Você está na página 1de 13

Para entender o desconstrutivismo

Estruturalismo, pós-estruturalismo e arquitetura

Por Sílvio Colin

De uma maneira ampla,


podemos falar de
estruturalismo toda vez que
um objeto de conhecimento é
encarado como uma estrutura.
Essa prática foi saudada como
um passo adiante da visão
mecanicista do mundo,
segundo a qual esse objeto era
encarado como uma máquina.
Consideramos que foi a partir
do século 17, com Descartes,
Galileu e depois com Newton
que o modelo da máquina se
tornou o orientador do
pensamento científico. Na
Casa em Connecticut. Robert Venturi, 1970,
física newtoniana, o universo
imagem VSBA
era considerado uma grande
máquina, e os astros, suas peças. Na física atômica, o átomo seria a microrrepresentação do
universo, uma minúscula máquina. Na medicina e na biologia, o corpo humano e os outros
organismos também seriam máquinas, os órgãos, suas peças. No âmbito da arquitetura,
mais recentemente, lembremos da
"máquina de morar" de Le
Corbusier. O modelo da máquina
foi o principal orientador do
pensamento moderno, e podemos
dizer que a ele devemos muito do
que se conseguiu em termos de
conhecimento científico. Apesar
disso, esse modelo tem suas
limitações, e essas apareceram com
muita clareza já no século 19.

As limitações começam pela


determinação de que para o estudo
eficiente dos corpos materiais deve Desconstrução do plano horizontal
o estudioso ater-se às suas
propriedades mensuráveis: dimensões, quantidades e movimento. Obviamente que muitas
coisas não se explicavam segundo a visão mecanicista. Todas as vezes que se lidava com
objetos de conhecimento mais difíceis de mensurar, como nas ciências sociais, psicologia
etc. as limitações se tornavam claras e insuperáveis.

A visão estruturalista começa com a constatação de que o todo é mais do que a soma de
suas partes. Dito em outros termos, um conjunto individualizado, seja um grupo social, a
mente humana, a língua falada etc. é uma estrutura com características próprias e que em
muito excede as de suas partes consideradas em particular ou mesmo em conjunto. A
diferença entre a visão estruturalista e a visão mecanicista é a ênfase colocada nos
elementos estruturantes, e não nas partes componentes. Para entender bem a posição dos
estruturalistas, falemos de um argumento clássico: uma melodia. Esta é composta de notas
musicais, mas o estudo isolado dessas
notas, por mais acurado que seja, não
esclarece nada sobre a melodia. É o estudo
do conjunto e de seus elementos
estruturantes, das sequências, das ênfases,
das posições relativas das notas entre si,
que vão permitir o entendimento dessa
melodia.

Para o estruturalista, o seu objeto de estudo


é visto como um sistema em
transformação. Daí surgem as leis básicas
do método estrutural. Em primeiro lugar, a
definitiva conceituação de sua totalidade:
quais são os elementos constituintes que, Sede da Corporação Nunotani, Tóquio, 1990-2,
apesar de suas diferenças, pertencem a essa Peter Eisenman
totalidade. Em seguida, quais são as leis
que regem as suas transformações dentro desse sistema e, por fim, quais são os critérios de
autorregulamentação, isto é, quais são as possibilidades de variação e transformação
admitidas dentro do sistema.

Existem estruturas em todos os campos do


conhecimento: na matemática, na física, na
biologia, na psicologia, na linguística, na
antropologia. Muitas das obras marcantes
do conhecimento ocidental atual podem ser
ditas estruturalistas, como a obra de Karl
Marx e a psicologia da Gestalt.

Estruturalismo
De uma maneira mais restrita, porém,
quando falamos de estruturalismo nos
referimos à vertente dominante do
pensamento acadêmico francês, sobretudo
nos anos de 1960 e 1970, que têm como
nomes mais importantes Claude Lévi-
Strauss, Louis Althusser, Michel Foucault,
Desconstrução do ponto de vista
Roland Barthes e Jacques Lacan. O ponto de partida do que poderemos chamar, mais do
que um método, uma corrente filosófica, que viria a substituir nos meios acadêmicos a
hegemonia do existencialismo de Jean Paul Sartre, é a obra de Ferdinand de Saussure.

Diferentemente de seus pares, o linguista suíço encarava a língua como


uma estrutura de signos - especificamente signos linguísticos - mas que
fariam parte de uma estrutura maior, do conjunto de signos que
participam da vida social, nomeado por ele de semiologia, cujo estudo
delegou a seus sucessores, concentrando-se apenas na língua,
sobretudo a língua falada. Sem ter jamais escrito um livro, tarefa que
coube a seus discípulos, Saussure elaborou conceitos de enorme
relevância para as novas gerações de linguistas, inclusive utilizados em
outras áreas do conhecimento, como veremos adiante.

Contraste entre a Basílica do


Santo Espírito. Florença, 1434-
82, Filippo Bruneleschi; e o
Denver Art Museum. Colorado,
2006. Daniel Libeskind
Contraste entre a Basílica do
Santo Espírito. Florença, 1434-82,
Filippo Bruneleschi; e o Denver
Art Museum. Colorado, 2006.
Daniel Libeskind

Entre esses conceitos está a fundamentação do signo em duas faces:


significante e significado. O significante é a parte material do signo - no
caso da língua falada, o som da palavra -, e o significado é a ideia
transmitida. Outra divisão importante é aquela entre língua e fala
(langue e parole), sendo a língua um produto cultural, que não pode ser
alterado por ações individuais. A fala é um produto individual, expressão
de pensamento único, porém submetido às leis que regem a língua.

Outras peças importantes na obra original de


Saussure, fundamentais para o
desenvolvimento da semiologia, são suas
diferenciações entre sistema e sintagma e
entre denotação e conotação. O sistema é
uma relação de campos associativos que se
unem por semelhança ou contiguidade. São os
termos da linguagem, as peças do vestuário,
as diferentes formas de telhados ou colunas. O
sintagma é a justaposição de termos em uma
unidade de significação - uma sentença
literária, uma vestimenta completa, uma Sistema cartesiano de eixos
ordem arquitetônica, por exemplo. Denotação ortogonais
é o significado primeiro de uma manifestação,
o mais objetivo, o mais manifesto; conotação é um significado segundo,
latente, dessa mesma manifestação. Uma simples sentença como "a
porta está aberta", que tem apenas uma denotação, pode servir,
dependendo de quem fala, o porteiro ou a dona da casa, ou do contexto,
a uma infinidade de conotações.

Se podemos dizer que Marx e Freud construíram as obras que mais


influenciaram o pensamento do século 20, e que Lacan fez a releitura
estruturalista de Freud, coube a Louis Althusser a contraparte
estruturalista de Marx. Mestre de grandes estruturalistas e pós-
estruturalistas, como Foucault e Derrida, Althusser aplicou a Marx o
método de "leitura atenta" que
seria o princípio ativo da
"desconstrução" utilizada por
Derrida, enfatizando alguns
aspectos não explícitos, porém
latentes na obra de Marx, e
definindo a sociedade como uma
estrutura relacional de política
econômica, prática ideológica e
prática político-legal.

Pós-estruturalismo e arquitetura

Chamamos de pós-estruturalismo
a corrente de pensamento ligada
atavicamente ao estruturalismo e
empreendida por pensadores
formados sob as ideias que
acabamos de expor, mas que se
adiantam sobre elas. Correndo o
risco da imprecisão que costuma
ladear as simplificações, diremos O Ateneu, New Harmony, Indiana, Estados
que o estruturalismo preocupa-se Unidos, 1978-9, Richard Méier; e o conjunto
em estabelecer os padrões da residencial IBA, Berlim, 1987-94, Zaha Hadid
análise estrutural, e falamos de - exemplos de desconstrução dos eixos
pós-estruturalismo quando os cartesianos
temas são ampliados e o método
estrutural começa a ser flexibilizado e a abranger a cultura do século 20
como um todo, e seus conceitos estruturantes - a maior parte advinda
do pensamento iluminista - são revisitados e desconstruídos, para usar
um termo tipicamente pós-estruturalista criado por Jacques Derrida.

O termo "estrutura" é muito caro para a arquitetura, e a metáfora


arquitetônica há muitos séculos se faz presente nos textos filosóficos,
em Platão, Descartes, Kant. Pode mesmo causar certa confusão o uso
dessa palavra na cultura arquitetônica atual, pois pode tanto referir-se à
conjunção de vigas, pilares e lajes quanto à tradição linguística de que
estamos falando.

Uma abordagem estruturalista (no sentido da tradição saussureana) tem


sido levada a efeito na arquitetura a partir dos anos de 1960 por
arquitetos e críticos como Venturi e Jencks, buscando construir a malha
estrutural resultante do rebatimento dos conceitos linguísticos para a
produção e a crítica arquitetônica. Mais recentemente, a colaboração de
Jacques Derrida com Peter Eisenman e Bernard Tschumi, iniciada por
ocasião do concurso para o projeto do parque La Villette, em 1982,
coloca no plano teórico da arquitetura as legítimas questões
relacionadas com a crítica cultural pós-estruturalista. Diria Derrida:

"Estes arquitetos estavam de fato desconstruindo a essência da tradição


e criticando tudo que subordinava a arquitetura a outra coisa - o valor
da utilidade ou beleza ou habitação etc. - não para construir algo que
fosse inútil, feio ou inabitável, mas para liberar a arquitetura dessas
finalidades externas, desses objetivos exóticos".

As "estruturas" manifestam-se de diversas formas na arquitetura e o


modelo saussureano tem sido aplicado não somente na crítica da
arquitetura atual, mas também do passado. Os correspondentes à
"língua" saussureana, produto cultural inacessível à intervenção
individual são os estilos históricos, as poéticas estilísticas etc. As "falas"
são os discursos transmitidos pelas soluções individuais, tendo por
objeto o espaço, o volume, a poética mural, os elementos arquitetônicos
e suas articulações.

Uma maneira própria do pós-estruturalismo de trabalhar a


desconstrução, muito adequada ao uso em arquitetura, são as
formulações dos pares binários.

A desconstrução localiza certas oposições cruciais ou estruturas binárias


de significado e valor que constituem o discurso da "metafísica
ocidental". Estas incluem (entre muitas outras) a distinção entre forma e
conteúdo, natureza e cultura, pensamento e percepção, essência e
acidente, mente e corpo, teoria e prática, macho-e-fêmea, conceito e
metáfora, fala e escrita etc. Uma leitura desconstrutiva vai provar que
estes termos estão inscritos dentro de uma estrutura sistemática de
privilégio hierárquico, como o fato de um membro de cada par sempre
parecer ocupar uma posição governante ou soberana. A finalidade é
demonstrar, por meio da leitura atenta, como este sistema está
incompleto internamente: como o termo segundo ou subordinado de
cada par tem igual (às vezes maior) aspiração de ser tratado como
condição de possibilidade para o sistema inteiro.
Derrida trabalha frequentemente com esse método de leitura atenta
sobre pares binários, sendo das mais importantes técnicas do que ele
chama desconstrução. O método é bastante caro à arquitetura, pois sua
produção está impregnada desses pares binários.

O Ateneu, New Harmony, Indiana, Estados Unidos, 1978-9, Richard Méier; e o conjunto
residencial IBA, Berlim, 1987-94, Zaha Hadid - exemplos de desconstrução dos eixos
cartesianos

A tradicional oposição entre estrutura e decoração, abstração e


figuração, figura e fundo, forma e função, poderia ser dissolvida. A
arquitetura poderia começar a procurar o "entre" dentro dessas
categorias.

Essa "leitura atenta", essa desconstrução tem insistente presença no


trabalho dos arquitetos pós-modernistas. É, por exemplo, o caso da casa
em Connecticut, de 1970, de Robert Venturi. A questão do interior-
exterior, colocada como um par binário, é questionada e subvertida. A
suposta "frente" - não exatamente o ponto de acesso - tem um discurso
assim elaborado com uso de simetria, estudo de cheios e vazios e
demais recursos que somente valem para o observador externo. Aquele
ponto de interesse principal é, na verdade, ocupado por uma cozinha; a
parte nobre está do lado oposto.

Poderíamos citar inúmeros exemplos de trabalho desconstrutivo sobre


pares binários "de significado e valor que constituem o discurso da
'arquitetura' ocidental", parafraseando Norris. Este foi, durante duas
décadas, o principal trabalho dos arquitetos pós-modernistas sobre o
questionamento de outro grande par estruturante, retirado do
estruturalismo linguístico "clássico" - significante-significado.
Assinalemos, pois, que, sob esse ponto de vista, o pós-modernismo
arquitetônico é já um pós-estruturalismo.

Porém o que nos interessa no momento é estabelecer outro tipo de


objeto de desconstrução menos afim com o trabalho meta-literário e
crítico dos pensadores pós-estruturalistas e mais endógeno da
arquitetura: outro tipo de conceito estruturante, particular do trabalho
dos arquitetos, que cumpre a mesma função dos conceitos já
mencionados, não mais nos textos, mas na elaboração de projetos -
forma de "escrita" própria do arquiteto.

O pensamento do arquiteto tem sido formado por


algumas estruturas das quais não se liberta a
não ser mediante um grande esforço de "leitura
atenta", de trabalho desconstrutivo. E esse
trabalho se insere nesse mesmo projeto de
desconstrução das tradições da cultura ocidental
e partilha dos mesmos interesses.

A linha e o plano horizontais, a linha e o plano verticais


O triedro mongeano, uma
É muito comum no trabalho dos arquitetos desconstrutivistas
composição de Mondrian,
a quebra da relação essência-aparência no que se refere ao
1924 - o universo
plano horizontal, ou plano de desempenho. A linha do
neoplasticista regido por um
horizonte e o plano do horizonte são talvez os mais
sistema ortogonal
importantes elementos estruturantes na concepção do projeto.
Desde que nascemos, ao engatinharmos, ao observarmos uma paisagem, ao caminharmos
tomamos consciência primeiramente do plano horizontal, mesmo que muitas vezes essa
apreensão seja ilusória, como no caso das grandes perspectivas. A verdade é que ela faz
parte de nossa ideia de mundo, e constitui-se em uma
necessidade básica espacial.

Os arquitetos desconstrutivistas trabalham frequentemente


com a desconstrução desse conceito, que associam a outros
pares binários como interior-exterior, essência-aparência, etc.
Trata-se também de um meio de exercer, por meio da
arquitetura, uma crítica contundente do mundo atual, da vida
atual, vistos pelos pós-estruturalistas sob o crivo da hiper-
realidade e do simulacro. O mundo que vivemos é um mundo
em que a imagem do real supera o real: as fotografias
manipuladas, os factóides, as manipulações da opinião têm
um poder de convencimento que substitui a "busca da
verdade" iluminista. A ideia, no caso desses edifícios, é criar uma imagem facilmente
recebida como falsa: um "real" que não pode ser real.
Semelhante ao plano e linha horizontais, o plano e linha
verticais são estruturas básicas de nossa apreensão do mundo,
ligadas à própria ideia de construir, de equilíbrio, de
gravidade. Entre a infinidade de ângulos possíveis, a vertical e
a horizontal determinam dois ângulos retos. O ângulo reto é o
angle-type: um dos símbolos da perfeição.
Supremus# 58, de
Os arquitetos desconstrutivistas trabalham com linhas e Malevich, 1918: o universo
planos inclinados, sobretudo em posição aparentemente suprematista com os objetos
instável, explorando as estruturas sólidas dos edifícios até o soltos no espaço
seu limite e representam a ideia de desafio da natureza, uma ideia iluminista em sua
essência, mas deslocada para representar a instabilidade, a incompletude, a imperfeição e o
desequilíbrio das próprias leis maquinistas e de seu mundo.

O "ponto-de-vista"

Uma das importantes criações do


Renascimento, ponto de partida do mundo
moderno, é a perspectiva, instrumento gráfico
utilizado pelos pintores para a representação
realista do mundo. Os arquitetos passaram a
utilizá-la para dominar o espaço criado e
orientar sua apreensão pelo usuário. A partir
de então, e até o momento heróico do Desenho de Van Doesburg
Movimento Moderno, a prospetiva renascentista sobre a Casa Schröeder, 1924,
passou a ser um recurso arquitetônico para e vista interna da obra de Gerrit
apreender o espaço a ser criado. Rietveld em Utrecht, Holanda,
1924 - o triedro mongeano
representado na arquitetura
A perspectiva como instrumento traz implícita a visão renascentista de
mundo, o "olhar para frente", em oposição ao gótico "olhar para cima".
O humanismo, o homem como centro. Mas traz também a ideia do
ponto-de-vista único: sem ele não há perspectiva. E o ponto-de-vista
está ligado à ideia de "sujeito", ideia essa cuja quebra é fundamental no
projeto estruturalista. O "sujeito" cartesiano, livre e independente, não
pode conviver com a ideia de estruturas que o antecedam, e muitas
vezes governam seus mais simples pensamentos e ações. E a ideia de
"ponto-de-vista" não pode conviver com a idéia da "diferença"
trabalhada por Deleuze, Foucault
e Derrida como fundamentais.

Os eixos ortogonais
A geometria analítica parte do
método cartesiano (1637)
procurando localizar os pontos
objetivos no espaço por meio de
três eixos coordenados,
ortogonais entre si.
Independentemente de sua
operatividade, representa,
talvez, a mais forte referência do
projeto iluminista. Ela nos traz
não somente a figura de um Desenho de Van Doesburg sobre a Casa
instrumento matemático capaz Schröeder, 1924, e vista interna da obra de
de operar com figuras Gerrit Rietveld em Utrecht, Holanda, 1924 - o
geométricas pela álgebra, mas triedro mongeano representado na arquitetura
também todo o esforço de
reduzir o conhecimento à res extensa, àquilo que se pode medir.
Descartes, com sua obra, foi um dos pontos de partida do racionalismo
moderno. Os eixos ortogonais são uma referência poderosa, e
raramente uma planta de edifício não ostenta essa ortogonalidade,
muitas vezes explícita e intencional, mas na maioria dos casos um
conceito estruturante apenas implícito, talvez o mais forte dos conceitos
estruturantes do mundo moderno utilizado nos projetos arquitetônicos.

Talvez por isso mesmo, foi dos primeiros conceitos a ser atacado pelo
projeto pós-estruturalista arquitetônico. Antes mesmo, já na primeira
década do século 20, os artistas suprematistas, em oposição aos
neoplasticistas (que aceitavam no seu mundo ideal o espaço figurativo
regido pelos eixos ortogonais), propunham um espaço pictórico em que
os objetos não seriam regidos por eixos coordenados, mas flutuariam no
espaço. Os suprematistas são uma forte referência de muitos arquitetos
desconstrutivistas como Rem Koolhaas e Zaha Hadid.
O triedro mongeano
A geometria descritiva, criada por
Gaspard Monge e instrumento de
trabalho mais utilizado pelos arquitetos
desde sua criação no final do século 18,
tornou possível a expansão da
maquinaria na revolução industrial e
contribuiu para o aperfeiçoamento das
técnicas de projeto de edifícios. A partir
de então, o projeto passou a ser
completamente previsível, podendo ser
visto de todos os ângulos, em vistas e
seções, e elaborado com maior
perfeição. O triedro mongeano, três
planos hipotéticos, ortogonais entre si, Wohl Center, Ramat-Gan, Israel, 2005,
formam a base do sistema projetivo Daniel Libeskind - a desconstrução do
arquitetônico desde a sua criação. tiedro mongeano
Porém esse sistema não é apenas a
base utilizada pelos arquitetos para projetar; permanecem
representados no projeto, nas paredes e lajes de piso, como uma
referência não somente ao sistema utilizado na projetação, mas
trazendo à memória a cultura napoleônica, da revolução industrial, do
mundo neoclássico, enfim do desenvolvimento final oitocentista do
grande projeto moderno maquinista que ajudou a construir.

O sistema mongeano tem sido substituído por outros métodos, inclusive


de computação gráfica, embora ainda seja fartamente utilizado, mas a
representação dos três planos ortogonais permanece em nossos
edifícios e cidades. Os arquitetos desconstrutivistas trabalham muitas
vezes com a desarticulação desses
planos criando uma instabilidade
perceptiva que melhor representa nossa
instabilidade emocional e funcional,
nossa insegurança quanto ao futuro do
projeto moderno.

O sólido geométrico puro


Uma ideia semelhante à linha e ao plano
horizontais ou verticais e que recupera o
conceito cartesiano de ideias inatas,
conceito este bastante estruturalista na
sua essência. O cubo, o cilindro, o
prisma, o paralelepípedo, a esfera,
figuras ideais e fechadas, têm sido
também figuras estruturantes do
pensamento e das práticas projetuais Edifício Seagram, 1948, Mies van der
Rohe, Nova York, um sólido
geométrico puro
arquitetônicas. Em poucos momentos na história da arquitetura os
arquitetos pensaram em desobedecê-los. No período heróico do
movimento moderno, a afirmação do sólido geométrico como princípio
projetual torna-se mais claro ainda do que fôra anteriormente. Nas
primeiras décadas do século 20, Jeanneret (Le Corbusier) e Amedee
Ozenfant defendiam o uso de figuras puras na pintura. Em Teoria e projeto
na primeira era da máquina, Reyner Banham cita Ozenfant e Le Corbusier
(em Depois do Cubismo, ou Aprés le Cubisme):

"...cubos, cones, esferas, cilindros ou pirâmides são as grandes formas primárias que a luz
revela vantajosamente... estas são formas belas, as mais belas formas".

Veja-se como exemplo a Villa Savoye de Le Corbusier. Rejeitar as figuras puras como
princípio projetual é rejeitar o próprio conceito de inatismo de Descartes, na busca da
representação de um mundo não "racionalista", mas quem sabe mais humano e racional.

Aí estão portanto algumas figuras estruturantes,


específicas do trabalho arquitetônico, e que
correspondem aos pares binários estruturantes de
Derrida. O arquiteto trabalha também com aqueles
conceitos já citados, que ocupam os filósofos e
críticos pós-estruturalistas. Diga-se de passagem, já
trabalhavam com esses conceitos muito antes do
termo desconstrutivismo frequentar as páginas de
revistas e livros de arquitetura. Os pós-modernistas
estavam ocupados em uma revisão das práticas
características do movimento moderno. Mas essa
crítica era bastante conceitual, focalizando a Max Reinrardt Haus, em Berlim,
questão do ornamento, o anti-historicismo, a 1993, de Peter Eisenman -
dessemantização, o funcionalismo, o desconstrução do sólido geométrico
antirregionalismo que haviam sido as bandeiras das vanguardas modernas do início do
século 20.

Com a chamada arquitetura desconstrutivista, a crítica arquitetônica à velha sociedade


industrial dá um salto de qualidade. Voltando ao início, e para usar termos extraídos do
mais notório par binário criado por Ferdinand de Saussure, os assim chamados arquitetos
pós-modernistas trabalhavam na desconstrução dos significados - a parte conceitual dos
signos arquitetônicos, enquanto que os chamados arquitetos pós-estruturalistas, ou
desconstrutivistas, trabalham com a parte material dos signos arquitetônicos, com os
significantes, os elementos materiais - paredes, lajes, pilares, vigas, portas. É mais uma
simplificação, incompleta e até mesmo discutível em certos aspectos, mas que pode ser
perdoada por sua simplicidade didática, na medida em que ajuda até um determinado ponto
a entender o pós-estruturalismo na arquitetura.

Nos dias atuais, a inocência se perdeu e a esperança de construir um mundo segundo o


projeto moderno muito se enfraqueceu, como também suas representações. Quando
conseguimos ver através da máscara da hiper-realidade com que a mídia reveste suas
manifestações, o que vemos é um mundo para o qual as imagens da arquitetura
desconstrutivista parecem até realistas.
Conteúdo extra online:
>>> Confira o texto completo de Silvio Colin sobre estruturalismo e pós-estruturalismo.

BIBLIOGRAFIA
VATTIMO. G. e P. A. ROVATTI. P. A. "Dialettica, differenza, pensiero debole" In: Il pensiero debole, Milão: Feltrinelli,1983. P. 12-
28.
VATTIMO, G. Introdução a Nietzsche. Lisboa: Presença,1990. Ed. Original Introduzione a Nietzsche. Roma: Bari, Laterza,
1984. O fim da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 1990. Ed. original La fine della modernità. Nichilismo ed
ermeneutica nella cultura postmoderna, Milão: Garzanti,1985.
VENTURI, R. Complexidade e contradição na arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 1995. Edição original de 1966
VENTURI, R. SCOTT-BROWN, D. e IZENOUR, S. Aprendendo com Las Vegas. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. Edição
original de 1972.
JENCKS, C. The language of post-modern architecture. Nova York: Rizzoli, 1977; Londres: Academy Editions, 1977; Late-
Modern Architecture, Nova York: Rizzoli, 1980; Londres: Academy, 1980. Signs, Symbols and Architecture, editado
com BUNT, R. e BROADBENT, G. Nova York e Londres, 1980. Towards A Symbolic Architecture, Nova York: Rizzoli;
Londres: Academy, 1985.
Derrida, J. "In discussion with Christopher Norris In: PAPADAKIS, A.; COOKE, C. & BENJAMIN, A. (Ed.) Deconstruction.
Omnibus Volume. Nova Iorque: Rizzoli, 1989. P.72.
BAUDRLLARD, J. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio d'Água 1991. Ed original Simulacres et Simulation (1981)
OZENFANT, A. e JEANNERET, C-E (Le Corbusier). Aprés le cubisme.
BANHAM R. Teoria e projeto na primeira era da máquina. São Paulo, Perspectiva, 1979, p. 335.
LE CORBUSIER. Vers une architecture
BANHAM R. Teoria e projeto na primeira era da máquina. São Paulo, Perspectiva, 1979, p. 365.

Sílvio Colin é arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro
em 1970, mestre em arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da FAU-UFRJ e cursa atualmente
doutorado no mesmo programa. Leciona no departamento de projeto de arquitetura da FAU-UFRJ. É autor dos livros
Uma introdução à arquitetura (2000) e Pós-modernismo: repensando a arquitetura(2004), ambos da editora Uapê, Rio de Janeiro.