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JEAN-CLAUDE KAUFMANN

Jean-Claude Kaufmann é sociólogo, director de investigações


no CNRS e na Université Paris V - Sorbonne.

KAUFMANN, Jean-Claude (2006). A Invenção de Si - Uma Teoria da


Identidade. Colecção Epistemologia e Sociedade, Lisboa: Instituto Piaget
Sinopse

Nesta obra o autor não inventa um novo paradigma. Mas quase que faz
melhor! Traça o histórico e propõe uma teoria da identidade para a nossa
sociedade em plena mutação. Faz do velho, novo, voltando a dar a este
conceito - chave o rigor e a pertinência que havia perdido. O autor constrói
um instrumento para a compreensão da modernidade, uma luminosa grelha
de interpretação para um mundo desnorteado onde cada um, sozinho ou
com outros, procura a sua vida, o seu ídolo, a sua verdade, um absoluto, um
sentido para a vida, a fim de combater o novo mal do século: a derrocada
psicológica. Kaufmann, nesta obra, tem a coragem de desafiar as
convenções e as barreiras das especialidades sacrossantas. Ousa aventurar-
-se criando várias pontes entre a história, a política, a psicologia e a
sociologia mas, mantendo-se sempre consciente dos perigos da mistura de
géneros e das ciladas da subjectividade. Fazendo isto, escolheu exortar pelo
exemplo, demonstrando, através da elaboração muitas vezes pessoal do seu
discurso, que A Invenção de Si releva, antes de tudo, da audácia e da
criatividade e que é necessário correr riscos para se arranjar um pouco de
coragem num mundo votado às desgraças da autodestruição.

Este é um belíssimo livro, generoso, bem documentado, enraizado na


actualidade, essencial, repleto de observações, intuições, referências e
exemplos esclarecedores.

Um livro que propõe, entre razão e paixão, entre sociologia e psicologia,


entre os factos e a sua teorização, um modo eficaz de reflexão e de acção
para o pequeno Ego. Uma revolução está prestes a mudar a face do mundo.
Compreender para onde ela nos conduz é de uma urgência vital: para o
melhor e para o pior, entrámos, doravante, na Idade das Identidades.
DE ONDE VEM O CONCEITO DE IDENTIDADE?

Kaufmann começa por explicar as motivações para a escrita do livro


dizendo que queria, acima de tudo, escrever um livro com
densidade teórica, mas que interessasse a um público vasto.

A primeira grande questão presente na obra é “Como se explica


uma mudança no curso da existência?” (8)

- Grão de areia aleatório?

- Determinação ocultas?

- O sujeito intervém? Como?

Refere ainda que “a construção social do indivíduo opera segundo


duas modalidades muito diversas” (idem), apresenta-nos o conceito
de “Dupla hélice”.

Hélice por ser dinâmica, duplo hélice por ter as duas modalidades
de desenvolvimento anteriormente referidas:

1.ª Socialização pura sem pensamento reflexivo “é assim…”


“destino social”

2.ª Intervenção da Subjectividade com reflexão e decisão acerca


das orientações, rumos que a existência pode levar

Desta forma lança uma segunda questão “Quem sou eu e quem


serei eu no futuro, qual é o sentido da minha vida? (9). Desta vez a
tónica já não assenta no curso da existência, mas sim sobre a
identidade do indivíduo.

Identidade para ele é “um conceito dinâmico, operatório, um


instrumento de estimulação intelectual, respondendo por outro lado
a expectativas sociais numerosas e diversas. Servia para tudo e era
na maior parte das vezes eficaz, estava em todo o lado. Estava em
todo o lado e em parte nenhuma. Em parte nenhuma, justamente
porque estava em todo o lado” (10)

A noção torna-se tão clara que ninguém se preocupará em definir


com precisão. “Palavra estranhamente mágica” (11) À identidade
tudo é permitido pois ela é socialmente necessária.

Propõe-se assim a expor a história do conceito de identidade.

DE ONDE VEM O CONCEITO DE IDENTIDADE?

Embora à primeira vista seja recente, o termo identidade já se


encontra em discussão desde a antiguidade.

Kaufmann, nesta parte da obra aborda os ensinamentos e


discussão filosófica sobre a identidade onde salienta o ponto de
vista de David Hume, segundo o qual a identidade é uma ilusão
criada pelo tempo, uma ficção.

Enquanto a comunidade se baseava na tradição havia uma auto-


regulação que “definia os indivíduos construindo-os socialmente,
num mesmo movimento” (17).

A partir do momento que começa a “Epopeia Burocrática” surgem


os papéis e a identificação por papéis, os papéis começam a
construir as referências. A este propósito exemplifica com o bilhete
de identidade, dizendo que, do ponto de vista de administração o
B.I. torna-se o verdadeiro, o original, a pessoa é um duplo do B.I. “
toda a realidade de uma pessoa seria, a partir de agora,
considerada poder ser concentrada num único papel, surgindo,
assim, a identidade como um dado extremamente simples e
controlável. Quando ela é, pelo contrário, extraordinariamente
complexa, mutável, impalpável” (21)

O Estado tem assim uma visão simplista da identidade, faz uma


classificação, uma categorização.

Bilhete de identidade deveria designar-se de Bilhete de identificação


“porque a identidade, de tal modo mutável e contraditória, de tal
modo incomensurável que é impossível mesmo para o seu próprio
proprietário abarcá-la por completo, não poderia ser assim fixada,
para sempre, em algumas palavras e uma imagem num pedaço de
papel timbrado” (22).

SUBITAMENTE IDENTIDADES POR TODO O LADO

Na segunda metade do século XX o tema identidade não parou de


se impor “ levada pela mentalidade da época, ela surge, sem ter de
se apresentar, tornando-se desde logo evidente, numa linguagem
que todos reconhecem, sem, contudo, a terem falado antes. Na vida
quotidiana, onde passou para a linguagem corrente, portadora de
uma suposta densidade intelectual jamais definida” (31/32).

A identidade apresenta utilizações variadas, não se cinge às


pessoas, pode assumir forma de cultura, religião, etnia, região,
nação, etc… Por vezes utilizado por minorias que se procuram fazer
reconhecer.

CADA QUAL NO SEU LUGAR

Kaufmann refere que não quer ser mal entendido nos seus
propósitos. Ele não tem o objectivo de criticar colegas, mas sim “
apontar um fenómeno colectivo, que revela a natureza particular do
conceito.” (35). Apresenta exemplos de aut9ores que
problematizaram a identidade, tais como Dubar (1991), Goffman
(1975), Paul Ricoeur (1990) e François de Singly (1996). Para ele,
mais do que criticar as abordagens, destes e de outros autores,
deve encontrar-se uma “ visão de conjunto, que permita dizer o que
é exactamente a identidade. Não determinado detalhe do seu
funcionamento, mas o seu lugar no conjunto da maquinaria social”
(36).

Para o autor a psicologia social é a disciplina que mais trabalhou o


conceito de identidade a partir do interior do indivíduo, a “ tradição
da psicologia social, confirmada pelos resultados dos trabalhos de
laboratório, incita, então a destacar a subjectividade em obra; a
identidade resultaria antes do mais do domínio da representação e
articular-se-ia em torno do sentimento de si” (37). Perante isto
levanta-se a questão da realidade objectiva do indivíduo, será que
ele pode inventar a sua identidade sem considerar os elementos
biográficos que o caracterizam? “de nada serve achar-se bonito,
quando a fotografia do Bilhete e Identidade diz manifestamente o
contrário” (37).

Assim, a dificuldade a resolver é precisamente a desta articulação


entre objectivo/subjectivo e do lugar que ocupa a identidade nesta
articulação. Surge um consenso, que atravessa várias áreas
disciplinares (psicologia, sociologia…) e a que Kaufmann apelida de
“ consenso frouxo”. Esse consenso aponta em primeiro lugar a
identidade como construção subjectiva, no entanto, ela não pode
ignorar a realidade concreta do indivíduo ou do grupo. Nesta
concepção o olhar dos outros também é crucial pois, esse olhar,
certifica as identidades propostas.

Este consenso, embora proponha uma concepção dinâmica e


aberta da identidade é frágil e o seu alcance é limitado, é
superficial.

ACABAR COM A IDENTIDADE?

A identidade, segundo Kaufmann é uma noção do senso comum


com conotação essencialista, “no domínio científico, é um termo
que define realidades muito diversas e imprecisas” (46). Assim, o
autor assume a tentação de substituir o termo identidade por outro
inteiramente novo e adequado, “mas de que serve inventar um belo
conceito, se somos os únicos a utilizá-lo?” (46)

UMA TEORIA DA IDENTIDADE

Para analisar claramente o conceito de identidade, Kaufmann refere


que são necessárias 2 operações distintas:

1º - separar o indivíduo e identidade;


2º - inscrever o fenómeno identitário na história.

Para ele “ o indivíduo tem de acreditar em si mesmo como entidade


estável e autónoma, emitindo um sistema de valores indubitável.
Ele tem que se representar com constância, sem hesitação e ser
imediatamente identificável pelos outros. Por outras palavras, ele
tem que ter uma identidade.” (50). O importante é a delimitação do
sentido da representação identitária e não a estabilidade, a
identidade seria assim um envolvimento que confere a evidência de
si mesmo.

Ressalva o papel do estado na individualização da sociedade o que


vai desencadear a procura identitária, “o estado começou a
trabalhar nas identidades individuais muito antes da maioria dos
indivíduos se preocuparem eles próprios com isso” (55). O estado
usa maquinaria para produzir as identidades modernas.

Kaufmann refere-se aos papéis e identidades salientando o facto de


que cada vez o indivíduo tem mais escolha face a papéis múltiplos.
“Mas em relação a um papel determinado, ele deve também
envolver-se de forma pessoal, nomeadamente escolhendo uma
«identidade» (uma imagem de si mesmo), entre toda uma gama de
outras possíveis” (67)

Assim, os si mesmo possíveis não são fruto da imaginação, são


condicionados por uma série de factores “ a experiencia
profissional, o contexto social e as reacções dos outros são levados
em conta. Eles representam uma espécie de selecção das
identidades virtuais concretamente realizáveis numa situação
determinada” (69). Desta forma o sujeito não está, nas suas
escolhas, separado da sociedade, nem é senhor do seu
pensamento e da sua acção. “Na realidade a subjectividade
permanece estreitamente constrangida pelos self-schemas. Eles
resultam, com efeito, da trajectória social, da história da pessoa.
Não são no fundo, senão o reflexo de experiências de
confrontações com diversos contextos, registados sob a forma de
quadro de determinação das acções futuras.” (70)
IDENTIDADE INDIVIDIAL E IDENTIDADE COLECTIVA

O indivíduo moderno define a sua especificidade pessoal no


cruzamento com as pertenças colectivas, muitas vezes a identidade
colectiva e individual são apresentadas como se não devessem ser
misturadas, como se tivessem naturezas diferentes. “não há, de
facto, equivalência entre identidade individual e identidade colectiva.
Uma vez que o processo identificatório parte, no essencial, e cada
vez mais, dos indivíduos-sujeitos que têm necessidade de
reivindicar pertenças diversas para alimentar os conteúdos
significativos da sua existência” (106). No entanto, como refere
Kaufmann, o indivíduo ao identificar-se com o grupo tem a
sensação de possuir uma personalidade maior, isso acontece
muitas vezes por oposição a grupos estigmatizados. A identidade
colectiva assenta num encerramento de sentido de socializações. “
O indivíduo, a partir de agora no centro de definição do sentido da
sua vida, esforça-se por fornecer conteúdos significativos” (125). As
identidades colectivas são uma necessidade provocada pela
modernidade individualista. “ O alargamento do seu perímetro de
identificação permite-lhe, paradoxalmente, sentir-se mais ele
próprio” (125).

IDENTIDADE BIOGRÁFICA E IDENTIDADE IMEDIATA

Kaufmann começa por referir-se à ruptura com o objectivismo, ela


permite reintroduzir o sujeito. “ A identidade ganhou uma aparência
mais aberta e dinâmica, e impôs-se progressivamente uma forma: a
narrativa. A identidade é a história de si mesmo, que cada um se
conta” (131).

Para Paul Ricoeur a narração de si mesmo “ é, não uma pura


invenção, mas uma colocação em narrativa da realidade, um
ordenamento de acontecimentos, que permite torná-los legíveis e
dar sentido à acção” (Ricoeur, 1991). Desta forma, cada um narra a
história da sua vida, que dá sentido ao que ele vive, à sua acção.
IDENTIDADE COMO CONDIÇÃO PARA A ACÇÃO

“ A identidade não é simplesmente um processo reflexivo ou


narrativo, ela não se limita ao domínio da representação ou da
narrativa. O seu papel mais importante encontra-se, aliás, num
domínio onde não é, de todo, habitual situá-la: as condições de
acção na modernidade” (151). O processo identitário deve ser
analisado como um sistema de acção. “um sistema de acção
trabalhando continuamente para reconstruir as condições da acção”
(151). Este processo, segundo Kaufmann é historicamente novo. A
modernidade “intima o indivíduo a definir ele próprio a sua
identidade. E exige-lhe, ao mesmo tempo, que efectue uma
multiplicidade de escolhas práticas, que reflicta antes de agir” (152).

Kaufmann refere-se neste ponto às identidade operatórias (153)


dizendo que “ por baixo das suas capacidades imaginativas e
reflexivas, o homem constrói-se, basicamente, como um ser de
habitus” (kaufmann, 1997; Lahire, 1998) “ A interiorização de uma
evidência, estruturada sob a forma de hábito, permite desencadear
a acção sem se colocar questões, evitando acentuar a carga
mental” (153). Como as incorporações são muitas vezes
incompletas ou contraditórias, o ego trabalha para se convencer a si
próprio acerca das evidências menos seguras. “Fixar uma imagem
de si mesmo torna-se num processo indispensável para lançar o
corpo na acção. Nas situações mais diversas e concretas, as
identidades tornam-se modalidade operatórias” (154). No entanto,
os esquemas incorporados não devem ver a sua esfera de
influência demasiado alargada. A este propósito Kaufmann ilustra
com o exemplo de 2 publicações de Lahire. Enquanto no homem
Plural (1998) Lahire analisa o papel central dos esquemas
incorporados e retoma o conceito de habitus, no livro seguinte,
retratos sociológicos (2002), utiliza o termo «disposições». Esta
mudança de linguagem introduz uma mudança de perspectiva.

Para Kaufmann não há acção sem convicção nas identidades. A


convicção é que vai produzir a energia necessária para agir. O
reconhecimento pessoal assume assim um papel fundamental no
processo que leva à acção. “Quanto à convicção nas identidades
que geram motivação e acção, ela está, evidentemente,
estreitamente dependente da estima de si mesmo; é mais atraente
acreditar num si mesmo valorizante, do que o contrário. Por detrás
das escolhas identitárias, há sempre o combate pelo
reconhecimento pessoal. A convicção só produz energia, se esta for
no sentido de um reforço da estima de si mesmo” (171).

O SOCIAL REFORMULADO PELA IDENTIDADE

Para Kaufmann as configurações sociais são fundamentais para a


configuração da identidade.

“ A posição social ocupada e os recursos (ou ausência de recursos)


que lhe estão associados, definem o essencial das formas como a
identidade se exprime. Não se é si mesmo da mesma maneira,
consoante se é um sem-abrigo ou um Presidente Director Geral. “
(175).

A identidade não é apenas uma questão privada, individual, “ ela


redefine o conjunto da questão social” (175). Através da identidade
vamos percebendo as dinâmicas de dominação social.

Na última parte da obra Kaufmann define três modelos de


expressão identitária:

No primeiro modelo, que é desenvolvido principalmente por meios


sociais de poucos recursos económicos e culturais, as explosões
emocionais são tónica dominante, são estas explosões identitárias
que permitem o restabelecimento da estima de si mesmo. A
fraqueza de recursos limita a variedade dos si mesmo possíveis.
Assim temos tendência à ficção compensatória.

Este mecanismo é típico de meios desfavorecidos que sofrem


défices de reconhecimento, podendo inclusivamente surgir a raiva.

No segundo modelo, Kaufmann mostra como é possível resistir ao


processo identitário ou sair dele. A este processo chama de
retraimento.

No terceiro modelo oferece-nos a possibilidade de introduzir a


reflexividade na formação da identidade através das chamadas
Identidades frias.

“Quanto mais ele abandona a sua criatividade subjectiva à


socialização que lhe é oferecida, com efeito, mais ele aumenta o
seu conforto psicológico.” (233), mas por outro lado como “se
poderia ser plenamente si mesmo, quando a instituição dita
quotidianamente as condutas e dá sentido à própria vida?” (234) “
Cada qual tenta, então, desesperadamente, afrouxar o aperto; para
ser si mesmo” (234).

Mas será possível ser si mesmo sem a instituição? “ a invenção de


si mesmo, a maior parte das vezes, não é voluntária.

A reflexividade tem, sem sombra de dúvidas, papel central na


modernidade (Giddens, 1987, 1991), “mas a reflexividade de
propensão racional não é a modalidade exclusiva da expressão do
sujeito. Pelo contrário, ela surge, frequentemente, numa posição
secundária, subordinada à dinâmica identitária. O sistema de
valores constitutivo do sentido dado á vida determina fortemente a
maneira como a reflexão é conduzida.” (249). O Indivíduo é assim
menos livre do que se pensa (Kaufmann, 2004: 249).

A sua reflexividade é dirigida “ ela é passada pelo crivo das


imagens de si mesmo, que podem ser muitíssimo variáveis ou, pelo
contrário, fortemente geradas por focos identitários que as fixam em
colectivos persistentes. Ela é, igualmente, filtrada pelas
instituições.” (249)
Assim, “ inventar-se a si mesmo não se inventa, os mecanismos da
criação identitária não têm nada de aleatório. Se bem que os
instrumentos da invenção (imagens e emoções) sejam dos mais
voláteis, eles inscrevem-se em processos socialmente definidos e
precisos. O ego não se sonha de qualquer maneira” (253)