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EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO

DIREITO AMBIENTAL

No Brasil, as primeiras medidas protetivas ao meio ambiente de que


se tem notícia encontram-se ainda no início do período colonial, momento
em que as atividades econômicas consistiam basicamente na extração de
produtos agrícolas e minerais, o que ocasionava um intenso processo de
desmatamento.

Na primeira década do descobrimento do Brasil, vigorava em


Portugal as Ordenações Afonsinas, nas quais já era possível verificar
algumas referências à preocupação com o meio ambiente, a exemplo do
dispositivo que tipificava como crime de injúria ao rei o corte de árvores
frutíferas.

As Ordenações Manuelinas, editadas em 1521, também


contemplavam algumas disposições de caráter ambiental direcionadas à
proteção da caça e riquezas minerais, mantendo-se como crime o corte de
árvores frutíferas. Durante o período de vigência das Ordenações Manuelinas
foram elaboradas inúmeras regras dispersas, que foram atualizadas e
compiladas pelas Ordenações Filipinas, que entraram em vigor em 1.603,
quando o Brasil já estava sob domínio Espanhol.

As sanções que eram aplicadas às condutas tipificadas como crime


objetivavam defender o valor econômico de produtos provenientes da
natureza, cujo préstimo poderia ser prejudicado com a ocorrência de práticas
degradantes como queimas, ou quaisquer outras que ocasionassem a
poluição de rios e lagos.

Dentre as atividades econômicas exercidas na época, se destaca


sobremaneira a comercialização do pau-brasil, madeira nata que abastecia o
mercado têxtil europeu devido à sua forte coloração, utilizada para o
tingimento de tecidos.

A Coroa Portuguesa, após receber relatórios acerca da exploração do


Pau-brasil, indicando que a extração indiscriminada do produto poderia levar
à sua extinção, criou, em 1605, a primeira lei protecionista florestal do Brasil,
proibindo o corte do pau-brasil sem expressa licença real, penalizando seus
infratores[1].
À medida que a rentabilidade do comércio decorrente da exploração
de madeira aumentava, o processo de devastação se intensificava, o que
acabou por tornar ineficientes as medidas adotadas pela realeza, ou aquelas
previstas nas Ordenações do Reino. Vale recordar aqui que nesse período de
busca desenfreada por madeira, ouro e metais preciosos, várias foram as
invasões sofridas pelo país, sobretudo por franceses, holandeses e
portugueses, o que contribuíam significativamente para o processo de
desmatamento.

Em julho de 1799 foi estabelecido o primeiro regimento sobre cortes


de madeira no Brasil, contendo regras sobre o abate, serragem, identificação
e romaneio de árvores[2].

Em 1824, sob a influência de ideais iluministas, foi promulgada a


Constituição do império, cujo texto continha a previsão de direitos políticos,
individuais e de propriedade, excluindo de seu bojo qualquer palavra atinente
à proteção ambiental.

Como bem observa Paulo de Bessa Antunes, na ocasião da


promulgação da Constituição Imperial, o país era essencialmente exportador
de produtos agrícolas e minerais, e muito embora os produtos primários
fossem essenciais à economia da época, a Constituição não estabeleceu
nenhum mecanismo que fosse capaz de garantir a sustentabilidade dos
recursos. Isso porque a concepção predominante era a de que o Estado não
deveria interferir nas atividades econômicas[3].

Pouco depois, em 1830, ainda no contexto de um Estado


individualista, foi sancionado por Dom Pedro I o Código Criminal do
Império, que instituiu o crime de dano. Apesar de o referido tipo penal ter
como objetivo exclusivo a proteção à propriedade, acabou por proteger o
meio ambiente de forma mediata. Em 1886, o crime de dano passou a conter
em seu texto o incêndio, de forma taxativa e limitada, objetivando a defesa
do patrimônio e da pessoa, ainda sem qualquer interesse em tutelar o meio
ambiente.

Com a abolição da escravatura, havia a necessidade de alteração da


legislação penal, de modo que em 1890 foi promulgado o Código Penal dos
Estados Unidos do Brasil. Neste Código foram inseridos tipos penais
estritamente vinculados com a incolumidade pública, mas com conteúdo
ambientalista, como o crime de incêndio, que teve suas hipóteses de previsão
ampliadas para as “plantações, colheitas, lenha cortada, pastos ou campos de
fazenda de cultura, ou estabelecimento de criação, matas, ou florestas
pertencentes à terceiros ou à Nação[4]”.
Com a proclamação da república e alteração do regime político foi
instituída uma nova Constituição, também de índole liberal, que assim como
a anterior não previu qualquer espécie normativa de proteção ao meio
ambiente, ainda que de forma indireta.

Após a revolução de 1930, no contexto de um período de “intensa


atividade legisferante de conteúdo inovador[5]”, foi instituído o primeiro
Código Florestal Brasileiro, cuja vigência se deu em 1934. Logo em
seguida, o Decreto nº 24.645, de 10-07-34, estabelece medidas de proteção
aos animais, dentre elas a tipificação da contravenção de maus tratos aos
animais, descrevendo minuciosamente o que considerava por maus tratos[6].

No mesmo ano foi revogada a Carta Republicana com a promulgação


de uma nova Constituição que, embora apontada pela doutrina como a
primeira constituição a preocupar-se em enumerar direitos fundamentais
sociais, em nada inovou no que se refere à tutela ambiental.

Em 1937 é editada e outorgada uma nova Constituição, de inspiração


fascista e caráter marcadamente autoritário, dando início ao período
ditatorial conhecido como “Estado Novo”. Chamada de “Constituição
Polaca”, representou um grande retrocesso no que diz respeito às conquistas
dos direitos fundamentais sociais.

Em que pese sua incompatibilidade com um verdadeiro Estado


Democrático de Direito, a Constituição de 1937 trouxe algumas novidades
no campo ambiental, estabelecendo medidas de polícia para a proteção de
plantas e dos rebanhos contra a moléstia ou agentes nocivos, entre outras.
Alessandra Raspassi Mascarenhas Prado ressalta que dentre as
mencionadas medidas, a mais importante era a previsão de que os atentados
cometidos contra “os monumentos históricos, artísticos e naturais, assim
como as paisagens ou os locais particularmente dotados pela natureza ...
serão equiparados aos cometidos contra o patrimônio nacional[7]”.

Em 1940 entrou em vigor o Novo Código Penal, que passa a tutelar


elementos do meio ambiente de forma indireta, a exemplo da tipificação do
envenenamento ou poluição de água potável[8].

Com o término na Segunda Guerra Mundial e o fim do Estado Novo,


promulga-se a Constituição de 1946, que também não inovou em matéria
ambiental, assim como as Constituições de 1967 e 1969.
Em 1972 foi firmada, em Estocolmo, a Declaração das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente, que nos dizeres de Alessandra Rapassi Mascarenhas
Prado “propiciou um grande impulso para que as legislações de alguns
Estados, inclusive do Brasil, despertassem para a proteção do meio
ambiente[9]”.

Nesta Declaração foram firmados 23 princípios, os quais cumpre


transcrever, tendo em vista a importância da referida declaração para o
desenvolvimento da tutela ambiental, não apenas no Brasil, mas em todo o
mundo:
1 - O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade
e ao desfrute de condições de vida adequadas, em um meio
ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna,
gozar de bem-estar e é portador solene de obrigação de proteger
e melhorar o meio ambiente, para as gerações presentes e futuras.
A esse respeito, as políticas que promovem ou perpetuam o
“apartheid”, a segregação racial, a discriminação, a opressão
colonial e outras formas de opressão e de dominação estrangeira
permanecem condenadas e devem ser eliminadas.
2 - Os recursos naturais da Terra, incluídos o ar, a água, o solo, a
flora e a fauna e, especialmente, parcelas representativas dos
ecossistemas naturais, devem ser preservados em benefício das
gerações atuais e futuras, mediante um cuidadoso planejamento
ou administração adequada.
3 - Deve ser mantida e, sempre que possível, restaurada ou
melhorada a capacidade da Terra de produzir recursos renováveis
vitais.
4 - O homem tem a responsabilidade especial de preservar e
administrar judiciosamente o patrimônio representado pela flora
e fauna silvestres, bem assim o seu “habitat”, que se encontram
atualmente em grave perigo por uma combinação de fatores
adversos. Em conseqüência, ao planificar o desenvolvimento
econômico, deve ser atribuída importância à conservação da
natureza, incluídas a flora e a fauna silvestres.
5 - Os recursos não renováveis da Terra devem ser utilizados de
forma a evitar o perigo do seu esgotamento futuro e a assegurar
que toda a humanidade participe dos benefícios de tal uso.
6 - Deve-se por fim à descarga de substâncias tóxicas ou de outras
matérias e à liberação de calor, em quantidade ou concentrações
tais que não possam ser neutralizadas pelo meio ambiente de
modo a evitarem-se danos graves e irreparáveis aos ecossistemas.
Deve ser apoiada a justa luta de todos os povos contra a poluição.
7 - Os países deverão adotar todas as medidas possíveis para
impedir a poluição dos mares por substâncias que possam por em
perigo a saúde do homem, prejudicar os recursos vivos e a vida
marinha, causar danos às possibilidades recreativas ou interferir
com outros usos legítimos do mar.
8 - O desenvolvimento econômico e social é indispensável para
assegurar ao homem um ambiente de vida e trabalho favorável e
criar, na Terra, as condições necessárias à melhoria da qualidade
de vida.
9 - As deficiências do meio ambiente decorrentes das condições
de subdesenvolvimento e de desastres naturais ocasionam graves
problemas; a melhor maneira de atenuar suas conseqüências é
promover o desenvolvimento acelerado, mediante a transferência
maciça de recursos consideráveis de assistência financeira e
tecno1ógica que complementem os esforços dos países em
desenvolvimento e a ajuda oportuna, quando necessária.
10 - Para os países em desenvolvimento, a estabilidade de preços
e pagamento adequado para comodidades primárias e matérias-
primas são essenciais à administração do meio ambiente, de vez
que se deve levar em conta tanto os fatores econômicos como os
processos ecológicos.
11 - As políticas ambientais de todos os países deveriam melhorar
e não afetar adversamente o potencial desenvolvimentista atual e
futuro dos países em desenvolvimento, nem obstar o atendimento
de melhores condições de vida para todos; os Estados e as
organizações internacionais deveriam adotar providências
apropriadas, visando chegar a um acordo, para fazer frente às
possíveis conseqüências econômicas nacionais e internacionais
resultantes da aplicação de medidas ambientais.
12 - Deveriam ser destinados recursos à preservação e
melhoramento do meio ambiente, tendo em conta as
circunstâncias e as necessidades especiais dos países em
desenvolvimento e quaisquer custos que possam emanar, para
esses países, a inclusão de medidas de conservação do meio
ambiente, em seus planos de desenvolvimento, assim como a
necessidade de lhes ser prestada, quando solicitada, maior
assistência técnica e financeira internacional para esse fim.
13 - A fim de lograr um ordenamento mais racional dos recursos
e, assim, melhorar as condições ambientais, os Estados deveriam
adotar um enfoque integrado e coordenado da planificação de seu
desenvolvimento, de modo a que fique assegurada a
compatibilidade do desenvolvimento, com a necessidade de
proteger e melhorar o meio ambiente humano, em benefício de
sua população.
14 - A planificação racional constitui um instrumento
indispensável, para conciliar as diferenças que possam surgir
entre as exigências do desenvolvimento e a necessidade de
proteger e melhorar o meio ambiente.
15 - Deve-se aplicar a planificação aos agrupamentos humanos e
à urbanização, tendo em mira evitar repercussões prejudiciais ao
meio ambiente e a obtenção do máximo de benefícios sociais,
econômicos e ambientais para todos. A esse respeito, devem ser
abandonados os projetos destinados à dominação colonialista e
racista.
16 - As regiões em que exista o risco de que a taxa de crescimento
demográfico ou as concentrações excessivas de população,
prejudiquem o meio ambiente ou o desenvolvimento, ou em que
a baixa densidade de população possa impedir o melhoramento
do meio ambiente humano e obstar o desenvolvimento, deveriam
ser aplicadas políticas demográficas que representassem os
direitos humanos fundamentais e contassem com a aprovação dos
governos interessados.
17 - Deve ser confiada, às instituições nacionais competentes, a
tarefa de planificar, administrar e controlar a utilização dos
recursos ambientais dos Estados, com o fim de melhorar a
qualidade do meio ambiente.
18 - Como parte de sua contribuição ao desenvolvimento
econômico e social, devem ser utilizadas a ciência e a tecnologia
para descobrir, evitar e combater os riscos que ameaçam o meio
ambiente, para solucionar os problemas ambientais e para o bem
comum da humanidade.
19 - É indispensável um trabalho de educação em questões
ambientais, visando tanto às gerações jovens como os adultos,
dispensando a devida atenção ao setor das populações menos
privilegiadas, para assentar as bases de uma opinião pública, bem
informada e de uma conduta responsável dos indivíduos, das
empresas e das comunidades, inspirada no sentido de sua
responsabilidade, relativamente à proteção e melhoramento do
meio ambiente, em toda a sua dimensão humana.
20 - Deve ser fomentada, em todos os países, especialmente
naqueles em desenvolvimento, a investigação científica e
medidas desenvolvimentistas, no sentido dos problemas
ambientais, tanto nacionais como multinacionais. A esse respeito,
o livre intercâmbio de informação e de experiências científicas
atualizadas deve constituir objeto de apoio e assistência, a fim de
facilitar a solução dos problemas ambientais; as tecnologias
ambientais devem ser postas à disposição dos países em
desenvolvimento, em condições que favoreçam sua ampla
difusão, sem que constituam carga econômica excessiva para
esses países.
21 - De acordo com a Carta das Nações Unidas e com os
princípios do direito internacional, os Estados têm o direito
soberano de explorar seus próprios recursos, de acordo com a sua
política ambiental, desde que as atividades levadas a efeito,
dentro da jurisdição ou sob seu controle, não prejudiquem o meio
ambiente de outros Estados ou de zonas situadas fora de toda a
jurisdição nacional
22- Os Estados devem cooperar para continuar desenvolvendo o
direito internacional, no que se refere à responsabilidade e à
indenização das vítimas da poluição e outros danos ambientais,
que as atividades realizadas dentro da jurisdição ou sob controle
de tais Estados, causem às zonas situadas fora de sua jurisdição.
23 - Sem prejuízo dos princípios gerais que possam ser
estabelecidos pela comunidade internacional e dos critérios e
níveis mínimos que deverão ser definidos em nível nacional, em
todos os casos será indispensável considerar os sistemas de
valores predominantes em cada país, e o limite de aplicabilidade
de padrões que são válidos para os países mais avançados, mas
que possam ser inadequados e de alto custo social para os países
em desenvolvimento.

Após Convenção de Estocolmo o mundo voltou os olhos à necessidade


de se proteger o sistema ecológico de atividades degradantes, e a partir de
então o legislador passou a editar leis mais específicas, também colocando à
disposição instrumentos mais eficazes em defesa do meio ambiente[10].

Com o advento da lei nº 7.347 de 24 de julho de 1985 foi criada a Ação


Civil Pública, importante instrumento de defesa de interesses difusos e
coletivos, que fortaleceu a defesa do meio ambiente.

No campo constitucional, o meio ambiente nunca havia sido


juridicamente tutelado de forma autônoma, tendo espaço nesses diplomas
legais apenas circunstancialmente, ficando até então a cargo do legislador
ordinário a tarefa de estabelecer mecanismos e ações de proteção do
patrimônio florestal.

Foi com a promulgação da Constituição de 1988 que o meio ambiente


ganha identidade própria, sendo disciplinado de forma autônoma e
sistematizada. O tema foi inserido no rol de direitos fundamentais e ganhou
um capítulo próprio, no qual contém a previsão de que cabe ao Poder Público
e à coletividade a defesa e preservação do meio ambiente, sujeitando, ainda,
aqueles que cometerem atividades a ele lesivas à sanções administrativas e
penais.

Ainda, passou a prever em seu texto mecanismos de defesa do meio


ambiente, dentre eles a delimitação de territórios a serem especialmente
protegidos, estudo prévio de impacto ambiental quando da instalação de obra
ou atividade lesiva ao meio ambiente, promoção da educação ambiental, e
diversos princípios, abrangendo todos aqueles previstos na Declaração de
Estocolmo, tudo com o escopo de dar efetividade à defesa do meio ambiente
ecologicamente equilibrado.
Evolução histórica do
Direito Internacional do
Meio Ambiente
06/jun/2012

O movimento de preservação e regramento


internacional foi desencadeado pelos países que
mais sofreram os efeitos da Revolução Industrial:
EUA, Canadá, os países da Europa Ocidental e o
Japão.

Por Gisele Corbellini

O início da evolução histórica relaciona-se principalmente aos fatos


acontecidos no século XX, mesmo que as preocupações com a
limpeza das águas por exemplo sejam antigas no direito.

Uma das heranças da Revolução Industrial (século XVIII) foi o


pensamento de que o desenvolvimento material das sociedades era
almejado como valor supremo.

Pela falta de problemas agudos, havia um entendimento generalizado


de que a natureza seria capaz de absorver materiais tóxicos lançados
ao meio ambiente, e por um mecanismo natural o equilíbrio seria
mantido automaticamente.

Convenções existentes possuíam caráter econômico e não ambiental.


Ex.: Convenção de 1883 assinada em Paris, para a proteção das
focas de pele do Mar de Behring, que pretendia impedir a extinção da
espécie em função de um regulamentação do mercado internacional
das peles de luxo.

Contudo, houve um momento em que a natureza não mais suportou


tanta agressão. Porém, já era tarde, sendo que o homem não
conseguia mais frear suas atividades poluidoras. Ex.: Grandes
concentrações urbanas.

Como não há condições de se estabelecer limites para poluição, os


regramentos nacionais se tornaram obsoletos em determinados
casos, surgindo a necessidade de um regramento internacional.
O movimento de preservação e regramento internacional foi
desencadeado pelos países que mais sofreram os efeitos da
Revolução Industrial: EUA, Canadá, os países da Europa Ocidental e o
Japão.

Um fato muito importante no entre guerras, foi a prolação da


sentença final no famoso caso da Fundição Trail, apontada por grande
parte dos doutrinadores como a primeira manifestação formal do
Direito Internacional do Meio Ambiente quanto às relações bilaterais.
Resolvida definitivamente em 11 de março de 1941, por um tribunal
arbitral, tratava-se de uma reclamação apresentada pelos EUA contra
o Canadá, devido a ocorrência danosa da poluição transfronteiriça
suportada por pessoas, animais e bens situados nos EUA, causados
por correntes de ar que traziam partículas e fumaça tóxica (dióxido
de enxofre) produzidas no Canadá, por uma empresa particular.

O reconhecimento do meio ambiente como um direito fundamental,


na década de 1940, esteve intimamente ligado ao reconhecimento
dos direitos fundamentais que tem como marco a Declaração
Universal dos Direitos do Humanos de 1948.

O Prof. Alexandre Kiss da Universidade de Estrasburgo defende a


ideia de que a década de 60 (período pós guerra) deve ser
considerada como o marco de uma nova consciência dos problemas
ambientais no âmbito internacional.

A emergência do Direito Internacional do Meio Ambiente deve ser


estudada a luz de outros quatro fenômenos ocorridos após a Segunda
Guerra Mundial:

a) A abertura das discussões nos foros diplomáticos internacionais à


opinião pública motivada pela expansão dos meio de comunicação, e
a conseqüente valorização das teses científicas sobre os fatos
relativos ao meio ambiente;

b) A democratização das relações internacionais, com a exigência da


efetiva participação da opinião pública;

c) A situação catastrófica em que o mundo se encontrava, pela


possibilidade de uma destruição em massa de grandes partes do
universo, representada pela ameaça da utilização dos engenhos
bélicos;

d) A ocorrência de catástrofes ambientais, como os acidentes de


vazamentos de grandes nuvens tóxicas, ou grandes derramamentos
de petróleo cru no mar, etc.
e) Encontrava-se, pois, reunidas as duas maneiras que impulsionam
a elaboração do direito: a necessidade social e a vontade
determinante de a fonte normativa produzir a regra jurídica.

f) Novos foros internacionais surgiam e se firmavam: a ONU que


adquiria maior importância e as ONG’s.

g) Dentro deste quadro outros fatores precipitaram a emergência de


um regramento internacional voltado principalmente para poluição
das águas, relacionada em grande parte a utilização da energia
nuclear difundida na metade do século.

Dos anos 60 à Conferência de Estocolmo

Vários tratados foram assinados até 1972, cabe salientar o Tratado


de Moscou de 1963 (proibindo a realização de experiências com
armas nucleares, no ar, mar) a Convenção do Espaço Cósmico em
1967, o Tratado sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares de
1968.

No Brasil em 1969 era assinado em Brasília o Tratado da Bacia do


Prata que regulamentava aspectos do meio ambiente e possuía como
preâmbulo: “a ação conjugada permitirá o desenvolvimento
harmônico e equilibrado, assim como o ótimo aproveitamento dos
grandes recursos naturais da região e assegurará sua preservação
para as gerações futuras, através da utilização racional dos aludidos
recursos”.

No campo da proteção da flora e da fauna também foram assinados


tratados como a Convenção para Proteção de Novas Variedades de
Vegetais, em Paris, em 1961;

No campo de prevenção da poluição marinha, relacionado ao


fenômeno da maré negra, inaugurado com o acidente do
superpetroleiro Torrey Canyon, em 1967 (320 mil toneladas de
petróleo bruto no mar da França), como a Convenção sobre
Responsabilidade Civil por danos Causados por Poluição por óleo,
assinado em Bruxelas em 1969.

Todas essas manifestações e tratados impulsionaram um


posicionamento por parte da ONU que em 1968 editou Resolução
aprovando a recomendação encaminhada pelo Conselho Econômico e
Social para convocar o mais breve possível uma Conferência
Internacional sobre Meio Ambiente.

Tal fato desencadeou a Conferência de Estocolmo (Conferência das


Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano), realizada em 1972.
A Conferência foi marcada por divergências entre os países
considerados desenvolvidos e os países em desenvolvimento. Durante
a Conferência foi instituído o Programa das Nações Unidas sobre o
Meio Ambiente (PNUMA). Foi publicado um relatório da Conferência
pelos Profs. Barbara Ward e René Dubos, denominado no Brasil de
“Uma Terra somente”.

Entre 1972 e 1992 ano da Eco 92 vários outros tratados foram


editados. Foi um período marcado por grandes catástrofes mundiais.
A partir de então, ONG’s passam a ter um caráter fundamental dentro
do processo de preservação.