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O DISCURSO FEMINISTA EM TIRAS DA MAFALDA À LUZ DA ANÁLISE

DO DISCURSO DE LINHA FRANCESA (AD)

Nadia Pereira da Silva Gonçalves de Azevedo*


Claudemir dos Santos Silva**
Érika Maria Asevedo Costa ***
Maria do Carmo Gomes Pereira Cavalcanti****

RESUMO: A Mafalda, personagem argentina das tiras do cartunista Joaquin Salvador Lavadio (Quino)
representa um “grito de alerta” para as mulheres que lutam incessantemente por igualdade e liberdade.
O que faz olhar para o processo de produção de sentidos nas tiras de Mafalda é sempre sua atualidade,
seu passado e seu presente, sua comicidade e, ao mesmo tempo, seriedade, além da diversidade de
assuntos que permeiam esses textos com efeito humorístico. Este estudo propõe-se a analisar as práticas
discursivas sobre as questões da emancipação feminina na pós-modernidade e as formações discursivas
nas quais estão inseridas a personagem principal, sua mãe e amiga, Susanita. O corpus desse trabalho é
composto por tiras da personagem sobre a temática em questão, abordando a relação entre os sujeitos
envolvidos em suas narrativas. Esta pesquisa apresenta uma abordagem qualitativa e como marco
teórico a Análise do Discurso de linha francesa, inaugurada por Michel Pêcheux e divulgada por Eni
Orlandi e seguidores, no Brasil. Atentamos para concepções imanentes a AD, como: memória, sujeito,
sentido, história e ideologia, elementos deste instrumento teórico-metodológico, que são mobilizados por
proporcionarem uma maneira própria de entender o processo de construção de sentidos e apreendermos
a relação entre determinadas acepções e estigmas presentes na atualidade em relação à emancipação
feminina.

ABSTRATC: Mafalda, Argentinian character of the strip cartoonist Joaquin Salvador Lavadio (Quino),
represents a "wake-up call" for women who are unceasingly striving for equality and freedom. What
makes us look for the meaning production process in Mafalda strips is always its topicality, its past and
its present, its humor and at the same time, seriousness, besides the diversity of issues that permeate these
texts with humorous effect. This study aims to analyze the discursive practices on the issues of women's
emancipation in post-modernity and the discursive formations in which the main character, her mother
and friend, Susanita, are inserted. The corpus of this work consists of Mafalda strips on the subject in
question, addressing the relationship between the subjects involved in their narratives. This research
presents a qualitative approach, and the French Discourse Analysis as theoretical framework,
inaugurated by Pêcheux and published by Eni Orlandi and followers in Brazil. We draw attention to the
immanent conceptions in DA, such as memory, subject, meaning, history and ideology, elements of this
theoretical-methodological tool, that are mobilized in order to provide a proper way to understand the
meaning construction process and apprehend the relationship between certain meanings and stigmas
present today in relation to women's emancipation.

PALAVRAS-CHAVE: Tiras da Mafalda, Emancipação Feminina, Discursos.


KEYWORDS: Mafalda strips, Women Emancipation, Discourses.

INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V.6 , Edição número 24, de Outubro de 2016 a Abril de 2017 - p
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INTRODUÇÃO

Em plena Pós-modernidade, a figura feminina, ainda, tem sido “alvo” da violência física
e/ou verbal por alguns que acreditam serem as mulheres, o “sexo frágil”. Assim, os
inúmeros preconceitos materializam formações discursivas e ideológicas em um dado
contexto sócio-histórico cultural. Quem nunca ouviu enunciados do tipo: “mulher no
volante, perigo constante”, “mulheres foram feitas para serem boas parideiras”,
“mulheres devem pilotar um bom fogão”, “mulher tem que saber o que tem para o
almoço”, “afirmarem ao senhor, seu marido: sim senhor, não senhor!”. Esse discurso
machista e preconceituoso reflete, de acordo com Carvalho et al (2013) que elas
eram/são “desprovidas de qualquer direito ou autonomia, ou seja, a mulher deveria
encontrar no casamento sua “independência,” afinal, havia sido educada para servir ao
marido, administrar a casa e cuidar da prole” (CARVALHO et al 2013, p.02).

De acordo ainda com as autoras (2013), essa cultura patriarcal começou a perder forças
a partir do início do século XX, com movimentos liderados por mulheres, na Europa,
que “buscavam a igualdade de direitos políticos e sociais de ambos os sexos. Esses
movimentos foram intensificados a partir do início da década de 1960” (2013, p.02),
época em que, como enfatiza Romero apud Carvalho et al (2013), foi marcado pela
inquietação de feministas que advogavam uma participação mais ampla da mulher no
mercado de trabalho, além do igualitarismo entre os sexos em todas as esferas da vida.

A personagem argentina Mafalda, criada por Joaquin Salvador Lavadio (Quino),


representa, sem dúvida alguma, um “grito de alerta” por igualdade e liberdade para as
mulheres que lutavam (lutam!) por maiores chances de realização pessoal e profissional,
em tempos de ditadura nos anos 60 e 70. As polêmicas sobre a emancipação feminina,
em contraponto ao machismo, mesmo considerando as distâncias entre Brasil e
Argentina, fazem parte de uma tendência mundial na contemporaneidade.

Portanto, suas tiras representam discursos que sempre estão relacionados às questões
históricas, sociais, políticas e ideológicas. Logo, provocam humor com deslizamentos
de sentidos por efeitos de ironia na relação entre concepções de sujeitos e com
diferentes compreensões sociais em relação ao papel feminino na sociedade. Neste
artigo, pretende-se analisar o discurso feminista em tiras de Mafalda e as formações
discursivas nas quais estão inseridas a personagem principal, sua mãe e amiga, Susanita.
Procura-se trabalhar a partir da teoria e do procedimento analítico da Análise do
discurso de linha francesa fundada com base na proposta teórica do filósofo francês
Michel Pêcheux e reterritorializada no Brasil a partir dos trabalhos de Eni Orlandi, com
vistas a discutir algumas concepções relevantes para o trabalho com a linguagem
quando pensada discursivamente.

1 AS TIRAS DA MAFALDA

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Mafalda é uma personagem entre cinco e seis anos de idade, cuja criação é de Joaquin
Salvador Lavadio (Quino). O autor faz a sua divulgação em 29 de setembro de 1964,
que é ampliada na Argentina até 1973. A obra, a partir daí, foi sendo traduzida em
outros idiomas e, em 1981, chega ao Brasil (QUINO, 2012). Sabe-se que o seu autor
publicava tiras em jornais, cadernos escolares, criava publicidades, produzia filmes e
desenhos animados internacionalmente. Nesse ínterim, especificamente em 1970,
apenas uma revista de pediatria e pedagogia dirigida aos pais apresenta seus textos
ilustrados com tiras de Mafalda no país.

O sujeito Mafalda, por sua criticidade e política é considerada uma anti-heroína nas tiras
do seu idealizador, ou seja, ela não surge para salvar o mundo das ameaças, mas para
contestar as questões sociais, culturais, políticas e econômicas na América Latina.

É importante salientar que em termos de regimes militares, tanto no Brasil quanto na


Argentina, estes são marcados por memórias (discursivas) históricas. É nesse entremeio,
que as tiras de Mafalda foram produzidas e veiculadas em anos de ditadura e
perpassaram esses anos cruéis marcados pela censura e segregação. Portanto, de acordo
com Silva (2012), a conjuntura social da época é marcada por tensão política e
econômica em que liberdades foram tolhidas e, por isso mesmo, época de resistências
como marca da luta pela emancipação feminina.

Ainda, segundo a autora, a Argentina de 1976 presenciou em sete longos anos,


acontecimentos dramáticos como milhares de mortos e desaparecidos sob a tutela do
Estado, “[...] no Brasil, os golpes militares deixaram sequelas, mas os generais se foram
e as tiras que contam essa história perduram até hoje” (SILVA, 2012, p.06).

Ao elaborar suas impressões sobre as “Construções do imaginário de Mafalda, de


Quino: análise dos diálogos entre duas gerações”, Souza (2009) interdiscursa com
Araújo (2003), o que significa dizer que, a partir dos temas incentivados e debatidos nas
âncoras sociais e midiáticas, ocorreu ao longo dos tempos uma série de conflitos de
alguns grupos sociais, culminando, assim, em processos de luta pelo direito à igualdade.
Um desses grupos que iniciaram uma manifestação bastante contundente, quase que em
sintonia no mundo todo, “foi o das mulheres, que apesar de possuir alguns direitos
como o ao voto, tinham que se conformar ainda com a função de dona de casa, mãe e
esposa dedicada” (ARAÚJO, 2003, p.03).

Em meio a toda essa problemática, ressalta-se que:


A personagem Mafalda se apropria de algumas temáticas presentes nesse
período de produção (especificamente nas décadas de 60 e 70), como o papel
da mulher naquela sociedade, os conflitos entre as nações, a pobreza, o mau
desempenho dos governos que acarretava prejuízos na economia e na política

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das nações, a dominação dos Estados Unidos através dos empréstimos do FMI,
o descaso com a qualidade na educação, entre outros temas (ARAÚJO apud
SOUZA, 2009, p.03).

Portanto, através das temáticas discutidas nas tiras da Mafalda, nada melhor do que
atentarmos para a leitura destas, tentando, por sua materialidade linguístico-discursiva,
apreender processos de significação. Assim, a partir de efeitos humorísticos,
relacionados aos aspectos irônicos, pode-se, com o respaldo teórico e metodológico da
Análise de Discurso de linha francesa (AD), notar o funcionamento de expressões que,
algumas vezes, “silenciadas”, provocam em seus leitores: a dispersão/deslizamento para
sentidos outros diferentemente de sua pretensa completude.

Como o leitor, nesse processo, não é passivo, mas agente que busca significações, “o
sentido de um texto não é jamais interrompido, já que ele se produz nas situações
dialógicas ilimitadas que constituem suas leituras possíveis” (AUTHIER-REVUZ,
J.,1982, p.104). Através desses pontos de vista é que analisaremos as tiras de Mafalda,
observando respectivamente seus sujeitos/sentidos.

Discorrendo sobre “A emancipação feminina em Mafalda: uma análise discursiva de


tiras”, Silva (2012) afirma que para se entender o processo de construção de sentidos,
parte-se do reconhecimento das condições históricas de produção do discurso. Neste
momento, é necessário lembrar ao leitor que esta noção funciona em rede com as outras
noções da Análise do Discurso francesa que estão presentes neste estudo, como sujeito,
sentido, história e ideologia.

2 CONTEXTUALIZANDO HISTORICAMENTE A ANÁLISE DO DISCURSO DE


LINHA FRANCESA (AD)

As diversas abordagens em relação à língua/linguagem ao surgirem, inicialmente,


procuraram dedicar-se apenas aos aspectos formais do sistema linguístico e, assim,
outras categorias referentes aos contextos de produção de sentidos eram deixados de
lado. De acordo com Daróz; Santana; Azevedo; Silva (2014), a língua, sempre foi/é o
objeto de desejo dos homens, que desde a mais tenra idade, procurou/procura debruçar-
se sobre ela, a fim de desvendar os seus segredos, no desejo de apreendê-la – e por que
não “dominá-la”? – para, com ela e a partir dela, tomar parte no mundo. “Ao crescer, no
entanto, o homem se depara com um “barco lançado no mar” que, levando consigo sua
história, abarca sentidos anteriores, na mesma medida em que agrega outros” (DARÓZ;
SANTANA; AZEVEDO; SILVA, 2014, p. 123). Com as transformações advindas do
cenário sócio, político, histórico-cultural, propiciou um repensar sobre questões
linguísticas, que deveriam atentar também para as condições de produção.

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A esse contexto, soma-se o surgimento de novas teorias linguísticas advindas das outras
áreas do conhecimento, tais como da Sociolinguística, da Psicolinguística, da Análise
do Discurso, da Linguística Aplicada, entre outras, as quais não vislumbravam a
língua/linguagem como um código homogêneo e estável, mas como uma forma de
interação entre sujeitos, com propósitos comunicativos.

Atualmente, o estudo da língua sob a perspectiva discursiva está bastante difundido,


havendo várias correntes teóricas, sendo uma dessas tendências, aquela que ficou
conhecida como Escola Francesa de Análise do Discurso (AD). Um dos precursores da
AD foi Michel Pêcheux. Para sua criação, na década de 60-70, Pêcheux (1993) realiza
rupturas com as pesquisas estruturalistas que viam a língua apenas como um veículo
para a comunicação, limitada em si mesma, mas busca analisá-la a partir de aspectos
que vão além do ato comunicativo, ou seja, aprofunda-se nos aspectos extralinguísticos
do discurso, a fim de chegar à construção de sentidos no contexto social, histórico e
ideológico, no qual um determinado enunciado está inserido. Isso implica dizer que a
língua é tomada como produto de diálogos entre os falantes, é um veículo de interação
com o mundo e tem o propósito de ocultar questões ideológicas materializadas na
linguagem (BRANDÃO, 2013).

Segundo Daróz; Santana; Azevedo; Silva (2014), ao propor a AD, Pêcheux


(PÊCHEUX; FUCHS, [1975] (1997) lança mão de três disciplinas:

 o materialismo histórico , posto que se trata de uma teoria das formações e


das transformações sociais. Nesse contexto histórico, ele salienta a teoria
da ideologia de Louis Althusser.
 a linguística estruturalista, como teoria dos mecanismo sintáticos e dos
projetos articulados por uma teoria da subjetividade;
 a teoria do discurso, no sentido das determinações históricas dos
processos semânticos.

A AD, teoria na qual os autores encontram-se filiados, constitui-se, desse modo, como
uma disciplina de entremeio (ORLANDI, 2013) que, ao eleger o discurso como o seu
objeto teórico, alicerça-se no espaço fronteiriço entre esses campos do saber,
problematizando os seus limites, questionando certezas. Daí, conforme Orlandi (1987)
surge à noção da AD ser considerada uma des-disciplina, já que é articulada nessas três
regiões do conhecimento científico.

Ao desenvolver estudos em torno da AD aqui no Brasil, Orlandi (2013), realiza algumas


modificações em torno das supracitadas concepções estabelecidas por Pêcheux e retira a
teoria do discurso, ampliando a noção da Linguística e acrescentando a Psicanálise
como filiação teórica. Nesta perspectiva, as regiões seriam: o Materialismo Histórico,
mantendo-se a concepção anterior; a Linguística, constituída pela opacidade da
linguagem, com seu próprio objeto de estudo (a língua) que, por sua vez, tem sua ordem

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própria; e, como terceira região, a Psicanálise, com a noção de sujeito da linguagem,
que se constitui na relação com o simbólico.

A vertente brasileira da Análise do Discurso é liderada por Eni Orlandi e outros


estudiosos (1987, p.12). A autora define a AD como “teoria crítica que trata da
determinação histórica dos processos de significação”. Partindo da constituição
simbólica do homem, da busca (inevitável) de sentidos situando as práticas de
linguagem no eixo tempo-espaço.

Ao argumentar sobre o objetivo da AD, Orlandi (2007), menciona que a mesma toma a
linguagem como mediadora indispensável entre o homem e o meio social e natural em
que vive, assim, não considera a língua como um sistema abstrato, mas como método de
interação. Diante dessa perspectiva, vemos que o discurso é o meio pelo qual o processo
de interação verbal se concretiza, ou seja, “ele é a palavra em movimento, prática de
linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando” (ORLANDI, 2013,
p.15).

Enquanto instrumento teórico-metodológico, a AD permite analisar as tramas do dizer,


ressignificando o mesmo, a partir de novas condições de produção das práticas
discursivas: descentrando as normas e trabalhando os modos de produção, negociação e
instituição ou exclusão dos sentidos, garantindo, no interior da luta de classes, espaço
para a circulação de sentidos outros.

3 ANALISANDO O DISCURSO E OS SEUS EFEITOS DE SENTIDO EM DUAS


TIRAS DA PERSONAGEM MAFALDA

Como já foi enfatizado, a AD será utilizada, neste trabalho, como teoria e procedimento
de análise. Neste sentido, enquanto instrumento teórico-metodológico, “a Análise de
Discurso visa compreender como um objeto simbólico produz sentidos e, logo
iniciamos o trabalho de análise pela configuração do corpus, delineando-se seus limites,
fazendo recortes, na medida mesma em que se vai incidindo um primeiro trabalho de
análise, retomando-se conceitos e noções, pois a AD tem um procedimento que
demanda um ir-e-vir constante entre teoria, consulta ao corpus e análise. Esse
procedimento dá-se ao longo de todo o trabalho” (ORLANDI, 2013, p.66).

A seguir, para melhor se compreender a proposta teórico-metodológica da AD, bem


como mais de seus conceitos teóricos basilares, tratar-se-á de analisar duas tirinhas da
Mafalda, extraídas do livro: “Da primeira a última tiram” do seu criador-idealizador
Quino. É importante destacar que, na primeira tira, a argentina dialoga com sua amiga
Susanita (uma personificação do discurso antifeminista). Por fim, na tirinha II, entra em
cena o discurso da personagem Mafalda, que, entre tantos efeitos de sentido, produz o
estereótipo de mulher que busca seu espaço numa sociedade essencialmente patriarcal e

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machista, em contraponto com a sua mãe Raquel, uma mulher oprimida e tradicional,
quer dizer, uma legítima “Amélia”, aquela que por tanta dedicação e cuidados com o
marido, os filhos e por seus dotes culinários “era/é uma mulher de verdade”, de acordo
com os versos do compositor

Tirinha I

QUINO, Joaquim Salvador Lavado. Toda Mafalda. Da primeira a última tira. São
Paulo: Martins Fontes, página, 27, 2012.

Ao analisar a tirinha I, constatam-se os muitos efeitos de sentidos em relação ao papel


da mulher na sociedade e o machismo predominante em todas as épocas. Através do
diálogo travado entre a Mafalda e sua amiga Susanita, observa-se que os sujeitos da
linguagem não são/estão constituídos em si, mas interpelados pela ideologia. Nesse
sentido, conforme Pêcheux [1975](1997), há uma ilusão discursiva do sujeito em pensar
que é ele a fonte, a origem do sentido do que diz.

Indo de encontro a essa assertiva, é preciso ressaltar, de acordo com o supracitado


estudioso, em relação aos esquecimentos, o sujeito se ilude duplamente, inicialmente,
por esquecer-se de que ele mesmo é assujeitado pela formação discursiva em que está
inserido ao enunciar (esquecimento nº 1 – interdiscurso), logo depois, por crer que tem
plena consciência do que diz e, que por isso, pode controlar os sentidos do seu discurso
(esquecimento nº 2 – origem do dizer).

Segundo Azevedo (2000), o sujeito não é livre para dizer o que quer; logo a sua
elaboração discursiva está relacionada às condições de produção e ao espaço do
discurso, em uma relação necessária com a exterioridade (AZEVEDO, 2000, p. 20).

Mafalda, ao afirmar que “hoje em dia, a mulher é chamada a ocupar um lugar cada vez
mais importante!”, se encontra numa formação discursiva feminista que se contra
identifica à formação discursiva em que se inscreve Susanita, uma antifeminista, que
compreende que a mulher desempenhar uma profissão é antitético à imagem identitária
feminina. A conversa revela dizeres que estão arraigados à ideia de que a figura

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feminina, conforme Susanita, apenas nasceu “para ser mãe e dona de casa”, discurso
machista que está inserido nos contextos sócio-históricos e culturais. Susanita está
plenamente identificada à Formação Discursiva (FD) da mulher submissa, cujo desejo
maior é constituir família e ser silenciada.

Quando a personagem argentina remete a mulher a muitas funções-sujeito que pode


desempenhar e que não se restringe a tarefas domésticas, isto independe da estética
assumida. Susanita parece se encontrar num solilóquio, onde associa que assumir uma
posição sujeito-mulher que trabalha fora implica em negligenciar da aparência e sua
ironia denota a heterogeneidade constitutiva, isto é, o que carrega em sua memória
discursiva sobre o ser mulher na sociedade, ou seja, enunciando de outra formação
discursiva, como detalhado no parágrafo anterior.

Tirinha II

QUINO, Joaquim Salvador Lavado. Toda Mafalda. Da primeira a última tira. São
Paulo: Martins Fontes, 2012.

Na Tira II, Mafalda ao afirmar: “Coitada da mamãe! [...] não vou ser uma mulher
frustrada e medíocre como você”, vê que Raquel, sua figura materna, funciona como
uma verdadeira demonstração de mulher submissa, subordinada e totalmente dedicada
às atividades domésticas. Faz notar que, para isso, teve que abdicar dos estudos e de
uma profissão, por exemplo, para entregar-se ao marido, à filha e ao lar e, assim,
tornou-se uma mulher frustrada, por não ter-se dedicado também e paralelamente na
realização dos seus sonhos e objetivos.

Daí, por ter se esquecido de si mesma, tornou-se “uma mulher frustrada e medíocre”,
como bem afirma, sua filha, Mafalda, que, em contraponto, deseja não apenas ir para o
jardim de infância, mas avançar no primeiro grau e, posteriormente, chegar à
universidade. Não deseja ser uma Amélia, por exemplo!

De acordo com Orlandi (2007), o silêncio não fala, mas significa e é sítio de elaboração
de outros sentidos. Percebe-se a mãe de Mafalda, em geral, silenciada ante os

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comentários e críticas da menina e, nesta tirinha, seu espírito contestador e
inconformado frente ao papel social desempenhado pela mãe emerge com os adjetivos
frustrada e medíocre. A mãe de Mafalda representa o estereótipo feminino sedimentado
por uma sociedade patriarcal. O estereótipo carrega sentidos vindo de outros discursos,
é o lugar de resistência do sujeito (ORLANDI, 2007).

Raquel, a mãe de Mafalda, resiste em se despir deste estereótipo, em que se encontra


cristalizada e que é evidenciado na fala da menina. A mensagem icônica descortina a
tristeza da mãe, ao ouvir o que pensa Mafalda sobre as "normalidades" de seu cotidiano,
quer dizer, a mãe, como exclusivamente dona de casa, uma formação discursiva e
ideológica que se caracteriza bem tradicional. Destarte, nas tiras de Quino, o constante
silenciamento de Raquel produz o efeito de evidência de uma mulher oprimida pela
condição de mãe censurada pela filha de seis anos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mafalda pode ser considerada uma anti-heroína que não vem salvar o mundo, mas
contestá-lo, questioná-lo, discursivizando os diferentes lugares sociais da mulher. Na
verdade, a menina é uma criança de seis anos, mas com erudição e criticidade de adulto.
Logo, percebe-se nas tiras, através da ironia, dos deslizamentos de sentido, o aspecto
emblemático que a personagem representa de liberdade de expressão, emancipação
feminina, escolhas sociais e culturais. Ultrapassando a mera ficcionalidade da obra,
Mafalda tem uma representatividade histórica.

Através da relação entre Mafalda, Susanita e a sua mãe Raquel, nota-se o desempenhar
de papéis-mulheres bem diferentes, uma luta pelo ruminar das ideias, ou seja, reflete
uma mulher contemporânea, que não foi feita apenas para casar, ter filhos e tornar-se
um ser totalmente voltado para as atividades domésticas, já as outras, mostram-se
mulheres tradicionais, que estão arraigadas e plenamente assujeitadas pelas formações
discursivas e ideológicas.

Nesse contexto, Mafalda surge representando essa nova voz feminina, trazendo as
construções do imaginário cultural e das reivindicações de todas as épocas. Em
contraposição ao discurso da personagem, estão às falas de sua amiga Susanita e de sua
mãe, que se identificam com determinadas formações discursivas.

As tirinhas de Mafalda se caracterizam pela atemporalidade dos temas. A infante replica


criticamente questões políticas, culturais, sociais. Representa a juventude dissidente de
sua época e assume uma posição sujeito-mulher moderna contrária à posição-sujeito
mulher tradicional de sua mãe, que sucumbiu ao seu desejo de ter um diploma e uma
carreira para desempenhar exclusivamente tarefas domésticas e de sua amiga, Susanita,

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que também enuncia a partir de formação discursiva diferente (a FD da mulher
submissa, que quer ter bens de consumo e um marido rico).

Esse grupo constituído por sua voz é mantenedor de um discurso (re) produzido em
favorecimento do arquétipo feminino representado pela figura da dona-de-casa, ausente
dos pensamentos críticos sobre o mundo e sobre a sociedade e envolta somente nos
problemas e detalhes da vida doméstica.

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* Doutora em Letras e Linguística, Universidade Federal da Paraíba- UFPB, Professora e Pesquisadora
do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem, Universidade Católica de Pernanbuco –
PPGCL-UNICAP; E-mail: nadiaazevedo@gmail.com.

** Mestre em Ciências da Linguagem, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem,


Universidade Católica de Pernanbuco – PPGCL-UNICAP; Tutor virtual, Curso de Licenciatura em Letras
na modalidade a distância da Universidade Federal Rural de Pernambuco - Universidade Aberta do Brasil
(EAD/UFRPE/UAB). E-mail: claudemirsilva711@gmail.com.

*** Doutoranda do Curso de Ciências da Linguagem da UNICAP (Universidade Católica de


Pernambuco), bolsista CAPES/PROSUP. E-mail: erikacostalinguagem@gmail.com

**** Doutoranda do Curso de Ciências da Linguagem da UNICAP (Universidade Católica de


Pernambuco), Professora da Rede Municipal do Recife. E-mail: carmingpc@yahoo.com.br

INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V.6 , Edição número 24, de Outubro de 2016 a Abril de 2017 - p
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