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Lara Smithe

Ele quer vingança. Ela quer amá-lo

LÓTUS

Primeira edição
Salvador/Brasil
2019
Spin-Off de Escolhas

LÓTUS
Capa: Joice S. Dias
Revisão: Lorena Bastos
Diagramação: Lara Smithe

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão,


no todo ou em parte.
Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes, personagens, lugares e
acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Título original: LÓTUS


Todos os Direitos reservados
Copyright © 2019 by Lara Smithe
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Sumário
Índice
Sumário
Mensagem
SINOPSE
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
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43
44
45
46
EPÍLOGO
Próxima História
LUKE
Se ainda não leu ESCOLHAS – Prequel de LÓTUS
Índice
Agradecimentos
Mensagem
Sinopse
Prólogo
Adam
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Eva
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Epílogo
Outros Romances da Autora
Agradecimentos

Agradeço a DEUS em primeiro lugar, pois minhas inspirações vêm dele.


Às minhas leitoras amigas do grupo do Whatsapp e do facebook: meninas
vocês são maravilhosas.
Obrigada família, por sua paciência e compreensão.
Obrigada, minhas betas maravilhosas, por suas análises críticas, vocês me
ajudaram muito com as opiniões e os conselhos.
Mensagem

FLOR DE LÓTUS

No oriente, a flor de lótus significa pureza espiritual. O lótus (padma),


também conhecido como lótus-egípcio, lótus-sagrado ou lótus-da-índia, é
uma planta aquática que floresce sobre a água.
No simbolismo budista, o significado mais importante da flor de lótus é
pureza do corpo e da mente. A água lodosa que acolhe a planta é associada ao
apego e aos desejos carnais, e a flor imaculada que desabrocha sobre a água
em busca de luz é a promessa de pureza e elevação espiritual.
É simbolicamente associada à figura de Buda e aos seus ensinamentos e,
por isso, são flores sagradas para os povos do oriente. Diz a lenda que quando
o menino Buda deu os primeiros passos, em todos os lugares que pisou, flores
de lótus desabrocharam.
Nas religiões asiáticas, a maior parte das divindades costumam surgir
sentadas sobre uma flor de lótus durante o ato de meditação.
Na literatura clássica de muitas culturas asiáticas, a flor de lótus
simboliza elegância, beleza, perfeição, pureza e graça, sendo frequentemente
associada aos atributos femininos ideais.
FLOR DE LÓTUS VERMELHA

simboliza a natureza original do coração. É o símbolo do amor,


compaixão, paixão e outras emoções associadas ao coração. O lótus vermelho
é geralmente representado com suas pétalas abertas, simbolizando a beleza e
a doação de um coração. Também está associado a Avalokitesvara, O Buda
da Compaixão.

Texto retirado do site: https://www.significados.com.br/flor-de-lotus/


SINOPSE

Aos dez anos conheci a dor da perda, do sofrimento, do desespero.


Não me deram escolhas, fizeram-nas por mim. Tiraram de mim o amor, o
carinho, o convívio... Arrancaram de mim o prazer de ser amado. Aos dez
anos eu vi o meu pai morrer, ele foi assassinado cruelmente.
Um demônio entrou em nossas vidas e resolveu brincar de Deus, por
ciúmes, inveja e raiva. Por uma mulher, esse demônio se achou no direito de
acabar com a vida do meu pai e com a minha.
Eu vi o brilho de prazer nos seus olhos quando deixou meu pai quase
sem vida e o jogou dentro do nosso carro, lançando-o junto comigo em um
precipício. Pensei ser o fim, fechei meus olhos inocentes e rezei para
encontrá-lo junto a minha mãe no céu, mas eu não morri.
O carro ficou preso nas árvores, e antes que despencasse nas
profundezas, meu pai me lançou para fora dele. Ele se foi, e eu fiquei... fiquei
com o ódio, com a dor e com o desejo de vingança.
Cresci sob a influência do meu passado, com as lembranças doloridas
daquela noite devastadora, e a minha única alegria é saber que um dia eu me
vingaria daquele que fez da minha vida uma completa escuridão: Rodrigo
González.
Ele conhecerá a ira do Conde de Bergsen, a minha ira, o meu ódio. Só
ficarei livre de toda minha dor quando o vir completamente destruído. Sua
empáfia, sua fortuna, sua filha e seu futuro neto pertencerão a mim. Tirarei
tudo dele, assim como ele tirou tudo de mim.
Meu nome é Raphael Salles Bergsen, e nada nesse mundo será capaz de
me fazer mudar de ideia, nem a inocente e doce Lilly, a filha do homem que
me transformou no que sou hoje... um homem sem quaisquer sentimentos
nobres.
Esta é a minha história.
RAPHAEL
Brasil – Dias atuais

Cidade de Paraíso...

Maldito lugar, se eu pudesse explodiria tudo aqui, começando por


este desfiladeiro. Foi aqui que tiraram de mim o amor, o carinho, o abraço
protetor, as palavras de incentivo. Foi aqui que aquele demônio o tirou de
mim... bem aqui...
Voltar a este lugar, olhar para este precipício, faz sangrar a minha alma,
apesar de saber que não tenho uma. Minha alma ficou com meu pai no dia em
que ele foi brutalmente assassinado. Eu era apenas uma criança de dez anos
quando presenciei sua morte, mas naquele dia deixei de ser criança, deixei de
ser um menino. Tudo que eu sabia sobre felicidade, amor e carinho, morreu
junto com ele. A fumaça negra e o odor de carne queimando penetrou em
minhas células, deixando-me petrificado. Não consigo sentir mais nada, estou
completamente vazio. O que era luz, agora é só escuridão, e o que era alegria,
deu lugar à tristeza.
Mesmo após vinte e quatro anos, ainda está tudo tão vivo dentro de mim
que ainda sinto todas as emoções daquele fatídico dia, o som das centelhas do
fogo saltando em minha direção, o calor, o cheiro. Ainda escuto os meus
gritos, chamando por ele...
— Papai! Papai, não quero que morra, não... não, não me deixe,
papai...
— Seja forte, filho, feche os olhos e viva! Seja feliz, meu filho amado.
Foram as nossas últimas palavras trocadas. Enquanto o carro despencava
precipício abaixo, eu vi as suas lágrimas, eu o vi balbuciar o meu nome,
enquanto as chamas alaranjadas o cobriam... escutei os seus gritos de dor, de
agonia. Meu pai sofreu, sofreu muito antes de o carro explodir. Eu não pude
fazer nada — era apenas uma criança — só pude assistir, impotente, a sua
dor, sua agonia mortal.
Passei horas chorando, até as lágrimas secarem. Mesmo que eu quisesse
chorar, elas se esgotaram em mim; fiquei estático, pendurado nos galhos e
folhas daquela árvore imensa, sentindo o cheiro de meu pai virando cinzas...
Ainda hoje tenho pesadelos com a sua figura sendo devorada pelas chamas.
Quando fui resgatado pelo Alfredo e os empregados do castelo, já não era
mais eu, o pequeno Raphael morreu naquela árvore, e as primeiras palavras
que eu disse foram:
— Um dia voltarei e me vingarei do monstro que matou o meu pai. Ele
vai se arrepender de ter cruzado o meu caminho, eu juro, Alfredo, vou
destruir esse homem. Juro com toda a força da vida que há em mim...
Alfredo não acreditou, disse-me que um dia eu esqueceria de tudo, que o
mais importante era que sobrevivi.
Fomos embora para o Rio de janeiro, ninguém ficou sabendo sobre mim.
Resgataram o que sobrou de meu pai e a conclusão da perícia foi “acidente”.
Alfredo contratou uma empresa de segurança e fechou o castelo. Voltamos
para a Noruega cinco dias depois.
Fiquei muito machucado, quebrei um braço e o pulso. A força que fiz
para me manter preso aos galhos da árvore foi imensa, fraturei uma costela e
o meu rosto ficou cheio de escoriações. Ainda tenho uma pequena cicatriz
atrás da orelha que quase perdi, mas a minha maior cicatriz está em meu
coração e essa só irá cicatrizar quando acabar com o monstro do Rodrigo
González.
Planejei tudo metodicamente, vivi e vivo exclusivamente para minha
vingança. Dediquei-me aos estudos desde o dia em que fui enviado para a
Inglaterra, para estudar em uma escola só para meninos. Aos quinze anos, fui
para a Universidade de Oxford, fui aprovado em todas as entrevistas e alguns
testes foram feitos especialmente para mim, devido à minha jovem idade.
Mesmo assim, eu passei em todos. Claro que eu sabia que seria admitido,
afinal esse sempre fora o meu objetivo. Não tive tempo para ser adolescente,
transformei-me em um adulto antes mesmo de ser um.
Aos vinte e dois anos já era um doutor em economia, e assim assumi os
negócios do meu pai, dando um chute na bunda do ladrão do meu tio
Hamar... Lembrar-me daquele episódio era bom demais...
2009 – Cidade de Ålesund – Noruega
É a primeira vez que volto à Noruega depois que ingressei na faculdade
de economia no Reino Unido. Passei todo esse tempo alimentando o meu
ódio e planejando a minha vingança. Nada me distraiu, nem as informações
que obtive sobre o meu tio Hamar. Sempre soube que ele andara roubando o
meu dinheiro, mas aprendi a ser paciente e a estudar o inimigo. Hoje não
tenho dúvidas, só certezas de que estou sendo roubado e agora se aproxima a
hora da prestação de contas.
Hamar nem desconfia que estou prestes a chutar sua bunda para fora da
minha empresa. Ele não esperava que o menino órfão fosse um dia descobrir
todas as suas falcatruas. Na certa pensou que por eu ter ficado introspectivo,
por ter construído um muro ao meu redor, não fosse capaz de aprender a lidar
com pessoas perniciosas como ele. Pobre coitado, não sabe ele que estou
vacinado contra pessoas deste tipo e que as trato como ervas daninhas,
arranco-as do chão pela raiz.
— Alfredo, você fez o que mandei? — Avisei ao Alfredo para não falar
nada sobre o meu retorno.
— Sim, está tudo de acordo com o que pediu, inclusive liguei
pessoalmente para todos os diretores e marquei uma reunião às quatorze
horas.
— Muito bem, meu velho — bato no ombro do Alfredo. — Só quero ver
a cara do Hamar.
Alfredo não fala nada, só solta um pigarro provocativo.
— Chegamos — Ele desce do carro, abrindo a porta para que eu faça o
mesmo.
Hoje o céu de Ålesund está com estranhas formações de nuvens, que se
alargam e estreitam diante dos meus olhos. Pelo que me recordo, apesar do
frio, o céu de Ålesund geralmente é sempre azul.
Paro diante do imenso prédio, de onde posso ver o nome que carrego
com orgulho: Pescados Bergsen. Somos os maiores exportadores de frutos do
mar da Noruega. Atualmente eu sei que a empresa não anda bem, mas
conheço de quem é a culpa. Hamar é mais velho do que o meu pai e nunca foi
um bom homem de negócios, sempre viveu às custas dele, e depois que ficou
encarregado de assumir a empresa até que eu pudesse substituí-lo, sugou tudo
o que pôde. Ser um aproveitador, oportunista e sem caráter eram as suas
maiores qualidades. Hamar morou no Brasil por quase dez anos e foi lá que
conheceu Benedita Scherer, filha de um industrial alemão com uma
brasileira. Casaram-se e tiveram um filho, meu primo Magnor, outro
oportunista. Ele é um pouco melhor que o pai, abriu sua própria empresa e é
advogado, mesmo assim quero distância dele.
Entro no grande salão, ricamente decorado com vários quadros que meu
pai pintou. Ele era um talentoso artista, adorava pintar paisagens,
principalmente os nossos barcos atracados em nosso cais.
— Senhor Bergsen, não esperávamos pelo senhor tão cedo! — A
secretária, que eu definitivamente não conheço, dirige-se a mim.
— Bom dia para você também, senhora! — Procuro algo que a
identifique, mas não encontro. — Quem é você?
A mulher loira, quase albina, olha-me sem graça.
— Eu... eu... sou a secretária do senhor Hamar... Quer dizer, agora eu
sou a sua secretária...
— Eu perguntei o seu nome — a interrompo, e a moça fica pálida. —,
não perguntei sua função — dou o golpe fatal e ela quase desmaia com o tom
severo da minha voz.
— Desculpe-me, senhor Bergsen, meu nome é Agnes. — Passo diante
dela e sigo até a outra sala, onde fica a presidência. — Nós não o
esperávamos hoje, mas sim daqui a quinze dias, por isso estou surpresa —
conclui ela, com um suspiro de ansiedade.
Sento-me em minha futura cadeira. Observo a sala e ela está exatamente
do jeito que meu pai a deixou. Ainda me lembro de quando vinha aqui e
ficava brincando com as miniaturas de carros antigos. Olho em direção à
estante onde eles ficavam, e lá estavam eles, perfilados.
— A partir de agora eu quero todos os funcionários com identificação.
— Digo sem ao menos olhar para ela.
— Sim, senhor, providenciarei isso agora mesmo. O senhor quer que eu
mande chamar o senhor Hamar?
— Já deveria ter feito isso assim que me viu entrar na recepção. —
Desta vez a olho friamente. — O que está esperando? Ande! — Fico de pé e
sigo até a moça trêmula, ficando diante dela. Ela é bem pequena para o meu
tamanho, tenho quase 1.90m de altura. Eu sei que lhe dou medo e gosto
disso. — Vamos, senhorita Agnes, está esperando o que, para fazer o que
mando?
A moça quase torpeça em suas próprias pernas quando se vira pelos
calcanhares e corre em direção à sua mesa.
— Onde esse fedelho está?! Onde?
Meia hora depois, escuto vozes alteradas vindas diretamente da
recepção. Até o Alfredo se assusta, e minutos depois a porta da minha sala é
aberta abruptamente. Antes mesmo que eu possa entender o que está
acontecendo, sou pego com violência pela lapela do meu paletó.
— Seu moleque insolente, quem você pensa que é para mandar fechar as
minhas contas no banco? — Hamar sacoleja o meu corpo, seu olhar me
fuzila.
Se ele está assim porque mandei bloquear todas as contas que estão
relacionadas à minha empresa, imagine quando souber o que virá a seguir.
— Solte-me, Hamar... — Seguro-o pelos ombros e o fito friamente. Fixo
os meus olhos nos dele e me mantenho firme.
Basta só um empurrão para jogá-lo a alguns metros de distância. Ele é
alto, mas é velho.
— As contas não são suas, são da minha empresa e estavam sob
investigação. Agora acabou a mamata... solte-me, Hamar, ou não respondo
por mim.
Ele empalidece. Livro-me das suas mãos e volto para o meu lugar.
Sento-me enquanto observo a sua linguagem corporal.
— É melhor o senhor se sentar, Hamar — Alfredo lhe mostra uma
cadeira.
— Você sabia de tudo isso, não sabia, Alfredo? — Olha para o Alfredo
com desdém. — É claro que sabia. — Hamar se senta.
— Ora, Hamar, você pensou que eu não descobriria suas falcatruas?
Acha mesmo que sou um ingênuo? Será que passei esses anos todos
estudando e não aprendi nada? Faça-me um favor.
— Sim, e quem pagou os seus estudos fui eu, ou você pensa que estudou
em Oxford de graça? Aquela Universidade custa uma fortuna...
— Cale-se. — Bato fortemente na mesa com meu punho fechado,
levanto-me e o encaro com fúria. — Você não pagou nada, o dinheiro não
veio do seu bolso. O que pensava enquanto administrava tudo isso? — saio
de trás da mesa e sigo até ele. — Pensou que isso um dia seria seu? Ou que
eu assinaria a documentação para vender a empresa da minha família? Achou
isso mesmo?
Agora sou eu que o seguro pela aba do paletó.
— Raphael... senhor conde, se acalme. — Alfredo vem até mim, tenta
me afastar do Hamar. — Deixe-o. Lembre-se, ele é seu tio.
— Moleque, enquanto você brincava de estudar, eu me matava para
manter isso aqui de pé...
Foi demais escutar isso.
— Hamar, cale-se! — interpelo-o — Eu já sei de tudo! De tudo,
entendeu? Inclusive sei sobre a mansão que você comprou em Londres para
sua amante e a sua filha bastarda. — Ele empalidece outra vez. — Sei das
duas contas em Genebra em nome da sua esposa, para onde vai todo o
dinheiro que você desvia da minha empresa... EU SEI DE TUDO! — Grito,
bem próximo ao seu rosto.
— Como descobriu? — Inquire com voz trêmula.
— Mandei investigar e depois mandei fazer uma auditoria sem você
saber. — Afasto-me dele, enfio as mãos nos bolsos da minha calça e o fito
friamente. — Você vai me devolver tudo, vai transferir todo o dinheiro que
me roubou, inclusive eu quero o valor da mansão em Londres. Cada centavo
que foi roubado será devolvido, e quero isso para ontem, ou então será
preso...
— Raphael... — Agora sou o Raphael, não é, sujeitinho asqueroso? —
Não tenho como fazer isso agora, desse jeito vou à falência. Posso devolver o
dinheiro das contas de Genebra, mas o restante não tenho como devolver. Por
favor, perdoe-me.
Se ele soubesse que comigo não tem perdão, não perderia seu tempo
pedindo isso. Mas ele saberá disto agora.
— Devolva-me tudo e não será preso, como irá fazer isso é problema
seu. E tem mais, seus empregados, que estão na folha de pagamento da minha
empresa, a partir deste mês não receberão através de mim. Agora saia da
minha frente, você tem um mês para pagar tudo o que me deve.
Hamar sai da minha sala, cabisbaixo. Ele certamente não esperava que
eu descobrisse todos os desfalques, cada detalhe sórdido. Ele subestimou o
menino órfão problemático.
Um mês depois ele me devolveu cada centavo, inclusive o valor da
mansão em Londres. Não sei e nem me interessa saber como ele conseguiu.
O importante é que estamos quites. Nós cortamos todos os laços, e para mim
estava ótimo assim.
Até hoje meu tio Hamar não fala comigo. Oito anos depois, nem nos
cumprimentamos.
RAPHAEL

Aspiro o ar fortemente, expulsando as lembranças e os fantasmas


que me atordoam e volto-me para o Alfredo, que está bem atrás de mim,
observando-me com atenção. Vou até ele.
— Está tudo bem, só são lembranças. Elas não vão me machucar, meu
velho, elas não podem mais me ferir — digo, abraçando-o com os olhos
marejados.
A quem eu quero enganar? Só se for a mim mesmo.
— Raphael, eu sei que as lembranças fazem parte da sua vida, só não as
deixe conduzi-lo. Não permita que a sua vida seja a sombra do seu passado.
— Responde ele, preocupado, tentando me tranquilizar. — O passado ficou
no passado, nada será como antes, meu filho. Enterre-o, faça o seu presente
diferente para que possa viver um futuro grandioso.
— Sem discursos, Alfredo. Nada do que disser mudará os meus planos.
Não perca o seu tempo tentando me convencer a não destruir aquele monstro.
Em seguida entro no carro, deixando-o com uma expressão taciturna.
Ele demonstrava claramente o quanto não estava satisfeito com os meus
planos. Nunca esteve de acordo com o que planejei, ele e a Mila, sempre que
tinham uma oportunidade, me aconselhavam a desistir desta vingança. No
entanto, eu nunca lhes dei ouvidos. Desde os meus dez anos de idade
coloquei essa vingança como o meu sopro de vida. Era o fato de saber que
um dia eu destruiria Rodrigo González que me fazia acordar todos os dias.
Alfredo entra no carro e dá a partida. Vejo o local do acidente
desaparecer através do espelho retrovisor.
Os portões de ferro da entrada do castelo Bergsen estão abertos. Alguns
empregados foram contratados para virem limpar todo o castelo que estava
fechado desde 1994. Só alguns seguranças fizeram a vigilância durante todo
esse tempo, para evitar roubo ou vandalismo.
Desço do carro e contemplo o lindo jardim florido e as cores vibrantes
que os raios de sol colorem entre as diversas flores das alamedas. Elas se
estendem até onde os meus olhos alcançam. Uma tristeza imensa invade meu
coração e levo as mãos aos olhos, enxugando as lágrimas que teimam em
descer... Foi aqui que vi o último sorriso do meu pai, bem aqui onde estou.
Ele me pôs dentro do carro, passou o cinto de segurança pelo meu corpo e
sorriu para mim, beijando-me na cabeça. Estávamos de partida para a capital
e de lá íamos para o Rio de Janeiro, onde ele se casaria com a Eva. Foi por
causa dela que ele morreu... eu não a culpo, ela também foi vítima do
monstro.
Respiro fundo e entro no castelo.
Nada mudou, tudo continua o mesmo de vinte e quatro anos atrás. As
lembranças dolorosas voltam e junto com elas a vontade de fazer o homem
responsável por tudo aquilo sofrer.
— Raphael, filho...
— Salles. Chame-me de Salles a partir de agora, Alfredo, e dê ordens
extremas a todos os empregados para me chamarem assim. Não quero que
ninguém me ligue aos Bergsen.
— Sim, senhor Salles, providenciarei isso imediatamente. Quer comer
algo?
Alfredo e Mila, quando estão na frente de outras pessoas, insistem em
me chamar de senhor. Por mais que eu peça para que me tratem pelo primeiro
nome, eles preferem manter a hierarquia, mas eu sei que algum dia eles
deixarão as formalidades e me chamarão de filho na frente de todos.
— Não, estou sem fome. Vou me trocar e dar um passeio pelos
arredores do castelo, quero conhecê-lo melhor, já que não tive tempo de fazer
isto quando estive aqui da última vez.
— O seu quarto fica à esquerda, bem no meio do corredor.
— Obrigado! — Subo as escadas apressadamente.
Sigo em frente, várias portas dão para o enorme corredor. Resolvo abrir
uma delas. É um pequeno quarto, mas confortável. Há uma cama de casal,
um estofado marfim e uma linda mesa em mogno. As cortinas brancas de
tecido fino vão até o chão, proporcionando um ar romântico ao quarto. O
quarto só poderia pertencer a Eva, lembro-me que o meu pai me contou que
ela sempre vinha para cá.
Fecho a porta atrás de mim e sigo direto para o meu quarto. Ao abrir a
porta constato que, sem dúvida, aquele era o quarto de meu pai. Enorme e
com algumas pinturas dele penduradas na parede, o aposento possui uma
imensa varanda com vista para o gigantesco jardim. As cortinas são de um
verde-musgo contrastando com o florido do edredom da cama king size.
— Oh, Deus! — Grito, sento-me na cama e minha mão começa a
acariciar o forro da peça de mobília. As lágrimas, que teimavam em cair há
poucas horas, agora descem por meu rosto como um vendaval tenebroso.
A dor toma todo o meu corpo. Escorrego pelo longo edredom até cair ao
chão. — Maldito! Maldito! — vocifero, revoltado. — Você irá me pagar...
Maldito, sangrarei o seu coração, assim como você sangra o meu.
Escondo meu rosto entre as mãos e choro compulsivamente até a
exaustão total.
Alguns instantes depois, recupero o meu autocontrole. Vou até o
banheiro, lavo o rosto, troco minha roupa. Prefiro vestir um jeans escuro e
uma camisa de algodão branca de mangas compridas, apesar de já ser quase
final de tarde e não estar calor, mas dou preferência a algo mais descontraído.
Desço as escadas e sigo em direção à parte não explorada pelos
seguranças. A floresta.
O jardineiro me mostra o caminho, diz que é melhor ir a cavalo, mas
prefiro andar. Sigo por um caminho cercado por pequenas árvores até chegar
a um atalho. Após mais ou menos uns cinco minutos, chego a uma clareira e
paro por alguns segundos. Já estou querendo desistir e voltar para o castelo,
quando vejo um caminho de flores silvestres muito bem cuidado. Tenho
plena certeza de que nenhum dos caseiros viria até aqui cuidar de uma parte
morta da propriedade, mesmo porque no contrato de serviços prestados só
autorizei a manutenção dos arredores do castelo. Alguém cuidava deste lugar,
mas quem?
Sigo as flores, percorro alguns aclives, depois alguns declives, e então
escuto um barulho diferente, parecido com o som de chuva. Dou mais alguns
passos, e entre alguns galhos de arbustos eu vejo uma cachoeira ao longe.
Aproximo-me mais um pouco, e quando já ia passando entre os galhos de
árvores rasteiras, eu paro de súbito.
Nem presto atenção direito na cachoeira que cai do alto de uma rocha.
Meus olhos estão voltados para uma enorme lagoa de águas escuras devido às
folhas verdes que boiam junto com diversas flores de lótus vermelhas. No
meio delas está uma moça nua, brincando com uma flor, ela me lembra
alguém.
Mas, quem?
Não sei. As poucas mulheres que passaram em minha vida, não tiveram
importância alguma, só serviam para distração. Então, volto minha atenção
para linda moça que se diverte no lago.
Não acredito em fadas, sereias, mas pisco os olhos uma porção de vezes
só para ter a certeza de que a moça não é uma miragem ou fruto da minha
imaginação.
Ela solta um gritinho de felicidade e gira o corpo em torno de si mesma,
brincando com a flor, fingindo segurá-la com as mãos. A moça olha em
direção à cachoeira e segue se desviando dos galhos dos lótus submersos. Seu
corpo desaparece sob as águas turvas até chegar nas pedras que dão acesso à
cachoeira de águas cristalinas. A moça sobe na grande rocha e eu vejo o seu
lindo corpo nu. Curvas perfeitas e a pele alva contrastando com os seus
cabelos escuros. Eles são longos, chegam ao alcance das suas nádegas. Fico
hipnotizado por sua beleza, ela parece um dos quadros pintados por meu pai.
A linda moça brinca com as cascatas que descem sobre sua cabeça,
senta-se na pedra e deixa a água cristalina escorrer por seus cabelos. Ela é a
imagem mais linda que os meus olhos já viram e eu fico ali, pasmo,
escondido entre as árvores feito um ladrão prestes a roubar a joia mais valiosa
do mundo.
Então, de repente, a moça pula na água, mergulhando de cabeça. Quase
corro para salvá-la, mas o meu ímpeto é interrompido quando a vejo emergir,
nadando até a parte de lodo onde se encontra os lótus. Ela continua brincando
com as flores.
Quem será esta moça? O que ela faz em minha propriedade? Com
certeza é uma nativa de Paraíso e provavelmente pensa ser a dona das terras
de meu pai, assim como todos dali.
O rancor cresce em mim, pois lembro do ódio que os moradores de
Paraíso sentem pelos estrangeiros e principalmente por minha família.
Saio do meu esconderijo, fico bem perto das roupas da jovem Lótus.
Resolvo apelidá-la de Lótus, já que não me interessa saber o seu verdadeiro
nome.
A moça continua distraída, brinca com uma flor na mão. Para me fazer
notar, limpo a garganta sonoramente. A moça se assusta e os seus olhos
arregalados me encaram. Ela solta um grito e se esconde debaixo das águas
turvas.
Eu a encaro com um olhar sombrio, com os braços cruzados no peito. Eu
sei que pareço assustador, e pelo seu olhar apavorado ela deve achar isso
mesmo. A moça fica estática sob a água, e o universo parece nos observar,
pois de repente tudo fica quieto, não consigo nem escutar o som das águas da
cachoeira batendo nas pedras.
— Quem é você? — acabo com o nosso silêncio perturbador e questiono
a sua presença em minha propriedade. — Esta é uma propriedade particular,
sabia?
A moça pisca os olhos. Encara-me com medo.
— Que... que eu, saiba esta propriedade está abandonada — balbucia.
— Não mais, e quero que saia imediatamente daqui — respondo,
indiferente.
— Quem pensa que é para me expulsar? — Levanta o corpo um pouco e
responde nervosamente, ao levantar-se eu consigo ver os seus seios.
Ela percebe para onde foi o meu olhar e imediatamente mergulha na
água.
— Eu sou o novo proprietário e não quero intrusos em minha
propriedade. Exijo que saia imediatamente. — Brado severamente, e dando
um passo à frente, mostro a minha contrariedade, tanto no tom da minha voz
como em meu olhar frio.
— Eu saio, se o senhor se virar. — Ela começa a tremer, a água deve
estar fria. Olho para o céu, o sol está quase se pondo.
— Não, a intrusa é você, terá que sair da água comigo aqui, do jeito que
estou. — Minha voz se faz ouvir, raivosa, como um lance de flechas
pontiagudas.
— Senhor, será que não vê que estou nua? Não posso sair da água com o
senhor me olhando. Por favor, vire-se para que eu possa me vestir e ir
embora.
— Não. — Agacho-me e seguro suas roupas nas mãos. Ergo-me e a
encaro com provocação. — Saia, agora!
— Não. Com o senhor me olhando, eu não saio — rebate com
impaciência.
— Tudo bem, pode ficar aí, daqui a pouco ficará escuro e a água se
tornará tão gelada que o seu corpo ficará como um maracujá murcho, e eu
tenho todo o tempo do mundo.
Estarrecida, a moça me olha como se não acreditasse no que acabara de
escutar.
Alguns minutos depois, ela sai da água cobrindo suas partes íntimas,
seus seios e sua vulva. Trêmula até os ossos. Não desvio os olhos do seu
rosto nem do seu lindo corpo nu. Entrego-lhe suas roupas.
Para pegá-las, ela precisa descobrir os seios. Ao vê-los tão de perto sinto
uma necessidade louca de tocá-los, salivo de vontade.
— Seu idiota prepotente, insolente. Asqueroso filho da mãe... —
Murmura, praguejando palavras furiosas enquanto me olha com raiva.
Dou dois passos para frente e a seguro firme, circulando os meus braços
em volta do seu corpo nu. Seus seios bicudos roçam meu corpo, sinto-os tão
duros. Ela me olha assustada, encara-me e o seu olhar dourado é
hipnotizador.
— Solte-me, ou então eu grito... — Tenta livrar-se do aperto dos meus
braços. Chuta-me as pernas, tenta me morder.
— Grite, pode gritar à vontade. Duvido muito que alguém a ouça, e se
ouvir, de nada vai adiantar, você invadiu minha propriedade e eu posso
mandar prendê-la, se quiser.
Aperto-a com mais força. Ela inclina a cabeça e eu posso ficar mais
perto do seu rosto. Seus lábios são carnudos, o nariz pequeno, as bochechas
salientes e rosadas. Ela é muito mais linda de perto. Seu corpo nu, trêmulo,
voluptuoso, me deixa excitado. Meu membro pulsa enlouquecido. Ao senti-lo
ela tenta se afastar, suas mãos espalmam em meu peito, empurrando-me.
— Deixe-me ir, seu tarado. Solte-me...
— Tarado? Você invade uma propriedade particular, entra nua em um
lago, e eu que sou tarado? Vou mostrar a você o quanto sou tarado.
Beijo-a com posse, saciando minha vontade de provar aqueles lábios
carnudos e vermelhos. Ela tenta lutar contra minha invasão, tenta me morder,
mas eu sou mais forte e muito maior. E quando a minha língua invade sua
boca e eu chupo a sua, ela estremece, geme baixinho, e aos poucos, seu corpo
vai abrandando, e assim consigo explorar suas curvas com minhas mãos,
acariciando-as com delicadeza. A moça mostra timidez, quase posso afirmar
que ela não sabe beijar, pois não sabe muito bem o que fazer com a minha
língua. Contudo, eu a beijo implacavelmente e aos poucos suas mãos
começam a alisar o meu peito e ela me deixa beijá-la. Eu poderia fazer o que
eu quisesse naquele momento. Poderia deitá-la no chão e fazer sexo com ela,
mas não foi para isso que vim a Paraíso, então eu a solto bruscamente,
deixando-a perplexa, sem fôlego. Ela teria caído de joelhos se eu não a
tivesse segurado.
— Vá embora da minha propriedade e não volte mais. Se o fizer
novamente eu solto os cachorros em você. — Digo friamente, olhando
fixamente em seus olhos, enquanto minha mão a segura pelo cotovelo. —
Entendeu? Não quero vê-la novamente, se insistir em vir aqui, solto os
cachorros em você.
Afasto-me, dando dois passos para trás.
A moça começa a chorar e a tremer, veste-se rapidamente e sem olhar
para mim, vira-se para partir. Começa a se afastar, mas antes de desaparecer
através das árvores diz:
— Você é o homem mais insuportável, frio e arrogante que já conheci.
— Já fui chamado por coisas piores, pequena Lótus. Adeus!
Viro-me e sigo na direção oposta.
Não sei para onde ela foi, nem me interessa saber, mas ainda sinto o
sabor da sua língua em minha boca.
LILLY

Sujeitinho arrogante. Quem ele pensa que é? Certamente o dono


do mundo. Se ele acha que por causa de alguns gritos e ameaças vou deixar
de ir à cachoeira, está muito enganado...
— Eu vou, sim, Senhor Dono do Mundo. — Vocifero a todo pulmão a
minha frustração.
— Vai para onde? E quem é esse tal de “Senhor Dono do Mundo”, dona
Lilly?
Vanuza corta os meus pensamentos.
Estou andando pelo corredor a caminho do meu quarto quando escuto a
sua voz, questionadora. Viro-me em direção a ela.
— Lilly! — Ao constatar o meu estado físico, sua voz se altera,
abismada. — Diabos, menina, você estava naquela bendita cachoeira outra
vez? Se o seu pai souber ficará uma fera. Quantas vezes ele já brigou com
você por causa disso? Poxa, filha, custa obedecer?
Ela vem até mim. Abraça-me e eu sou levada para o quarto. Ela tenta me
aquecer com o seu calor. Estou com as roupas úmidas e os cabelos
encharcados.
Ao entrarmos no quarto, Vanuza vai até o banheiro e traz uma toalha
felpuda. Enquanto me enxuga, ralha comigo:
— Lilly, o seu pai não quer que vá até a propriedade vizinha. Eu nem
quero imaginar o que será capaz de fazer se descobrir que você anda por lá...
Tome juízo, menina, esta fazenda é enorme, deve ter alguma coisa por aqui
que você queira fazer.
— Meu pai isso... meu pai aquilo... — murmuro, tristemente. — Meu
pai nem sabe que eu existo, eu mal o vejo. Quando ele não está dormindo,
está bêbado — completo com desânimo.
— Não diga isso, filha, o seu pai anda ocupado, é por isso que você não
o vê. E quanto a bebida... — ela esfrega a toalha em meus cabelos. — Os
homens bebem, Lilly, e bebem muito, isso é normal. Seu pai é um homem
sozinho, ele precisa se divertir com alguma coisa...
Puxo a toalha das mãos dela e a encaro. Pego as suas mãos e faço com
que se sente ao meu lado.
— Nuza — é assim que a chamo carinhosamente —, por que o papai
não se casou novamente? Eu acho que se ele tivesse se casado outra vez,
talvez não me odiasse tanto.
Vanuza me puxa para um abraço. Respira profundamente, e segundos
depois, se afasta um pouco, só o suficiente para que suas duas mãos cerquem
o meu rosto. Seus olhos varrem a minha face com carinho.
— Seu pai não a odeia, filha. Seu pai a ama, Lilly...
— Odeia, sim — interrompo-a — Se não me odiasse, não tinha me
mandado para longe dele quando ainda eu era uma criança... — as lágrimas
começam a nublar os meus olhos. — Ele me mandou para um país distante,
onde se fala outra língua. Você nem imagina como me senti só, o quanto
chorei, o quanto chamei por ele... — Ela me abraça outra vez e chora comigo.
— Eu imagino sim, filha. Claro que imagino, mas seu pai precisou fazer
isso, querida, ele só queria protegê-la...
— Proteger? — Corto a sua fala. — Proteger de quê? Eu tinha cinco
anos, Nuza, cinco anos! Eu precisava dele e ele me mandou para um país
distante, e o pior é que só voltei a vê-lo sete anos depois. Nem o reconheci
quando o vi, e até hoje nós mal nos falamos. Papai fazia e faz questão de
continuar me mantendo afastada e você quer me convencer que ele me ama?
Que tipo de amor é esse?
— Filha, eu sei que é difícil de você entender, mas o seu pai só queria
protegê-la dele mesmo. Era e ainda é muito difícil para ele vê-la todos os
dias. Lilly, o seu pai só amou duas pessoas na vida... sua mãe e você. E ficar
perto de você é doloroso demais para ele, pois você é a cópia da sua mãe.
Isso faz com que ele sofra, e para não a magoar ele preferiu afastá-la.
— Eu não entendo esse amor do papai por mamãe. Que amor é esse que
faz com que destrua tudo o que foi da outra pessoa só para não se lembrar
dela? Nem uma foto da minha mãe sobrou para que eu pudesse me recordar
de como ela era... Nenhuma foto, Nuza.
— Lilly, cada um sofre e chora a sua dor de maneira diferente, seu pai
escolheu este caminho, ele escolheu a solidão. Eu só posso afirmar que ele
amou e ainda ama muito a sua mãe, ama tanto que nunca mais quis saber de
outra mulher. Perdoe-o, filha, ele acha que está te protegendo, mantendo-a
afastada dele.
Vanuza acaricia o meu rosto, enxugando as minhas lágrimas e me beija
com carinho. Aceito os seus afagos, pois durante todos esses anos ela foi
minha única fonte inesgotável de amor. Vanuza, que me acolhia em seus
braços amorosos quando uma vez ou outra eu vinha passar alguns dias na
fazenda, pois eu mal via o meu pai. Era com ela que eu sorria e conversava.
Muitas vezes eu dormia em seu quarto, pois o choro e a saudade que sentia e
sinto do meu pai fazia doer o meu coração. Na Suíça, o colégio era enorme e
eu vivia cercada de muitas pessoas, mas sempre fui sozinha, tendo como
companhia só a minha tristeza.
— Agora eu quero saber o que a fez ficar zangada daquele jeito, a ponto
de praguejar em voz alta.
Ela sorri, tentando afastar a tristeza que ronda os meus pensamentos.
Nuza me conhece, sabe o quanto a falta de amor me afeta.
Sorrio de volta, levanto-me e vou trocar de roupa. Enquanto me visto
conto o que aconteceu.
— É um ser arrogante, que se acha o dono do mundo, mas se ele pensa
que falar grosso comigo e me ameaçar vai me afastar da cachoeira, ele está
muito enganado. Não vai mesmo, eu...
— Espere um momento... — Nuza vem até mim, vira-me para ela. Olha-
me seriamente. — De quem você está falando? Quem a ameaçou? Você está
falando da cachoeira da propriedade vizinha, é isso?
Afasto-me e digo enquanto penteio os meus cabelos:
— Estou falando do novo proprietário do castelo, aquele filho de uma
mãe ordinário, todo dono de si, arrogante e presunçoso. — Paro de pentear os
cabelos, olho para ela e gesticulando com o pente na mão, completo: — Você
acredita que ele ameaçou soltar os cachorros em mim, se eu voltar à
cachoeira?!
— Deus do céu! Lilly, você não vai voltar lá, ou vai? — olho para ela e
arqueio as duas sobrancelhas, juntando-as. Era a minha maneira de responder
que sim. — Lilly... você não fará isso.
— Ele não perde por esperar, não tenho medo dele... Eu o odeio, odeio
aquele homem asqueroso. — Jogo o pente longe.
— Pare com isso, você não foi feita para odiar, foi feita para amar. Saiba
que você herdou o melhor dos seus pais, o amor. Por isso em seu coração não
há lugar para sentimentos mesquinhos. — Nuza vai até o armário, pega um
casaquinho de lã rosa e me ajuda a vesti-lo — Então me conte, como é o
nosso novo vizinho?
Descrever o homem que me beijou daquele jeito possessivo, que fez
com que o meu coração quase saísse do peito, que deixou minhas pernas
bambas e me fez sentir um calafrio na barriga, sem esquecer de minhas partes
baixas, que ficaram úmidas? Era muito fácil.
— Aquele lá, aquele ser desprezível, bem... ele é... alto, moreno, cabelos
castanhos escuros. Tem braços fortes, um peito que dá vontade de encostar a
cabeça, pernas musculosas, uma boca... Deus! Que boca! Um par de olhos
verdes e cheira muito gostoso... ele é o homem mais lindo que eu já vi. —
Suspiro, revirando os olhos.
— Nossa! Você tem visto muitos homens lindos, então! Só não sei onde,
porque o único homem lindo daqui é o seu pai e esse não conta. Os outros da
fazenda, se bater tudo no liquidificador não dão um copo. Onde você viu
homens tão bonitos para comparar com esse ser insuportável? — Vanuza
pergunta ironicamente, rindo de mim.
— Nas revistas e TV — defendo-me. — Pare de rir de mim, Nuza, o
homem é lindo mesmo, mas é metido demais. Parece ser estrangeiro, ele tem
sotaque, mas fala perfeitamente a nossa língua, e foi assustador quando me
olhou profundamente.
— Bem, mocinha, eu acho melhor a senhorita ficar longe da propriedade
dele, se não quiser arrumar confusão com seu pai, ou até uma guerra. Você
sabe perfeitamente que o seu pai não gosta de estrangeiros. Acho até bom ele
não ficar sabendo que a propriedade vizinha foi vendida, apesar de saber que
não vai demorar muito para que ele se inteire da novidade.
— Por mim tudo bem, mas não vou desistir da minha cachoeira, eu tive
um trabalho enorme para limpar tudo aquilo, e não vou poder desfrutar!
Escreva o que eu digo, eu vou convencê-lo a me deixar usar a cachoeira, ou
não me chamo Lilly.
Nuza me abraça, beija meu rosto e segundos depois ela me guia pelo
corredor.
— Eu não duvido, mas enquanto isso não acontece, a senhorita precisa
comer.
Ela me leva para a cozinha e me serve um delicioso prato de sopa de
legumes. Nuza me acompanha no jantar e enquanto comemos ela me conta
como foi a sua tarde. Como sempre, reclama das suas ajudantes, duas ao
todo. Lembro-me que antes havia muitos empregados espalhados pela casa e
por toda a fazenda. Hoje só restaram duas moças para ajudá-la na lida da
grande casa.
Não sei como elas conseguem, pois só de quartos são dez. Ainda há três
salas enormes, o gabinete do papai, uma biblioteca e a cozinha, sem esquecer
a quantidade de banheiros. É muito trabalho para três pessoas. Para cuidar da
fazenda, que produz feijão e café, antes tínhamos uma quantidade enorme de
trabalhadores. Agora eu posso contar nos dedos quantos temos na
propriedade. Que eu conheço pelos nomes são cinco e mais quatro que eu
vejo vez ou outra. Talvez o papai não precise de muita mão de obra, ou
realmente estejamos passando por sérias dificuldades financeiras. No pouco
diálogo que tivemos, ele garantiu que não, disse-me que o fato de me tirar da
faculdade antes do término da minha pós-graduação – só faltava um ano – foi
para eu poder terminá-la na cidade mais próxima, aqui mesmo no Brasil.
Estou esperando até hoje ele me levar até a outra cidade para me matricular
na faculdade de Filosofia.
— Quer mais sopa, Lilly? — Nuza está recolhendo o seu prato para
levar à pia, e antes de ir, pergunta se estou satisfeita ou se quero comer mais.
— Você precisa se alimentar melhor, menina, está muito magra. — Observa.
Não concordo com ela, estou muito bem comigo mesma. E do jeito que
o insuportável do meu vizinho me olhou, estou bem atraente.
— Não. Estou satisfeita, Nuza, e não estou magra, estou na medida
certa.
Levanto-me, levo meu prato até a pia e começo a lavá-lo. Nuza, ao me
ver fazer isso, toma-o das minhas mãos.
— Quer tomar o meu emprego? — ralha. — Vou logo avisando, o
salário não compensa, então dê o fora da minha cozinha e vá procurar outra
coisa para fazer, desde que não seja uma das minhas funções. — Seus olhos
sorriem com um brilho de divertimento, enquanto joga o pano de prato em
minha direção.
Deixo Nuza arrumando a cozinha e saio à procura de algo para fazer,
pois estou sem sono. Acostumada a dormir cedo, hoje o sono resolveu dar um
passeio, decerto é a confusão de sentimentos novos que afloram no meu
coração – um certo homem arrogante – tirou o meu sono. Nem sei o seu
nome, nem quem ele é, mas aquele ser pedante mexeu comigo e eu preciso
tirá-lo dos meus pensamentos.
Entro na biblioteca e escolho um livro qualquer, nem leio o título,
apenas o abro e começo a folheá-lo aleatoriamente. Já estou me sentando
quando escuto um barulho vindo do gabinete do papai, certamente é ele.
Largo o livro na mesinha e sigo em direção ao local.
Nem bato na porta, entro sem pedir licença.
— Papai — murmuro, minha voz soa tão baixa que nem eu mesma
consigo escutar. — Papai — repito com mais força na voz. Ele está
procurando algo nas gavetas.
— O que quer? — pergunta com pouca amabilidade. — Precisa de
quanto? — nem levanta a cabeça para me olhar, continua procurando por
algo. — Inferno...! Inferno...! — blasfema agressivamente. — Merda! —
continua praguejando furioso.
— Não... — aproximo-me mais. — Não quero dinheiro, quero conversar
com...
— Não tenho tempo para conversas — ele me corta. — Se não quer
dinheiro, vá embora, estou ocupado no momento. — Fala com rispidez.
— Papai, por favor, olhe para mim — suplico, quase em lágrimas. —
Sou eu, a Lilly, a sua princesa, lembra-se? A sua filha, a menina que o senhor
abraçava, beijava. A menina que o senhor fazia feliz... por favor, olhe para
mim, estou com muita saudade do senhor.
Não consigo mais controlar a minha necessidade de ser notada pelo
homem que mais me amou na vida. Eu só quero que ele diga por que deixou
de me amar, por que eu deixei de ser importante para ele.
— Papai, olhe para mim, só olhe. — Ele interrompe a sua procura, mas
continua de cabeça baixa, respirando pausadamente. — Por que o senhor não
me ama mais? Por que me ignora, o que eu fiz? Se fiz algo que o aborreceu,
perdoe-me, faço qualquer coisa para que possa voltar a me amar, eu só quero
o meu pai de volta... papai, eu o amo tanto...
Silêncio.
Depois de alguns instantes angustiantes, volto a falar entre as lágrimas
doloridas que escorrem por meu rosto.
— Papai, responda-me, por favor. Eu preciso saber por que me odeia
tanto...
Finalmente ele ergue a cabeça e fixa um olhar sofrido em meu rosto. Ele
chora e eu sinto a sua dor. Tenho vontade de abraçá-lo e dizer-lhe o quanto o
amo quantas vezes for preciso para livrá-lo daquele sofrimento...
E é isso o que eu faço. Corro em sua direção, agacho-me, fico de joelhos
e o abraço com força. Ele nada diz, só soluça a sua dor.
— Papai, eu senti tanto a sua falta, precisei tanto do senhor... eu o amo
tanto, tanto. — Beijo o seu rosto molhado por diversas vezes, no entanto, ele
não faz nada, continua imóvel, duro feito uma rocha. Só suas lágrimas dão
sinal de que ele está ali comigo. — Papai, diga alguma coisa.
Finalmente ele suspira, fita-me com um olhar indecifrável. Não me toca,
usa as mãos para limpar o próprio rosto.
— Eu não a odeio, Lilly... eu só preciso ficar longe de você, só isso.
Trazê-la de volta para esta casa foi o meu pior erro, se eu pudesse... se eu
pudesse a teria mandado para um lugar mais longe, mas infelizmente eu não
posso e agora preciso me acostumar à sua presença...
Seu olhar sofrido avalia cada detalhe do meu rosto, ele levanta a mão e
me toca, seus dedos deslizam em minha pele delicadamente. Ele fecha os
olhos por alguns segundos, como se quisesse memorizar ou lembrar de algo.
As lágrimas descem com mais força por sua face.
— Você é tão parecida com ela... — eu sei que ele está falando de
mamãe. — Até a sua voz é quase igual a dela. Às vezes, eu penso ser ela
andando pela casa... — ele abre os olhos, me encarando outra vez. — Lilly,
eu não a odeio, jamais a odiarei. Só quero que fique longe de mim...
entendeu? Longe! Bem longe de mim! — vocifera.
Sou empurrada com força e caio sentada no chão. Papai se levanta e sai
apressadamente do gabinete, batendo a porta atrás de si com violência e me
deixando aos prantos no chão frio, sem entender o porquê do seu
distanciamento.
4
RAPHAEL

Já faz três dias que estou em Paraíso. As coisas estão indo de acordo
com o que planejei, estão até melhores do que eu esperava. Falta pouco para
dar o golpe de misericórdia em Rodrigo. Ele já não tem mais saída, suas
dívidas de jogo são impagáveis, está completamente arruinado, mas ainda
não é o bastante, pois quero deixá-lo bem desesperado a ponto de vender a
própria alma.
— Senhor Salles, os investigadores chegaram. Estão no escritório.
— Obrigado, Alfredo. Sirva algo para eles beberem, já estou descendo.
Alfredo sai e fecha a porta. Estou ansioso por saber como andam as
investigações e sobre todo o processo da decadência dos González.
Antes de ir ao encontro dos dois investigadores, olho-me no espelho.
Estou com um pouco de olheiras, pois desde que cheguei a Paraíso não tenho
dormido direito, por dois motivos. Primeiro, por causa do assassino do meu
pai; segundo, por causa de uma moça que teima em me desafiar, mas hoje
vou surpreendê-la. Assim que me livrar das minhas visitas.
Entro no escritório. Os dois homens estão apreciando uma xícara de
café, o cheiro bom vem até mim.
— Boa tarde, senhores. — Eles se levantam para me cumprimentar. —
Fiquem à vontade. — Sento-me, estico o corpo para trás e os observo,
enquanto sorvem o café. — Então, o que os senhores trouxeram para mim?
— inquiro.
— Muitas novidades — responde um dos homens, o senhor Lawrence, o
mais alto e careca da dupla — Inclusive que a filha do Rodrigo não está mais
na Suíça. Segundo a diretora, o pai mandou buscá-la. Ela está aqui, em
Paraíso, muito bem guardada na fazenda, e descobrimos que ele anda tão
desesperado que está procurando um casamento bem vantajoso para a filha.
Dirijo minha atenção para ele, não esperava escutar isso. Eu preciso agir
o mais rápido possível.
— Ele já tem algum pretendente em vista? Se tem, quero saber quem é,
não quero falhas. Vocês são muito bem pagos para fazer este trabalho e não
admito erros, entenderam? — eles se mexem, inquietos, nas cadeiras, olham
um para o outro e assentem com a cabeça quando dirigem o olhar outra vez
para mim.
— Claro, senhor Salles — afirma o outro investigador, Ailton, o
baixinho corpulento. — A propósito, já saldamos a dívida do senhor Rodrigo
com os dois agiotas da capital, a dívida dele agora é do senhor. E ontem ele
pediu mais um alto empréstimo na casa de aposta. O homem está o devendo
até as próximas dez reencarnações, se de fato isso existir. É muito dinheiro.
— Pois que deva, eu o quero no fundo do poço e com uma corda bem
grossa no pescoço, sem saída alguma — comento, cuspindo o meu ódio.
Os dois homens dirigem os olhares para mim, curiosos.
— Ele já não tem como pagar, todas as propriedades dele foram dadas
como garantia para saldar as dívidas antigas. As novas estão acumuladas há
mais de quatro anos, não sei por que o senhor insiste em emprestar-lhe mais
dinheiro, se sabe que ele não tem como quitar a dívida — observa Ailton.
— Ele terá, Ailton, e não vai demorar muito para que eu cobre. —
Levanto-me, os dois homens também, e estendo a mão para me despedir. —
Continuem alimentando o vício do Rodrigo, façam como mandei. Façam com
que ganhe duas vezes, deixem-no bastante confiante, e quando ele apostar
tudo, que ele perca, ok?
— Ok, como o senhor quiser. Até mais.
Apertamos as mãos e eles vão embora. Eu sigo a caminho da cachoeira,
ao encontro de uma moça que está me tirando o sono.
Desta vez prefiro ir a cavalo até a clareira. Escolho um cavalo puro-
sangue, de pelos negros. Monto na sela, aperto os flancos do animal e ele sai
trotando. Em menos de oito minutos estou na clareira, então desço do cavalo
e o deixo seguro, preso em um tronco. Faço o mesmo percurso que já
conheço, quando escuto o som das águas da cachoeira batendo nas rochas
marrons. Eu já sabia que a pequena Lótus estava se banhando entre as flores.
Sou um homem perspicaz, já sabia que aquela moça não aceitaria um não, ela
certamente voltaria à cachoeira. Então mandei instalar duas câmeras de
segurança no local e do meu notebook eu poderia saber se alguém invadiria
aquela parte da minha propriedade. Dito e feito, a pequena Lótus invasora
voltou e durante os dias que se passaram eu só a observei de longe. Sabia até
o horário que ela vinha se banhar no lago.
Lá está ela e desta vez não está nua, como das outras vezes. Desta vez
veste uma roupa de banho, o que é uma pena, pois adoro ver o seu corpo alvo
adornado de belas curvas. Seu traseiro parece um coração, os quadris largos e
a cintura fina desenham a forma de um violão. Seus seios redondos e
pontudos deixam as minhas mãos coçando de vontade de tocá-los, mas o que
mais me excita é ver seu monte de vênus coberto por uma penugem escura,
desenhando um pequeno triângulo. As mulheres com as quais compartilhei a
cama são sempre lisas em suas partes íntimas, mas a pequena Lótus tem pelos
nos lugares apropriados, o que muito me agrada, e hoje eu vou tocá-los.
Faço-me notar quando me aproximo da beira do lago, agacho-me e pego
as suas roupas que estão jogadas em uma pedra. Desorientada, a pequena
Lótus nada para um ponto mais afastado e esconde o corpo sob a água lodosa.
Fito-a com um olhar de desagrado.
— O que faz aqui? — ela pergunta, aterrorizada, no momento em que
percebe que escondo suas roupas atrás de mim.
Olho para trás e jogo as roupas longe. Aproximo-me mais um pouco.
Paralisada de medo, ela nada mais um pouco para perto da cachoeira.
— Eu que pergunto, o que a senhorita faz aqui? Pelo que eu vejo, você
gosta de viver perigosamente. — Chego bem perto da beira do lago, se der
mais um passo molho os meus sapatos. — Saia do lago e vá embora. Eu
avisei que se a encontrasse aqui outra vez soltaria os cachorros em cima de
você.
Acho que ela não levou a sério as minhas palavras. Ela arregala os olhos
ao escutar o tom severo de minha voz.
— Por favor... deixe-me ficar aqui, eu só tenho este lugar para me isolar
quando quero ficar sozinha. Não vou roubar nada, tampouco destruir a sua
propriedade. Olhe como esse lugar está bem conservado, fui eu quem fez
tudo isso. Por favor, deixe-me ficar — murmura, tentando me convencer com
suas súplicas mentirosas.
— Não — digo rispidamente, minha voz soa fria e impaciente — Saia
agora, ou eu mesmo tiro-a daí. Saia agora, sua moleca sem noção. Já! —
grito, cerrando os punhos e dando mais um passo.
Eu sei que as minhas palavras a atingem em cheio, como uma violenta
bofetada.
— Você é um grosso arrogante, se acha o dono do mundo. Custa me
deixar ficar? Esse seu ar prepotente não me engana, insolente filho da mãe —
ela me olha desafiadoramente.
— Não sou o dono do mundo, senhorita sem noção, mas sou o dono
dessas terras e aqui só pisa quem eu quero e autorizo, e a senhorita não é
minha convidada. Agora saia da minha propriedade, ou ligo para os
seguranças e peço para soltarem os cães. — Digo com um olhar frio. Pego o
meu celular e começo a discar.
— Por favor, seja razoável. — Implora. Perco a paciência, retiro os
meus sapatos, calça e camisa, entrando na água.
Ela solta um grito aterrorizado e nada até as pedras. Desvio-me dos
galhos submersos das flores de lótus até alcançar a parte cristalina do rio. Sou
um exímio nadador e chego rápido ao outro lado, onde estão as pedras e é
raso. A pequena invasora tenta escapar de mim subindo em uma pedra, mas
sou mais rápido e, num gesto brusco, prendo-a firmemente em meus braços.
Ao unir os nossos corpos, um fogo traiçoeiro cresce dentro de mim, e já sem
controle das minhas emoções, começo a acariciar o seu corpo, provocando-a.
Em pânico, ela tenta se libertar, mas as minhas mãos sedentas por seu
corpo não a deixam raciocinar direito. Meus dedos a afagam com volúpia,
despertando em seu corpo as mesmas sensações que ela desperta no meu.
Quanto mais ela luta, mais eu a aperto contra o corpo. Nossos rostos estão
próximos, e eu, cego de desejo, roubo sua boca num beijo implacável. Ao
sentir o poder do meu beijo ela se amolece e geme baixinho, mas quando
percebe que está prestes a se entregar ao desejo, reluta contra as sensações
devoradoras e começa a se debater desesperadamente.
— Solte-me, seu... seu idiota — pede. Sua boca ainda colada na minha,
a respiração ofegante, os seios duros com os bicos quase furando o tecido da
sua roupa de banho.
Impaciente, baixo as alças do maiô, deixando os seus seios à mostra e os
contemplo com verdadeira adoração. Minha boca saliva, então baixo os
lábios até o bico duro e o chupo, mordendo levemente. Ela fica
completamente inerte ao sentir minha boca lá e eu faço o mesmo com o outro
seio. Incapaz de resistir ao desejo, ela estremece e em sua última tentativa de
fuga, empurra o meu peito, suplicando em voz murmurante.
— Solte-me, deixe-me ir, por favor...— Eu já sei que isso não é um
“não”, pois todo o seu corpo responde ao meu toque.
Sugo os seus seios com audácia, e o desejo, meu e dela, desperta num
prazer incontrolável. Enquanto a enlouqueço com a boca, minha mão desce
entre suas coxas, afasto o maiô para o lado e os meus dedos acariciam a
penugem escura que eu tanto queria tocar. Os pelos são lisinhos, seu monte
de vênus é rechonchudo. Lótus, ao sentir meu toque, arqueia o corpo,
respirando fundo. Meu dedo escorrega entre seus grandes lábios até encontrar
o seu ponto sensível e eu brinco com ele, esfregando-o sofregamente.
— Oh, Deus! — geme — isso é bom, é muito bom... — diz entre
gemidos.
Estou tão duro que meu pênis chega a doer. Essa moça sem noção está
me tirando a razão, me tirando dos trilhos. Estou louco de desejo, louco para
entrar nela com força.
Eu posso fazer o que quiser com ela nesse momento, posso jogá-la na
pedra, arrancar o seu maiô e possuí-la de todas as maneiras. Posso, mas não
vou. Mesmo desejando-a, mesmo excitado como estou, não vou deixar
minhas emoções dominarem a minha razão...
Afasto-me bruscamente. Ela está de olhos fechados, delirando, a boca
entreaberta, os bicos dos seios duros, vermelhos e molhados pela minha
saliva.
— Espero que tenha aprendido a lição, pequena Lótus. Não brinque com
homens como eu. Agora vá embora e não volte mais, pois da próxima vez eu
não serei tão cavalheiro.
Ela abre os olhos, perplexa. É notável a confusão em seu olhar, decerto
nem percebe o que acabara de acontecer, que eu a rejeitei.
— Idiota, você é um grande idiota. — Diz, alterada, enquanto sobe as
alças do maiô.
— Sim, eu sou um idiota por não querer me aproveitar de você, mas não
se engane, pequena Lótus. Se continuar insistindo em invadir a minha
propriedade, da próxima vez não serei tão educado. Vá embora e não volte,
entendeu?
Viro-me. Vejo o seu olhar percorrer o meu corpo, que só está coberto
por minha cueca. Ela viu o tamanho do meu desejo, grande, duro e espesso,
pulsando dentro da peça íntima.
— Você só me tocou porque eu deixei, seu idiota, só porque eu deixei.
Mas posso rejeitá-lo a hora que eu quiser, Senhor Convencido de Merda.
Ela não entendeu o meu recado. Viro-me ligeiramente, e antes que ela
pisque, já está em meus braços, sendo beijada por minha boca insaciável.
Minhas mãos apalpam o seu corpo, famintas, e quando percebo que ela está
entregue outra vez, solto-a. Fito-a com frieza e sem nenhuma compaixão,
digo:
— Vá embora, enquanto é tempo — minha boca está bem próxima a
dela. — E não volte mais. — A última frase eu grito, e ela estremece. —
Você conhece a história da Chapeuzinho e do Lobo Mau?
A pequena Lótus engole em seco, mas mantém o olhar preso ao meu.
— Conheço. Certamente, você é o lobo mau?
— Não. — Falo com firmeza. — Eu sou o lenhador... o lenhador mata o
Lobo Mau e come a Chapeuzinho, portanto, não venha mais aqui ou o
lenhador irá te comer. Adeus, pequena Lótus.
Dou-lhe as costas e mergulho nas águas cristalinas, até chegar à parte do
lodo das flores de lótus. Ela fica escorada na pedra tomando fôlego, olhando-
me. Sinto o seu olhar em mim, mesmo sem me virar para observá-la.
Desapareço entre as árvores, deixando-a completamente atordoada.
5
LILLY

Idiota! Cretino! Imbecil! Insuportável e arrogante filho da mãe! E


você, Lilly, é uma fraca. Como pôde se entregar tão facilmente aos encantos
daquele homem inescrupuloso? Como, Lilly?
Garota fácil. Eu sou uma sem moral, é isso que eu sou.
— Ai... que raiva de mim. — Reconheço que, mesmo que eu queira
resistir àquele homem, era inútil forçar a natureza. — Ele é irresistível, não
dá para negar...
Que ódio!
Sento-me em um dos degraus da escadaria que dá acesso à enorme
varanda da casa. A lua cintila densamente, sopra uma brisa leve, típica das
regiões montanhosas. A noite é regida pelos sons dos grilos e das aves
noturnas.
— Quem é irresistível, e por que a senhorita está com raiva de si
mesma? O que andou aprontando, Lilly?
O silêncio é rompido pelo som da voz curiosa de Nuza. Viro minha
cabeça em sua direção. Ela está de pé no topo da escada, com as mãos
apoiadas nos quadris e uma cara de brava.
— Não fiz nada, Nuza. — Protesto. Fico na defensiva imediatamente,
pois eu sei que ela virá com seus discursos. Ela desce alguns degraus e senta-
se ao meu lado.
— Olhe para você, menina! Cabelos molhados e desalinhados — inclina
o corpo para observar o meu rosto — bochechas rubras e respiração ofegante.
Está claro que andou aprontando, e posso apostar que foi lá para os lados da
propriedade do vizinho novo, não foi?
— O vizinho insuportável... — respondo baixinho, baixando o rosto.
Nuza segura uma das minhas mãos, toca-me de leve no queixo e me faz
fitá-la.
— Acho que o nosso vizinho está afetando o seu coraçãozinho, acertei?
Subitamente sinto o meu rosto queimar com aquela afirmação e retiro
sua mão do meu queixo.
— Errou feio, Nuza, aquele ser asqueroso nunca afetará o meu coração.
Só de pensar nele, eu... eu...
— Você perde a noção de tudo. — Ela me interrompe. Sua mão volta
para o meu queixo e mais uma vez ela exige o meu olhar. — Lilly, não tente
enganar a si mesma. Olhe a sua linguagem corporal, seus olhos brilham
quando faz qualquer comentário sobre esse homem. Vamos, me conte o que
aconteceu.
— Não aconteceu nada. — Dou de ombros, tentando ser indiferente.
— Lilly! — Insiste Nuza, perguntando outra vez, como se não
acreditasse em mim.
— Minha querida, eu a conheço desde que nasceu, e apesar de não
acompanhar todo o seu crescimento, eu sei perfeitamente quando está
confusa, triste ou feliz, e agora sei que está com um turbilhão de sentimentos
bagunçando esse seu coraçãozinho. Não precisa se esconder de mim, só
quero ajudar.
Jogo-me em seu colo. Suas mãos pairam sobre minha cabeça e logo
começam a acariciar os meus cabelos. Sinto-me abraçada por um anjo. Nuza
sempre foi para mim como uma protetora, minha única figura materna, então,
por que não confiar nela e colocar tudo o que me assusta para fora? A bem da
verdade, sozinha não conseguirei desvendar o que está acontecendo comigo.
Nunca senti o que estou sentindo agora, essa confusão de sentimentos, os
arrepios pelo meu corpo, os suores e os tremores quando o meu vizinho
insuportável está me tocando ou simplesmente está próximo a mim. São
sensações que nunca senti antes. Talvez a Nuza possa saber o que está
acontecendo, porque eu não sei.
— Sabe... — respiro profundamente. — Eu nem sei o nome dele, não sei
quem é e às vezes eu o odeio, mas às vezes, eu quero que ele... que ele me
beije, me abrace, toque em mim de todas as maneiras possíveis. Mas..., mas
eu sei que é errado, eu sei que não está certo, afinal ele é um desconhecido. É
arrogante, estúpido..., mas, eu sinto coisas quando ele está perto de mim. —
Ergo o corpo e encaro a Nuza. — Nuza, eu estou com medo. Ele é lindo, e só
de olhar para ele tenho vontade de me jogar em seus braços, isso é normal?
Ela me puxa para os seus braços calorosos e após alguns segundos de
ternura, meu corpo é afastado e dois olhos me encaram seriamente.
— Sim, isso é normal, mas primeiro eu preciso saber se estamos falando
realmente do nosso vizinho misterioso. É ele? — Eu assinto, afirmando com
a cabeça. — Ok, eu não o vi, mas pelo o que você me contou, ele deve ser
realmente um belo homem. Lilly, sentir essas emoções por um homem é
normal, ainda mais para uma moça como você, que foi criada atrás de
muralhas, longe do mundo masculino. Não fique assustada, querida, eu acho
que você está se apaixonando, só tenho medo que possa se machucar, pois eu
não sei se o “insuportável” está retribuindo esses mesmos sentimentos. Os
homens são diferentes de nós, mulheres, às vezes os interesses deles são
meramente sexuais. Você sabe do que estou falando, não sabe?
— Sim, eu sei o que significa, não sou tão ingênua assim, Nuza. Posso
ser inexperiente, mas burra não sou. E eu acho que é o que ele quer, mas, às
vezes, eu me esqueço deste detalhe quando estou perto dele...
— Lilly... — sou interrompida, e Nuza me segura pelos ombros. — Por
Deus! Você e ele, não... não fizeram... — ela agita o meu corpo levemente.
— Filha, vocês fizeram sexo?
— Não. — Grito e me livro das suas mãos. — Não, não fizemos sexo —
ia dizer que quase fizemos, mas acho melhor não entrar em detalhes —, só
nos beijamos e foi muito bom. Eu acho que ele gostou também.
— Jesus! Lilly, você não sabe nada sobre esse homem. Tenha cuidado,
filha, e se ele for casado? Não faça nada que possa se arrepender depois.
Ela olha profundamente em meus olhos e sinto a sua preocupação. Eu
sei o que se passa em sua cabeça, pois passa também pela minha. Apesar de
nunca ter tido nenhum tipo de relacionamento afetivo, não sou uma moça
sem noção das coisas, eu sei o que acontece entre um homem e uma mulher.
Eu sei o que é atração sexual, desejo, tesão... eu leio muito, não sou
desatualizada. Sei que um homem sabe separar o sexo do amor e o
insuportável do meu vizinho pode, sim, só estar querendo me levar para
cama, mas o pior é que eu quero muito isso. Mesmo que seja só por algum
tempo, eu não me importo. Já tenho 24 anos de idade e acabo de perder a
virgindade da boca, por que não perder a do resto? E se for com o meu
vizinho insuportável e lindo, melhor ainda.
— Não se preocupe, Nuza, não vai acontecer nada. O vizinho não me
suporta, ele acha que não passo de uma nativa invasora. Ele só me beijou
para me punir, não significou nada, duvido que me beije outra vez. Eu só
estou confundindo as coisas, vou tentar não ir mais à cachoeira.
O que era impossível acontecer. Ir à cachoeira e não beijá-lo mais. A
cachoeira, eu sei que não deixarei de frequentar, e se ele tentar me beijar
outra vez, não conseguirei resistir.
— Tenha cuidado, às vezes nossas emoções tomam conta da nossa
razão, aí nos machucamos. Tenha cuidado, é só o que peço.
Nos levantamos, e eu a abraço.
— Eu terei. Esse insuportável não vai me machucar, não vai mesmo.

Como todas as noites, janto sozinha. Não vejo o papai desde a nossa
última conversa e provavelmente hoje à noite também não o verei. Assim
sendo, após o jantar resolvo me trancar em meu quarto. Não tenho muita
opção em Paraíso para diversão, ou leio um livro ou assisto TV, e não estou
com vontade de fazer nenhuma das duas opções. Deito-me e tento dormir,
mas não sei por quanto tempo fico lutando para cair no sono, só sei que ao
olhar para o relógio da parede do meu quarto percebo que já passa das duas
horas da manhã. Então, cansada de lutar contra o redemoinho de emoções
que assolam a minha mente e o meu coração, resolvo ir até a cozinha. Talvez
um chá de camomila me acalme e eu possa, enfim, fazer com que eu
adormeça.
Já estou no penúltimo degrau da escada, que dá acesso à sala principal,
quando escuto um barulho vindo do gabinete do meu pai.
Será que é algum invasor?
Aproximo-me sorrateiramente, pé ante pé, e encosto a orelha na porta.
Não ouço vozes, só o barulho de coisas sendo quebradas. Insegura, mas me
enchendo de coragem para abrir a porta e enfrentar seja lá o que fosse que
estivesse dentro do gabinete, escancaro a porta e entro.
— Quem está aí? — Pergunto, receosa, enquanto procuro o interruptor
da luz. Não consigo enxergar muita coisa só com a luz do abajur acesa. —
Apareça, eu sei que tem alguém aqui!
O gabinete do papai é composto de uma antessala, onde geralmente
ficam os estofados, o minibar e uma minibiblioteca. A porta que dá acesso ao
escritório está aberta, aproximo-me, então escuto um praguejo e reconheço a
voz.
— Papai! — Entro no escritório, ele está completamente bagunçado. —
Papai, o que está acontecendo aqui?
Ele nem me olha, continua procurando algo e tudo o que encontra joga
ao chão com violência.
— Merda! Merda! Onde está? Onde está? — Joga ao chão um jarro de
porcelana chinesa, após procurar dentro dele e não encontrar o que queria.
Fico parada observando o seu desespero, tento entender o que está
acontecendo, esperando a resposta da minha pergunta.
De repente ele joga a prateleira de livros ao chão.
— Estou perdido, perdido... — cai ao chão, desesperado, segurando a
cabeça com as mãos. Corro até ele e me agacho, segurando-o por seus
cotovelos.
— Papai, se o senhor me disser o que procura talvez eu possa ajudar.
Sou empurrada com violência e meu pai me encara com um olhar
enfurecido.
— Ajudar! Quer mesmo me ajudar... — Ele engatinha até mim, ficamos
face a face. — Arrume dinheiro, mas precisa ser muito dinheiro... você tem?
— Solta uma gargalhada, enquanto se afasta. — Claro que não tem, é uma
imprestável, durante toda a vida nunca soube de onde vinha o dinheiro que a
sustentava, não é mesmo?
Não reconheço meu pai. Seus olhos estão arregalados, o suor cobre o
seu rosto, a camisa está fora da calça, parece suja, e ele todo fede a bebida.
Está enlouquecido.
— Se quer dinheiro, espere até amanhã e vá ao banco, não precisa
destruir a casa, papai...
Falo inocentemente.
— Banco? Que banco?! Estamos falidos... falidos, entendeu? Não temos
um centavo. Por que você acha que a trouxe de volta para o Brasil? Porque
estava com saudades da minha filhinha? — dá uma gargalhada sinistra. —
Não se iluda, Lilly, se eu pudesse a teria mandado para bem mais longe de
mim... não aqui para Paraíso.
As lágrimas começam a embaçar minha visão. Escutar tais palavras
vindas da boca do meu pai é doloroso demais. Apesar de saber sobre o seu
distanciamento e frieza, ele nunca foi cruel e agora tudo indica que colocará
para fora tudo o que está guardado há tempos.
Levanto-me, cambaleante, escoro-me na cadeira à minha frente. Dou-lhe
as costas, não quero escutar suas palavras espinhosas.
— Aonde vai? Não quer escutar a verdade? — Diz cruelmente. Paro,
mas permaneço de costas para ele. — Você não está aqui porque eu quero a
sua presença, você está aqui porque estamos falidos, estamos na completa
miséria. Acha que estamos sem empregados por quê? Porque acabou a
colheita? Não, Lilly, estamos sem dinheiro até para o básico, comemos e
bebemos o que plantamos, e os poucos empregados que temos só ficaram
porque estão piores do que nós. Eles aceitaram trabalhar em troca de comida
e de um canto para dormir...
Ficamos em silêncio. Só escuto o som dos meus soluços.
— Olhe para mim, Lilly... Olhe-me! — Grita. Viro-me e o encaro, meu
rosto banhado pelas lágrimas. — Há muito tempo que eu não pagava a sua
faculdade, então recebi uma carta com um aviso que você seria dispensada.
Não tive outra alternativa senão trazê-la de volta. Agora estamos arruinados,
completamente na miséria, dona Lilly González, e se eu não conseguir um
bom casamento para você, nós vamos morar debaixo da ponte, entendeu?
Reze para que algum ricaço se apaixone por você, porque se isso não
acontecer, o nosso destino será a sarjeta. Vamos ver se pelo menos você serve
para encantar algum homem rico. Agora saia da minha frente, saia...
Ele grita a plenos pulmões a sua raiva. Cospe aquelas palavras frias e
cruéis em meu rosto. Fico tonta, febril, sinto uma necessidade enorme de
desaparecer, fugir... morrer. Corro do gabinete sem ao menos olhar para trás.
Com meu rosto banhando pelas lágrimas, quase não consigo ver nada à
minha frente. Só consigo pensar em meu refúgio, o único lugar onde encontro
paz. A cachoeira, o lago de lótus. Corro em direção ao atalho que me levará
até lá. Embrenho-me entre a escuridão e a densa floresta. Eu não preciso de
iluminação, a luz da lua é o suficiente para os meus olhos, conheço o
caminho de olhos fechados. Já consigo escutar os sons das águas da cachoeira
batendo nas pedras. Alívio...
Por que o meu pai me odeia tanto? O que eu fiz para merecer o seu ódio,
o seu desprezo? O que fiz?
Perdida em meus pensamentos tenebrosos chego, por fim, à beira do
lago. Entro nas águas geladas e nado até a parte cristalina. Fico lá,
mergulhada em minha tristeza, em minha agonia degenerativa, tento entender
os porquês de o meu pai me odiar daquela forma. Os motivos dele ter
mudado tanto. Eu o amo tanto, sinto tanta saudade dele...
Papai!
Grito a minha dor. Caio num choro convulsivo, escondo meu rosto entre
as mãos.
Papai!
Meu grito desesperado ecoa em meio à escuridão da floresta. Submerjo
completamente na água gelada, talvez assim eu consiga esquecer a dor do
abandono que está me machucando com tanta força.
RAPHAEL

Reviro-me na cama feito um sonâmbulo atormentado – o que


não deixa de ser verdade. Não sei o que é uma boa noite de sono desde a
morte de meu pai. Não sei o que é deitar a cabeça no travesseiro e dormir
tranquilamente, sem pesadelos, sem monstros... sem dor. Quando ainda era
criança, fui condicionado a tomar remédios calmantes, então eu dormia. Mas,
na verdade, me dopar não me ajudava em nada, pois minha mente ficava
presa em um sono condicionado e os monstros frequentemente me
assombravam.
Bem, Raphael, se não pode com o inimigo, junte-se a ele.
Resolvo me levantar, já que o sono não vem. Olho para o meu relógio
que está na mesinha de cabeceira. São quase três horas da manhã.
Quando, quando irei me deitar, fechar meus olhos e dormir feito um
bebê, quando?
Ligo o notebook.
— Puta merda! Mas que porra é essa? — Assim que os meus olhos
fixam a tela do aparelho, eu a vejo.
A pequena desaforada está dentro do lago. E algo não está certo naquela
cena. Eu sei que já é madrugada, mesmo assim eu sei que há algo errado.
Geralmente a moça invasora sorri, pula, joga água com as mãos para cima, e
na maioria das vezes ela sempre fica nua, ou quase.
Dou zoom na imagem.
Ela está... chorando.
Nem me preocupo em vestir algo mais quente, saio do quarto só com a
calça do pijama. Desço as escadas tão desesperado que nem me lembro de
calçar os pés. O luar orienta os meus passos em direção ao lago. O silêncio
me faz ouvir os soluços compulsivos da pequena Lótus, e de repente sinto
uma vontade louca de saber quem é o culpado por seus soluços.
Paro à beira do lago, hesitante. Pela primeira vez, hesito em enfrentá-la.
Mesmo assim, reúno toda a minha força e revelo minha presença.
— O que está fazendo aqui? Será que não fui bem claro que não a quero
em minha propriedade?
Ao escutar o tom severo da minha voz, seu rosto se ergue em minha
direção. Emudecida, olha-me surpresa. Tenta articular alguma palavra, porém
está assustada demais para dizer qualquer coisa, continua só pasmada e me
olhando.
— Saia já daí, ou se arrependerá. Vamos, estou mandando. — Desta vez
sou mais rude, estou quase aos berros.
Suas feições mudam, de assustada para desespero.
— Por favor... — sua voz é suplicante, sussurrada entre lágrimas. — Por
favor, agora não. Não brigue comigo, não vou suportar. Deixe-me em paz,
finja que não me viu, só me deixe aqui, por favor...
Não posso ficar indiferente às lágrimas da pequena Lótus, algo de muito
ruim havia acontecido, e eu não sou louco de deixá-la ali sozinha, muito
menos dentro de um lago, que deveria estar muito gelado.
— Não, não a quero aqui. Vá embora, ou do contrário eu...
— Eu o quê!? — exclama com ironia. — Vai soltar os cães em mim?
Pois solte, eu não ligo... solte os cães, chame a polícia, seus seguranças. Se
quiser pode até atirar em mim, eu não ligo, tampouco sairei daqui. Vá
embora... VÁ EMBORA!
Ela grita ferozmente, batendo com os punhos na água. Volta a chorar.
Entro na água, e quando ela percebe o que pretendo fazer, começa a
nadar para a parte mais funda, onde a correnteza corre para o rio fora da
minha propriedade. Apresso-me.
Mergulho e consigo alcançá-la.
— Solte-me, solte-me. Deixe-me em paz, deixe-me em paz...
Ela se debate em meus braços e tenta me acertar com os punhos
fechados. Não quero machucá-la, procuro controlá-la sem usar a força, o que
é um pouco difícil, pois a pequena invasora é arisca.
— Lótus, fique calma. Acalme-se, por favor. — Prendo o seu corpo
entre meus braços, apertando-a.
— Faz isso parar — seus olhos amendoados me encaram, as lágrimas
misturadas às gotas de água tornam a cena linda e incrivelmente melancólica.
Sinto uma vontade enorme de beijá-la, beijá-la profundamente.
— Parar o quê? O que quer que eu pare, Lótus?
— Essa dor, essa tristeza. Dói muito... muito.
Ela deita a cabeça em meu peito, respira tão profundamente que fico
com medo de que algo mais grave lhe aconteça.
— Moça, eu não sei o que aconteceu, mas há certas dores que não
passam. Nós só temos duas saídas. Ou tentamos esquecer, ou nos
acostumamos a elas. Falo por experiência própria, então, seja o que for, isso
vai passar.
Enquanto falo, inconscientemente meus dedos acariciam as suas costas.
Ao perceber o que estou fazendo, paro imediatamente.
— Eu só quero que a dor passe. Faz parar, por favor. Faça-me
esquecer...
— Eu não posso. — Talvez pudesse, só que eu não quero, não quero me
envolver com ninguém deste maldito lugar. — Venha, vamos sair daqui. A
água está gelada, você ficará doente se continuar aqui.
Ela empina o queixo. Deus! Ela é linda que dói, até triste é linda. Ficar
tão próximo, sentir o seu corpo e seu cheiro é enlouquecedor.
— Se você não pode me ajudar, deixe-me em paz. Vá embora, não
quero sair...
Sou empurrado por suas mãos, quase a solto, pois fui pego de surpreso.
Prendo-a com mais força em meus braços e tento colocá-la em meu colo.
— Sairá deste lago, por bem ou por mal, não posso deixar que algo lhe
aconteça.
Recebo um chute em minha perna, que só não me machucou porque
estamos dentro da água.
— Está com medo de que eu morra em sua propriedade e o povo de
Paraíso o linche?
Desaforada, além de tudo tem uma língua afiada. Estou tentando ajudá-
la e ainda sou tratado com desaforos.
— Sim, não quero problemas com os habitantes de paraíso, portanto,
vou tirá-la desta água gelada e será agora.
Pego-a à força em meus braços. Ao se dar conta das minhas intenções, a
pequena invasora começa a se debater ferozmente.
— Solte-me, solte-me. Deixe-me em paz, não quero sair daqui. Será que
não entende? Eu preciso ficar... preciso ficar...
Consigo mantê-la firme em meus braços, mesmo com toda a sua
selvageria. Saímos da água. Lótus fica mais agitada e começa a passar mal.
Preocupado, sento-me com ela ainda em meus braços em um tronco que fica
próximo à beira do lago.
— Lótus, respire. Você está tendo uma crise de ansiedade, só precisa
respirar calmamente, que irá passar.
— Não... não consigo respirar — balbucia as palavras pausadamente,
seu rosto começa a ficar pálido, os lábios arroxeando — a-acho, acho que vou
morrer...
— Não, não vai... encoste sua orelha em meu peito. — Inclino meu rosto
para próximo e cochicho ao seu ouvido. Ela faz o que eu peço. — Estou
cantando uma canção de ninar para você, está escutando? — Ela continua
respirando com dificuldade, agitada em meus braços. — Pequena Lótus, meu
coração está cantando para você, escute-o.
— A-ajude-me, ajude-me...
— Shhh! Respire devagar. Devagar, pequena Lótus, vai ficar tudo bem.
Estou aqui, não irei a lugar algum.
Fico agarrado a ela, balançando o meu corpo para frente e para trás,
lentamente. Meu rosto próximo ao seu, minha boca colada à sua orelha. Aos
poucos ela fica quieta e eu consigo sentir sua respiração melhorar. Continuo
com os meus braços cercando o seu corpo, sussurrando ao seu ouvido.
— Quando eu era criança e ficava muito nervoso, a ponto de não
conseguir respirar, meu pai me colocava no colo e me mandava escutar o seu
coração, dizendo que estava cantando uma canção de ninar para mim... agora
é o meu coração que canta para você, pequena Lótus. Shhh! Quietinha, só
escute a canção.
Quando Lótus se acalma, olho atentamente para ela e me surpreendo: ela
está adormecida. Levanto-me e sigo com ela para o castelo.
RAPHAEL

Enquanto a levo para o castelo, olho-a meticulosamente. Sua


vasta cabeleira acaricia o meu braço, os cabelos quase negros, o que dá um
belo contraste com a alvura da sua pele. O rosto com traços delicados e
marcantes, bochechas salientes e lindos lábios carnudos, daqueles que dão
vontade de nunca parar de beijar.
Mas o que está acontecendo com você, Raphael? Desde quando perde o
seu tempo com emoções inúteis?
Mesmo não querendo continuar olhando e pensando na linda moça que
está em meus braços, eu prossigo e permaneço lutando contra o
desconhecido. Algo em mim muda quando estou próximo a ela. Ainda não
sei o que é, só sei que é um sentimento traiçoeiro, um sentimento que faz com
que eu me esqueça o que vim fazer em Paraíso.
Entro às pressas no castelo.
— Mila! — grito desesperado. — Mila!
Mila surge, apressada, com os olhos curiosos ao me ver com uma moça
nos braços. Ela fica boquiaberta, olhando ora para mim, ora para a moça. Um
silêncio pesa entre nós, e como sei o quanto a Mila é questionadora, trato de
rompê-lo.
— Siga-me, preciso de sua ajuda — digo enquanto começo a subir os
degraus da escada que leva ao andar do meu quarto.
— Quer que eu prepare um dos quartos de hóspedes? Posso fazer isso
agora.
— Não, ela ficará em meu quarto por enquanto. Só preciso de toalhas e
de uma coberta bem quente.
Mila abre a porta do quarto para que eu entre, em seguida vai até o
banheiro e volta com duas toalhas nas mãos. Sento-me no grande baú que
fica em frente da cama e começo a despir a pequena moça.
— Eu posso fazer isso, senhor. — Mila diz subitamente, já vindo em
minha direção, entregando-me as toalhas.
— Não, pode deixar, eu me viro. Só vá até o armário e pegue uma das
minhas camisetas, depois leve as roupas dela para secar.
Quando me entrega a camiseta, olha-me, curiosa e inquire:
— Quem é esta moça? — demorou para que fizesse essa pergunta. Mila
não consegue ver o rosto da pequena Lótus, ela está encolhida em meu colo.
— Uma invasora. — Eu sei que a resposta não é o bastante, pois Mila
permanece com aquele olhar questionador. — Mila, pode ir, se eu precisar a
chamo.
Mila fica onde está, encarando-me.
— Senhor, não é melhor eu fazer isso? — diz rapidamente quando me
vê retirar a blusa molhada da moça. — Não está certo o senhor despi-la...
— Pode ir, Mila. — Interpelo-a bruscamente. — Já disse, se precisar de
ajuda eu a chamo. — Fito-a com os olhos semicerrados.
Ela baixa os olhos, pega as roupas da moça – que a esta altura já está
nua em meus braços – vira-se e sai.
Visto-a com cuidado. Ela entreabre os olhos, solta um muxoxo lento.
— Shhh, volte a dormir, está tudo bem. — Murmuro, bem próximo à
sua orelha.
Quando volto a fitá-la, ela está de olhos fechados e ressonando.
Coloca-a na cama, cubro-a com um cobertor. Deixo-a sobre os
travesseiros e vou trocar o meu pijama úmido. Volto de banho tomado e com
um conjunto de moletom preto.
Quem é você, pequena Lótus? Onde mora? Será que existe algum
homem em sua vida?
Bem, se existe não é da minha conta, tampouco quero saber quem ela é.
Não vim a Paraíso colecionar amizades, nem em busca de romances.
Percorro com o olhar o seu corpo deitado tranquilamente em minha
cama. Parece tão frágil. Lembro-me da cena no lago. Ela estava dilacerada,
algo muito sério aconteceu para tê-la deixado tão triste. Quem a magoou
tanto? Quem foi o infeliz que a feriu?
De repente, bate uma vontade de sair procurando culpados e começar a
bater com força neles. Não sei explicar o que estou sentindo no momento, só
sei que ao olhar para ela, não quero desviar os meus olhos. Se eu pudesse
ficaria olhando-a para sempre.
Permaneço quieto, olhando-a com toda a minha atenção, e após muito
tempo, começo a sentir um pouco de medo, misturado a uma sensação nova e
estranha, que não consigo definir. Nunca me senti assim antes, a única vez
que eu senti medo foi quando vi meu pai morrer, assassinado por aquele
desgraçado, Rodrigo González.
— Maldito!
O tom severo da minha voz a desperta. Respiro fundo, espanto o meu
ódio para longe. Não é a hora de deixar o rancor falar mais alto, afinal, a
pequena moça deitada em minha cama não tem nada a ver com o meu
passado. Aproximo-me e me sento na cama, fico o mais próximo possível
para que ela possa me ver.
— Oi — digo, tentando manter o tom da voz o mais suave possível. —
Volte a dormir. É tarde, está quase amanhecendo.
Ela pisca os cílios rapidamente, tenta conciliar os pensamentos. Na certa
está confusa, ou quem sabe nem se lembra direito do que aconteceu nas
últimas horas.
— On-onde estou? — pergunta, olhando em torno do quarto.
— Em meu quarto e em minha cama. — Ela franze a testa. Confusa com
a resposta, fita-me.
— Por que me trouxe para cá? — senta-se, e este gesto repentino faz
com que o cobertor escorregue, descobrindo-a. Ela percebe que está com
outra roupa e ao perceber, questiona: — Onde estão as minhas roupas? Quem
me trocou?
— Suas roupas estão na secadora e quem a trocou fui eu. Não precisa
ficar envergonhada, não tem nada em seu corpo que eu já não tenha visto
antes. — Ela faz aquela carinha de zanga que eu já conheço bem. — Não me
culpe, é você quem costuma tomar banho nua em minha cachoeira, portanto,
se há alguém culpado aqui é você.
— Estúpido, não pedi para mudar a minha roupa. Você se aproveitou de
mim, isso sim. — Cobre o corpo com o cobertor enquanto os seus olhos
dourados me encaram desafiadoramente.
— Escute aqui, sua mal-agradecida. — Seguro-a pelos cotovelos e fixo
os meus olhos furiosos nos dela —, eu devia tê-la deixado naquelas águas
geladas, congelando esse seu traseiro branco. Não tenho interesse e nem
quero me aproveitar de você, se eu quisesse teria feito isso desde o primeiro
dia em que a peguei em meus braços, nua. Não precisaria nem me esforçar
para isso.
Recebo um tapa violento no rosto. Seguro sua mão, quase esmagando os
seus dedos. Estou com tanta raiva, que quase revido o tapa. Só não o faço
porque não costumo bater em mulheres, mas ela escapa por pouco diante da
raiva que percorre o meu corpo.
— Nunca mais faça isso, moleca petulante. Nunca mais, entendeu?
Porque, da próxima vez, eu revidarei. — Ela tenta outra vez com a outra mão,
mas seguro o seu outro braço, fitando-a com o olhar chispando de raiva. —
Moça, você está brincando com fogo.
Seguro seus cabelos com força. Entrelaçando-o entre os meus dedos,
mantenho sua cabeça inclinada para trás, assim ela não pode escapar do meu
beijo implacável. Roubo sua boca, devorando-a sem nenhuma delicadeza.
Chupo sua língua, mordendo-a. Meus dentes mordem aqueles lábios
carnudos, matando o meu desejo. Beijo-a com prazer avassalador, não lhe
dando chance de se defender, ela só pode aceitar. Ainda tenta escapar de
mim, mas meu outro braço prende o seu corpo ao meu e em poucos segundos
estou deitado sobre ela, possuindo sua boca como nunca possuí outra.
Minutos depois, ela já está mansa como uma ovelhinha, gemendo
suavemente, completamente entregue. Seu corpo perde a tensão e assim eu
afrouxo a força do meu abraço. Segundos depois, minha mão desliza sobre
suas curvas, desenhando-as com os meus dedos.
Minha outra mão suspende a camisa de algodão até que os seus seios
fiquem descobertos. Quando minha boca suga o bico ereto, duas mãos
agarram os meus cabelos, e eu puxo os cabelos dela com força, fazendo-a
arquear o corpo com sofreguidão, dando-me mais liberdade para explorar o
mamilo duro. Enlouqueço, perco a noção do que faço.
Só me entrego à vontade do meu desejo. E nesse momento eu quero
tocá-la.
Então, faço isso. Meus dedos escorregam lentamente para baixo, passam
por sua vulva até chegarem entre suas coxas. Meu dedo médio se embrenha
no meio dos seus lábios vaginais e eu sinto o calor molhado do desejo dela.
A sensação prazerosa dos gemidos da moça delirante embaixo do meu
corpo desperta o homem ardente em mim, o homem que está sentindo algo
além do puro prazer sexual. E isso me incomoda, não estou aberto a
experimentar sentimentos nobres.
Então, fito-a. Ela está de olhos fechados, lábios cerrados com força,
contorcendo-se com o poder firme das minhas mãos e da minha boca. Não é
só desejo, é algo mais, eu sei que é...
Afasto-me. Meu corpo inteiro está trêmulo, meu pênis pulsa e está tão
duro que dói. Ela fica sem entender quando me levanto, procura analisar o
meu olhar impassível.
Eu não posso, ela parece inocente demais para um homem cruel como
eu.
— Acho que foi o suficiente para acalmá-la, agora tente dormir. Eu farei
o mesmo, boa noite.
Viro-me de costas para ela, e antes de tocar a mão na maçaneta da porta,
recebo um travesseiro nas costas.
— Não sou o suficiente para você? Ou não quer se envolver com uma
nativa de Paraíso? — Está decepcionada, sua voz é de pura decepção. Se ela
soubesse o quanto a desejo...
Viro-me e fito-a com um olhar sério, profundo, frio.
— Eu não vim a Paraíso em busca de aventuras sexuais. Se eu quiser
sexo, sei muito bem onde buscar. Se você é, ou não, o suficiente para mim,
nunca irá saber, pois eu não sou controlado pelo meu pau. Sou eu quem o
controla, e no momento eu já tive o suficiente. Odeio mulheres histéricas,
minha única intenção foi acalmá-la, e consegui. Boa noite!
Dou-lhe as costas para ir embora.
— Cretino, aproveitador! — grita.
Volto a fitá-la, dando dois passos em sua direção. Essa moça adora me
desafiar, ela não entendeu quando lhe disse que na história da Chapeuzinho
Vermelho eu sou o Lenhador.
Inclino o meu corpo e a seguro pelos braços, levantando-a da cama. Ela
se encolhe quando o meu rosto fica bem próximo ao seu. Tenta soltar-se da
minha pegada, esbraveja palavrões, chuta-me.
— Escute aqui. — Agito o seu corpo. — Não sou um homem muito
paciente, acho que já percebeu isso. Nem sou um cavalheiro, portanto não me
teste. Preste atenção — agito-a outra vez e ela me encara, assustada —, se eu
quisesse fodê-la, já teria fodido, então não me chame de aproveitador. Vá
dormir, que o seu mal é sono.
Solto-a, jogando-a na cama. Preciso sair do quarto o mais rápido
possível, ou perderei todo o meu controle. Essa moça está tirando o meu
censo de certo e errado, se ficar mais um minuto aqui, faço amor com ela.
Detenho os meus pensamentos.
Eu disse isso mesmo? “Faço amor com ela”?
Enlouqueci.
Dou dois passos em direção à porta.
— Por favor, não vá. — Já estou com um dos pés fora do quarto, quando
ela grita e corre em minha direção. — Não vá, não me deixe aqui sozinha,
não quero ficar sozinha.
Sua pequena mão toca a minha, seus dedos entrelaçam os meus e sou
puxado para dentro do quarto.
Essa moça é maluca, só pode.
Acabo de gritar com ela, digo-lhe uma porção de desaforos, rejeito-a e
ela quer ficar comigo.
— Isso não é uma boa ideia, moça. Ficar aqui no quarto com você
significa dormirmos na mesma cama. Eu e você na mesma cama é meio
complicado, não acha? Ainda mais depois do que aconteceu. Acho melhor a
senhorita dormir sozinha, eu posso me “aproveitar” de você enquanto
dorme. — Digo com ironia.
— Não ligo, só não quero ficar sozinha, não hoje. Fica comigo, por
favor. — Quase a tomo em meus braços, precisei de muito controle para não
fazer isso. Sua voz pouco audível e carente quase me põe de joelhos.
Sem responder, passo por ela e me deito na cama. Ela se vira, fita-me
com os olhos brilhando, apressa os passos e se deita ao meu lado. Apoia-se
no cotovelo, encara-me e pergunta:
— Posso escutar sua canção de ninar? Ela me acalma.
Fixo os meus olhos em seu rosto. Ela está sorrindo, seus olhos dourados
sorriem também, e eu não sinto vontade de dizer-lhe não. Aliás, eu a quero
perto e isso atordoa os meus sentidos. Puxo-a para perto e ela deita a cabeça
em meu peito, encostando o ouvido perto do meu coração. Em poucos
minutos, tanto eu quanto ela adormecemos.
RAPHAEL

Faz vinte e quatro anos que não durmo tão bem quanto dormi essa
madrugada. Sem pesadelos, sem insônia, apenas um sono tranquilo e
reconfortante. Quando acordo, os raios do sol já entravam no quarto através
das arestas da janela e a minha bela Lótus ainda dormia. Agora estou aqui,
parado na janela, de banho tomado e vestido impecavelmente para minha
rotina, observando-a acordar.
Ela pisca os olhos repetidamente, estica os braços, espreguiçando-se,
sem se dar conta que estou a observá-la.
— Bom dia, preguiçosa! — quebro o silêncio do quarto, sem desviar os
olhos dela. — Costuma dormir até tarde assim? Ou foi a minha cama que a
fez perder a hora?
O tom da minha voz faz com que ela pule da cama imediatamente. Ao
perceber que está somente com a minha camiseta, ela puxa a coberta,
cobrindo-se.
— Pare com isso, pequena Lótus. — Aproximo-me em dois passos e
puxo-lhe o cobertor. Ela o toma de volta, fazendo um bico de zanga. —
Chega a ser cômico querer cobrir-se, até parece que nunca a vi nua. É o que
mais tenho visto ultimamente. — Puxo-lhe a coberta novamente e desta vez a
jogo para longe.
Seu olhar furioso me fuzila. Minha vontade e puxá-la para os meus
braços e roubar aquela boca carnuda, beijá-la até que perdesse o fôlego. Mas
não faço isso. Fico só observando a sua linguagem corporal.
— Onde estão as minhas roupas? Por favor, eu preciso delas. — Ela
olha por todo o quarto à procura das roupas.
Sigo até a mesinha de canto. Suas roupas estão dobradas
cuidadosamente sobre ela, Mila as trouxe logo cedo. Pego-as e as entrego.
— O banheiro é logo ali. — Aponto com o dedo para uma porta à minha
direita. — Banhe-se e se vista, estarei à sua espera na antessala.
— Não, obrigada! Tomarei banho em casa. — Ela toma as roupas das
minhas mãos e se vira rapidamente, desaparecendo pela porta do banheiro.
— Mila preparou um delicioso café da manhã para você. Fará essa
desfeita? — pergunto, enquanto caminho para a antessala.
— Posso saber o porquê de estar sendo tão gentil? — pergunta em voz
alta, já que a porta do banheiro está fechada.
— Estou de bom humor. — Respondo. A porta do banheiro se abre e
uma moça linda com os cabelos presos no alto da cabeça surge diante dos
meus olhos. — Pronta?
Ela assente com a cabeça enquanto suas mãos alisam a saia do vestido.
Em seguida saímos do quarto.
Ela acompanha com o olhar tudo à sua volta, atônita com todas as coisas
que consegue visualizar.
— Nossa! — admira-se assim que chegamos à grande sala. — Isso aqui
é lindo! — Toca em todas as coisas e fita as que estão penduradas à parede
com um brilho maravilhoso no olhar. — Você comprou a propriedade de
porteira fechada?
Volto meus olhos interrogativos para ela.
— É assim que falamos aqui, quando compramos uma propriedade com
tudo o que está dentro. — Sorrindo, ela responde a minha curiosidade.
Realmente eu não sabia o que aquela expressão significava.
— Sim, comprei com tudo o que estava dentro — minto. — Venha,
vamos até a cozinha. Infelizmente, a sala de jantar ainda não está arrumada
adequadamente. Espero que não se importe em tomarmos o café na cozinha.
Seus olhos me encaram e ela dá um leve sorriso. Já conheço aquela
expressão, ela irá dizer algo nada agradável.
— Não me incomodo, vizinho. Esqueceu que eu sou uma simples nativa
de Paraíso? Não estou acostumada a luxos. — Pisca os cílios
deliberadamente e passa na minha frente com um riso presunçoso esticando
os lábios.
Minha vontade é segurá-la pelo cotovelo, colocá-la de bruços em meu
colo e aplicar algumas palmadas em seu traseiro redondo. Respiro
profundamente e a deixo entrar na cozinha. Eu preciso me controlar, ou
acabarei com a minha manhã antes mesmo que ela começasse.
Escuto coisas se espatifando no chão. Corro em direção à cozinha.
— Santo Deus! Estou tendo um déjà vu. — Mila deixa uma bandeja cair
ao chão e olha assombrada para Lótus, levando as mãos à boca.
— Nossa! Estou tão mal assim, para assustá-la? — Lótus corre para
ajudar Mila, agacha-se e começa a recolher a louça quebrada.
Faço o mesmo. Colocamos todos os cacos dentro da bandeja e ajudo
Lótus a levantar-se.
— Você está bem? — pergunto a Lótus, olhando suas mãos com
cuidado.
— Sim, estou. Não é comigo que deve se preocupar, é com ela. —
Aponta para Mila. — A coitada está pálida, parece que viu um fantasma.
Avalio, preocupado, o estado de Mila. Realmente ela está pálida,
olhando atônita para Lótus.
— O que aconteceu? Escutei o barulho de coisas se quebrando lá do
gabinete. — Alfredo entra na cozinha. — Mila, meu bem. O que foi? — Ela
nem pisca, continua fitando o rosto de Lótus. Alfredo vira o rosto na mesma
direção. — Santo Deus! — Exclama com um olhar espantado.
— Ok, ok, vamos parar. Acho que vou aceitar o convite para o banho,
devo estar um bagaço para assustar todos assim. — Lótus se vira e já
caminha em direção à porta, quando Mila quebra o silêncio. Porque eu não
estou entendendo nada.
— Não, não é a senhorita. Só nos assustamos porque você se parece com
alguém que nós conhecemos há muito tempo, só isso. — Mila se vira em
direção à pia. Alfredo vai com ela.
— Bem, o susto já passou, então podemos nos sentar... Lótus, por favor.
— Puxo a cadeira para que se sente. Ela sorri com deboche.
— Para quem disse não ser cavalheiro, está me surpreendendo. —
Senta-se. — Obrigada, cavalheiro. — Ironiza.
— Não faça com que eu me arrependa de tê-la convidado a me
acompanhar no café da manhã. — Cochicho ao seu ouvido.
— Humm, ele não tem senso de humor... — diz enquanto abre o
guardanapo. — Vizinho muito delicado.
— Lóóótus! — Advirto-a.
Mila limpa a garganta chamando a nossa atenção.
— Vou servi-lhes o café. Parem de discutir, ok?
— Desculpe. — Lótus olha para Mila e sorri. Mila continua olhando-a
como se estivesse vendo um fantasma. — Mila, a propósito, você sabia que
existe uma música com o seu nome? É bem assim: Ô, Mila, mil e uma noite
de amor com você... É só isso que eu sei, tenho uma conhecida que costuma
cantá-la repetidamente.
— Sim, eu sei. Já ouvi muitas gracinhas por causa dela. — Mila olha
para o Alfredo.
— E eu já escutei o Alfredo cantando esta música diversas vezes, não é
mesmo, Alfredo? — Olho para o Alfredo e ele sorri, fitando Mila com amor
nos olhos.
Os dois estão casados há vários anos, mas percebe-se que o amor
continua vivo e forte.
— Hum, seu nome é Alfredo? — Lótus dirige o olhar para ele. — Sabia
que tem uma propaganda de papel higiênico onde o homem se chama
Alfredo? E as pessoas ficam chamando o coitado bem assim: ALFREEEDO!
— Grita o nome do Alfredo bem alto.
— Eu sei, senhorita. Também já escutei muita gozação por causa dessa
propaganda sem graça. — Alfredo e Mila se entreolham e sorriem um para o
outro.
— Bem, vamos comer. — Digo, cortando o clima amistoso que se
formou na cozinha. Sirvo o café para Lótus. — Alfredo, ligue para o meu
advogado e peça-o que venha até aqui.
— Sim, senhor, farei isso agora mesmo. Com licença senhorita... — Ele
faz uma pausa. Sorri. — Lótus. Foi um prazer conhecê-la.
Alfredo vai embora.
— Coma tudo, depois a levarei para casa. — Digo, olhando-a
seriamente. Ela deixa o garfo descansando no prato e volta o rosto para mim.
— Não precisa me levar em casa, irei sozinha. Quero passar antes na
cachoeira. — Volta a comer o bolo de cenoura sem dizer mais nenhuma
palavra.
— Então irei com você até a cachoeira. — Ela para de mastigar, engole
o bolo que tinha na boca e me encara com um olhar questionador.
— O senhor quer ter a certeza que não roubarei nada da sua
propriedade? É por isso que está tão preocupado em me acompanhar? É isso?
— Levanta-se, jogando o guardanapo com força na mesa. — O príncipe
acaba de virar sapo. — Antes de me virar as costas, ela completa: —
Arrogante filho da mãe. — Olha para Mila. — Foi um prazer conhecê-la, mas
não posso dizer o mesmo de certas pessoas aqui. — Volta o olhar desdenhoso
para mim. — Adeus, vizinho insuportável.
Sai da cozinha apressadamente.
— Volta aqui, Lótus. Volta aqui, sua moleca petulante. — Ela não
responde. — Arrgghh! Odeio essa moça. — Olho para Mila e ela está me
encarando com um olhar divertido. — Não estou achando graça, Mila. Essa
moça me tira do sério...
— Percebi isso, senhor, e os seus olhos brilham quando olham para ela.
— Mila sorri, presunçosa.
— De raiva. Meus olhos brilham de raiva, Mila. — Jogo o guardanapo
com força na mesa e vou atrás da moça petulante e mimada.
Mostrarei a ela que não se deve brincar com um Bergsen.
LILLY

Ordinário, grosso, arrogante... Argh! Se eu pudesse arrancaria


os olhos dele com as minhas próprias mãos. Quem ele pensa que é? Quem?
Como pode pensar assim de mim, eu jamais roubaria nada de ninguém...
Bem, pensando melhor! Roubaria, sim. Se eu pudesse e ele não fosse tão
insuportável, eu o roubaria para mim.
Os últimos acontecimentos só comprovaram que estou sentindo “coisas”
por meu vizinho. Jamais vou esquecer a nossa madrugada, em que fiquei
envolvida por seus braços fortes, nem do prazer que correu por meu corpo ao
ser beijada e tocada novamente por ele. Só de contemplar aquele corpo
másculo, com ombros largos, mãos poderosas, e aquela voz grave, quente, eu
sinto arrepios por todo o meu ser e em partes não muito adequadas.
— Você é uma idiota, sabia? — grito em voz alta.
— Concordo. — Reconheço a voz. — Idiota, teimosa, irritante e outras
coisas mais... — Ele está bem atrás de mim, consigo ouvir o arfar da sua
respiração. Ele certamente correu para me alcançar.
Nervosa com a sua presença, viro-me, lentamente. Deparo-me com um
olhar intenso. Meu coração dispara, mas disfarço muito bem a minha reação.
Ficamos frente a frente.
Ele coloca as mãos em meus ombros, fitando-me com uma expressão
ameaçadora no olhar.
— Já estou farto da sua petulância. — Diz furioso.
— E eu, da sua prepotência. — Retruco e fico de ponta de pés,
encarando-o da mesma forma. Ele rebate.
— É mesmo? Então precisamos achar um meio-termo, porque está
difícil uma convivência entre nós dois, não acha?
— Acho — respondo, sem piscar os olhos. — E o que pretende fazer
quanto a isso? — instigo-o.
— Isso... — Ele me pega pela cintura, erguendo os meus pés do chão e
rouba a minha boca, pressionando os lábios sobre os meus e me beijando com
uma força avassaladora.
Tomada de surpresa, não consigo sequer esboçar resistência. A bem da
verdade, eu não quero resistir. No momento, o que eu mais quero é aquela
boca, aquelas mãos por todo o meu corpo. Minhas emoções me dominam por
inteiro, absorvendo-me num turbilhão que cresce à medida que sinto suas
mãos me apertando com um desejo árduo e sua língua procurando a minha
enlouquecidamente.
Sinto-me flutuar. Meu corpo se junta com mais força ao dele, sinto os
seus músculos retesarem e o bater rápido do seu coração. Meu corpo inteiro
pega fogo, fazendo o meu sangue ferver... eu o amo.
Eu sei que é amor, eu sei.
Aos poucos, o nosso beijo vai perdendo a intensidade, mas suas mãos
continuam a acariciar as minhas costas. Com a boca ainda presa à minha, ele
só passa a língua suavemente sobre os meus lábios, como se quisesse só
sentir o gosto deles.
— Pequena Lótus, devo admitir que você me tira a razão — sussurra,
sem se afastar.
Suas palavras fazem com que eu tenha esperanças em conquistar esse
coração gelado. Ele me beija outra vez, só que desta vez com mais suavidade,
e eu me torno mais ousada. Seguro-o pelo colarinho da camisa e o puxo com
força contra o meu corpo. Percebo que ele gostou do meu ato, então ouso
mais. Roço-me nele.
— Pequena Lótus, só entre em uma briga se tiver a certeza que irá
ganhar. — Diz e se afasta um pouco, interrompendo o nosso beijo. — Eu a
desejo, moça, mas não posso tê-la. Não vim a Paraíso à procura de aventura,
tenho coisas mais importantes a fazer e não posso ter distrações.
O homem frio e calculista ressurge. Como uma pessoa pode ser ao
mesmo tempo tão quente e tão fria?
Ele fica me observando atentamente, espera que eu diga algo. Mas eu
não consigo me expressar em palavras, meu coração está acelerado demais e
eu o quero tanto que evito absorver a sua frieza.
— Lótus, você me escutou? — ele me põe de volta ao chão, inclina o
corpo para olhar para o meu rosto. — Essa brincadeira acabou, aqui e agora.
Não quero mais brigar com você, tampouco beijá-la mais, por isso estou
liberando suas vindas à cachoeira. Poderá vir quando quiser, deixarei uma
autorização por escrito, ok?
Sou tomada por uma emoção tão prazerosa que quase grito de alegria.
Pulo em seu corpo, enlaçando os braços em volta do seu pescoço, e o beijo
repetidamente.
Sabe a promessa de não me beijar mais? Só durou o tempo de voltar a
beijá-lo.
Ele cercou minha cintura com os braços, aprisionando-me. Sua boca
pressiona a minha com força, enquanto sua mão prende os meus cabelos,
entrelaçando os dedos entre os fios, inclinando minha cabeça para trás e
tornando o beijo devastador.
Já estou amando esse jeito dominador dele me beijar. É como se esse
gesto dissesse: você pertence a mim, moça.
Ele se afasta lentamente da minha boca e me encara com um olhar
indecifrável.
— Pequena Lótus, o que faço com você?
— Fique comigo. Beije-me, ame-me, faça o que quiser, eu não me
importo. Eu só quero você. — Desando a falar e ele fica me olhando,
boquiaberto. — Vizinho, desde que me beijou pela primeira vez, eu não paro
de pensar em você, e confesso que vivo o provocando só para que me beije...
Ele me beija outra vez. E é um beijo que me rouba o fôlego. Minutos
depois, ele se afasta. Nos fitamos longamente. Ele franze os lábios e a testa
como se estivesse tomando uma decisão sobre o que irá me dizer.
Ele fica hesitante. Depois de alguns minutos, diz:
— Lótus, eu não sou homem de ficar, tampouco da amar uma mulher. O
máximo que posso dar é prazer... ou seja, sexo. Não nasci para o amor, nunca
me apaixonei e não pretendo me apaixonar. O amor é um sentimento do qual
quero distância, portanto, se acha que fará eu me apaixonar por você, fique
certa que isso não acontecerá. Escute... — estou de cabaça baixa, quase às
lágrimas. Ele levanta meu queixo com as pontas dos dedos e fixo o meu olhar
no seu. — Dentro de alguns dias irei embora e nunca mais voltarei aqui. Não
alimente essa paixão por mim, você só irá se machucar.
— Não mandamos em nosso coração — interrompo-o. — Não
escolhemos o amor, é o amor que nos escolhe, e eu não estou pedindo para
que me ame, só lhe disse que estou gostando de você.
Ele continua com seus lindos olhos verdes fixados em meu rosto, com
um olhar avaliativo, intenso.
— Moça, eu não me importo com os sentimentos de ninguém. Para mim
é indiferente, mas eu não sei por que cargas d’água eu me importo com você.
Não quero que se machuque, por isso eu preciso mantê-la longe de mim.
— Mas eu não quero ficar longe de você. Sou bem grandinha para tomar
as minhas próprias decisões, e asseguro que não me machucarei. Se só posso
passar algum tempo com você, então permita que isso aconteça. Eu assumo o
risco, eu quero isso. Eu quero você, nem que seja por algumas horas.
— Ei, ok... — Ele me cala com dois dedos em meus lábios. Fico
aturdida com a reação dele. Calo-me. — Tudo bem, podemos, sim, ficarmos
juntos enquanto eu estiver em Paraíso, desde que não crie expectativas sobre
mim. Deixo bem claro que não pretendo e não quero me envolver com você,
e entre nós dois o que irá acontecer será somente momentos de prazer, ok?
— Ok. — Circulo os meus braços em volta do seu pescoço e sorrio. —
A propósito, como o senhor sabia que eu estava aqui durante a madrugada?
Ele olha em direção a duas árvores e aponta com o dedo para dois
pontos estratégicos.
— Mandei instalar duas câmeras. Ali e ali.
— Tarado, você anda me espionando? Isso é ilegal, sabia? — Bato no
peito dele. Ele segura minha mão e a beija.
— Claro que não é ilegal, esta é a minha propriedade e posso fazer o que
quiser para mantê-la segura. — Fica com um olhar questionador, encarando-
me. — Você não respondeu se aceita os termos do nosso envolvimento.
Concorda, ou não?
Assinto, concordando com a cabeça. Estou feliz, na verdade, não escutei
uma só palavra de negação as quais ele afirmou com veemência, de não
querer se envolver. Como eu disse, quem manda é o coração, não ele.
Ele me puxa para mais um beijo. Segura o meu rosto com as duas mãos,
aprofundando o sabor e a possessividade do beijo. Meu vizinho insuportável
sabe enlouquecer uma mulher só com um beijo. Entrego-me à sua sedução,
gemendo baixinho a cada sugada da minha língua, a cada mordida em meus
lábios. Fico completamente envolvida com este momento, absorta nas suas
carícias com os polegares deslizando em meu rosto enquanto me beija.
Nosso momento prazeroso é interrompido bruscamente com o toque do
seu celular. Ele se afasta da minha boca, mas me puxa para um abraço.
Atende o celular.
— Fala, Alfredo. — Faz uma pausa. — Em dez minutos estarei aí, até
mais.
Desliga. Vira-me de frente para o seu corpo e me beija mais uma vez.
— Pequena Lótus, eu preciso ir, ok?
Como assim, ir!? Nós precisamos conversar, vizinho insuportável.
Junto as sobrancelhas e o encaro seriamente.
— Você vai assim? Quando nos veremos outra vez? — Afasto-me, já
estou começando a ficar irritada com a frieza dele.
— Não se preocupe, assim que puder eu a procuro. — Sou beijada na
testa. Ele se afasta, dá dois passos para trás. — Lembre-se, sem cobranças,
pequena Lótus, sem cobranças...
Vira as costas e desparece entre as folhagens.
Irritada com a atitude dele, nem tenho mais vontade de ficar na
cachoeira, e enquanto caminho para casa, respiro a plenos pulmões tentando
afastar a minha insatisfação.
Durante todo o dia não fico com vontade de retornar à cachoeira,
tampouco de sair do meu quarto. Nuza me disse que papai recebeu visitas, e
que pela a fisionomia dele não foram notícias muito boas as que os visitantes
trouxeram. Deito-me sem jantar e o meu sono demora a chegar, mas assim
que acordo faço um desjejum rápido e corro para a cachoeira. Talvez o meu
vizinho insuportável me veja através das câmeras e resolva vir ao meu
encontro.
Quando chego no lago de lótus, procuro ficar bem em frente às câmeras
que ele me mostrou. Já estou me preparando para me despir, quando vejo um
pequeno papel dobrado em cima do tronco que costumo fazer de banco,
protegido por uma pedra. Curiosa, eu o pego, abro-o e leio.
“Pequena Lótus, estou te esperando no castelo. Assim que ler este
recado venha até mim.
Seu vizinho.”
10
RAPHAEL

Escuto batidas leves na porta; já as conheço, é o Alfredo. Mando-o


entrar. Ele entra e me encara com as sobrancelhas arqueadas, o olhar
questionador. Deixo o que estou fazendo para prestar atenção no que ele tem
a dizer.
— Aquela moça está aí, deixo-a entrar?
— Hum, a pequena Lótus... sim, pode mandá-la entrar.
Ele continua avaliando o meu rosto com seus olhos curiosos.
— Raphael. — Quando ele me chama pelo meu primeiro nome, é sinal
que vem sermão. — Não brinque com os sentimentos dos outros, tampouco
com os seus. Acho que já está na hora de você olhar adiante, e não para trás.
— Tento me defender, mas ele faz um sinal com a mão aberta na frente do
corpo. — É só isso o que eu tenho a dizer, com licença.
Ele me dá as costas e sai.
— Olá, bom dia, forasteiro! — Olho em direção à porta aberta, para a
figura belíssima que está diante de mim. Cabelos escuros longos, olhos
dourados brilhantes, boca carnuda, bochechas coradas e um incrível sorriso
nos lábios.
Ela é malditamente sexy e será minha por algumas horas.
— Bom dia, Lótus! Creio que leu o meu bilhete?
— Sim, e estou curiosa para saber por que me chamou aqui.
Levanto-me e sigo até ela. Lótus permanece de pé um pouco depois da
porta do meu gabinete e parece nervosa. Já percebi que ela sempre fica
nervosa quando estamos juntos.
Fico bem próximo ao seu corpo. Fixo o meu olhar em seus lindos olhos
e eles nem piscam, estão fascinados. Minhas mãos seguem lentamente até os
seus ombros, não os tocos, só caminho superficialmente sobre eles, e este
simples movimento faz com que ela ofegue agudamente. Por fim, meus dedos
tocam sua face delicada.
Inclino-me, detenho o meu olhar no seu e a beijo sem desviar os nossos
olhares. Puxo com força os seus ombros, trazendo-a para bem perto de mim.
Nossos corpos se colidem e eu sinto a minha excitação crescer em forma de
ondas agudas. Roubo sua língua, sugando-a para dentro de minha boca,
mordendo-a com uma necessidade faminta. A minha mão então sobe por seu
pescoço, percorrendo lentamente a pele macia até encontrar sua nuca, então
meus dedos entrelaçam os fios dos seus cabelos e faço o que mais gosto. Eu
os puxo com vontade, inclinando sua cabeça, tornando o meu beijo
possessivo, evidenciando minha fome, meu desejo de beijá-la com mais
ardor.
Ela corresponde, entregando-se à minha boca, deixando que eu assuma o
controle. Seus gemidos suaves, suas mãos em minha nuca, alisando-a,
apertando-a, não deixam nenhuma dúvida do quanto ela me quer em cima de
seu corpo. Contudo eu preciso ter certeza, preciso estar convicto de que ela
está pronta para dar o segundo passo... para o sexo.
Sem diminuir a intensidade do meu beijo, minha mão desce por seu
ombro até chegar ao seu quadril. Meus dedos suspendem com cuidado o
tecido da sua saia até sentir o toque da sua pele. Tateio até o elástico da
calcinha e afasto o tecido para o lado. Ela solta um gemido gostoso, quando
sente os meus dedos alisarem a sua vulva rechonchuda, e o seu corpo retesa
quando eles escorregam entre os seus lábios vaginais. Perco-me no calor
desse momento. Sua intimidade está tão quente, tão molhada. Respiro
profundamente, preciso manter o ar por algum tempo preso em meus
pulmões, para poder resistir à minha excitação.
Afasto-me lentamente. Tanto eu como ela estamos ofegantes. Meu
membro está volumoso à frente da minha calça, pulsando. Se ele tivesse voz,
estaria gritando. Ela está com os bicos dos seios retesados, suplicando para
serem tocados.
Estou no inferno.
— Você tira a minha razão, sabia? Acho que já lhe disse isso. — Dou-
lhe as costas e caminho para minha mesa, sento-me e a observo.
Ela está atônita, incapaz de responder às minhas indagações. Boca
entreaberta, vermelha pela fúria do meu beijo, braços jogados ao lado do
corpo, maçãs do rosto coradas. Está o inferno de sexy.
— Lótus. — Chamo-a, e ela continua viajando em seus próprios
pensamentos. — Lótus, oi? — Ela pisca os cílios rapidamente. Fita-me. —
Você está bem?
Levanto-me, vou em sua direção e seguro-a pelo cotovelo. Está trêmula.
Abraço-a com carinho.
Não sou um homem carinhoso, nunca fui. Meus envolvimentos com as
mulheres se resumiam só a um bom sexo, uma boa transa, onde eu
proporciono e recebo prazer, mas depois dos orgasmos, cada um volta à sua
vida. Eu sequer me lembro do nome delas.
Mas com esta moça sinto algo diferente... não sei explicar, está além da
minha vontade, é como se eu fosse dominado por algo muito mais forte do
que as minhas convicções. Sinceramente, não gosto de estar sentindo estas
coisas, sentimentos como carinho, compaixão, não fazem parte da minha
vida, nunca fizeram, eles não combinam comigo. Sou frio demais para o calor
dos sentimentos nobres, abri mão deles no dia em que vi meu pai ser
assassinado.
Não estou acostumado a conflitos e incertezas sobre os meus próprios
sentimentos, sempre soube o que devo fazer e como fazer. Tenho um único
objetivo em minha vida, que foi traçado no dia em que decidi vingar a morte
do meu pai. Não há espaço para indecisões, tampouco sentimentos
insignificantes.
Então, por que me sinto assim em relação a essa pequena moça? O que
será que está acontecendo comigo? Se esta situação está tão inquietante, por
que não me afasto e não dou logo um basta nela?
— Sim, eu estou bem. — Ela responde, aconchegando-se em meu peito.
Beijo o alto da sua cabeça.
— Você precisa pedir autorização aos seus pais para viajar? —
pergunto, enquanto minhas mãos acariciam os seus ombros.
Lótus espalma a não em meu peito, ela me empurra um pouco,
encarando-me com os olhos semicerrados.
— Sou adulta, não preciso de autorização nenhuma, e mesmo que
precisasse, meus pais não estão nem aí para mim.
Percebo uma certa tristeza em suas últimas palavras.
— Então se é assim, vamos à capital. Quer ir comigo?
Seus olhos ficam mais brilhantes e o sorriso que me oferece é o mais
lindo de todos.
— Não é uma pegadinha, ou é? — Agora faz uma cara de brava. — Se
for, eu juro que o mato, forasteiro insuportável.
— Lóóótus — advirto-a. — Não vamos começar a discutir, estou
falando sério. — Beijo-a na boca. — Tenho uma reunião não muito longa,
então eu pensei que poderíamos passar o resto do dia juntos, longe de
Paraíso. O que acha, topa?
— Só se for agora. — Agora sou eu quem sou beijado. — Quando
vamos?
— Agora, o helicóptero está à nossa espera...
— Espera. — Sou interrompido, já estava puxando-a pela mão. — Eu
preciso mudar esta roupa. — Ela mostra o vestido florido de algodão.
— Para onde vamos você não precisará de roupas, portanto, essa está
ótima.
Um suspiro profundo sai-lhe do peito.
— Tem certeza? — Lança-me um olhar suplicante.
— Você é linda de qualquer jeito, pequena Lótus. E sim, eu tenho.
Ela sorri, mas não deixa de ser irônica.
— Onde está o forasteiro insuportável, grosso e frio? Não que eu esteja
reclamando, gosto mais de você assim, mas creio que ele foi abduzido por
algum ET.
— Lóóótus, não abuse da sorte — recrimino-a, puxando-a com força
para fora do gabinete. Fomos para o outro lado do jardim, onde o helicóptero
nos esperava.
11
LILLY

Nunca conheci a capital, só o aeroporto e a estrada que dá acesso a


Paraíso, quando costumava vir da Suíça passar alguns dias de férias no
Brasil. Para passear e conhecer os lugares históricos, shoppings, praias, nunca
tive o prazer. Apenas via tudo do alto, quando esticava o pescoço e tentava
ver alguma coisa pela janela do avião enquanto ele sobrevoava baixo para
aterrissar.
Mas ver do alto de um helicóptero é uma emoção indescritível, não
tenho como explicar. Meu vizinho insuportável me mostra tudo, apontando
com o dedo, e quando chegamos próximo ao hotel onde vamos ficar, quase
solto um grito. O lugar é lindo demais, fica à beira-mar, situado em uma vasta
área verde. Daqui do alto dá para ver o azul das piscinas contrastando com o
azul do mar.
Descemos do helicóptero e um automóvel já nos aguarda. O hotel não
está muito cheio, pois não há muitas pessoas circulando no lobby.
— Espere-me aqui, já volto.
Meu vizinho me deixa sentada em um confortável sofá, enquanto se
dirige para a recepção. Minutos depois já estamos entrando no quarto.
Ele abre a porta e me deixa entrar primeiro. O quarto é grande e
aconchegante, um lugar propício para o que viemos fazer aqui – sexo. Passo
os olhos por todos os lugares possíveis, tudo aqui ostenta luxo e grandeza,
coisas com as quais o meu vizinho certamente está acostumado, pois a sua
expressão e o modo como joga as coisas na bancada dizem que nada desse
luxo lhe afeta.
— Nossa! Isso aqui é digno de reis. Já veio aqui antes? — Pergunto,
enquanto meus olhos continuam avaliando o local.
— Sim, sempre que venho a Salvador costumo me hospedar neste hotel
e nesta suíte. É um pouco distante do coração da cidade, e não há muito
rodízio de hóspedes. — Ele abre as cortinas enquanto explica e deixa o sol
entrar. — Gostou?
— Amei! — respondo com entusiasmo na voz.
Em poucos segundos sinto uma mão circular meu queixo e dois lindos
olhos verdes me fitarem gulosamente. Recebo um beijo inesperado – um
beijo de língua – daqueles que nos fazem ficar de pernas bambas. Mas do
mesmo jeito que fui pega com tanta ousadia sou afastada da sua boca,
deixando-me com uma sensação de abandono.
Ele continua próximo ao meu rosto, avaliando-me com o olhar.
— Minha reunião não será demorada, prometo que quando menos
esperar já estarei deixando o seu corpo mais lânguido do que deixei com o
meu beijo há poucos instantes. Aproveite para descansar... — ele se afasta
um pouco, só o suficiente para o seu olhar percorrer o meu corpo. — Pois vai
precisar, do jeito que estou cheio de desejo por você, não teremos intervalo
entre os nossos orgasmos.
Não tenho tempo de contestar. Meu corpo é preso ao dele por um abraço
poderoso, sua boca devora a minha num beijo possessivo que quase me rouba
o fôlego, então eu sinto o que ele quis dizer com o tamanho do seu desejo.
Seu membro está duro e pulsando, encostado em meu ventre.
Que Deus me ajude!
Ele me solta e se afasta sem dizer uma só palavra. Eu fico pasma, sem
conseguir mover um músculo sequer. O barulho repentino da porta batendo
me desperta no mesmo instante. Viro-me ligeiramente em direção à porta,
mas não o vejo mais.
Sem alternativa para ocupar meu tempo enquanto o meu vizinho gostoso
trabalha, resolvo tomar um super banho, afinal, dentro de alguns minutos eu e
ele seremos uma só pessoa debaixo dos lençóis da imensa cama deste quarto.
Capricho nos sais de banho aromatizantes, e para minha surpresa, não há
somente sais aromatizantes, como também óleos hidratantes para todos os
gostos e aromas. Escolho um com cheiro de lírio e chocolate, é doce, quente e
tentador. Já estou secando o cabelo quando escuto batidas na porta. Visto-me
com o roupão do hotel.
— Só um minuto. — Digo enquanto amarro o roupão e sigo para a
porta.
Um funcionário do hotel, todo sorridente, me espera com um carrinho
com uma porção de guloseimas e um lindo buquê de rosas.
— Senhorita, bom dia! — ele entra com o carrinho. — Espero que esteja
do seu agrado. — Sorri, e antes que eu possa expressar um agradecimento,
ele sai apressadamente, fechando a porta atrás de si.
Observo o carrinho com atenção. Então vejo que no jarro de rosas há um
cartão.
“Lótus, espero que goste do lanche, mandei que preparassem
especialmente para você. Coma tudo... é uma ordem. Tentei encontrar flores
de lótus, mas infelizmente não as achei, então as substituí pelas rosas. Já, já
estarei aí.”
Esse homem está me surpreendendo. Do frio e arrogante homem de
negócios, para um amante quente e romântico. Diga-se de passagem, um
homem que quer tanto ser lembrado como cruel e insuportável, jamais
poderia ter a doce lembrança de mandar rosas para uma mulher que
praticamente se jogou em seus braços. Ele não precisa me conquistar, já estou
à sua mercê, eu é quem preciso conquistá-lo.
Será que consigo?
Eu faço o que ele manda. Como todo o lanche, não sabia que estava tão
faminta. Após a comilança, deito-me na cama de roupão e tudo.
Acordo com aquela sensação de que alguém me observa, então eu o vejo
de pé bem diante da cama. Está vestido com um roupão igual ao que estou
vestida, cabelos molhados e um cheiro gostoso que é capaz de arrancar o
juízo de qualquer mulher, principalmente o meu. Ergo-me me apoiando nos
cotovelos e ficamos nos fitando por longos minutos. Ele nem se mexe, nem
sorri.
Nunca o vi expressar nem um simples esticar de lábios, este homem é
enigmático. Sem sorrisos, sem palavras doces, sem sentimentos. Mas que me
deixa completamente enlouquecida.
Por que esse homem me confunde tanto? Por que meu coração
estremece sempre que ele está próximo a mim? Será mesmo amor? Sim, é,
pois só o amor explicaria essa necessidade de pertencer unicamente a ele.
— Conseguiu descansar? — diz, sem desviar os olhos do meu rosto.
Eles me devoram.
— Sim — respondo. Estou um pouco desconfortável com a maneira que
me olha. — Por que está me olhando desse jeito?
Ele se ajoelha no colchão e engatinha até mim. Ficamos face a face.
Sinto o seu hálito mentolado em meu rosto e o seu olhar faminto.
— Pequena Lótus, o lenhador aqui está faminto, necessitado, ardendo de
desejo por você.
Ele mal acaba de fechar a boca e me beija enquanto sua mão puxa o laço
do meu roupão e a outra mão encontra o meu seio. Sua carícia lenta no bico
retesado me faz soltar um gemido longo em sua boca. Várias sensações se
espalham por todo o meu corpo, sensações enlouquecedoras e, inebriada por
seu toque febril, agarro a sua nuca, apertando-a com força. Meus lábios se
entreabrem e deixo-me ser lançada através deste desejo feroz, avassalador.
Então ele se afasta um pouco, interrompendo aquele beijo delicioso. Seu
olhar flameja, fascina-me. Eu o quero tanto... tanto.
Sou beijada novamente, desta vez com mais intensidade. Depois,
delicadamente, sua boca e língua acariciam o meu pescoço até encontrarem o
bico do meu seio. Meu corpo retesa ao toque ousado, sua boca, língua e
dentes sabem perfeitamente o que estão fazendo, pois quase grito de tanto
desejo. O meu outro seio recebe a mesma atenção e nesse momento já não
sou eu mesma, minhas mãos fazem tudo aquilo que sempre quiseram fazer.
Desfaço o laço do seu roupão e o tiro. Puxo-lhe os cabelos, minhas unhas
arranham suas costas, bíceps, peito. Começo a respirar mais pesado enquanto
as minhas mãos passeiam desesperadamente sobre o seu corpo. Toco o seu
sexo duro, massageio-o. Meu vizinho solta um rugido rouco, esfrega-se em
meu corpo, e os seus movimentos fazem com que a minha mão solte o seu
membro. Quase reclamo, só não o faço porque o meu seio recebe uma
mordida no bico que quase grito.
Sua boca escorrega por meu corpo, deixando um rastro molhado por
todo caminho. Meus pelos se eriçam e mordo o meu lábio inferior, pois sei
onde sua boca irá parar, eu sei o que vai acontecer.
Estremeço quando ele abre minhas pernas. Esfrega o rosto em minha
vulva, beija-a, morde-a...
— Je-Jesus! — Sinceramente, eu podia me perder com aquela boca. Não
me importo com o amanhã, quero essa boca e essa língua explorando cada
parte do meu sexo.
Sinto suas mãos afastarem ainda mais as minhas pernas e, em um
ímpeto, o seu rosto fica bem no meio delas. O raspar da sua língua e dos seus
dentes em minha vagina faz com que eu solte um grito desesperado,
empunhando o seu rosto com força, puxando os seus cabelos tanto que quase
os arranco.
— Fo-forasteiro, não, não para. Con-continua... humm!
Ele me obedece. Chupa-me com vontade, lambe-me, deleita-se com o
meu líquido do prazer. Sinto-me imersa em ondas constantes de euforia. Meu
corpo torna-se trêmulo, quente, sinto coisas que nunca imaginei um dia
sentir. Quero gritar, quero bater nele, mordê-lo e fazer com ele o mesmo que
ele está fazendo comigo. Perco-me em meu desespero, perco-me em sua
língua quente e macia. Meu vizinho quer me enlouquecer. Sim, ele quer e
está conseguindo, pois arqueio os meus quadris e roço o meu sexo em sua
boca, gemendo feito uma louca no cio. Suas mãos seguram minha bunda,
fazendo com que o meu sexo se prenda à sua boca.
— Vi-vizinho, eu... eu vou morrer...
Oh, língua bendita! Ela explora com afoitamento cada parte dos meus
lábios vaginais, até encontrar a minha entrada e penetrá-la com a ponta,
fazendo um vai e vem enlouquecedor. Meu corpo convulsiona e eu não
consigo conter os gritos, não consigo me manter quieta... não consigo sequer
raciocinar.
Ele só solta o meu sexo em meu último suspiro. Sem fôlego, trêmula,
fico quieta só sentindo a carícia do roçar dos seus dedos em minha vagina.
Não sei o que é mais atordoante, o roçar dos seus dedos ou a expectativa do
que irá acontecer dentro de alguns minutos.
Lentamente ele sobe sobre o meu corpo, espalhando beijos por onde
passa, até seu olhar encontrar o meu. Seu corpo tenso entre as minhas pernas,
seu sexo encostado no meu, duro, latejante... Então bate o medo.
Sim, medo. O que acho normal, pois eu nunca fiz sexo. Sou uma mulher
de 24 anos e virgem, como não ficar nervosa?
E o seu olhar faminto não ajuda muito.
Sua mão circula o meu queixo e a sua boca se apossa da minha. Sou
beijada com extrema força, um beijo rústico, lúbrico.
— Relaxe, pequena Lótus. Não vou machucar você — murmura,
enquanto sua boca procura o lóbulo da minha orelha.
E antes que eu possa dizer alguma coisa ele me beija novamente,
roçando o seu sexo no meu com afinco.
— Por favor, eu, eu... — Repito, aquele olhar intenso de desejo me diz
que é chegada a hora de pertencer a ele e eu quero muito lhe dizer que é a
minha primeira vez.
Mas ele ignora os meus débeis protestos, na certa pensa que estou com
medo – o que não deixa de ser verdade – e me cala com outro beijo
avassalador.
Meu coração acelera, e o dele também. Uma das suas mãos acaricia o
meu rosto, enquanto a outra desenha as curvas do meu corpo, debilmente.
Gemo de prazer.
— Lótus, eu a desejo loucamente, chega a doer. Você não tem noção do
quanto foi difícil vê-la nua quase todos aqueles dias no lago e não poder tê-
la...
Ele murmura ao meu ouvido, com a respiração sôfrega e a sua boca
mordiscando o meu pescoço.
— Não precisa ficar nervosa. Vou fazê-la se sentir bem...
— Eu... eu sei, não é isso. Eu preciso...
— Shhh! — Ele me cala com dois dedos em meus lábios e se afasta para
me olhar fixamente nos olhos.
Emudeço, fico completamente estagnada com a sua beleza e o seu poder
sedutor.
Seu corpo inclina-se novamente e sua boca rouba a minha. Murmúrios
abafados sobem da minha garganta, sob a pressão da sua boca e da sua mão
por baixo da minha nuca, puxando os meus cabelos. Sinto o seu sexo
procurar o seu caminho entre os meus lábios vaginais, o seu corpo roçando-se
levemente sobre o meu, seus quadris friccionando entre minhas pernas. Meus
braços apertam com força o seu corpo, minhas unhas encravam em suas
costas. Roço-me nele, mordo-o. Eu preciso dele, preciso de alívio para o
desejo feroz que cresce em meu corpo, que clama, que grita por ele.
Sinto o seu sexo de encontro à minha entrada íntima. Sinto a pressão e a
tensão voltando a me atormentar, o medo de não corresponder a este homem
tão ardente açoita a minha mente. Eu o aperto com mais força e ele pressiona
mais o sexo no meu, então não posso conter o grito de medo. Meu corpo
retesa, meus músculos enrijecem.
Ele para de pressionar o sexo contra o meu e o seu olhar fixa no meu.
Sobrancelhas arqueadas, olhos semicerrados, expressão inexpressiva.
Deu-me medo daquele olhar inquisidor.
— Você é virgem? — Sua pergunta é como uma acusação.
— Sim... eu queria dizer isso...
— Meu Deus! — Ele se levanta imediatamente, veste o roupão
rapidamente sem deixar de me olhar com aqueles olhos acusadores. — O que
pensou que iria acontecer se eu fosse o primeiro? Hein? — pergunta
friamente enquanto dá um nó na faixa do roupão.
Fico pasmada, olhando-o assombrada. As lágrimas começam a embaçar
minha visão.
Do que ele está me acusando?
12
LILLY

O que será que eu fiz ou disse, para deixá-lo tão irritado? Eu não
entendo, ele parecia tão entregue... tão, tão meu. E agora está me encarando
com esses olhos inquisidores, como se eu fosse uma criminosa.
— Responda-me, o que pensou que iria acontecer após eu ter sido o
primeiro? — Meus pensamentos são bloqueados por sua voz raivosa,
acusadora.
Nua, seios à mostra, boquiaberta e ainda sentindo os beijos e o toque do
homem que amo e que agora me trata com tanta crueldade, fico a fitá-lo,
buscando uma resposta para a tal pergunta que eu nem mesma sei se há
resposta, tamanho o absurdo.
— Como... do que está me acusando? — Sento-me e procuro pelo
roupão, mas não o encontro, então me embrulho com o lençol.
Ele me olha friamente, aproxima-se um pouco, o bastante para que eu
veja seu maxilar apertar e as suas têmporas pulsarem. Fico com medo da sua
reação, por isso encolho-me e fecho os olhos, só relaxo quando escuto o tom
gelado da sua voz.
— Eu não sou como os homens de Paraíso, minha cara. Não me importo
com virgindade. Se estava pensando que ao descobrir que fui o primeiro iria
querer assumir um compromisso com você, enganou-se...
Não sei como e onde encontro tanta agilidade, pois em questão de
segundos eu me levanto da cama e, tão rápida quanto, eu me aproximo dele,
pronta para esbofeteá-lo.
Com agilidade, ele segura o meu pulso.
— Eu já a avisei para não fazer isso. — Diz enfurecido, os olhos
chispando de raiva. — Não sou um cavalheiro. Comigo bateu, levou. Não
tente isso outra vez, da próxima eu não a impedirei, mas tenha a certeza de
que levará o troco.
Ele solta o meu punho e ficamos nos olhando fixamente, ambos cheios
de fúria.
— Em que século você está, seu arrogante? Acha mesmo que eu iria
exigir que se casasse comigo só porque foi o primeiro? Acorde! Já sou bem
grandinha. Será que não passou por sua cabeça que eu simplesmente só quero
que seja o primeiro em minha vida? Que eu escolhi você...
— Então, deveria ter perguntado a mim se eu queria tal
responsabilidade. — Ele me interrompe, suas mãos poderosas seguram os
meus ombros com firmeza e os seus olhos dançam sobre o meu rosto. — O
seu direito termina onde o meu começa.
— Quer dizer que, se soubesse, não estaríamos aqui hoje? —
interrompo-o e engulo a vontade de chorar, pois nesse momento é o que mais
quero fazer.
— Com toda a certeza — responde-me secamente. — E vá por mim,
você ainda vai me agradecer por isso. — Ele se vira e caminha em direção ao
banheiro. — Vista-se, partiremos em quinze minutos.
— Filho da mãe prepotente. Sujeito arrogante, ordinário...
Mal fecho os meus lábios e ele se volta em minha direção. Sou
sacolejada pelos ombros enquanto dois olhos verdes e frios me fitam com
raiva.
— Posso ser tudo isso e muito mais, mas eu não sou um canalha. Jamais
usaria uma moça inocente para saciar os meus desejos sexuais. A primeira
vez de uma mulher tem que ser especial, tem que ser por amor. Esqueça-me,
Lótus, estou longe de ser um príncipe encantado. Estou mais para um maldito
sapo venenoso, só posso oferecer sexo e nada mais, e você merece mais do
que isso... muito mais.
Nesse instante eu vejo o brilho dos seus olhos mudarem. Eles ficam
intensos, posso até jurar que há carinho, admiração neles. Ele me solta, dá as
costas para mim e caminha para o banheiro.
— Então se eu não fosse virgem, você faria sexo comigo? — Ele para,
mas continua de costas.
— Sim, estaríamos fazendo sexo até agora e durante toda a tarde, até
que chegasse a hora de irmos embora.
— Então, se eu me entregar para o primeiro que surgir na minha frente,
você fará sexo comigo? — Falo com sarcasmo. Antes eu tivesse ficado
calada.
Ele torna-se duplamente perigoso, quando calo a boca. Volta-se em
minha direção tão rápido como uma flecha. Segura-me pela cintura,
apertando o meu corpo contra o seu, penso até que vai me beijar. Seu rosto
fica tão próximo ao meu que os nossos narizes se tocam.
— Moça desaforada, entregue a porra da sua virgindade a quem quiser,
se fizer isso, não vai mudar a nossa situação. Pode até piorá-la, pois para mim
não passará de uma moça mimada e sem caráter, e tudo o que penso sobre
você irá por água abaixo.
Meu corpo é suspenso do chão e sou guiada até a cama. Penso até que
ele mudou de ideia quanto a fazer sexo, mas é apenas um pensamento. Ele
me senta na cama, sem afastar os olhos dos meus. Sua respiração abranda,
molha os lábios com a ponta da língua e fecha os olhos enquanto sua testa
encosta na minha. Respira profundamente e se afasta.
Maldito, orgulhoso, insuportável!
— Vista-se, você tem cinco minutos.
Desaparece através da porta do banheiro.
Sentada no colchão da enorme cama, onde há pouco estava sendo
acariciada por um homem febril e que parecia apaixonado, fico no mais
completo desalento e me pergunto por que e como tudo aconteceu. Fecho os
meus olhos e me perco em meus pensamentos. Permaneço imóvel, largada à
minha tristeza, sentindo-me uma completa idiota.
A porta do banheiro se abre e um homem lindo e com ar arrogante
estampado no rosto surge, vestido em seu terno caro, tão escuro quanto a sua
alma cruel. Ele me olha.
— Ainda não se vestiu? — Espera uma resposta e eu apenas o fito com
um olhar consternado. — Apresse-se, estou esperando-a no lobby do hotel.
A porta do quarto se fecha, mal consigo conter o meu fôlego e pisco os
meus olhos instintivamente. Num pulo eu me levanto e saio em busca das
minhas roupas. Visto-me em menos de cinco minutos e sigo para encontrá-lo.
Ele não está no lobby, o que me gera apreensão. Será que ele foi embora
e me deixou sozinha aqui?
— Senhorita. — Uma voz me acorda dos meus pensamentos tristonhos.
Viro-me para um rapaz sorridente, o mesmo que me levou o lanche. —
Queira me acompanhar, por favor.
Eu o sigo em direção ao elevador. Já sei para onde estamos indo. Para o
heliporto do hotel.
Meu vizinho insuportável está de pé diante de uma estrutura de zinco, as
mãos enfiadas nos bolsos da calça, os cabelos bagunçados pelo vento. Parece
perdido em seus próprios pensamentos. Aproximo-me. Ele olha para mim.
— Pronta? — pergunta, indiferente, não parece aquele homem de
quando viemos, mostrando-me tudo e respondendo a todos os meus
questionamentos.
Eu só assinto com a cabeça.
A viagem de volta a Paraíso é feita em silêncio. Meu vizinho calado e eu
também, lutando contra a vontade de chorar desesperadamente.
Assim que chegamos em sua propriedade, continuamos mudos até
entrarmos no castelo. Eu o sigo até o gabinete.
— Forasteiro. — Chamo-o suavemente, é quase uma súplica.
Ao me ouvir, ele volta o rosto em minha direção e, subitamente, eu
percebo que algo está diferente. Há um sofrimento estampado em seu olhar
frio.
— O que ainda faz aqui? — pergunta, secamente. — Se não se importa,
eu preciso trabalhar.
Sinto uma necessidade de desafiá-lo. O que ele pensa que eu sou? Uma
qualquer que ele simplesmente dispensa sem nenhuma consideração?
— Sim, eu me importo. Então é assim, você me manda embora e
acabou? — Pergunto com presunção na voz.
— Moça, vá embora. Não temos mais nada para falar, não prolongue
esse assunto. — Seus olhos não se desviam do meu rosto.
Penso até que ele virá em minha direção.
— Eu o amo, será que é tão difícil de entender? Eu me apaixonei por
você no momento em que me beijou pela primeira vez. E quer saber? Você
foi o primeiro homem a me beijar e tocar e seria o primeiro a fazer amor
comigo, se não fosse tão idiota.
Ele me olha, silenciosamente. Aproximo-me, ficamos tão perto um do
outro que posso ver o pulsar da veia do seu pescoço. Ele cruza os braços, mas
mantém o olhar frio em meu rosto.
— Como pode dizer que me ama? Nem ao menos sabe o meu nome.
Deixe de ser infantil, pequena Lótus, o amor é um sentimento tolo, só nos
causa dor e sofrimento. Vá embora e me esqueça, não sou o que pensa.
Seguro em seu braço. Não quero discutir com ele.
— Não sei o seu nome porque você faz questão de mantê-lo em segredo,
mas nomes não fazem a menor diferença. Eu o amo e pronto, por que não me
dá uma chance de demonstrar o meu amor? Por que não podemos tentar?
Suas mãos circulam o meu rosto. Seu olhar indecifrável varre a minha
face demoradamente.
— Meu nome não tem importância, e quanto a uma chance para nós...
impossível. Estou indo embora de Paraíso amanhã logo cedo e não pretendo
nunca mais voltar a esta terra maldita. O que eu tinha de fazer aqui, já fiz.
Portanto, para o seu próprio bem, pequena Lótus, esqueça-me. — Diz com
raiva na voz, pega-me por meu braço e leva-me até a porta. — Alfredo!
— Chamou, senhor? — O mordomo surge de repente.
— Acompanhe a senhorita Lótus até fora do castelo. — Como uma
pessoa pode ser tão fria, tão cruel como ele? Nunca em toda minha vida fui
tratada assim, com tanta indiferença.
As lágrimas que estão presas começam a cair dos meus olhos. Um nó se
forma em minha garganta. Sinto vontade de gritar com ele, bater nele, xingá-
lo de todos os nomes feios possíveis. Mas fico paralisada diante de tanta
frieza, tanta desumanidade.
Sou empurrada para fora do gabinete e a porta se fecha em minha face.
Não consigo acreditar que ele fez isso. Escondo o rosto em minhas mãos e
choro, um choro desesperador.
— Senhorita, não fique assim. Ele tem razão, é melhor esquecê-lo.
— Do que ele é feito? De gelo, é isso? — Encaro o Alfredo com um
olhar consternado, limpando minhas lágrimas. — Algum dia na vida esse
homem teve o coração de um ser humano?
Alfredo nada diz, apenas dirige-me um olhar afetuoso.
— Não precisa me acompanhar, eu conheço o caminho. Adeus, Alfredo!
13
LILLY

Saio às pressas do castelo. Corro com as lágrimas nublando os meus


olhos e em poucos instantes eu chego em casa. Tranco-me em meu quarto e
choro até ser tomada pelo cansaço.
Não sei por quanto tempo dormi, mas acordo com uma voz me
chamando.
— Querida, acorde... Lilly, acorde. Seu pai está lhe chamando no
escritório.
— Que horas são, Nuza?
— Quase vinte horas. Você dormiu muito, não acordou nem para o
jantar. Aconteceu alguma coisa?
Nuza me olha com aquele olhar curioso. Não quero relembrar os piores
momentos da minha vida, então resolvo mentir.
— Não, só estou cansada. — Sento-me na cama. — O que o papai quer
comigo?
— Eu não sei, minha filha, mas posso adiantar que o seu pai não está de
bom humor. Hoje tivemos até polícia aqui, acompanhada do delegado e de
um homem muito bem-vestido. Depois que eles foram embora, seu pai
quebrou quase toda a mobília do escritório.
— Polícia! — exclamo, alarmada. O que será que a polícia veio fazer
aqui? Será que o meu pai aprontou algo ilícito?
Sacudo a cabeça para afastar meus pensamentos e volto a atenção para
Nuza.
— Sim, os policias ficaram lá fora. O delegado e um homem bem-
vestido ficaram conversando com o senhor González por muito tempo.
— Sabe o motivo da visita, Nuza? O que eles queriam com o papai?
— Não sei de nada, filha. O que eu sei é que desde que eles foram
embora o seu pai não para de perguntar onde você anda, quase que manda um
dos empregados à sua procura. Acho melhor você ir ver o que ele quer.
— Vou agora. — Levanto-me rapidamente e visto um cardigã longo. —
Ele está no gabinete?
— Sim, no que sobrou dele.
Beijo-a no rosto e vou atrás do meu pai.
Bato na porta do gabinete. Uma voz indiferente me manda entrar. Ao
entrar, fico estática. Acompanho com o olhar tudo ao meu redor. Não há nada
de pé na antessala, tudo está quebrado. Então um vazio imenso toma conta do
meu coração, como se estivesse perdendo algo muito importante e
irrecuperável, como se um pesadelo estivesse a ponto de me acometer. Sigo a
passos indecisos até a sala onde fica o escritório do papai. Encontro-o sentado
na cadeira, cabisbaixo, pensativo, indefeso. Meu coração fica pequeno ao vê-
lo assim. Papai é tão determinado, tão forte, e hoje vejo só a sombra do
homem que ele foi um dia.
— Papai, estava me procurando? — Ele permanece cabisbaixo. —
Papai...
Antes que eu possa esboçar qualquer reação, ele me corta a fala e diz:
— Encontre uma cadeira e sente-se — diz, sem levantar o olhar. — Mas
se não quiser se sentar, não há problema. Prometo não prolongar a nossa
conversa.
Olho à minha volta em busca de uma cadeira em que possa ao menos me
sentar. Encontro uma com o braço quebrado, levanto-a e me sento nela.
Os olhos distantes e sem brilho do meu pai me encaram. Aquele olhar
vazio me fez lembrar de um outro olhar – o do meu vizinho insuportável –
que me olha exatamente igual.
— Você já deve saber que a polícia esteve aqui, não sabe? — Assinto
com a cabeça e o meu coração acelera. — O delegado, aquele amigo da onça,
também veio acompanhar o maldito advogado...
— Advogado? — interrompo meu pai. — O nosso advogado?
— Não, e por favor não me interrompa mais — diz secamente. — O
advogado do homem a quem eu devo até a minha alma. — Ele se levanta,
começa a apanhar algumas coisas do chão. — Lilly, eu não estava brincando
quando disse que estávamos falidos, não temos nem centavos para
comprarmos um simples doce no armazém.
Levanto-me e vou em sua direção, seguro em seu braço e ele se vira.
Ficamos nos encarando. Seus olhos estão vermelhos, só agora eu percebo que
ele andou chorando.
Meu pai chorando. Não lembro de ter presenciado isso algum dia.
— Você entendeu o que eu disse, Lilly? — assinto outra vez com a
cabeça, tenho medo de falar e ele ficar agressivo. — Perdi todos os meus
bens, do mais simples a esta fazenda. Não temos onde cair vivos.
Mordo os lábios. Sim, eu me lembro da nossa última conversa, mas
pensei que ele só queria me ferir ou me assustar. Nunca pensei que um dia
estaríamos na completa miséria.
— Pai, como isso foi acontecer? Como o senhor perdeu uma fortuna da
noite para o dia? — pergunto em total perplexidade.
— Perdendo, ora essa! E do que adianta eu lhe explicar? Já perdi e
pronto.
— Eu quero saber, quero entender. Talvez possamos encontrar uma
saída...
— Cale-se e me escute — retruca com grosseria. — Eu perdi tudo no
jogo e não foi da noite para o dia, foi desde a morte da sua mãe. Minha vida
se acabou com a morte dela, eu só não me matei porque sou covarde demais
para isso. Também... também tinha você...
Ele cai de joelhos ao chão. Inclina o corpo para frente e chora
copiosamente. Não tenho como me manter indiferente a tanto sofrimento.
Ajoelho-me e o toco nas costas.
— Papai, eu posso trabalhar. Podemos pagar a dívida com o que eu
ganhar.
Ele ergue o corpo, fita-me com um olhar congelante e solta uma
gargalhada.
— Jura, Lilly? Você irá trabalhar? De quê? Qual a sua experiência?
— Papai, eu tenho diploma superior e sei falar duas línguas estrangeiras.
Posso não ter experiência, mas tenho força de vontade.
Ele afasta minhas mãos que nesse momento tentam ajudá-lo a se
levantar.
— Não seja tola, Lilly. Você é graduada em Filosofia e nem sei se o seu
diploma é válido no Brasil. Mesmo que arrume um emprego, o seu salário
não pagaria um por cento da minha dívida. É muito dinheiro, dinheiro que os
filhos dos filhos dos seus filhos ainda iriam ter que devolver.
Quem precisa agora sentar sou eu. Minhas pernas ficam bambas, minhas
mãos geladas. Então é muito mais sério do que eu imaginei.
— Deus! E agora, papai?
— Agora... agora o meu credor quer que eu desocupe a fazenda. Temos
só até amanhã pela manhã e seremos escoltados pela polícia... — Ele faz uma
pausa, enquanto puxa o ar para os pulmões com força. — Só podemos sair
com os nossos pertences pessoais.
— E para onde vamos, já que não temos mais nada? Para onde, papai?
— Pergunto, desesperada.
— Para debaixo da ponte, pois é o único local onde não pagamos
aluguel.
— Papai! Não! O senhor tem tantos amigos, algum deles vai nos
ajudar...
— Amigos! — A força da sua mão espalmada sobre a mesa me
interrompe. — Acorde, Lilly, eu não tenho amigos, nunca tive. E agora todo
esse povo que vivia puxando o meu saco vai dançar sobre o meu cadáver.
Estamos sozinhos, sozinhos e na completa miséria, entendeu?
Levo as mãos ao rosto. Fico completamente perdida, nunca pensei na
vida passar por uma situação dessas. Sempre tive de tudo, mesmo morando
na Suíça meu pai nunca me deixou faltar nada. Nunca precisei fazer
absolutamente nada para viver e agora estou começando a viver dentro de um
pesadelo onde não sei se irei acordar.
— Temos duas saídas. Uma é irmos embora amanhã e enfrentarmos a
fome e o relento. A outra... — Ele desvia os olhos dos meus, começa a
dedilhar sobre a madeira da mesa, nervoso.
— A outra?... — Repito e o espero completar.
— O advogado do meu credor me ofereceu uma opção. — Faz outra
pausa. Encara-me com um olhar apreensivo.
— Papai, fale logo e sem rodeios, por favor. — Suplico. Já estou quase
arrancando os meus cabelos de tanto nervoso.
— O meu credor quer se casar com você...
— Casar! Comigo? — Perplexa, levanto-me imediatamente. Um de nós
dois só pode estar louco. Como assim, casar? — Papai, isso é brincadeira,
não é? Porque estamos em pleno século vinte e um e casamento é coisa séria.
— Antes fosse, mas não é brincadeira. — Ele se senta. — É um
casamento por contrato e a finalidade dele é um filho. Você terá um ano para
engravidar e mais um ano até a criança nascer e não precisar mais mamar.
Após se cumprir o prazo, você receberá uma gorda pensão vitalícia e eu
receberei todos os meus bens de volta. E durante o tempo em que estiver
casada eu poderei continuar morando aqui. Caso você desista antes do prazo,
perdemos tudo, e se você não engravidar no prazo de um ano, só você
lucrará. Ganhará uma casa onde quiser e uma pensão. É um casamento de
verdade, mas você abrirá mão da guarda da criança, de todos os bens do seu
marido e a gravidez se dará da maneira tradicional, entendeu?
As palavras duras e frias do meu pai ecoam em meu subconsciente.
Avalio rapidamente tudo o que foi me dito nos últimos minutos. Estou
pasma, completamente desorientada. Mas o que fazer diante de tal fato? A
minha única certeza é que papai não suportará tamanha humilhação.
— Entendi... Quer-quer dizer, estou tentando compreender tal absurdo.
Como, em pleno século 21, se faz um acordo absurdo desses? Esse tal
homem é podre de rico, pode ter a mulher que quiser e assim conseguir o seu
herdeiro. Por que propor um contrato incongruente desse tipo?
— Porque ele pode. Porque ele nos tem nas mãos. Porque o que eu lhe
devo é uma fortuna — papai declara, nervoso. — Mas isso pouco importa.
Pense na proposta, temos até amanhã para darmos a resposta. A nossa
subsistência depende de você.
— E se ele for um velho caquético, ou pior, e se ele estiver doente? Por
Deus! — Pergunto horrorizada.
— Ele quer se casar, Lilly, não a usará como mercadoria. Você será a
esposa dele, pense desta forma. E isso não durará para sempre, no máximo
uns dois anos. Pare de pensar no lado ruim, pense nas vantagens...
Ele se cala de repente. Senta-se outra vez, segura a cabeça entre as mãos.
— Papai. — Mordo os lábios, estou completamente desolada.
— Deixe-me sozinho. Você tem até amanhã para resolver o nosso
destino. Ou recuperamos tudo, ou vamos comer os restos dos outros. Boa
noite, Lilly.
Ele me encara e eu vejo a súbita palidez do seu rosto. A falta de cor em
seu rosto, o tremor labial e o olhar consternado evidenciam muito sofrimento.
Papai está sofrendo mais do que aparenta. Eu sei o quanto esta fazenda
significa para ele, não é só um bem material. Para o papai é muito mais do
que isso... é o sangue dos seus antepassados que está impregnado na terra, em
cada árvore deste lugar. Ele poderia perder tudo o que tem, menos a fazenda.
Não sei se ele suportará perdê-la.
— Deixe-me sozinho, Lilly. Por favor.
— O senhor ficará bem? — pergunto com doçura.
— Não, mas não farei nenhuma loucura. Agora vá, saia da minha frente.
Não adianta argumentar com o papai. Viro-me e saio do gabinete
cabisbaixa. Deixo-o com os seus pensamentos e fantasmas.
Com o coração sangrando e os pensamentos atordoados, corro em
direção à cachoeira. Não para me banhar em suas águas cristalinas, mas vou
de encontro a única pessoa que talvez possa me ajudar. Quem sabe ele não
possa nos abrigar no castelo, ou talvez possa me empregar e ao papai
também? Afinal a propriedade não pertence mais aos inimigos do papai, ele
não se negaria a trabalhar dignamente. Se eu conseguir a ajuda do meu
vizinho insuportável, não precisarei me casar com um homem que eu nem
conheço.
Eu sei que está tarde, mas ele não se negará a me receber. Bato
incansavelmente na grossa e enorme porta de madeira. Logo escuto o som de
trancas sendo destravadas.
— Senhorita Lótus! — Um dos empregados surge diante de mim. — O
que faz aqui tão tarde?
— Ele está acordado? Eu preciso muito falar com ele, é caso de vida ou
morte — digo desesperada. Não consigo controlar a minha aflição.
O homem me encara por alguns segundos e antes que eu possa articular
outra frase, ele me interpela.
— Ele não está aqui. O meu patrão foi embora há quase duas horas e
não voltará mais. Se quiser, posso passar o seu recado.
Minha última esperança acabara de morrer, e o meu destino, seja qual
for a minha escolha, será o pior possível. Pela primeira vez na vida, sinto-me
uma incapaz.
— Não, não precisa, obrigada.
Arrasada, cansada e desprovida de qualquer possibilidade de salvação,
viro-me e caminho de volta para casa, chutando as folhas secas que encontro
pelo caminho iluminado pela lua cheia. E neste momento em que vejo
algumas folhas flutuarem no ar, comparo-me com elas... mortas e sem vida.
14
LILLY

Acordo com uma sensação de entorpecimento no corpo. A


impressão que eu tenho é que passei a madrugada inteira acordada. Na
realidade, mal consegui dormir, acho que se muito dormi foram umas duas
horas. As horas que se seguirão não serão fáceis, papai me disse que o
advogado do seu credor virá logo cedo em busca de uma resposta. Fiquei
pensando nisso por um longo tempo — na tal proposta indecorosa — e até
agora não consigo acreditar no que escutei.
Casar-me com um homem que sequer sei o nome. E como se não
bastasse, terei que fazer sexo com ele para lhe dar um filho. É... é como se
estivesse vendendo o meu corpo para um estranho, com uma única finalidade.
Engravidar.
Se eu aceitar tal absurdo, estarei me comparando a uma prostituta, pois
aceitarei fazer sexo em troca da fortuna do meu pai. Contudo, se recusar, nós
dois pereceremos na completa desgraça. Só não sei o que é pior, vender a
minha alma para o diabo, ou virar uma sem-teto. Eu sei que se aceitar minha
vida mudará completamente. Serei eu a humilhada, e o que me deixa mais
consternada é o fato do meu pai encarar a tal proposta com tanta naturalidade.
— Lilly!
Nuza me chama através da porta do meu quarto.
— Lilly, está acordada? Trouxe o seu café.
— Estou. Pode entrar, a porta não está trancada. — Com a voz não
muito animada, mando-a entrar.
Nuza entra com uma bandeja nas mãos e a coloca sobre a cama. Não há
muito para o desjejum, apenas pão, uma fatia de queijo, ovos mexidos, café
com leite e suco de laranja, todos feitos com os produtos da fazenda. Pelo
menos ainda tínhamos o que comer.
— A polícia voltou. O delegado mais o homem engravatado e um outro
que eu não conheço estão com o seu pai no gabinete.
Já estou levando a fatia de pão à boca quando a Nuza completa a fala.
Sou tomada pelo susto. Como assim? Papai ficou de me chamar quando eles
chegassem, afinal serei eu a salvadora da pátria.
— Papai mandou me chamar?
— Não. Ele pediu para mantê-la ocupada e em hipótese alguma deixá-la
ir lá embaixo.
— O quê!? — Perplexa, jogo o pão na bandeja.
Levanto-me imediatamente, corro para o meu armário de roupas e visto
uma calça jeans e uma blusa de malha básica. Não há tempo para enfeites ou
preocupação com uma roupa adequada. O que papai pensa em fazer,
mantendo-me longe dessa conversa?
— Onde pensa que vai, Lilly? Seu pai não quer que vá ao gabinete.
Nuza tenta me deter quando percebe a minha intenção de sair do quarto
e me segura pelo braço. Livro-me das suas mãos.
— Vou salvar a vida do meu pai, é isso o que farei.
Deixo-a boquiaberta, plantada de frente à porta do meu quarto.
Não bato na porta do gabinete, resolvo entrar sem avisar. Assim que
coloco os pés na antessala escuto a voz arrasada do papai. Sua voz se arrasta
contida, como se estivesse prestes a desabar.
— Então, qual é a resposta a ser dada ao meu cliente? — Uma voz
arrogante entoa na sala. Provavelmente é o advogado.
— Sim. — A voz trêmula do papai responde. Eu só não esperava a
resposta. — Eu e minha filha iremos embora, só nos dê uma hora para
arrumarmos...
— Não. — Entro desesperada na sala e quase tropeço no tapete. —
Papai, o senhor não pode tomar a decisão por mim. — Encaro-o com
lágrimas nos olhos.
— Saia daqui, Lilly. Eu já tomei a minha decisão, a culpa é minha por
estarmos nesta situação. — Ele vem até mim e, depois de anos, sou abraçada
com carinho. — Oh, minha princesa, perdoe-me. Não irei sacrificá-la como
um cordeiro, é meu dever protegê-la, não você a mim. Daremos um jeito
nessa bagunça.
Papai treme até os ossos. Sinto suas lágrimas molharem os meus
ombros. Eu não sei se choro de tristeza ou de alegria. Alegria por escutar meu
pai me chamar de princesa após tantos anos, alegria por saber que, apesar da
sua indiferença, ele ainda sente algo por mim.
E é esta alegria que me faz criar coragem e vontade de protegê-lo.
Abraço papai com extremo carinho, e enquanto faço isso, dirijo os meus
olhos na direção do homem alto, trajado elegantemente.
— Eu aceito... — Papai afasta-se do meu abraço. Segurando-me pelos
ombros, seus olhos encontram os meus. — Aceito me casar com o credor do
papai.
— Não, não, Lilly. Eu não posso permitir tamanha loucura. Não...
— Sou maior de idade, posso tomar as minhas próprias decisões. Não
permitirei que perca sua fazenda, se depende de mim evitar que isso aconteça,
então o sacrifício valerá a pena.
O tal engravatado, que até agora não sei o nome, olhava-me com
admiração, como se não esperasse tal reação minha. Afinal, eu sou a ovelha a
ser sacrificada.
Afasto-me do papai, beijo-lhe a testa carinhosamente. Seu olhar
consternado encontra o meu. Aliso o seu rosto e digo-lhe, movendo somente
os lábios: “Ficarei bem”.
Ele me responde da mesma maneira. “Não ficará. Eu sei que não.”
Seus braços circulam os meus ombros, e o abraço que recebo é tão bom
que inconscientemente choro. A última vez que fui abraçada desta forma foi
quando ainda era uma menina. Lembro-me até do dia, a minha primeira visita
a Paraíso. Minhas primeiras férias escolares, eu tinha apenas treze anos.
Afasto-me do aconchego do meu pai. Ele tenta me segurar em seu abraço,
mas, delicadamente, retiro suas mãos dos meus braços. Sigo em direção aos
três homens que nos observam com atenção.
— Sr. Silvestre. — Cumprimento o delegado e logo depois encaro o
homem que está ao seu lado. — Bom dia, senhor. Meu nome é Lilly, qual é o
seu?
Ele sorri polidamente e estica a mão, fitando-me demoradamente.
— Péricles Stuart, advogado do senhor Salles. E este é o senhor
Orlando, representante do cartório. — Diz, enquanto aperta a minha mão.
Então o credor do meu pai chama-se Salles. Ao menos já sei o seu
nome.
— Então, o que faço agora? Aceitei o pedido de casamento, qual é o
próximo passo? — Minha vontade é de sair correndo. De repente falta
oxigênio em meus pulmões e a sala torna-se pequena demais.
Acho que o Péricles percebe o meu mal-estar. Aproxima-se da mesa,
coloca sua pasta sobre ela e abre-a, retirando de dentro dela alguns papéis.
— Onde está o seu advogado?
— Não temos um, precisa mesmo de um advogado? — Minha voz treme
ao falar. Papai segura minha mão e a aperta.
— Lilly, não precisa fazer isso, darei um jeito na nossa situação. — Ele
sussurra bem próximo, inclinando o rosto para perto do meu ouvido.
— Não se preocupe, eu sei o que estou fazendo. Acalme-se, papai. —
Meu olhar encontra o seu e eu sorrio.
Seu olhar tristonho e perdido quebra o meu coração. Pela primeira vez
eu vejo medo nos olhos dele. Rodrigo Gonzáles sempre foi um homem
arrogante, destemido. Hoje ele está sendo o avesso de tudo isso.
— Nós não precisamos de advogados. Por favor, seja breve, quero
terminar logo com isso. — Digo com firmeza na voz.
— Seria bom a presença de um advogado...
— Não precisamos de um. — Interrompo-o. Na verdade, quero logo
acabar com este pesadelo.
Péricles respira fundo. Acho que não gosta da minha atitude.
— São os documentos da união civil. — Ele os entrega para mim.
— Onde assino? — Jogo-os na mesa, enquanto procuro uma caneta.
— Não vai lê-los? — Nego com a cabeça, continuo minha procura por
uma caneta. — É melhor ler, não se assina nada sem antes ler. Você sabe
disso, não sabe?
Encontro a caneta. Olho impacientemente para o advogado arrogante.
— Se eu não gostar de alguma coisa que está escrito aí, o senhor a
mudará? — Fito-o com arrogância.
— Não. — Responde com rispidez. — Certamente já sabe o que está
escrito neste contrato, mas repetirei para você.
Ele coloca as mãos nos bolsos da calça, encara-me com as sobrancelhas
arqueadas.
Eu sei o que está escrito no documento maldito. Ao assiná-lo, estarei me
vendendo para o senhor Salles.
— Este documento é um contrato de casamento entre você e o meu
cliente, totalmente legal — ele aponta para um dos documentos. — Nele está
registrado que durante o período de um ano...
— Eu sei — interrompo-o. — Tenho o prazo de um ano para engravidar.
Se isso acontecer, ficarei casada até o bebê desmamar, ou seja, seis meses.
Assinarei um documento abrindo mão da guarda da criança, voltarei para
Paraíso com uma pensão vitalícia e terei todos os meus bens de volta. Caso
eu não engravide, só ganharei uma pensão e uma casa no lugar onde escolher.
E, se por acaso desistir do acordo, não ganho nada. Onde assino?
Péricles sussurra algo para o outro homem. Ele retira de uma pasta um
grande livro, coloca-o sobre a mesa e indica onde eu tenho que assinar.
Assino.
— E o meu noivo, não assinará? — questiono com sarcasmo.
— Eu assino por ele. Sou o seu representante legal, tenho uma
procuração. — Ele me mostra os outros documentos. — Este é o contrato
entre você e o meu cliente e este é onde reafirma que a guarda da criança
ficará com o senhor Salles.
Sem pestanejar, assino todas as vias. Meu coração quase saindo pela
boca, batendo tão acelerado que quase caio de joelhos. Acabo de vender
minha alma para o diabo.
— Pronto, e agora...? — Luto para não chorar, não quero que percebam
que estou quase desmoronando.
— Agora as testemunhas assinam. — Péricles olha para o delegado e
para papai.
As mãos do papai tremem ao pegar a caneta, ele quase não consegue
escrever o nome. Ele permanece calado e cabisbaixo.
— E agora, falta o quê? — Pergunto com um riso forçado nos lábios.
— Uma foto. Meu cliente quer conhecer a mulher com quem se casou.
Este momento era para ser o mais feliz da minha vida, só que não me
sinto uma noiva, muito menos feliz. Quando vejo o celular focando em mim,
tento parecer impassível. Fico séria, lutando contra as lágrimas. O flash da
câmera cega os meus olhos por alguns segundos e quando volto a mim,
Péricles já está guardando o celular no bolso do paletó.
— É só isso? O que faremos agora?
— Pegue suas coisas, partiremos imediatamente para a capital...
— Como assim?! — Papai sai do torpor e eu quase caio de joelhos.
Seguro-me na cadeira que está ao meu lado para não cair. — Como assim, o
senhor levará minha filha agora? Para onde? Não conhecerei o homem que se
tornou o meu genro? Não, não permitirei um disparate desse, minha filha só
sairá daqui quando eu conhecer o senhor Salles.
— Senhor Rodrigo. — Péricles cala o meu pai com sua voz arrogante.
— O senhor já sabia que isto aconteceria, sua filha irá comigo e o senhor
ficará aqui. Será assim, ou o acordo será cancelado. — Ele olha para mim.
— Papai, está tudo bem, eu irei. Não se preocupe, mandarei notícias
assim que chegar à capital.
— Lilly, ainda há tempo de desistirmos de tudo isso. Por favor, não faça
isso.
Nem eu, nem ele, conseguimos controlar a emoção. Nos abraçamos e
choramos juntos.
— Senhora Lilly, temos de ir. — O advogado petulante chama-me de
volta ao mundo real.
Ajeito os meus cabelos, limpo minhas lágrimas, ergo a cabeça e procuro
o resto da minha dignidade. Beijo o rosto do papai e o deixo sentado em uma
cadeira, completamente destroçado. Sigo para o meu quarto para pegar
minhas coisas.
Nuza chora compulsivamente. Ela não acredita no que o destino
reservou para mim. Ajuda-me a arrumar minha bagagem.
— Filha, não faça isso, e se este homem for um velho? Ou pior, se ele
for perverso, meu Deus!? Como o seu pai concordou com isso? Não vá, Lilly,
eu te peço.
Beijo-a por diversas vezes. E quando nos abraçamos, digo-lhe:
— Faço isso por meu pai, pois eu sei que se ele perder a fazenda,
morrerá. Não se preocupe, algo me diz que ficarei bem.
Deixo-a aos prantos. Dói o meu coração saber que deixarei duas pessoas
que tanto amo, sozinhas e cheias de preocupação. Nuza é como se fosse
minha mãe, ela sempre zelou por mim como tal. Quanto ao meu pai, até hoje
não sabia que realmente ainda se importava tanto comigo, mas pela sua
atitude, ele ainda era o meu pai querido.
Despeço-me do papai. Tento não demonstrar fraqueza, preciso ser forte
para que ele seja também, mesmo sabendo que assim que virar as costas ele
se entregará à bebida. Vou embora sem saber o meu destino final. Também
não quero saber, não me importo para onde vou. Seja qual for o lugar, por
mais lindo que possa ser, será o inferno para mim. E o próprio demônio será
o meu companheiro.
15
RAPHAEL

Depois que a linda Lótus foi embora, fico pensando em todos os


acontecimentos dos últimos dias. O meu envolvimento com ela já estava
ultrapassando o nível do casual – uma simples atração sexual – e eu sou
bastante experiente para saber separar uma atração de algo mais sério. Já está
na hora de acabar com isso. Não vim a Paraíso para me envolver
sentimentalmente, além do que, em minha vida não há espaço para romances.
— Alfredo? — Vou até a porta e o espero. Ele vem apressado. —
Arrume nossas coisas, voltaremos para o Rio de Janeiro agora mesmo.
— Estamos fugindo de alguém, senhor Conde? — Seu olhar
questionador encontra o meu.
— Não, já terminei o que vim fazer em Paraíso. Não tenho mais nada
que me prenda aqui, portanto quero ir embora desta terrinha infeliz.
Alfredo continua me analisando com o seu olhar questionador. Ele
certamente está conjecturando hipóteses, e uma delas, com toda certeza, é a
linda Lótus. O que não deixa de ser verdade.
— Apresse-se, homem, não quero criar raízes aqui. Quando tudo estiver
pronto, chame-me. Vou fazer as últimas ligações e falar com o Péricles, ele
ficou de ir à casa do maldito amanhã bem cedo.
Já estou virando as costas, quando meu braço é tocado pela mão do
Alfredo. Ele faz com que eu freie os meus passos.
— O senhor vai mesmo continuar com esse plano sórdido de vingança?
Viro-me para ele.
— Em nenhum momento pensei em desistir, vingarei a morte de meu
pai. Aquele maldito perderá tudo, inclusive o neto.
— O senhor sabe que a cláusula de guarda do filho não é válida. Se a
filha do senhor Rodrigo for esperta, ela procurará saber e não cederá a guarda
permanente para o senhor.
Ele está certo. Realmente eu não posso exigir que a moça me dê a
guarda da criança, mas posso ameaçá-la de não devolver os seus bens, se por
acaso ela não abrir mão da guarda. Se mesmo assim ela não ceder os direitos
para mim, não há problema, de qualquer forma destruirei o maldito do pai
dela assim que ele souber que todos os seus bens estão no nome do meu filho.
Então eu serei o administrador de tudo até que o garoto tenha idade suficiente
para cuidar de toda a sua herança. Esse será o meu golpe fatal, eu o matarei
sem precisar sujar minhas mãos de sangue.
— Eu sei, Alfredo, mas eu tenho um plano B. Não passei uma vida
tramando a minha vingança sem pensar em todos os detalhes e ter todas as
saídas bem planejadas.
— Será mesmo? Será que o senhor tem saída para tudo que possa
acontecer no decorrer da sua vingança?
Alfredo me encara de uma maneira misteriosa. Eu não sei o que ele quer
dizer com aquilo, mas posso garantir que nada sairá do meu controle.
— Alfredo, nada irá me desviar do meu caminho. Aquele maldito e toda
a raça dele pagará caro pelo o que fez ao meu pai. Agora apresse-se, quero ir
embora daqui o mais rápido possível.
Uma hora depois, já estávamos sobrevoando Paraíso, a caminho do
aeroporto de Salvador. Eu não via a hora de chegar ao Rio de Janeiro, na
manhã seguinte seguiria viagem para a Noruega e nunca mais colocaria os
meus pés no Brasil.

Estou sentado à mesa lendo um dos jornais locais do Rio de Janeiro,


enquanto o Alfredo me serve o café da manhã. Preferi ficar hospedado em
um dos hotéis da praia de Copacabana em vez de ir para a casa da minha
família, em Angra dos Reis.
— Já avisou ao nosso piloto que embarcaremos logo depois do almoço,
Alfredo? — inquiro sem desviar os meus olhos do jornal.
— Sim, senhor. — Levanto os olhos ligeiramente, fitando-o com
repreensão, Alfredo sabe que eu não gosto quando ele e a Mila me chamam
de senhor. Eles são os únicos que têm autorização de me chamar pelo meu
primeiro nome. Sem se importar com o meu olhar, ele continua: — Já está
tudo pronto para o nosso embarque. Quer mais café?
Já ia responder, quando meu celular toca. Atendo-o.
— Péricles, já sou um homem casado? — Péricles confirma. Na
realidade, eu já esperava por isso. O maldito não perderia sua fortuna por
nada, mesmo que tivesse que vender sua alma ao diabo. No caso, que
vendesse a filha para mim. — A moça é bonita? Espero que ao menos tenha
um corpo desejável.
Péricles me informa sobre tudo, inclusive sobre a beleza exuberante de
Lilly Linhares González, minha esposa comprada.
— Bem, se você está dizendo que ela é bela, deixe-me comprovar se tem
bom gosto para mulheres. Fez o que pedi? Tirou uma foto dela?
Recebo o arquivo da imagem da minha esposa no celular. Abro-o e
quase deixo o celular cair das minhas mãos.
— Isso só pode ser brincadeira — digo abismado, com o celular à frente
do rosto. — Não, não pode ser. A Lilly é... é...
Olho diretamente para o Alfredo, completamente atordoado. A moça
que eu via na foto enviada pelo Péricles... nem nos meus sonhos mais
bizarros imaginaria ser ela. Deus só pode estar de sacanagem comigo.
Alfredo vem até mim, pega o celular das minhas mãos trêmulas.
— Por Deus! A sua esposa é a Lótus. A sua Lótus... — Ele observa,
enquanto me olha surpreso.
— Minha Lótus? — exclamo rapidamente. — De onde você tirou isso?
Ela não é minha Lótus. Dei-lhe esse apelido porque a conheci dentro de um
lodo de Lótus e permaneci chamando-a assim simplesmente porque eu não
queria saber quem ela era... — Levanto-me e sigo até a grande janela
panorâmica. Inspiro o ar fortemente, como se isso fosse espantar todas as
minhas lembranças. — Eu e minha empáfia. Se tivesse investigado a garota
ou ao menos perguntado o seu nome, hoje eu não teria sido pego de
surpresa... Merda!
Passo as mãos por meus cabelos nervosamente.
— Não sei como eu e a Mila não juntamos as duas...
— Como assim? — Viro-me subitamente para ele.
— Quando a vimos pela primeira vez, parecia que estávamos tendo um
déjà vu. Ela se parece muito com a mãe, a senhorita Eva, até o mesmo amor
que ela tem pelas flores de lótus é igual. Dona Eva amava aquele lago... e o
seu pai a amava muito.
— E foi esse amor que o matou — completo bruscamente. — E isso não
irá se repetir, eu garanto.
— Filho, ainda dá tempo de desistir desta vingança. Deixe isso para trás.
Perdoe, dê uma chance para este sentimento que está nascendo em seu
coração. Não deu certo para o seu pai e para a mãe dela, mas dará certo para
vocês dois.
— Cale-se, Alfredo! — vocifero, olhando-o furioso. Meus punhos estão
cerrados de raiva. — Está caduco, homem? Que sentimentos são esses que
supõe? Não tenho sentimentos por ninguém, principalmente pela filha do
assassino do meu pai. — Aproximo-me dele e o seguro pela gola da camisa,
fitando-o enfurecido. — Ainda sinto o cheiro da carne do meu pai queimando
em meu nariz. Ainda escuto os seus gritos de dor e a sua agonia... O único
sentimento que terei por essa moça é o ódio. Ela não merece o meu amor,
tampouco a minha piedade. — Solto-o e caminho em direção ao banheiro.
— Filho, não tem como dominar o coração. Pense nisso, cancele este
casamento. Aquela moça é inocente, ela não tem culpa dos pecados do pai.
— Cancelar o casamento!? — viro-me para ele outra vez. — Não,
Alfredo, vou consumar o meu casamento. Ela me dará um filho, e depois que
o nosso contrato acabar, eu lhe contarei toda a verdade. Lilly saberá que é
filha de um assassino.
Alfredo me olha com desgosto, como se quisesse me dar uma surra.
Balança a cabeça e antes que resolva contrapor, digo-lhe:
— Ligue para o hangar e mande preparar o avião. Mudança de planos,
partiremos agora. — Entro no banheiro, fechando a porta atrás de mim.
16
LILLY

Já a caminho do aeroporto, tento disfarçar meu nervosismo e medo.


Estou indo em direção ao desconhecido, não sei quem é o homem com quem
vou me deitar, e o pior, não sei a quem vou entregar a minha inocência. Então
lembro-me das palavras do meu vizinho insuportável.
A primeira vez de uma mulher tem que ser especial, tem que ser por
amor.
Se ele soubesse que fui vendida para o demônio, talvez mudasse de ideia
e resolvesse ser o primeiro. A esta hora ele deve estar longe e com certeza
nem se lembra mais de mim.
Através da janela, eu vejo as luzes do aeroporto. Sinto um frio na
espinha, e para espantar o medo, respiro profundamente. Péricles está sentado
ao meu lado, no banco de trás do automóvel e um motorista guia o carro.
Seus olhos encaram o meu rosto e os seus lábios se esticam num sorriso doce
que serve para me deixar um pouco à vontade.
— Não tenha medo, senhora — assegura-me, com voz calma. — O meu
cliente não está a obrigando a nada. Se quiser desistir podemos voltar agora,
mas se decidir continuar, não será obrigada a fazer nada que não queira.
Será isso verdade?
— Isso não é bem verdade — aventuro-me a contrapor.
— A senhora não será condicionada a nada, pode ter certeza disto.
— Claro que serei, eu tenho que engravidar e a gravidez será concebida
tradicionalmente. Ou seja, eu preciso fazer sexo e não tenho ideia de com
quem irei me deitar.
— Lilly, você aceitou os termos do contrato, mas isso não quer dizer que
precise cumpri-lo. Você não é uma prisioneira, poderá ir embora quando
quiser.
— Mas também não ganho nada. — Esboço um sorriso forçado.
— Decerto que sim.
O automóvel para. Sou invadida de novo pela tensão. Que tipo de
homem seria o senhor Salles? Péricles me ajuda a descer.
Só então eu percebo que estamos do outro lado do aeroporto, onde se
encontram os aviões particulares. Todos bonitos, magistrais. Seguimos em
direção a um e entramos nele. É bem diferente dos que eu costumava voar.
Péricles está bem atrás de mim, e assim que nos sentamos, fito-o com olhar
curioso.
— Este jato pertence ao senhor Salles?
— Não, este não. Este é alugado.
A comissária vem até nós e nos pede para colocar o cinto.
— Estamos indo para onde? Pensei que ficaríamos aqui na capital.
— Estamos indo para a Noruega...
— Noruega! — Precisei levar a mão à boca para não gritar. — Como
assim, Noruega? Meu Deus! Eu acho que precisamos voltar, pois não trouxe
o meu passaporte.
— Não se preocupe, quando pedi a sua documentação ao seu pai,
incluímos o passaporte — diz secamente.
Então de certa forma meu pai já sabia que eu aceitaria a proposta. Eu fui
vendida de forma espúria.
Agora estou a caminho de um país longínquo, onde não conheço
ninguém e à mercê de um homem estranho que com certeza só quer se
aproveitar de mim. O pânico me toma, sinto uma vontade louca de gritar. E
agora, o que faço? E se este homem for violento? Se for um velho rabugento,
hediondo?
Péricles percebe o meu súbito pavor e toca a minha mão.
— Não se preocupe, você será bem tratada.
Será que serei mesmo?
Encosto minha cabeça na poltrona e viro o meu rosto para o lado da
janela, assim ele não verá minhas lágrimas de medo escorregarem pela minha
face.
Desembarcamos na Noruega quase treze horas depois. No meu relógio
biológico era para ser quase vinte e uma horas, já que saímos do Brasil às
treze horas, mas segundo Péricles já eram quase três horas da manhã.
— É o fuso horário. — Péricles sorri. — Não se preocupe, você irá se
acostumar. — Descemos do jato, então percebo que não estamos em um
aeroporto. Olho confusa para o Péricles.
— Onde estamos? — Começo a ficar com medo, tenho vontade de dar
meia-volta e entrar no jato. — Aqui, com certeza, não é a Noruega.
Sinto o cheiro de maresia, a pista de pouso é bem iluminada e há um
hangar enorme onde certamente o jato ficará guardado. Há também uma vasta
vegetação, com muitas árvores. Não consigo ver muito, pois a iluminação é
restrita na pista e nos arredores. Sinto o medo tomar conta de mim, meu
corpo começa a tremer. Não sei se o tremor é mais de medo ou do frio
cortante que faz no momento.
— Venha, você vai congelar se ficar aqui. Lá dentro é quente. — Ele
aponta em direção ao hangar. — Vamos, não tenha medo.
Empaco no lugar, estou apavorada. Como pude ser tão burra? Como
pude aceitar viajar com um estranho sem saber o meu destino? E se eles
forem traficantes de mulheres?
— O... o que vocês farão comigo? — Estou quase chorando, minha voz
falha a cada palavra. Ele tenta segurar o meu braço, mas me afasto. — Não,
não me toque. Responda à minha pergunta.
— Se acalme, se quiser voltar para o Brasil a levaremos quando
amanhecer. Já disse você não fará nada que não queira... — Ele tenta segurar
o meu braço outra vez. Recuo mais um passo. — Lilly, estamos na ilha de
Bergsen, na cidade de Ålesund. Esta ilha pertence ao senhor Salles e é aqui
que irá ficar durante o tempo determinado pelo contrato que assinou. Se
tivesse lido saberia deste detalhe. Agora vamos que está muito frio aqui fora.
Com o coração quase na boca, trêmula de tanto frio, o rosto quase
congelado e as mãos frias, aceito a sua ajuda para caminhar. Minha cabeça
lateja de dor, meus nervos estão à flor da pele. Culpo-me por estar nesta
situação absurda. E agora, o que será que me espera em seguida? Para ser
mais exata, quem me espera quando chegar à minha futura casa?
Há cinco seguranças nos aguardando dentro do hangar e um deles me
oferece um agasalho. Agradeço com um sorriso forçado e encolho-me
quando sinto o calor da lã sobre os meus ombros. Sou levada para uma
pequena condução que parece mais com aqueles carrinhos de golfe, só que
um pouco maior e protegido.
Não dá para ver nada durante o trajeto, pois logo as luzes do hangar se
distanciam e só vejo o caminho iluminado pelo pequeno carrinho. Andamos
cerca de uns vinte minutos quando vejo ao longe outra iluminação, e quanto
mais nos aproximamos, mais dá para notar que estamos chegando a uma
grande propriedade. A casa é enorme e muito bem iluminada. Ao vê-la tão
imponente, lembro-me da fazenda. Passamos por um grande portão e
seguimos por um caminho de paralelepípedos até que chegamos na frente da
grande casa.
Perco o fôlego com a sua beleza.
— Uau. É linda!
— Sim, é — diz Péricles. — Era o lugar preferido dos pais do senhor
Salles. Ficou por muito tempo fechada, mas agora ganhará vida outra vez
com a sua chegada.
— É fantástica. — Prossigo ignorando seu comentário. Não vim para
colocar brilho em lugar algum, eu vim para cumprir um contrato.
— Há algumas dezenas de quartos, duas salas enormes, uma biblioteca,
um gabinete, uma sala de pintura que está fechada, só quem entra é a
arrumadeira para limpar. Há também uma grande cozinha, piscina interna e
externa, um campo de futebol e atrás da casa há as baias dos cavalos. Temos
alguns, o senhor Salles adora montar. Esqueci de mencionar o imenso jardim
e a horta, como também a criação de animais, entre bois, vacas, aves e outros.
Certamente você ficará a par de todos eles.
Péricles segura meu cotovelo e me guia para a entrada da casa. Assim
que entramos, uma senhora muito simpática vem nos receber, seguida de
duas jovens. Péricles cumprimenta a senhora, chamando-a pelo nome.
— Sônia, esta é a senhora Lilly, a esposa do senhor Salles. — A senhora
me olha com alegria. — Lilly, não se preocupe, todos os empregados falam
português. A mãe do senhor Salles era brasileira.
Apesar de falar fluentemente o inglês e mais dois idiomas, fico tranquila
em poder falar a minha própria língua.
As duas moças não me foram apresentadas, elas pegam a minha
bagagem e a levam por um longo corredor.
— Sônia, o quarto da senhora Lilly já está pronto?
— Está, sim, desde ontem. Vocês querem comer algo? Posso preparar
agora mesmo.
— Eu só quero dormir. E você, Lilly, quer comer algo? — Vira-se em
minha direção e pergunta.
— Não — digo rapidamente. — Onde está o senhor Salles, ele não virá
me receber?
Não sei se é curiosidade ou medo, mas eu quero logo acabar com esse
mistério. Se eu tiver que fazer sexo com um velho asqueroso, que seja logo.
Só não sei se conseguirei fazer.
Sônia olha diretamente para o Péricles. Não entendi os olhares dos dois.
— O senhor Salles não pode vir recebê-la, Lilly. Surgiu um imprevisto
em uma de suas empresas e ele só virá quando tudo estiver resolvido. Mas
tenho certeza que você entenderá, estou certo?
Quase solto um suspiro alto de alívio. Não sei por quanto tempo ficarei
livre do monstro que me comprou, mas pelo menos esta noite eu dormirei
sozinha.
— Sim, eu entendo perfeitamente. — Tenho vontade de pular de alegria,
isso sim. — Então eu gostaria de ir para o meu quarto, preciso dormir.
— A Sônia a levará e cuidará de ajudá-la a se recolher. Quanto a mim,
provavelmente não nos veremos mais, pois quando acordar certamente já
terei partido. Foi um prazer, Lilly.
Apertamos as mãos e ele oferece um sorriso acolhedor, como se dissesse
“não se preocupe, tudo ficará bem.”
Viro-me e sigo a Sônia. Enquanto caminho, vez ou outro olho para trás e
vejo os olhos do Péricles sobre mim...
17
LILLY

A semana seguinte foi a mais longa que já havia enfrentado em toda a


minha vida. Nem na minha época de internato passei por uma experiência tão
ruim assim. O tal do Raphael Salles — é, descobri que o primeiro nome dele
é Raphael, mas nem todos têm a permissão de chamá-lo assim — não deu as
caras na ilha e sequer telefonou para ao menos me dar as boas-vindas. Estou à
mercê da Sônia e das duas empregadas da casa, Belle e Lolita.
Belle é bem espontânea e tagarela, fala pelos cotovelos e adora cantar,
mas confesso que não entendo nada quando ela canta em um dialeto
diferente. Ela me contou que está namorando o tratador de cavalos e que logo
vão se casar. Eles estão construindo uma casa aqui mesmo na ilha. Descobri
que a ilha só é habitada pelos empregados da casa e que só há três meios de
sair daqui. De barco, de jato ou de helicóptero. Já a Lolita não é muito de
conversar, às vezes percebo que ela me olha de soslaio, entortando a boca.
Ela é a única que me chama de Lilly, os outros me chamam de senhora. Acho
que ela não gosta muito de mim.
Sozinha, os dias custam a passar e as noites parecem não ter fim. Apesar
de a casa ser muito aconchegante, eu não me sentia confortável. Tentei ler, a
biblioteca é muito diversificada, inclusive com literatura brasileira. Mas nada
do que eu escolhia me fazia sentir interesse. Durante o dia tentava nadar na
piscina aquecida ou até mesmo cuidar um pouco do jardim, mas não fui
muito bem aceita pelos dois jardineiros, então desisti de impor a minha
presença. Minha única satisfação, até o momento, é montar. O tratador dos
cavalos tinha escolhido uma égua bem mansinha. O nome dela é Nuvem, ela
é bem branquinha. Até o momento, cavalgar é a minha única diversão, só que
não faço isso todos os dias, pois nem sempre tenho ânimo para sair da casa.
A solidão afetou os meus nervos, ando sem apetite e irritada. Sinto
saudade de casa, da Nuza e do meu pai. Só então percebi o quanto amo
aquele velho carrancudo, mal-humorado e frio, mesmo que tenha me trocado
pela sua fortuna, mesmo que tenha me vendido para um desconhecido. Não
importa, eu o amo, e amo muito. Sinto saudade também do meu vizinho
insuportável. Pensar nele doía muito. Se ao menos ele não fosse tão frio, tão
arrogante e presunçoso. Se ao menos ele tivesse nos dado uma chance, talvez
eu não estivesse nesta situação. Talvez eu não tivesse sido vendida ao
demônio.
Quando me lembro dos nossos momentos juntos... dos seus beijos e
carícias, que quase finalizamos o nosso ato de amor...
Que amor, Lilly?
Amor, sim, o que eu sinto por ele é amor, tenho certeza disso. Talvez eu
nunca mais volte a sentir esse sentimento por outra pessoa, porque eu tenho
certeza que o meu coração pertence ao meu vizinho insuportável. E se
tivéssemos ficado um pouco mais de tempo juntos eu o faria me amar.
Aquele ogro tentou esconder de mim os seus sentimentos, mas quando ele
estava preso em meus braços eu sentia as batidas fortes do seu coração. Não
era apenas desejo sexual, ele sentia algo mais por mim. O olhar dele, o beijo,
as mãos, me diziam o quanto ele me queria. Por mais que ele tentasse negar,
eu sei que algo muito forte nasceu naquele coração de pedra, e eu acho que
foi por isso que ele foi embora tão depressa. O ogro tinha medo de me amar.
— Senhora Lilly... Senhora...
A voz calma da Sônia me desperta dos meus devaneios. Estou sentada
na sala perto da lareira, a noite de sábado está muito fria.
— Desculpe, Sônia, não a ouvi chamar. — Viro-me em direção à grande
porta de correr que dá acesso à sala de estar.
— Pensei que estivesse dormindo. — Sônia caminha lentamente até
mim. — Já está tarde, vou me recolher. A senhora deseja alguma coisa? —
Para falar a verdade, não está tão tarde, passa apenas um pouco das vinte e
duas horas.
— Não, não preciso de nada, Sônia, mas se precisar eu mesma me sirvo.
Pode ir se deitar, boa noite.
Sônia continua de pé, encarando-me. Ela pisca os olhos rapidamente e
sorri com ternura.
— Senhora, não se preocupe, logo o senhor Salles estará aqui. Ele deve
estar mesmo com algum problema sério, do contrário, não deixaria uma moça
tão linda como a senhora sozinha com pessoas estranhas... — ela emudece,
como se tivesse se arrependido do que acabara de dizer. — Boa noite,
senhora.
Sofia sai tão silenciosa quanto entrou. Desde que cheguei, tento
descobrir alguma característica física do Salles. Pergunto a todos, mas
ninguém me diz nada, o que me dizem é que logo descobrirei com quem me
casei.
Olho em volta da sala, vazia e silenciosa. Sinto um calafrio. Um medo
repentino toma a minha mente, então resolvo ir para o meu quarto. Antes de
me deitar, dou uma olhada através da cortina da janela do quarto. As copas
das árvores se agitam com o vento forte, parecem que estão zangadas umas
com as outras, pois se chocam com violência.
Deito-me e me embrulho nas cobertas grossas.
Quando será que o senhor Salles resolverá dar o ar da graça?
O sono demora a chegar, e quando chega, leva-me de encontro ao meu
amor, o meu vizinho insuportável.
E começo a viver um sonho lindo e sensual...
— Forasteiro — sussurro, ao sentir o seu cheiro inconfundível. —
Forasteiro, por que me abandonou...
— Shhh, quietinha, linda Lótus. Volte a dormir, você está sonhando.
Sua voz grave, forte e sexy estremece até a minha alma. Se eu estou
dormindo, não quero acordar.
— Sinto a sua falta. Eu amo você, forasteiro. Leve-me daqui, salve-me
do demônio. Salve-me...
— Shhh. Acalme-se, ficará tudo bem. Você está a salvo, linda Lótus.
Volte a dormir.
O rosto dele está tão próximo do meu que eu consigo tocá-lo. Sua barba
por fazer arranha a minha mão. Ele está de gravata, mas não está de terno, e o
seu cheiro é muito bom.
— Amo você... amo muito você... — balbucio.
— Linda e doce Lótus, quietinha... Shhh.
Sinto o seu rosto mais próximo e logo a sua boca cobre a minha. Ele me
beija ardentemente, afasta-se um pouco e murmura palavras que eu não
consigo entender, mas elas são tão suaves que eu sei que são de amor. Suas
mãos acariciam os meus cabelos, meu rosto, meus braços, meus seios...
descem pelo meu ventre até encontrar a minha vulva....
— Linda Lótus. Como a desejo, como a quero...
Ele sussurra as palavras com a boca sobre a minha, sua língua quente e
erótica me devora e sua mão acaricia o meu sexo. O fogo do desejo cresce em
mim, meu corpo queima e os beijos dele tornam-se vorazes. Então, de
repente, um grito orgástico rasga o silêncio do meu quarto. Eu gozo
sonhando.
— Shhh... É só um sonho, linda Lótus. Shhh... respire... respire...
Aos poucos, meu corpo se acalma e eu sou levada para dentro de um
sono profundo.
18
RAPHAEL

Ao sair do quarto da minha esposa comprada, um grande vazio se


abre dentro de mim, ao pensar em todo o processo de vingança. Vê-la tão
entregue e ao mesmo tempo tão frágil, deixa-me confuso. Passei a maior
parte da minha vida planejando vingar a morte de meu pai. Deixei tantas
coisas de lado, abri mão de tantos sentimentos, tornei-me frio, insensível,
intocável, tudo para chegar onde estou hoje, no momento mais importante de
minha vida. Ver o maldito que me destruiu completamente em minhas mãos.
Então, por que não estou satisfeito? Por que não estou feliz?
Será que perdi o juízo, a ponto de considerar estar sentindo algo pela
linda Lótus vermelha, a moça impertinente que faz o meu coração parecer
humano. Será que posso ser um?
Não! Não, Raphael, você não pode ceder. Ela é a filha do seu inimigo,
portanto é sua inimiga e merece sofrer tanto quanto ele...
Entro no meu quarto, procuro por algo em que eu possa descontar a
minha raiva. Não encontro nada, então meu punho encontra a parede,
deixando uma marca da força empregada no soco dado com toda violência.
Meus dedos machucados sangram, mas não me importo. Nem mesmo sinto
dor, só sinto o vazio gritante dentro de mim e as lembranças do pior dia da
minha existência, o dia em que aquele maldito tirou a vida de meu pai
querido. Acho que essas lembranças nunca se apagarão de minha memória.
Ainda vejo as labaredas consumindo o automóvel e os gritos abafados
de meu pai enquanto seu corpo era tomado pelo fogo.
Miserável, maldito Rodrigo González, começa hoje a minha vingança
sobre o seu sangue maldito.
Meu grito deve ter assustado alguém, pois escuto batidas insistentes em
minha porta.
— Entre. — Minha voz não está nada agradável, sai quase como um
rosnado.
— O senhor está bem? — Lolita surge através da porta. Ela não dá
nenhum passo, fica lá parada segurando a porta, como se fosse protegê-la de
mim.
— O que tenho não é da sua conta, Lolita. Volte a dormir, se eu precisar
dos seus serviços, você saberá.
Ela empalidece, acho que não com a minha resposta, mas com o tom da
minha voz.
— Desculpe-me, senhor, fiquei preocupada quando escutei o seu grito.
Quer algo para passar em sua mão?
— Só quero que desapareça da minha frente, menina. Caia fora daqui!
— grito e ela estremece o corpo com o susto, mas permanece no lugar.
— Não precisa gritar, senhor, eu sei que está assim por causa dessa
moça que se diz ser sua esposa. Eu sei que o senhor não a ama, só pode ser
um casamento de conveniência, como foi o do seu pai com a sua mãe...
Perco a paciência, então vou ao encontro da pequena empregada
petulante. Seguro-a pelos cotovelos e trago o seu corpo para bem perto.
— Escute aqui, Lolita, a moça do quarto ao lado é a minha esposa e eu
exijo que a respeite como tal, caso contrário sofrerá consequências
devastadoras, entendeu? — Agito-a com crueldade. Meu olhar deve estar
cheio de ira.
— En-entendi, senhor. — Seu olhar apavorado varre o meu rosto. —
Senhor, está me machucando. — Só então percebo que meus dedos apertam a
carne branca dos braços de Lolita.
Solto-a. Ela se afasta, alisando o local dos braços onde apertei.
— Vá embora. — Ela se vira, e antes que se vá, eu a chamo de volta. —
Não quero que minha esposa saiba que cheguei hoje à noite, entendeu? —
Ela assente com a cabeça. — Pode ir.
Sinto-me um nada. Por que estou me sentindo assim? Por que Lótus
mexe tanto comigo? O que ela tem, ou será o que ela não tem, que me deixa
tão incerto dos meus planos?
Passo os dedos em minha mão machucada. Penso nela.
Lilly, doce, linda, delicada e minha, só minha. Ela e toda sua inocência
intocada pertencem só a mim.
Pensar assim me dá ânimo. Eu a desejo e ela também me deseja, então
ficará tudo bem. Teremos uma relação melhor do que eu esperava, até a hora
de lhe contar toda a verdade, até o momento em que ela descobrirá que o seu
pai é um assassino cruel e que eu agora sou o seu algoz.
Não vejo a hora de ver o terror estampado nos olhos do Rodrigo
González, quando ele descobrir que o filho do Conde de Bergsen se casou
com a sua única filha e que o seu único neto tem o sangue do homem que ele
mais odiou na vida. O pior de tudo será descobrir que todos os seus preciosos
bens estarão no nome do seu neto e administrados por mim. Eu o matarei sem
precisar puxar o gatilho.
Com este pensamento meu ânimo melhora e o Raphael duro e frio volta
a me dominar.
Após o banho, deito-me e durmo. Em meus sonhos sinistros encontro a
força necessária para lutar contra sentimentos desconhecidos que tentam me
desviar dos meus objetivos.
— Bom dia, Sônia! — Entro na cozinha no dia seguinte, à procura do
delicioso cheiro de café fresco. — Só quero uma xícara de café, estou com
pressa. Tenho uma longa reunião hoje, e o seu café faz milagres. — Digo sem
esboçar um sorriso.
— Bom dia, senhor. Não o vi chegar ontem. Sente-se e já o servirei.
— Cheguei muito tarde, estava em Londres. — Ela me entrega uma
xícara de café fumegante. — A propósito, não quero que a minha esposa
saiba que estive aqui hoje, quero lhe fazer uma surpresa, à noite.
Sônia parece confusa. Por um momento não diz nada, só me encara com
um olhar interrogativo.
— Não se preocupe, ela não saberá. Avisarei a todos para ficarem de
boca fechada.
— No meu quarto há uma caixa, quero que a entregue à senhora Lilly às
dezoitos horas. Peça-lhe que use tudo o que estiver dentro dela no jantar, que
será servido às vinte horas. Estarei aqui nesse horário.
— Sim, senhor. Mais alguma coisa?
— Sim, o jantar será à luz de velas e o cardápio fica à sua escolha. Peça
para que ela não se atrase. — Bebo o café. — Tenha um bom dia, Sônia.
Viro-lhe as costas e vou em direção à pista de pouso, o helicóptero logo
virá me buscar.
Hoje à noite a minha esposa comprada conhecerá quem é o seu
misterioso marido. O seu dono, seu futuro amante e pai do seu filho.
19
LILLY

Acordo um pouco depois das oito. Sei disso porque, assim que
abro os olhos, eles vão direto para o pequeno relógio na mesinha de cabeceira
que fica à minha esquerda. Reviro-me na cama por alguns minutos. Não
quero me levantar, não quero que a sensação que sinto e que vivi durante o
sono saiam de mim. Ainda sinto as mãos do meu vizinho insuportável em
meu corpo. O sabor dos seus beijos em meus lábios ainda está tão vivo que
parecia ser de verdade. Sua voz rouca ao meu ouvido, o raspar da sua barba
por fazer na pele do meu rosto pareciam tão real. Como eu gostaria que
fossem, como eu gostaria que ele surgisse do nada e me resgatasse do
demônio que está prestes a me possuir.
Mas ele não pode, e mesmo que pudesse, não ergueria um dedo para me
salvar. Acorde, Lilly, sua vida pertence a outra pessoa. Pertence a um
estranho, um demônio.
Jogo as cobertas para o lado, olho para todo o quarto e sinto o perfume
dele. Como um sonho podia ser tão real? Levanto-me e sinto a maciez do
tapete felpudo sob os meus pés, é uma carícia boa de sentir. Escuto o som de
um helicóptero ao longe. Corro até a janela, empurro a cortina de voal branco
e procuro o objeto responsável pelo barulho, mas não o vejo no céu azul claro
com poucas nuvens. Logo os meus olhos se ocupam da linda paisagem que
cerca toda a propriedade até onde minha vista alcança.
Os jardins estão floridos com um colorido lindo de se ver. Abro a janela
e me deixo inebriar com o perfume da terra molhada e da maresia do mar.
Bate uma saudade do Brasil, principalmente da fazenda e do meu pai. Como
será que ele está? Será que sente a minha falta? Quando o tal Raphael chegar
pedirei para ligar para o meu pai. Quero falar com a Nuza, sinto tantas
saudades dela.
Fecho a janela, calço meus chinelos e sigo para o banheiro. Após o
banho e já vestida decentemente, saio do quarto e vou para a cozinha.
Sigo o corredor longo e desço as escadas. Assim que me aproximo,
escuto vozes exasperadas. Reconheço as vozes, são Sônia e Lolita.
— Ela não é a minha patroa, é uma estranha que acha ser a esposa do
Raphael. Eu sei que esse casamento é de fachada, assim como são todos os
casamentos dos sangues nobres. Como foi o do senhor Adam e o do senhor
Hamar. Não seria diferente com o Raphael, essa mulher não significa nada
para ele, ela não passa de um nada...
— Cale-se, Lolita. Não seja inconveniente, ponha-se em seu lugar. Se o
senhor Raphael escutá-la falando desse jeito...
— Ele não dirá nada, pois pensa como eu.
Faço barulho para que ouçam que alguém está a caminho da cozinha e
imediatamente elas encerram a conversa. Espero alguns segundos para entrar.
— Bom dia! — digo assim que entro. Lolita engole em seco e recebo
um olhar congelante. Ela me odeia, não sei por que, mas é esta a impressão
que tenho.
— Bom dia, senhora Lilly! — Sônia responde ao meu cumprimento
alegremente. — Por que se levantou? Já ia levar o seu café da manhã.
Ela limpa as mãos que estão sujas de farinha, vai até o fogão industrial e
mexe com uma grande colher de pau em algo dentro de uma panela de ferro
fumegante.
— Hoje fiquei com vontade de tomar café aqui. Estou com saudade de
casa, lá na fazenda eu tomava o café da manhã na cozinha, amava o cheiro do
pão e do café fresquinhos. — Puxo a cadeira e me sento.
Lolita me encara desafiadoramente. Permanece muda, mas os seus olhos
furiosos dizem tudo. Se pudesse me chutaria para fora da cozinha.
— Na minha cozinha sempre tem pão e café fresquinho. — Sônia
começa a me servir. Assim que o aroma do café entra em meu nariz, remete-
me para a cozinha da Nuza. — Cheiro bom, não é? Também adoro esse
cheiro. — Acaricia o meu braço. — Lolita, pegue os pães no forno. — Lolita
não sai do lugar. — Ande, menina, pegue os pães para a senhora Salles.
Lolita fuzila Sônia com o olhar, vira-se e fala algumas palavras em um
dialeto que eu não entendo. Volta com uma cesta cheia de pães.
— Se me dão licença, vou respirar um pouco de ar puro. — Olha-me
com desdém e sai com passadas firmes.
— Não ligue para a Lolita, senhora, ela é uma criança birrenta e não está
acostumada com pessoas. O senhor cond... o senhor Raphael nunca trouxe
pessoas aqui, nem ele nem o senhor Adam, o pai dele, portanto é de se
esperar que a Lolita fique assim. Ela é muito apegada ao senhor Raphael. São
ciúmes de menina boba, vão passar logo, logo. — Ela sorri.
Aquele sorriso franco deixa o meu coração mais tranquilo. Balanço a
cabeça para clarear a confusão dos meus pensamentos.
— Vou dar uma volta na propriedade, acho que cavalgar me fará bem.
— Bebo o último gole de café e termino com o pão que está em minha mão.
Já estou perto da porta, quando Sônia me chama de volta.
— Senhora, o senhor Raphael lhe mandou um presente e pede para que
use tudo o que estiver dentro dele. Quando voltar do seu passeio a caixa
estará em seu quarto. O seu marido virá hoje à noite para o jantar que será
servido às vinte horas. Ele mandou avisar para não se atrasar.
Receber a notícia que o meu marido virá finalmente me conhecer, tão
friamente pela cozinheira da casa, acabou com o meu dia. Como um homem
pode ser tão frio assim? Custava ter me ligado para avisar que viria logo mais
à noite? Custava se importar um pouco mais com o seu objeto de troca?
Definitivamente esse homem consegue ser mais frio do que o meu
vizinho insuportável. Pelo menos o meu vizinho se importava comigo.
Mesmo tentando esconder, eu sei que se importava.
Agradeço a Sônia por dar o recado e saio sem destino para fora da casa.
Perco a vontade de cavalgar ou de fazer qualquer outra coisa. Sento-me na
espreguiçadeira do jardim de inverno e tento me distrair com um livro
qualquer, pois nem sei o título do mesmo. Lolita veio me avisar que o almoço
já estava pronto, e eu a sigo em silêncio.
Tento comer, mas o meu apetite vai embora assim que me lembro do
meu encontro à noite com o demônio que me comprou. Então desisto de
tentar comer algo que eu sei que logo mais irá privada abaixo. Levanto-me da
mesa e sigo direto para o quarto.
Acordo com batidas em minha porta.
— Entre. — Digo e me sento na cama.
— Com licença, senhora, aqui está a caixa que o senhor Raphael
mandou entregar.
Sônia deixa a caixa sobre a cama e sai rapidamente, acho que nem
escutou o meu “obrigada”.
Levanto-me, ando pelo quarto. A cada passo olho para a grande caixa
com um laço de fita vermelho em volta.
O que será que tem aí dentro?
Só saberei se abri-la. Aproximo-me lentamente, e com mãos trêmulas,
desfaço o laço. Abro a caixa sem pressa, e assim que os meus olhos veem o
que tem dentro, fico embasbacada.
Com as mãos indecisas, pego o lindo vestido vermelho de seda. O tecido
é tão delicado e macio. Acaricio-o levemente. Ele é longo e não sei como
ficará em meu corpo, provavelmente deixará minhas curvas acentuadas. Não
é decotado, ao menos isso, mas é sexy, principalmente pela cor sugestiva.
Deixo o vestido esticado sobre a cama e volto para a caixa.
Um par de sapatos altíssimos, dourados. Há outras pequenas caixas com
laços vermelhos. Abro a menor e encontro um colar e brincos de rubis com
pequenos brilhantes em volta e um lindo anel da mesma pedra. A outra caixa
me surpreende. Cinta-liga, meia sete oitavos com rendas na borda e um
conjunto de lingerie, todos vermelhos.
Lembro do recado. É para eu usar tudo o que estivesse dentro da caixa.
Certamente o senhor Raphael quer desembrulhar o seu presente e usá-lo
ao seu bel-prazer.
20
RAPHAEL

Eu a vi, ela estava dormindo no canto da cama e ao seu lado estava o


vestido vermelho que comprei para que vestisse agora à noite. Tão linda
adormecida, tão inocente. Logo mais tomarei sua inocência e derramarei o
seu sangue virgem nos lençóis brancos da cama. Eles serão testemunhas de
que ela pertence a mim.
A linda e doce Lilly, a filha do assassino do meu pai. Ela será minha e
eu a destruirei, assim como ele me destruiu.
Escuto o ranger da porta. Não me viro, continuo de frente para a janela,
olhando para um ponto qualquer. A biblioteca está iluminada apenas pelas
luzes das velas que decoram a pequena mesa posta para dois. Ela se
aproxima, hesitante, com passos indecisos. Sinto o seu medo. Aprendi a
sentir o medo dos outros muito cedo, aos onze anos de idade, quando
enfrentei o meu primeiro demônio.
Um aluno do internato. Ele pensava ser o maioral, o dominante de todo
o colégio. Até os mais velhos o temiam, sendo assim, ele pensou que
aconteceria o mesmo comigo, mas se enganou. Sua tentativa de me intimidar
custou-lhe quatro dentes quebrados e um olho roxo. Claro que me machuquei
— e feio — mas ele ficou pior. Daí por diante, eu podia sentir o seu medo
quando eu me aproximava. Nunca mais fui incomodado, nem por ele, nem
por ninguém.
— Com licença... — Sua voz soa nervosa, trêmula. Ela estanca os
passos a poucos metros de onde estou. Eu não respondo. — Desculpe se
entrei sem ser convidada. Eu bati, mas ninguém respondeu. — Faz uma
pausa, esperando minha resposta. — Senhor? Senhor Raphael?
Escutar o meu primeiro nome vindo dos seus lábios soa tão íntimo, tão
doce. Quando a vi dormindo hoje à tarde, minha vontade foi de acordá-la
com beijos ardentes, como os que costumava dar-lhe em Paraíso. Só não o fiz
porque não quis estragar a surpresa.
— Senhor Raphael, sou Lilly Linhares González, sua... sua...
— Esposa. — Digo, enquanto me viro para encará-la.
Lótus, linda Lótus. O vestido vermelho caiu como uma luva em seu
corpo cheio de curvas. Os seios escondidos pelo tecido cintilante ficaram
mais volumosos, os quadris arredondados abraçaram a seda desenhando suas
coxas roliças. Ela realmente está embrulhada para presente. O meu presente,
minha doce vingança.
— Minha esposa, é esta palavra que queria dizer. — Repito e dou dois
passos para frente. Ela arregala os olhos, assustada, assim que me vê.
— Isso só pode ser brincadeira. — Dá um passo para trás, com a mão na
boca. — Sim, isso é uma brincadeira! Não... não... Eu só posso estar
sonhando, não posso acreditar que o forasteiro do castelo é o homem que me
comprou!
Lilly está completamente confusa, fita-me com um olhar perdido, seus
lábios estão trêmulos. Abraça o corpo, como se quisesse se proteger. De mim.
Ela ri. Um riso de medo, de incredulidade.
— Então o seu verdadeiro nome é Raphael Salles. É isso, ou você é só
uma visita?
Ela não quer acreditar no que vê à sua frente. Dou mais um passo para
frente e ela dá outro para atrás.
— Sim, sou Raphael Salles, seu marido e futuro pai do seu filho. Espero
que lembre disso pelos próximos meses que passaremos juntos e...
— Seu... seu filho da mãe... — Sou interrompido bruscamente, e antes
que eu perceba, ela está me socando o peito com os punhos fechados. —
Filho da mãe prepotente. Seu miserável, você sabia o tempo todo. Sabia
quem sou, sabia que em breve eu seria sua moeda de troca. Mau-caráter,
desgraçado...
— Acalme-se, Lilly. — Tento contê-la, segurando-a pelos punhos. Ela
usa as pernas para me chutar, grita nomes feios e lágrimas banham o seu
rosto. — Eu não sabia, acredite. Eu não sabia. — Sacudo seu corpo
energicamente, encaro-a com as sobrancelhas juntas.
— Mentiroso. Cretino mentiroso, você se divertia comigo enquanto eu
lhe confessava que estava apaixonada por você. Mentiroso!
Tenta se soltar das minhas mãos e eu a seguro junto ao corpo. Ela me
empurra com toda a sua força, chutando minha perna. Solto-a imediatamente.
Ela endurece o corpo e dá um passo para trás.
— Não — diz com voz firme. Dou um passo à frente. — Não acredito
em você, seu manipulador filho da mãe. Você me seduziu para tornar os seus
planos mais fáceis. Se eu me apaixonasse eu me entregaria sem resistir.
Facilita...
— Cale-se! — grito. — Eu só soube quem era a minha esposa quando
meu advogado me mandou sua foto. Até então eu não tinha ideia se você era
gorda ou magra, feia ou bonita. E quer saber... — Avanço para ela, que tenta
fugir. Eu a pego, segurando-a contra o meu corpo. — Olhe para mim, Lilly.
— Ela vira o rosto. — Olhe para mim, porra! — Não olha. — Ok, que seja,
mas vai me ouvir de qualquer jeito. — Encosto a minha boca bem próximo
ao seu ouvido. — Eu não me importo se você acredita em mim ou não. Tanto
faz, você é minha. Seu pai a vendeu para mim e você aceitou. E acho até
melhor que seja você, pois eu a desejo e você me deseja, o que torna as coisas
bem agradáveis. Isso quer dizer que vamos aproveitar o nosso casamento...
— Nunca. — Ela vira o rosto. Nossos olhares se encontram, lágrimas
descem por sua face, seu coração bate com toda força. Ela está apavorada. —
O que eu sentia por você morreu agora. Morreu no momento em que descobri
que você é o demônio que me comprou, o homem que só quer me usar para
ter um filho. Eu o odeio, Raphael Salles. Odeio com toda a força do meu
coração.
Lembro-me do filho da puta do pai dela. Lembro do que ele fez com o
meu pai, lembro-me da voz dele ordenando que empurrassem o carro na
ribanceira com meu pai dentro e eu também.
Escuto os gritos dele.
Solto-a e me afasto. Estou zonzo, o ar me falta. Lilly me olha, confusa.
Todo o terror da cena vivida por mim quando criança vem â tona, a fumaça
negra, o fogo e os gritos aterrorizantes... Meu pai, meu pai.
A confusão de sentimentos me invade. Ela é minha vingança, ela é filha
de um assassino.
Puxo a respiração com força, pesada. Sinto que estou prestes a explodir.
Olho para ela, fixamos os olhares. Eu preciso do ódio dela e preciso do seu
medo, eles me alimentam. Então eu vejo seus lindos olhos aterrorizados,
desesperados. Como um bicho selvagem eu a alcanço, cercando-a com os
meus braços fortes. Lilly nada pode fazer, está completamente paralisada de
medo. Eu certamente devo estar parecendo um demônio.
— Nós não precisamos de amor, linda Lótus. Amor não tem nada a ver
com sexo. É até bom você me odiar, gosto disso, facilita a minha vida. De
você eu só quero um filho e quanto mais cedo isso acontecer, mais cedo você
se livra de mim e eu de você. Mas enquanto a gravidez não acontece,
podemos nos divertir, porque eu sei que você me deseja.
Ela consegue soltar uma mão e a mesma vai direto ao meu rosto, com
toda a força.
— Meu desejo morreu agora. Não o desejo, não o quero...
Com o olhar ainda preso ao seu, respondo com satisfação na voz,
— Será isso verdade? Precisamos nos certificar se o que diz realmente
condiz com as batidas do seu coração.
Lilly pisca, como se processasse cada palavra que eu falo. Ela olha para
meus olhos e para minha boca, que se aproxima lentamente da sua. Prende a
respiração quando os meus lábios tocam os seus. A resistência do seu corpo
sacudindo-se em meus braços não dura muito, quando minha língua percorre
a carne macia exigindo que abra a boca e me dê acesso para possuir o que é
meu.
Beijo-a com força. Mordo seus lábios de uma maneira dominadora.
Observo-a com os olhos abertos, ela se entrega. Minha boca explora a dela,
nossas línguas se chocam. Sem perceber, ela suaviza os braços e suas mãos
acariciam o meu peito. Faço o mesmo com ela. Uma das minhas mãos vai
para a curva da sua nuca, segurando-a com posse, como se dissesse “minha”.
Esse pensamento faz com que eu aprofunde o beijo, envolvendo com a outra
mão a sua cintura e forçando o seu corpo a inclinar e o meu a roçar-se no
dela.
Um gemido escapa da sua garganta enquanto uma das suas mãos
encontra o caminho por dentro do meu paletó, à procura da abertura da
camisa. Ela busca o meu peito para saciar a vontade de acariciá-lo. Suspendo-
a do chão e a levo para a mesa. Jogo tudo o que está por cima no chão e a
deito sobre a tampa. Meu corpo por cima do seu, minha mão acariciando cada
parte sua. Seios, ventre, coxas, vulva. Meu pau duro cutucando-a, louco para
conhecer o que já deseja há tanto tempo.
— Raphael... Eu... eu senti tantas saudades...
Eu também senti. E como senti...
Já ia confessar a minha saudade, então lembro de quem ela é filha e o
porquê de estar em minha casa.
— É assim que não me deseja, linda Lótus? — Afasto-me da sua boca e
digo com sarcasmo.
Ao perceber o meu sarcasmo, ela me empurra, levantando-se às pressas.
Recompõe-se, engole o orgulho e me fita com um brilho feroz no olhar.
— Você tem razão, eu o desejo. Ou melhor, eu o amo. Não posso me
esconder atrás de um falso sentimento que eu nem conheço. Sinto muito se o
decepciono, mas não lhe darei o meu ódio, darei o meu amor, queira você ou
não.
Ajeita o vestido, os cabelos. Eu permaneço de pé sem conseguir dizer
uma só palavra.
— Sou sua esposa, meu dever é lhe dar um filho, então estou lhe
esperando no quarto para a nossa noite de núpcias. Com licença — diz com
empáfia.
A passos largos, deixa-me sozinho, perdido em meus pensamentos e
atordoado com o que acabara de acontecer.
Lilly, a minha linda lótus, me jogou no chão sem precisar fazer força
alguma.
21
RAPHAEL

Fico parado, petrificado, sem reação. Sem ao menos piscar os meus


olhos, vendo-a desaparecer pela porta. Fecho as mãos em punhos. Não sei o
quão forte aperto os meus dedos, pois não os sinto, aliás, não sinto nada. Com
esforço soco o ar, como se estivesse esmurrando alguém. Levo as mãos
abertas à frente do rosto, gritando silenciosamente.
Ela me venceu com uma simples palavra. Amor.
A linda Lótus vermelha. Rebelde, orgulhosa, corajosa, durona.
O pouco que eu sei sobre ela é que não costuma levar desaforo para casa
e que sempre diz o que pensa. É malcriada, respondona e doce como o mel.
Sua brandura, meiguice e ousadia são capazes de me cegar e de me fazer
esquecer quem eu sou e o que sou. Um demônio vingativo.
Preciso tomar cuidado com a linda Lótus, ou meus planos de vingança
irão por água abaixo.
Viro-me e sigo para o espelho próximo à porta de saída do gabinete.
Passo as mãos em meus cabelos, ajeito a gravata.
Raphael, você precisa controlar as suas emoções.
Saio a passos apressados a caminho do quarto da minha esposa. Tirarei
dela sua inocência, sua pureza, sua virgindade. Hoje ela pertencerá ao Conde
de Bergsen e em breve seu pai assassino saberá que o descendente do homem
que ele mais odiava comprou sua única filha e o seu futuro neto terá o sangue
do inimigo correndo nas veias.
Doce e cruel vingança.
Entro no quarto sem bater. Assim que ela escuta o abrir da porta, vira-se
em minha direção. Está de pé diante da grande janela de vidro, observando a
noite com os seus sons e mistérios.
Olho para ela me perguntando se ela tem noção do que eu vou fazer com
o seu corpo e sua alma agora.
— Está pronta para cumprir com o contrato?
Seu corpo fica tenso. Limpa o rosto com o dorso da mão. Ela estava
chorando.
— E você, está? — Pergunta, com a voz tensa. Seus olhos estão
vermelhos pelas lágrimas.
— Sim, estou. Como está escrito no contrato, assim que você engravidar
não tocarei mais em você. Eu a deixarei em paz. — Não sei se ela sabe dessa
cláusula, pois não leu o contrato quando o assinou.
Ela engole em seco, seus lábios se movimentam como se quisessem me
dizer algo, mas se calam antes mesmo de se moverem.
Está muito mais bonita à luz das lâmpadas. Tento esconder o meu
interesse em jogá-la na cama e possui-la como um animal faminto e feroz.
Minha razão grita dentro de mim, avisando-me que o que irá acontecer neste
quarto é sexo, só sexo e nada mais. Contudo, as batidas aceleradas do meu
coração não permitem que eu escute. Não ouço, não vejo nada, só ela.
A minha linda Lótus vermelha.
Raphael, ela é sua vingança, lembre-se disso. Ela é a filha do assassino
de seu pai, foda-a com força, sem piedade. Deixe-a sentir toda a dor que
puder, nada de ser amável. O pai dela não foi com o seu, lembre-se disso.
Sento-me em uma cadeira que fica diante da cama. Mandei que a
colocassem ali de propósito, e os lençóis de linho branco também. Cruzo as
pernas e avalio minha aquisição.
— Tire o vestido lentamente. — Ordeno com frieza na voz.
Gostaria de saber o que o pai dela está pensando neste exato momento.
Será que ele se preocupa com o destino da filha?
— Pensei que quisesse desembrulhar o seu presente? — Seu tom de voz
derrama sarcasmo.
Estudo seu rosto, sua linguagem corporal, e a cada avaliação meu rosto
se comprime, meus olhos se estreitam.
Não lhe respondo.
— Tire o vestido, agora. — Descruzo as pernas, deixando-as abertas.
— Pretende me comer de pé ou deitada? Ou me jogará no chão e me
possuirá como um animal? — Ela me dá um olhar avaliador, certamente
adivinha a minha reação.
Minhas mãos se apertam em punhos e de repente a raiva toma conta de
mim. Ela quer brincar de mocinha e bandido.
— Lembra-se que um dia eu te disse que na história da Chapeuzinho
Vermelho eu não era o Lobo, mas sim o Lenhador? Pois é, tome cuidado com
o que pensa e diz, você pode se machucar feio. Agora tire a merda do vestido
— esbravejo.
— Sim, senhor. — Provoca. Mas retira o vestido.
Ele escorrega por seu corpo até cair aos seus pés. Meu pau pulsa quando
minha mente capta a informação do mulherão na minha frente.
— Livre-se do sutiã e da calcinha. Deixe o resto.
Faz o que mando. Nua e linda. A boceta lisinha, sem pelo algum. As
coxas roliças adornadas por meias de seda vermelhas e os pés calçados com
sapatos dourados.
Controlo o meu corpo, para não avançar com tudo em cima dela.
— Venha até aqui. — Cada ordem que dou soa fria, sem emoção. Ela
não precisa saber o quanto está me deixando louco.
Seu olhar inseguro encontra o meu, cruel. Encaro-a profundamente até
que ela não consegue se manter firme e abaixa os cílios. Respira
profundamente, relaxa os ombros, sorri sem graça e caminha em minha
direção. De onde ela está eu posso tocá-la se quiser, mas não toco. Posso ver
a pulsação em seu pescoço, me dizendo o quão está nervosa. Ou pior,
confessando o seu desejo.
— Vire-se e coloque as mãos nos seus tornozelos. — Digo suavemente,
fazendo um gesto com a mão para que gire e fique de costas para mim.
Tocando nos tornozelos, eu terei uma visão completa de sua bunda e da
abertura do seu sexo.
Hesitante, ela faz o que eu mando. Sua bunda fica quase na altura do
meu rosto e minhas mãos coçam para tocá-la. Salivo como um cão raivoso,
meu pau está tão duro que, se tocar nele, gozo só com a visão da exposição
tão íntima da Lilly.
— Afaste um pouco as pernas. — Digo em voz baixa. Ela o faz.
O desejo queima em mim. Eu quero torturá-la, quero que saiba que
quem está no comando sou eu, mas a fome de possuí-la me trai. Já não
mando em minhas vontades, e o dominado agora sou eu. Preciso, necessito
tocá-la.
Meus dedos trêmulos tocam a rachadura da boceta, escorrego-os entre os
grandes lábios. Ao sentir meu toque ela contrai os músculos, apertando assim
os meus dedos com a boceta.
— Molhada, cheia de tesão... — as palavras saem sem eu querer, assim
como a minha respiração ofegante.
Aproximo o meu rosto e lambo o seu mel com a ponta da minha língua.
Por mais que tente me manter indiferente, é inevitável perder o controle.
Seguro-a pelos quadris e enfio meu rosto em suas carnes, chupando tudo o
que existe de mais gostoso nela, seu mel, seu tesão.
— Ra-Raphael... — ela diz com a voz trêmula e em seguida, quase
inaudível —, eu vou cair...
Não digo nada, apenas a seguro por seu ventre com bastante força para
que a sustente com o meu braço. Só a solto quando ela solta o último gemido
do seu orgasmo. A linda Lótus derrama todo o seu prazer em minha boca.
Suas pernas parecem geleias de tão moles que ficam. É preciso sustentá-
la pela cintura para não a deixar cair.
— Fique de pé. — Ordeno e ela tenta se erguer. Enquanto eu a ajudo,
levanto-me.
Aproximo-me do seu corpo e a puxo para mim. Meus dedos roçam a
pele do seu pescoço, entre os seus ombros. Ela respira fundo quando percebe
para onde as minhas mãos estão indo. Agarro seus seios e os esmago
possessivamente. Lilly arfa quando roço meu pau duro na parte inferior das
suas costas.
Meus lábios roçam em seu ouvido.
— Sonhei com esse momento por dias, quando estávamos em Paraíso,
linda Lótus. Sem saber que um dia você seria minha. — Ela roça as costas em
meu pau, provocando-me.
Não era bem isso que eu queria. A bem da verdade, eu queria uma moça
feia, ingênua, amedrontada, que eu pudesse deixar horrorizada com o
tamanho do meu pau. Que ficasse com tanto medo de mim que me obrigasse
a tomá-la à força. Mas nem tudo é sempre como planejamos.
— Eu também, forasteiro, eu também. — Ela tenta se virar à procura da
minha boca. Seguro o seu rosto, impedindo-a, deixando-a zonza com as
mordidas e chupões que dou em seu pescoço.
— Você hoje será minha em todos os sentidos, Lótus. Todos. — Ela
inclina a cabeça e baixa os cílios ligeiramente em reconhecimento. Sua mão
vem até o meu rosto e segura-o. — Minha — afirmo.
Meus lábios devoram os dela, com avidez. Viro-a de encontro ao meu
peito e suas mãos o tocam. A carícia lenta dos seus dedos faz um fogo brotar
em mim. Minha língua rodeia os seus lábios, querendo provar a sua. Perco-
me em seus lábios doces e me deixo ser consumido pela força desse desejo
possessivo que sinto por ela. Com a boca colada a dela, eu a pego em meus
braços e a levo para cama. Deito-a lá.
Lilly fica quieta, com os olhos cheios de desejo, fogo ou tudo misturado
fixados em meu rosto. Ela lambe os lábios maliciosamente e faz menção de
movê-los para dizer algo.
— Shhh, não diga nada. Deixe-me homenageá-la com o desejo do meu
olhar. — Eu mal consigo respirar só de olhar para ela, tão linda, esperando-
me possuí-la.
Varro os meus olhos por todo o seu ser. Meu dedo se arrasta
percorrendo sua boceta, perdendo-se entre os lábios do seu sexo. Ela estende
a mão e toca o meu peito, acariciando-o levemente. Inclino-me sobre o seu
corpo e domino sua boca outra vez. Meus beijos se tornam mais duros, igual
a minha ereção.
— Lilly — afasto-me o suficiente para que ela olhe para o meu rosto.
—, lembra que eu te disse que a primeira vez de uma mulher tem que ser
especial?
— Sim, lembro. Você me rejeitou naquele dia, vai me rejeitar hoje
também? — O mesmo olhar tristonho daquele maldito dia me é lançado outra
vez.
Se ela soubesse o quanto eu lutei contra mim mesmo para não a
reivindicar, para não tomá-la como minha. Se ela soubesse o quanto eu me
amaldiçoei por ser tão sensato. Eu a queria e a quero tanto, tanto... de um
jeito que não posso ter.
— Não, linda Lótus, hoje eu a quero mais do que tudo. Hoje... você será
minha. Minha mulher. — Ela me puxa e eu sou beijado com paixão. Deixo-
me ser beijado por alguns minutos, depois afasto-me lentamente. — Lilly,
não tenha medo, não vou machucá-la. Se ficar com muito medo é só me
abraçar.
Beijo sua testa. Eu só quero que ela saiba que não sou o demônio que a
comprou. Por algumas horas eu quero me esquecer de quem ela é filha. Por
algumas horas eu só quero esquecer quem eu sou e me perder nessa emoção
que está invadindo o meu coração. É a sensação mais maravilhosa que já
senti em minha vida.
Lentamente, roço-me sobre o seu corpo, minha ereção friccionando em
sua vulva. Deliberadamente deslizo minha mão pela lateral do seu corpo,
desenhando suas curvas. A suavidade da sua pele me deixa inebriado, e como
um ébrio, meus dedos entram em suas dobras. Ela abre as pernas um pouco e
minha mão se perde no calor molhado do seu desejo. Em êxtase com os seus
gemidos e o roçar do seu corpo no meu, acaricio seu pescoço com meus
lábios e minha outra mão cobre o seu seio. Curvo-me e chupo o mamilo, ao
mesmo tempo fricciono seu clitóris entre os dedos.
Lilly grita em seu êxtase, contorcendo o corpo, agarrando-me com
desespero. Provoco-a ainda mais mordendo o bico retesado e lambendo-o
com a ponta da língua.
Ela aperta os olhos, prendendo as pernas em volta dos meus quadris,
tentando encontrar ar para respirar.
— Lilly, olhe para mim. — Exijo. Ela me olha.
Enquanto nossos olhares se fixam eu introduzo meu dedo médio em sua
abertura. Deslizo o máximo que eu posso, e ela arqueja e engole em seco. Seu
corpo torna-se rígido, ela aperta as coxas em minha mão. Fico imaginando
quando o meu pau estiver dentro dela, a sua boceta envolvendo-o em torno
do seu aperto.
— Isso tudo aqui é meu, Lilly. — Quem fecha os olhos sou eu quando o
meu dedo gira e escorrega para cima e para baixo com cuidado.
Meu olhar faminto volta para sua linda boceta e, sem deixar de mover
meu dedo nela, minha boca volta para os seus seios arrastando a língua em
cada mamilo. Ela geme baixinho, provocando-me com as unhas em minhas
costas. Levo um bom tempo me perdendo, tocando-a. E quando paro, Lilly
está ofegante, completamente desesperada por mim.
Ergo-me da cama e lentamente dispo minhas roupas, ficando
completamente nu. Lilly sustenta o corpo com os cotovelos e me olha,
extasiada. Seu olhar de desejo, de vontade, joga-me ao chão, literalmente aos
seus pés. Ela me tem sem saber, o demônio de quem tem tanto medo não
passa de um gatinho quando está preso em seus braços.
Deito-me sobre ela outra vez e recebo beijos em todo o meu rosto,
depois em meu peito e mamilos. Meu corpo é acariciado por suas mãos
inexperientes, mas essas mãos são minhas e só tocarão um homem, eu.
Meus joelhos separam suas pernas e o meu pau encontra sua entrada. Ao
sentir sua umidade tocando a cabeça do meu membro, meus músculos
tornam-se tensos. Deve ser o desejo febril que estou sentindo, não é de hoje
que a desejo, que a quero. Ela também está tensa, mas com razão. Eu tirarei
sua virgindade, roubarei sua inocência como um ladrão cruel. A doce e linda
Lilly nem sabe para quem está se entregando.
Não. Não pense nisso agora, Raphael. Hoje você é apenas o forasteiro,
o homem pelo qual a linda Lótus se apaixonou.
Lentamente movo a cabeça do meu membro em sua entrada úmida e
quente. Lilly crava as unhas em minhas costas e ombros. Quando tento forçar
um pouco mais, ela aperta os olhos. Paro imediatamente.
— Ei. — Ela permanece com os olhos apertados. — Lilly, olhe para
mim. — Ela abre seus lindos olhos e eles estão medrosos. Sinto uma
necessidade imensa de protegê-la. Nunca havia sentido isso antes e fico
inseguro com tal sentimento. — Se doer é só me abraçar. Morda-me se isso
abrandar a dor. — Ela beija meu ombro, depois sua mão rodeia o meu
pescoço e minha cabeça é puxada para próximo do seu rosto. Recebo um
longo beijo.
— Eu quero você e espero por este dia há tanto tempo. Não estou com
medo, só estou nervosa. — Ela diz com a voz baixa.
Confusão me enche a mente. Ela me quer do mesmo jeito que eu a
quero, ou será o contrário? Não... não, eu não posso deixar me envolver pelos
seus sentimentos. Será apenas sexo. Apenas sexo e nada mais.
22
RAPHAEL

Tanjo os meus pensamentos confusos para longe e me concentro


nela.
Começo a massagear suas coxas, fazendo-a se abrir um pouco mais.
Quero que relaxe, eu sei que será dolorido, a primeira vez de uma mulher dói
como o fogo do inferno.
Acaricio sua boceta enquanto o meu pau descansa a cabeça em sua
entrada. Beijo-a com carinho, aliso um dos seus mamilos, depois o seu rosto,
sem por nenhum instante afastar o olhar do seu. Com extremo cuidado,
empurro meu pau em sua entrada. Lilly engasga, seus olhos se arregalam e
ela para de respirar. A dor está presente em seu rosto e nas gotas de suor em
sua testa.
Beijo sua testa e a ponta do seu nariz para finalmente roubar sua boca.
Nossas línguas se tocam, e quando eu sinto que o seu corpo relaxou, empurro
meu pau mais um pouco. Lilly contrai os quadris, tenta fechar as pernas. As
palmas das suas mãos se apoiam em meu peito, como se quisessem me
afastar.
— Não tenha medo, estou aqui para lhe proporcionar prazer, jamais
machucarei você. — Enquanto falo, acaricio o seu corpo trêmulo e suado. Ela
está tão tensa que eu tenho medo de quebrá-la.
Empurro mais um pouco, sinto a cabeça do meu membro penetrá-la.
Lilly ofega, esconde o rosto em meu peito.
— Lilly, dê-me sua boca, eu quero beijar você. — Ela olha para mim e
sorri, um sorriso de dor e nervosismo. — Eu quero tanto você, linda Lótus.
Estou tão duro, tão cheio de desejo, que ainda nem sei como não gozei em
suas coxas. — Ela me presenteia a boca e eu chupo sua língua. Enquanto o
meu beijo devasso a distrai eu a penetro lentamente, sentindo a dificuldade do
meu pau entrando em sua boceta virgem.
— Eu te quero — digo com a boca colada na dela e empurro meu pau
um pouco mais. — A quero, minha Lótus. Muito, muito. — Acaricio o seu
corpo com delicadeza, beijo-a com suavidade, aperto-me contra o seu corpo.
Lilly ofega, geme, então eu empurro tudo de mim dentro dela. Ela grita e
prende-se a mim.
— Deuuss! Isso dói muito. — Quase não consegue falar.
Crava as unhas com força em minha carne. Por alguns segundos eu não
me movo, mas o corpo dela, involuntariamente, começa a balançar. Apesar
da dor que eu sei que ela está sentindo, o desejo está crescendo dentro dela.
E, lentamente, começo a me mover para frente e para trás.
— Dói quando faço isso? — empurro lentamente até enterrar todo meu
pau em sua boceta apertada.
— Agora só um pouco. Arde, queima, mas não é tão dolorido como foi a
primeira vez. — Beijo-a muitas vezes enquanto tento controlar o meu
impulso de estocar forte.
— Lilly, não vou conseguir me segurar por muito tempo, você é muito
apertada e isso está me matando. — Já não estou suportando o aperto da sua
boceta em torno do meu pau, ela o suga e o aperta. Minhas bolas doem,
porque estou prendendo o meu gozo.
— Mova-se mais rápido, eu preciso que se mova mais rápido. — Olho
para ela preocupado, não quero que sinta mais dor do que já está sentindo. —
Não vou quebrar, Raphael, eu preciso que faça isso.
Então empurro mais rápido e um pouco mais forte e a beijo enquanto
meu corpo se move rápido junto com o dela. As estocadas não são tão
severas, ainda estou preocupado em não a machucar, mas são o suficiente
para fazer nosso êxtase explodir em um turbilhão de espasmos e gemidos
ferozes. Meu coração bate de encontro ao seu, meus grunhidos desesperados
sonorizando o quarto, nossos suores se misturando e o prazer crescente se
derramando dentro dela.
Ofegantes, extasiados e enroscados um no outro, ficamos por uma
porção de tempo. Lilly está molhada de suor e quase adormecida. Levanto-
me, seguro-a em meus braços e a levo para o banheiro. Ao sentir a água
quente em seu corpo ela desperta. Limpo-a, seu sangue virgem está entre suas
coxas e isso me faz lembrar o que ela verdadeiramente significa para mim.
Vingança.
Decidido a não deixar que ela pense que o que aconteceu hoje neste
quarto é algo além de sexo, sigo com o meu plano.
Embrulho-a no roupão e a levo para a cama.
— Onde estão suas roupas de dormir, Lilly? — Deixo-a sentada na cama
e vou até o closet.
— Na primeira gaveta à sua direita. — Ela responde e percebo o seu
cansaço através da sua voz.
Escolho um pijama de seda negro. Volto e a visto com ele.
— Sabia que eu sei me vestir sozinha, senhor meu marido? — pergunta,
com um sorriso encantador.
— Sim, eu sei, mas não me custa nada vesti-la e colocá-la para dormir.
— Visto sua calcinha. Começo a ficar duro outra vez, só de olhar para o seu
corpo nu.
— Dormir, é? — Olha maliciosamente para a frente da minha toalha que
está presa aos meus quadris. — Não é o que o seu amigo aí embaixo quer. —
Tenta me tocar com a mão, mas a afasto.
Ela fica surpresa com a minha reação e ao mesmo tempo tenta outra vez
alcançar o meu pau, que está pulsando feito um louco traidor. Fico tentando
afastar sua mão, até que ela consegue finalmente puxar minha toalha e o
traidor do meu pau salta ereto, erguido para cima. Lilly sorri satisfeita,
deliciando-se com o prazer puramente feminino de ter me deixado tão duro
quanto uma barra de ferro. Porém, não me deixo ser envolvido por meu
desejo, pego a toalha do chão e me enrolo nela outra vez.
— Quieta. — Ela tenta puxar a toalha novamente. — Não faremos sexo
novamente, não hoje. Você está muito dolorida, não sou um animal, tenho
consciência da dor que sentiu.
Visto-a. Deito-a na cama, mesmo com ela relutando, e antes de cobri-la
com o cobertor, vejo a marca vermelha do seu sangue virgem no centro do
lençol. Encho-me de satisfação, aquele sangue significa que ela me pertence.
— Você precisa descansar. Boa noite. — Viro-me e vejo seus olhos
claros cravados em mim.
Quando ela percebe que estou saindo, grita, furiosa.
— Aonde pensa que vai, Raphael?
— Estou indo para o meu quarto. Ou você pensou que dormiríamos
juntos?
Ela se levanta rapidamente e vem em minha direção.
— Como assim, seu quarto? Que eu saiba, marido e mulher dormem
juntos... — Ela não tem oportunidade de se expressar com mais palavras, pois
eu lhe digo, secamente:
— Nós não somos um casal, Lilly. Se você tivesse lido o bendito
contrato de casamento saberia disso. Nós não vamos dormir juntos, nós não
vamos dividir o mesmo quarto. Só virei aqui para fazermos sexo e quando
você engravidar não tocarei mais em você. Não se iluda, não romantize o que
acabou de acontecer entre nós dois, foi apenas sexo, tesão, desejo. Não é
amor, o que fiz com você faria com qualquer outra mulher...
Recebo um tapa forte no rosto. Seguro seu pulso com força. Lágrimas
rolam por seu rosto, seu olhar marejado se fixa ao meu olhar furioso.
— Canalha, estúpido... — Tenta controlar as lágrimas e tenta se soltar
do aperto da minha mão.
— Foi a última vez que me bateu, não faça mais isso. Uma mulher só
pode bater em um homem se ela puder vencê-lo... siga o meu conselho.
— Você mereceu, você é um mau caráter... — Puxo-a para mim, nossos
olhares não se separam. Ela treme e eu tento me controlar para não a beijar,
não sucumbir ao desejo de abraçá-la e levá-la para cama e fazer amor com ela
outra vez.
— Não. Não, Lilly, eu não sou mau caráter, nem canalha, pois em
nenhum momento eu menti para você. Não a iludi com promessas de amor,
eu fui sincero. Nós nunca teremos um relacionamento, nossa união é
puramente por interesses. Você me dá o que eu quero e eu lhe dou o que
quer. Deixe isso bem claro para o seu coração, porque, para o meu, está
perfeitamente claro.
— Solte-me. — Faz força para sair dos meus braços e eu a solto. — Eu
não posso escolher, eu não mando em meu coração. Amo você e ponto,
mesmo que você não mereça. Eu te amo, Raphael Salles, amo com toda a
força do meu coração e eu sei que antes desta porcaria de contrato acabar
você me amará também.
— Desista dessa ideia, Lilly — digo com firmeza na voz. — Se você
não quiser sair machucada desse nosso acordo. No máximo, eu lhe darei
prazer. Aproveite, pois jamais a amarei, nem a você, nem a ninguém. —
Quase grito, acho que estou tentando convencer a mim mesmo.
Ela baixa os braços ao longo do corpo e suas lágrimas banham o seu
rosto, escorrem por seu pescoço e morrem entre os seus seios. Por um
momento, meu corpo se move para ir ao encontro do seu. Eu quero apertá-la
em meus braços, secar suas lágrimas com os meus beijos.
Então eu me lembro dos gritos do meu pai, do carro pegando fogo...
Vingança, Raphael, vingança.
— Boa noite, Lilly. — Viro-lhe as costas, e antes de abrir a porta, escuto
o seu pedido choroso.
— Por favor, não vá. Dorme comigo, só hoje. Só hoje, meu amor... —
Ela engole o choro.
— Não se iluda, Lilly, é melhor evitar o sofrimento de amanhã. Se
acostume a dormir sozinha, boa noite.
Saio rapidamente, fechando a porta atrás de mim. Fico algum tempo
com a testa encostada na porta, escutando o choro dela, seus soluços. Só sigo
para o meu quarto quando percebo que o choro parou... Ela provavelmente
adormeceu.
Sinto-me um derrotado. Era para estar me sentindo vitorioso, afinal eu
consegui arrancar a inocência da filha do meu inimigo, ela está sofrendo
como eu sofri e sofro. Mas não me sinto um vencedor, sinto-me um monstro,
um demônio. Estou machucando um anjo, destruindo uma alma pura.
Estou machucando a mim mesmo, pois ferindo-a, firo o meu coração.
Mas eu sei que eu tenho que lutar contra este sentimento voraz, se quiser
seguir com o meu plano de vingança, afinal, levei a minha vida quase toda
para arquitetá-lo e não posso ser seduzido por um sentimento que só destrói.
Foi este mesmo sentimento que matou o meu pai. Eu não permitirei que
aconteça o mesmo comigo, não mesmo.
23
LILLY

O dia amanhece nublado, frio, assim como eu. Nem sei como consegui
dormir, acho que fui vencida pele peso do abandono. Sim, abandono. As
palavras frias e duras do Raphael foram como lâminas afiadas em minha pele,
rasgando-a. Ele foi cruel.
Como ele mesmo costuma dizer:
Eu não sou o Lobo na história da Chapeuzinho Vermelho, sou o
Lenhador.
Ele quer me matar...
Eu sei que deveria odiá-lo, até tento, mas o meu amor é maior do que
qualquer outro sentimento que possa nutrir por ele. Às vezes eu o desprezo,
mas é um raro momento. Talvez eu seja uma idiota, burra, imbecil, por amar
alguém assim tão desprezível e que não está nem aí para mim. Ele só quer me
engravidar e me foder, como fode as outras mulheres. Palavras dele, que
ainda ouço.
É, Lilly, uma coisa você não vai esquecer, ele fez amor com você, não
sexo. Ele pode não admitir, mas foi amor.
— Bom dia, senhora Lilly! — A porta do meu quarto se abre e a Sônia
entra através dela com uma bandeja nas mãos e um sorriso aberto. Eu nem a
escutei bater na porta. — O senhor Raphael pediu para lhe trazer o café na
cama e preparar um banho com ervas relaxantes.
Fico surpresa ao escutar tal afirmação. Será que realmente o senhor
arrogante e com o coração de aço está preocupado com o meu bem-estar? Ou
se arrependeu por ter me tratado como uma pessoa insignificante e quer se
redimir? O que eu acho pouco provável. Aquele olhar frio e cheio de empáfia
que me lançou ontem à noite não é de um homem que se arrepende das coisas
que faz. Ele realmente só me vê como a mulher que gerará o seu futuro
herdeiro.
— Bom dia, Sônia! — cumprimento-a, enquanto ergo o meu corpo,
sustentando-o pelos meus cotovelos. — Que horas são? — Olho para a janela
e não dá para ver muita coisa, pois o céu está coberto por nuvens escuras.
— Já passa das oito, mas não se preocupe. Foi o próprio senhor Raphael
que deu ordens de deixá-la dormir um pouco mais.
Mais uma surpresa, na certa ele quer me poupar para logo mais, à noite.
Está cuidando da futura mãe do seu filho, acho que ele quer me engravidar
logo, assim não precisará se deitar comigo por muito mais tempo.
— Nossa! É muito tarde — rapidamente me levanto. Só então eu
percebo o quando estou dolorida entre minhas pernas, lá embaixo.
— Meus Deus, querida, você tem absorventes? Acho que acabou de
menstruar.
Olho para a mesma direção em que os olhos de Sônia estão. Lá está a
prova de que não sou mais virgem, os lençóis de linho branco estão
manchados com o meu sangue.
— Não é menstruação, Sônia... — murmuro, envergonhada.
Sônia percebe que fico constrangida. Larga a bandeja em cima da
cômoda e vem até mim.
— Oh, minha querida, não precisa sentir vergonha. Eu devia ter
desconfiado, todos os casamentos arranjados são assim mesmo, a moças
escolhidas são castas, e aposto que você foi educada em um colégio interno,
acertei?
Como assim, casamento arranjado? Será que ela sabe sobre o meu
contrato com o Raphael? E se sabe, o que deve estar pensando a meu
respeito?
— Você sabe sobre o meu casamento? — Engulo o meu orgulho e
resolvo perguntar, se é para morrer de vergonha, que eu morra logo.
— É claro que sabemos. — Como “sabemos?” É muito pior do que eu
imaginava, todos na ilha sabem que fui comprada. Minha vergonha queima
em meu rosto. — Senhora Lilly, não precisa ficar assim... — Ela me abraça e
nos sentamos na cama. — Todos os casamentos da família do senhor Raphael
são arranjados, já esperávamos isso, não é nenhuma surpresa. Foi assim com
o senhor Adam, o pai do senhor Raphael.
Não sei se me sinto aliviada ou confusa, não imaginava que isso ainda
existisse. Eu sei que em Paraíso muitos pais arranjavam maridos para suas
filhas, mas essa tradição estava acabando. Agora, em plena Noruega, como
isso ainda pode acontecer?
— Como assim, Sônia? Tradição familiar em pleno século vinte e um?
— Fito-a com aquele olhar cheio de dúvida e curioso.
— Algumas famílias abastadas da nossa região ainda permanecem no
século dezenove, querida. E a do senhor Raphael é uma delas.
— E é normal o casal dormir em quartos separados? — Não contive a
minha vontade de perguntar, pois eu queria muito que ela dissesse sim. Sinto-
me tão constrangida com o desprezo do Raphael.
— Sim... — Ela me olha com carinho e a sua mão vem até o meu
cabelo, alisando-o. — Oh, minha querida, você não entendeu essa parte, não
foi? É normal, sim, muitos casais dormem separados a vida toda. Outros se
apaixonam ou se acostumam um com o outro. O Senhor Adam se acostumou
à senhora Adeli e passaram a dormir juntos após o nascimento do senhor
Raphael... — Seus olhos me avaliam carinhosamente e eu sei que ela
pressente algo. — Este quarto era dela, era da senhora Adeli. E o quarto do
senhor Raphael era do senhor Adam.
Ela continua com os olhos correndo por meu rosto. Parece que está
lendo a minha alma.
— Eles se apaixonaram? — Baixo os cílios ao perguntar. — Os pais do
Raphael se apaixonaram?
— Não, minha querida. Eles se acostumaram um com o outro, se
respeitavam muito e eram grandes amigos, tanto que, quando a senhora Adeli
faleceu, o senhor Adam perdeu o chão. Ele perdeu a sua grande companheira,
sua melhor amiga. Existem vários tipos de amor, querida.
Seu olhar inquieto continua me avaliando e isso começa a me
incomodar. Por que ela me olha tão intensamente?
— Oh, senhora Lilly, se apaixonou por ele, não foi? A senhora está
apaixonada por seu marido?
Levanto-me rapidamente, afastando-me do seu contato visual. Eu sei
que estou amando aquele insuportável, mas não quero que ninguém mais
saiba disso, principalmente uma de suas empregadas.
— Claro que não. Ninguém se apaixona tão rapidamente assim,
principalmente em seu primeiro contato íntimo.
É a desculpa mais esfarrapada que eu dou. E pelo o olhar que ela me
deu, não acreditou em uma só palavra.
— Senhora Lilly, ninguém manda no coração, o amor não precisa de
tempo, ele simplesmente acontece. Mas tudo bem, quem sou eu para julgar
qualquer coisa ou para dar conselhos. Estou aqui para cumprir ordens, e as
minhas ordens são para cuidar muito bem da senhora.
Ela vai para o banheiro. Escuto o barulho da água caindo dentro da
banheira.
— Dispa-se e venha mergulhar na água com ervas, garanto que este
desconforto que está sentindo desaparecerá assim que sair do banho.
Faço o que ela manda, e quando entro na água morna e cheirosa, volto
aos meus questionamentos.
— Onde está o Raphael? — Finalmente tomo coragem de perguntar.
— Saiu bem cedo. Foi para Ålesund, só retorna à noite.
Decepcionada é como me sinto. Ele nem ao menos veio me desejar um
bom dia.
— Ele veio até o seu quarto, eu vi. Acho que não quis acordá-la, saiu
rapidamente. — Acho que a Sônia lê pensamentos, ela saiu na defesa do
insuportável rapidamente. — Bem, não se demore no banho, por dois
motivos: a água do banho ficará gelada e o seu delicioso café da manhã ficará
frio.
Pisca um olho para mim e alarga os lábios em um sorriso carinhoso. Sai,
fechando a porta.
Ele veio me ver antes de sair. Isso quer dizer que se importa comigo, o
que é um bom sinal. Só espero que o meu amor possa derreter o aço daquele
coração frio e sem emoção.
Será que algum dia na vida ele sentiu algo por alguma mulher? Ou pior,
será que sofreu uma grande decepção e resolveu nunca mais amar de novo?
Quem será que foi a imbecil que machucou o coração do Raphael?
Será que ele ainda a ama? Como posso concorrer com um fantasma?
Eu preciso de respostas.
24
RAPHAEL

Hoje faz trinta dias que eu consegui dar início à minha tão desejada
vingança, mas confesso que as coisas não estão saindo como eu planejei e eu
preciso matar um leão todas as noites para não deixar que ela perceba o que
está acontecendo com as minhas emoções. Muitas vezes, ou quase sempre, eu
preciso ser rude com ela, ou então tudo o que planejei por todos esses anos
irá por água abaixo. Durante o dia é fácil seguir com o planejado, mas... são
as noites o meu verdadeiro desafio.
Entrar todas as noites no quarto da Lilly, fazer amor com ela e fingir que
o que acabou de acontecer era só sexo não era nada fácil, pois todas as noites
eu a amo, assim como a amei na primeira. Por mais que eu tente ser
indiferente com o que eu estou sentindo, não está sendo possível manter o
meu controle. Ele é a porra mais difícil do mundo de domar. Consigo
aniquilar meus inimigos com um só golpe, mas não consigo amansar a minha
paixão pela minha esposa.
Sim, por mais que eu negue, estou completamente apaixonado por ela. E
são nas nossas noites, debaixo dos lençóis, que a minha derrota é certa.
Fechado entre aquelas quatro paredes com ela eu não sou nada, não mando
em nada, não domino nada. Ao contrário, quem domina é ela; domina
completamente o meu coração. Quando eu soube que a minha Lótus era a
Lilly González tive o pressentimento de que isso não seria lucrativo para os
meus planos, o próprio Alfredo tentou abrir os meus olhos, no entanto, não
quis dar ouvidos, nem a ele e nem à minha razão. Achei que seria até melhor
já nos conhecermos, já que sentíamos atração um pelo o outro, mas foi na
nossa primeira noite de amor que eu descobri o quanto eu estava errado.
Deixar a Lilly dormir sozinha naquela noite foi a tarefa mais difícil de
toda a minha vida. Escutá-la suplicar para que eu ficasse, foi pior ainda. Nem
sei como eu consegui ser tão frio, porque a minha vontade era de me deitar ao
seu lado, envolvê-la em meus braços e fazê-la adormecer escutando as
batidas aceleradas do meu coração. Foi preciso muito controle para falar
todas aquelas palavras cruéis e virar-lhe as costas, batendo a porta em seu
rosto lindo e coberto pelas lágrimas. O pior foi ficar ouvindo o seu choro por
trás da porta até que ela finalmente adormecesse.
Não posso dizer que foi o pior momento da minha vida, porque estaria
mentindo. O meu pior momento foi ver o meu pai ser queimado vivo.
Entretanto, posso afirmar que foi um dos piores. E no outro dia, ao vê-la
dormindo em meio aos lençóis, testemunhas do nosso amor, onde o seu
sangue virgem estava derramado, foi como um castigo, pois eu a queria mais
uma vez. Fiquei tão duro só de olhar para ela adormecida, de um modo tão
inocente. Fiquei tão louco que esqueci por alguns instantes o que ela
realmente significava para mim... vingança. Minha razão naquela manhã foi
vencida pela minha emoção e ela me guiou até sua cama, onde beijei seus
lábios com carinho. Um beijo leve, mas o suficiente para despertar um desejo
devorador dentro de mim. E desde esta manhã, luto com todas as minhas
forças para não a deixar perceber o quanto a amo. O que eu puder fazer para
dar um fim nesse amor, eu farei. Devo isso ao meu pai.
Não é fácil cumprir essa tarefa, pois tocar em seu corpo, beijar sua boca,
sentir o seu coração de encontro ao meu todas as noites, é um verdadeiro
dilema. Às vezes, eu tenho de me concentrar em não dizer “eu amo você”,
entre as nossas carícias, ou quando estou dentro do seu corpo, sentindo suas
paredes íntimas apertarem o meu pau enquanto goza. Ou então quando estou
jorrando o meu prazer dentro dela, fazendo com que o meu corpo se
convulsione em espasmos tão fortes que penso que não resistirei a tanto
prazer. Sua boceta é o meu vício, seu mel, quando é saboreado por minha
língua, me enlouquece, deixa-me ébrio. Seus gemidos de êxtase são músicas
para meus ouvidos, e quando ela chama o meu nome, em alto som, quando
está tragando a mais sublime sensação orgástica, leva-me ao céu. Seus lábios,
quando tocam o meu pau e o sugam com volúpia, mesmo com sua
inexperiência, transportam-me para outra dimensão, não dá para explicar
como me sinto quando estou em seus braços.
Só posso dizer que estou muito fodido.
— Senhor Conde, chegamos.
— Já disse para não me chamar assim — advirto com arrogância o
marinheiro da minha lancha.
Proibi todos os meus empregados de me chamarem de Conde. Eu não
sei o quanto Lilly sabe sobre a minha família, mas ainda não é hora de ela
saber a verdade sobre o seu pai, sobre o assassino que é o Rodrigo González.
Então, por enquanto, eu não quero que ela saiba quem eu sou de verdade.
Hoje é a primeira vez que venho almoçar em casa, decidi que ficar
afastado dela durante o dia é uma maneira de mostrar que não me importo
com os seus sentimentos. O desprezo é uma forma de mantê-la afastada,
talvez ela até deixe de me amar, e o ódio dela alimentaria a minha vingança.
No entanto, não tenho obtido muito resultado. Lilly, a cada dia, demonstra
mais amor por mim, e essa porra de sentimento está acabando com o meu
sossego. Ela não sai da minha cabeça e do meu corpo.
— Bom dia, Sônia! — Ao escutar a minha voz, Sônia me encara como
se estivesse vendo um fantasma. — Onde está a minha esposa?
— Não está lá fora? — Ela gagueja, então leio a sua linguagem corporal.
Suas mãos alisam o seu vestido e depois ela finge me ignorar.
— Sônia, onde está a Lilly? — Vou direto para o seu quarto e Sônia
vem logo atrás de mim. — Cadê ela, Sônia? Porque lá fora ela não está.
— Ela foi nadar, senhor Raphael. — Viro-me e já estou indo em direção
à piscina interna. — No rio. Ela descobriu o rio semana passada e foi nadar
lá...
— O quê!? — vocifero. Lembranças de quando eu a conheci no castelo
veem à minha mente. De ela nua, no lodo de lótus. — E você permitiu?
Nem espero a resposta, saio às pressas direto para as baias. Monto o meu
cavalo e vou de encontro a Lilly, só espero que ela não tenha tido a infeliz
ideia de se banhar nua nas águas do rio.
O rio fica entre a vegetação alta da ilha, não tem como ir a cavalo.
Assim que chego à clareira vejo o cavalo branco que ela costuma montar.
Deixo o meu cavalo ao lado do dela e sigo pelo caminho estreito que dá
acesso ao rio. Em menos de cinco minutos já avisto o barulho da correnteza.
Filha da mãe!
Ela está completamente nua. Suas roupas estão espalhadas pela grama,
inclusive sua calcinha e seu sutiã.
— Lilly, saia daí agora! — ordeno. Ela se assusta com o tom bravo da
minha voz e rapidamente cobre os seios com as mãos. — Vamos, venha, saia
logo daí.
Eu a fuzilo com o olhar e, engolindo a custo minha raiva e ciúme, dou
um passo à frente.
— Venha me tirar daqui se quer tanto que eu saia. — Fita-me
seriamente, quase me desafiando.
— Lilly, não teste a minha paciência, saia agora. — Esbravejo. Meu tom
de voz sai tão arrogante quanto o meu olhar fuzilante. — Você sabia que os
meus empregados podem vê-la nua? Saia agora, Lilly, não estou pedindo,
estou mandando.
— Até parece que se importa, você nem liga para mim. Só tem olhos
para mim à noite, quando estamos entre quatro paredes. Então pode ir
embora, ainda não é noite e eu só sairei daqui quando quiser.
Retruca com ironia.
— Lilly, não me faça entrar aí e tirá-la à força dessa água. — Estou a
ponto de explodir de raiva. Olho para todos os lados para ver se avisto
alguém escondido, pois se tiver alguém eu juro que cego os dois olhos do
infeliz.
— Não saio. Se quer mesmo me tirar daqui, vai ter que entrar na água.
— Ela está determinada a testar a minha paciência.
Não penso duas vezes. Livro-me de todas as minhas roupas, e quando
ela percebe o que vou fazer, nada para a parte mais funda do rio, perto das
rochas.
Assim que mergulho percebo o quanto a água está gelada.
— Que merda, Lilly! A água está gelada, você pode ficar doente por
isso. — Ela se afasta um pouco mais, deixando apenas a cabeça à mostra. —
Lilly, pare, é muito fundo onde você está indo.
Consigo alcançá-la, meu coração bate forte quando me junto a ela.
Encurralo-a, meus braços a prendem junto ao meu corpo. Lilly tenta me
afastar, empurrando o meu peito, mas sou muito mais forte do que ela.
— Você não aprende mesmo, por mais que tente, não pode escapar de
mim. Lembra que eu te disse que não sou o Lobo Mau, sou o Lenhador da
sua história, linda Lótus? — Aproximo-me mais, meu rosto a centímetros de
distância do dela. — Você sairá deste rio, por bem ou por mal. Não queira me
ter como inimigo, linda Lilly, eu sou muito bom nisso, tenho anos de prática.
— É para eu ter medo de você? — Pergunta, concentrando o olhar no
meu. — Porque se for, acho que não está funcionando.
— Não me provoque. Garanto a você que não vai querer me ver
zangado. — Aperto-a em meus braços.
Seus seios bicudos raspam meu peito nu. A sensação dos bicos pontudos
ralando em minha pele faz com que meu pau fique duro e cutuque o seu
ventre.
— Solte-me, Raphael, eu não tenho medo de você. Aliás, nesse
momento, não sinto nada por você.
— Será? Não é o que os seus olhos e o seu corpo dizem. Sinto o seu
desejo através deles.
— Idiota, cretino... solte-me. — Ela tenta me afastar, tenta esconder o
seu desejo, a sua fome por mim. Ela não é uma boa atriz.
Afasto-me um pouco, consciente da nossa proximidade, do tesão que
emana dos nossos corpos. Fito-a como se o meu olhar a fodesse. E a força do
desejo vence mais uma vez. Ela abre os lábios e sua língua passa sutilmente
sobre eles em um convite para que eu a beije. Eu já conheço a sua linguagem
corporal.
Seu olhar varre o meu rosto, depois os meus lábios. Ela está sedenta, ela
me quer dentro dela tanto quanto eu quero. Então pressiono meu corpo com
força sobre o seu. Minha boca desliza por seu rosto até chegar à sua orelha.
— Você quer, aqui e agora. Quer tanto que quase não consegue respirar
— sussurro em seu ouvido.
Ela nada diz, só solta um sonoro gemido enquanto o seu corpo responde
por ela, roçando-se levemente em mim. Esfrega seu sexo levemente contra a
minha coxa. Uma das minhas mãos desliza por sua cintura até encontrar sua
carne rechonchuda. Aperto-a. Ela ofega longamente ao meu toque.
— Viu, eu posso não provocar medo em você, mas o que provoco é
muito mais perigoso. Porque eu posso dominar o meu desejo, mas você não
consegue dominar o seu.
— Seu idiota... — Suas mãos tocam o meu peito e tentam me afastar.
Mas, quando minha boca cobre a sua, ela se desmancha em meus braços,
gemendo baixinho.
Enquanto o meu beijo provoca calafrios em seu corpo, minhas mãos
exploram o seu sexo, deslizando o dedo entre os lábios do seu sexo, à procura
do seu delicado clitóris que eu já sei o quanto é sensível ao meu toque e
língua. Sem conseguir se defender do que está sentindo, ela desiste de lutar.
Eu a suspendo nos braços, fazendo-a ficar pendurada em meu corpo. Sua
boceta encontra o meu pau. Aprofundo o beijo, provocando-a ainda mais.
Desesperada, ela começa a balançar o corpo, friccionando seu sexo no meu.
— Foda-me, foda-me, Raphael. Eu quero, eu preciso de você dentro de
mim.
Paro de beijá-la. Seu olhar suplicante, desejoso, encontra o meu. Preciso
ser muito resistente e me lembrar de quem ela é filha e o porquê de ter me
casado com ela para fazer o que tenho que fazer. Desço-a do meu corpo
enquanto me afasto sem deixar os nossos olhares se perderem.
— Eu avisei, não sou o Lobo Mau, sou a merda do Lenhador.
Pasma, sem fôlego e exalando desejo por mim. Olho seus olhos
enevoados de tesão. Não sinto orgulho do que estou fazendo, pois magoá-la é
como enfiar uma faca em meu próprio peito. Meu coração não quer fazer
aquilo, mas a minha razão é quem manda em mim.
— Imbecil, babaca... Eu odeio você, odeio.
Suas mãos empurram o meu peito, quase perco o equilíbrio. Ela tenta
nadar para longe de mim.
— Nem pensar, a senhora só sairá deste rio depois de mim. — Passo à
sua frente e em menos de dois minutos já estou na margem. Pego minhas
roupas e as dela. — Vista-se rapidamente antes que algum empregado resolva
vir até aqui.
Ela toma as roupas bruscamente das minhas mãos e começa a se vestir
longe de mim. Eu sou mais rápido, visto-me primeiro que ela.
A frustração está estampada em seu rosto, tanto que assim que se veste
ela sai às pressas para longe de mim.
— Deixe-me em paz, eu sei voltar sozinha. — Ela diz assim que percebe
que estou atrás dela. — Fique bem longe de mim, só me procure à noite para
que possamos cumprir com a nossa obrigação, senhor meu marido.
Corre em direção ao cavalo e eu corro em sua direção. Ela monta
rapidamente, saindo a galope.
— Lilly, você não perde por esperar — grito. Sem se virar, mostra o
dedo do meio para mim. — Sua moleca indecente, você vai se arrepender por
ter feito isso — esbravejo enquanto monto o meu cavalo e cavalgo na mesma
direção
25
RAPHAEL

Cavalgo feito louco, tento avistá-la, mas não a vejo. Penso em


mil maneiras de castigá-la, garota desaforada dos infernos. Não sei se estou
mais bravo com ela por ter me respondido daquele jeito ou por ter se
colocado em perigo, cavalgando como uma doida varrida.
Ah, Lilly, a senhora não perde por esperar.
Entro em casa já gritando o seu nome. Encontro a Sônia e quase a jogo
no chão.
— Por Deus, senhor Raphael! Cuidado. — Eu a seguro pelos braços,
evitando assim que ela caia.
— Onde ela está? — grito. Nem olho para a Sônia, meus olhos a
procuram em todas as direções.
— A senhora Lilly? — Sônia, perplexa, pergunta.
— Sim, mulher, quem mais seria?
— Ela foi em direção ao quarto...
Nem a espero terminar, saio às pressas atrás da minha esposa insolente.
Ela já está fechando a porta do quarto quando a encontro. Quando me vê
tenta fechá-la, eu empurro com força e entro. Lilly tenta fugir, mas eu a pego
pelo braço e a viro para mim, puxando-a de encontro ao meu corpo.
— Saia de perto de mim. — Lilly me empurra e eu a prendo com mais
força ao meu corpo.
— Tente me afastar, se for capaz.
Ela tenta outra vez.
— Solte-me seu... seu...
— Seu o quê? Vamos, diga se tiver coragem.
Perplexa, Lilly fica parada me fitando com um olhar fuzilante, pensando
nas palavras que irá me dizer, certamente com a cabeça num turbilhão.
Depois, sem dizer uma palavra, desvia o olhar do meu.
— Você é um arrogante que pensa que pode fazer o que quiser de mim.
Ela me olha outra vez e os seus olhos mostram mágoa.
Eu a estudo, uma leitura lenta. Meus olhos varrem o seu lindo rosto, ele
está tão perto de mim que eu posso sentir o calor da sua respiração. Nesse
momento ela me domina, nesse momento eu estou completamente à sua
mercê, nesse momento eu só quero beijá-la e fazer amor com ela.
Então o seu olhar se fixa ao meu e eu engulo em seco. Estou fodido,
muito fodido. Não sou um homem que tem medo do novo, mas esse
sentimento que teima em travar uma batalha constante entre minha
necessidade de vingança e o meu desejo voraz e dominante de possuí-la será
a minha desgraça. Eu sei que não é algo com o qual eu possa simplesmente
lutar sem sair ferido e isso está acabando comigo.
— Mas eu posso e você sabe disso, não sabe? — pergunto, impedindo-
lhe de se afastar no momento em que me empurra o peito.
— Sim, eu sei. Eu sou a mulher que tem que te dar um filho, preciso
fazer sexo com você para que possa me engravidar e assim cumprir com o
nosso acordo. Não passo de uma barriga de aluguel. — Sua voz soa distante,
ela esconde a amargura que sente.
— É, mas nem isso você está fazendo, pois até agora não engravidou.
Como menstruou mês passado eu começo a desconfiar que você tem algum
problema, porque eu não tenho... — digo, olhando-a fixamente.
— Eu não tenho problema, a minha menstruação é irregular, sempre foi.
— Ela se irrita e tenta se afastar. — Você é um estúpido, quer me magoar, é
isso. Solte-me, deixe-me em paz. Não se preocupe, não fugirei de você à
noite, estarei aqui de pernas abertas. — Rebate, sem medo de enfrentar meu
olhar frio.
— Assim espero, pois tenho pressa e quero que engravide o quanto
antes. Já estou pensando em levá-la para fazer um exame médico... —
Provoco-a, sendo, porém, imediatamente interrompido.
— Grosso! Vá para o inferno, Raphael Salles. Vá para o diabo que o
carregue. — Ela consegue finalmente me afastar, com a voz entristecida, mas
procurando controlar-se.
— Eu já estou no inferno, você não percebeu? — Empurro-a para que
saia da minha frente e sigo para a porta. — Você almoçará sozinha, perdi o
apetite. Quanto ao nosso jantar, faça bom proveito, prefiro jantar só do que
mal acompanhado. Só voltarei tarde da noite, esteja pronta para quando eu
chegar.
Saio batendo a porta com força, sem esperar resposta. Só escuto algo se
quebrar de encontro à madeira.
Encontro-me com Lolita e quase a derrubo.
— Preste atenção por onde anda, Lolita — Ela pede desculpas. — Avise
a Sônia que não vou almoçar e nem jantar.
Sigo de volta ao hangar. Eu preciso sair de perto da Lilly, ou a merda
deste sentimento que grita dentro de mim virá à tona. Já não consigo nem
controlar o meu olhar, quanto mais as minhas vontades. Não dá para
continuar assim, ela precisa engravidar, só assim ficarei longe dela e não
correrei o risco de pôr tudo a perder.
No contrato está escrito que quando ela engravidar não teremos mais
relações sexuais, eu a deixarei em paz. Só não sei se realmente quero isso, ou
se quando isso acontecer, eu de fato manterei distância, o que acho pouco
provável. Minha obsessão por ela está acima de qualquer cláusula.
No entanto, eu sei que é preciso afastá-la de mim, das minhas mãos, da
minha boca, do meu pau. Eu fiz uma promessa ao meu pai e preciso cumpri-
la, mesmo que tenha que magoar a mim mesmo.
Você não pode esquecer o que ela representa em sua vida, Raphael.
Essa moça é a filha do assassino do seu pai, ela é a sua vingança.
Vingança, vingança...
Preciso me convencer disto, pois já não sei mais o que quero.
Se a minha vingança, ou ela.
26
LILLY

Ele quer me deixar louca, só pode. Não consigo entender o Raphael, o


que acontece com ele? Há momentos em que ele me olha com uma
verdadeira adoração, como se eu fosse o seu bem mais precioso. Os seus
beijos e suas mãos quando me acariciam demonstram a atitude de um homem
apaixonado. Quando estamos fazendo amor ele se entrega completamente,
mas há momentos em que os olhos dele vomitam ódio, desprezo, mágoa...
O que eu fiz para você, Raphael? Por que me trata assim?
Minhas lágrimas não aliviam a dor do abandono. Como eu gostaria de
odiá-lo, como gostaria de arrancá-lo do meu coração. Mas não posso, eu o
amo tanto, tanto, que quando penso que em breve vou deixá-lo bate um
desespero.
— Senhora Lilly.
Alguém bate à porta do meu quarto. Peço para entrar, tentando dar um
tom natural à voz.
— Entre. — Enxugo minhas lágrimas com o dorso da mão.
Lolita entra com uma bandeja com o meu almoço, coloca-a sobre a mesa
enquanto os seus olhos observam a bagunça que está o chão. Cacos de
porcelana espalhados por todo tapete. Joguei um vaso de flores na porta que
era para ter acertado o Raphael.
— Seu almoço. Vou arrumar a mesa, e enquanto almoça, vou pegar a
vassoura para limpar isso aqui. — Ela aponta para o chão.
— Não quero almoçar, perdi a fome — digo, sentando-me na cama.
— Acho que a senhora deve almoçar, do que vai adiantar fazer greve de
fome? — Ela insiste. — O senhor Raphael deixou ordens categóricas para só
recolher a bandeja quando os pratos estivessem limpos. Portanto, coma, ou
quem será penalizado somos nós.
— Você? — digo, incrédula. — O Raphael jamais faria isso com você.
— Eu já volto. — Ela não diz nada sobre o meu comentário.
Eu me sento à mesa e começo a comer a salada. Em menos de três
minutos ela retorna. Começa a juntar os cacos.
— A senhora ama mesmo o senhor Raphael? — Paro de comer e olho
para ela com um olhar de espanto. — Eu sei que não começamos bem, eu fui
grossa, estúpida com a senhora, mas havia um motivo para isso...
— Eu sei, você é apaixonada pelo Raphael — digo, rapidamente.
— Não! — exclama. — O senhor Raphael jamais olharia para mim
como olha para a senhora, ele a ama e agora eu sei que ele é correspondido.
Será que ela está certa? Será que o Raphael me ama mesmo?
— O motivo pelo qual eu não gostava da senhora era porque eu pensava
que a senhora era igual às mulheres que se casam por obrigação. Elas sempre
odeiam os maridos e eu pensei que a senhora odiava o senhor Raphael.
— Eu até tentei, Lolita, mas o meu amor é mais forte do que eu.
— Ei, não fique assim. — Ela larga a vassoura, puxa a cadeira e se senta
ao meu lado, segurando a minha mão.
— Ele quer muito um filho, não é? — Fito-a desconfiada. Como ela
sabe disso? — Desculpe-me, mas eu escutei a discussão de vocês.
— Sim, ele quer, mas eu começo a desconfiar que tenho problemas, pois
mês passado menstruei. Estou com tanto medo de não poder lhe dar um
filho...
Sinto o seu dedo acariciar o dorso da minha mão, nossos olhares se
fixam e ela sorri.
— Acho que posso ajudá-la, mas terá que guardar segredo — diz com
entusiasmo.
— Como? — Sinto uma esperança nascer em meu peito.
— Algumas mulheres de Ålesund usam ervas medicinais para curar
algumas enfermidades. Elas não gostam muito dos remédios de laboratórios,
preferem os naturais. Eu conheço uma mulher que é uma verdadeira maga
das ervas, hoje mesmo vou perguntar se há alguma erva para que possa
ajudá-la a engravidar, e se houver, eu mesma preparo o chá para a senhora e
trago todos os dias. O que acha?
— Será que há alguma erva para esse fim? — Meu coração se enche de
esperança, pois se existir, logo eu estarei grávida e o Raphael ficará feliz.
— Ainda hoje eu lhe trarei a resposta. Se existir, hoje mesmo a senhora
já estará sendo medicada.
— Obrigada, Lolita, você não sabe o quanto está me fazendo feliz.
— Eu imagino. Mas tem que me prometer guardar segredo, ok?
— Sim, será o nosso segredo.
Termino o meu almoço. De repente, o meu apetite volta e como toda a
comida. Lolita volta para os seus afazeres e eu me deito na cama para
descansar.
Às dezoito horas ela vem ao meu quarto com uma caneca na mão.
— Beba tudo. É um pouco amargo, mas é para um bem maior. Trarei o
chá três vezes ao dia. Pela manhã, assim que o senhor Raphael sair, antes do
almoço e antes do jantar. A mulher me disse que em quinze dias você estará
grávida.
Eu bebo o chá com toda vontade. Nem percebo o amargor, só penso que
em poucos dias eu estarei grávida. Para mim, isso seria a maior felicidade.
À noite, quando o Raphael entra em meu quarto, eu me entrego para ele
como nunca havia me entregado. Fizemos amor várias vezes, e ele só saiu do
quarto quando dia já estava amanhecendo.
Durante a semana, fizemos amor todas as noites, e em algumas manhãs
ele me procurava. Não brigamos mais e, ao invés disso, conversávamos. Ele
me fazia rir e eu tentava fazê-lo sorrir, mas isso não acontecia, o Raphael
nunca sorria.
Em uma madrugada, eu acordei com ele gritando. Eram gritos horríveis,
ele parecia sofrer muito. Tentei ir até o seu quarto, mas a Sônia me impediu.
Ela praticamente me obrigou a entrar em meu quarto e me suplicou para não
fazer qualquer comentário com o Raphael sobre o pesadelo, pois ele
costumava ficar muito irritado quando se tocava no assunto.
Como estamos vivendo uma linda lua de mel, eu decidi obedecer e não
fiz nenhum comentário a respeito.
Hoje faz doze dias que estou tomando o chá, até agora minha
menstruação não chegou, mas já estou sentindo os sintomas, como dor nos
mamilos e inchaço no ventre, que está dolorido. Ontem eu senti dor quando
fiz amor com o Raphael, e assim que me levantei fiquei tonta. Eu sempre
sinto essas coisas quando estou perto de menstruar e estou rezando para que a
menstruação não venha. Se passar dos dez dias que faltam, terei a certeza de
que estou grávida.
— Lilly. — Raphael entra em meu quarto com uma bandeja na mão e
com uma ruga de preocupação na testa. Já era para ele estar em Ålesund a
uma hora dessas. — Trouxe o seu café e você vai me prometer que ficará
quietinha na cama, não estou gostando dessas suas tonturas matinais.
— A Sônia já foi fazer fofoca, ela não tinha nada que preocupar você.
Eu estou bem, não se preocupe. — Adoro quando ele fica todo carinhoso,
ultimamente têm sido constantes esses momentos de carinho.
— Mulher teimosa do caralho. — Franze as sobrancelhas e me encara.
— Se você me esconder outra vez que não está bem, ficarei muito zangado, e
se não melhorar, eu a levarei ao médico. E é claro que eu me preocupo com
você, afinal você é minha mulher e costumo cuidar do que é meu.
Os olhos dele cintilam quando diz a palavra “meu” e eu me sinto a
mulher mais amada do mundo. Acho que ele nem percebe o quão
naturalmente disse aquilo, mas eu percebi.
— Se você não melhorar, me ligue. Virei para casa imediatamente,
certo?
Estou devorando uma uva que ele colocou em minha boca. Tudo no
Raphael mudou, ele até deixou que eu ligasse para a fazenda. Conversei por
quase uma hora com a Nuza, ela me contou sobre as poucas novidades e que
estava tudo bem. Não consegui falar com o meu pai, ela me disse que ele fica
muito pouco na fazenda e só vem para casa dormir. Eu acho que ele não quer
falar comigo.
— Linda Lótus, agora eu tenho que ir, comporte-se. — Adoro quando
ele me chama assim. Geralmente ele só me chama de Lótus quando estamos
fazendo amor, mas em ocasiões carinhosas como essa ele sempre me trata
assim. — Venho almoçar com você... — Pisca um olho, eu sei qual a
intenção dele ao vir almoçar. Sempre que faz isso nós terminamos fazendo
amor. Ele me beija levemente nos lábios.
Outra mudança repentina, ele sempre me beija quando está de saída.
Raphael vai embora. Eu termino o meu café e me deito um pouco.
Acordo às nove horas. Já não estou me sentindo mal, então resolvo andar um
pouco a cavalo.
Antônio não quer deixar, pois Raphael me proibiu de andar a cavalo sem
a sua presença desde aquele dia em que brigamos feio, no lago.
— Por favor, Antônio, eu prometo, só vou trotar um pouco e bem aqui
no campo. Não sairei do seu campo de visão, o Raphael nem precisa saber —
suplico com as mãos juntas.
— Senhora, se ele descobrir não será só o meu emprego que perderei, a
minha vida também.
— Deixe de ser exagerado. São só alguns trotes e pronto.
— Só daqui para lá, nem mais um passo. — Ele aponta a distância.
Antônio me ajuda a subir na égua, ela é bastante alta. Assim que dou o
primeiro trote sinto uma forte dor no ventre. Prendo a respiração, me curvo
sobre a égua e outra dor mais forte vem com violência, então, eu grito.
— Socorro!
É a única palavra que eu consigo dizer, pois logo em seguida vem uma
dor muito mais forte e eu sinto o meu corpo despencar para baixo.
Só escuto vozes ao longe, gritando. O Antônio chama a Sônia,
desesperado, a Sônia grita com a Lolita para chamar o Raphael. Sinto o meu
corpo ser carregado e ouço repetidas vezes a palavra sangue, sangue,
sangue...
Após isso não escuto mais nada, meus olhos se tornam pesados e só
enxergo a escuridão.
27
RAPHAEL

Não consigo parar de pensar na Lilly, desde que cheguei ao


escritório ela não me sai do pensamento. Penso até em ligar para casa, estou
muito preocupado. Quando Sônia me chamou e me alertou sobre as tonturas
da Lilly, quase a pego à força e a trago para a cidade.
Talvez seja fraqueza, anemia, não sei... Talvez eu esteja exagerando na
quantidade de vezes que fazemos amor, ou na intensidade, sei lá.
Só não quero que ela fique doente, pensar na minha linda Lótus doente
me quebra por dentro. Assim que esta bendita reunião terminar, eu ligarei
para o hospital e marcarei um horário com uma médica, será o melhor a fazer.
— Senhor Raphael, seu celular está tocando há alguns minutos. —
Agnes me entrega o celular.
— Alô! — Lolita fala tão rápido que eu não consigo entender o que diz,
mas escuto gritos ao longe. — Lolita... Lolita... — repito. — Lolita, que se
acalmar? O que está acontecendo? — Eu só escuto a parte que ela diz que a
Lilly caiu do cavalo.
Desligo e imediatamente chamo o piloto do helicóptero.
Peço para o piloto aterrissar no gramado do campo de futebol. Ao longe
já vejo o Antônio vindo em minha direção e ele parece desesperado, sua
roupa está ensanguentada. Aconteceu uma desgraça, prevejo isso. Eu sabia
que não devia tê-la deixado sozinha hoje cedo.
— Senhor, foi tudo tão rápido. Eu não tive como socorrê-la, quando dei
por mim ela já estava no chão...
— Como ela está? — Eu o pego pela gola da camisa, estou furioso. —
Onde está a minha mulher, ela está bem? Vamos, homem, responda!
— Eu... eu sinto muito, senhor... — Vejo medo em seus olhos, e ele
deve ter mesmo, pois se algo acontecer a Lilly, juro que o mato.
Solto-o, pois sei que estou perdendo tempo. Corro, desesperado, em
direção à casa, e antes mesmo de entrar vejo gotas de sangue no chão.
Meu corpo inteiro treme, fico alucinado.
— Não, não... não! — grito e corro em direção às vozes desesperadas.
Penso na morte do meu pai, penso no quanto sofri ao vê-lo ser devorado
pelo fogo. Não suportarei perder outra pessoa que eu amo, ela não. Será que
Deus está me castigando por querer usá-la como vingança?
— Senhor Raphael! — Sônia olha em minha direção. Ela chora
enquanto tenta acordar a Lilly. — Ela precisa ir ao hospital o mais depressa...
Antes de ela terminar, já estou com a Lilly em meus braços correndo
com ela em direção ao helicóptero.
— Tragam a bolsa dela, andem — grito. — Meu amor, acorde. Ande,
acorde, sou eu, o Raphael. Não faz isso comigo, não posso perder você
também.
Choro, choro desesperadamente.
Sônia me entrega a bolsa, e antes que eu vá, segura a minha mão e diz:
— Ela ficará bem, tenha fé.
Fé! Há muito tempo perdi a minha.
São os minutos mais longos da minha vida. O percurso da ilha para o
hospital foi como uma cena de suspense. Lilly não responde aos meus
chamados, continua lânguida, com a respiração fraca e a calça coberta de
sangue.
Quando chegamos ao heliporto, nos separam. Ligo para Alfredo e Mila e
peço para que eles venham me fazer companhia. Não quero ficar sozinho,
não suportarei uma notícia ruim.
Alfredo e a Mila chegam minutos depois e recebo um abraço apertado
de cada um. Estou trêmulo, com o coração na boca, pensamentos sombrios
passam por minha cabeça. Lembranças aterrorizantes voltam, com força.
Quero gritar, quero chorar, quero rezar.... mas não consigo fazer nada disso,
pois estou completamente paralisado de medo.
Por três vezes procurei notícias de Lilly, mas ninguém tinha a nada a me
dizer. Só não fiz um escândalo porque Alfredo tomou a frente e Mila me
trouxe para perto do seu corpo, abraçando-me.
Duas horas depois uma enfermeira vem me chamar e me acompanha até
a sala da médica que atendeu a Lilly. Tento manter a calma, tento manter as
mãos imóveis.
— Boa tarde, senhor conde. Sente-se. — A médica é uma senhora,
posso afirmar que tem uns sessenta e cinco anos e aparenta estar calma.
— Por favor, chame-me de Raphael. Como está a minha mulher? Posso
vê-la?
— Se acalme, ela está sedada. Perdeu muito sangue, mas está bem.
— Ela se machucou ao cair do cavalo? Se cortou?
A médica fica por algum tempo me analisando.
— Vocês são casados há pouco tempo, não são? — assinto, não estou
entendendo a pergunta. — Pretendiam ter filhos agora...
— Não sei qual a relevância dessas perguntas quanto ao acidente da
minha mulher. Seja direta, por favor.
— Sua esposa sofreu um aborto.
Levanto-me imediatamente e começo a andar de um lado a outro.
— Ela estava grávida?! Como assim, aborto...
Fico desorientado, perco a noção de tudo. Eu vou matar o Antônio, juro
que vou.
— A gravidez é recente, estava com três semanas...
— Três... — interpelo-a, ainda atônito com a notícia. — Foi a queda do
cavalo que provocou o aborto?
— Não, fizemos um exame de sangue e detectamos uma substância
abortiva. O aborto foi provocado, eu sinto muito...
— Impossível — interpelo-a aos gritos. — A Lilly jamais faria isso, ela
queria muito um filho e ela nem teria como fazer isso. Moramos em Bergsen,
lá não tem farmácias. Não, não, a senhora está enganada.
— Não, não estou, e não há só remédios abortivos de laboratório, ervas
fazem o mesmo estrago, e é muito comum aqui em Ålesund as mulheres as
usarem para abortar. Acho melhor o senhor procurar saber quem receitou a
tal erva, pois sua mulher poderia ter morrido envenenada.
Não quero acreditar nisso, não quero crer que a Lilly faria isso. Por
quais motivos, se ela seria a maior beneficiária caso engravidasse? Não, não
posso e não quero acreditar nisso, ela teria que ser muito ardilosa para
arquitetar um plano tão sórdido desses.
Maldita! Tal pai, tal filha... Assassina igual ao pai.
— Ela já sabe que estava grávida?
— Não.
— Por favor, não conte. Quero eu mesmo dar a notícia. — A médica
concorda. — Quando eu posso levá-la para casa?
— À noite é o tempo que os sedativos perdem o efeito. Lembre-se, ela
precisa de muito repouso. Evite que saia da cama por um período de uns três
dias, depois disso pode fazer curtas caminhadas e sexo só depois de quinze
dias. Mas antes disso eu quero vê-la, vou prescrever a medicação que ela
deve tomar, e se ela sentir qualquer sintoma, pode mandar me chamar.
Deixo a sala da médica pior do que quando entrei. Mando o Alfredo e a
Mila para casa, peço para que arrumem tudo para receber a Lilly. Eles
querem saber sobre ela e eu só digo que ela está bem e que hoje à noite
receberá alta médica.
Deixo o hospital e sigo direto para Bergsen, eu preciso descobrir como a
Lilly conseguiu as malditas ervas.
Encontro a Sônia com os olhos vermelhos de tanto chorar e assim que
ela me vê corre em minha direção.
— Como ela está? Como está a menina Lilly?
— Está sedada, logo receberá alta e ficará bem. — Olho em volta à
procura da Lolita, ela é a única que poderá me dizer alguma coisa, pois a
Sônia jamais faria isso comigo. — Eu preciso falar com a Lolita, mande-a ao
gabinete agora, entendeu, Sônia?
Sônia me olha preocupada. Sigo para o gabinete.
Estou de pé diante da janela, olhando para um ponto fixo através dela,
quando a Lolita entra.
— O senhor quer falar comigo?
Viro-me e a encaro.
— A Lilly perguntou se você conhecia alguma erva? Não minta, Lolita.
— Sim, senhor, ela me perguntou se eu conhecia uma erva chamada
graveolens e eu disse que ia perguntar às mulheres da ilha. Eu a encontrei e
ela me pediu para fazer um chá e trazer para ela três vezes ao dia. Também
me pediu segredo. Por quê?
— Por nada. Pode ir, Lolita, obrigado.
Ela sai e eu destruo quase tudo que está por cima da minha mesa, a raiva
reina em meu coração.
Como eu pude ser tão tolo? Como pude acreditar na filha de um
assassino? Ela não merece o meu perdão, nem a minha compaixão. Estou
com a cabeça fervilhando de ódio e o coração sangrando, pois além do meu
pai ter sido assassinado por um González, meu filho também o foi. Ainda
pior, ele foi assassinado pela própria mãe.
Volto para Ålesund. Lilly não perde por esperar.
28
RAPHAEL

Por algum tempo eu lutei feito um desesperado contra este


sentimento desvairado que crescia dentro de mim. Só eu sei o quanto resisti à
tentação de me jogar em seus braços e dizer-lhe o quanto a amo, o quanto sou
louco por ela. E quando a paz finalmente reinou entre nós dois, eu já estava
me convencendo de que ela é a minha paz, de que ela é a mulher com quem
eu quero ficar para sempre.
Ela faz tudo isso e... me apunhala pelas costas.
Já estava disposto a deixar o passado para trás, a enfrentar os meus
fantasmas e a abrir mão da promessa que fiz ao meu pai, de vingá-lo.
Como eu pude ser tão idiota? Esse tempo todo ela só estava se
divertindo às minhas custas.
Assassina.
Eu sei que preciso esquecê-la, ela não merece que eu desista dos meus
planos. Eu preciso encontrar uma maneira de afastá-la do meu coração.
Merda! Que merda, Lilly, você será a minha desgraça.
A raiva ferve dentro de mim. Raiva por ser tão fraco, tão idiota, tão
previsível.
Chego ao hospital um pouco antes das dezenove horas, ainda está claro.
A recepção me avisa que Lilly já está de alta médica. Eu quero logo levá-la
para casa, pois aqui no hospital não posso dizer-lhe as coisas que estão
atravessadas em minha garganta.
Entro no quarto, ela ainda dorme.
Ao vê-la tão indefesa, tão pálida, sinto uma necessidade emergencial de
segurá-la em meus braços, beijar os seus cabelos, dizer-lhe palavras
carinhosas. Então, inconscientemente, dou um passo à frente. No entanto,
lembro-me do nosso filho e uma enorme mágoa se forma em meu coração.
Como ela pôde fazer isso e por quê?
— Raphael, é você? — ela sussurra. A penumbra do quarto atrapalha a
sua visão.
— Sim, sou eu — respondo. Tento esconder a frieza da minha voz, não
quero que ela perceba. — Você já está de alta e eu vim buscá-la. Venha, vou
ajudá-la a se vestir, eu trouxe roupas limpas para você.
Por alguns instantes ela me encara como se estivesse me avaliando.
— Onde está a médica, ela não virá me ver antes?
— Não, ela já conversou comigo e deixou as prescrições dos
medicamentos. — Ela tenta argumentar, mas eu impeço. — Shhh, você não
pode conversar, precisa repousar.
Ela fica quieta. Eu a visto e a coloco em meus braços.
— Alfredo está nos esperando, agora tente dormir um pouco — afirmo
sem, contudo, deixar transparecer a minha raiva.
Assim que começo a me mover, ela geme e franze a testa.
— Tontura? — Arrisco, num misto de ironia e mágoa.
— Só um pouco — responde, impaciente.
— Não vamos demorar, vamos ficar na mansão aqui em Ålesund. É
melhor, pois fica mais perto do hospital caso você precise de um médico.
Ela não argumenta, apenas recosta a cabeça em meu peito e fecha os
olhos. Está aparentemente muito frágil, com a respiração apressada, gotas de
suor na testa. A médica me disse que ela perdeu muito sangue e que o veneno
da erva ainda está em seu organismo. Levaria alguns dias para sair do seu
corpo, as medicações ajudariam com o processo.
Lilly adormece em meus braços. Alfredo me ajuda a entrar no carro e
em vinte minutos já estou colocando-a na cama.
— Mila, Alfredo, deixe-me a sós com minha esposa. — Quando deito
sua cabeça no travesseiro, Lilly acorda.
— Não é melhor eu ficar com ela? Depois vocês conversam, a Lilly
ainda está...
— Nos deixe a sós, por favor — digo friamente com os olhos fixos na
Lilly.
Mila sai, e Alfredo, antes de sair, sussurra:
— Filho, não faça nada de que possa se arrepender depois. — Alfredo
sempre me chama de filho quando quer me chamar atenção.
Fico de pé diante da cama, fitando-a. Tento engolir a minha raiva, pois
nesse momento a minha única vontade é despejar tudo em sua cara.
Lilly me olha apreensiva.
— Por que não se senta aqui perto de mim? Eu sei que está zangado por
ter montado a égua, desculpe-me, não foi intencional...
— Sim, foi. Foi bem intencional, Lilly. — O sarcasmo me domina e o
meu ódio cresce a cada segundo.
— Raphael, por que está me tratando assim com tanta frieza? Eu já pedi
desculpas. Sim, eu fui irresponsável, não devia ter montado a égua sabendo
que não me sentia bem, já aprendi a lição...
— Não seja cínica, pare de representar. — Fecho com força as mãos,
aperto tão forte que escuto os estalos das minhas juntas.
Ela se senta na cama, recostando-se na cabeceira. Seus olhos incertos me
fitam.
— Cínica? Mas do que você está me acusando? O que eu fiz de tão
grave, além de ter sido irresponsável?
— Por que não me contou?
— Não contei o quê?
— Pare, Lilly, pare de dissimular, isso não combina com você. Achava
mesmo que ia poder esconder de mim? Achava mesmo que caindo do cavalo
ia encobrir a verdade?
— Verdade? Mas do que você está falando, Raphael? Do que me acusa?
— Sonsa! — grito. Aproximo-me da cama. — Por que fez aquilo? Se
não queria, era só me dizer, mas fazer o que fez é cruel demais. — Enquanto
a acuso, grito nervoso, gesticulo com as mãos.
— Pare, pare de gritar e despeje logo o que fiz de tão grave. — Ela grita
também, tenta se levantar, mas não consegue. Volta a se encostar na
cabeceira, respira com dificuldade e as lágrimas nublam os seus olhos.
— Se você sabia que estava grávida, por que fez isso?
— Grávida?! — Seus olhos fitam-me espantados. — Eu estava grávida?
— Não queira me fazer de bobo, você sabia que estava grávida... — A
sua dissimulação só aumenta a minha raiva, minha vontade é de acusá-la,
compará-la ao pai.
— Então, eu sofri um aborto? Foi a queda do cavalo, foi isso, não foi?
As falsas lágrimas banham o seu rosto e eu não me compadeço. Inclino
o meu corpo e a seguro pelos braços, sacudindo o seu corpo com raiva.
— Não, Lilly, não foi a queda do cavalo. Isso era o que você queria que
eu pensasse, mas nós dois sabemos que o que causou o aborto foi o maldito
chá que você pediu para a Lolita. Foi ele que matou o meu filho.
— Não! — ela grita. — Não, eu não tomei o chá para abortar... não foi
por esse motivo. — Ela me empurra, eu a solto. Ela cobre o rosto com as
mãos. — Eu tomei o chá para poder engravidar. Você disse que eu estava
com problemas, fiquei com isso na cabeça, então a Lolita escutou a nossa
discussão e disse que podia me ajudar. Foi ela que me falou dessa erva, se eu
soubesse que estava grávida não precisaria tomar o chá... por Deus, eu matei
o nosso filho.
Aparentemente, ela parece estar dizendo a verdade. Fico confuso, no
fundo eu não podia acreditar que ela fosse igual ao pai, não a minha Lótus
vermelha. Ela não podia ser uma erva venenosa.
— Lilly, você não pediu a erva a Lolita? — Com os olhos vermelhos e o
desespero estampado em seu rosto, ela me encara.
— Não, eu só queria engravidar para vê-lo feliz... — Esconde o rosto
com as mãos outra vez. — Mas isso não importa mais, eu matei o nosso filho.
Sou uma assassina, você tem todo o direito de me odiar. Não mereço o seu
amor, não mereço... — Ela me encara com o olhar dolorido. — Saia daqui,
deixe-me em paz. Saia... saia...
Grita, desesperada, e começa a se debater. Eu tento segurá-la, ela tenta
me afastar sem deixar de gritar.
— Saia... Vá embora, deixe-me sozinha! Eu mereço morrer sozinha...
saia.
A Mila entra no quarto e tenta me afastar dela.
— Senhor Raphael, deixe-a. Deixe-a, não está vendo que ela está
sofrendo?
— Não, ela vai se machucar, Mila. Eu preciso ficar com ela...
— Alfredo, tire-o daqui, pelo amor de Deus! Tire-o daqui.
Lilly continua gritando e chorando ao mesmo tempo. Tenta me bater,
chuta-me. — Deixe-me em paz, vá embora...
— Venha, filho, ela precisa de um momento sozinha. A Mila cuidará
dela.
Alfredo praticamente me expulsa do quarto. Ainda escuto os gritos e os
soluços da Lilly, ela repete desesperadamente que é uma assassina, que não
merece o meu amor.
Com o coração aos pedaços, sentindo-me o mais cruel de todos os
homens, aceito resignado deixá-la em paz. Será que fui injusto com a minha
Lótus? Será que parti o coração da mulher que só merece amor, carinho,
cuidados e proteção? Como pude ficar tão cego, como pude ser tão
intolerante? Se estou errado, acabo de cometer o pior de todos os meus erros
e mereço ser castigado. Se ela nunca mais quiser olhar para mim, terá todo
direito, pois não sou digno do seu perdão.
— Vou atrás da verdade, Alfredo, e juro a você que a Lolita vai me
pagar. Se ela causou toda essa dor à Lilly, ela vai conhecer a minha ira.
Não espero a resposta do Alfredo. Pego meu celular e sigo para Bergsen.
29
RAPHAEL

A caminho do heliporto, ligo para os pais da Lolita e assim que o Elvis


atende peço para conversar com a Nora, a mãe dela. Pergunto se a Lolita a
procurou perguntando sobre alguma erva.
Nora afirma que sim e confirma que explicou como usar a erva.
Não tive outra opção senão contar toda a verdade das consequências da
atitude da Lolita. Minha vontade é entregar Lolita às autoridades, mas pensei
melhor e por consideração aos seus pais, decido que o próprio Elvis escolha
qual atitude tomar para com ela. Ele decide enviá-la para a capital, ela ficará
sob a supervisão de uma tia da qual detesta.
Deixo claro que minha obrigação é mandá-la para casa desta tia e a
partir daí a minha responsabilidade com a Lolita termina.
Chego à ilha de Bergsen minutos depois e assim que entro em casa sou
abordado por Sônia. Ela está muito preocupada com a saúde da Lilly e
começa a me encher com todas as perguntas que sua boca consegue
expressar. Sigo para o gabinete com ela atrás de mim.
— Como a senhora Lilly está? O que aconteceu? O que foi aquele
sangue todo? Oh, meu Deus, senhor Conde, não me deixe assim angustiada,
pelo menos responda-me se ela está bem.
Deixo-a terminar o interrogatório.
— A Lilly está bem, só requer alguns cuidados. Ficaremos na mansão
até ela se recuperar... — faço uma pausa, não sei se devo lhe dizer que ela
sofreu um aborto. Respiro fundo e então acho melhor lhe dizer a verdade. —
A Lilly sofreu um aborto...
— Santo Deus! — ela me interrompe. — Eu bem que desconfiei das
tonturas dela, do sono... Não quis dizer nada, porque ela tinha me dito que
estava perto de menstruar, mas fiquei desconfiada. Foi a queda do cavalo, não
foi?
— Não, não foi, Sônia. Foi um chá que a Lolita preparou e ofereceu para
ela. — Olho intensamente para Sônia, avalio sua expressão e só espero que
ela não saiba de nada disso.
— A Lolita fez isso? Eu sabia que ela tinha ciúmes da senhora Lilly,
mas nunca pensei que pudesse causar algum dano para ela. E agora, o que o
senhor irá fazer? — Respiro aliviado, ela não sabia de nada.
— Peça para que ela venha até aqui, preciso acabar logo com isso.
Sônia sai à procura da Lolita.
Minutos depois batem na porta do gabinete. Mando entrar.
— O senhor está à minha procura?
Cínica, dissimulada. Age como se nada tivesse acontecido.
— Sim. — Termino de enviar o e-mail para o meu advogado, é o pedido
de demissão da Lolita. Fico de pé, dou a volta na mesa e me aproximo, não
muito, só o suficiente para que observe cada detalhe do meu rosto.
Lolita continua perto da porta, olhando-me.
— Como está a senhora Lilly? — Fecho minhas mãos em punhos,
aperto meus dedos com força.
Filha da mãe ordinária.
— A Lilly ficará bem. Apesar de ter sofrido um aborto, ela ficará bem e
muito em breve poderemos ter outro filho. — Observo sua linguagem
corporal.
Lolita aperta os lábios, junta as mãos na frente do corpo, entrelaça os
dedos e os aperta nervosamente.
— Ela estava grávida? Oh, Deus! Eu sinto muito, senhor Raphael, o
senhor deve estar sofrendo muito...
— Cale-se! — brado, nervoso. É muita cara de pau, como uma pessoa
pode ser tão dissimulada? — Sua fingida, sua... — Eu ia chamá-la de
assassina, mas me calo. — A culpa é sua, a Lilly sofreu um aborto por causa
do maldito chá que você ofereceu para ela. E não negue, pois já sei de tudo.
Minha vontade é pegá-la pelo braço e fazê-la ir a nado para a casa da tia.
— Minha culpa? Foi a senhora Lilly quem pediu o chá, eu não ofereci
nada. Como o senhor pode me acusar de uma coisa dessas?
Luto contra a vontade de lhe enfiar a mão na cara, de pegá-la pelo
pescoço e apertar até que o ar não chegue mais aos seus pulmões.
— Fingida do caralho. Eu já sei de toda a verdade, sua mãe me contou
tudo. — Não consigo conter a minha fúria, em dois passos estou segurando-a
pelos cotovelos e sacolejando o seu corpo furiosamente. — Como pôde fazer
isso, como? O que ganhou matando um inocente, hein? Diga-me, o que
ganhou?
Ela fica estagnada por algum tempo, sem ação. Tenta pôr em ordem as
ideias. Minha fúria faz com que eu a jogue no chão. Ela cai sentada, olha-me
com olhos apavorados. Dou mais um passo em sua direção
— Socorro! — grita. — Eu sinto muito, senhor Raphael. Eu não sabia
que a Lilly estava grávida, se eu soubesse não teria oferecido o chá para ela.
A minha intenção era que ela não engravidasse, eu juro, eu juro.
Exaltado diante da sua confissão, eu a pego do chão. Aperto meus dedos
em torno dos seus braços e ela grita de dor. Seguro-a com força, fazendo os
seus pés saírem do chão. Meu rosto fica rente ao seu.
— Assassina, mesquinha, vil. Eu não quero nunca mais vê-la na minha
frente, entendeu? — Sacolejo violentamente o seu corpo. — Saia da minha
frente antes que eu me arrependa de não acabar com a sua vida com minhas
próprias mãos. Um marinheiro vai levá-la de lancha e de lá um motorista irá
levá-la até a casa da sua tia Anna.
Sônia entra no gabinete.
— Leve-a daqui antes que eu faça uma besteira.
Lolita sai do gabinete aos prantos, e eu fico aliviado por não ter
sucumbido à vontade de esganá-la.
Eu não sou um homem de perdoar erros. Não sou; sou um homem
imprevisível, orgulhoso, duro. Posso até dizer que sou cruel, e deixar a Lolita
ir embora, sem ao menos castigá-la de uma maneira dolorida, foi muito
difícil.
Ela deu sorte por eu considerar demais os seus pais.
Minutos mais tarde, estou de volta a Ålesund. Chego à mansão Bergsen
o mais rápido que posso. Preciso vê-la, preciso tocá-la, preciso mimá-la...
— Como foi com a Lolita, meu filho? — Alfredo me espera sentado no
estofado da mesa de estar.
— Ela teve o castigo merecido, não incomodará mais a Lilly. — Estou
exausto, completamente esgotado, só agora é que consigo respirar um pouco
mais aliviado. — Como a Lilly está, ela chorou muito?
— Chorou. Mila precisou medicá-la com um calmante, agora ela está
dormindo. — Ele se levanta, vem até mim e toca em meu ombro. — Vá
descansar, meu filho, hoje foi um dia duro para você. Se quiser peço para
Mila lhe preparar algo para comer.
— Não quero comer, Alfredo, eu só quero uma coisa... quero ficar com
ela, só isso. — Acaricio a mão que está em meu ombro e subo as escadas de
dois em dois degraus.
Entro no quarto silenciosamente. Lilly dorme tranquilamente e eu fico
por algum tempo a observá-la. Como eu pude acreditar que minha Lótus seria
capaz de machucar o nosso filho? Como pude conceber a ideia de que ela
seria igual ao assassino do seu pai?
Deus, eu mereço ser castigado.
Sentado na poltrona perto da cama, com o livro aberto nas mãos, eu não
consigo me concentrar na leitura. A todo instante meus olhos voltam-se para
a figura linda que está adormecida na cama, a mulher que entrou em minha
vida mudando todo o meu destino.
Ainda não sei o que farei com este sentimento que me domina. Não sei
como agir diante do fato de que estou completamente apaixonado. Não sei
como lidar com tudo isso. Luto contra ele, pois eu tenho um compromisso
com meu pai, eu lhe fiz uma promessa de vingar a sua morte e sei que preciso
cumpri-la. Dediquei quase a minha vida inteira em prol desta vingança, no
entanto, eu não esperava me apaixonar pela filha do meu inimigo. Não
esperava querer tanto alguém como eu a quero. Não sei o que fazer... Pela
primeira vez não sei qual será o meu próximo passo.
Algum tempo mais tarde, acordo com o pescoço dolorido, adormeci de
tão cansado. Olho para o relógio e vejo que já passa das vinte e três horas.
Lilly ainda dorme, percebo que ela mudou de posição, está virada para o lado
onde está a poltrona onde eu estava dormindo. Ela está descoberta e o quarto
está frio. Cubro-a com cuidado.
Toco em seu rosto com as costas dos meus dedos, acaricio a pele suave
com extrema delicadeza.
— Minha linda Lótus — digo, meus olhos varrendo todo o seu rosto.
Inclino-me perto o suficiente para senti-la o mais próximo possível. O
desejo de beijá-la cresce dentro de mim. Respiro fundo e sinto o seu cheiro
suave. Aproximo-me ainda mais, nossos lábios tão próximos, quase se
tocando, mas resisto.
Prendo a respiração e minha mão continua acariciando sua pele. Encosto
meu rosto no dela, roço pele com pele e desço lentamente.
Meu rosto encontra o seu coração e eu fico por alguns segundos
escutando as batidas lentas. Então, bem devagar, descanso minha cabeça em
seu ventre e choro.
As lágrimas não querem parar, algo em mim explode, algo em mim dói
muito.
— Meu filho... nosso filho.
Beijo o seu ventre, agarro-me a ela. Choro, soluço, lamento e blasfemo
contra o Criador.
— Por que, Deus? Por que permitiu que isto acontecesse? Primeiro o
senhor leva a minha mãe, depois o meu pai e agora o meu filho. Por que tem
tanto ódio de mim?
— Ra-Raphael. — Uma delicada mão toca a minha cabeça e a sua doce
voz me traz de volta do meu rancor. — Raphael... — Ela está chorando.
Ergo-me e os nossos olhos marejados se encontram. Suas lágrimas
doloridas quebram ainda mais o meu coração.
— Eu mereço o seu ódio. Eu sou uma assassina, matei o nosso filho... —
Afasta suas mãos da minha cabeça e as leva para o rosto, cobrindo-o. — Eu
sei que não mereço compaixão, eu sei...
Como ela pode se culpar? Ela não tem culpa. Como pode dizer que não
merece compaixão, se fui eu o acusador? Fui eu quem não acreditei na sua
inocência. Sou eu quem não mereço compaixão.
Ergo meu corpo e sento-me na cama, agarro o seu queixo.
— Não, não diga isso. Você não tem culpa de nada, eu sei quem foi o
culpado. Não pense mais nisso, Lilly, não chore. — Engulo o bolo que está
em minha garganta, limpo meu rosto com o dorso da mão. — Eu não devia
ter dito aquelas barbaridades para você. Eu sou um idiota, um grande idiota.
Respiro fundo outra vez, aproximo-me do seu rosto olhando para os seus
lábios e a beijo ternamente.
— Eu não mereço o seu amor, linda Lótus — digo, com os meus lábios
sobre os dela.
Ela prende a respiração quando eu a beijo novamente.
— Eu o amo muito — sussurra.
— Eu sei disso, eu sei disso.
Levanto-me e sigo para a porta do quarto.
— Raphael, não me deixe sozinha... — Assustada, ela sustenta o corpo
nos cotovelos, olhando-me aflita, pois pensa que estou indo embora.
— Não pretendo ir a lugar algum, só vou apagar a luz.
Dispo-me e me deito ao seu lado, puxando-a para o meu peito. Eu só
quero sentir sua respiração de encontro ao meu corpo.
30
RAPHAEL

Não dormi. Vi o dia amanhecer, mas em nenhum momento soltei o


seu corpo dos meus braços. Eu a segurava como se ela fosse a minha tábua de
salvação, como se ela tivesse o poder de me resgatar do fundo do abismo em
que me encontro, o abismo em que caí no dia em que o meu pai sacrificou a
sua vida para me salvar. O abismo de fogo incandescente onde queimou a sua
carne, onde até hoje ainda sinto o cheiro e escuto os seus gritos de dor.
Talvez ela possa me tirar de lá, talvez ela seja a minha única salvação, ou a
minha perdição.
Lótus, se eu pudesse esquecer o passado...
Ela se mexe entre os lençóis, seu corpo quente entrelaçado em volta de
mim. Sua pequena mão espalmada sobre o meu peito, bem acima do meu
coração. Fico quieto, ainda é cedo, ela precisa descansar. Permaneço imóvel
por alguns minutos até ter a certeza de que ela está dormindo tranquilamente.
Levanto-me bem devagar, procuro fazer o mínimo de movimentos possíveis.
Assim que fico de pé a observo. Espero alguns segundos, pois se ela acordar,
volto para a cama.
Tendo a certeza de que dorme, sigo para o banheiro.
— Raphael! — Estou secando os cabelos com a toalha, mas assim que
escuto o seu chamado corro para a cama. Ela já está com os pés alcançando o
chão.
— Ei, aonde pensa que vai? — Impeço-a de se levantar.
— Eu preciso ir ao banheiro. Preciso de um banho, estou toda
ensanguentada.
Ela tenta esconder a mancha vermelha em sua camisola, no entanto, eu
já tinha visto o lençol manchado de vermelho.
— Lilly, não precisa se envergonhar, a médica disse que isso é normal.
— Deito-a na cama outra vez. Ela reclama, mas logo percebe que comigo não
tem argumentos. — Quieta. Já volto, vou preparar a banheira e sou eu quem
dará banho em você.
— Não. — Tenta se levantar, mas a impeço. — Pelo amor de Deus, não
me faça passar por esse constrangimento. Estou sangrando lá embaixo, a água
ficará toda vermelha. Não e não, quero tomar banho sozinha.
— Eu lhe darei banho e pronto, aceite que dói menos. — Não estava
brincando e a minha voz firme não nega isso. — Nem pense em se levantar
daí.
Ligo a água da banheira, jogo os sais de banho dentro dela e enquanto
espero que encha mantenho meus olhos atentos na Lilly. Eu sei o quanto ela
pode ser teimosa e pirracenta.
Desligo a torneira, mantenho as toalhas e os roupões por perto.
— Pronto, agora venha. — Pego-a nos braços.
— Eu posso andar, sabia? — Estava demorando, ela sempre reclama.
— Enquanto estiver de repouso, não pode. São ordens médicas, reclame
com ela.
Coloco-a no chão. Assim que fica de pé sente uma tontura, e se eu não a
estivesse segurando, com certeza cairia.
— Viu só, se eu não estivesse aqui, a esta hora estaria no piso do
banheiro.
Ela encosta o rosto em meu peito e aceita, resignada, a minha ajuda.
Esfrego suas costas com carinho e a ajudo a se despir. Quando chega a
parte da calcinha, ela retrai o corpo.
— Prometo fechar os olhos, tudo bem assim?
— Sim, mas antes de entrar na banheira eu preciso me lavar. Você me
segura enquanto eu uso a duchinha.
Concordo. Retiro sua calcinha e a jogo dentro do balde de lixo, depois
entro no boxe e a seguro enquanto se lava. Dispo minhas roupas e a levo para
a banheira. Sento-me e a puxo para o peito. Ela está sentada entre minhas
pernas e a minha ereção cutuca as suas costas. Minhas mãos começam a fazer
o trabalho da esponja, acariciando a área. Beijo os seus ombros enquanto
escorrego os meus dedos na frente do seu corpo e lavo os seus seios, barriga e
vagina. Ela geme quando a toco lá e fecha as coxas, pressionando os meus
dedos.
— Mocinha, é só banho. Eu posso dominar a cabeça de cima, mas se
você continuar gemendo desse jeito, a cabeça de baixo a dominará.
Beijo o alto da sua cabeça.
— Eu acho que a de baixo já está dominando tudo... — Ela sorri e
movimenta a bunda pressionando a minha ereção contra as costas.
— Quinze dias de repouso, sem sexo. E posso garantir que os cumprirei.
Ela respira fundo. Sabe que quando tomo uma decisão não volto atrás.
Terminamos o banho. Eu com uma ereção gigantesca, ela olhando para a
ereção como se quisesse devorá-la. Foi preciso muita determinação para não
cair na tentação e terminar fazendo uma grande idiotice. Enfim, consigo
manter o meu pau bem longe dela, não posso dizer que foi fácil, pois precisei
banhar a Lilly várias vezes durante o dia, mas entre mortos e feridos, eu
sobrevivi.
No final da noite Lilly fica me olhando, apreensiva.
— Você vai dormir comigo, não vai?
— Claro que vou. Não sairei de perto de você, pode ficar tranquila.
Deito-me ao seu lado. Ela se enrola em meu corpo com a cabeça em
meu peito. Eu sei que não posso dormir na mesma cama que ela, tenho meus
motivos para ficar longe. Posso machucá-la se adormecer ao seu lado, posso
ser perigoso. Mas como me manter afastado dela, se o meu corpo vibra
quando ela me toca e o meu coração acelera quando sente o toque da sua mão
sobre o meu peito? E é com esses pensamentos que eu adormeço.
— Pai, pai... ajude-me, ajude-me... pai, segure a minha mão, pai... pai...
socorro! Socorro! Fogo, fogo... Pai, não, não... socorro! Socorro! Fogo!
Fogo! Meu pai está sendo devorado pelo fogo! Alguém me ajude, eu preciso
salvá-lo! Meu Deus, ele está gritando. Eu sinto o cheiro da sua carne
queimando... Socorro! Socorro...
— Raphael... Acorde, Raphael. Acorde, meu amor, você está tendo um
pesadelo... Acorde...
— Miserável... eu juro que me vingarei, você sofrerá como o meu pai
sofreu, seu miserável...
— Ra-Raphael, sou eu. Sou eu, a Lilly. So-solte-me, solte-me, vo-você
está me sufocando... Ra-Raphael...
Acordo com as mãos em torno do pescoço da Lilly. Ela mal consegue
respirar.
— Meu Deus! Lilly, perdoe-me, perdoe-me.
Saio de cima dela e a puxo para o meu corpo. Aperto-a em meus braços,
acariciando os seus cabelos. Quase aos prantos, beijo por diversas vezes o seu
rosto.
— Machuquei você? Deixe-me ver... — Avalio o seu pescoço com
cuidado.
— Está tudo bem, meu amor, eu estou bem. E você, está bem? Você
estava sonhando com seu pai, não foi?
Não tenho como negar tal fato. Ela escutou meus gritos, meus delírios,
não posso simplesmente negar que nada aconteceu.
— Foi, eu sempre sonho com a morte do meu pai, desde quando eu tinha
dez anos. — Finjo calma, sento-me sobre os meus joelhos e fixo os meus
olhos em seu rosto. Ela me observa atentamente, espera a minha explanação.
— Quando eu tinha dez anos, meu pai sofreu um acidente terrível de
automóvel, e foi esse acidente que o tirou de mim. Pelo que eu sei, ele
morreu carbonizado, não é uma lembrança muito boa para uma criança, por
isso, desde então, eu tenho pesadelos terríveis. É por isso que não durmo
acompanhado, quando isso acontece eu fico muito agressivo, posso machucar
a pessoa que estiver ao meu lado.
— Você já machucou alguém? — ela pergunta delicadamente.
— Sim, foi há muito tempo, quebrei o braço da pessoa. Agora você
entende por que não posso dormir ao seu lado?
Lilly passa a mão suavemente em meu rosto, depois fica de joelhos na
cama, inclina o rosto em direção ao meu e me beija demoradamente. Foi o
beijo mais prazeroso que já provei desde que ficamos juntos. Ela se afasta e
eu sinto a falta da sua boca.
— Raphael Salles, o senhor nunca mais dormirá sozinho. Eu serei a sua
paz de hoje em diante, prometo que nenhum pesadelo irá perturbar o seu
sono. Venha, deite-se ao meu lado.
Sua mão toca a minha e sou puxado para o colchão macio.
— Lilly, não posso, eu nunca me perdoaria se a machucasse.
— Shhh. Só me abrace e sinta o meu coração bater em sua mão.
Fica de costas para o meu peito, enquanto meus braços cercam o seu
corpo, abraçando-a com carinho, minha mão se abre na altura do seu coração.
Então eu sinto os seus batimentos, e é assim que adormeço, sentindo as
batidas constantes, o cheiro dos seus cabelos e a maciez da sua pele.
31
RAPHAEL

Quinze dias se passaram. Estou aguardando a visita da


ginecologista com grande ansiedade, hoje espero que a Lilly tenha alta no que
diz respeito ao sexo. Estou passando o inferno sem poder tocá-la, e o pior é
que a peste da mulher não me dá refresco. Ela adora me provocar, sabe que
não consigo vê-la nua, e desde que a sua menstruação foi embora ela veste
umas camisolas curtinhas e sem calcinha. Dormimos sempre de conchinha e
minha enorme ereção sempre encontra o caminho entre suas coxas. Ela,
sabendo o que está acontecendo, finge estar dormindo e começa a mover os
quadris, num vai e vem lento.
Outra noite eu quase gozo em sua bunda. Foi deprimente.
Estamos nos entendendo na medida do possível. Nossa relação
melhorou consideravelmente, está mais serena e posso até afirmar que eu
estou mais amoroso. Ainda me sinto estranho em admitir que a amo. Ela não
sabe, mas eu sei, e é isso que me incomoda, pois não sei como administrar o
fato de estar amando a filha do assassino do meu pai. Isso me incomoda
bastante, às vezes me pego encarando-a, sem que ela perceba. Fico a pensar
se por acaso resolver permanecer casado, se realmente assumir este amor que
está tornando tão difícil o meu plano de vingança, como será a minha relação
com o seu pai. Sinceramente eu não sei e nem quero pensar nisso por
enquanto.
— Senhor Raphael, a doutora Lethe acabou de chegar. — Mila entra em
meu gabinete. Respiro aliviado, pois se tudo sair como imagino, hoje minha
linda Lótus terá uma surpresa.
— Obrigado, Mila. Leve-a para o quarto da Lilly, já estou indo —
respondo.
Não quero parecer ansioso, portanto, demoro cerca de uns dez minutos
contados no meu relógio de pulso. Então levanto-me da minha cadeira e saio
às pressas, a caminho do quarto da Lilly.
Sou impedido de entrar no quarto. Fico na porta feito um Lenhador
faminto, louco para invadi-lo e pegar a minha Chapeuzinho, jogá-la debaixo
do meu corpo e fazê-la minha outra vez.
Quinze dias sem fazer amor, ninguém merece isso.
Meia hora depois, a porta é aberta. Entro sem ao menos esperar que me
mandem. Acho que está escrito em minha testa:
Marido louco para foder a esposa desesperadamente.
— Por que está me olhando assim? — pergunto, embaraçado.
— Desmanche as rugas, forasteiro. Estou bem e de alta médica. — Lilly
ajeita-se confortavelmente na cama enquanto eu paro diante dela.
— A Lilly está bem, senhor Raphael, mas com algumas ressalvas. —
Estreito os olhos e encaro a médica. — Ainda requer cuidados, nada de
exageros. Portanto, é bom irem devagar, entenderam?
— Entendi perfeitamente, Lethe — Digo aliviado. — Ela deve continuar
com a medicação?
— Não, só com a medicação para regular a menstruação.
— Ela está tomando anticoncepcional? — Encaro a Lilly, desconfiado.
— Não. — Lilly percebe a minha preocupação, respondendo
imediatamente à pergunta. — É só para regular minha ovulação, não é,
doutora Lethe?
— É sim. Não se preocupe, Raphael, na minha opinião médica vocês
deveriam esperar um pouco mais para uma próxima gestação, mas como os
dois querem logo um filho, só posso acompanhar a Lilly mês a mês.
Meus olhos seguem direto para o rosto de Lilly. Ela está sorridente, com
um brilho nos olhos claros. Só de imaginar que a terei em meus braços hoje à
noite estremeço da cabeça aos pés.
— Sim, nós queremos um filho o quanto antes — digo, percorrendo os
olhos pelo seu corpo.
— Então, boa sorte para os dois, fico torcendo para que tudo dê certo.
Minha visita acabou, se precisarem de mim é só me ligar.
Num impulso, Lilly se põe de pé.
— Por que você não acompanha a doutora Lethe até a sala, Raphael?
Depois me traga um pouco de água, estou com sede.
Meus olhos ficam como que hipnotizados ao encontrar os dela. Ela tenta
desviá-los, mas mantenho o meu olhar preso. O brilho do seu olhar é algo
magnífico, logo me sinto excitado e começo a imaginar coisas. Coisas que eu
quero fazer, logo, logo com ela.
— Até mais, Lilly. E se cuide, vá com calma. — Lethe comenta,
tentando disfarçar o que realmente quer dizer com aquele conselho.
— Irei, sim, Lethe. E obrigada — responde, encabulada.
Acompanho Lethe até a sala, logo depois sirvo a água que Lilly me
pediu no copo e o levo para o quarto.
— Aqui está a sua água... — entro no quarto e sou surpreendido. — O
que pensa que está fazendo, Lilly?
— Não esperarei até à noite, forasteiro. Quero você agora e já. — Ela
está completamente nua na minha frente. — Então, ficará aí me olhando ou
virá pegar o que é seu?
Bato com força a porta atrás de mim, deixo o copo de qualquer jeito no
console e vou ao seu encontro. Levanto-a em meus braços e a deito na cama.
Minha boca encontra a sua, louca, sedenta, lasciva. Beijo-a com fúria, meus
lábios só se separam dos dela para escorregarem pelo seu corpo. Beijo sua
barriga, seu umbigo, mordo seu monte de Vênus, escorrego minha língua
entre suas coxas, provando o seu gosto. Novamente minha boca faz o mesmo
caminho acima até encontrar os seus seios.
— Tudo isso aqui me pertence. Tudo, linda Lótus. — Rosno contra a
sua pele, fazendo-a ansiar por mais de mim, por mais da minha boca. Deslizo
meus dedos em seus mamilos, torcendo os bicos retesados.
— Quero você, forasteiro. Quero-o todo dentro de mim, quero senti-lo
forte, poderoso, como sempre o vi... — Neste instante me perco em sua boca,
em seu corpo.
Enquanto a beijo, meus dedos escorregam entre suas dobras. Fito-a com
fome e, sorrindo, corro os lábios para baixo até os seus seios, arrastando a
língua de um seio para o outro, mamando-os, mordendo-os. Estou
necessitado do seu corpo, então faço o caminho outra vez com minha língua
até meu rosto ficar entre suas coxas. Fodo-a duramente com a língua com
movimentos rápidos e duros. Chupo seu clítoris com força até que o seu
corpo se contorce de prazer e os seus gemidos enchem o quarto com o seu
som orgástico. Ela é puro êxtase, ela é minha perdição.
— Linda Lótus, eu a quero tanto. Desejo-a tanto, que às vezes me
esqueço de quem sou... — Seu corpo ainda se convulsiona quando o cubro
com o meu.
Afasto suas pernas com os meus joelhos e o meu pênis encontra a sua
entrada. Penetro-a lentamente, sentindo tudo dentro dela, sentindo o aperto
das suas paredes íntimas em volta do meu pau. Sentindo a contração do seu
desejo por mim. Não tenho pressa, o vai e vem é lento e em nenhum
momento deixamos de nos olhar. Acho que os nossos olhos conversavam
entre si, eles confessam o que estamos sentindo um pelo outro neste
momento.
— Eu o amo, Raphael. — Minha vontade é dizer o mesmo, mas ainda
estou preso à promessa que fiz ao meu pai de vingar a sua morte, então eu a
beijo ternamente.
E enquanto o meu beijo possessivo diz o que o meu coração sente,
aumento as investidas, empurro com força, empurro todo o meu amor em seu
corpo. Meu corpo se enche de puro êxtase e o dela estremece ao toque das
minhas mãos. Toco em tudo nela, desde os seus seios, rosto, pescoço,
quadris, até as suas coxas.
— Eu o amo... amo muito... — sussurra em minha boca.
Penetro-a com mais força, uma vez, outra e outra. Duro, firme.
— Olhe para mim, linda Lótus. — Ela abre os olhos. — Minha, você é
minha, Lilly.
Ela sorri um riso misturado ao prazer, pois nesse momento arqueia o
corpo com força e solta um grito de êxtase. Eu enterro o meu rosto em seu
pescoço e enquanto jorro meu prazer dentro do seu corpo mordo lentamente a
carne sensível... — Minha — murmuro ao seu ouvido, logo depois chupo o
lóbulo da sua orelha.
Extasiados e completos, assim ficamos. Ela envolvida em meus braços e
eu completamente dentro dela.
Minutos depois, estamos feito dois adolescentes, nos amando na
banheira, derramando água por todo o banheiro e soltando gemidos e
grunhidos de prazer.
— Com fome? — Pergunto, enquanto a ajudo a se vestir.
— Sim, muita. — Seus olhos se detêm em mim.
— O que foi? — Pergunto, sério.
— Amo você. Amo tanto.
Suas palavras são como flechas em meu coração. Como eu gostaria de
abraçá-la, olhar em seus olhos e dizer o mesmo, mas não posso. Como
também não posso permitir que ela continue se iludindo.
— Lilly, não confunda os sentimentos. Eu gosto muito de estar com
você, mas não a amo e nunca a amarei. Não é você, sou eu, eu não nasci para
amar mulher alguma. Vamos curtir esses meses sem promessas, sem
confissões. Eu a desejo muito, amo fazer sexo com você, mas é só isso, entre
nós dois não há futuro.
Seu olhar lindo se entristece e se enevoa. Odeio-me por isso, pois sou o
culpado, eu acabo de feri-la.
— Ei, não fica assim, estamos juntos e só não quero que se iluda. Não
quero magoá-la, só isso.
— Mas magoou... — limpo a lágrima que desce por sua face. — No
entanto, eu não perco a esperança, ainda farei você me amar.
Meu olhar distante percorre o seu rosto.
Se ela soubesse que eu já amo. Eu a amei no dia em que a vi no lodo de
lótus no castelo. Fui rendido por sua rara beleza.
32
RAPHAEL

Peço para Mila servir o café da manhã no jardim, próximo à piscina.


— Nem pense nisso, Lilly — digo. Eu a conheço o suficiente para ler
aquele olhar moleque que ela dirige à piscina.
— Eu não disse nada. Deu agora para ler os meus pensamentos, senhor
Raphael Salles? — Joga os cabelos para trás enquanto me lança um olhar
misterioso.
— Nem precisa. — Coloco os cotovelos nos braços da cadeira, entrelaço
os dedos, descansando o queixo nas costas das mãos e a encaro. — A água da
piscina é muito gelada e não é usada há bastante tempo, portanto, pode
afastar qualquer ideia de se jogar nela.
— Não tenho medo de água gelada, devia saber disso...
— Eu sei, e é por isso que já estou reiterando que não é não...
— Senhor Raphael... — Mila nos interrompe. — O senhor tem visita.
Estico o pescoço para ver quem se aproxima e não gosto nada de quem
eu vejo vindo em nossa direção com um sorriso largo estampado no rosto.
— Era só o que me faltava. — Levanto-me, Lilly também se levanta e o
seu olhar curioso fita a figura altiva que se aproxima.
— Quer dizer que se não me dissessem que o meu único primo voltou a
Ålesund, eu não saberia nunca? — Ele me puxa para um abraço e o
cumprimento com frieza. — Poxa, Raphael, sua briga é com o meu pai, não
comigo. Como você está? — Enquanto bate levemente em minhas costas,
olha longamente para a Lilly.
— E quem é você, linda senhorita? — Sorri com um ar conquistador.
— Eu sou...
— Lilly, uma amiga do Brasil — interpelo-a rapidamente, antes que ela
se apresente como minha esposa. — Ela está passando alguns dias em minha
casa.
Completamente perplexa, ela fixa os olhos em meu rosto, boquiaberta,
como se não acreditasse no que acabara de escutar.
— Nossa, eu já sabia que as mulheres brasileiras eram lindas, porém
linda não é bem o termo certo, são belíssimas! — exclama com uma expres-
são de admiração nos olhos.
— Lilly, não é isso? — Pergunta para ela e Lilly assente. — Seu nome é
tão lindo quanto você — ele continua.
— O que quer, Magnor? Eu sei que não veio me visitar — pergunto com
frieza.
— Vim vê-lo, faz tempo que não nos falamos. Se não me falha a
memória, a última vez que nos vimos foi em um evento social da sua
empresa, acho que há seis meses — responde ele, sem rodeios.
— Já me viu, já conheceu a minha convidada e agora pode ir embora —
Não quero nenhuma proximidade com meu primo, quando éramos crianças
costumávamos brincar juntos, posso dizer que fomos amigos. No entanto,
depois de tudo o que me aconteceu, eu percebi que estava cercado de pessoas
falsas e interesseiras. Quero-as bem longe de mim.
— Raphael, não seja hostil, é o seu primo — A Lilly não é boba, ela já
percebeu que estou louco para me livrar do Magnor, e a conhecendo tão bem
como a conheço, ela vai fazer de tudo para me provocar. — Sente-se,
Magnor. Quer café?
— Agora chega! — Vocifero e Magnor se assusta com o tom da minha
voz. — Não se meta, Lilly, isso aqui é assunto de família, não seu.
— Ei, vá com calma, primo, ela só está tentando apaziguar as coisas...
— Ele se aproxima da Lilly e toca seu braço. — Obrigado, Lilly, já conheço
o meu primo o suficiente para saber que ele não é muito amigável...
— Ele é um grosso, isso sim. Isso não são modos de tratar uma visita.
Acho que ele está tão acostumado a viver longe da sociedade que se esqueceu
de como é ser educado com as pessoas.
— Já disse para não se meter, Lilly. O Magnor não quer café, ele já me
viu, já a viu e agora irá embora.
— Não, ele irá tomar café conosco. — Eu sabia que ela usaria a minha
idiotice em tê-la apresentado como amiga contra mim. — Sente-se e nos
acompanhe com uma xícara de café.
Magnor só nos observa, com certeza ele já percebeu o meu interesse por
Lilly e o dela por mim. Eu preciso ser cuidadoso, então desfaço a carranca e
me junto aos dois.
— Então, Magnor, já que conseguiu o que queria, diga-me o que
realmente veio fazer em minha casa. — Não sou idiota, alguma coisa o
Magnor quer.
— Raphael, o que aconteceu entre o meu pai e você é assunto de vocês
dois, não tenho nada a ver com isso. Aliás, os meus negócios são
completamente diferentes, sou independente e você sabe disso. Então não
vejo por que precisa ficar na defensiva, não vim lhe extorquir dinheiro, se é
isso que está pensando, só vim lhe fazer uma visita.
— Não tenho por que acreditar na sua conversa mole, conheço a sua...
— Vamos parar. — Sou interrompido pela minha esposa arrogante. —
O Magnor já disse que só veio visitá-lo. — Olha para o meu primo sorrindo.
Meu sangue me fura a pele de tanta raiva. — Você já foi ao Brasil? —
Pergunta, e Magnor olha para ela. Conheço aquele olhar brilhante, é o mesmo
que o meu quando a fito.
— Algumas vezes, quando era criança. A mãe do Raphael tem família
em Angra dos reis, conhece Angra?
— Não, ainda não tive o prazer de visitá-la.
— A Lilly mora em outra capital... — Respondo por ela e assim que os
nossos olhos se cruzam ela baixa os cílios.
— Há quanto tempo está em Ålesund? — Não estou gostando do jeito
como ele a olha.
— Há alguns dias, como eu disse, ela veio para descansar... —
Respondo por ela novamente. — Acho melhor entrarmos, Lilly. Acho que
deve se deitar um pouco.
— Já estou de alta médica, deixe de se preocupar à toa. Não queira
bancar meu pai, tampouco um marido cuidadoso. — Lança-me um olhar
fuzilante. Ela quer brincar com fogo.
— Já conhece Ålesund? — Ele pergunta.
Levanto-me, os dois me olham.
— Não, o Raphael nunca tem tempo de me mostrar a cidade, está
sempre trabalhando.
— Que não seja por falta de companhia. Eu posso perfeitamente bancar
o cicerone, será um prazer acompanhá-la.
— Vou adorar. — Antes mesmo que eu consiga abrir a boca para
agradecer à gentileza do Magnor, ela responde rapidamente: — Quando
podemos começar?
— Agora mesmo, se quiser. Posso levá-la ao porto e depois podemos
almoçar por lá mesmo, conheço restaurantes ótimos.
— Eu agradeço, Magnor, mas a Lilly precisa repousar...
— Não responda por mim, Raphael. Já disse, você não é meu marido, é
apenas meu amigo. Na verdade, estou ótima, sinto-me muito bem e adorarei
passear com o Magnor. — Ela se levanta e me fita desafiadoramente. — Só
um minuto, Magnor, vou pegar um agasalho e a minha bolsa.
Passa por mim, sem ao menos me olhar. Sinto uma raiva crescer dentro
de mim. Minha vontade é ir atrás dela e proibi-la de sair com o Magnor,
colocá-la em seu lugar, exigir que me respeite, afinal somos casados, ela é a
minha esposa. Mas engulo a minha raiva. Eu sou o culpado, fui eu quem
provocou tudo isso, não tinha nada que tê-la apresentado como amiga.
— Se você tocar nela, eu juro que corto a sua mão... — Aproximo-me
do Magnor, estou a ponto de lhe enfiar a mão na cara. — Se encostar outra
coisa nela, eu lhe capo. Não estou brincando, falo sério. Lilly é minha
responsabilidade, e enquanto estiver em minha casa a sua segurança está em
minhas mãos, entendeu?
Não sou suave no tom da minha voz, estou o ameaçando de verdade e
ele sabe disso.
— Se acalme, Raphael, não farei nada que a Lilly não permita. Ela é
maior de idade, portanto, estou à mercê dela, só farei o que ela quiser.
Já estou me preparando para segurá-lo pelo colarinho da camisa e acabar
com aquele sorriso cínico do seu rosto, quando escuto a voz da Lilly.
— Pronto, já podemos ir, Magnor. — Seu olhar cruza com o meu
rapidamente.
Ela aceita o braço do Magnor.
— Bom trabalho, Raphael. Até mais. — Dito isso, os dois me dão as
costas e saem rindo e conversando, como se já se conhecessem há muito
tempo.
Por um momento, penso em ir atrás dela, mas não faço nada. Fico
parado, vendo-os desparecer, tendo como companhia a minha raiva e o meu
desespero.
33
RAPHAEL

Entro em casa soltando fogo pelos os olhos. Escancaro a porta do


meu escritório. Chuto longe o que encontro pela frente. Praguejo alto,
derrubo todas as coisas que estão em cima da mesa.
— Vou esganá-la, eu juro que vou...
— Santo Deus! O que está acontecendo aqui, filho?
Alfredo entra em meu escritório, olhando preocupado para a bagunça
que acabo de fazer: papéis espalhados por todo chão, cadeiras caídas.
— A Lilly, aquela filha da mãe, quer me enlouquecer. Ela quer testar a
minha paciência. — Passo a mão nervosamente pelos cabelos, começo a
andar de um lado para outro e chuto uma cadeira que fica em meu caminho.
— Ela acaba de sair com o Magnor, acredita nisso? Aquela fedelha ousou me
desafiar...
— E você permitiu isso? O Magnor ousou convidar sua esposa para
sair? Não acredito, ele não faria isso.
— Ele não sabe que a Lilly é minha esposa, eu a apresentei como uma
amiga.
— O quê! — exclama e olha para mim com censura — Agora está
explicado o porquê de a Lilly ter aceitado o convite. Ela vai castigá-lo o
quanto puder.
— Concordo, concordo... — murmuro, passando nervosamente as mãos
por meus cabelos em desalinho. — Imagino que ela deva estar furiosa
comigo. Não é para menos, eu fui um idiota.
— Você não foi, você é... — Completa Alfredo. — Onde já se viu dizer
algo tão descabido assim para sua mulher? Onde você estava com a cabeça, o
que estava pensando? Você já imaginou se o Magnor tentar conquistá-la?
Será? A simples menção da possibilidade me faz estremecer.
— Ele não faria isso... — Será que não? — A Lilly não permitiria. Ela
pode estar fula comigo, mas não aceitaria ser seduzida por ele. — Ela não
faria isso, eu sei que não.
Coço a cabeça, como se procurasse uma saída.
— Gostaria de poder dizer que ele não vai tentar, mas conhecendo o seu
primo Magnor como conheço, não acredito em milagres. — Confessa
Alfredo. Encaro os fatos, ele tem razão, a Lilly é uma mulher linda e para o
Magnor ela está disponível.
— Mas que merda! Quer saber, acho melhor eu me enterrar no trabalho,
assim eu paro de pensar naquela fedelha.
— Se você acha que fugir do problema é a solução, vá em frente. Eu, em
seu lugar, iria atrás dela, falaria a verdade para o Magnor e a traria de volta.
— Só que eu não sou você — interrompo-o. — Talvez seja até melhor
isso acontecer, assim a Lilly me esquece e para de pensar que um dia fará eu
me apaixonar por ela. Será mais fácil dizer adeus.
— Raphael, a quem quer enganar? Você já está apaixonado por ela, por
que não se rende e esquece essa vingança estúpida?
— Estúpida? Vingança estúpida? Será que já se esqueceu do cheiro da
carne queimada do meu pai? Do pavor dos meus olhos quando você mesmo
me resgatou do topo daquelas árvores? O pai dela matou o meu, nunca me
esquecerei disso. Não existe nenhuma possibilidade de união entre nós dois,
mesmo que eu quisesse, não tem como eu esquecer do fogo comendo o meu
pai vivo.
— Eu sei... como também sei que o seu pai não iria querer que você
sacrificasse sua felicidade em prol de uma vingança. Nada do que fizer o trará
de volta, ele está morto e você está vivo, lembre-se disso.
— Lembro disso todos os dias, e se eu pudesse escolher, teria morrido
junto com ele... Vou trabalhar. Tenha um bom dia Alfredo.
Saio cabisbaixo. Todas as lembranças daquele fatídico dia voltam com
toda força. Todo o desespero sentido por mim atordoa a minha mente, meus
olhos ardidos pelas lágrimas, minha garganta ardendo e a minha dor por não
poder ajudar o homem que mais me amou na vida... meu querido pai, meu
amigo.
Não, não, eu não posso esquecer a promessa que eu fiz de vingá-lo,
mesmo que custe perder a única mulher que amo na vida.

Duas horas depois que chego à empresa, peço à minha secretária para
ligar para o Magnor. Segundos depois, peço que ela esqueça. Não quero que
o Magnor desconfie que existe algo entre mim e a Lilly, mesmo querendo
saber onde os dois estão.
Chego em casa um pouco depois das vinte horas, e a Lilly ainda não
havia chegado. Isso fez com que o meu humor fique muito mais tenebroso.
Não quis jantar, tranquei-me em meu escritório e fiquei de olho no portão de
entrada da mansão e no relógio em meu pulso. À meia-noite, desisto de
esperá-la e subo para o seu quarto, quero surpreendê-la assim que ela entrar.
Apago as luzes e me sento na poltrona de frente à cama. Estou quase
adormecendo, quando escuto o barulho de um motor de carro. Olho para o
relógio: uma hora e dez minutos... Você me paga, Lilly. Fico em silêncio,
quase não respiro. Ela entra, acende o abajur e segue direto para o banheiro.
— Onde você estava? — murmuro entredentes, contendo minha vontade
de segurá-la com força e exigir explicações.
— Ai, que susto, Raphael! — Ela leva a mão ao coração enquanto puxa
o ar para os pulmões.
— Responda a minha pergunta. Onde estava? — Levanto-me e o clima
fica tenso. — Sabe que horas são?
— Sei — responde indiferente. Começa a soltar os cabelos que estão
presos no alto da cabeça, retira os brincos e os coloca na mesinha próximo à
porta do banheiro.
— Lilly, não teste a minha paciência. Onde você estava? — Em dois
passos estou bem perto dela.
— Não lhe devo explicações, que eu saiba somos apenas amigos. Não
foi isso que disse a seu primo? Então posso fazer o que eu quiser.
— Sua fedelha. — Seguro-a pelos punhos e a puxo para perto do meu
corpo. Forço-a a me encarar e ela fixa os olhos nos meus. — Você é a minha
esposa e me deve explicações, sim, senhora.
— Sério? Não foi o que disse ao Magnor, e pelo que andei sabendo,
ninguém tem conhecimento do nosso casamento. O poderoso, implacável,
audacioso e destemido Raphael Salles é solteiro, então eu também sou.
Ela não desvia os olhos dos meus, me encara com empáfia.
— Não me provoque, Lilly. Não devo satisfação da minha vida a
ninguém, você é a minha esposa e ponto final. — Agito o seu corpo enquanto
afirmo com arrogância.
— Sim, eu sou sua esposa na cama, e só. Eu sou uma dívida de jogo, eu
sou uma barriga de aluguel. As minhas obrigações com você são na cama,
portanto, o que acontecer fora dela não lhe diz respeito, já que ninguém sabe
que é casado.
Ela me empurra, mas eu a puxo com força. Prendo-a com força contra o
meu corpo, fitando-a desafiadoramente.
— Fedelha insolente, você não me conhece, não sabe do que sou capaz.
Não tente rir da minha cara, você não gostará do que virá depois...
— Fará o quê? Desistirá do nosso contrato e vai me devolver para o meu
pai? Será que tem a coragem de perder tanto dinheiro?
Ela tenta se livrar do meu aperto.
— Não, não a devolverei para o seu pai, mas posso exigir o que é meu, e
você é minha. Enquanto estivermos casados você me pertence.
— Só pertenço a você na cama, fora dela eu posso fazer o que eu quiser.
— Insolente. O que você andou fazendo esse tempo todo com o Magnor,
para voltar assim tão dona de si, hein? Diga-me, ele a tocou?
Esbravejo, minha voz arrogante espalha-se por todo quarto.
— E se tocou, o que você tem a ver com isso? Não preciso da sua
permissão para que um homem me toque, me beije ou faça qualquer outra
coisa. — Retruca com ironia, em seguida explode sua raiva. — Eu e você
somos apenas amigos, lembra-se?
— Então ele a tocou, não foi? — Ela quer jogar, então vamos jogar.
— Sim, tocou... — Provoca-me.
— A beijou? — Inquiro, olhando-a intensamente e apertando-a ainda
mais ao meu corpo.
— Sim...
Antes que ela sequer pense em resistir, minha boca cola na sua com um
beijo ardente, possesivo. Enquanto a beijo com paixão, sinto o seu coração
descompassado batendo de encontro ao meu corpo. Sua pele se arrepia ao
entrar em contado com meus dedos acariciando-a com posse, desejo. Minhas
mãos dominam seu corpo, percorrem seus braços, suas costas e mergulham
em seus cabelos.
— Ele a beijou assim?
— Não...
— A acariciou assim? — Minha mão se fecha em seu seio, acaricio o
mamilo ereto com o dedo por cima do tecido da blusa de seda.
— Não... — ofega.
— Ele fez o seu corpo inteiro se arrepiar assim... — Deslizo os dedos
por seus pelo eriçados.
— Não... Deus, não... — Tonta de desejo, ela me abraça com força.
Roça o corpo ao meu, respondendo a cada toque.
Entrelaço os dedos nos fios dos seus cabelos e os puxo, fazendo com
que a sua cabeça se incline para trás. Seus olhos brilhantes de desejo me
encaram.
— Você é minha e essa boceta é minha. — Encho a mão com sua
vagina, aperto-a. — Nenhum outro homem vai tocá-la como eu toco, fodê-la
como eu fodo ou vai desejá-la como eu desejo... Minha, só minha.
Solto-a. E me afasto, dando-lhe as costas.
— Aonde vai? — pergunta, com a voz atordoada, ofegante.
— Dormir. Boa noite, Lilly, tenha bons sonhos comigo.
— Canalha, filho da mãe, ordinário! — esbraveja, jogando algo em
minha direção. Ela tem péssima pontaria, o objeto passa bem longe,
espatifando-se na parede.
Apresso-me, e antes que ela jogue outro objeto, eu saio do quarto,
fechando a porta atrás de mim.
34
RAPHAEL

Acordo cedo. Após o banho, enrolo a toalha na cintura e sigo em


direção ao quarto de Lilly. Abro a porta lentamente e ela já está acordada, na
certa nem dormiu direito depois da noite de ontem. Nem eu consegui dormir,
passei a maior parte da madrugada de pau duro, pensando no corpo quente e
febril da minha linda Lótus.
Ela está de costas para mim, diante da janela, pensativa. Caminho até ela
como se estivesse pisando em ovos, e antes que ela perceba, viro-a de frente
para mim e roubo a sua boca. Beijo-a como se sua boca fosse o fruto mais
saboroso que Deus já colocou no mundo. Ela não resiste, entrega a sua língua
para que possa saboreá-la.
Durante alguns minutos ficamos entregue ao beijo carregado de paixão,
de desejo, fechados em nosso universo de amor. Ela ofegante, eu também.
Ainda abalado pelo calor do momento, afasto-me e a fito apaixonadamente.
São em momentos como esse que não posso negar o que sinto por ela. Não
tenho como fugir do fogo que me consome, não consigo fingir nem negar o
amor que eu sinto. Fazer isso seria como negar a mim mesmo.
Meu olhar se fixa em seu rosto lindo com lábios entreabertos,
expressando o seu desejo por mim.
Em seguida, pegando-a de surpresa, tomo-a em meus braços e saio em
direção à cama.
— Ponha-me no chão! — Ela protesta, esperneando. Seus apelos de
nada adiantam, pois a jogo na cama, rapidamente. Muito próximos um do
outro, posso sentir sua respiração sôfrega. Durante um longo tempo ficamos
nos olhando nos olhos. Depois, num gesto delicado, toco-lhe os lábios
trêmulos. É um beijo suave e ao mesmo tempo exigente, obrigando-a a se
entregar ao fogo da paixão.
Dispo-a lentamente. Em seguida livro-me da minha toalha enquanto a
beijo nos lábios, olhos, face, seios, fazendo-a gemer de prazer e ansiedade.
Busco com a boca os bicos dos seus seios. Mordisco-os, sugo-os, beijo-os
carinhosamente até deixá-la tonta de prazer e excitação.
Lilly ainda tenta resistir no último instante, mas o seu desejo é mais
forte do que a sua razão. Soltando um grito de prazer, ela se entrega por
inteiro.
— Você é minha, Lótus... — murmuro, enfiando a ponta da língua no
ouvido dela. — Você me deixa louco. Louco de desejo, louco de tudo. Perco
completamente a noção de quem sou.
— E eu devia ter um pouco mais de dignidade — recrimina-se, gemendo
de amor.
— Sou sua erva daninha, linda Lótus. Mesmo que saiba que posso matá-
la, você me quer. E você é o meu veneno afrodisíaco. Eu sei que você pode
ser a minha desgraça, mas, mesmo assim, preciso, necessito prová-la.
A beijo novamente, mas desta vez sou mais ousado, deslizo uma mão
entre suas coxas e aperto sua boceta encharcada. Ela ofega em minha boca.
— Eu sou muito possessivo com o que é meu, linda Lótus.
Não economizo na força do beijo. Sou áspero, cruel, ainda sinto o ciúme
me comendo por dentro. Quero tirar qualquer vestígio que o Magnor possa
ter deixado em seu pensamento.
— Diga que é minha, diga! — exijo.
— Raphael... — Geme em minha boca.
— Diga! — Aperto sua boceta com mais força.
— Sim, eu sou sua! — Ela grita debaixo de mim.
Solto sua boceta e afasto suas pernas. Seguro meu pênis com uma mão e
o coloco em sua entrada molhada de tesão.
— Minha — repito com toda autoridade.
Ela fixa os olhos nos meus, e sem desviar o olhar, eu a penetro
lentamente, sentindo todo o calor que emana do seu sexo. Ela me toma todo e
eu a preencho completamente. Beijo-a sem desviar os meus olhos dos dela e
movo o corpo para trás. Segundos depois, para frente, deliciando-me em
nosso frenesi, nosso tesão. Intensifico os movimentos de vai e vem e ela
arqueia os quadris, ajudando-me a penetrá-la mais fundo.
— Mais forte... — Morde meu lábio e eu sinto o gosto do meu sangue.
Estoco com força. — Mais...
E o ritmo alucinado do nosso desejo faz com que o êxtase se complete.
Ela se agarra a mim com força e eu grunho o meu desespero em seu ouvido.
Encho-a com a minha semente e com o meu amor, mesmo ela não sabendo
disso.
Eu a amo. Amo... amo.

Sentados um próximo do outro, tomávamos o nosso café da manhã


silenciosamente. Ainda extasiados pelo nosso momento de amor, ela com os
seus pensamentos e eu com os meus.
— Lilly, não me espere para o almoço, hoje tenho duas reuniões com
alguns empresários estrangeiros e não faço ideia a que horas acabará.
Portanto, é melhor não me esperar. — Quebro o nosso silêncio.
— Sem problema algum, assim aproveito para ligar para o papai, estou
com saudades. Desde que cheguei, ainda não consegui falar com ele. Todas
as vezes que eu ligo a Nuza me diz que ele não está, tenho a impressão de
que ele não quer falar comigo.
E eu tenho a certeza.
— Bem, preciso ir, mais tarde ligo para saber se está tudo bem com
você.
Levanto-me, beijo o alto da sua cabeça, despeço-me da Mila e sigo com
o Alfredo para minha empresa.
Guiando o carro e me olhando de soslaio sempre que pode, tenho certeza
de que ele quer me perguntar algo, eu o conheço bem.
— Pergunte logo, Alfredo, antes que se afogue em sua curiosidade —
digo, sem olhar para ele.
— Está tudo bem entre você e a Lilly? — pergunta o Alfredo, olhando
para mim ligeiramente.
— Está, sim. Estamos aproveitando esse tempo que temos para ficar um
com o outro.
— Pediu desculpas pelo o que fez?
Viro o meu rosto em sua direção rapidamente.
— Claro que não, e nem pedirei. Já fiz e está feito, desculpas é para
tolos.
— Raphael, sua empáfia ainda vai fazê-lo perder o que lhe é mais caro...
— E o que me é mais caro, minha vida?
— Também, mas estou me referindo a ela.
— Não se perde o que nunca se teve. A Lilly nunca será minha, não tem
como ser.
— Engana-se, vocês nasceram um para o outro. A propósito, você já
avisou sobre o evento de amanhã à noite? Você a levará?
— Não, não avisei e ela não irá. Nem precisa saber que amanhã à noite
irei a um evento, nem perceberá.
— Mais uma vez você está trocando os pés pelas mãos...
Não respondo o seu comentário.
Amanhã à noite haverá um evento social muito importante, um jantar
dançante em comemoração ao fechamento de um grande contrato com uma
multinacional exportadora de frutos do mar. Já é um costume, toda vez que
fechamos um grande negócio oferecemos um jantar e abrimos as portas para
a imprensa registrar o fato. Nesses eventos costumo sempre estar
acompanhado de uma linda modelo, contratada justamente para isso. Não
posso levar a Lilly, pois não quero ver os olhos masculinos em sua direção.
Ela é linda demais para ficar às vistas dos tubarões empresariais.
Às três horas da tarde, termina a minha primeira reunião, fiquei quase
quatro horas fechado em uma sala. Antes de ir para a segunda reunião, ligo
para casa para saber se a Lilly está bem.
— Mila, está tudo bem?
— Está, senhor Raphael.
— Deixe-me falar com a Lilly.
— Ela não está, foi almoçar com o senhor Magnor e mandou avisá-lo
que não virá jantar.
— O quê?! — grito. Estou no celular e cercado de empresários
estrangeiros que ao escutarem o meu grito, me fitam, alarmados. — Essa
fedelha me paga. Ela verá quando eu chegar em casa. — Murmuro
entredentes.
Desligo o celular e não consigo prestar atenção em nada mais depois
dessa notícia. Meus pensamentos estão voltados para uma fedelha petulante e
ordinária.
35
LILLY

O dia amanheceu com um céu impecavelmente azul, sem uma nuvem


e o Sol brilhando em toda a plenitude. Mesmo fazendo frio, o dia está lindo e
fico com vontade de pedir para o Raphael me levar para passear, me mostrar
a sua empresa da qual tanto se orgulha. Até pensei que ele mesmo faria o
convite, após o nosso amor matinal. Seu olhar intenso, sua voz ao meu
ouvido exigindo que eu dissesse que sou dele, deixou-me pensar que lá no
fundo ele estava começando a me amar. Sempre penso nisso quando estamos
fazendo amor.
Raphael se transforma quando está em meus braços, às vezes penso até
que ele vai sorrir – ele nunca sorri – e quero imaginar que, antes do término
do nosso contrato, ele estará completamente apaixonado por mim. Que
chegue até a rasgar o bendito, pedindo-me para ficar para sempre ao seu lado.
No entanto, assim que sai de dentro do meu corpo, o Raphael frio e distante
volta ao comando, afastando-se completamente de mim. As muralhas voltam
a crescer, e o homem de feições sombrias toma as rédeas da situação. Mais
uma vez, ele deixa claro que não sou importante para ele, e isso me machuca.
Se ele soubesse o quanto sua frieza fere minha alma...
Apesar de toda a beleza da manhã, algo em mim está quebrado. Não sei
se foi a maneira como o Raphael me disse que não viria almoçar, ou sua falta
de sensibilidade em não perceber que eu queria passar o dia com ele. Assim
que ele saiu com o Alfredo, as lágrimas nublaram os meus olhos. Ele nem
percebeu minha decepção. Nem quis terminar o café, saiu da mesa sem
mesmo prestar atenção aos protestos da Mila. Passei o resto da manhã no
jardim de inverno, fingindo ler um livro.
— Bom dia, my lady!
Estou distraída olhando uma borboleta que voa sobre algumas flores
amarelas, nem notei o Magnor ao meu lado.
Há quanto tempo ele está aqui? Será que percebeu minha tristeza?
— Magnor. — Levanto-me para cumprimentá-lo e lhe dou um beijo do
lado do rosto. — Você não me disse que viria hoje.
— Pois é, princesa, decidi na última hora. Vim convidá-la para almoçar
e passarmos a tarde juntos. Quem sabe, talvez possa convencê-la a jantar
comigo, o que acha? Pronta para mais uma emocionante aventura ao lado
desse seu humilde servo, my lady?
Ele faz uma reverência enquanto seus lábios se esticam em um
magnífico sorriso. Tão diferente do primo que vive sempre muito sisudo.
Como dizer não para um homem tão gentil, que certamente largou tudo para
me fazer companhia? E nesse momento, o que eu menos quero é ficar
sozinha, pensando no Raphael e chorando.
— Só espere um momento, vou vestir um agasalho e pegar a minha
bolsa.
Saímos juntos do jardim de inverno. Magnor fica me esperando ao pé da
escada.
Ajeito os cabelos, visto o agasalho, pego minha bolsa e desço
rapidamente. Magnor, assim que me vê, sorri. Com os olhos brilhando,
oferece-me o braço, que aceito. Procuro a Mila.
Ela está no jardim externo, conversando com um dos empregados, e
quando nos vê enruga a testa, nos olhando com um olhar questionador.
— Mila, vou almoçar com o Magnor. Avise ao Raphael que não virei
jantar, caso ele realmente ligue para perguntar por mim. — Mila percebe a
tristeza da minha voz.
Ela nada diz, só assente com a cabeça e nos observa enquanto nos
distanciamos.
Fomos passear em um dos seus iates, foi uma manhã divertida. Magnor
é uma excelente companhia, ele é engraçado, cheio de vida, tem um olhar
sincero e é muito cavalheiro. Fomos almoçar em um restaurante mais
tranquilo do que o do dia anterior.
— Qual é o lance entre você e o Raphael? — Magnor deixa de lado os
talheres, apoia os cotovelos na mesa e descansa o queixo nas costas das mãos
enquanto aguarda a minha resposta.
Ainda estou apreciando o delicioso salmão defumado, quando sou
surpreendida pela pergunta.
— Como assim? Não há lance algum, o Raphael mesmo disse que
somos amigos, apenas amigos. O que o leva a crer que existe algo entre nós?
— pergunto, curiosa.
Por alguns segundos, um silêncio torturante reina entre nós dois. Ele
avalia o meu rosto meticulosamente, e eu começo a me incomodar com o seu
silêncio e com o seu olhar avaliador.
— O olhar que ele dirige a você. — Afasta-se da mesa, recostando-se na
cadeira, cruza os braços no peito e sorri levemente. — Sabe, houve um tempo
em que se especulava que o Raphael era gay, até que um dia ele calou a boca
dos repórteres dizendo que a sua vida particular só dizia respeito a ele, e se
ele gostava de homem, mulher ou dos dois ao mesmo tempo era assunto dele.
Desde então ninguém nunca mais tocou no assunto.
— E por que se especulava isso sobre ele? — Eu sei que o Raphael não
é e nem nunca foi gay, mas fico curiosa.
— Ele não se envolvia com nenhuma mulher a não ser com as
acompanhantes dos eventos sociais em que ele é obrigado a ir. O Raphael não
é muito sociável.
Eu sei disso...
— Sua vida amorosa é completamente secreta, até eu pensava na
hipótese de ele ser mesmo gay. Bem, até... — arqueia uma sobrancelha ao me
fitar seriamente. — Até ver o olhar dele para você. É um tipo de olhar
possessivo, e antes de você ele só era possessivo com as empresas dele.
Escondo a gargalhada com as mãos na boca. Não sei se ri alto de
nervoso ou por querer acreditar no que o Magnor está afirmando com tanta
propriedade.
Ao tentar esconder minha gargalhada, me engasgo e começo a tossir.
— Tome um pouco — diz ele, oferecendo-me um copo. — É suco de
abacaxi e hortelã.
Olho para a bebida e para ele. Magnor coloca o copo em minha mão e
repete, sorrindo.
— Vamos, tome um gole.
Bebo o suco de uma só vez e logo me sinto melhor.
— Obrigada — agradeço, limpando a boca com o guardanapo. —
Magnor, o Raphael deixou bem claro que somos apenas amigos, eu saberia se
ele estivesse interessado em mim, e acredite, ele não está.
— E você está? — interrompe-me.
— Mesmo que estivesse não teria chance alguma, o Raphael não tem
sentimentos por ninguém, ele é frio como o aço. Acho melhor mudarmos de
assunto. — A conversa já está me incomodando, não quero revelar o meu
amor pelo Raphael, o único que precisa saber é o próprio.
— Está bem. — Olha-me com aquele olhar avaliativo como se estivesse
lendo a minha alma. — O que você fará amanhã à noite?
— Nada, provavelmente jantarei sozinha e dormirei cedo.
— Tem certeza? — Franze a testa em dúvida ao perguntar, como se não
acreditasse na minha resposta.
— Tenho, por quê? — inquiro sorrindo.
— Quer ir a uma festa amanhã à noite? É um evento social muito
importante na região, todos os anos sempre chego sozinho e saio
acompanhado, e este ano gostaria de mudar isso. Então, aceita ser a minha
acompanhante?
Até que não seria uma má ideia. Com certeza o Raphael ficaria louco de
raiva se eu aceitasse ir a uma festa com o Magnor, é a minha oportunidade de
mostrar para ele que posso ser interessante para outros homens. No entanto, a
minha ideia morre no mesmo instante em que nasce, porque eu não tenho
roupa para tal evento. Desanimada, respondo:
— Mesmo que eu quisesse ir, não poderia.
— Por quê? Precisa da autorização do Raphael?
— Claro que não. Eu não tenho um vestido adequado, é isso.
Ele sinaliza para o garçom e pede a conta. Levanta-se e me ajuda a
levantar.
— Se esse é o problema, não é mais. Vamos às compras.
Ia argumentar, mas o garçom chega. Calo-me e espero o Magnor pagar a
conta.
— Pronta? Vamos nos divertir comprando vestido, sapatos e tudo o que
a senhorita precisar.
— Magnor, eu não posso... — tento dizer não, mas ele pega em minha
mão e me puxa entre as cadeiras e mesas do restaurante. — Magnor, espere...
— Não aceito não como resposta, Lilly. Faço questão de presenteá-la
com um lindo vestido e tudo o que for necessário. Por favor, só aceite e me
faça feliz.
— Magnor, não posso aceitar algo tão caro. Você mal me conhece e eu
não tenho nenhum... — meus lábios são silenciados por dois dedos.
— Shhh. Eu seria um idiota se dissesse que não tenho interesse em você,
desde que a vi me interessei, mas eu sei que não tenho chance, o seu coração
já tem dono. Porém, eu quero ser o seu amigo e quero sua companhia nesta
festa. Seremos dois amigos em uma festa muito chata, mas que pode ser
muito divertida. Vamos às compras, my lady.
Passamos o resto da tarde provando roupas. Ele aproveitou para comprar
o seu terno. Quanto a mim, ganhei um lindo vestido vermelho digno de uma
mulher que sabe o que quer, com todos os acessórios necessários.
Jantamos em um restaurante típico da região, depois fomos caminhar
pelos lugares pitorescos de Ålesund.
Já passava das dez da noite, quando Magnor me deixou em casa.
— Pego você às vinte horas amanhã. — Recebo um beijo no rosto. —
Acho que nem dormirei de tanta ansiedade.
— Será divertido. Até amanhã, Magnor. — Ele me espera entrar.
Fecho a porta e começo a subir as escadas lentamente.
36
RAPHAEL

Faz horas que estou sentado na penumbra do quarto, esperando-a.


Hoje ela saberá com quem realmente se casou e a quem pertence. Hoje
mostrarei para Lilly González que não se brinca com o Conde de Bergsen.
Ela quer brincar de Chapeuzinho Vermelho, então conhecerá o Lenhador.
Estou lutando contra os meus demônios todos os dias, lutando contra o
meu sentimento de vingança. O meu coração implora perdão, suplica por
amor, no entanto, a minha alma reclama a vingança, lembra-me o que
Rodrigo fez comigo e com o meu pai amado. Estou entre a cruz e a espada,
entre a redenção e o abismo. E quando estou à beira de sucumbir aos apelos
do amor que sinto por ela, sou traído descaradamente.
É melhor assim. Agora não preciso mais lutar, seguirei com os meus
planos e ela continuará sendo a minha arma de vingança.
Respiro fundo e espero. A porta do quarto se abre, ela entra, abre a porta
do closet e coloca algo dentro dele. Acende a luz, ainda não me vê, está de
costas para mim. Despe o casaco, retira os brincos, vira-se em minha direção.
— Ai, meu Deus! — assusta-se, leva a mão ao peito. — O que faz aqui,
Raphael?
— Boa noite! Divertiu-se bastante? — indago irônico. — Deduzo que a
companhia foi agradável, sei perfeitamente como o meu primo Magnor é
sedutor com as mulheres.
O silêncio carregado de tensão paira no quarto. Lilly fita-me com um
olhar desconfiado.
— Está insinuando que eu e o Magnor...
— Insinuando! — Corto-a, levanto-me rapidamente e em três passos
estou com as mãos em seus braços. — Insinuando não, afirmando. O Magnor
não se daria ao trabalho de vir vê-la se não houvesse algo entre vocês dois.
— Cale-se. — Ela se livra das minhas mãos e dá um passo para trás. —
Oh, Raphael, como ousa a pensar isso de mim... — ela começa, com a voz
condoída. — Eu jamais me envolveria com o Magnor, ele é apenas um
amigo. — Ela vem até mim, toca o meu braço.
— Claro que é um amigo! — contesto e afasto bruscamente a mão que
me toca. — Eu conheço o Magnor, ele não dá ponto sem nó. Pensa que eu
não percebi como ele olha para você? Ele a quer... a quer na cama dele, se é
que já não conseguiu isso. — Concluo descontrolado, indiferente ao seu olhar
dolorido por minhas palavras duras.
— Seu... seu idiota, seu estúpido. Como pode achar que eu seria capaz
de me envolver com o seu primo, sabendo que sou casada com você? Mas
não posso censurá-lo por se sentir assim, afinal, foi você mesmo que me pôs
nessa situação ao me apresentar como amiga — disse, desolada. — Mas...
mas...
— Mas o quê? — pergunto, impaciente. — Vamos, diga!
— Você bem que merece, pois não passo de uma barriga de aluguel,
você não se importa comigo. Pelo menos o Magnor me faz companhia, me
faz rir e é carinhoso, enquanto você é apenas um idiota. Eu não estaria
cometendo nenhum crime se me envolvesse com ele...
— Pois então, tente fazer isso, tente. — Digo com ironia e me aproximo
dela.
— E quem disse que já não tentei? Como você mesmo disse, eu e você
somos apenas amigos. — Seus olhos me encaram, há neles um brilho
provocativo. Ela mantém o olhar fixo ao meu.
Minha vontade é de colocá-la sobre os meus joelhos e lhe dar umas boas
palmadas.
— Linda Lótus, você realmente não tem noção de quem eu sou. Se
soubesse, não diria tantas bobagens! — esbravejo. — Sou o seu marido e
você é a única que precisa saber disso. Você me pertence, gostando disso ou
não, e você vai me respeitar. Não ouse permitir que outro homem a toque,
ou...
— Ou...? — Faz cara de incrédula. — Ou o quê?
Seguro-a pelos braços outra vez. Trago-a para bem próximo do meu
corpo.
— Juro que mato o desgraçado que a tocar. — Seu rosto muda de cor e
ela baixa os olhos, não consegue me encarar. Ela tenta se libertar do meu
aperto, mas eu a sacudo, segurando-a com mais força.
Seus dedos seguram o tecido da minha camisa. Ela ergue os olhos para o
meu rosto, abre a boca para falar, mas não encontra palavras, engolindo-as.
Aperto meus dedos em sua carne com mais força, ela consegue soltar um
braço e agarrar a minha mão, tentando me fazer soltá-la. Com os olhos
arregalados, ela me enfrenta; mesmo trêmula, ela não teme o meu olhar duro.
— Você não é tão mau assim. Não tente me assustar, Raphael, eu sei
que você jamais machucaria alguém.
Ela não tem noção do que eu sou capaz ou não, mas posso afirmar que
sou capaz de tudo, até de matar, se for o caso.
— Lilly, você não me conhece. Essas mãos que estão segurando o seu
braço com força poderiam quebrá-lo se eu quisesse. Dentro de mim não
existe remorso, tampouco piedade. Experimente me trair, que eu juro... —
fito-a com fúria enquanto a sacudo. — Juro, Lilly, que eu acabo com o
desgraçado só com um sopro.
Ela treme e percebe que não adianta argumentar com um homem
tomado de tanta raiva, e posso acrescentar, ciúmes. Sim, estou tomado pela
dor do ciúme, pelo desespero que ela possa me trocar por meu primo, que
possa se interessar por ele.
— Solte-me, Raphael. Você está louco, vá dormir — Ela fica de pé e
aproxima o rosto do meu, cheirando a minha boca. — Você bebeu? Por Deus,
Raphael, você está bêbado. Como não percebi isso?
— Sim, eu bebi. Mas não estou embriagado, só puto da vida porque a
minha esposa estava dando voltas pela cidade com outro homem a tiracolo.
Que isso não se repita mais, pois se houver uma outra vez, não responderei
por mim.
— Você não é meu dono, Raphael Salles, minha obrigação é lhe dar um
filho e o nosso compromisso acaba aí.
— Acho que precisarei fazer o teste de paternidade, caso isso aconteça.
Recebo um tapa no rosto. Foi forte o suficiente para sentir o gosto do
meu sangue na boca. Instintivamente, levo a mão para o alto na intenção de
revidar, mas freio o meu impulso. Ela está de olhos fechados, esperando o
revide.
Afasto-me, sigo para a porta. Deduzo que já é hora de ir embora, ou
faremos e diremos coisas que podem trazer trágicas consequências.
— Boa noite, Lilly.
Fecho a porta atrás de mim, mas não vou embora. Viro-me e encosto a
testa nela. Sou tomado por uma triste sensação de vazio reforçada pela
penumbra do corredor. Escuto seu choro, seus lamentos. Eu sou um idiota.
Eu a amo, quero-a tanto. Por que, então, tento magoá-la?
Como por quê? Ela é a filha do assassino do seu pai, se esqueceu?
Esqueceu do sofrimento dele? Esqueceu do seu sofrimento por se sentir
impotente? Esqueceu dos seus gritos agonizantes? Ela é uma González...
Não... não. Grito mentalmente, as lágrimas banham o meu rosto. Meu
corpo desce lentamente até o chão.
Lótus, Lótus... eu a amo.
Ama, mas não deve dar vazão a este sentimento. Você precisa esquecê-
la, precisa manter o foco na sua promessa. Ela é filha de um assassino.
Assassino...
Por quê? Por que, meu Deus!? Grito inconscientemente. Eu preciso
tanto dela, necessito dela, não posso perdê-la, não posso.
Não sei por quanto tempo fiquei sentado no chão, sentindo pena de mim
mesmo, lutando contra a minha vontade de entrar no quarto e abraçá-la.
Minha necessidade de ficar com ela vence a vontade de tangê-la para
longe. Então, levanto-me, abro a porta do quarto e entro. Lilly dorme
tranquilamente. Aproximo-me lentamente da cama, deito-me ao seu lado.
Desejo ardentemente tocar nela, sentir o seu corpo junto ao meu, receber o
calor dos seus abraços e a doçura dos seus beijos. Mas ainda trago em mim o
medo de me entregar. O desejo de vingança ainda é gritante, então fico
quieto, admirando o seu rosto lindo tão próximo ao meu.
As lágrimas insistentes ainda escorrem pelos meus olhos, molhando
todo travesseiro. Lágrimas de pesar e agonia. Adormeço entre as lágrimas e a
vontade de abraçá-la. Acordo com o cheiro dela bem próximo, ela está com o
braço sobre o meu peito, a perna por cima das minhas e dorme
profundamente. Aliso o seu lindo rosto com meus dedos e digo baixinho —
Amo você, amo muito.
Levanto-me com cuidado para não fazer movimentos bruscos. Cubro-a,
inclino-me sobre o seu corpo e beijo seus lábios levemente. Saio do quarto do
mesmo jeito que entrei, como um ladrão sorrateiro. Fecho a porta e sigo para
o meu quarto, só tenho mais alguns minutos de sono.
37
RAPHAEL

Desperto com uma estranha sensação de desconforto. O dia cinzento se


parece comigo, tem um ar taciturno e faz frio. Levanto-me e escolho dois
ternos, um para usar agora e outro para a festa de logo mais à noite. Saio do
quarto perdido em meus pensamentos e assim que chego em frente da porta
do quarto da Lilly, paro. Toco na maçaneta, meu coração pede para girá-la,
mas a minha razão diz que não. Desisto e sigo o meu caminho. A casa está
silenciosa. Melhor assim, não quero sequer ter que desejar bom dia para
alguém. Saio pela porta da frente sem mesmo olhar para trás.
Caminho a passos largos pelo gramado, perdido em meus pensamentos.
Uma garoa fina cai sobre os meus ombros, a natureza está compactuando
com a minha tristeza. Os pássaros entoam um canto de despedida,
preparando-se para uma longa viagem em busca do sol. Apesar do dia
cinzento e chuvoso, as flores do jardim formam um contraste com o céu. As
rosas e flores diversificadas praticamente sorriem com suas pétalas coloridas
e vibrantes.
Todavia, eu não me comovo com toda esta beleza. Para mim, nada disso
tem significado. Meu mundo se tornara obscuro, assustador e sem vida desde
a morte do meu pai. Só vejo as cores quando a Lilly sorri para mim, quando a
tenho em meus braços, quando estou fazendo amor com ela. É doloroso
constatar que este sentimento não terá futuro. Em meu coração gelado, cheio
de ódio, não há lugar para o amor. Então, por que sinto amor por ela, quando
na verdade deveria desprezá-la por tudo o que seu pai fez ao meu? Não sei
mais o que fazer, sinto-me perdido em meio aos dois sentimentos, ódio e
amor. Ao mesmo tempo em que quero deixar tudo no passado, sou tomado
por uma força que me afasta dela, a força da promessa que fiz ao meu pai
enquanto o via ser devorado pelo fogo.
— Senhor Conde! — Mila me chama. — Não vai tomar o seu café da
manhã?
Mila fica me observando, fitando-me com os seus olhos curiosos. Ela
me conhece e com certeza já sabe que estou travando uma batalha com os
meus fantasmas.
— Não — respondo e volto a caminhar em direção ao automóvel onde o
Alfredo já me aguarda.
— O que eu digo à senhora Lilly? Ela com certeza irá perguntar pelo o
senhor. — Eu sei que ela só quis parar meus passos. Mila viu a minha espera
por Lilly ontem à noite, viu o quanto eu fiquei transtornado. Deve estar
preocupada com o que eu pretendo fazer a partir de agora.
— Diga-lhe que não virei almoçar, tampouco jantar. Provavelmente
chegarei tarde e... — resolvo não dizer mais nada. Ia dizer-lhe para que a
Lilly não me esperasse.
Luto para não deixar que perceba a tristeza em minha voz.
— Ela não irá acompanhá-lo ao evento da empresa?
— Não, ela certamente não iria gostar, esses eventos são muito
enfadonhos e eu também não ficarei muito tempo, pretendo voltar antes da
meia-noite — digo, pesaroso, enquanto entro no carro.
— Bom dia, Alfredo! — Cumprimento meu fiel amigo e antes de fechar
a porta, encaro a Mila e lhe digo, — Tenha um bom dia, Mila. Não se
preocupe, tudo ficará bem, do jeito que deve ficar. — Fecho a porta. Mila
permanece de pé, olhando o automóvel se distanciar com um semblante
preocupado.
— Está tudo bem, senhor? — Alfredo me olha rapidamente, antes de
virar a curva que dá acesso à rua principal.
— Pare de me chamar de senhor, Alfredo. Você sabe como isso me
aborrece. E respondendo à sua pergunta... — respiro fundo. — Não, não está
nada bem. Está tudo uma merda, uma grande merda. — Fecho a mão e bato
forte no painel do carro.
— Deduzo que esse seu nervosismo tenha nome... Lilly, acertei? — Vira
a cabeça em minha direção e me encara com as sobrancelhas arqueadas. —
Nem precisa responder. — Dá um meio sorriso. — Quando “você” vai me
escutar, seu moleque teimoso? — Quem o encara sou eu, com um olhar
espantado. Neste instante lembro do meu pai quando me chamava a atenção
de algo. — Não me olhe assim, apesar de você já ser um homem, está agindo
como um moleque birrento. Você a ama, mas se nega a aceitar isso. Acorde,
senhor Conde de Bergsen, ou então irá perder a mulher que ama.
Ele volta a dar total atenção à estrada. Pela primeira vez eu aceito seus
argumentos e calo-me diante da sua constatação. Sim, eu sei que a amo. Sim,
eu sei que não quero aceitar este fato. E sim, eu sei que sou um idiota.
— Talvez já tenha perdido e talvez seja melhor assim... — Asseguro.
Instantes depois, continuo: — Vamos esquecer este assunto, preciso manter
minha atenção no evento de hoje.
Assim que ponho os pés na recepção da empresa, minha secretária vem
logo atrás de mim, ditando todo o meu longo e estafante dia.
— Senhorita Agnes, há alguma brecha em minha agenda para que eu
possa respirar? — Ela para de me seguir. Eu percebo, pois se cala. Viro-me e
a encaro.
— Desculpe-me, senhor Conde, mas com o evento de hoje, não sobrou
muito tempo... nem para respirar.
— Que seja. Eu já estou morto mesmo, então vamos trabalhar.
— É isto que estou fazendo, senhor. — Ela se aproxima e me ajuda com
o meu paletó, pendurando-o.
— Antes de qualquer coisa, traga-me um café.
— Trarei, senhor. Enquanto isso, o senhor escolhe a sua acompanhante
de hoje. Aqui estão as três jovens. — O catálogo com três lindas moças é
posto em minha mesa à vista dos meus olhos. — Então, qual delas irá
acompanhá-lo? — Entrega-me uma xícara de café fumegante.
— Essa aqui. — Aponto para uma jovem de cabelos negros e olhos
claros.
Eu sei por que a escolhi. Ela se parece com a Lilly.
LILLY
A tristeza está em meu coração. Ainda trago na memória a noite de
ontem, as palavras duras do Raphael, a frieza e a crueldade do seu olhar. Não
entendo como fui me apaixonar por um homem tão sem coração. Como pude
pensar que ele pudesse se apaixonar por mim um dia? Não, ele nunca me
amará, nem a qualquer outra mulher. É frio demais para sentir qualquer
sentimento, estou começando a perceber isso.
Às dezenove horas, eu já estou pronta. Vestida em meu lindo e
maravilhoso vestido vermelho, longo, estilo sereia, com mangas compridas e
um longo decote em V nas costas, rebordado com pequenas pedras brilhantes
da mesma cor. Resolvo prender os cabelos no alto da cabeça com um coque
frouxo, deixando cair algumas mechas em meu rosto. A maquiagem bem leve
e apenas um gloss rosado nos lábios. O meu maior problema é me equilibrar
em meus saltos, nunca calcei sapatos de saltos altos.
— Senhora Lilly... — Mila bate na porta do meu quarto. — O senhor
Magnor está lá embaixo e quer vê-la, o que faço?
— Entre, Mila. — Estou colocando uma gargantilha em meu pescoço
quando ela abre a porta. Ao me ver, ela para, levando as mãos à boca.
— Minha nossa! — Mila arregala os olhos após o choque de me ver
vestida a rigor. — Onde a senhora vai assim? O senhor Raphael sabe disso?
Isso não vai prestar...
— Vou a uma festa com o meu amigo Magnor e eu não estou nem aí
para o senhor Raphael — digo enquanto coloco os brincos.
Pego minha pequena bolsa e passo por ela indo em direção às escadas.
— Senhora Lilly, acredite em mim, não é uma boa ideia sair com o
senhor Magnor vestida assim. A senhora não faz ideia da bagunça que vai
provocar...
— Mila, o Raphael nem vai perceber que eu saí. Ele só é o meu marido
dentro daquele quarto, fora dele somos apenas amigos, foi isso o que ele disse
ao Magnor.
Mila se cala. Começo a descer as escadas, e assim que o Magnor olha
para mim, abre um sorriso de orelha a orelha.
— My lady, se eu soubesse que ficaria tão deslumbrante assim, teria
vindo armado. Minha nossa! — Seus olhos brilham de satisfação e recebo
beijos em cada uma das minhas mãos.
— My lord, muito obrigada pelo elogio, o senhor também está muito
elegante vestido em seu terno negro.
E ele está, o terno escuro em sua pele clara contrasta com os seus olhos
verdes claros. Magnor é um homem muito bonito.
Olho para o topo da escada e Mila continua lá parada, com uma
expressão de espanto total.
— Boa noite, Mila. Acho que só nos veremos amanhã. — Ela não
responde, simplesmente permanece parada, encarando-me embasbacada.
Enquanto Magnor dirige o carro sinto o coração bater
incontrolavelmente. Não sei como o Raphael vai aceitar o fato quando
descobrir que eu fui a uma festa com o Magnor. Na verdade, eu não iria mais
à festa, mas quando o Raphael me disse todas aquelas barbaridades resolvi
aceitar o convite, afinal ele não é o meu dono.
— Chegamos. — Magnor para o carro. Desce, dá a volta e me ajuda a
sair, entrega as chaves para um rapaz e depois me oferece o braço. — Hoje
serei invejado por todos os homens do mundo... — Sorri enquanto acaricia
minha mão.
Subimos os degraus da imensa escada do majestoso casarão todo
iluminado e muito movimentado com todos os tipos de rostos. Mulheres
lindas em seus vestidos magníficos e homens elegantemente trajados em seus
ternos caros.
— O nosso anfitrião irá se arrepender por não a ter convidado, pode ter
certeza disso. — Magnor diz assim que entramos no imenso salão, abarrotado
de gente. Não entendi o comentário dele.
— Como assim? Por acaso eu conheço o dono da festa? — pergunto,
encarando-o.
— Claro que conhece. Eu até estranhei de ele não a ter chamado para
acompanhá-lo, preferiu uma outra mulher a você. — Continuo sem entender.
Magnor desvia o olhar do meu rosto e começa a mover os olhos à procura de
alguém no grande salão. — Olha o nosso anfitrião ali. — Caminhamos
alguns passos, pedindo licença para algumas pessoas que seguiam na mesma
direção que nós.
Há um burburinho de pessoas e flashes de câmeras e celulares são
disparados, vozes chamando um nome que eu já conheço...
— Senhor Raphael, o que o senhor me diz sobre o novo
empreendimento na Suíça?
Chegamos mais perto.
— Aqui está o nosso anfitrião...
Ficamos de frente a Raphael e a sua linda acompanhante. Assim que os
meus olhos fixam nos dele, nublam por completo. Viro-me rapidamente,
deixando o Magnor para trás. Preciso de ar, preciso respirar. Não quero
acreditar que o Raphael fez isso comigo. Ele está desfilando com outra
mulher a tiracolo, fazendo-a assumir um lugar que por direito é meu, pois eu
sou a sua esposa, quem deveria estar ali sou eu.
— Lilly, o que aconteceu? Por que saiu correndo daquele jeito? —
Magnor consegue me alcançar. Segurando em meu cotovelo, ele freia os
meus passos.
Já estou fora do grande casarão, nas proximidades dos jardins.
— Por que não me contou que a festa era das empresas do Raphael? —
Livro-me da mão dele enquanto pergunto.
— Porque não achei relevante. Lembra que eu perguntei se você tinha
algum compromisso para hoje à noite e você disse que não? Presumi que o
Raphael não a convidaria e certamente não contaria sobre o evento. — Ele
toca em minha mão. — Desculpe-me se não contei, não achei mesmo
necessário.
— Quero ir embora daqui, para mim a festa acabou. — Estou me
esforçando ao máximo para não me partir em pedaços.
— Você o ama, não é? E vê-lo ao lado de outra mulher foi demais... —
Magnor me puxa para o seu peito, recebo um abraço reconfortante. —
Raphael é um idiota, um grandessíssimo idiota. — Afasto-me do seu abraço
lutando para não deixar as lágrimas me vencerem.
— Ele é... — Fito-o derrotada. — Leve-me daqui.
Magnor segura uma das minhas mãos e me olha com ternura.
— Vou pegar os nossos casacos. — Assim que se vira para voltar ao
salão, dá de cara com um Raphael enfurecido.
— Como ousa trazê-la aqui sem a minha permissão, seu imbecil? —
Segura o Magnor pela lapela do paletó, seus olhos faíscam de raiva.
— Solte-me. Ficou louco, Raphael?! — Magnor consegue se afastar
dele.
— Raphael, pare com isso. — Tento mantê-lo longe do Magnor, ficando
entre os dois.
— Você vem comigo... — Seus dedos frios circulam meu punho,
prendendo-o com força. — O Alfredo vai levá-la para casa, e quando eu
chegar conversaremos.
Livro-me da sua mão dominadora. Magnor me afasta do Raphael,
tomando a frente da situação.
— Ela é a minha convidada, Raphael.
— Não se meta, Magnor, você já fez estragos demais por hoje. —
Raphael volta a encarar o Magnor com fúria no olhar, a impressão que eu
tenho é que ele, a qualquer momento, vai socar o rosto dele.
Então, para evitar um atrito maior entre os dois, eu intervenho.
— Não vou a lugar algum com o Alfredo. Eu vim com o Magnor e
voltarei com ele. Não se preocupe, já estávamos mesmo indo embora.
— Você voltará para casa com o Alfredo, só não a levo porque não
posso sair do evento agora. — Raphael tenta outra vez me deter com a mão.
— Não pretendo voltar para casa, eu e o Magnor temos outros planos.
Fique aqui com a sua acompanhante e divirta-se, pois faremos o mesmo.
Digo com frieza na voz, mas quase chorando.
— Está pretendendo sair com ele? — fala com desdém, olhando para o
Magnor.
— Não só pretendo, como vou — respondo com firmeza. — Vamos,
Magnor, não temos mais nada a fazer aqui.
Saio na frente, deixando os dois para trás. Contudo, escuto o que o
Magnor fala para o Raphael.
— Você acabou de perder sua chance de conquistar uma grande mulher
e ainda me chama de imbecil. Quem é o imbecil aqui?
Magnor me alcança perto da porta de saída. Pegamos os nossos casacos
e descemos as escadarias. Dentro do carro, ainda vejo o Raphael descendo às
pressas as escadas, tentando nos alcançar. Mas não dá tempo, consigo vê-lo
se distanciar pelo espelho retrovisor. Longe dele, agora eu consigo, enfim,
deixar minhas lágrimas escorrerem pelos meus olhos.
— Para onde quer ir Lilly? Ou quer voltar para casa? — Ele limpa
minhas lágrimas com o dorso da mão.
— Deve existir um lugar onde possamos ir com estas roupas... — seguro
sua mão com carinho e a afasto do meu rosto.
— Claro que há. Se não houver, eu crio um só para você. — Toca a
minha mão com a sua e a acaricia. — O Raphael é um babaca, eu no lugar
dele já teria colocado um anel em seu dedo para que todos soubessem que
pertence a mim.
— Magnor, só me faça esquecer esta noite. Por favor, só isso.
— Tentarei, my lady, tentarei.
Eu quero esquecer, no entanto, sei que nunca mais esquecerei. Ver o
Raphael ao lado de outra mulher foi destrutivo, talvez eu nunca me recupere
do choque.
38
RAPHAEL

Faz quatro horas que estou esperando por ela... horas de desespero,
horas agonizantes. Já perdi a conta de quantas vezes liguei para o Magnor,
quantos recados ameaçadores deixei em sua caixa postal. Não sei se ele os
viu ou escutou, só sei que minha vontade é de ir à procura dos dois. Só não
faço isso porque tenho medo de um desencontro. Enquanto isso, meus
pensamentos me atormentam, meu ciúme está me matando aos poucos.
O que será que os dois estão fazendo agora?
Rindo de mim, com certeza. Devem estar se entregando à luxúria em
algum hotel luxuoso da capital. Conheço os gostos caros do Magnor, ele com
certeza quer impressioná-la.
Merda!
Jogo o copo de uísque na parede com força. Os estilhaços de cristal se
espalham por toda parte.
Por que fui me apaixonar por você? Por quê?
Estava tudo tão bem arquitetado. Tudo tão simples... Era só deixar o
González viciado na jogatina, liberar dinheiro para ele, fazê-lo ganhar e
depois limpá-lo, forçando-o a se endividar a cada dia, ano após ano, até que
ele não tivesse mais nada para apostar. E quando ele pensasse que o seu
credor se esqueceu da dívida, quando menos esperasse, eu daria o tiro de
misericórdia e a minha vingança estaria apenas começando. Casaria com a
sua única filha com a desculpa de lhe devolver todos os seus bens e perdoaria
o resto da dívida se ela me desse um filho, assim colocaria todos os seus bens
no nome da criança e seria o seu administrador. Só depois de tudo feito eu me
apresentaria ao senhor Rodrigo González como o filho do Adam Bergsen, o
Conde de Bergsen.
Ter um neto com um sangue do seu pior inimigo e saber que sua única
filha foi casada com o filho dele será pior do que a morte, minha vingança
seria triunfal.
No entanto, como diz o ditado, o feitiço virou contra o feiticeiro... eu me
apaixonei e infelizmente não tenho um plano B, pois jamais cogitei essa
possibilidade.
Merda!
Sirvo-me de outra dose de uísque, e quando levo o copo à boca, escuto o
barulho do motor de um carro. Desisto da bebida e sigo para a porta
principal. Ao ver o Magnor ajudando-a a descer do carro e ela sorrindo para
ele, perco completamente a compostura e parto apressadamente em direção
aos dois.
— Solte-a, seu filho da p... — Afasto-o bruscamente, empurrando-o. —
Eu o avisei para não tocar nela.
— Está louco, Raphael...!? — Os dois falam ao mesmo tempo.
— Você ainda não me viu louco, Lilly. — Seguro o Magnor pela lapela
do paletó e olho enfurecido para ela, enquanto soco meu punho no maxilar do
Magnor.
— Raphael... — Lilly grita, desesperada. — Alguém ajude, o Raphael
está louco... — Ela tenta me afastar do Magnor.
Magnor está no chão e eu estou por cima dele. Sou muito mais forte do
que ele, consigo imobilizá-lo e meu punho encontra o seu maxilar outra vez.
— Eu avisei que se tocasse nela eu cortaria a sua mão e se encostasse
outra coisa nela eu o capava. O que quer que eu corte primeiro, sua mão ou
seu pau? — Meu rosto está bem próximo ao dele, pressiono tanto a lapela do
paletó com a mão que estou quase o sufocando. — Escolha, seu maldito!
— Pare, Raphael, ele não me tocou. Não fizemos nada, só fomos a uma
boate, só isso... Pare, por favor. — Ela pede clemência por ele. As lágrimas
banham o seu rosto, sua mão tenta afastar o meu braço do paletó do Magnor.
— Solte-me, Lótus. Solte-me e vá para o quarto. Minha conversa agora
é com ele, com você será depois.... Solte-me! — Vocifero.
— Não! — esbraveja. Ela tem coragem de me enfrentar.
Magnor aproveita nossa discussão e consegue se livrar do meu aperto.
Recebo um soco no rosto e sou jogado ao chão. Nesse ínterim, Lilly, que está
me segurando, recebe a rebarba e cai sentada no chão duro. Ela grita de dor.
— Lilly... — Mila e Alfredo surgem atordoados. — Meu Deus, o que
está acontecendo aqui? — Alfredo socorre a Lilly. — Leve-a para dentro,
Mila. Cuide dela, eu cuido dos dois moleques inconsequentes aqui.
— Não deixe os dois se matarem, Alfredo, por favor. — Lilly é levada
para dentro da mansão, aos prantos, por Mila. Ela me fita com um olhar
suplicante e medroso.
Ela acabara de conhecer o Lenhador... o lado mais sombrio de mim.
— Levantem-se, seus moleques. — Alfredo nos separa, ficando entre
nós dois. — Conversem feito homens, não como dois adolescentes
disputando a namoradinha. — Ele nos fita estreitando os olhos. — Posso
soltá-los?
— Eu o avisei para não tocar nela... — digo, tentando segurar o Magnor,
mas o Alfredo me detém com a mão em meu peito.
— E quem você pensa que é, para exigir que eu fique longe dela? Que
eu saiba vocês são apenas amigos, então eu posso perfeitamente me
aproximar, seu imbecil.
Ele também tenta avançar para me alcançar. E mais uma vez o Alfredo
impede.
— Eu sou o marido dela, entendeu? Marido... — grito, olhando-o com
raiva.
— O quê?! Como assim, marido? — Ele se afasta alguns passos,
confuso com o que acabara de escutar.
Alfredo se afasta e nos deixa sozinhos.
— Isso mesmo que ouviu. Eu sou o marido dela, somos casados...
Recebo vários empurrões no peito, enquanto ele grita, exasperado, a
plenos pulmões:
— Canalha, cretino. Como ousou a machucá-la assim? Como ousou
apresentar a sua esposa para outro homem como sua amiga? O que se passava
em sua cabeça quando fez isso, não pensou nela? Agora eu entendo a tristeza
aparente, quando a Lilly falava sobre você... Canalha!
Recebo um soco, mas desta vez eu não revido. Eu mereço.
— Ela o ama... — Segura-me pela gola da camisa, fixa os olhos nos
meus e através do meu olhar distante ele percebe o que eu já sei. — Porra!
Você já sabe disso e mesmo assim fez o que fez. — Ele me solta, e enquanto
segue para o carro, completa: — Você merece ficar sozinho. Merece perdê-la,
e é o que eu espero. — Antes de entrar no carro, vira-se e fixa o olhar frio em
meu rosto. — E fique sabendo que quando ela o deixar eu estarei esperando
por ela...
— Se você chegar perto dela outra vez eu o mato. — Não o deixo
completar a frase. — E você sabe que sou capaz de fazer isso. Suma da
minha frente. — Viro-lhe as costas.
— Ela vai deixá-lo e eu estarei esperando. Você não poderá fazer nada,
seu idiota.
— Eu o mato antes disso... — Entro em casa e bato a porta com toda
força.
Já estou quase no último degrau da escada que leva para o andar de
cima, quando sou interceptado pela figura altiva do Alfredo.
— Aonde pensa que vai? — Ele se coloca na minha frente, impedindo-
me de passar. — Não acha que já fez estragos o suficiente por hoje? Deixe-a
sozinha, ela precisa de um tempo e você também. Amanhã...
— Não sou homem de deixar para amanhã o que posso fazer hoje. Além
do mais, amanhã pode ser tarde demais e não terei coragem de lhe dizer o que
quero dizer hoje.
— Raphael, pense bem. Ela está ferida, com raiva, e você também... —
Alfredo toca em meu ombro, apertando-o com os dedos. — Venha, vamos
cuidar do seu rosto machucado.
Retiro sua mão do meu ombro e afasto-o do meu caminho.
— Agradeço a preocupação, mas minha conversa com a Lilly será hoje.
Boa noite, Alfredo.
Entro no quarto da Lilly. Mila está com ela. Há duas malas sobre a
cama.
— O que está acontecendo? — Minha voz soa autoritária e impaciente.
Lilly finge não me escutar e começa a arrumar suas coisas nas malas.
Tenho o ímpeto de correr até lá e desfazer o que ela está fazendo com tanta
determinação, mas minha dignidade fala mais alto.
— O que pensa que está fazendo, Lilly?
— Estou fazendo minhas malas para ir embora, não está vendo? — ela
comunica com firmeza, mostrando-me as malas sobre a cama e me
enfrentando.
Faço um breve silêncio enquanto ela e Mila esperam a minha reação.
— Quer nos deixar a sós, por favor, Mila? — peço e minha voz soa
vibrante, carregada de emoção.
Mila prontamente nos deixa sozinhos, um de frente ao outro. Lilly é a
primeira a falar, corajosamente:
— Vou embora, Raphael, e não há nada que me faça mudar de ideia.
— Sinto muito, mas sou obrigado a lembrá-la que o nosso contrato ainda
não acabou — lembro-a do nosso contrato de casamento. — Se esqueceu da
dívida que o seu pai tem comigo? Quer que eu cobre cada centavo que ele me
deve?
— Não, eu não esqueci, mas mesmo assim eu prefiro ir embora. Não dá
para continuar fingindo que tudo está bem, não posso mais viver assim. —
Ela continua jogando algumas peças de roupa nas malas. — Amando um
homem que não se importa comigo, sendo para ele apenas uma moeda de
troca. Não consigo mais...
— E vai viver de quê? Vai morar onde? E o seu pai, ele pode até perder
todos os bens que tem, menos a fazenda. Acha mesmo que ele suportará isso?
— Sou inteligente, tenho nível superior e falo três idiomas, para alguma
coisa isso deve servir. Se não servir, tenho dois braços e duas pernas, posso
perfeitamente trabalhar em qualquer lugar. Quanto ao meu pai, ele vai ter que
aceitar a ruína e aceitar que não é mais o senhor todo poderoso de Paraíso.
Um novo silêncio se estabelece no quarto, enquanto eu, muito pálido
pelo choque da sua determinação, apenas a olho. Ela fecha as malas, coloca-
as no chão, fita-me com resignação e passa por mim.
Antes dela tocar na maçaneta da porta eu grito, descontrolado:
— Não vai a lugar nenhum! Vai ficar aqui, nesta casa! — Mas ela
permanece onde está, sem se deixar intimidar.
— Estou decidida, Raphael. Não quero mais continuar com o contrato,
quero o divórcio. Você me disse que não sou sua prisioneira e que eu poderia
ir embora quando quisesse, portanto, não tente me impedir. — Solta a
maçaneta da porta, vira-se e me encara. — Só peço que me coloque em um
hotel e providencie a minha volta para o Brasil o quanto antes.
— E se eu não fizer isso? — pergunto com um olhar desafiador.
— Darei um jeito. Aqui não fico mais...
— Aposto que o Magnor está por trás desta sua determinação —
vocifero, cerrando os punhos. — Aposto que ele está lhe esperando na
esquina, não é isso? Você e ele resolveram me apunhalar pelas costas, não
foi, Lilly?
— A sua empáfia o cega, senhor Raphael Salles. — Enfrenta-me,
corajosa. — Não me compare a você, não fui eu quem o apresentei como um
amigo. Não fui eu quem resolveu me substituir por outra mulher. Eu não sou
uma traidora, mesmo que o nosso casamento seja uma farsa, eu o respeitei até
hoje. Ao contrário do senhor, que anda com outras mulheres a tiracolo e que
esconde para o mundo ser casado...
— Cale-se! — esbravejo. — Não seja ridícula, eu não a traí. Aquela
moça que viu ao meu lado na festa é apenas uma modelo contratada, nem
lembro o seu nome. Ela só me acompanhou ao evento, depois um motorista a
levou ao hotel... — Dou um passo para frente e ela, não tendo para onde ir, se
encosta na porta. — Depois que nos casamos não saí com nenhuma outra
mulher, ao contrário de você...
— Agora quem está sendo ridículo é você. — Fita-me com decepção
aparente no olhar. — E mais uma vez você prova que realmente o nosso
contrato deve ser rompido, antes que eu saia desta união mais machucada do
que já estou. — Vira-se.
— Lilly! — grito, aproximando-me rapidamente e a segurando pelos
ombros, com a respiração ofegante.
Então, percebendo que estou prestes a cometer mais um erro, readquiro
meu autocontrole e me afasto. Instantes depois, volto a falar, agora
mansamente:
— Não faça as coisas com a cabeça quente, Lilly. Pense em seu pai e
não finja que não gosta de estar casada, afinal, não está sendo tão ruim assim
ficarmos juntos, já que nos damos bem...
— Na cama! — Ela me interrompe. — Talvez para você o sexo seja o
suficiente, mas para mim não está sendo e cheguei à conclusão de que você
nunca me amará. Uma relação não sobrevive só com sexo, Raphael, pelo
menos para mim.
— Sim, eu sei disso — respondo. — Mas podemos usar o sexo a nosso
favor, já que nos damos tão bem na cama. Afinal, tanto eu como você só
temos a ganhar com o contrato, concorda?
— Você continua sendo um idiota... já disse que não me importo mais
com essa porcaria de contrato — diz, decepcionada. Vira-se para abrir a
porta.
Seguro-a, impedindo-a.
— Sinto muito, mas não posso permitir que vá — afirmo.
O seu olhar firme em meu rosto me mostra que ela não está disposta a
ceder.
— Por quê? Acha mesmo que depois de tudo o que passei voltarei atrás?
Para mim, basta! Esse contrato de mentira acabou!
— O nosso casamento, é isso que quer dizer. Não, ele ainda não acabou!
— Você quer me deixar louca, Raphael? Você não me ama, só me quer
como moeda de troca enquanto eu o amo com toda a força do meu coração.
Então, diga-me... por que eu continuaria casada com você, já que não me
importo mais com o nosso acordo? — ela pergunta, furiosa.
— Ora, porque... porque... eu... eu preciso de você. — digo com os
nervos à flor da pele.
— Isso não é o suficiente para me fazer ficar. Sinto muito, mas eu
preciso muito mais do que isso. Prove-me que você não é esse homem frio e
interesseiro.
Ela me fita com um olhar suplicante. Eu sei o que ela quer que eu diga,
eu também quero muito dizer, só não tenho a coragem. Talvez eu tenha
medo.
Ela se vira outra vez em direção à porta. Desesperado, grito:
— Lilly, não... — Ela para, mas não retira a mão da maçaneta da porta.
Passo a mão pelos cabelos, aparentemente sem saber o que dizer.
Respiro profundamente. Solto o ar.
— Lilly... fique, por favor. Por favor.
Sua mão gira a maçaneta da porta e ela dá dois passos até sair do quarto.
Caminha lentamente, arrastando as malas.
— Adeus, Raphael...
Faça alguma coisa, seu imbecil. Seja rápido.
— Lótus... — Ela para, respira apressadamente. Espera. — Podemos nos
entender, eu sei que podemos.
Idiota. Você é idiota, Raphael.
— Não, não podemos. Não desse jeito. — Volta a caminhar em direção
às escadas.
— Amo você. — Reconheço com a voz sumida. — Amo você desde o
dia em que a vi no lodo de lótus. Desde aquele dia nunca mais fui o mesmo.
Fique... fique, porque eu não consigo mais viver sem você.
39
RAPHAEL

Minhas palavras aceleraram meu coração. Acabo de declarar o


meu amor por ela, acabo de desistir de toda a minha vingança. Tudo o que
planejei por anos foi deixado de lado e no lugar do ódio, rancor e vingança,
deixo o amor me tomar, deixo o amor vencer. Estou me dando uma nova
chance, uma chance de ser amado e amar com toda a força que um coração
pode suportar. Estou me dando a chance de tentar recomeçar uma vida nova,
de esquecer, sonhar, deixar para trás definitivamente o passado.
Com passos inseguros, sigo em sua direção. Lilly permanece de costas,
inerte, com a respiração ofegante. Chego o mais próximo que posso e com
mãos hesitantes toco em seus ombros.
— Amo você, linda Lótus vermelha. Amo com toda a força do meu
coração. Não me deixe, não me abandone. Preciso de você, preciso do seu
amor.
Encosto meu queixo no alto da sua cabeça, aliso os seus braços,
juntando o meu corpo ao dela. Viro-a lentamente para mim. Ficamos frente a
frente, ela baixa a cabeça para esconder o choro.
— Lilly — murmuro e toco no seu queixo erguendo o seu rosto e os
nossos olhares se encontram.
Ela estremece ao ver minha emoção refletida em meus olhos. Tenta
desviar o olhar, baixando os cílios longos.
— Olhe para mim — peço calmamente. Seus lindos olhos marejados
encontram os meus outra vez. — Por favor, não se vá... — Torno a pedir,
com ternura, encostando minha testa na sua. Ao fazer isso, sinto o seu corpo
estremecer. — Você é tudo o que preciso para viver. Só você.
— Você me machucou, Raphael. Desprezou o meu amor e me usou
como mercadoria. Acha mesmo que vou acreditar que de repente passou a me
amar? — fala, tentando ser indiferente ao que acabo de lhe dizer.
— Você me odeia, não é? — pergunto, temeroso.
Ela tem todo o direito de me odiar, pois eu já sabia que ela me amava, e
mesmo assim, continuei ignorando o seu amor. Na verdade, eu o usei para
envolvê-la no plano sórdido de vingança e agora corro o risco de perdê-la
para sempre.
— Não, Raphael, eu não o odeio. Mesmo que eu quisesse odiá-lo não
conseguiria. Mas depois de tudo o que passei não posso deixar de me sentir
ultrajada.
— Eu te peço para esquecer todas as minhas estupidezes. Esqueça o
quanto fui um imbecil... Lilly, nunca amei uma mulher, sequer gostei de
alguém de verdade. Você foi a primeira, você conseguiu derrubar as minhas
muralhas e isso é assustador. Poxa, será que não entende que para um homem
como eu é muito difícil aceitar o fato de estar muito fodido, por estar
apaixonado? — pergunto desesperado, agarrando-a pelos ombros. — Por
favor, acredite em mim, eu a amo desesperadamente!
— Não. Por favor, não posso... — murmura, evitando os meus olhos.
Não aceito a sua recusa.
— Agora sou eu quem precisa de um motivo para entender o porquê de
não acreditar em mim.
— Como vou saber se não está me dizendo essas coisas por causa do
dinheiro que o meu pai está lhe devendo e...
Olho para ela durante algum tempo. Depois, pela primeira vez depois de
longos anos, abro um sorriso.
— Eu... eu não acredito — sussurra, com um lindo sorriso nos lábios. —
Você sorriu. Meu Deus, Raphael, você sorriu...
— Sim, sorri porque finalmente tenho motivos para isso... Linda Lótus,
eu a amo desde o primeiro dia em que a vi, e mesmo sabendo que jamais
poderia tê-la gostei da sensação. Sim, eu fui um idiota por ter fugido do amor,
mas ele não desistiu e nos uniu de uma maneira louca. E que loucura, um
casamento por contrato nos tempos de hoje. Mas deu certo, não deu? — digo
com a felicidade estampada em meu olhar.
As lágrimas que antes estavam apenas nublando os seus olhos agora
cedem, descendo livremente e molhando o seu lindo rosto. Procuro os seus
lábios e desesperadamente nos unimos em um beijo carregado de promessas.
É um beijo demorado e cheio de amor.
— Preciso escutar novamente — suplico, sem afastar meus lábios dos
dela.
— Escutar o quê?
— Diga que me ama — peço, acariciando suas costas nuas. Ela ainda
veste o lindo vestido vermelho.
Trêmula por toda a emoção que está sentindo e deliciando-se com
minhas carícias, ela se afasta um pouco e fita-me com um olhar emocionado.
— Eu o amo... amo tanto que, às vezes, me esqueço da sua frieza e da
sua falta de sentimentos...
— Não se preocupe, de hoje em diante só terei sentimentos de muito
amor para você. Darei tanto amor que você ficará embriagada. Agora fale
mais, meu amor, fale que me ama — peço, olhando-a profundamente.
— Amo você, Raphael Salles... — sussurra, fechando os olhos e
oferecendo-me os lábios sedentos.
Beijo-a com sofreguidão, sussurrando palavras de amor e paixão.
Provocando-a, excitando-a, aguçando-lhe o desejo ardente que nos queima,
um desejo que agora será demonstrado na sua verdadeira face, a face do
amor.
O meu amor que só a ela pertencerá.
E, por falar nisso, lembro-me do meu primo Magnor e o ciúme me toma.
— E o insolente do meu primo Magnor? — digo subitamente,
encarando-a com um olhar indagador.
— O que tem ele? — devolve o olhar questionador. Então percebo um
leve riso de canto de boca, ela está se divertindo com o meu ciúme.
— O que tem ele? Ainda pergunta? Não pense que me esqueci dos seus
passeios com ele e dos olhares famintos que o meu primo dirigia para você.
Juro que o mato se ele se aproximar outra vez. Eu o mato, entendeu? — friso
bem a frase, para que ela não se esqueça.
Lilly encara-me com um olhar divertido e solta uma gargalhada.
— Calma aí, valentão, não precisará matar ninguém. Magnor é só meu
amigo, mas confesso que gostei de saber que tem ciúmes de mim...
— Não brinque com isso, dona encrenqueira. Descobri que sou muito
ciumento e o meu ciúme não é nada amigável, acredite em mim. Você viu
como reajo quando estou dominado por ele — articulo, irritado, lembrando-
lhe de como reagi com o Magnor minutos atrás.
— Garanto que não foi de propósito, desculpe-me — comenta,
brincalhona.
— Agora está tudo bem, mas quase o mato.
— Eu também fiquei possessa quando vi aquelazinha pendurada em
você. Quase parti para ignorância, faltou pouco — confessa, amuada.
— Sem nenhuma razão — defendo-me. — Depois que a conheci não
consigo nem olhar para outras mulheres, que dirá me deitar com elas —
confesso, beijando-lhe a testa.
Depois volto a abraçá-la com força.
— Você me perdoa por todas as idiotices que eu fiz, por toda a minha
frieza e falta de sensibilidade? — pergunto, com um sorriso doce.
— Já nem lembro mais, o meu amor perdoou todos os seus erros —
murmura, com voz apaixonada. — E quanto à dívida? — Olha para mim com
um ar preocupado.
— Não se preocupe. Esqueça tudo isso, não há mais dívida — beijo-a
com paixão
— Amo você! — exclama, beijando-me levemente nos lábios.
— Quero que repita essas palavras quando estivermos fazendo amor,
daqui a alguns minutos, senhora Salles — falo baixinho em seu ouvido.
Lilly nem percebe que não tem mais os pés no chão, abraço-a pela
cintura e a levo para o quarto. Não para o quarto em que ela dormia, mas para
o meu, que de hoje em diante será nosso. Entro, fecho a porta com uma das
mãos. Dou mais alguns passos até chegar próximo à cama, desço-a dos meus
braços, mas sem afastá-la do meu corpo. Meu olhar desejoso busca o seu
rosto, sua boca... ela respira apressadamente. Satisfeito com sua reação, meu
olhar retorna ao seu e ficamos nos olhando por uma porção de segundos.
Estamos a caminho de nos perder. Nos perder de amor. Então, sem dizer
uma palavra, eu me inclino e roubo sua boca em um beijo mais do que
apaixonado. Lilly se entrega, ofegante, saboreia a minha língua como se fosse
a iguaria mais preciosa existente no mundo. Sua mão vai para parte de trás da
minha cabeça, acariciando os meus cabelos enquanto os meus lábios se
movem sobre os dela, lentos e suaves.
Meu pau cutuca o seu ventre. Já está pronto para ela, pronto para torná-
la minha mais uma vez, e desta vez ela virá como minha mulher, minha
esposa de verdade. Deduzo que ela lê os meus pensamentos, pois prende-se a
mim com urgência e me beija, faminta, com uma voracidade que me põe em
xeque. Então, subitamente, eu rasgo o seu vestido vermelho em duas partes.
— Raphael...! — Afasta-se da minha boca e exclama assustada. — Esse
vestido foi muito caro.
— Não ligo, não fui eu quem lhe deu. Ele iria para o lixo mesmo,
portanto não se lamente.
— Foi um presente...
Seguro-a firmemente pelos ombros e fixo um olhar duro em seu rosto.
— Lembra que eu te disse que na história da Chapeuzinho Vermelho eu
sou o Lenhador? — Ela engole em seco ao perceber a minha fúria inesperada.
— Pois bem, eu sou a porra do Lenhador sedento por sangue, e o que é meu
ninguém toca, tampouco presenteia com coisas caras.
Jogo os trapos do vestido fora e em seguida livro-me da sua calcinha
num só puxão.
— Raphael, você não precisa... — Calo-a com um beijo dominador,
possessivo, duro, cruel.
— Você não sabe quem sou eu, linda Lótus. Não sabe do que sou capaz,
não me conhece. Eu poderia tê-la machucado, poderia tê-la destruído, mas
quis o destino que eu a amasse com a mesma força que a dureza do meu
coração. E o meu amor pode ser tudo, menos passivo. Por você eu destruo o
mundo, acredite em mim...
— Você nunca me machucaria.
— Talvez sim, talvez não... não queira saber. Você só precisa saber que
a amo e o meu amor é para sempre, para sempre seu. — Meu olhar desliza
para sua boca. — Agora vou provar você e matar a minha fome.
Jogo-a na cama, e enquanto ela se ajeita no colchão, livro-me das
minhas roupas, mostrando a altivez do meu pau envergado para cima, todo
soberbo com o seu poder. Deito-me sobre ela afastando suas coxas e me
pondo entre elas. Meu sexo toca o seu e se esconde entre seus grandes lábios,
acomodando-se feito um rei em seu trono.
Beijo o seu pescoço, mordendo-o levemente enquanto minhas mãos
sobem pelas laterais do seu corpo até encontrarem os seus seios durinhos.
Com dedos ágeis seguro os seus mamilos e os giro. Ela morde os lábios ao
sentir a pressão e solta um gemido suave.
— Linda Lótus, agora eu posso confessar... você me deixa louco —
murmuro em seu ouvido.
Escorrego uma das mãos por seu corpo até ficar entre suas coxas. Meu
dedo indicador encontra o seu caminho e eu entro nela suavemente. Sua
vagina está quente, molhada, e eu salivo de vontade de prová-la. Ela
enlouquece quando encontro o seu clitóris e brinco com ele. Posso sentir o
seu corpo se contorcer debaixo de mim, sua respiração acelerada e o seu arfar
desesperado. Bombeio meu dedo dentro e fora dela, deixando-a mais
desesperada. Lilly arqueia o corpo prendendo-se a mim, soltando gritinhos de
prazer. Paro de fodê-la, beijo-a e escorrego o meu corpo para baixo, ficando
de cara com a sua boceta esparramada. Abocanho suas carnes suculentas e
chupo todo o seu suco, mordendo e sorvendo tudo o que é dela. Com minha
boca trabalhando em seu clitóris e o meu dedo fodendo-a lentamente, Lilly
perde toda a noção de si mesma e goza em minha boca, lambuzando o meu
rosto com o seu prazer.
Sem deixá-la descansar, movo o meu corpo por cima do seu, espalhando
suas pernas com os meus joelhos.
— Ei, senhor egoísta, eu quero provar você também — diz ofegante,
tentando me afastar.
— Mais tarde. Agora eu quero fodê-la com o meu pau, minha esposa,
fodê-la duramente. Quero olhar para você enquanto a fodo e dizer-lhe o
quanto a amo, para que não reste sombra de dúvidas sobre o que sinto por
você.
Beijo-a e ao mesmo tempo a penetro com força, empurrando tudo de
mim dentro dela. Lilly fica fora do controle e começa a mover o quadril,
balançando-o. Seus gemidos me excitam, me enlouquecem. Bato meu pau
com força em sua vagina, ele entra e sai ferozmente. O som das batidas é
prazeroso, animalesco.
— Olhe para mim, Lilly. — Minha voz soa exigente, feroz, dominante.
A palma da minha mão se fecha em seu queixo, fazendo o seu rosto se fixar
no meu. Ela me encara com os lábios entreabertos e um olhar de pura luxúria.
— Amo você. — Entro nela com força, socando o meu pau até o final. —
Amo você com tanto desespero que sou capaz de qualquer loucura para
provar o meu amor. — Penetro-a mais uma vez. — Minha. Nunca duvide
disso...
— Eu não duvido. — Agarra-se a mim, arranhando as minhas costas. —
Não duvido, meu amor. — Arqueia o corpo com força, soltando um gemido
orgástico.
Movo-me mais e mais rápido, até que meus espasmos sacodem os
nossos corpos e solto um grunhido de prazer. Beijo-a com toda força que
posso nesse momento, sussurrando palavras de amor em sua boca. Jurando
amá-la enquanto existir vida em mim.
Ela retribui com carícias em minhas costas e repete as minhas mesmas
palavras.
— Eu também. Também o amarei enquanto existir vida em mim...
Ainda preso ao seu corpo, levanto-a, fazendo-a se sentar em mim.
Levanto-me também, sem me separar dela. Vamos para o banheiro, não para
tomarmos banho, mas para continuar nos amando, pois, a noite havia apenas
começado e a nossa vida de casados também.
40
RAPHAEL

Dez dias se passaram após aquela noite em que confessei o meu


amor por ela. Praticamente não saímos do quarto, estávamos em lua de mel.
Quer dizer, ainda estamos. E hoje vou levá-la para jantar, hoje ela sairá
comigo como minha esposa.
Lilly entra em meu escritório cantarolando. Não tenho ido a empresa
desde que fizemos as pazes, resolvo todos os assuntos de casa mesmo.
Conheço-a muito bem, a minha Lótus está com segundas intenções.
Senta-se em meu colo, se esparramando nele. Sinto o calor da sua boceta
através do tecido fino da sua calcinha. Ela adora me provocar com os seus
vestidinhos curtos.
— Sua esposa está com saudade. Apesar de ainda estar claro, já são
quase dezenove horas, estou com fome. — Eu sei a que fome ela se refere,
aquele olhar lascivo eu conheço muito bem. — Marido, vai deixar sua mulher
faminta? — Esfrega-se em meu pau, que pulsa feito louco.
— Sua fome por meu pau terá que esperar até voltarmos. — Beijo sua
boca.
— Posso saber para onde vamos? — Sinto sua mão acariciar a frente da
minha calça.
Solto o ar entre os dentes. Ela abre o zíper e dedos quentes tocam a
cabeça chorosa do meu pau.
— Reservei uma mesa para nós no melhor restaurante de Ålesund. Hoje
fazemos dez dias que estamos verdadeiramente casados e quero começar a
noite em grande estilo.
— Podíamos comemorar em nosso quarto, na nossa cama. Você dentro
de mim, fazendo-me gozar... — Sua mão aperta a glande do meu pênis.
Gemo de prazer.
Lilly está viciada em mim, se deixar, fazemos amor a todo instante.
— Lótus... — Fecho os olhos quando ela começa a massagear meu pênis
para cima e para baixo. — Podemos fazer... porra! — praguejo. Ela desce do
meu colo e se ajoelha, segura meu pênis e o leva à boca, começando a sugá-
lo. — Porra! Lótus... humm! Nós... nós podemos. — Toma-me todo, sinto o
fundo da sua garganta. — Lótus, eu... eu...
Arqueio o corpo, empurrando meu pênis em sua boca. Ela segura em
minhas coxas e começa a sorvê-lo. Lilly adora me chupar, é a sua diversão
favorita.
— Amor, podemos... — Sorve-me com força e eu assobio de tesão. —
Podemos fazer o... — Engole-me todo. Ajeito-me na cadeira, já não dá mais
para me concentrar.
Seguro os seus cabelos entre os dedos e empurro sua cabeça, fazendo-a
me engolir. Fodo sua boca com vontade. Ela me chupa divinamente até sugar
todo o meu prazer, lambendo até a última gota.
Respirando com dificuldade — ambos — fixamos os nossos olhares.
Sua boquinha linda ainda está lambuzada com o meu prazer e isso a deixa
sexy pra caralho. Ela sorri, maliciosa.
— Pronto, já estou alimentada... por enquanto — diz sorrindo, com um
olhar que arrepia todo o meu corpo. — Para que horas é a nossa reserva?
Levanta-se, inclina-se e me beija sem nenhuma cerimônia.
— Você tem vinte minutos para se aprontar. Então se apresse. —
Articulo enquanto me levanto. Ajeito-me e subo o zíper da calça.
— Sim, senhor mandão! — exclama brincalhona com o seu jeito de
menina levada que tanto amo.
— E coloque o vestido mais lindo que tiver em seu guarda-roupa, quero
exibi-la para todos. — Acrescento, simplesmente ignorando sua carinha de
brava. E, antes de dar-lhe tempo para dizer mais alguma coisa, empurro-a
para fora do meu escritório e fecho a porta.
Fico com a testa encostada na porta e a escuto resmungar um pouco,
mas segundos depois ouço os seus passos se afastarem.
Ela está penteando os cabelos quando entro em nosso quarto. Num gesto
instintivo, consulto o relógio e verifico que ainda faltam dez minutos para a
hora marcada. Ela é pontual, já está completamente vestida, maquiada e linda
em um vestido um pouco acima dos joelhos, não muito justo, mas que
desenha perfeitamente as curvas sedutoras do seu corpo. A cor escarlate lhe
cai bem, combina perfeitamente com os seus cabelos e a cor da sua pele.
— Linda e mais perfeita do que uma flor de Lótus! — digo, admirado —
Só preciso de alguns minutos para me trocar.
Minutos depois, estou de banho tomado, vestido num terno escuro e
completamente refeito dos arroubos que meu coração sofreu com os
momentos que passamos em meu escritório.
Ao me ver, ela abre um lindo sorriso satisfeito, pega uma pequena bolsa,
e antes que dê um passo em direção à porta, eu a puxo pela mão.
— Calma, esposa linda. Ainda falta algo para completar o nosso traje,
não percebeu? — Lilly me olha de cima a baixo, sem perder nenhum detalhe,
e depois observa a si mesma.
— Desculpe, marido, mas não sei do que está faltando. — Dá de
ombros.
Do bolso do meu paletó retiro uma pequena caixa de veludo e abro-a.
— Falta isso... — Entrego uma grossa aliança de ouro amarelo e estendo
a minha mão esquerda. — Esta é a aliança do nosso amor. — Lilly paralisa os
olhos no círculo dourado, sua pequena mão treme ao tocá-lo. — Coloque-a
em meu dedo — peço, emocionado.
Sem dizer uma só palavra, ela escorrega a aliança em meu dedo. Com o
olhar nublado pelas lágrimas, me encara. Seus lábios trêmulos tentam
balbuciar algumas palavras, mas não conseguem. Então, seguro sua mão
esquerda e deslizo sua aliança ladeada de pequenos diamantes em seu dedo.
Beijo-o, sem afastar os meus olhos do seu rosto emocionado.
— Agora podemos ir — pronuncio, puxando seu braço e colocando-o
entre o meu.
Durante todo o percurso até o restaurante Lilly não abriu a boca, parecia
perdida em seus próprios pensamentos. Talvez estivesse tentando entender
como eu, em tão pouco tempo, mudei de um Lenhador rústico para um
príncipe encantado. Talvez eu não tenha mudado, talvez o príncipe sempre
esteve dentro de mim e só estava adormecido.
O restaurante fica em um dos locais mais maravilhosos de Ålesund,
decorado com discreto luxo e repleto de pessoas elegantes. Fomos recebidos
com um sorriso afável pelo maître que nos levou até uma mesa. Enquanto
caminhamos as pessoas, que já me conheciam, nos olham, curiosas. É a
primeira vez que entro em um local público com uma mulher de braços
dados. Certamente todos estão curiosos para saber quem é a dama em
questão. Eu, com certeza, matarei a curiosidade de todos.
— Lonhar, esta é a minha esposa, Lilly — digo sonoramente. Lonhar é o
maître e um velho conhecido, pois sempre marco os meus almoços de
negócios neste restaurante.
Ele faz um aceno com a cabeça, cumprimentando-a cordialmente.
Surpresa com o comentário repentino, ela apenas me fita, sem saber o que
dizer. Mas sorri, quando percebe a minha intenção. Eu havia dito, horas
antes, que queria exibi-la para todos.
Sentamo-nos. O garçom me mostra a carta de vinhos, mas recuso. Já sei
o que quero beber: champanhe. Minutos depois, nossas taças são servidas
com o líquido borbulhante e cristalino.
— Um brinde ao seu amor por mim, que foi paciente e confiante! —
Fito-a com todo o amor que há dentro do meu coração.
— A você, que soube entender que o amor é maior que tudo. — Ela
sorri e encosta sua taça à minha.
— Ao nosso amor e ao Magnor! — Completo.
— Magnor? O que ele tem a ver com isso? — indaga, sem entender o
trocadilho.
— Se ele não despertasse o meu ciúme possessivo, eu ainda seria um
Lenhador. — Ela esconde o riso súbito com a mão. E eu lhe ofereço o meu
melhor sorriso.
— Você fica muito mais lindo quando sorri, senhor ex-rabugento.
Concordo com ela, sorrir faz um bem danado, ainda mais quando temos
motivos para sorrir de verdade.
Enquanto saboreamos a bebida, conversamos um pouco sobre Ålesund,
suas belezas marinhas, pesqueiras e, por fim, pergunto-lhe o que gostaria de
comer. Indecisa, manda-me escolher.
Entendo o seu nervosismo. Lilly não tem o costume de frequentar
lugares sofisticados. Ela cresceu em um colégio interno, e mesmo que tenha
saído com o Magnor por alguns dias, tenho certeza que foi ele quem escolheu
tudo, para impressioná-la. Conhecendo o seu paladar, escolho algo leve e de
fácil digestão, uma salada de bacalhau para a entrada, filé de salmão e vinho
francês.
O garçom traz a nossa comida e nos serve. Enquanto saboreamos nosso
delicioso jantar, seguro sua mão e a fito com tanta intensidade que o seu olhar
reflete o brilho dos meus olhos. Lilly deixa o garfo sobre o prato e eu faço o
mesmo, levando a sua delicada mão até os lábios e beijando-a delicadamente.
— Sua vida não foi muito fácil, não é? Digo isso porque viver longe de
casa e das pessoas que amamos é muito difícil, principalmente para uma
menina — pergunto de repente.
— Sim, foi... Nos primeiros anos eu não entendia por que papai me
mandou para tão longe, e o pior, para um país que eu não entendia nem o
idioma. Chorei muito, senti muitas saudades, mas o tempo cicatriza as
feridas...
Nem tudo, Lilly. Não se engane, minha Lótus, tem coisas que nem o
tempo ajuda a esquecer.
— Seu pai lhe contou o motivo? Acredito que depois que voltou para o
Brasil ele tenha ao menos explicado o que o levou a afastá-la dele? — Estou
curioso, quero saber se aquele crápula ao menos pediu desculpas à filha por
ter sido um pai ruim e ausente.
— Não e também nunca perguntei... — Respira fundo, volta a comer e
depois me encara, com um olhar abatido. — Podemos mudar de assunto?
Seu rosto exibe uma expressão distante e introspectiva. Lilly ainda sofre
com a falta de amor do pai.
— Claro que podemos, meu amor. Desculpe a minha falta de
sensibilidade. — Então a convido para dançar. Será a nossa primeira dança.
Pego-a pela mão e conduzo-a até a pista.
Estar com a Lilly em meus braços e em público, sem medos, sem
amarras e o mais importante, sem culpa... Culpa por não estar traindo a
promessa que fiz ao meu pai de vingá-lo... é maravilhoso. Estreitá-la em
meus braços, sentir as reações que desperto em seu corpo. Saber que provoco
emoções em uma pessoa tão especial e que essas emoções não são de raiva,
rancor, mágoa, ou ira... Não tenho como descrever o quanto isso é bom, o
quanto é prazeroso.
Saí do inferno, estou conhecendo o céu e nunca mais quero sair dele.
Penso com um suspiro.
É bem tarde quando saímos do restaurante. Assim que entro no carro e
verifico se Lilly está segura, ligo a ignição. Lilly automaticamente encosta a
cabeça em meu ombro e a sua mão toca minha coxa. Só esse simples gesto
faz labaredas crescerem dentro de mim e já imagino as coisas que farei com
ela quando chegarmos em casa.
— Amor. — Sua voz doce me traz de volta. Olho ligeiramente para ela e
sorrio, alisando sua mão com a minha, voltando depois minha atenção à
estrada. — Posso pedir uma coisa?
— Todas que quiser, meu amor. — Só tenho medo do que ela irá me
pedir.
— Eu gosto muito da mansão, mas eu gostaria de voltar para a ilha.
Podemos voltar amanhã?
Fico surpreso com o pedido, pois nunca pensei que ela gostaria de voltar
algum dia para a casa da ilha. Afinal, foi lá que a mantive quase como uma
prisioneira, ou pelo menos essa foi a minha intenção.
Encaro-a rapidamente.
— Tem certeza que é isso que quer? — indago.
— Sim, e quero também visitar o meu pai. Será que posso ir vê-lo? Se
não quiser ir, irei sozinha.
Este pedido é inusitado e quase me faz parar o carro abruptamente. Mas
penso rápido e percebo que não posso afastá-la do pai, ele pode ser um
assassino, mas é o pai dela.
— Voltaremos amanhã para a ilha. Quanto voltar ao Brasil sozinha, nem
pensar. Irei com você, só preciso de um tempo para agilizar algumas coisas
na empresa. Dá para esperar?
O beijo quente que ganho no rosto é a melhor resposta que recebo.
— Está cansada? — pergunto quase em um sussurro. Meus lábios tocam
levemente sua cabeça.
— Não — murmura, ajeitando a cabeça em meu ombro. Sorrio e
continuo dirigindo calmamente.
— Chegamos, meu amor — anuncio, passando a mão em seu rosto.
Lilly adormeceu em meu ombro. Abre os olhos e me encara, sorrindo. Já
estou completamente rendido por seu lindo sorriso, seu jeito de menina
levada, implicante, teimosa, mas que aprendi a amar desde que a conheci em
Paraíso.
Saímos do carro. Coloco-a em meus braços e a levo para dentro de casa.
Lilly não diz nada, apenas encosta a cabeça em meu peito e permanece
quieta. Entramos no quarto e a coloco no chão, ao lado da nossa cama. Ela
ergue a cabeça, eu me aproximo e coloco a mão em sua nuca, acariciando-a
com movimentos suaves.
Ficamos nos olhando demoradamente. Inclino-me em direção aos seus
lábios e a beijo. É um beijo macio e carinhoso, diferente dos beijos que
costumamos dar. Ela apoia as mãos em meu peito, mas logo a envolvo num
abraço quente e apaixonado.
Meus lábios percorrem sua face e tocam seus olhos e a testa. O calor me
toma por completo, arrebatando tudo em nós como um fogo devorador. Neste
momento queremos ser um só, não há lugar para dois. Quando se trata de
mim e Lilly, há uma fusão de partículas que nos une, tornando-nos uma só
pessoa.
Suas mãos mergulham nos meus cabelos e um arrepio profundo percorre
minha espinha. Cola-se mais ao meu corpo enquanto solta gemidos de prazer
em minha boca. Desço as mãos por suas costas e aperto-a, fazendo-a sentir o
tamanho do meu desejo, crescendo e endurecendo por ela. Lilly se roça em
mim, provocando-me, e não se dando por satisfeita, desliza os dedos sob o
meu paletó por dentro dos botões da minha camisa. Solto um urro prazeroso
ao sentir sua tímida ousadia.
O beijo que começou tão suave transforma-se numa lavareda unindo
dois corpos, dois corações, num incêndio único e total. A força desta energia
magnânima é tão poderosa que parece que nada é capaz de nos separar neste
momento. Então, nos despimos lentamente, como se não quiséssemos acabar
com o momento mágico, este momento de amor. Retiro peça por peça das
suas roupas e ela das minhas, e quando estamos totalmente nus, nos
afastamos para admirarmos a nossa nudez, o nosso desejo. Lilly fita a minha
ereção que está louca para senti-la, que está louca para saciar sua fome, e eu
fito os bicos retesados dos seus seios. Estamos famintos um pelo outro. Pego-
a nos braços, dou a volta na cama e a coloco com cuidado sobre os
travesseiros. Ao deitá-la, fito o meu dedo anelar esquerdo e o brilho do
círculo dourado que está nele reluz em meus olhos, o símbolo da nossa união.
Encaro-a com todo amor e o nosso olhar diz tudo, hoje nos amaremos de uma
maneira diferente, de uma maneira ardente, lânguida, única.
41
RAPHAEL

A chuva cai na ilha de Bergsen quando chegamos, e assim que


descemos do helicóptero, dispensei-o, pois não quero correr o risco de deixar
o piloto preso na ilha. Quando começa a chover o nevoeiro toma conta de
tudo.
Lilly é só sorrisos, mesmo com o tempo fechado e nuvens negras no céu,
ela está feliz e isso me deixa satisfeito. Sônia, ao nos ver entrar, corre ao
nosso encontro e abraça a Lilly. Fico surpreso com o seu gesto, pois ela
nunca foi de expressar carinho, só quando eu era criança. Ela costumava me
encher de afagos sempre que tinha oportunidade.
— Como a senhora está linda! — Seu olhar varre todo o rosto da Lilly.
— Como está? Sente-se bem? Eu sinto tanto pelo o que aconteceu...
Lilly deixa de sorrir, e isso me preocupa.
— Está tudo bem, Sônia — limpo a garganta e puxo a Lilly para perto
do meu peito. — Estamos bem e felizes, não está vendo? — Lilly ergue o
rosto, sorrindo feliz. O ar triste desapareceu. Devolvo o riso e a beijo
levemente nos lábios.
— É isso mesmo que estou vendo? — Sônia leva as mãos à boca. — O
senhor está rindo! Está rindo de verdade! — diz, admirada.
— Sim, agora eu tenho motivos para sorrir. — Sorrio abertamente,
apertando nos braços o meu motivo de felicidade.
— Isto é motivo para comemoração. Vou preparar um almoço especial
para vocês. Quanto tempo ficarão na ilha?
Sônia fala com entusiasmo e eu me contagio com sua felicidade.
Começo a perceber o quanto eu perdi durante o tempo em que fiquei fechado
em meu mundo sombrio.
— Viemos para ficar, Sônia. Eu adoro esta ilha... — Lilly responde à
pergunta.
— E o Alfredo e a Mila, senhor Raphael? — Sônia olha para mim e
inquire. Ela sabe que o Alfredo e a Mila não gostam da ilha, como também
sabe que eu não me separo dos dois.
— Ficaremos aqui durante a semana e nos finais de semanas voltaremos
para Ålesund. Lilly prefere ficar aqui, então ficaremos aqui.
— Prefiro mesmo. Gosto de mato, bichos, rios... — Olha para mim e faz
uma carinha sapeca. Eu sei bem o que ela quis dizer com rio. Lembro-me
imediatamente da nossa aventura no rio que temos na ilha.
Pisco um olho, encosto minha boca em sua orelha e sussurro.
— Rio, é? Depois a levarei até lá. — Mordo o seu lóbulo e ela encolhe o
ombro. Limpo a garganta e digo: — Amor, vou buscar nossas coisas, volto já.
— Está bem, vou para o nosso quarto descansar um pouco. Eu o espero
lá.
Beijo-a e a deixo com a Sônia.
Entro em casa com nossas malas e as levo direto para o quarto. Procuro
a Lilly, mas não a encontro.
— Amor... Lilly? — chamo-a. Procuro-a no banheiro, ela não está lá.
Volto para a cozinha, talvez esteja com a Sônia
— Sônia, a Lilly está aqui com você? — Olho em volta, procurando um
sinal da minha Lótus.
— Não, ela ficou na sala, disse que ia ao gabinete ligar para o pai. —
Sônia me responde, então sigo em direção ao gabinete.
Já estou a alguns passos do meu gabinete, quando vejo uma porta aberta,
a antiga sala de pintura do meu pai. Estremeço e um calafrio percorre todo o
meu corpo. Ando lentamente em direção à sala, pedindo mentalmente para
que a Lilly não esteja lá. Tarde demais...
A encontro de pé, de costas para mim, tocando em uma tela em tamanho
natural, a última pintura em aquarela que meu pai pintou. Nem lembrava mais
dela, foi há tanto tempo.
Lilly percebe a minha presença, e sem deixar de tocar a tela, vira a
cabeça na minha direção.
— Que brincadeira é essa, Raphael? Quem é essa moça? Porque não sou
eu... Mesmo sendo muito parecida comigo, não sou eu. E esse homem...
quem são eles? — Olho para a pintura e só então percebo a semelhança entre
mãe e filha.
Seus olhos atordoados me encaram. Eu sei que ela não lembra da mãe,
como também sei que ela não conhece a história de amor da sua mãe com o
meu pai. Já estava convencido que precisava lhe contar a verdade. No
entanto, ainda não havia criado coragem para lhe mostrar a verdade nua e
crua. Não sei qual será sua reação ao saber que sua mãe foi apaixonada por
outro homem.
— Oh, Deus! — Sônia entra subitamente no quarto de pintura e diz,
assustada: — Perdoe-me, senhor Raphael, eu não sabia que vocês viriam,
então resolvi abrir o quarto para arejá-lo e limpá-lo. Não foi minha intenção...
— Está tudo bem, Sônia — a interrompo — Cedo ou tarde a Lilly
precisaria saber a verdade mesmo.
— Verdade? Que verdade? — Lilly se vira em nossa direção.
— Pode ir, Sônia, ficará tudo bem. — Sônia se vai e eu encaro os olhos
atordoados da minha linda Lótus.
— O que eu preciso saber, Raphael? O que está acontecendo aqui? —
questiona e me fita com um olhar interrogativo.
Sigo até ela e seguro suas mãos trêmulas. Quero tanto abraçá-la, dizer-
lhe que fui um idiota esse tempo todo. Confessar-lhe que nada mais importa,
a não ser o amor que sinto por ela, mas tenho medo de ser interpretado mal
quando ela souber a verdade.
Varro o seu rosto com um olhar suplicante, com meu coração batendo
contra o peito de tal forma que até penso que ele sairá pela minha caixa
torácica.
— Lilly... — engulo o medo. — Você não se lembra da sua mãe? —
Pergunto com a esperança de que lá no fundo ela traga vestígios dos traços
que a assemelham à mãe.
— Sim, mas as únicas lembranças que tenho de minha mãe é de vê-la
triste em uma cadeira de rodas, com olheiras profundas, cabelos presos num
coque. Era raro vê-la sorrir e ela nunca saía da penumbra do seu quarto. Ela
era uma mulher amargurada e solitária, às vezes eu a escutava chorando e
outras suplicando a Deus que a levasse. São fragmentos de lembranças de
uma criança muito pequena, Raphael, fragmentos que procurei esquecer, pois
essas lembranças só me fazem pensar que minha mãe nunca me amou...
É a primeira vez que a escuto falar sobre a mãe e não gosto nada do que
escuto e sinto. Lilly apagou todas as lembranças da mãe porque elas a faziam
sofrer. Será que é certo contar a verdade sobre a Eva e o meu pai? Será que
não manchará ainda mais a imagem que a Lilly tem da mãe?
Mesmo com todas as dúvidas, resolvo lhe contar a verdade... A minha
verdade, a verdade que eu quero que ela saiba.
— Lilly, esta moça na pintura... — aponto com um gesto na cabeça para
o quadro que está atrás dela. — É a sua mãe. E o homem que está atrás dela é
o meu pai.
— Como!? — Esquiva-se, dando um passo para trás — Não pode ser... é
brincadeira, não é? Você não está falando sério — Volta-se para a pintura e a
analisa. — Minha... mãe... Não é possível... — cala-se, paralisa-se por
completo. Demora tanto a reagir que dou um passo em sua direção. Então ela
se vira e me encara com os olhos marejados. — Você... você mentiu para
mim. Você já me conhecia. Por que, Raphael, por que escondeu isso de mim?
E o que o seu pai tem a ver com a minha mãe?
Tento tocá-la, ela se afasta e o meu pior pesadelo aos poucos vai
ganhando vida.
— Meu amor, antes de explicar eu quero que saiba que a amo e que
nada do que vou te contar tem mais importância para mim. Só você é o que
importa...
— Então é verdade, você já sabia quem eu era? — interrompe-me e as
lágrimas começam a escorrer de seus lindos olhos. Eu me culpo por isso.
— Não, não, Lilly. Eu não sabia que a minha Lótus era a filha da Eva...
— digo tristemente. — Lilly, eu preciso que saiba que tudo o que fiz foi
guiado por uma promessa que fiz ao meu pai, mas quando a conheci naquele
lodo de lótus, mesmo sem saber quem era, tudo o que pretendia fazer perdeu
o sentido...
Engasgo em meu medo. Prevejo o pior, algo dentro de mim grita: Você
vai perdê-la, seu idiota!
— Continuo sem entender, Raphael Salles. O que você e o seu pai têm a
ver com minha mãe? — Fodeu, agora tenho certeza que tudo irá por água
abaixo, ela me chamou por meu nome completo. — Raphael... Raphael, estou
esperando. Não me enrole, conte-me logo o que interessa. — Lilly torna-se
fria, a docilidade some de sua voz e seu olhar lança-me flechas de gelo.
— Preciso lhe contar desde o início para que possa entender. Então, por
favor, peço que não me interrompa...
— Tentarei. — Ela me interrompe e eu lanço um olhar de objeção. —
Desculpe-me, continue.
— Quando minha mãe faleceu, meu pai caiu em si e toda a sua fortaleza
foi por terra. Mesmo não amando a minha mãe, ela era a sua companheira e
os dois se gostavam muito. Como ele precisou cuidar dela, de mim e da
empresa, isso o sobrecarregou e a doença o pegou. Os médicos o
aconselharam a tirar férias e em um lugar quente, era isso ou uma morte
certa. Então meu pai foi para Paraíso, para o castelo da família...
— Castelo?! — Lilly me interrompe, avança dois passos e me encara
com um olhar acusador. — Então — engole em seco —, então aquele castelo
é seu, você não foi comprá-lo... — E por fim, sua ficha cai e a minha
desgraça vem junto. — Você é... o dono da metade de Paraíso. Não, diz que
não é isso... porque se for, sua família é inimiga da família do meu pai e...
Ela se esquiva mais um pouco, leva a mão à boca, incrédula.
— Lilly, eu não sou inimigo da sua família, mas... — Calo-me, engulo o
que ia dizer. — Deixe-me contar tudo, por favor. — Ela baixa os cílios e
depois me encara com um olhar indecifrável. Continuo: — Sim, o meu pai se
chamava Adam Bergsen, ele era um conde e dono da metade de Paraíso...
— O Conde de Bergsen! — diz admirada — Como não juntei as coisas?
Estamos na ilha de Bergsen... Meu Deus, como não desconfiei? Então o seu
pai conheceu minha mãe e se apaix...
— Sim — retomo a palavra. — Foi lá que ele a conheceu e os dois se
apaixonaram perdidamente, mas sua mãe estava prometida a seu pai e tudo se
transformou em uma fatalidade. Seus avós não aceitaram o pedido de
casamento do meu pai, e o Rodrigo não quis desistir do casamento, mesmo
sabendo que a Eva não o amava. Assim os dois resolveram fugir para se
casarem no Rio de Janeiro. Papai precisou voltar para cá, mas prometeu à sua
mãe que assim que voltasse resolveria tudo.
Faço uma pausa. Lembrar como tudo aconteceu, o que causou a morte
do meu pai, é angustiante e faz com que meus demônios retornem. Luto para
não os expor a Lilly, ela não precisava conhecê-los a fundo.
Lilly permanece imóvel, ébria em sua letargia.
— Todos os dias eu via papai pintar este quadro. Foi assim que eu
conheci a mulher que o fez sorrir outra vez. Ele estava tão feliz, esta casa era
só felicidade. Todos aqui conheceram a Eva através desta pintura.
Observo a pintura em cada detalhe e ainda vejo o meu pai diante de
mim, pintando-a...
Eva está dentro do lodo de lótus, com uma flor nas mãos, um lótus
vermelha. Está sorrindo, os cabelos longos cobrem os seus seios e as flores e
raízes não nos permitem ver sua nudez. Papai se autorretratou, ele está atrás
dela com as mãos apoiadas em seus ombros e o rosto bem próximo dos seus
cabelos, sorrindo...
— Raphael... — A voz sussurrada de Lilly me traz de volta à realidade.
— Desculpe-me, lembrar certas coisas não é fácil.
— Então termine logo, porque não está sendo fácil para mim também.
— Diz secamente. Essa não é a minha Lilly e ela ainda nem sabe a terça parte
de tudo.
Continuo:
— Ele me contou como a conheceu e dos planos para se casarem no Rio
de Janeiro. Voltei com ele para o Brasil e quando chegamos em Salvador,
papai recebeu uma ligação — aqui eu minto — avisando-o que a Eva estava
sendo levada contra a vontade para algum lugar que ninguém sabia o
endereço, só o Rodrigo. E que ela só sairia de lá no dia do casamento.
Lilly me encara assustada, como se não acreditasse no que está
escutando.
— Papai entrou em desespero, acelerou o carro. Levamos menos de duas
horas para chegar a Paraíso, e antes de ir atrás do Rodrigo, ele foi me deixar
no castelo. — Fito-a com os olhos incertos, medrosos com o que está por vir.
— Você conhece a estrada que leva ao castelo e sabe o quanto ela é perigosa?
— Pergunto e ela assente. — Desesperado e com pressa de impedir o
Rodrigo, papai perdeu o controle do carro e caímos no penhasco. O carro
ficou preso em algumas árvores, e para que eu não morresse, ele me atirou
para fora do veículo, nas copas das árvores. Eu me agarrei nos galhos e assisti
o carro cair com o meu pai dentro. Eu o vi pegar fogo, escutei os gritos do
meu pai e senti o cheiro de sua carne queimando. Eu só tinha dez anos de
idade...
— Meu Deus! Pare, Raphael, pare. Eu já conheço essa história, só não
sabia o motivo... — Lilly chora, mas continua distante. Chora a minha dor e
eu também choro. Volto a ser aquela criança desesperada, inútil, que assistiu
a morte do pai e nada fez para ajudá-lo.
— Quando... — Limpo as lágrimas do meu rosto e continuo. — Quando
o Alfredo me resgatou, eu jurei diante das cinzas do meu pai que vingaria a
sua morte, que faria o Rodrigo pagar por tudo...
— Como assim? — Ela me interrompe. — Como assim se vingar do
meu pai? Pelo o que me contou não foi o meu pai quem empurrou o carro do
seu no penhasco. Foi um acidente...
— A culpa foi dele, sim! — exclamo ferozmente, dou dois passos em
direção a Lilly com os punhos cerrados. — Ele matou meu pai. Se ele tivesse
desistido da Eva, nada disso teria acontecido, meu pai estaria vivo...
— Não, foi um acidente. Um acidente. Pelo amor de Deus, Raphael,
meu pai não é um assassino. Ele errou por ter obrigado minha mãe a se casar
com ele, mas não é culpado por seu pai ter morrido...
— É, sim... — grito enfurecido, chego bem próximo a Lilly e nos
encaramos.
— Não é... — Ela sussurra e chora.
Desarmo-me e a puxo para meu peito, aperto-a o quanto eu posso, quero
que toda a dor que ela está sentindo desapareça com o meu abraço, com o
meu amor. Ficamos assim, presos um ao outro, sentindo a emoção nos
acariciar, até que ela me empurra e fixa o olhar no meu, um olhar inquisidor.
— E o que eu tenho a ver com tudo isso? Porque até agora tudo o que eu
sei não está fazendo muito sentido para mim.
Chegou a hora da verdade, a hora que eu não queria que existisse.
— Nada disso mais importa, Lilly. O que importa é que amo você...
— Não... — Exasperada, Lilly soca o meu peito. — Importa para mim.
Quero saber tudo, entendeu? Tudo...
Ela bate em meu peito com força, me chuta, esbraveja. Tento contê-la,
segurando-a. Choro o meu desespero, o meu medo de perdê-la.
— Ok, ok. Eu conto, mas não esqueça que a amo e nada do que contarei
agora tem importância para mim, ok?
Respiro fundo, solto-a e ela se afasta, fitando-me com um olhar
apavorado.
— Voltei para cá convicto da minha promessa. Fui estudar em um
colégio só para garotos e dediquei cada milésimo de segundo dos meus dias
para planejar minha vingança. Aos dezesseis anos fui para a faculdade, e
quando me tornei maior de idade contratei pessoas para ficarem próximas ao
Rodrigo. Fiquei sabendo de cada passo que ele dava, até como ele respirava
eu sabia. Tudo o que acontecia com o seu pai eu ficava sabendo, inclusive
que ele tinha uma filha. Mas só tinha fotos suas de quando era pequena,
depois que você foi para a Suíça não tive mais como obter notícias suas.
Viro-me, caminho na direção da janela, enfio as mãos nos bolsos da
calça e respiro profundamente. Enquanto olho para um ponto fixo do jardim,
continuo:
— Quando assumi as empresas, montei uma casa de jogos próxima a
Paraíso. Eu sabia que o Rodrigo se viciou em jogo e usei isso a meu favor.
Sou craque em estatística e estratégia e isso colaborou para atingir os meus
objetivos. Contratei pessoas especialistas em jogos e viciei o seu pai.
Ajudava-o a ganhar muito dinheiro, e quando ele estava confiante e apostava
tudo o que tinha, eu o fazia perder. Com isso ele foi perdendo toda a sua
fortuna, e quando não tinha mais nada, só restando a fazenda, ele começou a
se envolver com agiotas perigosos. Como a minha intenção não era matá-lo,
comprei todas as suas dívidas e proibi os agiotas de lhe emprestarem mais
dinheiro...
Paro por alguns instantes. Preciso respirar, relembrar tudo isso é cruel.
Na época em que planejei tudo foi muito prazeroso, cada estratégia articulada
era uma obra de arte. Hoje, vendo por outro ângulo, era algo monstruoso.
Continuo...
— Foram anos fazendo o Rodrigo perder tudo, cada centavo. Até só lhe
restar a menina dos olhos e a fazenda, que ele apostou e perdeu. Deixei-o
pensar que eu havia esquecido, então num belo dia resolvi cobrar e o tiro de
misericórdia foi a contraproposta. Eu devolveria tudo se ele aceitasse que me
casasse com a sua filha e ela me desse um filho. O que ele não sabia é que
todos os seus bens estariam no nome do neto e que eu seria o administrador.
Na hora certa eu planejava me apresentar para ele como o Conde de Bergsen,
filho de Adam, o homem que ele matou. O grande amor da única mulher que
ele amou...
Viro-me, quando escuto sua voz de assombro.
— Meu Deus, você é um monstro! — Lilly leva a mão ao peito e me fita
com um olhar chocado. — Que plano diabólico. Em nenhum momento você
pensou em mim, em seu filho?! Só na sua vingança idiota... Monstro,
monstro. Como pude me apaixonar por você...
Cego com suas palavras cruéis sigo apressado em sua direção, seguro-a
pelos punhos e faço com que me encare.
— Nunca lhe disse que sou um anjo. Eu avisei que não sou bom, disse-
lhe que não tenho alma, que a perdi no dia em que meu pai morreu por culpa
do seu, mas... — Sacudo-a quando ela desvia os olhos dos meus. — Eu tentei
deixá-la longe de mim, lembra-se? Quando descobri que minha Lótus na
verdade era a Lilly Linhares González, eu a quis, mesmo sabendo que não
podia tê-la. Acredite, Lilly, lutei feito um desesperado contra esse sentimento.
Fiz de tudo para me livrar dele, mas já era tarde demais, não pude lutar contra
mim mesmo. Eu me tornei o meu pior inimigo quando me apaixonei por você
e lhe entreguei todas as armas, me rendi ao seu amor. Olhe para mim, Lilly!
— Exijo e sacolejo o seu corpo. As lágrimas banham o meu rosto. Estou
trêmulo, posso dizer que até febril.
— Odeio você... — ela murmura aos prantos, enquanto exijo que me
encare.
— Olhe para mim. — Esbravejo. Como ela não obedece, prendo o seu
corpo próximo ao meu com um dos meus braços, enquanto a outra mão
curva-se em seu queixo, forçando-a a me encarar. — Amo você e não me
importo mais com essa vingança idiota. Seu pai pode ficar com tudo, eu só
quero você.
Ela varre os olhos em meu rosto desesperado. Vejo o seu sofrimento no
brilho do seu olhar, as lágrimas descendo feito cascata, fazendo um caminho
molhado em suas bochechas rubras. Ficamos nos encarando por alguns
segundos, até que escuto o seu suspiro e os seus lábios se abrem.
— Então responda à minha pergunta. O amor que sente por mim é maior
do que o ódio que sente por meu pai?
Fico confuso, não esperava esta pergunta. Fito-a atordoado sem saber o
que responder. Solto-a, esquivo-me um pouco, passo a mão nervosamente
pelos fios dos meus cabelos e volto a fitá-la.
— Lilly, eu a amo. Amo muito, no entanto, o que sinto pelo seu pai não
é algo que sumirá assim da noite para o dia. É preciso...
— Você já me respondeu... — Fala rapidamente, passa na minha frente,
indo em direção à porta. Ela para, vira-se e completa: — Raphael, eu posso
até conviver com o ódio do meu pai por você, porque a escolha é dele, mas
não posso conviver com o seu ódio por ele, porque é com você que estarei
todos os dias da minha vida. Nós teremos filhos e não quero viver e criá-los
em um ambiente onde reina o ódio. Eu o amo, amo mais do que tudo na vida.
Por você esqueço até o ódio das nossas famílias, e se meu pai escolher me
virar as costas, eu não ligo, a escolha será dele, mas eu jamais virarei as
costas ao meu pai porque você não o perdoou. Então, se um dia você
conseguir fazer o seu amor por mim ser maior do que o seu ódio por meu pai,
poderemos ser felizes. Adeus.
— Lilly... Lilly... — Ela se vira bruscamente e sai a passos largos. Corro
atrás dela gritando: — Lilly, aonde você vai?
— Embora. Vou voltar para o Brasil — diz sem parar os passos
apressados.
Sigo atrás dela. Fora de casa consigo interceptá-la, segurando-a pelo
braço.
— Você não irá a lugar algum, não sem antes conversarmos. Merecemos
isso depois de tudo que passamos. Reflita, pelo amor de Deus!
Impaciente, ela puxa o braço da minha mão, olha-me contrariada como
se quisesse jogar uma porção de palavras em minha cara. Eu sei que está
magoada, sei que está decepcionada, e o pior, acha que estou sendo injusto
com o seu pai, acusando-o de assassino. Todavia, eu prefiro que ela se magoe
comigo a que descubra a verdade sobre o pai, mas eu não quero perdê-la.
— Não temos mais nada a conversar, entendeu? — Fixa os olhos em
meu rosto enquanto continuo pensativo, procurando uma justificativa para
convencê-la a não desistir de nós dois. — Raphael! — Pisco os olhos e a
encaro. — Se não me levar até o aeroporto eu irei sozinha. Você disse que eu
podia ir embora quando quisesse. Eu quero ir e quero agora.
Vira-se mais uma vez e sai caminhando apressada, deixando-me sem
saber o que fazer. Pela segunda vez na vida não sei o que fazer, a primeira foi
quando meu pai morreu. Sigo-a, ela está indo em direção ao ancoradouro.
— Lilly, pare. Pare! — vocifero, ela para. — Ok, eu a levo, mas para a
mansão. Precisamos esfriar a cabeça, amanhã com mais clareza você decide
se volta ou não para o Brasil.
— Não, eu volto hoje, nem que tenha de esperar o dia inteiro no
aeroporto por um voo com escala. Irei embora hoje, só espero que me ajude,
você me deve isso. Ou então serei obrigada a pedir ajuda a outras pessoas.
Sei bem quem são “as outras pessoas”. Ela se refere ao Magnor. Bate-
me uma insegurança misturada a um ciúme matador, e eu quero matá-lo.
— Está bem. Se é isso que quer, não a impedirei. — Por um momento
penso que ela voltará atrás, mas foi só impressão, ela vira as costas e segue
andando. — Não vai pegar suas coisas? — Pergunto ainda parado, olhando-a
se afastar.
— Tudo o que preciso está dentro da minha bolsa — responde.
Respiro fundo e sigo o caminho para a lancha. Ainda tenho a esperança
de que durante o trajeto de barco eu a convença de não partir para o Brasil.
Lilly se fecha por completo, fica afastada de mim durante todo o tempo
que ficamos na lancha.
— Como iremos para o aeroporto? — pergunta enquanto eu a ajudo a
descer da lancha.
— Tenho um automóvel no estacionamento da marina — respondo.
Tento segurar sua mão, mas a orgulhosa Lótus não aceita. Andamos lado a
lado até chegarmos ao carro.
Está chovendo muito, posso dizer que o céu está fazendo o que eu
gostaria de estar fazendo agora – chorando. Olho-a de soslaio, ela está
introspectiva, olhando para o lado contrário. Avalio sua postura corporal;
seus dedos brincam com a barra do vestido, ela está nervosa. O carro derrapa
um pouco e ela se assusta, olhando-me apreensiva. Volto a minha atenção
para a estrada. A estrada que dá acesso à marina é perigosa, cheia de curvas e
descidas que ficam piores quando chove, então preciso aumentar a atenção ao
volante.
— Lilly, vamos para a mansão. Prometo não forçá-la em sua decisão,
mas precisamos conversar. Eu a amo, não quero perdê-la.
— Já disse, quero voltar para o Brasil, e por favor, preste atenção na
estrada. — Sequer vira o rosto para me olhar, sua voz é indiferente, magoada.
Isso me irrita.
— Lilly, olhe para mim. Não me trate assim, coloque-se em meu lugar
por alguns segundos...
— Raphael... — Estou olhando para ela, gritando irritado, quando escuto
o seu grito e o seu olhar apavorado em direção ao para-brisa. — Cuidado, um
carro!
Devido à chuva intensa, o asfalto está liso demais, e para não colidir
com o outro veículo, jogo o carro para o lado contrário. A curva é muito
fechada e meu carro capota indo em direção a algumas árvores. Só tenho
tempo de me jogar por cima da Lilly para protegê-la do impacto. Depois
disso, não vejo mais nada.
42
LILLY

Acordo confusa, não consigo abrir os olhos devido a uma luz


próxima à minha cabeça. Levo as mãos ao rosto para impedir que ela chegue
até meus olhos e escuto vozes próximas de onde estou deitada. Tento me
erguer, mas mãos me impedem.
— Ela acordou, graças a Deus! — alguém sussurra.
— Onde estou? — pergunto, um pouco desorientada.
— Ei, fique quieta, o médico já está vindo. — Reconheço a voz, é da
Mila.
— Médico? — Mais uma vez sou impedida de me levantar, desta vez é
o Alfredo quem me impede.
— Calma, Lilly. Já está tudo bem. — Há uma terceira pessoa no quarto.
Ergo a cabeça e a procuro, encontrando-a. — Oi... você nos deu um tremendo
susto, sabia? — O rosto bonito e sorridente do Magnor está diante de mim.
Ele acaricia meu pé por cima do lençol branco.
Só então cai a minha ficha... O acidente, o carro vindo de encontro ao
nosso.
— Raphael... Raphael! — Desesperada, tento me levantar de qualquer
jeito. As lágrimas já nublam meus olhos — Onde está o Raphael? Soltem-me,
eu preciso vê-lo... Raphael...! — Grito alucinada. Penso no pior, uma dor no
peito me dilacera.
— Lilly, se acalme, filha. Raphael está bem, não se preocupe.
— Bem? — Fito com lágrimas nos olhos as três pessoas que estão me
olhando preocupadas. — Bem eu sei que ele não está, porque se estivesse
estaria aqui do meu lado. Então me digam logo o que aconteceu com ele.
— Se a senhora está querendo saber sobre o seu marido... — Um
homem com cabelos brancos vestido com um jaleco branco e um sorriso
estampado no rosto entra no quarto. — Afirmo que ele está bem e não corre
risco de morte.
— Só isso não é o bastante. Onde ele está e por que não estou com ele?
— indago, com expressão preocupada.
— Ele está bem, filha. Não se preocupe. — Mila diz carinhosamente,
passando a mão no meu rosto.
— Senhora Lilly, sou o doutor Gardar. — O homem simpático diz
enquanto verifica a medicação. — Apesar do acidente ter sido muito grave, a
senhora não sofreu ferimentos sérios. Só ficamos preocupados com a demora
em recobrar a consciência...
— Como assim? Desde quando estou no hospital? — Começo a ficar
apavorada.
— Há dois dias. — Ele pega o meu pulso e olha para o relógio. —
Tranquilize-se, está tudo bem com a senhora e com o bebê...
— Bebê?! Como assim? — interpelo o médico — Estou grávida?
— Sim, está. A gravidez é muito recente, tem cinco semanas, e graças
ao seu marido não lhe aconteceu nada. Ele foi muito corajoso e rápido, se
jogou por cima do seu corpo, protegendo-a do impacto.
Começo a chorar... Grávida? E agora, o que eu faço?
— O Raphael já sabe? — pergunto. Olho para o médico e depois para os
três que estão me olhando, emocionados.
— Não. — O médico, limpa a garganta e desconfio que algo não está
tão bem quanto parece. Ele se senta na cama. — O senhor conde está na
UTI...
— UTI? — Ergo o corpo e me sento. Mila segura minha mão e a
acaricia.
— Calma, minha filha, ele está bem. Não fique assim, pense no bebê. —
Calma! Como ficar calma, Raphael está na UTI!
— Lilly, está tudo bem. — Magnor continua acariciando o meu pé, mas
sua voz trêmula me deixa preocupada.
— Doutor Gardar, explique logo a situação do Raphael — pede Alfredo,
com o seu ar de pai preocupado.
— O senhor Conde fraturou a tíbia da perna direita em dois lugares e o
rádio em um. Precisou fazer uma cirurgia para colocar pinos de platina, e
como a dor de uma cirurgia óssea é terrível, preferimos induzi-lo ao coma.
Ele está bem. É claro que ficará sem poder sair da cama por pelo menos um
mês e a recuperação para voltar a andar dependerá dele. Precisará de
paciência e de muita fisioterapia, mas em alguns meses ele estará andando.
De três a quatro meses, no mínimo.
Levo as mãos ao rosto e choro convulsivamente. Mila me ampara nos
braços.
— É verdade, Mila? — Soluço. — Ele está bem mesmo? Está fora de
perigo?
— Sim, filha. O nosso Raphael está bem, ele só está descansando. Se ele
estivesse acordado já teria derrubado este hospital para saber se você está
bem, então é melhor mesmo que fique dormindo.
Afasto-me da Mila, limpos os olhos e encaro o médico, que me olha
com um olhar compreensivo.
— Por quanto tempo ele ficará em coma? — pergunto, engolindo o
soluço.
— Por mais alguns dias. — O médico responde.
— Posso vê-lo?
Vinte minutos depois, sou levada para a sala de UTI. Entro sozinha.
Raphael está muito pálido, sua perna está suspensa por aparelhos e o seu
braço preso ao corpo. Toco em seu rosto com carinho, beijo-o escorregando
os lábios até sua boca. Permaneço lá por alguns minutos, saboreando o seu
sabor. Seus lábios estão gelados, ásperos.
— Meu amor, eu o amo tanto, tanto — digo sem me afastar dos seus
lábios, com minhas lágrimas molhando o seu rosto. — O médico disse que
você está bem e ficará curado. Perdoe-me. Perdoe-me, meu amor, mas
preciso deixá-lo. Eu sei que estou sendo má, mas preciso ir. Não posso ficar
com você, não agora que espero um filho seu. Não posso criar o nosso filho
em um lar cheio de ódio, o nosso filho precisa de amor e eu posso dar isso a
ele, já que nem o pai nem o avô podem.
Beijo-o demoradamente, como se o beijo deixasse um pedaço de mim
em sua boca, para que quando acordasse soubesse que estive aqui antes de
partir.
— Adeus! Espero que um dia você saiba a resposta da minha pergunta e
assim possamos ficar juntos como uma família.
Ainda com o rosto bem próximo ao dele junto os nossos narizes,
roçando suavemente. Afasto-me e por longos minutos o observo, minha mão
sobre a dele acariciando-a com o polegar. Não quero ir, não quero deixá-lo,
mas sei que é preciso. Sei que não podemos ficar juntos, não agora. Raphael
precisa se curar, precisa cicatrizar suas feridas, mas precisa fazer isso
sozinho, sem a minha ajuda. Porque, infelizmente, eu não sou o seu bálsamo,
sou o seu veneno. Sou a pinça que arranca as cascas de suas feridas. Sei
disso, pois sou a filha do homem que ele pensa ser responsável pela morte de
seu pai, e enquanto ele pensar assim, todas as vezes que olhar para mim vai
deixar o ódio se erguer em seu coração.
— Se cure, meu amor, e não me queira mal. Adeus!
Esquivo-me lentamente, escorregando minha mão sobre a dele, até que
não o toco mais. Deixo a UTI aos prantos, com o coração em frangalhos...
— Lilly, não fique assim. Raphael está bem, eu sei que é assustador vê-
lo deitado coberto por tantos fios e imobilizado daquele jeito, mas é para o
bem dele. Logo ele acordará e vai nos encher de ordens e fazer com que
percamos a paciência com ele. Não chore, meu anjo.
Se o Alfredo soubesse que o meu choro não é por ver o Raphael
prostrado em uma cama na UTI, mas sim porque preciso ir embora e deixá-lo
sem ao menos me despedir. Sem ao menos dizer-lhe o quanto o amo.
Não respondo nada, apenas me perco no abraço carinhoso do melhor
amigo e pai de coração do amor da minha vida.
Entro no quarto e encontro o sorriso amistoso da Mila.
— Lilly, não fique assim, não é bom para o bebê tanta tristeza. Se o
Raphael souber que está tão triste ele se amaldiçoará por toda eternidade. —
Mila me acolhe em seus braços protetores. — Tenho uma notícia ótima para
dar, você está de alta médica. E aí, não está feliz?
Mal consigo sorrir, estico os lábios num sorriso forçado e sento-me na
cama.
— Lilly, a Mila tem razão, não fique assim. — Graças a Deus o Magnor
não foi embora, ele ainda está aqui. Eu precisarei dele.
— Então, vamos nos apressar, Mila. Antes de deixá-la na mansão
preciso passar nas empresas Bergsen e você precisa preparar a casa para
receber a Lilly. — Alfredo articula.
— Não precisam correr, o Magnor pode me levar. Só preciso que ele
pegue algumas roupas na mansão. Onde está minha bolsa? — articulo
apressadamente.
— Suas coisas estão ali no armário. E não se preocupe, eu trouxe umas
roupas para você. — Mila vai até o armário e mostra algumas roupas
penduradas nos cabides.
— Então podem ir despreocupados, o Magnor me leva. — Mila e
Alfredo se entreolham como se tivessem dúvidas sobre aceitar o fato do
Magnor ficar sós comigo.
— Ok, então, esperamos você em casa. — Alfredo olha para Magnor. —
Cuide bem dela, ela é sua responsabilidade a partir de agora.
— Cuidarei, sim, não se preocupem. — Magnor pisca um olho para
mim.
Mila me beija e o Alfredo também. Magnor os acompanha até a porta.
— O que está acontecendo, Lilly? — Magnor pergunta enquanto fecha a
porta atrás de si. — Não é só a tristeza por ver o Raphael na UTI. Há mais
alguma coisa, não há?
Baixo a cabeça e toda a minha tristeza é jogada para fora através das
lágrimas. Magnor, ao notar, se apressa a me abraçar ternamente. Aceito o
consolo, não consigo mais esconder minha dor, meu desespero. Escondo meu
rosto no peito protetor do meu amigo norueguês.
— Hellig gud[1]! Lilly, o que foi? Em que posso ajudar? — Sou abraçada
com extremo carinho, mãos gentis acariciam minhas costas. — Ei, seja o que
for, você sabe que pode contar comigo. — Limpo minhas lágrimas em sua
camisa. — Quando estiver pronta é só falar.
Permaneço em seu abraço por mais alguns segundos, suas mãos alisando
minhas costas e seu queixo quadrado massageando o alto da minha cabeça.
Aos poucos recupero minhas emoções, afasto-me do Magnor e limpo meu
rosto com o dorso da mão.
— Magnor... — puxo a respiração — preciso da sua ajuda, só peço que
não me julgue. — Esquivo-me um pouco mais para fixar os meus olhos nos
dele. — Você poderia me ajudar a voltar para o Brasil ainda hoje?
Ele corre os olhos por todo o meu rosto. Vejo a confusão latente em
cada piscada.
— O que aconteceu para querer fugir? O que o orgulhoso do meu primo
fez para fazê-la ir embora?
Engulo em seco. Magnor precisa saber a verdade, então respiro fundo
outra vez e conto-lhe tudo o que sei...
— Nossa! — ele exclama, abismado. — Você é uma González! —
Encara-me, incrédulo. — Lilly, a sua família é inimiga dos Bergsen há várias
gerações. Quando seu pai souber que casou a única filha com o seu pior
inimigo vai matar o Raphael.
— Eu sei. Eu conheço a história, mas não me importo com o ódio do
meu pai, importo-me com o ódio do Raphael. Ele está convicto que meu pai é
culpado pela morte do dele, e enquanto ele pensar desta forma, jamais
poderemos ser uma família. — Meu olhar angustiado encontra o olhar
preocupado do Magnor. — Não posso criar nosso filho no meio de duas
pessoas que se odeiam até a morte. Não posso, Magnor, por isso preciso me
afastar do Raphael. Ele precisa escolher entre o ódio e o amor...
— E se ele escolher o ódio? — Magnor me interrompe. — Eu sei que o
ódio do Raphael não é por causa das terras. Ele não liga para isso, o próprio
Adam já pensava em vendê-las e o Raphael cogitou isso também. Certa vez,
meu pai comentou isso comigo. Pelo o que você me contou, o ódio dele é
pela hipótese do seu pai ser o culpado pela morte do tio Adam, e se for isso,
ele nunca o perdoará. Conheço meu primo, Lilly, isso é quase impossível de
acontecer.
— Se ele escolher o ódio eu peço o divórcio e cada um segue seu
caminho. Criaremos nosso filho como muitos casais criam, separados. —
Digo, tristemente.
Magnor encara-me com duas rugas de preocupação na testa.
— E o que pretende fazer quando chegar ao Brasil? Pelo que disse você
vai abrir mão de tudo, vocês ficarão na completa ruína. Lilly, não é bem
assim como Raphael quer, você tem direitos, principalmente agora que espera
um filho dele.
Levanto-me, caminho até o armário, separo as roupas que vestirei e as
demais junto dentro de uma valise.
— Por enquanto não quero nada, mas eu sei que se Raphael resolver
optar pelo divórcio, ele será justo. Raphael é um homem correto. — Fecho a
valise, a bolsa, pego a muda de roupas e sigo para o banheiro.
— E enquanto isso você e o seu pai vão viver de quê? — Magnor
pergunta enquanto me troco.
— Arrumo um emprego. Não sou uma inútil, de fome não vamos
morrer. — Saio do banheiro de roupa trocada e cabelos presos no alto da
cabeça.
— Sim, mas antes de arrumar um emprego, vão morar onde? Porque
terá que deixar a fazenda, foi o que me disse. Já que não quer que seu pai
saiba por enquanto sobre a gravidez.
— Penso nisso quando chegar ao Brasil... — Fico de frente ao Magnor.
— Pronto, podemos ir. Não quero que o Alfredo ou a Mila me encontrem
aqui. — Digo convicta.
Magnor pega minha valise, abre a porta e me deixa passar na sua frente.
Do hospital para o aeroporto da Noruega leva cerca de quase duas horas.
Magnor respeitou o meu silêncio, o único barulho que ouvíamos era o som da
música que tocava no carro.
Assim que chegamos ele pega o meu passaporte.
— Fique aqui, já volto. — Magnor compra algumas revistas e dois
livros, entrega-me e me deixa sentada na sala de espera do aeroporto. Após
longos minutos ele retorna com um riso nos lábios.
— Consegui um voo particular para você. Ele a deixará no aeroporto de
Salvador e lá um veículo particular a levará para Paraíso. Ele ficará à sua
disposição por quanto tempo precisar. — Fita-me com um olhar carinhoso.
— Isto aqui deverá mantê-la por alguns meses, mas se precisar de mais é só
me ligar. Darei um jeito para que minha ajuda chegue em suas mãos.
Ele me entrega um pacote, abro-o. Dentro dele há dois maços de
dinheiro.
— Dólares! Ficou louco? Jato particular, o que é isso, Magnor? Não
precisava de nada disso. — Tento devolver o pacote. Ele afasta minhas mãos.
— Não sou milionário como Raphael, mas tenho o bastante para ajudá-
la. — Ele me puxa para o peito, beijando minha testa em seguida. — A
pessoa que irá pegá-la no aeroporto já está orientada a trocar os dólares por
reais, não se preocupe. Agora só precisamos esperar uns vinte minutos para o
jato ser preparado para decolar.
Quarenta minutos depois estou embarcando. Despeço-me do Magnor
com lágrimas nos olhos. Eu sei que ele queria me convencer a ficar, mas
vendo a minha determinação desistiu. Nos abraçamos demoradamente, ele
prometeu que assim que puder irá me visitar no Brasil. Assenti, sem me soltar
dos seus braços. Entro no pequeno avião com a certeza de que ganhei um
grande amigo, mesmo que ele sinta por mim mais do que amizade.
Paraiso, Brasil
Depois de horas presa dentro de um avião – apesar do conforto – e de
mais duas horas de carro, sem esquecer do fuso horário, chego a Paraíso,
minha pequena cidade, onde deixei e trouxe saudades e dores. Durante os
meses que passei longe a guardei na memória, principalmente o lodo de
Lótus e a cachoeira do Castelo de Bergsen. Aquele lugar sempre foi o meu
paraíso secreto, era lá que escondia minhas frustrações e a infelicidade da
falta de amor de meu pai por mim. Foi lá também que encontrei o amor da
minha vida, foi lá que descobri o sentido da palavra desejo.
Esses pensamentos fazem com que peça para o motorista parar por um
segundo. Olho em direção à estrada que dá acesso ao castelo, então lembro-
me das palavras doloridas do Raphael ao culpar o meu pai pela morte do
seu...
“Meu pai perdeu o controle do carro e caímos do precipício. Se ele não
estivesse tão apressado para resgatar sua mãe, se o seu pai tivesse desistido
de se casar com ela, nada disso teria acontecido...”
Talvez o Raphael tenha razão, se meu pai não fosse tão obcecado pela
minha mãe, Adam Bergsen estaria vivo hoje.
Respiro fundo, engulo as lágrimas que teimam em nublar meus olhos.
— Siga direto e vire à esquerda — falo com o motorista.
Já é final de tarde. Estou muito cansada, meu corpo pede um bom prato
de sopa que só a Nuza sabe fazer e pede a minha cama. Preciso dormir pelo
menos umas cinco horas ininterruptas. O motorista para o veículo e desce
para abrir o altivo portão de ferro que dá acesso à majestosa fazenda Paraíso.
Um dos empregados, ao me ver, acena com a mão e abre o portão. O
motorista retorna ao carro e seguimos. Está tudo exatamente como eu deixei,
trabalhadores indo e vindo, pequenas locomoções agrícolas circulando pelas
vias apropriadas para elas.
Assim que desço do carro, chamo um dos funcionários e peço para que
leve o motorista até um dos quartos de empregados, o acomode e mostre
onde fica a cozinha, pois ele dormirá na fazenda.
Subo as escadas lentamente, com os pensamentos atordoando minha
cabeça. Como será que meu pai me receberá? Respiro profundamente, e
enquanto solto o ar, aliso meu ventre que guarda o fruto do meu amor por
Raphael. Decidi não contar sobre minha gravidez ao meu pai, pois tenho
certeza que sua reação será a pior possível quando souber quem é o
verdadeiro pai do seu neto. Por enquanto fingirei que não sei de nada,
deixarei para contar a verdade quando o Raphael decidir se seguiremos juntos
ou separados.
Assim que entro em casa sinto uma enxurrada de emoções, vem uma
sensação de nostalgia. Foi como se alguém soprasse aos meus ouvidos
palavras de recordações de quando eu era criança, onde costumava correr
pela casa alegremente cantando minhas canções infantis, correndo do meu pai
quando brincávamos de esconde-esconde ou de pega-pega. Sorrio ao lembrar.
Escuto as vozes de um chamando pelo outro, ele sempre me chamando de...
minha princesa. Por que ele deixou de me amar? Quando isso aconteceu?
Não lembro, o que lembro é que assim que mamãe foi para o céu eu não vi
mais meu pai. Ele nunca mais me chamou de “minha princesa” e nunca mais
brincamos. Eu fiquei sozinha nesta enorme casa, trancada em meu quarto
com minhas bonecas, até que um dia um homem veio me buscar e me levou
para um lugar muito distante, com um vocabulário estranho, onde demorou
muito para que pudesse entender o que falavam. A saudade do meu pai
querido quase me matou, mas sobrevivi e superei sua ausência com a certeza
de que um dia ele voltaria a me amar muito mais do que me amou um dia...
— Lilly... — Viro-me em direção a voz assombrada que chama meu
nome. — O que faz aqui? — Toda a saudade, todo o amor que sinto por ele –
meu pai – são finalmente colocados para fora em forma de lágrimas. Corro
para os seus braços e entrego-me ao calor saudoso.
— Papai, papai... — As palavras saem apertadas e emboladas. —
Quantas saudades de você, meu pai querido. — Meus braços forçam o aperto,
quero escutar o seu coração bater em meu ouvido.
Ficamos abraçados, deixando a emoção correr solta, nossas lágrimas
varrendo a saudade para longe. Suas mãos, que antes não me tocavam, não
me faziam carinho, agora passeiam pelos meus cabelos com esmero, cuidado
e atenção.
— Filha, minha princesa...
Ah, Deus! Eu precisava tanto escutar isso. Escutar assim, como antes.
Com força, com emoção sentida. Ele me afasta do seu corpo, mas só o
suficiente para seus olhos avaliarem o meu rosto.
— Onde está o seu marido? — Vê-lo tão de perto, sentir e saber que ele
ainda me ama, é bom demais. — Lilly, o que aconteceu?
— Eu o deixei, papai... — baixo os cílios. — Não consegui — engulo o
choro e volto a fixar meu olhar ao dele. — Perdoe-me...
— Até que enfim... — Ele me puxa, abraçando-me outra vez. — Oh,
meu Deus, obrigado! — Diz, enquanto afaga meus cabelos. — Filha, você
não sabe como tem sido penoso para mim ter permitido essa sandice de ter
aceitado aquela proposta indecorosa. Eu já tinha me conformado com a
falência, mas você se pôs na frente e aceitou se casar com um homem que
sequer conhecia. Sim, eu sei que fui um covarde por tê-la deixado ir. Devia
ter impedido, mandado aqueles idiotas plantarem batatas, mas preferi deixá-la
carregar o meu fracasso. Perdoe-me, minha princesa. Perdoe-me por não ter
sido um pai quando você mais precisou de um.
Ele segura o meu rosto com as duas mãos e beija minha testa
demoradamente.
Solucei; meu pai estava de volta. O homem que me amou com tanto
ardor quando eu era apenas uma criança, está finalmente de volta.
— O senhor sabe o que vai acontecer com esta decisão, não sabe? —
Estou me referindo que com o rompimento do contrato, teremos que sair da
fazenda. Mesmo eu sabendo que não é preciso, porque o Raphael perdoou a
dívida.
Contudo, se eu disser isso, precisarei contar a verdade sobre tudo,
inclusive que espero um filho, um herdeiro dos Bergsen, e nem quero pensar
como será a reação do meu pai. Então o melhor a fazer é esperar um tempo.
Eu sei que assim que o Raphael puder andar ele virá atrás de mim,
independente da sua resposta. Assim nós enfrentaremos o senhor Rodrigo
González juntos.
— Eu sei, filha. Minhas malas estão prontas desde o dia em que você
resolveu aceitar a proposta do senhor Salles. Amanhã cedo iremos embora
para bem longe daqui, começaremos uma vida nova. Não sei como, mas farei
o que puder para que nada lhe falte.
— Pai, eu posso trabalhar. Não se preocupe, teremos uma vida bastante
humilde, mas fome e frio não passaremos. — Olho para seu rosto tristonho e
abatido com carinho.
Ele me abraça a andamos em direção à cozinha.
— Você deve estar com fome. A cozinheira deve ter sexto sentido, ela
preparou uma sopa de legumes, a que você adora.
Papai puxa uma cadeira para eu me sentar. Ele vai até o armário, pega
dois pratos e duas colheres. Procuro a Nuza na cozinha, mas não encontro
vestígio dela.
— Onde está a Nuza, ela já se recolheu?
— A Nuza foi embora semana passada para o Amapá, um dos seus
irmãos sofreu um acidente muito grave e ela foi cuidar dele. Acho que ela
não volta mais, mas disse que ligaria para você assim que as coisas se
tranquilizassem.
Fico triste com a notícia. Nuza foi como uma mãe durante muito tempo.
Ela era minha companheira, a única figura materna que tive durante o tempo
que passava de férias na fazenda. Minha conselheira, amiga e cúmplice de
todas as travessuras.
— O senhor tem alguma ideia de para onde podemos ir? — pergunto
enquanto sopro a sopa na colher para esfriá-la.
— Não. Desde que seja bem longe de Paraíso e das redondezas, não me
importo onde seja. Quero recomeçar em um lugar onde ninguém tenha ideia
de quem somos, é só isso que peço.
Entendo o papai, ele é orgulhoso demais para admitir diante da
sociedade que está na completa miséria, como também pedir a ajuda de
alguém. Mesmo porque, conhecendo sua arrogância e prepotência, ninguém
lhe estenderia a mão, ao contrário, cuspiriam em seu rosto e depois lhe
virariam as costas. Homens como o papai, que pisam com soberba na
fragilidade dos outros, não são amados, nem respeitados, são temidos. E
quando a vida os empurra para o chão, são pisoteados sem piedade. É melhor
mesmo irmos para um lugar bem longe de Paraíso, mais tarde farei uma
pesquisa no Google, deve existir alguma cidade bem pequena no mapa que
possa nos acolher amistosamente.

Levamos cerca de cinco horas para chegarmos a Areal do Norte, uma


cidadezinha pacata, bem pequena, que no máximo tinha 15.000 habitantes,
segundo o Google. Peço ao motorista para que nos espere, desço do carro e
sigo em busca de informações sobre algum lugar onde possamos ficar até
conseguir uma casa para alugar. Fiz umas contas rápidas, e se o aluguel não
for muito caro, economizando o dinheiro que o Magnor me deu, dá para
passar uns três meses sem emprego.
Entro em uma lanchonete pequena, muito bem cuidada, com papai bem
atrás de mim. Ele quer fazer tudo sozinho, disse que o homem é ele e que é
ele quem deve cuidar de mim, não o contrário. Eu sei que o papai tem uma
voz rude, viveu a vida toda dando ordens sem ser contestado, então acho
melhor eu mesma conversar com as pessoas antes que façamos inimigos, ao
invés de amigos.
— Oi, bom dia! — Olho para o relógio, são quase 12h. Volto meu olhar
para a mulher de cabelos pretos, presos no alto da cabeça. Presumo que deva
ter uns quarenta e poucos anos. É bonita, apesar da simplicidade de suas
roupas e do rosto sem nenhuma maquiagem.
— Bom dia! Em que posso ajudar? — Debruça-se sobre o balcão, nos
dando um amistoso sorriso. — O estabelecimento é simples, mas serve uma
comida caseira de lamber os beiços. — Passa ligeiramente o olhar pela figura
do papai, que está ao meu lado.
— O cheiro é bom — digo. — Estamos procurando um hotel ou
pousada.
A mulher nos olha de cima a baixo. Encara papai por algum tempo.
— Hotel? Tá brincando? No máximo você vai encontrar a pensão da
dona Violeta, e vá por mim, vocês não vão gostar. — Fita-me novamente. —
Estão perdidos ou de passagem?
— Minha senhora, nesta cidade tem ou não tem uma pousada? — Papai
a interrompe e pergunta, impaciente. Seguro em sua mão, alisando-a.
— Meu nome é Lilly Linhares e este é meu pai, Rodrigo. Qual o seu
nome? — Olho para ela sorrindo e estendo a mão.
— Larissa, prazer. — Desvia os olhos do papai.
— Larissa, não estamos perdidos, nem de passagem. Viemos para ficar e
precisamos de um lugar fixo, por acaso sabe de algum?
— Sei. Está pronto para morar e é mobiliado. Não é luxuoso, se quiser
conhecer posso levá-los até lá.
— Queremos, sim. Pode ser agora? — A sorte está do nosso lado, acho
que o universo está conspirando a nosso favor.
Ofereço carona, mas ela nos diz que não precisa, pois tudo na cidade é
perto. Andamos por mais ou menos quinze minutos e damos de cara com
uma casinha bem modesta em madeira.
— Moro ali... — Larissa aponta para uma casa bem maior, toda
avarandada, ladeada por um lindo jardim. — Seremos vizinhos. Esta casa era
do irmão do meu marido, ele já faleceu.
— E o seu marido, onde ele está? — Papai pergunta. — Não seria
melhor ele mesmo fazer as negociações? — O machismo dele grita.
— Meu marido morreu há dois anos de infarto. Cidade pequena, o
hospital mais próximo fica a uma hora daqui, como não sei dirigir, ele morreu
por falta de assistência médica. — Explica com uma tristeza explícita no
rosto.
— Eu sinto muito, desculpe minha arrogância. — Papai desmancha a
carranca.
— Está tudo bem... Então, gostaram? O aluguel é baratinho, é melhor do
que ficar na pensão da Violeta.
Ela me diz o preço e é mais barato do que pensava, aceito na hora.
Entramos na casa. A sala tem uma mesa quadrada de madeira com quatro
cadeiras, um sofá de dois lugares e uma pequena TV. Na cozinha um fogão,
geladeira e uma pia. O banheiro é pequeno, mas tem tudo o que é necessário.
Já o quarto é bem arejado, há duas camas de solteiro, um pequeno guarda-
roupa e uma cômoda que fica ao lado de uma enorme janela.
— Pago agora? — pergunto com um sorriso enorme nos lábios. Larissa
diz que deixasse para a noite, quando ela trouxesse o contrato. — Nossa!
Estou tão feliz, agora só falta o emprego. — Digo, girando em volta de mim
mesma, admirando a minha casinha.
— Se não se importar de ganhar pouco, eu também preciso de uma
garçonete. O meu ajudante foi embora da cidade e fiquei com uma mão na
frente e outra atrás. O salário é pequeno, mas nessa cidade não precisamos de
muito para viver.
Agora eu tenho certeza de que o universo está conspirando a meu favor.
Em menos de uma hora encontro uma casa para morar e um emprego. Não
posso ficar triste, tenho mesmo é que agradecer. Papai não fica satisfeito,
resmunga que quem tem que trabalhar é ele, e não eu. Eu sei que é difícil para
um homem como ele ser sustentado por uma mulher, mesmo que essa mulher
seja sua filha.
Voltamos para a cidade. Agradeci a Larissa e ela nos disse que à noite
levaria o nosso jantar, já que não tem mantimentos na dispensa. Também
acertaríamos o meu horário na lanchonete e a data de pagamento do aluguel.
Volto para a nossa casinha com o motorista, e assim que ele nos ajuda com
nossas coisas, despede-se e vai embora.
43
RAPHAEL

Uma luz fraca está acesa acima da minha cabeça e a luminosidade


que vem através dela não deixa os meus olhos se abrirem totalmente. Tento
me mover, mas não consigo, algo me prende à cama. Sei que estou em um
quarto de hospital, sinto seu cheiro peculiar, no entanto, ainda não consigo
conciliar meus pensamentos direito. Pisco os olhos rapidamente, tentando me
acostumar à claridade. Ao tentar erguer o braço, uma dor atinge-o por
completo e um som intermitente soa em meus ouvidos. Vozes se aproximam
de onde estou e a aflição me toma. O que será que aconteceu comigo? Por
que estou todo amarrado?
Alguém entra no quarto e me toca no ombro.
— Seja bem-vindo de volta, senhor Conde. O médico já foi avisado que
já acordou, logo ele estará aqui. — A voz tranquila apazigua um pouco
minhas emoções.
— Onde estou?
— No hospital...
— Em um hospital eu sei que estou — interpelo a enfermeira que me
olha com repreensão. — Quero saber em que lugar do hospital estou.
— Na UTI. O senhor sofreu um acidente muito sério, lembra-se?
Então, as cenas que vêm em minha cabeça são assustadoras, uma
mistura do passado com o presente. Lembro do meu pai sendo devorado pelo
fogo e lembro-me da Lilly gritando assustada.
— Lilly... Lilly, minha esposa. Onde ela está? — Desesperado, tento me
levantar, mas estou preso e o simples esforço de tentar erguer a cabeça me
deixa completamente tonto.
— Calma! Calma, senhor Conde. Não pode se levantar, fique calmo.
— Calmo?! — Fito a enfermeira com veemência — Onde está minha
esposa? — Vocifero a plenos pulmões.
O medo me corrói por dentro, medo de tê-la perdido assim como perdi
meu pai. Não consigo me lembrar de muita coisa do acidente, só lembro do
grande automóvel vindo de encontro ao nosso e eu me jogando por cima do
corpo da Lilly para protegê-la.
— Minha esposa, onde ela está? — Já não consigo dominar minha
emoção, lágrimas nublam meus olhos. — Por favor, diga-me que nada
aconteceu com ela. Só me diga isso...
As cenas do carro do meu pai tomado pelo fogo vêm com força em
minha mente. O cheiro horrível de carne humana sendo queimada. Gritos,
murmúrios...
— Não! Não...! — Aperto os olhos, agito a cabeça na tentativa
desesperada de afastar aquelas imagens.
— Calma, senhor Conde. Se o senhor não se acalmar, serei obrigado a
colocá-lo para dormir outra vez. — Desta vez escuto uma voz masculina.
Abro os olhos e encaro o rosto de um senhor de aparência tranquila e com um
sorriso ameno nos lábios. — Sou o doutor Gardar e o senhor precisa se
manter calmo.
— Minha Lilly, onde ela está? — Engulo o nó da garganta e me preparo
para o pior.
— Sua esposa e o seu filho estão bem. Ela já recebeu alta médica há três
dias, devem...
— Filho? — Devo estar sonhando, pois escutei o médico dizer a palavra
filho.
— Sim, sua esposa está grávida de poucas semanas e, graças ao senhor,
ela não sofreu nenhum trauma, só alguns arranhões. Foi muito corajoso ter se
jogado por cima dela, mas o seu ato de heroísmo lhe custou caro...
— Como assim? — Fito o médico, confuso — O que aconteceu comigo
e por que não consigo me mexer? Estou paraplégico?
Mais uma vez tento erguer a cabeça, tento olhar para mim mesmo. Sei
que há algo errado, meu braço está preso ao meu peito por ataduras e não
consigo sentir minhas pernas. O que me apavora é que só vejo um lençol
branco me cobrindo do umbigo para baixo.
— Senhor Conde...
— Por favor, pare de me chamar de conde. Me chame de Raphael. —
Interpelo o médico, irritado. — Não me enrole, doutor Gardar, seja direto.
— Bem — ele limpa a garganta. — O senhor fraturou a tíbia da perna
direita em dois lugares e o rádio do braço direito em um. Foi necessário fazer
uma cirurgia para colocar pinos de platina, e para não sentir as dores pós-
cirúrgicas, o induzimos ao coma. Porém o senhor ainda sentirá muitas dores e
precisará ficar por algum tempo na cama, no mínimo um mês. Quanto a
voltar a andar precisará, de muita fisioterapia e força de vontade. A
recuperação não será fácil, mas em poucos meses estará andando.
— Quantos meses? — pergunto, soltando o ar com insatisfação.
— Três meses, no mínimo — ele sorri. — Não se preocupe, Raphael.
Logo, logo estará voltando às suas atividades normais. Poderia ter sido pior.
— Gardar vira-se para a enfermeira. — Preparem-no para transferi-lo para o
quarto. — Volta a me encarar. — Tomei a liberdade de avisar à sua família
que está de alta da UTI. Mais tarde passarei em seu quarto para saber como se
sente.
Assim que o médico vai embora, penso na Lilly. Ela está grávida, espera
um filho nosso, o símbolo do nosso amor. Agora ela não pensará em me
deixar, agora poderemos recomeçar. Minha família está completa, minha
Lótus. Meu amor.

— Pronto, senhor conde...


— Já pedi para não me chamar de senhor, tampouco de conde. Mas que
merda!
— Estou vendo que o senhor já está quase recuperado. — Alfredo e
Mila entram no quarto bem no momento em que estou ralhando com a
enfermeira.
— Alfredo... Mila. — Como eu queria poder abraçá-los. Eu não posso,
mas recebo um abraço dos dois. Mesmo com extremo cuidado é um abraço
caloroso.
— Nada de esforço, senhor conde. — Fito a enfermeira com as
sobrancelhas arqueadas e ela percebe a minha insatisfação. — Desculpe...
nada de esforço, Raphael. Melhorou? — Ela sorri, piscando um olho. — Ele
está bem. Já foi medicado, mas se sentir algum desconforto é só apertar este
botão aqui. — Mostra-me um pequeno interruptor que está ao alcance da
minha mão esquerda, em seguida vai embora.
— Onde está a Lilly? — Olho em direção à porta, esperando-a entrar
com o seu lindo sorriso. Alfredo e Mila se entreolham. — Cadê ela, onde está
minha Lótus? — Alfredo abaixa a cabeça e isso não é nada bom. Aconteceu
alguma coisa. — Alfredo, onde está a Lilly? Por que ela não está aqui?
Alfredo se afasta e vai até a janela. Ele me esconde algo. Olho para
Mila, ela parece nervosa, triste, pensativa.
— Mila — ela abaixa o olhar —, o que aconteceu? — Seu olhar
tristonho me encara.
— Ela... ela...
— Foi embora. — Alfredo interrompe a esposa. Vira-se e me encara. —
Lilly voltou para o Brasil no mesmo dia que recebeu alta. Eu sinto muito, não
pude fazer nada, só soube três horas depois que embarcou...
— Como assim? Ela não tinha dinheiro para comprar uma passagem. —
Se eu pudesse andar, já estaria a caminho do aeroporto. Fito o Alfredo,
furioso.
— O Magnor a ajudou. Ela pediu ajuda para ele...
— Aquele cretino, juro que o mato. — Estou com tanta raiva que se o
maldito do meu primo surgisse na minha frente agora, juro que me levantaria
da cama e o mataria. — Alfredo, por que ela foi embora? Ela pelo menos
deixou algum bilhete explicando ao idiota aqui as razões pelas quais resolveu
ir embora, levando nosso filho no ventre?
Alfredo e Milha me encaram assombrados.
— Sim, eu sei que ela está grávida e quero explicações. Quero falar com
o Magnor.
— Se acalme, filho. — Alfredo vem em minha direção e segura meu
ombro, tentando me manter quieto. — O próprio Magnor me procurou e me
explicou o que aconteceu...
— A Lilly... — Mila se senta na cama e segura minha mão. Alfredo se
cala. — Ela não quer que o filho nasça em um lar cheio de ódio, rivalidade e
vingança.
— O que você contou para ela, meu filho? — Alfredo pergunta com um
olhar preocupado.
— Só o que ela precisava saber. Eu lhe disse que meu pai sofreu um
acidente quando estava indo buscar a Eva e na pressa de salvá-la perdeu o
controle do carro e caímos no penhasco. Disse-lhe que culpava o Rodrigo
pela morte do papai.
— Raphael, ela acha que o pai é inocente e que você é o vilão da
história? Por que não lhe disse a verdade? — Alfredo fala com certo amargor
na voz.
— Porque ela não merece sofrer — interrompo-o bruscamente. — Lilly
não precisa saber que o pai é um assassino frio. É o pai dela, Alfredo, não
posso fazer isso...
— Ainda acho que ela deve saber a verdade — Alfredo afirma.
— Não por mim. Eu sei o que é perder um pai, não quero que a Lilly
passe por isso.
— Eu consegui entrar em contato com ela. — Meu coração acelera ao
escutar isso. — Magnor me deu o telefone da empresa de motoristas
particulares que levou a Lilly. Ela está morando em uma cidadezinha bem
longe de Paraíso. — Me espanto com a novidade.
— Como assim? Eu perdoei a dívida do Rodrigo. Por que ela foi embora
de Paraíso? — digo, ainda atordoado com a notícia.
— Consegui o telefone do local onde ela está trabalhando....
— Trabalhando?! — A cada novidade eu me espanto com a coragem da
Lilly.
— Sim, em uma lanchonete... — Ele olha para a Mila e ela sorri, como
se estivesse orgulhosa de Lilly. — Bem, falei com ela, tentei fazê-la mudar de
ideia. Até me ofereci a ir buscá-la, no entanto, ela está irredutível, não voltará
e mandou um recado para você. Disse que quando soubesse a resposta da
pergunta que ela fez fosse procurá-la, seja qual fosse a resposta. Raphael...
qual foi a pergunta?
Respiro fundo, por alguns segundos mantenho meu olhar baixo,
pensativo. Após meu momento introspectivo volto a fixar o meu olhar em
Alfredo.
— Ela perguntou se o meu amor por ela é maior que o meu ódio por seu
pai... — Volto a ficar introspecto, respiro profundamente. — Talvez ela tenha
razão, talvez seja melhor mesmo nos separarmos...
— Quanta bobagem! — Mila, que até então não se manifestara, fica de
pé e me olha com repreensão. — Raphael Bergsen, deixe de sandice. Se não a
amasse tanto, teria contado toda a verdade para ela. Será que você não está
vendo que o amor aconteceu outra vez entre as famílias? Deus está dando
mais uma oportunidade. O senhor Adam e a Eva não conseguiram ficar
juntos, mas você e a Lilly podem. Não permita que o ódio e a rivalidade
afastem outra vez duas pessoas que se amam. Deixe de ser burro...
— Mila! — Alfredo a interrompe bruscamente. — Olhe o respeito.
— Eu sinto muito, mas não ficarei calada vendo outra vez o amor
escapar entre os dedos desta família. — Dizendo isso com toda convicção,
Mila nos dá as costas e sai do quarto.
Alfredo ainda tenta detê-la, mas eu o chamo.
— Deixe-a ir, Alfredo. Ela tem razão, sou um burro. — É difícil admitir
isso. — Amo a Lilly, Alfredo, mas não posso fechar meus olhos para o que
sinto pelo Rodrigo. Eu o vi, escutei-o dar as ordens para os seus capangas, e
desde então vivi por esse ódio. Articulei minha vingança esse tempo todo e
não posso esquecer, não é fácil. Não sei se conseguirei olhar nos olhos do
assassino do meu pai e apertar-lhe a mão. Talvez eu nunca consiga, meu
amor ainda é pequeno diante do ódio que sinto.
— A Mila está certa em um ponto, filho. — Afasto meus pensamentos
tristonhos e encaro o homem gentil diante de mim. — Se o seu amor não
fosse maior do que o seu ódio, você teria contado a verdade para a Lilly.
Pense nisso, não permita que o Rodrigo afaste vocês dois. Se isso acontecer,
ele será o vencedor mais uma vez. E pense da seguinte forma, se aquela
tragédia não tivesse acontecido, hoje você e a Lilly seriam irmãos...
— É verdade, Alfredo, mas mesmo assim ainda não consigo esquecer o
que o Rodrigo fez. Não sei se posso perdoá-lo.
— O perdão é uma dádiva, meu filho. Só os fortes e de corações
grandiosos têm o dom do perdão, e não conheço uma pessoa mais grandiosa
que você. Sei que o amor vencerá, é só uma questão de tempo e tempo você
terá bastante de hoje em diante, enquanto se recupera. Pense, não se preocupe
com a Lilly, entrei em contato com a dona da lanchonete, ela cuidará bem
dela.
Alfredo, como sempre, é o meu grande protetor, ele sempre sabe o que
fazer sem que eu precise pedir. Eu já ia mandá-lo procurar alguém para
cuidar da Lilly sem que ela precisasse saber. Realmente o tempo está a meu
favor, talvez a razão e a emoção façam uma trégua e me ajudem a fazer as
escolhas certas. Esse tempo de recuperação será útil para tentar entender os
meus sentimentos conflitantes... Amor ou ódio, quem vencerá?
Oito dias depois
— Alfredo, preciso falar com você. Eu tomei uma decisão. — Desligo o
telefone.
Estou há treze dias no hospital e já não suporto mais ficar em uma cama.
Tudo o que faço é nela. Das coisas mais simples, como comer ou tomar
banho, às mais complicadas, como fazer as minhas necessidades fisiológicas.
Isso era humilhante, se não ultrajante, nunca precisei de ninguém para fazer
qualquer coisa, e hoje até para pentear os cabelos preciso de ajuda. Doutor
Gardar disse que se tudo continuar correndo bem, estarei de alta médica em
dezessete dias. Conto com isso, pois pretendo ir atrás do que é meu o mais
depressa possível.
Vinte minutos depois, Alfredo entra no meu quarto com um olhar
curioso. Ele e a Mila se revezam para cuidarem de mim. A Mila fica durante
o dia e ele no período da noite.
— Onde está a Mila? — Alfredo pergunta, procurando a esposa no
pequeno ambiente hospitalar. Olha em direção ao banheiro.
— Calma, ela não fugiu, foi almoçar — digo sorrindo com o jeito que
ele procura por ela. — Sente-se e respire, não o chamei para apagar um
incêndio.
— Pelo tom da sua voz ao telefone eu pensei que algo ruim tinha
acontecido — argumenta, enquanto se senta na poltrona ao lado da minha
cama.
Continuo todo amarrado com minha perna pendurada por fios e
correntes e o meu braço preso ao corpo, só sou libertado quando o
fisioterapeuta vem fazer suaves movimentos para que minha perna e o meu
braço não atrofiem. Também preciso mover minha coluna e minha perna e
braço esquerdos.
— Como sabe, tenho previsão de alta para o início do mês, então eu
quero que mande transformar a biblioteca do castelo em um quarto com todo
o equipamento necessário que precisarei para minha recuperação. E
providencie um transporte aéreo especializado para me levar para o Brasil e,
consequentemente, para Paraíso. Quero estar lá o quanto antes, já tenho a
resposta que a Lilly precisa.
Alfredo fica boquiaberto com o que acabo de lhe dizer. Ele sabe que
quando tomo uma decisão não tem volta, não há como ser contestada. Por
mais que minha condição exija cuidados minuciosos, não posso esperar ficar
completamente recuperado para me encontrar com a Lilly. Tenho pressa em
resolver nossa situação, sem falar que estou quase morrendo de saudades da
minha linda Lótus vermelha.
44
LILLY

Dois meses Depois

Hoje o dia está chuvoso. É a primeira vez que vejo chuva depois que
cheguei ao Brasil, Areal do Norte é uma cidadezinha seca, calorenta e
poeirenta. Cheguei até a pensar que aqui não chovia. Gosto de dias chuvosos,
quando era mais jovem gostava de sentir as gotas da chuva caindo em meu
rosto, mas especialmente hoje não sinto essa vontade. As nuvens escuras
trazem lembranças de outro lugar – a ilha de Bergsen – e bateu uma
nostalgia, uma saudade contida. Este sentimento nostálgico faz com que uma
lágrima desça suavemente sobre o meu rosto. Toco o meu ventre de quase
quatro meses, já posso senti-lo endurecido e um pouco avantajado. Eu o
escondo por baixo de roupas largas, para que meu pai não perceba. Por
quanto tempo esconderei minha gravidez? Espero que o Raphael não demore
muito a vir me procurar.
Raphael, meu amor, por que você é tão teimoso?
E, para não pensar mais no assunto, abro os olhos e vou me sentar ao
lado de papai. Ele está com a cabeça recostada no sofá, os olhos fechados e a
mão pousada no braço esquerdo. Noto, preocupada, que seu rosto se torna
tenso e parece que está sentindo alguma dor.
— Pai, você não está bem? — Ele abre os olhos, alisando o braço. — O
que está sentindo? — pergunto carinhosamente, passando a mão no seu rosto.
— Estou sentindo uma dorzinha no braço esquerdo e um aperto no peito.
Não deve ser nada, querida. Deve ser só cansaço — responde, mas sua voz
trêmula o trai e a sua respiração entrecortada também.
Há alguns dias venho notando que ele se cansa com facilidade e sente
muita dor na nuca. Toco sua testa com o dorso da mão.
— O senhor está frio — comento, com expressão assustada. — Quer se
deitar na cama? — Ele nega com a cabeça. — Quer uma coberta?
— Não, filha. Vai melhorar, eu só... — Ele para de falar e faz uma
careta de dor.
— Papai, o que está doendo?
— Uma pontada aqui... — murmura apertando o peito. Com dificuldade,
abre a boca e tenta respirar melhor.
Está tão pálido que eu penso que ele vai desmaiar.
— Papai! Papai! Meu Deus! O que está acontecendo?
Eu o amparo com os braços e ele deita a cabeça em meu ombro, mas
continua apertando o peito com a mão.
— Vamos ao posto médico enquanto está aberto. — Papai tenta
argumentar e, antes que diga não, eu me levanto, pego minha bolsa e o ajudo
a se levantar.
Em seguida começamos a caminhar em direção ao posto médico. Na
velocidade de nossas passadas, levamos cerca de vinte minutos até
chegarmos ao posto de atendimento. Assim que chegamos, uma enfermeira
vendo minha dificuldade de carregar meu pai, que já estava quase desmaiado,
vem ao meu socorro. Enquanto o levamos para uma sala de atendimento ela
grita, chamando o médico. Um homem vestido com um jaleco branco corre
em nossa direção. Ele ajuda meu pai a se deitar na maca, abaixa-se e põe a
mão em seu peito. Sem desviar os olhos do rosto pálido de papai, ordena à
enfermeira para pegar sua maleta em sua sala. Ela volta apressadamente,
entregando-a ao médico.
Em seguida ele começa a examiná-lo e olha para mim com uma
expressão séria.
— Ele é hipertenso? Usa algum medicamento?
— Não que eu saiba — respondo, olhando para o rosto do papai. — Pai,
o senhor tem problema de pressão alta?
— Não sei, faz tempo que não vou ao médico — responde e respira
profundamente. — Já estou me sentindo melhor. Deve ser o calor infernal
que faz essa cidade, não estou acostumado.
— Não, o senhor não está. Sua pressão arterial está altíssima, vou
medicá-lo e esperar que o medicamento faça efeito, depois voltarei e
conversaremos. Vou prescrever alguns exames. — O médico pede para a
enfermeira providenciar a medicação.
— Qual o seu nome, senhor? E o da senhorita? — Seus olhos
sorridentes varrem o meu rosto demoradamente. — O meu é Ronaldo.
— O dele é Rodrigo González e o meu Lilly. — Estendo a mão para
cumprimentá-lo, ele aceita. Seu olhar continua avaliando o meu rosto com
admiração.
— É um prazer. Fique com o seu pai, daqui a alguns minutos volto para
ver se a pressão voltou ao normal. Agora eu preciso voltar aos outros
pacientes.
Papai fecha os olhos e eu me sento em uma cadeira de ferro que está ao
lado da cama. Noto que ele adormeceu, então fico quieta, deixando-o
descansar.
Permaneço sentada, com os olhos fechados, torcendo as mãos e rezando
mentalmente. Minha vontade é chorar, me sinto tão impotente. Eu sei que
estou muito sensível, a obstetra daqui do posto me disse que é normal as
grávidas se sentirem assim – molengas – nós choramos por tudo. Mas eu sei
que preciso me controlar, ter medo é normal, só não posso deixá-lo tomar
conta da situação. Mesmo que nesses últimos dois meses não esteja sendo
nada fácil... Esconder uma gravidez, fingir que não estou sofrendo com a
ausência do Raphael, e o pior, não contar para papai a verdade sobre a real
identidade do meu marido. Agora mais essa, papai está doente. É muita coisa
para uma pessoa que mal saiu de um colégio interno e que não conhecia a
vida como ela é.
— Filha! Já estou melhor, podemos ir embora. — Papai ergue a cabeça
para me encontrar. Percebo que enruga a testa, então eu sei que continua
sentindo dores.
— Aquiete-se, senhor González. O senhor não irá a lugar algum. —
Pressiono seu peito com a mão, com cuidado, para que volte a deitar.
— Filha, não quero vê-la assim... triste. Estou bem, eu juro. — Tenta me
convencer, mas os seus olhos apertados o desmentem.
— Quando o médico voltar a vê-lo, ele irá dizer se está pronto para
voltar para casa. — Ele não me contraria, luta contra a sua própria
incapacidade de raciocinar.
— Papai, é impressão minha, ou o senhor anda mais sorridente do que
de costume? — Mudo o foco da conversa para distraí-lo.
— O quê?! Então quer dizer que eu não sorrio?
— Sim, o senhor costumava sorrir muito, mas isso foi há muito tempo
do que posso me recordar. Só que de uns meses para cá seus lábios andam
esticados com mais frequência. — Papai arqueia as sobrancelhas, fitando-me
em repreensão.
— Lilly, não comece. Acho melhor você nem falar o que está pensando.
— Então o senhor sabe do que eu estou falando? Ou a quem estou me
referindo? — Ele faz um muxoxo, entortando a boca. — Não adianta me
ignorar, senhor Rodrigo. Pensa que não percebi os olhares que anda trocando
com a Larissa? As gargalhadas na varanda da casa dela? Nem parece o
Rodrigo carrancudo quando está ao lado dela, e eu sei que o sentimento é
recíproco...
— Não comece — ele me interpela rapidamente, na defensiva. — A
Larissa e eu somos apenas amigos. Não tenho interesse nenhum em romance,
só amei uma mulher em minha vida e foi a sua mãe...
— Ela está morta. — Quem interrompe a conversa sou eu. — A mamãe
está morta e o senhor vivo. Está na hora de dar uma chance para o seu
coração, e a Larissa está apaixonada. Os olhares dela e o jeito como o trata é
de uma mulher apaixonada. Deixe de ser um velho idiota e não lute contra
esse sentimento.
— Lilly González, me respeite! — Finge aborrecimento, mas eu sei que
ele sabe que estou certa. — Não tenho a intenção de me apaixonar, e vamos
mudar o assunto da conversa... Onde está esse médico?
— Papai, nosso coração é terra de ninguém, não mandamos nele. O
senhor, mais do que ninguém, sabe perfeitamente disso. Chegou a hora de
amar e ser amado, não desperdice essa oportunidade. — Ele fica pensativo.
— Se a Larissa sente algo por mim é porque não conhece o monstro que
habita aqui dentro. Duvido que se conhecer o homem que fui no passado vá
me amar. Ela irá me odiar, isso sim. — Fala com tanta amargura que fico
com dó do meu pai. Mas o que será que ele fez de tão errado no passado, para
pensar que é um monstro?
— Se for amor, ela não se importará com o seu passado, papai. O amor
faz milagres, não...
— Ai, meu Deus! O que aconteceu? O que você tem, Rodrigo? — Nossa
conversa é interrompida com a entrada brusca da Larissa, cheia de
preocupação e com um ar desesperado.
— Larissa! — alarmo-me. Ela já está inclinada sobre o papai, segurando
sua mão e alisando seus cabelos. Ela nem me olha. — Como soube?
— Já viu o tamanho da nossa cidade? Aqui todo mundo sabe da vida de
todo mundo. O Valdomiro da dona Cotinha foi me contar, disse que viu você
carregando o Rodrigo nas costas em direção ao posto médico.
— Que exagero! — papai se exaspera e tenta se livrar das mãos
carinhosas da Larissa. Ele está envergonhado, principalmente depois da nossa
conversa. — Estou bem, Lari... Larissa. Foi só um mal-estar.
— Pode parar. Não finja que está bem, eu sei que é problema de pressão,
já me informei com a enfermeira. O senhor quer me matar!? Se eu soubesse
que tem pressão alta não teria permitido que comesse torresminho e batata
frita quase todos os dias. Agora o senhor vai se ver comigo, de hoje em diante
eu mesma cuidarei da sua alimentação...
— Estou lascado com vocês. Não comecem a me tratar como um
inválido. Era só o que me faltava, ser tratado como uma criança...
— Torresminho, senhor Rodrigo? — Ronaldo entra no quarto. — Bem,
eu vou relevar, porque o senhor não sabia do seu problema. Mas agora que
sabe, então se cuide. Alimentação saudável é o melhor remédio para controlar
a pressão arterial. — Ele me entrega a receita médica e uma caixa com as
medicações que o papai terá de tomar de hoje em diante.
— Ficarei escravo de remédios agora? — Papai olha para a pilha de
comprimidos. — É só por um tempo, é isso?
Larissa olha para ele com carinho. Ela sabe que não, já passou por isso
com o marido. Ela me contou a luta para cuidar do marido hipertenso. Ele
não seguia as regras e vivia sabotando o tratamento, comendo e bebendo o
que não devia às escondidas.
— Não, o senhor agora precisa se cuidar e ficar atento a todos os
sintomas, tomando a medicação nas horas certas, se alimentando
adequadamente e praticando exercícios. Assim terá uma vida longa e
saudável.
— Isso mesmo, papai, agora nós é que cuidaremos do senhor. — Pisco o
olho para Larissa.
— Pense assim, você ganhou duas lindas enfermeiras... — Ronaldo me
fita com um brilho no olhar.
— Tô lascado, isso sim. — Papai resmunga insatisfeito.
Larissa bate levemente no braço dele e eu sorrio com o jeito que os dois
se entreolham.
— Assim que a enfermeira colher o sangue para os exames o senhor
poderá ir para casa. Por hoje só descanse, amanhã poderá voltar às suas
atividades normais, mas sem exageros.
— É só isso? — pergunto, mas ainda estou preocupada, papai quase teve
um infarto. — Ele não precisa ir para um hospital?
— Não, ele teve uma crise hipertensa. O corpo só avisou que ele precisa
de cuidados, e agora que ele já sabe, é só se cuidar. — Ronaldo manda a
enfermeira colher o sangue. — Lilly, foi um prazer conhecê-la, espero poder
vê-la novamente. Só espero que não seja em uma situação como essa.
Qualquer coisa que precisar é só me procurar. Aqui está o meu cartão, pode
me ligar a cobrar.
A enfermeira colhe o sangue e sai do quarto acompanhada pelo médico.
— Só faltou ele a pedir em namoro — comenta papai com ironia
enquanto a Larissa o ajuda a se levantar.
— Não exagere, homem. A Lilly precisa resolver a situação dela antes
de pensar em se envolver com outra pessoa.
— Nem lembre disso. Só de pensar naquele lá, já sou tomado por uma
raiva...
— Papai, lembra o que o médico disse? Nada de estresse. E fique
sabendo que não quero me envolver com ninguém, já tenho problemas
demais. — Olho para a Larissa e ela assente com a cabeça.
Contei para Larissa a minha situação, nos tornamos íntimas e amigas.
Contei tudo, desde o dia em que conheci o Raphael, ao dia que decidi vir
embora. Sobre a decisão de deixá-lo sozinho para que pudesse fazer as suas
próprias escolhas.
Chegamos em casa meia hora depois. Eu e a Larissa quase forçamos o
papai a se deitar um pouco. Teimoso como ele é, queria terminar um conserto
das tábuas soltas da varanda da dona Amelinha, uma velhinha muito
simpática que morava a alguns metros da nossa casa. Papai ocupava o seu
tempo fazendo serviços de carpintaria, ele é muito bom nisso, era o seu
passatempo favorito na fazenda.
Estou procurando um livro para que ele possa ler, quando ouço batidas
na porta.
— Está esperando visitas, Lilly? Se quiser posso ver quem é e
despachar.
— Deve ser a vizinhança curiosa. Fique com o papai, vou ver quem é.
Abro a porta e encaro dois homens altos e fortes, muito bem-vestidos em
seus ternos pretos. Estranho a visita.
— Sim, pois não? — digo, avaliando os dois armários em forma de
homens.
— Senhora Lilly Bergsen? — Assusto-me.
— Por favor, querem falar baixo? E não falem o nome Bergsen... Sim,
sou eu, o que querem?
— Somos seguranças particulares do senhor Raphael Berg... Salles e
viemos buscá-la.
Quase dou um passo para trás e bato com a porta na cara dos dois
homens.
— Como assim me buscar? Não voltarei para a Noruega. Eu disse ao
Raphael que quando ele soubesse a resposta da minha pergunta me
procurasse. Avisem-no para vir até mim. Passem bem.
Tento fechar a porta, mas um dos homens a segura com a mão.
— Sinto muito, senhora, mas temos ordens de levar a senhora e o seu
pai. Só voltaremos com os dois, e o senhor Raphael não está na Noruega. Ele
está em Paraíso, no castelo, à sua espera...
— Castelo? Então foi o senhor Salles quem comprou o castelo? Por que
não me contou isso, Lilly?
Papai surge na sala de repente, com os olhos furiosos em direção aos
dois homens que seguram a porta.
— Eu sinto muito, Lilly, mas não consegui manter o seu pai na cama. —
Larissa está bem atrás dele.
— Não contei porque não achei relevante. Desculpe-me, papai.
— Tudo bem, filha, mas já que ele se dispôs a vir ao Brasil falar com
você, deve ser porque quer se livrar logo desse casamento. Na certa já tem
outra vítima para suas intenções. É melhor irmos com eles e acabar logo com
essa palhaçada.
— Papai, o senhor não precisa ir junto. Explicarei ao Raphael a sua
situação e ele entenderá...
— Senhora, as ordens são para levar os dois. — Um dos seguranças me
interpela.
— Iremos em três. Você irá conosco, Larissa — Ele se vira para ela, não
foi uma pergunta, foi uma constatação.
— Posso mesmo? — Ela pergunta, olhando diretamente para os
seguranças.
— Sim, pode. — Eles respondem, olhando um para o outro.
Minutos depois estávamos a caminho do meu destino. Qual seria a
resposta do Raphael? Criaríamos juntos ou separados o nosso filho? Papai
aceitaria ou não o neto? Ele me perdoaria por estar amando um Bergsen?
Como ele lidaria com isso, sabendo que mais uma vez a história se repetiria,
um Bergsen apaixonado por uma González? Essas respostas eu só saberia
quando toda a verdade fosse mostrada, nua e crua.
45
RAPHAEL

Ao chegar a Paraíso, meu primeiro pensamento foi para onde conheci


a Lilly – a cachoeira e as lótus – e a vontade de ir até lá vem forte. No
entanto, não posso, estou incapacitado de andar. Ainda estou escravo da
cama. Não posso me levantar, o máximo que faço é ficar na cadeira de rodas
e mesmo assim com um suporte sustentando minha perna. A fisioterapia está
ajudando bastante, contudo, ainda está longe o dia em que poderei andar com
minhas próprias pernas.
— Raphael, eles chegaram. Estão aguardando. — Alfredo entra em meu
quarto improvisado. A biblioteca foi adaptada para minhas condições, tudo
foi modificado, inclusive foi construído um espaçoso banheiro.
— Como ela está? — Fito o Alfredo, curioso, estou temeroso com a
reação de Lilly ao ficarmos frente a frente.
— Abatida, frágil, mas muito linda... — Ele solta um suspiro. Eu sei que
o Alfredo teme pela reação do Rodrigo assim que descobrir a verdade sobre
mim. — Tem certeza que quer fazer isso? Por que não espera um pouco,
prepara o terreno...
— Não, será hoje. — Interrompo a fala do Alfredo. — Quero acabar
com esse mistério e com o meu tormento hoje mesmo. Peça para Lilly vir
aqui. — Concluo.
Durante esses últimos dois meses quase enlouqueço. Mesmo recebendo
relatórios diários sobre a Lilly, sobre a sua situação atual, não conseguia
sequer me concentrar em meu tratamento. Viver com um medo que
atormentava meu coração foi pior do que viver planejando a minha vingança
contra o Rodrigo. Sim, eu sofri a cada segundo da minha vida enquanto
planejava o roteiro da minha vingança, pois isso fazia com que eu me
recordasse da morte do papai. E as minhas recordações eram reais, porque eu
as vivenciei. Seus gritos e o cheiro da carne queimando foram os meus fiéis
companheiros durante todo o tempo que vivi com ódio do assassino do meu
pai. Hoje não penso mais nisso. Hoje não tenho mais pesadelos devastadores,
estou liberto e aliviado. Meu único medo agora é perder o amor da minha
vida... e a minha família.
Finalmente a porta do quarto se abre e ela entra. Mesmo vestida com
roupas maiores que as curvas de seu corpo, percebo o seu ventre, onde está o
nosso filho. Ela está muito magra e os seus lindos olhos estão tristonhos. Ela
fecha a porta e dá alguns passos hesitantes, como se estivesse receosa do que
viria... Cessa os passos, com os olhos fixos em mim.
— Pode se aproximar um pouco mais, Lilly. Eu não mordo, e mesmo
que quisesse fazer isso, não teria como. Só se você ficar bem próxima ao meu
rosto. — Digo, tentando descontraí-la e controlar a minha emoção, pois a
minha vontade é pedir que me abrace.
— Deus! — Finalmente ela balbucia algumas palavras, dá alguns passos
até chegar bem próxima à cama. — Você é louco. Como pode se expor ao
perigo desse jeito? Eu pensei que já estava ao menos em uma cadeira de
rodas, não acredito que veio até aqui assim... seu irresponsável, filho da mãe.
Oh, Deus! Ela é linda, quanta saudade da minha Lótus brava. Ela me
olha com um olhar contrariado, e se não estivéssemos brigados, eu sei que ela
estaria bem perto de mim, batendo com suas pequenas mãos em meu peito.
— Você me abandonou em um hospital, o que queria que eu fizesse?
— Não o abandonei. — Defende-se — Eu o deixei para que pudesse
fazer suas escolhas sem influência. Você precisava de tempo para se curar de
alguns males, males da alma. E seu eu ficasse ao seu lado, nós nunca
saberíamos o que realmente escolheria, não seja prepotente.
— Mesmo assim fui abandonado. Você sabe dos meus reais
sentimentos...
— Sim, eu sei... — Ela me interrompe, baixa os olhos tristemente. — O
ódio por meu pai.
— A resposta é sim. — Interrompo-a bruscamente. Já não consigo
segurar minha ansiedade.
— E o seu desej... O quê? — Fita-me boquiaberta.
— A resposta da sua pergunta é sim. — Ela continua fitando-me com
um olhar perdido. — Você perguntou se o amor que eu sinto por você é
maior do que o ódio que eu sinto por seu pai. — Vejo uma lágrima descer
suavemente por seu rosto. — Sim, Lilly Linhares González Bergsen, meu
amor por você é maior do que qualquer outro sentimento. Não posso viver
nem mais um segundo sem o seu amor. Eu sou um filho da mãe sortudo, pois
em meio a tanto ódio, mágoa, rancor e vingança eu encontrei o amor mais
puro e mais incondicional que um homem pode pensar em sentir.
Ela vira as costas e sai do quarto. Eu me desespero. O que disse de
errado? Será que ela não acredita em mim?
— Lilly! Lilly! — grito desesperadamente.
Ela entra outra vez e repete o mesmo gesto que fez a primeira vez. Fecha
a porta e caminha em minha direção, só que desta vez com mais velocidade,
sem passos incertos e com um lindo sorriso nos lábios. Eles encontram os
meus, num beijo saudoso, doído, mas cheio de amor.
— Amo você. — Digo, enquanto espalho beijos por todo o seu rosto,
deixando morrer os meus lábios nos dela outra vez. — Nunca mais se afaste
de mim. — Murmuro, sem me afastar da sua boca. — Juro que se você fizer
isso eu a trago de volta pelos cabelos. Virarei um maldito homem das
cavernas.
Suas delicadas mãos cercam os dois lados do meu rosto enquanto seus
olhos me avaliam demoradamente. Ela sorri e os seus polegares acariciam a
pele áspera, devido a barba por fazer.
— O senhor já está se parecendo um homem das cavernas com essa
barba grande, meu marido. Isso tudo é por minha causa, se entregou ao
desleixo por mim?
— Quase morro, faltou um tantinho assim para bater as botas. — Mostro
com os dedos a dimensão do meu desespero.
— É, as coisas não mudaram muito, o senhor continua exagerado. —
Sorri, escondendo o rosto em meu pescoço. — E o cheiro gostoso continua o
mesmo. — Inspira profundamente o meu pescoço. — Saudade de você,
marido. Saudade do seu cheiro, do seu corpo, do seu calor, da sua voz, das
suas mãos... — Ergue o rosto e me encara com um olhar foda. — Saudade de
tantas coisas.
— Não deixarei que sinta mais, mas algumas coisas serão diferentes por
enquanto. — Aponto com um olhar para a parte abaixo do meu umbigo. —
Teremos que adaptar posições novas. — Arqueio uma sobrancelha e sorrio
torto.
— Libertino. — Recebo uma tapinha no braço. — Nem estava pensando
nisso. — Baixa os cílios timidamente.
— Jura? — digo, sorrindo. — Eu, sim. — Concluo.
— Raphael. — Fita-me séria. — Você está disposto a esquecer todo o
passado e entender que o papai não foi o culpado pela morte do seu pai?
Porque, de agora em diante, você terá que conviver com ele.
— Meu amor, não pretendo mentir para você. Não será fácil, mas posso
garantir que farei de tudo para que eu e o seu pai possamos dar início a uma
convivência saudável. Basta saber se ele irá querer o mesmo, pois você sabe
o quanto ele odeia os Bergsen.
— Não me importo se ele não o aceitar, será escolha dele virar as costas
para mim e para o nosso filho. O que importa é você, é a sua aceitação. O
resto a vida se encarrega de acertar.
— Nosso filho. — Toco o seu ventre por cima da roupa larga. — Não
sabe como sofri por saber que estava passando por tudo isso sozinha, cheguei
a me odiar por isso. — Acaricio sua barriga, já sinto o ventre inchado, parece
uma bolinha dura. Sorrio com a sensação de paz que o toque transmite. — Já
fez todos os exames? Está tudo bem com você e com o nosso neném?
— Sim, ele está bem e a mamãe dele também. Os exames laboratoriais
fiz todos, só não fiz os ultrassons...
— Quanto a isso, não se preocupe. Já pesquisei sobre algumas clínicas,
inclusive já marquei até a sua primeira consulta. Você sabe que não poderei
acompanhá-la, mas poderei ver tudo ao vivo com a ajuda da tecnologia. Suas
consultas serão transmitidas ao vivo via internet.
— Nossa! Quanta eficiência. — Recebo um beijo apaixonado, e
enquanto nos beijamos, acaricio nosso filho.
— Vamos terminar logo com isso. — Afasto-me e digo, olhando-a
fixamente. — Está preparada para a reação do seu pai quando descobrir quem
eu sou de verdade?
— Não. — Franzo as sobrancelhas, surpreso com a resposta. — No
entanto, esse confronto é necessário e seja o que Deus quiser.
— Então vá buscá-lo.
Lilly respira profundamente, levanta-se da cama e segue até a porta.
Antes de abri-la olha diretamente para mim e mudamente diz:
Amo você.
Sai em seguida. São os minutos mais longos da minha vida, me passou
um filme pela cabeça de todo o meu sofrimento durante esse tempo. Vi meu
pai ser devorado pelas chamas, ouvi os seus gritos, me vi chorando e gritando
o nome dele. Os meus momentos de solidão enquanto planejava minha
vingança, o meu encontro com a Lilly, nosso primeiro beijo, nossa primeira
noite de amor...
Então eu o vejo entrar, lentamente... Aqui está o homem que matou o
meu pai a sangue frio, o homem que odiei por longos anos. Sempre me
imaginei enfurecido quando o encontrasse, cuspindo todo o meu ódio em seu
rosto, chamando-o de assassino. Planejei por tanto tempo esse encontro, já
tinha até o discurso gravado em minha cabeça...
Olá, Rodrigo, como está? Sabe quem sou eu? Não, não sabe. Eu sou o
filho do homem que você assassinou. A criança que junto com o meu pai
mandou jogar no precipício. Hoje estou aqui para cobrar a dívida da
vingança. Meu nome é Raphael Salles Bergsen.
Todavia, esse não será o discurso de hoje.
— Ele... ele não é velho, como eu pensei. — Rodrigo diz abismado,
fitando a Lilly. — É impressão minha, ou já nos conhecemos? — Pergunta
com um olhar desconfiado.
— Não, não nos conhecemos, senhor Rodrigo — respondo, engolindo o
bolo em minha garganta. Sei que minha voz soa trêmula. — O senhor deve
ter conhecido o meu pai. — Minha boca seca, a saliva desaparece e começo a
tremer. Chegou a hora da verdade.
— Seu pai? — Aproxima-se mais um pouco enquanto seus olhos
avaliam o meu rosto. Com certeza ele tenta lembrar a quem pertence os meus
traços. — Eu conheço muita gente, qual é o nome do seu pai? Pois não
lembro de conhecer nenhum Salles.
O silêncio atordoado toma conta do ambiente. Alfredo entra no quarto,
Lilly o fita com apreensão. Uma mulher com traços bonitos está bem atrás do
Rodrigo, a tensão está estampada nos rostos de todos. Eu estou uma pilha de
nervos.
— Meu... meu nome é... — Engulo outra vez o nó da garganta, aperto
com força minhas mãos em punhos. — Meu nome é Raphael Salles Bergsen,
sou o filho de Adam Bergsen...
Silêncio...
Rodrigo fita-me sem piscar os olhos. Seu maxilar contrai com tanta
força que suas veias temporais pulsam visivelmente.
— Não é possível. O filho do Adam está morto, ele morreu junto com o
pai. Mas que brincadeira é essa?
Olha para a Lilly, depois para mim.
— Eu não morri, como pode ver — digo, calmamente. Nem sei onde
consegui tanta calma. — Fui salvo pelo Alfredo. — Aponto para o meu
amigo e pai que assiste tudo com imparcialidade. Eu conheço suas emoções e
sei o que se passa em sua cabeça.
— Então é por isso que pensei que o conhecia... Meu Deus! O passado
está vindo com tudo. Está querendo me cobrar dívidas antigas. — Leva as
mãos à cabeça, na certa lembrando do que fez.
— Papai, acho que chegou a hora de esquecermos o passado, não acha?
Vamos esquecer as desavenças, as intrigas. Como vê, mais uma vez a história
está se repetindo...
— Como assim, você conhece a história? — Rodrigo interpela Lilly. —
O que sabe? — Seu olhar apavorado encara a filha.
— Eu sei sobre a mamãe e o pai do Raphael, sobre o amor dos dois. E
por ironia do destino a história se repete. Eu... — Lilly começa a chorar. —
Eu e o Raphael nos amamos. Aceite isso, papai. O Raphael já entendeu que o
que aconteceu com o pai dele foi um acidente...
— Acidente! — Rodrigo exclama, surpreso. — O que você contou para
ela? — Desesperado, me encara.
— A verdade. O que ela precisava saber — respondo imediatamente.
— Papai, o Raphael já está convencido que foi um acidente. Ele não o
culpa mais...
— Convencido... acidente. — Rodrigo empalidece, procura apoio com
as mãos. A mulher que está próxima a ele o socorre e o leva até uma cadeira,
onde ele se senta.
— Eu sei que foi um acidente — digo, me antecipando. — Papai estava
desesperado quando soube que o senhor pretendia mandar a Eva embora de
Paraíso, então perdeu o controle do carro e caímos no precipício. Felizmente
meu pai ainda encontrou forças para me jogar para fora do carro antes que
alcançasse o chão. Eu fui jogado nas copas das árvores e vi meu pai ser
devorado pelas chamas quando o automóvel pegou fogo. Durante todo esse
tempo eu o culpei e planejei minha vingança, meus planos deram certo até o
dia em que conheci a Lilly e me apaixonei completamente por ela. Não quero
mais vingança, só quero viver em paz como uma família unida e criar o nosso
filho...
— Filho! — Rodrigo exclama surpreso, completamente atordoado.
— Sim, papai. Estou grávida de quase quatro meses e não quis lhe
contar porque eu teria que lhe explicar os motivos pelos quais não
poderíamos ficar na fazenda. O Raphael já havia perdoado a dívida, mesmo
antes de saber que eu estava grávida. O senhor será vovô.
— Um neto... um Bergsen. A vida está me cobrando com juros...
— Papai, foi um acidente o que aconteceu com o senhor Adam. Não foi
sua culpa...
— Não foi um acidente. — Rodrigo exaspera-se, trêmulo. Olha
estagnado para Lilly e eu me desespero.
— Foi, sim. Foi um acidente, Rodrigo, uma fatalidade. Por favor,
acredite nisso.
— Não foi e você sabe disso tanto quanto eu. — Encara-me com os
olhos arregalados. — O que aconteceu com o Conde não foi um acidente,
Lilly.
Desespero-me. Eu a protegi de toda a dor da verdade e agora o Rodrigo
irá dilacerar o seu lindo coração.
— Basta, Rodrigo! A Lilly já sabe a verdade, ela não precisa dos
detalhes. Lembre-se que ela está grávida, precisa de paz... — apelo para o seu
bom senso.
— Não, ela precisa saber a verdade. Chega de mentiras, não aguento
mais esconder dos outros o monstro que eu sou...
Quero me levantar, quero ir até ela e levá-la para bem longe,
protegendo-a de toda a dor que virá a seguir. Nunca me senti tão incapaz
como me sinto agora. Alfredo, adivinhando os meus pensamentos, intercede.
— Senhor Rodrigo, não precisa mais detalhar o acidente. A Lilly já sabe
a verdade, como também sabe que o senhor não teve culpa alguma...
— Como não tive culpa?! — Ele se livra das mãos da mulher que o
segura pelos ombros, se levanta e o encara. — Se fui eu quem deu a ordem de
empurrar o carro precipício abaixo...
— Papai, o que está dizendo? O Raphael já disse, foi um acidente. Ele
estava lá, infelizmente ele presenciou tudo. — Sem entender a loucura do pai,
ela vai ao seu encontro e o segura pelos ombros, olhando-o preocupada.
— Sim, filha. Ele estava lá e sabe que estou dizendo a verdade...
— Pare, Rodrigo. Por favor, não diga mais nada. Eu já o perdoei, não
precisa contar nada. Por favor, não a faça sofrer, eu lhe peço. — Imploro. Se
eu pudesse me levantar eu o levaria para bem longe dela.
— Mas eu não me perdoei, carrego comigo esse segredo e essa dor por
anos... Filha, o que vou lhe dizer é cruel, mas preciso que saiba. Preciso que
me escute sem me interromper. Não quero o seu perdão, nem o de ninguém,
pois o que fiz é imperdoável, mas você precisa saber.
Baixo a cabeça quando ela procura os meus olhos. Não consigo encará-
la, não posso ver a dor da dúvida em seu olhar. Lastimo-me por ser um
incapaz, lastimo-me por ter sido eu o provocador de tudo isso, pois se não
tivesse vindo a Paraíso, cheio de ódio e com desejo de vingança, a Lilly
jamais conheceria a verdade. Rodrigo leva a filha até uma poltrona. Ela o
segue sem ao menos tentar se negar, aceita ser guiada. Os dois se sentam. A
mulher se mantém afastada, recostada à parede, como se já previsse uma
catástrofe. Alfredo vem até mim e apoia a mão em meu ombro, apertando-o,
tentando com esse gesto acalmar meu coração que já está sangrando. Então
ele, o Rodrigo, começa sua trágica explanação.
— Não é segredo para você que eu amei sua mãe desde que ela usava
trancinhas. Ela era apenas uma menina e eu jurei para mim mesmo que um
dia eu me casaria com ela.
Lilly assente com a cabeça e nem pisca os cílios, mantém o olhar atento
ao rosto do pai. Avalio sua linguagem corporal. Ela aperta as mãos uma na
outra, está nervosa, está com medo. Rodrigo continua:
— Sua mãe nunca me amou. Nunca quis se casar comigo, mas em
Paraíso eu era a lei e o que queria era feito. Eva não tinha como fugir de mim.
Sem saber que ela já tinha planos, forcei nosso noivado. Foi então que eu
descobri que ela estava apaixonada pelo meu inimigo e o ódio tomou conta
de todos os meus poros...
Ele me encara com lágrimas nos olhos. Rodrigo sabe da dor que estou
sentindo.
— Dei ordens para que trancassem Eva em casa enquanto providenciava
sua ida para um lugar onde ninguém a encontraria até o dia do nosso
casamento, mas o Adam descobriu e foi até a casa dos seus avós exigindo que
libertassem a Eva, pois ele pretendia se casar com ela. Seu avô deu uma surra
nele e o enxotou de suas terras, só que horas depois sua mãe fugiu e veio se
encontrar com o Adam. Eles pretendiam ir para o Rio de Janeiro para se
casarem lá. O Raphael estava com eles.
Ele olha em minha direção. Lilly também, e ao fitá-la, já vejo as
lágrimas banhando o seu rosto.
— Seu avô me contou sobre a fuga e sobre os planos dos dois, então
resolvi emboscar o automóvel do Adam na curva do penhasco. — Rodrigo
faz uma pausa, engole a saliva e continua. — Adam poderia voltar com o
carro para o castelo e a Eva poderia desistir de fugir com ele, mas o Adam
parou o carro e veio me confrontar.
Rodrigo leva a mão ao peito e o aperta, respira profundamente. A tensão
no quarto é lida na feição de cada um, quase não respiramos.
— Filha, um homem não pode enfrentar um animal raivoso com as mãos
vazias. Eu não estava em minha sã consciência, embora isso não justifique os
meus atos hediondos. Eu o espanquei, depois deixei os meus homens
terminarem o serviço. Ao ver a minha intenção, que era matá-lo, Eva saiu do
carro, desesperada, e me pediu clemência. Prometeu que se eu o deixasse
viver se casaria comigo e pertenceria a mim por livre e espontânea vontade. É
claro que eu aceitei...
— Já chega, Rodrigo. Pare...
— Não. — Lilly me interrompe. — Eu quero saber, quero saber tudo. —
Engole as lágrimas, enche o peito de ar e volta a encarar o pai. — Continue.
Rodrigo continua.
— Mandei um dos meus homens levá-la para fazenda, e antes de seguir
atrás, dei ordens ao restante dos homens para colocarem o Adam no carro e
jogá-lo no precipício, só saindo de lá quando o carro virasse cinzas...
— Não!!! — Lilly grita, levando as mãos à boca.
— Não acabou. — Rodrigo prossegue. — Menti para sua mãe até a
nossa lua de mel. Ela pensava que o Adam estava vivo e era esse pensamento
que a manteve viva. Então, na nossa noite de núpcias, ela não permitiu que eu
a tocasse e eu entendi o porquê. Assim contei a verdade, disse-lhe que o
Adam estava morto e que fui eu quem o matou. Foi aí que descobri que o
filho dele estava no carro, mas não me importei.
— Rodrigo, já chega. — A mulher que estava calada até o momento vai
até ele, toca em seu ombro e suplica o término da explanação.
— Não. — Ele responde. — Agora eu preciso ir até o fim. — Continua.
— Eva enlouqueceu e jurou me odiar até a morte. Enlouquecido, eu a
violentei, tomei sua inocência à força... foi... foi em nossa lua de mel que eu
também matei a Eva, Lilly. Sua mãe morreu de tristeza, ela foi definhando
aos poucos. Eu tentei de tudo para redimir os meus pecados. Eu a amei,
dediquei cada segundo da minha vida à sua mãe, na esperança de que um dia
ela pelo menos me perdoasse, mas a Eva morreu me odiando e amando o
Adam...
Ele inclina a cabeça e olha para a mulher que o encara aturdida.
— Larissa, esse sou eu. Sou um monstro. Você ainda seria capaz de me
amar? O monstro desta história sou eu. Eu matei duas pessoas inocentes que
só queriam ser livres para se amarem. E então, ainda me ama?
Larissa chora enquanto toca o rosto do Rodrigo com carinho.
— Vá embora! — Atordoado ainda com a revelação, nem percebi que
Lilly se levantou, afastando-se do pai. — Saia daqui, saia. — Grita,
apontando o dedo em direção à porta.
— Lilly, filha... — Rodrigo se levanta assustado, amparado por Larissa.
— Vá embora, nunca mais quero vê-lo. — Fita-o com raiva no olhar.
— Lilly, meu amor, se acalme. — Altero a voz para trazê-la à razão.
— Calma! — Olha para mim. — Ele é um assassino...
— Lilly, ele é seu pai, independentemente de qualquer coisa ele a ama.
— Assassino! Saia daqui, não quero nunca mais vê-lo... Saia!
Lilly grita histérica, joga-se ao chão e cobre o rosto com as mãos
chorando convulsivamente.
— Alfredo, segure-a, pelo amor de Deus! — Grito por socorro. Alfredo
vai até a Lilly, ajoelha-se e a segura nos braços.
— Calma, minha querida. Pense no bebê, se acalme.
— Tire-o daqui, por favor. Mande-o embora daqui...
— Não precisa pedir. — Rodrigo articula com tristeza. — Estou indo
embora, voltarei para a fazenda. Quero que saibam que eu abençoo o amor de
vocês. Fiz muitas escolhas erradas na vida, mas desta vez quero fazer as
certas. Perdoe-me, Raphael, perdoe-me por tê-lo feito sofrer. Eu sei que meu
arrependimento não redime minha culpa, nem apaga o que eu fiz. Eu matei o
seu pai, matei a Eva e quase o mato. E agora estou matando o amor que
minha filha nutria por mim.
Ele se vira, desaparecendo através da porta. Larissa segue logo atrás
dele. Lilly ainda soluça agarrada ao abraço apertado do Alfredo.
— Traga-a para cá, Alfredo. Traga-a para perto de mim.
Alfredo a pega nos braços. Ela não reage, deixa-se ser carregada. Assim
que ela encontra o meu corpo se encolhe, abraçando-me.
— Peça a Mila para preparar um banho quentinho. — Alfredo nos deixa
sozinhos. — Meu amor, não fique assim. Vá por mim, logo toda essa dor
passará.
— Por que você não me contou a verdade? Por que não me disse que o
foi o meu pai quem matou o seu? Por que, Raphael?
Eu sabia que ela faria essa pergunta, cedo ou tarde. Ajeito-a em meu
peito para que fique mais confortável e enquanto escovo os seus longos
cabelos com meus dedos respondo:
— Não queria que sofresse como eu sofri. Você é a minha melhor parte,
precisava protegê-la de qualquer sofrimento, por menor que fosse. Mas não
adiantou muito, não é mesmo? Agora você está sofrendo e me sinto culpado.
Ela ergue a cabeça e seus olhos vermelhos e inchados encontram os
meus.
— Ele matou o seu pai friamente, nem pensou duas vezes. Meu Deus!
Nem se parece com o homem que eu aprendi a amar. Como você pode
perdoá-lo, como?
Sem desviar meus olhos dos dela, respondo.
— Perdoei por você, pelo nosso amor, por nosso filho. Cheguei à
conclusão de que meu ódio não trará meu pai de volta. Quero um lar repleto
de amor, só isso.
— Não sei se conseguirei perdoá-lo, talvez nunca o perdoe. Ele não é o
homem que eu pensei que conhecia, ele é mau. Não quero uma pessoa dessa
convivendo com o nosso filho, não quero...
Lilly esconde o rosto em meu peito e volta a chorar desesperadamente.
— Dê tempo ao tempo, meu amor. Só não se esqueça que ele a ama e
ama muito. Seu pai errou, fez coisas horríveis, mas você sempre foi o amor
da vida dele. Eu sei que ele se afastou de você, como também sei que deve ter
tido motivos para fazê-lo. Pense nisso, meu amor.
Mila já havia entrando no quarto em silêncio e ido direto para o banheiro
preparar o banho da Lilly. Esperava pacientemente que eu terminasse de falar
para chamá-la.
— Meu amor, a Mila está esperando para ajudá-la a se banhar. Vá com
ela, depois volte para os meus braços. — Lilly ergue a cabeça e me encara.
— Não posso dormir aqui com você, posso machucá-lo. — A tristeza
em seus olhos lindos é comovente.
— Há espaço suficiente para três. Eu, você e o nosso filho. — Toco o
seu ventre e o acaricio. — Agora vá com a Mila.
— Venha, querida. — Mila a acolhe em seu abraço de mãe.
Lilly volta para os meus braços minutos depois. De banho tomado,
camisola de seda e linda de viver. Se acolhe em meu corpo e dorme como
uma criança que acabara de perder algo muito especial. Por algum tempo
sinto os soluços contidos e os espasmos do seu corpo. Ela sofre e nada posso
fazer, a não ser abraçá-la, beijá-la e apoiá-la. Tentarei fazer com que mude de
ideia e perdoe o pai, pois eu sei o quanto ela o ama. Farei de tudo para que
ela esqueça toda essa dor.
46
RAPHAEL

Novas folhas, novas flores,


na infinita bênção do recomeço (Chico Xavier)

Os minutos arrastam-se enquanto tento controlar continuamente o


nervosismo de Lilly e o meu também. Nosso filho está chegando. Ouvia-se
apenas a respiração acelerada dela e, se prestarmos atenção, as batidas do
meu coração também. Ela não solta a minha mão e toda vez que uma
contração vem eu sinto meus dedos serem esmagados. Como uma mão tão
delicada pode ser tão forte? A cada respiração puxada que ela dá o meu
coração vai à boca. Se pudesse tomaria o lugar dela e teria o nosso filho, mas
isso é um privilégio das mulheres. Deus, em sua infinita sabedoria, percebeu
que nós, homens, jamais teríamos coragem para tamanho milagre.
— Deus! Isso dói muito... — Sinto meus dedos serem esmagados e ela
arqueia o quadril, apertando os olhos. Minutos depois relaxa, mas por pouco
tempo, pois em seguida meus dedos sofrem outro aperto e ela grita. —
Chame a enfermeira, amor. Nosso bebê está vindo. — Diz, olhando-me com
desespero.
— É impressão sua, meu amor. A médica disse que vai demorar um
pouco...
— Não é o que o nosso filho está avisando, ele nascerá aqui e você fará
o parto se ficar tentando me acalmar. Anda, Raphael, chame a médica! — Ela
grita. Pego minha bengala e saio às presas pelo corredor, à procura de ajuda.
Logo Lilly é levada para a sala de parto. Ela queria que eu fosse junto,
mas eu precisava primeiro vestir roupas apropriadas. Lilly some pela porta
móvel e eu tento me apresar para me preparar adequadamente. Ao entrar na
sala vejo Lilly chamando o meu nome, perguntando por que estou demorando
tanto. Entendo o nervosismo dela, nessa hora ela se esqueceu completamente
que ainda estou lento para andar e me vestir sozinho. Preciso da ajuda de
terceiros em algumas coisas.
Ao chegar, ela olha em meus olhos e um sorriso estica seus lábios.
Seguro sua mão para logo em seguida beijá-la na testa. Lilly é a mulher mais
forte e corajosa que já vi na vida. Ela aguenta firme, porque se fosse eu já
teria pedido para me anestesiarem e cortarem a minha barriga. Ela não; ela foi
firme, deu à luz ao nosso filho sorrindo, e eu cortei a ligação que unia os dois.
Juro que não queria fazer isso, pois aquele simples fio que une mãe e filho é
maravilhoso, algo que só Deus pode romper. Adam nasceu uns quarenta
minutos depois que a Lilly entrou na sala de parto, um garotão grande e forte,
com pulmões fortes. Ele não chora, berra. Pensei até que estava sentindo
alguma dor, só então pude entender o porquê do berreiro.
Quando a enfermeira o colocou próximo à Lilly e ele escutou a voz dela,
se calou, mas quando o tiraram de perto dela voltou a berrar. Foi por pouco
tempo, pois logo ele estava em meus braços, e ao escutar minha voz, se calou
e dormiu. Quem chorou fui eu, chorei tanto que a Lilly me fitou com
preocupação e com aquele olhar interrogativo de “você está bem?”. Sorri para
ela e mostrei nosso filho dormindo. Ela entendeu, devolvendo-me o sorriso.
Seis horas depois, nosso filho já estava no quarto recebendo visitas. A
Mila e o Alfredo estavam muito orgulhosos do afilhado, uma hora eles
diziam que ele se parecia comigo, outra hora discordavam e ele se parecia
com a Lilly. Mas de uma coisa eu tenho certeza, os olhos dele são muito
parecidos com os do meu pai, e eu sei que onde ele estiver estará muito feliz
com o nascimento do neto.
— Boa tarde! Posso entrar? — Larissa está na porta com um sorriso nos
lábios.
— Claro, Lari, vem conhecer o seu netinho. — Lilly ao vê-la sorri e a
chama com alegria.
Larissa está morando na fazenda com o Rodrigo. Não pensávamos que
isso iria acontecer, pois assim que o Rodrigo contou toda a verdade, ele a
mandou embora, disse-lhe que não era digno nem do amor dela, nem do amor
de ninguém. Mas o amor faz milagres, um mês depois, após muita insistência
da Larissa, finalmente o Rodrigo se desarmou, entregando-se ao amor.
Larissa confessou a Lilly que o Rodrigo queria se casar, só que ela ainda não
tinha certeza se ele realmente queria porque a ama ou por achar que é o certo
a se fazer. Lilly cortou as relações com o pai desde o dia da revelação. Ela
não quer nem tocar no assunto, diz que o pai morreu naquele dia. Sou eu
quem o visito, quem levo notícias sobre a Lilly e o neto.
— Nossa! Ele é a sua cara, Lilly. — Larissa diz, admirada.
— Concordo — respondo. — Lindo como a mãe. — Completo, cheio de
orgulho.
— Você é suspeito, Raphael, para você tudo de mais lindo no mundo se
parece com a Lilly. — Mila responde enquanto segura a mãozinha do Adam.
— A Mila tem razão, filho. Sua opinião não é válida. — Concorda
Alfredo, sorrindo.
— Vamos parar, meu marido tem sempre razão. — Lilly me defende
imediatamente.
— Puxa-saco. — Mila, Alfredo e Larissa respondem ao mesmo tempo.
Rimos, nos divertindo com a situação.
— Boa tarde! Acabou a visita. — Uma enfermeira entra no quarto e
pega o Adam dos braços da Lilly. — Mamãe e bebê precisam descansar, só o
acompanhante pode ficar. — Ela leva o Adam para o pequeno bercinho ao
lado da cama.
— Posso tirar uma foto, Lilly? — Larissa pergunta enquanto pega o
celular na bolsa.
— Não. — Lilly responde prontamente, já sei até o motivo pelo sonoro
“não”. — Não quero que “ele” veja o meu filho. — Todos emudecem e
Larissa guarda o celular. Ela já sabia a resposta, mesmo assim quis tentar,
acho que pensou que ao ver o filho nos braços, seu rancor pelo pai
diminuísse.
Não digo nada, pois eu sei que ela terminará chorando. É sempre assim,
quando toco no assunto “Rodrigo” ela desanda a chorar. Às vezes, até fica
febril, portanto, me calo. Sei que um dia tudo isso passará e seremos uma
família completa.
— Quando você irá para casa? — Larissa quebra o silêncio.
— Se tudo correr bem, durante a noite. Amanhã estarei de alta. — Lilly
responde.
— Então verei você no castelo. É melhor do que vir até aqui, é muito
longe, dá uma canseira...
— Você veio de ônibus, Larissa? — pergunto, pois se eu soubesse teria
mandado alguém trazê-la, já que eu, Mila e Alfredo estamos hospedados em
um hotel na capital desde que a Lilly completou nove meses.
— Não, o Rodrigo me trouxe. Ele está lá... — Ela se cala rapidamente,
olha tensa para a Lilly e depois para mim. Para não aumentar a tensão, limpo
a garganta.
— Ainda bem, porque vir de ônibus até aqui é cansativo mesmo. —
Olho para Lilly, ela está de cabeça baixa, olhando para as mãos.
— É melhor deixarmos a Lilly descansar. — Alfredo, percebendo a
tristeza estampada no rosto da Lilly, quebra o silêncio atordoado.
Acompanho a todos até a porta do quarto e despeço-me. Quando fecho a
porta e viro-me de frente para a cama, Lilly está dormindo, ou fingindo estar.
Ela sempre faz isso quando quer fugir do assunto de seu pai. Deixo-a quieta,
sei que preciso respeitar o seu espaço, não posso interferir em suas decisões,
em suas escolhas. Aprendi isso muito cedo, ainda era uma criança quando fiz
minhas próprias escolhas, e por mais difíceis que sejam, temos que fazê-las
sozinhos. Por isso só observo a luta diária que a Lilly trava consigo mesma.
Sigo para perto do bercinho do Adam. Sento-me entre a cama e o
bercinho com uma mão acariciando a minha Lótus, enquanto a outra acaricia
o fruto do meu amor, meu filho.

Cinco meses depois

Hoje o Adam completa cinco meses. Lilly está ocupada com os


preparativos do bolo para o quinto “mesversário” dele. É assim que ela
chama o aniversário mensal do Adam. Aproveito que ela se esqueceu um
pouco de mim, pois anda me vigiando todas as manhãs desde que começou a
desconfiar que estou aprontando “pelas costas” dela. Bem, ela tem razão,
ando aprontando mesmo.
Venho enviando fotos do Adam para o Rodrigo desde que ele nasceu,
inclusive as fotos e a filmagem do pré-natal e do parto dele. E desde que o
Adam completou um mês de nascido, é minha função levá-lo para passear e
tomar banho de sol nas primeiras horas da manhã e no final da tarde. Então
eu levo o Adam para ver o avô todos os dias. São os momentos mais
esperados pelo Rodrigo, ele até rejuvenesceu e o ar triste que estampava seu
rosto foi substituído por um imenso sorriso.
Adam já reconhece a voz do avô e todas as vezes que o Rodrigo
conversa com ele Adam sorri ou gargalha. São momentos felizes que
compartilho com o meu filho e com o meu sogro, que até há pouco tempo
odiava. Queria vê-lo sofrer, mas hoje quero vê-lo bem e feliz, e quero muito
que a Lilly o perdoe. Porém, a cada dia que passa sinto que este dia está cada
vez mais distante, pois ela está pensando em morar de vez na Noruega assim
que o Adam completar um ano de idade. Ela me pediu para vender o castelo,
diz que nada mais a prende aqui, no Brasil. Isso me entristece e temo pela
saúde do Rodrigo, se ele descobrir que a Lilly quer ir embora e quer afastar o
neto dele. Não sei como reagirá.
— Você fez progressos nas terras, Rodrigo. Nunca pensei que feijão
daria certo por aqui. — Estamos passeando pelo plantio de feijão, Rodrigo
com o Adam nos braços.
— Isso porque você não viu o plantio de soja no sul do país, está uma
beleza... — Ele para de falar para brincar com o Adam, levando-o para o alto.
— Quem é o garotão do vovô, quem é? — Adam gargalha com os sacolejos
do avô.
— Ficaria melhor se expandisse as terras, não é? — pergunto enquanto
limpo a baba do Adam, que escorre. Ele já tem quatro dentinhos na frente
superior.
— Como? As únicas terras que sobraram são as suas. Por acaso está
disposto a vendê-las? — Volta com o Adam para os braços enquanto ele tenta
convencer o avô a colocá-lo no alto outra vez, fazendo malcriação.
— Não, estou dando-as a você. Falo sério. — Paramos. Rodrigo me fita
abismado e o Adam começa a chorar, batendo a mãozinha no rosto do avô,
chamando-lhe a atenção.
— Dar! Como assim? Está abrindo mão das terras da sua família?
Enlouqueceu, Raphael? — Segura a mãozinha do neto e a leva aos lábios,
beijando os dedinhos e os mordendo levemente.
— Pelo que saiba você também é da minha família e tudo isso é do
Adam, então, nada mais justo do que torná-la produtiva, não acha? É melhor
do que mantê-la fechada...
— Você pretende ir embora? — Ele abraça o neto e sinto uma sombra
de tristeza em seus olhos.
— Cedo ou tarde, terei de voltar para a Noruega, a sede das minhas
empresas é lá. Pelo menos por enquanto, até conseguir construir a filial no
Brasil, e isso demorará no mínimo uns dois anos.
— Eu sabia que isso ia acontecer, só não esperava que fosse tão cedo
assim. — Suspende o Adam no alto e ele solta uma gargalhada feliz. —
Como conseguirei viver sem essa sua risada, carinha? Hein, como? — Adam
ri, feliz a cada sacolejo do avô, e eu fico com o coração pequeno, pois
separarei duas pessoas que já se amam incondicionalmente.
— Você e a Larissa podem passar uma temporada conosco. Será
maravilhoso, não acha?
Rodrigo me encara com um ar perplexo.
— Acho que estamos em tempos diferentes, Raphael. Acorde, isso
nunca acontecerá. A Lilly me odeia, ela nunca permitirá que chegue a pelo
menos quinhentos metros de distância dela, esta é a verdade.
— Tenho fé que isso logo passará e que seremos uma família, Rodrigo.
— Não tinha muita esperança quanto a isso, mas sonhar não custava nada.
Raphael começou a chorar e chamar pela mãe. Ele já balbucia mamã,
papá, bobó e bobô. A Lilly pensa que ele está chamando o Alfredo, já que
adotamos o Alfredo e a Mila como avós paternos do Adam, só que a verdade
é que o Adam chamou o Rodrigo primeiro de bobô.
— Vem cá, filhão. Você quer mamar, não é? — Rodrigo me entrega o
Adam. — Tchau, vovô, nos vemos à tarde... — Larissa vem ao nosso
encontro, beija o Adam, mas ele não quer conversa, está com fome e sono. —
Rodrigo, vou preparar a papelada de transferência das terras, pode começar a
planejar o que fará com elas. — Deixo o Rodrigo pensativo. Ele deveria ficar
feliz, sempre quis as terras que pertenciam a minha família. No entanto, a
tristeza reluz através do seu olhar.
Dez minutos depois, chegamos em casa e encontro uma esposa com uma
carinha enfezada, olhando-me desconfiada.
— Onde levou o nosso filho? — pergunta, tirando-o dos meus braços.
— Espero que não esteja aprontando pelas minhas costas, senhor Raphael
Bergsen, pois se descobrir, o senhor estará em maus lençóis. — Senta-se com
ele e lhe oferece o peito. Ela me encara nada satisfeita.
— Lótus, Lótus, olha a marra. Só saí com o nosso filho para passear,
você sabe que adoro fazer isso. É o nosso momento só de meninos, sem
mulher para se meter entre a gente.
Agacho-me e fixo o meu olhar ao dela, pisco um olho e a beijo
levemente nos lábios. Adam alcança a mãozinha em meu queixo e os seus
dedinhos acariciam minha pele. Sem me afastar da mulher que amo, olho
para ele, que suga o peito da mãe, esfomeado, e fecha os olhinhos se
entregando ao prazer de ser alimentando.
— Depois dele sou eu. Também estou com fome e quero muito mamar,
não só em seus lindos seios, mas também em outras partes... — Aproximo
minha boca da sua orelha e sussurro: — Na sua boceta suculenta, estou louco
para saciar a minha fome em seu mel.
— Raphael, você está ficando impossível. Fizemos amor quando
acordamos, não está satisfeito? Deus, que homem é esse... — Ela diz,
beijando-me a boca e mordendo meu lábio maliciosamente.
— Espero você lá em cima no nosso quarto, nu... Deixe o Adam aos
cuidados da babá.
Beijo-a outra vez e a deixo amamentando. Subo às pressas as escadas, já
posso correr. Eu sei que ela quer fazer amor tanto quanto eu, por isso me
apresso a tomar um banho e esperar minha Lótus vermelha na cama,
completamente nu e de pau duro.

Oito semanas depois


Lilly

Vejo Raphael descer as escadas todo sorridente, com a bolsa a tiracolo e


o Adam nos braços. É a hora da sua caminhada habitual, o momento só de
meninos, só que eu descobri que não é só isso que os dois traidores andam
fazendo, e hoje irei flagrá-los.
— Bom dia, mamãe! — Raphael beija o meu rosto e aproxima a boca da
minha orelha. — Seu gosto ainda está em minha boca. A cada dia minha
esposa está mais foda e mais gostosa. Prepare-se, que quando voltar quero
mais de você. — Nem tenho tempo de responder, pois minha boca é tomada
pela sua. —Bye, mamãe linda! — Afasta-se, sinalizando com a mão um
tchau. Adam faz o mesmo.
— Não demorem — digo enquanto os vejo desaparecer entre as flores
do jardim.
— Ah, Raphael Bergsen, se o senhor e o nosso filho estiverem me
traindo pelas costas, vão se ver comigo...
— Falando sozinha, filha? — Viro-me em direção à voz da Mila.
— Sim, eu sei que o Raphael anda aprontando e sei também que tanto
você como o Alfredo estão acobertando a traição. — Digo, olhando-a furiosa.
— Eu? — Mila leva a mão ao peito. Cínica, eu sei que ela sabe sobre os
encontros do Raphael com o meu... com o Rodrigo.
— Não se finja de morta, dona Mila. Eu sei que a senhora e o Alfredo
andam de conchavo e estão acobertando os encontros do Raphael com aquele
lá...
— Aquele lá é o seu pai, mocinha, respeite-o...
— Mila... — Alfredo chega à sala nesse momento e repreende Mila. —
Não se meta...
— Não me meter? Claro que vou me meter, já está na hora de falarmos
algumas verdades para essa mocinha. — Ela se aproxima de mim, segura-me
pelos ombros e me encara com um olhar de repreensão.
— Mila, vá com calma — Alfredo adverte.
— Saia daqui, homem, se não é para ajudar, então não atrapalha.
Ralha com o marido. Ele saiu resmungando, chamando-a de intrometida,
sem noção e de outros adjetivos em norueguês que eu não entendi.
— Mila, não faça com que eu seja mal-educada com você. — Digo
enquanto tento me afastar de suas mãos.
— Dona Lilly Bergsen, eu conheci a sua mãe, erámos grandes amigas, e
ela tinha um gênio do cão, igualzinho ao seu, portanto, não me ameace.
Sente-se!
— Não, eu tenho mais o que fazer do que ficar escutando conselhos.
Vou atrás do meu marido traidor...
— Sente-se, Lilly. — Ela me interrompe, está determinada a frear meus
passos. Eu me sento. — O Rodrigo, seu pai, nunca prestou. Não valia nada,
era igualzinho ao pai, mas ele foi criado para ser assim, os González foram
criados para serem obedecidos, para serem duros, insensíveis. Suas mães e
mulheres eram mudas, não tinham opiniões, quem mandava eram os homens.
Sabe o quanto o seu pai apanhou do seu avô? Não, não sabe. Pois é, ele
apanhava de varinha de marmelo quando criança, eram as lições para
aprender a ser um homem impiedoso. Seu pai nunca soube o que é carinho,
quanto mais amor... amor ele só conheceu quando se apaixonou por sua
mãe...
— E isso justifica ele ser um assassino? — As lágrimas já queimam os
meus olhos, eu me levanto e enfrento a Mila. — Nada no mundo justifica
tirar a vida de alguém. — Escondo o rosto entre as mãos.
É tão difícil para mim aceitar que meu pai é um assassino cruel e frio.
— Não, minha filha. Nada justifica, mas o seu pai não nasceu um
assassino, ele se tornou um. Ele foi induzido a ser um monstro e quando ele
conheceu o amor estava disposto a mudar e mudou, filha. Na época em que
sua mãe esteve ao lado dele seu pai se tornou um bom homem, ajudou muitos
em Paraíso, deixou de ser um homem autoritário, orgulhoso, e passou a ser
humano. Ele mudou, se não acredita em mim, pergunte aos moradores de
Paraíso. Dê uma chance para ele, perdoe, mostre ao seu pai que você herdou
o melhor dele.
— Nunca! Nunca o perdoarei, não quero um assassino convivendo com
meu filho, não quero.
Saio correndo entre lágrimas e deixo Mila sem palavras, petrificada no
centro da sala. Vou em direção a fazenda do... Rodrigo. Hoje, ele e o Raphael
escutarão poucas e boas. Hoje arrumo as malas e iremos embora de Paraíso
para sempre.
Os empregados da fazenda ao me veem sorriem, me cumprimentando.
Eu nem respondo, passo por eles cega. Cega de raiva, com o orgulho ferido,
sentindo-me traída por aquele que tanto amo. Raphael sabia que eu não
queria que papai sequer visse as fotos do Adam, quanto mais o visse
pessoalmente.
Subo os degraus que dão acesso à grande casa, e antes mesmo de entrar,
escuto os risos do Adam e a voz do Rodrigo...
— Quem é o garotão do vovô? Quem é o menino que o vovô mais ama
no mundo, hein? Quem, quem? — Adam solta gritinhos de euforia — Quem
é o pequeno príncipe do vovô? O menino mais amado e feliz do mundo,
quem é?
— Eu, bobô... — Meu filho responde com sua voz infantil.
Então eu paro e vejo uma menininha sentada no mesmo lugar em que o
Adam está deitado com o avô. O tempo volta... Vejo brinquedos espalhados
por toda a sala e papai brincando comigo. Ele me deixava fazer tudo com ele.
Brincávamos de bonecas, de chá da tarde. Eu pintava suas unhas, passava-lhe
batom, ele se fantasiava de fada e ficávamos fingindo que voávamos pela
sala. Quando estávamos muito cansados, nos deitávamos no meio dos
brinquedos e ele fazia as mesmas perguntas que fazia ao Adam agora mesmo.
Escondo-me no canto, escorrego o corpo na parede até alcançar o chão e
choro feito uma criança. Quantas saudades, quanta solidão. Por que, por que
ele me abandonou? Por que ele se transformou em um monstro, por quê?
— Lilly? — Ergo a cabeça e encontro os olhos preocupados do Raphael.
Soluço, enxugo as lágrimas e ele me ajuda a levantar.
— Por... por que você mentiu para mim, por quê? — Volto a chorar.
— Porque se tivesse dito a verdade você nunca concordaria em me
deixar trazer o Adam para visitar o avô.
— Eu não entendo, você tem todos os motivos do mundo para odiá-lo e,
no entanto, você o abraça como a um pai? Ele matou seu pai, Raphael,
lembra disso?
— Sim, lembro, mas nada do que eu fizer de ruim para o Rodrigo trará
meu pai de volta. Nada mudará o passado, mas eu posso mudar o futuro. O
meu, o seu e o dos nossos filhos. Podemos escolher entre amar e odiar. Eu
estou escolhendo amar e você, o que escolhe?
— Eu? — Assim que fecho a boca Rodrigo surge na porta com o Adam
nos braços.
— Mamã! — Meu filho me chama com felicidade, abrindo os bracinhos
e se jogando em minha direção.
— Oi, meu amor, você está todo sujo. — Limpo a garganta, ela arde, e
os meus olhos também.
— Ele estava comendo maçã, já sabe comer sozinho... — Rodrigo diz,
todo emocionado e orgulhoso.
— Vem cá, filhão, a mamãe e o vovô têm assuntos pendentes para
conversar. — Raphael toma o Adam dos meus braços, depois olha para mim
e em seguida para o Rodrigo. — Já está mais do que na hora dos dois terem
uma conversa definitiva. Acho que finalmente chegou o momento de fazerem
as suas escolhas, porque eu já fiz as minhas. Eu escolhi ser feliz.
Raphael passa por mim e entra na casa. Não sei para onde ele foi, só sei
que ele conhece o caminho, já está bem íntimo do Rodrigo.
— Entre filh... Lilly. — Rodrigo se afasta para que eu passe na sua
frente.
Entro na imensa sala da casa grande. Há brinquedos espalhados por todo
chão, roupinhas, toalhinhas do Adam em todos os móveis. Está uma bagunça
e tanto. Lembro-me de como era quando eu era uma criança, era bem assim,
uma tremenda bagunça.
Lilly, chegou a hora do perdão, filha...
— O que disse? — Viro-me para o Rodrigo e pergunto.
— Eu... — ele se assusta. — Eu não disse nada — responde.
— Pensei ter escutado um sussurro — digo, tentando assimilar as ideias
da minha cabeça.
— Desculpe a bagunça, o Adam nunca sabe com o que quer brincar, ele
lembra muito você quando pequena. Lembro-me que, às vezes, eu espalhava
todos os seus brinquedos aqui — ele aponta para o centro. — E a deixava
engatinhar e escolher qual deles queria.
Baixo os cílios e uma lágrima desce, a garganta fecha, minhas pernas
tremem e a vontade de correr para os braços dele é forte demais.
— Filha...
— Não. — Estendo a mão na frente do peito, impedindo-o que venha até
mim. — Não faça isso, por favor. Você não é quem eu pensava ser, você é
um...
— Um monstro — ele completa com uma voz tristonha. — Sim, eu fui
um monstro, mas o monstro morreu quando você foi gerada. Quando eu
descobri que sua mãe estava grávida, matei o monstro que habitava em mim.
Ele não podia viver no mesmo ambiente que a minha princesa, não podia.
Como posso ficar aqui, escutando tudo isso? Não posso deixá-lo me
convencer de que é um homem bom. Ele não é, ele é um assassino.
— Preciso ir. — Respiro fundo, reúno todas as minhas forças e tento dar
um passo à frente, mas não consigo.
— Minha princesa, eu a amo tanto, tanto...
— Mentira! — grito, afastando-me dele. — Não ouse dizer que me ama.
— Lilly, eu a amo. Posso ter feito uma porção de coisas erradas, posso
ter feito escolhas ruins, mas o amor que sinto por você é maior do que tudo
isso, e se algum dia eu a fiz pensar o contrário, só estava tentando protegê-la
de mim mesmo. Por amor a você, Lilly, eu me afasto de vocês para sempre,
se quiser.
Ele se aproxima e quando ficamos frente a frente suas mãos cercam os
meus ombros.
— Filha, olhe para mim, pelo menos uma última vez. — Reticente, com
o queixo trêmulo, fixo os meus olhos nos dele. — Perdoe-me. Perdoe-me se
não fui o pai que você merecia, perdoe-me por ter sido um monstro cruel,
perdoe-me por decepcioná-la, perdoe-me...
— Pa... papai. — Meus joelhos fraquejam e sou amparada pelos braços
amorosos que tanto conheço, braços que por todas as noites enquanto fui
criança me protegeram, me aqueceram, me ninaram.
— Minha linda princesa, meu maior amor... — Sinto o seu beijo no alto
da minha cabeça e os seus braços cálidos cercam o meu corpo, prendendo-me
firme. Meu rosto encosta em seu peito e eu escuto as batidas fortes do seu
coração.
— Eu o amo, papai, amo muito. Perdoe-me se fui tão intransigente e
orgulhosa.
— Eu precisava sentir a sua fúria, filha, portanto não tenho nada a
perdoar. Você foi a minha lição de rendição e o amor de Raphael por você foi
o meu acordar, o meu despertar para a vida.
— Podemos participar do abraço? — Raphael surge na sala com um
sorriso lindo nos lábios e o nosso filho todo serelepe nos braços, sacudindo as
mãozinhas e os bracinhos.
— Venham cá, vamos dar um abraço coletivo em família. — Papai os
chama. — Larissa, vem cá. — Ela surge com o rosto cheio de lágrimas. —
Vem cá, meu amor. Venha participar do nosso abraço coletivo familiar.
Ela vem. Nos abraçamos, unindo a força do amor em torno de nós.
Finalmente as escolhas certas foram feitas. Eu escolhi o amor.
Agora, minha filha, é só felicidade. Fiquem em paz e até breve.
— Você disse alguma coisa, papai? — Escuto um sussurro bem próximo
ao meu ouvido, penso ser o papai.
— Não, filha, não disse nada. — Ele responde.
Sorrimos com as estripulias do Adam, para ele tudo é festa, e nos ver
assim abraçados e tão juntos é como uma brincadeira nova. Ele soltava
gritinhos de alegria, pulando no colo do pai.
Raphael... nossa, Raphael sorria de orelha a orelha, seus olhos brilhando,
reluzentes. Ele me mostrou que o amor vence tudo. Um homem cheio de ódio
e com um forte desejo de vingança nos ensinou a maior lição de todas, nos
ensinou a sermos humildes, a aceitarmos os outros como eles são, e que se
curvar diante do outro não é sinal de fraqueza, mas sim de altruísmo.
Quanto ao papai, ele era um déspota. Creio que jamais deixará de ser
aquele homem arrogante e orgulhoso, mas o mais importante para mim é
descobrir que esse déspota tem um coração, e que esse coração sabe amar
incondicionalmente.
EPÍLOGO
RAPHAEL
Onde existe amor não há lugar para ressentimentos.
(Chico Xavier)

Vinte meses depois

Enquanto espero a noiva terminar de se arrumar, fico andando de um


lado a outro. Ela já está atrasada em quase quarenta minutos, ainda bem que o
casamento é na fazenda, pois caso contrário o padre já teria desistido de
realizá-lo.
— Vocês ainda vão demorar muito? Precisam de mais ajuda? Posso
mandar chamar alguém, se quiserem. — Bato com o punho fechado na porta,
mas elas não respondem.
Hoje é o casamento da Larissa e do Rodrigo, e eu fui encarregado de
levar a noiva até o altar.
Um mês após a paz regressar à nossa família, passei as minhas terras
para o nome do Rodrigo. Ele não quis aceitar e só concordou depois que
aceitei sociedade com ele. Após o aniversário de um ano do Adam, voltamos
para a Noruega e dois meses depois recebemos o Rodrigo e a Larissa na ilha
de Bergsen. Voltamos de lá há quatro meses para começarmos os
preparativos do casamento, já que a Larissa dará à luz em algumas semanas.
Ela ficou grávida na Noruega e eu sempre que posso me divirto provocando o
Rodrigo, dizendo que a filha deles é um pouco norueguesa. Ele não se
importa mais, diz que os noruegueses são pessoas abençoadas.
A porta se abre e a minha Lótus me presenteia com o seu lindo sorriso.
— Deixe de ser apressado, marido, sabia que vestir uma noiva dá
trabalho? Principalmente quando a noiva está com um barrigão e toda
inchada. Nossa, já estou me imaginando assim daqui a alguns meses...
Lilly e eu descobrimos que estamos grávidos, ela está com dois meses
de gestação. Quem desconfiou fui eu, sou um grande observador do corpo da
minha mulher. Seus quadris se alargaram e sua linda bunda ficou mais
empinada. Os seios redondos ficaram mais bicudos e o meu apetite sexual
triplicou. Fazemos amor a toda hora, às vezes eu saio da empresa às presas
em pleno dia só para fazer amor com ela, ou mando buscá-la no castelo e
fazemos amor em meu escritório – a filial das Indústrias Bergsen já foi
inaugurada na capital. Sou viciado em minha Lótus, e aqui em Paraíso, no
nosso lugar secreto, a cachoeira, foi o local onde com certeza nosso bebê foi
gerado, em meio às flores de lótus.
— Venha cá, meu amor. — Puxo-a para mim e roubo sua boca com um
beijo lúbrico. Mordo sua língua, sugando-a para dentro da minha boca,
saboreando os seus gemidos quando a minha mão se abre em seu seio duro e
o aperto com tesão. — Será que dá tempo de darmos uma rapidinha? —
Pergunto ofegante e beijando-a com desespero.
— Deixe de ser libidinoso, senhor meu marido, para isso o senhor não
está com presa. — Ela tenta me afastar.
— Só uma rapidinha. Cinco minutos, só isso... — Tento levá-la para o
quarto ao lado.
— Raphael Bergsen, deixe de ser descarado, homem! Você está
impossível. — Ela mal consegue respirar por causa dos meus beijos afoitos.
— Raphael, pare. Casamento, lembra?
— Uhum! Casamento me lembra lua de mel, o que me lembra sexo, o
que me lembra a sua boceta deliciosa... Deus! Estou tão duro, pega nele para
ver. —Guio a mão dela até minha ereção.
— Raphael! — Exclama. — Acho melhor o senhor se recompor
rapidamente. — Ela se afasta, olhando-me com repreensão.
— Filha, ela está pronta... — Mila vem nos avisar e nos encara. —
Vocês dois parecem dois cães no cio, minha nossa! Nunca vi coisa igual.
Querem se comportar? Deixem isso para depois do casamento.
— Foi ele quem começou, Mila. — Lilly ajeita o vestido e eu escondo
minha ereção com o paletó.
— Não me culpem se desejo muito a minha mulher. — Limpo a
garganta e sorrio, enviesado. — Ok, vamos logo acabar com isso, só assim
teremos tempo para recuperar o atraso. — Olho para Lilly com aquele olhar
malicioso, carregado de muito tesão.
Minutos depois estou caminhando por um longo tapete vermelho,
guiando uma linda mulher grávida e nervosa.
Rodrigo está diante do altar, nervoso, trêmulo, não para de balançar a
perna. Alfredo precisou cutucá-lo com o cotovelo para que se concentrasse.
Na minha frente está meu filho, com uma cestinha nas mãos que leva as
alianças, símbolo da união entre dois corações enamorados, dois elos que
unem duas pessoas que se amam e se completam. Paro, Rodrigo se aproxima
e antes de entregar a Larissa, digo emocionando:
— Aqui estão as duas mulheres da sua vida. Cuide delas, respeite-as e as
ame.
— Cuidarei, respeitarei e as amarei por toda a minha existência. —
Responde emocionado.
Antes de seguir para o altar, ele puxa-me para um abraço apertado e
recebo um beijo caloroso no rosto.
— Obrigado, meu filho! — Sorri e seus olhos flamejam uma emoção
verdadeira, uma emoção de amor. Em seguida abaixa-se, segura o rostinho do
Adam entre as mãos e diz: — Quem é o garotão que o vovô mais ama? Quem
é o garotão que o vovô mais admira no mundo? Quem é, hein?
— Eu, o Adam, vovô. — Rodrigo o abraça e o meu filho circula os
bracinhos em seu pescoço. Quando Rodrigo se afasta ele diz, com toda a
brandura da sua inocência: — Amo você, vovô.
Rodrigo o beija, sinto a sua emoção. Pego na mãozinha do meu filho e
sigo para ficar ao lado da mulher que amo mais do que tudo na vida. A
mulher que me ensinou que não existe sentimento mais sublime do que o
amor. A mulher que me mostrou que ódio, rancor, mágoa e vingança são
insignificantes quando o nosso coração está em paz. Ela me ensinou que amar
é perdoar, é viver livre, livre de tudo que possa prendê-lo a sentimentos
mesquinhos. O amor que sinto por ela não só ensinou a mim, ensinou ao
Rodrigo também, mostrou para ele que tudo na vida é regido por escolhas...
Acho que aprendemos a nossa lição.
Eva Aguiar González nasceu uma semana depois do casamento dos pais.
Uma menina linda, forte, esperta, gordinha e muito amada. Adam já a adotou
como sua protegida, não quer que ninguém atrapalhe o sono dela. Foi preciso
sermos enérgicos com ele para convencê-lo de que não podia dormir no
quarto da neném. Mesmo assim foi preciso passarmos alguns dias na fazenda,
ele não queria voltar para o castelo. Semanas depois, eu e a Lilly descobrimos
que seremos pais de gêmeos. Imaginem a minha felicidade, três filhos, três
lindos filhos feitos no alicerce do amor e do respeito.
E pensar que a minha intenção ao voltar a Paraíso era uma só... destruir
o assassino do meu pai sem me importar com nada, nem ninguém, pois nada
nesse mundo seria capaz de me fazer mudar de ideia, nem a minha inocente e
doce Lilly.
É, às vezes são as escolhas erradas que te levam ao rumo certo.
Pois, ao invés de ódio, encontrei amor. Não me passou pela cabeça tal
pensamento, não havia me preparado para tal acontecimento. Mas desta vez
fiz as escolhas certas. Escolhi amar, não odiar.
E você, quais são as suas escolhas? Lembre-se, errar é humano, mas
persistir no erro é errar duas vezes e pode lhe trazer consequências piores do
que as do primeiro erro.

Para Refletirmos:
O espírito que adquirir a virtude do perdão não achará dificuldade em
mais nada.
Haja o que houver, aconteça o que acontecer, ele saberá administrar
sua vida. (Chico Xavier)
Próxima História
LUKE
O cordeiro na pele de um lobo

Por várias vezes eu a vi me olhando disfarçadamente. Um olhar faminto,


devorador, daquele que fala sem precisar mover os lábios, dizendo:
Quero você.
A paixão que vejo em seus olhos me atrai cada vez que nossos olhares
se encontram, despertando meus desejos mais sombrios.
Ela não devia ter chamado minha atenção, mas já que chamou, espero
que esteja pronta para se envolver com um cara como eu, não sou confiável,
tenho uma reputação ruim, no entanto, isso não me impedirá de chegar até ela
e prová-la.
Eu a quero, e ela conhecerá quem sou e será minha. Essa garota
descobrirá que não a soltarei nem mesmo quando estiver completamente
saciado.
Se ainda não leu ESCOLHAS – Prequel de LÓTUS
Lara Smithe

Prequel de Lótus
ESCOLHAS
sempre temos uma

1ª edição
Salvador - Brasil
2018
ESCOLHAS
Sempre temos uma
Capa: Joice S. Dias
Revisão: Lorena Bastos
Diagramação: Lara Smithe

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o


armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.
Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas.
Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos
são produtos da imaginação da autora. Qualquer
semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.

Título original: Escolhas


Todos os Direitos reservados
Copyright © 2018 by Lara Smithe
Índice
Agradecimentos
Mensagem
Sinopse
Prólogo
Adam
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Eva
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Epílogo
Próxima História
LÓTUS
Capítulo Bônus
O encontro entre o ÓDIO e o AMOR
Outros Romances da Autora
Agradecimentos

Agradeço a DEUS em primeiro lugar, pois minhas inspirações vêm


dele. Às minhas leitoras amigas do grupo do Whatsapp e do facebook:
meninas vocês são maravilhosas.
Obrigada família, por sua paciência e compreensão.
Obrigada, minhas betas maravilhosas, por suas análises críticas, vocês me
ajudaram muito com as opiniões e os conselhos.
Mensagem

A escolha é sua

Você pode curtir ser quem você é, do jeito que você for, ou viver infeliz
por não ser quem você gostaria. Você pode assumir sua individualidade, ou
reprimir seus talentos e fantasias, tentando ser o que os outros gostariam que
você fosse. Você pode produzir-se e ir se divertir, brincar, cantar e dançar, ou
dizer em tom amargo que já passou da idade ou que essas coisas são fúteis
sérias e bem situadas como você.
Você pode olhar com ternura e respeito para si próprio e para as outras
pessoas, ou com aquele olhar de censura, que poda, pune, fere e mata, sem
nenhuma consideração para com os desejos, limites e dificuldades de cada
um, inclusive os seus.
Você pode amar e deixar-se amar de maneira incondicional, ou ficar se
lamentando pela falta de gente à sua volta.
Você pode ouvir o seu coração e viver intensamente ou agir de acordo
com o figurino da cabeça, tentando analisar e explicar a vida antes de vivê-la.
Você pode deixá-la como está para ver como é que fica ou com
paciência e trabalho conseguir realizar mudanças necessárias na sua vida e no
mundo à sua volta.
Você pode deixar que o medo de perder paralise seus planos ou partir
para a ação com o pouco que tem e muita vontade de ganhar.
Você pode amaldiçoar sua sorte, ou encarar a situação como uma grande
oportunidade de crescimento que a Vida lhe oferece.
Você pode mentir para si mesmo, achando desculpas e culpados para
todas as suas insatisfações, ou encarar a verdade de que, no fim das contas,
você é quem decide o tipo de Vida que quer levar.
Você pode escolher o seu destino e, através de ações concretas caminhar
firme em direção a ele, com marchas e contramarchas, avanços e retrocessos,
ou continuar acreditando que ele já estava escrito nas estrelas e nada mais lhe
resta a fazer senão sofrer.
Você pode viver o presente que a Vida lhe dá, ou ficar preso a um
passado que já acabou e que, portanto, não há mais nada a fazer, ou a um
futuro que ainda não veio e que, portanto, não lhe permite fazer nada.
Você pode ficar numa boa, desfrutando o máximo de coisas que você é e
possui, ou acabar de tanta ansiedade e desgosto por não ser ou não possuir
tudo o que você gostaria.
Você pode engajar-se no mundo, melhorando a si próprio e, por
consequência, melhorando tudo que está à sua volta, ou esperar que o mundo
melhore para que então você possa melhorar.
Você pode celebrar a Vida e a Deus que o criou, ou celebrar a morte,
aterrorizado com a ideia de pecado e punição.
Você pode continuar escravo da preguiça, ou comprometer- se com você
mesmo e tomar atitudes necessárias para concretizar o seu Plano de Vida.
Você pode aprender o que ainda não sabe, ou fingir que já sabe tudo e
não precisa aprender nada mais.
Você pode ser feliz com a Vida como ela é, ou passar o seu tempo se
lamentando pelo que ela não é.
A ESCOLHA É SUA.
E o importante, é que você sempre tem escolha.
Pondere bastante ao se decidir, pois é você que vai carregar o peso das
escolhas que fizer.

(autor desconhecido)
Texto retirado na web; https://www.refletirpararefletir.com.br/
Sinopse

Escolha: sempre temos uma.


A cidade de Paraíso nasceu no meio de uma disputa pelo poder entre
duas famílias: a família Bergsen e a González, que se odeiam há gerações.
Mas em meio ao ódio e ao conflito, dois jovens se conhecem e se apaixonam,
sem dar importância ao que poderia lhes acontecer.
Eva Linhares está prometida em casamento a Rodrigo González, um
homem cruel que age como um verdadeiro déspota na cidade, sempre
fazendo valer a sua vontade. O maior desejo de Rodrigo é possuí-la, sem se
importar com a vontade da jovem, que tem um espírito determinado e um
desejo de ser livre, de tomar as suas próprias decisões.
Quando Eva conhece Adam, o Conde de Bergsen, um jovem viúvo que
nunca ligou para a rivalidade entre as famílias, nasce entre eles uma grande
paixão e o antagonismo entre os Bergsen e os González se intensifica.
Escolhas serão feitas. Destinos serão selados.
Amor, ódio, rivalidade, chantagem. Estes são os elementos que
determinam as escolhas das pessoas que vivem em Paraíso.
Escolhas: todos fazemos as nossas. E você? Está disposto a pagar o
preço das suas?

Nota da autora:
As escolhas feitas pelos protagonistas desta história serão determinantes
para o destino dos seus filhos – Raphael Bergsen e Lilly González
(Protagonistas da próxima história – LÓTUS) – pois as escolhas que fazemos
hoje gera consequências futuras, sejam elas boas ou más. Por isso, antes de
optarmos pelo caminho que devemos seguir, precisamos tomar cuidado. Não
somente com aquilo que nos diz respeito, mas também com o que diz respeito
àqueles que nos cercam.
Prólogo

Paraíso é uma cidade pacata e antiquada, com costumes arcaicos e


famílias que parecem viver em um passado distante. Porém, é um lugar
maravilhoso para quem quer viver afastado dos problemas da cidade grande.
Cercada por montanhas e por uma vasta floresta, ela se tornou um lugar
misterioso.
Antes de virar uma cidade, séculos atrás, as terras pertenciam ao Conde
de Bergsen. Foi esse o lugar que ele escolheu para ser o seu refúgio, no qual
construiu o seu castelo, bem no alto das montanhas, no interior da floresta.
Assim, o velho conde fugiu da guerra que se alastrava pelo seu país, a
Noruega, e viveu escondido no Brasil durante anos.
Mas a sua situação financeira não estava muito boa e o velho conde se
viu obrigado a vender a metade das suas terras para um dos homens mais
poderosos da capital: o Senhor Maurilio González.
A partir daí, surgiu, oficialmente, a cidade de Paraíso. González, como
era chamado, não gostava de estrangeiros, então, posteriormente acabou se
tornando rival do Conde de Bergsen.
Essa rivalidade atravessou gerações. Os González não admitiam que os
Bergsen ficassem com o restante das terras. Sempre que podiam tentavam
impor que lhe vendessem a outra metade. Porém, os Bergsen conseguiram
um documento junto ao império brasileiro que afastava definitivamente o
assédio dos González. Estes ficaram proibidos de chegar próximo às
redondezas da propriedade e, caso insistissem, perderiam 30% das suas
próprias terras, que seriam imediatamente entregues à família do conde.
Determinação que vigora até os dias de hoje.
Após muitos anos longe da Noruega, o Conde voltou à sua terra natal, só
retornando a Paraíso nos verões. A propriedade Bergsen serve de casa de
veraneio para a família até hoje, sendo visitada pelos filhos, netos, bisnetos,
trinetos e tataranetos do velho conde.
Com este breve relato sobre a história de Paraíso, vamos conhecer a
história de um dos descendentes do Conde Bergsen.
Adam

ADAM
Capítulo 1

... 1994 ...

Ao entrar na mercearia, escuto uma voz doce e aveludada ralhando


com o ranzinza do dono do estabelecimento.
— Seu Manuel, não queira me enrolar. Eu sei que o senhor tem picolé
de cajá, eu vi a filha do Joaquim sair com um agora mesmo!
O velho convencido encara a pequena jovem como se pudesse enganá-
la. No entanto, o olhar astuto da jovem me diz que não.
Manuel é o dono do armazém mais popular de Paraíso. Nós podemos
compará-lo a um supermercado que, embora menor, supre as necessidades
dos moradores.
Ela o encara e o fuzila com o olhar.
— O senhor sabe que sou louca por picolé de cajá. Se eu pudesse
chupava todos. O senhor está escondendo o picolé de mim, não está? Não sei
por que faz isso, afinal, eu vou pagar por ele.
O homem de meia-idade franze a testa e não diz nada. Então resolvo
socorrê-la.
A pequena jovem está de costas e não me vê chegar.
— Libera o sorvete para a moça, Manuel! Aproveite e me dê um
também.
A jovem se vira.
Ela me olha de cima a baixo, boquiaberta, como se eu fosse um dos
homens mais bonitos de Paraíso. Seus lábios se esticam em um largo sorriso.
Fixo os olhos nos dela, devolvendo o sorriso.
— Cadê o bendito sorvete, Manuel? — Peço com certa impaciência.
Manuel resmunga alguma coisa, sumindo no interior do armazém. Logo
depois, volta com dois picolés, entregando um para mim e outro para a linda
jovem que não consegue desviar os olhos de mim.
— Aqui está o seu picolé de cajá. Eu só espero que seu pai não venha
reclamar comigo outra vez e me culpar por você ficar doente. — Manuel
entrega o sorvete para ela.
— Obrigada! — Ela coloca moedas no balcão. Eu as recolho
imediatamente e devolvo para ela, dizendo:
— Sou um cavalheiro.
A linda jovem faz uma cara feia e me entrega seu sorvete, saindo sem
me dizer uma palavra.
Vou atrás e lhe chamo.
— Ei! – Puxo-a pelo braço, fazendo com que se vire. — Fiz algo de
errado? Eu a ofendi?
— Você acha que pode me comprar com um sorvete? Sei que eu sou de
uma cidade que nem existe no mapa, mas não sou idiota. Volte para a capital
e tente enganar as moças de lá. — Ela se livra das minhas mãos e sai
apressadamente.
— Ei! Espera... — Ela nem me dá atenção e continua andando. Eu vou
atrás dela. — Moça! Caramba, você quer me escutar? Os picolés estão
derretendo. — Paro, mas ela continua andando. — Me desculpe! — Digo
com voz melosa. Diante disso, ela para e se vira.
Assim que os meus olhos se encontram com os seus, eu sinto uma
eletricidade correndo nas minhas veias. É a visão mais linda do mundo.
Nossa! Ela se parece com um anjo, de tão linda que é.
Parece que o fascínio é mútuo, pois os seus olhos não se desviam dos
meus. Sou avaliado por longos minutos por um olhar que me desnuda.
Ela caminha na minha direção. Eu sorrio para ela.
— Me perdoe, eu não quis ofender. — Ela traga o ar com força. — Não
sou um turista nem um viajante, eu moro aqui. Quer dizer, minha família tem
residência aqui há muito tempo. — Entrego-lhe o sorvete e estendo a mão em
um cumprimento. — Adam Manzur Bergsen. — Ela continua me olhando,
fascinada. Limpo a garganta, chamando a sua atenção. Ela aceita a mão
estendida. — E o seu nome, qual é?
Envergonhada por ter se comportado como uma idiota — sim, ela de
fato se comportou como uma —, finalmente sorri e responde:
— Eva Linhares.
— Olá, Eva. Me desculpe mais uma vez se lhe causei uma má
impressão.
Percebo que as suas bochechas ardem, pois ficam ruborizadas. Eu dei
um tapa com luva de pelica em sua empáfia.
Eva baixa os olhos por alguns segundos para se recompor de sua
estupidez e depois volta a me encarar.
— Eu peço desculpas também, fui muito grossa com você. — Ela me
avalia com extrema atenção. — Nunca te vi por aqui. Onde você mora?
— Nas montanhas. Não costumo vir muito a Paraíso, deve ser por isso
que não sabe quem eu sou.
— Você disse nas montanhas? Onde? Lá só tem mato. — Ela franze a
testa e fixa os olhos no meu rosto. — Você só pode estar de gozação com a
minha cara! Quem em sã consciência moraria nas montanhas?
Sorrio.
— Nosso sorvete vai virar suco dentro do saquinho. — Examino nossos
arredores. — Vamos nos sentar ali. — Indico um tronco de árvore embaixo
de uma amendoeira. Caminhamos até lá e nos sentamos. — Você sempre
morou aqui? — Ela responde que sim, balançando a cabeça, enquanto prova
o seu sorvete. — Não conhece a história da cidade, Eva? Sobre o seu
fundador?
— É claro que eu sei quem fundou Paraíso: foi a família González. Até
hoje eles mandam e desmandam na cidade. Para ser sincera, eu não gosto
dessa família, principalmente do filho do Senhor González, o Rodrigo.
Ela lambe o sorvete de forma descontraída, passando a língua por toda
sua extensão. Sua boca fica toda suja, os dedos também. Enquanto os limpa
com os lábios, me diz:
— Meu pai vive dizendo que eu serei a esposa dele, que eu sou a sua
prometida. Não vou me casar com ele, mas não vou mesmo! Quando o
Rodrigo me olha, ele me desnuda por inteira. Seu olhar é faminto, sedento, e
isso me dá medo. — Ela me olha convicta do que diz.
O que dizer? Não conheço o tal Rodrigo, então só lhe dou um sorriso
torto. Limpo a garganta e mudo de assunto.
— É isso que ensinam na escola? — Fito-a, arqueando as sobrancelhas.
— Sim, por quê? — Ela pergunta com curiosidade.
— Nunca lhe disseram que quem inicialmente comprou estas terras foi o
Conde de Bergsen? Ele morou durante anos aqui, com a família. Eu sou um
dos descendentes dele.
Eva fica boquiaberta e com duas rugas de curiosidade na testa.
— Caracas! Já tinha escutado essa história, mas pensei que fosse
conversa do povo antigo da região. Então... vo-você é um Conde!? Pera aí...
— Ela grita, abismada, levantando-se imediatamente. — Então o castelo do
alto da montanha existe mesmo?
— Sim. — Encaro-a, espantado. — Eva, você não sabia sobre o castelo?
Eu não acredito! Minha família sempre vinha passar as férias aqui. Eu vinha
quando era criança, mas depois que me tornei adulto preferi ficar no Rio de
Janeiro, em Búzios. A família da minha mãe tem residência lá.
Eva fica sem saber o que dizer, ela realmente desconhecia a existência
do castelo.
— Não, eu não sabia. Desde criança nos contaram uma história
totalmente diferente sobre Paraíso e o castelo. Eu pensava que era um mito,
os meus pais sempre me disseram que as montanhas estavam repletas de
animais selvagens.
Escuto sua explicação com atenção, mas depois caio na gargalhada.
Em poucos minutos conto a verdadeira história da cidade. Não sei
explicar, mas tanto eu quanto ela nos sentimos muito à vontade um com o
outro.
Nosso sorvete acabou e continuamos a conversa, até que eu ouço a voz
de um homem, aos berros.
— EVA! – Ele esbraveja, nervoso. — Passe agora para cá. O que você
faz de conversa com esse aí? — Ele vem até Eva e a puxa pelo braço.
Levanto e digo em defesa dela:
— Calma! Ela só está conversando, não precisa ser grosseiro. — O
homem, que aparentemente é seu pai, à solta. Dando dois passos, encosta em
mim. Com a voz raivosa, ele fala:
— Eu sei muito bem quem você é, seu estrangeiro de merda! Não pense
que vamos te aceitar entre nós só porque fala bem o português. — Ele cospe
no chão, demonstrando todo o seu asco. — Nunca mais chegue perto da
minha filha.
Ele me dá as costas e sai arrastando Eva pelo braço. Sem olhar para
mim, diz:
— Ela não é para você. Volte para a sua propriedade e não saia mais de
lá.
Certamente, Eva não entende o motivo para eu ser maltratado desse
jeito. Ela fica muda de tanta vergonha.
Vai embora, praticamente arrastada.
Sem que percebam, eu os sigo. Fico preocupado com o modo como
aquele brutamontes a tratou. Mesmo sendo o pai de Eva, ele não tinha o
direito de subjugá-la daquele jeito.
O homem segue reclamando com ela até chegarem em casa. Me escondo
em um local seguro, onde não posso ser visto, mas de onde consigo escutar e
ver tudo o que se passa. Se a situação ficar perigosa — para ela — eu
certamente irei interferir.
— Dona Eva, você já está na idade de se casar. É bonita, inteligente, e o
senhor Rodrigo está disposto a pagar um bom dote por você. Eu acho que
devemos apressar esse casamento.
Dote?! Paraíso tinha parado no tempo! As famílias daqui ainda casavam
suas filhas em troca de um dote. Pobre Eva. Mas pelo que vi, ela não aceitaria
aquilo.
— Mas nem morta que me caso com um homem que eu não amo. E tem
mais, papai. — Ela olha para o pai com firmeza. — Quem lhe disse que eu
quero me casar? Vai sonhando com isso!
Sua mãe manda que cale a boca. Ela se cala e sai correndo para o quarto.
Só escuto o seu pai dizer com altivez:
— Essa menina precisa de um marido que lhe coloque um cabresto, já
que eu não consigo fazer isso. A culpa é sua, Lúcia. — Escuto os seus passos
fervorosos saindo da sala, enquanto resmunga.
Sua mãe baixa a cabeça e vai para a cozinha, obediente como uma
mulher submissa.
Dou a volta na casa, até encontrar o quarto da Eva. Espio pela janela só
para me certificar que ela ficará bem. Assim que a vejo trancar a porta do
quarto e se deitar na cama, vou embora.
Passo a noite sem conseguir dormir direito. Não paro de pensar no que o
pai de Eva disse. Será que ele realmente está decidido a arrumar um marido
para ela? Eu tenho certeza, pelo pouco que vi e escutei, que Eva não vai ceder
com facilidade. Se o seu pai persistir com a ideia, é bem capaz que ela tente
fugir de casa. É o que sempre acontece quando os pais tentam impor aos
filhos algo que eles não querem fazer.
Eu só espero que ela fique bem e que o déspota do seu pai tire aquelas
ideias arcaicas da cabeça. Também espero que ele não tente nada agressivo
contra ela. Ele parece ser um daqueles pais que costumam resolver tudo na
base da violência.
Capítulo 2

— Senhor Adam! Senhor Adam!


Acordo com Alfredo batendo na porta do meu quarto. Alfredo é filho de
Austin, o mordomo do meu pai. Em uma viagem ao Brasil, Austin conheceu
Manuela e eles se apaixonaram. O resultado dessa paixão foi o Alfredo. Ele
tem quase a mesma idade que eu: 32 anos. Somos mais amigos do que
simples patrão e empregado.
— Entra, Alfredo! — Grito, ainda sonolento. — Qual é o problema,
aconteceu alguma coisa? Que horas são? — Pergunto assustado.
— Ainda é muito cedo, Senhor. E não, não aconteceu nada, é que... —
Ele olha ligeiramente para a porta, depois se volta para mim. — Tem uma
moça no portão principal dizendo que conhece o Senhor.
Alfredo me encara com um ar curioso.
— Moça?! A moça tem nome?
— Eva.
Levanto com um susto e corro para o banheiro.
— Só um minuto, eu já desço. — Falo com pressa. — Alfredo, pode
deixar que eu mesmo vou buscá-la.
Meu banho é rápido, em menos de cinco minutos já estou apresentável.
Desço as escadas correndo. Chego ao portão principal tão depressa que nem
percebo estar ofegante. Não entendo o que está acontecendo comigo, eu
conheci a moça ontem e o meu coração já está descontrolado. Pareço um
adolescente prestes a se encontrar com o seu primeiro amor.
Assim que a vejo, quase paro de respirar. Ela está linda! Seus cabelos
negros e compridos tornam o seu rosto muito mais angelical. O seu lindo
vestido floral curtinho deixa suas pernas muito mais longas, mas o que mais
me chama a atenção é o seu jeitinho de menina sapeca. Ela é um pássaro livre
e rebelde e isso me agrada.
Cristo! O meu coração parece saltitar.
— Eva! Eu não acredito que você veio até aqui de bicicleta. — Gelo
com as cenas que se desenrolam pela minha cabeça.
O caminho da cidade para cá é muito perigoso. Ele é cheio de subidas
estreitas e tem um abismo de arrepiar até a alma. Ela sorri e o seu sorriso
aquece o meu coração. Um simples ato que desperta um mar de sensações
dentro de mim, sendo uma delas uma vontade louca de beijá-la.
— E o senhor Conde queria que eu viesse como? De táxi? — Ela dá
uma sonora gargalhada. — Paraíso não tem nem ônibus, quanto mais táxi. O
nosso principal meio de transporte é a bicicleta. Carro é só para os ricos, que
são poucos.
Abro o portão e a ajudo a entrar. Ela e a sua bicicleta, que entrego ao
meu segurança.
Eva me olha, surpresa.
— Não se preocupe, ele cuidará bem do seu veículo. — Eva sorri
ligeiramente e começa a observar a propriedade.
— Caracas! Isso aqui é enorme e lindo! Como eu poderia imaginar que
em Paraíso havia um castelo de tamanha beleza?!
Andamos pelo jardim. A cada passo que damos, Eva faz uma pausa para
admirar as flores, os arbustos e as lindas borboletas que brincam, rodopiando
pelo ar. Quando chegamos em frente ao castelo, ela para boquiaberta.
— Eu posso entrar? — Pergunta, me olhando com um brilho lindo nos
olhos.
Eva fica encantada. Como uma criança, ela corre em direção à entrada
principal. Eu tento acompanhá-la. Antes de abrir a imensa porta de madeira,
ela segura a minha mão, me olha sem jeito e argumenta:
— Desculpe por ter vindo sem avisar. Eu fiquei constrangida com o que
papai fez, então resolvi vir pedir desculpas no lugar dele.
— Não se preocupe com isso, eu já estou acostumado com a indiferença
do povo de Paraíso em relação à minha família. Essa é uma das razões de eu
não vir muito aqui.
Eu realmente não gosto do jeito que me tratam. Meu pai sempre me
dizia para não me importar, porque o povo carrega um ódio que não pertence
a ele, e sim à família González. Então, para não me aborrecer quando venho
para o Brasil, fico em Búzios.
Entramos no castelo. Eva parece uma criança em um parque de
diversões. Ela observa tudo à sua volta. Mexe nas coisas e eu me divirto com
a sua euforia. Mila vem até a sala e nos chama para o café da manhã.
— Café da manhã! — Eva fala com certo espanto e, sem nenhuma
cerimônia, segue Mila até a sala de jantar. — Caracas! Isso é comida para um
batalhão!
— Sente-se. — Puxo uma cadeira, me curvando e exibindo o assento.
Eva sorri, surpresa com o meu cavalheirismo, e senta.
Foi o café da manhã mais animado da minha vida. Conversamos como
se já nos conhecêssemos há anos. Falamos sobre tudo, principalmente sobre
os sonhos dela. Ela pretendia estudar na capital, o seu sonho é fazer
pedagogia. Eva me disse que logo vai realizar o seu desejo. Depois de
descobrir que o pai pretende casá-la com Rodrigo González, me confessou
que anda juntando dinheiro para fugir de casa, já que jamais permitiriam que
morasse sozinha em uma cidade grande.
Terminamos o café e saímos para passear pelos jardins do castelo.
— Adam! — Ela me olha sorrindo e eu percebo que fica envergonhada.
— Eu posso te chamar assim? — Digo que sim. — Me fale de você.
— O que quer saber? — Devolvo a pergunta.
— Você é solteiro ou deixou alguém onde mora? E onde é que você
mora mesmo?
Agora eu rio com vontade. — Moro na Noruega. E eu não sou solteiro.
Ela fica séria, percebo certa decepção no seu olhar, por isso logo
remendo o que disse.
— Sou viúvo, a minha esposa morreu há quase um ano. Eu tenho um
filho de dez anos.
Ela para diante de mim, segura as minhas mãos e fala carinhosamente:
— Eu sinto muito. Você devia amar muito ela, por isso está tão triste.
Percebendo a sua preocupação, eu mantenho o contato das nossas mãos
e a guio até um banco próximo a um chafariz. Nos sentamos e eu lhe conto
um pouco sobre mim.
— Não estou triste por isso. Não nego que senti a sua morte, afinal, ela
era minha esposa e mãe do meu filho. Mas eu não a amava e nem ela a mim.
Nosso casamento foi um acordo entre as nossas famílias e, apesar de ela ter
nascido aqui no Brasil, o seu pai é um nobre Norueguês. O acordo foi muito
vantajoso para os dois.
— Como assim, acordo? Você não pôde escolher com quem queria se
casar? E eu pensei que só em Paraíso que existia isso. — Ela franze a testa e
aguarda a minha resposta.
— Agora eu posso, já que sou viúvo. Mas antes o casamento era um
negócio. — Eva se levanta, para na minha frente e pergunta, sem hesitar:
— Você já se apaixonou? — Sua pergunta me pega de surpresa, mas eu
resolvo ser sincero.
— Diversas vezes, mas eu nunca amei uma mulher. E você? — Devolvo
a pergunta, já prevendo sua resposta. Ela é jovem demais para já ter amado
alguém.
Eva solta uma risada maravilhosa.
— Eu nunca pensei nisso, os homens daqui não me encantam. Eu só vou
amar uma vez na vida e esse homem será o primeiro e o único.
Surpreso e curioso com a sua resposta, eu resolvo instigá-la.
— Você já namorou alguém, Eva?
— Não. — Ela é direta na resposta. — Já disse, os rapazes daqui não me
agradam. Eles são muito antiquados, acham que as mulheres existem para
serem usadas. — Noto certa melancolia na sua voz, como se faltasse algo em
sua vida. Eva, percebendo que eu a observo, se sobressalta. — É verdade que
aqui tem uma cachoeira e que suas águas são milagrosas?
Desato a rir. Eva me olha e faz um bico de zanga. Confesso que esse
gesto desperta outra vez a vontade de puxá-la para mim e morder seus lábios.
Paro de rir e respondo à pergunta.
— Sim, existe uma cachoeira no interior da propriedade, só não sei se as
suas águas são milagrosas. — Não desvio o olhar dos seus olhos curiosos. Ela
franze a testa. — Eva, a cachoeira fica no meio de um jardim de flores de
lótus. Para chegar até lá é preciso atravessar um lago de lodo. É muito difícil
passar pelas raízes das plantas. — Percebo que aticei a sua curiosidade, mas
continuo. — Costumava me aventurar no lago quando era garoto. Eu ficava
todo estropiado, mas valia a pena, a cachoeira é maravilhosa. — Eva me
observa e eu já sei o que virá a seguir.
— Me leve até lá, por favor, por favor! — Ela junta as mãos,
suplicando. — Segundo a lenda, as águas da cachoeira são medicinais. Dizem
que as mulheres que não podem ter filhos, se conseguirem atravessar o lago
lodoso e se banharem nas cascatas cristalinas da cachoeira, se tornam férteis.
Por favor, me leve até lá!
Não consigo conter a gargalhada.
— Por acaso você pretende se tornar fértil? — Eu tinha que lhe fazer
essa pergunta.
— Não, seu tolo, eu só quero ver a beleza do lugar. Estou imaginando
um jardim de flores de lótus e lá no fundo, bem escondida, uma maravilhosa
cachoeira. Deve ser a visão mais linda do mundo. Você vai me levar até lá?
Como resistir a tal súplica? Acato o seu pedido, afinal, isso significa
passar mais tempo ao seu lado.
— Ok! Você sabe montar a cavalo? Porque é um pouco longe. — Ela
pula no meu pescoço, sorrindo de alegria.
Perco o equilíbrio e, no susto, ela quase cai, mas eu a seguro firme,
mantendo-a presa junto ao corpo. Rodeando sua cintura com as mãos, nossos
rostos ficam tão perto que sinto o calor do seu hálito e quase toco os seus
lábios com os meus.
Deus! Desejo muito beijá-la.
— Peguei você. — Digo sem tirar os olhos dos dela.
— Eu sei, pegou bem firme... — Ela passa a ponta da língua nos lábios,
e isso me deixa louco.
— Você está bem? — Não consigo desviar o olhar do seu rosto e da sua
boca. Nossos corpos estão tão próximos que eu consigo sentir os seus
batimentos cardíacos.
— Sim... — Ela faz outra vez; lambe os lábios. Eu quase a beijo...
nossos narizes se tocam, ela baixa os cílios e desce dos meus braços. — Eu
sou uma excelente amazona, amo cavalos. Vamos? — Eva tenta disfarçar a
tensão que surge entre nós dois.
Andamos até o estábulo sem dizer nada um ao outro.
Escolho uma égua mansinha, depois ajudo Eva a montá-la. Em seguida,
monto o meu cavalo. Seguimos pela floresta e depois pegamos um atalho.
Quando chegamos a uma clareira, desmontamos e seguimos a pé. Subimos
várias inclinações e descemos alguns declives até chegarmos à parte densa da
floresta.
Acompanhamos o som da cachoeira.
Finalmente, chegamos à clareira da queda d’água. A rocha elevada é
cercada de árvores altas e de uma enorme lagoa escura, repleta de folhas
verdes e redondas, e em vários pontos, há uma porção de flores de lótus de
cor vermelha, que boiam em suas águas escuras. Bem ao fundo, a cascata de
água cristalina bate na grande rocha, formando várias corredeiras menores.
Eva fica hipnotizada, passa na minha frente sem dizer uma só palavra, e
quando chega bem na beira do lago, faz a coisa mais inesperada...
Despe-se do vestido e fica só de calcinha e sutiã.
— Eva! — Grito, assustado. — O que pensa em fazer? — Ela não me
escuta, entra no lago sem olhar para trás.
Mesmo que eu tente, não consigo desviar os olhos da cena. O lindo
corpo da Eva vai desaparecendo sob as águas turvas do lago, só ficando os
seus ombros à mostra. É a visão mais linda que já presenciei em toda a minha
vida. Estou completamente hipnotizado, presencio o que parece ser uma cena
de um filme de fantasia. Eva, em meio ao lago de lótus, sorri, segurando as
flores nas mãos.
Estou tão absorvido pelo que vejo, que nem percebo que Eva me chama
para lhe fazer companhia.
— Você não vem? Anda! Isso aqui é o paraíso. — Ela larga as flores de
lótus e começa a andar em direção à cachoeira.
Ao chegar nas rochas, ela toca as mais próximas procurando uma segura
para escalar. Ela tenta umas duas vezes, mas elas são escorregadias. Eva
finalmente encontra uma firme e senta-se nela, abrindo os braços para o alto e
recebendo a cascata de água sobre a cabeça. Fascinado com a visão, eu não
consigo nem piscar. Não sei quanto tempo esse filme enlouquecedor irá
durar.
— Adam, Adam! — Sua voz meiga me tira do transe. — Vem?
— Não, eu prefiro ficar aqui, apreciando a bela paisagem. — Ela sorri.
Minutos depois, Eva desce da pedra e nada na minha direção. Tiro a
camisa para cobrir o seu corpo seminu por dois motivos: um, ela certamente
ficará com frio, e dois, eu certamente ficarei excitado.
Aos poucos, o seu corpo vai sendo descoberto ao sair das águas turvas e
eu observo cada detalhe das suas curvas perfeitas, desde as pernas longilíneas
e bem torneadas, quadris arredondados, cintura tão fina que parece que vai
quebrar ao meio, até os seios. Minha nossa! Imagino como serão sem o sutiã
e só tenho certeza de uma coisa: eles são maiores do que as palmas das
minhas mãos.
Enquanto ela chega na beira, eu me aproximo lentamente. Percebo que o
seu corpo está arrepiado e os tímidos mamilos rígidos. Eu não consigo parar
de avaliar o resto, então o meu olhar desce até o seu V, que está coberto por
uma calcinha preta. Merda! Fico tão excitado que dou graças a Deus por estar
usando uma calça jeans. Eu a cubro imediatamente, e por mais que aprecie o
que vejo, tenho necessidade de ocultar a tentação que provoca tais coisas em
mim.
Mas a minha fuga é temporária. Eva treme, batendo os dentes. Não tem
outro jeito, eu a puxo para mim, abraço o seu corpo e esfrego as mãos nos
seus braços e costas. Ficamos por um bom tempo aconchegados um ao outro,
até ela parar de tremer.
Não sei se ela percebe o quanto estou excitado, mas os seus olhos se
fixam aos meus ao erguer a cabeça. O brilho que vem deles é muito
convidativo e a minha necessidade só cresce, tendo o seu corpo preso ao meu,
seus seios colados na pele. Sinto os seus mamilos me cutucarem. O desejo
grita dentro de mim... eu a quero! Desejo essa moça com força. Eva continua
me olhando e eu não consigo desviar os olhos dos seus lábios nem do seu
olhar.
Preciso tomar uma decisão. Ou a beijo agora, ou a afasto.
A segunda opção é a mais sensata, por isso eu a afasto. Vou até a beira
do lago, pego o seu vestido e lhe entrego. Eva se vira, fica de costas e se
veste. Prende os cabelos no alto da cabeça e, como ainda sente frio, continua
com a minha camisa sobre os ombros. Voltamos para o castelo sem dizer
nada um ao outro. Ela deve ter sentido o peso do nosso silêncio, porque
resolve quebrá-lo e me fazer uma pergunta:
— Na Noruega você mora em um castelo?
Estamos passando por um dos jardins, e antes de responder, paro por um
instante e vou até o canteiro de hibiscos. Pego uma flor e entrego para Eva.
Nossos dedos se tocam e nos entreolhamos por alguns segundos.
Esse momento mágico me afasta do mundo real. Se Eva não se afastasse
do toque da minha mão, talvez ficássemos assim por longos minutos.
— Não. Eu moro em Ålesund, uma cidade pesqueira. A minha família
tem uma indústria de pesca por lá. Eu posso lhe dizer que gosto mais da
minha casa do que deste castelo. Pelo menos ela é bem menor. Nos fins de
semana eu vou para uma ilha particular onde tenho uma casa. Meu filho
adora ficar lá, e eu também.
Sou sincero, minha casa em Ålesund é muito confortável. Ela se divide
em dois pavimentos e fica próxima ao meu escritório, assim posso conviver
mais tempo com o meu filho Raphael.
— Você acha que eu levo uma vida de rei? — Sorrio. — Posso até ter
título de nobreza, mas sou um homem comum, levo uma vida normal como
todo mundo. Dou um duro danado todos os dias. Se estou aqui hoje é porque
precisava de um tempo só para mim.
Ao fazer este comentário, relembro o que meu médico recomendou:
“Adam, ou você tira umas férias ou você morre. Escolha!”
Antes da doença da Laura, eu vivia unicamente para o meu trabalho, e
quando ela adoeceu e faleceu em seguida, fui obrigado a me dividir entre ele
e o meu filho. Ele sentiu muito a morte da mãe e a sua tristeza cortava o meu
coração, então eu fazia todo o possível para evitar deixá-lo sozinho. Isso me
obrigava a dormir muito tarde e a ter que acordar bem cedo. Dormir e comer
mal me levou a uma estafa física e mental.
— Eu só pensei, quer dizer... Eu vejo nas revistas como a nobreza vive,
por isso pensei que seria da mesma forma com você. Desculpe a minha
ignorância.
Paro diante dela, Eva brinca com a flor que eu lhe dei. A sua cabeça está
baixa e as suas mãos giram o caule da flor entre os dedos pequeninos. Seguro
seu queixo, erguendo o seu rosto e forçando-a a olhar nos meus olhos.
— Eva! Pare com isso. Pelo pouco que te conheço, você é uma moça
muito inteligente e fantástica. Não se subestime, ok? — Pisco um olho e beijo
a sua testa. — Você aceita almoçar comigo?
— Com prazer! — Ela responde imediatamente.
Nós entramos e eu a convido para conhecer a biblioteca. Antes, ela pede
permissão para ir ao banheiro e eu entendo o motivo. As suas roupas íntimas
devem estar incomodando, ainda devem estar molhadas. Ensino o caminho.
Eva volta com uma aparência renovada, muito mais linda! Cabelos
penteados, soltos e com cheiro de sabonete. Ela senta em uma poltrona bem
diante de mim e eu a fico observando por um bom tempo.
— Faça logo a pergunta que está lhe atormentando, Senhor Conde. —
Ela fala com ironia.
Limpo a garganta e me ajeito na cadeira.
— O seu pai sabe que você está aqui? Pergunto isso porque eu sei que
ele te proibiu de chegar perto de mim.
— Não, ele não sabe. Quando eu saí de casa estavam todos dormindo. –
Sorri levemente. — Eles já estão acostumados com os meus sumiços, eu
tenho essa mania de ficar sozinha. Mesmo quando estudava, depois das aulas
eu só voltava para casa à noite. O meu pai fica louco com isso, ele diz que eu
tenho corpo de mulher, mas que a minha alma é de um bicho indomável. Ele
não consegue me impor regras.
Arqueio a sobrancelha e fixo o olhar no seu. Ela devolve o gesto e me
oferece um sorriso torto.
— O que foi? Eu sou desobediente mesmo, só faço aquilo que eu quero.
— Eva é um bicho livre, não tenho dúvida quanto a isso.
— Não tenho dúvida disso. — Respondo.
Mila vem nos chamar para o almoço. Foi uma refeição alegre. Eva é
uma moça muito diferente de qualquer outra que já conheci, e tenho certeza
de que jamais conhecerei uma igual. Quando ela foi embora já era final de
tarde.
Capítulo 3

...Um mês depois...

Eva e eu nos tornamos grandes amigos, até criamos uma rotina


deliciosa. Todos os dias ela vem ao castelo bem cedo, nós tomamos café da
manhã e depois vamos à cachoeira. Voltamos para almoçar e, no entanto,
sempre fazemos algo diferente à tarde: andamos a cavalo, lemos, jogamos
xadrez ou qualquer outra coisa. O que não falta é imaginação, e isso Eva tem
de sobra. Ficar perto dela é nunca cair na monotonia.
Ficamos tão amigos que ela até trouxe algumas roupas para o castelo,
inclusive trajes de banho. Eu a convenci, pois não sabia até quando me
seguraria vendo-a constantemente em trajes íntimos.
E hoje nossa rotina não seria diferente, sendo o meu aniversário.
Acordo com o som da sua voz. Checo as horas: é muito cedo, quase
06h15 da manhã.
— Que diabos está acontecendo? — Eva costuma rir e falar alto, mas
justamente hoje ela está sussurrando.
Visto o meu roupão e desço. Vou em direção ao som das vozes, elas
vêm da cozinha do castelo, e Eva não está sozinha. Quando abro a grande
porta, dou de cara com a Eva fazendo a maior bagunça.
— Vocês podem me dizer o que está acontecendo aqui? — Pergunto,
olhando a bagunça à minha volta.
Eva me olha com espanto. Pela sua fisionomia, não esperava me ver tão
cedo.
— Eu não tenho nada a ver com isso, quem contou foi a Mila. —
Alfredo se defende.
— Contou o quê? — Pergunto.
Então eu logo vejo o que Eva está fazendo. Suas mãos estão dentro de
uma bacia cheia de farinha de trigo, e ao lado há leite, ovos, manteiga e
açúcar. Junto as coisas... contaram que hoje é o meu aniversário!
— Mila, você não fez isso! Não contou a ela sobre hoje, não é? — Digo,
contrariado, pois todos sabem que eu não gosto de comemorar a data.
— Calma aí, grandão! — Eva exclama. — Eu praticamente obriguei a
Mila a me dizer. E pode engolir essa tromba, você já estragou a surpresa e o
meu bolo. — Eva faz uma cara de zanga quando percebe que estou me
aproximando. Assim que chego bem perto, ela sorri. — Bem, já que não vai
ter bolo, o que farei com tudo isso? — Ela fala, mostrando todos os
ingredientes que estão em cima da mesa.
Rapidamente, ela mistura tudo na vasilha: farinha, ovos, leite, açúcar e
manteiga. Quando menos espero, ela vira tudo sobre a minha cabeça. —
Agora só falta levar ao forno. — Pego de surpresa, fico sem ação, com a
gosma toda escorrendo pela cabeça. Eva mal consegue respirar de tanto
gargalhar.
— Sua moleca, você não perde por esperar, Eva! — Pego o litro de leite
que sobrou e corro em sua direção. — Ah, se vai! — Eva percebe a minha
intenção e corre para a porta que leva à área de serviço.
— Isso se você conseguir me pegar, seu molenga. — Ela corre para fora
do castelo.
Claro que eu a deixo pensar que vai conseguir escapar, e quando ela
menos espera, eu a alcanço e a seguro pela cintura. Eva se desequilibra e eu,
apressadamente, me jogo no chão, amortecendo sua queda. No impacto, os
nossos rostos ficam tão próximos que consigo sentir o calor da sua
respiração. Em um ato desesperado para disfarçar a minha emoção, derramo
o restante do leite na sua cabeça.
Eva solta um grito repentino enquanto tenta se soltar dos meus braços.
Prendo-a com firmeza e isso só nos aproxima mais, fazendo com que os
nossos olhos se fixem. Ela entreabre os lábios, e os meus olhos fitam a sua
boca... Então acontece o inevitável; junto os meus lábios aos seus. A
suavidade do beijo lento me deixa zonzo. Enquanto exploro seus lábios com a
ponta da língua, entrelaço os dedos nos seus cabelos, forçando seus lábios a
se abrirem. Exigindo mais do beijo, penetro sua boca com a língua, à procura
da sua. Quando a encontro, puxo-a, chupando-a com necessidade.
Uma das minhas mãos começa a explorar suas curvas com delicadeza,
deslizando lentamente os dedos na sua pele macia. Eva geme na minha boca,
e eu me aproveito da sua excitação. Começo a morder os seus lábios e a
explorar novamente sua boca com a língua. Delirante, ela roça o corpo ao
meu e com uma das mãos explora o meu corpo também. Emito um grunhido
rouco.
Solto a sua boca e começo a morder o seu queixo, escorregando a língua
até o lóbulo da sua orelha, sugando-a. Empunho os seus cabelos com força e
os puxo fazendo sua cabeça inclinar para trás, me dando acesso ao seu lindo
pescoço. Passo a língua sobre ele, deixando um rastro molhado, depois volto
para sua boca, beijando-a com posse.
— Eva! — Sussurro.
Eu a giro e trocamos de posição. Fico por cima, beijo-a com mais força
e me torno mais ousado. Minhas mãos vão até os seus seios e os apertam
suavemente através do tecido da blusa. Seus mamilos se tornam rijos e eu
escorrego a boca pelo seu pescoço, até chegar a um deles. Mesmo por cima
do tecido eu mordo o broto com os lábios. Ela está sem sutiã.
— Santo Deus! Eva, você quer me matar?! — Digo, ofegante. Ela ri.
Minha boca continua explorando os mamilos rijos e com uma mão
acaricio as suas coxas, subindo até o meio das suas pernas. Ela prende minha
mão com força entre as pernas e eu sinto o calor do seu sexo, bem como a sua
umidade. Enlouqueço, perco o juízo e começo a roçar no seu corpo. Minha
rigidez pulsa sob a calça do pijama e então eu me lembro que estou sem
cueca.
O que estou fazendo?
Meu juízo retorna ao lugar.
Afasto-me sem pressa, observando aquele rosto lindo, todo ruborizado.
O seu peito ofegante me mostra o quanto ela está excitada. Beijo a ponta do
seu nariz, enquanto tento recuperar meu controle. Eva tenta sorrir de maneira
inocente.
— Eu pensei que você nunca ia me beijar. — Ela diz, arqueando a
sobrancelha. — Por que o espanto? Eu já não estava mais aguentando de
tanta vontade. — Me choco com o seu descaramento. — Se você não tivesse
me beijado hoje, eu juro que lhe roubaria um beijo à força. Você é muito
lento.
Ela gosta de provocar, e eu não consigo segurar a gargalhada.
— Quer dizer que sou lento?
— Humhum. Demais! — Ela afirma.
— Vou mostrar a você o quanto eu sou lento. — Me levanto, e antes que
ela tenha tempo de reagir, eu a jogo por cima do ombro, batendo levemente
na sua bunda. — Banho, moça. — Eva esperneia, batendo com os punhos nas
minhas costas.
Entro no castelo e encontro rostos risonhos, achando engraçada a cena
ridícula. Deixo Eva em seu quarto. O quarto que ela mesma escolheu.
— Eu também preciso de um banho. De água fria! — Puxo-a para mim
e beijo os seus lábios. Não nego, eu quero mesmo é tomar banho com ela,
mas ainda não é o momento certo.
Eva me olha como se quisesse a mesma coisa. Deixo-a com vontade e
sigo para os meus aposentos. De banho tomado e com o domínio total das
minhas emoções, volto ao quarto de Eva, mas ela não está.
Será que eu a assustei?
— Eva? Eva? — Desço as escadas e vou à sua procura, chamando-a.
— Surpresa! — Eva surge na minha frente segurando um enorme bolo
coberto com uma calda de chocolate e frutas vermelhas. Então eu ouço a
famosa musiquinha... “Parabéns pra você, nesta data querida...”
Emocionado e completamente sem graça, só consigo sorrir. A última
vez que fizeram um bolo no meu aniversário foi bem antes de me casar.
Avalio com um olhar comovido cada rosto que me encara, principalmente o
de uma mocinha linda que está transformando a minha vida em uma
completamente nova.
— Vai ficar aí, seu bobo? Me olhando com cara de tacho? Isso aqui pesa
pra caramba! — Corro ao seu socorro e tiro o bolo de suas mãos. — Ei,
calma! Antes de apagar as velinhas, faça um pedido. — Assim faço. Fecho os
olhos e faço o pedido. — O primeiro pedaço é meu! — Eva fala, eufórica.
— Vou pensar no seu caso. — Digo, fitando-a com as sobrancelhas
arqueadas. Ela sorri, depois me mostra a língua, fazendo uma careta.
Corto o bolo e dou o primeiro pedaço a ela, depois divido entre todos.
Foi uma manhã diferente, regada a bolo de chocolate e a beijos de Eva. No
entanto, o meu melhor presente é ela.
Capítulo 4

Estou na biblioteca assinando alguns documentos que vieram da


Noruega, quando escuto o som da voz de Eva. Ela sempre se faz presente
com sua voz alegre e contagiante, só que desta vez sua voz está diferente.
Assim que a porta da biblioteca se abre, uma Eva com olhos vermelhos e aos
prantos entra. Logo percebo que algo de muito ruim aconteceu.
Levanto bruscamente e vou na sua direção. Antes que eu abra os braços
para recebê-la, ela se joga com força contra o meu corpo, em um gesto que
me surpreende. Preocupado com os seus soluços, eu a abraço apertado,
acariciando os seus cabelos com uma das mãos.
— Eva, meu Deus! O que aconteceu? O que te deixou assim? —
Inquiro, curioso.
Ao sentir o seu corpo trêmulo, um calafrio percorre a minha espinha e
sou tomado por uma sensação de extremo cuidado. Nunca senti algo parecido
por uma mulher, nem pela minha esposa fui capaz de ficar assim, querendo
acabar com o mundo inteiro só com meras suposições do que podia ter
ocorrido. Procuro uma explicação plausível para todo esse furor de
sentimentos desconhecidos. Eu não consigo assimilar nada, só uma vontade
louca de a proteger.
— Na-não foi nada... — Ela balbucia as palavras entre soluços. — Só...
só me abraça, só isso.
Afasto-me um pouco e tento encarar o seu rosto molhado pelas lágrimas.
Só então noto que o seu lábio superior está cortado e há uma mancha
vermelha bem próxima à sua boca, no lado esquerdo.
Ela sofreu agressão física! Esse pensamento faz com que uma cólera
imensa me domine.
— Quem bateu em você, Eva? — Com os olhos presos aos seus, seguro-
a pelos ombros e questiono. — Não minta para mim. Eu sei que bateram em
você, estou vendo os hematomas. Então, quem fez isso com você?
Eva tenta desviar o rosto. Talvez queira manter longe dos meus olhos o
corte labial e a vermelhidão da face.
— Eu caí, foi isso. Por favor, Adam. Não foi nada. — Ela tenta se
afastar das minhas mãos, afastando o rosto dos meus olhos.
Seguro-a forte e exijo o seu olhar. Nossos olhos se fixam.
As lágrimas escorrem, descendo tempestuosamente pelo seu rosto, como
um temporal sem trégua. Morro mil vezes por dentro, me sinto um incapaz.
— Eva, quem fez isso e por quê? — Indago mais uma vez.
Ela fecha os olhos, respira fundo, enquanto encosta o rosto no meu
peito. O choro fica mais forte e eu sinto que posso matar alguém apenas pelo
que estou sentindo agora. Ela treme tanto que penso que se desmanchará.
— Por Deus, Eva! Eu juro que mato a fera que bateu em você.
— Adam, só me abraça. — Ela diz pausadamente, com uma voz tão
sofrida que deixa o meu coração em pedaços.
Pego-a nos braços e caminho em direção à sala principal.
— Mila. — Chamo a minha governanta. Ela vem apressadamente. —
Preciso de um chá calmante. Leve para o meu quarto.
Mila olha preocupada para Eva. Assim que passo próximo a ela, eu
digo:
— Ainda não sei o que aconteceu, mas vou descobrir! — Respondo
antes mesmo que ela pergunte.
Mila assente com o olhar, vira-se ligeiramente e vai a passos largos para
a cozinha. Subo as escadas com uma Eva aos prantos nos braços. Quase caio
ao tentar subir dois degraus por vez.
— Shhh! Seja o lá que for, eu prometo que não vai mais acontecer. —
Não tenho ideia do que aconteceu, mas tenho certeza de que nunca mais
deixarei alguém encostar um dedo nela.
Deito-a na minha cama. Tento deixá-la o mais confortável possível.
Quando tento me afastar, ela me puxa para perto.
— Deite comigo, não quero ficar sozinha.
Eu não pretendia sair de perto dela, mas foi muito bom escutar a sua
súplica.
— Não vou te deixar sozinha, só quero que se sinta confortável para que
eu possa me sentar ao seu lado.
Ela sorri levemente. Um riso tristonho, e isso me deixa quebrado por
dentro.
Sento na cama, recostado na cabeceira. Ela ergue o corpo e escorrega em
direção ao meu peito, seu rosto se esconde na curva do meu ombro e ela
soluça mais uma vez.
Escuto batidas na porta.
— Entre. — Mila entra. Ela está com uma bandeja nas mãos.
— Trouxe um chá calmante bem morninho e compressas para pôr no
rosto dela. Se precisarem de algo mais, é só me chamar.
Mila se afeiçoou a Eva, as duas vivem cochichando e rindo pelos cantos.
Eu não sei o que elas tanto conversam, só sei que se tornaram grandes
amigas. Mila é solitária, se casou muito nova com o Alfredo e os dois não
têm filhos. Ela tem quase a mesma idade da Eva, acho que é por isso que as
duas se dão tão bem.
— Obrigado, Mila. Se precisar eu chamo, sim. Não se preocupe, ela
ficará bem. — Digo, tentando acalmar as duas e a mim mesmo.
Mila sai do quarto com o semblante preocupado.
Assim que a porta se fecha, volto minha atenção para Eva. Ela continua
com o rosto escondido no meu peito e eu sinto as suas lágrimas molharem o
tecido da minha camisa. Não posso ficar indiferente a tamanho sofrimento.
Seguro seu queixo entre os dedos e o levanto, fazendo os seus olhos
encontrarem os meus.
Seu lábio está inchado e o rosto muito vermelho. Não sei se foi um tapa
ou... não, nem quero cogitar a ideia. Me dói só pensar na hipótese.
— Eva... — Ela encosta levemente os lábios nos meus, me impedindo
de completar a frase. Não resisto ao toque suave da sua boca e a beijo com
carinho.
O calor do beijo me excita, ela tem esse poder sobre mim. A cada toque
seu o meu corpo entra erupção. Quando começo a me empolgar, ela geme.
Não de prazer, mas de dor. O frenesi do meu beijo machucou seu lábio
superior, então percebo o quanto estou sendo insensato. Me afasto
lentamente.
— Eva... — Respiro profundamente, encostando a testa na dela,
tentando descobrir o que aconteceu. — Querida, o que houve? — Ela tenta
me beijar outra vez, mas me afasto, virando o rosto para o lado oposto. —
Não, não tente fugir da minha pergunta. Se você não me contar, eu vou
descobrir e será pior para quem fez isso.
Impaciente, ela tenta se levantar, mas eu a impeço.
— Por favor, me deixe ir. Foi um erro vir aqui. Quero ir embora.
— Você não vai a lugar algum, não antes de me contar o que aconteceu!
— Coloco autoridade na voz e faço com que ela me encare. — Ou me conta,
ou vou atrás de quem fez isso com você.
Eva ergue o rosto e os seus olhos me fitam com uma determinação
inabalável. Ela tenta de qualquer jeito desviar a minha atenção do que
aconteceu, só que é tarde demais, eu já vi o estrago no seu lindo rosto.
— Adam, deixa para lá, eu não quero que você se meta nisso. Foi... foi
um erro vir até aqui. Você não pode e nem deve me ajudar.
Antes mesmo de conseguir impedi-la, ela se levanta da cama e tropeça
no tapete quando tenta alcançar a porta. Sou mais rápido e consigo evitar que
caia.
— Já disse que não irá a lugar algum sem antes me contar o que
aconteceu. Pare de ser criança, Eva! — Sou áspero, posso até dizer que sou
duro na maneira de falar. — Acho que eu tenho esse direito. Você e eu temos
intimidade o suficiente para isso. Ou não temos?
É o que penso. Afinal, nas últimas semanas, eu e Eva nos envolvemos
intimamente. Posso dizer que estamos namorando, pelo menos é o que eu
acho.
— Eu... eu não sei o que temos, você nunca me diz o que sente por mim.
Não posso... — Ela baixa os olhos e as lágrimas descem.
— Não pode o que, minha querida? — Ela continua de cabeça baixa. Eu
a abraço com carinho. — Eva, pelo amor de Deus, me diga o que está
acontecendo.
— Não posso continuar negando o que eu sinto por você. — Seus olhos
marejados me encaram. — Eu amo você. Amo muito e não posso me casar
com outro sentindo o que eu sinto.
Ela desaba, e se eu não estivesse perto, teria caído no chão.
— Por Deus, querida! — Levanto-a e a coloco nos braços, levando-a de
volta para a cama. — Você me ama? Tem certeza disso? — Incrédulo com a
sua declaração e perdido em uma confusão de sentimentos, eu faço as
perguntas mais tolas, aquelas que devem ser evitadas em um momento como
este.
— Você é um idiota. — Recebo a resposta que mereço. — Há muito
tempo que eu te amo, seu idiota...
— Querida... — Fico sem saber o que fazer, nunca escutei tamanha
declaração de uma mulher e nunca fiz uma parecida. É estranho isso, mas é a
pura verdade. — Eu te amo tanto quanto você me ama, tolinha.
Eva está sentada no meu colo e o seu rosto molhado pelas lágrimas está
bem próximo ao meu. Mantenho a posição ereta, sem desviar o olhar.
Enquanto a minha boca se aproxima lentamente da sua, a minha mão desliza
delicadamente pelos seus cabelos e os meus dedos escorregam suavemente
pela sua nuca para, em seguida, minha boca se juntar à sua.
Todo o corpo de Eva responde ao meu beijo, aguçando os meus
sentidos. Eu sei que ela está machucada, mas só de pensar em me afastar dela
o meu corpo e mente travam uma luta entre a razão e o desejo.
A razão vence a batalha.
Afasto-me.
Assim que a minha boca se separa da sua, escuto um gemido de
frustração.
— Querida, eu te amo tanto, tanto... Tanto que quero matar quem lhe
causou isso. — Seguro seu queixo e avalio os hematomas. A raiva cresce
dentro de mim. — Quem fez isso e por quê?
— Isso não importa mais. Agora que eu sei que me ama, não importa
mais.
— Enlouqueceu? Acha mesmo que eu vou deixar alguém te machucar?
Ou me conta ou eu descubro e será pior!
Sou incisivo. Eva precisa saber que não sou homem de deixar que
machuquem aqueles que amo.
Ela tenta desviar o olhar, mas eu travo o seu queixo com firmeza.
— Quem fez isso e por quê?
— Meu pai. Ele quer me obrigar a casar com o Rodrigo, estamos
noivos...
— O quê? — Não deixo que complete a frase. Estou completamente
enfurecido. — Seu pai fez isso com você? Ele... ele quer te obrigar a se
casar...
Engulo a raiva. Não consigo acreditar que um pai possa espancar uma
filha desse jeito. O rosto da Eva está muito vermelho, se ela não aplicar
compressas ele provavelmente ficará roxo. E o lábio ainda sangrava.
— Não importa mais, eu disse a ele que não vou me casar. Eu prefiro
morrer... foi por isso que ele me bateu. — Puxo-a para mais perto e beijo sua
testa.
— Vamos resolver isso. Eu vou falar com o seu pai e pedir você em
casamento...
— Fará isso? — Ela me interrompe. — Jura que quer se casar comigo?
Ela me olha com assombro.
— E por que não me casaria? Eu te amo, quero ficar velhinho ao seu
lado. — Seus braços envolvem o meu pescoço e a tristeza em seu olhar dá
lugar a um brilho intenso.
— Eu pensei que um conde não poderia se casar com uma moça assim
como eu. — Eva me encara com um olhar inquiridor.
— Assim como você? — Pergunto e sorrio. — Linda, alegre, cheia de
vida e... e muito corajosa! — Beijo a ponta do seu nariz. — Claro que um
conde pode se casar com uma moça como você. Ele não só pode, como deve.
Ela sorrir, e a ruga na minha testa desaparece. Contudo, não esqueço a
agressão sofrida por ela. O seu pai vai ter que se explicar.
— Quando posso conversar com os seus pais?
— Papai viajou com o Rodrigo, eles foram inspecionar algumas terras,
voltam em algumas semanas.
— Então falarei com ele assim que ele voltar.
Ela abre um sorriso largo, como se as minhas palavras fossem a sua
tábua de salvação.
— Adam, mesmo que você não quisesse se casar comigo, eu jamais me
casaria com o Rodrigo. Ele me dá medo, temo que seja pior que o meu pai.
Antes mesmo que ela complete a frase, eu a interrompo com um beijo
leve e lhe digo com excessivo carinho:
— Querida, nunca mais ninguém encostará um dedo em você, nem
mesmo o seu pai. Eu prometo. Agora, vamos cuidar dos seus hematomas.
Depois... bem, depois eu quero mimar você.
Eva se entrega aos meus cuidados. Ela está calma, sem lágrimas e o seu
coração bate apressadamente, mas por minha causa.
Capítulo 5

Após o incidente com Eva – se é que posso chamar aquilo de


incidente – não a vejo mais com frequência. Sua mãe está controlando suas
saídas. Eu a aconselhei a obedecer e evitar atritos com os seus pais. Quanto
menos ficarem aborrecidos melhor para nós, já que pretendo lhe pedir em
casamento. Sei que não sou bem-vindo em Paraíso. As pessoas me
expulsariam daqui se pudessem, portanto, é melhor não abusar da sorte.
Essa desavença com os Bergsen vem desde a época que Paraíso foi
fundada pelo meu tetravô. Eu nunca entendi o porquê de tantas brigas, só sei
que desde aquela época nossa família evita vir a Paraíso, mesmo sabendo que
somos os donos de mais da metade destas terras.
Sinceramente, eu nunca me importei com as intrigas entre a minha
família e a família González. Até o momento.
Hoje, começo a me importar. Essa guerra pode prejudicar o meu
relacionamento com a mulher que eu amo, e isso eu não vou permitir.
— Senhor Conde, telefone. É da Noruega.
Estou no jardim, esperando por Eva. Combinamos de passar o dia
juntos, faz cinco dias que o seu pai está viajando e, desde então, se
conseguimos nos ver por três dias foi muito.
— Por que não ligaram para o meu celular? — Olho para a mesa onde
está o meu aparelho Motorola.
— O Senhor esqueceu que em Paraíso o sinal de telefone móvel não
funciona direito?
— Esqueci desse detalhe, Mila. Eu já estou indo.
O telefone móvel chegou há pouco tempo no Brasil e o sinal é muito
precário. Em algumas regiões ainda não existem redes de telecomunicações,
o que torna a acessibilidade restrita.
Respiro fundo, estou preocupado com a demora da Eva.
Ela virá, Adam, não se preocupe.
Chego na biblioteca.
— Alô! — A ligação não está muito boa, eu quase não consigo escutar o
que dizem do outro lado da linha. — Sallin, é você? — Estou quase gritando.
— Senhor Conde, estou tentando falar com o senhor há dois dias. O seu
celular não dá sinal e o fixo está sempre ocupado.
— Meu celular não pega direito aqui, Sallin. E o fixo é problemático. É
difícil completar a ligação. O que houve?
— Estou tentando avisar sobre a reunião com os pescadores de
Ålesund. Eles só querem negociar com o senhor.
Tinha esquecido completamente da bendita reunião. Eva tomou todo o
meu tempo. Desde que nos conhecemos, tudo para mim só diz respeito a ela.
Deixei de pensar até nos meus negócios na Noruega e só telefono para casa
para falar com o meu filho, Raphael.
Antes da morte da minha esposa, Adeli, eu comecei um projeto para
expandir a rota pesqueira e exportar alguns pescados para o Brasil, mas tenho
encontrado alguns obstáculos junto a uns pescadores da associação. Eles têm
medo do progresso. Acham arriscado mudar o que há décadas dá certo, mas
eu consegui convencer algumas cooperativas. No entanto, as mais
importantes ainda estão com o pé atrás.
— [2]Dritt! Esqueci completamente da reunião, Sallin. Eu sei o quanto é
importante para nós. Remarque para daqui a alguns dias, é o tempo que eu
tenho para resolver alguns problemas.
Sallin prossegue falando sobre a reunião e suas pautas. Conta sobre as
dificuldades com alguns líderes das associações do norte da Noruega, queixa-
se sobre os custos proibitivos do projeto e conclui que só a minha presença
vai apaziguar e colocar ordem nos colaboradores dos Pescados Bergsen.
Sallin para de falar e espera que lhe dê atenção. Impossível.
Neste momento, a minha boca está coberta por lábios macios e sedentos
pela minha completa atenção. A minha Eva está nos meus braços.
— Senhor Conde! — Me afasto apenas o suficiente para pronunciar
algumas palavras.
— Sallin, faça como eu mandei. Assim que puder ligo de volta. —
Concluo e me levanto, sem soltar o corpo da Eva.
Deixo o telefone de lado e volto a atenção para a linda mulher que está
na minha frente: sedutora e completamente minha. Lentamente, com uma
sensualidade natural, beijo os seus lábios, a ponta do nariz, as bochechas
rubras, o queixo; até voltar outra vez para sua boca. Eva se entrega aos meus
carinhos.
Ela adora ser beijada, principalmente com possessividade, e eu adoro
beijá-la assim. Aliás, tudo em relação a Eva produz um sentimento
possessivo em mim.
Embrenho os dedos entre os fios sedosos dos seus cabelos e os empunho
com força. Fazendo sua cabeça inclinar para trás, mordo seu queixo,
deixando a marca dos meus dentes na pele sensível. Ela solta um gemido
lento e eu a mordo com um pouco mais de força.
— Que saudade de você, querida. — Digo enquanto me afasto
lentamente e fixo o olhar no dela. — Quase vou à sua caça. Eu não suportaria
mais um dia sem os seus beijos e esse seu cheiro doce. — Beijo-a lentamente,
fazendo-a arfar com cada mordida e cada chupão.
— Senhor Conde, eu acho que vou demorar mais tempo para vir te ver...
Ela sorri na minha boca. Eva é assim: ousada, sedutora e inocente. Ela é
uma mistura perigosa e deliciosa. Sentindo esse turbilhão de emoções, eu a
abraço, aprofundando o beijo e lhe mostrando o tamanho do meu desespero
por tê-la.
A mão que antes puxava seus cabelos agora desce suavemente em uma
carícia, buscando o contorno do seu pescoço. Eu sei que ela ama ser
acariciada, mesmo que seja discretamente, mesmo que seja sem a ousadia dos
amantes apaixonados. Sim, eu procuro proteger sua inocência das minhas
demandas masculinas. Eu a desejo, eu a quero com toda a força do meu
coração e corpo, porém, quero fazer tudo certo, tudo a seu tempo. Ao menos
eu tento. Muitas vezes é quase impossível manter as mãos longe do seu corpo
e mais difícil ainda manter outras partes à distância.
E é com este pensamento que mordo de leve seu pescoço, seguindo com
a língua até o encontro dos seus seios, que estão escondidos por uma pequena
blusa de algodão. Só os botões brancos me impedem de despi-la. Quando
minha língua se perde entre os dois montes firmes, Eva me aperta com força,
gemendo baixo. A sua pele se arrepia e eu sinto o tremor do seu corpo.
Um fluxo quente de sangue se espalha sob a minha pele. O meu desejo
cresce na frente da calça.
— Querida, você me enlouquece. — Murmuro, mordiscando seus lábios
com os dentes.
Sem conseguir pensar direito, pois o meu lado animal e faminto é mais
forte do que o meu lado racional, pego-a nos braços e a levo para o estofado
macio e acolchoado da biblioteca. Me deito sobre ela com cuidado,
procurando não lhe impor o peso do meu corpo. Meus lábios encontram os
seus e eu a beijo com posse, devorando cada pedaço da sua boca.
Excitada, presa a um desejo violento, Eva se contorce embaixo de mim,
sucumbindo ao seu desejo. Sem soltar sua boca, os meus dedos ágeis
desabotoam os botões da blusa, libertando os seios firmes. Dois mamilos rijos
ficam entre os meus dedos.
Ela é a minha perdição.
Aperto os seus mamilos com cuidado. Eva geme baixinho, e eu não
resisto. Deixo sua boca e os meus lábios vão em busca dos seus seios.
Mergulho o rosto entre eles, aspirando o seu cheiro inocente. Mordo a pele
macia, deixando a minha marca. Eva delira de excitação. Seu coração segue
batendo de uma forma ritmada que eu consigo sentir no corpo.
Meus lábios encontram um dos seus mamilos. Nossa! Eles estão tão
duros que poderiam perfurar um tecido fino. Minha boca os saboreia com
total dedicação. Eu chupo, mordo e lambo.
Estou tão excitado que sinto a calça molhar. Me esfrego no corpo de
Eva, com completa ousadia e ardor. Um ardor que nos queima, literalmente.
— Adam... eu... eu... quero você.
Mal consigo escutar a sua súplica, estou completamente perdido.
Eva suspende a pequena saia de algodão. Sinto o calor do seu sexo e não
resisto, levo uma mão até o meio das suas pernas.
— Dritt! É por mim que você está assim, tão... tão molhada... — Deliro
com o calor da sua vulva na mão.
Mergulho dois dedos nela e, mesmo por cima do tecido da calcinha, eles
ficam entre os seus lábios vaginais. Faço um vai e vem lento, até encontrar o
pequeno ponto sensível e começar a brincar com ele.
— Isso é muito gostoso, querida. Tão quente, tão molhada...
A pequena calcinha está encharcada e os nossos corpos também. O vai e
vem inquieto e a fricção dos meus dedos na sua intimidade me deixam zonzo.
— Adam... eu quero ser sua, agora. — Ela suplica. Ela me quer.
Sinto a sua mão desafivelar o meu cinto. Logo depois o meu zíper é
aberto e o meu sexo é libertado. Ela o coloca entre as coxas. Desde que
começamos a namorar, essa é a primeira vez que temos uma intimidade mais
ousada. Eu não vou além de beijos e amassos, mas tudo é por cima das
roupas. Não que eu não tenha vontade de a fazer minha, esse desejo eu tenho
desde que a conheci.
É a minha razão que fala mais alto. Eva é muito nova, eu não quero
assustá-la. A verdade é que eu sou um homem das antigas.
Esse pensamento me chama de volta à razão.
Beijo-a na boca e depois na testa. Me levanto e a encaro.
Eva está rubra de excitação. Lábios inchados por conta dos meus beijos
afoitos, os seios à mostra. Ela é a verdadeira personificação do desejo.
Ela abre os olhos e me encara.
— Faça amor comigo. — Ela nem pisca ao me pedir.
Por mais que eu a queira, sei que não devo.
— Querida, esse é o meu maior desejo... — Beijo-a outra vez, enquanto
me recomponho. — Só que... — Ela sustenta o corpo nos cotovelos, enquanto
eu me sento e começo a fechar os botões da sua blusa.
— Só que o quê? — Ela inquire com um olhar desconfiado. — Você me
deseja, eu sei que me deseja. O que é, então? Você acha que eu sou jovem
demais, é isso? Adam, você desistiu de se casar comigo?
Devolvo a sua saia ao lugar, puxando-a para o colo. Eu a abraço com
cuidado, depois volto o meu olhar e o fixo em seu rosto.
— Desistir de você? Nem morto! Você é tudo o que eu quero e preciso.
Só que... — Ela gira os olhos e entorta a boca. Sorrio com o seu gesto. —
Querida, eu sou um homem antiquado, só tomarei a sua inocência na nossa
noite de núpcias. Eu quero que o nosso casamento seja tradicional. Espero
que me entenda, não quero pular etapas. Você será minha sem pular nenhuma
etapa. Se esperei por você até hoje, posso esperar um pouco mais.
Capítulo 6

Eva me olha, aturdida, seu olhar é suplicante e ao mesmo tempo


incrédulo. Ela não acredita no que acabo de lhe dizer. O seu corpo ainda pede
pelas minhas mãos e boca. O peso do desejo transparece nas batidas do seu
coração e na respiração ofegante que me envolve, me seduz. Foi preciso
muito esforço mental para resistir. Me afasto sem dizer nada, deixando-a
tremendo de vontade... de mim.
Enquanto me afasto do seu corpo trêmulo, ela mantém o olhar fixo em
meu rosto.
Seus lábios estão inchados e vermelhos, entreabertos. O desejo súbito e
urgente de tocá-la outra vez surge forte, tão forte que preciso desviar os
olhos. Instantes depois, eu a fito novamente. Ela continua com aquele olhar
suplicante, o martírio da minha perdição.
— Eva, preste atenção. — Ela me olha em silêncio. Me aproximo,
sentando ao seu lado, e envolvo seu queixo com os dedos. — Querida, o que
eu vou dizer, eu nunca disse e nem pensei em dizer a nenhuma mulher. —
Ela pisca os cílios longos, lentamente. — Eu te amo! Tenho certeza que
jamais amarei outra mulher da mesma maneira. Você será a única em toda a
minha vida.
Talvez eu não tenha me feito entender, pois Eva continua me encarando
sem mover os lábios.
— Querida, você me escutou? — Seu olhar continua preso ao meu, seus
cílios nem se movem. — Eva, eu te amo, mais do que tudo. É o meu amor
que pede para que eu seja cuidadoso e respeitoso, a sua inocência intocada
exige isso. Eu preciso, necessito agir conforme manda a tradição da minha
família, Eva. — Agora ela fecha e abre os olhos, me encarando novamente.
— Só a farei minha mulher na nossa noite de núpcias. Por mais que eu a
deseje, é assim que será. Você me...
— Adam... — Ela sai do transe e, depois de uma breve pausa,
prossegue. — Então... então você não mentiu quando disse que não amava a
sua mulher. Por que se casou com ela, então?
A simples pergunta curiosa de Eva me força a contar a verdade. Outra
vez.
— Eva, eu não menti. O meu casamento foi um arranjo entre as famílias.
É um costume da nobreza. Meus pais e os pais da Adeli, minha falecida
esposa, já tinham celebrado o acordo no dia que ela nasceu. Nós dois ficamos
sem opção, a não ser aceitar. Acabamos nos casando, mesmo sabendo que
Adeli amava outro homem.
Ao escutar a minha revelação, Eva me olha com espanto.
— E você não ficou com ciúmes? — Pergunta rapidamente.
— Só temos ciúmes de quem amamos, minha querida. Eu não a amava,
nem ela a mim. Nós nos respeitávamos. Durante o tempo em que ficamos
casados eu nunca a traí, e ela também me foi fiel. Nós vivíamos como um
casal normal, mas éramos amigos que compartilhavam a mesma cama. Ela
era minha esposa e eu o seu marido. Nós tínhamos as nossas obrigações
conjugais. Com o tempo, aprendemos a gostar um do outro e a nossa relação
passou a ser prazerosa, mas não existia amor.
Eva me olha, admirada.
— Não consigo me ver casada com alguém que eu não ame. Jamais
aceitaria isso.
Um rubor característico do orgulho se espalha pelo seu rosto.
— Eu e Adeli aprendemos a conviver. Quando ela ficou doente, eu sofri
muito. Sua doença não tinha cura. Eu sabia que perderia a minha
companheira. Eu me acostumei a ela e ela a mim. Nós éramos felizes. Mesmo
sem amá-la, ela me fez feliz e me deu um filho maravilhoso.
Era visível o estado de alarme de Eva. As sobrancelhas erguidas, a boca
entreaberta e as bochechas rubras.
— Querida, nem todos os casamentos são por amor. A grande maioria é
por puro interesse, acredite.
Ela fica alguns minutos com um olhar vazio, me encarando, mas sem me
ver realmente. Espero até que ela volte a si. Já estou a ponto de agitar os seus
ombros, quando ela pisca e varre o meu rosto com o olhar.
— E tem como ser feliz, se casando com alguém que não se ama?
Porque eu nem consigo cogitar a ideia de um dia beijar alguém sem sentir
desejo, quanto mais ir para a cama.
— Eva, você se acostuma com tudo na vida. O tempo nos torna
passivos, molda a nossa realidade. Tudo é questão de convivência. Ela nos
leva a viver um dia de cada vez, e quando menos percebemos, já estamos tão
acostumados à situação que quando ela muda, sentimos falta.
Beijo-a levemente nos lábios.
— Eu jamais me acostumaria a isso. — Eva se afasta um pouco e
articula, me olhando com determinação. — Prefiro morrer a ser forçada a
fazer algo que não queira.
Eu tenho certeza disso. Eva não é uma pessoa que se possa manipular,
ela tem vontades próprias, desejos só seus. A sua personalidade forte não a
deixará ser escravizada.
— Você não precisará ser forçada a fazer nada que não queira, eu estou
aqui para garantir isso. — Eva me olha, intrigada. Eu a beijo outra vez. Sorrio
quando me afasto da sua boca. — Querida, assim que casarmos, iremos
embora do Brasil. O seu pai nunca mais vai impor sua autoridade e nem te
encostar mais um dedo.
— Adam. — Sua mão abrange o meu queixo, exigindo o meu olhar. —
E se o meu pai não permitir o nosso casamento?
— Nós não precisamos da autorização dele, somos maiores de idade.
Por isso eu preciso do seu documento de identificação. Vou mandar o
Alfredo tirar uma cópia e autenticá-lo. Quando eu for ao Rio de Janeiro, vou
pedir a um amigo embaixador para providenciar o seu passaporte e a
autorização para o nosso casamento. Quando eu voltar...
— Você vai viajar? — Ela me interrompe — Como assim? Quando ia
me contar? Vai quando? Pretende voltar...
— Ei... — Faço-a se calar colocando dois dedos sobre os seus lábios. —
Respira, meu amor. — Seu olhar interrogativo se fixa ao meu. — Sim, vou
viajar. Eu preciso voltar para a Noruega, tenho negócios importantes que não
podem esperar a minha volta definitiva, mas serei breve e estarei de volta em
alguns dias. Uma semana, no máximo. É o tempo do seu pai voltar de
viagem.
Ela faz uma cara de tristeza. Baixa os cílios e permanece com eles
baixos mais tempo do que o necessário. Ergo o seu queixo, e quando a
encaro, vejo os seus lindos olhos nublados.
— E se você não voltar mais? E se esquecer de mim?
— Ei, vamos parar. — Digo imediatamente. Não gosto das suas
suposições. — Eva, eu te amo! Você só não vai comigo porque eu sou um
homem que segue as tradições. Eu preciso comunicar as minhas intenções ao
seu pai, só por isso não te levo agora.
Realmente, eu só não a levo comigo porque ainda não informei sua
família sobre o nosso casamento, caso contrário, eu já estaria voltando para a
Noruega casado.
— E quando você parte? — Ainda insatisfeita, ela me pergunta.
— Daqui a dois dias, por isso eu preciso do seu documento de
identificação o quanto antes. Está com você? — Ela assente, leva a mão ao
bolso da saia e o retira, me entregando.
— É só disso que precisa? — Indaga.
— Não. Se fosse da forma convencional eu precisaria de outros
documentos, mas quando conhecemos as pessoas certas tudo se torna mais
fácil. Este pequeno documento é tudo o que eu preciso para obter o seu
passaporte e a papelada do casamento.
— Quando será o nosso casamento? — Eva se atrapalha, gesticulando
como se não quisesse parecer ansiosa. — Eu estou perguntando porque vou
precisar de um vestido de noiva. Afinal, eu vou me casar com um conde.
Ela ri, e o seu riso é um pouco tímido, mas ainda assim eu o amo.
— Você não precisa se preocupar com nada, a minha condessa terá o
vestido mais lindo de todos. Eu só preciso que esteja pronta, porque se o seu
pai não se opuser à nossa união, nós nos casaremos aqui mesmo. Do
contrário, iremos embora no mesmo dia e nos casaremos no Rio de Janeiro.
— Vamos fugir? — Eva exclama, alardeada.
— Qual o problema com isso? — Pergunto. — Você não tem certeza se
quer se casar comigo?
Ela faz um trejeito.
— Claro que eu quero! Só é estranho pensar que eu terei que fugir para
me casar, mas não duvido que vamos precisar fazer isso mesmo. Segundo o
meu pai, eu estou noiva do Rodrigo e ele jamais permitiria tal afronta. Tenho
até medo do que ele possa fazer com você, caso desconfie do que
pretendemos fazer.
— Quando ele descobrir, já estaremos longe de Paraíso. Não se
preocupe. — Asseguro. Eva respira profundamente e eu a abraço, apertando-
a contra o peito. — Agora eu quero te pedir uma coisa. — Ela se afasta e me
encara, com aquele olhar arqueado e desconfiado. Os músculos do meu rosto
se contraem, baixo o olhar em direção ao seu e lhe digo em um tom calmo:
— Quero desenhá-la no jardim de lótus. Eu só farei um esboço, e quando
chegar da Noruega, pintarei uma tela em aquarela.
— Você sabe desenhar e pintar? — Assinto. — Caramba! Além de
Conde, você é um artista?
— Um dos melhores. Se eu não fosse um homem de negócios, não
morreria de fome, viveria das minhas pinturas. — Falo com orgulho.
Eva pula da cadeira e me puxa pela mão. Não tenho alternativa a não ser
me levantar e segui-la, enquanto ela dispara a falar.
— Isso eu quero ver com os meus próprios olhos. Vamos logo para o
lago. Vamos começar esse desenho o quanto antes.
Consigo convencê-la a me deixar pegar o material necessário para o
desenho e logo depois vamos direto para as baias, pegar os cavalos. Eu
também estou ansioso para começar a desenhá-la.
O lago está excepcionalmente calmo e a luz solar é favorável, até parece
que a natureza sabia da minha intenção.
Minha modelo não é tímida, graças a Deus.
Eva entra no lago usando um vestido branco que estava guardado nas
suas coisas, no quarto que eu reservei para ela. Os cabelos foram jogados
para a frente, parecendo um manto. Em suas mãos estendidas à frente do
corpo está uma linda lótus, vermelha, e os seus lábios se esticam em um
adorável sorriso. Ela parece uma deusa me oferendo sua lótus milagrosa. A
flor que é e será o símbolo do nosso amor.
Capítulo 7

Nos vinte e cinco dias que passei na Noruega, não parei de pensar em
Eva. A cada minuto passado, a imagem do seu sorriso lindo assolava minha
memória. Por sorte, eu consegui falar com ela algumas vezes. Coincidência
ou não, nos dias em que liguei para o castelo, atrás de notícias suas, ela
estava por lá. Ficávamos conversando por horas, meu coração se partia com a
sua voz embargada e com os seus soluços quando era a hora da despedida,
pois a minha saudade era e é do tamanho do meu amor.
Minha vontade era de largar tudo e correr de volta para cá, mas
infelizmente eu não podia fazer tal loucura, a minha presença em Ålesund
ainda era muito necessária. O que me consolava era saber que dentro de
alguns dias nós estaríamos casados e embarcando de volta para minha terra
natal. Minha Noruega querida.
— Papai, olha que lindo!
A voz alarmada do meu filho Raphael me traz de volta ao presente. Olho
sorrindo para ele. Raphael apoia as duas mãos no vidro da janela do carro,
tentando esticar o pescoço para não perder nenhuma parte da maravilhosa
vista de Paraíso.
Chegamos ao Brasil há mais de 4 horas. Alfredo foi nos buscar no
aeroporto da capital.
— Nossa, papai! É alto aqui! Se o Alfredo perder o controle do carro
não vai sobrar nada de nós.
— Menino Raphael, isso é coisa que se diga? Eu nunca perderia o
controle. — Alfredo, atento a tudo, inclusive à estrada, chama a atenção do
meu filho de imaginação fértil.
— Meu filho, você anda vendo filmes demais. — Dou uma leve bronca.
— A estrada é perigosa, sim, mas o Alfredo é um excelente motorista.
Raphael olha perplexo pela janela do carro e depois novamente para
mim. Então sacode a cabeça com veemência.
— Dá medo só de olhar, eu sinto um frio bem aqui! — Ele passa a mão
na barriga, depois volta a atenção para o que tanto o amedronta.
Realmente, a estrada que dá acesso ao castelo é muito perigosa. Ela fica
à beira de um longo precipício. A subida é íngreme. De um lado há uma
parede de pedras e do outro lado um abismo de árvores penduradas nas
encostas da sombria floresta de Paraíso.
— Alfredo, você avisou a Eva que eu chego hoje?
— A Mila disse que daria um jeito de avisar. — Ele tira os olhos
rapidamente da estrada para me fitar. — Não a vemos desde que o pai dela
voltou de viagem. Isso tem dez dias. — Ele limpa a garganta, como se
quisesse me dizer algo desagradável.
— Aconteceu algo, Alfredo? — Encaro o seu perfil, mas Alfredo
permanece calado. — Vamos, homem, desembucha!
— Soube... soube que já...
— Alfredo, o que está acontecendo? — Pergunto, exasperado.
— O Senhor Rodrigo anunciou o casamento com Eva. Soubemos que
fizeram uma festa de noivado ontem.
Olho para o banco de trás do carro. Raphael está entretido, observando o
cenário.
— Maldição! Por que não me avisou, Alfredo? Eu teria antecipado o
meu retorno.
— Soube disso ontem, Senhor Conde. O Senhor já estava a caminho do
Brasil, se acalme.
— Me acalmar?! — Digo, estupefato. — Calma é a minha última opção,
eu preciso acabar com essa loucura o quanto antes, e será hoje.
— Senhor, tenha cuidado, Rodrigo é um homem perigoso e poderoso.
Ele é quem manda em toda essa região, em Paraíso ele é o rei. Por favor, não
faça nada que possa pôr a sua vida em risco.
Ele vira a cabeça na direção do Raphael e eu entendo o recado.
— Não se preocupe, Alfredo. Eu tenho a lei a meu favor.
— A lei aqui é o Seu Rodrigo. — Ele me interrompe. — Se lembre do
que eu disse, o Rodrigo é poderoso. Só tome cuidado.
Respiro fundo e deixo escapar um suspiro nervoso. Eu sei o quanto
Rodrigo é influente em toda a região nordeste do Brasil, mas tudo tem um
limite. Não serei intimidado por esse homem, eu também tenho muita
influência! Se eu não puder me casar com Eva em paz, eu a levo embora
daqui e me caso no Rio de Janeiro. Já estava decidido.
O carro faz a última curva e logo vemos os portões de ferro que
protegem a entrada da propriedade.
— Nossa! — Raphael diz, admirado. Seus olhos nem piscam ao fitar a
entrada imperiosa do castelo. — Quando o Senhor me disse que o castelo é
velho, não pensei que seria tão velho assim.
Alfredo para o veículo em frente ao castelo. Assim que coloco os pés no
chão de pedras e viro a cabeça para a entrada principal, uma linda moça de
cabelos esvoaçantes corre em minha direção. Meu sorriso vai de orelha a
orelha e abro os braços para recebê-la.
— Eva, meu amor. Que saudade de você.
Não há tempo para uma resposta, pois a minha boca é tomada pela sua.
O beijo, além de saudoso, é sofrido. Sinto um soluço abafado e lágrimas
molham o meu rosto. Lágrimas dela. Da minha Eva.
Aperto os braços em torno do seu corpo, tentando consolá-la com o meu
calor. Eva soluça, o seu corpo trêmulo me quebra por completo.
Tento me afastar, mas ela se prende a mim como se não quisesse me
soltar nunca mais, como se sua vida dependesse disso.
— Ei... — Sussurro, com a boca ainda colada na sua. — Querida, eu não
vou embora. — Consigo me afastar um pouco e a seguro pelos braços,
encarando-a com preocupação.
Eva está ofegante. Os seus olhos estão vermelhos, com olheiras
profundas e...
Não, não... ele não ousou tocar nela outra vez!
Seu lábio superior está com um pequeno corte, já quase cicatrizado.
— Quem bateu em você? Foi o seu pai? Eva!
Ela me encara com um olhar nervoso, então seus olhos se desviam para
algo atrás de mim.
— É... é o seu filho? — Ela pergunta, enquanto limpa os olhos com o
dorso da mão. — Nossa, ele se parece muito com você.
Eva se afasta de mim e vai em direção ao Raphael.
A esta altura o meu filho já está sendo abraçado por ela. Raphael olha
espantado para a Eva, enquanto ela se inclina e lhe beija a face corada.
— Você é mesmo muito linda! — Ele diz, embasbacado. — Igualzinha
à pintura da sala. Você sabia que o papai fez uma pintura sua?
Eva agita a cabeça, afirmando, e o abraça outra vez.
— Eu vim para o seu casamento com o papai. Estou muito feliz por
saber que o papai não ficará triste de novo.
Ela se afasta e vira a cabeça para me olhar. Eva está chorando. Seu olhar
suplicante é dolorido. Ela está sofrendo.
Quando dou um passo à frente, ela se retrai e sai correndo aos prantos,
desaparecendo dentro do castelo.
— Eu disse algo errado, papai? — Raphael pergunta, enquanto os seus
olhos me encaram, decepcionados.
Eu me aproximo e afago os seus cabelos. Em seguida, beijo o alto da sua
cabeça, mantendo um tom de voz tranquilo enquanto lhe digo:
— Não, meu filho, você não disse nada de errado. A Eva está
emocionada. — Eu me abaixo enquanto seguro o rosto do meu filho nas
mãos. — Vá com o Alfredo, ele vai lhe mostrar tudo o que quiser ver.
Raphael é uma criança de dez anos, mas é muito esperto para a idade
que tem. Ele me encara, estreitando os olhinhos, como se quisesse me
perguntar: Tem certeza, papai?
Mesmo preocupado, ele se vira para Alfredo e sorri, segurando sua mão
logo em seguida. Os dois saem caminhando para o jardim.
Entro apressado no castelo à procura de Eva.
Encontro-a sentada em uma poltrona na biblioteca. Ela está de cabeça
baixa. Eu me sento ao seu lado e ela recosta a cabeça no meu ombro.
Fecho os olhos, tentando mentalizar o que poderia ter acontecido para
deixá-la tão triste. Ela puxa o ar fortemente para os pulmões, esconde o rosto
no meu peito e começa a chorar copiosamente. Percebo que algo muito sério
está acontecendo, não é só o anúncio do seu casamento com Rodrigo que a
preocupa.
— Ei, minha querida! Espero que este choro seja de felicidade por
estarmos juntos outra vez. É por isso, não é?
Tento afastá-la, para que eu possa olhar para o seu lindo rosto.
— Eles... eles não permitirão o nosso casamento. — Ela finalmente
balbucia algumas palavras. — Eu prefiro morrer a pertencer a outro homem.
Ela levanta a cabeça, me encara com os olhos vermelhos de choro e diz
com a voz firme:
— Faça amor comigo, Adam! Faça agora! Eu quero pertencer a você
antes que aquele monstro me force a pertencer ao Rodrigo. Assim, quando o
meu futuro marido descobrir que eu não sou mais pura, talvez ele acabe com
a minha vida.
Sua voz some, sendo substituída pelo choro. Procuro as palavras certas,
mas não as encontro. Enquanto tento conciliar tudo aquilo, Eva toma a
iniciativa.
Ela agarra a minha camisa e me puxa para si, nossas bocas se encontram
e eu a beijo com desejo.
— Por favor... me... me faça sua. — Eva murmura, enquanto eu sinto o
seu corpo tremer de expectativa.
— Eva... — Tento manter a minha razão à frente do meu desejo. Eva
arqueia as costas, roçando os mamilos no meu peito. Afoito pelo destempero
enlouquecedor da paixão que sinto por ela, eu a puxo para mim, enquanto me
deito no estofado e a coloco por cima do corpo.
Minha mão se detém no seu quadril, colando os nossos corpos. Minha
ereção palpita sob a calça, o meu desejo quase insuportável. Sinto as batidas
do coração da Eva em meu próprio peito e o meu corpo queima com o calor
que o dela emana.
Beijo-a com amor. Enquanto acaricio as curvas do seu corpo, suas mãos
procuram o zíper da minha calça. Eu sinto o calor do seu sexo bem próximo
ao meu.
Minha reação é instantânea.
— Não... não... — Minha razão volta a comandar o meu cérebro. Afasto
a boca da sua. Ainda sinto o meu membro perto de seu sexo, pulsando,
impaciente, doido para penetrar aquele local proibido. Mas não é a hora. —
Eva, querida, não é assim que as coisas têm que acontecer.
— Não! Por que não? — Ela grita. — Você quer que o outro me tome à
força? — Seu olhar tristonho encontra o meu, e nesse momento eu desabo.
— Eva, minha querida. — Beijo-a com amor. — O único homem que
vai tocar em você sou eu. Só eu, meu amor.
— Será que você não entende, Adam?! Não vamos mais nos casar, eu já
estou noiva. — Ela me mostra o anel de noivado no dedo e desata a chorar.
Me recomponho e sento com ela no colo.
Beijo-a outra vez, enquanto afago seus braços. Agora eu tenho certeza.
Desde que eu a vi pela primeira vez, minha vida deixou de me pertencer,
porque já não consigo sequer cogitar a possibilidade de uma vida sem ela.
— Eva, esse anel não quer dizer nada. Esse noivado e a marcação da
data do casamento não querem dizer nada. Você se casará comigo, o seu pai
querendo ou não.
Antes que ela possa responder, eu junto os lábios aos seus. Eu a beijo
com tanto amor que quase a sufoco.
Ela fica sem ar. Afasto-me, olhando-a com carinho. Eva levanta os cílios
lentamente e o seu olhar encontra o meu. Sem desviar os olhos, ela articula:
— Vamos fugir então? — Sua pergunta é mais como uma confirmação.
— Se for preciso, fugiremos, mas eu acho que não será necessário.
— Você não conhece o meu pai e nem o Rodrigo. Ele está obcecado por
mim.
— Então, vamos acabar com isso agora. — Ao terminar a frase, me
levanto com ela nos meus braços. Eu a coloco no chão segurando na sua mão.
— Vamos, vou falar com o seu pai agora mesmo.
— Adam... — Ela me puxa. Está assustada. — Estou com medo, e... e se
o meu pai quiser nos afastar e nos separar?
Sem me afastar do seu corpo, eu respondo, mantendo o aperto dos meus
braços. Eva suspira profundamente.
— Então, que Deus nos proteja. — Sinto os seus braços me apertarem.
Eu me afasto, seguro na sua mão e seguimos em direção à sua casa.
Capítulo 8

A dolorosa incerteza para saber se o pai da Eva me aceitará ou não


como seu futuro genro faz com que um frio repentino percorra a minha
espinha dorsal. Sequer cogito a ideia de ser bem recebido – Eu sei que não
serei – Afinal, o ódio que a população de Paraíso tem pelos Bergsen existe há
muito tempo, e o pai da Eva não seria indiferente a tal sentimento.
Seguimos em silêncio, mas antes de chegarmos ao nosso destino, eu
preciso saber o que aconteceu com o seu rosto, então, eu me apresso em
perguntar:
— Querida, quem bateu em você, foi o seu pai?
Eva para por um instante, freando os meus passos. Olha para os próprios
pés. Eu a conheço e sei que ela quer esconder algo.
— Eva, foi o seu pai? — Volto a inquirir.
— Foi. — Ela respira fundo, sua cabeça se ergue até que nossos olhos se
encontram. — Quando ele me disse que o Rodrigo pagou um dote alto por
mim e que nos casaríamos o mais rápido possível, eu... eu o enfrentei.
Lágrimas começam a cair dos seus olhos. Não consigo me manter
indiferente, então eu a puxo para o peito, dando um abraço apertado.
— Querida, o que você disse ao seu pai?
— Disse que eu preferia a morte a ter que me casar com um homem que
não amo, por quem eu sinto nojo e desprezo. Não pude dizer mais nada,
porque recebi uma bofetada e perdi os sentidos...
— Filho da mãe desgraçado! — Interrompo-a. Estou tão horrorizado que
paro de respirar por alguns segundos. — Ele pode ser o seu pai, mas não tem
o direito de bater em você. Isso é agressão, “dritt”! — Ela me encara curiosa
quando praguejo merda em norueguês.
— Adam, aqui em Paraíso quem manda são os homens, as mulheres não
têm direito a nada. As filhas devem obediência ao pai até que se casem,
depois são os maridos quem mandam nelas. Os pais e os maridos podem
disciplinar suas mulheres como quiserem. Eu sei que isso é horrível, mas é
assim. — Ela segura o meu braço. — Por que você acha que eu quero ir
embora daqui?
Agora eu entendo a sua pressa em fugir. Viver sob o domínio masculino
e machista é algo assustador.
— Isso vai terminar hoje, meu amor. Seu pai, querendo ou não, não vai
impedir o nosso casamento. Se ele quiser me afastar de você, nós fugiremos
hoje mesmo. Portanto, fique atenta. Se o seu pai for completamente contra a
nossa união, vamos partir para a capital imediatamente, entendeu? — Ela
balança a cabeça em concordância. — Assim que eu virar as costas e ir
embora, você escapa para me encontrar no castelo.
Antes que ela possa responder, eu prossigo, falando de maneira
incontida.
— Se for preciso, eu enfrentarei o seu pai e o Rodrigo sem pestanejar,
mas nem a morte irá nos separar. Eu te amo mais do que tudo, minha querida.
Tudo...
Ela me abraça apertado, eu sinto sua respiração acelerada e o ritmo do
seu coração.
Eva é tudo para mim. Por ela eu enfrento o mundo.
Ela se ergue, fica na ponta dos pés e me beija repetidas vezes.
— Tudo vai dar certo, querida. Logo estaremos casados e longe daqui.
Eu a cubro de beijos, a abraçando em um ímpeto de possessividade do
tamanho do meu sentimento.
Dali em diante, caminhamos abraçados até a propriedade do seu pai. O
senhor Lourival Linhares.
Passamos pela porteira e andamos quase 500 metros quando avistamos a
casa simples, mas bem construída. Ela não é grande, mas é muito bem
elaborada. É de alvenaria, cercada por uma enorme varanda, com redes
espalhadas por toda extensão. Há um jardim com diversas flores campestres
dos dois lados da casa, árvores frutíferas espalhadas por toda a propriedade,
pequenas aves ciscando no terreno e, bem ao fundo, um grande curral com
muitos animais.
Logo avisto uma figura masculina e um grito a chamar por alguém.
Assim que chegamos mais perto, reconheço o homem – o senhor
Lourival. Segundos depois, surgem cinco homens muito bem armados.
Quando vê os homens, Eva me solta.
— Parado aí! — Lourival me encara e em seguida olha para Eva. — O
que faz ao lado desse estrangeiro de merda, Eva? — Ele volta a me encarar e
o seu olhar é furioso.
— Estou aqui para termos uma conversa séria. — Antes que ela
responda, interpelo a conversa. — Não vim com o intuito de lhe ofender, vim
em paz.
— Não tenho nada para falar com você. Vá embora antes que eu mande
os meus homens te enxotar das minhas terras. — Olho para os cinco homens
e eles sorriem com desdém. — E você, Eva, passe logo para cá. Se o seu
noivo souber que anda ao lado do inimigo dele, o seu couro vai queimar.
Aquelas palavras ásperas fazem o meu sangue ferver. Fito-o com fúria
no olhar.
— Senhor Lourival, eu estou apaixonado pela sua filha e ela por mim.
Nós vamos nos casar, o Senhor querendo ou não. Se o problema for o dote,
eu cubro o valor e...
Sou interrompido por uma sonora gargalhada. Eu estava para dizer que
pagaria o dobro.
— Seu desgraçado de merda. — Quando dou por mim, um homem
furioso está me segurando pelo colarinho da camisa. — Acha mesmo que eu
vou deixar um estrangeiro arrogante se casar com a minha filha? Nem que me
dê todo o seu dinheiro! Caia fora da minha propriedade enquanto ainda tem
forças para andar.
Eu o empurro, me livrando das suas mãos, e finalmente o encaro.
Ficamos nos olhando desafiadoramente por alguns segundos. O meu olhar é
primitivo, impetuoso, porque eu quero que ele saiba que Eva é minha e não
permitirei que nenhum outro homem a tenha.
Respiro profundamente e o seguro pelo colarinho. Antes que os seus
homens cheguem perto de mim, afirmo com a voz dura:
— Eva é minha! Nem você, nem ninguém vai tirá-la de mim...
Mãos fortes me seguram e sou puxado à força. Sou obrigado a ficar de
joelhos, enquanto levo um soco no rosto, depois sinto o ar escapar dos
pulmões. Um dos homens acerta as minhas costelas. Escuto o grito
desesperado de Eva, mas não posso vê-la.
Sem tempo para pensar, sou levantado do chão e duas mãos calejadas
apertam meu rosto. Um olhar congelante me fita.
— Seu porco, filho de uma cadela estrangeira! Você tocou na minha
filha? Você ousou tirar a sua inocência?
Não respondo. Lourival nem pisca, ele me encara com imenso ódio.
— Maldito! — Grita entre dentes. — Só não o mato porque o Rodrigo
vai querer fazer isso ele mesmo. Levem ele daqui!
— Não! — Eva grita e eu sinto os seus braços em volta do meu corpo.
— Não, não, papai, ele não me tocou. Adam é um homem de honra, ele vai
esperar o nosso casamento. Por favor, papai, nos deixe ir, eu o amo. Iremos
embora daqui o senhor nunca mais nos verá.
Lourival não a deixa perto de mim por muito tempo. Eva é arrancada
para longe do meu corpo com violência e é arrastada pelo braço. Vejo o seu
olhar de pavor e seu rosto banhando de lágrimas.
— Não a machuque, Lourival. Por favor, não a machuque...
Não consigo articular mais nenhuma palavra, pois recebo outro soco no
rosto.
— Calado, estrangeiro de merda. — Sou empurrado, perco o equilíbrio e
caio no chão, de costas. — Não vou acabar com a sua vida por um simples
motivo: ela. — Ele aponta para Eva. Ela está apavorada. A sua mãe aparece
e tenta acalmá-la. — Você não a deflorou, por isso voltará vivo para o seu
castelo de merda. Mas vou lhe dar um conselho, volte para a sua terra o
quanto antes, o Senhor Rodrigo não será tão piedoso quanto eu. — Ele olha
para os dois homens que estão me segurando. — Levem ele daqui e se
certifiquem para que não volte.
Lourival vira-se de costas, pega Eva pelo cotovelo e some com ela para
o interior da casa. Só consigo escutar os seus soluços. Sem medo, eu grito:
— Eva, vai ficar tudo bem, querida... amo você!
Sou arrastado o caminho inteiro de volta pelos homens do Lourival, até
a entrada do castelo.
Capítulo 9

Entro no castelo cambaleando. Vou direto para a biblioteca, a última


coisa que quero é que o Raphael me veja assim. Enquanto caminho – ou
cambaleio – grito, chamando pela Mila.
— Por Deus! — Abismada com a minha condição, ela tenta me segurar,
me guiando até uma poltrona. — O que aconteceu, Senhor Conde? Meu
Deus, o Senhor está todo machucado.
Sem tempo para explicações, encho os pulmões, respirando
profundamente.
— Chame Alfredo e mantenha o Raphael ocupado, não quero que ele
me veja assim. Eu preciso de roupas limpas e que você arrume as nossas
coisas. Voltarei para a capital ainda hoje.
Mila me olha, surpresa. Ela deve estar se perguntando o que diabos
aconteceu, pois acabamos de chegar e eu já apareço todo estropiado e com
pressa para ir embora.
— Senhor, essa pressa toda não é por causa dos González, é? — Eu nem
precisaria nem responder, a resposta é óbvia demais. Mesmo assim respondo:
— Não por causa dos González propriamente, mas quase isso.
— Vou buscar roupas limpas e algo para limpar o seu rosto machucado.
No caminho eu chamo o Alfredo.
Mila sai. O silêncio toma conta da biblioteca e nesse momento minha
mente é ocupada com a imagem sofrida da minha Eva.
O que será que o monstro do seu pai – pai, não; não posso dizer que
aquele homem saiba realmente o que é ser um – fez com ela?
Contenho a minha preocupação, porque Mila retorna com uma muda de
roupas e a maleta de primeiros socorros. Ela me dá as costas para que eu
possa me trocar e, enquanto faço isso, eu pergunto:
— Avisou ao Alfredo?
— Sim, ele foi levar o Raphael para o quarto. — Sento na poltrona.
Mila limpa os machucados do meu rosto.
— Estou bem, Mila, não se preocupe. Por favor, arrume todas as minhas
coisas e a do Raphael e leve tudo para o automóvel. Eu só estou esperando
que Eva chegue para partirmos.
Os olhos de Mila são inquisidores, ela está curiosa para saber o que
realmente aconteceu.
— Mila, depois o Alfredo contará tudo, não se preocupe. Logo, logo nos
encontraremos na nossa querida Noruega.
Quando termino de falar, Alfredo entra. Ao me ver, seu rosto fica lívido.
— Senhor Conde! — Vem na minha direção, se agacha e examina o
meu rosto. — Quem fez isso com o Senhor? Quem?
Percebo que os seus músculos faciais se tencionam. Ele me encara com
aquele olhar que eu conheço há tempos. Eu sei do que ele é capaz. Sei que
por mim meu amigo Alfredo acabaria com qualquer um.
— Isso não importa, meu amigo. Eu preciso que preste atenção no que
eu vou dizer. — Olho para Mila, ela entende e sai imediatamente. Espero que
ela feche a porta. — O carro já está pronto? — Ele assente. — Eu, Raphael e
Eva partiremos para a capital e de lá seguiremos para o Rio, onde Eva e eu
nos casaremos. Fique aqui e espere a empresa de segurança. Dê a ordem para
que garantam que ninguém invadirá a propriedade. Quando tudo estiver
resolvido, vá nos encontrar no Rio de Janeiro. Assim que chegarem, nós
voltaremos para a Noruega, ok?
Alfredo me fita com um olhar preocupado e interrogativo, mas
simplesmente concorda, sem me interromper ou tampouco conjecturar
qualquer coisa.
Eu levanto, sou ajudado pelo meu amigo, e seguimos para fora do
castelo. Raphael já está sentado no banco de trás do carro. Sinto o seu olhar
me avaliar, percebo espanto e medo estampados no seu rosto. Sorrio para ele,
acenando a cabeça de leve.
Meus olhos não param quietos, vão do carro à entrada principal do
castelo.
Vamos, querida. Por que a demora?
Estou quase indo buscá-la, quando a vejo surgir apressadamente,
olhando de tempos em tempos para trás.
Abro os braços e corro em sua direção, abraçando-a com força, enquanto
nossas bocas desesperadas se unem.
— Você está bem?
Perguntamos ao mesmo tempo. Ela assente com a cabeça, eu também.
Levo-a para o carro.
— Adam, precisamos ser rápidos, logo o meu pai vai descobrir que eu
fugi... — Ela começa a chorar. — Eu prometi para a mamãe que a mandaria
buscar assim que pudesse. Você vai me ajudar nisso, não vai?
Eva teme pela mãe e agora eu sei o porquê. Viver com um déspota como
Lourival não devia ser nada fácil. Com certeza ela deve apanhar sempre, e eu
sei que assim que ele descobrir que Eva fugiu, o castigo recairá inteiro nela.
— Assim que chegarmos ao Rio de Janeiro eu tomarei as devidas
providências para que a sua mãe vá para a Noruega conosco. Não se
preocupe.
Eva me abraça, sinto a sua respiração profunda e o seu corpo trêmulo.
— Precisamos ir, meu amor. Assim que o meu pai descobrir que eu fugi,
ele chamará o Rodrigo.
— Entre. — Ajudo-a a entrar no carro, passo o cinto de segurança pelo
seu corpo, dou a volta no veículo e assumo o volante. Alfredo vem até mim.
— Já sabe o que fazer. Qualquer coisa me ligue no celular, talvez demos
sorte e tenha sinal. Até mais, meu amigo.
— Tenha cuidado, senhor. Tenha cuidado.
Ligo o carro. O veículo sai lentamente e eu vejo a figura preocupada do
meu amigo Alfredo através do espelho retrovisor. Aos poucos ele desparece e
eu só vejo uma estrada estreita em declive, rochas de um lado e um abismo
assustador do outro. O céu de repente fica nublado e a floresta silenciosa.
Não só do lado de fora, dentro do veículo o silêncio também é dominante.
Olho pelo retrovisor e vejo Raphael apertando os olhos, como se estivesse
com medo do que eles poderiam ver.
— Filho. — Ele abre os olhos e me encara. — Vai ficar tudo bem. Logo
vamos sair desta estrada, ok?
Ele não diz nada, só balança a cabeça em concordância. Eu sei que ele
está apavorado. Eu também estou. Aliás, todos estamos. Eva aperta minha
perna com força e lágrimas silenciosas não param de escorrer pela sua face.
De vez em quando ela me olha de soslaio e eu sorrio para ela, tentando
acalmá-la, como se o meu sorriso fosse capaz de confortá-la.
O veículo faz uma curva, e assim que passa por um desvio, Eva solta um
grito.
— São eles, Adam... Rodrigo e os seus homens! Oh, meu Deus! Eles
vieram me buscar! Passe correndo por eles, Adam! Não pare, por favor, não
pare...
Ela cobre o rosto com as mãos.
— Querida, se acalme, não vai acontecer nada. Eles não podem te forçar
a fazer o que não quer. Se acalme.
Sem retirar as mãos do rosto, ela articula:
— Eles podem fazer pior do que isso, eles podem matar você. Por favor,
não pare, meu amor.
— Eva, se acalme. Eu sou um homem muito importante, eles não podem
me ferir e saírem impunes. Eles não são burros, se acalme.
Tento mantê-la calma enquanto diminuo a velocidade do carro, até ele
parar completamente. Os vidros do carro são escuros, então quem está do
lado de fora não pode ver quem está dentro.
— Filho, se deite no banco e fique quieto. Em momento algum faça
barulho, entendeu?
— Entendi, papai. — Meu filho está chorando. Neste momento eu
gostaria de ser um super-herói.
— Adam, não vá! O Rodrigo não é de confiança. Por favor, volte com o
carro para o castelo. Volte...
— Vai ficar tudo bem. Vocês dois fiquem aqui e não saiam.
Eva tenta me segurar, mas me livro das suas mãos e desço do carro.
Não tenho tempo nem de abrir a boca. Dois homens me seguram pelos
braços e um outro começa a socar o meu rosto e abdômen, enquanto Rodrigo
fala com empáfia:
— Pensou mesmo que fugiria com o que é meu, estrangeiro de merda?
Achou mesmo que poderia roubar tudo o que é nosso? Não basta surrupiar as
nossas terras, também quer roubar as nossas mulheres? E logo a minha?
Ele chuta o meu estômago. Só não caio porque os seus homens estão me
segurando. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, sofro outros golpes no
rosto.
— Seu estrangeiro filho da mãe, você nunca mais verá a minha Eva! Vai
morrer sabendo que ela pertencerá a mim.
Cuspo o sangue acumulado na boca na cara dele. Mesmo sem fôlego e
quase não enxergando mais nada, murmuro:
— Ela... ela nunca pertencerá a você... você... Você pode... — começo a
tossir — possuir o seu corpo... mas... mas o coração dela será meu para
sempre...
A partir daí, recebo vários socos e dessa vez é Rodrigo quem os entrega.
Já estou quase perdendo os sentidos, quando escuto os gritos de Eva.
Ela saiu do carro.
Sinto o seu abraço, os seus beijos. Talvez os últimos que terei.
— Pare, Rodrigo, pare! Por favor, deixe ele ir embora! Deixe-o ir, por
favor.
— E o que ganho com isso, Eva? Ele acabou de me dizer que você
nunca será minha.
— Se você deixar ele em paz, eu prometo que volto com você. Juro que
serei sua por livre e espontânea vontade. Para sempre, Rodrigo, eu prometo.
Só o deixe ir embora.
Juro que eu quero gritar. Juro que quero abraçá-la e protegê-la, mas eu
não posso. Já não sinto o meu corpo, estou muito machucado para defender o
que é meu. Por que não dei ouvidos a ela? Por que não segui direto com o
carro?
E, perante a minha inutilidade, ela é afastada de mim. Antes eu ganho
um beijo nos lábios e escuto a sua voz chorosa:
— Eu vou te amar para sempre, meu amor. — Ela sussurra, mas eu a
escuto perfeitamente. Só digo um adeus mental, porque sei que morrerei aqui.
Eu e o meu filho. Mas pelo menos ela estará a salvo.
— Levem-na para a minha casa. A partir de hoje ela ficará sob a minha
vigilância.
— Rodrigo, você vai manter a sua palavra? Vai soltar ele?
Ela acredita mesmo que este homem me deixará ir embora vivo.
— Não se preocupe, seu amante voltará para a terra dele, de onde jamais
deveria ter saído. Levem ela!
Eva se vai, e eu morro neste momento.
Eu mal posso escutar. Pai celestial, dai-me superpoderes, pelo menos
para matar esse miserável. Nem que seja a última coisa que eu faça. Rogo a
Deus.
— Coloquem ele no carro e atirem no precipício. Amanhã o delegado
dirá que foi um acidente. Afinal, essa estrada é perigosa e ninguém saberá
que Eva estava com ele. Terminem logo com isso. Eu estou voltando para
casa, tenho outros assuntos para resolver.
Quase sem ar, sou jogado dentro do carro. Rezo a Deus para que
Raphael continue quieto. Eu sei que se o descobrirem aqui não serão
piedosos, machucarão o meu filho antes de matá-lo.
Raphael não faz barulho, permanece escondido no banco de trás.
Quando o carro começa a se movimentar rumo ao precipício, o meu
coração quer sair pela boca, porque eu sei que estou indo para os braços da
morte. A incapacidade de poder salvar o meu filho abre uma ferida na minha
alma.
Por que, meu Deus?! Por que eu o trouxe para o Brasil?
A culpa me devora, eu provoquei a morte de um inocente.
— Papai! — Olho sobre o ombro para o meu filho e nem sorrir consigo.
Eu sei que o medo é o seu único companheiro agora, porque também é o
meu. — Papai, nós vamos encontrar a mamãe. Eu sei que vamos, não chore.
Não chore, papai, ela vai estar esperando pela gente.
Ele estica a mão para me tocar no ombro. As lágrimas banham o meu
rosto, meu peito dói. Deus! Suplico. Ajude o meu filho, por favor.
— Paapaiii! — Uma janela se quebra, galhos entram por ela.
O grito apavorado do meu filho me deixa surdo. Eu preciso salvá-lo.
A inércia me puxa para trás. Agarro o volante com força.
— Filho, feche os olhos, vai acabar logo. Não tenha medo, eu estou
aqui.
Deus, seja piedoso, não deixe o meu filho sofrer, que a morte dele seja
como um sono profundo...
Então, tudo se acalma.
Morremos? A morte é assim?
Olho para trás, Raphael está apertando os olhos com as mãos. Tento me
mover, mas o carro balança.
O que aconteceu? Será que foi a mão de Deus?
Estico o pescoço e percebo muitos galhos cercando o automóvel. Me
movo outra vez e o carro se inclina, rangendo.
Estamos pendurados em uma árvore! Deus está me dando a chance de
salvar a vida do meu filho. Penso rápido, porque sei que temos pouco tempo.
— Filho, filho! — Ele abre os olhos.
— Morremos, papai? Cadê a mamãe?
Mais uma vez a dor da minha incapacidade vem forte. Meu filho, tão
inocente, tão pequeno e já vai levar consigo a dor de uma segunda perda.
— Não, filho, não morremos. Agora preste atenção, pegue o celular do
papai no bolso do casaco, bem devagar. Ligue para o Alfredo e estique o
braço para que eu possa falar com ele. Faça isso agora, meu filho. — Ele faz
o que eu peço.
— Pronto, papai, eu liguei. Pode falar. — As mãos pequenas dele estão
trêmulas, os olhos marejados. Seu rosto está com alguns arranhões e há um
corte em sua testa.
Escuto ao longe a voz de Alfredo. Graças a Deus! O sinal do celular
pegou.
— Alfredo, me escute com atenção.... — Faço uma pausa para respirar.
— Sofremos uma emboscada, os homens do Rodrigo empurraram o nosso
carro no despenhadeiro. Estamos pendurados em uma árvore. Eu vou retirar o
Raphael do carro e eu preciso que você venha buscar o meu menino, mas o
Rodrigo não pode saber que ele sobreviveu.
— Não... não papai, eu não quero ir sem o....
— Quieto, filho. Fique quieto. — Ele para de se agitar, mas continua
chorando desesperadamente. — Alfredo, cuide do meu filho como se fosse
seu. Proteja e o ame... — Raphael derruba o celular e cobre o rosto com as
mãos.
— Papai, não me deixe! O senhor, não. Por favor! — Ele fala entre
soluços.
— Filho, eu te amo. Seja um bom homem, viva a vida que eu não
poderei viver.
Eu não tenho muito tempo, o veículo começa a se inclinar e eu sei que a
queda será fatal, sinto o cheiro de gasolina. Solto o meu cinto de segurança,
inclino o corpo para frente e o carro fica imóvel. Raphael me encara com um
olhar apavorado.
— Não, papai, não... eu... eu não quero ver o senhor morrer.
— Mas eu quero que você viva, meu filho. Eu quero que seja forte e se
salve por mim. Seja forte, meu amor, e sobreviva até o Alfredo chegar. Eu
amo você, meu filho. Seja feliz, seja muito feliz...
As lágrimas banham o meu rosto, um nó se forma na minha garganta. A
certeza da minha morte e a realidade de que não verei o meu filho crescer
doem no meu coração. Não irei mais escutar a sua voz, nem sentir o calor do
seu abraço.
— Não... não, papai, como eu vou viver sem o senhor?
— Raphael, eu vou te jogar na copa da árvore. Vai machucar, vai doer,
mas você precisa se segurar nos galhos. Quando estiver preso eu quero que
feche os olhos, até escutar a voz do Alfredo. Você fará isso, meu filho?
— Sim... — Soluça.
A porta traseira do veículo foi arrancada com a queda. Eu desafivelo o
cinto de segurança do Raphael. A dor nas minhas costelas me rasga por
dentro, mesmo assim eu me inclino mais. Não sei onde encontro forças para
segurar o meu filho pelos braços e jogá-lo em direção à grande árvore.
Só escuto o seu grito de pavor e o farfalhar dos galhos se quebrando.
Raphael se agarra e os seus olhos se fixam aos meus. Enquanto o veículo
segue despencando, eu vejo o meu filho ficar cada vez mais distante de mim,
os olhos arregalados de pavor. Em segundos escuto uma pancada forte, meu
corpo bate no teto do carro, depois o meu rosto é arremessado fortemente
contra o volante. Em seguida, sinto um calor. Minhas pernas ardem, o cheiro
de carne queimando... sou eu! O carro está sendo consumido pelo fogo. Então
não sinto mais nada. Não vejo mais nada... Adeus, meu filho amado!
Eva

Eva
Capítulo 10

“Eu vou te amar para sempre... Eu vou te amar para sempre... Eu vou
te amar para sempre...”. Eu fico repetindo a mesma frase por todo o caminho.
O caminho mais longo e assustador de toda a minha vida.
A mesma frase que eu disse para ele.
Ele. O único homem que amarei enquanto respirar. O meu príncipe, o
meu Adam.
Vê-lo todo ensanguentado, de joelhos no chão, sendo subjugado por
aquele monstro do Rodrigo...
Não, não. Eu não poderia ficar indiferente àquilo tudo, eu precisava
salvá-lo, mesmo que para isso tivesse que me tornar a prisioneira do monstro.
Faria tudo outra vez se fosse preciso. Agora, ele e o Raphael estão salvos,
voltando para o país deles.
Adeus, meu amor. Seja feliz, mesmo que longe de mim... seja feliz.
Não consigo parar de chorar. O meu corpo inteiro convulsiona, a minha
cabeça dói. Me sinto febril.
Oh, Deus! Deus, como dói! Faz essa dor parar. Por favor, faz parar.
Acho que a dor da saudade e da perda são as piores dores que um ser humano
pode suportar.
Em tão pouco tempo eu conheci o amor, a felicidade, e em um tempo
menor ainda estou conhecendo a dor da perda, do desespero.
Adam! Eu te amarei para sempre... para sempre.
Grito mentalmente, pois tenho medo que os homens do Rodrigo me
escutem e falem a ele.
Só espero que Rodrigo mantenha a sua palavra e deixe Adam e Raphael
em paz. Pelo menos eles viverão vidas felizes.
Quanto à minha... eu serei a refém de um monstro.
Chego na fazenda do Rodrigo e sou levada para um dos inúmeros
quartos da casa. Escuto vozes vindo do corredor. As vozes soam todas de
uma só vez, mas uma delas eu reconheço – a da minha mãe.
Ela chora, está desesperada.
— Onde ela está? Onde está a minha filha? Vocês não a machucaram,
não é? Por favor, só me digam se ela está bem? Está?
— Se acalme, senhora. A menina Eva está bem, ela está no quarto do
final do corredor. Pode ir até lá, o Senhor Rodrigo logo estará aqui.
Escuto passos apressados, como se viessem correndo. A porta do quarto
é escancarada e, ao me ver, a minha mãe interrompe os passos, leva as mãos
à boca e cai de joelhos, aos prantos.
Estou sentada na cama. Ao vê-la no chão, chorando desesperadamente,
corro ao seu encontro. Me ajoelho e abraço o seu corpo trêmulo.
— Não chore, mamãe! Eu estou bem, eles não me machucaram. —
Mamãe segura os meus braços. — Vamos ficar bem, mamãe, eu prometo.
Ela ergue a cabeça e me olha. Quase grito quando vejo as marcas no seu
pescoço. Os dedos do meu pai estão lá, eu sei que há outras marcas pelo seu
corpo, ele sempre a açoita com um chicote. É assustador, eu nunca pude
ajudá-la. Na vez em que tentei, acabei apanhando em seu lugar e ela me fez
prometer jamais voltar a intervir. Por isso, sempre que papai a agredia, eu me
trancava no quarto, fechava os olhos, tapava os ouvidos e contava até cem.
Quando os abria outra vez, a casa já estava em total silêncio. Assim é que eu
sabia que ele não estava mais em casa e eu corria ao quarto da mamãe para
cuidar das suas costas.
Eu me sentia impotente, uma inútil. Por isso estava juntando dinheiro
para fugir de Paraíso. Eu planejava vir buscar a minha mãe assim que
encontrasse um emprego e um local para ficar. Mas as coisas nunca são como
planejamos, estou vendo que morrerei aqui, que o meu destino será igual ao
dela.
Mamãe seca as lágrimas com o dorso da mão. Acaricia o meu rosto, para
logo depois beijá-lo.
— Eu sinto muito, sinto muito mesmo, minha filha. Eu não pude fazer
nada, quando o seu pai descobriu, me trancou no quarto e foi avisar ao
Senhor Rodrigo. Eu... eu rezei tanto para que eles não chegassem a tempo.
Oh, meu Deus! O que será de você agora, meu anjo?
Sinto os braços quentes da minha mãe me abraçarem. Ela chora muito,
me aperta com tanta força que eu quase perco o ar. Tento afastá-la um pouco.
— Mamãe, mamãe... — Ela afrouxa os braços em torno de mim e me
olha de forma apreensiva, dolorida. — Vai dar tudo certo, eu sei que vai.
— Será que você não entende, filha? — Suas mãos apertam meus
braços. — Rodrigo ameaçou o seu pai. Ele disse que se você não se casar
com ele e não demonstrar afeição, ele tomará tudo de nós e depois nos
expulsa das nossas terras só com a roupa do corpo.
— Que absurdo! — Interpelo. — Mamãe, você deve estar exagerando.
Rodrigo não pode fazer isso. As terras são nossas, ele não...
— Ele pode, sim! — Mamãe me interrompe. — Ele pagou por você e o
seu pai já gastou todo o dinheiro, portanto, somos devedores do Senhor
Rodrigo. Nos perdoe, filha. Que destino cruel o seu.
Ela volta a me abraçar. Agora eu tenho certeza de que o meu destino
será igual ao seu. Não posso fugir dele, estou amarrada a um homem cruel e
poderoso.
Beijo o alto da sua cabeça. Não sei por quanto tempo fico sentada no
chão, com ela nos braços. Só me dou conta do tempo quando a porta do
quarto é aberta e Rodrigo surge, cheio de confiança e com autoridade na voz.
— Lúcia, saia! — Rodrigo está com um olhar indecifrável, as mãos
cerradas em punhos, as veias do pescoço pulsando com força. — Saia agora,
mulher! — Ele grita tão ferozmente que tomamos um susto.
Levanto-me apressadamente e ajudo minha mãe a fazer o mesmo. Ela
me olha com apreensão.
— Saia, ou quer que eu mesmo a expulse do quarto, Lúcia?
— Ela vai sair, não se preocupe. — Eu mesma a guio até a porta.
Ela segura as minhas mãos, não quer me deixar sozinha com o monstro.
— Não se preocupe, mamãe. Eu vou ficar bem. — Sorrio levemente,
tento mostrar segurança.
Mamãe solta as minhas mãos lentamente e se afasta, mas fica parada
diante da porta enquanto eu a fecho. Vejo as lágrimas descerem pelo seu
rosto, e neste momento eu não consigo mais segurar as minhas. Elas cedem,
como uma tormenta desarvorada.
Fico em pé diante da porta fechada, de costas para Rodrigo. Eu sei que
ele está me olhando, sinto o seu olhar inquisidor.
— Vire-se, Eva! — Exige. — Agora! — Rodrigo esbraveja.
Eu me viro lentamente. Olhos baixos, mãos trêmulas e coração
acelerado. Eu sei que Rodrigo é um monstro, só não sei a intensidade da sua
monstruosidade.
— Olhe para mim, Eva. — A voz dele é firme e chicoteia a minha alma.
Ergo a cabeça. Acho que faço isso em câmera lenta, pois leva uma
eternidade para que os meus olhos encontrem os dele. Os olhos cor de mel de
Rodrigo se fixam no meu rosto, varrendo cada centímetro dele. Ele dá três
passos na minha direção. Ficamos tão próximos que posso sentir a sua
respiração.
— Eva, eu sou um homem feio? Sem atrativos? — Sinto o calor da sua
exalação sendo atirada no meu rosto. — Me responda!
Não, ele não é feio. Ao contrário, Rodrigo é um homem muito bonito.
Alto, corpo másculo, cabelos castanhos, olhos puxados para o dourado,
queixo quadrado, sobrancelhas grossas e bem desenhadas. Ele é um homem
muito bonito. É o demônio na forma de um anjo.
— Não... — Sussurro.
— Eu não escutei, Eva. Fale mais alto. — Sinto os seus dedos no meu
queixo, que é erguido. O que faz com que os meus olhos encontrem seu rosto.
— Você é bonito, muito bonito. — Respondo em um tom de voz mais
alto.
— Pois é, eu sou e sei disso. — Ele solta o meu rosto. — Sabe, Eva, eu
poderia ter a mulher que eu quisesse. E não me refiro apenas às mulheres de
Paraíso. Eu me refiro a qualquer mulher desse mundo. Sou rico, bonito,
popular, mas escolhi você para ser a minha esposa. A mãe dos meus filhos, a
minha compa