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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

Trabalho Discente Efetivo – Direito Societário – Prof° Idevan César Rauen Lopes
Erica Celestino - 5°B - Manhã

Que o pensamento jurídico sofre alterações e se moderniza conforme a evolução da


sociedade como um todo, isso já é uma comprovação mais do que lógica. Com base nisso, sofremos
alterações legais e percebemos a busca por uma caracterização de afinidades em prol de objetivos
únicos, alienados a mais esforços, responsabilidades e resultados efetivos em vários entendimentos.
Mas, em se falando de trato de matérias de interpretação judicial? Como é dada e se resolve essa
relação expressa e um tanto controvertida da lei e sua aplicabilidade atual?
A presente análise tem por finalidade trazer à baila os pontos relevantes aos temas
relacionados a aspectos ainda conflitantes na atualidade e devidas regulamentações perante ao
novo Código Civil, como no caso do conceito jurídico do Affectio Societatis, da desconsideração
inversa da personalidade jurídica, além do não menos importante, tema da responsabilidade dos
sócios, gerentes e administradores de sociedades empresárias.
A primeira fonte analisada e trazida à discussão é o texto dos autores Erasmo Valladão
Azevedo e Novaes França e Marcelo Vieira Von Adamek, em que se explana o conceito affectio
societatis e as peculiaridades de sua projeção no tempo e aplicabilidade levada em conta hoje em
âmbito jurídico.
O apanhado realizado pelos autores dissocia essa fonte de como sendo satisfatória para a
dissolução de uma sociedade, seja qualquer a forma societária que obedeça. Justifica-se o ponto por
meio de críticas trazidas, como “conceituação equívoca do termo; distinção de exigência de
consentimento existente para a celebração de qualquer contrato e como não sendo elemento
constitutivo desse; não configuração de elemento que, em caso de seu desaparecimento ao longo da
execução do contrato, possa determinar sua automática extinção; além de que a affectio societatis
“não é baliza ou elemento de determinação da extensão dos deveres dos sócios.”.
Fato trazido este, o que se pressupõe inicialmente pelas anotações dos autores e doutrinas,
é que a affectio societatis se presume como o “elemento subjetivo que constitui as relações
empresariais”, conforme suas afinidades, vontades e características em comum, na finalidade de
juntar esforços para um objetivo único.
O que se discute é até onde que tal elemento teve e ainda têm aplicação conforme
realmente alcança tal perspectiva. Diz-se que há um desvio no que envolve tal prisma, não sendo o
que define a extensão de responsabilidades e deveres dos sócios, por exemplo, ou que, o
rompimento ou a quebra da affectio societatis já seria razão suficiente para que houvesse a
dissolução da sociedade, mesmo que parcial.
Prova disso, é como a jurisprudência majoritária entendia esse sentido de dissolução e se
manifestava1:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE DISSOLUÇÃO PARCIAL DE SOCIEDADE. CONFIGURAÇÃO DA
PERDA DA AFFECTIO SOCIETATIS. DESNECESSIDADE DE APURAÇÃO DE FALTA GRAVE PARA
EXLUSÃO DE SÓCIO. APURAÇÃO DE HAVERES. LIQUIDAÇÃO QUE DEVE SER FEITA POR
ARBITRAMENTO NOS TERMOS DO ART. 475-C, DO CPC. (...) O dissenso grave e o
consequente desaparecimento da affectio societatis entre sócios de uma sociedade
comercial, autoriza a sua dissolução parcial, com a retirada de um deles. A caracterização da
quebra da affectio societatis induz à dissolução parcial da sociedade, sendo desnecessária a
apuração de falta grave para tal fim". (TJSC. Apelação Cível nº 679015. Relator:
Desembargador Cláudio Valdyr Helfenstein, Terceira Câmara de Direito Comercial,
Julgamento: 12-5-10).

1Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/diarios/106002534/djma-10-12-2015-pg-454 Acesso


em: 20.09.2019
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Erica Celestino - 5°B - Manhã

Conforme a disposição de Tokars 2, a affectio societatis é elemento subjetivo das relações


societárias não sendo requisito legal (art. 981 do CC/02) para constituição da sociedade, pelo que,
ainda que os sócios entrem em controvérsia e desentendimentos entre si, a viabilidade e a
manutenção da atividade empresarial deve ser priorizada. Ou seja, plenamente possível que se
imponha a modificação da estrutura societária que outrora existia, com a adoção de medidas legais
que possibilitem a manutenção da empresa, como por exemplo, a indicação de um administrador
estranho ao quadro societário.
Conforme a avaliação dos autores e os vários motivos que o texto justifica, é de possível
compreensão que, por mais que ainda haja discussão a respeito de tal elementar, é uníssono expor
que toda e qualquer sociedade visa em si, a finalidade comum, partindo deste, um plano funcional,
com deveres e direitos dos sócios (desdobramento entre a lealdade e dever de colaboração), além,
ainda da adequação em regime de providências legais, não se encaixando aqui a affectio societatis
como “ânimo” das partes contratantes, e sim, dizendo respeito ao fim comum daquela formação.
Hoje, estão surgindo novas decisões sobre tais projeções, em que existe uma execução
diferente da vista anteriormente, restando uma comprovação robusta por meio das partes para a
dissolução da sociedade, exclusão ou retirada de sócio participante 3:

CIVIL E COMERCIAL. RECURSO ESPECIAL. DISSOLUÇÃO PARCIAL DE SOCIEDADE. EXCLUSÃO


DE SÓCIO. QUEBRA DA AFFECTIO SOCIETATIS. INSUFICIÊNCIA. (...) 5. Para exclusão judicial
de sócio, não basta a alegação de quebra da affectio societatis, mas a demonstração de
justa causa, ou seja, dos motivos que ocasionaram essa quebra. STJ –REsp 1.129.222-PR, 3ª
Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 28/06/2011.

Em conexão à tais afirmativas supracitadas, ainda é possível trazer à discussão a matéria de


desconsideração inversa da personalidade jurídica, que, conforme a leitura crítica dos autores
Michele Karim Bou Karim e Rafael Magnotti Miyaoka, temos demonstrado pelas exposições
( análises jurisprudenciais feitas e outros contextos trazidos ao leitor), como a aplicabilidade de tal
instituto vem reflexionando no meio jurídico empresarial e sua forma prática.
Fábio Ulhôa Coelho4 define da seguinte forma: “desconsideração inversa é o afastamento
do princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica para responsabilizar a sociedade por
obrigação do sócio”.
É sabido que não existe norma vigente tratando expressamente do tema, como se disse,
jurisprudência e doutrina já admitem tal espécie de "desconsideração" em situações excepcionais 5:

A 3ª Turma do STJ, no REsp 948.117-MS, julgado em 22.06.2010, por meio da Ministra


Nancy Andrighi ponderou: considerando-se que a finalidade da disregard doctrine é
combater a utilização indevida do ente societário por seus sócios, o que pode ocorrer
também nos casos em que o sócio controlador esvazia o seu patrimônio pessoal e o
integraliza na pessoa jurídica, conclui-se, de uma interpretação teleológica do art. 50 do
CC/02, ser possível a desconsideração inversa da personalidade jurídica, de modo a atingir
bens da sociedade em razão de dívidas contraídas pelo sócio controlador, conquanto
preenchidos os requisitos previstos na norma.

2 TOKARS, Fábio. Sociedades limitadas. São Paulo: LTR, 2007.


3STJ – REsp. 61.321/SP – 3ª Turma – Min. Waldemar Zveiter – j. em 13.02.2001 – DJ 02.04.2001, p. 284
4 COELHO, Fábio Ulhoa, 1959 – Curso de direito comercial, volume 2 / Fábio Ulhoa Coelho. – 8. Ed. – São Paulo:
Saraiva, 2005. MARTINS.
5https://www.migalhas.com.br/Civilizalhas/94,MI178414,21048-
A+desconsideracao+inversa+da+personalidade+juridica Acesso em 20.09.19
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Trabalho Discente Efetivo – Direito Societário – Prof° Idevan César Rauen Lopes
Erica Celestino - 5°B - Manhã

Quando se falou na separação da pessoa jurídica da física, acabou-se estabelecido não só a


questão de patrimônios e responsabilidades, mas também, e talvez, mais importante, uma maneira
de indevida utilização da pessoa jurídica, configurando como forma de fraude contra terceiros.
Rubens Requião6 afirma no seu exposto: “Ora, diante do abuso de direito e da fraude no
uso da personalidade jurídica, o juiz brasileiro tem o direito de indagar, em seu livre convencimento,
se há de consagrar a fraude ou o abuso de direito, ou se deva desprezar a personalidade jurídica,
para, penetrando em seu âmago, alcançar as pessoas e bens que dentro dela se escondem para fins
ilícitos ou abusivos”.
Dessa maneira, assim como os autores citados inicialmente trazem ao leitor, essa separação
de sociedade/sócio é demasiada relativizada no pressuposto uso da mesma pelo sócio para certa
simulação, abuso e prática de fraude.
Diante dessa análise, é possível concluir que esse sentido de desconsideração inversa
depois de introduzido e aplicado no Brasil pelos tribunais, incorpora uma ampliação na incidência da
inibição de uso disfuncional da tal personalidade. De um lado temos uma “vulgarização” dessa
cadeia, por outro, como Karim e Miyaoka aduzem, a jurisprudência passou a demonstrar um
“processo de endurecimento”, dispondo certo rigor na apreciação de mérito apresentados. Assim,
existe um estímulo à criação de novas empresas, mas também, determinada preservação da pessoa
jurídica e manutenção do fim social que inicialmente seria “fadado ao insucesso” se permitida de
forma descriteriosa.
Correlacionado ao texto apresentado, ainda contamos com a colaboração dos autores
coordenadores Márcia Carla Pereira Ribeiro e Oksandro Gonçalves, para a Revista de Direito
Empresarial, em que há grande explanação já na introdução a respeito das organizações societárias
regulamentadas pelo Código Civil e a responsabilidade de seus administradores, sejam sócios, sejam
os antigos chamados “gerentes”.
Ribeiro e Gonçalves também debatem acerca da desconsideração da personalidade jurídica
e o desvio da finalidade da empresa, trazendo à tona os problemas enfrentados diante do
posicionamento da discordância de ter ou não o administrador a responsabilidade pessoal dentre os
empresários.
Conforme versam os autores Marlon Tomazette e André Luiz Santa Cruz Ramos 7, a
utilização da desconsideração da personalidade jurídica não destrói a pessoa jurídica. Não há
dissolução da personalidade jurídica. A desconsideração é aplicada apenas em relação a uma
situação concreta, não estendendo seus efeitos para as demais relações jurídicas das quais a pessoa
jurídica faça parte.
Diante de tais pressuposto citados anteriormente, podemos entender um total dinamismo
de aplicabilidade em todos os institutos assim citados, de forma que, há um certo tratamento
anterior pela jurisprudência acerca das discussões relacionadas aos temas, para depois ter um
“enfrentamento” pela doutrina. Para, desta maneira, não haver desde o início uma forma taxativa
de certos entendimentos pelos aplicadores em geral.
Em suma, tudo gira em torno de tal termo: aplicabilidade. No sentido das discussões sobre
os desdobramentos da personalidade jurídica e delimitações de sua desconsideração, a ação é de
ponderação, uma vez que, pendendo mais para um lado ou para outro, há risco de “amortização” de
criação de novas sociedades e automaticamente, diminuição do fim social de mercado ou, por outro,
o uso devido da distribuição do entendimento da personalidade jurídica e sua desconsideração e/ou

6 REQUIÃO, Rubens. Abuso de direito e fraude através da personalidade jurídica. Revista dos Tribunais, São
Paulo, v. 58, nº 410, p. 12-24, dez. 1969
7 TOMAZETTE, Marlon. Curso de Direito Empresarial: Teoria Geral e Direito Societário. Volume 1. São Paulo:
Altas, 2012. Página 230, RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Direito Empresarial Esquematizado. Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: Método, 2010. in https://www.conjur.com.br/2018-mar-20/opiniao-evolucao-
desconsideracao-personalidade-juridica Acesso em 20.09.2019
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ
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inversão, a fim de que se preserve de forma honesta as ações de competência daqueles


administradores e sócios.
Percebe-se um sistema de aperfeiçoamento e evolução desses institutos, observando a
legitimidade da função social, preservando-a, protegendo-a de forma constitucional.