Você está na página 1de 18
© Gps REB: Canker. O condecimrenl> Vilinatinn (ocr pre) Mermedi CAPITULO VI ANARRATIVA LITERARIA 1, Narrativa e narratividade 1.1. A expressio. narrativa literdria refere-se 20 conjunto dos textos literérios integréveis no modo narrativo, Tal como dissemos a propésito da poesia lirica, a forma externa que os, textos narrativos apresentam nio deve ser encarada como proprie- dade modal distintiva: apesar de modernamemte, na esmagadora maioria dos casos, os textos narrativos serem enunciados em rosa, convém lembrar de novo que facto de, por exemplo, a epopeia ser formulada em verso no altera a sua condigio intrin- secamente narrativa. Por outro lado, ao circunscrevermos a carac- teriza¢io dos textos pertencentes ao modo narrativo & narrativa literéria, no ignoramos que essa caracterizacio incide apenas sobre uma certa classe de textos narrativos, de natureza essencial- mente ficclonal; por isso, eles serio designados também global- mente como ficgio narrativa, expressio que aqui se reporta abreviadamente & flegio narrativa literéria (') (0) De facto, deve terse em conta que o conjunto de textos que podem entender-te como de ficsio narrativa nio se sobrepée exactamente 20 con- junto dos textos narratives literdrios: uma anedota & um texto ficcional narrativo, mas nfo ¢ usualmente considerado um texto literrio. Nio hi diivida, porkm, de que a expressio flogio narrativa & correntemente utilzada para menclonat os excos narratives liters: romances, cantos, novels, etc 343 - © CONHECIMENTO DA LITRATURA Isto ndo significa, obviamente, que devamos alhear-nos por inteiro do significado cultural e do modo de fncionamento de ‘mumerosos textos narrativos, em varios contextos comunicatives © recorrendo a diferentes suportes expressivos. De facto," nossa cultura depende de numerosos tipos de. narrativa: romances, contos, filmes, especticulos de televisfo, mitos, anedotas, can, es, miisica, videos, bandas desenhadas, pinturas, antincios, en- saios, biografias ¢ relatos noticiosos" (?), Por outro lado, devemos ter presente também que os termos em que se fundou e desen- volveu a moderna teoria da narrativa (e particularmente a teoria semiética da narrativa ou narratologia) apontam para 2 possibi, Jidade de se extudar 2 narratividade como proceso geral que & omum a todas as narrativas enio apenas exclsivo das lterdvia () Com base no que fica dito, trataremos, desde ji, de carac terizar, em termos gerais, 0 modo narrativo e a narratividade como sua propriedade fundamental; depois disso, poderemos analisar com mais minicia certos componentes especifcos que integram a maioria dos textos narratives literdrios, (0) S. Conn e Evo M, Stns, lag Stari, A Theoretic so Nari icin, New York/London, Rouieig,1988, ps AE OA sara tern tem sido lrgazente beneficial pla ceflexio rnarratoligica,em dettimento dis narrativasnioliteritias (cf D. Cos, Nari Commit, Mineapls, Un fan Bem 199.0,756 Soe Fiction edition, Paris, Sell, 1991, pp, 65 ss). 180 no pe em causa, contudo, ® principio geral que ficow afirmado, conforme & evidenciado pot’ (ands assim) abundances estudos narratoldgicos consagrados 20 cinema, i banda esenhads, i telenovela, etc, Nos artigos relatvos a estas matéras que, em co-autoria com Ana Cristina M. Lopes, inserimos no nosso Diiondt Natl ed, Comba, Uv Ata, 199% |e, BBD) ee se uma lela do que acabamos de afrmar (ao longo deste capitulo servir-not_ semos extensivamente desta obra). Jé Gerald Prince, em A Dictonry of [Narmtlogy (Aldershot, Solar Press, 1988; 1. ed., 1987) ignora por completo aguees dominos, no Que julgemes ser uma exchsfo ijustifinds Tecentemente, no artigo sobre narratologia inserido em M, GnoDIN ¢ M. Kaswwarm: (eds), The Johns Hopkin Guide to Litemey Theory and Catan @almore/London, The Johns Hopkins Univ. Press, 1994, pp. 524.528) Prince corrigiu esta posto, : Me [TRODUGKO AOS HSTUDOS LITERARIOS 1.2, De um pondo de vista modal, os textos narratives iterérios concretizam um processo de representa¢io eminen- temente dindmica, sobretudo pela acgZo de mecanismos tempo- rais que adiante serio analisados. Ao mesmo tempo, a narrativa literdria estrutura-se em dois planos fundamentals: © plano da histéria relatada ¢ 0 plano do discurso que a relata, articulados num acto de enunciagio que é a instincia da narragio. A partir da demarcagio destes diversos nfveis — que obviamente nio devem. ser encarados como dominios isolados, mas como estratos funcio- nais em processo de interaccio -, particularizam-se categorias narrativas distribuidas por aqueles niveis de insergio: a perso- nagem, susceptivel de ser elaborada em diversos aspectos da sua existéncia ficcional; o espago e as suas diferentes modalidades de configuragio; 2 acgao e as suas variedades compositivas; 0 tempo as suas miltiplas (e complexas) virtualidades de tratamento; & perspectiva narrativa, permitindo opgdes de representago com inevitéveis projecgdes subjectivas; a pessoa (isto é, o narrador) que enuncia a narrativa, implicando relagGes de varia ordem com a histéria contada. Tal como fizemos a propésito da poesia lirica e com 0 mesmo propésito de apreendermos fundamentais propriedades modais, trataremos de observar como se desenrolz 0 processo narrativo (envolvendo, como é evidente, elementos como os que acabaram de ser mencionados) num texto particular. Trata-se do capitulo inicial do romance Cerromaior de Manuel da Fonseca, capitulo em que se descreve a situagio do protagonist, dentro de ‘uma cela, tentando compreender o que se passa & sua volta e pres- tes a evocar as circunstincias que o conduziram aquela situagio: ‘Um grito enchew a cadeia, Nam sobressato, o rapaz ergueu-se da sonoléncia em que jexia sobre a tarimba e foi até As grades. Alquebrado de torpor, a principio nada compreendeu, Viu, confusamente, 0s canteiros chelos de flores, as fcvorese, paral do jardim, o edifcio amarelado dos Pagos do Concelho. ‘Mas o grto ainda ecoava, morriaaflitoe longo. Sent os homens agiarem-se na cela comum do rés-do-chio, Perto, soltou-se uma vor Jamentosae resignada: = Cala-te, Doninha! . 345 © CoNHECIMENTO DA LITERATURA $m bulxo, de pé sobre o parapeito de uma das janeas, um homem completamente nu, mios escuras enclavinhadas nos vardes des grades, voltou & gritar. No corpo mirrado, saliente de ossos, s6 as permas avolumavam, ponteadas de buracos negros, Na cabecaealva, faces Ividas quelxo recuado, os olhos guardayam um terror de deméncia, dilatados de espanto pelo préprio grito que Ihe excanciravaa boc. (*) © que aqui pode ler-se é antes de mais, uma acco ou, se se prefer, um conjunto de breves acgdes que se sucedem: alguém que grita, o rapaz (Adriano) que se levanta, os homens que se agitam, etc. Esas acg5es decorrem 20 longo de um certo tempo e sdo vividas por determinadas personagens, cuja importincia relativa se ird definindo ao longo da narrativa, Desde jé, no entanto, é possivel notar o seguinte: uma dessas Personagens (0 rapaz que se ergue) assume um certo protago- nismo: é ele quem ouve o grito e quem, de seguida, vai as grades da cela ¢ olha um certo espago. Fsse espaco é-Ihe exterior e absorve 4 sua atengio, tal como acontece, logo depois, em relagio a uma utra personagem (Doninha), precisamente aquela que soltou um Srito. Também esta personagem Ihe & exterior, sendo-o igual- mente em relacio ao proprio narrador, entidade nio identificada ue submete ao olhar de Adriano a representagio do espaco e das acybes. Deste modo, através do ponto de vista de uma perso- nagem, o narrador procura facultar informagdes (relativas a espagos, a personagens, etc.) que vio configurando um universo acessivel ao conhecimento do destinatério. Esse universo &, como se disse, um mundo em transformagao; as acges aqui referidas traduzem mudangas no comportamento das personagens (quem estava deitado levantou-se, etc.) e, logo de seguida, essas acces conduzirio a um processo evocativo muito importante: por 2s50- ciagdo de ideias, Adriano lembraré 0 que se passou 20 longo de jum ano, até ao seu encarceramento, Assim, a narrativa estrutura- se €m fiuncio de um certo devir temporal: do presente para 0 passado e deste de novo em direccio ao presente. () M. ba Fonseca, Certomeior Lisboa, Caminho, 1981, p. 23 346 | i INTRODUGKO AOS ESTUDOS LITIRARIOS que fica sumariamente observado permite agora sintetizar tés propriedades fundamentais dos textos narrativos: Os textos narrativos traduzem uma atitude de exte- riorizagio, centrada num narrador que conta a historia; 1 Em fungio dessa atitude, os textos narrativos impl cam uma representagio de tendéncia objectiva; Os textos narrativos contemplam procedimentos que {instauram uma dinémica de sucessividade, 1.3, Ndo procuraremos aqui analisar as propriedades sucin- tamente enunciadas como atributos simetricamente opostos aos que encontrémos na poesia lirica, Em todo o caso, nio é dificil reconhecer que, muitas vezes, 0s textos narrativos privilegiam, de facto, recursos técnico-literérios antagénicos aos que predominam. 1s textos liricos; 0 que tem que ver também com as muito diversas circunstincias (histérico-sociais, pragmético-ideol6gicas, etc.) que Jevam a enunciar uma narrativa e nio um poema lirico. Apesar disso, aquele antagonismo nio é regra obrigatéria e rigidamente estabelecida, no que respeita as diferencas entre textos narrativos € textos liricos, como se verd pela referéncia aos componentes que enformam e interpretam as propriedades acima mencionadas. Assim, dizemos que os textos narrativos levam a cabo um processo de exteriorizagao, porque neles procura-se descrever € caracterizar um untverso auténomo, integrado por personagens, espagos e acgdes. Bsse universo auténomo configura-se pelo labor de uma entidade fundamental: trata-se do narrador (que mais adiante seré analisado em pormenor), entidade colocada numa situagdo de alteridade em relacio aquilo de que fala. Deste modo, co narrador d’O Crime do Padte Amaro de Bea de Queirés encontra- -se precisamente numa situagio exterior em relacSo & histdria que trata de narrar: ndo s6 ele no pertence Aquele mundo de padres € beatas, como o descreve a partir de uma posigio algo distan- ciada, mas nio forgosamente indiferente. Em Para sempre de Vergi- ag (© cONsCHMENTO DA LTERATURA lio Ferreira, o narrador conta as suas préprias experiénctas como personagem (¢ protagonista) da histéria, o que parece desvanecer aquela alteridade; e contudo, o narrador quase sempre nos fila da Personagem que foi, procurando vé-la (ou ver-se) como um outro, com quem chega a imaginar didlogos ('). Assim se confit. ‘ma o principio da exteriorizagio que verdadeiramente s6 se anula quando o sujelto da narragio se centr, de forma insstente ¢ sistemitica (ndo apenas de maneira pontuil), sobre o set uni. verso lnterior Tend se, ness cao, pas a intelrizaopeépia do moto © a narrativa chega a fazerse precisamente mar~ A atitude de tendéncia objectiva que caracteriza os textos narzativos deve entender-se exactamente nesses termos, isto & como pendor dominante que nio impede incursées de indole subjectva, Se radicalidssemos esse pendor objectivo,estariamos 2 esquecer um aspecto fundamental da linguagem verbal (aquela fem que se expressa a narrativa lteraria(’)), ou seja, as potenci (©) Uma situagio nalguns asp nant ; ; ecios semelhante a esta & a que se encontra so romance Mens Pues Bs Cade chad de ee ont asus propria hist, mas 6 depois de morser,o que the perme leduair uma autude irdnica e cricca da relagio de alteridade que culiva com 2 Persomagem que fl, enquanto vivo (©) De acordo com Ralph Freedman, estabelece-se assim a diferenga gure 2 anata Hea € a maa convenconal "Nas mats conven Cionais, 0 mundo exterior consitul o objecto. Ete encontra-se situado para além descr edo tor No modo iro tl mand écanebid as coe lum universo em que os homens desenvolvem as suas acgdes, mas como uma {ise oes engendrad omo um modelo, O mundo €reduaido a um pmo le vista ltieo, © equivalete ao “en” do poeta: 0 eu litico” (The Lyric Seis in am Hse nig Wall Proeaea Poe ress 1963, p: 8): tam Jes Tat, eR Bog, Pars, PU re nds, merece referénclao trabalho de Rosa Goutakr, Romane Litca 0 Percuso de Vegi Fre, Lsbos, Bertrand, 1990, Vas Rima () 0 que nio quer dizer qi o 7 que narrativas no verbals (por hipétese, predominance ou excsvamente elas) conigan ou sé jen angi uma objctiidade pena. Um exemplo mute simples: numa nara cn togrifica, a posicio da cimara ou os efeitos de montagem const Adecsivos de insinuacio subjectiva. 7 ara 3448 | i BeTRODUGKO AOS ESTUDOS LTERARIOS dades de representagio da subjectividade que inevitavelmente cla envolve; por outro lado e confirmando o que fica dito, sio bem comhecidos os esforcos de grandes romancistas (Flaubert, Ea de ‘Queités, Zola, john Steinbeck, Graciliano Ramos, etc.) no sentido de despojarem o discurso narrativo de subjectividade, esforgos rmuitas vezes fracassados, pela irrupgéo (eventualmente tida como espiria) de afloramentos subjectivos (') Quando falamos de tendéncia objectiva, referimo-nos, pois, 3 capacidade que a narrativa literdria possui para nos dar a conhe- cer, de forma nio raro muito pormenorizada, algo que € objec- tivamente distinto do sujeito que relata; assim, em principio, nfo € onarrador que constitui 0 centro de atengio da narrativa, mas sim as coisas, os lugares, as personagens, os acontecimentos, etc. —em suma: a histéria -, em cuja representagio ele procura inves- tir uma atitude racional, mais do que emocional, Por isso mesmo, 6 romance foi o género por exceléncia daqueles periodos literé- rios ~ 0 Realismo, o Naturalismo e o Neo-Realismo ~ em que se tratava de dar a conhecer (¢ isso que etimologicamente significa narrar ¢ narrador vem de gnarus, “sabedor”) situagdes e conflitos sociats, por vezes até sob 0 signo de movimentos ideol6gicos de indole paracientifica (p. ex: 0 positivismo ou o materialismo histérico); também por isso personagens como Charles Bovary, Calisto EI6i, 0 conselheiro Acicio, os padres descritos em La Regent de Clarin ou D. Maria dos Prazeres, em Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira, surgem configuradas com wma nitidez de caracterizacio que as tornam facilmente identificaveis; ¢ ¢ ainda por isso que a narrativa literéria (particularmente o romance) constitui o campo privilegiado de recolha de materiais humanos € socials a que sociélogos e historiadores da Cultura reconhecem ‘um certo valor documental () (©) Referéncia obrigatéria no presente contexto sio ainda of estudos de Benveniste sobre a subjectvidede ma linguagem, acima ctados (cf. spr, 1p. 318, nota 20; veja-se também a importante obra de Carenine KGRERAT- Onecctuona, Lénoncatin, Dela subjective dan le langage, Pais, A. Colin, 1980. (0) Nio por aciso, Engels observon que nos romances de Balzac aprendera mais acerca da sociedade francesa da Restauragio, do que em todos 49 CO CONHBERAENTO DA LITERATURA Os textos narrativos caracterizam-se ainda pelo facto de ins- taurarem uma dindmice de sucessividade, direcamente relato. nada com o devir do tempo em que se projectam os fctos rs tados e também com os termos em que neles se descrevem espagos, personagens, etc. Num texto jé aqui citado, Jakobson referiu-se a essa sucessvidade, em termos que directamente reme- tem para uma concepgio da narrativa como grande metonimia: ‘Cest 'asociation par contiguté qui donne j la prose narrative son impulsion fondamentale; le récit passe d'un objet & l'autre par wisinage, en suivant des parcours d'ortre causal ou spatio. tempore, le passage de la partie au tout et du tout & la partie n’éaant qu'un cas particulier de ce processus” ('*), © que acontece naquela abertura de romance que comen- ‘mos (Certomoior de M. da Fonseca) é uma ilustragdo do que fica citado, E se tivermos em conta 0 que normalmente se encontra no inicio de um romance realista, de novo © confirmaremos: trata-se, entio, usualmente de descrever, passando de um objecto a outro, © esparo em que decorreri a acgio, de caracterizar as personagens de forma minuciosa, de estabelecer, em suma, conexdes de conti- guidade entre esses varios elementos que sucessivamente vio sendo apresentados. E mesmo quando a narrtiva nio obedece esta matriz realista, continua em principio a manifesar-se ela aquele que é 0 factor decisivo de afirmagio da sucessividade; 9 mantis de istra e economia polles (cf. Manx e Bots, Sobre Iitratama € 6 at, Lisboa, Estmps, 1971, p. 197). O que nio signifies, como é Sbvio, {que os elementos flcionais que se encontram nas narrativas Iterirat, possam Ser lidos de forma dlreca, sem se atender precsamente a essa medio fiona © mesmo quando o ecttor reonkece que clheu as ersonagens do real observado (como multss vezes acontecen com Camilo Castelo Branco), ainds asim deve ter-se em conta que elas decorrem de um Brocesso de refiguragio ficionl. Muito curoto, a este propésio, & 0 texio. ‘Os Moiss: Tomés de Alencar Uma Explicagio” (inserido nas Notts Conan. Par) em us Ea efi sco segundo acl ea sed penone em Alencar, d’Os Maas, na figura do poeta Bulhio Pato; v. eambém A Abela, em “Textos douttiniieg” eae ("%) R. Jarouson, “Notes marginale sur la prose du potte Pasternak’ usin de Pique, Pai Sell 1973,p.1360 “ 350 2 ITRODUGHO AOS BSTUDOS LTERARIOS referimo-nos 20 tempo narrativo, expressio que. sintetica- ‘mente abarca trés temporalidades auténomas e relacionéveis entre si: o tempo da histéria, o tempo do discurso e o tempo da narragio. ‘A interacgio das propriedades a que temos aludido ~ exterio- rizaglo, tendéncia objectiva e sucessividade—assegura a vigéncia da narratividade, como condigio especifica dos textos narratives. Inerente a essa condigio ¢ representada em diversas definigdes do conceito € 0 sentido genérico da transformagao: assim, mum texto jrelativamente antigo, Greimas considera a narratividade “como a irrupgio do descontinuo na permanéncia discursiva de uma vida, de uma histéria, de um individuo, de uma cultura”, o que permite analisar essa permanéncia discursive em fungio de estados discretos, entre os quais se situam transformagées; de forma mais sintética, a narratividade pode ser definida como “o fenémeno de sucessio de estados e transformagées, inscrito no discurso € responsivel pela produgio de sentido” ('"), E precisamente o sentido da transformagio que permite realgar as capacidades de modelizagio humana e social que se observam na narratividade e nos textos narrativos que a concretizam, 1.4, Numa das suas obras sobre 0 tempo e a narrativa, Paul Ricoeur formula a hipétese de base que domina a sua reflexio: a hipétese segundo a qual “existe entre a actividade de contar uma -histéria e o carécter temporal da experiéncia humana uma cor relagio que nao é puramente acidental, mas apresenta uma forma de necessidade transcultural” ("°); e num texto anterior, Ricoeur (°) CE, respectivamente, A J. Grmwas, Du Sens I. Esstis émiotques, Pars, Seuil, 1983, p. 46; Groupe d’Entrevernes, Analyse sémictque ds texts, Lyon, Presses Univ. de Lyon, 1979, p. 14. - (°) P Ricaun, Temps et rile, Paris, Seull, 1983, p. 85. # assinalivel 2 ‘imporcincia da obra de Paul Ricoeur, sobretuda no campo da hermenéutica ‘mas nio excluindo extensdes que contemplam dominios como o da teoria da narrativa, conforme é atestado pelos trabalhos que a0 seu pensimento tém sido consagrados: cf. T, PereR Kev e D. Raswussey (eds), The Noraine Path. The ater ‘Works of Poul Riewur, Cambridge/London, The M.LT. Press, 1989; Damp Woop 351 (© CONHCIMENTO DA LTERATURA explicitava melhor a interdependéncia temporalidade/narrati- vidade, 20 considerar a “temporalidade como essa estrutura da existéncia que atinge a linguagem na narratividade e a narrativi- dade como a estrutura da linguagem que tem na temporalidade o seu fundamental referente” (), Nio se reduz, porém, & instincia temporal a tentativa de caracteriza¢io da narratividade. Com efeito, a apreensio e mode- lagio discursiva do tempo nio é posstvel a revelia de componentes que acabam por ser homologados 20 nivel de importantes catego- vas da narrativa, Deste modo, dirse-A que a experiéncia do tempo estrutura-se em acpées cujo desenvolvimento numa intriga coesa traduz uma espécie de dialéctica entre a sucessividade de eventos Pontuais € a possibilidade de globalizacio que permite o resumo dessas acgdes; além disso, uma longa tradigio cultural vincula as acgées relatadas sobretudo a uma concepgio antropomérfica da Personagem, como fulero de concentracio de elementos semén- ticos: (temiticos, sociais, ideolégicos, etc.) dominantes no relato; por sua vez, a integracio narrative da personagem solicita quase Sempre a sua insergio em espagos que com ela interagem: porque 2 condicionam, “porque por ela sio transformados, porque completam a sua caracterizacio, como quer que seja, porque cola boram na sua configurasio como entidade carregada das virtua- Tidades dindmicas que o envolvimento na acgio concretiza (") (c4.), On Paul Riceur, London, Routledge,"1992. Uma selecgio de textos de Ricoeur fot publicads por M. Vatoés (ed), A Ricaur Reader: Reflection ond |Imaginaton, Toronto/Buffalo, Univ. of Toronto Press, 1991 (°) P. Rioaue, “Narrative Time”, in W. J.T, MarcuEU (ed), On Nari, Chicago/London, The Uni. of Chicago Pest, 1981, p. 168, Acerca do conceto de naraividade, veja-se alnda, do mesmo autor, “On Nanatvity: Debate with ‘A J. Greimas", in M. Vawts (ed), Riceur Render, ed. cit, pp. 287-299, *) Mesmo sob um ponto de vista estruuralist, &possvelassegurar as Potenclaldades antropomérficas (envolvendo componentes axiolégicos, socials, ete) inerentes&actvagio da naratividade: Claude Bremond justifies» gram tica marrativa em fungio do “antropomorfismo natural da narativa” ¢ declare, "© material narrativo 56 se detxa orgenizar em unldades 20 mesmo tempo Integradas numa unidade de nivel superior e subtilmente dlferenciadas em ‘unidades mais pequenas, sob a acgdo de foes de personifcagio que trabalhamn 352 i | | i \ | i i I i -vTRODUGAO As STUDOS LITERARIOS Desde que sio realgados os componentes temporais, psico- ogicos, existenciais ¢ até histéricos implicados na activagio da narratividade, € possivel considerar também a sua capacidade modelizante, Falamos aqui de capacidade modelizante numa acepeio que provém da teoria semistica de Lotman e que se refere 4 construcéo, pela linguagem verbal, de modelos do mundo, construrio processada, no caso da linguagem literdria, através da chamada modelizasio secundaria ('S). Significa isto que a narra: tividade pode ser concebida como fundamental factor de repre- sentagio das mais salientes etapas da evolugio do Homem e da sua Historia, Essa representagio néo se esgota nos textos narratives que 2 historiografia produz (crénicas, biografias, anais, tratados historiogrificos, etc.), mas completa-se também nos textos nar- rativos literrios: € 0 que evidencia a importincia de que em certas Epocas se revestiu a epopeia, vocacionada para fixar ¢ divulgar feitos colectivos de ampla projecgio histérica; do mesmo modo, © romance, género narrativo por vezes considerado como uma espécie de “epopeia burguesa”, permite igualmente conexdes com ‘espagos € tempos historicos determinados, cuja evocagio é favo- ecida justamente pelas potencialidades modelizantes da narra~ tividade, 2, Narrador e narratirio 2.1, Apresentadas as propriedades fundamentais que defi- ‘em os textos narrativos e caracterizada a narratividade como sua condigio essencial, torna-se agora necessirio que atentemos, com algum pormenor, em fundamentais entidades ¢ categorias que estruturam a narrativa literdria. A primeira (em varios aspectos) dessas entidades é o nar- rador, cujo estatuto difere, tanto do ponto de vista ontolégico como ‘este material” (C. Baewono, Logigue du rit, Patis, Seu, 1973, p. 330; i nosso). (°) CE Loman, La structure dy texte ortstigue, Paris, Gallimard, 1973, p. 33 8. esupre, pp. 173-174, 353 (© CONHECIMENTO DA LTERATURA do ponto de vista funcional, do estatuto do autor. Se este cor responde a uma entidade real ¢ empirica (normalmente com biografia conhecida e historicamente atestada ('5)), o narrador uma entidade ficticia a quem cabe a tarefa de enunciar 0 discurso Atente-se no seguinte exemplo: Rubio Mtava a enseada, ~eram oto horas da man. Quem o vss, com os polegares metidos no cordio do chambre, i anela de uma grande cos de Botafogo, cudara que ele admicava aquele pedago de dgus quiet sas, em verdide, vos digo que penava em out cous”) A entidade que neste texto toma a palavra é tio ficticia como 4 personagem (Rubio) de quem fala; trata-se de um sujeito com existéncia textual, um “ser de papel”, como the chamou R, Barthes (""), a exemplo do que acontece com a segunda pessoa (“vos", no texto citado) a quem ele se dirige. Confundir este nar- rador com Machado de Assis seria tio abusive como identificé-lo com 0 préprio Rubio, Bra de Queirés com Teodorico Raposo, 0 narrador d’A Relgui, ou Albert Camus com Meursault em 1'Ftranger; pode, pois, dizer-se que “se tentéssemos assimilar a personalidade Individual de um narrador ficcional § personalidade do autor para salvaguardar a clareza e fidedignidade da narrativa, renunciarfamos 4 mais importante funcdo prépria do teor mediato da narrativa: revelar anatureza enviesada da nossa experiéncia da relidade” (!) © que fica dito nio deve conduzit-nos, entretanto, a uma concepeao formalista do narrador, Mesmo reconhecendo-se a sua especificidade ontolégica, importa nio esquecer que o narrador é, em tiktima instincia, uma invengio do autor; sendo assim, € um facto que 0 autor pode projectar sobre o narrador determinadas atitudes ideologicas, éricas, culturais, etc, que perfilha, o que nio (Cf. supm, pp. 137-141 (8) Macao be Asss, Quincas Barba, Amadora, Bertrand, s/4., p. 3. (*) CER. Beams, “Introduction & analyse stuctarale des réits", in Communication, 8, 1966, pp. 19-20, (°) Franz Staze, A Theory of Nortie, Cambridge, Cambridge Univ Press, 1984, p. 11, 354 | INNTRODUGAO AOS ESTUDOS LITRARIOS quer dizer que o faga de modo directo e linear, mas eventualmente caltivando estratégias ajustadas & representagio artiscica dessas ativudes: ironia, proximidade relativa, construgio de um alter ego, etc. O que significa que as conexdes entre autor e narrador resolvem-se no quadro amplo das opgdes técnico-literitias con- templadas pelo autor. Por vezes, sobretudo no romance dos nossos dias, certos escritores exploram o teor eventualmente impreciso e equivoco da condicéo do narrador em relagio a0 autor, através de alusdes cexpressas, no relato, 3 responsabilidad e ao acto de escrita. Lé-se nO Delfim de J. Cardoso Pires: Sealgumn am narado mvs) ememon «seu gas (ef sev x0 Papel vem proved ign, ules um dem uns da Crea) ofa hima muler qu de todos cone e que ei erfado nos avs [le set mana de por pn econo st enc ¥imgem ena du lhe seme) Mesino assim, continua a ser necessério reafirmar a funcio- nalidade primordialmente textual do sujeito que aqui fala e a sua ineréncia relativamente ao enunciado que Ihe é atribuido. Por seu lado, o autor empirico nio deixard de ser uma entidade transi- toria e histérica, capaz até de se distanclar ideol6gica e esteti- camente do texto que escreveu. 2.2, A fingdo enunciativa do narrador (¢ também os jufzos subjectivos que formula ("!)) permite postular a existéncia de um destinatirio do acto narrativo que é 0 narratério. Tal como aconteceu com a diade autor/narrador, também a definigio do narratirio solicita a prévia distingio relativamente ao leitor real da narrativa, O narratério constitu 0 destinatério imediato da narrativa (0 leitor real poderé ser um seu destinatério mediato), ((%) J. Cannoso Pru, 0 Delfi, 5.* ed., Lisboa, Moraes Bdltores, 1972, p 311-312, . _ (") CE. C. Ras © ANA Cristina M. Lore, Dicionrio de Normtalogia, 4.*ed., Coimbra, Almedina, 1994, pp. 207-210 e 348-353, ass CONHECIMENTO DA LITERATUR institufdo também como “ser de papel” com existéncia puramente textual, dependendo directamente do narrador que se lhe dirige de forma explicita ou implicita A dificuldade de localizagio textual do narratirio decorre do facto de ele ser, quase sempre, uma entidade nio identificada e dificilmente "visivel” & superficie do texto narrativo, Enquanto 0 narrador manifesta necessariamente a sua presenca, que mais nio sea pela simples existéncia do enunciado que produz, o narratério é, com frequéncia, um sujeito néo explicitamente mencionado; quando 0 narrador d's Vinhos da ira abre o relato dizendo que “para a regio vermelha e parte da regio cinzenta de Oklahoma, as timas chuvas cafram suavemente, sem penetrarem fundo na terra escalavrada” ("?), parece dbvio que a revelacio destas infor- magées liminares s6 faz sentido em funcio de um narratério atento aos dramas sociais que se vio esbogando, razoavelmente conhecedor dos contornos de uma crise-econémica em desen- volvimento, capaz de atingir o significado de expressdes como “regido vermelha” e “regio cinzenta”, etc. Excepcionalmente, 0 narrador pode prever e projectar no enunciado as interrogagdes do narratario, a que procura dar resposta: Estava nesse dia um vento agreste, de barbeiro, nfo se aguentava,e entio com 0 corpo mal enroupado, tudo tem a sua explicacio, dew Anténio ‘Mau-Tempo feriado 20s poreos e escondeu-se por tris dum machuco, Que é um machuco, Um machuco é um chaparro novo, por aqui toda a gente sabe [..J.(°) A pertinéneia funcional do narratério evidencia-se sobre- tudo quando 0 narrador, sendo ou tendo sido personagem da (2) J. Stmmsscx, As vinhas da ir, 72 ed., Lisboa, Livros do Brasil, s/d (7) Jost Satanaco, Lerantado do chia, 4* e4., Lisboa, Caminho, 1983, ». 88. Em confronto com o narratério nio mencionado, o leltor coloca-se numa Posigfo por assim dizer oscilante: ele pode conhecer mais do que o narratirio, dispensando informagdes que Ihe aparecem como desnecessrias (p.'ex, 0 significado do termo "machuco”, se se tatar de um leitor da regido em que se passa a histéria de Lountaio do chio), pode encontrar-se aquém dos conhe- ‘imentos atribuidos 20 narratirio ou até deter uma competéncia narrativa ‘déntica & que este postu 356 INTRODUGKO AOS wSTUDOS LITERARIOS histéria, convoca expressamente a atencio de um destinatério intratextual: no conto que E¢a intitulou “José Matias”, o narrador conta a um narratério anénimo que o acompanha ao cemitério, a histéria do protagonista que vai a enterrar; o discurso do narrador surge semeado de expressoes interpelativas, em que ecoa a curio- sidade desse narratdrio que parece impressionado pela flosofia de vida que foi a do defunto José Matias Mas, oh meu amigo, pensemos que, certamente, nunce ela [Bis] peda a0 José Matias para espalhar viletas sobre cadiver do apontador! E que sempre Matéria, mesmo sem 0 compreender, sem dee tirar a sua felicidad, adoraré 0 Expeto, e sempre a si prépria, através dos gouos que de st recebe, se tratari com brualidade e desdémt (*) ‘Nas narrativas epistolares ~ conjuntos de cartas normalmente trocadas entre duas ou mais personagens, relatando uma histéria que se vai configurando pela articulagio desses virios teste- munhos ~, 0 narratirio identifica-se com o destinatirio de cada carta, Neste caso, ele constitui, mais do que em qualquer outra situagio, © motivo primeiro de existéncia da narrativa; de facto, cada carta propde-se, em principio, informar e interpelar expres- samente uma personagem da histéria que, sendo destinatirio (€ portanto, em tal contexto, narratério), pode ser considerada a expressa razio de ser do relato. Num caso extremo, narrador e narratério chegam a convergir numa ‘inica entidade, momentaneamente desdobrada Com efeito, no mondlogo interior, o narrador assume-se como destinatirio imediato de reflexdes © evocagdes emunciadas na privacidade da sua corrente de consciéncia: "didlogo” encenado @*) Boe Quads, Cotas, Lisboa, Livros do Brasil, s/4,,p. 222. Assim se tende para 2 inscri¢io de uma segunda pessoa no discurso narraivo,sleuagio {que modemamence se encontra representada em romances como Se num noite de Inver um vigante de Italo Calvino ou Um amor feliz de David Mouréo- Ferreira, Conforme notou Michel Butor, “é porque hi alguém a quem se conta a propria histria, alguma cofsa dele que lhe é desconhecido, que pode haver ‘uma narrativa na segunda pesioa, que consequencemente seri uma narrativa ‘didictica™ (M. Buron, Esti sur le omen, Paris, Gallimard, 1969, p. 80), ~ 357 © contascnsenTo Da TERATURA de um eu com as suas proprias duividas, tenses, angiistias ¢ intimas vivéncias, o monélogo interior nio seria, afinal, possivel se nao se orientasse para esse outro/ele proprio a quem o nar- rador se dirige (*) 3. Niveis e categorias da narrativa 3.1. © narrador que enuncia uma narrativa, enderegan- do-a a um narratério expressamente invocado ou (as mais. das vezes) apenas pressuposto, comunica informagées configura um universo que por ele é dado a conhecer, Esse universo ¢ a histéria ou universo diegético, cuja natureza ficcional nio impede o estabelecimento de conexes de varia ordem com o mundo real. De acordo com o que'a moderna teoria da narrativa estabe- leceu, a historia ou diegese (") corresponde a um dominio dis- tinto, do discurso, mas indissociével deste. Autores como T Todorov, G. Genette, C. Bremond e $, Chatman, entre outros, con- (C) Acerca do conceito ¢ fangdes do marratitio, existe jé uma biblio- grala relativamente extensa, em parte mencionada no artigo respectivo do nosso Dicionirio de Nartatoaga;além dessesticulos, zefiasse ainda o ensao de Danlo Viuasurvs, “Naraario y lectores en la evolucién formal de la novela pleazesca, in H Pin de ders, Barcelona, PPU, 1991, pp. 131-160 (C5) Baseando-te na utilizagio por 8. Souriau (no ambit de pesquisas Sobre a narrauva cinematogrifica) do conceito de universo diegético, como local do significado, distinto do universo do écran, local do signficante fllmico, Genete considera, em Newent Diours du Rat Pars, Seull, 1983, Pp. 10-14), que o termo diegese deve designar o universo espicio-emporal fem que decorre a histri; apesar dessa restigfo, pensamos que os derivados de dlegese que ainda aqui wtlizaremos (p.ex., homodiegético) devem cont rnuar a ser uilizados com referéncia 20 plano da hstra, Por outro lado, pate. ce-nos desnecessirio, no campo dos estudosIiterris, o recurso 2 um termo como estéria para designar a histria (Nesional)e ditinguindova da Hist, enquanto ciénciae dominio dos eventos e figuras reais; 0 que nio impede que alguns eseritores (como Gulmaries Rosa, provavelmente 0 pioneiro, no que & esta utlizaio diz respec) o tenbam feito de forma mui sugestia. 358 - | / | | |NTRODUGHO Aos STUDOS IITERARIOS vergem nio apenas no reconhecimento da relagio de interdepen- déncia histéria/discurso, mas também ao entenderem a histéria como conjunto de elementos (acontecimentos, personagens, situages, espagos, etc.) que constituem o significado ou contetido narrativo que é representado pelo discurso, Exemplificando: o romance Malame Boary de Flaubert conta a histéria de uma personage (Emma Bovary) condicionada por certas caracteristicas sicoculturais que, influenciando o seu comportamento, a condu- zem ao adultério e mais tarde a0 suicidio; desta historia fizem parte também outras personagens (Charles Bovary, M. Homais, Rodolphe, Léon, etc), determinados cenizios (Yonwille, Rouen, etc), situagdes sociais e culturais que envolvem as personagens, etc., etc. f esta histéria que é relatada por um discurso estruturado em termos que ainda aqui analisaremos, mas que, por agora, identi- ficaremos com o longo enunciado que comega com as palavras “Nous étions i l'étude” e que termina com o periodo: "Il vient de recevoir la croix d’honneur”, Como se vé pelo brevissimo resumno da histéria de Madame Bouery (”), 0 universo diegético que ela configura integra elementos de diversa natureza. Na tradigéo ocidental e quando nio estio em causa movimentos de inovagio radical ou de ruptura (como 0 que, na década de 50 deste século, foi designado como movimento do novo romance (")), a narrativa tende a estruturar 0 componentes iegéticos de forma equilibrada e internamente coerente. () A autonomia relativa da histériaconfirmase pelo facto de ela poder ser resuunida ou até veiculada por diferentes meios de expressio nio verbal, sem obrigatoriamente se alterar de forma drétca: a histéria de Modame Bory {(€ de muitos outros romances) fot adaptada 20 cinema, num flme de Claude Chabrot ( poderia ser representada também em banda desenhada, em tele- novela, em folhetim radiofénico, eic). Apesar, contudo, dessa prevalecente “camada de significagzo auténom:" de que fala Claude Bremond (ef. Logigue du tit, Paris, Seul, 1973, pp. 11-12), deve assinalar-se que, quando transco- dlificada, a histéria munca permanece, em rigor, a mesma, justamente porque 0 discurso sustenta com ela uma relacio de estretasolidariedade (C*) © chamado novo romance corresponde a uma tentativa para subverter 0 cinone do romance de matrz oitocentist, através da rearticaligio 359 ‘© CONHECIMENTO DA LITERATURA Um desses componentes — provavelmente o mais significa. tivo ~ € a personagem, Categoria fundamental da narrativa, a personagem evidencia a sua relevincia em relatos de diversa insergZo sociocultural e de varlados suportes narrativos, Ne narra- tiva literdria (da epopeia ao romance, do conto ao romance cor de-rosa, etc.) como na narrativa cinematogréfica, na telenovela ou na banda desenhada, ela € normalmente 0 eixo em torno do qual gira a accio e em fungio do qual se organiza a economia do relato (”). Os proprios estudos literdrios (e nos tlkimos tempos a narratologia) regularmente valorizam as potencialidades semin- ticas da personagem: “manifestada sob a espécie de um conjunto descontinuo de marcas”, observa Philippe Hamon, “a personage é uma unidade difusa de significagio, construida progressiva- mente pela narrativa”; e acrescenta: “Uma personagem &, pois, 0 suporte das redundancias e das transformages seminticas da nar- rativa, € consticuida pela soma das informagBes facultadas sobre 0 que ela é e sobre o que ela faz"), das suas categoria fundamentis. Culivado em Franga por Michel Butor, Nathalie Sarraute, Jean Ricardou e Claude Simon, entre outros, © nove romance desvaloriza a intia, ransforma a personagem numa figura exdtea «de contomos imprecsos, reslaborae dissolve o tempo enquanto cronologia rigida, representa os objectos como entidades imediatamente facladas ¢ esvaladas de significado, et. Da extensa bibliografia existente sobre o novo romance cltem-se de J Rcsao0v, Problémes dy nouveau roman Paris, Seuil, 1967; id, Le noweau roman, Paris, Sell, 1973; ALAN Roase-Gante, Por un noweat roman, Paris, a, de Minn, 1975. () 0 relevo e 0 poder impresivo ds personagem é tetemunhado por ‘grandes escritores, Revela Flaubert: “Cuando escribi el envenenamiento’ de Emma Bovary, tue et la bce el sabor de arénico con tnt intesidad, me seni 70 ‘mismo tan autnticamence envenenado, que tuve dos indigestiones [.]"y ¢ ‘André Gide, sublinhando a autonomia da personagem, declara que “el verda- dero novelista los escucha y los vigia [is personagens] mientras actian, los ‘expla antes de conocerlos. fs sélo a través de lo que les oye decir que empieza a comprender quiéus son” (apud M. Attorr, Les novelists y la noe, Barcelona, Sebx Barra, 1966, pp. 200 e 361) (9) P. Hawow, Le pesonna du man Le syste des persnnags dans *Roogon- “Macquan”d'mile Zola, Genéve, Droz, 1983, p. 20, 360 | | | INTRODUGAO AOS BSTUDOS LTERARIOS Tende-se, deste modo, a entender a personagem como signo, © que corresponde a acentuar a sua condicio de unidade susceptivel de delimitacio no plano sintagmitico e de integracio numa rede de relagdes paradigmiéticas: a personagem é localizavel ¢ identificével pelo nome préprio, pela caracterizagio, pelos discursos que enuncia, ete., 0 que permite associé-la a sentidos temitico-ideol6gicos confirmados em fungio de conexées com outras personagens da mesma narrativa e até em fungi de liga- ‘96es intertextuais com personagens de outras narratives. Assim, dizemos de Dom Quixote, de Julien Sorel ou de Teodorico Raposo que sio indissociiveis dos sentidos do idealismo, da ambigio individualista e da duplicidade hipécrita; e mesmo naqueles rela- tos em que se manifesta uma anti-personagem, “produto alta- mente rebuscado e intelectualizado, aparentemente alheio 20 mundo na sua reflexividade textual”, essa anti-personagem acaba por traduzir a “busca-proposta de uma anti-ideologia [...], ou seja, de uma nova ideologia, que nos remete de volta a0 homem a0 mundo" () Note-se, entretanto, que, para além de normalmente se situar num determinado espago, a personagem constitui o agente de acces variavelmente complexas. Desse espago e da sua impor- tincia como categoria da narrativa, deve dizer-se antes de mais (€ mesmo de forma obrigatoriamente abreviada) que compre- ende, em primeira instincia, os componentes fisicos que ser- vem de cendrio a histéria: cendrios geogrificos, interiores, deco- rages, objectos, etc.; em segunda instincia, 0 conceito de espago pode ser entendido em sentido translato, abarcando entio (") Fawvavoo Secoum, Pesanagem ¢ anti-pesonagem, Sio Paulo, Cortez & ‘Moraes, 1978, p. 114, A capacidade de concentragio ideologies e social que a ppersonagem revela permite nio s6 a sua elaboragio como tipo social ~ quer dizer, como ‘elemento que sintetcamente fixa as propriedades. mental, culturas, profissionas, etc, de um determinado grupo bumano™, como ainda sua recolha em dicionirios que justamente retém e descrevem esas propriedades: p.ex.,C. Azza, C. Oust e R. Scrat, Dictionnaire ds typeset ds, coc ities, Paris, F. Nathan, 1978. 361 (© CONHECIMENTO DA LITERATURA tanto as atmosferas sociais (espago social) como as psicolégicas (espago psicol6gico). A variedade de aspectos que 0 espaco pode assumir obser~ vva-se, antes de mais, nos termos de uma opgio de extensio: da largueza da regio ou da cidade gigantesca & privacidade de um recatado espago interior desdobram-se amplas possibilidades de representacio e descri¢Zo espacial; é em funcio destas opgées que certos romancistas sio associados aos cenérios urbanos que preferiram: se Bea é o romancista de Lisboa, Camilo é-0 do Porto, Machado de Assis do Rio e Dickens de Londres, Em certos casos, a caracterizagio espacial é tio minudente e explicita que permite tornear um nome criptico (em Vetusta, de La Regnta de Clarin, reconhece-se Oviedo); trata-se aqui de cultivar uma atitude de certa forma ambigua, entre o intuito de representagio social datado € localizado e 0 desejo de salvaguardar a condicio ficcio- nal do relato, condigio que, nos primeiros exemplos invocados, surge preservada por outros processos (identificacio de género pelo préprio escritor, instituicio de um “contrato de leitura” fic- ional, etc.). Num plano mais restrito, o espaco da narrativa cen- tra-se em cenitios mais reduzidos: a casa, por exemplo, dando origem a romances que fazem dela o eixo microcésmico em fan- Gio da qual se vai definindo a condigio histérica e social das ppersonagens (A ilustre caso de Ramires de Eca, O Cortigo de Aloisio Azevedo, A cas grande de Romerigées de Aquilino Ribeiro, Casa na duna de C. de Oliveira, Case da malta de F. Namora, etc.). Naturalmente que medida que o espago se vai particularizando, cresce o inves- timento descritivo que Ihe & consagrado e enriquecem-se os significados decorrentes: lembre-se 0 interior do 202 (n'A Cidade € os Sertas de Ea) com a sua desmedida profusio de instrumentos de civilizagao ou a relagio conflituosa de Alvaro Silvestre, em Uma’ abelha na chuve de Carlos de Oliveira, com os objectos de prove- niéncia aristocrética que o rodeiam, Falar na relagio conflituosa de uma personagem com 0 espago corresponde a mencionar a ace4o como dominio diegético fem que esse conflito se estrutura, Entendida como processo de desenvolvimento de eventos singulares, a accio depende, para a 362 sNTRODUGKO AOS ESTUDOS LITERARIOS sua concretizagio, da conjugagdo de, pelo menos, os seguintes elementos: um ou mais sujeitos que nela se empenham, um tempo em que ela se desenrola e transformagdes que propiciam ‘a passagem de certos estados a outros estados. Constituindo uma totalidade que confere consisténcia 20 relato, a acgio manifesta-se de forma peculiar nos diversos géne- 10s narrativos: se no conto encontramos, em prinefpio, uma acco singular e concentrada, no romance é possivel observar o evoluir patalelo de varias acces, enquanto a novela é construida muitas vyezes a partir da concatenagio de virias acces individualizadas € protagonizadas pela mesma personagem: é isso que acontece, por exemplo, nO Malhadinhas de Aquilino Ribeiro. © que permite pensar também que diferentes estratégias e subgéneros narrativos concebem e tratam a acgio de forma diversa: confronte-se o que normalmente se passa mum romance policial, exigindo uma accio muito bem demarcada, com o que encontramos num romance psicoldgico, cujo pendor introspectivo tende a diluir a accio na tela das reflexes intimas da personagem. Por outro lado, a acgdo é susceptivel de particularizagio funcional, quando se desenvolve em intriga. © que esta implica é nio 6 a sucessividade e enquadramento temporal proprios de toda a aco, mas também duas outras caracteristicas especificas: a apresentagio dos eventos de forma encadeada e o encaminha- mento. desses eventos para um desenlace que inviabiliza a conti- nuagio da intriga (*). O que a estruturagio da acco em intriga possibilita & portanto, ndo apenas a construgio de universos diegéticos dotados de forte légica interna ~ o que permite que a intriga seja posta ao servico da demonstragio de teses sociais ~, (°) Annogio de intriga (que também pode ser designada como enredo, ‘entrecho on trama) relaciona-se com um conceito muito utiizado pela teorla, « critica anglo-saxénica: 0 conceito de plot. Numa dissingio ji clisica mas sinda sugestiva,E-M. Forster defini “plo”, a partir da relagio causal que pode fexisir entre os eventos narados: assim, em “O rei morreu e em seguida ‘morreu a ralnha” estamos perante uma histéria; mas “O rei morreu e depois 2 rainha morreu de dsgoto” & jf um plot (cf. E. M. Fors, Aspects ofthe Now, ondon, Edward Amold, 1937, pp. 113 88) 38 O CONHECIAENTO DA LITERATURA mas algo mais do que isso, de certa forma remetendo para as origens, a razio de ser e as seduces de toda a narrativa: cativar e prender a atengao do leitor, pendente da forma como a intriga se desenrola e sobretudo do desenlace que a encerra. Sabem-no bem grandes romancistas e contistas, em cujos relatos o final da his- téria aparece calculado ¢ habilmente preparado para suscitar um desfecho surpreendente: © desfecho deste episédio da erénica itaguiense & de tal ordem e tio ‘nesperado, que merecia nada menos de dez capitulos de exposigio; mas contento-me com um, que serd o remate da narrativa, ¢ um dos mals belos exemplos de conviceio cientifica e bnegagio humana. (2) Assim, Simo Bacamarte, o médico que internara quase toda a cidade de Itagui no hospicio que cientificamente criara e dirigia, acaba por decidir em sentido inverso: esvazia o hospicio e encer- ra-se nele, entregando-se “ao estudo e & cura de si mesmo”” 3.2, Ao enunciar a narrativa, modelando um universo die- gético que fundamentalmente compreende os elementos que acabamos de descrever, o narrador formula um discurso, com- ponente fundamental dos textos narrativos, estreitamente cor- relacionado, como se disse, com a histéria. Conforme noutro local assinalimos, o conceito de discurso regista uma utilizagio muito ampla, no quadro dos estudos linguisticos e no dos estudos literdrios (**); como é evidente, a acepgio a que aqui nos referimos é a que actualmente vigora no ambito da teoria da nar- rativa Assim, no caso de narrativas orais ou escritas (e, portanto, também no caso das literfrias), o diseurso corresponde ao enun- ciado verbal que veicula a histéria, designadamente 20 conjunto dos componentes lingufsticos (e também translinguisticos) que o ‘aterializam; € também pela articulagio desses componentes que (©) Mactavo e Assis, O Alienstae outta: histtes, Rio de Janeto, BdigSes de Ouro, 1966, p. 95. (*) Cf. sup, pp. 152-154. 364 4 i rnTRoDuGKO Ads ESTUDOS TERARIOS se manifesta a dimensio metonimica ¢ a dindmica de suces- sividade a que Jakobson se referiu. f possivel, entretanto, estabe~ lecer um elo de ligacio entre 0 conceito de discurso na narrativa e a concepsao privilegiada por fimile Benveniste: de facto, 0 discurso narrativo € 0 resultado do acto de enunciago de um narrador e dirige-se, explicita ou implicitamente, a um narratério, termo necessirio de recepsio da mensagem narrativa (*).. £ a0 nivel do discurso que se detectam os processos com- positives que caracterizam 0 modo narrativo: 0 tratamento do tempo, de acordo com virios critérios (ordem, frequéncia e yelocidade), as modalidades de elaboragio da informagio die- gitica, dependendo da distancia e da perspectiva narrativa adoptadas, a caracterizacio do processo de narragio e da entidade que o activa (voz e situagio narrativa), podem considerar-se os mais destacados aspectos da manifestagio do discurso, com inevitéveis consequénclas no que respelta & constituigio da ima- gem da histéria ("), A relevincia de que se revestem os procedimentos discursivos pode expressivamente exemplificar-se pelas opgdes de perspec- tivagio cultivadas em muitos (mas nio todos) textos narratives. (©) CEE. Bawuste, Poblimes de ingustigue gnéle, Parks, Gallimard, 1974, vol. 2, pp. 79-88. (() 0 wabilho fundamental para aprofundar os virios aspectos de ‘onstituigio do discurso que ficaram mencionados continua a ser ensaio de 6G. Gerry, "Le discours du rékt” (in Figures I, Paris, Seull, 1972), reajustado fe em certos aspectos corrigido em Nowenu Discous du Réit, ed. cit; justi ficadamente, a sistematizagio que Genette propés nas obras mencionadas colheu uma grande acetagZ0 no dominio da naratologie, sem prejuizo, natu ralmente, de erties pontuas que Ihe possam ser feitas. Viios dos dominios © ‘conceltos referidos foram também contemplados em obras de M. Ba, Tri de de Je Nerotve (una Introdvecién a la Narmtlogia), Madrid, Citedra, 198: G, Puce, Nunmtology, The Form ond Function of Nara, Berlin/New York/ amsterdam, Mouton, 1982; S. Cuanuas, Story and Discourse: Neate Strutwe in Fiction and Flim, Ithaca, NY., Comell Univ. Press, 1978; F Sanz. A Theory of Narrative, ed, ct; D. Coste, Narrative as Communication, ed. cit. Cf. também (C. Ras e Ava Casta M. Lomi, Dicindrio de Naratoogi, ed, cit. 365. © CONHECIAENTO DA LETERATURA Importado do dominio das artes plisticas (®), 0 termo e o conceito de perspectiva narrativa referem-se genericamente 20 modo como é elaborada, quantitativa e qualitativamente, a informagio iegética veiculada por uma determinada focalizagio; signo narrativo crucial para a definigio de uma determinada estratégia de epresentacio (aum sentido restrito), a focalizagio pode ser: 3.2.1, Potencialmente ilimitada quanto ao ambito de aleance que atinge ¢ aos elementos inforinativos que faculta (focalizagéo omnisciente); 3.2.2, Condicionada pelo campo de consciéncia ~ sentidos, ercepeées, apreciagées, etc, - de uma personagem inserida na hist6ria (focalizagio interna, isto é, acti- vada do interior ou no interior da personagem); 3.2.3. Limitada 4 superficie do visivel ¢ cingindo a infor- magio narrativa a0 exterior dos elementos observados (focalizagao externa, que pode resultar também das limitagées do olhar de uma personagem) (*) (7) Num extenso, bem informado € muito sugestivo enslo, Claudio Guillén anasou & oxigem do conceto de perspectivae 2 sua wiliardo em Givens domino, ptr tear ("On the Concept and Meuphor ‘of Perspective" in Litrmtue os System, Esays Toward the Thenry of Literary Hist Peg, Pinson Un es, 1971p. 280971) eyeing Hy Entendemos que os termos em que Aguiar e Sila (ef. Ti Litany 8 el Cae: Aei 1990" 9p. Ns) sale ‘mites da foclizagio constiuem, nalguns aspects, uma regresio relatives ‘mente aos avangos que esta matéria conhecew nos iltimos anos. Assim, se Barece pacfica uma designagio como foealizapio omanisclente, ios concetos ‘e focalizagio heterodiegética« focalizagio homodiegétia confundem de novo @ perspectiva narraiva com a narragio, dominios. evidentemente relacionados, mas auténomos (ou seja: no quadro enuciativo em que opera lum narrador homodiegtico a focaizagio ¢ abjecto de tratamento eapecthco, tuturalmente disinto do que sofre no quadro enunclatvo proprio de umn narrador heterodiegético); por sua vez, as designagées foralizagio {nterventiva cfocalizafo neutral confundem o regime da foclizgS0 com o Gas Intases do narradr, como & evident dependente daqule, mas nf0 idemificivel com ele. 366 _BeTHODUGKO AOS BTUDOS LTARARIOS (Os reflexos da focalizagio na configuragio da historia ates- tam-se de modo muito elucidativo no seguinte exemplo, que traduz um momento de contemplagio de determinado cenério por duas personagens do romance Esters: CCalaram-se. Barcos, pombas e poente, toda a patsagem daquele fim de tarde, entravam pelos olhos dentro de Gatinhas, extasiado, Gineto, porém, s6 via os esteiros longos dos telhais, como dedos de mios arrepanhando aguas, Os esteros eas chamings esgulas das fibricas, que fo crepisculo enegrecia mais. (") A instituigo da focalizagéo, a partir do campo de cons- ciéncia das duas criangas, privilegia no apenas o que elas véem (€ | isso & diferenciado, de acordo com o que mais prende 2 atengio de cada uma delas), mas também as particulares emopdes inerentes a especificas atitudes valorativas, perfilhadas por cada personagem. Sio essas atitudes valorativas que, projectando-se sobre aquilo a que B. Uspensky chamou o plano fraseol6gico (‘), implicam modulagdes estlisticas que revelam peculiares posicio- namentos ideolégicos e afectivos: por isso, Gaitinhas, “extasiado”, fixa-se sobretudo na beleza da paisagem, enquanto Gineto atenta nas marcas de opressdo quie “o creptisculo enegrecia mais”. Assim, as duas personagens, sendo momentinea e sucessivamente agentes de uma focalizagio interna (e, por iso, focalizadores), facultam do espago focalizado (*") imagens diversas, em sintonia com a prépria diversidade dos posicionamentos ideoldgicos e afectivos mencionados. © que fica sumariamente exposto assume um outro signi- ficado, se considerarmos agora os termos e circunstincias em que decorre 0 acto de enunciagio do discurso, ou seja, a narragio, () Sormo Pama Gov, Estrs, in Obrus Completes, 2.* ed, Lisboa, Pub Burops-América, 1972, p. 42. (°) CEB. Usa, A Poetics of Cmpastion. The Stractr ofthe Artistic Txt and o Tiplog of « Compsiional Form, Berkeley, Uni. of California Press, 1973, pp. 17-56. C) Cf. M. BaL, Naratologie Ess sur la signification marae dans quatre romans moderne), Pars, Kincksteck, 1977, pp. 31-38. 367 EAS, CARLOS Ree eae. Demudina, A994 (© CONHECIMENTO DA LTERATURA, processo ficcional que nio se confunde com o acto de escrita Tevado a cabo pelo autor (*), A definigio e anilise das particularidades da narragio exige a referéncia a diferentes vertentes da sua concretizacio: o tempo ¢ espago em que decorre, as especificas circunstincias que afectam esse espago, a relagio do narrador com a histéria, com os seus componentes ¢ com o narratério a quem se dirige. Exemplificando, dir-se-4 que as narragdes da novela sentimental das Viagas de Garrett, das Memérias Péstumas de Bris Cubas de M, de Assis, de Thérése Raquin de Zola ou do monélogo interior que encerra o Ulises de Joyce, dependem de parimetros completamente diversos, agindo esses parimetros sobre a configuracdo do discurso enunciado e sobre a imagem da histéria representada, No primeiro caso, 0 concreto da viagem, do espago em que decorre e das personagens que a protagonizam faz da narracio um acto simultaneamente liicido e interventor no presente da histéria principal; no caso das Memirias Péstumas a situagio do defunto autor, narrando depois da sua morte, estimula o olhar entre o irdnico e o desencantado que a narragdo plasma; jd em Thérése Roquin, a ulterioridade da narragio € conduzida no sentido de consolidar a atitude «cientifican e demonstrativa de um narrador de certa forma distanciado do uni- vverso representado; finalmente 0 monélogo interior encena uma narracio executada sobre a irrupcio espontinea de reflexes cujo teor desordenado e cadtico é devido justamente 20 imediatismo de uma tal narragao. Para além de outros aspectos que aqui no podem ser desen- volvidos — designadamente: os atinentes ao tempo em que a nar- ragio decorre ¢ ao nivel narrativo em que se situa (*”) -, aquele que & oportuno caracterizar com algum pormenor é 0 que res- (*) © que nio impede, como € ébvio, que a narragio seja referida em termos de escrita (por exemplo, “com a pena da Galhofa ea tinta da Melan- colia", como diz no preficio o "defunto autor” das Memérias Pistunas de Bris (Cubas de Machado de Assis), escrta que de novo deve sex entendia como acto fcefonal (7) C&C. Ras © AWA Cus M, Loves, Diciondro de Narratlogia, ed. ct, Pp. 250-257 e 290-300. 368 | |NTRODUGKO AOS ESTUDOS LITERARIOS peita i pessoa do narrador, Conforme expressivamente sublinhou G, Genette, a ponderagdo do estatuto da narra¢io permite rejeitar como incorrectas as express6es narrativa (ou narrador) na primeira pessoa e narrativa (ou narrador) na terceira pessoa, De facto, “a ‘pessoa’ do narrador [...] s6 pode estar na sua narrativa, como todo o sujeito da enunciagio no seu enunciado, na ‘primeira pessoa”. Assim se refutam hipéteses tedricas extre- mas, segundo as quais seria concebivel uma narrativa destitufda de narrador; como reafirmou Genette, “mesmo no relato mais sdbrio hi alguém que me fala, que me conta uma histéria, convida-me a ouvir como ele a conta ¢ este apelo ~ conflanga ou reso — constitui uma inegivel atitude de narracio e portanto de narrador” (*) Uma manifestagdo irrefutdvel da presenga do narrador na narragio é a que é revelada pela projeccio da sua subjectividade no discurso. Ji se disse aqui: apesar de muitas vezes procurar caltivar um certo pendor objectivo (ou, pelo menos, um propé- sito de dar a conhecer 0 que é exterior ao narrador), @ narrativa liverdria nio escapa a incursdes subjectivas mais ou menos fla~ grantes, Referimo-nos as chamadas intrusbes do narrador, qualitativa ¢ quantitativamente variaveis em fungio das situagées narrativas vigentes e também das circunstincias ideologico-cultu- ais que indirectamente inspiram essas situagdes narrativas: da pretendida cientificidade do romance naturalista & acentuada introspeceio cultivada pelo rorhance psicol6gico, vai um arco de possibilidades muito amplo. Como quer que seja, através dos registos subjectivos (modalizacdes, figuras de estilo, adjectiva- .96es valorativas, discursos abstractos de pendor sentencioso, etc), acaba invariavelmente por se insinuar uma atitude (ideoldgica, moral, afectiva, ete.) provinda da pessoa do narrador: quando emos em Madame Bowary que, nos desesperos que antecedem 0 suicidio, passou pela mente de Emma a lembranga de Rodolphe, “comme un grand éclair dans une nuit sombre”; quando depois (*) CEG. Generm, espectivamente, Figures Ill ed. ei, p. 252 ¢ Noweat Discous du Récit, ed. cit, p. 68. 369 (© CONHECRRNTO DA LITERATURA Jemos que Emma partiu 20 seu encontro, “sans se douter le moins du monde de cette prostitution”, parece ébvio que as expresses Citadas denunciam jufzos de valor que acentuam aquele desespero, 30 mesmo tempo que negativamente avaliam 0 comportamento da personagem, Os exemplos citados parecem tanto mais interessantes quan- to & certo que eles ocorrem numa situagio narrativa (") que poderia favorecer a adopsdo, pelo narrador, de uma atitude de fria neutralidade. Essa situago narrativa refere-se a uma certa relacio do narrador com a histéria, condicionando 0 acto de narracio: aquela em que o narrador relata uma histéria a-que é estranho, porque a nao integra nem integrou como personagem, Por isso se designa este tipo de narrador como heterodiegético (hetero- -significa “diferente”), que é exactamente o que encontramos em romances como Le Rouge et le Noir de Stendhal, Madame Bovary de Flaubert, O Primo Basilio de Eca, I'Assommoir de Zola, Guerra ¢ Paz de Tolstoi, As Vinhas daira de John Steinbeck, Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira, O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago, etc, Em tais romances, estrutura-se uma situagdo narrativa cujas linhas de forga so as seguintes: polaridade entre narrador e universo diegético, acentuando-se entre ambos uma alteridade em princfpio irredutivel; por forga dessa polaridade, o narrador heterodiegético tende a adoptar uma atitude demiirgica em relagio & histéria que conta, surgindo dotado de uma autoridade que normalmente néo é posta em causa; predominantemente, 0 narrador heterodiegético exprime-se na terceira pessoa, traduzindo esse registo a alteridade mencionada (*), (°) Bim duas obras fandammentas, Franz Stanzel analisou a problemitica das situagdes narzatvas, em conexdio com a perspectiva naratva: cf. Nataive Situations in the Novel. Tom Jones, Moby-Dick, The Ambasadors, Uses, Bloomington/ “London, Indiana Univ. Press, 1971; A Theory of Naive, Cambridge, Cam- bridge Univ. Press, 1984, especialmente caps. 3 7. (*) Isso nio impede, note-se, que 0 narrador heterodiegético pontual- mente enuneie uma primeira pessoa que nfo pée em causa as dominantes deseritas: em Le Rouge ee Noi, pode ler-se em certo momento: "Mais, quoique Je veuille vous parler de a province pendant deux cents pages, je n’aural pas la 370 | | | IeTRODUCKO AOS BTUDOS uTaRAROS Diversa desta € @ situagio narrativa institufda pelo narrader homodiegético: neste caso, tendo vivido a histéria como perso- © narrador retira dessa experiéncia as informagées que faculta. Entretanto, esta relagdo experiencial refere-se fundamentalmente 4 vivéncia da histéria como perso- nagem secundiria ou mera testemunha: por exemplo, Zé Fer- nandes, narrador d'A Cidade ¢ as Serras, Watson companheiro de Sherlock Holmes nos romances de Conan Doyle, Adso discfpulo de Guilherme de Baskerville em O Nome da Rosa de Umberto Eco, etc. Quando 0 narrador viveu a hist6ria como protagonista é designado como narrador autodigético (auto-, “o préprio”): em narrativas como o Lazaillo de Tormes, The Life and Adventures of Robinson Crusoe de Daniel Defoe, A Reliquia de Bea, Memérias Péstumas de Bris Cubas de Machado de Assis, © Malhadinhas de Aquilino Ribeiro, La Familia de Pascual Duarte de Camilo José Cela ow Manki Submersa de Vergilio Ferreira, 0 narrador @ uma entidade que, tendo atravessado experiéncias ¢ aventuras virlas, relata, a partir de uma posigdo usualmente amadurecida, o devir da sua existéncia. registo de primeira pessoa gramatical que mestas narrativas (e também nas de narrador homodiegético) se manifesta constitui uma consequéncia semiodiscursiva dessa coincidéncia narrador/ /personagem ("), 3.3, As virias entidades € situagdes narrativas até agora descritas so indissoctivels da problemitica da ficcionalidade que normalmente caracteriza as narrativas literérias e a especifica referencialidade que elas levam a cabo. Por forga de caracteristicas estruturais e semiodiscursivas que ficaram observadas quando aludimos ao conceito de narratividede, barbatie de vous fire subir la Tongueu et es méngements saat d'un dialogue de province” (Srmonat, Le Rouge ee Nos, Paris, Grmer-Flammarion, 1964, p38). (°) Consequéncia que, em cetos casos, pode ser mistfeads, mas nio radicalmente anulada: em La Pest de Albert Camus, o narador que, no final do relato, revela ter sido o protagonita da histéria, opt, ao longo da narratv, por umn registo de terceira pesios, an © contscamTo DA LTERATURA € possivel afirmar que sio sobretudo os textos narratives que ‘melhores condigées retinem para encenarem a ficionalidade, por meio da construgio de mundos possiveis (“). Mas isto nio ‘implica que a fccionalidade seja uma condigao exclusiva dos textos narrativos literdrios; no amplo espago dos textos narratives (literdrios e nio-literdrios) inserem-se romances e anedotas, carac- ‘erlzados por uma comum dimensio ficcional, que desempenha, no entanto e como é Sbvio, fungSes socioculturaise psicoculturais ‘ulto diversas; por sua vez, a flcionalidade que, por exemplo, Caracteriza um drama romantico concretiza-se independentemente a estrita narratividade vigente nos textos narrativos. A anilise da ficcionalidade na marrativa literdria deve levar- se a cabo nos termos de um equilibrio entre dois extremos evita. Weis: Por um lado, 0 extremo imanentista que recusa quatsquer conexGes entre o mundo possivel da narrativa literiria eo mundo real; por outro lado, o extremo que adopta uma atitude imedia. lista, lendo a narrativa literéria como reflexo especular do real, Projecrdo nio modelizada de eventos ¢ figuras empiricamente existentes, . Este tltimo procedimento tornaria melindrosa a existéncia de um subgénero narrativo que durante o Romantismo gozou de srande prestigio: o romance hist6rico, Neste (mas nio s6 nele, naturalmente), a Constituicio de um universo ficcional nio inibe, antes solicita, a referéncia a personalidades ¢ acontecimentos histéricos (Peligio no Eurico de Herculano, o rei D. Pedro e a Gidade do Porto, n'0 Atco de Santana de Garret, etc). Sem poremn em causa 0 estatuto ontolégico da fiegSo, essas entidades corres. Pondem &s chamadas modalidades mistas de existéncia: a flegio incorpora certas propriedades histéricas reconheciveis nessas entidades (a vitéria dos cristios em Covadonga, no Euric, a derrota ausibutos « esferes de acyio, mas também os chamados mundos epistéanicos (eologias,audes€ico-monas, opps alldges, et) an INTRODUGKO AOS ESTUDOS LITERARIOS de Napoledo em Waterloo, em La Chartreuse de Parme de — exc.) € utiliza essas propriedades como factor de verosimilhanca, mas contando, para isso, com a cultura do letor. a Aeferndo-e 4 mantfnasfo, em contest fiona, de Agus bitin, Roman Ingeden observa que “as peromgens que ‘aprecer’ nas obras Lersias nfo s6tém nomes,p ex, como J. César’, "Wallenstein’, ‘Ricardo II’, ete., mas devem, em ra sentido, ‘ser também eas personages ourora assim chamads realmente existentes, [ are Porat ser em pret pr 1 Bes’ das pessoas (coisas, aconteciment “Eee Eenca g rc s que reprodzem"(”) Se normalmene€ssim que acontec, deve zo entanto reconhecer-se também que, em rigor, nada impede a derrogeo, na narrative Tierra © em certos contests (tans gressio cultural, culto do fantéstico ou do absurdo, ee), de a veraciade empire inst, tspondo ae ent uma especie Pverdade interns” da ego por Rng deta "verdad imerma" bem como da autonomia propia dos univertos de flsio, que deparamos, num conto de Guimardes Rosa, com as segui palavras sls ano melo, dino deste asim se pusram pel mens ode ero pera mena ena pong eg Sine cri venta, ho € um eno cote, lo sen) (°) R IvcaRoay, A Oba de Ante Litera, Lisboa, Fund. Calouste Gulben- an, 9/8 p.266 mates Rou Sigg, Ls, Lot do Bl, 314 373 [BIBLIOGRAFIA AIBALADHO MayoRo0M0, Tomés ~ Seméntic de la namcién: la ficcién realist, Madrid, Taurus, 1992 [AIBALADHO MAYORDOMO, Toms ~ Teoria de los mundos posites y macrosructura ‘anti, Alicante, Univ. de Alicante, 1986, [AWOTT, Mieiam ~ Las novelists y la novel, Barcelona, Seix Baral, 1966 [Ams C.,C. Otrvtnt eR Sema — Dictionnaire ds types et des caractires ltrs, Paris, F, Nathan, 1978, BAL, Mieke ~ Narratologie (Eso sur a signification narrative dans quate romans moderne), Paris, Klincksieck, 1977. BAL, Mieke ~ Tenia de a Nortie (una lntrduecion ola Naratlogia), Madi, ‘Citedra, 1985 ‘BALADIER, Louis ~ Le cit. Ponorme et reps, Paris, Les fons STH, 1991 ‘Bowie, Helmut ~ The Norative Modes, Techniques ofthe Shot Story, Cambridge, D, S, Brewer, 1982. 1+ BrawOnD, Claude ~Logique du rit Paris, Seull, 1973, Bass, Jacques ~ Lenora, Paris, Duculot, 1994, BROOKS, Cleanth e R. Penn WaRnEN ~ Uniestanding Fiction, 2.*ed., New York, Appleton-Century-Crofs, Inc, 1959. BROOKS, Peter — Reding for the Plt. Dsign and Intention In Narmative, Oxford, Clarendon Press, 1984 + Buror, Michel ~ Escis sur le Roman, Pais, Gallimard, 1969. ‘casa, David — Tine, Nara, and History. Bloomington, Indiana Univ. Press, 1986, (CHAMBERLAIN, D. Frank — Narain Pesci in Fiction, A. Phenomenological ‘Mediation of Rader, Txt, and World, Toronto, Univ. of Toronto Press, 1990 ‘Cranpiowy, Robert ~ Oatalogy ofthe Norte, The Hague, Mouton, 1972, ‘Crarnsan, Seymour Coming to Terms. Te Rhetoric of Nara in Fiction and Film, Ithaca/London, Comell Univ, ress, 1990, Canaan, 5, ~ Story and Discourse: Narative Structure in Fiction and Film, Ichaca, N.Y: Comell Uni. Press, 1978 Con, S. ¢ Linda M. Stns Tiling Stoves A Theoretical Analysis of Nerve Fiction, New York/London, Routledge, 1988 > Communastions, 8, 1966 (tt. genérico: Lanayse structure dr), 375 © CONHBCRMENTO DA LTERATURA, Coste, Didier ~ Naratve as Communication, Minneapolis, Univ, o Press, 1988, ea CCourunie, Maurice ~ Textual Communication. A Print-besed Theory London/New York, Routledge, 1991 qe ‘Cun, Gregory ~ The Nature of Fein, ridge x ‘Cambridge, Cambridge Univ. res, DEDALWS, 2, 1992 (We. genérico: Fact e it > or co so ma Litetra ena Tei a Litem), Dionormio, Salvatore ~ Tia do texto ~ 1. Palegimenos ¢ 50 som Se roligimens eter de nara, S20 + Fonsta, EM. ~ Aspects ofthe Now, London, Edward Amold, , London, Edward Amold, 1937. Fampwan, Ralph The Lyric Nove. Studies in Hermann Hese, André Gide, and Virginia Wolf, Princeton, Princeton Univ. Press, 1963, Geerrs, Gérard ~ Fiction edition, Pais, Seuil, 1991, + GEVETTE, G. ~ Figures Il, Pais, Seu, 1972, (GENETE C= Nomen Diu dR, aris, Seul, 1983 vet, Charles ~ Prediction de Vint romanesque. Un dat du ete sa de ctnin Te Hague Pee ons, Jsen, Wolfgang ~ The Fcive and the meg , inary, Chrting Litery Ant Balumore/Londn, The Jobs Hopkins Une. Pes, 990 ADS Laser, Susan S. ~ The Nartne Act, Pont of View in Pree Fiction, Princeton, sng Pinee Uni res, 198, : " MA, Luis Costa ~ Sociedade e discus ficonal, Rio de Janeiro, i , Bio de Janeiro, Bd. Guanabara, Lovrvatr, Jaap — Est detpolope nara: “point de ue é re pot de we", Pats, José Cort, 1981 once, David — The Art of Fiction, stated fram Clasic and Modern Texts, satamendononh, Penguin Boks, 1992 . ines, Angelo ~ Loffcing del mont. Semiotia della naraiviti, Mia Mondadori, 1983, ms Miso. Manm, Wallace ~ Reet Theories of Narative,fthaca/London pe, Wala ,Ithaca/London, Cornell Univ. Manrivez BONATY, Félix ~Le fic net (Su de Murcia, 1992. ‘incr, W. J.T. (ed) ~ On Nenative, Chicago/London, The Univ. cial WI sg0/London, The Univ, of Chicago ‘NAstt, Cristopher (ed) ~ Nar in Culture. The Uses of Sot lke, The Uses of Stryteling in the Sciences, ans ea: toMy on, a3 ‘ne, Patrick ~ Fictions of Discourse, Reading Narative Theory. Toronto, Univ Toronto Press, 1994 " aan as Tomas A.~Fconal Wl, Cambridge, Mass /London, Harvard Univ Fetes Tay, 11, 2, 1990 (ct. genézico: Naratlogy ; ft. genérico: Nartoogy Revisited 1). Poetics Tday, 11, 4, 1990 (ut. genério: Naraology Revisit) lagica yontlogia), Muress, Univ 376 it pRODUCKO AOS ESTUDOS LTERARIOS pozusto WANC06, Jost Marfa ~ Pitica del ficrién, Madrid, Sintsis, 1993. Prada OROPEZA, Renato ~ Hl leguye nero, Prolegimenas pero una semitica nara, s/L, Bd Univ. Centroamericana, 1979. puuscs, Gerald ~ A Dictionary of Nermtology, Aldershot, Scolar Press, 1988. pauses, G. ~ Narstlogy. The orm and Function of Naetve, Berlin/New York/ ‘Amsterdam, Mouton, 1982. ; eoonbo GorcosciA, Alicia ~ Manel d ands de Iitetur aarti, La poifoia textual, Madrid, Siglo XXI de Espafa Bitores, 1995. Ras, Carlos ¢ Ana Cristina M, Lovss~ Diiondro de Naratalaga, 4 ed, Coimbra, ‘uv. Almedina, 1994, aoa, Pal ~ Tes eit, I Pars, Seu, 1983. acu, P.~ Temps et rit. Hl configuration dans le rétt de feion, Paris, Seuil, 1984. ucaun, P.— Temps erst: le temps seat, Paris, Seuil, 1985. TIFFATERRE, Michael - Fictional Tuth, Balimore/London, The Johns Hopkins Univ. Press, 1990. [RYAW, Marie-Laore ~ Posible Words, Artifical Ineligence, and Naraive Theoy, ‘Bloomington, Indiana Univ, Press, 1991 ‘uon-Kevan, Shlomith — Naratie Fiction Contemporary Pots, London/New ‘York, Methuen, 1983, ‘Rowe, Ruth ~ Poste Wor in Litentue, Cambridge, Cambridge Uni. Press, 194 ScHOUS, R.e R. KB0G ~ A natuea da nermtv, Sio Paul, McGraw-Hill do Brasil, 1977. SeGoLN, Fernando ~ Pesoegem ¢ anti-personager, Sio Paulo, Cortez & Moraes, 1978 ‘x0, M, Alita (ed) ~ Cotgoris da nara, Lisboa, Arcila, 1976. ‘Musa, Mak (ed) ~ avers aif Fen, Bloomington, Indiana Univ. Press, 1997 Sravzet, Franz ~ Norrie Situations in the Novel. Tom Jones, Moby—Dick, The “Ambasedrs, Ulsss, Bloonsington/London, Indiana Univ. Press, 1971 SrawzrL,F. ~ A Theory of Narrative, Cambridge, Cambridge Univ. Press, 198% “Tuoi, Jean—Ywes ~ Le Rei odtigue, Pais, PAU, 1978 ‘Traneav, Dorian (ed) ~ La nanativit, Paris, CNRS. 1980. ‘ToOLAN, Michael ~ Nara, A Critical Lingus Introduction, London/New. York, Routledge, 1988. ‘atawusva, Dario = Comentario de texas narratives: lanl, Valladolid, Baiciones ‘car, 1989. ‘vauanueva, Dario ~ Estructure y tempo rlucido en la novel, 2.* ed, Barcelona, Anthropos, 19%. \Warnano, Rainer~ “Pour une pragmatique du dscoursfictionnel”, in Poétque, 39, 1979, pp. 321-337. hrs, Hayden ~ The Conta of the Form. Nanatie Dicouse ad Histor Representation, Balmore/London, The Johns Hopkins Univ. Press, 1987. 37