Você está na página 1de 13

X Jornadas Debates Actuales de la Teoría Política Contemporánea

Universidad Nacional de Mar del Plata, Argentina


8 y 9 de Noviembre, 2019

SUBJETIVIDADES EM CRISE: DEBILIDADE DEMOCRÁTICA E


REPRESENTAÇÃO POLÍTICA NO CONTEXTO DO CAPITALISMO
NEOLIBERAL

Ana Clara Abrantes Simões1


Joyce Karine de Sá Souza2

Introdução
A hipótese desta comunicação é demonstrar que a construção política democrática
também passa pelo confronto com as subjetividades em crise. A partir do momento em
que a democracia foi vinculada às instituições representativas ambas as realidades estão
indissociáveis. Todavia, com o triunfo neoliberal a relação entre democracia e
representação política se evidencia antagônica. A representação política é um dos
mecanismos de estrangulamento da democracia no contexto das crises cíclicas do capital.
Frisamos que as crises do capital não se referem somente à representação, mas à vida
política e social em geral. Hardt & Negri as descrevem a partir de quatro subjetividades
desenvolvidas em contextos de debilidade democrática: o endividado, constantemente
incentivado a se endividar para consumir; o midiatizado, que corresponde a uma
inteligência humana despotencializada; o securitizado, que é ao mesmo tempo objeto e
sujeito de vigilância na sociedade do consumo; e o representado, que confia sem qualquer

1
Graduada e mestranda em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Ex-bolsista de Iniciação
Científica pela CNPq no projeto de pesquisa “O estado de exceção no Brasil contemporâneo: para uma
leitura crítica do argumento de emergência no cenário político jurídico nacional", orientado pelo Professor
Andityas Soares de Moura Costa Matos (2014-2015). Sua pesquisa está inserida nas áreas de Direito e
Filosofia, sendo orientada à investigação de temas como democracia, estado de exceção, comum e novos
movimentos sociais. Email: anaclara.simoes@yahoo.com.br. Lattes:
http://lattes.cnpq.br/3363769210243276.
2
Mestra e Doutora em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte/Brasil).
Professora no curso de Direito da Nova Faculdade (Contagem/Brasil). Sua pesquisa é orientada à
investigação de temas como normatividade e violência, espetáculo e alienação, fundamentos do direito,
democracia e estado de exceção. E-mail: joykssouza@gmail.com.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/6406615818915785 .

1
senso crítico as decisões sobre sua vida a representantes políticos. Contudo, o que
significa dizer que as subjetividades estão em crise? Apostamos que o caminho para uma
forma-de-vida democrática, na qual a representação já não seja obstáculo para a tomada
de decisões políticas, passa pela crítica radical das subjetividades em crise.

1. Subjetividade nas crises do capitalismo


Na medicina hipocrática crise tem um significado bem específico. A crise ocorre
em um momento decisivo de transformação de uma doença, em seu ápice, ponto
culminante no qual segue um rumo favorável ou não; é o momento de ruptura e
radicalização total da situação e de transformação iminente.3 O processo patológico,
portanto, pode convergir para a cura, saúde, ou para uma morte irremediável: “Crisis es
la solución de una enfermedad.”4 A crise é o momento chave no qual a patologia é
solucionada ou acarreta a morte do sujeito, um ponto em que não há retorno. Em uma
concepção histórico-filosófica, diferente da crise particular que atinge somente o mundo
de um indivíduo portador de alguma patologia, crise pressupõe um estágio de desencanto,
no qual todas as convicções em que se baseava a vivência coletiva restam desacreditadas,
configurando um estado de desânimo por aquilo que acreditava ser a orientação positiva
da forma de se contemplar o mundo. Deve-se a Koselleck a ideia de desenvolver, a partir
do conceito dado por Hipócrates, o termo crise enquanto fundamento da temporalidade
moderna.5
Conforme já notado por Marx,6 em um mundo no qual o desenvolvimento
econômico capitalista depende da constante imposição de crises, as pessoas constroem
suas vidas de acordo com um processo econômico que se articula a partir da
temporalidade própria do capital. A crise produzida em abundância deixa de ter a
característica de corte e de ruptura para a instauração de uma nova temporalidade, trata-
se de um projeto recorrente e cíclico para a manutenção da economia capitalista. Dessa
forma, o conceito de crise deve ser compreendido de acordo com sua íntima ligação com
os ciclos econômicos característicos de tal economia. Conforme notou Andityas Matos,

3
ABBAGNANO, 2007, pp. 222-223.
4
HIPÓCRATES, 1983, p. 318.
5
Cf. KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Trad.
Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC Rio, 2006.
6
Cf. MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857 – 1858: esboços da crítica da economia
política. Trad. Mario Duayer e Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011.

2
as crises “não são mais do que mecanismos de acomodação do sistema econômico-social-
subjetivo característico da Modernidade capitalista.7
As crises do capitalismo se instalam, permanecem e se naturalizam. Para Bensaïd,8
a crise surge sob a metáfora de uma loucura que domina a vida dos povos na medida em
que as tendências esquizoides do sistema capitalista são manifestadas. Dessa forma, as
crises não devem ser associadas com a ideia de ruptura ou de esgotamento de um
processo, mas como a constituição de um mecanismo de autocompensação do sistema. A
crise passa a ser um fato do corriqueiro e normalizado, ao contrário de um evento que
provoca uma ruptura no devir na história. É um mero fato voluntariamente provocado
para afirmar e reestruturar o domínio do poder constituído do capital. Nesse sentido, a
crise econômica permanente adquire vigência contínua na busca da manutenção do
sistema. Como exemplo, podem-se citar as contínuas crises desde a Grande Depressão de
1929, passando pela crise do petróleo de 1973, pelo do crack da bolsa de Nova York em
1987 e chegando à crise de 2008. Não há a instauração de um novo modelo que supere
aquele em crise. Ao contrário, a crise econômica surge sempre como uma reestruturação
de si mesma, reconfigurando a situação posta para que o poder dominante possa manter
sua estrutura inalterada. Como afirma Carrasco-Conde, “las crisis se suceden así,
encadenadas en continuidad con lo anterior, como un movimiento de recolocación.”9
O sistema capitalista, portanto, utiliza-se das constantes crises para se manter
como um contínuo processo histórico fechado em si mesmo, naturalizando-se e afastando
qualquer possibilidade de fuga de seu sistema. Ao se manifestar as crises como meros
fatos cotidianos, o poder capitalista previne a sua dissolução, estancando o presente e
impedindo a abertura para um futuro que com ele não se relacione. Nesse contexto são
produzidas as subjetividades que correspondem à forma de vida da ordem do capital que
transportam em si as características das crises capitalistas, conforme analisam Hardt &
Negri.
A supremacia econômica das finanças e dos bancos no cenário capitalista
produziu o endividado, condição geral da vida na ordem espetacular. Sua subjetividade
se caracteriza por estar fundada na dívida. Sobrevive endividando-se e vive
constantemente sob o peso da responsabilidade de pagar as dívidas. A dívida o controla,
dita o ritmo de sua vida, seu trabalho e seu consumo. A dívida exerce um poder moral

7
MATOS, 2014, p. 76.
8
BENSAÏD, 2009, p. 4.
9
CARRASCO-CONDE, 2012, p.126.

3
sobre o endividado e sua principal forma de controlá-lo é imputar-lhe constantemente
responsabilidade e culpa. Nesse sentido, a culpa torna sua vida infeliz e, por conseguinte,
há ausência de reflexão sobre sua condição. Sendo o endividado um trabalhador, sua
produtividade é ocultada e enfatiza-se sua subordinação. Para liquidar a dívida e
sobreviver, o endividado é obrigado a vender todo seu tempo de vida. Hardt & Negri
afirmam que “hoy los nuevos pobres siguen estando libres [...], pero mediante su deuda
son, una vez más, propriedad de sus señores, ahora señores que dominan mediante las
finanzas.”10
O midiatizado corresponde a uma inteligência humana despotencializada, uma vez
que é uma subjetividade que não é ativa ou passiva, mas que tem sua atenção
constantemente absovida. Se em épocas anteriores os meios de comunicação e de
expressão de ideias eram restritos a certo número de pessoas que detinham acesso à
informação e meios para expressar suas opiniões, hoje, com o desenvolvimento de
tecnologias como o smartphone, todos têm a possibilidade constante de emitir opiniões,
mas é uma forma de participação precária e aparente. Há excesso de informação,
comunicação, expressão e tudo ocorre rapidamente, sem possibilidade de reflexão sobre
o que se lê e sobre o que se expressa. A internet concentra essas vertentes no mundo
virtual, no qual as informações vivas são transformadas em informações mortas, uma vez
que “el mediatizado está lleno de información muerta que esfixia nuestras potencias de
creación de información viva.”11
O securitizado é aquela subjetividade que a todo o tempo é objeto e sujeito de
controle e vigilância. As constantes crises econômicas e financeiras produzem no
securitizado medos de vertentes diferentes. Por um lado, tem medo de ficar desempregado
e não conseguir sobreviver e pagar suas dívidas, por isso se submete mansamente ao
controle de seus senhores. Por outro lado, tem medo dos poderes penais, assim como dos
outros que podem lhe infligir algum mal – medo social generalizado –, pois que de todos
desconfia ao passo que também é objeto de desconfiança. O securitizado vive imerso em
medo devido às constantes ameaças espectrais que podem atingi-lo. É o que Hardt &
Negri chamam de regime de vigilância, no qual os indivíduos assumem um duplo papel,
de observador e de observado. É um modo eficaz de controle, uma vez que as pessoas
aceitam livremente a se submeter a ele.

10
HARDT; NEGRI, 2012a, p. 21.
11
HARDT; NEGRI, 2012a, p. 24.

4
A última subjetividade que compõe o rol da crise econômica contínua é a do
representado. Para Hardt & Negri é figura da crise que reúne as figuras do endividado, do
midiatizado e do securitizado. Em um primeiro plano, Hardt & Negri analisam que o
poder econômico constituído impede que as pessoas se associem e se organizem fora dos
contornos dos partidos dominantes para que possam se envolver efetivamente em
processo eleitorais, uma vez que somente aqueles que detêm condições de financiar
campanhas conseguem participar do processo e, ao final, exigir a contraprestação
combinada. Em segundo lugar, os meios de comunicação com seus lobbies e campanhas
em televisão aberta são sumamente eficazes para conduzir aqueles pertencentes às suas
castas ao governo. Hardt & Negri ainda afirmam que os meios de comunicação, por meio
de sobredeterminação simbólica, dissipam as lutas independentes que defendem o que
para eles não é conveniente: “En resumen, los médios de comunicación dominantes crean
obstáculos para toda forma emergente de participación democrática.”12 Tal situação
ocorre porque as grandes empresas controladoras da comunicação se apropriaram do
título de senhores da verdade. Além do mais, o terrorismo midiático praticado pelos meios
de comunicação garante, por meio de táticas alarmistas, o medo do securitizado.
Esses fatores asseguram que o processo de representação sustente a política
partidária como quintal particular daqueles que detêm o poder econômico. Simone Weil
observa que um partido político é uma organização construída com a finalidade de seu
próprio crescimento, sem limite.13 Ainda que reconheça a decadência das estruturas de
participação, o representado permanece inerte pelo medo do retrocesso a um regime
totalitário ou despótico. Emerge um populismo que retém as forças que almejam
mudanças efetivas. O representado é o resultado da aglutinação de todas as outras formas
de subjetividade da crise, uma vez que acumula as características do endividado, do
midiatizado e do securitizado. Assim concluem Hardt & Negri:

Del mismo modo que al endeudado se le niega el control de su potencia social


productiva; del mismo modo que la inteligência, las capacidades afectivas y
las potencias de invención linguística del mediatizado son traicionadas; y del
mismo modo que el seguritizado, que vive en un mundo reducido a miedo y
terror se ve privado de toda posibilidad de intercambio asociativo, justo y
afectuoso, a su vez el representado no tiene acceso a la acción política
efectiva.14

12
HARDT; NEGRI, 2012a, p. 33.
13
WEIL, 2016, p. 24.
14
HARDT; NEGRI, 2012a, p. 36.

5
A representação é, por definição, “un mecanismo que separa a la población del
poder, a los mandados de los que mandan.”15 Dessa forma, a representação política é
uma técnica unificante que separa os sujeitos dos objetos do poder, despotencializando a
democracia. A representação política, conforme analisada por Andityas Matos,
“corresponde antes a um dispositivo de cisão da unidade originária do poder, a qual não
conhece a declinação entre sujeito (representante) e objeto (representado).”16 No contexto
do neoliberalismo, a representação política é pensada como substituto da democracia e,
dessa maneira, a espécie se sobrepõe ao gênero. Nesse cenário, o representado contempla
passivamente a realidade cindida pelo poder separado que proporciona aos seres viventes
uma práxis social de caráter fantasmagórico e, dessa forma, legitima-se “um mundo
reservado a poucos e mantido por enormes sofrimentos humanos.”17 Os pressupostos
políticos advindos da ideia de representação do povo soberano nada mais são, na
temporalidade capitalista, do que mitos que respaldam o poder alienado.

2. De subjetividades em crise para subjetividades mutantes: singularidade,


biopolítica, revolução
Para Hardt & Negri, o constitucionalismo característico do Estado Moderno,
instrumento do sistema capitalista, é uma forma de produção de subjetividade numa
versão republicana cujo corpo político é hierarquicamente regulado e, “[...] como órgãos
e membros de um corpo individual, cada segmento da sociedade tem seu próprio lugar e
sua própria função orgânicos no corpo político de uma república constitucional.” 18 Para
os autores, toda constituição política capitalista é fundamentada no conceito de
propriedade e na defesa da propriedade, o que é aprofundado pela governamentalidade
neoliberal. Para sustentar a república da propriedade, os Estados constitucionais
fortaleceram a ideia de nação e de soberania nacional para que a identidade soberana
prevalecesse e neutralizasse as diferenças inerentes ao convívio social e político.
O conceito de nação subsiste em um contexto ideológico específico, no qual se
procura imputar uma noção de homogeneidade ao “povo soberano” quando, na verdade,
a naturalização de tal conceito serviu, e ainda serve, como arma política para as ações do
poder constituído. O conceito de soberania a partir da Revolução Francesa desenvolveu-

15
HARDT; NEGRI, 2012a, p. 34.
16
MATOS, 2018, p. 7.
17
MATOS, 2014, p. 129.
18
HARDT; NEGRI, 2005, p. 210.

6
se tendo como base a figura da nação enquanto mecanismo constitucional. Para Hardt &
Negri, a ideia de nação é uma solução hegemônica burguesa para o problema da soberania
que precisava se legitimar como projeto de construção e estabelecimento da democracia
representativa. A ideia de nação veio para estabilizar a nova soberania burguesa e
mascarar o antagonismo intrínseco a ela. Para tanto, a naturalização da soberania era
necessária para um conceito de modernização capitalista que objetivava dissimular as
demandas interclasse para atender as necessidades políticas de desenvolvimento
econômico sustentados por constantes crises. Segundo Hardt & Negri, “a nação é uma
espécie de atalho ideológico que tenta livrar os conceitos de soberania e modernidade dos
antagonismos e crises que os definem.”19
A partir da noção de nação se constroem matrizes identitárias para impulsionar a
manutenção do modo de vida capitalista. As identidades são signo de título e posse que
se exercem por meio de poderes de exclusão e hierarquia, ou seja, identidade é
propriedade.20 As subjetividades, constituídas nesse sistema subordinante, são
compelidas a buscar reconhecimento em categorias que não foram criadas por elas,
procurando o signo da existência fora de si mesmas e entendendo a submissão como o
ônus a ser arcado pelo reconhecimento e garantia de sobrevivência na constituição
política capitalista. Hardt & Negri alertam que a identidade se baseia na propriedade e na
soberania, uma vez que se coloca nos limites de um corpo político que privatiza o
comum.21 Os autores compreendem que o comum se refere à produção política em
conjunto, podendo-se falar de uma produção biopolítica.
É necessário apontar que Hardt e Negri adotam um sentido positivo do termo
biopolítica a partir das formulações desenvolvidas por Michel Foucault. Os autores
interpretam a distinção entre biopoder e biopolítica na obra foucaultiana de modo que
biopoder poderia ser definido como “o poder sobre a vida” e biopolítica como “o poder
da vida de resistir e determinar uma produção alternativa de subjetividade.” Dessa forma,
negam outras tendências da interpretação dos escritos de Foucault, como a corrente

19
HARDT; NEGRI, 2012b, pp. 113 - 114
20
HARDT; NEGRI, 2016, p. 356.
21
"Pelo termo 'comum', referimo-nos, em primeiro lugar, à riqueza comum do mundo material -- o ar, a
água, os frutos da terra e todas as dádivas da natureza --, o que nos textos políticos europeus clássicos em
geral é considerado herança da humanidade como um todo, a ser compartilhada por todos. Mais ainda,
também consideramos fazerem parte do comum os resultados da produção social que são necessários para
a interação social e para mais produção, como os conhecimentos, as imagens, os códigos, a informação, os
afetos e assim por diante. Esse conceito do comum não coloca a humanidade separada da natureza, seja
como sua exploradora ou sua guardiã; centra-se, antes, nas práticas de interação, cuidado e coabitação num
mundo comum, promovendo as formas benéficas do comum e limitando as prejudiciais" (HARDT; NEGRI,
2016, p. 8).

7
capitaneada por François Ewald e Roberto Esposito, que compreendem biopolítica como
“gestão normativa das populações”, ou como a de Giorgio Agamben, que compreende a
biopolítica em seu caráter negativo, estéril e esvaziado de “qualquer possibilidade de ação
autônoma e criativa,” ou seja, impotente e sem subjetividade.22 Segundo os autores, ainda
partindo das formulações foucaultianas, a biopolítica aparece como acontecimento na
medida em que revela o elo entre liberdade e poder. Desse modo, a biopolítica é uma
relação partisan entre subjetividade e história que abre novos espaços-tempos para
acontecimentos de resistência: ao mesmo tempo em que tem poder de escapar ao controle
da república da propriedade, a produção biopolítica tem poder de criar um novo mundo.23
Assim, Hardt & Negri avançam a compreensão da biopolítica como acontecimento queer.
Segundo os autores:

O acontecimento biopolítico, com efeito, é sempre um acontecimento queer,


um processo subversivo de subjetivação que, abalando identidades e normas
dominantes, revela o elo entre poder e liberdade, assim inaugurando uma
produção alternativa de subjetividade. O acontecimento biopolítico rompe,
assim, com todas as formas de substancialismo ou conceitualismo metafísico.
O ser é feito no acontecimento.24

Dessa forma, observando que as subjetividades individualistas e apropriantes


conformam um poder separado, a representação política, característica desse poder,
instrumentaliza subjetividades obedientes e não resistentes que participam da manutenção
do Estado capitalista no qual todas as pessoas são tratadas como números. Deve-se
observar que o corpo constitucional público (que é o corpo da república da propriedade
capitalista) permanece enquanto corpo orgânico de poder.25 O poder soberano unificado
submete toda a subjetividade social e intensifica a hierarquia entre identidades. Portanto,
a luta por liberdade e a abolição das identidades fixas são fundamentais para se
desconstruir o corpo político baseado na soberania dos Estados, que desempenha papel
fundamental na manutenção do sistema capitalista, ou seja, da república da propriedade.
Conforme analisa Andityas Matos, a mera participação de processos de
representação política, mecanismo de autorreprodução do capitalismo, “não é suficiente
para desconstruir a separação entre as subjetividades individuais e o poder que funda o

22
HARDT; NEGRI, 2016, pp. 74 - 75.
23
HARDT; NEGRI, 2016, pp. 78 - 79.
24
HARDT; NEGRI, 2016, p. 80.
25
HARDT; NEGRI, 2005, p. 210.

8
Estado de Direito.”26 A produção biopolítica em conjunto está vinculada a uma contínua
construção de subjetividades voltadas para a dissolução de qualquer essencialismo capaz
de manter posições de mando e obediência.27 Nesse sentido, Andityas Matos demonstra
que é preciso pensar as subjetividades a partir de um irrepresentável que afaste uma
definição fixa das subjetividades com base no lugar que elas ocupam nas estruturas
representativas do poder separado.28 Segundo o autor:

O caráter aberto e indeterminado das identidades, que se revela apenas em sua


contínua autorreprodução biopolítica, é ofuscado pelos mecanismos de
normalização característicos do capitalismo, que lança mão da propriedade
privada para construir subjetividades individuais que competem umas com as
outras, mas que, paradoxalmente, se unificam enquanto classe para a
preservação de seus privilégios.29

Daí a necessidade de pensar as subjetividades a partir do múltiplo: múltiplos


territórios, múltiplas subjetividades e poder multiplicado.30 Dessa forma, subjetividades
mutantes e não alienadas da experiência do poder surgem no fluxo e na inesgotabilidade
da potência criadora de formas-de-vida democráticas, singulares e não representativas.
Subjetividades mutantes são vividas e nunca teorizadas ou controladas. A reprodução da
vida social biopolítica é desenvolvida continuamente pelas comunicações e encontros dos
corpos na dimensão conflitiva do comum. Para Andityas Matos tal significa que o comum
é “substrato das multiplicidades, possibilitando assim que cada um seja suas
singularidades e, ao mesmo tempo, colabore em projetos coletivos.”31
Hardt & Negri definem a singularidade como uma multiplicidade fora e dentro de
si mesma que é vinculada a um processo constante de devir. Nesse sentido, o conceito de
singularidade possui três características fundamentais: (a) toda singularidade é e está em
relação a uma multiplicidade, uma vez que não há singularidade que se conceba por si
mesma; (b) toda singularidade ressalta a multiplicidade que está em seu interior; (c) toda
singularidade está em constante fluxo comprometido em um processo de se tornar
diferente.32 A possibilidade de transformação de subjetividades fixas, sempre em crise,
em subjetividades mutantes, por meio das quais se possa (re)pensar o discurso político-

26
MATOS, 2018, p. 272.
27
MATOS, 2018, p. 269.
28
MATOS, 2018, p. 280
29
MATOS, 2018, p. 290.
30
MATOS, 2018, p. 302.
31
MATOS, 2015, p. 162.
32
HARDT; NEGRI, 2016, p. 370.

9
jurídico sobre o que se é e o que se pode vir a ser em um contexto democrático, é
fundamental para romper com as estruturas de dominação e hierarquia características do
contexto capitalista neoliberal.
Enquanto as subjetividades em crise são estruturadas tendo em vista a defesa de
que a representação política é uma garantia necessária da democracia por parte daqueles
que expressam o poder constituído no sistema capitalista, as subjetividades mutantes
apostam na radical desvinculação entre democracia e representação, uma vez que o que
hoje é lido como pleonasmo (“democracia representativa”), originalmente é uma
oxímoro.33 Nesse sentido, as subjetividades mutantes negam a representação política
como espaço garantidor de liberdade e de multiplicidade, ou seja, de democracia, mas
denunciam, em um processo de disrupção, a homogeneização dos dispositivos do aparato
político-econômico-capitalista. Subjetividades mutantes são irrepresentáveis, uma vez
que são processo e resultado de ações de singularidades múltiplas na produção biopolítica
do comum.

Considerações finais
Jonnefer Barbosa, referindo-se ao contexto de pensar a governamentalidade
contemporânea como dispositivo contrainsurreicional, afirma que o governo se dá hoje
para além do conceito oitocentista de população. Nesse sentido, o processo de
lumpenização carrega consigo novos processos de “contraconduta”, o mundo é regrado
pela metafísica do capital humano “como resultado do neoliberalismo enquanto prótese
obturativa do comum”.34 As insurreições no século XXI apresentam uma nova cartografia
que faz um rasgo na teia da estrutura neoliberal que agora assume as facetas nômicas do
Estado capitalista. É a partir dessa perspectiva que pensar essa nova cartografia (acêntrica,
múltipla e não estruturada) possibilita observar a proliferação de subjetividades mutantes,
não identitárias, cooperativas e criativas.
Os espaços ocupados em Wall Street pelos manifestantes do movimento occupy,
a Praça Tahrir no Cairo na qual manifestantes contra a ditadura de 30 anos de Hosni
Mubarak se reuniam em 2011, os imóveis abandonados e okupados por grupos
anarquistas em Barcelona e Atenas, o Espaço Comum Luiz Estrela em Belo Horizonte,
as terras ocupadas no Brasil pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), as ruas da Argentina tomadas pelo pañuelazo de 2019, entre tantas outras ações

33
RANCIÈRE, 2005, p. 61.
34
BARBOSA, 2017, pp. 6 - 7.

10
biopolíticas, demonstram que as subjetividades mutantes são resultado de um processo
no qual as singularidades se encontram com a multiplicidade dos corpos que convivem no
comum.
As constantes crises necessárias para a manutenção do sistema capitalista trazem
à tona como suas subjetividades são formadas e conformadas. O endividado, o
midiatizado, o securitizado e o representados são apenas exemplos de como o
neoliberalismo governa a partir da despotencialização da ação política que pode provocar
um processo disruptivo em relação ao capitalismo. É nesse contexto que as subjetividades
em crise representam um instrumento de opressão capitalista que neutraliza os
desdobramentos da produção biopolítica do comum.
A singularidade, ao contrário, é compatível com o comum na medida em que são
mutuamente constitutivos. Dessa forma, a singularidade está sempre aberta à constituição
do comum em uma dinâmica revolucionária de criação de subjetividades mutantes. A
política identitária burguesa da república da propriedade reage contra a atividade
excedente da produção biopolítica, expropriando e privatizando o comum de acordo com
as leis de propriedade individual. Já os encontros das singularidades no comum é uma
estratégia fundamental contra a uniformidade e a unidade da república da propriedade
neoliberal que tenta impedir a produção de subjetividades múltiplas. É esse excesso
democrático que somente subjetividades mutantes podem experimentar ao realizar
acontecimentos queer que manifestam a potência biopolítica e que provocam rupturas
revolucionárias no devir na história.

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Crise. In: Dicionário de Filosofia. Trad. Alfredo Bosi e Ivone
Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BARBOSA, Jonnefer Francisco. Governamentalidade como contrainsurreição. Poliética,


São Paulo, v. 5, n. 1, pp. 5 – 19, 2017.

BENSAÏD, Daniel. Marx et les crises. In. MARX, Karl. Les crises du capitalisme. Trad.
Jacques Hebenstreit. Paris: Demopolis, 2009.

11
CARRASCO-CONDE, Ana. Blow-up: evento, acontecimiento, crisis. CADAHIA,
Luciana; VELASCO, Gonzalo (orgs.). Normalidad de la crisis/crisis de la normalidad.
Madrid: Katz, 2012.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império.


Trad. Clóvis Marques. Rev. técnica Giuseppe Cocco. Rio de Janeiro: Record, 2005.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Declaración. Trad. Raúl Sánchez Cedillo. Madrid:
Akal, 2012a.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Trad. Berilo Vargas. Rio de Janeiro:
Record, 2012b.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Bem-estar comum. Trad. Clóvis Marques. 1. ed. Rio
de Janeiro: Record, 2016.

HIPÓCRATES. Preceptos. In: Tratados Hipocráticos. Introduções, traduções e notas por


C. García Gual, Mª D. Lara Nava, J. A. López Férez, B. Cabellos Álvarez. Madrid:
Gredos, 1983.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos


históricos. Trad. Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro:
Contraponto: Ed. PUC Rio, 2006.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857 – 1858: esboços da crítica


da economia política. Trad. Mario Duayer e Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo; Rio
de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011.

MATOS, Andityas Soares de Moura Costa Matos. Filosofia radical e utopia:


inapropriabilidade, an-arquia, a-nomia. Rio e Janeiro: Via Verita, 2014.

MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. Filosofia radical e utopias da


inapropriabilidade: uma aposta an-árquica na multidão. Belo Horizonte: Fino Traço,
2015.

12
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. Representação contra democracia radical:
elementos para uma leitura (a)teológica do poder político na contemporaneidade. (2018).
Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Letras, Departamento de Filosofia,
Universidade de Coimbra, Coimbra.

RANCIÈRE, Jacques. La haine de la démocratie. Paris: La Fabrique, 2005.

WEIL, Simone. Pela supressão dos partidos políticos. Trad. Lucas Neves. Belo
Horizonte: Âyiné, 2016.

13