocação de ordens superiores como jus-
tidade de jóias em exposição. Nenhuma delas tificação para a prática de violações de direitos
parecia estar armada e, logo que viram o agente, humanos?
puseram-se em fuga. O polícia ordenou-lhes que
se detivessem. Um dos assaltantes obedeceu, mas 7). Como podem as organizações policiais tornar
o outro continuou a fugir. O agente puxou do mais fácil aos agentes policiais a recusa do cum-
revólver e, depois de lhe ordenar uma vez mais que primento de ordens superiores ilegais passíveis
parasse, disparou e matou-o. O cúmplice, que de conduzir a violações de direitos humanos?
havia parado, foi detido.
8). De que formas pode a polícia proteger o
Comente a justificação legal para a utilização de direito à vida?
uma arma mortífera, em cada um destes casos,
tendo em conta: 9). As normas internacionais sobre a utilização
da força pela polícia encorajam o recurso a armas
• a legislação e directrizes sobre a utilização da força incapacitantes não mortíferas. Que armas desta
pela polícia em vigor no seu país; natureza conhece? Quais estão à sua disposição e
• os Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e que perigos apresenta a sua utilização? Como
de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis podem estes perigos ser ultrapassados?
pela Aplicação da Lei, em particular o princípio 9.
10). Sempre que recorram à força, os funcionários
responsáveis pela aplicação da lei têm a obrigação
3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO de participar o facto aos seus superiores. A que
níveis de utilização da força se deverá aplicar esta
1). Por que razão os Estados e a comunidade obrigação? Como se podem descrever os diferen-
internacional estabelecem restrições à utilização da tes níveis de utilização da força a fim de que os fun-
força pela polícia? cionários saibam que casos devem participar?

Deveres e funções da Polícia


* 125
cap
ítu
lo

*15
Distúrbios Internos,
Estados de Excepção
e Conflitos Armados

Objectivos do capítulo • Apresentar aos utilizadores do manual e aos participantes, que fre-
quentem cursos de formação, as normas de direitos humanos e de direito
humanitário aplicáveis às actividades de manutenção da ordem em situa-
ções excepcionais e indicar-lhe os limites das medidas excepcionais que podem
ser adoptadas nestas circunstâncias.
}
}

Princípios fundamentais Distúrbios internos

• Todas as medidas de restabelecimento da ordem devem respeitar os direi-


tos humanos.

• O restabelecimento da ordem deve efectuar-se sem qualquer tipo de dis-


criminação.

• Os direitos só podem ser alvo de restrições que sejam previstas pela lei.
• Toda a acção ou restrição ao exercício dos direitos deve visar unica-
mente a garantia do respeito pelos direitos e liberdades de terceiros e res-
ponder às justas exigências da moral, ordem pública e paz social.

• São unicamente aceitáveis as acções e restrições de direitos, desde que con-


formes às regras e princípios de uma sociedade democrática.

• O direito à vida, o direito a não ser submetido à tortura, a proibição da


escravatura, a proibição de prisão por razões que se prendam unicamente
com a incapacidade de executar uma obrigação contratual não poderão ser
derrogados em caso algum.

• Antes de qualquer recurso à força devem ser experimentados os meios não


violentos.

• A força só deverá ser utilizada em casos de necessidade absoluta.


• A força só deve ser utilizada para fins lícitos de aplicação da lei.
• O recurso à força deve ser sempre proporcional aos objectivos legítimos
da aplicação da lei.
}

127
*
Terceira Parte
• Devem ser envidados todos os esforços para limitar danos e ferimentos.
• Deve estar disponível uma panóplia de meios que permitam uma utili-
zação diferenciada da força.

• Os direitos à liberdade de expressão, à liberdade de reunião e associação


e à liberdade de circulação não devem ser inutilmente restringidos.

• Não deve ser imposta nenhuma restrição à liberdade de opinião.


• Deve ser preservada a independência da magistratura.
• Todas as pessoas que tenham sido alvo de ferimentos ou que tenham sofrido
}traumatismos devem ser imediatamente socorridas.
}

Objectivos do capítulo Estados de excepção

• Os Estados de excepção só podem ser decretados em conformidade com


a lei e só poderão ser proclamados se um perigo público ameaçar a exis-
tência da nação e se as medidas ordinárias forem claramente insuficien-
tes para fazer face à situação.

• Os estados de excepção devem ser oficialmente proclamados, antes que


possam ser adoptadas medidas excepcionais.

• Toda a medida excepcional deve ser estritamente requerida pelas exigências


da situação.

• As medidas excepcionais não devem ser, em caso algum, incompatíveis


com outras obrigações impostas pelo direito internacional.

• Uma medida excepcional não deve, em caso algum, dar origem a dis-
criminação baseada na raça, cor, sexo, língua, religião ou origem social.

• Não é permitida nenhuma derrogação no que diz respeito ao direito à


vida, à proibição da tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desu-
manos ou degradantes; à proibição da escravatura e à proibição de proce-
der a prisões motivadas unicamente pela impossibilidade de executar uma
obrigação contratual.

• Ninguém poderá ser condenado por uma infracção penal que não cons-
tituía um delito no momento da sua prática.

• Se, em momento posterior à infracção, a lei prevê a aplicação de uma


pena mais leve, o delinquente deve beneficiar desta alteração legislativa.
}
}

Objectivos do capítulo Conflitos armados

• Nas situações de conflito armado e de ocupação, os polícias devem ser con-


siderados como não combatentes, a menos que tenham sido oficialmente
integrados nas forças armadas.

• Os polícias têm o direito de se absterem de exercer as suas funções por


considerações de consciência, o que não deverá conduzir a uma modifica-
ção do seu estatuto.

128
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
•O direito humanitário aplica-se em todas as situações de conflito
armado.

• Os princípios de humanidade devem ser respeitados em toda as situações.


• Os não combatentes e as pessoas colocadas fora de combate por razões
de doença, ferimento, detenção ou por qualquer outra causa, devem ser res-
peitados e protegidos.

• As pessoas que sofrem as consequências da guerra devem ser ajudadas e


cuidadas sem discriminação.

• São proibidos em todas as circunstâncias designadamente os seguintes actos:


– homicídio;
– tortura;
– tratamentos cruéis ou degradantes;
– castigos corporais;
– mutilações;
– atentados à dignidade da pessoa;
– tomada de reféns;
– penas colectivas;
– execuções não precedidas de um processo regular.

• É proibido exercer represálias contra os feridos, doentes ou náufragos, con-


tra o pessoal e serviços médicos, contra os prisioneiros de guerra, os civis,
os bens civis e culturais, o meio ambiente natural e as obras contendo for-
ças perigosas.

• Ninguém poderá renunciar à protecção que lhe é conferida pelo direito


humanitário nem ser constrangido a ela renunciar.
• As pessoas protegidas devem ter recurso, a todo o tempo, à potência pro-
tectora (um Estado neutro que protege os seus interesses), ao Comité Inter-
nacional da Cruz Vermelha ou a qualquer outra organização humanitária
imparcial.
}

a. Normas internacionais sobre conflitos 473. O direito internacional humanitário visa


armados, estados de emergência e distúrbios regulamentar a conduta das hostilidades e prote-
internos – Informação para as apresentações ger as vítimas de conflitos, impõe obrigações a
todos os beligerantes e só se torna eficaz após a eclo-
são de um conflito armado. Trata-se de um sub-
1. INTRODUÇÃO sistema muito detalhado e especial do direito dos
direitos humanos e que se aplica em situações de
472. Os conflitos armados e os distúrbios dão conflito armado.
origem a situações de perigo extremo, a diver-
sos graus de sofrimento e crueldade, o que 474. O direito internacional dos direitos humanos
sucede com maior gravidade ainda quando a visa a protecção dos direitos das pessoas e grupos
conduta das hostilidades não obedece a qualquer de pessoas em todas as circunstâncias, impondo
regra. Por outro lado, estas situações colocam aos Estados obrigações face às pessoas e grupos de
gravemente em perigo os direitos individuais e pessoas sob a sua jurisdição, aplicando-se tanto em
colectivos. tempo de paz como em tempo de guerra.

Deveres e funções da Polícia


* 129
475. Os polícias têm tarefas importantes e de níveis não são sempre claras. Para nos situarmos
natureza diversa a desempenhar nos diferentes rapidamente podemos, no entanto, considerar que
tipos de conflitos e distúrbios internos, devendo rea- cada situação requer a aplicação das seguintes
lizá-las no respeito pelas normas internacionais de categorias de normas:
direitos humanos e pelos princípios de direito
humanitário. O presente capítulo expõe e analisa Nível 1: todos os direitos humanos, sem qualquer
as normas que se aplicam especificamente às acti- derrogação.
vidades de manutenção da ordem.
Nível 2: todos os direitos humanos, sem qualquer
476. As secções seguintes tratam da questão da derrogação, sob reserva única das restrições auto-
manutenção da ordem nas seguintes situações: rizada pela lei com os únicos fins de garantir ple-
conflito armado internacional; conflito armado namente o reconhecimento e respeito pelos
não internacional (ou guerra civil); estado de direitos e liberdades de terceiros, bem como as
excepção e distúrbios internos. Se julgar não ser justas exigências da moral, ordem pública e bem-
útil incluir na sua exposição todos os pormenores -estar geral numa sociedade democrática.
relacionados com os conflitos armados, o forma-
dor poderá a eles fazer referência para preparar Nível 3: todos os direitos humanos, salvo algumas
exposições a partir de outras partes no capítulo. excepções limitadas, as quais permitem derroga-
ções não discriminatórias, nos estritos limites
477. É essencial que os agentes das forças públi- necessários pelas exigências da situação. Não é
cas conheçam, não só as normas de direitos huma- autorizada qualquer derrogação no que diz res-
nos, mas também os princípios decorrentes do peito ao direito à vida, à proibição de tortura, à proi-
direito internacional humanitário, que se devem bição da escravatura ou à proibição de sujeitar
aplicar à repressão dos distúrbios internos. É uma pessoa à prisão por incapacidade de execução
igualmente importante que estejam informados de uma obrigação contratual.
sobre os limiares a partir dos quais se aplicam as
diferentes categorias de normas. Nível 4: o artigo 3.o comum às quatro Convenções
de Genebra de 1949, o Protocolo Adicional II a estas
478. Se tivéssemos de definir uma hipotética hie- Convenções (1977), bem como as restantes dispo-
rarquia da violência, poderíamos imaginar pelo sições de direitos humanos, incluindo a protecção
menos cinco níveis sucessivos: dos direitos não derrogáveis.

Nível 1: situação normal. Nível 5: as quatro Convenções de Genebra e o Pro-


tocolo Adicional I a estas Convenções (1977), bem
Nível 2: tensões internas, distúrbios internos, como as outras disposições relativas aos direitos
tumultos, actos de violência isolados e esporádicos. humanos, incluindo a protecção dos direitos não
derrogáveis.
Nível 3: estado de excepção proclamado no segui-
mento de tensões internas e de violências esporá- 480. Estes diferentes níveis de violência e distúr-
dicas que ameaçam a existência da nação. bios internos são analisados em pormenor infra.

Nível 4: conflito armado internacional (guerra civil).


2. ASPECTOS GERAIS
Nível 5: conflito armado internacional.
(a) Princípios fundamentais
479. É evidente que o estado de excepção pode ser
proclamado no seguimento do início de um con- 481. A mensagem fundamental do direito inter-
flito armado e as fronteiras entre os diferentes nacional humanitário que rege os conflitos arma-

130
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
dos consiste no facto de o direito dos beligeran- lação a protecção deste direito e a proibição da pri-
tes utilizarem meios para atingir o inimigo não vação arbitrária da vida. Este direito encontra-se
ser ilimitado. Os princípios de proporcionalidade igualmente protegido pelas regras que restringem
(em relação às acções do adversário ou aos resul- o recurso à força pela polícia.
tados militares esperados das suas próprias
acções) e de selectividade (na escolha dos méto- [ii] Direito dos conflitos armados
dos, armamentos e alvos) decorrem deste princípio
fundamental. 484. O direito dos conflitos armados é composto
por dois grandes grupos convencionais (desig-
482. A repressão dos distúrbios civis é regida nados por «direito convencional da Haia» e
pelos princípios da necessidade e da proporcio- «direito convencional de Genebra») e por um
nalidade no recurso à força. Ambos os princípios certo número de regras consuetudinárias basea-
requerem respectivamente que a polícia não uti- das nos princípios fundamentais acima referi-
lize a força, a menos que tal se revele estritamente dos.
necessário para a aplicação da lei e manutenção da
N.T.1

ordem e que a aplicação da força seja proporcional 485. O «direito convencional da 18 de Assinada por Portugal a
Outubro de 1907. O
–por outras palavras, a força só deverá ser utilizada Haia» é essencialmente com- instrumento de ratificação
foi depositado a 13 de Abril
na estrita medida em que permita a aplicação da posto por uma série de declarações ção encontra-se publicado
de 1911. O texto da Conven-

lei e a manutenção da ordem. e convenções, nomeadamente a no Diário do Governo


n.o 49, de 2 de Março
Convenção da Haia (IV) de 18 de de 1911 e no Diário
do Governo n.o 104,
(B) Disposições específicas Outubro de 1907 relativa às leis de 5 de Maio de 1911.
de costumes da guerra em terra (Convenção da Haia,
[i] Direitos humanos especialmente vulneráveis 1907)N.T.1. O «direito convencional de Genebra» é
essencialmente composto pelas quatro Convenções
483. Os direitos humanos mais vulneráveis em de Genebra de 12 de Agosto de 1949, bem como pelos
período de conflito armado e de distúrbios civis, dois Protocolos Adicionais a estas Convenções (8 de
e que têm implicações directas na aplicação da lei, Junho de 1977), a saber:
são o direito à liberdade e à segurança da pessoa,
o direito a ser tratado com humanidade em caso • Convenção I de Genebra para Melhorar a
de detenção e o direito à vida. As normas que pro- Situação dos Feridos e Doentes das Forças
tegem estes direitos foram expostas detalhada- Armadas em Campanha (primeira Convenção
mente nos capítulos precedentes. De forma de Genebra);
resumida: • Convenção II de Genebra para Melhorar a
Situação dos Feridos, Doentes e Náufragos das For-
• o direito à liberdade e à segurança da pessoa ças Armadas no Mar (segunda Convenção de
encontra-se parcialmente garantido pela proibi- Genebra);
ção das prisões arbitrárias. Todas as prisões devem • Convenção III de Genebra relativa ao Tratamento
ser legais e necessárias; dos Prisioneiros de Guerra (terceira Convenção
• o direito a ser tratado com humanidade em caso de Genebra);
de detenção encontra-se protegido pela proibição • Convenção IV de Genebra relativa à Protecção das
da tortura e pela obrigação de tratar toda a pessoa Pessoas Civis em Tempo de Guerra (quarta Con-
privada de liberdade com humanidade e no respeito venção de Genebra);
da dignidade inerente à pessoa humana. Este • Protocolo I Adicional às Convenções de Genebra
direito é igualmente protegido por disposições de 12 de Agosto de 1949 relativo à Protecção das
mais detalhadas de execução da proibição e obri- Vítimas dos Conflitos Armados Internacionais
gação. (Protocolo Adicional I);
• o direito à vida está protegido pela obrigação • Protocolo II Adicional às Convenções de Gene-
imposta aos Estados de inscreverem na sua legis- bra de 12 de Agosto de 1949 relativo à Protecção

Deveres e funções da Polícia


* 131
das Vítimas dos Conflitos Armados Não Interna- • beneficiam de uma certa protecção durante as hos-
cionais (Protocolo Adicional II). tilidades, através de medidas que visam regula-
mentar os métodos e meios de guerra.
486. Os dois grupos de direito convencional dis-
tinguem-se pelo facto de o «direito convencional 490. Os últimos pontos serão analisados nas sec-
da Haia» reger a conduta das hostilidade, – os ções «Conflito armado internacional», «Conflito
meios e métodos de guerra aceitáveis - enquanto armado não internacional» e «Distúrbios inter-
que o «direito convencional de Genebra» dizer nos» infra. Os outros aspectos serão estudados
respeito à protecção das vítimas de guerra. Na prá- nas secções «Terrorismo» e «Estados de excepção
tica, a distinção não é muito clara, já que os dois e medidas de derrogação».
grupos convencionais se encontram actualmente
em certa medida reunidos nas disposições con- (C) Conflito armado internacional
vencionais posteriores – nomeadamente nos dois
Protocolos Adicionais às Convenções de Genebra. 491. Durante muito tempo o direito dos conflitos
armados só dizia respeito às guerras entre Estados.
[iii] Tipos de conflito armado e categorias É por esta razão que o artigo 2.o da Convenção da
de pessoas Haia (1907) precisa que a Convenção e o Regula-
mento que se lhe encontram anexados só se apli-
487. O direito internacional humanitário reco- cam entre as Altas Partes Contratantes e
nhece dois tipos de conflitos armados: unicamente se os beligerantes forem partes na
Convenção.
a) o conflito armado internacional – isto é as
guerras entre Estados, as guerras de libertação 492. O artigo 2.o comum às Convenções de Gene-
nacional contra o domínio colonial ou a ocupação bra de 1949 limita a aplicação das referidas Con-
estrangeira; venções

b) o conflito armado não internacional ou […] em caso de guerra declarada ou de qualquer outro
guerra civil. conflito armado que possa surgir entre duas ou mais das
Altas Partes contratantes, mesmo que o estado de
488. As situações de tensões e distúrbios inter- guerra não seja reconhecido por uma delas.
nos, como por exemplo os tumultos e os actos
esporádicos de violência, que não constituem con- […] em todos os casos de ocupação total ou parcial do
flitos armados, não cabem no campo de aplicação território de uma Alta Parte
do direito internacional humanitário. contratante, mesmo que esta ocupação não encontre
qualquer resistência militar. […]
489. No que diz respeito às categorias de pessoas, dis-
tinguem-se principalmente os combatentes e os não NOTA PARA O FORMADOR: como iremos verificar
combatentes. De forma esquematizada, têm direito na secção «Conflito armado não internacional»
ao estatuto de combatente os membros das forças infra., o artigo 3.o comum às quatro Convenções de
armadas de uma parte no conflito que use as suas Genebra é a única disposição destas Convenções
armas abertamente. Este estatuto só é concedido àque- que visa os conflitos armados não internacionais.
les que combatam em conflitos armados internacio-
nais. As pessoas com direito ao estatuto de combatente: 493. O n.o 4.o do artigo primeiro do Protocolo Adi-
cional I às Convenções de Genebra alarga a definição
• têm o direito de participar nas hostilidades; do conflito armado internacional para nele incluir:
• têm o direito a ser consideradas como prisionei-
ros de guerra se forem capturadas pelo inimigo; […] os conflitos armados em que os povos lutam con-
• devem respeitar as leis da guerra; tra a dominação colonial e a ocupação estrangeira e

132
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
contra os regimes racistas no exercício do direito dos Por outras palavras, para serem considerados
povos à autodeterminação […] como combatentes os polícias devem fazer parte
de um serviço responsável pela aplicação da lei
[i] Estatuto da polícia oficialmente incorporado nas forças armadas de
uma parte no conflito. Este acto de incorporação,
494. No parágrafo 489 supra foi invocado o «esta- bem como a obrigação de notificação das outras par-
tuto de combatente», avançada uma definição tes, além de modificar o estatuto dos membros do
geral desta noção e precisados alguns direitos e serviço em causa, confirma igualmente o estatuto
obrigações dos combatentes. Com efeito, a definição civil dos polícias que pertençam a serviços não
do termo evoluiu ao longo dos anos, por forma a contemplados no n.o 3 do artigo 43.o.
ter em conta os tipos de conflitos em curso e os
desejos da comunidade internacional. 499. Finalmente, e ainda no que concerne o esta-
tuto das pessoas, a quarta Convenção de Genebra
495. Foi por exemplo assim que a definição de relativa à Protecção das Pessoas Civis em Tempo
combatente contida nos artigos 43.o e 44.o do Pro- de Guerra (título III, secção III, artigo 54.o) dis-
tocolo Adicional I às Convenções de Genebra não põe que:
opera uma distinção entre as forças armadas
muito organizadas de um Estado e as tropas A Potência ocupante não poderá modificar o estatuto dos
menos estruturadas dos movimentos de libertação. funcionários ou dos magistrados do território ocupado
Esta definição permite assim atribuir um reco- ou tomar contra eles sanções ou quaisquer medidas
nhecimento jurídico a certos tipos de guerrilhas sur- coercivas ou de diferenciação no caso de deixarem de
gidas nos conflitos recentes. exercer as suas funções por razões de consciência.

496. Ainda que um pouco esbatida, a distinção […]


entre combatentes e civis subsiste – continuando por
exemplo os combatentes a beneficiar da protecção Esta disposição confere uma certa protecção aos
conferida aos prisioneiros de guerra no caso de cap- membros das forças de polícia dos territórios
tura e podendo os civis prevalecer-se da protecção ocupados no caso em que a potência ocupante
especial a que têm direito em tempo de guerra. procure utilizá-los para executar tarefas ou aplicar
medidas por eles tidas como inaceitáveis.
497. O estatuto civil dos agentes da força pública
é devidamente reconhecido e garantido, e a defi- [ii) Direitos, deveres e responsabilidades da polícia
nição de combatente não inclui os funcionários
policiais. Além disso o artigo 50.o do Protocolo Adi- 500. Os funcionários policiais com o estatuto de
cional I define como civil toda a pessoa que não combatente têm direitos e responsabilidades
pertença a uma das categorias de combatente nos enquanto combatentes, mas também enquanto
termos do artigo, e especificando ainda que em responsáveis pela aplicação da lei. Estes direitos e
caso de dúvida essa pessoa será considerada como responsabilidades são, de forma esquemáticas, os
civil. seguintes:

498. O artigo 43.o do Protocolo Adicional I contém DIREITOS – durante as hostilidades beneficiar da
no seu n.o 3 uma disposição importante, com a protecção conferida pelas medidas que regula-
seguinte redacção: mentam os métodos e meios de guerra e serem tra-
tados como prisioneiros de guerra se forem
A parte num conflito que incorpore, nas suas forças capturados pelo inimigo.
armadas, uma organização paramilitar ou um serviço
armado encarregado de fazer respeitar a ordem, deve RESPONSABILIDADES – na sua qualidade de com-
notificar esse facto às outras Partes no conflito. batentes implicados na luta contra o inimigo, res-

Deveres e funções da Polícia


* 133
peitar as regras do direito internacional aplicáveis cionários da polícia com funções unicamente de
em conflitos armados. Estas regras, em número ele- aplicação da lei – devem agir em conformidade com
vado, diversas e precisas, têm por objectivo: a legislação nacional e nomeadamente com as leis
que consagrem normas internacionais em matéria
a) A protecção dos feridos, doentes e náufragos de direitos humanos. Estes funcionários policiais
– ou, por outras palavras, aqueles que conservaram
Por exemplo, o artigo 10.o do Protocolo Adicional I o seu estatuto de civil – têm os direitos, deveres e
às Convenções de Genebra impõe o respeito e a pro- responsabilidades habituais de qualquer responsável
tecção de todos os feridos, doentes e náufragos, pela aplicação da lei, a saber:
independentemente da parte a que pertençam.
DIREITOS – beneficiar da protecção conferida aos
b) Métodos e meios de guerra civis durante os conflitos armados internacional pela
quarta Convenção de Genebra e pelo Protocolo
Por exemplo, o artigo 37.o do Protocolo Adicio- Adicional I; beneficiar da protecção conferida aos
nal I proíbe matar, ferir ou capturar um adver- funcionários pelo artigo 54.o da quarta Conven-
sário por meio do recurso à perfídia. Os actos de ção de Genebra, referido acima sob o título «Esta-
perfídia contemplados no artigo 37.o são nomea- tuto da polícia» (parágrafo 499).
damente: simular a intenção de negociar a
coberto da bandeira parlamentar, ou simular DEVERES – desempenhar as funções gerais de
a rendição e simular uma incapacidade causada polícia (aplicação da lei e manutenção da ordem).
por ferimentos ou doença. A situação criada pelo conflito pode ter importan-
tes repercussões neste domínio, tal como é
c) Tratamento dos prisioneiros de guerra demostrando, através dos seguintes exemplos:

Por exemplo, o artigo 14.o da terceira Convenção a) Protecção dos prisioneiros de guerra
de Genebra dispõe que os prisioneiros de guerra
têm direito ao respeito pela sua pessoa e honra em Em virtude do artigo 12.o da terceira Convenção de
todas as circunstâncias. Genebra, a Potência detentora é responsável pelo
tratamento de que são alvos os prisioneiros de
d) Protecção das pessoas e das populações civis guerra. Como existem nesta Convenção disposições
sobre a evasão e captura dos prisioneiros de
Por exemplo, o artigo 51.o, n.o 2, do Protocolo guerra, as infracções cometidas por ou contra os
Adicional I dispõe que nem a população civil prisioneiros de guerra e ainda relativas aos pro-
enquanto tal, nem as pessoas civis devem ser alvo cessos judicias, é muito provável que as forças de
de ataques. O mesmo parágrafo proíbe ainda os polícia da Potência detentora sejam chamadas a
actos ou ameaças de violência cujo fim principal intervir.
é de espalhar o terror entre a população civil.
b) Protecção das pessoas e populações civis
501. É de notar que, em relação à regra vigente em
tempo de paz, as actividades correntes de manu- O capítulo VI, título IV, secção I, do Protocolo
tenção da ordem são «desviadas» para tarefas Adicional I visa a protecção civil no sentido do
decorrentes da situação criada pelo conflito. Este artigo 61.o, nomeadamente a realização de um
ponto será examinado de forma mais detalhada certo número de tarefas humanitárias destinadas
aquando da análise consagrada aos deveres dos a proteger a população civil contra os perigos das
polícias que não tenham o estatuto de combatente. hostilidades e a ajudar a superar os seus efeitos ime-
diatos. Em tempo de guerra, a polícia pode ser
502. Os agentes da força pública que não tenham chamada a realizar algumas destas tarefas, nomea-
o estatuto de combatente – como é o caso dos fun- damente os alertas, evacuações, salvamentos, loca-

134
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
lizações e sinalizações das zonas de perigo e o res- b) consoante a incidência que o conflito ou a
tabelecimento e a manutenção da ordem nas ocupação do território sobre eles exerça, respeitar
zonas sinistradas. as regras do direito internacional aplicáveis à sua
situação.
c) Manutenção da ordem sob a autoridade de
uma potência ocupante (d) Conflito armado não internacional

Por exemplo o artigo 43.o das Regras anexadas à 503. As quatro Convenções de Genebra de 1949 são
Convenção da Haia de 1907 impõe à Potência ocu- compostas por mais de 400 artigos muito deta-
pante que restabeleça e mantenha a ordem pública lhados. Por si só, o artigo 3.o comum às quatro Con-
e a segurança no território que ocupa. Esta dispo- venções visa a protecção das vítimas de conflitos
sição inclui a obrigação de respeitar as leis em «que não apresentem um carácter internacional»
vigor no país ocupado – a menos que seja expres- e estabelece regras mínimas para a protecção das
samente impedido de o fazer. pessoas que não participam activamente nas hos-
tilidades, incluindo os membros das forças arma-
São definidas nos artigos 64.o a 78.o da quarta Con- das postos fora de combate.
venção de Genebra e nos artigos 75.o a 77.o do Pro-
tocolo Adicional I regras mais detalhadas relativas à 504. Em 1977 as disposições do artigo 3.o comum
legislação penal e ao processo judicial. Estas regras às quatro Convenções de Genebra foram comple-
baseiam-se no princípio de que a legislação penal do tadas por um protocolo adicional à Convenções, o
território ocupado deve permanecer em vigor, a Protocolo II. Este instrumento composto por 28 arti-
menos que constitua uma ameaça para a Potência ocu- gos precisa a protecção de que devem beneficiar as
pante, caso esse em que a referida Potência ocu- vítimas dos conflitos armados não internacionais.
pante poderá revogá-la ou suspendê-la. Tanto este
último princípio como as regras dele decorrentes, têm [i] Artigo 3.o comum às Convenções
por objectivo dar às instituições e aos funcionários
do território ocupado a possibilidade de continuarem 505. O artigo 3.o comum às quatro Convenções de
a desempenhar as suas funções como no passado – Genebra confere uma protecção humanitária ele-
na medida em que tal seja possível. mentar a certas categorias de pessoas, através da
extensão dos princípios basilares das Convenções
As tarefas de natureza corrente de manutenção da aos conflitos armados não internacionais que
ordem seriam afectadas não só pelas condições ocorram no território de uma das partes. Nesse caso
gerais do conflito, mas também pelas condições cada parte no conflito deve aplicar «pelo menos»
específicas da ocupação do território. Os funcioná- as disposições do preceito, sendo o artigo 3.o por
rios policiais continuariam a exercer as suas funções vezes qualificado como «convenção dentro das
como no passado, a menos que se abstenham de o Convenções».
fazer por considerações de consciência ou sejam
afastados das suas responsabilidades pela Potência 506. O princípio fundamental de tratamento
ocupante, sendo todos estes casos contemplados humano é enunciado no primeiro parágrafo, que
no artigo 54.o da quarta Convenção de Genebra. define igualmente as pessoas cobertas pelo preceito,
a saber:
RESPONSABILIDADES – na sua qualidade de fun-
cionário da polícia em exercício das funções gerais As pessoas que não tomem parte directamente nas hos-
de aplicação da lei: tilidades, incluídos os membros das forças armadas
que tenham deposto as armas e as pessoas que tenham
a) respeitar as leis e procedimentos nacionais, sido postas fora de combate por doença, ferimento,
nomeadamente aqueles que consagram normas detenção ou por qualquer outra causa, serão, em todas
internacionais em matéria de direitos humanos; as circunstâncias, tratadas com humanidade, sem

Deveres e funções da Polícia


* 135
nenhuma distinção de carácter desfavorável baseada exercendo um controlo sobre um território e não
na raça, cor, religião ou crença, sexo, nascimento ou for- se aplica
tuna, ou qualquer critério análogo. […]
a) aos conflitos entre grupos que não incluam for-
A parte restante do parágrafo enuncia um certo ças governamentais;
número de actos proibidos «em qualquer oca-
sião e lugar» em relação às pessoas protegidas. b) aos conflitos mais circunscritos que não
Estes actos proibidos consistem nomeada- impliquem o controlo de território por grupos dis-
mente em: sidentes.

a) homicídio; PESSOAS PROTEGIDAS

b) tortura; 509. O Protocolo protege todas as pessoas afecta-


das por um conflito armado, nomeadamente:
c) tomadas de reféns;
a) todas as pessoas que não participam directa-
d) atentados à dignidade das pessoas; mente ou que deixaram de participar nas hostili-
dades, quer estejam privadas de liberdade ou não
(e) condenações e execuções não precedidas de (título II);
um julgamento equitativo pronunciado num tri-
bunal regularmente constituído e rodeado de b) os feridos, doentes e náufragos (título III);
todas as garantias judiciárias necessárias.
c) a população civil (título IV).
507. O n.o
2 do artigo 3.o
impõe às partes no con-
flito a obrigação de recolher e tratar os doentes e
feridos, impondo-lhes igualmente a obrigação de GARANTIAS E PROTECÇÃO
se esforçarem por aplicar, através da celebração
de acordos especiais, todas ou parte das restantes 510. O título II do Protocolo enuncia as garantias
disposições das Convenções. fundamentais de todas as pessoas que não parti-
cipam directamente ou que deixaram de participar
[ii] Protocolo Adicional II nas hostilidades, quer estejam privadas de liberdade
ou não. Estas garantias são as seguintes:
508. O Protocolo Adicional II às Convenções de
Genebra, que veio completar o artigo 3.o comum a) direito ao respeito da sua pessoa, honra, con-
das Convenções, aplica-se aos conflitos armados não vicções e práticas religiosas;
internacionais que se desenrolam
b) direito a ser tratado com humanidade, sem
em território de uma Alta Parte Contratante, entre as qualquer distinção de carácter desfavorável.
suas forças armadas e forças armadas dissidentes ou gru-
pos armados organizados que, sob a chefia de um 511. De seguida, o artigo 4.o comum enumera
comando responsável, exerçam sobre uma parte do seu uma série de actos proibidos, sendo designada-
território um controlo tal que lhes permita levar a cabo mente visados:
operações militares continuas e organizadas e aplicar
o presente Protocolo (n.o 1 do artigo 1.o). a) os atentados contra a vida;

Por outras palavras, o Protocolo aplica-se unica- b) a tortura;


mente aos conflitos em que as forças governa-
mentais defrontem as forças armadas dissidentes c) a tomada de reféns;

136
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
d) os actos de terrorismo e os atentados contra 517. A única protecção prevista para as pessoas
a dignidade da pessoa. que participam directamente nas hostilidades
encontra-se inscrita no artigo 4.o, n.o 1, que proíbe
512. O artigo 4.o prevê igualmente a protecção das ordenar que não haja sobreviventes.
crianças, designadamente a proibição de recrutar
crianças menores de quinze anos para as forças [iii] Estatuto
armadas e a proibição de as deixar participar nas
hostilidades. 518. As pessoas que participam nas hostilidades no
âmbito de um conflito armado não internacional
513. O artigo 5.o enuncia as garantias das pessoas são:
privadas de liberdade – sem qualquer distinção
quanto aos motivos desta privação e sem criar a) os membros das forças armadas, das forças de
um estatuto de prisioneiro de guerra, com o polícia ou de outras forças de segurança do Estado
objectivo de garantir que os detidos sejam tra- que estejam sujeitas ao direito internacional dos
tados com humanidade e que a sua segurança direitos humanos, ao direito internacional huma-
seja assegurada. nitário e ao direito penal nacional,
ou
514. O artigo 6. o diz respeito ao exercício da b) os membros dos grupos armados dissidentes
acção penal e à repressão de infracções penais rela- organizados que, em virtude do direito penal
cionadas com o conflito armado, enunciando as nacional, devem responder por terem recorrido
regras susceptíveis de garantir o respeito pelas nor- ilicitamente à força, pelos seus actos de insurrei-
mas elementares mínimas em matéria de processo ção e outras infracções que possam ter cometido
judicial. e que se encontram igualmente obrigados a res-
peitar o direito internacional humanitário, por
515. O título III do Protocolo comporta seis arti- serem uma «parte no conflito».
gos relativos às pessoas afectadas por um conflito
armado devido à sua qualidade de feridos, doen- [iv] Deveres e responsabilidades da polícia
tes ou náufragos. Este título reafirma o princípio
de humanidade do tratamento, enuncia regras 519. Nos conflitos armados não internacionais os
destinadas a garantir protecção e cuidados a esta funcionários policiais têm os seguintes deveres e
categoria de vítimas e a proteger o pessoal médico, responsabilidades:
as missões e unidades médicas e os transportes
sanitários. DEVERES – enquanto responsáveis pela aplicação
da lei:
516. O título IV do Protocolo contém seis artigos
relativos à protecção da população civil, obri- a) defrontar os grupos armados de oposição, de
gando as partes no conflito a garantirem à popu- acordo com as funções e capacidades do serviço
lação civil e às pessoas civis uma protecção geral encarregue da aplicação da lei e de acordo com a
contra os perigos resultantes de operações mili- situação geral;
tares, com a reserva de que as pessoas civis
gozam desta protecção « salvo se participarem b) proceder a investigações sobre a actuação dos
directamente nas hostilidades e enquanto durar membros dos grupos armados da oposição;
tal participação» (artigo 13.o, n. os 1 e 3). O n. o 2
do artigo 13.o proíbe que a população civil e as pes- c) realizar tarefas correntes de manutenção da
soas civis sejam objecto de ataques. Proíbe ordem que – tal como é o caso num conflito
igualmente os actos ou ameaças de violência armado internacional – serão «desviadas» das acti-
cujo objectivo principal é de espalhar o terror vidades normais desenvolvidas em tempo de paz,
entre a população civil. devido à situação criada pelo conflito.

Deveres e funções da Polícia


* 137
RESPONSABILIDADES – enquanto responsáveis 521. Apesar da distinção operada entre conflito
pela aplicação da lei: armado internacional e «conflito» que se encontre
aquém do conflito armado no sentido da Conven-
a) respeitar os princípios de direito internacio- ção, continua a ser difícil distinguir ambos na prá-
nal aplicáveis aos conflitos armados não interna- tica. É, por exemplo, assim que certos distúrbios
cionais; civis não assimiláveis a conflitos armados, mas
no entanto muito próximos do seu limiar, em nada
b) respeitar a legislação nacional e nomeada- ficam a dever aos conflitos armados em termos de
mente as regras que consagram normas interna- crueldade e de violência. Para além disso, estas for-
cionais em matéria de direitos humanos. mas de distúrbios civis:

(e) Distúrbios internos a) causam vítimas que têm necessidade de pro-


tecção;
520. O acima mencionado «direito convencional de
Genebra» distingue duas categorias de conflitos b) envolvem uma muito elevada possibilidade de
armados, aos quais deve ser acrescentada uma violações de direitos humanos;
categoria, abrangendo as situações de violência
que não são consideradas como conflitos armados. [i) Definições e características dos distúrbios
Estas três categorias são as seguintes: internos

a) Conflitos armados internacionais, aos quais 522. Certos peritos internacionais propuseram
são aplicáveis as quatro Convenções de Genebra, diversos tipos de distúrbios e tensões internas não
bem como o Protocolo Adicional I às Convenções assimiláveis a conflitos armados. Por seu lado, o
de Genebra; Comité Internacional da Cruz Vermelha identificou
b) Conflitos armados não internacionais de alta um certo número de características comuns, as
intensidade, nos quais as forças rebeldes exercem quais se encontram presentes, total ou parcialmente,
um controlo sobre uma parte do território que lhes nas situações de distúrbios civis. Assim, os distúrbios
permite desenvolver operações militares contínuas internos foram descritos da seguinte forma:
e concertadas e aplicar o presente Protocolo. Estes
conflitos entram no campo de aplicação do Proto-
N.T.2
… situações nas quais não existe Vide International Review
of the Red Cross (Genebra),
colo II Adicional às Convenções de Genebra e do um conflito armado não interna- 28o ano, n.o 262 ( Janeiro-Feve-
reiro de 1988), p. 12.
artigo 3.o comum às quatro Convenções de Genebra; cional enquanto tal, mas em que
c) Situações de violência especificamente se verifica uma confrontação no seio do país, apresen-
excluídas do n.o 2 do artigo 1.o do Protocolo II, tando uma certa gravidade ou duração e envolvendo actos
a saber: as situações de tensão e de perturbação de violência. Estes últimos podem revestir diversas for-
internas, tais como motins, actos de violência iso- mas, indo desde a geração espontânea de actos de
lados e esporádicos e outros actos análogos, que não revolta até à luta entre grupos mais ou menos organi-
são considerados como conflitos armados. zados e as autoridades no poder. Nestas situações, que
não degeneram necessariamente em lutas abertas, as
Esta última categoria de conflitos será agora exa- autoridades no poder fazem apelo a vastas forças de polí-
minada sob a rubrica geral «Distúrbios internos». cia, podendo mesmo incluir as forças armadas, para res-
tabelecer a ordem interna. O elevado número de
NOTA PARA O FORMADOR: apesar de a distinção vítimas tornou necessária a aplicação de um mínimo de
entre conflitos armados e distúrbios ou tensões regras humanitáriasN.T.2.
internas não estar prevista no artigo 3.o comum às
quatro Convenções, este preceito refere-se clara- 523. O termo «tensões internas» refere-se a situa-
mente aos conflitos armados implicando hostili- ções de tensões graves (quer elas sejam políticas,
dades entre as forças armadas. religiosas, raciais, económicas ou outras) ou às

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* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
sequelas de um conflito armado ou de distúrbios pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação
internos. Os distúrbios e tensões internas podem da Lei:
incluir:
12). Dado que a todos é garantido o direito de par-
a) introdução de diversas formas de detenção – ticipação em reuniões lícitas e pacíficas, de acordo
maciças e prolongadas; com os princípios enunciados na Declaração Universal
dos Direitos do Homem e no Pacto Internacional
b) torturas e sevícias contra os detidos; sobre os Direitos Civis e Políticos, os Governos e os
serviços e funcionários responsáveis pela aplicação
c) suspensão das garantias judiciárias funda- da lei devem reconhecer que a força e as armas de
mentais; fogo só podem ser utilizadas de acordo com os prin-
cípios 13 e 14.
d) desaparecimentos forçados e outros actos de
violências como a tomada de reféns; 13). Os funcionários responsáveis pela aplicação da
lei devem esforçar-se por dispersar as reuniões ilegais
e) medidas repressivas contra as famílias e mas não violentas sem recurso à força e, quando isso
conhecidos dos detidos; não for possível, limitar a utilização da força ao estri-
tamente necessário.
f ) campanhas de terror no N.T.3
Ibid., p. 13.
seio da população civilN.T.3. 14). Os funcionários responsáveis pela aplicação da
lei só podem utilizar armas de fogo para dispersarem
[ii] Normas internacionais reuniões violentas se não for possível recorrer a
meios menos perigosos, e somente nos limites do estri-
524. O direito internacional dos direitos humanos tamente necessário. Os funcionários responsáveis
aplica-se, tanto em tempo de paz como em tempo pela aplicação da lei não devem utilizar armas de
de guerra, ao conjunto das categorias de conflitos, fogo nesses casos, salvo nas condições estipuladas no
nomeadamente a: princípio 9.

• distúrbios civis; 526. O direito internacional humanitário só é apli-


• conflitos armados não internacionais; cável em situações de conflito armado – interna-
• conflitos armados internacionais. cional e não internacional – e visa proteger as
vítimas. No entanto:
Este ramo do direito destina-se a promover e pro-
teger os direitos humanos. a) certas formas de distúrbios internos têm
a aparência de um conflito armado e apresen-
NOTA PARA OS FORMADORES: os direitos humanos tam pelo menos algumas das suas caracterís-
que se encontram em situação de especial vulne- ticas;
rabilidade durante conflitos armados e distúrbios b) apesar de o direito internacional dos direitos
internos foram indicados no presente capítulo humanos se aplicar a todo o tempo, a sua aplica-
supra (vide parágrafo 483). ção pode ser limitada em caso de perigo público,
se o governo proclamar medidas de derrogação
525. Convém insistir no facto de que a polícia, muito limitadas e excepcionais;
quando reprime distúrbios civis, só deverá c) o direito internacional dos direitos humanos
recorrer à força em casos de necessidade abso- impõe aos governos obrigações para com as pes-
luta e de forma proporcional às exigências da soas sob a sua jurisdição, mas já não em relação
situação. A este propósito, devem ser salientados aos grupos e indivíduos que se poderiam opor à
os seguintes princípios dos Princípios Básicos autoridade desses governos;
sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo d) o direito internacional humanitário visa

Deveres e funções da Polícia


* 139
sobretudo a situação material das vítimas; proibição de derrogar os direitos e proibições
e) o direito internacional humanitário impõe aos consagrados:
governos e às outras partes no conflito obrigações
para com as vítimas desse conflito. a) no artigo 3.o comum às Convenções de Gene-
bra de 1949;
Por conseguinte, apesar das regras do direito b) nos Protocolos Adicionais I e II a estas Con-
internacional dos direitos humanos e de direito venções;
internacional humanitário serem igualmente per- c) nos tratados em matéria de direitos humanos
tinentes para a repressão dos distúrbios civis, só – nomeadamente no Pacto Internacional sobre os
o direito internacional dos direitos humanos é Direitos Civis e Políticos.
juridicamente aplicável.
529. O código de conduta enuncia, sob forma de
[iii] Princípios e normas humanitárias regras, as proibições e obrigações aplicáveis nas
situações de tensões e distúrbios internos, não
527. Certos peritos internacionais interrogaram-se consistindo a ideia na elaboração de um texto jurí-
sobre a pertinência e aplicabilidade das normas dico, mas antes na ampla divulgação de um
internacionais em casos de distúrbios civis. As documento destinado a promover o respeito pelos
suas reflexões deram origem a três textos que defi- princípios humanitários fundamentais.
nem os princípios e normas aplicáveis a este tipo
de situação. Presentemente, trata-se simples- 530. Ambos os projectos de declaração são apre-
mente de projectos de instrumentos que se reve- sentados como sendo textos de direito. O projecto
lam, no entanto, de uma certa importância tendo de declaração das regras humanitárias mínimas ins-
em conta as indicações normativas que fornecem pira-se, em grande medida, nos instrumentos em
e as fontes das quais são originárias. Trata-se dos matéria de direitos humanos, mas também nas
seguintes textos: Convenções de Genebra e respectivos Protocolos
Adicionais.
a) Código de Conduta – elaborado por Hans-
Peter Gasser, conselheiro jurídico do Comité 531. As disposições dos três textos aplicam-se em
Internacional da Cruz VermelhaN.T.4; todas as situações de tensões ou distúrbios inter-
b) Projecto de modelo de N.T.4
Ibid., p. 38 e seguintes. nos. Todas as pessoas e grupos afectados devem res-
declaração sobre os distúrbios peitá-los e fazer com que sejam respeitados sem
civis – elaborado por Theodor Meron, professor de discriminação.
Direito na Universidade de Nova IorqueN.T.5;
c) Projecto de declaração de N.T.5
Ibid., p. 59 e seguintes. 532. Cada texto contém uma declaração inspirada
normas humanitárias mínimas no princípio geral de humanidade do tratamento
– elaborado por um grupo de peritos reunido na e de respeito pela dignidade humana, proibindo
Åbo Akademi University Turku/Åbo (Finlândia), diversos actos correntemente cometidos em
com base no anteprojecto do N.T.6
Ibid., 31.o ano, n.o 282 período de distúrbios civis, nomeadamente o
N.T.6 (Maio-Junho de 1991),
Professor Meron . p. 328 e seguintes. homicídio, a tortura, as mutilações, as violações,
as tomadas de reféns, os desaparecimentos força-
528. Estes textos não pretendem formar um novo dos, as pilhagens e o terrorismo.
corpo jurídico aplicável às situações de distúrbios
internos. Com efeito, os textos em questão colo- 533. Os três textos enunciam uma série de medi-
cam ênfase nas regras fundamentais existentes, das humanitárias que visam a protecção das víti-
extraídas dos princípios gerais de direito, do mas de distúrbios internos, incluindo as
direito consuetudinário e do direito convencional, seguintes:
aplicáveis em tais situações. Desta forma, são
evidenciadas as regras imperativas decorrentes da a) Os feridos, doentes e pessoas desaparecidas

140
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
devem ser procurados e recolhidos;
b) Os feridos e doentes devem ser protegidos e 537. Os actos de terrorismo são contrários aos fins
tratados; e princípios da Carta das Nações Unidas, e
c) Devem ser colocados à disposição dos orga- foram condenados pela Assembleia Geral em
nismos humanitários meios que lhes permitam diversas resoluções, nomeadamente em 1970
socorrer as vítimas. pela Declaração sobre os Princípios de Direito
Internacional relativos às Relações Amigáveis e
534. Os três textos, que traduzem os princípios e à Cooperação, em conformidade com a Carta
normas em vigor, podem ser ainda utilizados como: das Nações Unidas, a qual proíbe expressamente
o terrorismo.
a) afirmações das normas internacionais em
matéria de direitos humanos e direito humanitá- [i] Definições e tipos de terrorismo
rio pertinentes e aplicáveis em situações de dis-
túrbios e tensões internos; 538. O terrorismo é uma noção vaga e frequen-
b) instrumentos para a educação e formação dos temente muito politizada, de forma que é difí-
funcionários policiais sobre estas normas; cil chegar a um acordo sobre uma definição do
c) instrumento de investigação teórica, estraté- conceito para fins jurídicos. Nenhum dos ins-
gica e táctica para fazer face às situações de dis- trumentos internacionais relativos à matéria
túrbios civis. tratada neste capítulo definem o que é o terro-
rismo.
[iv] Deveres e responsabilidades da polícia
539. Os estudos teóricos neste domínio permitiram
535. Em períodos de distúrbios civis, os deveres e identificar um determinado número de definições
responsabilidades dos funcionários policiais são os e distinguir entre os diferentes tipos de terro-
seguintes: rismo. A principal distinção opõe:

DEVERES – na qualidade de responsáveis pela apli- a) O terrorismo de direito comum – que obedece
cação da lei, devem restabelecer a paz e desenvol- a um móbil estritamente criminoso,
ver tarefas gerais de manutenção da ordem. e
b) o terrorismo político – com motivações pura-
RESPONSABILIDADES – na qualidade de respon- mente políticas,
sáveis pela aplicação da lei, devem respeitar as
normas internacionais em matéria de direitos apesar de se admitir que as duas intenções se
humanos e direito humanitário, e respeitar a legis- encontrem por vezes misturadas.
lação nacional, especialmente as leis que consa-
gram normas internacionais em matéria de direitos 540. É feita igualmente a distinção entre:
humanos.
a) O terrorismo de Estado – os actos perpetra-
536. É do conhecimento geral que, em período de dos pelos representantes do Estado para fins
distúrbios civis, os serviços de polícia têm res- repressivos,
ponsabilidades imensas e contraditórias, e que os e
polícias são pessoalmente expostos a graves peri- b) o terrorismo contra o Estado – os actos sub-
gos. No entanto, os funcionários responsáveis pela versivos perpetrados por grupos ou pessoas pri-
aplicação da lei são obrigados a aplicar as regras vadas.
destinadas a proteger os direitos humanos e os prin-
cípios humanitários de forma absoluta.

(f ) Terrorismo

Deveres e funções da Polícia


* 141
541. Certos teóricos distinguem ainda entre: venções de Genebra de 1949 enuncia a mesma
proibição (n.o 2).
a) Os actos de terror cometidos durante um con-
flito armado, internacional ou não internacional, 546. Os actos de terror são implicitamente proibi-
e dos nos conflitos armados internacionais quando
b) os actos de terror cometidos na ausência de dirigidos:
um conflito armado.
a) Contra os combatentes – esta regra decorre da
542. As definições gerais de terrorismo tendem a proibição geral de causar danos supérfluos (por
colocar ênfase na violência destinada a infligir exemplo, no artigo 35.o, n.o 2, Protocolo Adicional I)
medo, tanto junto das vítimas reais e potenciais, e de ordenar que não haja sobreviventes (artigo 40.o
como junto da população em geral, insistindo fre- do mesmo instrumento);
quentemente nos homicídios ou atentados deli- b) Contra os prisioneiros de guerra – esta regra
berados e cegos cometidos contra os terroristas. decorre das disposições gerais da terceira Con-
venção de Genebra relativa à obrigação de tratar os
543. Os actos de terror são, por vezes, métodos prisioneiros com humanidade.
de luta mas, quer sejam ou não perpetrados no
contexto de um conflito são totalmente ilegais. 547. Os actos de terror são também implicita-
O direito internacional humanitário proíbe mente proibidos durante os conflitos armados não
esses actos durante os conflitos armados e o internacionais quando dirigidos:
direito interno dos Estados proíbe-os igual-
mente. A comunidade internacional adoptou a) Contra quem participa nas hostilidades –
medidas de cooperação para melhor combater cer- regra que decorre da proibição geral de ordenar que
tas formas de terrorismo. não haja sobreviventes (artigo 4.o do Protocolo
Adicional II);
544. O terrorismo de Estado pode ser acompa- b) Contra as pessoas que não participam acti-
nhado de atentados graves contra os direitos vamente nas hostilidades – regra que decorre da
humanos, já que o direito internacional dos direi- obrigação geral de tratamento humano e da proi-
tos humanos impõe aos Governos que protejam e bição de actos específicos (artigo 3.o comum às
promovam os direitos das pessoas que se encon- quatro Convenções de Genebra e artigo 4.o do Pro-
tram sob a sua jurisdição. tocolo Adicional II).

[ii] Actos de terror praticados durante conflitos [iii] Cooperação internacional na luta contra
armados o terrorismo

N.T7

545. Os actos de terror são expressamente proibi- 548. A violência causada pelo Assinada por Portugal a
16 de Junho de 1980 e apro-
dos tanto durante os conflitos armados interna- terrorismo é proibida por um vada para ratificação pela
Resolução da Assembleia
cionais como não internacionais, em virtude das certo número de instrumentos da República n.o 3/84,
de 8 de Fevereiro de 1984,
seguintes disposições: internacionais que definem os publicada no Diário
da República, I Série,
meios de luta contra os actos de n.o 33/84. O instrumento
de ratificação foi depositado
CONFLITOS ARMADOS INTERNACIONAIS – O artigo terror que visam certos alvos junto do Secretário-Geral
das Nações Unidas
51.o do Protocolo Adicional I às Convenções de específicos. Tal é, por exemplo, a 6 de Julho de 1984.
Genebra de 1949 proíbe os actos ou ameaças de o caso da Convenção Interna-
violência cujo objectivo principal é espalhar o ter- cional contra a Tomada de RefénsN.T.7, adoptada pela
ror entre a população civil (n.o 2). Assembleia Geral em 1979.

CONFLITOS ARMADOS NÃO INTERNACIONAIS – 549. Convém ainda chamar a atenção dos partici-
O artigo 13.o do Protocolo Adicional II às Con- pantes em cursos de formação para as Medidas de

142
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
Luta contra o Terrorismo Internacional, propostas nos instrumentos que proíbem a tortura e a escra-
em 1990 pelo Oitavo Congresso das Nações Uni- vatura.
das sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento dos
Delinquentes, as quais constituem um guia útil para 553. As disposições do parágrafo 28 são impor-
coordenar a luta contra o terrorismo internacional tantes, já que na luta contra o terrorismo os próprios
quer a nível nacional como internacional. Estados não devem recorrer a métodos terroristas.

550. O parágrafo 5.o das Medidas insta a um [iv] Deveres e responsabilidades da polícia
reforço da cooperação internacional para a pre-
venção da violência provocada pelo terrorismo, 554. Os deveres e responsabilidades dos funcio-
enumerando um certo número de acções que nários policiais em matéria de terrorismo são os
deveriam ser tomadas, nomeadamente: seguintes:

a) Cooperação entre os serviços responsáveis pela DEVERES – combater o terrorismo, através do


aplicação da lei, Ministério Público e magistrados; desenvolvimento de meios preventivos e da
b) Integração e cooperação reforçadas no seio entrega à justiça dos autores de actos terroristas.
dos diversos serviços responsáveis pela aplicação Neste contexto, é particularmente importante
da lei e justiça penal, no respeito dos direitos conhecer todos os meios e medidas requeridos ou
humanos fundamentais; recomendados pela comunidade e organizações
c) Instrução e formação reforçadas do pessoal internacionais.
encarregue da aplicação da lei no domínio da pre-
venção da delinquência e da cooperação interna- RESPONSABILIDADES – respeitar a proibição de
cional em matéria penal. actos de terror nos conflitos armados, bem como
o conjunto dos direitos humanos e normas huma-
551. As medidas contêm 37 parágrafos relativos ao nitárias aplicáveis em conflitos, distúrbios civis e
reforço da cooperação internacional, compreen- tempo de paz.
dendo directivas nomeadamente sobre:
(g) Estados de excepção e medidas de derrogação
a) extradição – instando ao desenvolvimento e
aplicação efectiva dos tratados em matéria de 555. Os instrumentos internacionais em matéria de
extradição; direitos humanos admitem e prevêem a necessidade
b) não aceitação da obediência a ordens supe- de restringir certos direitos humanos em caso de
riores como meio de defesa para as pessoas acusa- perigo público. Convém, todavia, sublinhar que cer-
das de violação das convenções internacionais que tos direitos são considerados de tal forma funda-
proíbem actos de terrorismo; mentais que em caso algum poderão ser derrogadas
c) protecção do pessoal judiciário e das autori- as disposições convencionais que os protegem.
dades penais, bem como das vítimas e testemunhas
de actos de terrorismo. [i] Disposições convencionais

552. O parágrafo 28 trata especificamente das pes- 556. O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis
soas acusadas ou condenadas pela prática de cri- e Políticos dispõe, no seu artigo 4.o, que os Esta-
mes terroristas. Estas pessoas devem ser tratadas dos podem adoptar medidas derrogatórias das
de forma não discriminatória e em conformidade obrigações previstas no Pacto se um perigo
com os princípios e normas em matéria de direi- público de natureza excepcional, proclamado por
tos humanos reconhecidos internacionalmente, um acto oficial, ameaçar a existência da nação.
tais como os que são enunciados na Declaração Uni- Estas medidas devem:
versal dos Direitos do Homem e no Pacto Inter- a) ser estritamente necessárias pelas exigências
nacional sobre os Direitos Civis e Políticos e ainda da situação;

Deveres e funções da Polícia


* 143
b) não ser incompatíveis com as outras obriga- 560. O artigo 27.o da Convenção Americana sobre
ções impostas pelo direito internacional; Direitos Humanos dispõe que em caso de guerra,
c) não podem originar uma discriminação perigo público, ou outra emergência que ameace
baseada na raça, cor, sexo, língua, religião ou ori- a independência ou segurança do Estado Parte,
gem social. este poderá adoptar disposições que, na medida e
pelo tempo estritamente limitados às exigências da
Os outros Estados Partes no Pacto devem ser ime- situação, suspendam as obrigações contraídas em
diatamente avisados sobre as disposições alvo de virtude da Convenção. Tal como sucede com o
derrogação pelo Estado em questão, os motivos Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Polí-
que provocaram essa derrogação e a data em que ticos, a Convenção precisa que tais medidas não
foi colocado um termo à derrogação, por inter- devem ser incompatíveis com as outras obriga-
médio do Secretário-Geral da Organização das ções decorrentes do direito internacional, nem dar
Nações Unidas. origem a discriminações baseadas nos motivos
habituais.
557. Os seguintes artigos do Pacto não podem ser
objecto de derrogação: 561. Todo o Estado que faça uso do direito de der-
rogação deve avisar imediatamente os outros Esta-
a) protecção do direito à vida (artigo 6.o); dos Partes na Convenção, por intermédio do
b) proibição de tortura e de penas e tratamentos Secretário-Geral da Organização dos Estados Ame-
cruéis, desumanos ou degradantes (artigo 7.o); ricanos. Os restantes Estados devem ser informa-
c) proibição da escravatura e da servidão (artigo 8.o, dos sobre quais as disposições que foram
n.os 1 e 2 ); suspensas, motivos que provocaram esta suspen-
d) Proibição de prisão pela única razão de a pes- são e a data prevista para pôr termo à suspensão.
soa estar incapacitada de executar uma obrigação
contratual (artigo 11.o); 562. A Convenção Americana sobre Direitos Huma-
e) Proibição de leis retroactivas (artigo 15.o); nos não permite qualquer derrogação às garantias
f ) Direito de toda e qualquer pessoa ao reco- da Convenção acima enunciada (parágrafo 557),
nhecimento, em qualquer lugar, a uma personali- excepto no que diz respeito à alínea d), proibindo
dade jurídica (artigo 16.o); ainda qualquer derrogação aos seguintes artigos:
g) Direito de toda e qualquer pessoa à liberdade
de pensamento, de consciência e de religião a) protecção dos direitos da família (artigo 17.o);
(artigo 18.o). b) direito ao nome (artigo 18.o);
c) protecção dos direitos da criança (artigo 19.o);
558. A Carta Africana dos Direitos do Homem e dos d) direito à nacionalidade (artigo 20.o);
Povos não contém qualquer artigo específico que e) direitos políticos (artigo 23.o).
autorize os Estados a derrogar obrigações por ela
impostas. No entanto, inúmeras disposições con- 563. A Convenção Europeia dos Direitos do
têm uma cláusula que permite aos Estados res- Homem dispõe, no seu artigo 15.o, que em caso de
tringirem direitos dentro dos limites permitidos guerra ou de outro perigo público que ameace a vida
pela legislação nacional. É, por exemplo, o que da nação, qualquer Estado pode tomar providên-
sucede com o direito de associação (artigo 10.o) cias que derroguem as obrigações previstas na
garantido a todos «sob reserva de se conformar às Convenção, na estrita medida em que a situação o
regras prescritas na lei». exigir, e em que tais providências não estejam em
contradição com as outras obrigações decorrentes
559. Estas cláusulas não prevêem o tipo de controlo do direito internacional.
externo do comportamento do Estado que utiliza
o direito de derrogação que é imposto pelas outras 564. Os Estados que adoptem medidas derrogató-
convenções previamente examinadas. rias da Convenção devem manter o Secretário-

144
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
-Geral do Conselho da Europa plenamente informado 3. CONCLUSÕES
sobre as medidas tomadas e motivos que as provo-
caram. Devem igualmente informar o Secretário- 567. Os instrumentos examinados no presente
-Geral do Conselho da Europa da data em que essas capítulo distinguem diversos níveis de distúrbios
disposições tiverem deixado de estar em vigor. internos e conflitos armados: distúrbios internos
que não constituem um conflito armado, conflitos
565. A Convenção Europeia não autoriza qualquer armados não internacionais de fraca ou forte
derrogação aos seguintes artigos: intensidade e conflitos armados internacionais.
Devemos, no entanto, relembrar que a maior parte
a) direito à vida (artigo 2.o), exceptuando os das reuniões pacíficas e legais permanecem legais
casos em que a morte resultar de um acto lícito de e pacíficas, não degenerando em tumultos. Da
guerra; mesma forma, a maior parte dos distúrbios civis
b) proibição da tortura e penas ou tratamentos violentos não terminam em conflitos armados e a
cruéis, desumanos ou degradantes (artigo 3.o); maior parte das guerras civis não se transforma em
c) proibição da escravatura e servidão (artigo 4.o, conflitos interestaduais.
n.o 1);
d) proibição das leis retroactivas (artigo 7.o). 568. É, no entanto, importante saber que existem por
vezes riscos de recrudescimento e que a polícia tem
[ii] Responsabilidades da polícia um papel crucial a desempenhar com vista à pre-
venção deste tipo de evolução. Nos casos em que as
566. É especialmente difícil defender e proteger os pessoas exercem o seu direito de reunião pacífica no
direitos humanos em período de conflito armado respeito pela lei, a polícia tem o dever de as ajudar a
ou de distúrbios civis. E é precisamente durante este exercer este direito, devendo tomar todas as medi-
género de situações que os Estados são mais fre- das preventivas necessárias para evitar qualquer inci-
quentemente levados a tomar medidas derrogató- dente violento. Contudo, se ocorreram estes tipos de
rias. Quando tal se verifica, os funcionários desordem, a intervenção policial poderá levar a uma
responsáveis pela aplicação da lei têm a obrigação diminuição, ou a um aumento dos distúrbios.
absoluta de:
569. A capacidade da polícia prevenir desacatos
a) respeitar e proteger o núcleo de direitos e restabelecer a ordem rapida e humanamente
humanos não derrogáveis a todo o momento e em depende da aplicação das estratégias e tácticas de
qualquer circunstância; manutenção da ordem mais apropriadas. Neste
b) respeitar as medias que ainda garantem pro- contexto, revestem-se de importância primordial as
tecção de todos os outros direitos humanos, após técnicas de manutenção da ordem e, por conse-
as derrogações decididas pelo Governo. guinte, a formação prática.

b. Normas internacionais sobre conflitos armados e distúrbios internos – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS


}

Recomendações destinadas Conflitos armados


a todos os agentes policiais
com estatuto civil • Receber formação para tomar conhecimento das exigências impostas
pelo direito internacional dos direitos humanos e pelo direito humanitário
em período de conflito armado.

Deveres e funções da Polícia


* 145
}
• Receber formação sobre os métodos de primeiros socorros, gestão de
catástrofes e protecção civil.

• Familiarizar-se com as estratégias de manutenção da ordem e protecção


da população civil que seriam aplicadas pelo seu serviço de polícia em caso
de conflito.

• Cooperar estreitamente com os serviços médicos, de bombeiros e as auto-


ridades civis e militares.

• Prestar uma especial atenção às necessidades específicas dos grupos par-


ticularmente vulneráveis em período de conflito armado, nomeadamente
}
}dos refugiados, pessoas deslocadas, crianças e feridos.

Recomendações destinadas Conflitos armados


aos funcionários
com responsabilidades • Dar formação a todos os agentes sobre as exigências impostas pelo direito
de comando e supervisão
com um estatuto civil internacional dos direitos humanos e pelo direito humanitário em período
de conflito armado.

• Assegurar uma formação sobre os métodos de primeiros socorros, gestão


de catástrofes e protecção civil.

• Elaborar estratégias precisas de manutenção da ordem e protecção da


população civil em períodos de conflito.

• Elaborar procedimentos padronizados de cooperação em situações de


urgência, a fim de poder desenvolver uma acção coordenada com os ser-
viços médicos, bombeiros, autoridades civis e militares.

• Afirmar claramente o estatuto civil da polícia em períodos de conflitos armados.


}
}

Polícias mobilizados Conflitos armados


pelas forças armadas
durante os conflitos • Aprender e aplicar o regulamento militar*:
• Fazer prova de disciplina. Toda a violação do direito da guerra desonra tanto
o soldado como o seu exército e causa sofrimentos desnecessários. Em vez
de enfraquecer a vontade do inimigo lutar, irá frequentemente fortalecê-la.

• Limitar-se a combater os combatentes do inimigo e atacar unicamente


os objectivos militares.

• Limitar as destruições às exigências da missão.


• Não atacar inimigos que tenham sido colocados fora de combate ou que
se tenham rendido. Desarmá-los e levá-los ao seu superior.

• Recolher e tratar os feridos e doentes, independentemente do facto de serem


inimigos ou não.

• Tratar todos os civis e inimigos no seu poder com humanidade.

146
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
• Os prisioneiros de guerra estão unicamente obrigados a revelar a sua iden-
tidade, devendo ser tratados com humanidade. É proibido infligir-lhes tor-
turas físicas ou psicológicas.

• Não fazer reféns.


• Abster-se de qualquer acto de vingança.
• Respeitar todas as pessoas e bens que usem o emblema da Cruz Verme-
lha ou do Crescente Vermelho, a bandeira branca das tréguas ou os emble-
mas que designem bens culturais.

• Respeitar os bens de terceiros. A pilhagem é proibida.


• Esforçar-se por evitar qualquer violação das regras acima enunciadas. Infor-
mar o seu superior de qualquer violação. Toda a violação do direito da guerra
é punível.
}
}

Recomendações destinadas Distúrbios civis


a todos os agentes
da força pública • Elaborar estratégias de manutenção da ordem e verificar o nível de ten-
são entre os diversos grupos sociais e entre estes grupos e as autoridades.

• Manter-se vigilante em relação a todos os preparativos de manifestações ilegais.


• Fazer prova de tolerância relativamente às reuniões ilegais de natureza
pacífica, que não apresentem um carácter ameaçador, a fim de não pro-
vocar inutilmente uma escalada.

• Estabelecer contactos com os manifestantes e os seus porta-vozes.


• Se for necessário dispersar uma multidão, deixar sempre um corredor de
evacuação bem visível e desimpedido.

• Tratar a multidão como um conjunto de indivíduos de pensamento inde-


pendente e não como uma massa guiada por uma vontade única.

• Evitar as tácticas inutilmente provocadoras.


• Elaborar técnicas de domínio das multidões que servem para reduzir a
necessidade do recurso à força.

• Frequentar programas de formação para se aperfeiçoar nos seguintes domí-


nios: primeiros socorros, autodefesa, utilização de equipamentos defensi-
vos, utilização de armas não letais, utilização de armas de fogo,
comportamento das multidões, resolução dos conflitos e gestão do stress.

• Munir-se de equipamentos defensivos, nomeadamente escudos, coletes


à prova de balas, capacetes e armas não letais, e aprender a servir-se deles.

• Equipar-se com uma panóplia de meios que permitam uma utilização


diferenciada da força e nomeadamente de armas não letais neutralizado-
ras, aprender a servir-se deles e a utilizá-los.

• Estudar e aplicar técnicas de persuasão, mediação e negociação.

Deveres e funções da Polícia


* 147
• Planificar atempadamente o recurso progressivo e diferenciado da força,
começando pelos meios não violentos.

}
}
Recomendações destinadas Distúrbios civis
aos funcionários
com responsabilidades
de comando e supervisão
• Elaborar instruções claras de respeito pelas reuniões e a agrupamentos
livres e pacíficos.

• Desenvolver estratégias de manutenção da ordem no seio das comuni-


dades e entre elas, e supervisionar o nível de tensões entre os diferentes gru-
pos sociais, bem como entre estes grupos e as autoridades.

• Ordenar aos agentes da força pública que façam prova de tolerância relati-
vamente aos agrupamentos ilegais, mas pacíficos, que não constituam uma
ameaça, a fim de não provocar uma escalada inútil. Aquando da elaboração
das estratégias de disciplina das multidões, convém relembrar que o seu objec-
tivo é, antes de mais, de manutenção da ordem e da segurança e de proteger
os direitos humanos, e não a aplicação de tecnicismos jurídicos relativos à neces-
sidade de autorizações ou a comportamentos ilegais não ameaçadores.

• Estabelecer instruções precisas e aplicáveis a todo o tempo sobre a utili-


zação da força e as armas de fogo e fazer com que elas sejam respeitadas.

• Assegurar uma formação regular nos seguintes domínios: primeiros socor-


ros, autodefesa, utilização de equipamentos defensivos, utilização de armas
não letais, utilização de armas de fogo, comportamento das multidões, reso-
lução de conflitos, gestão do stress, persuasão, mediação e negociação.

• Equipar-se com equipamentos defensivos, incluindo capacetes, escudos,


coletes à prova de balas, máscaras de gás e veículos blindados e apetrechar
os agentes com esses mesmos equipamentos.

• Equipar-se com armas não letais neutralizadoras, bem como de equi-


pamento de dispersão de multidões, e apetrechar os agentes com esses mes-
mos equipamentos.

• Equipar-se com um leque, o mais vasto possível, de meios que permitam


a utilização diferenciada da força.

• Estabelecer regras claras para a apresentação de relatórios para cada inci-


dente que tenha envolvido a utilização da força e de armas de fogo.

• Regular de forma rígida o controlo, armazenamento e entrega de armas


de fogo, e aplicar processos que assegurem que os agentes são responsá-
veis pelas armas e munições que lhes sejam entregues.

• Proibir o uso de armas e munições que causem ferimentos, danos ou ris-


cos injustificados.

• Estabelecer estratégias para evitar que os agentes sejam colocados em situa-


ções que os obriguem a utilizar armas de fogo.
}

148
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
2. EXERCÍCIOS PRÁTICOS c) Os autores de atentados contra a ordem
pública e de actos contrários à lei serão detidos, a
Exercício n.o 1 menos que a sua detenção imediata possa agravar
seriamente a situação.
Você é informado de que, na cidade onde exerce o d) Deve ser excluído o recurso à força, salvo em
seu poder de polícia, está prevista uma manifestação casos de ameaça imediata contra a vida ou a
contra a discriminação racial. No seguimento de con- segurança de terceiros, ou se for absolutamente
tactos entre a polícia e os organizadores da mani- necessário para proceder a detenções ou impedir
festação, você toma conhecimento de que são desacatos graves.
esperados mais de 10 000 manifestantes e que a e) O recurso às armas de fogo é proibido,
manifestação será pacífica e não violenta. excepto em caso de ameaça iminente de morte ou
de ferimento grave.
O itinerário combinado com os organizadores atra-
vessará a cidade e os manifestantes dirigir-se-ão à TAREFA: tendo em conta a situação inicial, os
Câmara Municipal, com vista a entregar uma peti- novos factos ocorridos e os princípios que devem
ção ao Presidente, que por sua vez fará uma decla- enquadrar as tarefas de manutenção da ordem:
ração pública. Os manifestantes são escoltados
através da cidade por polícias em trajes normais 1). Elabore um plano para manter a ordem
(isto é, sem escudos nem capacetes) e é igualmente durante a manifestação.
combinado com os organizadores que a polícia fará
prova de tolerância permanecendo a sua presença 2). Indique o número de agentes policiais que
discreta. deveria ser destacado.

Dois dias antes da data fixada para a manifes- 3). Concretize o tipo e quantidade de equipa-
tação você toma conhecimento, através dos mento especial que entregaria aos agentes policiais
seus informadores, que grupos extremistas ou que teria disponível em reserva.
hostis decidiram confrontar os manifestantes
perto da Câmara Municipal e perturbar o des- 4). Descreva a estrutura hierárquica no seio do ser-
file esperando, desta forma, provocar graves viço de polícia encarregue de dar ordens e de asse-
incidentes e desacreditar os objectivos da gurar que não existem incidentes.
mobilização. Os militantes extremistas recu-
sam qualquer diálogo com a polícia, sendo difí- 5). Indique as principais responsabilidades de
cil obter mais pormenores sobre os seus cada escalão hierárquico.
planos. As estimativas apontam para que estes
sejam cerca de 700. 6). Descreva a táctica que aplicaria para enqua-
drar a manifestação e indique a forma como ela per-
Por razões de princípio foi decidido que a mitiria alcançar os objectivos de manutenção da
manifestação seria mesmo assim autorizada e ordem.
que seria protegido o direito de reunião pacífica
dos manifestantes. Os grandes princípios que 7). Enumere os factos que comunicaria aos orga-
enquadram as tarefas de manutenção da ordem nizadores da manifestação no que diz respeito às
neste género de manifestações são os seguin- intenções dos contra-manifestantes extremistas e
tes: justifique a sua escolha.

a) Deve ser preservada a ordem pública dentro 8). Indique as instruções que daria aos agentes
do respeito pelos direitos humanos. policiais relativamente à utilização da força, de-
b) Não serão tolerados os atentados contra a tenções e respeito geral pelos direitos humanos e
ordem pública e os actos contrários à lei. pelos princípios humanitários. Concretize as ins-

Deveres e funções da Polícia


* 149
truções relativas aos cuidados e tratamentos a reivindicações do grupo minoritário, mas a polícia
ministrar aos manifestantes feridos. continua a sofrer fortes pressões políticas no sen-
tido de se reformar e rever os seus modos de fun-
Exercício n.o 2 cionamento, de forma a intervir com maior
eficácia e humanidade quando ocorram distúrbios
Estude as seguintes disposições do Pacto Interna- civis.
cional sobre os Direitos Civis e Políticos:
Enquanto membro de um grupo de trabalho
• artigo 6.o
(direito à vida); criado pelo seu chefe de polícia:
o
• artigo 7. (proibição da tortura e penas ou trata-
mentos cruéis, desumanos ou degradantes); 1). Defina as grandes linhas de uma política
• artigo 9.o (direito à liberdade e à segurança da pes- geral de restabelecimento da ordem em casos
soa); de distúrbios civis, determinando qual deverá
• artigo 10.o (direito dos detidos a serem tratados ser a abordagem de base e os objectivos mais
com humanidade); vastos.
• artigo 14.o (direito a um processo equitativo).
2). Baseando-se na política geral por si definida,
Estude igualmente as disposições do artigo 3. o redija instruções concisas destinadas aos quadros
comum às quatro Convenções de Genebra de 1949. superiores da polícia, as quais deverão ser aplica-
das quando aqueles definirem estratégias e tácti-
Redija um Código de Conduta destinado aos agen- cas de restabelecimento da ordem em caso de
tes policiais, que inclua instruções e directivas a apli- distúrbios civis específicos.
car em casos de distúrbios internos, de forma a que
os agentes estejam plenamente conscientes dos 3). A partir da política geral e das instruções por
direitos humanos e das normas humanitárias apli- si formuladas, estabeleça um quadro de referência
cáveis neste tipo de situações. que deverá ser entregue ao responsável pela for-
mação.
Exercício n.o 3

Imagine que ocorreram incidentes graves em 3. TÓPICOS PARA DISCUSSÃO


diversos pontos do território nacional, opondo
duas populações étnicas, sendo que uma delas - de 1). Porque é que geralmente se admite que as par-
representação minoritária – se queixa de ser tes num conflito armado não têm um direito ili-
vítima de discriminação por parte da outra – de mitado no que concerne aos meios adoptados para
representação maioritária. Houve vítimas entre os atingir o inimigo? Se estamos a combater o inimigo,
polícias e os manifestantes. porque é que não temos o direito de utilizar qual-
quer meio para o atingir?
No decurso do primeiro incidente, a polícia reagiu
de forma exagerada e fez um uso excessivo da 2). Estudar e analisar alguns dos dilemas morais
força, o que causou inúmeros feridos graves entre com os quais se defronta um agente policial que
os manifestantes. Esta intervenção suscitou serve num país ocupado por uma potência ini-
comentários muito hostis contra a polícia, por um miga.
lado por parte dos meios de comunicação social e,
por outro, por parte da classe política, bem ainda 3). Os princípios internacionais humanitários
como pelos dois grupos étnicos em questão. aplicáveis nos conflitos armados não internacionais
visam a protecção das pessoas que não participam
Desde então, o Governo tomou medidas econó- activa ou directamente nas hostilidades. A proibi-
micas, sociais e políticas para responder a certas ção de ordenar que não haja sobreviventes contida

150
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional N.º05 [ACNUDH]
no Protocolo Adicional II às Convenções de Gene- 8). Quais são as vantagens e inconvenientes dos
bra de 1949 confere uma protecção às pessoas seguintes meios para reprimir os distúrbios civis:
que participam nas hostilidades. Parece-lhe que gás lacrimogéneo, matracas, munições em plástico
seria interessante estender alguma forma de pro- ou borracha e mangueira de água?
tecção aos combatentes na conduta das hostilida-
des, tal como foi o caso nas regras relativas aos 9). Como é que o oficial que dirige a intervenção
conflitos armados internacionais? da polícia aquando de um tumulto grave e que
ordena que a multidão seja espancada com matra-
4). Em que medida é que um código de conduta cas, poderá preservar a sua autoridade e dominar
que definisse as regras de comportamento aplicá- a situação, isto é como poderá ele fazer com que
veis em período de distúrbios civis poderia ajudar os polícias obedeçam às suas ordens sem fazer
a polícia? uma utilização excessiva da força?

5). Quais são os direitos humanos fundamen- 10). Em que medida é que lhe parece interessante
tais não derrogáveis que correm um especial risco que as unidades de polícia sejam especialmente trei-
de ser violados em caso de conflito armado não nadas para intervirem em casos de distúrbios públi-
internacional ou de distúrbios civis graves? Porque cos? Esta fórmula apresenta igualmente inconvenientes.
é que ocorrem atentados aos direitos humanos Quais são eles e como poderão ser evitados?
nestes tipos de situações?
11). Poderá a utilização incorrecta de armas nor-
6). Porque é que devemos respeitar os direitos das malmente não letais (tais como o gás lacrimogé-
pessoas que perpetraram actos terroristas ou que neo e as munições em borracha) causar a morte e
são suspeitas da prática de tais actos? ferimentos graves? Como? Como podem estes aci-
dentes ser evitados?
7). De que forma é que a polícia pode ajudar os
indivíduos a exercerem o seu direito de reunião
pacífica?

Deveres e funções da Polícia


* 151
*
Qu
ar t
ap
ar t
e

GRUPOS NECESSITADOS
DE PROTECÇÃO ESPECIAL
OU TRATAMENTO DISTINTO

153
*
Quarta Parte
cap
ítu
lo

*16
Polícia e Protecção de Jovens

Objectivos do capítulo • Proporcionar aos utilizadores do manual uma compreensão básica das
normas internacionais de direitos humanos aplicáveis a jovens que tenham
contacto com o sistema de justiça penal, e sensibilizá-los para a importância
de proteger todas as crianças contra o abuso e tomar medidas para pre-
}

venir a delinquência juvenil.


}

Princípios fundamentais • As crianças devem beneficiar de todas as garantias reconhecidas aos


adultos em matéria de direitos humanos. Devem ainda ser aplicadas às crian-
ças as seguintes regras:

• As crianças devem ser tratadas de uma forma que promova o seu sen-
tido de dignidade e valor pessoal, que facilite a sua reintegração na socie-
dade, que reflita o interesse superior da criança e que tenha em conta as
necessidades de uma pessoa daquela idade.

• As crianças não devem ser sujeitas a tortura, a tratamentos ou penas cruéis,


desumanos ou degradantes, a castigos corporais ou à pena de prisão per-
pétua sem possibilidade de libertação.

• A detenção ou captura de crianças deve ser uma medida extrema tomada em


último recurso e deve ser aplicada pelo mínimo período de tempo necessário.

• As crianças em detenção devem ser separadas dos adultos.


• As crianças detidas devem ser autorizadas a receber visitas e correspon-
dência dos membros das suas famílias.

• Deve ser fixada uma idade mínima para a responsabilidade penal.


• Devem ser previstos procedimentos não judiciários e alternativas à colo-
cação em instituições.

• Deve ser respeitada a privacidade da criança. Devem ser mantidos regis-


tos completos e fiáveis, cuja confidencialidade deve ser mantida.

155
*
Quarta Parte
• As medidas de coacção física e de utilização da força em crianças devem
ser excepcionais, ser unicamente utilizadas quando todas as outras medi-
das de controlo tenham sido exaustas e ser unicamente aplicadas pelo mínimo
período de tempo necessário.

• O porte de armas em instituições para jovens é proibido.


• A disciplina deve respeitar a dignidade da criança e deve promover um
sentido de justiça, de respeito pelo próprio e pelos direitos humanos na
criança.

• Os funcionários e agentes que lidam com jovens devem receber uma for-
mação adequada e ter qualidades pessoais que os tornem aptos a desem-
penhar essas funções.

• Devem ser efectuadas visitas periódicas e visitas não anunciadas por ins-
pectores aos estabelecimentos de jovens.

• Os pais do jovem devem ser notificados em caso de prisão, detenção,


doença, ferimento ou morte do jovem.
}

a. Normas internacionais sobre a polícia Em relação a este último ponto, é reconhecido que
e a protecção de jovens – Informação para o facto de um jovem ser qualificado como «delin-
apresentações quente» ou como «criminoso» contribui fre-
quentemente para o desenvolvimento de um
comportamento sistematicamente anti-social e
1. INTRODUÇÃO indesejável por parte desse jovem.

570. Os jovens devem gozar de todos os direitos e 572. Para que a lei e as medidas de prevenção do
liberdades discutidos nos capítulos precedentes crime sejam aplicadas de forma eficaz e humana é
deste manual, não devendo por exemplo ser sujei- necessária a consciencialização e respeito, por parte
tos a prisão arbitrária. Os jovens detidos devem ser da polícia, por boas práticas em matéria de protec-
tratados humanamente e não devem ser sujeitos ção de jovens e de prevenção da delinquência juve-
a tortura. Todas as limitações ao uso da força pela nil. A legislação e a prática a que é feita referência,
polícia ser-lhes-ão aplicáveis. tal como se encontra consagrada em instrumentos
de direito internacional, será considerada infra.
571. O jovens são ainda protegidos por instrumen-
tos que reflectem normas internacionais que têm em
conta o seu estatuto e as suas necessidades particu- 2. ASPECTOS GERAIS RELATIVOS AO PAPEL
lares. A comunidade internacional, por intermédio DA POLÍCIA E À PROTECÇÃO DOS JOVENS
das Nações Unidas, reconhece a importância de:
(a) Princípios fundamentais
a) proteger o bem-estar de todos os jovens que
estejam em conflito com a lei; 573. Assegurar o bem-estar dos jovens e o afastá-los
b) proteger os jovens contra o abuso, a negli- do sistema de justiça penal constituem princípios
gência e a exploração; fundamentais de direitos humanos e de protecção
c) adoptar medidas especiais para prevenir a de jovens. Estes princípios são também funda-
delinquência juvenil. mentais para a prevenção da delinquência juvenil.

156
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
Todas as disposições detalhadas que serão conside- ver o bem-estar do jovem e reduzir a necessi-
radas neste capítulo decorrem destes princípios. dade de intervenção da lei e tratar de forma efi-
caz, equitativa e humanitária o jovem em conflito
(b) Disposições específicas em matéria de com a lei;
direitos humanos, polícia e protecção de d) a justiça juvenil deve ser concebida como
jovens parte integrante do processo de desenvolvimento
nacional de cada país;
574. Serão consideradas as disposições de cinco e) a aplicação destas Regras deve ser feita den-
instrumentos que consagram normas interna- tro do contexto das condições económicas, sociais
cionais relativas a jovens. Contudo, deverá ser e culturais existentes em cada Estado membro;
feita igualmente referência aos capítulos XII e XIII f ) os serviços de justiça de jovens devem ser
supra, nos quais são consideradas as disposições sistematicamente desenvolvidos e coordenados
específicas relativas à prisão e detenção de tendo em vista aperfeiçoar e apoiar a capacidade
jovens, no contexto das normas gerais relativas dos funcionários que trabalham nestes serviços, em
à prisão e detenção. especial os seus métodos, modos de actuação e
atitudes.
[i] Regras Mínimas das Nações Unidas
para a Administração da Justiça de Menores 578. A regra n.o 2 define um jovem como
(Regras de Beijing)
qualquer criança ou pessoa jovem que, em rela-
575. As Regras de Beijing são consagradas num ins- ção ao sistema jurídico considerado, pode ser
trumento detalhado composto por 30 regras con- punido por um delito, de forma diferente da de um
tidas em seis partes, a saber: “Princípios Gerais”, adulto.
“Investigação e Procedimento”, “Julgamento e
Decisão”, “Tratamento em Meio Aberto”, “Trata- O comentário à regra n.o 2 salienta o facto de que
mento em Instituição” e “Investigação, Planifica- os limites de idade dependem expressamente de
ção, Formulação de Políticas e Avaliação”. cada sistema jurídico, respeitando assim total-
mente os sistemas económicos, sociais, políticos
576. A PRIMEIRA PARTE (PRINCÍPIOS GERAIS) con- e culturais dos Estados membros.
tém nove regras, podendo aquelas que têm uma rele-
vância directa para os agentes responsáveis pela 579. A regra n.o 3 requer que as disposições per-
aplicação da lei, ser resumidas da seguinte forma: tinentes das presentes Regras sejam aplicadas
não só aos delinquentes juvenis, mas também
577. A regra n.o 1 consagra as “orientações funda- aos jovens que possam ser processados por qual-
mentais” nos termos das quais: quer comportamento específico, que não seria
punido se fosse cometido por um adulto. Procu-
a) os Estados membros promovem o bem-estar rar-se-ão alargar os princípios contidos nas pre-
do jovem; sentes Regras a todos os jovens aos quais se
b) os Estados membros criam condições que apliquem medidas de protecção e de assistência
assegurem ao jovem uma vida útil na comuni- social.
dade, fomentando um processo de desenvolvi-
mento pessoal e de educação afastado, tanto 580. A regra n.o 4 relaciona-se com a idade da res-
quanto possível, de qualquer contacto com a cri- ponsabilidade penal, determinando que nos sis-
minalidade e a delinquência; temas jurídicos que reconhecem a noção de
c) medidas positivas que assegurem a mobili- responsabilidade penal em relação aos jovens, esta
zação completa de todos os recursos existentes, não deve ser fixada a um nível demasiado baixo,
incluindo a família, a comunidade, as instituições “tendo em conta os problemas de maturidade afec-
comunitárias e as escolas, com o fim de promo- tiva, psicológica e intelectual”.

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* 157
581. A regra n.o 5 estabelece os objectivos da jus- asseguradas em todas as fases do processo, tais
tiça juvenil, que deve dar a maior importância ao como:
bem-estar destes e assegurar que qualquer decisão
em relação aos delinquentes juvenis seja sempre • a presunção de inocência;
proporcional às circunstâncias especiais tanto dos • o direito a ser notificado das acusações;
delinquentes como do delito. • o direito a não responder;
• o direito à assistência judiciária;
582. A questão da proporcionalidade das medidas • o direito à presença dos pais ou tutor;
aplicáveis a delinquentes juvenis é desenvolvida no • o direito a interrogar e confrontar as testemunhas;
comentário relativo à regra n.o 5, onde se afirma que – o direito ao recurso

[…] Em relação aos delinquentes juvenis deve ter-se em 586. A regra n.o 8 destina-se a proteger o direito
conta não só a gravidade da infracção, mas também as à vida privada. Nos termos desta disposição o
circunstâncias pessoais. As circunstâncias individuais direito do jovem à vida privada deve ser respei-
do delinquente (tais como a condição social, a situação tado em todas as fases, com vista a evitar que seja
familiar, o dano causado pela infracção ou outros fac- prejudicado por uma publicidade inútil ou pelo
tores em que intervenham circunstâncias pessoais) processo de estigmatização. Em princípio, não
devem influenciar a proporcionalidade da decisão (por deve ser publicada nenhuma informação que
exemplo, tendo em conta o esforço do delinquente para possa conduzir à identificação de um delin-
indemnizar a vítima ou o seu desejo de encetar uma vida quente juvenil.
sã e útil). […]
587. A SEGUNDA PARTE (INVESTIGAÇÃO E PRO-
583. A regra n.o
6 diz respeito à margem de dis- CEDIMENTO) contém quatro regras, que poderão ser
cricionariedade, e exige um poder discricionário resumidas da seguinte forma:
suficiente em todas as fases do processo e a dife-
rentes níveis da administração da justiça juvenil, 588. A regra n.o 10 diz respeito ao primeiro con-
designadamente nas fases de instrução, de acusa- tacto e determina que:
ção, de julgamento e de aplicação e seguimento das
medidas tomadas. As pessoas que exercem este a) sempre que um jovem é detido, os pais ou o
poder discricionário devem ser especialmente tutor devem ser imediatamente notificados ou, no
qualificadas ou formadas para o exercer judicio- caso de tal não ser possível, a notificação deverá ser
samente. feita com a maior brevidade após a detenção;
b) um juiz ou qualquer outro funcionário ou
584. O comentário à regra n.o 6 salienta a neces- organismo competente deverá examinar imedia-
sidade de: tamente a possibilidade de libertar o jovem;
c) os contactos entre os organismos encarrega-
a) se permitir o exercício do poder discricioná- dos de fazer cumprir a lei e o jovem delinquente
rio em todas as fases importantes do processo, deverão ser estabelecidos de forma a respeitar o esta-
para que as pessoas que tomam decisões possam tuto jurídico do jovem, favorecer o seu bem-estar
adoptar as medidas consideradas mais apropriadas e evitar prejudicá-lo, tendo em conta as circuns-
em cada caso; tâncias do caso.
b) prever medidas de controlo e equilíbrio que
limitem o abuso do poder discricionário; 589. O comentário à regra n.o 10 afirma que o
c) proteger os direitos do jovem delinquente. envolvimento em processos de justiça juvenil pode
em si mesmo ser «nocivo» para os jovens e requer
585. É feita uma referência específica aos direi- que o termo «evitar prejudicá-lo» seja interpre-
tos dos jovens delinquentes na regra n. o 7, que tado de forma lata. Salienta igualmente a impor-
exige garantias fundamentais, que deverão ser tância deste aspecto no primeiro contacto com as

158
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
agências responsáveis pelo cumprimento da lei, já 595. No que concerne as unidades especializadas
que ele poderá influenciar profundamente a atitude de polícia dentro das cidades, o comentário afirma
de um jovem face ao Estado e à sociedade. O que o aumento da delinquência juvenil é asso-
comentário salienta que a benevolência e a fir- ciado ao desenvolvimento das grandes cidades, e
meza são essenciais em tais situações. que tais unidades são indispensáveis, não só para
a aplicação das disposições das Regras, mas tam-
590. A regra n.o 11 exige que, sempre que possível, bém para melhorar a prevenção e o controlo da cri-
os casos dos delinquentes juvenis sejam tratados minalidade juvenil.
evitando o recurso a um processo judicial. A polí-
cia e as outras agências que se ocupam de casos 596. A regra n.o 13 requer que a prisão preventiva
envolvendo jovens poderão lidar com eles discri- constitua uma medida de último recurso e que a
cionariamente, evitando o recurso ao formalismo sua duração seja o mais curta possível. Os jovens
processual penal estabelecido. sob prisão preventiva devem estar separados dos
adultos e devem receber cuidados, protecção e
591. O comentário à regra n.o 11 salienta que o toda a assistência de que necessitem, tendo em
recurso a meios extrajudiciais, que permite evitar um conta a sua idade, sexo e personalidade.
processo penal e implica, muitas vezes, o encami-
nhamento para os serviços comunitários, é comum- 597. O comentário à regra n.o 13 realça o perigo da
mente aplicado em vários sistemas jurídicos, de «contaminação criminal» dos jovens presos pre-
forma oficial e oficiosa. Acrescenta que em muitas ventivamente e sublinha a necessidade de medidas
situações, a não intervenção é a melhor solução e que alternativas.
o recurso a meios extrajudiciais desde o começo, sem
encaminhamento para serviços (sociais) alternativos, 598. A TERCEIRA PARTE (JULGAMENTO E DECI-
pode constituir a melhor resposta. Tal sucede, SÃO) contém nove regras, a maioria das quais não
sobretudo, quando o delito não é de natureza grave tem uma relevância directa para os agentes da
e quando a família, ou outras instituições de controlo polícia.
social informal já reagiram, ou estão em vias de
reagir, de modo adequado e construtivo. 599. A regra n.o 14 determina que, no caso de um
jovem delinquente não ter sido alvo de um processo
592. É sublinhada ainda a importância de assegu- extrajudicial (previsto na regra n.o 11), este deve ser
rar o consentimento do delinquente juvenil (dos julgado pela autoridade competente em confor-
seus pais ou tutor) para as medidas extrajudiciais midade com os princípios de um processo justo e
recomendadas. equitativo. A regra n.o 15 dispõe que, durante todo
o processo, o jovem tem o direito a ser represen-
593. A regra n.o 12 exige que os polícias que se tado pelo seu advogado e a que os seus pais ou tutor
ocupam frequentemente, ou exclusivamente, de participem no processo.
menores ou que se dedicam essencialmente à pre-
venção da delinquência juvenil recebam uma 600. Nos termos do artigo 16.o, as autoridades
instrução e formação especiais. Com este fim, competentes devem dispor de relatórios de
deveriam ser criados nas grandes cidades serviços inquérito social relativos aos delinquentes juve-
especiais de polícia destinados a lidar com delin- nis antes de pronunciarem o julgamento. O
quentes juvenis e com a prevenção da criminali- artigo 17. o enuncia detalhadamente princípios
dade juvenil. orientadores para as autoridades envolvidas no jul-
gamento e na decisão. A regra n.o 18 estabelece
594. O comentário à regra n.o 12 sublinha que, diversas medidas para as disposições do julga-
sendo a polícia sempre o primeiro ponto de con- mento e o artigo 19.o estipula que o recurso à colo-
tacto com o sistema de justiça juvenil, é importante cação numa instituição deve ser o menor
que ela actue de maneira informada e adequada. possível.

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* 159
601. A regra n.o 20 pretende evitar atrasos desne- integrado no sistema de administração da justiça
cessários e exige que cada caso seja tratado de juvenil, bem como compilar e analisar os dados e
forma expedita desde o início. informações pertinentes necessários a uma ava-
liação apropriada e a um aperfeiçoamento ulte-
602. A regra n.o 21 exige que os registos referen- rior do referido sistema.
tes aos jovens delinquentes sejam considerados
como sendo estritamente confidenciais e inco- 607. O comentário à regra n.o 30 chama a atenção
municáveis a terceiros. O acesso a estes registos para a importância da simbiose entre a investiga-
deve ser limitado às pessoas directamente envol- ção e as políticas, e para o facto de a avaliação
vidas no julgamento do processo em causa ou a constante das necessidades do jovem, assim como
outras pessoas devidamente autorizadas. das tendências e problemas da delinquência, ser
uma condição indispensável para melhorar a for-
603. O comentário à regra n.o 21 afirma que a mulação de políticas apropriadas e conceber inter-
regra pretende alcançar um compromisso entre venções.
interesses antagónicos relacionados com os regis-
tos e os processos: por um lado, os da polícia, do [ii] Princípios Orientadores das Nações Unidas
Ministério Público e de outras autoridades inte- para a Prevenção da Delinquência Juvenil (Princí-
ressadas em melhorar o controlo, e por outro, os pios Orientadores de Riade)
interesses do delinquente juvenil.
608. Os Princípios Orientadores de Riade vêm
604. A regra n.o
22 sublinha a necessidade de for- consagrados num instrumento detalhado com-
mação profissional, para que todas as pessoas posto por 66 parágrafos, contido em sete partes:
encarregues de matérias relativas a jovens possam “Princípios Fundamentais”, “Âmbito dos Princípios
adquirir e manter a sua competência profissional. Orientadores”, “Prevenção Geral”, “Processo de
Socialização”, “Política Social”, “Legislação e
605. A QUARTA PARTE (TRATAMENTO EM MEIO Administração da Justiça de Menores” e “Investi-
ABERTO) e a QUINTA PARTE (TRATAMENTO EM gação, Elaboração de Políticas e Coordenação”.
INSTITUIÇÃO) contêm sete regras, não tendo
nenhuma delas relevância directa para os agentes 609. A PARTE I (PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS) con-
policiais no exercício das suas funções normais de tém seis parágrafos, que resumidamente afirmam
aplicação da lei ou de prevenção do crime. Contudo, que:
em certas jurisdições, os agentes policiais estão
envolvidos em programas de reabilitação de delin- a) a prevenção da delinquência juvenil constitui
quentes juvenis no seio da comunidade. uma parte essencial da prevenção do crime no
seio de uma sociedade;
606. A SEXTA PARTE (INVESTIGAÇÃO, PLANIFICA- b) uma prevenção bem sucedida da delinquên-
ÇÃO, FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS E AVALIAÇÃO) cia juvenil requer esforços por parte de toda a
equivale à regra n.o 30, que requer que sejam envi- sociedade;
dados esforços especiais para: c) para efeitos de interpretação destes Princí-
pios Orientadores, deverá seguir-se uma orienta-
a) organizar e fomentar a investigação necessá- ção centrada na criança;
ria à formulação de planos e políticas eficazes; d) na aplicação destes Princípios Orientadores
b) rever e avaliar periodicamente as tendências, qualquer programa de prevenção deverá, de
os problemas e as causas da delinquência e da cri- acordo com os sistemas jurídicos nacionais, cen-
minalidade juvenis, assim como as necessidades trar-se desde a primeira infância no bem-estar dos
específicas dos jovens detidos; jovens;
c) estabelecer, com carácter regular, um dispo- e) deverá reconhecer-se a necessidade e
sitivo permanente de investigação e de avaliação, importância de adoptar políticas progressivas

160
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
de prevenção da delinquência. Estas medidas 611. A PARTE III (PREVENÇÃO GERAL) corres-
devem evitar criminalizar e penalizar um jovem ponde ao parágrafo 9, que contém nove subpará-
por um comportamento que não cause danos grafos. Em resumo este parágrafo exige a
sérios ao seu desenvolvimento, nem prejudi- instituição de planos de prevenção detalhados em
que terceiros. Tais políticas e medidas devem todos os níveis da administração pública que
envolver: incluam:

i) a promoção de oportunidades para satisfazer a) análises do problema e um inventário dos


as várias necessidades dos jovens; programas, serviços e recursos existentes;
ii) adopção de concepções e métodos especial- b) a atribuição de responsabilidades claramente
mente adaptados à prevenção da delinquência; definidas aos organismos, instituições e pessoal
iii) uma intervenção oficial cuja finalidade pri- envolvidos em acções de prevenção;
mordial seja velar pelo interesse geral do jovem e c) mecanismos de coordenação das acções de
seja guiada pela justiça e equidade; prevenção entre organismos governamentais e
iv) protecção do bem-estar, desenvolvimento, não governamentais;
direitos e interesses de todos os jovens; d) políticas, programas e estratégias baseados
v) consideração de que o comportamento ou em estudos de prognóstico, os quais devem ser
conduta dos jovens, que não é conforme às normas constantemente vigiados e cuidadosamente ava-
e valores sociais gerais, faz muitas vezes parte do liados durante a sua aplicação;
processo de maturação e crescimento, e tende a e) métodos para reduzir eficazmente as opor-
desaparecer espontaneamente, na maior parte dos tunidades de se cometerem actos delinquentes;
indivíduos, na transição para a idade adulta; f ) envolvimento da comunidade através de um
vi) a consciência de que rotular um jovem conjunto de serviços e programas;
como «desviante» ou «delinquente» contribui, g) estreita cooperação entre os diversos
muitas vezes, para o desenvolvimento pelos níveis de Governo, o sector privado, cidadãos
jovens de um padrão consistente de comporta- representativos da comunidade em causa,
mento indesejável. organismos responsáveis pela prestação de cui-
dados à criança e agências responsáveis pela
f ) deveriam ser desenvolvidos serviços e pro- aplicação da lei, assim como instâncias judi-
gramas de base comunitária para a prevenção da ciais, para o desenvolvimento de acções con-
delinquência juvenil. certadas com vista à prevenção da delinquência
juvenil;
610. A PARTE II (ÂMBITO DOS PRINCÍPIOS ORIEN- h) participação da juventude nas políticas e pro-
TADORES) contém os parágrafos 7 e 8, nos termos cessos de prevenção da delinquência, incluindo o
dos quais: recurso à auto-ajuda juvenil e a programas de
indemnização e assistência às vítimas;
a) os Princípios Orientadores devem ser inter- i) recrutamento de pessoal especializado a
pretados e aplicados no quadro da Declaração Uni- todos os níveis.
versal dos Direitos do Homem, e de outros
instrumentos, incluindo o Pacto Internacional 612. A PARTE IV (PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO)
sobre os Direitos Civis e Políticos, a Convenção contém 35 parágrafos sob as rubricas “Família”,
sobre os Direitos da Criança e as Regras Mínimas “Educação”, “Comunidade” e “Meios de comu-
das Nações Unidas para a Administração da Justiça nicação social”. Deve ser atribuída especial
de Menores; importância às políticas de natureza preventiva
b) os Princípios Orientadores devem ser igual- que facilitam a socialização e a integração bem
mente aplicados no contexto das condições eco- sucedidas de todas as crianças e jovens. Estas
nómicas, sociais e culturais prevalecentes em cada linhas de orientação, que se revestem de particular
Estado membro. relevância para os agentes e organismos respon-

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* 161
sáveis pela aplicação da lei, podem ser assim b) A colocação de jovens em instituições deve ser
resumidas: uma medida de último recurso e deve durar o
mínimo período de tempo necessário;
a) Família: c) Os programas de prevenção da delinquência
• Cada sociedade deve atribuir uma elevada prio- juvenil devem ser planeados e desenvolvidos com
ridade às necessidades e ao bem-estar da família. base em conclusões fiáveis de investigações cien-
b) Educação: tíficas e periodicamente vigiados, avaliados e ajus-
• Os jovens e as suas famílias devem ser informados tados de acordo com as mesmas;
sobre a legislação e sobre os seus direitos e res- d) Deve ser distribuída informação científica aos
ponsabilidades nos termos da lei, bem como sobre profissionais e ao público em geral sobre os tipos
o sistema de valores universais, nomeadamente de comportamento ou situações que indiciam ou
sobre os instrumentos das Nações Unidas. podem vir a resultar em vitimização física e psi-
• Deve ser atribuída uma atenção especial às polí- cológica, maus tratos e abuso, bem como na explo-
ticas e estratégias globais para a prevenção do ração dos jovens;
abuso de álcool, drogas e outras substâncias por e) Os Governos devem começar ou continuar a
parte dos jovens; explorar, elaborar e aplicar medidas e estratégias,
c) Comunidade: dentro e fora do sistema de justiça penal, para
• Os serviços e programas de base comunitária prevenir a violência no seio da família de que as
que respondem às necessidades especiais, pro- crianças são vítimas e assegurar-lhes um trata-
blemas, interesses e preocupações dos jovens e mento justo.
que oferecem aconselhamento e orientação ade-
quados aos jovens devem ser desenvolvidos, ou 614. A PARTE VI (LEGISLAÇÃO E ADMINISTRA-
reforçados; ÇÃO DA JUSTIÇA JUVENIL) compreende oito pará-
• Devem ser criadas instalações especiais, de grafos, alguns dos quais contêm disposições
forma a proporcionar alojamento adequado aos relativas à aplicação da lei ou, de uma forma ou
jovens que já não possam continuar a viver em casa, outra, com relevo para o pessoal da polícia. As
ou que não disponham de habitação; regras enunciadas podem ser resumidas da
• Devem ser estabelecidos serviços e medidas de seguinte forma:
auxílio para lidar com as dificuldades dos jovens.
Estes serviços devem incluir programas especiais a) os governos devem adoptar e aplicar leis e
para os jovens toxicodependentes, que atribuam procedimentos visando a promoção e protecção
especial importância ao tratamento, aconselha- dos direitos e bem-estar de todos os jovens;
mento e assistência. b) devem adoptar e aplicar uma legislação que
• As agências governamentais devem assumir proíba os maus tratos e exploração contra as crian-
uma responsabilidade especial em relação às ças e jovens, bem como a sua utilização para a
crianças sem abrigo ou aos meninos da rua. prática de actividades criminais;
Devem ser prontamente postas à disposição dos c) nenhuma criança ou jovem deve ser subme-
jovens informações sobre instalações, alojamento, tido a medidas de correcção ou castigos duros ou
emprego e outras formas e fontes de assistência. degradantes em casa, nas escolas ou quaisquer
outras instituições;
613. A PARTE V (POLÍTICA SOCIAL) contém sete d) deve ser encorajada a adopção e aplicação de
parágrafos. Aqueles que se revestem de impor- legislação destinada a restringir e controlar o
tância para os agentes e organismos responsáveis acesso a qualquer tipo de armas, por qualquer
pela aplicação da lei podem ser assim resumidos: criança ou jovem;
e) com vista a prevenir qualquer estigmatiza-
a) As agências governamentais devem atribuir ção, vitimização e criminalização dos jovens, deve
especial prioridade aos planos e programas desti- ser adoptada legislação que assegure que uma con-
nados aos jovens. duta não considerada como crime quando come-

162
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
tida por um adulto, não seja penalizada quando Aplicação das Regras”, “Jovens sob Detenção ou que
cometida por um jovem; Aguardam Julgamento”, “A Administração dos
f ) o pessoal de administração da justiça de Estabelecimentos de Menores” e “Pessoal”.
ambos os sexos deve ser formado para responder
às necessidades especiais dos jovens e estar fami- 617. Este instrumento é aplicável a todos os tipos
liarizado e usar as possibilidades e programas e formas de estabelecimentos e instituições, nos
alternativos que permitam subtrair os jovens ao sis- quais existem jovens privados da sua liberdade. Con-
tema judiciário; tudo, o essencial das suas disposições diz respeito
g) deve ser adoptada e estritamente aplicada legis- às instituições onde os jovens são detidos por um
lação para proteger as crianças e os jovens contra o longo período de tempo, tendo em vista o seu tra-
consumo de drogas e o tráfico de estupefacientes; tamento e readaptação, e não a detenção nas
esquadras de polícia. A detenção dos jovens pela
615. A PARTE VII (INVESTIGAÇÃO, ELABORAÇÃO DE polícia tem normalmente uma curta duração e é
POLÍTICAS E COORDENAÇÃO) contém sete pará- realizada por razões ligadas com a protecção ime-
grafos. Aqueles que dizem respeito às pessoas e diata do jovem ou com a investigação criminal.
organismos responsáveis pela aplicação da lei
podem resumir-se da seguinte forma: 618. Os princípios e disposições que se revelam de
interesse para os funcionários responsáveis pela
a) Devem ser desenvolvidos esforços e estabe- aplicação da lei ou que se revestem de maior
lecidos mecanismos para promover a interacção e importância no tratamento de jovens detidos pela
coordenação entre entidades e serviços económi- polícia são considerados infra.
cos, sociais, educativos e de saúde, o sistema judi-
ciário, os organismos para a juventude, os 619. A SECÇÃO I (PERSPECTIVAS FUNDAMENTAIS)
organismos comunitários e de desenvolvimento e contém 10 regras, podendo ser resumidas da
outras instituições relevantes. seguinte forma aquelas que se revestem de impor-
b) A troca de informações, experiência e conhe- tância para os casos de detenção pela polícia:
cimentos técnicos, obtidos através de projectos,
programas e iniciativas relativas à criminalidade a) O sistema de Justiça de Menores deverá
juvenil, à prevenção da delinquência e à justiça de garantir os direitos e a segurança, e promover o
menores, deve ser intensificada, a nível nacional, bem-estar físico e mental dos jovens.
regional e internacional. b) A privação de liberdade de um jovem deve ser
c) A cooperação regional e internacional em maté- uma medida de último recurso e deve ser tomada
ria de criminalidade juvenil, prevenção da delin- pelo período mínimo necessário;
quência e justiça juvenil que envolva práticos, peritos c) As Regras devem ser aplicadas de forma
e pessoas responsáveis pela tomada de decisões na imparcial, sem discriminação de qualquer espécie
matéria, deve ser desenvolvida e fortalecida. quanto à raça, cor, sexo, língua ou religião. As
d) Deve ser encorajada a colaboração na realização crenças religiosas, as práticas culturais e os con-
de trabalhos de investigação sobre as modalidades ceitos morais dos jovens devem ser respeitados.
eficazes de prevenção do crime e da delinquência d) Os jovens que não sejam fluentes na língua falada
juvenis, devendo os resultados de tais investigações pelo pessoal do estabelecimento de detenção devem
ser amplamente difundidos e avaliados. ter direito aos serviços gratuitos de um intérprete.

[iii] Regras das Nações Unidas para a Protecção 620. A SECÇÃO II (ÂMBITO E APLICAÇÃO DAS
dos Menores Privados de Liberdade REGRAS) contém seis regras, a primeira das quais
compreende as seguintes definições:
616. Estas Regras são enunciadas num instru-
mento detalhado de 87 regras contidas em cinco a) Menor é qualquer pessoa que tenha menos de 18
secções: “Perspectivas Fundamentais”, “Âmbito e anos. A idade limite abaixo da qual não deve ser per-

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* 163
mitido privar uma criança de liberdade deve ser fixada d) Os detidos que aguardam julgamento devem
por lei; estar separados dos jovens condenados.
b) Privação de liberdade significa qualquer forma de e) Os jovens devem ter direito aos serviços de
detenção, de prisão ou a colocação de uma pessoa, por um advogado e poder requerer assistência judi-
decisão de qualquer autoridade judicial, administrativa ciária gratuita, quando essa assistência esteja dis-
ou outra autoridade pública, num estabelecimento ponível.
público ou privado do qual essa pessoa não pode sair f ) Os jovens devem poder comunicar regular-
por sua própria vontade. mente com os seus conselheiros jurídicos, em
condições de privacidade e confidencialidade.
621. As restantes regras podem ser assim sinteti- g) Os jovens devem dispor de oportunidades de
zadas: efectuar um trabalho remunerado, e de continuar
a sua educação e formação profissional, mas não
a) A privação da liberdade deve ser efectuada lhes deve ser exigido que o façam.
em condições e circunstâncias que assegurem o res- h) O trabalho, os estudos ou a formação profis-
peito pelos direitos humanos dos jovens. sional não devem causar a continuação da deten-
b) Os jovens privados de liberdade não devem, ção.
por força do seu estatuto de detidos, ser privados i) Os jovens podem receber e guardar materiais
dos direitos civis, económicos, políticos, sociais para os seus tempos livres e recreio, na medida em
ou culturais dos quais se possam prevalecer. que tal seja compatível com os interesses da admi-
c) A protecção dos direitos individuais dos nistração da justiça.
jovens, com especial relevância para a legalidade j) Os jovens que ainda não tenham sido sujei-
da execução das medidas de detenção, deve ser tos a julgamento devem beneficiar de todas as
assegurada pela autoridade competente. outras disposições tidas por necessárias e apro-
d) As Regras aplicam-se a todos os tipos e for- priadas, em função da presunção de inocência, da
mas de instituições de detenção, através dos quais duração da detenção, da sua situação legal e das cir-
os jovens se encontrem privados de liberdade. cunstâncias do jovem.
e) As Regras serão aplicadas no contexto das
condições económicas, sociais e culturais existen- 623. A S ECÇÃO IV (A A DMINISTRAÇÃO DOS
tes em cada Estado membro. E STABELECIMENTOS DE M ENORES ) contém 62
regras detalhadas, subdivididas em 14 rubricas
622. A SECÇÃO III (MENORES SOB DETENÇÃO OU intituladas: Registos, “Admissão, registo, movi-
QUE AGUARDAM JULGAMENTO) contém duas mento e transferência”, “Classificação e coloca-
regras, que reafirmam a presunção de inocência das ção”, “Ambiente físico e alojamento”, “Educação,
pessoas acusadas, as quais ainda aguardam julga- formação profissional e trabalho”, “Recreio”,
mento. As disposições destas duas regras podem “Religião”, “Cuidados médicos”, “Notificação de
ser assim sintetizadas: doença, acidente ou morte”, “Contactos com o
exterior”, “Limitações à coacção física e ao uso da
a) Os jovens que estão detidos preventivamente força”, “Processos disciplinares”, “Inspecção e
ou que aguardam julgamento («não julgados») queixas” e “Regresso à comunidade”.
presumem-se inocentes e serão tratados como tal.
b) A detenção antes do julgamento deve ser evi- 624. A Secção IV enuncia as regras aplicáveis aos
tada, na medida do possível, e limitada a circuns- casos de jovens detidos por um longo período
tâncias excepcionais. para fins de tratamento ou de reabilitação, não
c) No entanto, quando se recorrer à detenção dizendo directamente respeito ao tratamento de
preventiva, os tribunais de menores e os órgãos de jovens em esquadras de polícia. No que concerne
investigação tratarão esses casos com a maior às normas aplicáveis a estes últimos, faremos
urgência, a fim de assegurar a mínima duração pos- referência ao capítulo XII do Manual, relativo à
sível da detenção. detenção, bem como às disposições pertinentes dos

164
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
instrumentos examinados no presente capítulo 630. Em virtude do artigo 2. o, os Estados Par-
– por exemplo aquelas que dizem respeito aos tes comprometem-se a garantir os direitos
jovens presos ou aguardando julgamento, expos- enunciados na Convenção a todas as crianças
tas no parágrafo 622. que se encontrem sujeitas à sua jurisdição, sem
distinção alguma, independentemente de qual-
625. É, no entanto, importante colocar ênfase quer consideração de raça, cor, sexo, língua ou
numa disposição específica da secção IV destas religião.
Regras, a saber a regra 56, nos termos da qual a
família ou o tutor dos jovens deve ser avisado ime- 631. O artigo 3.o dispõe que, em todas as decisões
diatamente: relativas a crianças adoptadas por instituições
públicas ou privadas de protecção social, por tri-
a) em caso de morte do jovem detido; bunais, autoridades administrativas ou órgãos
b) em caso de doença que exija a transferên- legislativos, o interesse superior da criança será tido
cia do jovem para um estabelecimento médico primacialmente em conta.
exterior;
c) se o estado de saúde do jovem obrigar a cui- 632. As matérias tratadas na Convenção que
dados na enfermaria do estabelecimento, por um dizem respeito às pessoas e organismos respon-
período superior a 48 horas. sáveis pela aplicação da lei podem ser classificadas
sob as rubricas «Protecção dos direitos», «Protec-
626. A SECÇÃO V (PESSOAL) inclui sete artigos ção contra a exploração» e «Protecção das crianças
detalhados relativos às qualificações, à selecção, à em situações especiais». As disposições em causa
formação e ao comportamento do pessoal das ins- encontram-se resumidas infra.
tituições especializadas no tratamento e readapta-
ção de jovens. Protecção dos direitos
633. Nos termos do artigo 6.o da Convenção, os
[iv] Convenção sobre os Direitos Estados Partes reconhecem que toda a criança tem
da Criança um direito inerente à vida e asseguram, na medida
do possível, a sobrevivência e o desenvolvimento
627. Este importante instrumento é composto por da criança.
54 artigos que prevêem uma protecção completa
da criança. 634. O artigo 8.o enuncia o direito da criança a
preservar a sua identidade, incluindo a sua nacio-
628. O preâmbulo da Convenção: nalidade, nome e relações familiares, nos termos
da lei e sem ingerência ilegal.
a) recorda que a Declaração Universal dos Direi-
tos do Homem proclamou que a infância tem 635. O artigo 12.o obriga os Estados a garantirem
direito a uma ajuda e assistência especiais; à criança com capacidade de discernimento o
b) reconhece que em todos os países do mundo, direito de exprimir livremente a sua opinião sobre
há crianças que vivem em condições particular- as questões que lhe digam respeito. Para este fim,
mente difíceis e que importa assegurar uma aten- deve ser nomeadamente dada à criança a possibi-
ção especial a essas crianças. lidade de ser ouvida nos processos judiciais que lhe
interessem, seja directamente, seja através de um
629. Nos termos do artigo primeiro da Convenção representante.
deve ser considerado como criança
636. O artigo 13.o enuncia o direito à liberdade de
[…] todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos expressão, que inclui a liberdade de procurar, rece-
termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade ber e expandir informações e ideias de toda a espé-
mais cedo. cie, sem considerações de fronteiras, sob forma oral,

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* 165
escrita, impressa ou artística ou por qualquer acusada ou que comprovadamente infringiu a lei
outro meio à escolha da criança. penal, o direito a um tratamento:

637. O artigo 14.o protege o direito da criança à liber- a) que seja capaz de favorecer o seu sentido de
dade de pensamento, de consciência e de religião. dignidade e valor;
Os pais ou o tutor têm o direito de orientar a b) que reforce o seu respeito pelos direitos huma-
criança no exercício deste direito. nos e as liberdades fundamentais de terceiros;
c) que tenha em conta a sua idade e a necessi-
638. O artigo 15.o enuncia o direito à liberdade de dade de facilitar a sua reintegração social e o assu-
associação e à liberdade de reunião pacífica. mir de um papel construtivo no seio da sociedade.

639. O artigo 16.o protege as crianças contra as Protecção contra a exploração


intromissões arbitrárias ou ilegais na sua vida pri- 643. O artigo 19.o estipula que os Estados devem
vada, família, domicílio ou correspondência, e adoptar todas as medidas legislativas, administra-
ainda contra ofensas ilegais à sua honra e reputa- tivas, sociais e educativas apropriadas para prote-
ção. A criança tem direito à protecção da lei con- ger a criança contra qualquer forma de:
tra tais intromissões ou ofensas.
a) violência física ou mental;
640. O artigo 30.o
refere que, nos Estados onde b) dano ou sevícia;
existam minorias étnicas, religiosas ou linguísticas c) abandono ou tratamento negligente;
ou pessoas de origem indígena, as crianças de ori- d) maus tratos ou exploração;
gem indígena ou pertencentes a uma destas mino- e) violência sexual, enquanto se encontrar sob a
rias não poderão ser privadas do direito a uma vida guarda dos seus pais ou de um deles, dos repre-
cultural própria, a professar e praticar a sua própria sentantes legais ou de qualquer outra pessoa a
religião ou de utilizar a sua própria língua em cuja guarda haja sido confiada.
comum com os outros membros do seu grupo.
644. Estas medidas de protecção devem incluir os
641. O artigo 37.o
contém quatro parágrafos nos ter- procedimentos para fins de identificação, elaboração
mos dos quais: de relatórios, transmissão e investigação, bem
como processos de intervenção judicial.
a) as crianças são protegidas contra a tortura e
outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou 645. O artigo 32.o dispõe que os Estados protegem
degradantes, não podendo ser condenadas nem à as crianças contra a exploração económica e que
pena capital nem à prisão perpétua; devem tomar as medidas legislativas, administra-
b) a prisão ilegal ou arbitrária é proibida; tivas, sociais e educativas necessárias para atingir
c) as crianças devem ser tratadas com humani- esses fins.
dade, com o respeito devido à dignidade da pessoa
humana e de forma consentânea com as necessi- 646. O artigo 33.o dispõe que os Estados devem
dades das pessoas da sua idade. A criança privada tomar as medidas legislativas, administrativas,
de liberdade deve ser separada dos adultos e tem sociais e educativas necessárias para:
o direito de manter o contacto com a sua família;
d) as crianças privadas de liberdade têm o direito a) proteger as crianças contra a utilização ilícita
de aceder rapidamente à assistência jurídica ou a qual- de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas;
quer outra assistência adequada, como o direito de b) evitar a utilização de crianças na produção e
impugnar a legalidade da sua privação de liberdade. tráfico ilegais de tais substâncias.

642. O artigo 40.o impõe aos Estados a obrigação 647. O artigo 34.o estipula que os Estados devem
de reconhecerem, a qualquer criança suspeita, proteger as crianças contra todas as formas de

166
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
exploração e violência sexuais. Para atingir este beneficie de adequada protecção e assistência
fim serão adoptadas medidas para evitar: humanitária, de forma a permitir o gozo dos direi-
tos reconhecidos pela Convenção e por outros ins-
a) que as crianças sejam incitadas ou coagidas trumentos internacionais relativos aos direitos
a dedicarem-se a uma actividade sexual ilícita; humanos ou de carácter humanitário.
b) que as crianças sejam exploradas para fins
de prostituição ou outras práticas sexuais ilegais; 652. O artigo 35.o diz respeito ao rapto, venda ou
c) que as crianças sejam exploradas para fins tráfico de crianças e solicita aos Estados que
de produção de espectáculos ou materiais de carác- tomem todas as medidas apropriadas nos planos
ter pornográfico. nacional, bilateral e multilateral para evitar tais
abusos.
648. O artigo 36.o requer aos Estados que protejam
as crianças contra todas as formas de exploração 653. O artigo 38.o prende-se com os conflitos
prejudiciais a qualquer aspecto do seu bem-estar. armados e impõe aos Estados que respeitem e
façam respeitar as regras do direito internacional
Protecção das crianças em situações humanitário aplicáveis às crianças. Os Estados
especiais devem, em particular:
649. O artigo 9.o diz respeito à separação das
crianças dos seus pais, e exige que os Estados asse- a) tomar todas as medidas pos-
N.T.1
Foi entretanto adoptado,
a 25 de Maio de 2000, pela
gurem que as crianças não sejam separadas dos síveis na prática para garantir que Assembleia Geral das
Nações Unidas, o Protocolo
seus pais contra a sua vontade, a menos que as auto- nenhuma criança com menos de Facultativo à Convenção
sobre os Direitos da
ridades competentes decidam que esta separação 15 anos participe directamente Criança, relativo ao Envolvi-
mento de Crianças em Con-
é necessária de acordo com o interesse superior da nas hostilidadesN.T.1; flitos Armados, que
aumenta a idade para
criança, sob reserva de revisão judiciária e em con- b) abster-se de incorporar nas a participação de crianças
em conflitos armados de 15
formidade com a legislação e procedimentos apli- forças armadas as pessoas que para 18 anos.o Noso termos
do artigo 10. , n. 1, o Pro-
cáveis. não tenham a idade de 15 tocolo entrará em vigor três
meses após o depósito do
anosN.T.2; décimo instrumento de rati-
ficação.
650. Nos casos em que a separação é resultado das c) nos termos das obrigações N.T.2
O mesmo Protocolo
medidas adoptadas por um Estado, tais como a contraídas à luz do direito inter- Facultativo à Convenção
sobre os Direitos da Criança
detenção, a prisão, o exílio, a expulsão ou a morte nacional humanitário para a fixa a idade mínima para
o recrutamento obrigatório
de um ou de ambos os pais ou da própria criança, protecção da população civil em em 18 anos (artigo 2.o)
e exige aos Estados Partes
o preceito obriga o Estado, se tal lhe for solicitado, caso de conflito armado, os que aumentem a idade
mínima para o recruta-
a dar aos pais, à criança ou a outro membro da famí- Estados Partes na presente Con- mento voluntário «em
anos» (artigo 3.o, n.o 1).
lia as informações essenciais sobre o paradeiro do venção devem tomar todas as
membro ou membros ausentes da família, a medidas possíveis na prática para assegurar pro-
menos que a divulgação destas informações seja tecção e assistência às crianças afectadas por um
prejudicial ao bem-estar da criança. conflito armado.

651. O artigo 22.o diz respeito aos refugiados e [v] Regras Mínimas das Nações Unidas
solicita aos Estados que adoptem medidas apro- para a Elaboração de Medidas não Privativas
priadas para que uma criança: de Liberdade (Regras de Tóquio)

a) que requeira o estatuto de refugiado, ou 654. As Regras de Tóquio são enunciadas num
b) que seja considerada refugiado, de harmonia instrumento detalhado composto por 23 artigos
com as normas e processos de direito internacio- repartidos por oito rubricas intituladas: «Princípios
nal ou nacional aplicáveis, quer se encontre só, gerais», «Antes do processo», «Processo e conde-
quer acompanhada de seus pais ou de qualquer nação», «Aplicação das penas», «Execução das
outra pessoa, medidas não privativas de liberdade», «Pessoal»,

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* 167
«Voluntariado e outros recursos da colectividade» recurso a medidas não privativas da liberdade,
e «Pesquisa, planificação, elaboração das políticas bem como a garantias mínimas para as pessoas sub-
e avaliação». metidas a medidas de substituição da prisão. O pre-
ceito dispõe que as Regras se aplicam de acordo com
655. As Regras assentam na ideia de que as medi- a situação política, económica, social e cultural de
das de substituição da prisão podem ser um meio cada país e tendo em conta os fins e objectivos do
eficaz de tratar os delinquentes no seio da colec- seu sistema de justiça penal.
tividade, consentâneo com o interesse superior
dos delinquentes e da sociedade. 660. Os Estados devem esforçar-se por aplicar as Regras
de forma a que se verifique um equilíbrio justo entre:
656. Apesar das Regras se aplicarem simultanea-
mente aos delinquentes adultos e aos jovens, é a) os direitos dos delinquentes;
particularmente importante estudá-las em relação b) os direitos das vítimas, e
aos delinquentes juvenis, à luz dos princípios e dis- c) as preocupações da sociedade em relação à
posições enunciados nos instrumentos examina- segurança pública e à prevenção do crime.
dos supra. Eis alguns exemplos:
661. O artigo 2.o dispõe que as Regras se aplicam
a) Os jovens privados de liberdade são parti- a todas as pessoas que sejam alvo de um processo
cularmente expostos às sevícias, à vitimização e à judiciário, de um julgamento ou da execução de
violação dos seus direitos. uma sentença, em todas as fases da administração
b) A colocação de jovens numa instituição deve da justiça penal. Para os fins das referidas Regras
ser uma medida de último recurso tomada pelo estas pessoas são designadas «delinquentes»,
mínimo período de tempo necessário. independentemente do facto de se tratar de sus-
c) Devem ser evitados os processos penais e as peitos, acusados ou condenados.
sanções contra uma criança que tenha tido uma con-
duta delituosa. 662. As Regras aplicam-se sem qualquer tipo de dis-
d) Sempre que seja possível, os jovens deveriam criminação fundada nos motivos habituais, tais
ser subtraídos aos processos judiciários e ser enca- como a raça, a cor, o sexo, a idade ou a religião.
minhados para os serviços de apoio comunitário.
e) Em todas as fases do processo da justiça juve- 663. O artigo 2.o exige igualmente que seja consi-
nil, a autoridade competente deve poder exercer um derado o tratamento dos delinquentes no seio da
poder discricionário apropriado. comunidade, evitando na medida do possível o
f ) A polícia e as outras instituições deveriam recurso a um processo judiciário ou aos tribunais,
estar habilitadas a resolver as matérias de que se no respeito pelas garantias jurídicas e pelos prin-
ocupam sem aplicar o processo penal oficial. cípios subjacentes a um Estado de Direito.

657. As disposições enunciadas nas Regras relati- 664. O artigo 3.o enuncia as garantias jurídicas
vas à polícia e às suas funções na administração da destinadas a assegurar o respeito pela legalidade,
justiça juvenil são resumidas infra. a proteger os direitos do delinquente, a sua dig-
nidade, segurança e vida privada, quando são con-
658. Os artigos relativos aos «Princípios gerais» sideradas ou aplicadas medidas não privativas da
dizem respeito aos objectivos fundamentais, ao liberdade. Em particular:
campo de aplicação das medidas não privativas de
liberdade e às garantias jurídicas. a) A escolha da medida não privativa da liberdade
baseia-se na avaliação da natureza e da gravidade
659. O artigo primeiro enuncia os objectivos fun- do delito, da personalidade e dos antecedentes do
damentais do instrumento, a saber formular uma delinquente, do objecto da condenação e dos direi-
série de princípios de base que visam favorecer o tos das vítimas.

168
* Direitos Humanos e Aplicação da Lei • Série de Formação Profissional n.º 05 [ACNUDH]
b) As medidas não privativas da liberdade que policiais estão envolvidos na supervisão de medi-
acarretem uma obrigação para o delinquente, e das não privativas da liberdade.
que sejam aplicáveis antes ou em vez do processo,
requerem o consentimento do delinquente. 670. Os artigos da rubrica «Pessoal» prendem-se
com o recrutamento e a formação e os artigos da
665. Os artigos relativos à «Fase anterior ao pro- rubrica «Voluntariado e outros recursos da colec-
cesso» dizem respeito às medidas que podem ser tividade» tratam da participação da colectividade,
adoptadas antes do processo e aos meios de evitar da compreensão e cooperação por parte do público
a detenção provisória. e finalmente dos voluntários.

666. O artigo 5.o exige que a polícia, o Ministério 671. Nos artigos da rubrica «Pesquisa, planificação,
Público ou os outros serviços com competências elaboração das políticas e avaliação» é sublinhada,
em matéria de justiça penal estejam habilitados a inter alia, a importância de que se revestem:
retirar as acusações contra o delinquente, desde que
tal seja apropriado e compatível com o sistema a) a pesquisa sobre os problemas que enfrentam
jurídico e se considerarem não ser necessário ter os indivíduos em causa, os práticos a comunidade
recurso a um processo judiciário para os fins de: e os responsáveis (artigo 20.o, n.o 2);
b) as avaliações regulares para que a aplicação das
a) protecção da sociedade: medidas não privativas de liberdade seja mais efi-
b) prevenção do crime; caz (artigo 21.o, n.o2);
c) promoção do respeito pela lei e pelos direitos c) a ligação entre os serviços responsáveis
das vítimas. pelas medidas não privativas da liberdade, os
outros sectores do sistema de justiça penal e os
Cada sistema jurídico fixará critérios para determinar organismos de desenvolvimento e de protecção
se é conveniente retirar as acusações contra o delin- social (artigo 22.o).
quente ou para decidir qual o processo a seguir.

667. Nos termos do artigo 6.o, a detenção provisória 3. CONCLUSÕES


só poderá constituir uma medida de último
recurso nos processos penais, tendo devidamente 672. O número e a diversidade das normas inter-
em conta o inquérito sobre a presumível infracção nacionais relativas aos jovens demonstram a
e a protecção da sociedade e da vítima. importância que se atribui à sua protecção e à pre-
venção da delinquência juvenil.
668. Os artigos da rubrica «Processo e condena-
ção» dizem respeito aos relatórios de inquéritos 673. Todos os funcionários policiais devem estar ao
sociais e às penas, e os artigos da rubrica «Apli- corrente das boas práticas – tais como se encontram
cação das penas» contêm disposições relativas à consagradas nas normas internacionais – neste
aplicação das penas. Trata-se de processos nos domínio. Os funcionários policiais que estão mais
quais a polícia habitualmente não intervém direc- especialmente encarregues da protecção dos jovens
tamente. ou que lidam com delinquentes juvenis devem ter
um perfeito domínio destas boas práticas.
669. Os artigos da rubrica «Execução das medi-
das não privativas da liberdade» prendem-se com 674. Certos serviços de polícia adquiriram uma
a vigilância, duração das medidas não privativas da grande competência técnica no que diz respeito aos
liberdade, tratamento, disciplina e desrespeito cuidados e à protecção a prestar aos jovens, e os res-
pelas condições de tratamento. Apesar de não ser ponsáveis da polícia que pretendem melhorar o fun-
habitual que a polícia esteja directamente envolvida cionamento dos seus serviços deviam recorrer a
nestes processos, em certas jurisdições os agentes estas competências.

Grupos necessitados de protecção especial ou t ratamento distinto


* 169
675. Existem diversas maneiras de um Estado públicos têm todo o interesse em assegurar que
conformar às exigências enunciadas nas nor- os jovens são tratados em conformidade com
mas internacionais, de forma a respeitar as suas estas normas.
características sociais e culturais. Os poderes

b. Normas internacionais sobre polícia e protecção de jovens – Aplicação prática

1. MEDIDAS PRÁTICAS PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS

}
Recomendações destinadas • Receber uma formação especializada sobre o tratamento e cuidados efi-
a todo