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Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín

As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz


do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica*
Antonio Carlos Wolkmer**
Lucas Machado Fagundes***
Recebido: 14 de janeiro de 2015 • Aprovado: 19 de outubro de 2016
DOI: 10.22395/ojum.v16n31a4

RESUMO
O pluralismo jurídico apresenta a problematização da fonte do direito
não ser somente o Estado, pois as comunidades organizadas também
produzem normas. Logo, qual seria a fundamentação dessa compre-
ensão jurídica plural? É possível encontrar uma racionalidade de tipo
emancipatória que visualiza o pluralismo jurídico como capacidade ra-
cional de emancipar os sujeitos em dada situação de opressão. Contudo,
a ideia desta racionalidade deve ser observada em uma realidade his-
tórica concreta e isso demanda a observação do tipo de racionalidade
enquanto potencialidade crítica do direito. Ora, o trabalho considera as
limitações do racionalismo emancipador e explora o caráter de critici-
dade do pluralismo jurídico na realidade periférica. O objetivo geral do
estudo é refletir sobre os limites do racionalismo emancipatório e, de
forma específica renovar a perspectiva da racionalidade emancipatória
no horizonte pluralista da libertação. Tais objetivos serão buscados por
meio de uma pesquisa bibliográfica e de uma metodologia analética.
Portanto, a contribuição do estudo é abrir o horizonte emancipador
como fenômeno intramoderno e verificar a existência de outras facetas.
Palavras-chave: emancipação; juridicidade crítica; libertação; pluralismo
jurídico; racionalidade.
*
Este artigo foi elaborado como fruto do trabalho de pesquisa desenvolvido no grupo de pesquisa “Pensamento Jurídico
Crítico Latino-americano”, vinculado ao Programa de Mestrado em Direitos Humanos e Sociedade da Universidade do
Extremo Sul Catarinense (Unesc). O artigo foi revisado e ampliado, e sua bibliografia, atualizada da sua versão original.
**
Professor titular aposentado no Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
e professor do Mestrado em Direito e Sociedade da Universidade La Salle (Unilasalle-RS) e Mestrado em Direitos Humanos
da Unesc, Brasil. Doutor em Direito. É pesquisador nível 1-A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tec-
nológico (CNPq) e consultor Ad Hoc da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Membro
da Sociedad Argentina de Sociología Jurídica, do Grupo de Trabalho do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais
(Clacso) (Argentina-Equador): “Pensamiento Jurídico Crítico” . Professor visitante de cursos de pós-graduação em várias
universidades do Brasil e do exterior (Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Espanha, Itália, México, Peru e Venezuela).
Autor de vários livros, dentre os quais: Pluralismo jurídico: fundamentos de una nueva cultura en el derecho. Sevilla: Mad, 2006;
Crítica Jurídica en América Latina. México: Florianópolis: Nepe – Núcleo de Estudos e Prática Emancipatórias, 2013; Teoría
crítica del derecho desde América Latina. Madrid: Akal, 2017. Correio eletrônico: wolkmer@yahoo.com.br
***
Doutor e Mestre em Direito pela UFSC. Pesquisador do Núcleo de Pensamento Jurídico Crítico Latino-americano (coorde-
nador da linha Constitucionalismo Crítico) da Unesc. Professor do Mestrado em Direitos Humanos e Sociedade da Unesc e
professor convidado do Mestrado em Direitos Humanos da Universidad Autónoma de San Luis de Potosí (UASLP), México.
Membro do Grupo de Trabalho do Clacso: “Crítica Jurídica Latinoamericana”. Correio eletrônico: lucas-sul@hotmail.com

Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 31, pp. 89-116- ISSN 1692-2530 • Enero-Junio de 2017 / 220 p. Medellín, Colombia
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The limitations of eurocentric emancipating rationalism


to light of legal pluralism as peripheral criticality
ABSTRACT
The juridical pluralism shows that the problem of the law sources
not only from the State because organized communities also pro-
duce norms. Then, which would be the basis of such plural juridical
comprehension? It is possible to find an emancipation-type ratio-
nality which views the juridical pluralism as a reasonable capacity
to emancipate the individuals in a specific situation of oppression.
However, the idea of such rationality should be observed within a
concrete historical reality and that implies the observation of the
type of rationality as critical potentiality of law. This article inclu-
des the limitations of emancipating rationalism and explores the
criticality of juridical pluralism in the peripheral reality. The general
objective of the study is to make a reflection on the limitations of
emancipating rationalism and, specifically, to renew the perspecti-
ve of emancipating rationality in the pluralist horizon of liberation.
Such objectives will be reached through a bibliographic research
and an analytical methodology. Hence, the contribution of this
study is to open the emancipating horizon as an intra-modern
phenomenon and to verify the existence of other aspects.

Key words: Rationality; emancipation; juridical pluralism; liberation;


critical legality.

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As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica 91

INTRODUÇÃO Nessa direção, a tradição da modernida-


de ocidental edificou uma racionalida-
A temática do pluralismo jurídico com- de como expressão de uma identidade
porta um estudo que deve ser explorado cultural enquanto exigência e afirmação
levando em conta a realidade histórica da “liberdade, emancipação e autode-
na qual se desenvolveu bem como os terminação” (Wolkmer, 2012, p. 247). A
elementos que fundamentam sua pers- problemática fundante de uma neces-
pectiva em contexto determinado. Logo, sária racionalidade de cunho emancipa-
justamente por essa preocupação em tório se estabelece diante das mazelas
evidenciar os itens que dão característi- de exclusão e das desigualdades que
cas às diversas formas de manifestação distorcem as relações políticas, sociais
da expressão jurídica nas realidades e econômicas.
concretas, aparece a necessidade de
Considerando tais questões, o presente
investigar alguns desses elementos nos
estudo busca evidenciar os limites da
modelos desenvolvidos na modernidade
racionalidade emancipatória de viés eu-
periférica.
rocêntrico ante o contexto de pluralismo
jurídico em realidades periféricas, no qual
Assim, a proposta de pluralismo jurídico
a exigência por processos de libertação
verificada nos países periféricos apre-
evidenciam uma necessidade concreta de
sentam como pressuposto uma raciona-
repensar os fundamentos da pluralidade
lidade de tipo emancipadora, que deve
normativa em sua faceta comunitária
ser diferenciada daquela construída no
participativa.
Norte global, a qual gera a necessidade
de repensar e renovar sua conceituação Tais objetivos serão buscados por meio
tendo em conta a perspectiva liberadora de uma pesquisa bibliográfica e de uma
das sociedades em processo de descolo- metodologia analética, que irá privilegiar
nização. Preliminarmente, há que se ter um diálogo interdisciplinar. Cabe explici-
presente a significação na tradição das tar que essa metodologia é a superação
ciências sociais ocidentais da conceitua- da negatividade dialética do sistema de
ção radical de racionalidade emancipató- direito e da ideia de injustiça produzida
ria como expressão crítica ao modelo de pelo sistema formal, é um aná (além) da
racionalidade técnico-formal iluminista dialética negativa que revela outras possi-
firmada na construção crítico-dialética, bilidades mais ampliadas, ou seja, Outros
originada no bojo da vida concreta dos Direitos (pluralismo jurídico).
sujeitos excluídos —e em específico das
necessidades históricas—, que envolve a Assim, as etapas do presente estudo
totalidade em que estes se encontram, ou compreendem primeiro o fundamento
seja, nas relações sociais, políticas, jurí- da racionalidade emancipatória no plu-
dicas e econômicas do desenvolvimento ralismo jurídico, demonstrando como a
do sistema-mundo capitalista. perspectiva emancipatória fundamenta
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uma leitura crítica das relações entre Es- 1. A RACIONALIDADE EMANCIPATÓRIA PRESENTE
tado, sociedade e direitos, especialmente NO PLURALISMO JURÍDICO
a partir do viés plural-jurídico-comunitá-
rio-participativo. O pluralismo jurídico pode ser concebido
de diferentes vieses: conservador, liberal,
Na sequência, é explorado o pluralismo emancipador; porém, em todos eles, é
jurídico de tipo comunitário participativo sempre possível visualizar a ampliação
como perspectiva de abertura ao horizon- da concepção unívoca da produção do
te de fundamentação latino-americano, direito. Assim, pretende contrapor ao mo-
ainda sem superar o campo emancipató- nismo jurídico; nesse caso, o problema se
rio, mas abrindo possibilidades concretas encontra na pretensa razão científica de
para uma perspectiva de apontamento qualificar e definir o conceito de direito
da ruptura e da subsunção da emancipa-
mais adequado para a leitura das práticas
ção jurídica no viés do pensamento de
jurídicas, inclusive delimitando o campo
libertação.
de abrangência de qualquer outra prática
que não seja a oficializada pelo Estado;
E, na última etapa, serão redefinidas
a questão é refinada no movimento de
as bases racionalistas do pluralismo
coroar o sistema legiferante estatal como
jurídico no sentido da libertação, espe-
imperador do império jurídico.
cificamente coletando as contribuições
do pensamento filosófico da libertação
Vale insistir na mesma perspectiva da
dusseliano, em especial suas categorias
e metodologia analética a fim de apon- questão do conceito de direito, quanto
tar os limites da racionalidade jurídica ao problema atemorizador não somente
emancipatória quando contextualizada para os teóricos do pluralismo jurídico,
em uma realidade concreta que represen- como também para os seus críticos; via
ta a exterioridade do projeto jurídico da de regra, a ideia ou o conceito de direito
modernidade. trata de delimitar o campo de análise dos
autores e, conforme é postulada esta ou
Portanto, a contribuição do estudo é abrir aquela forma, pode-se concluir o seu
o horizonte emancipador como fenômeno posicionamento. Assim, a pretensão de
intramodernidade e verificar que a outra denunciar toda a postura compreensí-
faceta é a libertação, que se propõe ir vel do direito emanado exclusivamente
além dos limites da modernidade e da sua do Estado como conceito oficial, de
condição periférica; insurge, assim, uma imediato exclui os demais conceitos
racionalidade jurídica propositiva, prota- ampliados, como também o fazem, de
gonista e que emerge desde a condição maneira inversa, aqueles ampliados para
encoberta do Outro, que não é somen- outras manifestações ou aportes con-
te, por vezes, marginal no sistema, mas ceituais, mas que, ao final, reconhecem
também excluído da comunidade desse a oficialidade do direito estatal, eis o
sistema. problema central.
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Parece que a definição do conceito de recomendada a readequação em outros


direito serve para sanar os deficit da fic- campos.
ção e do imaginário jurídico, pois, desde
a racionalização iluminista e a poste- No momento, resta a evidência desse
rior cientificização formalista da teoria problema conceitual mais amplo como
da unicidade, o direito está imerso e uma das variadas questões polêmicas que
contemplado na sua própria definição devem ser abordadas na maneira preli-
—confundida com a fonte—. Qualquer minar, com fulcro a anunciar a dimensão
outra manifestação externa à soberba problematizadora do tema.
conceitual que envolve seu legalismo é
rechaçada por não conter conteúdo “le- Isso é importante pois a maioria das
gítimo”, compreendido como sinônimo concepções pluralistas jurídicas observa
jurídico. o conceito estatal de direito, seja para
rechaçar o direito posto (como incomple-
Assim, fatores que influenciam no campo to), seja para denunciá-lo como unilateral;
jurídico, tais como a moral, a economia, porém, mantendo o cânone do debate ao
a política, a religiosidade, a cultura e até sistema legal do Estado, sem, contudo,
mesmo a arte são desconsiderados pela criticá-lo a partir de uma totalidade.
impureza, e cabe desqualificá-los como
influentes diante do fenômeno jurídico, Com esse alerta, pode-se adiantar que os
indignos de serem conceituados como objetivos críticos devem abalar as estru-
direito. turas que compõem a filosofia política da
juridicidade liberal estatal. Logo, deixa-se
Ao contrário dessas posturas, encontra- esclarecido que, neste texto, o direito e
-se o pensamento do equatoriano Bolívar os fenômenos jurídicos estão imersos em
Echeverría (2012), segundo o qual um uma complexidade sociopolítica altamen-
dos “qualificativos” eficazes da moder- te fundamentada por filosofias hegemôni-
nidade foi justamente compartimentar cas, que afastam qualquer concepção
áreas e restringir suas conceituações em estranha à sua estrutura, desvirtuam seus
desconexões com o mundo vivo do qual reais embasamentos e direcionam os
surgiram. Pensar de maneira diferente juristas a posturas profundamente com
seria, portanto, refletir sobre a postura o discurso de despolitização, adotando
crítica do equatoriano e traduzi-la para a ambiguidade como cânone e princípio
o campo jurídico, em que o formalismo político, descaracterizando os demais
do imaginário tradicional é o guardião fatores implícitos.
da pureza conceitual. Qualquer tipologia
que intenta reemergir o direito nos fatores Ora, a postura crítica deve localizar essas
que lhe causam fissuras conceituais aca- questões e, ao contrário das teorias tra-
ba por deturpar a estrutura que constitui dicionais, não isolar o problema jurídico
sua teorização e é duramente afastada dos demais campos, mas sim trabalhar
da esfera dos estudos jurídicos, sendo as relações que estes guardam com a
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totalidade, compreendendo que o isola- realidade, está aceitando a estrutura geral


mento do campo jurídico e mesmo sua e pontuando apenas um viés.
redução para análise “pura” deixa escapar
a riqueza de uma série de elementos que Dessa maneira, o objetivo da pesquisa é
compõem sua natureza; sem compreen- explorar a concepção jurídica plural que
der os pilares que deram aparatos para possibilita ou não uma ruptura com o
a sua formação, não se poderá refletir modelo da matriz institucional e cultural
e criticar as estruturas que concretaram do Estado e do Direito no continente,
sua existência histórica, bem como a conduzindo ao processo de refundação
afirmação como conceito privilegiado e política e jurídica do Estado moderno e
imaculado na esfera do imaginário jurídi- à libertação comunitária, fundamentada
co tradicional. em práticas jurídicas insurgentes e insti-
tuintes de outras formas de organização
O que se impõe ao pluralismo jurídico, ao social ou comunitária.
menos no contexto da América Latina,
é o enfrentamento à ambivalência ou à Enfim, a ideia do pluralismo jurídico, para
ambiguidade, pois, nessas latitudes, ele esse contexto de transição paradigmá-
se manifesta como um fenômeno com tica, é a possibilidade de aprofundar a
potencialidade de conviver com o siste- reflexão na forma de libertação com o
ma jurídico monista (como imperador do intuito de se obter uma leitura crítica das
conceito de direito), aceitando o conceito realidades na região; libertar do contexto
liberal de direito e sendo tolerado pelas histórico de submissão, uma conceitua-
esferas da multiculturalidade, que pres- ção que emerge da práxis libertadora,
supõem a diferença, reconhecendo-a impregnada de complexidade, de desejos,
apenas. de anseios e de necessidades materiais,
isto é, categorias populares iludidas em
Constitui-se, então, no fato de que o discursos jurídicos abstratos e redutores
conceito de pluralismo jurídico possui da pluridiversidade pela régua elitista
determinada ambiguidade e pode acober- dominante ou por conceitos plurais fun-
tar manifestações conservadoras, eman- damentados a partir do sistema de direito
cipadoras ou libertárias, além de servir, oficial.
em algumas tipologias, aos interesses
classistas dominantes e às suas individua- O que importa é repensar o aspecto ju-
lidades segregadoras, ou seja, favorecer rídico no âmbito geopolítico da busca e
aquilo que critica —o império legislativo da valorização da cosmovisão autócto-
do Estado—. Em resumo, o pluralismo ne, originária, campesina, afro-latino-a-
jurídico que se limita a denunciar que o mericana, ou mesmo da racionalidade
catálogo jurídico do Estado é incompleto produzida pela criatividade gestada em
ou insuficiente, ao afirmar que, fora do espaços comunitários classificados con-
sistema jurídico moderno, existem leis forme a subalteridade das vítimas da
diferentes que devem ser incluídas, na modernidade.
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Diante disso, de forma análoga ao proble- Para a teoria do PJCP, “[...] trata-se da
ma do conceito de direito no pluralismo construção de uma racionalidade como
jurídico, é o tema da emancipação, pois, expressão de uma identidade cultural
em geral, é relacionada com a ideia de re- enquanto exigência e afirmação da liber-
conhecimento jurídico e por via de inser- dade, emancipação e autodeterminação”
ção no catálogo de direito. A ambiguidade (Wolkmer, 2012, p. 247). A problemática
do conceito de emancipação no contexto fundante de uma necessária racionalidade
da América Latina se deve no âmbito do emancipatória se estabelece diante das
pluralismo jurídico pelo fato de que se mazelas sociais que distorcem as relações
emancipa o outro sujeito como diferente, políticas e sociais.
desconsiderando a sua condição na rea-
lidade histórica concreta —distinto —; Soma-se aos elementos anteriores o con-
ou seja, emancipar é reconhecer o outro texto do declínio das práticas tradicionais
como membro diferente na comunidade de representação política, da crise na efi-
de comunicação ideal1 e esquecer a sua cácia das estruturas judiciais morosas e
condição na comunidade de comunicação estatais em responder à pluralidade das
real. Ora, nada mais que os movimentos demandas e dos conflitos, do crescente
jurídicos chamados emancipatórios bus- aumento de bolsões de miséria e das
cam a incluir o outro no mesmo sistema novas relações colonizadoras de países
que gera dominação e colonialidade. ricos com nações em desenvolvimento.
Nesse contexto, abre-se a discussão para
Nesse sentido, cabe verificar tendências a consciente busca de alternativas capa-
teóricas como o Pluralismo Jurídico Co- zes de desencadear diretrizes, práticas
munitário-participativo (PJCP), que adota e regulações voltadas para o reconheci-
entre as suas categorias fundamentadoras mento à diferença (singular e coletiva) de
o viés emancipador. O PJCP tem como uma vida humana com maior identidade,
elemento finalizador a proposta de uma autonomia e dignidade. E, ante essa lei-
racionalidade emancipatória que se tra- tura sociopolítica, o pluralismo jurídico
duz na crítica ao modelo de racionalidade munido de racionalidade emancipatória
técnico-formal e se afirma por meio de pode oferecer algumas alternativas. Logo,
uma perspectiva crítico-dialética, origi- a situação expressa a:
nada na vida concreta dos sujeitos —e,
em específico, das necessidades históri- [...] nova relação entre Estado e
cas—; além disso, envolve a totalidade Sociedade, em processo de lutas
sistêmica em que estes se encontram, ou e superações multiculturais no
seja, nas relações sociais, políticas, jurí- âmbito local, criando um novo
dicas e econômicas no desenvolvimento espaço comunitário, de caráter
neo-estatal, que funde o Estado e
da estrutura da modernidade.
a Sociedade no público: um espa-
ço de decisões não controladas
nem determinadas pelo Estado,
1
Sobre essas duas categorias, ver Dussel (2005). mas induzidas pela sociedade.

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Nessa perspectiva, o pluralismo trolam o poder político, cultural e


comprometido com a alteridade econômico dentro dos processos
e com a diversidade cultural hegemônicos de globalização,
projeta-se como instrumento invoca Wolkmer um pluralismo
contra-hegemônico, porquanto jurídico desde baixo, dos próprios
mobiliza concretamente a relação sujeitos coletivos e fundado no
mais direta entre novos sujeitos desafio para construir uma nova
sociais e poder institucional, hegemonia que contemple o
favorecendo a radicalização de equilíbrio entre a vontade geral
um processo comunitário par- e os interesses individuais. (Sán-
ticipativo, definindo mecanismos chez-Rubio, 2010, p. 55)
plurais de exercício democrático
e viabilizando cenários de re- Nesse viés, considerando o mundo cada
conhecimento e de afirmação
vez mais diversificado em multiplicidades
de Direitos Humanos. (Wolkmer,
2010, p. 41)
emergentes, o pluralismo seria uma op-
ção para leitura jurídica da complexidade
Na visão do autor espanhol David Sá- social bem como permitiria compreender
nchez Rubio, a proposta do pluralismo as práticas e as experiências históricas
jurídico comunitário participativo defende de centros desiguais de poder (relações
o paradigma emancipador porque pode entre Norte global e Sul global) e sujeitos
ser um instrumento eficaz na leitura e na excluídos, agindo de maneira a obter o
reflexão sobre as consequências do pro- justo nas suas relações.
cesso de globalização no campo jurídico
Diante disso, para o autor, “[é] um erro [...]
e também no sentido de que o direito
negar em sua totalidade tanto o Direito
se oferece como instrumento para os
oficial e o papel garantista do Estado
sujeitos coletivos ou comunitários pro-
como reduzir qualquer manifestação do
tegerem-se na sua vulnerabilidade. Logo,
jurídico ao padrão estatista” (Sánchez-Ru-
para esse autor —que compartilha da
bio, 2010, p. 61); ele afirma que a natureza
perspectiva emancipatória do pluralismo
da crítica emancipatória do pluralismo ju-
jurídico—, a proposta deve ser entendida
rídico não opera na negação e no rechaço
da seguinte maneira:
total dos outros padrões de juridicidade,
[...] como estratégia progressista mesmo o monismo estatal.
de integração, busca promover e
estimular a participação múltipla Desse modo, é possível perceber a impor-
dos segmentos populares e os tância em explorar e renovar a conceitua-
novos sujeitos coletivos de base. ção da racionalidade emancipatória pre-
Trata-se de uma proposta de um
sente no PJCP para compreender qual o
tipo de pluralismo participativo
e integrador que reflete as estru-
ímpeto que guarda na relação sociopolíti-
turas sociais dependentes. Fr- ca e filosófica para uma realidade situada,
ente a um pluralismo construído como o caso das sociedades periféricas,
desde acima por aqueles que con- em especial a da América Latina. Afinal,
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o ímpeto emancipatório apontado acima de Jürgen Habermas, que se emprega a


revela uma preocupação pela inclusão e partir da interação humana-participativa.
pela manutenção do sistema de direito A problemática central do processo de
monista, apenas elencando um caráter reflexão dessa corrente crítica se situa
tolerante com a diversidade de outras no âmbito do avanço da opressão e da
práticas que são integradas e controladas exploração no sentido de ocultação dos
pelo sistema jurídico oficial. reais efeitos da racionalização, trans-
parecendo que a dominação possa ser
2. O PLURALISMO JURÍDICO COMUNITÁRIO- exercida de maneira pouco perceptível
PARTICIPATIVO COMO POSSIBILIDADE PARA ou como efeito natural do processo; isso
OUTRA RACIONALIDADE se opera na fusão entre opressão e racio-
nalismo, e na técnica com a dominação
Verificada a centralidade da temática da (Wolkmer, 1994).
emancipação social para o pluralismo
jurídico em geral e a possibilidade que Essas manifestações hegemônicas e re-
este oferece na leitura social do campo produtoras da dominação e da alienação,
jurídico, vale explorar mais detalhada- fetichizadas no sistema racional técnico-
mente a questão da racionalidade como -formal e instrumental para o benefício do
necessidade de emancipação, proposta sistema econômico-político imperante, e
como um dos cinco condicionantes que para a produção do poder concentrado
compõe a teoria do PJCP. Essa teoria nas elites dominantes que disputam entre
assume uma faceta de intentar superar si a hegemonia, levaram a que Habermas
o paradigma da hegemonia cultural da pudesse avançar sua crítica no sentido de
modernidade capitalista e o domínio que elaborar alternativas.
o campo econômico exerce no processo
de racionalização da vida cotidiana das [...] Habermas se propõe solucio-
novas sociabilidades (Wolkmer, 1994). nar as “patologias sociais” atuais
(medo, dominação, alienação etc.)
Ora, a racionalidade perversa lógico-ins- através de uma vigorosa “ação co-
municativa”, embasada no entendi-
trumental, que foi elaborada e sistemati-
mento concreto (empírico, fático),
zada de maneira estrutural por Max We- no consenso não-coagido e na
ber, recebe críticas dos autores oriundos convicção recíproca. Isso implica
da tradição marxista que conseguem a mudança no paradigma da ação,
vislumbrar um horizonte radical de liber- a reordenação dos sujeitos sociais
tação (Wolkmer, 1994), em que deveria (de um sujeito que se articula em
prevalecer o racionalismo crítico sobre o torno de objetos para sujeitos que
se relacionam na perspectiva da
racionalismo tecnológico.
intersubjetividade e da participa-
ção) e o abandono da “razão in-
Assim, uma das principais propostas teó- strumental” insuficiente por uma
rico-críticas que se desenvolveu foi aquela razão “prático-discursiva”, descen-
calcada na argumentação comunicativa tralizada, reconstruída e ampliada.

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[...] A racionalidade para Habermas de engano, coação e irresponsabilidade”


não é mais uma faculdade abstrata, (Wolkmer, 1994, p. 252).
inerente ao indivíduo isolado, mas
um procedimento argumentativo
pelo qual dois ou mais sujeito se
Nesse sentido, os processos de raciona-
põem de acordo sobre questões re- lização devem emanar das necessidades
lacionadas com a verdade, a justiça que fundam o agir para reprodução da
e a autenticidade. Desta maneira, vida humana; eis que a proposta de uma
a “razão comunicativa”, enquanto racionalidade emancipatória em sua con-
razão prático-dialógica, redunda dição crítica de que: “[...] dentre todos os
naquilo que em contexto social
mecanismos instrumentais, há de se optar
vivido e compartilhado por atores
linguisticamente competentes,
por aquele mais capaz de romper com os
pode ser elaborado como querido obstáculos do velho paradigma e lançar
e aceito por todos. (Wolkmer, 1994, as bases para um novo homem, uma nova
p. 250) sociedade, um novo comportamento e
um novo conhecimento” (Wolkmer, 1994,
No entanto, essa tipologia sofre de pro- p. 253).
blemas visíveis (Wolkmer, 1994) quando
analisada na especifidade do mundo Assim, muito se discute a respeito da
periférico latino-americano; este se des- superação da racionalidade instrumen-
dobra nos seguintes efeitos: inicialmente tal moderna, dos limites, das linhas crí-
relacionado com a elaboração da racio- ticas e das principais perspectivas de
nalidade comunicativa, estabelecida por superação, propondo uma racionalidade
um contexto material concreto de mani- emancipadora, enquanto superação das
pulação da riqueza em elevado grau de incongruências produzidas pela própria
desenvolvimento, fator que, no âmbito modernidade eurocêntrica. Tal finalidade
paupérrimo do continente, se torna di- será utilizada por um pluralismo jurídico
fícil de verificar. Também há de se terem transformador no sentido de criticar o
presentes as condições de liberdade, de monismo estatal, fruto do sistema jurídi-
autonomia e de igualdade material dos co moderno.
sujeitos envolvidos, como pressupostos
para o exercício do agir comunicativo, Certamente, a fundamentação originária
elemento esse que, em contextos mais da racionalidade moderna da matriz ilu-
homogêneos, como no caso europeu, minista revolucionária e sua prolongação
parece lógico, mas, aplicado em realida- na história moderna como maneira de
des complexas e fragmentadas, habitadas cerceamento ideológico e produtor de
por profundas diversidades culturais, já se alienação2 podem ser desdobradas como
torna deveras hipotético; e último efeito um processo cultural.
a “[...] restrição é que este novo paradig-
ma de ação dialógico-discursiva requer
2
“La alienación de un pueblo o individuo singular
es hacerle perder su ser al incorporarlo como
uma ‘comunidade linguística ideal’, de momento, aspecto o instrumento del ser de
integralidade quase utópica, desprovida otro. Aufhebung es subsunción (es incorporación

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A essência cultural da moderni- a interpretação crítica da racionalidade


dade estabelecida, geradora do iluminista através da tradição marxista
progresso material mas também
(Lukács, Adorno e Horkheimer, Marcuse e
responsável pelo cerceamento
desintegrador da “condição hu-
Habermas)” (Wolkmer, 2001, p. 171). Nessa
mana”, encontra seu desfecho primeira linha, a racionalidade intelectiva
numa racionalização de matriz é clarificada como “[…] o domínio da ra-
iluminista, portadora de uma zão técnica disciplinada e do progresso
temporalidade inacabada que instrumental que se impôs ao mundo im-
contribui para a alienação, mas-
previsível, mítico e mágico das sociedades
sificação, coisificação e crises de
subjetividade. (Wolkmer, 2001,
primitivas” (Wolkmer, 2001, p. 171).
p. 171)
Trata-se da substituição da racionalidade
ideológica mitificada nas superstições
Além da fundamentação cultural da ra-
idealizadas pela fundamentação clerical/
cionalidade trabalhada, o autor acima dá
enfoque na sua relação com o processo religiosa ou então lidas pelas mitologias
de mudança produzido e afirmado pós-re- dos povos, compreendidas como aspec-
volução burguesa; no continente europeu, tos culturais que compõem a história e
deixa evidente a conexão: “[…] o racio- a formação deles. De outro lado, a se-
nalismo ocidental surgiu nos marcos das gunda interpretação faz uma verificação
sociedades modernas enquanto produto materialista não somente do fundamento
da especificidade econômica do mercan- ideológico ou filosófico, mas também in-
tilismo e dos valores individualista-antro- clui os resultados objetivos com intuito de
pocêntricos emergentes” (Wolkmer, 2001, formar ideias justificadoras do sistema ao
p. 171). Deve ser recordado que as duas momento emergente. Nessa perspectiva,
principais matrizes que constituem a ra- a proposta de matriz weberiana não é
cionalidade moderna encontram-se na: compartida pela “[…] crítica marxista que
“[…] a) a interpretação clássica de Max identifica, no moderno processo de racio-
Weber sobre a racionalidade moderna; b) nalização do mundo da vida, os sintomas
negativos da alienação, dominação e reti-
en el todo por transformación o negación de ficação (coisificação)” (Wolkmer, 2001, p.
lo asumido; negación del otro independiente y
transformación como parte del todo). 2.5.5.2 La
171). O desencobrimento do verdadeiro
periferia geopolítica mundial, la mujer y el hijo objetivo do paradigma racional euro-
son propiedad del centro, del varón y el adulto. cêntrico moderno pelas palavras de um
Se aliena el ser del otro al descolocarlo de su
propio centro; al hacerlo girar en torno del centro
de seus expoentes apresenta a seguinte
de la totalidad ajena. 2.5.5.3 La alienación, sin constatação:
embargo, se juega esencialmente en la poíesis de
una formación social”. E. Dussel menciona que o […] Assim, a fetichização da vida,
direito totalizado produz a alienação do sujeito na sociedade capitalista, permite
em uma ordem que se denominada “a legalidade
considerar a racionalização e a re-
da injustiça”; essa ideia de alienação se resume na
perspectiva de totalizar a exterioridade, negando o ificação como processo único. Na
outro na sua dimensão distinta e alheia ao contexto esteira aberta por Georg Lukács,
geopolítico dessa totalidade (Dussel, 2011, p. 96). Theodor Adorno e Max Hork-

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100 Antonio Carlos Wolkmer - Lucas Machado Fagundes

heimer, radicalizando a crítica à “racionalismo tecnológico” (tradi-


“racionalização como coisifica- cional, idealista). (Marcuse citado
ção”, são unânimes em recon- por Wolkmer, 2001, p. 173)
hecer que a sociedade burguesa
e sua cultura iluminista, com sua Uma vez exposta essa segunda interpre-
técnica e ciência, produziram um
tação, propõe outra corrente crítica com
“desencantamento do mundo”
que, em vez de conduzirem a
uma leitura mais aguda do fenômeno,
liberdade e autonomia dos ho- em que não se apresenta meramente
mens, favoreceram o domínio de como crítica desconstrutiva ou desligiti-
uma “razão instrumental” opres- madora, já que, até então, representaria
sora, totalitária e subjugadora da o viés aproximado do pós-modernismo;
“razão emancipatória”. (Wolkmer, ao contrário, aparece uma crítica com
2001, p. 171)
proposta de reconstrução, que reordena
os esforços para uma filosofia da cons-
Na obra em referência, é importante notar
ciência; portanto,
a relação do embasamento que produz a
racionalidade moderna imbuída de outra [...] aparece a Escola de Frankfurt
ideia, o chamado mito do desenvolvi- (principalmente Jürgen Habermas
mento, manifestado nos arquétipos que e Karl-Otto Apel) que não nega
a engenharia racional da modernidade a razão, porém propõe corrigir
burguesa produziu sob a denominação e reconstruir a racionalidade
moderna. Trata-se de uma racio-
de “tecnologia”, no sentido de manter e
nalidade redirecionada para uma
aprofundar as estratégias capitalistas de “razão comunicativa”, embasada
dominação para o aumento da produção não mais numa filosofia da con-
e do respectivo lucro à custa da explora- sciência e numa mera ontologia
ção e da extração de energias humanas. do conhecimento, mas firmada
Isto é, no caráter totalitário: na interação humana participa-
tiva, no livre consenso e na ação
[...] dos princípios que funda- da argumentação comunicativa.
mentam o Capitalismo avançado (Wolkmer, 2001, p. 173)
compreende uma “racionalidade
tecnológica” que se personifica Na denúncia a essa forma de fetichiza-
num aparato produtivo usado ção3 do sistema racional moderno, há
irracionalmente para criar au- 3
“Llamamos fetichización al proceso por el que una
tomatização, conformismo e
totalidad se absolutiza, se cierra, se diviniza. La
alienação. Neste universo de totalidad política se fetichiza cuando se adora a
racionalização expressa pela sí misma en el imperio (3.1.5) o en el totalitarismo
civilização capitalista, que nega nacionalista (3.1.6). La totalidad erótica se fetichiza
e oprime a “essência humana”, cuando es constituida por la fascinación del falo
a liberação revolucionária total perverso de la ideología machista (3.2.5-2.6). La
totalidad cultural se fetichiza cuando la ideología
deve resultar na conjunção de
imperial o ilustrada elitista aliena la cultura popular
forças operacionalizadoras com- (3.3.6) o castra al hijo (3.3.5). El fetichismo es la
prometidas com o predomínio muerte de la totalidad, del sistema, del discurso”.
do “racionalismo crítico” sobre o (Dussel, 2011, p. 155). Desse ensinamento da

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As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica 101

de se destacarem as diferenças quanto à diálogo; logo, “[...] a razão comunicativa,


especificação dos interesses entre uma enquanto razão prático-dialógica, redun-
racionalidade crítica emancipadora e a da naquilo que em contexto social, vivido
racionalidade técnica ou instrumental: e compartilhado por atores linguistica-
mente competentes, pode ser elaborado
[…] deslocando a fundamentação como querido e aceito por todos” (Wolk-
da racionalidade para um foco de mer, 2001, p. 171).
cunho “lingüístico-pragmático”
ou “discursivo comunicativo”.
Agora, fica muito clara a emergên- Por outro lado, cabe apontar os limites
cia de uma “racionalidade comu- que imperiosamente há de se reconhecer
nicativa” (é a razão prática ou na teoria de Habermas acerca de uma ra-
dialógica consensual, constituída cionalidade comunicativa e essencialista;
por enunciados prescritivos) que estes são refletidos desde o horizonte
se opõe a uma “racionalidade
geopolítico e da historicidade dominada
cognitivo-instrumental” (razão
lógico-formal ou técnico-instru-
de espaços geográficos como no caso a
mental, constituída por enuncia- América Latina. Na conta desses fenôme-
dos descritivos). (Wolkmer, 2001, nos, há que se aproximar da necessidade
p. 171) de pensar elementos críticos pela própria
realidade periférica e, a partir de então,
Assim, uma das especificidades em propor alternativas. Ora, é perceptível,
Habermas é justamente o deslocamento nesse tipo de proposta, que não é o
da singularidade do sujeito na racionali- objetivo a total negação da importância
dade moderna para o conceito de comu- dos elementos elencados, mas, seguin-
nidade de atores ou coletividade comu- do a reflexão de Enrique Dussel (2005),
nicativa; isso quer dizer que, se a ideia subsumir criticamente esses elementos e
da modernidade assentou suas bases trabalhar pelos próprios ares tropicais as
na abstração do sujeito individualizado contingências que forem se impondo aos
e isolado, seguirá contrariamente a pro- processos sociais, políticos e jurídicos es-
posta comunicativa do autor da Escola de pecíficos; enfim, situando uma realidade
Frankfurt, na qual o sujeito se encontraria histórica concreta.
em conexão relacional com outro(s) sujei-
to(s) em um processo argumentativo de Esse tipo de postura abre a possibili-
dade de pensar o pluralismo jurídico de
filosofia da libertação de Dussel, deduzimos forma diferente em relação às propostas
que o fetichismo jurídico é produzido quando a teóricas até então desenvolvidas; esse
concepção de direito é reduzida ao monismo legal encaminhamento torna-se a entrada para
do pensamento e da cultura jurídica moderna; ao
encerrar a compreensão jurídica dentro dessa aprofundar os estudos em outros rumos
lógica, olvida-se o pluralismo de produção e em outras direções. O movimento é
normativa social e jurídica, diminui-se o impacto de subsumir criticamente a perspectiva
de uma interpretação jurídica mais ampliada e
despolitiza-se o direito em sua capacidade de emancipatória como elemento desesta-
libertação. bilizador do status quo jurídico moderno
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e, aproveitando a abertura teórica de in- jurídica insurgente que, pela sua própria
tegração e mobilização, potencializar um natureza, só pode ser ilegal e contra a
sentido histórico concreto da realidade racionalidade e a filosofia moderna do
periférica. direito formal no sistema-mundo —fun-
dado com intuito de expansão capitalis-
3. REDEFININDO AS BASES RACIONALISTAS ta e privilegiando determinados setores
DO PLURALISMO JURÍDICO NO SENTIDO DA sociais—.
LIBERTAÇÃO
Naturalmente, a assertiva se insurge
Privilegiando a proposta por uma racio- como projeção inovadora, que se efetiva
nalidade crítica, devem-se considerar no campo da educação (conscientização
algumas precauções quando refletir essa e cultura), em que opera por uma via
temática na realidade periférica, pois o de aprendizagem comprometida com a
que importa são as especificidades que realidade fática, não abstrata, dos sujei-
impõem à verificação de alguns atos de tos subalternos envoltos no contexto de
renúncia e outros de aprofundamento manutenção da marginalidade no sistema
nas questões materiais que compõem a capitalista; essa alternativa é pensada
complexidade da sociedade específica: privilegiando uma estratégia de educa-
“[d]este modo, o novo conceito de razão ção libertadora, para a qual se afirma:
implica o abandono de todo e qualquer “[...] comprometida com o processo de
tipo de racionalização metafísica e (tec- desmitificação e conscientização (um
no)formalista equidistante da experiência novo ‘desencanto do mundo’), apta a
concreta e da crescente pluralidade das levar e a permitir, por meio da dinâmica
formas de vida cotidiana” (Wolkmer, 2001, interativa ‘consciência, ação, reflexão-
p. 176). -transformação’” (Wolkmer, 2001, p. 176).
Convoca para que não meramente as in-
Aparece aqui a evidência necessária dividualidades assumam esse processo,
para perceber que o fenômeno da ra- mas que também as identidades culturais,
cionalização moderna reflete no campo coletividades e experiências comunitárias
jurídico uma observância das manifesta- tomem a responsabilidade pelo outro —a
ções plurais em torno da produção e da vítima do sistema injusto— e produzam
reprodução da vida cotidiana como forma experiências alternativas que provoquem
de organização social que, atravessada a ampliação das possibilidades de desen-
por questões culturais, conforma por si volver a vida com dignidade e extrapolem
a essência que pode originar Outro Di- o horizonte reduzido pela racionalidade
reito, principalmente, quando a negação moderna (Wolkmer, 2001, p. 176).
das condições para essa produção e
reprodução da vida, se apresenta com o Diante disso, ainda resta expor certas
impedimento do exercício legítimo de um limitações conceituais na significação da
princípio humano (viver e ter condições proposta de racionalidade emancipató-
de vida), dando origem a uma tipologia ria, avançando na direção mais radical,
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legitimando-se enquanto racionalidade não consegue verificar —os sujeitos dis-


de configuração libertária. Ainda não se tintos—.
veem também as bases e os fundamentos
das referências mencionadas em direção Esses sujeitos distintos, que são precon-
à potencialização autônoma e autodeter- cebidos como sem capacidades racionais
minada dos sujeitos ausentes da história modernas, pois seus embasamentos ou
oficial, pois as racionalidades da moder- fundamentos epistemológicos estão
nidade são expostas de maneira retórica além das elementares “qualificadoras”
por algumas escolas ou teorias críticas, o do centro hegemônico e, muitas vezes, o
que equivale à crítica da própria moder- desenvolvimento histórico cultural con-
nidade. No entanto, mesmo que localize creto é a própria experiência viva dos seus
a origem da referida racionalidade pela antepassados, ou seja, são estranhos a
filosofia fundamentadora da crítica, não qualquer tipo de racionalidade produzida
busca afirmar uma metodologia ou pers- pela modernidade; ainda, além de dizima-
pectiva de pensamento para superá-la. dos e excluídos da comunidade científica
Esses dois limites evidenciam que a teoria e racional de comunicação, esses sujeitos
da racionalidade emancipatória (partindo distintos sofrem o processo de encobri-
da crítica europeia), apesar de indicar que mento das fontes de produção própria
as problemáticas refletidas pelas raciona- da sua epistemologia e, nesse processo,
lidades críticas pensadas pelo centro do opera uma racionalidade colonizadora.
poder devem ser aplicadas na realidade
regional periférica com algumas pondera- Ora, ainda que esses sujeitos sofram os
ções, não é considerada de forma enfática desígnios da modernidade ou, na melhor
uma proposta de pensar as contingências das hipóteses, auferidas por meio de uma
continentais e subsumir criticamente a alteridade burguesa, eles tenham sido
pós-modernidade como último momento inclusos como um “si mesmo”, tendo seu
de afirmação da modernidade em crise. lugar cativo na margem do sistema social,
conformando a abertura para disputa in-
Acredita-se que uma proposta emancipa- trassistema, assim o chamado espaço de
dora ante as novas condições estruturais, emancipação.
há que incluir os sujeitos que estão postos
na margem do processo social e político Dessa maneira, para esses sujeitos dis-
concretizado por meio da mundialidade tintos, quando da emergência das racio-
capitalista sob a idealização da igualdade nalidades próprias, estas acabam sendo
abstrata, sem considerar as condições traduzidas no mundo moderno como
materiais que diferenciam. Logo, a própria mistificadoras, irrealistas ou mitológicas,
lógica inclusiva emancipadora não verifica mesmo que compartam de “cosmovisões
os longínquos sujeitos exteriores ao siste- históricas e raízes ancestrais”. No caso
ma de forma independente como outros da análise realizada pela sociologia tradi-
além do binômio da diferença-igualdade, cional, essas perspectivas acabam sendo
seguindo aquilo que a pós-modernidade repassadas para o grupo de categorias
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antropológicas, que pretendem consi- que puede esperarnos o rechaz-


derar como fundamentais os aspectos arnos, darnos la mano o herirnos,
besarnos o asesinarnos. (Dussel,
desconsiderados pela racionalidade mo-
2011, p. 45)
derna; contudo, ao final, as cosmovisões
são rechaçadas pelo modelo racional
Esse tipo de proximidade revela a alteri-
hegemônico e, muitas vezes, acabam
dade libertadora e põe ênfase em deter-
abandonadas ou ocultadas.
minados limites de racionalidades que
se advogam “emancipadoras”. O que se
Diante disso, para auxiliar na reflexão so-
apresenta para reflexão são propostas
ciológica do tema, Enrique Dussel (2011)
racionalistas da modernidade, sejam no-
recorda a perspectiva semita, a qual se
vas, sejam as reformuladas criticamente,
torna uma significativa interpretação críti-
continuam gestadas ou pautadas pelos
ca no ato de aproximação com a moderna
racionalidade emancipadora: espaços que geram a crise do sistema.
Para Enrique Dussel (2011), “[…] la ‘fa-
La experiencia griega o indoeuropea lacia desarrollista’ —de un Habermas,
(1.1.6) y la moderna europea (1.1.7) pri- por ejemplo— pretende aplicar a ‘todo
vilegiaron la relación hombre-naturaleza planeta’ (centro dominador y periferia
(como fysis o natura) porque compren- dominada) el modelo del ‘capitalismo tar-
dieron el ser como luz o como cogito, dío’ — una ‘falacia’ de otro nivel” (p. 86).
en ambos casos el ámbito del mundo y
lo político queda definido como lo visto, Entretanto, para evitar equívocos, não
dominado, controlado. Si por el contrario se deve olvidar que as racionalidades
privilegiamos la espacialidad (proximidad “emancipadoras” possuem imenso e re-
o lejanía, centro o periferia) y lo político levante potencial crítico, ao expor seus
(dominador-dominado) (3.1), la posición limites e principalmente ao subsumi-los
hombre-hombre, que fue la experiencia em sua capacidade de luta, pois, para os
originaria del semita (1.1.7) de la realidad marginais do sistema mundo, também é
como libertad, podremos iniciar un dis- importante ocupar espaços como capaci-
curso filosófico desde otro origen. (p. 44) dade de mobilização política estratégica
na superação dos obstáculos impostos
E complementa: pelas mazelas capitalistas.

No hablamos aquí del ir hacia No entanto, o que parece mais importan-


una mesa, una silla, una cosa. te sob essa subsunção emancipadora é
Aproximarse a algo, llegar junto compreender que, além dos marginais,
a ella para tomarla, comprarla, existem sujeitos na exterioridade da tota-
venderla, usarla. Aproximarse
lidade que não podem ser considerados
a las cosas lo denominaremos
la proxemia. Hablamos aquí de em um diálogo ou ação comunicativa sem
aproximarnos en la fraternidad, que se compreendam o distanciamento e
acortar distancia hacia alguien a distinção histórica e social efetiva. Em
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As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica 105

razão disso, aquela proposta dialógica rencial (Administrativa mundial)


Norte-Sul (Santos, 2010) ou ação comuni- do capitalismo (como sistema
econômico), do liberalismo (como
cativa se faz por dentro do sistema mundo
sistema político), do eurocentris-
entre iguais e diferentes da emancipação mo (como idelologia), do machis-
ante as injustiças do sistema, mas que, ao mo (na erótica), do predomínio
final, não buscam superá-lo. da raça branca (como racismo),
da destruição da natureza (na
Quando se qualificam no binômio iguais- ecologia), etc., supõe a liberta-
ção de diversos tipos de vítimas
-diferentes, fala-se do mesmo sujeito
oprimidas e/ou excluídas. É neste
histórico que ocupa o similar espaço sentido que a ética da libertação
em posições díspares em dado diálogo se define como transmoderna (já
(de um lado, o dominador e, de outro, que os pós-modernos são ainda
os dominados ou subsumidos como eurocêntricos). (p. 65)
mão de obra explorada, ou utilizados
como capacidade em potencial ao tra- Diante da afirmação, a “outridade” des-
balho, mas que, na especulação econô- ses sujeitos compõe a novidade que co-
mica, são assediados como exército de loca em crise as propostas dos diálogos
reserva). emancipadores, pois estes últimos têm
sido pensados para a funcionalidade
Então, ao refletir sobre a superação do produtiva ou reprodutiva da reinvenção
referido modelo de pensamento em uma dos paradigmas modernos, ao passo que
perspectiva libertadora, deve-se ter em a alteridade presente na ética libertado-
conta que distinção não pode ser lida ra, por sua própria condição excluída do
pela igualdade formal ou material, pois, diálogo na sua matriz histórica ausente, é
além das consequências econômicas que dotada de capacidades epistemológicas
embasam as críticas da segunda vertente que não estão sob as ideias coletivistas
exposta acima, também existem questões (que partem de singularidades unidas
culturais e de desenvolvimento social que com um propósito), mas sob cosmovi-
não podem ser lidas pela esfera marginal sões que a própria etimologia da palavra
como resultado da economia do siste- revela, que não se explica no humanismo
ma, e aqui aparece o problema de outra da juridicidade moderna com seus carac-
maneira. Embora a exterioridade tenha teres abstratos, eruditos e racionalistas
sido produzida por esse ponto, as abor- positivados.
dagens pela exterioridade são elaboradas
na própria condição de Não-Ser, ausente, Finalmente, o que parece realmente
ignorado e, por vezes, incluso no siste- importar para as realidades periféricas
ma de maneira violenta. De tal modo, descoloniais é uma ética que promova a
respondendo à pregunta “libertação do fundamentação libertadora4 com a afir-
quê?”, Dussel (2007) exibe um resumo 4
“Trata-se de uma ética da vida, isto é, a vida
esclarecedor: humana é o conteúdo da ética. Por isso, desejamos
A superação da razão cínico-ge- aqui, desde o início, advertir o leitor sobre o

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mação da vida humana e da qualidade América Latina. Afinal, nem todo plura-
de desenvolvimento das suas distinções lismo jurídico na tradição latino-ameri-
ou diferenças culturais, sob condições cana foi liberador, pois está impregnado
materiais de vida adequadas aos seus por uma tradição colonizadora. Tal foi o
contextos sócio-históricos e que conside- caso das leis de Índias, ao se produzir
re as capacidades dos sujeitos ausentes um pluralismo jurídico que mantinha
como modo de produção epistemológico “emancipadas” as práticas jurídicas in-
e de desenvolvimento não subsumido na dígenas sob as condicionantes impostas
produção cientificista moderna5, mas sim pela Igreja Católica e pelos ditames da
autônomo e autodeterminado. Coroa Ibérica; ou seja, as leis e as cons-
tituições emancipadoras das nascentes
3.1. A questão da emancipação racionalista moderna nações latino-americanas conduziram
no horizonte do pluralismo jurídico latino-ameri- apenas à mudança de metrópole, assim
cano como as leis sociais da revolução social
mexicana (como exemplo) preparam os
Tendo em vista a premissa apontada trabalhadores e a mão de obra indígena
acima, vale recordar que o pressuposto e campesina (espoliada das suas terras
de uma racionalidade (que não deixa de pelas leis de amortização alguns anos
ser crítica) visualizada em um PJCP, ante antes da revolução jurídica-social de 1917)
as novas condições presentes, minimiza para um sistema de exploração capitalista
os demais pressupostos condicionantes incipiente, e assim por diante6.
dessa pluralidade transformadora.
O problema da racionalidade jurídica
Destarte, implica obrigatoriamente dire- que se propõe, por vezes, emancipatória,
cionar tal proposta emancipadora a um quando visualizada para o continente lati-
pensamento de liberação presente na no-americano (historicamente dominado
e oprimido por processos de colonização
sentido de uma ética de conteúdo ou material. O
projeto de uma ética da libertação entra em jogo interno e externo), conduz a equívocos
de maneira própria a partir do exercício da crítica que geram a reprodução de novas esferas
ética [...], onde se afirma a dignidade negada da
hegemônicas, operadas pela despolitiza-
vida da vítima, do oprimido ou excluído [...]. É em
função das vítimas, dos dominados ou excluídos ção política que não enfrenta a realidade
que se necessita esclarecer o aspecto material da concreta das vítimas. Ao copiar essa pers-
ética para bem fundá-la e poder, a partir dela, dar
pectiva nitidamente europeia, acaba por
o passo crítico”. (Dussel, 2007, p. 93).
5
“A ética da libertação justifica que possam enunciar
olvidar que o continente europeu, ao falar
“juízos de fato” com relação à vida ou à morte do de emancipação, assume uma conotação
sujeito ético. Não nos referimos a juízos de fato por conta de quem está emancipando (su-
da razão instrumental que procedem do cálculo
meio-fim, formais, mas sim juízos referentes à
jeito dominador), ao ponto que, no espa-
produção, à reprodução ou ao desenvolvimento ço escravizado, explorado como mão de
da vida humana, materiais (mas não materialidade obra e, ao longo da história, colonizado
no sentido weberiano) e a partir de cujo âmbito
podem ser julgados criticamente os fins e valores”. 6
Sobre o pluralismo jurídico na América Originária,
(Dussel, 2007, p. 136). ver Machado (2015).

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As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica 107

pela matriz econômica no capitalismo, na tarefa, cumpre refletir sobre a pergunta


matriz cultural como eurocentrismo e na que ele propõe: “Poderá o Direito ser
matriz institucional como colonialismo, o emancipatório?”; imediatamente ressalta
termo deve ser substituído pelo conteúdo a resposta: “[...] um sim bastante relativa-
e pela perspectiva da libertação isso im- do” (Santos, 2015, p. 4).
plica um efeito de transformação, e não
meramente de reforma. No entanto, o que importa na análise é
as justificativas que permeiam a argumen-
Portanto, o pluralismo jurídico, quando tação, porquanto, no tocante ao direito
verificado criticamente para a América como regulação e como despolitização da
Latina, deve observar entre uma série de sua capacidade de transformação, as lutas
elementos próprios da geopolítica e da pela emancipação passaram a ser apenas
(geo)epistêmica regional a inadequação pela inclusão no contrato social (Santos,
de uma racionalidade emancipatória, e 2015, p. 5). Para Santos (2015), a tarefa
voltar-se ao pensamento que, na rela- científica e política que se apresenta: “[...]
ção dialética, possa lograr um salto ou como reinventar o Direito para lá do mo-
passagem estratégica para o momento delo liberal e demo-socialista e sem cair
analético que redescobre a riqueza e a na agenda conservadora — e, mais ainda,
complexidade do outro em seu espaço como fazê-lo de modo a combater esta
de outridade. última de uma maneira mais eficaz” (p. 8).

Desse modo, esses sujeitos podem, na Essa situação problemática está assen-
exigência política crítica dos mecanis- tada em um consenso perverso que se
mos de produção e reprodução da vida manifesta no processo de globalização
(fonte material do direito), ir estruturan- hegemônica, aquele traduzido na faceta
do processos de libertação por meio da do neoliberalismo como projeto neocon-
conscientização da opressão e da domi- servador (Santos, 2015, p. 7), no qual o
nação como formas de conservação da direito, diminuído à esfera da regulação
alienação. Ora, a emancipação jurídica na violenta e opressiva, limita-se apenas a
América Latina logra eficazmente incluir o legitimar tais eventos.
outro tardiamente em alguma armadilha
dentro das três matrizes (institucional: Dessa forma, não abandonando a crença
colonialidade, cultural: monocultural e em uma possível capacidade emancipa-
econômica: mercadocêntrica) e, no âm- dora do direito, Boaventura de Sousa
bito jurídico, uma perspectiva pluralista Santos (2015) refere: “[a] questão do
deve estar apta a desarmá-las. papel do Direito na busca da emancipa-
ção social é, actualmente, uma questão
Esses subsídios aludidos encontram certa contra-hegemónica que deve preocupar
aderência na proposta de emancipação todos quantos, um pouco por todo o sis-
do direito proporcionada pela leitura de tema-mundo, lutam contra a globalização
Boaventura de Sousa Santos. Para essa hegemónica neoliberal” (p. 11). Assim, eis
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o local que habita o potencial emancipa- semiperiféricos, entrámos num


tório (Santos, 2015, p. 12) do direito: nas período de expectativas nega-
tivas para amplos sectores das
lutas globais que promovem os coletivos
populações de todo o planeta.
na contra-hegemonia global.
[...] Com efeito, num período em
que as expectativas sociais são
Para o sociólogo do direito de Coimbra, a negativas quando comparadas
crise da modernidade é representada na com as experiências sociais do
crise do contrato social, em que o predo- quotidiano, a legalidade cosmo-
mínio dos processos de exclusão social polita pode achar-se na situação
de ser mais eficaz ao defender o
assume maior relevo que os de inclusão;
status quo jurídico, isto é, a apli-
a ideia de inclusão aqui estabelecida
cação efectiva das leis tal como
corresponde ao chamado em admitir os elas vêm nos livros. (Santos,
valores da modernidade, mesmo assim 2015, p. 40)
não é um acesso irrestrito; ao contrário,
apenas alguns contingentes logram con- Desse modo, na probabilidade de uma
quistar essa dimensão, observando uma emancipação, aparecem duas alternati-
ou outra exceção que confirma a regra da vas que podem, ao menos, questionar
exclusão. Para Santos, essa faceta assu- criticamente as mazelas apresentadas
me duas formas: a primeira corresponde como fascismo social7 e, na melhor das
a situação do “pré-contratualismo”, mo- hipóteses, acaba possibilitando a aber-
mento de obstacularização ao ingresso tura de novas expectativas ao momento
dos grupos que guardavam prévias ex- de pouca credibilidade em saídas desse
pectativas de fazer parte do rol seleto; já engodo produzido pela modernidade.
a segunda ao “pós-contratualismo”, aque-
les que obtiveram o privilégio da inclusão Assim, reclamando outro direito e tam-
são sumariamente excluídos e ainda veem bém uma política diferenciada ante o
dificultada qualquer pretensão de retornar 7
“Consideremos primeiramente os riscos. Em
a essa esfera (Santos, 2015, p. 18). Essa verdade, penso que estes podem ser resumidos
situação confirma a conjuntura crítica, a um só: a emergência do fascismo social. Não
o que leva à ideia de crise do contrato quero dizer com isso um regresso ao fascismo
das décadas de 1930 e 1940. Ao contrário daquele
social assumir uma postura jurídica de que o precedeu, o fascismo de hoje não é um
garantia (momento que acima Sánchez regime político, mas antes um regime social e
Rubio destacava como impossibilidade civilizacional. Em vez de sacrificar a democracia
às exigências do capitalismo, ele trivializa a
de abandono). democracia a ponto de se tornar desnecessário,
ou sequer vantajoso, sacrificá-la para promover
A crise do contrato social moder- o capitalismo. É um tipo de fascismo pluralista,
no reside na inversão da discrep- produzido pela sociedade, e não pelo Estado.
ância entre a experiência social Este se comporta, aqui, como mera testemunha
complacente, se não mesmo como culpado ativo.
e a expectativa social. Após um
Estamos a entrar em um período em que os
longo período de expectativas Estados democráticos coexistem com sociedades
positivas quanto ao futuro, pelo fascizantes. Trata-se, por conseguinte, de uma
menos nos países centrais e forma inaudita de fascismo”. (Santos, 2015, p. 21).

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As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica 109

contexto da globalização, de um lado, versas, as quais enfrentam os efeitos do


surge a proposta a) “contra-hegemôni- fascismo social de forma criativa, isso se
ca” e, de outro, a de b) “cosmopolitismo denomina cosmopolitismo subalterno ou
subalterno” (Santos, 2015, p. 27). A luta cosmopolitismo dos oprimidos (Santos,
contra-hegemônica, no entendimento 2015, p. 28). Essas categorias podem ser
de Santos, não significa somente com- sintetizadas da seguinte maneira:
bater as facetas nefastas, mas também
enfrentar o âmago do processo e ousar O cosmopolitismo subalterno é,
apresentar alternativas. Logo, a ideia não portanto, uma variedade oposi-
é meramente de oposição, mas oposição tiva. Do mesmo modo que a glo-
balização neoliberal não recon-
propositiva de outros rumos que possam
hece qualquer forma alternativa
rechaçar o conformismo diante dos efei- de globalização, assim também
tos devastadores do capitalismo; assim, o cosmopolitismo sem adjec-
a contra-hegemonia se situa em movi- tivos nega o seu próprio par-
mentos organizados que compartilham ticularismo. O cosmopolitismo
um juízo sobre a exclusão como forma subalterno de oposição é a forma
de negação da dimensão humana dig- político-cultural de globalização
contra-hegemónica. É, numa
na (Santos, 2015, p. 27). Por essa razão
palavra, o nome dos projectos
que o caráter opositivo dessa proposta emancipatórios cujas reivindica-
alternativa se fundamenta em uma con- ções e critérios de inclusão so-
cepção explicitada assim: “[...] por uma cial se projectam para além dos
justiça transformadora, quer dizer, por um horizontes do capitalismo global.
projecto de justiça social que vá além do (Santos, 2015, p. 29)
horizonte do capitalismo global. É nisto
que reside o carácter opositivo e contra- Diante disso, afirmado esse contexto
-hegemónico da legalidade cosmopolita” problemático e estabelecidas as propos-
(Santos, 2015, p. 21). tas alternativas que intentam oferecer
respostas concretas, Santos procura
Esse artifício se soma ao componente esclarecer quais seriam os espaços em
do cosmopolitismo subalterno, pois a que o direito poderia operar de forma
globalização contra-hegemônica incor- reinventada, não apenas a serviço do
pora as diversidades de experiências processo hegemônico, mas também em
e, em tal pluralidade, se assentam pro- uma mirada subalterna.
cessos de comunicação e intercâmbios,
cooperação e reciprocidade em apoio às Consequentemente, esse lugar se encon-
lutas no mesmo sentido. Não obstante, tra em três tipologias: a) práticas e pers-
a interconexão global produzida pelos pectivas jurídicas que compuseram ou
meios tecnológicos de comunicação que não a concepção ocidental do direito, e
colocam em colaboração diversos mo- ambos os casos foram encobertos pelas
vimentos sociais e grupos alternativos concepções liberais (precursoras de uma
em solidariedade pelas causas mais di- ideia hegemônica — o monismo jurídico);
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b) formações jurídicas que se desenvol- contra-hegemônica, a proposta jurídica


veram alheias ao Ocidente, em destaque emancipatória de Boaventura Santos se
as colônias e os Estados pós-coloniais, e, apresenta como esfera dimensionada na
por último, c) as experiências propositivas produção de inclusão social; seria esta a
de contra-hegemonia com base nas orga- “capacidade emancipatória” que afirmou
nizações e nos movimentos sociais (San- positiva e de maneira relativa anterior-
tos, 2015, p. 12). O lugar das experiências mente?
de legalidade cosmopolita redunda em
um processo que conduz os sujeitos ne- Ainda, os objetivos da legalidade cos-
gados por variadas dimensões em ocupar mopolita se apresentam na recuperação
a esfera pública na condição subalterna e da capacidade política do direito em en-
não submissa: “[...] a partir da sociedade frentar as mazelas do modelo global de
civil incivil para onde foram atirados pelas dominação em forma de solidariedade
estruturas do poder dominante” (Santos, entre os diversos setores subalternos
2015, p. 49). Para Santos (2015): (Santos, 2015, p. 46). A capacidade eman-
cipatória do direito, na referida obra do
É aqui que reside o carácter autor, encontra seu limiar na perspectiva
opositivo desta procura de ci- em oferecer alternativas no sistema global
dadania cultural, cujo êxito de- dominante, permitindo diminuir o índice
pende da capacidade que os de exclusão social pelo viés da inclusão
grupos subalternos tiverem para
no próprio sistema excludente e que,
mobilizar estratégias político-
jurídicas cosmopolitas. O objec-
independentemente de ser o projetor da
tivo é fomentar sociabilidades de crise, é também o administrador que mais
convivialidade entre diferentes lucra, na medida em que o capitalismo
identidades culturais sempre que em si não sofre com as crises cíclicas; ao
se encontrarem e disputarem um contrário, reinventa-se nessas situações.
terreno de inclusão e pertença
potencialmente comum. Através
Dessa maneira, o horizonte da racionali-
da sociabilidade, o terreno co-
mum torna‑se simultaneamente
dade emancipatória é um campo aberto
mais inclusivo e menos comum, para reflexões e propostas alternativas,
ou seja, menos homogeneamente passível de críticas profundas e contun-
comum a todos os que afirmam dentes, mas que, de fato, não deve ser
pertencer-lhe. (p. 49) rechaçado em sua totalidade, e sim po-
tencializado nas perspectivas que ativam
Percebe-se que a tarefa emancipadora as capacidades sociopolíticas insurgentes
do direito, na recuperação do seu cará- dos atores históricos e suas necessidades.
ter emancipador, está vinculada com o
âmbito da afirmação do contrato social Assumindo essa postura, não parecem
na perspectiva de garantir acesso aos obrigatórias as leituras teóricas euro-
meios de desenvolvimento dentro da fa- peias ou norte-americanas para que o
ceta sociopolítica hegemônica; apesar de pluralismo jurídico seja emancipatório,
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ou mesmo para elaborar críticas, basta, à Para E. Dussel (2005), a proposta deve ser
maneira da Filosofia da Libertação (Dus- originada não meramente a partir de uma
sel, 2011) latino-americana, ousar pensar singularidade, de um “si mesmo” ou “nós
por intermédio das facetas perversas que coletivo”, e sim da seguinte forma:
atingem a zona periférica e a confirmam
Lo esencial, entonces, para una
como periférica (um pensamento situado),
filosofía de la liberación, no es el
ou mesmo, por essa condição, afirmar “yo” o el “nosotros” (aun como
que o estado de periferia já é propriamen- “comunidad de comunicación”)
te um elemento constituído pela conjun- o la “sociedad abierta”, que de
hecho puede “cerrarse” en una
tura sistêmica dominante. Acontece que,
totalización totalitaria de la Total-
nessa zona, local em que foi produzida idad, en su “lo público (Öffentlich-
a faceta encobridora da modernidade, keit)” burocratizado, sino el “tú”,
também podem emergir alternativas crí- el “vosotros”, “el otro” de toda
ticas provocadoras que desestabilizam o comunidad de comunicación —
la exterioridad transcendental
sistema moderno e não somente colocam a toda comunidad y ontología;
em crise seus paradigmas, como também trans-ontológica, entonces, que
superam criativamente o centro global con Lévinas hemos denominado
do poder. la alteridad metaísica del Otro
(para diferenciarla de la metafísi-
ca vulgar o dogmática, óntica). (p.
3.2. Por uma potencialidade libertadora do pluralismo 97, grifo nosso)
jurídico
A denúncia que faz E. Dussel no presente
Dessa maneira, partindo da crítica de texto trata-se do fato que esse sujeito, em
Enrique Dussel às concepções emanci- sua “outridade”, não fez parte da comu-
patórias da modernidade e da pós-mo- nidade de comunicação emancipatória
dernidade, compreendidas como im- senão apenas como parte receptiva do
possibilidade para a realidade periférica acordo. Logo, como poderia ser integra-
(Dussel, 2005, p. 74) continental, afinal do? Sob a fórmula da igualdade e seu
a: “América Latina, en cambio, nació al binômio “diferença”! Caso seja essa a
resposta, algumas observações abaixo
mismo tiempo que la Modernidad, pero
devem ser esclarecidas.
su ‘otra cara’ necesaria, silenciada, ex-
plotada, dominada” (Dussel, 2005, p. 75);
O relevante da proposta reflexiva é a
por esse ângulo, põe em crise a proposta indagação a respeito de se esse mesmo
da racionalidade emancipatória moderna sujeito não pode construir suas próprias
vinculada ao pensamento da comunidade possibilidades e ignorar o consenso glo-
de comunicação ou mesmo da sociedade bal e hegemônico, bem como as alter-
cosmopolita de Boaventura Santos (com nativas advindas do centro que irradia
seu viés inclusivo). possibilidades, princípios e racionalida-
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des; a questão do Outro não se apresenta ção de outras expectativas. Não se está
meramente como transcendentalidade ao pensando em probabilidades renovadas,
Nós: “[...] sino transcendental a la misma mas probabilidades de outro projeto,
comunidad. Sin embargo, de hecho, en um projeto de libertação que está além
la comunidad de comunicación ‘real’, ‘el da emancipação (Dussel, 2005, p. 104).
Otro’ es ignorado, desconocido —no re- A insuficiência de somente denunciar a
conocido— como momento ético de una exterioridade da América Latina e a ori-
estructura vigente de injusticia” (Dussel, ginalidade encoberta dos seus povos e
2005, p. 101). culturas se encontra na abertura da pos-
sibilidade de mera inclusão no processo
Nesse sentido, a questão explícita da ex- racional moderno, e a questão se trata de:
clusão do outro se traduz não somente
como afetada pelos efeitos do sistema, Os excluídos não devem ser in-
mas também pelos efeitos da impossi- cluídos (seria como introduzir o
bilidade de participar efetivamente da Outro no mesmo) no antigo siste-
comunidade de comunicação “real”, ou ma, mas devem participar como
iguais em um novo momento
seja, participar como membro e não mero
institucional (a nova ordem políti-
expectador passivo. Essa condição se dá ca). Não se luta pela inclusão, mas
por conta da historicidade silenciada: “[...] sim pela transformação — contra
para América Latina, cultura periférica no Iris Young, J. Habermas e tantos
es un tema solamente teórico, es ante outros que falam de “inclusão”.
todo una experiencia fática, ético-prác- (Dussel, 2007, p. 110)
tica, que cumplió ya medio milenio en
1992” (Dussel, 2005, p. 101). A interpelação ética do oprimido supera a
exigibilidade política do direito emancipa-
Assim, só a afirmação da exterioridade tório, pois a exigência das necessidades
do outro pode irromper na totalidade; fundamentais para seguir vivendo, como
entenda-se “totalidade” como sistema no caso da fome, já configura um pedido
fetichizado da própria modernidade, en- de justiça que denuncia algum tipo de
clausurada em suas próprias promessas injustiça perpetrado (Dussel, 2007, p. 119).
de futuro infalível8, e que não se abre para Na maioria das vezes, essa injustiça é um
além das possibilidades que, pelo seu elemento histórico e que se manifesta
âmago, pode oferecer como alternativas. hegemonicamente nas zonas periféricas
Acontece que, na intempérie do projeto em torno dos centros de poder ou como
totalizador, encontram-se as possibili- efeito do exercício hegemônico deste últi-
dades aventadas e elaboradas na condi- mo. Afinal, que tipo de comunidade pode
ser pensada pelos arquétipos centrais,
8
Sobre o assunto, verificar o artigo intitulado que ignoram a dor dos povos oprimidos?
“Pluralismo jurídico e justiça comunitária na Seria perpetrar o mito tutelar de um Ginés
A mérica Latina: potencialidades a partir da
sociologia das ausências e das emergências (Leal de Sepúlveda ao creditar apenas ao locus
e Machado, 2013). da solidariedade liberal em detrimento de
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As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica 113

potencializar a crítica desestabilizadora (sino que da articulado relieve a


do sistema pelo próprio ser dolorido, pois las exigencias éticas surgidas en
la lucha contra la miseria) a la co-
obviamente não se trata de pensar pela
munidad político-económica de
dor do outro, mas de se comunicar com vida, como proyecto (y es lo que
este para ouvir a sua interpelação como se denomina “proyecto de liber-
provocação ética à racionalidade (irracio- ación” constituido desde una “in-
nal) do sistema imperante9. tención” liberadora). Dicha praxis
liberadora considera siempre en
Diante dessa afirmação, E. Dussel passa su descripción la problemática
de las estructuras y de la praxis
a diferenciar a ideia de emancipação dos
de dominación —en el nivel de
processos de libertação e principalmente la corporalidad, la producción, la
da práxis de libertação. economía, como antropología y
ética— que el discurso crítico de
Esto nos permite concluir que la Marx analizó de manera abstracta
“intención emancipadora” o el (pero concreta con respecto a Lévi-
acto de “emancipación” no puede nas o Apel) y esencial (que guardan
identificarse con la “intención lib- hoy total pertinencia, si se tiene en
eradora” o la praxis de “liberación”. cuenta su nivel de abstracción y
[…] “Emancipar” es transformar a esencialidad). (Dussel, 2011, p. 121,
la “comunidad de comunicación grifo nosso)
real” a la luz de la “comunidad de
comunicación ideal”; emancipar es Por fim, essa perspectiva de superação da
“la realización, en la comunidad
racionalidade emancipadora pelo projeto
real de comunicación, de una lib-
ertad sin dominación propia de la de libertação pressupõe, no âmbito do es-
comunidad ideal de comunicación”. tudo, um consenso crítico10, recordando
Es decir, a diferencia del interés 10
Esse consenso crítico do povo não pôde ser descoberto
estratégico (de la racionalidad in- nem pela primeira Escola de Frankfurt, nem por
strumental) o del interés práctico K. O. Apel ou J. Habermas. Por isso, não puderam
o comunicativo, el interés eman- articular a “teoria crítica” com os atores políticos
cipatorio se dirige a la superación históricos (que já não tiveram ao desaparecer pelo
Holocausto a comunidade judia, e por integrar a
de las alienaciones — pero no creo
classe operária ao “milagre alemão”). Nós, por
deformar su contenido si agrego, outro lado, devemos nos articular a esse ator
reductivamente, alienaciones de coletivo, bloco que nasce e pode desaparecer
la ciencia, del conocimiento, de segundo conjunturas, chamado povo, ou novos
la argumentación; es decir en el movimentos sociais de grande vitalidade, que
nivel cognitivo final. Mientras que constroem “o poder de baixo”. O povo toma, então,
la “praxis liberadora”, subsumiendo “consciência para-si”. Reconstrói a memória de suas
lutas, feitos esquecidos e ocultos na história dos
la intención emancipadora y el acto vencedores —como assinala Walter Benjamim—.
racional emancipador, no olvida Ainda não é a “consciência da classe operária”,
mas não se opõe a ela; integra-a. É a consciência
9
“La exigencia ética ‘Liberta al Otro, al pobre!” es da classe camponesa, dos povos indígenas, das
la condición de posibilidad del nuevo argumentar feministas, dos antirracistas, dos marginais... de
real; es permitir al Otro-pobre ‘ser parte’ del nuevo todos esses fantasmas que vagam na exterioridade
nosotros argumentativo, que está dispuesto a llegar do sistema. Consciência de ser povo. (Dussel, 2007,
a un nuevo acuerdo [...]” (Dussel, 2011, p. 121). p. 100).

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que: “[o] consenso crítico dos dominados a da política. Ainda, cabe referir que essa
é o momento do nascimento de um exer- proposta não se limita apenas a esses
cício crítico da democracia” (Dussel, 2007, elementos, pois é possível constatar que
p. 109); logo, libertar significa: comporta uma abordagem pedagógica,
ética e também uma expansão da dimen-
[c]onstruir una “comunidad de são política do espaço público (reinven-
comunicación y de vida histórico- tado), que prioriza um sujeito histórico
posible” más justa, más racional concreto com capacidade de produzir
(como realización del “proyecto
uma forma jurídica.
utópico-concreto” de liberación).
“Liberar” parte de una “comu-
nidad de vida real” gracias a una Ademais, essa tipologia de pluralismo
praxis reformista o revolucionaria jurídico também apresenta uma raciona-
(ninguna de las dos puede ser lidade que guarda uma capacidade eman-
descartada a priori), y desde la cipatória, elemento que, problematizado
“interpelación del Otro”, es decir, acima, revelou suas limitações quando
como exigencia ética de la “co- analisado dentro da realidade histórica
munidad de comunicación y de
concreta dos sujeitos na América Latina.
vida ideal”. (Dussel, 2005, p. 124).
Tais limitações representam a abertura
para a reflexão crítica, evidenciando as
Em síntese, ficou expresso no desenvol-
possibilidades e condições reais de liber-
vimento desta discussão uma abertura
tação daquilo que foi pensado por meio
de perspectiva teórica e crítica que pri-
de uma prática histórico-concreta e um
vilegiou avaliar o pluralismo jurídico não pensamento situado, capaz de subsidiar
mais por transplantes da centralidade do elementos para assentar outro viés de
Norte global, mas agora de forma incisi- racionalidade, renovando as fontes da
va e comprometida com a produção de pluralidade normativa.
conhecimento gerada pela Filosofia da
Libertação latino-americana (originária Portanto, se a proposta inicial era explorar
e proveniente do Sul global) e mediada criticamente a capacidade da racionalida-
por ela. de emancipatória do direito no fenômeno
do pluralismo jurídico, em especial aquele
CONSIDERAÇÕES visualizado desde o cenário latino-ame-
ricano, é possível concluir que os limites
A temática do PJCP tem a potencialidade foram expostos, refletidos e questionados
de apresentar uma concepção material por meio de uma renovada mirada libera-
do direito (embasando-se nas necessida- dora, como horizonte racionalizado que
des humanas fundamentais), verificá-la e se propõe ir além dos limites da moder-
fortalecê-la conciliando as experiências nidade e de sua condição periférica; uma
normativas das comunidades com a ló- racionalidade propositiva, protagonista
gica participativa (democrática), fazendo e que emerge desde a condição do ou-
uma junção entre a esfera do direito com tro, que não é marginal no sistema, mas
Revista Opinión Jurídica Universidad de Medellín
As limitações do racionalismo emancipador eurocêntrico à luz do pluralismo jurídico enquanto criticidade periférica 115

excluído da comunidade deste. Ao final, co de libertação latino-americano (Tese


entende-se que a racionalidade emanci- de Doutorado em Direito). Programa de
Pós-graduação em Direito, Universidade
patória deve ser subsumida na abertura
Federal de Santa Catarina, Florianópo-
crítica ao sistema de direito e, posterior- lis, Santa Catarina, Brasil). Recuperado
mente, potencializada pelo pensamento de https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bits-
da realidade situada como movimento tream/handle/123456789/157392/336538.
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Opinión Jurídica, Vol. 16, N° 31, pp. 89-116- ISSN 1692-2530 • Enero-Junio de 2017 / 220 p. Medellín, Colombia
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