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A MOD A E AS CIÊN CIAS HUM ANA S

ImidJ~ v. 3
~JfrVL_L~
A moda consiste em imita r o que de início se mos-
trou inimitável. Esse mecanismo, paradoxal à prim eira
vista, é de grand e interesse para a sociologia, uma vez
que esta se volta princ ipalm ente para as sociedades mo-
dernas, tecnológicas, industriais, e a moda é um fenô-
meno historicamente peculiar a essas sociedades. É pre-
ciso salientar que existem povos e sociedades sem moda ,
como por exemplo a antig a sociedade chinesa, em que
o vestuário era estrit amen te codificado,. de um modo
quase imutável. A ausência de moda corre spon dia ao
imob ilism o total da sociedade.
Em relação às civilizações sem escrita, a moda pro-
'[ põe um probl ema muit o interessante, se bem que pou-
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co estudado. Esse problema refere-se à sociologia dos que escapa à sistemática, à regularidade; mito da profu-
contatos interculturais: em países como os da jovem são criativa, espontânea, sem dúvida bem romântico. Por
África, o vestuário tradicional de tipo indígena, vestuá- acaso não se diz que os costureiros fazem tudo com nada?
rio imóvel, alheio à moda, choca-se com o fenômeno Alguns historiadores ou, mais exatamente, etnólo-
da moda, vindo do Ocidente. Daí resultam concilia- gos preocuparam-se com esse aspecto criativo da moda.
ções, sobretudo no vestuário feminino. Os grandes pa- Kroeber, etnólogo americano bem conhecido, fez um
drões, os grandes modelos, as grandes formas do ves- estudo rico e aprofundad o do vestuário feminino para
tuário indígena freqüentemente são mantidos, seja na a noite, no Ocidente, nos últimos três sécufos mais ou
silhueta e na forma do vestuário, seja nos tipos de cor e meno?, a partir de reproduções de gravuras. Ele unifi-
de estampa, mas submetidos a ritmos de moda ociden- cou as dimensões dessas ilustrações, que na origem
tais, ou seja, à difusão anual da moda e à renovação dos eram muito diversas, e pôde assim estudar as constan-
detalhes. O interesse desse fato consiste no encontro de tes dos traços de moda, estudo que não é intuitivo nem
• •
uma civilização indumentária que não se baseava na aproximativo, mas preciso, matematlco e estatlstiCo.
• I • I •

moda com o fenômeno da moda. Parece possível con- Reduziu o vestuário feminino a certo número de tra-
cluir que a moda não está ligada a esta ou àquela forma ços: comprimen to e largura da saia, largura e profun-
particular de vestuário, mas que é unicamente um pro- didade do decote, altura da cintura76 • Mostrou de modo
blema de ritmo, um problema de cadência no tempo. seguro que a moda é um fenômeno profundame nte re-
gular, que não se situa no nível das variações anuais,
*** mas em escala histórica. Na prática, há 300 anos, o tra-
Para os historiadores, a moda representa um pro-
je feminino vem sendo submetido de maneira precisa
blema mais agudo e paradoxal que para os sociólogos.
a uma oscilação periódica: as formas atingem os termos
A opinião pública, mantida e favorecida pela impren-
extremos de suas variações a cada 50 anos. Se, em dado
sa, pelos cronistas de moda etc., imagina a moda como
momento, as saias estão no seu ponto mais longo, 50
um fenômeno essencialmente caprichoso, decorrente
anos depois estarão no mais curto; assim, as saias vol-
da faculdade de invenção do costureiro. Para essa opinião,
a moda ainda se situa numa mitologia da criação livre, 76. Três séculos de moda feminina, Kroeber e Richardson.

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tarão a ser longas 50 anos depois de terem sido curtas tem como origem a indumentária quaker (paletó abo-
e 100 anos depois de terem sido longas. toado, estrito, de cores neutras). o segundo fator é de
Ktoeber também demonstrou concomitânciaJ re- ordem ideológica. A democratização da sociedade en-
gulares, por ~xemplo entre a variação do compriment o sejou a promoção dos valores do trabalho em detrimen-
da saia e da largura do d~cote, pois certos traços estão to do ócio, e desenvolveu nos homens uma ideologia
interligados no ritmo da moda. do auto-respeito, de origem inglesa. Na anglomania do
O historiador está aí diante de um problema apai- fim do século XVIII, o autocontrole encarnou-se na
xonante, o de um sistema cultural particular que pare- França nesse vestuário masculino de arquétipo austero,
ce escapar ao determinismo da história. Assim, em 300 convencional, fechado. Essa indumentár ia fazia desa-
anos o Ocidente conheceu muitas mudanças de regi- parecer as diferenças de classes.
me, muitas evoluções, transformações ideológicas, afe- Antes, as sociedades tinham um vestuário absolu-
tivas, religiosas etc.; ora, nenhum desses acontecimen- tamente codificado, muito diferente conforme se per-
tos históricos importantes teve efeitos sobre os conteú- tencesse à aristocracia, à burguesia, ou ao mundo cam-
dos ou mesmo sobre os ritmos da moda. A Revolução ponês. A multiplicidade dos trajes masculinos desapare-
Francesa não subverteu de fato esse ritmo. Ninguém ceu em favor de um único vestuário, fator de democra-
no mundo pode estabelecer razoavelmente a mínima tização. Mas, assim como a supressão das classes sociais
relação entre a cintura alta e o Consulado; no máximo, no início do século XIX foi ilusória (pois essas classes
os grandes acontecimentos históricos podem acelerar ou continuaram existindo), também os homens pertencen-
retardar os retornos absolutamente regulares da moda. tes às classes superiores foram obrigados, para distin-
*** guir-se da massa, a variar os detalhes de suas vestes, já
O vestuário masculino tem uma história um pou- que não podiam mudar a forma. Elaboraram a noção
co diferente da história do vestuário feminino. O ves- nova, noção nada democrática, que se chama distinção
tuário masculino atual, de tipo ocidental, constituiu-se - a palavra é felizmente ambígua. O objetivo era dis-
em sua forma geral (basic pattern) no início do século tinguir-se socialmente; e quem se distinguia social-
XIX sob influência de dois fatores. O primeiro é um mente era "distinto". Donde o dandismo: escolha ex-
fator formal vindo da Inglaterra: o vestuário masculino tremamente refinada dos detalhes. Um homem do sé-

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culo XIX, não poden do mais modificar a forma de suas
pode ser concebido como linear e único, porqu e a his-
vestes, distinguia-se do comu m pela maneira de atar a
tória é feita de vários tempo s de duração diferente que
gravata ou de usar as luvas ...
se superpõem. Há acont ecime ntos absol utame nte pon-
A partir daí, o vestuário masculino não passou por
tuais; há situações que duram mais tçmpo , chamadas
verdadeiras mutações. Mas delineia-se um fenômeno
conjunturas; há enfim estruturas que duram um temp o
novo atualmente: a constituição de uma verdadeira mo-
mais longo ainda.
da dos jovens. Antigamente, o jovem e mesmo a criança
O vestuário passa por esses três tempos. O temp o
não usavam trajes específicos: as crianças eram vestidas
mais longo é ocupa do pelas formas arquetípicas do ves-
como os adultos, mas em modelos reduzidos. Primeiro
tuário em dada civilização. Dura nte séculos e numa era
apareceu um traje particular para crianças, depois uma
geográfica determ inada , os home ns orienta,is usaram, e
moda para jovens. Esta se torna muito imperativa, impe-
usam ainda em parte, uma túnica; no Japão, usam qui-
rialista até. Tanto que hoje em dia é preciso estudar a mono , no México, ponch o etc. É o basic pattern, mo-
moda masculina no nível da moda adolescente. delo básico de uma civilização. No interi or aesse perío-
Nesse campo, existem fenômenos de microssocio- do ocorrem variações médias, mas perfe itame nte regu-
logia, micromodas; estas muda m aproximadamente a lares77. O terceiro tempo , em suma , poder ia chamar-se
cada dois anos. Houve o blue Jean, a jaqueta preta, aja- tempo das micromodas. Ele se manifesta sobre tudo em
queta de couro; agora, há a moda dos roqueiros: pale- nossa civilização ocici.ental atual, em que a moda muda
tó muito cinturado, à maneira de Alfred de Musset, ca- em princípio todos os anos. Na realidade, essas varia-
belos muito compridos ... Essa moda masculina só é ob- ções anuais ocupa m muito mais a impre nsa e o comér-
servável entre os jovens, os adolescentes. cio do que afetam o mode lo geral. Estamos sujeitos a
uma espécie de ilusão de óptica que nos faz atribu ir
***
O vestuário - não estou falando da moda - passa grande impo rtânc ia à variação anual das formas, quan-
por três durações, três ritmos, três histórias. do na verdade, do ponto de vista histórico, essas varia-
Uma das descobertas da ciência histórica conte m- ções são absorvidas em grandes ritmo s regulares.
porânea foi a constatação de que o tempo histórico não
77. Variações observadas por Kroeber e Richardson.

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O probl'7ma seria se, algum dia, o ritmo bissecular do conteúdo de uma moda, ou seja, a imitação de deter-
perfeitamente regular da moda se modificasse. O vesti- minada forma ou de dado detalhe que já existem, como
do, normal mente, deveria atingir em 1O ou 20 anos a o cabelo de um ator ou de uma atriz, a maneira de usar
um vestido. Dessa questão das origens decorre a noção
fase de extrema curteza, passando por aparentes retor-
de domínio da moda, mas esse assunto complicadíssimo
nos ao maior compri mento, para depois recomeçar um
é secundário e não interessa diretamente à sociologia.
ciclo em que se encompridasse, com retornos aparen-
Certas pessoas atribuem aos sociólogos a afirmação
tes ao encurtamento. Pode-se imaginar que esse ritmo
de que a moda de cabelos longos para rapazes foi lan-
seja perturbado, e que as saias continu em curtas. Será
çada pelos Beatles; é verdade, mas seria falso criar uma
interessante fazer um estudo desse fenômeno e relacio-
caracterologia do jovem moderno a partir daí e induzir
nar essa perturbação do grande ritmo da moda com al-
traços de caráter como feminização e preguiça, a partir
guma coisa que esteja na história da civilização atual. ..
dos cabelos compridos. Se os cabelos se tornaram lon-
Se o ritmo de Kroeber for perturbado, a causa será,
gos, foi porque antes eram curtos. Resumo assim, de
talvez, um fenômeno de massificação e de globalização
modo um tanto brusco, o meu pensamento porque sou
da cultura, do vestuário, da alimentação, uma espécie
partidário de uma interpretação formalista do fenôme-
de igualamento dos objetos culturais, de mescla tão in-
no de moda. Há um pouco de engodo em preencher
tensa, que o ritmo da moda mudaria. Uma nova histó-
um fato com conteúdos que parecem naturais, mas
ria da moda começará. não o são na realidade. As pessoas que escrevem sobre
*** o tema do vestuário são sempre tentadas por essas cor-
As mudanças de ritmo não dependem de ninguém. relações psicológicas. Fazer variações sobre a feminiza-
A expressão "estamos recebendo uma moda dos Esta- ção do vestuário parece-me ilusório. Não há traço na-
dos Unidos" é muito ambígua, porque verdadeira e fal- turalmente feminino no vestuário; só existem rotações,
sa ao mesmo tempo. A mudança, que se supõe ocorrer rodízios regulares de formas.
pela inrrodução de uma moda, não tem origem; ela está O que está em causa no vestuário é certa significa-
na lei formal que rege o espírito humano e as rotações das ção do corpo, da pessoa. Hegel já dizia que o vestuário
formas no mundo. Outrossim, é possível situar as origens tornava o corpo significante e que, por conseguinte,

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permitia passar do simples sensível à significação. Os presente o que os outros escolheram em lugar dele: a so-
psicanalistas também se preocuparam com o sentido do ciedade fez de Genet um ladrão, e por isso Genet se es-
traje. Flügel fez a análise do vestuário 78 , mostrando, a colheu ladrão. O vestuário está muito próximo desse
partir de pressupostos freudianos, que para o homem o
fenômeno; parece que despertou o interesse dos escri-
traje funciona como uma espécie de neurose, pois ao
tores e dos filósofos em sua relação com a personalida-
mesmo tempo esconde e exibe o corpo, exatamente
de, na qualidade de intercâmbio de constituição; a per-
como a neurose mascara e revela o que a pessoa não quer
sonalidade faz a moda; faz o vestuário; mas, ao inver-
dizer, elaborando sintomas e símbolos. A roupa seria,
so, o vestuário faz a personalidade. Há certamente uma
de algum modo, análoga ao fenômeno que revela nos-
dialética entre esses dois elementos. A resposta profun-
sos sentimentos quando enrubescemos por pudor; nos-
da depende da filosofia praticada por cada um.
so rosto enrubesce, e nós escondemos nosso constran-
gimento no exato momento em que o exibimos. ***
O vestuário concerne a toda a pessoa humana, a No século XVIII, foram escritos numerosos livros
todo o corpo humano, a todas as relaÇões entre o ho- sobre o vestuário. Eram obras descritivas, mas explícita
mem e seu corpo, assim como às relações do corpo com e conscientemente baseadas na codificaç(io da indumen-
a sociedade; isso explica por que os grandes escritores tária,1ou seja, na relação entre certos tipos de traje e cer-
tantas vezes se preocuparam com ( traje em suas obras. tos ofícios, certas classes sociais, certas cidades, certas
Encontramos belíssimas páginas sobre esse assunto em regiões. O vestuário era percebido como uma espécie de
Balzac, Baudelaire, Edgar A. Poe, Michelet, Proust; es- língua, de gramática: o código do vestuário. Assim se
tes pressentiam que o vestuário é um elemento que, de constata que o vestuário participa da atividade muito
algum modo, compromete todo o corpo. viva que consiste em dar sentido aos objetos. Em todos
Do ponto de vista filosófico, Sartre trata dessa ques- os tempos, o vestuário foi objeto de codificação.
tão quando mostra que o vestuário possibilita que o Isso leva a revisar um ponto de vist'a tradicional, à
homem "assuma sua liberdade", se constitua no que es- primeira vista dotado de bom senso, segundo o qual o
colheu ser, mesmo que aquilo que ele escolheu ser re- homem inventou o vestuário por três motivos: prote-
ção contra as intempéries, pudor (para ocultar a nudez),
78. Flügel, Psychology ofClothes. adorno (para se fazer notar). Isso é válido. Mas é preci-

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so acrescentar outra função que me parece mais impor-


tante: a função de significação. O homem vestiu-se para O DUELO CHANEL- COURREG ES
exercer sua atividade significante. O uso de um vestuá-
rio é fundamentalmente um ato de significação, além
dos motivos de pudor, adorno e proteção. É um ato de
significação, logo um ato profundam ente social, aloja-
do no próprio cerne da dialética das sociedades.
ÉCHANGES

Revista publicada por Les Soeurs Auxiliatrices


Assomption 1966, "Regard chrétien sur le monde d'aujourd'hui"
Transcrição de um col6quio

Quem abrir hoje uma história de nossa literatura


deveria encontrar o nome de uma nova autora clássica:
Coco Chanel. Chanel não escreve com papel e tinta (a
não ser nas horas vagas), mas com pano, formas e co-
res, o que não impede que lhe atribuam a autoridade e
o prestígio de um escritor do século XVIII: elegante
como Racine, jansenista como Pascal (que ela cita), fi-
losófica como La Rochefoucauld (que ela imita, dei-
tando máximas), sensível como Mme. de Sévigné, con-
testadora, enfim, como a Grande Mademoiselle 79 , de quem
ela reúne cognome e função (ver suas recentes declara-

79. Trata-se de Anna Marie Louise d'Orléans, duquesa de Monpensier, que participou da
Fronda. (N. da T.)

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ções de guerra aos costureiros). Chanel, segundo dizem, talvez mais profundo que a moda, ou pelo menos algo
retém a moda à beira da barbárie e a cumula de todos que a moda só serve para trazer à tona. O quê?
os valores de ordem clássica: razão, naturalidade, per- As criações de Chanel contestam a própria idéia de
manência, prazer de agradar, não de surpreender; gos- moda. A moda (como concebemos hoje) baseia-se num
tam muito de Chanel no Figaro, onde, com Cocteau, sentimento violento do tempo. A cada ano, a moda
ela ocupa as margens da boa cultura mundana. destrói o que acaba de adorar, adora o que acaba de
O que pode ser considerado o extremo oposto do destruir; a moda vencida do ano passado poderia diri-
classicismo, senão o futurismo? Courreges, segundo gir à moda vitoriosa do ano corrente estas palavras ina-
dizem, veste as mulheres do ano 2000 que já são as me- mistosas dos mortos aos vivos, inscritas em alguns tú-
ninas de hoje. Numa mistura, como ocorre em toda mulos: Fui ontem o que és hoje, serds amanhã o que sou
lenda, do caráter da pessoa com o estilo das ohras, hoje. A obra de Chanel não participa -- ou participa
Courreges é gratificado com as qualidades fabulosas pouco- dessa vendetta anual. Chanel trabalha sempre
do inovador absoluto: jovem, tempestuoso, galvânico, o mesmo modelo, que ela "varià', de ano para ano,
virulento, louco por esporte (e o mais rude: rugby), como se "varià' um tema em música; sua obra diz (e ela
amante de ritmo (a apresentação de sua coleção foi mesma confirma) que há uma beleza "eterna" da mu-
feita ao som do jerk), temerário a ponto de ser contra- lher, cuja imagem única nos seria transmitida pela his-
ditório, pois inventa um traje de noite que não é um tória da arte; ela rejeita com indignação o~ materiais
vestido (mas um short); tradição, bom senso e senti- perecíveis, como papel e plástico, com que às vezes se
mento- sem o que não há bom herói na França- nele tenta fazer vestidos nos Estados Unidos. Da própria coi-
estão dominados e só reaparecem discretamente no re- sa que nega a moda, ou seja, a duração, Chanel faz uma
côndito de sua vida pessoal: ele gosta de passear à bei- qualidade preciosa.
ra do rio de sua terra natal, desenha como um artesão Ora, na estética do vestuário há um valor muito
e manda o único vestido preto de sua coleção para a particular, paradoxal até, que reúne sedução e duração:
mãe, em Pau. é o "chique"; o "chique" suporta e até exige, se não o
Tudo isso quer dizer que há em todos a impressão desgaste do vestuário, pelo menos seu uso: o "chique"
de que algo importante separa Chanel e Courreges- algo tem horror à aparência de novo (lembremos que o

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dândi Brummell nunca usava uma roupa sem antes caso por algum detalhe discreto. O estilo de Chanel
fazê-la envelhecer um pouco no corpo de seu criado). reúne, filtrando e feminilizando, essa herança históri-
O "chique", esse tempo sublimado, é o valor-chave do ca, e nisso, aliás, é paradoxalmente datado; correspon-
estilo de Chanel. Os modelos de Courreges não têm de ao momento brevíssimo de nossa história (que é o
essa obsessão: muito frescos, coloridos ou mesmo vis- da juventude de Chanel) em que uma minoria de mu-
tosos, neles predomina o branco, esse novo absoluto; lheres finalmente teve acesso ao trabalho e à indepen-
essa moda voluntariamente muito jovem, com suas re- dência social, precisando tr~nsferir para o vestuário
ferências colegiais às vezes infantis, de primeira infân- algo dos valores masculinos, a começar por essa famo-
sa "distinção", único luxo que resta aos homens unifor-
cia até (meias e sapatos de bebê), para a qual o inverno
mizados pelo trabalho. A mulher de Chanel não é ajo-
também é uma estação clara, é continuamente nova,
vem ociosa, mas a jovem que enfrenta um trabalho dis-
sem complexo, porque veste seres novos. De Chanel a
creto, evasivo, mulher que em seu tailleur versátil, ao
Courreges, a "gramáticà' dos tempos muda: o "chique"
mesmo tempo prático e refinado, não oferece 6 con-
inalterável de Chanel nos diz que a mulher já vivJu (e teúdo do trabalho à leitura (não é um uniforme), mas a
soube viver), o ,"novo" obstinado de Courreges que ela sua compensação, ~ma forma superior de lazer: cruzeiro,
vai viver. iate, carro-leito, enfim viagem, moderna e aristocráti-
O tempo, portanto, que é estilo para uma e moda ca, cantada por Paul Morand e Valery Larbaud. Assim,
para outro, separa Chanel e Courreges. Certa idéia do de todas as modas, o estilo de Chanel talvez seja, para-
corpo também. Não é por acaso que a invenção típica doxalmente, o mais social, pois o que ele combate, o
de Chanel, o tailleur, está bem próxima do vestuário que rejeita, não são -como se acredita- as provoca-
do homem. A indumentária masculina e o tailleur cha- ções futuristas da costura jovem, mas sim as vulgarida-
neliano têm um ideal comum: a "distinção". A "distin- des do vestuário pequeno-burguês: é portanto nas so-
ção", no século XIX, era um valor social; numa socie- ciedades que enfrentam uma necessidade nova de pro-
dade recentemente democratizada, em que se vedava aos moção estética, do tipo Moscou - aonde ela vai -, que
homens das chamadas classes superiores a ostentação Chanel pode vir a ser mais eficaz.
da riqueza- coisa sempre permitida, por procuração, Há, porém, uma contrapartida ao estilo de Chanel:
às esposas -, ela possibilitava "distinguir-se" em todo certo esquecimento do corpo, que parece inteiramente

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refugiado, absorvido na "distinção" social do vestuário.
está nesse condic ional, que põe em jogo o corpo femi-
Não é culpa de Chane l, porqu e, depois que ela come-
nino: condic ional que encon tramo s nos casacos curtís-
çou, surgiu algo novo em nossa sociedade, que os no-
simos (que não desnu dam nada, mas imprim em em
vos costureiros tentam traduzir, codificar: nasceu uma
nós a idéia de uma audácia), na transp arênci a florida
nova classe que não fora prevista pelos sociólogos - a
da bermu da para a noite, nos novos vestidos de baile
juventude. Como o corpo é seu único bem, a juvent u-
de não há de ser vulgar ou "distinta'': ela simple smen- em duas peças, leves como roupas de baixo, nessa
te é. Vejam a mulhe r Chane l: é possível situar seu am- moda sem "laços" (em sentid o própri o e figurado), em
biente, suas ocupações, seus lazeres, suas viagens; vejam que o corpo parece sempr e próxim o, familiar e seduto r,
a mulhe r Courreges: ningu ém pergu nta o que ela faz, fácil e hones to.
quem são seus pais, qual é sua renda; ela é jovem, ne- Assim, de um lado a tradiçã o (com suas renovações
cessária e suficientemente jovem. Ao mesm o tc:mpu interiores) e de outro a inovação (com suas consta ntes
abstrata e material, a moda de Courre ges parece ter as- implícitas); de um lado o classicismo (~inda que sensí-
sumid o uma única função: fazer do vestuário um sig- vel), de outro o moder nismo (ainda que. familiar). Que-
no muito claro de todo o corpo. Signo não é oi;Higato- ro crer que nossa sociedade precisa desse duelo, pois se
riamente exposição (a moda é sempre casta); talvez se empen ha - pelo menos há alguns séculos - em instau -
diga com demasiada freqüência que a saia curta "mos- rá-lo em todos os domín ios da arte e com formas infi-
tra'' os joelhos. As coisas talvez sejam mais compl ica- nitam ente variadas; e se hoje ele explode na moda, com
das. O que deve impor tar a um costureiro como Cour- uma nitidez excepcional, é porqu e a moda també m é
reges não é esse strip tease material com que todos se in- uma arte, tanto quanto a literatura, a pintur a, a música.
dignam , mas sim conferir a todo o vestuário femin ino Bem mais, a compe tição Chane l-Cour reges nos en-
a expressão alusiva que aproxi ma o corpo de nós, mas sina- ou nos confi rma- que hoje, graças ao formid á-
sem nunca o exibir, condu zir-no s a uma relação nova vel impul so dos meios de difusão, como a impren sa, a
com os corpos jovens que nos cercam, sugeri ndo-no s,
televisão, o própri o cinem a, moda não é só o que algu-
por todo um jogo de formas, cores e detalhes - que é
mas mulheres usam, é també m o que todas as mulhe -
justam ente a arte do costureiro -, que poderí amos tra-
res (e todos os homen s) olham e lêem: as invenções de
var relações de amizade com eles. Courreges inteiro
nossos costureiros agradam ou irritam, exatamente como

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um romance, um filme, um disco. Nos tailleurs de Cha-


nel e nos shorts de Courreges projeta-se tudo o que se SOBRE O "SISTEMA DA MODA"so
·..,. agita de crenças, preconceitos, sentimentos e resistên-
cias, enfim toda essa história de cada um, que denomi-
namos com uma palavra talvez simples demais: gosto.
E isso sugere, talvez, certa maneira de encarar a
competição Chanel-C ourreges (pelo menos para quem
não tenha a intenção de comprar um Chanel ou um
Courreges). Ao passarem para essa grande cultura 1de
todos os dias, da qual participamos por meio de tudo
o que lemos e vemos, o estilo Chanel e a moda Cour-
reges formam uma oposição que não é tanto matéria
de escolha, é mais objeto de leitura. Chanel e Courre- Sistema da Moda apresenta-se como um ''livro de méto-
ges, esses dois nomes são como as duas rimas necessá- do" referente à semiologia. O senhor poderia nos dizer o
rias de um mesmo dístico, ou como as façanhas opos- que é semiologia?
tas de uma dupla de heróis sem os quais não há bela
história. Se mantivermos reunidos e indissociados esses · Foi Saussure que postulou pela primeira vez a exis-
dois lados de um mesmo signo - o signo de nosso tem- tência de uma ciência geral dos signos, que chamou de
po-, teremos feito da moda um objeto realmente poé- semiologia. Ele achava que a lingüística seria apenas
tico, constituíd o coletivamente para nos apresentar o uma parte dessa ciência. Esse projeto semiológico foi
espetáculo profundo de uma ambigüidade, e não o em- retomado depois graças ao desenvolvimento da lingüís-
baraço de uma escolha inútil. tica e das ciências sociais. Chegou-se à convicção de que
muitos objetos culturais com que os homens lidam
MARIE-CLAIRE constituem sistemas de comunicação, portanto de sig-
setembro de 1967

80. Systerne de la Mode, Paris, Seuil, 1967. (Trad. bras.: Sistema da moda, trad. Lineide do
Lago S. Mosca, São Paulo, Nacional/Edusp, 1979.)

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nificação. Pode-se dizer que toda a cultura, no sentido Seu estudo, ao que parece, baseia-se em certo paradoxo.
mais amplo, cai no âmbito de uma ciência das signifi- Por que, enquanto a moda põe em jogo sistemas muito va-
cações. Os objetos aparentemente mais utilitários - riados de expressão, em particular a imagem, o senhor op-
culinária, vestuário, moradia- e, com mais razão, os que tou por limitar sua pesquisa à descrição escrita dos vestuá-
têm a linguagem como suporte, como a literatura- boa rios que se encontra em revistas como Ell~ ou Le Jardin des
ou ruim -, as narrativas da imprensa, da publicidade modes? Por que isso? ,
etc., convidam a uma análise semiológica. De início eu tinha pensado em estudar o vestuário
real, que todo o mundo usa na rua. Desisti. Na verda-
É possível distinguir signos totalmente independentes da de, o vestuário de moda é complexo pelo fato de pôr
linguagem? em jogo várias "substâncias": material, fotografia, lin-
Evidentemente, podemos citar sistemas muito ele- guagem ... Ora, não há ainda nenhum trabalho de se-
mentares, como o código viário ou o código de aterris- miologia aplicada. Portanto, era preciso dar primazia aos
sagem de aviões. Mas, pessoalmente, estou convencido problemas de método. Por isso preferi ficar com o ob-
de que o estudo dos signos não-lingüísticos é uma abs- jeto mais "puro" possível para analisar,' ou seja, baseado
tração, uma utopia. A cultura real só propõe objetos numa só "substância'', estudei o vestuário da moda na
impregnados de linguagem humana, seja na forma de maneira como ele é refratado na linguagem escrita das
descrição, comentário, conversação ... A nossa é uma revistas especializadas. Só fiquei com a descrição, ou seja,
civilização do escrito, tanto quanto da imagem. A lin- com a transformação de um objeto em linguagem.
guagem escrita tem funções bem precisas de abstração, Na origem, esse trabalho representava de alguma
conhecimento, escolha dos sentidos. Viver uma civi- maneira o início de um programa geral de semiologia
lização da. imagem pura criaria certa angústia, pois a que teria abrangido todos os sistemas cu}turais de nos-
imagem sempre tem vários sentidos. É por essa razão ~ sa civilização: o vestuário, a culinária, a cidade ... Mas,
que as fotos dos jornais são sempre legendadas: para i sob o impulso das novas pesquisas, esse projeto semio-
diminuir o risco provocado pela multiplicidade de I
t
lógico evolui por si mesmo e chega, especialmente, a
sentidos. formular o problema de seus objetos: tem-se o direito
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de constituir a culinária, por, exemplo, em sistema de estudamos uma linguagem, nós nos chocamos contra
signos? Por mais limitado que seja esse livro sobre a esse obstáculo. Não há outra "prova" da linguagem a
moda, ele formula o problema de saber se existe um não ser sua legibilidade, sua compreensão imediata.
objeto que se chama vestuário de moda. Para pmvar a análise que fazemos de uma linguagem,
sempre somos obrigados a recorrer ao "sentimento lin-
Esse "Sistema da Moda" se decompõe na realidade em dois güístico" de quem fala. De todo modo, minha exterio-
sistemas. ridade em relação à linguagem que analiso é apenas pro-
visória. Minha própria descrição poder~, por sua vez,
De fato. Trata-se de detectar, numa mensagem sim-
passar a ser objeto de outro sistema de explicação mais
ples - a descrição de um vestido da moda-, a sobrepo-
amplo; e mais coerente. Acredito que a semiologia é
sição de vários sistemas de sentidos: por um lado, o que
um procedimento verdadeiro, mas mesmo essa verdade
se poderia chamar de "código indumentária", que regu-
pode tornar-se objeto de outras linguagens. Não tenho
lamenta certo número de usos, e por outro lado a retó-
um sentimento positivista em relação à semiologia, po-
rica, ou seja, o modo como a revista exprime esse códi-
rém histórico.
go, modo este que remete a certa visão do mundo, a uma
ideologia. A análise semiológica permite situar a posição
Seu estudo apresenta-se como uma espécie de sintaxe da se-
da ideologia no sistema geral do sentido, sem, claro, po-
miologia. Esforça-se por criar unidades, regras, categorias.
der ir mais longe, já que a descrição das ideologias par-
O senhor acha que esse método tem valor universal e pode
ticulares é atribuição de outra ciência.
ser aplicado a qualquer objeto?

Qu~ garantia de objetividade tem o semiólogo na andlise Esse procedimento, que, aliás, não é original e vem
que faz dessa retórica? da lingüística, provisoriamente pode ter valor universal
como método de descoberta. Consiste em separar uni-
Evidentemente, a análise da retórica obriga o pes- dades, classificá-las e examinar suas regras de combina-
quisador a apoiar-se em seu próprio sentimento de lei- ção, à maneira de um gramático. É evidente que, se o
tor, o que pode chocar os hábitos positivistas que se ba- objeto muda, o método também deve ser modificado.
seiam na experimentação. A partir do momento em que As classificações serão diferentes.

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I Inéditos I I Moda I

Qual imagem da moda o senhor extraiu de sua análise? lista. Ela mente. Esconde-se por trás de álibis sociais ou
O título de meu livro, Sistema da moda, não é uma psicológicos.
provocação. Para mim, a moda é, sim, um sistema. Con- Por outro lado, há outra visão da moda, que consis-
trariando o mito da improvisação, do capricho, da fan- te em renunciar a esse sistema de equivalência e em edi-
tasia, da criação livre, percebe-se que a moda é forte- ficar uma função propriamente abstrata ou poética. É
mente codificada. É uma combinação com uma reser- umi moda ociosa, luxuosa, mas'que tem o mérito de se
va finita de elementos e regras de transformação. O declarar como forma pura. Nesse sentido, aproxima-se
conjunto dos traços de moda é extraído todo ano de da literatura. Um exemplo apaixonante dessa junção foi
um conjunto de traços que tem suas injunções e suas re- dado por Mallarmé, que redigiu sozinho uma pequena
gras, como a gramática. São regras puramente formais. revista de moda, La Derniere Mode, ;que se apresenta
Por exemplo, "há associações de elementos de vestuário como uma verdadeira revista de moda, com descrições
que. são permitidas, outras que são vedadas. Se a moda de vestidos, tais como as que se encontram - sem levar
nos parece imprevisível, é porque nos situamos num em conta o talento- na revista Elle. Mas, ao mesmo tem-
plano de memória humana curta. A partir do momen- po, essas descrições são, para o autor, um exercício pro-
to em que ampliamos sua dimensão históri,ca, depara- fundo, quase metafísico, sobre o tema mallarmeano do
mos com uma regularidade profu.1da. nada, do bibelô, da inanidade. É um vazio que não é ab-
A segunda imagem da moda que extraí de minha surdo, um vazio construído como um sentido.
análise é mais ética, mais comprometida com minhas
próprias preocupações. Verifiquei que há duas modas. Em seu prefácio o senhor diz que sua pesquisa é }'á data-
Por um lado, a moda tenta estabelecer uma correspon- da': Como vê isso?
dência entre o vestuário descrito e usos, características, Esse estudo baseia-se em conceitos operacionais -
estações, funções: "Um vestido para a noite, para as com- "signo, significante, significado" -: que, se não foram
pras, para a primavera, para a estudante, para a garota contestados, foram pelo menos co~sideravelmente re-
descontraída ... " Nesse caso, a arbitrariedade da moda é modelados nos últimos anos por pesquisas como as de
evitada, mascarada sob esse léxico racionalista, natura- Lévi-Strauss ou de Lacàn. Esse vocabulário está sendo

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j.
I Inéditos I

um tanto questionado agora. A reflexão sobre o senti-


do enriqueceu-se e dividiu-se também. Estão surgin4o
antagonismos. Minha pesquisa, desse ponto de vista,
tem um aspeqo um tanto ingênuo. É semiologia "sel-
vagem". Mas direi em minha defesa que esses concei-
tos, algo estáticos, são aplicados justamente a um obje-
to que está mergulhado na cultura de massa, ou seja,
em certa alienação. A sociedade de massa tende sempre
a fixar-se em sentidos definidos, nomeados, separados.
É por isso que os conceitos estáticos aos quais recorro
são os que mais convêm para descrevê-la. Talvez sejam
simplistas para descrever o que ocorre na profundeza
da psique humana, mas conservam toda a sua pertinên-
cia em se tratando da análise de nossa sociedade.

LEMONDE
19 de abril de 1967
Entrevista a Frédéric Gaussen por ocasião
da publicação de Systeme de la Mode

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