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17/10/2019 Carta para Joseph Bloch

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Carta para Joseph Bloch[1]


Friedrich Engels

21-22 de Setembro de 1890

Primeira Edição: Texto originalmente publicado em Der sozialistische Akademiker, Berlin,


October 1, 1895, em alemão.
Fonte: ENGELS, F. Letters on Historical Materialism. To Joseph Bloch. [1890]. pp. 760-765. in
TUCKER, Robert C. (org.) The Marx-Engels reader. 2. ed. New York: W. W. Norton & Company,
1978.
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Londres, 21-22 de setembro de 1890

De acordo com a concepção materialista da história, o elemento


determinante final na história é a produção e reprodução da vida real. Mais do
que isso, nem eu e nem Marx jamais afirmamos. Assim, se alguém distorce isto
afirmando que o fator econômico é o único determinante, ele transforma esta
proposição em algo abstrato, sem sentido e em uma frase vazia. As condições
econômicas são a infra-estrutura, a base, mas vários outros vetores da
superestrutura (formas políticas da luta de classes e seus resultados, a saber,
constituições estabelecidas pela classe vitoriosa após a batalha, etc., formas
jurídicas e mesmo os reflexos destas lutas nas cabeças dos participantes, como
teorias políticas, jurídicas ou filosóficas, concepções religiosas e seus posteriores
desenvolvimentos em sistemas de dogmas) também exercitam sua influência no
curso das lutas históricas e, em muitos casos, preponderam na determinação de
sua forma. Há uma interação entre todos estes vetores entre os quais há um sem
número de acidentes (isto é, coisas e eventos de conexão tão remota, ou mesmo
impossível, de provar que podemos tomá-los como não-existentes ou
negligenciá-los em nossa análise), mas que o movimento econômico se assenta
finalmente como necessário. Do contrário, a aplicação da teoria a qualquer
período da história que seja selecionado seria mais fácil do que uma simples
equação de primeiro grau.

Nós mesmos é que fazemos a história, mas o fazemos sob condições e


suposições definidas. Entre estas, os determinantes econômicos são,
ultimamente, decisivos. Mas mesmo as condições políticas, etc., e mesmo
tradições que assombram as mentes humanas também desempenham o seu
papel, embora não sejam decisivos. O Estado prussiano também surgiu e se
desenvolveu por causas históricas, mas de modo final, por causas econômicas.
Da mesma forma, seria difícil de se argumentar sem pedantismo que muitos dos
pequenos Estados da Alemanha do Norte, Bradenburg, foram especificamente
determinados por necessidades econômicas para se tornar grandes potências

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econômicas, lingüísticas e, após a Reforma, também religiosa em distinção entre


o sul, e não por outros elementos além do econômico (acima de tudo, o
relacionamento com a Polônia devendo sua possessão da Prússia foi também
decisivo para a formação da potência dinástica austríaca, ou seja, relações
políticas internacionais que foram determinantes). Sem ser ridículo, seria difícil
explicar em termos puramente econômicos a existência de cada pequeno Estado
na Alemanha, no passado ou no presente, ou a origem da Alta Alemanha
consoante com as alterações que alargaram o muro geográfico da partilha,
formado pelo conjunto sudético de montanhas do Taunus, até a extensão de uma
fissura regular cortando toda a região.

Em segundo lugar, a história é feita de maneira que o resultado final sempre


surge da conflitante relação entre muitas vontades individuais, cada qual destas
vontades feita em condições particulares de vida. Portanto, é a intersecção de
numerosas forças, uma série infinita de paralelogramos de forças, que resulta em
um dado evento histórico. Isto pode ser novamente interpretado de modo
equívoco, sendo visto como um produto de um poder que trabalha como um
todo, inconscientemente e sem vontade. Cada vontade individual é obstruída por
outra vontade individual e o que emerge é uma vontade final não antecipada
pelas singularidades envolvidas. Assim, a história procede na forma de um
processo natural e é essencialmente sujeitas às leis do movimento. Mas do fato
de que as vontades individuais — das quais os desejos que impelem pela
constituição física ou externamente e, em último lugar, pelas circunstâncias
econômicas (sejam pessoais ou aquelas da sociedade em geral) — não obtém o
que querem, mas tem suas vontades amalgamadas em um sentido coletivo, um
resultante comum, não deve ser concluído que seus valores sãos iguais a zero.
Ao contrário, cada parte singular contribui para o resultado e é, em certo grau,
envolvido com esta soma final.

No mais, eu iria pedir para que você estude esta teoria de fontes originais e
não de materiais secundários; será muito mais fácil. Marx dificilmente escreveu
algo que ele não tomou parte. Especialmente o Dezoito Brumário de Louis
Bonaparte é o mais excelente exemplo da aplicação desta teoria. Também
existem muitas alusões n’O Capital. Também devo indicá-lo alguns de meus
escritos: Herr Eugen Duhring’s Revolução na Ciência e Ludwig Feuerbach e o fim
da filosofia alemã clássica, nestas obras eu dei, até onde sei, a mais detalhada
explicação sobre o materialismo histórico que é possível encontrar.

Eu e Marx somos aqueles a quem, parcialmente, culpar pelo fato que as


pessoas mais novas freqüentemente acentuarem o aspecto econômico mais do
que o necessário. É que nós tínhamos que enfatizar estes princípios vis-à-vis
nossos adversários, que os negavam. Nós não tínhamos sempre o tempo, o local
e a oportunidade para explicar adequadamente os outros elementos envolvidos
na interação dos fatores constituintes da história. Mas quando era o caso de
apresentar uma seção historiográfica, isto é, de aplicação prática, era um assunto
diferente e nenhum erro era permissível. Infelizmente, de modo muito freqüente,
as pessoas pensam que aprenderam uma nova teoria e podem aplicá-la sem
maiores problemas, crendo que dominaram os principais princípios e isto não é
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sempre correto. E eu não posso também isentar os mais recentes “marxistas” do


mais incrível lixo que já foi produzido nos últimos três meses.

A reação do poder do Estado para com o desenvolvimento econômico pode


ser um dos três tipos: (i) pode ser que corra na mesma direção e então o
desenvolvimento seja acelerado; (ii) ele pode se opor à linha do
desenvolvimento, o que, nos dias de hoje fará com que o poder de Estado seja
estraçalhado no longo termo e; (iii) pode barrar o desenvolvimento econômico
em algumas direções e prescrevê-lo em outras. Isto reduz as possibilidade para
uma das duas anteriores. Mas é óbvio que nos casos dois e três, o poder político
pode causar grandes danos ao desenvolvimento econômico e resultar em grande
dispêndio material e de energia das grandes massas.

Então, é também um caso de conquista e destruição brutal de recursos


econômicos, os quais, em certas condições, um sistema econômico nacional ou
local poderia ser arruinado. Nos dias de hoje, tal caso teria um efeito contrário,
ao menos entre os grandes povos: em longo termo, o subjugado às vezes ganha
mais em termos políticos, econômicos e morais do que o vitorioso.

Similarmente com a lei. Assim que a nova divisão do trabalho surge, na qual
se tornam necessários advogados profissionais, uma nova e independente esfera
é criada e ainda especialmente capaz de reatar as esferas de produção e
comércio. No Estado moderno, a lei não deve apenas corresponder à condição
econômica geral e ser sua expressão direta, mas ser expressão internamente
coerente o que não se reduz ao nada, devido suas contradições internas. E com o
objetivo de atingir isto, o fidedigno reflexo das condições econômicas sofre cada
vez mais. Assim, cada vez mais raramente que um código legal é a direta, não-
suavizada e não-adulterada expressão da dominação de uma classe — isto por si
iria ofender a “concepção de direito”. Mesmo no Código Napoleônico, a pura e
consistente concepção de direito que a burguesia revolucionaria de 1792-1796 se
dizia titular, é em muitas formas adulterada e, da forma como foi constituído, foi
sujeita às atenuações decorrentes do nascente poder do proletariado. Isto não
impede o Código Napoleônico de ser o estatuto que serve de base para novos
códigos em todos os cantos do mundo. Portanto, em grande parte, o curso do
“desenvolvimento dos direitos” apenas consiste (i) em uma tentativa de desfazer
as contradições emergentes, sendo destarte, tradução direta dos antagonismos
de relações econômicas em princípios jurídicos e (ii) nas reiteradas brechas feitas
neste sistema pela influência e pressão do desenvolvimento econômico seqüente,
envolvendo contradições posteriores para estabelecer um sistema jurídico
harmonioso. (Neste momento, eu estou apenas falando no Direito Civil).

O reflexo de relações econômicas em princípios jurídicos é necessariamente


confuso e desordenado: ele age sem a pessoa que está atuando ser consciente
deste processo; o jurista imagina que está operando com proposições a priori,
quando o que ele está manuseando verdadeiramente são reflexos das relações
econômicas; assim, tudo está invertido. Para mim, parece óbvio que esta
inversão que, enquanto permaneça desconhecida sob a forma do que nós
chamamos de concepção ideológica, reage e retorna à base econômica podendo,

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dentro de certas limitações, modificar esta última. A base do direito de herança


(assumindo que os estágios atingidos no desenvolvimento da família sejam
iguais) é econômica e não a priori jurídica. No entanto, seria difícil de provar,
por exemplo, que a absoluta liberdade do testador na Inglaterra e as severas
restrições impostas a este na França são decorrentes, em cada detalhe, às
causas econômicas. Ambas (causas jurídicas e causas econômicas) reagem entre
si, sem podermos, no entanto, reconhecer a esfera econômica em considerável
extensão, pois a herança afeta a distribuição de propriedade.

No reinados da ideologia que deslizam ainda alto nos céus, religião, filosofia,
etc., têm um estoque pré-histórico que encontra sua existência no e é tomada
pelo período histórico do que chamamos nonsense. Estas variadas falsas
concepções da natureza, do ser, de espíritos, forças mágicas, etc., têm, na maior
parte das vezes, apenas um fundamento econômico negativo; o baixo
desenvolvimento econômico do período pré-histórico é suplementado e
parcialmente condicionado e mesmo criado por falsas concepções de natureza. E
mesmo que a necessidade econômica seja a principal força motriz do
conhecimento progressivo sobre a natureza e se torna cada vez mais assim, seria
certamente pedante tentar encontrar e indicar causas econômicas para este
nonsense primitivo. A história da ciência é a história da gradual substituição
deste nonsense ou sua eliminação por formas mais recentes, mas nem sempre
menos absurdas de tolices. As pessoas que tomam parte nisto, aderem a
dimensões especiais da divisão do trabalho e isto aparenta para eles como se
estivessem trabalhando em um campo independente. E na medida em que eles
formam um grupo separado dentro da divisão social do trabalho, a sua produção,
incluindo seus erros, reage novamente e influencia o desenvolvimento total da
sociedade, e mesmo o desenvolvimento econômico. Mas todos estes estão,
novamente, sob a dominante influência do desenvolvimento econômico. Na
filosofia, por exemplo, isto pode ser mais prontamente demonstrado através do
período burguês. Hobbes foi o primeiro materialista moderno (no sentido possível
dos limites do século XVIII), mas ele era um absolutista no período em que a
monarquia absolutista estava em seu mais alto ponto por toda a Europa e
quando a luta da monarquia contra o povo estava se iniciando na Inglaterra.
Locke era uma criança no compromisso de classe de 1688 tanto em matéria de
religião como de política.

Os deístas ingleses e seus mais consistentes continuadores, os materialistas


franceses, eram verdadeiros filósofos da burguesia, sendo os franceses o mesmo
até durante a revolução burguesa. O filistinismo alemão corre através da filosofia
germânica de Kant até Hegel, algumas vezes positivamente enquanto outras
negativamente. Mas a filosofia de cada época, considerando que é uma dimensão
definida na divisão do trabalho, tem por pressupostos certos pensamentos
guiados por seus predecessores, dos quais toma como ponto de partida. E é por
esta razão que países economicamente atrasados podem fraudar com vantagens
na filosofia: a França no século XVIII comparada com a Inglaterra, em cuja
filosofia os próprios franceses se basearam, e a filosofia alemã posterior
relativamente baseada em ambas. Mas na França, assim como na Alemanha, a
filosofia e a literatura floreada do período eram resultantes de um crescente
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progresso econômico. Eu também considero a supremacia do desenvolvimento


econômico estabelecendo-se nestas esferas, mas ocorre dela atuar dentro de
condições impostas pela própria área do conhecimento em si: na filosofia, por
exemplo, através da operação de influências econômicas (que geralmente atua
sob um encobrimento que aparenta ser político) sobre a existência filosófica
material criada por seus antecessores. Aqui, a economia cria nada em formas
renovadas, mas ela determina o modo pelo qual o pensamento material encontra
a existência e o altera, posteriormente progredindo e isto na maior parte das
vezes sob formas indiretas, sejam filosóficas, legais ou morais, reflexos que
exercitam grande poder sobre a filosofia.

Sobre religião, eu disse o que era mais importante na última sessão sobre
Feuerbach.

Se, no entanto, Barth supõe que nós negamos toda e qualquer reação do
político, etc., reflexos do movimento econômico sobre o movimento em si, ele
está simplesmente lutando contra moinhos de vento. Ele só precisa olhar para o
Dezoito Brumário de Marx, que lida quase que exclusivamente o papel particular
desempenhado pelas lutas políticas e outros eventos; é claro que dentro da
dependência geral das pré-condições econômicas. Ou O Capital, no capítulo sobre
a jornada de trabalho, por exemplo, onde a legislação, que é certamente um ato
político, tem efeito incisivo. Ou então a parte sobre a história da burguesia
(capítulo XXIV). Ou por qual razão nós lutamos pela ditadura política do
proletariado se o poder político é economicamente impotente? Força (isto é,
poder estatal) é também poder econômico!

Mas eu não tempo agora para criticar este livro. Eu devo agora pegar o
volume III e no mais, penso que Bernstein, por exemplo, poderia efetivamente
lidar com estes assuntos.

O que falta para estes cavalheiros é a dialética. Eles simplesmente olham


aqui a causa e ali o efeito. Esta é abstração vazia e estas oposições polares
metafísicas só existem no mundo real durante crises quando todo o vasto
processo na forma de interação (embora por forças muito desiguais, com o
movimento econômico sendo, de longe, o mais poderoso, inicial e mais decisivo)
é aqui muito mais relativo e nada absoluto (isto, eles nunca enxergaram). Hegel
nunca existiu para eles.

Leia a tradução das Edições Avante! (versão resumida)

Início da página

Nota:

[1] Friedrich Engels (1820-1895) contribuiu enormemente para o desenvolvimento do


materialismo dialético. Juntamente com Karl Marx assinou “A Sagrada Família” (1844) e o
“Manifesto Comunista” (1848), além de ter escrito importantes textos para o marxismo, como
“Socialismo utópico e científico” (1880) e “As origens da família, da propriedade privada e do
Estado” (1884). Este pequeno texto é parte da vasta correspondência trocada, contestando a
(ainda hoje) freqüente acusação de um hiper-determinismo econômico sobre outros fatores, o

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que seria um anti-cientificismo do materialismo histórico. Engels responde a este ponto e explica
a inter-relação entre a legislação e o direito no capitalismo, bem como o papel do Estado. O texto
é pequeno, e embora não seja de fácil leitura, é fundamental pela sagacidade dos conceitos
elaborados e explicados.
Inclusão 02/10/2009
Última alteração 25/09/2011

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