"HISTÓRIA E TEORIA ANTROPOLÓGICA I

"

ESTRUTURALISMO
(Peter Schröder)

1) Observações gerais
Ø Trata-se da última vertente teórica na Antropologia que ainda merece o rótulo de "escola"; porém, esta "escola" só tem um único representante principal; então, é basicamente um "professor" e uma série de "discípulos" e epígonos. Ø Depois do estruturalismo, quase não é mais possível falar de "escolas": a partir dos anos 1950/60, os estudiosos mudam cada vez mais de abordagem teórica e muitas vezes é difícil categorizá-los de acordo com determinadas vertentes teóricas (p.ex.: Marshall Sahlins: primeiro materialista cultural, depois meio estruturalista, depois um tipo de neoevolucionista; e hoje em dia com perfil completamente independente em termos teóricos).

2) O estruturalismo: características gerais
Ø O estruturalismo é um método das ciências humanas (Geisteswissenschaften) que descuida do contexto histórico de seus objetos de pesquisa para enfocar o estudo de suas estruturas; desse modo, o estruturalismo é radicalmente diferente da hermenêutica. Ø Surgiu nos anos 1950 na França com o objetivo de desenvolver um método de pesquisa equivalente aos métodos empríricos das ciências exatas. Ø O ponto de partida foi a lingüística de Ferdinand de Saussure com sua abordagem de estudar línguas menos do ponto de vista de seu desenvolvimento histórico (diacronia), mas, em vez disso, revelar seus princípios e regularidades internos (sua sincronia). Ø Lévi-Strauss foi o primeiro na França que transformou a lingüística de Saussure, com seus desdobramentos na Escola de Praga (Jakobson), no método estruturalista para as ciências sociais. Ø Anos 1960: o estruturalismo se tornou um dos métodos principais nas ciências humanas.

Marcel. principalmente no Brasil. Cambridge: Cambridge University Press. desde 1968): a demanda por engajamento político pareceu incompatível com a visão imanente do estruturalismo. nos Estados Unidos. uma abordagem paralela para analisar estruturas mentais culturais1. Ø Nos Estados Unidos.2 Ø Representantes importantes têm sido: ♦ nas Letras: Roland Barthes ♦ nas ciências humanas em geral: Michel Foucault ♦ na Sociologia: Lucien Goldmann ♦ na Psicologia: Jean Piaget ♦ na Psicanálise: Jacques Lacan Ø O estruturalismo influenciou tanto o desconstrutivismo do filósofo Jacques Derridas quanto a semiôtica. Ø A diferença principal é que Radcliffe-Brown estudou regularidades em ações sociais. fés e idéias. a antropologia cognitiva desenvolveu. só ganhou popularidade nos anos 1970. paralelismos e diferenças Ø O estruturalismo lévistraussiano não é radicalmente diferente do funcionalismo estrutural browniano – pelo contrário: há muitas semelhanças. 1 Sobre o surgimento e desenvolvimento da antropologia cognitiva veja p. Lévi-Strauss. Os dois foram influenciados pelas teorias durkheimianas.: D'ANDRADE. The Development of Cognitive Anthropology. 1995. as quais ele considerou expressões de estruturas sociais compostas de redes e grupos sociais. mas ainda hoje há grandes fãs de Lévi-Strauss e de sua obra. Ø Muitos dos estruturalistas autodeclarados mais tarde abandonaram os dogmas saussurianos e aceitaram sistemas mais abertos. Ø O estruturalismo é contra a visão marxista do embasamento material de convicções. "De quelques formes primitives de l'étude des représentations collectives". 1903. Ø A primeira análise estrutural pode ser considerada o famoso artigo de Durkheim e Mauss de 19032. 2 . Émile & MAUSS. nos anos 1960 e 1970. tem continuado fiel à linha teórica até hoje. Ø Porém. L`Année Sociologique.ex. Ø Sobretudo a crítica à abordagem ahistórica e transindividual do estruturalismo provocou uma reorientação de seus representantes (em particular. um dos representantes principais. enquanto Lévi-Strauss vai à procura de estruturas mentais humanas e vê interações sociais como manifestações externas dessas estruturas cognitivas. 6:1-72. em particular a semiôtica cultural de Umberto Eco (uma tentativa de reconciliação entre os métodos estruturalista e hermenêutico). 3) Semelhanças. Roy. DURKHEIM. Ø O estruturalismo de Lévi-Strauss estava bem aceito na França dos anos 1950 e 1960.

estava mais marcada por suas atividades na França. de 28/11/98]. a teoria estrutural de mito e ritual (Van Gennep) e a teoria funcionalista da religião (Malinowski). viagem de estudos por várias regiões do Brasil e contatos com os índios Kadiwéu. e não por uma ou mais pesquisas de campo destacadas. direito e filosofia (o que se percebe com facilidade). mas um caminho para refletir sobre o ser humano. porém um pesquisador de campo fracassado. porém. para Lévi-Strauss. no entanto. Ø Sua carreira profissional. isto explica. vida familiar fortemente marcada por influências intelectuais e artísticas. . Ø Estudou diversas disciplinas. a Antropologia. Ø Relações especiais com o Brasil: ensinou na USP e lá participou na fundação do Departamento de Antropologia. LéviStrauss sempre era um teórico brilhante. as duas disciplinas. psicanálise. 4) Algumas informações biográficas Ø Nasceu em 1908 em Bruxelas. porque não há nenhuma verdadeira etnografia das mãos de Lévi-Strauss [veja artigo em O Globo. neste sentido: um personagem que representa um contraste forte com Malinowski. Nambiquara und Bororo [veja Tristes Tropiques]. Boas ou Frobenius.3 Ø A teoria durkheimiana da função da ação simbólica estimulou três linhas de pesquisa nas ciências sociais e humanas: a lingüística estrutural (Saussure). de família judia abastada. por exemplo. Ø As disciplinas preferidas ("maîtresses") teriam sido: marxismo. teriam causado tédio. os pais tinham a nacionalidade francesa. matemática e geologia. entre outras. também estudou bastante o existencialismo de Sartre. nunca era o "estudo dos povos". sentia se mais estimulado pela antropologia (sobretudo pelo estudo da pluralidade cultural dos seres humanos). segundo o próprio Lévi-Strauss. no entanto.

pode se concordar com as idéias de Lévi-Strauss ou rejeitá-las completamente: o que não se pode negar é sua originalidade. ela é um modelo de análise construído a partir da observação da realidade social. Ø Lévi-Strauss desenvolveu uma "superteoria" ou "macroteoria" ou "teoria global" (como Malinowski. assim. é incrivelmente consistente. não podem ser reconhecidas na superfície (isto é.4 Lévi-Strauss em campo 5) Aspectos teóricos da obra Ø A obra total é bastante complexa. Radcliffe-Brown. Ø Este conceito de estrutura é bem diferente daquele de outras vertentes teóricas na Antropologia. as quais. a estrutura social não se confunde com a realidade empírica. não se consegue entender as idéias lévistraussianas. o objeto de estudo das pesquisas estruturais são as relações (sociais e mentais) com o auxílio de modelos. seu interesse é mais como a mente humana organiza o mundo e menos. sobretudo: a leitura geralmente não é fácil. Ø Lévi-Strauss tentou criar um modelo adequado para captar os modelos inconscientes que condicionam e explicam os modelos conscientes. porém extremamente difícil de caracterizar em poucos parágrafos. mais do que apurar a organização de qualquer sociedade ou tipo de sociedade. é absolutamente necessário se familiarizar com suas categorias e conceitos. por exemplo. e. . ele deixou claro que estrutura social e relações sociais são duas noções que não se confundem. Lévi-Strauss optou pelo segundo. porém. senão. como os indivíduos estão organizados em sociedades ou outras formações sociais. interessou-se por estruturas sociais com determinadas funções. por exemplo) com base no conceito de estrutura: todas as culturas podem ser reduzidas a um número bastante limitado de estruturas básicas. Ø A preocupação básica de Lévi-Strauss consiste em estabelecer "fatos" que sejam "verdadeiros" com respeito à "mente humana". pelas manifestações culturais imediatas). Ø Tendo que escolher entre os conceitos de sistema e estrutura para suas análises.

porque sabia que seria necessário entrar num diálogo com a grande maioria dos clássicos. tema clássico na Antropologia. seja material ou imaterial. Lévi-Strauss considera o modelo consciente em geral deformado. . ou seja. Ø Sobretudo: Lévi-Strauss tentou pela primeira vez num trabalho maior descobrir e analisar estruturas elementares de culturas. entre outras coisas. Ø Modelo evidente: As formas elementares da vida religiosa. Ø Analisa. para este fim. a proibição do incesto [universal cultural!] como meio positivo para garantir a comunicação e a troca de mulheres entre grupos (esta interpretação ainda pode ser entendida como funcionalista). 6) Obras mais conhecidas (a) As estruturas elementares do parentesco (1949): Ø Tese de doutorado. que retém atrás de si o modelo inconsciente que lhe deu origem. ele optou pelo parentesco. é explicativo das causas que determinam as representações culturais conscientes e concretas. o que vem dificultar a plena compreensão do que ele chama estrutura profunda. Ø A proibição do incesto é vista como marco do surgimento da cultura. Ø O ponto central da obra é a teoria sobre o casamento entre primos cruzados. de Durkheim. estrutura do modelo inconsciente.5 Ø O modelo consciente é assim a parte da cultura facilmente observada. este. por sua vez.

no entanto. Ø Na primeira das partes etnográficas do livro. Lévi-Strauss se interessava pela vida de sistemas sociais. Ø Lévi-Strauss viu nas relações de troca as estruturas elementares do parentesco. Ø Ele podia lançar mão de um modelo famoso: a teoria maussiana de que trocas perpetuam relações sociais. e as necessidades individuais aqui também são subordinadas às supostas necessidades sistêmicas. Lévi-Strauss podia se apoiar em estudos holandeses anteriores sobre parentesco na Indonésia. van. embora isto não seja tão explicitado nos textos de Lévi-Strauss quanto poderia ser. 3 WOUDEN. Ø Enquanto Durkheim e Mauss atribuíram a origem do pensamento lógico à experiência de estruturas em segmentos sociais. 1968 [1935]. queria demonstrar que há limites lógicos para o número de tipos que ele chama "sistemas sociais elementares". Ø Além disso. F. Ø A teoria lévistraussiana de parentesco é baseada em alguns aspectos importantes nas análises de sistemas australianos de parentesco feitas por Radcliffe-Brown.A. o meio mais bem estudado de comunicação humana.E.6 Ø Um ponto de partida foi para Lévi-Strauss a descoberta de que havia uma considerável convergência entre sistemas de parentesco nas mais diversas partes do mundo. Ø A presença do casamento entre primos cruzados nas mais diversas partes do mundo não foi interpretada por Lévi-Strauss como resultado de difusões. e sua posição teórica muitas vezes é oposta à de Radcliffe-Brown. Lévi-Strauss re-analisa os sistemas australianos. porém Lévi-Strauss argumentou que as próprias estruturas criadas por trocas são determinadas por estruturas mentais. Lévi-Strauss. Ø A influência estrutural-funcionalista é evidente pelo fato de Lévi-Strauss aceitar as três formas de casamento entre primos cruzados identificadas por RadcliffeBrown como tipologia básica: bilateral. Ø Leach mais tarde observou que um dos pontos fracos da abordagem tipológica browniana foi que aparentemente não havia limites para a quantidade de tipos e subtipos de sociedades que poderiam ser identificados. mas como expressão de padrões universais do pensamento humano. Types of Social Structure in Eastern Indonesia. The Hague: Nijhoff. . especialmente a análise de Van Wouden sobre as conseqüências práticas de diferentes tipos de casamento entre primos cruzados e sua representação mitológica3. reelaborando com isso as idéias de Van Gennep. Ø Igual a este. Lévi-Strauss reverteu esta hipótese e argumentou que foram as estruturas da cognição humana que produziram estrururas em relações sociais. Ø Ele argumentou que as trocas de presentes e de parceiros para casar seriam formas de comunicação e deveriam ser abordadas iguais à linguagem. e não de indivíduos. matrilateral e patrilateral.

também não são conscientes das estruturas de seus sistemas de parentesco e as aceitam implicitamente. até quando não se conhece as relações genealógicas exatas. uma pessoa. Sistemas intermediários: o universo social está subdividido em determinado número de linhagens. porém Lévi-Strauss segue Radcliffe-Brown por argumentar que o beneficiário final das relações de troca é o sistema social (e não seus participantes individuais). o casamento normal é com não-parentes. Ø Lévi-Strauss classificou os sistemas de parentesco do mundo em três tipos: (1) Sistemas elementares: toda pessoa conhecida tem alguma relação de parentesco com as outras. desse modo. LéviStrauss endossou o aviso de Durkheim que mecanismos psicológicos supostamente universais não podem explicar a diversidade cultural humana. desse modo. só pode especificar relações de parentesco com os membros de outras linhagens nas quais que ela ou seus parentes próximos costumam casar. Sistemas complexos: apenas uma parte das pessoas conhecidas é classificada como parentes. Lévi-Strauss se preocupa principalmente com o primeiro dos três tipos. há regras precisas de casamento.ex. exemplos: sistemas dos aborígines australianos. exemplos: principalmente na Europa. além disso. Levar em conta que a dádiva conecta doador e destinatário em relações sociais contínuas. Ele argumentou que todos os sistemas deste tipo podem ser classificados em três subtipos. Ø As trocas específicas neste livro referem-se a alianças e às relações de parentesco resultantes. (2) (3) Ø Em As Estruturas Elementares do Parentesco. e isso teria sido possível por três qualidades da mente humana: (1) (2) (3) Aceitar que regras têm que ser seguidas.). p. de fato. Considerar a reciprocidade a maneira mais simples para estabelecer relações sociais.7 Ø Embora considerasse as estruturas cognitivas básicas como universais. casamentos se baseiam no princípio de que parentes próximos não devem casar e. dependendo da regra de casamento com primos cruzados. . Ø A troca seria a base universal de sistemas de parentesco. Ø Do mesmo modo que pessoas normalmente não têm noções claras das estruturas das línguas que falam. segundo Lévi-Strauss. elas. ele interpretou os conteúdos concretos do pensamento estrutural como características de tradições específicas paralelas à enorme diversidade de línguas humanas. mas estas não estão interrelacionadas por padrões regulares. exemplos: da América do Norte indígena (sistemas CrowOmaha. Ø Nesta versão de teorias de troca vemos a influência de Malinowski e Mauss.

54-104. exemplo: tipo Murngin (Yolngu) de Radcliffe-Brown. Edmund R. pp. o que os membros precisam saber são suas obrigações devido a suas posições dentro do sistema. condições materiais podem ter efeitos profundos na maneira como estruturas cognitivas são externalizadas4. (2) Ø De que modo os membros de sistemas como estes precisam ser conscientes de suas conseqüências estruturais? Como Malinowski. In Rethinking Anthropology. "The Structural Implications of Cross-Cousin Marriage". London: Athlone. 1961. (b) Análise de mitos 4 LEACH. Ø Críticas à teoria lévistraussiana do casamento entre primos cruzados: Uma série de críticas pode ser agrupada sob o rótulo "debate sobre preferência ou prescrição" (preference or prescription debate). mas também os Yanomami (segundo Chagnon). Generalizada (ou indireta) = casamento matrilateral entre primos cruzados. exemplos: os tipos Kariera e Aranda de Radcliffe-Brown. Questão principal: qual a proporção de casamentos realizados de acordo com a regra idealizada? O material empírico revelou discrepâncias consideráveis entre ideal e realidade. Outra questão: como definir e delimitar a "reserva" de casáveis para tais regras funcionar devidamente? Outro tipo de críticas foi chamado por Leach de "questão das conseqüências estruturais": As estruturas produzidas por determinadas regras de casamento serão as mesmas. . Lévi-Strauss argumenta que não há necessidade de ser consciente da estrutura total (igual à competência de falar línguas primárias. ainda que estejam inseridas em sistemas sociais bem diferentes? Segundo Leach. Ø Ele distinguiu duas formas principais de troca por aliança: (1) Restrita (ou direta) = por casamento bilateral entre primos cruzados.8 Ø Lévi-Strauss fala de "troca de mulheres" entre grupos (como se homens não fossem "trocados"). cujas regras gramaticais são aplicadas inconscientemente).

como ele tinha pensado antes. publicada em quatro grandes volumes (1964. and so on". natureza e cultura). L`Homme nu. assim. em que animais herbívoros representam a agricultura. 1966. mas "motivados" por qualidades naturais ou pela forma como são usados pelas pessoas conhecedoras dos mitos. ü Animais copulam à vontade. e animais carnívoros. 1971) e com títulos bastante chamativos: Le cru et le cuit. lendas e outras tradições orais).e. as subdividiu naquilo que ele percebeu como as menores unidades (elementos) e depois analisou a estrutura geral que ele acreditava ter descoberto. mas pessoas constroem alianças matrimoniais. Ø Lévi-Strauss coletou volumes enormes com narrativas míticas.. e em que animais necrófagos e detritívoros (como os onipresentes corvos e coiotes) aparecem na posição mediadora.9 Ø O método estruturalista lévistraussiano teve os maiores sucessos na análise de mitos (inclusive contos de fada. Du miel aux cendres. ü Animais comem alimentos crus. We need only assume that two opposite terms which admit of a third one as a mediator. desse modo. then one of the polar terms and the mediator become replaced by a new triad. . os paralelismos entre os mitos que Lévi-Strauss encontrou o convenceu de que os sistemas simbólicos revelados não eram.. pode-se olhar para uma tentativa empreendida por ele para explicar o papel do trickster. guerra (do lado da morte) e caça no meio (com qualidades dos dois lados). esta tríade é substituída por outra. a guerra.] becomes clearer. que em muitos mitos indígenas norte-americanos é desempenhado pelo coiote: "If we keep in mind that mythical thought progresses from the awareness of oppositions towards their resolution. inclusive várias versões do mesmo mito. Ø Obra principal sobre análise de mitos: Mythologiques. a invenção de cozinhar torna-se um metônimo para a origem da cultura. (Structural Anthropology [1963]. complicadas e nem sempre convencem. Ø Nas obras posteriores sobre mitologias sul-americanas. nos quais o par inicial de vida e morte é substituído por uma tríade de agricultura (do lado da vida). estas obras.. completamente arbitrários. os primeiros homens que trocaram suas irmãs também criaram cultura è casamento = outro metônimo de cultura. ser humano e deus. para iniciantes na leitura de textos lévistraussianos. Ø Para ter outra idéia do estilo e método de Lévi-Strauss. mas pessoas os cozinham. p. Ø Ele concluiu que os mitos servem como meios para conciliar entre oposições importantes e geralmente impossíveis (p. não se recomendam. depois. Ø As análises lévistraussianas muitas vezes são longas. 224) Ø Por este processo Lévi-Strauss identificou a estrutura mediadora nos mitos indígenas norte-americanos. um mito centrado nesses caracteres ambíguos parece mediar entre a oposição realmente irreconciliável entre vida e morte. 1968. the reason [. entre vida e morte. L'Origine des manières de table. no entanto.

Ø Exemplo mais fácil e "claro" de análise de mitos estruturalista: "O gesto de Asdiwal" (< Antropologia Estrutural Dois). Nem por isso ela deixa de parecer um desejo universal de colocar ordem no mundo por meio de esquemas classificatórios. Ø Lévi-Strauss mostrou que o "pensamento selvagem" não está marcado por nenhuma lógica rigorosa. Ø Lévi-Strauss identificou uma série de temas mitológicos com variantes em cada sociedade indígena sul-americana. Por isso. Se os mesmos símbolos aparecem em diferentes culturas. Lévi-Strauss argumenta que o lugar de objetos dentro de sistemas de significados é mais importante do que suas qualidades inerentes. podem ser devidamente comparadas com taxonomias científicas. Alguns tipos de mel sul-americanos são tão deliciosos que. porém com teoria mais radical). Cozinhar mel significaria maltratálo. valores. Estas tonalidades eróticas "entre as linhas" não ficariam despercebidas. Assim. Ø Lévi-Strauss apresenta numerosos exemplos daquilo que poderíamos chamar etno-taxonimias e observa que elas frequentemente são acuradas do ponto de vista botânico e zoológico e. Ø Lévi-Strauss começa com duas observações: a simbolização em pequenas sociedades indígenas acontece aparentemente de forma aleatória e arbitrária por se referir ao mundo natural para representar idéias. mitos não possuem nenhuma validade histórica. Outra qualidade do mel é que ele é consumido cru. Ø Segundo Lévi-Strauss.10 Ø Para Lévi-Strauss. ficamos nos perguntando se seus degustadores estão saboreando uma delícia ou se eles estão ardendo por amor. (c) O pensamento selvagem (1962): Ø Trata-se de um desdobramento das idéias apresentadas por Durkheim & Mauss (1903) e Durkheim (As formas elementares da religião). em particular com Magic. . Para a valorização cognitiva de um mito é irrelevante se ele relata um verdadeiro evento histórico ou apenas um imaginado. segundo Lévi-Strauss. não há símbolos universais: não os próprios elementos dos sistemas simbólicos são constantes. se recusar dar mel a outra pessoa é associado com comportamento incestuoso. mas as relações entre eles. Da mesma forma. classificatória (paralelismo com a obra de Malinowski. Science and Religion. Ø Embora as oposições estruturais apresentadas por Lévi-Strauss muitas vezes pareçam bastante artificiais. desse modo. não se pode negar que ele chamou a atenção para regularidades culturais de grande amplitude. cozinhar mel às vezes é igualado ao incesto nos mitos. Ø Seguindo Durkheim. podem ser resultados de difusão ou do fato de que as qualidades intrínsicas do objeto simbolizado produziram as mesmas associações em sociedades diferentes. a troca de alimentos é paralela à troca de parceiros em casamento.

são as sociedades "simples". estão cada vez mais distantes da ordem natural e apresentam aparência de desarmonia e desordem. as frias estão mais próximas do estado da natureza. ele valorizou. não estáticas. Qualquer colapso do sistema classificatório causaria reajustes sistêmicos para reagir ao caos cognitivo e restabelecer a ordem. o livro mais popular de Lévi-Strauss e um verdadeiro bestseller. mesmo assim. .11 Ø Lévi-Strauss conclui que os indígenas são impulsionados por desejos insaciáveis de colocar ordem no mundo por meio da simbolização. um argumento que depois foi reelaborado por Mary Douglas em Purity and Danger (1966). com contingente populacional restrito. Ø Lévi-Strauss fala em culturas frias e quentes. a história em detrimento da natureza e a considera como o móvel de construção e aprimoramento da condição humana. (d) Tristes Tropiques (1953) Ø Em todos os casos. Ø Para Lévi-Strauss. aparentemente harmônicas e resistentes a mudanças em suas culturas. mas com o dinamismo cultural comprometido. as culturas quentes são as históricas e complexas. oferecendo melhores condições para a identificação das estruturas mentais inconscientes. a história é produto da natureza humana (diferente de Marx): embora pessimista em face da exploração econômica e do domínio dos detentores do poder. todas afetadas pela civilização.

Ø Começa com a frase provocadora: "Odeio viagens e descobridores".12 Ø Já o próprio título é uma provocação cultural-histórica. Ø Explicação filosófica das idéias lévi-straussianas sobre o que é Antropologia. . Ø O livro não se encaixa em nenhuma categoria convencional de gênero literário. Nem pode ser considerado como um Bildungsroman propriamente dito. porque relaciona os trópicos com a tristeza.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful