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Entrevista a CRISTINA FLORA por Pedro Lapa

Há dois anos saiu o teu último livro “Leva-me Esta Noite”. Porquê a ideia de dois
irmãos luso italianos proprietários de uma casa de antiguidades no Chiado?

De certa forma, ainda que indirecta e bastante ficcionada, o “Leva-me Esta Noite”
possui vários episódios ou bases de estórias verídicas e relacionadas com a minha
própria família. Do lado do meu pai eram todos italianos e, o meu avô possuía uma loja
de brinquedos na Baixa lisboeta. O facto de a família ter estado relacionada com o
comércio inspirou-me à criação dos dois comerciantes. Por outro lado, enquanto
redactora do jornal Semanário editei durante bastantes meses a página de antiguidades.
Visitava as leiloeiras com regularidade e recebia toda a espécie de informação relativa
aos leilões. Aprendi muita coisa e também foi uma forma de partilhar esse meu
conhecimento que, ao fim ao cabo, é também uma grande paixão minha. Sempre adorei
antiguidades. No Chiado, em homenagem a uma estória curiosa que é narrada pelo Dr.
Mário Moreau na excelente biografia da Luísa Todi. Às tantas, ficamos a saber que o
cadáver dela está sepultado numa loja de antiguidades, no Chiado, devido à venda de
parte do terreno da igreja e a escavações que, então, foram realizadas. Isso deixou-me,
de algum modo, perplexa.

No teu livro, o irmão que “descobre” o diário da mãe e que é paciente da


psicoterapeuta Sara Rocha hesita ou quase desiste de continuar as sessões com ela
por acreditar que aquilo que ele lhe confidencia acaba por acontecer na realidade.
Passo a citar-te: “As sessões com Sara não funcionam como uma espécie de
premonições sobre os acontecimentos da minha própria vida? Não serão elas a
desencadear tudo isto?”. Gostava que me explicasses melhor este “delírio” do
Lorenzo…

(Risos) Delírio é a palavra certa. Sabes, eu sempre receei escrever sobre determinados
temas ou pessoas com esse mesmo medo: o de que, ao dar corpo à ideia, ela se tornasse
real. É um medo fundamentado. Repara: no ano em que lancei o livro (2008) e no qual
ficciono o roubo das jóias da coroa portuguesa no museu de Haia, na Holanda, sofri um
enorme desaire bastante similar. E é como dizem: não há coincidências.
Por exemplo, apavora-me inventar personagens diabólicas ou fatalmente doentes. Acho
que é uma superstição da minha parte. Enquanto jornalista, por exemplo, nunca
consegui escrever a biografia de Sade. Escrevi inúmeras biografias, porém, quando
chegava a Sade, o marquês paralisava-me. No entanto, sei todos os mais ínfimos
pormenores sobre a vida dele, li os seus romances em francês e traduzidos para
português, ensaios, etc. Imaginava-o na prisão, a comer as iguarias que a mulher lhe
trazia às escondidas, apesar de tudo… E chocava-me tanto com os relatos anti-clericais,
só pensava, a alma deste homem deve estar no inferno. Como é possível a mente
humana imaginar sacrilégios desta ordem?! Para não falar do óbvio sadismo que lhe
deve o nome… Aí, o meu argumento para não escrever sobre ele era não posso
publicitar um monstro. No fundo, é curioso, herdei este “delírio” do jornalismo. Quando
trabalhava no DN, aprendi que nós não podíamos escrever sobre o suicídio. São notícias
tabu. Ninguém escreve sobre isso, à excepção de ser um suicida muito famoso. A
explicação era simples: as pessoas encorajadas pela notícia poderiam repetir a triste
opção. É um mecanismo social e psicológico: a reprodução de algo banalmente
cometido e falado na sociedade. E a banalização é o pior contágio. Repara, em situações
de guerra, os vivos passam pelos cadáveres no chão como nós passamos pelas folhas
caídas do Outono. Ou seja, com a maior indiferença.

Foi por teres esse receio que erradicaste o cancro a Bianca?

Sim, mas não só. Bianca, no livro, é vítima de um diagnóstico médico errado. Uma
troca de apelido. No entanto, submete-se a todos os tratamentos e sofre horrores. Ela e
toda a família dela. Na realidade, conheci um caso assim. Uma pobre mulher que passou
por um calvário extraordinário devido a um erro médico de troca de fichas. E perdeu o
cabelo. E apanhou o maior susto da vida dela. Às vezes, a realidade supera a ficção. Por
outro lado, o meu primo, Biagio Vita, a quem dedico em parte o livro, morreu aos 47
anos com um tumor cerebral. Era pediatra, nunca chegou a ter filhos mas adorava o
mar, o barco dele e um piano de cauda branco onde tocava Jazz. Foi uma pessoa que
adorei e que me deslumbrava na minha adolescência. A Bianca é o Biagio.

Numa conversa de café entre Sara e Lorenzo e a partir de um relógio de caixa alta
tu teces inúmeras estórias. Dir-se-ia que brincas com a própria forma como
inventas e constróis uma narrativa, apresentando diversos desfechos com uma
aparente enorme facilidade…

Tens razão. É uma escritora a brincar com estórias. A inventá-las por amor, capricho e
sedução. Repara, Lorenzo conta diferentes versões da mesma situação inicial: figuras
chinesas embutidas a madrepérola num relógio. Ao mesmo tempo que o faz vai
observando as expressões de Sara, vai cedendo para a agradar. Quer-se mostrar um tipo
culto e fantasioso. Mas acaba por deixá-la finalizar à maneira dela. Ou seja, é um
cavalheiro. No fundo, nós próprios tecemos inúmeras estórias na nossa mente e cada um
vê a mesma realidade sob diversos ângulos. Provavelmente, a um escritor dar-lhe-á
mais gozo conseguir captar essa multiplicidade de desfechos possíveis. Diverti-me a
escrever essas páginas, sim.

E, depois, o teu livro dá um salto extraordinário e, de registo saga de família, passa


para uma empolgada aventura policial a um ritmo tremendo e somos forçados a
virar as páginas a grande velocidade. Porquê esses dois andamentos tão
diferentes?

É como uma partitura. Tens vários andamentos. O primeiro é moderato. Entras na


família, saboreias a cumplicidade dos irmãos, de que são feitos os laços, as recordações,
os medos, etc. Depois, tens allegro. Já é tudo mais rápido. As revelações sucedem-se, os
amantes devoram-se, Lorenzo soma o puzzle. E, por fim, tens o presto e o prestissimo.
Ou seja, a velocidade é total. Num ápice, Lorenzo perde e ganha tudo. Sempre achei que
as melhores e as piores coisas da nossa vida aconteciam numa fracção de segundos. E
continuo a achar.

Ouviste Debussy quando inventaste Clara Luna?

(Risos). Sim, passei todo o epílogo a ouvir Claire de Lune. É algo de assombroso e
absolutamente belo e sereno como Clara. Vestiu a minha personagem melhor do que
qualquer outra descrição e, no entanto, Clara, para além de dançar manuseava armas.
Mas há muito que queria desistir delas e render-se ao conforto de uma família. É
venezuelana porque uma grande e querida amiga minha nasceu na Venezuela e foi ela o
molde – se me é permitida a expressão – para criar a Clara do livro. As mulheres da
América do Sul têm um certo exotismo e um à-vontade extraordinário na forma como
se expressam. Os gestos, a fala, o andar. É tudo mais solto e eu tentei incutir isso. A
Clara Luna é de uma frontalidade desarmante. Depois da decepção provocada por Sara
– justamente o oposto de Clara – percebe-se a rendição total de Lorenzo face à
venezuelana. Entre as duas só a beleza será um elemento comum.

O livro também é dedicado ao teu pai, em particular, à bondade dele. Foi este
sentimento que te levou a fabricar um final feliz e completamente amoral?

O final é feliz, sim. Porque prevalece o amor, tanto o de um homem por uma mulher e
vice-versa, como o fraternal. Acima de toda a moral. De todo o juízo de valor. E isso
foi-me ensinado e transmitido pelo meu pai. Os laços de sangue nunca se quebram.
Mesmo que as pessoas se deixem de falar ou se afastem de nós irão fazer sempre parte
da nossa vida quando são nossos parentes próximos. O pai era extremamente bondoso e
compreensivo. Como médico foi de uma generosidade incrível. Lembro-me de ter a
casa no Natal cheia de perus e outras ofertas porque ele não cobrava dinheiro às pessoas
carenciadas. O meu pai nunca fez do consultório um negócio. Não o saberia ter feito.
Era demasiado caridoso. Ao invés, encheu-o de brinquedos. Coleccionava ambulâncias
e lindos animais de quinta de uma marca alemã, a Lineol. Também tinha soldados. O
meu pai sempre adorou a loja do avô e era uma criança grande. Às vezes, quando
passeava na rua de braço dado com ele, surpreendiam-me e comoviam-me os
comentários e os elogios de pessoas que não o viam há anos mas reconheciam-no e
falavam-lhe com muito respeito e carinho. A última frase do livro é um tributo total ao
meu pai e ao sentimento que ele nutriu ao longo da vida pela minha mãe. Era de uma
dedicação absoluta. Uma paixão desmedida. Tal como Lorenzo por Clara. Porque
ambas realizaram milagres, sendo o mais importante, o do amor. Genuíno, claro está.