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Universidade Candido Mendes – UCAM

Marcio Araújo Valente

Resenha: A África Independente

WESSELING, Henk L. Dividir para Dominar – A Partilha da África (1880 – 1914).


Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Editora Revan. 1998, 2ª edição abril 2008.

Tutora: Jackeline Cordeiro Batista

Trabalho apresentado ao
curso de História da África e do Negro no Brasil, oferecido pela
Universidade Candido Mendes - UCAM,
como requisito parcial para obtenção do grau
de especialista, sob a orientação da Tutora Jackeline Cordeiro Batista.

Rio de Janeiro
2019
RESENHA

WESSELING, Henk L. Dividir para Dominar – A Partilha da África (1880 –


1914). Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Editora Revan. 1998, 2ª edição abril
2008.

Henk L. Wesseling foi um historiador holandês, professor emérito de


história contemporânea na Universidade de Leiden, ex-reitor do Instituto
Holandês para Estudos Avançados, entre 1995 e 2002. Em 1988, tornou-se
membro da Academia Real Holandesa de Artes e Ciências. Autor de várias obras
publicadas no gênero, mas a que lhe deu maior notoriedade foi sem sombra de
dúvidas a que está em tela.

Dividir para Dominar – A Partilha da África (1880 – 1914) é uma obra sobre
História da África, um dos mais importantes livros acerca da temática da
expansão imperialista europeia sobre o continente africano, que nos apresenta
os por menores da divisão do continente entre as maiores potências mundiais
da época.

A obra de Wesseling, mesmo após décadas de sua primeira publicação


no Brasil, ainda é de extrema relevância para a precária bibliografia nacional
sobre a História da África. O autor é um especialista em expansão europeia, e
nos mostra com uma riqueza de detalhes a atuação de França, Grã-Bretanha,
Alemanha. Bélgica, Portugal e Itália, principais países europeus imperialistas do
momento, e seus respectivos líderes, protagonistas da chamada “corrida pela
África”. Em contrapartida, do lado africano, também vemos uma descrição,
mesmo que superficial dos principais territórios, dados biográficos e ações
promovidas por alguns dos principais líderes do continente, diante da disputa
europeia.
O autor apresenta de forma muito didática a questão imperialista na África,
de forma quase que cronológica, dividindo a obra em oito capítulos, descrevendo
a interferência das potencias europeias de norte a sul do continente africano.
O Capitulo 1 do livro, A Questão Oriental – A Ocupação da Tunísia e Egito,
mostra o início da ocupação em 1881 até 1882. Sabemos que a atuação
europeia na África se iniciou bem antes desta data, porém esta ocupação estava
limitada, salvo algumas poucas exceções, apenas na parte litorânea motivada
pelo comércio, e sobretudo pelo tráfico de escravos. Nesta primeira parte do
livro, Wesseling nos mostra as questões do imperialismo da França e da
Inglaterra no que concerne ao Norte da África, inicialmente. O autor aponta a
França como pioneira na corrida pela disputa africana, a ocupação da Tunísia
foi o marco da partilha da África. Logo em seguida, a crise egípcia se agrava e
inicia-se a disputa anglo-francesa pela região. Contudo, a Grã-Bretanha acaba
ocupando o Egito, porém somente em 1914 a sua situação legal seria definida
de fato, tornando-se protetorado britânico. A disputa frenética entre Franceses e
Ingleses na região, sobretudo no Egito, torna-se propulsor para a partilha da
África, onde outras potencias despertam interesses por uma fatia do bolo
africano.
O Capítulo 2, O Congo e a Criação do Estado Livre, que inicia em 1882,
indo até 1885, passando pela Conferencia de Berlim, passa a ser o momento
fulcral da obra. Nesta segunda parte, autor apresenta o Congo, descrito por
viajantes e aventureiros como uma terra promissora, muitíssimo apropriada ao
comércio e à colonização. Logo em seguida descreve a Bélgica e seu icônico rei
Leopoldo II. País recentemente criado, e ainda pouco expressivo no cenário
internacional, onde buscava novas oportunidades, e viu na África a possibilidade
real de ganhos expressivos. Para Wesseling, a Bélgica não poderia se lançar de
forma espalhafatosa e irresponsável na corrida imperialista, isto colocaria em
risco sua neutralidade e consequentemente sua própria existência. Dentro deste
contexto que o rei Leopoldo II inicia o seu projeto de Estado livre do Congo e o
seu objetivo aparentemente “filantrópico”.
Ainda neste capitulo, Wesseling apresenta a Alemanha e seu
imperialismo, segundo o autor este país teria se tornado uma grande potência
europeia, competindo em igualdade no cenário internacional. O Chanceler
alemão Bismarck, mesmo se opondo inicialmente, não poderia ficar de fora da
corrida africana, com a possibilidade de ganhos exponenciais para seu país.
Visando estabelecer regras sobre a liberdade de navegação e comércio
na bacia do Congo e Níger, e definir formalidades ao se tomar posse de novo
território, Bismarck reúne as maiores potencias internacionais com interesses no
continente africano. Desmistificando o que realmente teria acontecido na
Conferência de Berlim, Wesseling afirma que o mapa da África não foi colocado
na parede para nada. A Conferencia tratava apenas da região costeira africana
e não da parte interna, tendo em vista que esta região já estava completamente
ocupada, não havia necessidade de discussão sobre a partilha da África neste
momento.
O autor ainda destaca que outros fatores também foram discutidos na
Conferência de Berlim, o caráter humanitário não poderia ficar de fora da atuação
europeia na África, assim como a extinção do tráfico e da escravidão no
continente. Ironicamente, todos esses fatores estão ligados ao que a
historiografia passou a chamar de processo de roedura do continente africano.
É importante salientar que a crença na partilha da África tenha sido
desenhada literalmente na Conferência de Berlim, foi acreditada até pela
imprensa da época. Visão esta reproduzida até por manuais escolares, que
erroneamente acreditam nesta possibilidade.
O livro mostra claramente os acordos bilaterais entre as maiores
potencias europeias no que tange as regiões de influência litorâneas, que já
estavam ocupadas e sobretudo a questão do Estado livre do Congo, que
passaria a ser a “propriedade privada” do rei Leopoldo da Bélgica. Nas palavras
do autor, a Conferencia de Berlim foi uma “operação de holding”, uma tentativa
de acalmar os ânimos, obtendo-se um acordo sobre princípios e códigos de
conduta no continente africano.
Na questão da partilha interna da África e do continente como um todo,
também foi feita com acordos diplomáticos bilaterais, sobretudo nos anos
seguintes a Conferencia. Inúmeros tratados foram assinados, e contestados
pelas potencias, afim de limitar as fronteiras ainda desconhecidas dos territórios.
A partir de 1885, representados no Capitulo 3 em diante até 1914,
podemos ver as movimentações em todo o continente africano, pós Conferencia
de Berlim, caracterizando a formação geopolítica do que se aproxima da África
que conhecemos na atualidade.
Neste terceiro Capitulo, limitado em 1885 até 1890, podemos ver a
atuação da Alemanha e a Grã-Bretanha na África Oriental. Já no Capítulo
seguinte, continuando a cronologia, vemos a atuação da França e da Grã-
Bretanha na África Ocidental, no período de 1890 até 1898.
O autor ainda destaca algumas páginas para o menos expressivo, porém
não menos importante, imperialismo Italiano, e sua atuação na Etiópia. Dentro
deste contexto, podemos destacar ainda uma descrição bibliográfica de Menelik,
importante líder africano.
A obra é bem ilustrada, com gravuras e mapas que torna a leitura mais
leve e didática. Wesseling aborda todo o tema da partilha africana, dando pleno
destaque para seus protagonistas, com descrições rápidas, porém necessárias
para o entendimento completo do raciocínio do autor.
A relevância deste trabalho de Wesseling, está justamente na
desconstrução do pensamento não acadêmico de como se deu a chamada
partilha da África, como podemos ver basicamente nos acontecimentos
compreendidos no período estudado. O senso comum apresenta erroneamente
a Conferencia de Berlim, como a divisão real do continente. Porém, podemos ver
que a partilha foi um conjunto de acontecimentos reunidos num longo processo
que não pode ser delimitado. Para Wesseling, do mesmo modo como a partilha
da África não se iniciou, na realidade, em 1880, também não terminou
inteiramente em 1914. Contudo este período que está em análise, pode ser
considerado o principal dentro deste contexto.
Apesar de Wesseling ter plena consciência das atrocidades cometidas
pelos europeus em território africano, ele não se prende ao assunto. O livro não
trata a narrativa como a história dos vencidos, vitimando os africanos, como
algumas correntes historiográficas. O autor evidencia o papel central das
potencias europeias, como protagonistas de todo o processo de partilha.
O autor em sua breve conclusão geral de sua obra, faz uma análise
mesmo que superficial, da historiografia acerca dos motivos que levaram ao
colonialismo na África. A velha questão de expansão do capitalismo europeu,
com um novo mercado consumidor, regiões com abundância de matéria prima,
fatores estes que acabam perdendo espaço para as questões políticas e
estratégicas do continente africano. Wesseling aponta que os motivos foram
variados e pertencentes a uma conjuntura internacional. A motivação de cada
potência pode ter sido muito diversificada, e deverá ser analisada
individualmente, abrindo possibilidades para novos trabalhos.
Neste ponto de vista, Dividir para Dominar – A Partilha da África (1880 –
1914), devido a sua abrangência de personagens, pode ser indicado como ponto
de partida para novas pesquisas dentro da temática. Sendo ainda indicado para
uma gama de estudantes interessados no tema.