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Introdução

Os fungos são organismos diversos pertencentes ao reino Fungi, estima-se que exista
69.000 espécies descritas. São seres eucariontes, unicelulares ou multicelulares,
possuem a parede celular a base de quitina, membrana plasmática composta por
ergosterol. Os primeiros estudos morfológicos assemelhavam os fungos com as
plantas, entretanto há diversos pontos divergentes entre esses. O produto de reserva
de carboidrato dos fungos é o glicogênio, são seres heterotróficos, não
fotossintetizantes e que realizam a reprodução por meio de esporos.

Morfologicamente um fungo é formado pelo talo que é composto por um filamento de


hifas, o que justifica a ubiquidade desses organismos, pois qualquer fragmento já é
capaz de produzir um ponto de crescimento e assim produzir outro organismo. Outro
fator que intensifica o caráter ubíquo é a alta capacidade dos fungos utilizam diversas
fontes de carbono orgânico como alimento, por meio da absorção. O crescimento
fúngico depende também da umidade, da temperatura, do pH, da oferta ou não de
oxigênio, além da disponibilidade nutricional.

Macroscopicamente, os fungos podem se associar e formar estruturas típicas


colônias: filamentosas (figura1) e leveduriforme (figura 2). A colônia filamentosa,
também chamada de bolor são compostas por fungos pluricelulares, geralmente
aeróbicos, são menos exigentes em relação ao meio de cultura e diferenciados pelos
micélios. Destacam-se dos bolores o fungo toxigênico Claviceps purpurea e
Penicillium sp., utilizado pela indústria alimentícia e farmacêutica.
Já as leveduras são fungos unicelulares, não filamentosos e necessitam de uma meio
de cultura mais rico em nutrientes e temperatura controlada para seu crescimento.
Além disso, praticam em larga escala da fermentação produzindo álcool. Alguns
gêneros importantes são Candida sp e Crytococcus sp.

Figura 1: Colônia Filamentosa, também chamado de bolor. Figura 2: Colônia Levedura. Fonte:
Departamento de Biologia da UFMG

Infecções Fúngicas
Os fungos estão presentes em diversos processos industriais e cotidianos, como na
fabricação de alimentos e bebidas alcoólicas, na agricultura, na síntese de
medicamentos, uso recreativo de propriedades alucinógenas, no setor de cosméticos.
Muitas espécies também são relevantes clinicamente por desencadear patologias nos
animais e plantas. Aos seres humanos, os fungos causam infecções fúngicas
(micoses) locais e sistêmicas tanto em indivíduos imunocompetentes e
imunocomprometidos. Primeiramente, pode-se dividir os fungos em patogênicos
primários que são capazes de invadir tecidos de um hospedeiro hígido e provocar
alterações clínicas. Já os oportunistas acometem hospedeiros com sistema
imunológico debilitado e descompensado.
Os fungos patogênicos causam micoses que podem ser classificadas em 4 grupos:
● Micoses superficiais: o fungo invade as camadas superficiais do corpo, como
as córneas ou haste de pelos. Tais como piedra Negra, pitiríase versicolo e
tinha negra;
● Micoses cutâneas: o fungo invade tecidos queratinizados como pele, pelo e
unha. São exemplos a dermatofitose, candidose, hialohifomicose;
● Micoses subcutâneas: o fungo necessita de um implante traumático para
invadir tecidos cutâneos e subcutâneos. Estão dentro dessa classificação a
cromoblastomicose, lobomicose, feo-hifomicose, micetoma, zigomicose;
● Micose sistêmica: o fungo invade diversos sítios anatômicos, sendo o pulmonar
o principal colonizado. Pode-se citar a blastomicose, histoplasmose e
coccidiodomicose.
Cada micose citada apresenta seus próprios agentes etiológicos, manifestações
clínicas, patogenia e principais formas de infecção.
Nas micoses superficiais, o contágio com o patógeno é direto. Alterações bioquímicas
e fisiológicas na pele ou secreções, desencadeadas por fatores genéticos e
ambientais tornam indivíduos hígidos vulneráveis. Algumas condições podem
contribuir como alterações neuropsicológicas, aumento de secreção de ácidos
graxos, comorbidades crônicas, elevação sérica do cortisol, hipovitaminose e uso de
substâncias externas e falta de higiene pessoal.
A Ptiríase versicolor, também chamada popularmente de pano branco, é uma micose
superficial comum que provoca manchas brancas, acastanhadas ou vermelhas que
ao serem expostas ao sol percebe a incapacidade de produção de melanina na área
afetada. Os locais mais frequentes são os quais há maior oleosidade como a face,
couro cabeludo e pescoço.

As micoses cutâneas envolvem apenas a epiderme e seus anexos (cabelo e unhas),


são conhecidas como dermatomicoses transmitidas por contato direto e também com
objetos infectados.A candidose é uma dermatofitose comum e compreende a
presença de placas brancas associadas a mucosa bucal lembrando o aspecto de leite
coalhado.
As micoses subcutâneas necessitam de um trauma primário, seguindo da
implantação direta de esporos ou fragmentos de micélio. Um exemplo é a
Cromoblastomicose assintomática na fase nodular e provocando lesões crostosas
com aspecto de couve flor nas fases mais avançadas.

Por último, as micoses sistémicas são causadas por fungos que vivem no solo, por
via inalatória provoca inicialmente a colonização do pulmão e depois de outros
órgãos. A Blastomicose ocorro por meio de infiltrado pulmonar gerando
sintomatologia característica de IVAS, como febre, mal-estar, sudorese noturna, tosse
e algia. A evolução cursa para pneumonia crônica, além de acometer outros sítios
provocando lesões ósseas, epididimais e testiculares.

Antifúngico: inibidores da síntese

Também conhecido como antimetabólito, o antifúngico que tem como modo de ação
a inibição da síntese de ácidos nucleicos mais conhecido dessa classe é a Flucitosina.
Possui efeito fungistático e fungicida sobre diversas espécies como Crytococcus
neoformans, Candida sp., Torulopsis sp. e Apergillus. Sendo portanto, indicada para
o tratamento de candidíase sistêmica, pneumopatia e meningite provocadas por
Cryptococcus neoformans
A via de administração é oral sendo bem absorvida e distribuindo amplamente pelo
plasma e sistema nervoso central. Possui meia vida de 4 horas, podendo ser
prolongada até 24 horas devido eliminação renal.

A flucitosina é captada seletivamente pelas células fúngicas por meio permeases


específicas de citosina presentes na membrana celular, dentro da célula o pró-
fármaco é metabolizado pela enzima citosina desaminase formando a 5-
fluordesoxiuridina que substitui a uracila. Dessa forma, o próximo produto formado,
ácido 5-fluorodesoxiuridílico, inibe fortemente a enzima timidilato sintase. Essa última
enzima assim inibida, não promove a biossíntese fisiológica dos nucleotídeos e
duplicação de DNA, que são vitais para o crescimento fúngico.

Figura 3: Pró fármaco Flucitosina sendo transformado em Fluoruracila.

A dose média recomendada pela bula é entre 100 a 200 mg por quilo por dia, que
devem ser administrados a cada 6 horas durante 30 a 90 dias.
Devido risco de resistência, geralmente a Flucitosina é associada à Anfotericina B
para obtenção de sinergismo sobre alguns organismos como Aspergillus e
Crytococcus. Alguns estudos apontam que tal combinação terapêutica pode
potencializar toxicidade e intolerância.
A contra-indicação absoluta é a hipersensibilidade ao princípio ativo, insuficiência
renal grave e crônica, gravidez e lactação.
Algumas reações adversas também indicadas pela bula são transtornos
gastrointestinais, náuseas, diarréia, alterações hematopoiéticas como leucopenia e
depressão da medula óssea.

Referência:

ANCOTIL: flucitosina. São Paulo: Roché quims, 2012. Bula de remédio. Disponível
em: http://www.remediopedia.com.br/bula/ancotil/

BERTRAN, G. KATZUNG. Farmacologia Básica e Clínica. 12. ed. Porto Alegre:


AMGH, 2014.

BRUNTON, Laurence L.; CHABNER, Bruce A.; KNOLLMANN, Björn C. As Bases


Farmacológicas da Terapêutica de Goodman & Gilman-12. McGraw Hill Brasil, 2012.

Esposito, E. & Azevedo, J.L. 2004. Fungos: uma introdução à biologia, bioquímica e
biotecnologia. EDUCS, Caxias do Sul, 510 p.

MURRAY, Patrick R.; ROSENTHAL, Ken S.; PFALLER, Michael A. Microbiologia


médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.

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