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III MOSTRA NACIONAL

DE PRODUÇÃO EM
SAÚDE DA FAMÍLIA
TRABALHOS NACIONAL DE NO III CONCURSO

PREMIADOS EXPERIÊNCIAS EM
SAÚDE DA FAMÍLIA
MINISTÉRIO DA SAÚDE

III MOSTRA NACIONAL


DE PRODUÇÃO EM
SAÚDE DA FAMÍLIA
TRABALHOS NACIONAL DE NO III CONCURSO

PREMIADOS Brasília – MS
2008
EXPERIÊNCIAS EM
SAÚDE DA FAMÍLIA
MINISTÉRIO DA SAÚDE
Secretaria de Atenção à Saúde
Departamento de Atenção Básica

Série F. Comunicação e Educação em Saúde

TRABALHOS NACIONAL DE NO III CONCURSO

PREMIADOS Brasília – MS
2008
EXPERIÊNCIAS EM
SAÚDE DA FAMÍLIA
© 2008 Ministério da Saúde. Supervisão Geral:
Todos os direitos reservados. É permitida a Claunara Schilling Mendonça
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que citada à fonte e que não seja para venda ou Coordenação Geral:
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pode ser acessada, na íntegra, na Biblioteca Virtu- Cinthia Lociks de Araújo
al em Saúde do Ministério da Saúde: http://www. Estela Márcia Saraiva Campos
saude.gov.br/bvs Maria Angélica Curia Cerveira

Série F. Comunicação e Educação em Saúde Projeto Gráfico:


HMP Comunicações
Tiragem: 1.ª edição – 2008 – 8.000 exemplares
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Elaboração, distribuição e informações:
MINISTÉRIO DA SAÚDE
Secretaria de Atenção à Saúde
Departamento de Atenção Básica
Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 6.º andar,
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CEP: 70058-900, Brasília – DF
Tels.: (61) 3315-2497
Home page: http://www.saude.gov.br/dab
Ficha Catalográfica
_______________________________________________________________________________

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.


III Concurso Nacional de Experiências em Saúde da Família : trabalhos premiados / Ministério da
Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília : Ministério da
Saúde, 2008.
xx p. : il. – (Série F. Comunicação e Educação em Saúde)

1. Atenção Básica. 2. Atenção à Saúde. 3. Programa Saúde da Família. I. Título. II. Série.

CDU 613.9-055
_______________________________________________________________________________
Índice
1. Apresentação 9

2. Metodologia de Avaliação dos Trabalhos 13

3. Comissão Organizadora e Pareceristas 19

4. Anexos 21

5. Relatos de Experiências de Equipes de Saúde da Família. 23


5.1. Reorganização da demanda para atendimento
odontológico no município de Amparo – SP
5.2. Programa de recuperação nutricional para a 28
população indígena. Ourolândia – PA
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial em 37
saúde mental no município de Florianópolis – SC.
5.4. Vigilância de recém-nascidos de risco. Piracicaba – SP 49
5.5. Resultados alcançados na organização da atenção 58
em saúde bucal em Belo Horizonte – MG
5.6. Ensinando através de atividades lúdicas: teatro - uma 67
opção de educação em saúde. Canoas – RS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica: 75
uma dança de pares
5.8. Educação em Saúde na ESF. Botucatu – SP. 88

6. Relatos de Experiências de Agentes 93


Comunitários de Saúde.
6.1. O ACS como agente motivador da
participação comunitária. Vacaria – RS.
6.2. ACS: Agente Ator Comunitário de Saúde. Um exemplo 96
de Educação Permanente em Saúde. João Pessoa – PB.
6.3. Reciclar com saúde. Campinas – SP 103
6.4. Violência contra a Mulher. Porto Alegre – RS. 106
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno na 108
comunidade de Vila Vintém - Rio de Janeiro – RJ.
Índice 6.6.

O Agente Comunitário de Saúde contra o câncer de colo
de útero. Nossa Senhora do Socorro – SE.
116

6.7. A utilização de garrafas PET para produção de berços 118


e filtros para a comunidade. Petrópolis – RJ.
6.8. Uma ação simples faz uma grande diferença. 120
Curitiba – PR.
6.9. Projeto grupo fazendo saúde com alegria. 123
Brasília – DF.

7. Estudos e Pesquisas em Atenção Básica / Saúde da Família. 127


7.1. PSF: Determinantes e Efeitos de sua
Implantação no Brasil. ISC/UFBA – BA
7.2. Atenção Domiciliar a Idosos no Sul e 140
Nordeste do Brasil. UFPel – RS
7.3. Necessidades de saúde e organização do trabalho 147
do ACS em região metropolitana. USP – SP.
7.4. Observatório de Causas Externas na Atenção 159
Básica em Saúde - Porto Alegre. UFRS – RS.
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor infantil 171
na ESF. Universidade Católica de Salvador – BA.
7.6. Análise do atendimento à vítimas de violência 183
domiciliar. Universidade Católica do Cariri – CE.
7.7. Ensino e assistência abordagem interdisciplinar de famílias 195
de crianças hospitalizadas. Grupo Hospitalar Conceição – RS.
7.8. Construção de Linhas Cuidado: dando 201
voz ao usuário. SMS de João Neiva – ES.
1. Apresentação
H á muitas razões para festejar os 20 anos de
implantação do Sistema Único de Saúde
(SUS) e os 15 anos da Estratégia Saúde da Famí-
um desafio a parte para o
processo de implantação das
políticas sociais. O Brasil é
lia, tanto pelos resultados alcançados como no uma federação de dimensões
reconhecimento do mérito dos atores envolvidos continentais, importantes
na sua construção. diversidades regionais e pro-
A percepção da saúde como dever do Estado e fundas desigualdades sociais,
direito do cidadão constituiu um marco no pro- cenário que torna ainda mais
cesso de conformação do sistema de proteção complexa a operacionalização
social brasileiro. Entre as políticas sociais, o SUS de ações por três entes fede-
se destaca pelo pioneirismo na descentralização rados com responsabilidades
e democratização da gestão pública e na promo- concorrentes. Reconhecer
ção da consciência de cidadania da população. esses aspectos nos ajuda a
A ousadia desse projeto, baseado nos princípios relativizar as naturais dificul-
da universalidade, integralidade e eqüidade, dades de implantação de um
diferencia-o no cenário das experiências de projeto com tal escopo e nos
reforma do setor saúde dos países em desenvol- faz lembrar que o SUS cons-
vimento. titui um processo ainda em
Em um país de mais de 188 milhões de habi- construção.
tantes, em que mais de 70% da população de- Em setembro deste ano com-
pende exclusivamente do SUS, a universalidade pleta-se 30 anos a Declaração
e integralidade no acesso aos serviços de saúde de Alma-Ata, documento que
se traduzem em números impressionantes: em definiu internacionalmente as
2006 foram realizados mais de 2 bilhões de diretrizes da atenção primária
procedimentos ambulatoriais, 300 milhões de à saúde, conclamando todos
consultas médicas, 11 milhões de internações os governos a formular estraté-
hospitalares, mais de 2 milhões de partos, 11 mil gias que garantissem o acesso
transplantes, mais de 200 mil cirurgias cardíacas, a cuidados básicos de saúde
9 milhões de procedimentos de quimio e radio- como o primeiro elemento de
terapia, entre outros. um processo continuado de
Em termos de qualidade e impacto o desempenho atenção. Como outros 133
do SUS também tem merecido reconhecimento países, o Brasil assumiu a meta
internacional por meio de programas como o de de garantir “saúde para todos
imunização, DST/AIDS, controle do tabagismo e até o ano 2000” e a decisão
da estratégia Saúde da Família. política do governo brasileiro
O mérito dessas conquistas torna-se ainda maior de expandir a cobertura das
quando se lembra que as características geográ-
ficas, sociais e políticas de nosso país, constituem
ações básicas de saúde por
meio da estratégia Saúde da 11
1. Apresentação
Família expressa a seriedade básica no contexto do SUS, apresentando maior
com que esse compromisso foi potencial de impacto sobre a efetividade da
assumido três décadas atrás. atenção em saúde e sobre a qualidade de vida
Com a expansão da estratégia da população brasileira.
Saúde da Família, a Aten- Passados 15 anos, têm-se muitos avanços a
ção Básica tem buscado se comemorar e desafios a ser enfrentados, tanto
estabelecer como o contato no que diz respeito à ampliação do acesso de
preferencial dos usuários com milhões de brasileiros aos serviços, bem como
o sistema de saúde, o ponto pelos resultados das ações de suas equipes sobre
de partida para a estruturação a saúde da população brasileira.
das redes de atenção dos sis- Para uma estratégia que ainda se encontra em
temas locais de saúde. Nessa processo de implantação e expansão, é indubi-
trajetória, a Saúde da Família tável o sucesso de uma cobertura que já alcança
(SF), incentivada pelo Minis- quase metade da população, estando presente
tério da Saúde desde 1994, em mais de 90% dos municípios.
configura o modelo definido Também é evidente o impacto dessa política em
para conversão e expansão da termos de promoção da eqüidade, tendo em
Atenção Básica. A atuação das vista que sua expansão foi maior nos municípios
equipes de Saúde da Família de menor Índice de Desenvolvimento Humano
(SF), Saúde Bucal (SB) e dos (IDH), onde também foram observados os resul-
Agentes Comunitários de tados mais significativos sobre a saúde da popu-
Saúde (ACS) compreende um lação, como a redução da mortalidade infantil,
conjunto de ações de caráter das complicações decorrentes da hipertensão e
individual e coletivo, que en- diabetes e de gestantes sem acesso ao pré-natal
globam a promoção, preven- (Brasil, 2006). Há evidências de que um aumento
ção, tratamento e reabilitação, de 10% na cobertura da SF possa levar a um
e buscam concretizar os prin- decréscimo de 4,5% na mortalidade infantil
cípios do SUS (integralidade, (Macinko, 2006). Análises comparativas entre
universalidade e participação os diferentes modelos de atenção também tem
social), bem como os princípios apontado um desempenho melhor das equipes
da Atenção Primária em Saúde da SF em relação às equipes de abordagem tradi-
(APS) - adstrição de clientela, cional em diferentes aspectos (Elias, 2006; Viana,
acessibilidade, coordenação 2006; Facchini, 2006). Esses e outros resultados
da atenção, continuidade do têm promovido a consolidação da Saúde da Fa-
cuidado, vínculo, responsabi- mília e a conquista de um espaço inquestionável
lização. Essa concepção ultra- enquanto política pública exitosa.
12 passa os limites anteriormente
definidos para a atenção
Hoje, a Saúde da Família é considerada uma das
principais estratégias para a consolidação do Sis-
1. Apresentação
tema Único de Saúde - SUS, tese reafirmada em zação da atenção à saúde no
novembro de 2007 pelos 4.000 delegados da SUS.
13ª Conferência Nacional de Saúde. Em 2006, a Com o propósito de promover
Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), den- a troca das experiências e
tro do Pacto pela Saúde (Pactos Pela Vida, em conhecimentos acumulados
Defesa do SUS e de Gestão), reafirmou o com- ao longo desses 15 anos de
promisso do governo brasileiro com a expansão implantação da Saúde da
e consolidação das Redes de Atenção à Saúde Família, o Ministério da Saúde
no SUS, a partir de uma ampla base de equipes lança a III Mostra Nacional de
Saúde da Família, vinculadas às populações de Produção em Saúde da Família,
territórios adstritos. o IV Seminário Internacional
No âmbito do Programa de Aceleração do Cres- de Atenção Primária a Saúde
cimento (PAC), o governo federal reconhece a e o III Concurso Nacional de
vinculação entre o desenvolvimento econômico Experiências em Saúde da
e o social, buscando, por meio do Programa Família. Essa iniciativa busca
Mais Saúde, o aprofundamento e atualização fomentar um espaço de refle-
dos grandes objetivos da criação do SUS. Na xão e discussão sobre Atenção
tradução operacional das diretrizes desse pro- Primária à Saúde e divulgação
grama, a Saúde da Família é apontada como da estratégia brasileira de qua-
uma das estratégias prioritárias para alcance das lificação da atenção básica.
metas estabelecidas, particularmente nos eixos Esta publicação tem como
da Promoção e Atenção à Saúde. objetivo divulgar e estimular a
O potencial dessa estratégia é evidenciado no multiplicação de experiências
contingente de trabalhadores de saúde que ela inovadoras e qualificadas
já envolve: mais de meio milhão de profissionais como essas, além de constituir
envolvidos na implantação de um novo modelo uma forma de reconhecimen-
de atenção. Como resultado, nesses últimos to do mérito dos profissionais
anos, experiências inovadoras e conhecimentos de saúde, gestores e pesquisa-
relevantes têm sido acumulados pelos serviços dores que as desenvolveram,
de saúde e instituições de ensino e pesquisa, na certeza de que o sucesso
seja como relatos de experiências, estudos ou da estratégia Saúde da Família
pesquisas, a partir do esforço de profissionais de depende do esforço de ação
saúde, gestores e pesquisadores. A diversidade e reflexão daqueles que por
das lições aprendidas e o aumento da produção meio de suas práticas constro-
científica nessa área constituem certamente em o SUS que queremos.
importantes estímulos para o debate acerca dos
limites e possibilidades da Atenção Básica/Saúde
da Família como eixo estruturante da organi-
JOSÉ GOMES TEMPORÃO
Ministro da Saúde 13
1. Apresentação
Refêrencias bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. SAS. DAB


“Saúde da Família no Brasil – Uma análise
de indicadores selecionados, 1998-2004”.
Brasília: Ministério da Saúde, 2006.

ELIAS, P.E. (et al) “ Atenção Básica em Saúde:


comparação entre PSF e UBS por estrato de
exclusão social no município de São Paulo”.
Revista Ciência e Saúde Coletiva, 2006, vol.11
(3): 633 - 641.

FACCHINI, L.A. (et al) “Desempenho do PSF


no Sul e no Nordeste: avaliação institucional
e epidemiológica da Atenção Básica á Saú-
de”. Revista Ciência e Saúde Coletiva, 2006,
vol.11 (3): 669 - 681.

MACINKO, J., Guanais F.C., Souza M.F.M.,


An evaluation of impact of Family Health
Program on infant mortality in Brazil. 1990
- 2002. Journal of Epidemiology and Com-
munity Health, 2006, 60: 13-19

VIANA, A.L. (et al) “Modelos de Atenção


Básica nos grandes municípios paulistas: efe-
tividade, eficácia, sustentabilidade e governa-
bilidade”. Revista Ciência e Saúde Coletiva,
2006, vol.11 (3): 577-606.

14
2. Metodologia de avaliação dos trabalhos
A cada edição da Mostra da Saúde da
Família observa-se o anseio de seus
participantes em compartilhar suas vivências,
mais justas de concorrência
entre pares.
Após uma pré-avaliação
seu modo de fazer saúde e colaborar na quanto ao cumprimento
construção do SUS. Nessa 3ª edição, foram dos critérios exigidos para
registrados 4.490 (quatro mil, quatrocentos participação no Concurso,
e noventa) trabalhos para apresentação. Es- 1.090 (mil e noventa)
paços de discussão e reflexão como esses são trabalhos foram aceitos e
essenciais para o fortalecimento da Saúde da submetidos ao processo
Família, constituindo oportunidades singula- de avaliação de conteúdo
res de socialização de elementos teóricos e propriamente dita.
práticos na busca de subsídios para a conso- Para seleção dos trabalhos a
lidação desse modelo de atenção. serem premiados foi desen-
Com o objetivo de valorizar aqueles que no volvido um criterioso proces-
cotidiano operam e modelam a Saúde da Fa- so de avaliação, envolvendo
mília, além de identificar, divulgar e estimular 78 pareceristas que realiza-
experiências exitosas que contribuam para o ram a análise do conteúdo
fortalecimento da Saúde da Família, o Minis- dos trabalhos, com base
tério da Saúde realiza, durante a III Mostra em critérios previamente
Nacional de Produção em Saúde da Família, definidos no “Manual do
o III Concurso Nacional de Experiências em Participante”, divulgado no
Saúde da Família. site da III Mostra (Anexo I).
Quase dois mil trabalhos foram inscritos para Para garantir a idoneidade
concorrer a esse prêmio, em três diferentes do processo de seleção dos
categorias: trabalhos premiados no
- Relato de Experiência de Equipe de Saúde III Concurso, a Comissão
da Família, Científica designou uma
- Relato de Experiência de Agente Comuni- subcomissão de premiação
tário de Saúde, responsável pela elabo-
- Estudos e Pesquisas em Atenção Básica / ração da metodologia de
Saúde da Família. avaliação e coordenação de
A criação de uma categoria específica para todo processo.
premiação de experiências de ACS nessa edi- Como forma de garantir a
ção do Concurso justifica-se pela necessidade legitimidade dos resultados
de valorizar cada vez mais esses profissionais, finais da premiação, a com-
elos imprescindíveis entre as equipes de
saúde e a comunidade, e garantir condições
posição da equipe de avalia-
dores dos trabalhos buscou
15
2. Metodologia de avaliação dos trabalhos
a representação dos mais vios dos trabalhos, eram representantes formais
diferentes segmentos dos dos serviços das três esferas de governo,
serviços e das instituições representantes dos conselhos de gestores
de ensino e pesquisa. O (CONASS e CONASEMS), entidades de
processo de avaliação foi classe e representantes das instituições de
desenvolvido em quatro ensino públicas e privadas. Cabe ressaltar
etapas, ao longo de três que todos os trabalhos foram avaliados
meses, e culminou com em duplo cego, sem possibilidade de iden-
uma oficina de avaliação tificação dos autores dos trabalhos pelos
cujos componentes, além diferentes pareceristas. A tabela abaixo
de terem sido avaliadores pré- descreve a dimensão desse processo de
avaliação.
ETAPAS DE AVALIAÇÃO DOS TRABALHOS INSCRITOS NO CONCURSO DA III MOSTRA
NACIONAL DE EXPERIÊNCIAS EM SAÚDE DA FAMÍLIA

ETAPA I
CATEGORIAS ACS ESF Est / Pesq TOTAL
Nº TRABALHOS 103 605 376 1.090 08 a
Nº PARECERISTAS 5 30 34 71 23/05/2008
TRABALHOS
SELECIONADOS 50 300 170 520

ETAPA II
Nº PARECERISTAS 5 30 22 57 29 / 5 a 15/ 06
TRABALHOS
SELECIONADOS 20 60 44 124

ETAPA III
Nº PARECERISTAS 4 12 8 24 23/06/08 a
Nº DUPLAS 2 6 4 12 29/06/08
TRABALHOS
SELECIONADOS 8 12 8 28

ETAPA IV - OFICINA
Nº PARECERISTAS 4 12 8 24
Nº DUPLAS 2 6 4 12 30/06 a 01/07
16 TRABALHOS
SELECIONADOS 9 8 8 25
2. Metodologia de avaliação dos trabalhos
As três primeiras etapas de avaliação foram da premiação.
realizadas à distância e individualmente, en- Mais da metade (55,5%)
quanto a classificação final dos trabalhos se dos trabalhos concorrentes
desenvolveu de forma presencial e consensual, foi inscrita na categoria de
envolvendo equipes (uma para cada categoria premiação, “Relato de Ex-
de premiação) compostas por 8 a 12 parece- periência de Equipe de Saú-
ristas, selecionados com base na sua notória de da Família”, seguidos
experiência sobre o tema. Essa oficina de ava- pela categoria “Estudos e
liação final foi realizada em Brasília nos dias 31 Pesquisas da AB/SF” (35%)
de junho e 1º de julho do corrente ano e teve e Relato de Experiência de
como produto a classificação dos trabalhos fi- ACS (10%).
nalistas em 1º, 2º e 3º lugares e 5 a 6 menções A distribuição geográfica
honrosas por categoria de premiação. apontou uma participação
Durante oficina estabeleceu-se que as ex- maior das regiões Sudeste
periências finalistas seriam visitadas para o e Nordeste, seguidos das
conhecimento do trabalho e elaboração de regiões Sul, Centro-Oeste e
artigos para a Revista da Saúde da Família. As Norte, e os estados de São
experiências foram visitadas por pareceristas e Paulo, Minas Gerais, Paraná
profissionais da equipe de comunicação do De- e Rio Grande do Sul foram
partamento de Atenção Básica. Desta maneira, aqueles que contribuíram
constituiu-se mais uma etapa no processo com o maior volume de tra-
classificatório, que foi decisiva para a definição balhos (Anexo II).
Distribuição por região dos trabalhos participantes no III Concurso
Nacional de Experiências em Saúde da Família - Brasil - jun/2008
2,3%
4,3%

Região Nordeste
6,4%

Região Sul
25,6%

Região Centro-
Oeste
Região Norte

Base Nacional
22,7% 17
2. Metodologia de avaliação dos trabalhos
A análise por área temática apontou uma na categoria Relato de ACS
concentração maior de trabalhos relaciona- (15%).
dos a “Promoção da Saúde na AB/SF” (26%), O resultado final do Con-
“Assistência na AB/SF” (25%), “Tecnologias curso foi anunciado no dia
de Cuidado em Saúde na AB/SF” (12%), 6 de agosto, com a entrega
“Avaliação e Monitoramento da AB/SF” dos prêmios aos autores
(9%) e “Processos de Educação e Formação principais dos trabalhos se-
em Saúde na AB/SF” (9%). Experiências re- lecionados, de acordo com
lacionadas à “Intersetorialidade na Atenção a classificação apresentada
à Saúde” tiveram participação significativa nos quadros abaixo:

RELATO DE EXPERIÊNCIA - Equipes de Saúde da Família


CLASSIFICAÇÃO
TRABALHOS AUTORES MUNICÍPIO UF
Marcelo Bacci Coimbra
Reorganização da demanda para atendimento
1º Franssinete Trajano de Medeiros Annes Amparo SP
odontológico no município de Amparo - SP
Patrícia Dias Braz Rodrigues

Altamiro Vianna e Vilhena de Carvalho


Programa de recuperação nutricional para Ourilândia do
2º Lídia de Nazaré Pantoja PA
população indígena Norte
Mara Regina Midena Inácia

Implantação do modelo de apoio matricial em Sônia Augusta Leitão Saraiva


3º Florianopolis SC
saúde mental no município de Florianópolis Evelyn Cremonese

Vigilância em recém-nascido de risco: parceria Rogério Antônio Tuon


Menção Honrosa entre atenção terciária e unidades de Saúde da Fabiola Maria Stolses Bergamo Machado Piracicaba SP
Família Vera Antonieta Furlan

Carlos Alberto Tenório Cavalcante


Resultados alcançados na organização da Belo
Menção Honrosa Dulce Helena Amaral Gonçalves MG
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte Horizonte
Eliana Maria de Oliveira

Ensinando por meio de atividades lúdicas: teatro, Ana Rita de Oliveira Prinzo
Menção Honrosa Canoas RS
uma opção de educação em saúde Cristina Pedruzzi

Gicélia Maria Simplicio de Santana


Saúde da família e reforma psiquiátrica: uma Campina
Menção Honrosa Joselita Alves Brasileiro PB
dança de pares Grande
Lucieuda Rodrigues De Araújo

Fernanda Cristina Mamzini


Educação em saúde na Estratégia Saúde da
Menção Honrosa Maíra Rodrigues Baldin Botucatu SP
Família: formação de redes de apoio
Cristina Maria Garcia de Lima Parada

18
2. Metodologia de avaliação dos trabalhos
CLASSIFICAÇÃO
RELATO DE EXPERIÊNCIA - ACS
RELATO DE EXPERIÊNCIA - ACS AUTORES MUNICÍPIO UF
Mariglen Dias Trindade
O ACS como agente motivador da participação Anderson Fribel Moraes
1º Vacaria RS
comunitária. Eliseu Santos de Melo
Juliano Lacerda

Ana Carla Pereira de Melo


2º AACS – Agente Ator Comunitário de Saúde: um
Alecsandro Pereira de Melo João Pessoa PB
exemplo de educação permanente em saúde
Edson Morais

Ana Paula M.F.Tafner (ENF)


Claudia Martins
3º Helena Almeida
Reciclar com saúde Campinas SP
Maria Elídia Mathias
Ricardo Almeida
Rosilene

Joelma A. Azanha
Grupo domiciliar de aleitamento materno na Estela dos Santos Pereira de Souza Rio de
Menção Honrosa RJ
comunidade de Vila Vintém - Rio de Janeiro Simone França dos Santos Janeiro
Maria do Carmo Magalhães

Valdívia Gonçalves Lucas


Menção Honrosa Violência contra a Mulher Porto Alegre RS
Margarete Castilhos da Silva

O Agente Comunitário de Saúde contra o câncer N. Srª. do


Menção Honrosa Joselma da Silva Santos Dantas SE
de colo de útero Socorro

A utilização de garrafas pet para produção de


Menção Honrosa Sueli Meira Vieira Petrópolis RJ
berços e filtros para a comunidade carente

Edinael Marciano (ENF)


Menção Honrosa Uma ação simples faz uma grande diferença Maria Trindade S. Nascimento Curitiba PR
Viviane Vital

Makissoel Souza de Araújo


Jeane Ludovico Mariano
Menção Honrosa Projeto Grupo Fazendo Saúde com Alegria Brasília DF
Creuza Duarte Oliveira
Rosilene Pereira

19
2. Metodologia de avaliação dos trabalhos

CLASSIFICAÇÃO
Estudos e Pesquisas em Atenção Básica / Saúde da Família
TRABALHOS AUTORES INSTITUIÇÃO UF
Programa de Saúde da Família (PSF): Rosana Aquino G. Ferreira
1º ISC/UFBA BA
determinantes e efeitos de sua implantação no Mauricio Lima Barreto (orientador)

Luiz Augusto Facchini


Elaine Thumé
Atenção Domiciliar a idosos no Sul e Nordeste
2º Vanessa A. Teixeira UFPEL RS
do Brasil
Maria Aparecida Rodrigues
Roberto Xavier Piccini

Thaís Fonseca Lima


Juliana Ribeiro da Silva
Necessidades de saúde e organização do
3º Denise Zakabi USP SP
trabalho de ACS em região metropolitana
Daiana Bonfim
Fernando Pessoa

Marta Cocco
Marta Julia Marques Lopes
Observatório de causas externas na Atenção
Menção Honrosa Maria Alice Dias da Silva Lima UFRS RS
Básica de Saúde de Porto Alegre
Tatiana Gerhardt
Sandra Maria Cezar

Carina Pimentel Souza Universidade


Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
Menção Honrosa Joana Angélica Oliveira Molesini Católica de BA
infantil na Estratégia Saúde da Família
João Danilo Batista de Oliveira Salvador

Cícero Edjedan A. da Silva Universidade


Análise do atendimento prestado pela atenção
Menção Honrosa Regional do CE
primária à vítima de violência doméstica Maria Misrelma Moura Bessa Cariri

Norma Beatriz Pires


Ensino e assistência com abordagem Maria Lucia Medeiros Lenz Grupo
Menção Honrosa interdisciplinar de famílias de crianças Carmen Fernandes Hospitalar RS
hospitalizadas Leda Curra Conceição
Rodrigo Caprio

A construção de linhas de cuidado na Estratégia Anny Cristinny M. Santos SMS- João


Menção Honrosa ES
Saúde da Família: dando voz aos usuários Rita de Cássia Duarte Neiva

20
3. Comissão organizadora e pareceristas
Coordenação Geral Ester Fogel Paciornik
Antonio Dercy Silveira Filho Flavio Magajewski
Francisco Américo Micussi
Comissão de Premiação Gustavo Diniz Ferreira Gusso
Célia Regina Rodrigues Gil Heloiza Machado de Souza
Cinthia Lociks de Araújo Ivana Maria Saes Buato
Estela Márcia Saraiva Campos João Batista Silvério
Maria Angélica Cúria Cerveira João José Batista De Campos
José Fernando Assoni
Colaboradores José Veloso Souto Júnior
Allan Nuno Alves de Souza Josiane Vivan Camargo de Lima
Eglê Santos e Santos Josimari Telino de Lacerda
Flávia Regina de Morais Juçara L. Caovilla Vendrusculo
Letícia Milena Ferreira da Silva Judite Hennemann Bertoncini
Luciana do Nascimento Guedes Juliana Braga de Paula
Marcelina Zacarias Ceolin Karina Barros Calife Batista
Lêda Maria Albuquerque
Pareceristas Leidimar Barbosa de Alencar
Adriana Maura Maset Tobal Lenira Fracasso Zancan
Afra Suassuna Fernandes Léo Kriger
Aluisio Gomes da Silva Junior Lisiane Andréia Devinar Périco
Angela Cristina Pistelli Lubelia Sa Freire da Silva
Antonio Carlos Nascimento Lucia de Fatima Gonçalves Maia Derks
Barbara Turini Luís Cláudio Sartori
Beatriz Francisco Farah Marcelo da Silva Alves
Brígida Gimenez Carvalho Márcia Cecília Huçulak
Carmen Fontes de Souza Teixeira Marcia Hiromi Sakai
Célia Regina Pierantoni Maria Alice Pessanha de Carvalho
Cleide Aparecida de Oliveira Maria do Perpétuo Socorro
Crysthianne Cônsolo de Almeida Albuquerque Matos
Daniela Montano Wilhelms Maria Goretti David Lopes
Danielle Soares Cavalcante Maria Imaculada Ferreira da Fonseca
Djalmo Sanzi Souza Maria Marta Nolasco Chaves
Edson Mamoru Tamaki Maria Raquel Gomes Maia Pires
Edylene Maria dos Santos Pereira Maria Rizoneide Negreiros de Araujo
Eleuza Procópio de Souza Martinelli
Erno Harzheim
Maria Socorro de Oliveira
Maria Teresa Bustamante Teixeira
21
3. Comissão organizadora e pareceristas
Marilda Kohatsu
Marta Campagnoni Andrade
Marta Verdi
Nadja de Sá Pinto Dantas Rocha
Nelzira Guedes Oliveira
Newton Sergio Lopes Lemos
Núbia Brelaz Nunes
Paulette Cavalcanti de Albuquerque
Paulo Cobellis Gomes
Paulo Germano de Frias
Pedro Gilberto Alves de Lima
Regina Coelli Pimenta Mello
Reneide Muniz da Silva
Rita Maria Rodrigues Bastos
Rosilene Aparecida Machado
Rosimeira Maria Peres Andrade
Salvyana Carla Palmeira Sarmento Silva
Samuel Jorge Moysés
Sandra Rejane Soares Ferreira
Silvana Martins Mishima
Sonia Maria Coutinho Orquiza
Tereza Cristina Alves Bezerra
Vitor Moreschi Filho

22
23
4. Anexos
24
4. Anexos
5.1. Reorganização da demanda para atendimento
odontológico no Município de Amparo - SP
Autor Principal: dos usuários, sem critério de
MARCELO BACCI COIMBRA risco e sem a participação
Outros Autores: dos outros profissionais da
FRANSSINETE TRAJANO DE MEDEIROS AN- equipe. Esse tipo de organi-
NES zação gerou uma demanda
MARCELO BACCI COIMBRA reprimida de 362 famílias e
ATRÍCIA DIAS BRAZ RODRIGUES um tempo de espera médio
Área Temática: Tecnologias de Cuidado em de quatro anos. Este traba-
Saúde na AB/SF lho relata a experiência de
Local onde o trabalho foi realizado: reorganização do processo
AMPARO – SP de trabalho da saúde bucal
na USF do Jardim Brasil. As
RESUMO: ações tinham como objetivo
Tradicionalmente, as Equipes de Saúde Bucal planejar o acesso ao aten-
têm dificuldade em superar questões organi- dimento odontológico de
zacionais para atendimento da demanda. A forma eqüitativa e integrar
interpretação das necessidades do paciente e toda a equipe com a pro-
o estabelecimento de critérios de risco indi- posta de saúde bucal para
vidual ou familiar exigem geralmente a pre- atendimento familiar. Dis-
sença do dentista e exame clínico, tornando cussão em equipe sobre a
o processo de trabalho muito direcionado problemática da saúde bucal
aos saberes técnicos da Equipe de Saúde Bu- na unidade: a equipe, por
cal. Entretanto, as diretrizes do Ministério da meio de discussões, passou
Saúde em relação à Política Nacional de Saú- a construir conceitos sobre
de Bucal apontam para a reorganização da necessidade, percepção e
atenção garantindo o princípio da eqüidade, atenção. Levantamento dos
buscando o atendimento integral à família, dados da lista de espera: es-
a adscrição da população, a programação, ses dados foram atualizados
o planejamento e a abordagem multiprofis- e separados por micro-áre-
sional. A USF do Jardim Brasil possui duas as. Grupos de recepção para
Equipes de Saúde da Família e uma Equipe explicar aos usuários o novo
de Saúde Bucal. Apresenta 1.650 famílias ca- fluxo, após a conclusão dos
dastradas, com algumas áreas de baixas con- trabalhos. Elaboração de um
dições socioeconômicas. Inicialmente a orga- instrumento de avaliação de
nização do acesso à assistência odontológica risco: a ficha de avaliação
era por meio de lista de espera e o atendi-
mento era conforme a ordem de procura
norteia o ACS com critérios
claros, incluindo informa-
25

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.1. Reorganização da demanda para atendimento
odontológico no Município de Amparo - SP
ções de saúde bucal, saúde mais profissionais da unidade, dificultando a
geral, condições socioeco- assistência integral ao usuário. Entretanto, as
nômicas e necessidade sen- diretrizes do Ministério da Saúde em relação à
tida pelo usuário, evitando Política Nacional de Saúde Bucal (1) apontam
equívocos em relação à prio- para a reorganização da atenção garantindo
rização das famílias, o que o princípio da eqüidade, buscando o atendi-
tem sido discutido quando mento integral à família, a adscrição da po-
se deixa para o ACS a res- pulação, a programação, o planejamento e a
ponsabilidade de indicar as abordagem multiprofissional. Nesse sentido,
famílias de risco por critérios a Equipe de Saúde Bucal deve interagir com
próprios e sem calibração. A os demais profissionais da unidade, compar-
reorganização do processo tilhar saberes e participar das ações e ativida-
de trabalho proporcionou à des desenvolvidas com a comunidade. Essa
equipe condições de ofere- prática visa ao fortalecimento da saúde bucal
cer à população um acesso como parte da atenção à saúde da comuni-
mais equânime à assistência dade, pois a saúde bucal é parte integrante
odontológica, além de incluir e inseparável da saúde geral, já que uma não
outros olhares presentes na existe sem a outra, estando diretamente rela-
equipe multiprofissional. cionada às condições de alimentação, mora-
dia, trabalho, renda, meio ambiente, acesso
INTRODUÇÃO: aos serviços de saúde e à informação (2). No
Tradicionalmente, as Equi- município de Amparo, até junho de 2001,
pes de Saúde Bucal têm di- priorizava-se o atendimento às gestantes e
ficuldade em superar ques- às faixas etárias de 0–14 anos, restringindo o
tões organizacionais para acesso dos adultos a limitados programas de
atendimento da demanda. A saúde bucal. Posteriormente, a Secretaria Mu-
interpretação das necessida- nicipal de Saúde incluiu as Equipes de Saúde
des do paciente e o estabele- Bucal na estratégia Saúde da Família, fazen-
cimento de critérios de risco do com que a população adulta tivesse mais
individual ou familiar exigem acesso à assistência odontológica. As triagens
geralmente a presença do familiares foram utilizadas como estratégia de
dentista e exame clinico, tor- acesso, onde somente as condições de saúde
nando o processo de traba- bucal eram consideradas. Os critérios de sele-
lho muito direcionado aos ção das famílias para as triagens variavam de
saberes técnicos da Equipe acordo com a realidade de cada unidade. A
26 de Saúde Bucal e, até certo
ponto, desvinculado dos de-
estratégia Saúde da Família foi implantada no
município em 1996 e atualmente conta com

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.1. Reorganização da demanda para atendimento
odontológico no Município de Amparo - SP
20 Equipes de Saúde da Família e 14 Equipes atenção de forma eqüitativa.
de Saúde Bucal, com cobertura de 96,4% da Nessa etapa, pretendeu-se
população (3). A Unidade de Saúde da Família valorizar os saberes de todos
do Jardim Brasil possui duas Equipes de Saú- os profissionais, que pude-
de da Família e uma Equipe de Saúde Bucal. ram alar com propriedade da
Apresenta 1.650 famílias cadastradas, com al- situação das famílias e seus
gumas áreas de baixas condições socioeconô- anseios.
micas. Inicialmente a organização do acesso à 2) Levantamento dos dados
assistência odontológica era por meio de lista da lista de espera: esses da-
de espera. A lista ficava na recepção da uni- dos foram atualizados, ex-
dade e o atendimento era conforme a ordem cluindo-se os usuários não
de procura dos usuários, sem critério de risco mais residentes na área e os
e sem a participação dos outros profissionais já contemplados com tra-
da equipe. Esse tipo de organização gerou tamento, resultando numa
uma demanda reprimida de 362 famílias e redução significativa no nú-
um tempo de espera médio de quatro anos. mero de pessoas. Posterior-
mente os indivíduos foram
OBJETIVOS: separados por micro-áreas
Este trabalho relata a experiência de reor- de residência, para que os
ganização do processo de trabalho da saú- agentes comunitários de
de bucal na USF do Jardim Brasil. As ações saúde realizassem visitas a
tinham como objetivo planejar o acesso ao essas famílias.
atendimento odontológico de forma eqüitati- 3) Elaboração de um instru-
va e integrar toda a equipe com a proposta de mento de avaliação de ris-
saúde bucal para atendimento familiar. co: buscou-se nessa etapa a
construção de um instrumen-
METODOLOGIA: to que possibilitasse ordenar
1) Discussão em equipe sobre a problemática prioritariamente as famílias
da saúde bucal na unidade: após a percepção com maior necessidade de
do problema, a coordenação da unidade, jun- atendimento e que pudesse
tamente com a Equipe de Saúde Bucal, colo- ser utilizado por qualquer
cou o tema em discussão nas reuniões, que profissional da equipe. Fo-
acontecem semanalmente para todos os pro- ram utilizados critérios mais
fissionais da unidade e a equipe, por meio de amplos, incluindo informa-
discussões, passou a construir conceitos sobre ções de saúde bucal, saúde
necessidade, percepção e atenção em saúde
bucal e a buscar um modelo para nortear a
geral, condições socioeconô-
micas e necessidade sentida
27

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.1. Reorganização da demanda para atendimento
odontológico no Município de Amparo - SP
pelo usuário que buscou o sável por um maior risco à cárie, embora de
atendimento. Este possibilita forma indireta: indivíduos desempregados,
a percepção dos problemas com condições de moradia insalubres e bai-
de saúde bucal por qualquer xo grau de instrução escolar podem ter como
profissional da equipe, sem conseqüência indireta uma dieta mais cario-
necessidade do exame clíni- gênica e higiene bucal deficiente.
co. Cada indivíduo da família 4) Grupos de recepção para explicar aos usu-
é avaliado e pontuado numa ários o novo fluxo, o que pôde ser feito por
graduação de 1 a 3, em rela- vários membros da equipe, já que todos parti-
ção aos critérios idade, con- ciparam da elaboração.
dição bucal e saúde geral.
Posteriormente é feita uma RESULTADOS ALCANÇADOS:
somatória da pontuação de 1) Obtenção de um instrumento de avalia-
todas as pessoas da famí- ção em saúde bucal simples, de fácil com-
lia e realizada uma média. preensão e manuseio e que faz do ACS, em
Essa média é somada a uma especial, um elo entre o paciente e a equipe,
nota familiar que considera tornando a porta de entrada para a atenção
condição socioeconômica e em saúde bucal menos impessoal, compa-
moradia. A necessidade sen- rando-se com a relação paciente–recepção
tida pelo usuário também foi e sem requerer o deslocamento do usuário
considerada na nota familiar. até a unidade de saúde. A ficha de avaliação
Pereira e col. (4) consideram norteia o ACS com critérios claros, evitando
importante o desenvolvimen- equívocos em relação à priorização das fa-
to de um modelo de avalia- mílias e facilitando a compreensão por parte
ção e identificação de risco. da comunidade; o que tem sido discutido
Segundo Roncalli (2), para se quando se deixa para o ACS a responsabili-
avaliar o risco de cárie de um dade de indicar as famílias de risco por crité-
paciente, é necessária a cole- rios próprios e sem calibração.
ta de informações relaciona- 2) Obtenção de uma lista de espera mais
das com a saúde dentária e equânime. A família com maior escore (16
também com a saúde geral. pontos num total de 18) e conseqüentemen-
Os dados a serem conside- te a primeira da lista atual estava no numero
rados para a saúde geral re- 155 da lista antiga e esperava há um ano e
ferem-se ao nível social e às meio, o que veio reforçar o entendimento que
condições de vida, pois uma o acesso se dava de forma descontextualizada
28 variedade de fatores não clí-
nicos muitas vezes é respon-
das necessidades dos usuários.
3) Reorientação das triagens familiares: a ficha

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.1. Reorganização da demanda para atendimento
odontológico no Município de Amparo - SP
de avaliação, além de reorganizar a lista de ções na construção da ficha de
espera, também passou a ser utilizada na or- avaliação e na reorientação do
ganização do acesso dos outros usuários que fluxo, trazendo as questões
buscam assistência odontológica. Ficaram es- odontológicas mais para perto
tabelecidas triagens trimestrais, utilizando-se do dia-a-dia da equipe. Houve
os maiores escores da lista de espera e esco- também uma satisfação da
res correspondentes de novos usuários. equipe em oferecer resposta
4) Caracterização da busca de atendimento às famílias que aguardavam
por micro-áreas, para planejamento de ativi- na lista de espera.
dades educativas. O número de pessoas que
buscaram atendimento odontológico foi me- RECOMENDAÇÕES:
nor nas micro-áreas menos favorecidas, re- No contexto atual de inserção
velando a percepção de saúde bucal menos da saúde bucal na Saúde da Fa-
valorizada por parte desses usuários. mília, temos grandes avanços
5) Diminuição do número de urgências. A e desafios. É preponderante a
priorização do atendimento às famílias de necessidade de se oferecer ser-
risco diminuiu o número de atendimentos viços cada vez mais resolutivos,
emergenciais na unidade. ampliando o cuidado sobre a
6) Maior integração entre os profissionais da população adstrita. É preciso
equipe. A participação de toda a equipe no não só conhecer os morado-
planejamento das ações fortaleceu o vínculo. res, mas identificá-los no seu
contexto familiar e, para isso,
LIÇÕES APRENDIDAS COM A EXPERIÊNCIA: são necessários os vários olha-
A necessidade de intervenção inicialmente sur- res presentes no atendimento
giu ao constatar que não se conseguia diminuir multidisciplinar. Um aspecto
a lista de espera e era crescente o número de relevante a ser considerado
usuários que procuravam o serviço em busca de é a importância das reuniões
atendimento odontológico emergencial. Visto de equipe, que acontecem
que a oferta de serviço era sempre menor que a rotineiramente na unidade de
procura por atendimento, tornou-se imperativo saúde, para discussão do pro-
estabelecer critérios que levassem à equidade. cesso e avaliação do trabalho,
Entretanto, observou-se, durante os trabalhos bem como o papel da coorde-
que, além da reorganização da demanda, hou- nação da unidade, que vinha
ve um ganho de qualidade para os profissionais colocando o tema saúde bucal
da unidade, que passaram a melhor compreen- como pauta para que se con-
der questões mais específicas da odontologia e
contribuíram com seus conhecimentos e percep-
cretizasse todo o processo que
culminou com os resultados.
29

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional Nome do Autor Principal: ração Nutricional (PRN). O objetivo geral do
ALTAMIRO VIANNA PRN é a redução de 90% das crianças com
VILHENA DE CARVALHO baixo e muito baixo peso até dezembro de
Outros Autores: 2008, por meio de ações com envolvimento
ALTAMIRO VIANNA de toda equipe do Programa de Saúde da Fa-
VILHENA DE CARVALHO mília Indígena. Outros objetivos são manter a
LÍDIA DE NAZARÉ PANTOJA vigilância nutricional, identificar agravos em
MARA REGINA MIDENA INÁCIA crianças de baixo peso e intervir de forma
Área Temática: Assistência padronizada, capacitar continuadamente a
na AB/SF equipe, realizar educação em saúde, estimu-
Local onde trabalho foi lar a comunidade a participar das decisões li-
realizado: OURILÂNDIA DO gadas a vigilância nutricional. O PRN está im-
NORTE – PA plantado hoje em todas aldeias que do DSEI
Kaiapó PA. Em toda a participação da equipe
RESUMO: acontece de forma integrada, com especial
Os indicadores epidemio- importância para os agentes de saúde, res-
lógicos do DSEI Kaiapó PA ponsáveis por auxiliar a pesagem, motivação
apontam elevada morbida- da comunidade e nas atividades educativas.
de e mortalidade em crian- Eles são responsáveis pelo acompanhamento
ças menores de cinco anos diferenciado nas crianças de baixo peso em
no biênio 2005-06. Apesar suas residências. Após a implantação do PRN,
disso não acontecia rotinei- a cobertura mensal de avaliação antropomé-
ramente avaliação de forma trica de crianças menores de cinco anos subiu
a identificar casos de desnu- de 37% para 60%. O número médio de crian-
trição que pudessem propi- ças com baixo e muito baixo peso registrados
ciar este quadro. Em fins de nos últimos quatro meses (out 2007 a jan
2006 foi implantado o Siste- 2008) foi respectivamente 13,25% e 2,75%,
ma de Vigilância Alimentar o que mostra melhora comparado aos primei-
e Nutricional Indígena com ros quatro meses de implantação do Progra-
objetivo de acompanhar as ma (janeiro a abril, 2008), quando foram en-
crianças menores de cin- contradas, respectivamente, 21,75% e 6%.
co anos. A identificação de A mortalidade em crianças nos três primeiros
grande número de casos de meses de 2008, três crianças, foi menor do
baixo e muito baixo peso que no mesmo período dos anos anteriores
para idade, demonstrou a (9 em 2007 e 7 em 2006). O Sisvan é um
30 necessidade da criação de
um Programa de Recupe-
instrumento para identificação de indivíduos
e populações em risco nutricional, mas isola-

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional
damente não é capaz de modificar tais situ- plantado no DSEI KP o Siste-
ações. O desenvolvimento de programas de ma de Vigilância Alimentar e
recuperação em áreas críticas é fundamental, Nutricional Indígena (Sisva-
mas para seu êxito deve haver articulação en- ni) com objetivo de acompa-
tre a equipe de saúde e a comunidade. Em- nhar as crianças menores de
bora tenham sido encontradas dificuldades, cinco anos, faixa etária onde
a adesão de toda equipe ao PRN, aliada ao se concentrava a maior taxa
apoio dos usuários tornou possível que se de mortalidade. Os dados
atingissem tais resultados. O Programa de coletados pelas equipes evi-
Recuperação Nutricional, aqui apresentado, é denciaram grande número
capaz de auxiliar na melhora dos indicadores de casos de baixo e muito
de saúde infantis de uma comunidade. Sua baixo peso para idade em di-
execução, longe de ser complexa, é projetada versas aldeias. Neste mesmo
para ser realizada em cenários com poucos período as crianças que vie-
recursos, sendo portando compatível com a ram a óbito estavam em sua
estratégia de saúde da família. maioria apresentando déficit
ponderal. Foi realizada então
INTRODUÇÃO: avaliação clínica das crian-
O Distrito Sanitário Especial Indígena Kaiapó ças, por médico pediatra,
– Pará (DSEI KP) da Fundação Nacional de para confirmação de casos
Saúde (FUNASA) é responsável pelas ações de desnutrição. A partir da
de saúde realizadas nas aldeias da etnia Kaia- identificação destes casos,
pó, na região do Sul do Estado do Pará. São constatou-se a necessidade
assistidos 4.097 indivíduos por meio de cinco da criação de um Programa
equipes multidisciplinares do Programa de de Recuperação Nutricional
Saúde da Família Indígena – PSFI. Estas equi- (PRN) para reverter esta situ-
pes são coordenadas por uma enfermeira e ação na população atendida
compostas por técnicos de enfermagem e pelo DSEI KP.
agentes indígenas de saúde – AIS. Os indica-
dores epidemiológicos do DSEI KP evidenciam OBJETIVOS:
elevados índices de morbidade e mortalidade O objetivo geral do PRN é a
em crianças menores de cinco anos no biênio redução de 90% das crian-
2005-2006. Apesar disso não acontecia roti- ças com baixo e muito baixo
neiramente a avaliação antropométrica des- peso até dezembro de 2008,
tas crianças, de forma a identificar possíveis o que vem sendo atingido
casos de desnutrição que pudessem propiciar
este quadro. Em setembro de 2006 foi im-
por meio de diversas ações
de recuperação e prevenção,
31

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional que envolvem toda equi- nores de cinco anos, foram iniciados os estu-
pe do Programa de Saúde dos para a sua elaboração. Foi feito levanta-
da Família Indígena. Outros mento bibliográfico a respeito de programas
objetivos previstos são pro- de tratamento de desnutridos, uso de fórmu-
piciar um processo de inte- las de complementação alimentar, intercor-
gração entre equipe de saú- rências e intervenção em crianças com baixo
de e comunidade; capacitar peso. A partir destes estudos foi elaborada
continuadamente a equipe em conjunto pelo responsável técnico pelo
multidisciplinar em vigilância Sisvani e por nutricionista a primeira propos-
nutricional e ações de inter- ta do PRN para ser discutida com a equipe a
venção; incluir a comunida- comunidade. As discussões foram realizadas
de no processo decisório das em todos os níveis, com ampla oportunida-
ações e atividades relacio- de de troca de opiniões, de forma a adequar
nadas à recuperação nutri- os protocolos e recomendações nacionais e
cional das crianças; manter internacionais elaborados pela Organização
a vigilância nutricional por Mundial de Saúde, Organização Pan-ameri-
meio da avaliação antropo- cana de Saúde, Ministério da Saúde e Socie-
métrica mensal em todas as dade Brasileira de Pediatria para a realidade
crianças menores de cinco da área indígena Kaiapó. Devido a necessida-
anos de idade; padronizar de da implantação do PRN o mais rapidamen-
ações de intervenção pre- te possível, optou-se por aproveitar todas as
coce nas crianças de baixo e oportunidades para conseguir sua aprovação,
muito baixo peso; executar sem com isso deixar de discutir o programa
atividades de educação em com todas as partes envolvidas. A primeira
saúde nas aldeias e realizar reunião ocorreu com a Chefia do DSEI e a Co-
acompanhamento diferen- ordenação Técnica, a fim de se obter aprova-
ciado em crianças com bai- ção formal dos responsáveis pela assistência à
xo e muito baixo peso e na- saúde. Em seguida, aproveitando que os AIS
quelas que apresentem risco estavam fora de suas aldeias, reunidos para a
identificado ao nascer. continuidade de seu programa de formação
foi feita a apresentação do PRN a este grupo,
METODOLOGIA: com discussão da proposta, da importância
Após a identificação da ne- do papel dos agentes de saúde, e de suas
cessidade do desenvolvi- atribuições. Este grupo apresentou, entre ou-
mento de um programa para tras idéias, importantes sugestões em relação
32 atuar na melhoria do estado
nutricional das crianças me-
aos formulários utilizados, que foram então
modificados. Foi feita reunião com a equipe

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional
de enfermagem para discutir sobre o PRN, a dos mesmos com o Progra-
proposta do fluxograma de informações, a ma e conseguir sua cola-
atuação da equipe e a importância da inte- boração. O complemento
gração com a comunidade. Durante a reunião alimentar é preparado com
do Conselho Distrital de Saúde Indígena, foi leite – diferenciado para
apresentado o PRN, com elucidação de dú- primeiro semestre, segundo
vidas, mostrando sua importância e como a semestre e maiores de um
comunidade poderia participar colaborando ano, farinha de cereais, óleo
na recuperação das crianças, obtendo apro- mineral, açúcar e fórmula
vação pelo Conselho por unanimidade. A de sais minerais. Os técni-
partir da aprovação as equipes iniciaram as cos de enfermagem e AIS
ações, sob responsabilidade das enfermei- são responsáveis pelo pre-
ras. Ao mesmo tempo em que isso ocorreu, paro do complemento, que
o responsável técnico pelo programa visitou as crianças vão receber nos
todas as aldeias, orientando os profissionais postos de saúde em copos,
e conversando com as comunidades. Como três vezes ao dia. Embora o
as equipes já estavam envolvidas com o Sis- DSEI KP não contasse com
vani, a adesão foi completa e reforçada por nutricionista, foi feita a con-
um instrumento de divulgação de resultados tratação de uma profissional
e mobilização, que é o informativo das ações para prestação de serviço. A
de vigilância alimentar e nutricional realiza- nutricionista visitou todas as
das no âmbito do DSEI Kaiapó PA. Este infor- aldeias para a realização da
mativo, chamado – O Bakukren – é publicado avaliação nutricional, atin-
mensalmente desde novembro de 2006. O gindo cobertura de mais de
periódico apresenta os consolidados de da- 80% das crianças menores
dos referentes ao Sisvani, a – cobertura – das de cinco anos. Nestas opor-
avaliações antropométricas e reuniões com as tunidades a profissional su-
comunidades, as ações de intervenção, bem pervisionou os trabalhos em
como outros temas de interesse, tais como andamento, corrigiu falhas
saúde bucal, alimentação tradicional, higiene nos preparos de fórmula,
e controle de endemias. As comunidades nas reuniu-se com os agentes de
aldeias foram mobilizadas na medida em que saúde e com a comunidade.
se implantou a estratégia central do PRN, que A educação continuada foi
é a complementação nutricional para crian- outra ação realizada. Foram
ças de baixo e muito baixo peso. Em cada feitos mais dois encontros
aldeia foi realizada reunião com mulheres e
líderes comunitários, para maior integração
com as enfermeiras, e em
agosto de 2007 foi iniciada
33

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional a capacitação de toda equi- comunidade e de discussão do PRN. A Defesa
pe por meio da Capacitação Civil do Estado do Pará também foi parceira,
Descentralizada em Sisvan realizando a compra do leite necessário para
Indígena. Esta capacitação a manutenção do PRN por três meses.
foi aprovada e financiada Durante todo o tempo o acompanhamento
pelo Departamento de Saú- dos agentes de saúde foi fundamental. Por
de Indígena da FUNASA e re- ser quem melhor conhece as aldeias, além de
alizada em todas as aldeias, dominar o idioma, os mesmos visitavam as ca-
com a participação da nu- sas acompanhando as crianças rotineiramen-
tricionista, contratada para te levando-as prontamente para avaliação
este fim. Esta capacitação foi mediante qualquer problema que surgisse. O
diferenciada para técnicos Conselho Distrital também foi acompanhan-
de enfermagem e agentes do as ações, e o Sisvani passou a ter espaço
de saúde e contou com três reservado para informações a cada reunião de
momentos distintos: estu- controle social. Diversas outras estratégias fo-
dos teóricos, prática super- ram surgindo como resultado das atividades
visionada e depois prática realizadas nas aldeias, e levaram a elaboração
supervisionada pelas enfer- de material de apoio e recomendação de ado-
meiras. Uma das associações ção de novos procedimentos que se mostra-
indígenas conveniadas com ram de grande valia para todas equipes, como
a FUNASA para prestação de o – quadro de acompanhamento-, a reforma
recursos indígenas reconhe- nas tabelas de peso, que se tornaram de mais
ceu o valor do treinamento fácil uso e a modificação de palatabilidade na
e contratou a nutricionista fórmula de sais minerais. Além das avaliações
para realização do treina- periódicas com a equipe, comunidade e con-
mento da equipe da Casa de trole social, foi realizada formalmente, após
Saúde do Índio, inicialmente um ano de sua implantação, uma reunião de
não prevista na capacitação. monitoramento e avaliação do PRN. Esta foi
O DSEI KP também realizou uma oportunidade de alterar algumas metas
contatos visando fortalecer que pudessem estar sub ou superdimensio-
o PRN. O Programa Raízes nadas e de compartilhar experiências entre
do Governo do Estado do profissionais de diferentes aldeias.
Pará foi parceira nestes mo-
mentos e seus representan- RESULTADOS ALCANÇADOS:
tes visitaram várias aldeias e O PRN está implantado hoje nas 12 aldeias
34 participaram de reuniões de
educação em saúde com a
que fazem parte do DSEI Kaiapó PA. Embo-
ra existam dificuldades, que são distintas em

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional
cada aldeia, uma vez que as realidades são dois últimos anos, com re-
diferentes em cada uma, em toda a participa- gistros de nove em 2007 e
ção da equipe acontece de forma integrada. de sete em 2006.
A participação dos agentes indígenas de saú- Por fim, há mudanças não
de se reveste de especial importância, pois os quantificáveis, mas que são
mesmos têm papel de destaque. A maioria percebidas nas reações das
dos AIS, antes pouco envolvidos com as ações pessoas. A recepção da co-
coletivas de saúde, passa a fazer parte ativa munidade para as ações de
do PRN, pois são responsáveis por auxiliar a vigilância nutricional tem
pesagem, o preparo da fórmula de comple- sido muito boa e a aceitação
mentação nutricional, as atividades educati- da avaliação antropométrica
vas e por motivar suas comunidades. muito positiva. Todos gostam
Após a implantação do PRN, a cobertura de ver o informativo pendu-
mensal de avaliação antropométrica de crian- rado nos postos de saúde, o
ças menores de cinco anos subiu de 37% que sempre gera comentá-
para 60%, e o envio regular de consolidados, rios e curiosidade. As ações
com coberturas acima de 80% nos últimos divulgadas conseguiram boa
quatro meses já acontece em cinco aldeias. repercussão, tendo sido di-
O número médio de crianças com baixo e vulgadas por diversas vezes
muito baixo peso para idade, registrados nos no site interno da FUNASA,
últimos quatro meses – outubro, novembro publicadas na revista Saú-
e dezembro de 2007 e janeiro de 2008 foi de!, também da FUNASA e
respectivamente 13,25% e 2,75%. Estes nú- apresentadas no Congresso
meros evidenciam melhora em relação aos Nacional, em uma exposi-
resultados encontrados nos primeiros quatro ção com experiências se-
meses de implantação do Programa – janeiro, melhantes de todo o Brasil
fevereiro, março e abril de 2007 –, quando e na Conferência Nacional
foram encontradas, respectivamente 21,75% de Segurança Alimentar e
e 6%. Comparando a média de crianças que Nutricional. Todo o DSEI KP
apresentaram risco nutricional neste mesmo hoje se encontra envolvido
período encontramos 17,25% recentemente com o PRN, que acabou se
e 23,5% no início do PRN. tornando motivo de orgulho
A mortalidade em crianças também foi es- de todos os funcionários. Os
tudada. Nos três primeiros meses de 2008, resultados atingidos e a inte-
período considerado bastante crítico, por au- ração com outros órgãos do
mento das chuvas na região, foram registra-
dos óbitos de três crianças, menor que nos
Estado, como a Defesa Civil
e o Programa Raízes levanta-
35

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional ram a auto-estima do grupo, zada unilateralmente, não teria atingido os
que tem a certeza de estar resultados que atingiu. Outro ponto facilita-
cumprindo seu dever e con- dor foi o suporte proporcionado pela equipe
tribuindo com a melhora de técnica do Sisvani e garantido pela Chefia
saúde desta população. e Coordenação Técnica do DSEI KP, permi-
tindo ampla liberdade de ação ao Respon-
LIÇÕES APRENDIDAS COM sável Técnico. Este é um ponto importante
A EXPERIÊNCIA: para que o PRN funcione. Muitas decisões
Para se implantar de forma têm que ser tomadas de forma ágil, para
bem sucedida um progra- não comprometer o andamento das ativida-
ma como o PRN é essencial des. A chefia do DSEI KP também foi ágil
que a equipe de elaboração ao providenciar transporte de equipe para as
tenha bom conhecimento aldeias, em sua maioria por via aérea, ga-
técnico, mas também é fun- rantir a manutenção dos equipamentos e a
damental o conhecimento disponibilização de uma técnica de enferma-
situacional. Os dados de gem que acompanha o responsável técni-
saúde devem ser analisados, co, com dedicação prioritária ao programa.
interpretados e só então é Destacamos também o apoio da Área Técni-
possível o estabelecimento ca de Alimentação e Nutrição da FUNASA,
de metas e objetivos ade- responsável por promover a capacitação do
quados para resolução dos responsável técnico e pelo financiamento da
problemas da comunidade. capacitação descentralizada. O apoio cons-
Uma vez elaborado o pro- tante desta equipe, com comentários e crí-
grama, o que facilitou sua ticas construtivas ao programa formulado,
implantação foi a discussão foi de fundamental importância para a boa
com todos os segmentos elaboração do mesmo. A maior dificuldade
envolvidos com o mesmo. foi obter recursos para a complementação
Todos se sentiram co-parti- nutricional. Como o PRN foi iniciado com
cipantes de sua elaboração um grande número de crianças com baixo e
e, portanto, se encontraram muito baixo peso o recurso para compra dos
muito mais a vontade com insumos, arcado pelas associações indígenas
sua implantação. A equipe e conveniadas com a FUNASA, foi bastante
a comunidade perceberam elevado. Esta situação foi parcialmente re-
que não foi um programa solvida pela parceria com a Defesa Civil, que
– imposto-, e sim – constru- forneceu uma grande quantidade de leite.
36 ído com a participação de
todos. A iniciativa, se reali-
Estamos tentando renovar esta parceria, de
forma a reduzir as despesas com o comple-

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional
mento, ainda bastante elevadas, ainda que RECOMENDAÇOES:
hoje, menos crianças se encontrem necessi- O Sisvan é um instrumento
tando da fórmula. para identificação de indiví-
Os maiores obstáculos enfrentados para rea- duos e populações em risco
lização das atividades nas aldeias ocorreram nutricional, mas isoladamen-
onde os AIS têm mais dificuldade para rea- te não é capaz de modificar
lizar as práticas educativas por se tratarem uma situação. O desenvol-
de comunidades maiores. Nestas aldeias as vimento de programas de
rodas de conversa e reuniões, ainda que recuperação nas áreas crí-
realizadas rotineiramente, não atingem to- ticas é fundamental, mas
das as mães, o que leva a um desinteresse para seu êxito deve haver
pelo PRN. Nestas mesmas aldeias algumas articulação entre a equipe
mães acham que os filhos só devem ser pe- de saúde e a comunidade e
sados se forem receber leite, resquício de envolvimento de toda equi-
uma política assistencialista que vigorou no pe. Gestores interessados na
passado. Estão previstas intensificações de realização de um programa
ações de educação em saúde com objetivo como este precisam ter o in-
de reverter este quadro. Pela dificuldade de teresse genuíno em seguir a
comunicação, os agentes de saúde de uma máxima de Dom Mauro Mo-
das maiores aldeias do Distrito propuseram relli: – Que nenhuma criança
a realização de um vídeo, em língua nati- morra criança. Os gastos ne-
va, onde os próprios AIS apresentassem as cessários, além dos já aloca-
mães o PRN, a complementação nutricional, dos na equipe de saúde, se
a importância de valorizar os alimentos tra- referem à fórmula de com-
dicionais e o motivo da prática antropomé- plementação nutricional e a
trica. Esta ação está prevista para um futuro capacitação continuada das
próximo, pois o projeto permanece à espera equipes. No atual momen-
de financiamento. to vivido por nosso país, em
Outra dificuldade enfrentada foi a falta de que as políticas sociais en-
nutricionista permanente junto a equipe. contram eco junto aos seus
Embora contássemos em momentos impor- dirigentes e em que uma das
tantes – capacitação, avaliação inicial, elabo- prioridades está ligada às
ração do programa – com apoio de tal pro- questões de alimentação e
fissional, o mesmo não fez parte do quadro nutrição, a possibilidade de
regular. Por esse motivo algumas ações que se obter financiamento para
se fizeram necessárias foram postergadas ou
mesmo não puderam ser realizadas.
este programa é bastante
plausível, devendo ser consi-
37

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
para população indígena
5.2. Programa de recuperação nutricional derada. A partir da adesão bém em muitas outras equipes de saúde da
do gestor, o próximo passo família em todo o país, um programa como
é a elaboração do programa este pode ser facilmente executado, trazen-
propriamente dito. A equi- do uma importante contribuição para a me-
pe de supervisão do pro- lhora da situação de saúde das crianças e,
grama de saúde da família conseqüentemente, de toda comunidade.
pode se responsabilizar pela
elaboração deste programa
e é bastante farta a litera-
tura encontrada na Internet
sobre o assunto, inclusive
no site do Ministério da
Saúde. O programa só po-
derá ser concluído após am-
pla discussão com todos os
envolvidos em sua implan-
tação: profissionais de saú-
de, comunidade e gestores.
Lembra-se ainda que, para
o sucesso de um programa
deste tipo são fundamentais
as reavaliações constantes e
a disponibilidade de escutar
toda a equipe, estando os
responsáveis pelo mesmo
abertos a novas propos-
tas e idéias. Após pouco
mais de um ano de execu-
ção do PRN, sabe-se que o
caminho é este, mas é im-
portante manter-se atentos
para possíveis desvios que
possam prejudicar os obje-
tivos finais. Com o mesmo
carinho, boa vontade e dis-
38 posição da equipe, que cer-
tamente é encontrada tam-

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
Nome do Autor Principal: sos entre as equipes de saú-
SONIA AUGUSTA LEITÃO SARAIVA de mental e as equipes de
Outros Autores: saúde da família; definição
SONIA AUGUSTA LEITAO SARAIVA de fluxos de atendimento e
EVELYN CREMONESE elenco mínimo de atividades
Área Temática: Assistência na AB/SF em saúde mental por regio-
Local onde o trabalho foi realizado: nal. Resultados alcançados:
FLORIANÓPOLIS – SC Implantação do modelo de
apoio matricial em todos os
RESUMO: centros de saúde do muni-
A demanda de saúde mental na atenção bá- cípio; co-responsabilização
sica chega a 50% dos pacientes em diversos das equipes de saúde men-
estudos, e a Organização Mundial de Saúde tal e saúde da família pela
recomenda o tratamento dos transtornos demanda, com desconstru-
mentais leves na própria atenção básica como ção da lógica de referência
forma de melhorar a acessibilidade e a quali- e contra-referência; diminui-
dade da atenção. Baseado nestas premissas, ção ou eliminação das listas
a rede de saúde mental do município de Flo- de espera para atendimento
rianópolis tem sido reorganizada a partir da em saúde mental; criação de
Estratégia de Saúde da Família, integrando as espaço de educação perma-
equipes de saúde mental e saúde da família nente em saúde mental para
segundo uma lógica de apoio matricial. Obje- os profissionais da rede bá-
tivos: Garantir uma atenção em saúde mental sica. Lições aprendidas com
com enfoque comunitário, aumentando a re- a experiência: Verificou-se a
solubilidade das equipes de saúde da família importância da participação
por meio da integração com equipes de apoio dos demais serviços de saú-
em saúde mental. Metodologia: Discussão de de mental para o sucesso das
diagnóstico situacional do município e das equipes matriciais. Houve re-
diretrizes do Ministério da Saúde para saúde ceio de sobrecarga de traba-
mental na atenção básica com os profissionais lho por parte das equipes de
da rede básica e da saúde mental; definição saúde da família e resistência
de profissional de apoio para a reorganização a utilização dos grupos de
regional da saúde mental; territorialização das saúde mental como recurso
equipes regionais de saúde mental, que pas- terapêutico, ambos supera-
saram a ocupar um lugar de apoio às equi- dos pela discussão e reava-
pes de saúde da família; criação de espaços
de discussão e co-responsabilização pelos ca-
liação extensas no nível local.
Com a integração e co-res-
39

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
ponsabilização criadas, o sis- geral da ESF é – contribuir para a reorientação
tema regulador de consultas do modelo assistencial a partir da atenção bá-
por cotas tornou-se obsole- sica, em conformidade com os princípios do
to, e a agenda dos profissio- Sistema Único de Saúde (SUS), imprimindo
nais de saúde mental passou uma nova dinâmica de atuação nas unidades
a ser definida nas reuniões básicas de saúde, com definição de respon-
de matriciamento. Recomen- sabilidades entre os serviços de saúde e a po-
dações: No momento, esta pulação-(Brasil, 1997). Assim como a ESF, o
experiência está sendo ava- movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira
liada e os profissionais estão tem trazido contribuições importantes para a
passando por um curso para reformulação da atenção em saúde no país.
aperfeiçoamento da atenção Ambos defendem os princípios básicos do SUS
em saúde mental no modelo e propõem uma mudança radical no modelo
de apoio matricial. Acredita- de assistência à saúde, privilegiando a descen-
se que esta experiência possa tralização e a abordagem comunitária/familiar
reorganizar o atendimento em detrimento do modelo tradicional, centra-
em saúde mental a partir da lizador e voltado para o hospital. Essas políti-
rede básica, com a potencia- cas assistenciais vêm trazendo grandes avan-
lidade de modificar a manei- ços no processo de municipalização da saúde
ra de trabalhar o sofrimen- e têm transformado o modelo assistencial vi-
to psíquico nas equipes de gente em nosso país (Pereira, 2007). É grande
saúde da família, além de a demanda em saúde mental na atenção bá-
estimular uma integração de sica. Na década de 80 verificou-se que cerca
toda a rede de saúde mental de 50% dos pacientes atendidos na atenção
a partir do apoio às equipes básica eram portadores de transtorno mental
de saúde da família. comum (Mari, 1987). Um estudo da
Organização Mundial de Saúde (OMS) nos
INTRODUÇÃO: anos 90 revelou que 38% dos pacientes de
O município de Florianó- um ambulatório geral têm transtorno mental
polis, por meio da portaria (Villano, 1998). A OMS reforça que o mane-
283/2007, estabelece os jo e tratamento de transtornos mentais no
princípios e normas para a contexto da atenção básica é um passo fun-
organização da atenção bá- damental para possibilitar ao maior número
sica baseada na Estratégia de possível de pessoas ter acesso mais fácil e mais
Saúde da Família (ESF), cor- rápido aos serviços. Isso não só proporciona
40 roborando as diretrizes do
Pacto pela Saúde. O objetivo
uma atenção melhor como também reduz o
desperdício resultante de exames supérfluos

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
e de tratamentos impróprios ou não específi- lidade e especificidade de
cos. Nesse sentido, a III Conferência Nacional cada comunidade. Para tal,
de Saúde Mental recomenda que a reorgani- houve a reorganização das
zação da Rede de Atenção Integral à Saúde equipes de SM da atenção
Mental enfatize a Atenção Básica, entenden- básica em equipes de apoio
do esta como um conjunto de unidades e matricial às equipes de SF. O
ações articuladas em um território, sob o eixo apoio matricial é um arran-
do acolhimento, vínculo e heterogeneida- jo tecnoassistencial que visa
de. As equipes de saúde da família (SF) e de à ampliação da clínica das
saúde mental (SM) são parceiros naturais na equipes de SF, desviando a
atenção em saúde mental, já que nenhuma, lógica de encaminhamentos
isolada, é capaz de prover uma atenção inte- indiscriminados para uma ló-
gral ao paciente com transtorno mental. Suas gica de co-responsabilização,
funções são complementares, com cada uma pretendendo uma maior re-
tendo um papel em diferentes estágios da solutividade à assistência em
vida do indivíduo e de seu sofrimento psíqui- saúde (Dorsa, 2006).
co. No Canadá, por exemplo, mais de 50%
das pessoas com transtorno mental em tra- OBJETIVOS:
tamento recebem assistência do médico de – Garantir às pessoas com
família, frequentemente sem o envolvimen- transtorno mental uma aten-
to de outros serviços (Shared Mental Health, ção baseada no enfoque co-
Canadá, 1996). munitário.
Entretanto, para otimizar a assistência em – Estruturar um processo as-
saúde mental, as equipes de SF precisam ter sistencial desde a perspectiva
o apoio e trabalharem próximo dos profissio- da continuidade do cuidado,
nais e serviços de saúde mental. O trabalho como elemento de uma qua-
integrado das equipes de SF e SM enriquece o lidade integral.
cuidado que cada uma pode oferecer e facilita – Aumentar a qualidade da
uma abordagem biopsicossocial, aumentando assistência em saúde mental.
a qualidade de vida dos indivíduos e comu- – Facilitar o acesso à consulta
nidades. Também propicia um uso mais efi- com o especialista e aos ser-
ciente e efetivo dos recursos e pode aumentar viços especializados, quando
as habilidades e a satisfação dos profissionais. necessário.
Baseado nessas premissas, a rede de saúde – Melhorar a comunicação
mental do município de Florianópolis passou entre os profissionais e a in-
a ser organizada a partir da ESF, buscando
uma compreensão mais aproximada da rea-
tegração entre os centros de
saúde de atenção básica e os
41

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
serviços de SM. fragmentada, com profissionais e serviços
– Aumentar as habilidades e atuando de forma desarticulada e enormes
a segurança das equipes de listas de espera tanto nos Centros de Atenção
SF para trabalhar com a saú- Psicossocial (CAPS) como nos ambulatórios de
de mental. psiquiatria e psicologia da atenção básica. As
– Aumentar a efetividade diretrizes desse processo foram estabelecidas
dos profissionais de SM no a partir de uma revisão das recomendações do
atendimento aos portadores Ministério da Saúde e de experiências exitosas
de transtorno mental e no nacionais e internacionais, adaptadas para as
apoio às equipes de SF. condições e necessidades do município. Tais
– Estimular o apoio mútuo diretrizes foram levadas à discussão e avaliação
no manejo de problemas pelos profissionais diretamente implicados,
complexos de saúde mental. tanto os de SM como os de SF, estimulando
– Propiciar o uso mais efi- sua participação e incorporando suas contri-
ciente e efetivo dos recursos buições ao longo do processo. Atualmente, o
disponíveis. município que tem uma população estimada
– Possibilitar a construção de em 396.723 habitantes (IBGE, 2000), conta
projetos de prevenção e de- com 87 equipes de SF distribuídas em 48 Cen-
tecção precoce de transtor- tros de Saúde divididos em cinco regionais de
nos mentais. saúde. Com a nova estruturação, a SM passou
a ocupar um lugar de apoio às equipes de SF.
METODOLOGIA: Os psicólogos e psiquiatras atuam com base
Um diagnóstico situacional em um território definido, que pode compre-
foi realizado com base em ender toda a Regional ou algumas equipes de
relatório produzido por um SF dentro de uma mesma Regional. As equipes
grupo de trabalho, compos- de apoio se co-responsabilizam pelos casos e
to pela assessoria técnica de estruturam sua forma de atuação conforme a
saúde mental e por profis- necessidade das diversas unidades de saúde,
sionais de SM de diferentes tendo a SF como coordenadora do cuidado.
categorias profissionais e ser- Criam-se, então, espaços periódicos e formais
viços. Foi definida a necessi- de discussões de casos entre as equipes de SM
dade de reestruturação do e SF, as reuniões de matriciamento, onde são
modelo tecnoassistencial da definidas as estratégias e ações a serem ado-
saúde mental com a implan- tadas. Esse modelo tem como função princi-
tação do modelo de apoio pal possibilitar um espaço de troca de saberes,
42 matricial, tendo em vista a
constatação de uma rede
além de fornecer suporte técnico especializado
e intervenções que auxiliam as equipes de SF

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
a ampliar sua clínica e sua escuta (Figueiredo, ser o modelo usual, optou-
2005). Dispositivos de educação permanente se por privilegiar os princí-
também foram estimulados nestes espaços, pios de co-responsabilização
como atendimento e intervenções em conjun- e continuidade do cuidado:
to e discussão de casos e de textos, aumen- em nossa experiência, a equi-
tando a capacidade resolutiva de problemas pe de SM que participa das
de saúde mental pela equipe local. Os casos a reuniões de matriciamento
serem atendidos especificamente pela equipe é, também, responsável pelo
de SM são decididos em conjunto nas discus- atendimento específico dos
sões de caso. Quando a equipe de SF, antes da casos. Desse modo, evita-se
reunião de matriciamento, tem dúvida quan- que haja um simples desloca-
to à necessidade de atendimento de urgên- mento da lógica do encami-
cia pelo psiquiatra ou em outro dispositivo da nhamento – do profissional
rede, deve discutir o caso com um profissional matriciador em SM para o
de SM, para orientação e conduta. Cada terri- profissional que presta assis-
tório de atuação deve contar com pelo menos tência em SM –, o que propi-
um grupo de apoio em saúde mental, aberto, cia a desresponsabilização, e
conduzido por um profissional da equipe de garante-se que a equipe de
apoio de SM, preferencialmente em conjunto SF continue acompanhan-
com um membro da equipe de SF. A existên- do o caso, independente de
cia desses grupos visa a possibilitar o acesso quem está prestando a as-
mais rápido a uma avaliação inicial que pos- sistência direta (equipe de SF
sibilite condutas mais adequadas, priorizando ou SM). Permite a constru-
os casos de mais alto risco e facilitando um ção conjunta de um plano
diálogo rápido e dinâmico com as equipes, a terapêutico em que ambos
fim de que estas se sintam apoiadas em sua se responsabilizam por di-
demanda. Além desses, existem grupos espe- ferentes intervenções, que
cíficos em SM de temáticas diversas. A escolha podem ser aplicadas ou não
dos temas e o planejamento dos grupos de- ao mesmo tempo. E favore-
vem ser feitos em conjunto com as equipes de ce o estabelecimento de um
SF, considerando as necessidades prioritárias vínculo entre os profissionais
de saúde mental da localidade em que cada que repercute na valorização
profissional atua. Existem várias experiências, do vínculo como estratégia
em diferentes municípios do Brasil, de equi- terapêutica. Para operacio-
pes volantes matriciais, baseadas ou não nos nalizar esta proposta, optou-
CAPSs, que participam exclusivamente das
reuniões de matriciamento. Apesar de esse
se por um trabalho regionali-
zado, com a presença de um
43

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
profissional ligado à assesso- são da proposta de trabalho nas reuniões de
ria técnica de saúde mental equipe dos centros de saúde, com adaptação
atuando como apoio institu- para cada realidade local. Manutenção de um
cional. Este profissional ficou espaço de comunicação constante para dúvi-
responsável pela implanta- das, propostas, reavaliações com os diversos
ção do modelo no nível local atores. Essa seqüência teve poucas alterações
e funcionou como elo de co- nas diversas regionais; algumas ações foram
municação entre as equipes priorizadas ou demandaram mais tempo para
de SF e SM e entre estas e a conclusão, de acordo com a realidade local.
os setores administrativos da O trabalho iniciou-se na Regional Continen-
SMS. Cada Regional teria a te, por ser a mais populosa, com maior con-
presença do apoiador insti- centração de áreas de interesse social e com
tucional por um período de as maiores listas de espera para atendimento
cerca de três meses, porém psiquiátrico e psicológico. Já havia sido reali-
sempre se mantendo a pos- zado um mutirão de atendimentos com a aju-
sibilidade de retorno quando da dos profissionais do CAPS álcool e drogas
fosse necessário ou quan- (psiquiatras e psicólogos), com pouco impacto
do fosse solicitado. Foi feito sobre o problema apresentado. Além disso, a
um planejamento de ações a Coordenação da Regional Continente mostra-
serem implantadas em cada va-se aberta ao diálogo e estava em contato
regional, com a seguinte se- constante com a Assessoria de Saúde Mental
qüência: Reunião com a co- a fim de buscar soluções para a questão. Por
ordenação da Regional e os ser o início, cada etapa foi mais prolongada
profissionais de SM da mes- e cuidadosamente avaliada para possíveis
ma, apresentando esta pro- readaptações. A participação das demais re-
posta, abrindo espaço para gionais se deu por ordem de necessidade de
discussão e avaliando outras intervenção. Atualmente todas as Regionais
idéias que pudessem contri- atuam dentro desse modelo, sendo este um
buir para o processo; Reu- momento de consolidação e avaliação contí-
nião com os coordenadores nua dos resultados como forma de retro ali-
de cada centro de saúde da mentar o processo.
Regional; Definição de um
cronograma semanal de tra- RESULTADOS ALCANÇADOS:
balho com cada profissional, – Implantação do modelo de apoio matricial
em que fossem contempla- em todos os centros de saúde do município.
44 das as diretrizes principais
do modelo proposto; Discus-
– Em 2007, segundo o DATASUS, foi cons-
tatada uma redução significativa de 22% do

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
total de internações hospitalares por trans- – Estímulo à mobilização
tornos mentais e comportamentais (cap.V do de recursos comunitários, a
CID-10). Ainda que sejam necessários mais es- partir da atuação mais próxi-
tudos para definir as causas, essa diminuição ma das equipes de SM com
corresponde ao período de reorganização da os centros de saúde de sua
atenção em saúde mental do município com a área de abrangência e uti-
adoção do modelo de apoio matricial, poden- lização de espaços da co-
do este ser apontado como um dos possíveis munidade para a formação
fatores responsáveis. de grupos (centros comuni-
– Co-responsabilização pela demanda – tan- tários, salões de igreja, es-
to a equipe de SF como a equipe de SM é colas), possibilitando ainda
responsável por determinado território –, com ações de promoção e pre-
desconstrução da lógica de referência e con- venção em saúde mental.
tra-referência (que nem sempre existia) que Salienta-se que os três CAPS
favorecia a desresponsabilização e dificultava existentes atualmente (CAPS
o acesso da população. O cuidado comparti- II, CAPS infantil e CAPS álco-
lhado, que prevê uma rede de ações, dispo- ol e drogas), localizam-se na
sitivos de saúde e dispositivos comunitários, região central do município,
possibilita que a trajetória do tratamento se e o único hospital para inter-
organize tendo como eixo central o sujeito nação psiquiátrica situa-se
e suas vicissitudes. O locus do tratamento se em outro município, o que
revela mutável ao longo do tempo, com in- dificulta o acesso de grande
tensificação no ponto da rede em que o trata- parte da população a estes
mento demonstra ser mais viável, seja este na serviços; muitos casos gra-
atenção primária, nos serviços especializados ves, que necessitariam de
ou em ambos. Assim, todos são responsáveis acompanhamento mais in-
pela garantia do acesso, da equidade e da uni- tensivo em um dispositivo
versalidade (Pereira, 2007). A responsabiliza- de saúde mental de maior
ção compartilhada pelos casos exclui a lógica complexidade, permanecem
do encaminhamento, pois visa aumentar a na atenção básica por ques-
capacidade resolutiva da equipe local, estimu- tões geográficas e sócio-
lando a interdisciplinaridade e a aquisição de econômicas, o que reforça a
novas competências. (Brasil, 2004). importância das ações locais
– Reorganização da demanda, com a implan- de saúde mental.
tação de uma avaliação de risco, e fim das lis- – Planejamento das ações
tas de espera por ordem cronológica, favore-
cendo a acessibilidade ao sistema de saúde.
em SM junto com as equipes
de SF, a partir da demanda
45

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
local, o que permite a ado- SM, sempre mantendo o vínculo e o diálogo
ção de estratégias com maior com a SF. Convém ressaltar que esse fluxo
resolubilidade e aumento da não é rígido, portanto, se um indivíduo pro-
aderência ao tratamento. curar qualquer um dos dispositivos da rede,
– Articulação das equipes de deve ser avaliado e encaminhado para o ser-
SM regionalizadas com os viço que melhor de adequou as suas neces-
CAPS dentro da lógica ma- sidades no momento. Assim, os CAPSs pas-
tricial, organizando o fluxo saram também a atuar dentro da lógica de
de atendimento e o processo matriciamento, o que propiciou a ampliação
de trabalho de modo a tor- do alcance de suas ações. Garante-se assim
nar horizontais as especia- o planejamento terapêutico individualizado,
lidades e permitir que estas realizado em conjunto nas diversas esferas da
permeiem toda a atuação rede. A pessoa pode transitar pelas diversas
das equipes de saúde. O instâncias dos serviços de saúde, dependendo
CAPS é um serviço de refe- da sua necessidade. Para tanto, é imprescin-
rência para casos graves, que dível a existência de um espaço de discussão
necessitem de cuidado mais de caso entre a ESF, equipe de referência em
intensivo e/ou de reinserção saúde mental e CAPS.
psicossocial e ultrapassem as – O modelo de apoio matricial acaba por
possibilidades de intervenção tornar-se também uma estratégia de educa-
conjunta das equipes de SF ção permanente, por meio dos espaços de
e SM regional. São serviços discussão, da troca de saberes, do atendi-
substitutivos às internações mento em conjunto e do estudo de casos e
psiquiátricas, quando pos- temas. Isso se viabiliza em nosso município
sível. As equipes de saúde por meio de reuniões regulares entre os pro-
mental passaram a assumir fissionais, que ocorrem:
um papel de articulação en- – Com freqüência definida de acordo com a
tre o CAPS e as equipes de realidade local, entre as equipes locais de SF e
saúde da família, favorecen- equipes regionais de Saúde Mental (reuniões
do a organização do fluxo. de matriciamento);
Casos atendidos pelo CAPS – Mensalmente, entre os profissionais de Saú-
passaram a ser discutidos em de Mental de cada regional e representantes
reuniões regulares entre os dos CAPS. Além desses espaços de discussão
CAPSs e as equipes de apoio técnica, existe uma reunião mensal entre os
regional em SM. Após esta- profissionais de Saúde Mental e a assessoria
46 bilização, são acompanha-
dos pela equipe regional de
técnica em saúde mental (responsável pela co-
ordenação do programa de saúde mental).

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
– Ao longo do processo, e apesar da função exclusivamente responsá-
de educação permanente descrita acima, foi veis por essa demanda. Tal
constatada uma necessidade de capacitação ação mostrou-se fundamen-
dos profissionais da atenção básica e de atu- tal para a reorganização do
alização dos profissionais de SM. Buscou-se modelo, pois os grupos ope-
oferecer ambas de maneira simultânea e inte- rativos visam a intervir na re-
grada, estimulando a interdisciplinaridade e o alidade das equipes de saúde
trabalho dentro do modelo assistencial adota- das unidades promovendo,
do. Para tal, foi contratada uma consultoria de por meio de abordagem in-
um grupo de profissionais com ampla experi- terdisciplinar baseada na di-
ência e publicações sobre o tema, vinculados nâmica do trabalho em equi-
a diferentes universidades do país, que vem pe, a integração desta e o
realizando um curso de aperfeiçoamento em desenvolvimento de relações
saúde mental na atenção primária, nos moldes horizontais, comunicação e
do apoio matricial, com módulos presenciais capacidade de enfrentamen-
e à distância (videoconferência). Uma parte to das dificuldades.
considerável do curso é de treinamento em – Outras especialidades pas-
serviço, estimulando-se o trabalho integrado saram a atuar dentro da lógi-
das equipes de SF e SM e reproduzindo-se o ca matricial, culminando com
atual modelo assistencial adotado no municí- a publicação da portaria mu-
pio. Os temas abordados partem das necessi- nicipal Nº. 283/2007, que es-
dades dos profissionais e de sua prática diária. tabeleceu as diretrizes e nor-
Além dos temas específicos de saúde mental, mas para a organização da
são debatidos os papéis de cada categoria Atenção Básica baseada na
profissional e o trabalho interdisciplinar. Estratégia de Saúde da Famí-
– Nas reuniões de equipe dos centros de saú- lia e definiu que – as equipes
de, durante a implantação deste modelo, de Apoio as ESF, serão orga-
surgiu um pedido quase unânime de atendi- nizadas em cada Regional de
mento dos próprios profissionais das equipes. Saúde, compostas pelas Es-
Entretanto, com o modelo de co-responsabi- pecialidades de Pediatria, Gi-
lização adotado, as equipes de SM também necologia, Geriatria, Saúde
se sentiam integrantes daquelas equipes e, Mental (Psiquiatria e Psicolo-
como tal, pouco à vontade de ficar responsá- gia), Assistência Farmacêuti-
vel por sua assistência. Optou-se, então, pela ca, e outras de interesse da
organização de grupos operativos nos centros SMS, por meio de ações de
de saúde, coordenados por profissionais de
fora da rede de saúde mental, que ficaram
matriciamento, obedecendo
à ESF, especialmente quanto
47

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
à co-responsabilização sobre tiveram grande receio de ficarem sobrecarre-
um território definido, ser- gadas com a mudança do modelo, de terem
vindo como retaguarda as- que “dar conta sozinhas” de toda a demanda
sistencial e suporte técnico- de saúde mental. Ao longo do processo, foi
pedagógico às Equipes”. bastante trabalhada a escuta das queixas e su-
gestões dessas equipes, com o fim de estrei-
LIÇÕES APRENDIDAS COM tarmos o vínculo entre as equipes de SF e SM
A EXPERIÊNCIA: e efetivamente construirmos um trabalho in-
Conforme as ações de saúde tegrado. O papel do profissional de apoio ins-
mental passaram a ser imple- titucional tem sido estimular a integração das
mentadas na atenção básica, equipes, sedimentar a implantação do matri-
os casos que necessitavam ciamento e avaliar continuamente o processo
de outros recursos começa- para correção de falhas e desenvolvimento de
ram a ficar mais evidentes. O novas estratégias. Observou-se uma grande
município não conta com to- resistência por parte das equipes dos centros
dos os dispositivos de saúde de saúde (equipes de SF) em orientar a par-
mental recomendados pelo ticipação dos usuários nos grupos de apoio
Ministério da Saúde, entre- de saúde mental. A justificativa era sempre a
tanto, também se observa questão do sigilo na comunidade, entretanto
uma desarticulação entre os o que se observava era a grande dificuldade
serviços existentes. Com base dos profissionais na realização desse tipo de
nas experiências exitosas que intervenção, desconfiança quanto a sua eficá-
vinham ocorrendo entre as cia e falta de espaço físico. Algumas garantias
equipes de saúde da família foram fundamentais para a aceitação deste
e de saúde mental, foram trabalho pelas equipes locais: formação de
criados espaços de discussão outros grupos, planejados em conjunto com
regulares entre as equipes de as equipes de SF, que atendessem a deman-
saúde mental das regionais e da mais prevalente; permanência de espaços
os CAPS. Para maior integra- de atendimento individual; e a realização dos
lidade de ações, foram con- grupos fora das unidades, em espaços como
vidados a participar, ainda, centros comunitários, salões de igreja, esco-
nestas reuniões os profissio- las. Com a formação dos grupos iniciais, hou-
nais dos Centros de Refe- ve uma diminuição crescente da resistência
rência de Assistência Social. dos profissionais das equipes de SF em enca-
Inicialmente, as equipes de minharem os usuários, ao mesmo tempo em
48 SF, principalmente os médi-
cos de família e comunidade,
que crescia a adesão dos mesmos. Em alguns
centros de saúde foi criado mais de um grupo

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
aberto de apoio de saúde mental, devido à mento. A reorganização do
grande quantidade de participantes. A relação modelo assistencial permitiu,
entre os pacientes, fator terapêutico específi- também, um conhecimento
co das terapias de grupo, é um recurso extre- maior da demanda em saú-
mamente poderoso para promover mudança de mental em cada Regional
(Yalom, 1985). Assim, o grupo terapêutico de Saúde, inclusive para jus-
permite a criação de uma situação interpes- tificar a necessidade de mais
soal potencialmente mais poderosa que o re- profissionais de SM e definir
lacionamento terapeuta-paciente na terapia seus territórios de atuação.
individual (Peluso et al., 2001). Na primeira Em 2007, foi inaugurada a
Regional em que foi implantado o modelo de primeira Policlínica do muni-
apoio matricial (Regional Continente), estabe- cípio, um centro de atenção
leceu-se inicialmente um sistema de cotas de secundária, com diversas es-
vagas para consultas de pacientes novos com pecialidades. Constatou-se
o psiquiatra (uma vaga semanal para cada um uma enorme dificuldade dos
dos 11 centros de saúde), devido a grande especialistas em trabalharem
lista de espera, agenda sobrecarregada do com as equipes de SF e de
psiquiatra e resistência dos profissionais em SM (principalmente com o
mudar o modelo de encaminhamento. Para- psiquiatra) dentro do mo-
lelamente, o número de turnos do psiquiatra delo de apoio matricial. As
para as reuniões de matriciamento foi aumen- demais especialidades, que
tando gradativamente de um até três turnos seguem trabalhando no mo-
semanais. Apesar de a maioria dos centros de delo tradicional de encami-
saúde aderir às reuniões de matriciamento, nhamento, por meio de um
esse modelo misto permitiu que as unidades sistema informatizado de
mais resistentes cristalizassem sua posição, regulação de vagas, querem
não participando das reuniões e permanecen- encaminhar direto ao psi-
do com listas de espera crescentes. Apesar da quiatra, com pouco entendi-
diminuição inicial nas listas de espera, o psi- mento sobre as ações da ESF.
quiatra, que recebia casos novos das reuniões Como os casos a serem aten-
de matriciamento e também pelo sistema de didos individualmente pelo
cotas semanais, voltou a ficar sobrecarregado. psiquiatra e pelo psicólogo
Diante disso, da aceitação do novo modelo são decididos em conjunto
pela maioria dos centros de saúde e do apoio com as equipes de SF, nas
da Coordenação Regional à proposta, aca- reuniões de matriciamento,
bou-se por eliminar o sistema de cotas, para
a adoção do matriciamento a pleno funciona-
e devido à experiência pou-
co exitosa do modelo misto
49

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.3. Implantação do modelo de apoio matricial
em saúde mental no Município de Florianópolis - SC
(sistema de cotas de vagas e mental, incluindo também os CAPS dentro da
matriciamento) na Regional lógica matricial. Este arranjo assistencial, de in-
Continente, optou-se por tegração entre as equipes de SF e o conjunto
não incluir a equipe de saúde dos dispositivos de SM, possibilita que a ESF as-
mental no sistema informati- suma seu papel de reordenador do modelo as-
zado de regulação de vagas, sistencial em saúde a partir da atenção básica.
a fim reforçar o trabalho A simples reorganização da rede assistencial de
conjunto das equipes de SF e saúde mental permitiu também que fosse cria-
SM e a co-responsabilização do um espaço de educação permanente para
pela demanda. O número os profissionais de SF. Educação permanente
de atendimentos individuais é aqui entendida como uma estratégia de de-
dos profissionais de saúde senvolvimento da saúde, baseada em proces-
mental deixa de ser regulado sos de aprendizagem presentes durante toda
simplesmente por cotas para a vida profissional, que tem como eixos princi-
ser definido pela necessida- pais a problematização e a transformação dos
de dos profissionais e usuá- serviços de saúde, a participação consciente e
rios de cada centro de saú- ativa dos trabalhadores e um alto grau de mo-
de. O perfil do profissional tivação e compromisso com a maior qualidade
de saúde mental determina do desempenho profissional (Hatim, 2002). O
o trabalho que vai ser esta- modelo de apoio matricial, assim, ao aumentar
belecido. Ainda há necessi- a capacidade das equipes de SF de lidar com
dade de um maior incentivo, o sofrimento psíquico e integrá-las com os de-
na graduação, ao trabalho mais pontos da rede assistencial, possibilita que
interdisciplinar, repercutindo o tratamento dos transtornos mentais aconte-
no cotidiano do trabalho e ça efetivamente a partir da atenção básica. O
constituindo-se em um desa- modelo de apoio matricial adotado pela rede
fio diário o trabalho em equi- de saúde mental do município de Florianópo-
pe, a divisão de tarefas e a lis está, ainda, em consonância com a portaria
definição dos papéis de cada GM 154, de 24 de janeiro de 2008, que cria
profissional. o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF),
servindo como um exemplo de organização e
RECOMENDAÇÕES: planejamento de ações que pode contribuir,
O projeto que, inicialmente, também, para o trabalho das demais especia-
envolvia apenas as equipes re- lidades do NASF.
gionais de SM e equipes de SF
50 acabou por permear a organi-
zação de toda a rede de saúde

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
Nome do Autor Principal: coce dos recém-nascidos de
ROGERIO ANTONIO TUON risco. Essas crianças foram
Outros Autores: acompanhadas de maneira
FABIOLA MARIA STOLSES BERGAMO MA- diferenciada nas Unidades
CHADO básicas, uma vez que a No-
VERA ANTONIETA FURLAN tificação informou os riscos
Área Temática: Integralidade da Atenção na identificados e quais eram
AB/SF essas crianças, mesmo antes
Local onde o trabalho foi realizado: de elas chegarem às Unida-
PIRACICABA – SP des básicas de referência.
Ocorreu o fortalecimento da
RESUMO: rede básica, além de uma
A identificação precoce das situações de ris- aproximação com a atenção
co a que um recém-nascido está submetido terciária, que passou a ser
permite objetividade e melhoria na qualidade incluída na rede de monito-
do seu acompanhamento, que passa a ser di- ramento dos recém-nascidos
ferenciado, em todos os níveis de atenção à de risco, de maneira eficaz.
Saúde. Associada ao bom acompanhamento Houve ainda uma maior mo-
de gestantes e à adequada atenção ao parto tivação e sensibilização de
contribui para a redução do Coeficiente de cada profissional da Saúde
Mortalidade Infantil, nos componentes neo- quanto à importância de se
natal e, principalmente, no pós-neonatal. Esse conhecer os critérios de risco
trabalho tem por objetivo avaliar se houve e no acompanhamento di-
melhora no monitoramento dos recém-nasci- ferenciado dessas crianças.
dos identificados como de risco, após a cria- Palavras chaves: Avaliação
ção e aplicação de um instrumento chamado de risco ao recém-nascido.
Notificação de Recém-Nascido de Risco, um Diminuição da mortalidade
informe preenchido ainda nos hospitais, no infantil. Coeficiente de Mor-
momento da alta do recém-nascido e enca- talidade Infantil. Monitora-
minhado, por fax, à Coordenação da Aten- mento da criança de risco.
ção Básica, que articulou o acompanhamento Parceria entre Atenção Bási-
diferenciado desses bebês, em parceria com ca e Atenção terciária.
as Equipes de Saúde da Família, na atenção
básica. Como resultado, encontramos uma INTRODUÇÃO:
diminuição significativa no Coeficiente de A identificação das situações
Mortalidade Infantil de Piracicaba após o iní-
cio das ações buscando a identificação pre-
de risco a que uma criança
está exposta, desde o nasci-
51

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
mento, é de vital importân- entre 28 dias de vida até o final do primeiro
cia para seu seguimento. Ela ano de vida. O componente neonatal aponta
deve ser feita o mais preco- claramente aos óbitos relacionados às condi-
cemente possível e compar- ções de seguimento no pré-natal e do parto.
tilhada, para que em cada Já no componente pós-neonatal, a mortali-
oportunidade, a equipe de dade está mais associada às condições do
saúde possa intervir buscan- seguimento e acessibilidade da criança aos
do diminuir cada situação de serviços de Saúde. A maior parte dos óbitos
risco anteriormente encon- ocorre no período neonatal. Portanto, para
trada. Assim, busca-se quali- diminuir a mortalidade nesse período, faz-se
dade no atendimento, além necessário uma maior atenção à gravidez e
de melhoria dos índices de ao parto. Após o nascimento, ações como in-
saúde do município. A taxa centivo ao aleitamento materno exclusivo e a
de mortalidade infantil (TMI) identificação precoce dos recém-nascidos de
é um dos indicadores mais risco, para uma vigilância intensificada, con-
sensíveis para apontar a qua- tribuem para a diminuição dos óbitos infantis,
lidade da atenção em saúde principalmente no período pós-neonatal. Em
oferecida a uma população, abril de 2005, visando à diminuição da taxa
em determinada cidade de mortalidade infantil em Piracicaba, que
ou país. Com ela, pode-se não apresentava queda significativa nos anos
comparar a atenção e prio- anteriores, foi firmado o Pacto para Redução
ridades na Saúde de deter- da Mortalidade Infantil (Pacto), envolvendo
minado município com as de toda atenção primária, secundária e terciária
outro, ou então avaliar, por do município, além das Secretaria Municipais
exemplo, intervenções reali- de Educação e Assistência Social e Organiza-
zadas dentro do próprio mu- ções não Governamentais da Sociedade Civil.
nicípio. Essa taxa representa Foi então priorizada, toda ação voltada para
o número de óbitos em me- a qualidade das ações de saúde para gestan-
nores de um ano de vida tes e crianças menores de um ano de idade.
para cada 1.000 nascidos Esse Pacto teve como princípios fundamen-
vivos, no mesmo intervalo tais: a classificação de risco para toda gestan-
de tempo. Ela é classificada, te e crianças menores de 01 ano e acompa-
rotineiramente, em dois pe- nhamento diferenciado para as gestantes e
ríodos: o neonatal, quando crianças classificadas como de médio e alto
o óbito ocorre nos primeiros risco. Essa classificação baseou-se em estudo
52 27 dias de vida e o pós-neo-
natal, quando o óbito ocorre
realizado pelo Banco de Dados da Secretaria
Municipal de Saúde de Piracicaba, onde se

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
buscaram as causas mais freqüentes de óbi- cém-nascido da rede pública
tos classificados como evitáveis. Em relação do município de Piracicaba,
ao acompanhamento diferenciado, além do segundo critérios pré-esta-
número de consultas ampliado, da prioriza- belecidos. O estudo foi feito
ção de atendimento para consultas e visitas mensurando-se as interven-
domiciliares, foi implementada a Notificação ções realizadas pela Coorde-
de Recém-Nascido de Risco, que consistiu em nação das Equipes de Saú-
um informe preenchido pela equipe dos hos- de da Família, por meio do
pitais (Atenção Terciária) no momento da alta Núcleo de apoio ao Pacto
hospitalar, detalhando os riscos encontrados de Redução da Mortalidade
e enviado para a Atenção Básica (Atenção Infantil na rede pública mu-
Primária), a fim de melhorar a vigilância nes- nicipal, para cada Notifica-
ses casos na rede básica, aumentando assim, ção de Risco recebida. Esta
as chances para a redução de mortalidade in- notificação de risco foi ela-
fantil em Piracicaba. borada como instrumento
facilitador para a vigilância
OBJETIVOS: nos vários níveis de atenção
O objetivo deste estudo foi avaliar se a im- àqueles recém-nascidos que
plementação da Notificação de Recém-Nas- preenchiam os critérios de
cido de Risco, realizada pela Atenção Terci- risco, critérios estes identifi-
ária e encaminhada para a Coordenação da cados pelo Banco de Dados
Atenção Básica, e posteriormente para as 29 Municipal de Piracicaba, na
Equipes de Saúde de Família, informando os época da criação do Pacto.
riscos encontrados no momento da alta hos- Os critérios de risco consi-
pitalar, no período de novembro de 2006 derados para a vigilância fo-
até abril de 2008, contribuiu para melhorar ram:
o monitoramento e a vigilância dos recém- – Idade materna, sendo
nascidos de risco nestas unidades, ações considerada adolescente se
que fazem parte das diretrizes da Estraté- menor que 18 anos;
gia de Saúde da Família e que fortalecem os – Escolaridade materna,
princípios de eqüidade e integralidade, do sendo considerada de risco,
Sistema Único de Saúde. se não completou ensino
fundamental;
METODOLOGIA: – Intervalo interpartal, con-
Descrevemos a experiência da criação de um siderado de risco se menor
instrumento que possibilitou a identificação
precoce das situações de risco para todo re-
que um ano;
– Gestação múltipla;
53

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
– Presença de infecção uri- das capacitações para as equipes de enfer-
nária, na gestante; magem dos hospitais conveniados com a
– Hipertensão arterial ma- Secretaria Municipal de Saúde de Piracicaba,
terna; Hospital dos Fornecedores de Cana e da San-
– Diabetes gestacional; ta Casa da Misericórdia de Piracicaba, quan-
– Antecedente obstétri- to à importância da aplicação e atenção aos
co do parto prematuro ou critérios de risco e do correto preenchimento
óbito fetal; da Notificação, objetivando uma vigilância
– Renda familiar, sendo con- diferenciada ao recém-nascido de risco e for-
siderada de risco se menor necimento de parâmetros para o adequado
que 3 salários mínimos; seguimento após alta hospitalar, na Atenção
– Idade gestacional ao nas- Básica, principalmente nas Equipes de Saúde
cimento, sendo considera- da Família. As Notificações foram preenchidas
do de risco se menor que pela equipe de enfermagem dos hospitais, no
37 semanas; momento da alta hospitalar do recém-nascido
– Peso do RN ao nascer, se identificado como de risco, e foram enviadas
menor que 2500g; via fax ao Núcleo de Apoio ao Pacto, um ser-
– Mãe em drogação; viço centralizado, com espaço físico próprio,
– RN ou criança com doença localizado dentro da Sede Administrativa da
de refluxo gastroesofágico; Atenção Básica. A Equipe responsável pelo
– Internações por pneumo- Núcleo de Apoio ao Pacto foi composta por
nia ou diarréia. uma enfermeira, uma assistente social, uma
Foi elaborada então, a ficha psicóloga e uma estagiária do serviço social,
de notificação, composta além dos médicos coordenadores dos Progra-
pelos seguintes itens: mas da Saúde da Criança e Saúde da Mulher
– Motivo da internação; e do Adolescente. As principais ações realiza-
– Tempo de internação na das por esta equipe foram:
UTI e/ou Enfermaria; - Receber, datar e assinar as Notificações;
– Condições de alta e uso - Estudar cada Notificação, em conjunto com
de medicações; os responsáveis pela mesma, complementan-
– Local de encaminhamento do os dados necessários para o acompanha-
para o acompanhamento do mento do caso em pauta;
RN ou Criança; - Monitorar cada caso, imediatamente ao
– Comentários importan- receber a Notificação de Risco, por meio de
tes para o seguimento da telefone, fax, e-mail e/ou visita domiciliar,
54 criança.
Em seguida, foram realiza-
com profissionais das Unidades de Saúde,
órgãos e serviços da Secretaria Municipal de

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
Saúde e outras Secretarias, Hospitais, Escolas nação da Atenção Básica 52
de Educação Infantil e Organizações não go- notificações de risco de re-
vernamentais parceiras. Nessa comunicação, cém-nascidos pertencentes
levantar todas as informações e efetuar os às áreas de abrangência de
questionamentos, orientações e encaminha- Equipes de Saúde da Família.
mentos pertinentes, tais como: o estado de Do total, foram realizadas as
saúde do bebê naquele momento, as orien- seguintes intervenções pelo
tações e encaminhamentos trazidos do hos- Núcleo de Apoio ao Pacto,
pital, as providências a serem tomadas para o buscando o monitoramento
cumprimento das referidas prescrições, como e demais intervenções:
está sendo a alimentação do bebê, incentivo – 75% das notificações hou-
ao aleitamento materno exclusivo, seguran- ve contato telefônico com a
ça da mãe em relação aos cuidados com o família do recém-nascido;
bebê, colaboração nos cuidados com a crian- – 100% contato telefôni-
ça, agendamentos de consultas; co com a Equipe de Saúde
– Elaborar relatórios individuais, arquivando- da Família responsável pela
os em pastas por Unidade de Saúde da Rede criança;
de Atenção Básica; – 80% das Equipes da Saú-
– Fazer visitas domiciliares em conjunto com de da Família receberam a
as Unidades de Saúde, em todos os casos em visita do Núcleo de Apoio ao
acompanhamento, quantas vezes forem ne- Pacto, após o contato tele-
cessárias; fônico;
– Elaborar relatórios trimestralmente, apre- – 19,4% das famílias dos
sentando-os às Coordenações da Atenção recém-nascidos receberam
Básica e das Equipes de Saúde da Família, à visitas domiciliárias pela
da Saúde de Criança e à da Saúde da Mulher Equipe do Núcleo de Apoio
e do Adolescente; ao Pacto;
– Registrar todas as Notificações e a inter- Constatou-se também, que
venção realizada no – Livro de Ocorrências 100% das notificações re-
Diárias-; passadas às Equipes de Saú-
– Manter atualizada a planilha de acompa- de da Família, obtiveram a
nhamento dos casos. visita domiciliária ao recém-
nascido, realizada pelo ACS
RESULTADOS ALCANÇADOS: e pela enfermeira ou profis-
No período avaliado, o Hospital dos Fornece- sional médico.
dores de Cana e a Santa Casa de Misericór-
dia de Piracicaba, enviaram para a Coorde-
As causas mais freqüentes
para a realização da Notifi-
55

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
cação foram: seguimento do bebê nas Equipes de Saúde
– 50% de prematuridade; da Família e demais setores. Contribuiu as-
– 42% de baixo peso; sim, para a diminuição do Coeficiente de
– 16,5% de mães adoles- Mortalidade do município, pelo aumento da
centes; vigilância aos bebês de risco, na rede, como
– 16,5% com dificuldades um todo. Cada profissional da Saúde ficou
para amamentar mais sensibilizado e receptivo para acolher e
A análise dos dados men- monitorar o recém-nascido após receber as
surados no período de no- informações constantes em cada Notificação
vembro de 2006 até abril de de Risco, tanto pela maior possibilidade de in-
2008 revelou reflexos positi- tervenção nos riscos já identificados anterior-
vos no coeficiente de morta- mente, mas também pela existência de um
lidade infantil, no município documento prévio, identificando cada bebê
de Piracicaba. O coeficiente de risco que ficaria sob responsabilidade da
de mortalidade infantil do equipe. A Notificação de Risco proporcionou
município encontrava-se maior troca de informações entre os diferen-
em 14,4 em 2001, 14,3 em tes atores envolvidos no atendimento de cada
2002, 14,8 em 2003 e 14,9 caso, impedindo a ocorrência da descontinui-
em 2004. Com o início das dade do atendimento e monitoramento de
ações do Pacto para Redu- cada recém-nascido de risco, no momento da
ção da Mortalidade Infantil, alta hospitalar. Diferentemente do que habi-
baseado na identificação dos tualmente ocorria, as equipes dos hospitais
recém-nascidos de risco e na passaram a sentir-se mais seguras no momen-
monitorização desses bebês to da alta, já que tiveram como e para quem
de maneira diferenciada, informar todas as suas preocupações fora do
houve nítida diminuição do setor terciário, podendo então, contar com
Coeficiente de Mortalida- a perspectiva da continuidade no monitora-
de em Piracicaba, passando mento na rede básica, após a alta hospitalar.
para 12,4 em 2005, e depois As famílias também passaram a participar de
para 9,4 em 2006. A criação forma mais concreta e consciente, frente aos
da Notificação de Risco reali- cuidados do seu bebê considerado de risco,
zada nos hospitais, antes da a partir dos esclarecimentos proporcionados
alta, e direcionada ao Núcleo pelo monitoramento constante, resultado
de Apoio ao Pacto, permitiu da identificação precoce proporcionado pela
uma articulação bem plane- Notificação de Risco. Muitas vezes, a família
56 jada na Atenção Básica para
cada caso, fortalecendo o
recebeu a primeira ligação telefônica feita
pela Equipe do Núcleo de Apoio ao Pacto, an-

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
tes de o bebê chegar da maternidade, após acolhemos um recém-nasci-
a alta hospitalar. Assim, a família sentiu-se do ou criança classificada an-
apoiada e participou dos cuidados de ma- teriormente como em situa-
neira real e mais efetiva. A Coordenação da ção de risco, normalmente
Atenção Básica pôde avaliar as dificuldades e temos tendência de sermos
facilidades na realização dos serviços presta- mais rigorosos em nossas in-
dos em cada Unidade de Saúde de Família, tervenções, além de melho-
de maneira individualizada. O fortalecimento rar os dispositivos do próprio
da rede foi incentivado, durante as trocas de acolhimento. A Notifica-
informações e no monitoramento baseado ção de Risco realizada pela
nas Notificações de Recém-Nascido de Risco. Atenção Terciária contribuiu
Registrou-se ainda o aumento da credibilida- enormemente para o moni-
de nos trabalhos realizados pela Secretaria toramento, já que quando
Municipal de Saúde, em todos os níveis da terminam os cuidados nesse
Saúde, quer entre seus próprios profissionais, nível de atenção, não a há
quer por parte dos usuários. descontinuidade no acom-
panhamento da criança. É o
LIÇÕES APRENDIDAS COM A EXPERIÊNCIA: conceito de integralidade e
Quando iniciamos os trabalhos para a implan- também da eqüidade, já que
tação do Pacto para a Redução da Mortali- garantimos um atendimento
dade Infantil em Piracicaba, ficou claro que especial para um paciente
o eixo principal estava na identificação das especial. Além de a equipe
crianças em situação de risco e no seu acom- hospitalar contribuir por um
panhamento e monitoramento nas Unidades melhor acompanhamento
de Saúde de maneira diferenciada, de perto. na rede básica, aparece um
Para isso, esse acompanhamento e monitora- fator de tranqüilidade, já
mento tiveram que ser ativos. Além das ações que a equipe passou a ter
já desenvolvidas dentro das Unidades de Saú- para quem informar na rede
de de Família, o Núcleo de Apoio ao Pacto pública, fora dos hospitais,
complementou a vigilância em praticamente possíveis riscos encontrados
todos os casos notificados pelos hospitais. A em determinada criança ou
organização dos serviços de Saúde e a pró- recém-nascido. As Equipes
pria situação sócio-econômica das crianças, da rede básica, notadamen-
mesmo as pertencentes do grupo com situ- te as da Saúde da Família, ao
ação de risco, muitas vezes trazem dificulda- receberem a comunicação
des para o acesso aos serviços de saúde. Daí,
a importância da informação prévia. Quando
de Notificação de risco, tam-
bém sentiram-se mais em-
57

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
penhadas e estimuladas no no que for possível.
monitoramento, aumentan-
do a qualidade da atenção. RECOMENDAÇÕES:
Esse foi o papel da Notifica- Todo serviço de Saúde deve criar mecanismos
ção de Risco – a identificação para identificar precocemente os recém-nas-
prévia do recém-nascido em cidos e crianças em situação de risco e reali-
situação de risco, antes de zar um monitoramento diferenciado, de ma-
sua chegada à Unidade Bá- neira ativa, para os casos encontrados. Essa
sica. Outra importante lição ação é extremamente importante para dimi-
aprendida foi que a grande nuir o óbito classificado como evitável. Essa
maioria dos profissionais informação tem que ser compartilhada para
passou a ter maior interes- todos os atores envolvidos no atendimento
se e compreensão sobre os dessas crianças, constituindo uma verdadeira
cuidados diferenciados aos rede de acolhimento e monitoramento.
recém-nascidos de risco, A aplicação para avaliação dos critérios de
quando conheceu e foi sen- risco deve ser registrada sistematicamente
sibilizada sobre o conceito em formulário próprio, promovendo assim
de riscos. A implantação a sistematização Os critérios de risco devem
de um documento escrito ser conhecidos por todos os profissionais que
e realizado pela Atenção prestam atendimento às crianças e às ges-
Terciária, trouxe maior ob- tantes. Esses critérios devem ser objetivos e
jetividade no risco, além da debatidos dentro das equipes de Saúde pe-
compreensão da existência riodicamente para que todos estejam aptos
de uma rede real e maior, em identificar uma situação de risco. Cria-
da qual todos fazem parte. ção de mecanismos para melhorar o conhe-
Notamos ainda, que todos cimento das atribuições, das dificuldades e
somos parceiros, e que te- também dos próprios profissionais locados
mos papéis importantes, em cada nível de Atenção à Saúde. Isto faci-
independentemente da lita a compreensão das atividades do outro,
nossa categoria profissio- além de permitir a troca de informações e
nal, nos cuidados pres- sugestões para a melhoria no atendimento
tados a essa criança de prestado. A Notificação de Risco criada como
risco. Todos podemos e instrumento de avaliação e identificação dos
devemos dar atenção es- recém-nascidos de risco, foi uma maneira de
pecial a um caso diferen- alcançar esse objetivo, uma vez que envolveu
58 te, colocando-nos sempre
à disposição para ajudar
os setores terciário e primário, normalmente
bem distantes um do outro. A criação de uma

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.4. Vigilância em recém-nascido de risco:
parceria entre atenção terciária e unidades de Saúde da Família
rede de apoio, como nos moldes do Núcleo articulação entre todos os
de Apoio ao Pacto, fazendo parte da Aten- setores responsáveis ao
ção Básica, é útil para o desenvolvimento atendimento da criança,
dos trabalhos de toda a rede básica, em se como Secretaria da Edu-
tratando de recém-nascido de risco. As Equi- cação, Secretaria do De-
pes da Atenção Básica, incluindo as da Saú- senvolvimento Social, além
de de Família, sentem-se apoiadas, quando das Organizações Não Go-
os casos parecem difíceis e as tomadas de vernamentais e Sociedade
decisões são feitas de maneira conjunta. Um Civil.
Núcleo de Apoio traz experiências e conheci-
mentos profundos sobre caminhos possíveis
frente aos recém-nascidos de risco, poden-
do ajudar, sugerir, apontar ações desejáveis
para as Equipes responsáveis pela criança.
Todos os trabalhadores devem ser capaci-
tados para conhecer os Índices de Saúde
de um município e ainda o que significam
e como são definidos. Assim, conseguem
vislumbrar a grandeza do seu trabalho. Os
gestores da Saúde devem ser sensibilizados,
de maneira objetiva, quanto à necessidade
de capacitações periódicas, facilitando e
promovendo a educação continuada para
todo trabalhador envolvido no atendimento
à população. Todo trabalho e intervenções
devem ser registrados em livros próprios,
facilitando a criação de um banco de da-
dos dentro de cada Unidade, para identi-
ficação de diagnósticos e orientar futuras
intervenções. Um banco de dados deve ser
criado e alimentado com todas as ações e
intervenções realizadas, dentro da própria
equipe básica e também nos demais níveis
de atenção. Esse registro propicia a possi-
bilidade de visualização de resultados, por
meio do agrupamento de dados, além de
nortear futuras estratégias. Incentivar a
59

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
Autor Principal: e gestores, foi construído neste contexto.
CARLOS ALBERTO TENÓ- Sua implantação foi acompanhada de vá-
RIO CAVALCANTE rias ações de capacitação, culminando no
Outros Autores: curso de especialização em S. da Família.
DULCE HELENA AMARAL O protocolo objetiva a ampliação gradati-
GONÇALVES va do acesso aos serviços de saúde bucal,
ELIANA MARIA DE OLIVEIRA tanto por meio de ações coletivas quanto
Área Temática: Assistência individuais. Reafirma que o atendimento
na AB/SF das urgências odontológicas deve ser fei-
Local onde o trabalho foi to no nível local e que esta deve ser uma
realizado: ação prioritária, em razão do atual quadro
BELO HORIZONTE – MG de necessidades. A assistência individual
visa a melhoria da função mastigatória,
RESUMO: por meio principalmente de restaurações
Belo Horizonte possui 202 diretas com ionômero de vidro de alta vis-
Equipes de Saúde Bucal cosidade, bem como a recuperação esté-
(ESB) implantadas, distri- tica, por meio de restaurações diretas e/
buídas em 138 unidades ou próteses totais/parciais acrílicas removí-
das 145 existentes na rede. veis. Como estratégia imprescindível para
São aproximadamente 280 reversão do atual quadro epidemiológico,
Cirurgiões Dentistas (CD) propõe-se intensificar as ações de promo-
na rede básica, 290 Auxi- ção da saúde, principalmente para os gru-
liares de Consultório Den- pos vulneráveis. A metodologia proposta
tário (ACD) e 75 Técnicos para cumprir o compromisso da s. bucal
de Higiene Dental (THD). no SUS-BH sustenta-se, entre outros, nos
Diante desta realidade, seguintes pilares:
tornou-se necessária a pa- 1. Acesso universal, sem focalização por
dronização de condutas faixa etária: a entrada do usuário pode
para enfrentamento das ocorrer por meio da urgência, da deman-
necessidades prioritárias da espontânea, do encaminhamento por
levantadas no nível local. outras áreas e da ação programada pelo
O Protocolo para Atenção levantamento de necessidades. Este levan-
Básica em Saúde Bucal, tamento é uma ferramenta de vigilância
aprovado pelo Conselho epidemiológica fundamental para identifi-
Municipal de Saúde em ju- cação dos indivíduos/grupos com maiores
60 lho de 2006, após ampla
discussão com profissionais
demandas acumuladas. Deve ser realizado,
por meio da codificação vigente, em todos

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
os espaços de intervenção eleitos, como for- rede. São aproximadamen-
ma de identificar a polarização da doença. te 280 Cirurgiões Dentis-
2.Uso da estratégia de controle das doenças tas (CD) na rede básica,
bucais como conduta padrão nos atendi- 290 Auxiliares de Consul-
mentos, agilizando a cobertura da população tório Dentário (ACD) e 75
por meio da diminuição do número de ses- Técnicos de Higiene Dental
sões por indivíduo. Isto significa adotar esta (THD). Além de constatar
conduta padrão em toda e qualquer forma que qualquer ampliação
de acesso (urgência, demanda espontânea, de acesso e de cobertura
encaminhamentos, etc.). Analisando os re- só poderá ocorrer de for-
gistros/produção do sistema de informação ma gradativa, consideran-
da SMSA BH entre 2005 e 2007, observa-se do o custo desta amplia-
que a restauração com ionômero de vidro ção e a disponibilidade de
(usado no ART) foi o procedimento individu- recursos para investimen-
al mais executado na rede, com crescimen- to, deve-se reconhecer
to de 214% no período. Comparando-se os também a importância da
indicadores entre 2005 e 2007, observa-se organização do processo
um aumento de cobertura de 17% (expres- de trabalho no conjunto
sos em primeiras consultas/exames clínicos) dos serviços para enfren-
e um aumento de 15% no número de trata- tamento dos problemas
mentos completados. de saúde bucal. Por isto,
Observação: ressalta-se que não houve ao mesmo tempo em que
aumento no quadro de recursos humanos se realizam os investimen-
em saúde bucal da SMSA-BH no período. tos, torna-se necessária a
Considerando que o foco da discussão e padronização de condutas
das mudanças está no processo de traba- para enfrentamento das
lho, há um forte indicativo de que os pro- necessidades prioritárias
fissionais aplicaram as diretrizes de saúde levantadas no nível local,
bucal preconizadas pela SMSA-BH, e que a partir de todas as diretri-
as mudanças ocorridas no processo de tra- zes e protocolos já produ-
balho determinaram a ampliação do aces- zidos e consolidados, que
so aos serviços. procuram discutir e mudar
a prática clínica tradicio-
INTRODUÇÃO: nal, apresentando melho-
Belo Horizonte possui 202 Equipes de Saú- res alternativas para aten-
de Bucal (ESB) implantadas, distribuídas
em 138 unidades das 145 existentes na
dimento e resolução dos
problemas acumulados.
61

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
Neste contexto, a Secreta- perseverança necessárias para uma verda-
ria Municipal de Saúde de deira ampliação do acesso dos usuários,
Belo Horizonte (SMSA-BH) não somente ao serviços, mas também à
desenvolveu um processo informação que colabore para melhoria
para organização de um das condições de saúde, de vida e de sa-
conjunto de diretrizes para tisfação social dos mesmos. Esta sim foi a
ajuste no processo de tra- principal finalidade deste movimento. Este
balho em saúde bucal. A relato de experiência procura traduzir o
intenção foi declarar a pro- rico processo vivido na reorganização da
posta político-assistencial assistência em saúde bucal vivido na rede
nesta área da assistência, SUS-BH a partir de 2005, que acabou ge-
baseada nas experiências rando um documento reconhecido como
do SUS-BH, em conceitos PROJETO GLOBAL DE SAÚDE BUCAL.
atuais de organização de Apesar de esse documento extrapolar os
serviços em saúde coletiva limites da atenção básica e abordar prati-
e na política nacional de camente todos os aspectos políticos assis-
humanização. O propósito tenciais da organização em saúde bucal,
foi subsidiar a discussão, este relato de experiência concentra-se
o planejamento, o desen- na atenção básica, em especial na cons-
volvimento e a avaliação trução do PROTOCOLO PARA ATENÇÃO
da assistência. O proces- BÁSICA EM SAÚDE BUCAL e nos resulta-
so foi construído a partir dos verificados a partir disso. As diretrizes
das demandas do Conse- abaixo apresentadas foram construídas e
lho Municipal de Saúde de pactuadas com os trabalhadores e corpo
Belo Horizonte (CMS-BH) gerencial da SMSA-BH, discutidas ao lon-
e também de gestores, go do processo com o Conselho Munici-
de reunir em local único, pal de Saúde e aprovadas pelo plenário do
os principais aspectos dos mesmo em julho de 2006. A experiência
documentos existentes, fa- relatada ocorreu no contexto da estrutura-
cilitando o entendimento ção do modelo de organização da atenção
articulado da assistência básica como eixo estruturante do sistema
em saúde bucal, suas ba- municipal em Belo Horizonte.
ses, seus objetivos, suas
propostas, metas e meca- OBJETIVOS:
nismos de gestão. Enfim, – Ampliar gradativamente o acesso da po-
62 uma referência que favo-
recesse a pactuação e a
pulação aos serviços de saúde bucal;
– Discutir e mudar a prática clínica tradi-

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
cional, apresentando melhores alternativas cação dos indivíduos/grupos
para atendimento e resolução dos proble- com maiores demandas acu-
mas acumulados no nível da atenção bási- muladas. Deve ser realizado,
ca, baseadas nas experiências da própria por meio da codificação vi-
rede e em conceitos atuais de organização gente, em todos os espaços
em saúde coletiva; de intervenção eleitos pelas
– Reafirmar o atendimento prioritário das ur- equipes, como forma de
gências odontológicas na atenção básica, de identificar a polarização da
acordo com as diretrizes de responsabilização doença. Este estudo tam-
e vínculo preconizadas no SUS-BH. bém deve ser realizado nos
– Intensificar as ações de promoção da saú- casos de procura direta.
de, principalmente para os grupos vulnerá- – Uso da estratégia de con-
veis. Distribuir fio, escovas e pastas dentais trole das doenças bucais
nas UBS para as famílias beneficiadas pelo como conduta padrão nos
Programa Bolsa Família (cerca de 300 mil atendimentos, agilizando
pessoas). Assegurar estes insumos para pro- a cobertura da população
gramas de natureza local que funcionam por meio da diminuição
efetivamente. Reconhecer os escovários das do número de sessões por
unidades como espaços privilegiados para a indivíduo. Isto significa
prática educativa das ações de auto cuidado, adotar essa conduta pa-
incentivando seu uso pelos grupos operativos drão em toda e qualquer
e usuários das UBS. forma de acesso (urgên-
cia, demanda espontâ-
METODOLOGIA: nea, encaminhamentos,
1. Com relação ao PROTOCOLO PARA etc.). São considerados
ATENÇÃO BÁSICA EM SAÚDE BUCAL, procedimentos padrão:
a metodologia proposta para garantir o restauração permanente
compromisso da saúde bucal no SUS-BH com cimento de ionôme-
sustenta-se nos seguintes pilares: ro de vidro reforçado (de
– Acesso universal, sem focalização por alta viscosidade), baseada
faixa etária: a entrada do usuário pode no Tratamento Restaura-
ocorrer por meio da urgência, da deman- dor Atraumático (ART),
da espontânea, do encaminhamento por exodontia, pulpotomia e
outras áreas e da ação programada pelo outras terapias pulpares,
levantamento de necessidades. Este levan- tartarectomia e polimen-
tamento é uma ferramenta de vigilância
epidemiológica fundamental para identifi-
to, raspagem subgengival,
ações coletivas de fluorte-
63

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RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
rapia e orientação para o realizados rotineiramente. Introduzir a es-
autocuidado. Quando indi- covação prévia ao atendimento clínico nas
cado, restaurações do tipo UBS, sempre que possível.
sanduíche, com resina e – Consolidação do sistema de manutenção
amálgama, serão executa- preventivo-corretiva dos equipamentos, que
das posteriormente. assegure o pleno funcionamento da rede;
– Estruturação e implanta- – Organização das ações individuais e co-
ção progressiva da oferta letivas conforme – Roteiro para Planeja-
de próteses totais e par- mento Local das Equipes de Saúde Bucal.
ciais acrílicas removíveis – Organização de – clínicas de atenção
para os indivíduos que ne- básica – nas universidades, onde usuários
cessitarem. encaminhados pelos centros de saúde são
– Intensificação das ações atendidos por alunos dos últimos perío-
gerenciais para promoção dos, na mesma estratégia da rede e com
de saúde, por meio do pla- a adaptação de próteses totais e parciais
nejamento da distribuição acrílicas removíveis.
de escovas e cremes den- – Continuidade do credenciamento das
tais à população benefi- Equipes de Saúde Bucal por meio da mo-
ciada pelo Programa Bolsa dalidade II (CD + ACD + THD). A presença
Família; estabelecimento do THD na equipe auxilia no controle da
de parcerias com institui- incidência das doenças, favorece a amplia-
ções de convívio coletivo ção do acesso, permite uma maior capta-
para desenvolvimento des- ção de recurso de custeio repassado pelo
sas ações, fornecendo as MS e a possibilidade de recebimento de
escovas e cremes dentais, um consultório completo do Ministério da
quando necessário. Nesse Saúde para cada equipe credenciada nesta
processo, os profissionais modalidade.
de saúde bucal devem ser 2. Em relação ao desenvolvimento da ex-
envolvidos apenas no mo- periência relatada, partiu-se da consta-
mento inicial de capacita- tação de que, de modo geral, o projeto
ção dos cuidadores/educa- de saúde bucal do SUS-BH não estava
dores, no monitoramento e adequadamente divulgado/declarado nos
na avaliação. Não é neces- espaços gerenciais. Como conseqüência,
sário que os profissionais poucos gerentes locais conseguiam arti-
de saúde bucal estejam cular/promover o planejamento local sem
64 sempre presentes para que
estes procedimentos sejam
a presença do nível distrital. Sendo assim,
optou-se pela discussão com os gerentes

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
locais como estratégia para obtenção de gitudinal.
um entendimento mínimo aceitável, que – Monitoramento dos indi-
permitisse inclusive a discussão nos conse- cadores oficiais usados pelo
lhos distritais e locais. Durante o processo, Ministério da Saúde no Pac-
todas as discussões foram conduzidas com to da Atenção Básica.
o corpo gerencial e, por meio deste, com os Houve participação efetiva
profissionais, sendo apenas reforçadas nos do Conselho Municipal de
aspectos técnicos, diretamente com os pro- Saúde no processo de ela-
fissionais. As ações foram as seguintes: boração das diretrizes, com
– Promoção do trabalho multiprofissional discussão em várias câma-
em todos os níveis do sistema como meio ras técnicas e na convoca-
de fortalecer a política municipal de aten- ção e organização de ple-
ção à saúde. nárias de trabalhadores e
– Promoção e estímulo à utilização dos conselheiros usuários para
vários mecanismos de gestão participativa debater o tema. Várias al-
para reflexão do processo de trabalho co- terações e inclusões foram
tidiano e fortalecimento das relações entre resultantes desta partici-
os trabalhadores e entre os serviços. pação. Alguns momentos
– Utilização de um conjunto mínimo de in- presenciais para educação
dicadores, correspondentes em cada nível permanente sobre a pro-
de gestão, que permita o acompanhamen- posta assistencial foram
to e a avaliação das ações em relação aos organizados, sempre em
compromissos/objetivos propostos. parceria com as faculdades
– Monitoramento destes indicadores no conveniadas (UFMG e PU-
nível central, visando identificar os distri- CMG), inclusive com ativi-
tos que necessitem de maior ajuda na con- dade clínica. A estratégia
solidação do projeto. representada pelo Progra-
– Monitoramento dos indicadores no nível ma Saúde da Família (PSF),
distrital, visando identificar as UBS que ne- deve ser entendida como
cessitem de maior ajuda na consolidação um modelo plenamente
do projeto. sintonizado com os prin-
– Compatibilização dos instrumentos do cípios da universalidade e
sistema de informação com o projeto e eqüidade da atenção e da
com este conjunto de indicadores. integralidade das ações do
– Desenvolvimento no serviço, das linhas SUS. Um de seus principais
de pesquisa que foram definidas com as
universidades, assegurando avaliação lon-
objetivos é gerar práticas
de saúde que possibilitem
65

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
a integração das ações in- vidro (usado no ART) foi o procedimento
dividuais e coletivas. Essa individual mais executado na rede, com
nova prática exige profis- crescimento de 214% no período. Com-
sionais com visão sistêmica parando-se os indicadores de 2007 em re-
e integral do indivíduo, da lação a 2005, observa-se um aumento de
família e da comunidade, cobertura de 17% (expressos em primeiras
que reorientem o planeja- consultas/exames clínicos) e um aumento
mento da saúde para uma de 15% no número de tratamentos com-
base populacional especí- pletados. Cabe ressaltar que, nesta época,
fica, recuperem o enfoque não houve aumento no quadro de recur-
epidemiológico e apliquem sos humanos em saúde bucal da SMSA-
nos serviços os avanços BH. Considerando que o foco da discussão
técnico-científicos neces- e das mudanças está no processo de traba-
sários à prática integral. lho, há um forte indicativo de que os pro-
Por isso, muitos esforços fissionais da rede aplicaram as diretrizes de
foram desenvolvidos para saúde bucal preconizadas pela SMSA-BH,
assegurar a realização do e que as mudanças ocorridas no processo
curso de especialização de trabalho determinaram a ampliação do
em saúde da família para acesso aos serviços.
todos os cirurgiões dentis- – Elaboração de curso de especialização
tas da rede básica. O curso para todos os CD da rede básica. 100 pro-
foi montado por um grupo fissionais iniciaram o curso no segundo se-
de trabalho das três insti- mestre de 2007 e os outros 180 iniciarão
tuições envolvidas (SMSA- até meados de 2008;
BH, UFMG e PUCMG), com – Melhor entendimento pelo conjunto de
caráter teórico-clínico nos profissionais e gerentes sobre o projeto da S.
principais temas da aten- Bucal no SUS-BH e conseqüente aumento da
ção básica. participação nas discussões para planejamen-
to das ações e organização do serviço;
RESULTADOS – Aperfeiçoamento da integração ensino-
ALCANÇADOS: serviço com as faculdades conveniadas, fa-
– Analisando-se os regis- cilitada e potencializada com o advento do
tros/produção do sistema Pró-Saúde;
de informação da SMSA- – Ampliação de convênios com outras ins-
BH entre 2005 e 2007, tituições da área social para consolidação
66 observa-se que a restau-
ração com ionômero de
de parcerias (ESP-MG, Faculdades, Asso-
ciação Municipal de Assistência Social-

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
AMAS, obras sociais da igreja); – O contato direto com to-
– Realização anual de levantamento de ne- dos os profissionais da rede
cessidades e escovação diária por cuidado- nos processos de educação
res em aproximadamente 30 mil crianças permanente que foram
das creches conveniadas com a Prefeitura organizados, sempre em
de Belo Horizonte. Este trabalho é realiza- parceria com as faculdades
do em parceria com a AMAS e denomina- conveniadas, facilitou bas-
se Programa Sorriso de Criança. tante a discussão, o enten-
– Realização de pesquisas aplicadas com as dimento e a participação
faculdades conveniadas sobre aspectos orga- de todos os lados sobre as
nizacionais e clínicos propostos no sistema; dificuldades enfrentadas.
– Aperfeiçoamento da relação entre a rede – Foi especialmente im-
básica e atenção especializada, com revi- portante corresponder às
são de critérios e de fluxos para encami- sinalizações e movimentos
nhamento dos usuários; de discussão com o Con-
– Aproximação com o Conselho Municipal selho Municipal de Saúde
de Saúde e respectivas câmaras técnicas; desde o princípio. Esta ati-
– Realização de diagnóstico e proposta de tude facilitou a articulação
redimensionamento de RH em saúde bu- e o desenvolvimento do
cal, conforme critérios técnicos e sociais, processo, além de reforçar
respeitando o princípio da equidade. Este o papel do órgão no pro-
trabalho tem sido considerado como plano cesso de compartilhamen-
diretor para investimentos na área. to da gestão.

LIÇÕES APRENDIDAS COM A RECOMENDAÇÕES:


EXPERIÊNCIA: Talvez a principal recomen-
– Foi bastante acertado conduzir a dis- dação seja incentivar e aju-
cussão com o corpo gerencial, sem foca- dar as equipes a reserva-
lizar apenas os profissionais. Isto facilitou rem em sua agenda, e em
a aproximação, o entendimento e a par- sua rotina, um espaço para
ticipação dos gerentes locais, distritais e discussão sobre o trabalho
centrais em todo o processo. Destaca-se que realizam. Somente
o papel dos gerentes locais, que conduzi- com esta disciplina, conti-
ram (e não apenas participaram) boa parte nuará sendo possível refle-
da discussão com os profissionais. Este foi tir e avaliar os resultados
um grande diferencial em relação a alguns
processos anteriores.
alcançados com o trabalho
individual e coletivo. Este
67

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.5. Resultados alcançados na organização da
atenção em saúde bucal em Belo Horizonte - MG
processo motiva as equipes
profissionais e repercute
positivamente em todos os
espaços de trabalho e de
gestão. Permite aprofun-
dar progressivamente nos
aspectos conceituais e or-
ganizacionais, com reflexo
direto no aperfeiçoamento
do processo de trabalho
para atingir objetivos iden-
tificados por meio da epi-
demiologia e da interação
social com as famílias e
com a comunidade.

68

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
Autora Principal: O instrumento escolhido foi
ANA RITA DE OLIVEIRA PRINZO o teatro, já que as drama-
Outros Autores: tizações são consideradas
ANA RITA DE OLIVEIRA PRINZO como uma das mais pro-
CRISTINA PEDRUZZI veitosas linhas de educação
Área Temática: Promoção da Saúde na AB/SF grupal. As peças montadas
Local onde o trabalho foi realizado: foram Chapeuzinho Verme-
CANOAS – RS lho, Teatro dos Coelhos e
Teatro de Bonecos e os as-
RESUMO: suntos trabalhados foram
A estratégia Saúde da Família preconiza que hipertensão, diabetes, cárie,
seus profissionais sejam também educado- higiene, vacinação e outros
res, com vistas a aumentar o êxito nas ações (conforme a necessidade do
preventivas. Essa forma de atuar confronta público-alvo). As mudanças
muitas vezes com o despreparo dos profis- geradas na população foram
sionais para atividades educativas e trabalhos percebidas pelos agentes
interdisciplinares que não são abordados comunitários em suas visi-
na sua formação acadêmica. Cabe a cada tas domiciliares. O paciente
profissional potencializar as suas habilida- sentiu-se mais próximo do
des clínicas e desenvolver uma sensibilidade profissional de saúde, as
para a execução de ações educativas, a fim crianças ficaram amigas dos
de conseguir maior resolutividade frente aos profissionais/personagens
problemas encontrados na população. Este e, principalmente, a satisfa-
trabalho apresenta o modo encontrado pela ção da ESF com o resultado
Equipe de Saúde da Família 4 da Unidade de tornou-se estímulo para um
Saúde Santo Operário/Canoas – RS (ESF) para atendimento mais qualifica-
trabalhar os problemas mais comuns da sua do e humanizado. A criação
população adscrita com multidisciplinaridade de um espaço de atuação
e educação em saúde. Utilizando-se de um interdisciplinar reforçou o
momento lúdico, onde o indivíduo se torna envolvimento com o traba-
mais receptivo, a ESF procurou despertar o lho e unificou a linguagem
interesse da população pelo assunto aborda- dos profissionais, facilitando
do por meio da magia do teatro, buscando o acolhimento dos pacien-
aumentar a fixação das orientações ofereci- tes. As atividades sociocul-
das, fortalecer o vínculo da população com turais da ESF favoreceram
a ESF, a integração da equipe e a integrali-
dade da atenção dispensada à população.
a fixação das orientações e
o melhor desenvolvimento
69

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
psicopedagógico, incitando educativas no controle das doenças. Para se
a co-responsabilidade desde garantir resolutividade, é preciso construir
cedo no cuidado com a saú- conjunta e participativamente a adscrição
de. Além disso, os pacientes da população, a execução do trabalho fo-
tornaram-se difusores da in- cado na família e na comunidade com equi-
formação na comunidade e dade e co-responsabilidade na integralidade
veículos de modificação dos das ações. (CARVALHO, 2004). Verifica-se,
hábitos familiares. A vontade no campo da saúde coletiva, a emergên-
de vencer o modelo de tra- cia de novas abordagens para se pensar o
balho fragmentado e fazer adoecimento, tais como: a integralidade das
promoção da saúde onde ações em saúde, a humanização do atendi-
todos têm igual importância mento, a produção do cuidado com vistas à
para a realização da ativi- transformação do modelo tecnoassistencial.
dade foram suficientes para (GUEDES, et al., 2006). Não existe um mé-
superar dificuldades como todo único que tenha condições de oferecer
espaço para a organização uma melhoria da saúde da população, po-
do evento e reunião da equi- rém a educação em grupos tem um poder
pe ao mesmo tempo (devido multiplicador, não substitui o contato indivi-
às demandas da unidade). dual, mas sim o reforça. Vasconcelos (1997)
Deve-se buscar desenvolver esclarece que a educação popular trabalha
ações que facilitem à popu- pedagogicamente o homem e os grupos en-
lação informações direcio- volvidos no processo de participação popu-
nadas ao autocuidado, por lar por meio de formas coletivas de apren-
meio de estratégias criativas; dizado e investigação, promovendo análise
atingindo a equidade, a pre- crítica sobre a realidade e estratégias de luta
venção e o controle de doen- e enfrentamento. Segundo o Ministério da
ças, para o desenvolvimento Saúde, a educação popular em saúde deve
de condições que garantam ser participativa, crítica, criativa, prazerosa e
cidadania e saúde. dialógica e deve respeitar os saberes e cultu-
ras populares, fortalecendo os sujeitos para
INTRODUÇÃO: a organização e a transformação social. (MS/
O Programa Saúde da Fa- BRASIL, 2003, citado por ALVES, 2004). A fim
mília (PSF) se caracteriza de sustentar as ações de saúde e otimizar as
por ser uma estratégia de capacidades produtivas da equipe multipro-
reorganização das ações de fissional, a Equipe 4 da Vila Santo Operário
70 saúde, fortemente centra-
do em ações preventivas e
buscou por meio de dramatizações recursos
facilitadores de ensino e autoconhecimento

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
da sua população. Por meio de uma ativida- – Aumentar o vínculo da
de lúdica, procurou-se não apenas informar, população com a Equipe de
mas também agir como meio de transfor- Saúde da Família;
mação social, veiculando conhecimento e – Aumentar a integração da
promovendo interesse cultural, tendo como equipe;
base de escolha as doenças mais prevalentes – Facilitar o trabalho multi-
na área de atuação. Com isso, independen- disciplinar da equipe;
temente de ser criança ou adulto, buscou-se – Permitir a população o
uma forma de resolução e conscientização acesso a atividades culturais;
dos problemas de saúde, de forma simples – Oferecer à população es-
e ao mesmo tempo incisiva. Conforme afir- paço para conhecimento so-
ma Carvalho, o teatro atrai mais facilmente bre sua saúde;
o interesse das pessoas, porque é arte viva – Propiciar, a partir do co-
e dinâmica e, como tal, é possuidora de um nhecimento obtido, mudan-
apelo muito forte, conseguindo convencer ça de hábitos.
muito mais, contribuindo para modificar seu
modo de ver as coisas ou até mesmo seu METODOLOGIA:
comportamento. Por meio de uma lingua- A metodologia escolhida foi
gem acessível, o participante passa a enca- a dramatização, sabendo-se
rar o processo saúde–doença sob uma nova que esta é uma das formas
perspectiva, já que ele consegue entender as consideradas mais provei-
causas e conseqüências da situação, evitan- tosas na linha de educação
do com isso abandono de tratamento, uso grupal. Os assuntos para os
incorreto de medicações e, ainda, a procura teatros desenvolvidos pela
excessiva de serviços pela falta de conheci- Equipe de Saúde da Famí-
mento do seu processo. (CHIESA, 2001). O lia (ESF) foram escolhidos
teatro permite a aquisição de conhecimento, em cima de diagnóstico de
a experimentação de emoções e o exercício comunidade, priorizando
da imaginação (CAMARGO), colocando-se, os mais prevalentes no mo-
desse modo, como revelador ou transforma- mento e com necessidade
dor, e possibilita a revisão crítica do passa- imediata da atuação, exer-
do, a modificação do presente e a projeção cendo assim o princípio da
de um novo futuro (DESGRANGES). equidade. O interesse pelo
assunto abordado por meio
OBJETIVOS: da magia do teatro aumen-
– Criar uma ação capaz de sensibilizar a po-
pulação sobre o processo saúde–doença;
ta a fixação das orientações
oferecidas, esclarece as dú-
71

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
vidas no momento em que fazendo com que ninguém goste dele por
a linguagem utilizada passa perto, dessa forma promovendo o desejo do
a ser a mesma da população auto-cuidado de cada um. Ainda são dadas
(nesse momento o público orientações como cuidar dos dentes, técni-
se identifica com os perso- cas de escovação para as crianças e distri-
nagens e passa a compre- buição de material educativo para desenhar
ender o que realmente pas- e pintar. Com resultado positivo do teatro,
sa consigo) e desperta nas a ESF motivou-se a escrever a sua própria
crianças o desejo de imitar peça, criando assim a história de dois coe-
bons exemplos dos perso- lhos, onde um cuidava dos dentes e o outro
nagens (além de aprende- não. O que não cuidava não tinha força para
rem, elas tornam-se mul- brincar, tinha dores nos dentes e tinha mau
tiplicadoras na sua família hálito. Durante a peça, o primeiro coelho
dos hábitos adequados de leva-o ao dentista, que ensina o amigo a cui-
saúde). As peças escolhidas dar dos dentes, apresenta os amiguinhos do
foram: Chapeuzinho Ver- dente (escova de dente, creme dental, fio-
melho, onde a ESF adapta o dental e flúor), aborda a importância de ter
texto original para falar de hábitos alimentares saudáveis e o reintroduz
saúde bucal. Cada persona- nas brincadeiras com os demais amiguinhos.
gem é interpretado por um Nessa peça, aproveitou-se para falar de saú-
integrante da equipe e, ao de bucal (problema constante nas crianças
final da peça, o Chapeuzi- da nossa comunidade) e hábitos saudáveis
nho Vermelho (interpretado de alimentação, assim como agregar o valor
pela auxiliar de consultório de solidariedade e amizade. Em comemo-
dentário) apresenta à pla- ração à Páscoa, desenvolveu-se outra peça
téia a sua dentista (repre- de teatro, na qual se criou um concurso de
sentada pela dentista do coelho da Páscoa. Os requisitos para que os
posto), mostrando que não coelhos fossem selecionados foram a higie-
é preciso ter medo de pro- ne, a carteirinha de vacinação em dia e se
curar o dentista e, principal- o coelho saberia pular. Por meio desse te-
mente, que não se deve visi- atro, conseguiu-se abordar vários assuntos
tá-lo apenas quando existe relacionados ao processo saúde–doença, e
dor, e sim para aprender a cada coelho representava uma característica
cuidar dos dentes. O lobo relacionada a maus hábitos; no decorrer da
mau aparece como mau história, com a ajuda da mãe coelha, cada
72 exemplo tendo mau hálito
e os dentes mal cuidados,
um os modificava. Assim, era apresentada
a importância de tomar banho, cortar as

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
unhas, lavar os cabelos (pediculose), escovar de e maior compreensão da
os dentes, estar em dia com a carteirinha de população da ESF.
vacinação e ter uma alimentação saudável
(obesidade). No final, todos os coelhos são RESULTADOS
selecionados, incitando nas crianças, por ALCANÇADOS:
meio da identificação com os personagens, A busca constante por um
a possibilidade de modificar hábitos e cultu- modelo eficaz de educação
ras enraizadas nas famílias. As crianças pas- em saúde é um grande de-
sam a ter, muitas vezes, o papel de multi- safio enfrentado pela Equipe
plicadores de saúde. Para os adultos, foram de Saúde da Família, o que
desenvolvidos dois teatros por meio da apre- leva à discussão a constru-
sentação de marionetes. A hipertensão arte- ção de um modelo educa-
rial sistêmica, por ser um problema de saúde tivo que responda às novas
pública importante devido às suas conseqü- expectativas e exigências
ências e de grande prevalência na nossa po- desse modelo de assistência.
pulação. Esse tema foi abordado por meio A experiência desenvolvida
da história de um casal onda a esposa se pela Equipe 4 da Vila Santo
cuidava ao contrário do seu marido. A ESF Operário trouxe resultados
trabalhou para desenvolver todo o material promissores na população
da peça (a caixa do teatro, a montagem do trabalhada. Foi possível per-
texto e a organização da apresentação, os ceber algumas mudanças
profissionais que não estavam diretamente no comportamento dos
envolvidos com os personagens estavam no participantes das atividades
apoio, ajudando com o som e a troca dos já nos dias consecutivos à
cenários). Durante a própria apresentação, apresentação dos teatros,
foi possível perceber a identificação das pes- como o relato de pais sobre
soas com os personagens, onde o público se suas crianças que tiveram o
apontava ser um ou o outro personagem. E, desejo de cuidar dos den-
por último, desenvolvemos um teatro para tes despertado pelo teatro
explicar o PSF. Como na nossa unidade ain- e a facilidade em trazê-los
da estava sendo confundido o atendimento nas consultas odontológi-
das equipes com o de Unidade de Saúde, a cas, sem mais o medo do
ESF produziu um texto com as dúvidas mais profissional de saúde bucal.
comuns que surgiam até o posto e, por meio Isso fortifica a idéia de que
dos bonecos, foram desenvolvidas explica- a comunicação estabelecida
ções, sendo percebida no momento seguin-
te à apresentação melhora do uso da unida-
nos processos educativos
constitui-se em recurso para
73

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
estabelecer a confiança e a sos, que apresentam dificuldades em aderir
vinculação do usuário ao adequadamente ao tratamento e que, com a
profissional e ao serviço de identificação de seu comportamento ao dos
saúde, enquanto atividade bonecos do teatro, foram sensibilizados a
de suporte aos programas um maior cuidado e tornaram-se assíduos às
de saúde, conforme descrito atividades desenvolvidas para esse tema. Se-
por Chiesa (2001). O fortale- gundo Desgranges, experiência teatral pode
cimento do vínculo da popu- ser entendida como recurso educacional na
lação com a Equipe de Saú- medida em que o espectador, ao compre-
de da Família também pode ender as histórias que estão sendo apresen-
ser percebido pelos Agentes tadas, se reporta à própria existência e revê
Comunitários de Saúde, que criticamente aspectos de sua vida, tomando
foram mais bem acolhidos consciência da própria história, do seu pas-
nas visitas domiciliares dos sado, revendo atitudes e comportamentos,
usuários que estiveram pre- estando em condições favoráveis para, quem
sentes nas atividades educa- sabe, efetivar transformações em seu presen-
tivas; inclusive aceitando as te, e – levando-se em conta a perspectiva de
orientações por eles feitas e um processo continuado de exercício de sua
mostrando mudanças execu- autonomia crítica e criativa – assumindo-se
tadas em suas casas após o enquanto sujeito da própria história, tornan-
aprendizado nas atividades. do-se capaz de (re)desenhar um projeto para
A metodologia da educação o seu futuro. O principio da integralidade
popular em saúde, voltada também pode ser alcançado por meio das
para o desenvolvimento de atividades promovidas pela Equipe, conforme
uma ação pedagógica dire- Vasconcelos cita que a educação em saúde
cionada ao ser humano in- realiza ações que envolvem as dimensões do
serido em seu contexto de dialogo, do respeito e da valorização do saber
vida, permite que ele enten- popular, sendo considerada um instrumento
da o porquê de tais condu- de construção para a saúde mais integral e
tas preconizadas pelos pro- adequada à vida da população (2006). Outro
fissionais de saúde e, assim, resultado positivo da educação popular foi
consiga assimilar algumas que além de atuar como estratégia de supe-
mudanças em situações até ração da grande distância que existe entre o
então culturalmente aceitas serviço de saúde e o saber científico de um
na sua rotina; isso também lado e, de outro, a dinâmica que envolve o
74 pode ser percebido nos ca-
sos dos pacientes hiperten-
adoecimento e cura; propiciou o sentimento
de que cada integrante da equipe é igualmen-

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
te importante, pois todos estavam envolvidos tações de teatro mostrou-
da mesma forma e de igual responsabilidade se muito maior do que aos
para um objetivo comum, a promoção à saú- grupos com organização
de da nossa comunidade. O envolvimento de tradicional de palestras. As
toda a equipe para a realização das ativida- crianças tornaram-se aliadas
des resultou em uma integração maior dos da equipe de saúde ao levar
profissionais de saúde no dia-a-dia na Unida- para sua casa bons exem-
de Básica de Saúde, onde as interconsultas plos e cobrando dos respon-
passaram a se desenvolver com maior freqü- sáveis atitudes semelhantes.
ência, a linguagem foi unificada e o trabalho Entre as dificuldades en-
tornou-se mais satisfatório, sendo o maior frentadas pela equipe para
beneficiário disso tudo o usuário do posto. o desenvolvimento de ati-
vidades educativas estão: a
LIÇÕES APRENDIDAS COM A EXPERIÊNCIA: infra-estrutura inadequada
A grande revelação do trabalho educativo da Unidade Básica de Saú-
da equipe de saúde foi o desenvolvimento de (não dispondo de espaço
de uma postura pró-ativa dos profissionais para organizar e executar as
que refletiu no atendimento individual do atividades), a alta demanda
paciente. O trabalho mais coeso e a lingua- clinica (diminuindo o tempo
gem única propiciaram o fortalecimento da disponível para o encontro
interdisciplinaridade; ou seja, a compreensão da equipe completa) e a alta
da realidade e maiores possibilidades de in- rotatividade dos profissio-
terpretação/diagnóstico de casos clínicos, a nais. Observa-se a nível in-
equipe de saúde passou a fazer atendimen- dividual e em algumas famí-
tos integrados, onde cada um contribui com lias melhoras consideráveis,
base na sua formação acadêmica na busca porém a nível coletivo as
de soluções para as situações apresentadas. transformações geralmente
Cria-se um espaço de discussão e reflexão, são mais demoradas, pois
onde os detalhes referentes aos condicio- envolvem culturas e hábitos
nantes sociais tornam-se mais evidentes enraizados na comunidade.
e passíveis de enfrentamento. O paciente É um processo lento e gra-
sente-se acolhido e com confiança ao servi- dativo e cabe à equipe de
ço prestado, e, ao invés de ter que procurar saúde, não deixar perceber-
várias áreas para a sua reabilitação, muitas se como frustração a de-
vezes, acaba tendo a resolução do proble- mora nos resultados, e sim
ma ou o encaminhamento deste em uma só
consulta. A adesão dos usuários às apresen-
sinais de mudança eficaz,
resolutiva e duradoura.
75

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.6. Ensinando por meio de atividades lúdicas:
teatro, uma opção de educação em saúde
RECOMENDAÇÕES: maior número de indivíduos da comunidade.
Segundo Freire (2005b), Criar ações em finais de semana para que
quando o diálogo é fun- trabalhadores tenham acesso a essas ativida-
damentado no amor, na des e a orientações é imprescindível, já que o
humildade e na fé nos ho- funcionamento da UBS coincide com horário
mens, é que se faz uma de trabalho e na maioria das vezes esses tra-
relação horizontal em que balhadores são os responsáveis pelas famílias
a confiança mútua é con- que atendemos. Conforme descreve Smeke
seqüência óbvia, gerando (2006, p.298) – se quisermos realmente aju-
esperança e transformação. dar, sairemos do nosso papel profissional e
É por meio das atividades devemos colocar em ação o nosso lado hu-
educativas e culturais que mano-, nós, como educadores de saúde de-
a equipe de saúde da fa- vemos conhecer os personagens reais que
mília 4 da Vila Santo Ope- vivem em vulnerabilidade social, que buscam
rário tem desenvolvido, que sobreviver em meio a violência, ao tráfico de
encontramos um modo de drogas, a fome e à miséria e os seus cenários,
vivenciar essa transforma- para que ao utilizarmos da mesma linguagem
ção social, interferindo do possamos passar quer seja por meio de bone-
nível micro ao macro, no in- cos, de fantasias, de músicas para contar as
divíduo, na família e na co- histórias, um caminho de esperança e possí-
munidade. É possível aplicar vel transformação, aproximando-os do imagi-
esse método educativo para nável ao concreto.
ampliar o acesso de outros
grupos como adolescentes,
gestantes, trabalhadores,
mulheres e homens, para
que se sintam acolhidos,
respeitando-os em sua au-
tonomia e valorizando-os
como cidadãos, e dessa for-
ma instituindo a co-respon-
sabilidade no cuidado com
a saúde. A busca de par-
ceiros deve ser constante,
como com igrejas, creches,
76 escolas, associação de mo-
radores para alcançarmos o

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
Autor Principal: zar os direitos de cidadania;
GICÉLIA MARIA SIMPLICIO DE SANTANA garantir a medicação básica
Outros Autores: da saúde mental na UBSF;
JOSELITA ALVES BRASILEIRO incluir indicadores de saú-
LUCIEUDA RODRIGUES DE ARAÚJO de mental no SIAB; reduzir
Área Temática: Assistência na AB/SF o preconceito com o porta-
Local onde o trabalho foi realizado: dor de sofrimento psíquico,
CAMPINA GRANDE – PB resgatar a auto-estima. Para
isso organizamos um grupo
RESUMO constituído de uma média
A Reforma Psiquiátrica Brasileira se instala por de dez mulheres, a cada
meio de dispositivos legais que favoreçam a cinco meses. A faixa etária
inserção social dos portadores de sofrimentos entre vinte e setenta anos.
psíquico, e organização de uma rede de re- Havendo um desdobramen-
cursos assistenciais que assegurem o exercício to para um segundo grupo
da cidadania. O Programa de Saúde da Famí- âncora que funciona per-
lia (PSF) como estratégia para o desenvolvi- manentemente. Totalizando
mento de ações de promoção e prevenção à 114 mulheres. Funciona se-
saúde na Atenção Básica e a Reforma Psiquiá- manalmente com oficinas e
trica possuem um princípio em comum, utili- dinâmicas de grupo visando
zam o território como espaço para a inserção à reflexão dos problemas,
social. Implantado em 1994 no município de o fortalecimento da auto-
Campina Grande – PB; o PSF passa a atuar no estima. Utilizados recursos
bairro do Pedregal. A população deste bairro audiovisuais, trabalhos ma-
está exposta a indicadores sócio-econômicos nuais, barro, confecção de
desfavoráveis: desemprego, alcoolismo, tráfi- bonecas de pano; teatro
co de drogas, violência urbana e doméstica; de marionetes e passeios.
aumento da incidência de sofrimento mental, O grupo denominado Casa
uso de psicotrópicos, internações psiquiátri- da Ciranda resgatou o sig-
cas, especialmente nas mulheres. A ESF as- nificado da dança, alegria,
sumiu o desafio de conduzir uma experiência criatividade e crescimento.
pioneira de grupo terapêutico comunitário Houve o trabalho inclusivo
em saúde mental que funciona desde o ano da família das portadoras de
de 1996 no referido bairro, com os seguintes sofrimento psíquico. Tendo
objetivos: Promover a saúde mental na aten- como resultados o resgate
ção básica; reduzir o número de internações
psiquiátricas; facilitar o convívio social; viabili-
da auto-estima, diminuição
de 98% de internação hos-
77

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
pitalar, promoção da saúde abrange a reforma psiquiátrica e a revogação
mental na Atenção Básica, da legislação para os portadores de transtorno
geração de renda, espaço mental. A lei nº. 0.216, de 06.04.2001, com
comunitário – Casa da Ci- o objetivo de contribuir efetivamente para
randa-, apropriação da cida- o processo de inserção social dessas pesso-
dania, discussão comunitária as, incentivando a organização de uma rede
sobre à violência doméstica, ampla e diversificada de recursos assistenciais
alfabetização das usuárias e de cuidados facilitadora do convívio social
participação de um grupo capaz de assegurar o bem-estar global e esti-
de capoeira, realização de mular o exercício pleno de seus direitos civis,
mostras culturais. A experi- políticos e de cidadania (BRASIL, 2001, p.3).
ência mostrou aprendizado Neste contexto situamos o papel da atenção
profissional para ESF; ajudar básica privilegiando o modelo de Saúde da
a saúde mental sem mudar- Família como estratégia para o desenvolvi-
mos as condições de vida. O mento de ações de promoção e prevenção à
apoio social como fator im- saúde mental. O PSF, implantado como estra-
portante da resiliência. Ofer- tégia de uma nova visão de atenção à saúde
ta de um espaço de cuidado propõe práticas humanizadas buscando o re-
e acolhimento; redução do conhecimento da saúde como um direito à ci-
preconceito; evitar a primei- dadania e expressão de qualidade de vida. O
ra internação; criação infor- Programa de Saúde da Família foi implantado
mal de uma rede de apoio; em 1994 no município de Campina Grande
viabilidade de se incorporar na Paraíba e o bairro do Pedregal foi um dos
a saúde mental na Atenção. primeiros a ser contemplado; com uma popu-
lação aproximada de 12 mil habitantes situa-
INTRODUÇÃO: dos em uma área heterogênea, caracterizado
A Reforma Psiquiátrica Bra- por algumas ruas calçadas e saneamento bá-
sileira se inicia em fins da sico e outras apresentando áreas de risco com
década de 70. Com a rede- casas expostas a alagamentos e esgotos a céu
mocratização brasileira na aberto, morros, vielas e escadarias íngremes.
década de 80 as camadas da Moradias precárias e condições sócio-econô-
população ganham espaço micas desfavoráveis. Esta situação aumenta
e representatividade, levan- os riscos da vulnerabilidade social como a
tando a bandeira de luta alta taxa de desemprego, alcoolismo, tráfico
pela reforma sanitária e o se- de drogas e predominância de violência ur-
78 tor representado pela saúde
mental incorpora essa luta,
bana e doméstica; fatores estes decorrentes
da desigualdade sócio-econômica e cultural,

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
com conseqüente aumento da incidência de mental do bairro, foi iden-
sofrimento mental. O perfil epidemiológico tificado uma situação de
das mulheres do bairro do Pedregal foi iden- vulnerabilidade conjugada
tificado por meio das visitas domiciliares e a debilidade de apoio so-
consultas ambulatoriais, onde foi constatado cial. Cowan e Schulz (2006)
uma alta incidência de doenças psicossomá- exemplificam “fatores que
ticas, ansiedade, depressão com idéias suici- levam a situações de vulne-
das, consumo crônico de benzodiazepínicos, rabilidade, como diminuição
e antecedentes de internações em hospital da auto-estima, traços de
psiquiátrico. A inexistência de apoio social a personalidade e depressão”.
estas mulheres em situação de risco era cons-
tatada pela situação de pobreza e sofrimento OBJETIVOS:
mental, relação de gênero desigual, conjuga- – Promover a saúde mental
ção esta de pólos de fragilidade que condu- na atenção básica e introdu-
zem a um estado de vulnerabilidade, obser- zir uma concepção de saúde
vadas em inúmeras situações vivenciadas. O que não separe o físico do
conhecimento deste tema reveste-se de alta mental, fatores intrinseca-
relevância no sentido dos que trabalham nes- mente interdependentes;
ta área poderem utilizá-la como estratégia de – Organizar um grupo de
enfrentamento à alta incidência de ansiedade saúde mental com finalida-
e sofrimento psíquico que vem acometendo de de contribuir no processo
a população nas últimas décadas e contribuir de reforma psiquiátrica;
para promoção da saúde mental na socieda- – Reduzir o número de in-
de contemporânea. Sabe-se que o projeto de ternações das usuárias em
Reforma Psiquiátrica se inscreve nas possibili- hospital psiquiátrico;
dades e limites das políticas públicas do SUS e – Viabilizar os direitos assegu-
de projetos comprometidos com a afirmação rados na Constituição de 1988
de direitos de cidadania e a luta contra de de exercer sua cidadania.
exclusão social. Ao identificar uma alta inci- -Garantir o acesso irrestrito e
dência de pessoas portadoras de sofrimento a disponibilidade de medica-
psíquico sem assistência médica adequada, ção básica da saúde mental
reflexo de uma concepção de saúde que se- na Unidade Básica de Saúde;
para o físico do mental. O atual modelo assis- – Incorporar a Saúde Men-
tencial que prioriza a doença em detrimento tal na Atenção Básica, inexis-
da saúde. É nesta ótica que trabalhamos para tente no município.
reverter este paradigma, mudando a forma
de se fazer saúde. No diagnóstico de saúde
– Envolver os usuários, a fa-
mília e comunidade.
79

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
– Contribuir na formulação va em caráter fixo. Nas oficinas realizamos
de políticas públicas visando a técnicas e dinâmicas de grupo que deram
promoção da saúde mental. suporte para explicitar as histórias de vida de
– Contribuir para a inclu- cada uma das mulheres. No decorrer das ofi-
são de indicadores de saúde cinas na tentativa de apreender a realidade
mental no Sistema de Infor- no cotidiano dessas mulheres foram propor-
mação em Atenção Básica cionados técnicas e dinâmicas de grupo que
– SIAB; deram suporte para explicitar os processos e
– Redução do estigma social os significados que neles estão arraigados à
com o portador de sofrimen- situação de vida de cada uma. – A realidade
to psíquico. do outro não está naquilo que ele revela, mas
naquilo que ele não lhe pode revelar. Portan-
METODOLOGIA: to, se você quiser compreendê-lo, escute não
O grupo de saúde mental o que ele diz, mas o que ele não sabe dizer-.
foi constituído de mulheres, Bernard Shaw (BRASIL, 2002). A proposta era
entendendo que a questão discutir temas referentes à auto-estima, rela-
da relação de gênero seria cionamentos afetivos e familiares e/ou outros
abordada e que nas consul- que foram surgindo à medida de suas neces-
tas ambulatoriais predomina sidades, de forma que proporcionasse subsí-
um maior número de mulhe- dio para a equipe identificar as dificuldades e
res. Com uma participação limites que perpassavam no cotidiano dessas
média de dez mulheres, o mulheres. Foi nesse espaço de troca de expe-
que possibilitava um melhor riências e diálogos, pautado numa relação de
acolhimento. A faixa etária confiança, que identificamos as situações de
entre vinte e setenta anos. risco e a singularidade de cada uma. O acordo
O funcionamento era de um inicial era de cada mulher assumir o respeito
período de cinco meses com pela fala e escuta do outro, num pacto de
encontros de um turno se- sigilo, fortalecendo dessa forma vínculos de
manal. Contabilizamos um confiança e responsabilidade. Segundo Silvei-
total de 114 mulheres du- ra et al. (2003) as oficinas são instrumentos
rante a existência do grupo. de conhecimento, o que permitem o com-
Os encontros aconteciam partilhar de histórias pessoais dos integran-
semanalmente no salão pa- tes do grupo, evidenciando as preocupações
roquial da Igreja N.Sra. de com a prática cotidiana, onde cada história
Fátima. Houve um desdo- comporta um fato social e político, que cada
80 bramento para um segundo
grupo âncora que funciona-
história ou caso individual é também coleti-
vo. (Viezzer, apud SILVEIRA, 2001, p.60). Ou,

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
ainda, segundo Carneiro e Agostini (apud de dinâmicas de grupos são
SILVEIRA, 2001, p. 60), – um espaço históri- instrumentos que ajudam no
co de construção coletiva de um saber trans- processo de socialização, da
formador-. As oficinas eram planejadas pela desinibição, da convivência
equipe, as técnicas oferecidas tinham uma coletiva, oferece respostas
função, de ampliar a cada dia o fortalecimen- às necessidade lúdicas como
to da auto-estima. Utilizamos como mais um terapia pessoal e grupal,
recurso metodológico a capacidade de ouvir proporciona momentos de
as necessidades e contribuições das mulhe- espontaneidade, de liberda-
res, fator que considerávamos indispensáveis, de e diversão. Utilizaram-se
uma vez que, além de irmos contribuindo recursos audiovisuais como
para o processo e autonomia delas, demo- a leitura de textos, poesias
cratizávamos e socializávamos as relações e música. Trabalhos manu-
equipe-usuário, quebrando o autoritarismo ais com barro resgatando o
arraigado nos planejamentos verticalizados aspecto lúdico da infância.
onde se subestima o saber e o desejo do ou- Este reencontro com o que
tro. Desta forma combinávamos em conjunto antes fora um brinquedo
e incorporávamos as idéias e sugestões das acompanhado de fantasias,
mulheres pra as próximas oficinas. Utilizamos tornou-se uma das formas
esta metodologia como desafio no processo mais importantes de relatos
educativo em construção para a formação da da vida. Ressaltamos o fato
cidadania. Para apresentação das mulheres, de que as mulheres eram
foi usada a técnica do – Cineminha – que em sua maioria oriundas da
consiste em fazer desenhos, colagens ou pin- zona rural e que tinham vi-
turas em folhas de papel, com o objetivo de venciado este brinquedo na
tecer fatos marcantes de suas vidas. A cons- infância o que também as
trução coletiva desta técnica permite uma lei- lembrava de um tempo da
tura aproximada das emoções, auto-estima vida em que se sentiam mais
e percepção de como se sentiam no meio felizes, segundo seus relatos.
social e na família. Ao expor seus desenhos Os passeios em fazendas,
e falas, vão se reportando a sua história de parques e praças, tinham o
vida, simbolizada no que foi construído, dan- objetivo de proporcionar o
do suporte teórico para a compreensão dos exercício, de conhecer ou-
fenômenos internos de modo a subsidiar o tros lugares da cidade e es-
processo de construção e propostas de ações timulá-las a saírem de casa
que deveríamos encaminhar nos próximos
encontros. Segundo Fritzen (1997) Técnicas
nos fins de semana com suas
famílias promovendo o lazer.
81

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
O desejo de conhecer o mar psicossocial permite a muitas pessoas adqui-
permeava o imaginário do rir ou recuperar as aptidões práticas necessá-
grupo como algo inalcan- rias para viver e socializar na comunidade e
çável, no entanto a visita a lhes ensina a maneira de fazer face as suas
capital do estado situada no incapacidades. Inclui assistência no desenvol-
litoral, a 120 km de distân- vimento das aptidões sociais, interesses e ati-
cia, foi atendido, num dia de vidades de lazer que dão um senso de partici-
passeio e ficou na memória pação e de valor social. – (OPAS-OMS, 2001).
afetiva de todas. Esse de- Nesse processo de interação as participantes
sejo, a nosso ver, vai além revelam suas habilidades, criatividade, afetivi-
das necessidades básicas dade e o prazer, construindo sentido para a
apresentadas inicialmente e vida e alternativas como forma de enfrentar
avançam quando apresen- o sofrimento psíquico. A formação do gru-
tam outros desejos, os so- po de dança chamado – Dança da Ciranda
nhos.-Dessa forma, as estra- – trouxe o resgate do significado da Ciran-
tégias de intervenção devem da: dança, roda, alegria, dar às mãos, altos e
priorizar experiências que baixos, criatividade, e crescimento. O grupo
promovam emoções positi- foi convidado a participar de vários eventos
vas e que funcionem como públicos, e para isso confeccionaram roupas
um espiral. Essas experiên- típicas para apresentações em festas popula-
cias ampliam o repertório res a exemplo do maior São João do Mun-
de ações e de pensamentos do e do carnaval fora de época. O trabalho
e constroem recursos pes- inclusivo é realizado também com a família
soais que serão necessários das portadoras de sofrimento psíquico, que
ao longo da trajetória dos participam das oficinas e são acompanhadas
indivíduos (POLETTO E KOL- em visita domiciliar.
LER,2006). A confecção de
bonecas de pano, teatro de RESULTADOS ALCANÇADOS:
marionetes e trabalhos arte- Os resultados encontrados nesta experiência
sanais, resgatou e descobriu nos apontam para um resgate da auto-esti-
habilidades manuais em mu- ma. Benedita, Amarílis, Dália e Rosa são al-
lheres que nunca tiveram a guns dos muitos exemplos que comprovam
oportunidade de fazê-las. a eficácia da experiência com o grupo tera-
Levando-as a descobrir pos- pêutico comunitário, realizado no bairro do
síveis fontes de renda, que Pedregal. Os depoimentos a seguir vêm com-
82 melhoravam o orçamento
doméstico. – A reabilitação
provar o sentimento de resgate que as usuá-
rias apresentam:

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
– Meu nome é Benedita, antes 17 anos, triste, promoção da saúde mental
depois com 19 anos após freqüentar o grupo na Atenção Básica.
de saúde mental, estou muito feliz, depois de – Eu vivia sempre com pro-
muito apoio, eu estou me sentindo melhor, blema de saúde não tinha
não tenho mais vergonha de mim e dos meus alegria pra nada, vivia sem-
erros eu aprendi a encarar a vida e resolver os pre me escondendo de todos
problemas na maior calma... e se não fosse o e de tudo, mas hoje graças
grupo ...eu acho que hoje em dia eu estava a Deus e o grupo sou feliz.
louca....eu tive problemas na infância...agora Participo há sete anos... eu
eu aprendi que quando há uma nuvem as- era uma pessoa completa-
sim, tem sempre um sol que há de brilhar-. mente isolada de todo mun-
Pode-se observar na fala de Benedita, uma do, pra min eu só pensava
nova percepção, com o aumento da auto- em morrer, me suicidar, se
estima após o apoio social do grupo, antes isolar, pense que uma doen-
havia uma visão negativa que a enquadrava ça muito ruim é o tal do ner-
no modelo de vulnerabilidade psicossocial, vosismo, deixa uma pessoa
por meio de uma exacerbada autocrítica que num baixo astral. (Dália)
está sendo substituída por atitudes positivas Observaram-se ao longo
de enfrentamento aos problemas. Eu já sofria do grupo, evidências que
muito nas internações... eu já fui internada mesmo sem um diagnósti-
pra lá de 20 vezes, era um sofrimento, a gen- co específico, cada mulher
te era tratado como bicho, pensa que é bom ao seu modo, tinha histó-
levar choque, eu levei muito choque, isso rias de perdas, solidão e de
não é tratamento... agora que estou boa! desajuste familiar. Consta-
Não precisava dessas coisas para melhorar... tou-se que o desafio inicial
Era muito triste, todo mundo pelado, a gente de construirmos um espaço
preso numa jaula como bicho, e ainda leva- coletivo, funcionava como
va choque, era assim não gosto nem de me uma rede de apoio, propor-
lembrar... Hoje eu sou feliz e tenho saúde. cionando o descortinar de
Antes era só choque, hoje é só amor e cari- fortalezas em mulheres que
nho. (Amarílis). vivem em situações de ad-
Durante o acompanhamento desta usuária versidades emocionais, vio-
no grupo terapêutico comunitário a equipe lência de gênero e social.
da saúde da família constatou que não houve Apesar de conviver com as
reinternação hospitalar. No tocante aos resul- injustiças sociais de um país
tados exitosos do grupo, verificamos mais um
depoimento que reafirma a importância da
capitalista que contribui para
este sofrimento psíquico, as
83

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
mulheres estão descobrin- sam ter acesso a esse serviço. O bairro do
do saídas para melhorar sua Pedregal foi contemplado com o – Projeto
saúde mental. Vislumbrou-se BID HABITAR – para reurbanização em par-
nesta perspectiva, não uma ceria com a Prefeitura Municipal de Campina
forma de alienação, mas um Grande e o Banco Mundial, na construção de
fator de proteção à doença moradia e saneamento básico. A equipe do
mental e uma contribuição PSF e as usuárias já haviam reivindicado à pre-
à conquista da cidadania. feitura municipal um espaço para reuniões,
Um dos desdobramentos do onde pudesse haver um melhor acolhimento
grupo terapêutico comuni- com condições de trabalho produtivo para
tário foi a formação de um geração de renda. Após a elaboração de vá-
segundo grupo denominado rios projetos, foi aprovado e contemplado um
de – grupo âncora-. Cujas espaço comunitário denominado por – Casa
características: oferecer um da Ciranda-. Esta casa foi equipada pela Se-
suporte permanente de cretaria Municipal de Saúde, com recursos do
apoio emocional, funcionan- Ministério da Saúde por meio do REFORSUS.
do com prazo indetermina- A inauguração oficial da Casa da Ciranda foi
do mais um dia na semana, realizada em abril de 2005. Neste período,
nele participam as usuárias recebemos a visita de mulheres que se en-
oriundas do grupo inicial, contravam há mais de vinte anos internadas
funcionando com oficinas no hospital psiquiátrico conveniado pelo SUS,
de trabalhos manuais, sendo que neste momento passava por uma inter-
coordenado por uma parte venção do Ministério da Saúde onde foram
da equipe representado pela constatados falta de estrutura física e maus
assistente social e a agente tratos com os internos, por não se adequar
comunitária de saúde. Neste ao que preconiza a legislação da saúde men-
grupo foi mantido o espaço tal. A experiência do grupo foi um exemplo
de acolhimento, da fala e para as mulheres que iriam passar a morar
escuta atenta e cuidadosa. numa residência terapêutica, dentro da pers-
A integração e comunicação pectiva da política de desinstitucionalização.
com os outros componen- Essa visita contribuiu para que elas entendes-
tes da equipe é mantida, de sem que seria possível viver além dos espaços
forma que, esta seja sempre institucionais antes conhecidos, estimulando-
atualizada. Este espaço fa- se a partir do exemplo das mulheres que ora
vorece ainda a oportunidade conheciam. No que concerne à apropriação
84 para que outras portadoras
do sofrimento psíquico pos-
da cidadania, houve um movimento reivindi-
catório relacionado à violência doméstica. Os

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
depoimentos de agressão física sofridos pelas comunidade, contribuindo
mulheres vitimadas por maridos e filhos, por com o incentivo à cultura lo-
vezes usuários de álcool e drogas; as sensibi- cal a exemplo de grupos de
lizou, o que culminou com uma reunião com dança e teatro, repentistas,
representantes da Delegacia da mulher e o sanfoneiros, compositores,
Conselho Municipal de Direitos da Mulher, grupos de forró, pintores,
apoiado por uma carta escrita por uma das artesãos, mágicos da arte
usuárias, relatando o sofrimento e o desejo circense, foram envolvidos
de mudança. Devido um elevado índice de numa parceria de solidarie-
analfabetismo, firmamos uma parceria com dade, quebra de precon-
a Universidade Federal de Campina Grande ceitos e estigmas, num rico
– UFCG, com o objetivo de alfabetizar as mu- processo de inclusão social e
lheres do grupo de saúde mental. A proposta o uso da arte como impor-
da alfabetização não se limitou a escolari- tante instrumento de pro-
zação, mas se remetia a uma nova visão de moção à saúde Tais resulta-
sujeito na sociedade, inseri-las em contextos dos podem ser mensurados
culturais nos quais a decodificação da infor- por meio da redução do
mação escrita é importante para o lazer, o número de internação em
consumo e o trabalho. O envolvimento de hospital psiquiátrico; redu-
outros atores se deu a partir da sensibilização ção do preconceito; evitar a
e divulgação dos resultados positivos ocor- primeira internação; criação
ridos com a existência do grupo. Formação informal de uma rede de
de uma rede de apoio informal, formada por apoio; melhoria da qualida-
professores, estudantes, comerciantes locais, de de vida por meio do res-
pequenos empresários, ONGs além de um in- gate da auto-estima; produ-
cipiente envolvimento de outras Secretarias ção incipiente de geração de
Municipais, configurando-se em uma dança renda; construção da Casa
de pares. Condição fundamental para a ma- da Ciranda, espaço adequa-
nutenção e viabilidade do grupo. Contamos do para produção material e
com a participação efetiva de um grupo de para acolhimento de afetos,
capoeira, constituído por filhos das usuárias intimidades e reflexões sub-
do grupo. Envolvendo as habilidades pessoais jetivas de cada uma.
e culturais existentes no bairro, apontando o
esporte e a arte como um caminho de pro- LIÇÕES APRENDIDAS COM
moção e prevenção à saúde. A realização de A EXPERIÊNCIA:
mostras culturais com os talentos artísticos do
bairro, onde foram articuladas as famílias e a
A experiência pioneira com
o grupo terapêutico comu-
85

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
nitário em saúde mental poderiam elas, vivendo em situações tão
foi um grande aprendizado adversas não sucumbirem; haveria possibi-
profissional e pessoal para lidades de um grupo de saúde mental dar
todos os integrantes da conta deste desafio? Ele poderia funcionar
equipe do saúde da famí- como fator de proteção a estas mulheres?...
lia. Antes de tudo revelou- Teríamos condições técnicas e conhecimen-
nos um novo olhar sobre a to suficiente para acompanhar os processos
saúde mental, o saber fazer em questão?... Nesta experiência desenvol-
sobre o desafio que resolve- vemos o viés da resiliência como forma de
mos assumir. Partimos prati- enfrentamento. O apoio social como fator
camente do desconhecido e importante no processo de construção da
fomos nos encantando com resiliência, abrindo perspectivas de contri-
a força e coragem daquelas buição em nível da atenção básica com a
mulheres. Descobrimos no promoção da saúde mental, uma vez que
espaço da fala que foi ofer- são desafiadores as estimativas do sofrimen-
tado, algo relativamente to psíquico para os próximos anos. O espaço
simples, mas de grande va- ofertado, o ouvido e olhares atentos à fala
lia para todos os envolvidos, de cada uma dessas mulheres, o nosso e o
usuárias e equipe. Desven- despertar do outro tiveram efeitos surpreen-
damos o prazer e a grande- dentes, proveitosos, resolutivos. Criamos o
za de escutar, de estarmos espaço do cuidar, do acolher, fortalecemos
atentas a tudo que aconte- laços de afeto, de respeito e admiração mú-
cia com as mesmas, e desta tua. A experiência foi exitosa por ter mos-
forma, íamos nos surpreen- trado a viabilidade de se incorporar a saúde
dendo com os resultados mental na Atenção Básica.
positivos que fomos encon- Conseguimos por em prática um conceito
trando, com depoimentos ampliado da saúde mental onde não se se-
de resgates de vida, de iden- para o biológico do mental e espiritual, apon-
tificação entre elas e da di- tando certo otimismo no profissional que tra-
mensão que passaram a ter balha em atenção básica na estratégia saúde
ao relatar seus problemas e da família. Aprendemos a viabilidade de se
ouvir o das outras. Muitos trabalhar com a saúde mental com a valori-
foram os questionamentos: zação da capacidade de interação, fortaleci-
como poderíamos melhorar mento da autonomia e da construção de su-
a saúde mental daquelas jeitos formuladores de sua história. O fator de
86 mulheres sem mudarmos
as condições de vida; como
fundamental importância foi o envolvimento
da equipe, caracterizando a interdisciplina-

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
ridade e o êxito de uma experiência que se dades que a estratégia Saú-
tornou reveladora e transformadora por não de da Família proporciona
estar centrada na figura tradicional do médi- é o uso do território como
co, tampouco da doença. A estratégia Saúde espaço privilegiado para in-
da Família é uma forte aliada para a consecu- serção do portador de so-
ção da reforma psiquiátrica, uma vez que a frimento psíquico, uma vez
equipe está inserida na realidade onde estes que a hospitalização seqües-
vivem. O que nos faz lembrar Basaglia quan- tra o paciente do seu con-
do afirmava que a situação se invertia com o vívio, afastando-o das rela-
fechamento dos manicômios, pois antes eles ções inter-pessoais, tirando
estavam presos e nós livres e agora eles estão sua autonomia, além das
soltos a cabe aos profissionais e a sociedade formas desumanas de trata-
a responsabilidade para manter o cuidado. mento que ao invés de recu-
Sendo importante relatar que é um ato pre- perá-lo, cronifica-o. É neste
ocupante quando em momentos de crise do território dinâmico onde o
usuário, nem sempre é possível contar com o usuário estabelece suas rela-
apoio da família, necessitando muitas vezes a ções familiares e sociais, que
demanda do agente de saúde como acompa- deve ser trabalhado conjun-
nhante ao ambulatório de psiquiatria, onde tamente para que se possa
por muito tempo de existência do grupo não adequar a aceitação dos di-
havia referência no município(o CAPS só ini- ferentes, num exercício de
ciou em 2004), e na informalidade aciona- inclusão social de respeito às
mos colegas psiquiatras que se dispuseram a individualidades e no trato
ajudar, porém não era o ideal e não atende em lidar com os que fogem
ao princípio da hierarquização. A ausência à – normalidade-, facilidade
de uma política municipal de saúde mental esta que requer muito in-
articulada nos diversos níveis hierárquicos de vestimento porque envolve
atenção foi um fator agravante para o des- não só trabalhar o portador
dobramento de estratégias que garantissem de sofrimento psíquico, mas
a viabilização da proposta. – Até dezembro todo seu entorno, os fami-
de 2003 Campina Grande possuía como for- liares e a comunidade que
ma de tratar o portador de transtorno Men- historicamente cristalizaram
tal apenas dois Hospitais Psiquiátricos: Clínica seus valores e preconceitos
Dr. Maia e Hospital ICANERF e um Núcleo sobre a – loucura. Ao nos
de Atendimento Psiquiátrico – NAP ( Hos- aproximarmos profissionais,
pital Universitário) realizando atendimento
ambulatorial.(CIRILO,pg. 79) Uma das facili-
usuários e comunidade, vi-
mos descortinar um entre-
87

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
laçamento de vidas, de soli- humanos bem como uma equipe de acom-
dariedade, de respeito e de panhamento e avaliação, para monitorar e
cuidado para com o outro. qualificar as ações desenvolvidas, e constru-
Permitindo o acesso de mão ção de uma rede de referência hierarquizada
dupla de todos os integran- facilitando a integralidade e o melhor acesso
tes da equipe, favorecendo aos diversos níveis de atenção. Na prevenção
a vinculação, a persistência e e promoção à saúde se faz necessário parce-
o companheirismo. No que rias com os diversos setores da sociedade, não
concerne aos depoimentos adianta tomar remédio se existe esgotos a céu
referidos pelas participantes aberto, acúmulo de lixo em terrenos baldios
do grupo e na nossa ava- e outros fatores determinantes da doença. É
liação a capacidade de en- importante o entendimento dos gestores no
frentamento pode ser vista investimento de políticas públicas que prio-
como um processo dialético rizem educação, trabalho e demais políticas,
onde não se eliminando o de forma que não veja a saúde de forma iso-
problema, se muda a forma lada. Sentimos com a experiência vivenciada,
de enfrentá-lo, o que nos a lacuna existente no sistema de informação
faz otimistas quanto à im- referente aos indicadores de saúde mental no
portância de conhecermos que se configura a negligência nesta área. O
e estudarmos mais sobre a Sistema de Informação em Atenção Básica
qualificação da saúde men- (SIAB) não contempla um programa de re-
tal na Atenção Básica como gistros dos indicadores de saúde mental que
fator importante na promo- permita uma contínua monitoração, avalia-
ção e prevenção da saúde ção e atualização dos dados, as informações
mental. disponíveis além de serem quantitativas, são
irrelevantes, o que se faz necessário construir
RECOMENDAÇÕES: indicadores de saúde para um planejamento
A experiência nos revela al- à saúde mental mais adequado no âmbito da
guns fatores que se fazem Atenção Básica.
necessários serem incorpo- Existe uma frágil política de medicação psi-
rados para obter maior êxi- cotrópica para Atenção Básica. O número de
to. É fundamental que haja Unidades Básicas de Saúde da Família que
decisão política do municí- contemplam em sua farmácia a dispensação
pio para elaborar um proje- de antipsicóticos, antidepressivos e ansiolíti-
to de saúde mental para a cos, por diversas razões que não nos compete
88 Atenção Básica, com apoio
e capacitação em recursos
analisar, dificulta o acesso dos usuários que
fazem uso contínuo desta medicação e que

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
5.7. A Saúde da Família e a Reforma Psiquiátrica:
uma dança de pares
não deve ser descontinuada sem indicação saúde mental, indispensável
devida. A nossa experiência ao lidarmos com para obter êxito, pois é no
esta clientela nos aponta para a facilidade território, local onde se vive
em descentralizar para a unidade a medi- a vida que estes usuários
cação necessária, facilitando e garantindo devem estar inseridos e não
o acesso a esta medicação próximo ao lo- confinados em hospitais
cal de moradia, bem como o abastecimen- psiquiátricos desumanos.
to contínuo sem interrupção o que é contra Concluindo esperamos que
indicado em determinadas situações. Um essa experiência possa con-
dos desafios para inclusão social destes pa- tribuir com o nível de com-
cientes é a inserção no mercado de trabalho preensão dos vários atores
formal, sabe-se da dificuldade de absorção envolvidos na condução da
de mão-de-obra qualificada para concorrer política de saúde, sobretu-
ao emprego no sistema capitalista, imagi- do no processo do cuidado,
ne-se o preconceito com os portadores de munindo-os a adotar práti-
sofrimento psíquico. Entende-se a importân- cas justas e humanizadas.
cia do trabalho como fonte de subsistência
bem como fator importante de realização
pessoal e para a autonomia. Neste sentido
é desafiante uma política intersetorial que
vislumbre a inclusão social destes usuários
no mercado de trabalho. A doença mental
na sociedade contemporânea vem ocupan-
do dimensões incalculáveis. Salta aos olhos
o aumento significativo do sofrimento psí-
quico e dos agravos, neste sentido necessá-
rio se faz investir na produção científica que
nos ajude a compreender a epidemiologia
destes eventos crescentes e formas de inter-
venção precoce bem como de promoção à
saúde mental, sendo urgente a necessidade
de se investir em pesquisas nesta área de es-
tudo. Apontamos outro viés que é o da ca-
pacitação permanente em serviço com toda
a equipe. Tanto no sentido de sensibilizar
como no de preparar a equipe para a com-
plexidade de trabalhar na atenção básica a
89

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
Família: formação de redes de apoio
5.8. Educação em saúde na Estratégia Saúde da Nome do Autor Principal: sobre a realidade, além da construção de es-
FERNANDA CRISTINA tratégias de enfrentamento. Cria-se a possibi-
MANZINI lidade de troca de saberes, abrem-se espaços
Outros Autores: de interação cultural e negociação entre os
MAÍRA RODRIGUES BALDIN diversos atores envolvidos, que constroem sa-
CRISTINA MARIA GARCIA ídas coletivas para seus problemas, forman-
DE LIMA PARADA do redes de apoio da comunidade e entre os
Área Temática: Promoção membros envolvidos, promovendo a cidada-
da Saúde na AB/SF nia, a inclusão e o controle social. Acredita-se
Local onde o trabalho foi que as atividades lúdicas, ao trabalharem os
realizado: BOTUCATU – SP mais diversos contextos trazidos pela comu-
nidade, promovem mudanças duradouras
RESUMO: nos hábitos e comportamentos para a saúde.
A Estratégia Saúde da Famí- Tendo em vista as propostas da ESF, duas uni-
lia (ESF) rompe com o mode- dades pensando em atender às necessidades
lo de assistência tradicional e demandas das pessoas/família/grupo em
da atenção básica, incorpo- sua integralidade, desenvolvem diversos pro-
rando recursos humanos e jetos terapêuticos e, entre eles, destacam-se
tecnologias contextualizadas o Grupo de Mulheres Vitoriosas e a Oficina
em novas práticas de saúde. das Flores. A TC dessa unidade foi nomeada
Assim, para os trabalhadores pelas integrantes como – grupo de mulheres
em saúde propõe-se a re- vitoriosas-, onde podem participar pessoas,
construção das relações en- em especial mulheres, de diferentes níveis só-
tre as equipes multiprofissio- cio-econômicos e culturais e de diferentes fai-
nais e a comunidade. Nesse xas etárias, com ou sem depressão; vítimas de
sentido, a educação popular violência; famílias de pacientes psiquiátricos;
tem sido utilizada como uma familiares e/ou cuidadores, agentes comuni-
estratégia de aproximação tários; funcionários, dentre outros. Contudo
cultural entre os serviços de a Terapia Comunitária favorece a transforma-
saúde/saber científico e o co- ção e mudança não só dos indivíduos e suas
nhecimento popular. Nessa famílias, mas também das comunidades que
perspectiva busca-se traba- constituem. A Oficina de Flores faz parte do
lhar com grupos de pesso- projeto em curso – A Construção do Atendi-
as, fomentando formas co- mento em Saúde Mental no Programa Saúde
letivas de aprendizado para da Família-, cuja metodologia está pautada
90 promover o crescimento da
capacidade de análise crítica
no caminho processual. Nessa dinâmica, am-
plia-se a construção de um atendimento vol-

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
Família: formação de redes de apoio
5.8. Educação em saúde na Estratégia Saúde da
tado para as subjetividades, considerando os to das ações construídas a
contextos e a promoção de potencialidades partir da intersetorialidade
latentes. A experiência permite avaliar que priorizando ações de educa-
o novo paradigma da Reforma Psiquiátrica ção popular em saúde. Essas
e Sanitária remete a uma forma de aten- relações têm sido facilitadas
ção mais complexa, fazendo com que novas pelas práticas de educação
reflexões sobre o processo saúde/doença popular em saúde, que se
mental/cuidado sejam realizadas, baseadas concretizam mediante ações
na valorização do cuidar, adotando-se o ter- dos atores sociais no cotidia-
ritório como espaço social para o exercício no, possibilitando a reflexão
de cidadania. Como enfermeiras, constata- crítica sobre os processos de
mos por meio de relatos expressos o quanto trabalho, visando à produção
é possível estimular redes de apoio, resga- de novos conhecimentos e o
te das potencialidades e fortalecimento das desenvolvimento de outras
pessoas pela troca de experiência. possibilidades de promoção
Observação: à saúde consoante com os
Fica claro que o profissional atuante em ações princípios do SUS. No entan-
desse tipo estabelece vínculos intensos, pois to entendemos que não é
ao mesmo tempo que estimula a reconstrução possível realizar ESF sem aco-
do outro a partir do sofrimento, proporciona lhimento, ferramenta impor-
momentos de reflexão interior, pela aquisição tante para a concretização
de saberes e vivências comunitárias. de um modelo de atenção
a saúde realmente acessível,
INTRODUÇÃO: resolutivo e humanitário.
A Estratégia Saúde da Família (ESF) rompe Acolher no serviço de saúde
com o modelo de assistência tradicional da significa, antes de tudo, ad-
atenção básica, incorporando recursos huma- mitir uma maneira diferente
nos e tecnologias contextualizadas em novas de viver, o que pode não ser
práticas de saúde. Assim, para os trabalhado- fácil, isto é, os profissionais
res em saúde propõe-se a re-construção das de saúde devem ser prepa-
relações entre as equipes multiprofissionais rados para interagir com
e a comunidade. Cada equipe é organizada o diferente, construir algo
sob a lógica, que deve conhecer as famílias em comum, descobrindo a
do território de abrangência, realizar diag- nossa humanidade profun-
nóstico da área, identificar os problemas de da nas relações com os ou-
saúde e as situações de risco existentes. Após
tal diagnóstico, é necessário planejamen-
tros e com o mundo. Não é
possível acolher sem formar
91

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
Família: formação de redes de apoio
5.8. Educação em saúde na Estratégia Saúde da vínculo, que pode ser enten- saúde/saber científico e o conhecimento po-
dido como resultado final de pular. Nessa perspectiva busca-se trabalhar
uma construção social e par- com grupos de pessoas, fomentando formas
te de um esforço multipro- coletivas de aprendizado para promover o
fissional e interdisciplinar, crescimento da capacidade de análise crítica
que envolve equipe, institui- sobre a realidade, além da construção de es-
ções e comunidade, possibi- tratégias de enfrentamento. Cria-se a possibi-
litando o resgate da relação lidade de troca de saberes, abrem-se espaços
de compromisso, de co-res- de interação cultural e negociação entre os
ponsabilidade e de interação diversos atores envolvidos, que constroem sa-
entre os sujeitos envolvidos. ídas coletivas para seus problemas, forman-
É importante lembrar da do redes de apoio da comunidade e entre os
associação do técnico com membros envolvidos, promovendo a cidada-
o não técnico em todos os nia, a inclusão e o controle social. Acredita-se
momentos assistenciais, de- que as atividades lúdicas, ao trabalharem os
vendo-se considerar que em mais diversos contextos trazidos pela comu-
toda ação terapêutica há um nidade, promovem mudanças duradouras
autêntico encontro entre as nos hábitos e comportamentos para a saúde.
identidades dos diversos su- Tendo em vista as propostas d a ESF, duas
jeitos. No âmbito do cuida- unidades pensando em atender às necessi-
do, as finalidades técnicas dades e demandas das pessoas/família/grupo
transcendem a objetividade, em sua integralidade, desenvolvem diversos
realizando uma contínua projetos terapêuticos e, entre eles, destacam-
(re)construção de identidade se o Grupo de Mulheres Vitoriosas e a Oficina
e de projetos de felicidade das Flores.
e de saúde. Assim coloca-
se para os trabalhadores OBJETIVOS:
em saúde um grande desa- Descrever experiências de momentos tera-
fio de construir, inventar, o pêuticos entre usuárias de duas Unidades
que pode complexificar as Saúde da Família, no enfoque da educação
relações entre as equipes popular em saúde.
multiprofissionais e os mem-
bros da comunidade. Nesse METODOLOGIA:
sentido, a educação popular O processo de trabalho das atividades acon-
tem sido utilizada como uma tece semanalmente nas diferentes unidades,
92 estratégia de aproximação
cultural entre os serviços de
onde são convidadas todas as mulheres na
área de abrangência, seja por sofrimento

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
Família: formação de redes de apoio
5.8. Educação em saúde na Estratégia Saúde da
mental, ou mesmo, pelo incentivo da parti- instrumento para interpreta-
cipação popular. A Terapia Comunitária (TC) ção da subjetividade. Utiliza-
é um modelo de ação que promove a forma- mos também os referenciais
ção de rede social e a troca de experiências teóricos de Winnicott (1975),
entre os participantes. Tendo o sofrimento Vaisberg (2002). A Oficina
humano como seu contexto definidor, traba- de Arranjos Florais tem seis
lha no sentido de ressaltar competências, for- etapas: 1) A primeira con-
talecer a auto-estima e o empoderamento. siste-se na apresentação
Apresenta-se como um modelo estruturado do grupo; 2) Realização de
em etapas – acolhimento, escolha do tema, exercícios de relaxamento;
contextualização, problematização, rituais de 3) Oferecimento de opções
agregação, fechamento e avaliação. A con- variadas de objeto (sucatas)
dução da sessão pressupõe uma sensibilida- como caixas, vidros, latas, a
de para a escuta e atenção a cada um dos serem enfeitados e transfor-
participantes e ao grupo como um sistema mados em vasos, utilizando
organizado numa dinâmica particular. A TC papéis coloridos, fitas, colas,
dessa unidade foi nomeada pelas integrantes tesoura; 4) Apresentação de
como – grupo de mulheres vitoriosas-, onde flores vivas e esponjas flo-
podem participar pessoas, em especial mu- rais, colocadas à disposição
lheres, de diferentes níveis sócio-econômicos dos participantes para livre
e culturais e de diferentes faixas etárias, com escolha; 5) Contemplação
ou sem depressão; vítimas de violência; famí- do próprio arranjo, como
lias de pacientes psiquiátricos; familiares e/ou também dos participantes;
cuidadores, agentes comunitários; funcioná- 6) Questionamento da coor-
rios, dentre outros. Contudo a Terapia Comu- denadora sobre como o par-
nitária favorece a transformação e mudança ticipante se sentiu fazendo a
não só dos indivíduos e suas famílias, mas atividade, possibilitando por
também das comunidades que constituem. A meio da linguagem a expres-
Oficina de Flores faz parte do projeto em cur- são de emoções presentes.
so – A Construção do Atendimento em Saúde
Mental no Programa Saúde da Família-, cuja RESULTADOS
metodologia está pautada no caminho pro- ALCANÇADOS:
cessual. A atividade é baseada nos princípios Nessa dinâmica, amplia-se
do Ikebana adaptados por Sato (1997). Essa a construção de um atendi-
adaptação permite levar arranjos com flores mento voltado para as sub-
vivas aos serviços de saúde, e também utilizar
tal atividade como meio terapêutico e como
jetividades, considerando os
contextos e a promoção de
93

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
Família: formação de redes de apoio
5.8. Educação em saúde na Estratégia Saúde da potencialidades latentes. LIÇÕES APRENDIDAS COM A EXPERIÊNCIA:
A experiência permite ava- Como enfermeiras, participantes dos grupos,
liar que o novo paradigma constatamos por meio de relatos expressos
da Reforma Psiquiátrica o quanto é possível construir a integralida-
e Sanitária remete a uma de da assistência, pelo estímulo de redes de
forma de atenção mais apoio, resgate das potencialidades e fortale-
complexa, fazendo com cimento das pessoas pela troca de experiên-
que novas reflexões so- cias. Fica claro que o profissional atuante em
bre o processo saúde/do- ações desse tipo estabelece a humanização
ença mental/cuidado se- da assistência no seu cotidiano, pois no mes-
jam realizadas, baseadas mo tempo que estimula a reconstrução do
na valorização do cuidar, outro, proporciona momentos de reflexão
adotando-se o território interior, pela aquisição de saberes e vivên-
como espaço social para cias comunitárias.
o exercício de cidadania.
Nesses momentos, alguns BIBLIOGRAFIA: Moraes RA, Manzini FC,
sentimentos são expres- Spiri WC et al. A percepção da equipe de
sos pelas mulheres, tais saúde da família sobre o trabalho com
como: alívio diante da fala grupos (educação popular). ANAIS III SI-
e escuta de situações de PEQ & V EFAE; 1-10. Secretaria Municipal
sofrimentos, acolhimento de Saúde. Acolhimento: o pensar, o fazer,
gerado no grupo, forma- o viver. São Paulo SP; 2002, 144. Barre-
ção de redes de amizades to AP. Terapia Comunitária passo a passo.
e apoio, integração em Fortaleza, CE, 2005; 336.
outras atividades da uni-
dade, como artesanato,
oficina de culinária, cami-
nhadas, organização em
fórum das mulheres e ou-
tros tipos de participação
popular. Evidencia-se a
satisfação pelo resgate da
autonomia e valorização
das potencialidades, além
do vínculo que se esta-
94 belece no decorrer desse
processo.

EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.1. O ACS como agente motivador da
participação comunitária
Autora Principal: flutuador e calcular a aplica-
MARIGLEN DIAS TRINDADE ção do biolarvicida – Bacillus
Outros Autores: thuringensis var. Israelensis,
ANDERSON FRIBEL MORAES também visitaram os locais
ELISEU SANTOS DE MELO de risco na área adscrita do
JULIANO LACERDA PSF km 4. Segundo o mapa
Área Temática: Promoção da Saúde na do manancial hídrico do mu-
AB/SF nicípio de Vacaria, na área
Local onde o trabalho foi realizado: do PSF Km 4, existem cinco
Vacaria – RS riachos e a maior infestação
do mosquito no município
RESUMO: ocorre nesse local carac-
No Rio Grande do Sul, historicamente, as terizando a área de maior
populações residentes em áreas rurais e su- risco, inclusive diminuindo
búrbios sofrem com o ataque dos borrachu- a visitação ao local denomi-
dos. Sua presença interfere na qualidade de nado Pesque Pague, ponto
vida dos moradores, além de causar perdas turístico localizado na área.
na produtividade dos animais e prejuízos nos Após o treinamento, a equi-
pólos turísticos. A estratégia Saúde da Família pe de agentes de saúde do
– PSF Km 4 –, no município de Vacaria/RS, ca- PSF Km 4 iniciou uma série
racteriza-se por ter uma extensa área com ca- de atividades junto à comu-
racterísticas urbanas e rurais. Possui diversas nidade, utilizando das suas
pequenas propriedades denominadas sítios, visitas domiciliares mensais
com córregos e arroios onde a proliferação para abordar o tema dos
do mosquito borrachudo é intensa. Os Agen- borrachudos, aplicar a ficha
tes Comunitários de Saúde, após ouvirem as epidemiológica de agravo,
reclamações da comunidade no tocante a convidar e divulgar a reu-
alta incidência de borrachudos, contataram nião comunitária para de-
o Departamento de Vigilância em Saúde da finir as estratégias de ação
Secretaria Municipal de Saúde de Vacaria, no controle do mosquito na
que, juntamente com o CEVS – Centro Es- área. Foi observada, com o
tadual de Vigilância em Saúde/RS, capacitou desenrolar das ações, me-
os Agentes Comunitários de Saúde para atu- lhora na qualidade de vida
arem junto à sua comunidade no controle da da comunidade, uma vez
infestação de simulídeos. Durante o treina- que diminuiu a incidência
mento, os ACS aprenderam avaliar e medir a
vazão dos córregos, determinar a vazão pelo
do mosquito; a mobilização
da comunidade para a lim-
95

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.1. O ACS como agente motivador da
participação comunitária
peza dos córregos na área INTRODUÇÃO:
adscrita do PSF Km 4. Dos No Rio Grande do Sul, historicamente, as
cinco locais demarcados, populações residentes em áreas rurais e su-
apenas a limpeza do pri- búrbios sofrem com o ataque dos borrachu-
meiro riacho já ocorreu, to- dos. Sua presença interfere na qualidade de
talizando mais de dois mil vida dos moradores, além de causar perdas
metros de extensão e em na produtividade dos animais e prejuízos nos
seguida a aplicação do BTi. pólos turísticos. A estratégia Saúde da Família
Já foi planejada a segun- – PSF Km 4 –, no município de Vacaria/RS, ca-
da intervenção, mas ainda racteriza-se por ter uma extensa área com ca-
não ocorreu. As pequenas racterísticas urbanas e rurais. Possui diversas
empresas dos arredores pequenas propriedades denominadas sítios,
também disponibilizaram com córregos e arroios onde a proliferação
alguns funcionários para do mosquito borrachudo é intensa.
ajudar na próxima limpeza
dos riachos. Para o contro- OBJETIVOS:
le efetivo do borrachudo, é Os Agentes Comunitários de Saúde, após
necessário o envolvimento ouvirem as reclamações da comunidade no
de toda a comunidade, pois tocante a alta incidência de borrachudos,
dependerá dela a mudança contataram o Departamento de Vigilância em
de comportamento e o su- Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de
cesso dos resultados. Entre Vacaria, que, juntamente com o CEVS – Cen-
as lições aprendidas com tro Estadual de Vigilância em Saúde/RS, capa-
essa experiência, destaca- citou os Agentes Comunitários de Saúde para
se a importância da cons- atuarem junto à sua comunidade no controle
cientização para o cuidado da infestação de simulídeos. Durante o treina-
com o meio ambiente, pro- mento, os ACS aprenderam avaliar e medir a
movendo o equilíbrio bio- vazão dos córregos, determinar a vazão pelo
lógico; para se obter bons flutuador e calcular a aplicação do biolarvi-
resultados, é necessária a cida – Bacillus Thuringensis var. Israelensis,
conscientização e adesão também visitaram os locais de risco na área
da comunidade ao projeto adscrita do PSF Km 4. Segundo o mapa do
de limpeza e manutenção manancial hídrico do município de Vacaria,
dos criadouros. O principal na área do PSF Km 4 existem cinco riachos e
aprendizado para os ACS a maior infestação do mosquito no município
96 foi o fortalecimento do vín-
culo com sua comunidade.
ocorre nesse local caracterizando a área de
maior risco, inclusive diminuindo a visitação

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.1. O ACS como agente motivador da
participação comunitária
ao local denominado Pesque Pague, ponto Entre as lições aprendi-
turístico localizado na área. das com essa experiência,
destaca-se a importância
METODOLOGIA: da conscientização para
Após o treinamento, a equipe de agentes o cuidado com o meio
de saúde do PSF Km 4 iniciou uma série de ambiente, promovendo o
atividades junto à comunidade, utilizando equilíbrio biológico. Para
das suas visitas domiciliares mensais para se obter bons resultados, é
abordar o tema dos borrachudos, aplicar necessária a conscientiza-
a ficha epidemiológica de agravo, convi- ção e adesão da comunida-
dar e divulgar a reunião comunitária para de ao projeto de limpeza e
definir as estratégias de ação no controle manutenção dos criadou-
do mosquito na área. Foi observada, com ros. O principal aprendiza-
o desenrolar das ações, melhora na quali- do para os ACS foi o forta-
dade de vida da comunidade uma vez que lecimento do vínculo com
diminuiu a incidência do mosquito; a mo- sua comunidade ao terem
bilização da comunidade para a limpeza conseguido encaminhar a
dos córregos na área adscrita do PSF Km solução para um problema
4. Dos cinco locais demarcados, apenas constante e persistente,
a limpeza do primeiro riacho já ocorreu, bem como o fortalecimen-
totalizando mais de dois mil metros de ex- to da importância de seu
tensão e em seguida a aplicação do BTi. Já trabalho na melhora da
foi planejada a segunda intervenção, mas saúde e da qualidade de
ainda não ocorreu. As pequenas empresas vida das pessoas que resi-
dos arredores também disponibilizaram al- dem na sua micro-área.
guns funcionários para ajudar na próxima
limpeza dos riachos. RECOMENDAÇÕES:
Sempre que for detectado
RESULTADOS ALCANÇADOS: algum problema na comu-
Para o controle efetivo do borrachudo, é nidade, o ACS deve pro-
necessário o envolvimento de toda a co- curar auxílio e encaminhar
munidade, pois dependerá dela a mudan- o assunto às reuniões de
ça de comportamento e o sucesso dos re- equipe. Somente quando
sultados. a comunidade participa
de todo o processo é que
LIÇÕES APRENDIDAS COM A
EXPERIÊNCIA:
a mudança efetivamente
ocorre!
97

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
um exemplo de educação permanente em saúde
6.2. Agente ator comunitário de saúde: Autora Principal: grupo social ao qual pertence, tornando-se
ANA CARLA PEREIRA DE sujeitas ativas desse processo, em prol de seu
MELO bem-estar físico, mental e social. Utilizamos
Outros Autores: o teatro para desenvolver atividades educa-
ALESSANDRO PEREIRA DE tivas explorando temas atuais de interesse
MELO da sociedade, partindo do pressuposto de
EDSON MORAIS que essa técnica tem um poder expressivo
Área Temática: Assistência de sensibilizar, facilitando a compreensão
na AB/SF daqueles que estão a receber a mensagem,
Local onde o trabalho foi como também um envolvimento mais inten-
realizado: João Pessoa – PB sivo daqueles responsáveis em transmiti-la.
Antes de realizarmos qualquer tipo de apre-
RESUMO: sentação abrangendo um respectivo tema,
Essa iniciativa surgiu da ne- os ACS planejam as ações que antecedem
cessidade de se criar um à apresentação, entre elas: interagem com
vínculo mais significativo da os demais membros da Equipe da Unidade
comunidade com a unidade de Saúde para escolher quais temas serão
de saúde e seus integrantes trabalhados; constroem o roteiro; organi-
para serem trabalhados te- zam o elenco; ensaiam; e montam o cená-
mas relevantes de promo- rio. Após essa etapa é que partimos para o
ção e prevenção à saúde, campo, apresentando a peça para a comuni-
como também para motivar dade e ao seu término debatendo o que foi
a participação dos ACS no exposto, momento feedback. Depois da re-
desenvolvimento de ativida- alização dessa experiência, percebemos que
des educativas planejadas a comunidade ficou menos ofensiva, parti-
com esse fim. Objetivamos, cipando com mais regularidade dos demais
com o desenvolvimento des- grupos educativos ofertados pela unidade
se trabalho, colaborar com a (idosos, adolescentes, terapia comunitária
estratégia Saúde da Família, e gestantes), a relação profissional ganhou
por meio da linguagem cê- mais afetividade e com isso o atendimento
nica, conscientizando a co- se tornou mais humanizado. Aprendemos
munidade dos problemas de muito com essa experiência, principalmen-
saúde existentes e da impor- te, quando percebemos que na vida tudo é
tância de se adotar métodos possível e que cada um de nós é importante
de prevenção, possibilitan- no processo de construção na transformação
98 do às famílias o despertar
individual harmonizado ao
de um serviço de saúde humanizado, aces-
sível e igualitário para toda a população. E

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
um exemplo de educação permanente em saúde
6.2. Agente ator comunitário de saúde:
para isso precisamos trabalhar em conjun- ários. A gestão atual modi-
to, como já dizia o grande educador Paulo ficou essa realidade implan-
Freire: “Ninguém liberta ninguém. Ninguém tando unidades integradas
se liberta sozinho. Os homens se libertam de Saúde da Família. E o pré-
em comunhão”. Precisamos uns dos outros dio onde estamos alojados
para desenvolver um trabalho eficaz, princi- comporta quatro equipes. A
palmente do apoio dos gestores aprovando estrutura realmente propi-
e apoiando as ações. Essa iniciativa poderá ciou melhores condições de
ser desenvolvida por qualquer unidade, em trabalho para os funcioná-
qualquer município, até porque a linguagem rios e melhor atendimento
cênica não tem idade, tempo, região. Ela é para o usuário, mas as difi-
infinita... Única! Esperamos que a nossa ex- culdades em manter um vín-
periência possa contribuir com a estratégia culo mais homogêneo e for-
Saúde da Família, resultando numa significa- talecido com a comunidade
tiva melhora na atenção à saúde no SUS. ainda eram distantes. Cada
Observação: o elenco citado nessa expe- equipe possui a sua área de
riência é composto majoritariamente por abrangência, acompanhan-
Agentes Comunitários de Saúde, mas exis- do suas respectivas famílias,
te a cooperação das demais categorias pro- mas essa ação ainda era
fissionais que compõem a equipe de saú- insuficiente para criar uma
de, nos diversos papéis imprescindíveis na relação de confiança entre
concretização desse trabalho, entre eles: a unidade e a comunidade.
produtor, figurinista, maquiador, fotógrafo Percebeu-se que o serviço
etc. A essência desse trabalho é totalmente estava individualizado, cada
construída no coletivo. um fazia o seu, mas para
crescermos enquanto equi-
INTRODUÇÃO: pe não bastaria só cada um
A Unidade Integrada de Saúde da Família Ci- fazer o seu, mas todos, jun-
dade Verde é composta por quatro equipes tos em sintonia, somar com
de saúde: Cidade Verde I, Cidade Verde IV, o trabalho do outro. Os er-
Cidade Verde V, Cidade Verde VI e Projeto ros persistiam, criava-se um
Mariz. Ela está localizada num bairro de peri- grupo educativo numa se-
feria conhecido por Mangabeira Cidade Ver- mana e na outra já não exis-
de, no município de João Pessoa – PB. Cada tia. As dificuldades em man-
Equipe de Saúde há um ano e meio estava ter as atividades coletivas
funcionando em prédios improvisados sem
estrutura adequada para acolher seus usu-
eram inúmeras, entre elas:
falta de entrosamento dos
99

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
um exemplo de educação permanente em saúde
6.2. Agente ator comunitário de saúde: funcionários; escassez de seriedade de seus objetivos e pela linguagem
material; atividades impro- cênica adotada, propiciando conhecimento
visadas; local inadequado e entretenimento a todos os envolvidos no
para trabalho; ausência de processo, sejam eles trabalhadores e/ou usu-
capacitação. Começamos a ários. Essa iniciativa surgiu da necessidade
participar do Cuidando do de se criar um vínculo mais significativo da
Cuidador com mais entu- comunidade com a unidade de saúde e seus
siasmo. Esse momento é in- integrantes para ser trabalhados temas rele-
centivado pela Equipe Técni- vantes de promoção e prevenção à saúde,
ca do Distrito III e Secretária como também para motivar a participação
de Saúde do Município, mas dos ACS no desenvolvimento de atividades
organizado por toda a equi- educativas planejadas para esse fim. A idéia
pe de saúde, objetivando é usar a educação permanente para melho-
criar uma relação mais afe- rar nossa prática. A educação permanente
tuosa, humanizada, solidária possibilita, ao mesmo tempo, o desenvolvi-
entre os funcionários, arrai- mento pessoal daqueles que trabalham na
gada em valores primordiais saúde e o desenvolvimento das instituições.
para o desenvolvimento de Além disso, reforça a relação das ações de
qualquer equipe: confiança, formação com a gestão do sistema e dos ser-
respeito, credibilidade, sin- viços, com o trabalho da atenção à saúde e
ceridade, solidariedade etc. com o controle social. Ela é feita a partir dos
Mais amadurecidos e sen- problemas enfrentados na realidade e leva
sibilizados com os entraves em consideração os conhecimentos e as ex-
que nos cercavam, procura- periências que as pessoas já têm. Conscien-
mos então inovar nossa prá- tes da importância da educação permanente
tica, desenvolvendo ações em saúde, a equipe vem aprovando e partici-
educativas coerentes com pando com maior freqüência de momentos
o contexto da comunidade. como o Cuidando do Cuidador e as reuniões
Uma delas foi a construção semanais da equipe, realizadas na própria
do Projeto AACS – Agente unidade, que têm propiciado momentos de
Ator Comunitário de Saú- reflexão e ajudado no enfrentamento das
de (um exemplo de educa- problemáticas presentes no âmbito do traba-
ção permanente em saúde). lho e na comunidade, rompendo paradigmas
Edificado por alguns Agen- que impediam o fortalecimento do grupo.
tes Comunitários de Saúde
100 e aprovado pelos demais
membros da equipe, pela
OBJETIVOS:
O Projeto AACS tem como objetivo geral en-

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
um exemplo de educação permanente em saúde
6.2. Agente ator comunitário de saúde:
riquecer o trabalho da estratégia Saúde da 13h às 14h. Em seguida os
Família, utilizando como recurso o teatro, usuários se dirigem aos con-
para conscientizar a comunidade dos proble- sultórios. Nesse momento a
mas de saúde existentes. Buscando alcançar unidade possui uma equi-
o objetivo geral elucidado, enumeramos al- pe escalada para receber
guns objetivos específicos, entre eles: a comunidade e esclarecer
1. Proporcionar maior interação da equipe como será o funcionamento
com a comunidade. da unidade naquele respec-
2. Melhorar a qualidade de vida da popula- tivo dia, estando preparado
ção ofertando conhecimento e lazer. para tirar as dúvidas que
3. Promover a saúde por meio do teatro. surgem da população. As
4. Estimular a capacidade crítica dos traba- atividades desenvolvidas pe-
lhadores e usuários, conduzindo debates los AACS geralmente são a
após o término das peças. partir das 9h e a partir das
6. Conscientizar a comunidade dos proble- 15h. Nesse horário o movi-
mas existentes no seu contexto social. mento já está mais calmo e
7. Fazer com que o Agente comunitário de Saú- os trabalhadores que estão
de se descubra enquanto educador popular. prestando atendimento nos
8. Participar de eventos expondo os traba- consultórios já estão mais
lhos desenvolvidos pelo grupo, como forma livres e têm convidado a
de socializar a experiência vivenciada, auxi- comunidade para participar
liando as instituições na construção de outras do momento. É necessá-
iniciativas que beneficiem o bem comum. rio respeitar as etapas que
antecedem à apresentação
METODOLOGIA: propriamente dita:
Antes de saber fazer, é preciso sentir, ser, 1. Escolha do tema a ser
para não fragmentar o humano, o técnico e trabalhado. Nas reuniões
o político na ação pedagógica. Então o tra- semanais são discutidas
balhador precisa se capacitar, entendendo a possíveis atividades a serem
relação dos trabalhos coletivos e os individu- exploradas naquela sema-
ais. Um não existe em detrimento do outro. na. Se resolver se trabalhar
Eles se completam. Procuramos organizar o com a arte cênica, entra-se
trabalho sem prejudicar os atendimentos da o AACS em cena. Inicial-
consulta. Na unidade onde trabalhamos a mente marcamos uma reu-
natureza do atendimento é o acolhimento. nião para decidir qual tema
O primeiro momento do acolhimento que
antecede às consultas é das 7h às 8h e das
e como explorá-lo.
2. Estudo do tema e le-
101

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
um exemplo de educação permanente em saúde
6.2. Agente ator comunitário de saúde: vantamento do máximo de saiado pode destruir todo um planejamento.
informações importantes A mensagem pode não ser entendida. O ob-
para podermos criar um ro- jetivo do teatro educativo não é o mesmo do
teiro veraz. teatro comercial, que é entreter para obter
3. Construção do roteiro lucro, mas sim motivar a mudança a partir
pelos membros que se iden- da reflexão proporcionada por uma suposta
tificam com o esquema de mensagem que tenha esse fim.
produção de texto. Ele pre- 7. Montagem do cenário. Um dia antes da
cisa está escrito em lingua- apresentação começamos a dar início à mon-
gem clara e fidedigna com a tagem do cenário, adequando-o à peça que
mensagem que se quer pas- será exposta.
sar. Ao final da elaboração é 8. Apresentação da peça. Resultado de todo
necessário apresentá-lo aos trabalho planejado. A comunidade convi-
demais membros do grupo dada e os demais trabalhadores da unidade
para sua aprovação. prestigiam a montagem.
4. Seleção dos papéis. O 9. Hora do debate. Nesse momento há o fe-
elenco precisa ser organiza- edback. O grupo estimula a participação da
do e se comprometer com comunidade na formulação de perguntas so-
os ensaios. bre o tema.
5. Escolha do figurino. O 10. Avaliação dos resultados. Etapa final em
elenco inicia a busca dos que as pessoas envolvidas com o trabalho se
acessórios que serão utili- reúnem para identificar os pontos positivos
zados na peça. Toda ajuda e negativos encontrados no desenvolvimen-
nessa hora é bem-vinda. Não to da atividade. Esse momento é de funda-
só o ator responsável pelo mental importância para o grupo, para que
figurino de seu personagem se possa enaltecer o que deu certo e corrigir
busca seus acessórios, como as falhas.
também cada membro da No ano de 2007 tivemos aproximadamente
equipe e a comunidade aju- umas 12 apresentações, entre elas: A Bru-
dam nesse trajeto dentro xa Cariçéia; A Bela Cariada; O Super-Herói
das condições de cada um. Agente Comunitário de Saúde; Chapeuzinho
6. Escolha do dia dos ensaios Vermelho e a Vovó Hipertensa; Como Aco-
que precisam ser respeita- lher? Sempre que recorremos às atividades
dos e cumpridos. Geralmen- norteadas pelo AACS procuramos seguir à
te o grupo ensaia próximo risca todas as etapas do processo de produ-
102 aos horários finais do expe-
diente. Um grupo mal en-
ção de uma peça teatral. A maior dificuldade
está nos ensaios, já que cada membro tem

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
um exemplo de educação permanente em saúde
6.2. Agente ator comunitário de saúde:
suas atividades individuais a realizar e precisa no figurino, na maquiagem,
conciliar com a atividade coletiva. Apesar do na direção etc. Os resulta-
desafio, temos conseguido atuar com com- dos são atenuantes para a
promisso, alcançando com satisfação um nú- equipe, como também para
mero significativo dos objetivos traçados. a comunidade, mas preci-
samos estar sempre cons-
RESULTADOS ALCANÇADOS: truindo caminhos para apri-
O Projeto Agente Ator Comunitário de Saú- morar cada vez mais nossas
de, exemplo de educação permanente em ações. A cada dia nos con-
saúde, proporcionou um contato marcante frontamos com obstáculos
com a dramaturgia, nos fazendo perceber que precisam ser vencidos
que podemos utilizar diferentes técnicas pe- e com certeza o time que
dagógicas para o alcance dos objetivos tra- tiver maior número de com-
çados. Foram alcançados resultados cruciais ponentes e mais bem prepa-
no desenvolvimento desse trabalho: maior rados terá mais chances de
participação popular nas atividades coletivas conquistar a vitória. Então,
da unidade (grupo de idosos, adolescentes, o que precisamos fazer é
gestantes, sobrepeso e terapia comunitária); estimular a participação do
significativa participação dos trabalhadores maior número de adeptos
nos momentos do Cuidando do Cuidador e que pudermos para levantar
nas reuniões semanais da Equipe de Saúde da a bandeira do time Direito
Família; integração entre os trabalhadores e a à Saúde, expressão afirma-
comunidade; conscientização da comunida- da na Declaração dos Di-
de na prevenção de doenças, principalmente reitos Humanos de 1948 e
a dengue, que tem afetado expressivamente explicitada na Constituição
a comunidade e bairros vizinhos; reconhe- Federal de 1988, que defi-
cimento da gestão, que ficou feliz com a ne a saúde como direito de
idéia construída em todo o processo de tra- todos e dever do Estado,
balho, convidando o grupo para participar indicando os princípios e as
da seleção de projetos de natureza cultural diretrizes do Sistema Único
apoiados por ela; maior número de Agentes de Saúde (SUS). Esse direito
Comunitários de Saúde aderindo a um perfil fundamental do ser huma-
profissional comprometido com uma educa- no se torna realidade com
ção em saúde; maior entrosamento entre to- a participação da população
das as categorias profissionais que compõem em suas conquistas e com
a equipe de saúde, pois todas são envolvidas
no processo de produção de uma peça, seja
o compromisso político do
Ministério da Saúde univer-
103

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
um exemplo de educação permanente em saúde
6.2. Agente ator comunitário de saúde: salização, equidade, inte- tinuamos a aprender a cada dia, quando
gralidade, resolutividade e vemos um de nossos amigos desmotiva-
controle social da política do com o serviço, com algum problema
de saúde. pessoal. Essa atitude tem nos estimulado
a sempre estar buscando caminhos para
LIÇÕES APRENDIDAS desenvolver nosso trabalho com sabedo-
COM A EXPERIÊNCIA: ria e criatividade, almejando resultados
Aprendemos que nunca é satisfatórios para todos aqueles envolvi-
tarde para acreditar. De dos no processo. Essa humildade nos faz
nada adianta fazer se você perceber o quanto nosso trabalho é im-
não acreditar que a sua portante para a comunidade e de como é
atitude possa vir a mudar imprescindível o apoio dela nos serviços
algo. Sabemos que não é disponibilizados pela unidade. Claro que
fácil combater paradig- temos muitas dificuldades, principalmen-
mas estigmatizados por te na carência de apoio nas ações coleti-
toda uma história. Muitos vas, necessitando diversas vezes que os
acham que a saúde públi- próprios trabalhadores custeiem tal inicia-
ca sempre será um caos, tiva. Não que seja certo tomar tal atitude,
uma utopia. Não só usu- que é repreendida por muitas unidades,
ários que se servem dela, mas acreditamos que por meio dela cha-
mas próprios trabalhado- mamos a atenção dos gestores para uma
res que fazem parte dessa melhor assistência nesse âmbito.
saúde e também pessoas
que ocupam cargos impor- RECOMENDAÇÕES:
tantes. A saúde pública é Esse projeto poderá ser desenvolvido por
uma grande família que qualquer unidade de saúde, desde que a
precisa ter o apoio de to- equipe amadureça a idéia de construção des-
dos os seus membros para se trabalho, se alie à educação permanente
poder progredir. O que faz em saúde, buscando sempre se aprimorar
um membro consciente de nos assuntos que almejam desenvolver, pro-
uma família quando per- curando ouvir as opiniões da comunidade,
cebe que um outro está para atuar em temas coerentes com sua re-
sem rumo? Tenta ajudá-lo, alidade. Ressaltamos a importância do apoio
mostrar os caminhos que dos gestores nesse trabalho, incentivando e
pode percorrer para ser fe- dando condições materiais para que ele re-
104 liz. Não é isso? É o que nós
temos aprendido e con-
sulte numa transformação efetiva da reali-
dade diagnosticada.

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.3. Reciclar com saúde
Autora Principal: saúde como: verificação da
ANA PAULA MARTINS DE FREITAS TAFNER vacinação, consultas de ro-
Outros Autores: tina, prevenção de agravos
CLAUDIA MARTINS como hipertensão arterial
HELENA ALMEIDA etc. A sensibilização para o
MARIA ELÍDIA MATHIAS correto manuseio e acondi-
RICARDO ALMEIDA cionamento dos recicláveis,
ROSILENE para o problema da dengue,
Área Temática: Intersetorialidade na Aten- formação de cooperativa de
ção à Saúde reciclagem e cuidados com a
Local onde o trabalho foi realizado: própria saúde. A educação
CAMPINAS – SP tem por objetivo prevenir a
dengue e dar autonomia nos
RESUMO: cuidados com a saúde. Públi-
O módulo de saúde Boa Esperança é uma co-alvo: recicladores e afins
Unidade Básica de Saúde (UBS) do Distrito da região do Módulo Boa
Leste de Saúde e está localizado na conflu- Esperança, contando aproxi-
ência dos bairros Jd. Boa Esperança, Parque madamente com um grupo
Brasília, Vila Lafayete Álvaro e Jd. Flam- de 25 pessoas. Justificativa:
boyant. Essa unidade de saúde contou com histórico de elevado núme-
o histórico de elevado número de casos con- ro de casos confirmados de
firmados de dengue no ano de 2007, o que dengue no ano de 2007 e
levou a equipe a identificar a possível origem alguns casos confirmados
desse problema na presença de um grande em 2008. Pouca vinculação
número de recicladores que se configura em desses usuários à UBS, com
pontos de riscos de transmissão da doença. atrasos na caderneta de va-
Assim foi feito o mapeamento do território, cinação, nenhuma adesão
o levantamento dos recicladores dessa região aos grupos de hipertensão,
e o desenvolvimento do projeto. Objetivo: Lian Chong, às consultas de
Identificar, vincular, sensibilizar e educar os rotina da UBS. Pouca influ-
recicladores da região. A identificação dos ência dos agentes de saúde
pontos de reciclagem na região tem por ob- nas práticas de educação
jetivo a sistemática visitação deles para os tra- em saúde desses usuários.
balhos de prevenção à dengue. A vinculação Pouco conhecimento sobre
à UBS e aos Agentes Comunitários de Saú- a prática de reciclagem e os
de (ACS) tem como objetivo aproximar esses
usuários à UBS e pôr em prática as ações em
problemas da dengue e ou-
tros agravos de saúde ocu-
105

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.3. Reciclar com saúde
pacional (hepatite, tétano). Leste de Saúde e está localizado na confluên-
Metas: aproximar esses usu- cia dos bairros Jd. Boa Esperança, Parque Bra-
ários ao serviço de saúde; sília, Vila Lafayete Álvaro e Jd. Flamboyant.
educar para a dengue; edu- Essa unidade de saúde contou com o históri-
car para reciclagem; fazer co de elevado número de casos confirmados
prevenção e educação em de dengue no ano de 2007, o que levou a
saúde; atualizar a vacina- equipe a identificar a possível origem desse
ção desses usuários; vincular problema na presença de um grande número
esses usuários aos ACS da de recicladores, que se configuram em pon-
microárea. Período de exe- tos de riscos de transmissão da doença. As-
cução: reunião em 25/3/08 sim foi feito o mapeamento do território, o
com proposta de oferta de levantamento dos recicladores dessa região e
um calendário com reuniões o desenvolvimento do projeto.
periódicas sobre vários temas
da saúde e outros. Parcerias: OBJETIVOS:
Departamento de Limpeza Identificar, vincular, sensibilizar e educar os
Urbana (DLU) com a execu- recicladores da região. A identificação dos
ção de palestra e passeio. A pontos de reciclagem na região tem por ob-
todos os participantes será jetivo a sistemática visitação deles para os tra-
oferecido passeio à coope- balhos de prevenção à dengue. A vinculação
rativa de reciclagem, aten- à UBS e aos Agentes Comunitários de Saú-
dimento preventivo com a de (ACS) tem como objetivo aproximar esses
enfermagem, participação usuários à UBS e pôr em prática as ações em
em grupos de hipertensão, saúde como: verificação da vacinação, con-
Lian Chong, Tai Chi Chuan, sultas de rotina, prevenção de agravos como
coleta de CO para as mulhe- hipertensão arterial etc. A sensibilização para
res. Atualização da carteira o correto manuseio e acondicionamento dos
de vacinação, com oferta de recicláveis, para o problema da dengue, for-
vacina de hepatite e tétano. mação de cooperativa de reciclagem e cuida-
Oferta de novas reuniões dos com a própria saúde. A educação tem por
sobre temas como hiperten- objetivo prevenir a dengue e dar autonomia
são, saúde bucal etc. nos cuidados com a saúde.

INTRODUÇÃO: METODOLOGIA:
O módulo de saúde Boa Es- Histórico de elevado número de casos con-
106 perança é uma Unidade Bási-
ca de saúde (UBS) do Distrito
firmados de dengue no ano de 2007 e
alguns casos confirmados em 2008. Pou-

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.3. Reciclar com saúde
ca vinculação desses usuários à UBS, com dade que foi realizada com
atrasos na caderneta de vacinação, nenhu- departamento de limpeza
ma adesão aos grupos de hipertensão, Lian urbana também é essencial
Chong, às consultas de rotina da UBS. Pouca para o sucesso.
influência dos agentes de saúde nas práti-
cas de educação em saúde desses usuários.
Pouco conhecimento sobre a prática de re-
ciclagem e os problemas da dengue e outros
agravos de saúde ocupacional (hepatite, té-
tano). Com esse panorama realizamos com
recicladores e afins da região do Módulo Boa
Esperança, contando aproximadamente com
um grupo de 25 pessoas, reuniões mensais
com proposta de oferta de um calendário
com reuniões periódicas sobre vários temas
da saúde e outros.

RESULTADOS ALCANÇADOS:
Aproximar esses usuários ao serviço de saúde.
Educar para a dengue.
Educar para reciclagem.
Fazer prevenção e educação em saúde.
Atualizar a vacinação desses usuários.
Vincular esses usuários aos ACS da microárea.

LIÇÕES APRENDIDAS COM A EXPERIÊN-


CIA:
É necessária a participação de todos os pro-
fissionais da equipe que foram envolvidos no
projeto, bem como a articulação com a inter-
setorialidade.

RECOMENDAÇOES:
A participação de toda a equipe, com a inclu-
são de outros profissionais, principalmente da
enfermagem e da coordenação, é fundamen-
tal para o sucesso do grupo. A intersetoriali-
107

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.4. Violência contra a mulher
Autora Principal: informações, relatar fatos acontecidos
VALDIVIA GONÇALVES com vizinhas, parentes, amigas. Usa-se
LUCAS como fundo musical: Maria da Penha
Outros Autores: cantada por Alcione. Em outro momen-
MARGARETE CASTILHOS to, reúnem-se as mulheres em pequenos
DA SILVA grupos onde listam todas as variações
Área Temática: Promoção conhecidas de violência sexual, física,
da Saúde na AB/SF psicológica, econômica, institucional.
Local onde o trabalho foi Novo debate com fundo musical: Ma-
realizado: Porto Alegre – RS ria Maria, de Renato Teixeira. Durante
todo o debate ou encenação, a ACS vai
RESUMO: jogando no chão, colando em paredes,
Procurando uma maneira espelhos ou árvores placas com todas as
de sensibilizar as mulhe- palavras, tipos de agressão relatada pelo
res da comunidade so- grupo; no final elas se surpreendem com
bre a violência que vêm a coragem de terem verbalizado tantas
sofrendo, organizamos situações por elas vividas.
uma oficina de debates Observação: este trabalho foi realizado
e troca de informações em parceria da Delegacia da Mulher, casa
entre elas: o facilitador de amparo Madre Teresa de Jesus, Sra.
relata dados de violência Silvia Rodrigues, liderança comunitária do
no bairro, cidade, estado, bairro Restinga.
país. Uma mulher do gru-
po devidamente caracte- INTRODUÇÃO:
rizada narra as agressões A violência contra a mulher aumenta a
por ela sofrida, o grupo cada dia, mas a mulher continua sem de-
se sensibiliza com a situ- nunciar, por medo, vergonha, dependência
ação e durante dez minu- econômica, preconceito, discriminação, de-
tos procura soluções em pendência afetiva, medo de ficar só ou a
defesa da companheira; pedido dos filhos.
a seguir a atriz retira a
maquiagem em frente ao OBJETIVOS:
grupo e faz apresentação Informar e orientar a mulher sobre seus
identificando-se. Notam- direitos, organizar grupos de pessoas
se as diferentes emoções com a finalidade de cuidar da comunida-
108 no rosto do grupo, o inte-
resse em ajudar, procurar
de, resgatar a auto-estima das mulheres
da comunidade.

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.4. Violência contra a mulher
METODOLOGIA:
Organizar encontros onde as palestrantes
são as mulheres da comunidade, apresen-
tar gráfico com as varias fases da violência,
usar música como meio de descontração,
fazer com que elas próprias se organizem
em círculos de debates e percam o medo
de denunciar o agressor.

RESULTADOS ALCANÇADOS:
Desde que se iniciou este trabalho, um nú-
mero de mulheres tem procurado o serviço
de saúde, relatado dentro dos consultórios
as agressões sofridas, procurado os ACS,
solicitando ajuda, as denúncias nas dele-
gacias e posto policiais aumentaram, a so-
licitação por exames clínicos e preventivos
tornou-se rotina para essas mulheres.

LIÇÕES APRENDIDAS COM A EXPERIÊN-


CIA:
O Agente de Saúde está cada vez mais inte-
grado dentro da comunidade, aumentando
sua função de liderança, responsabilidade
com o bem-estar da população. Aprendeu-
se com este trabalho que em grupo e com
todos fazendo a sua parte poderemos ven-
cer mais este desafio. Trabalhar com mu-
lheres que sofrem violência doméstica ou
social requer paciência, respeito, disciplina,
confiança e ética de toda equipe.

RECOMENDAÇÕES:
Capacitar todas as categorias da equipe
para esta abordagem: violência contra a
mulher, para que o trabalho dos ACS, não
fique sem um apoio ou retorno.
109

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
Autora Principal: valência do aleitamento materno na comuni-
JOELMA DE ALBUQUERQUE dade, visando mais do que a diminuição da
AZANHA morbimortalidade infantil, mas a interação
Outras Autoras: e/ou participação da família no processo de
ESTELA DOS SANTOS PEREI- amamentação ao se aproximar mais da mu-
RA DE SOUZA lher que está amamentando. Com o conheci-
SIMONE FRANÇA DOS mento da estrutura física do ambiente fami-
SANTOS liar, há um melhor direcionamento das ações
MARIA DO CARMO MAGA- para a promoção do aleitamento materno, já
LHÃES que os espaços de alguns domicílios são di-
Área Temática: Promoção minuídos, não havendo local apropriado para
da Saúde na AB/SF amamentar, existindo ruídos excessivos, em
Local onde o trabalho foi função do quantitativo de familiares residen-
realizado: Rio de Janeiro – RJ tes no local. De forma objetiva, pretendemos
esclarecer as dúvidas de nutrizes e familiares
RESUMO: da estratégia Saúde da Família da Vila Vin-
A formação do grupo de tém, sobre o aleitamento materno; oferecer
amamentação composto apoio às nutrizes e familiares durante o pro-
por Agentes Comunitários cesso de amamentação, o mais precocemen-
de Saúde (ACS) da Comu- te possível; informar sobre os fatores que po-
nidade de Vila Vintém, no dem interferir no processo de amamentação;
município do Rio de Janeiro, e promover e apoiar o aleitamento materno.
surgiu a partir de uma capa- No período de outubro de 2007 a fevereiro
citação, em junho de 2005, de 2008, foram realizadas visitas domiciliares
em aleitamento materno, a nutrizes e a maioria mostrou dificuldades
promovida pelos multiplica- quanto ao posicionamento e pega adequada
dores da Iniciativa Unidade do bebê, ingurgitamento mamário, por cau-
Básica Amiga da Amamenta- sa da pouca freqüência das mamadas e início
ção (IUBAAM). A experiência tardio da amamentação. O grupo domiciliar
do grupo como uma ativida- de amamentação surge com o propósito de
de domiciliar de incentivo ao apoiar e promover o aleitamento materno
aleitamento materno teve exclusivo na ESF da Vila Vintém, por meio
início em 2007, após várias de visitas específicas agendadas previamente
tentativas, nos anos anterio- e com a presença de familiares, para que as
res, de se formar um grupo orientações relacionadas à dificuldade sejam
110 dentro da Unidade. O nosso
interesse é aumentar a pre-
transmitidas a todos por meio de uma educa-
ção em saúde domiciliar, desmistificando as-

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
sim as crendices que envolvem o aleitamento também influenciava a práti-
materno exclusivo e complementar até os ca do desmame ao contrário
dois anos de idade ou mais, conforme pre- das campanhas de incentivo
coniza o Ministério da Saúde (MS) e o Fundo à amamentação que muitas
das Nações Unidas para a Infância (Unicef). vezes apontam para o con-
ceito de ser a mãe a única
INTRODUÇÃO: responsável por essa práti-
O aleitamento materno é uma ação funda- ca (BASIO E MACHADO, V.
mental para a saúde materna e perinatal e 1 – N. 1, 2005). O conhe-
representa um elemento importante para a cimento da estrutura física
humanização do nascimento (BOEHS, 2005), do ambiente familiar melhor
sendo também uma das primeiras interven- direciona as ações para a
ções nutricionais, maternais e de saúde infan- promoção do aleitamento
til que a própria mãe executa para assegurar materno e também pare-
a saúde do filho. A formação do grupo de ce ter influência no ato de
amamentação composto por Agentes Comu- amamentar, uma vez que os
nitários de Saúde (ACS) da Comunidade de espaços de alguns domicílios
Vila Vintém, no município do Rio de Janeiro, são diminuídos, não há local
surgiu a partir de uma capacitação, em junho apropriado para amamen-
de 2005, em aleitamento materno, promovi- tar, ruídos excessivos, em
da pelos multiplicadores da Iniciativa Unidade função do quantitativo de
Básica Amiga da Amamentação (IUBAAM). residentes no domicílio. Esse
Após a capacitação da IUBAAM, os ACS fato nos reporta à história de
perceberam a importância de se multiplicar Vila Vintém, cujos primeiros
o conhecimento adquirido. No decorrer de moradores construíam suas
suas atividades de visitas domiciliares (VDs) às casas, quase sempre, de
puérperas e acolhimento na porta de entrada estuque e sapê, numa área
da unidade com as nutrizes que chegavam cedida pelo Exército. Hoje,
para realização do Teste do Pezinho e primei- 99% das casas são de alve-
ras vacinas (BCG e Hepatite B), observaram a naria (tijolo), mas ainda são
amamentação dificultada quer pela pega in- encontradas casas de madei-
correta, posição para amamentar pouco ade- ra e a cobertura em grande
quada ou quando questionadas não sabiam parte é de laje ou telhas de
as vantagens do aleitamento materno para si amianto. Muitos morado-
ou para o bebê. Havia ainda a ausência da res moram em casa própria,
família no apoio ao ato de amamentar, ob-
servado durante as VDs, o que de certa forma
apesar de não possuírem
documentos de posse. Uma
111

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
minoria mora de aluguel. A talecendo sua autoconfiança, incentivando a
atividade econômica predo- prática do aleitamento materno, exclusivo até
minante é o comércio local o sexto mês de idade e complementado até
(SIAB 2005). A estratégia os dois anos de vida ou mais, conforme reco-
Saúde da Família (ESF) é mendação da Organização Mundial de Saúde
composta por cinco equipes (OMS). De forma relevante o nosso interes-
técnicas e cinco a sete ACS se é aumentar a prevalência do aleitamento
cada e duas equipes de Saú- materno, visando mais do que a diminuição
de Bucal (ESB), modalidade da morbimortalidade infantil, mas a interação
1. A área abrange um total e/ou participação da família no processo de
de 14.323 famílias e 14.667 amamentação ao se aproximar mais da mu-
cidadãos (SIAB, 2008). A lher que está amamentando. O conhecimen-
experiência do grupo como to de suas dificuldades, seus desejos e expec-
uma atividade domiciliar tativas direcionam nossas orientações para o
de incentivo ao aleitamen- que seria ideal naquele momento. E também
to materno teve início em acreditamos que essas famílias podem se tor-
2007, após várias tentativas, nar uma aliada como agente multiplicador da
nos anos anteriores, de se promoção e apoio ao aleitamento materno.
formar um grupo dentro da
Unidade. Pois sempre acre- OBJETIVOS:
ditávamos ser a atividade de Este trabalho tem como objetivo não só sen-
grupo uma forma de apren- sibilizar e mobilizar as pessoas diretamente
dizagem capaz de favorecer envolvidas, como pais e familiares, mas tam-
mudanças rápidas e eficien- bém toda a comunidade e os integrantes das
tes ou no mínimo informar e equipes da estratégia Saúde da família de Vila
estimular a reflexão sobre o Vintém. Então propomos:
ato de amamentar por meio – Informar sobre as vantagens do aleitamen-
da troca de experiências e to materno para a mãe e o bebê residentes
situações vivenciadas pelas na comunidade.
mulheres. – Esclarecer as dúvidas de nutrizes e familia-
Assim, oito agentes comu- res da ESF sobre aleitamento materno.
nitários de saúde resolve- – Oferecer apoio às nutrizes e familiares du-
ram formar um grupo para rante o processo de amamentação, o mais
melhor orientar as nutrizes precocemente possível.
e familiares, escutando suas – Informar às nutrizes e familiares os fatores
112 preocupações, vivências e
dúvidas, apoiando-os e for-
que podem interferir no processo de ama-
mentação.

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
– Divulgar as informações adquiridas no cur- tos teóricos de Paulo Freire,
so da IUBAAM, contribuindo para a multipli- utilizava-se a pedagogia da
cação e promoção do aleitamento materno problematização, que consi-
exclusivo na faixa etária de seis meses e com- dera o indivíduo conhecedor
plementada até os dois anos ou mais. de algo quando é capaz de
transformar sua realidade.
METODOLOGIA: Durante esse período, vá-
Após o treinamento da IUBAAM, encontra- rios temas escolhidos pelo
mos-nos mais embasados tecnicamente para grupo foram apresentados
intervir no manejo das diversas fases da lacta- utilizando-se recursos mate-
ção, pois percebíamos a dificuldade de mui- riais, como cartazes, vídeos,
tas mães na primeira semana de amamen- álbuns seriados e, por meio
tação ainda na fase de adaptação e intenso de discussões entre os parti-
aprendizado para si e o bebê. cipantes, enfocava-se o pro-
A implantação da IUBAAM no Brasil foi inicia- cesso de amamentação mais
da pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio que um ato instintivo. Incen-
de Janeiro, tendo o apoio do MS, a partir de tivávamos a participação de
questões do Grupo Técnico Interinstitucional um familiar nas reuniões e
de Incentivo ao Aleitamento Materno, desde isso ocorria de maneira in-
meados da década de 90. Atualmente mais satisfatória. Com o tempo
de 2/3 dos municípios dispõem de multipli- a participação foi escassa e
cadores e 32 unidades já foram credenciadas inconstante, ou seja, as mu-
na iniciativa do estado (Cad. Saúde Pública, lheres que vinham em uma
RJ, 2005). A metodologia validada cientifica- reunião não eram as mes-
mente em 2002 tem por objetivo proteção e mas da próxima, fazendo
apoio ao aleitamento materno por meio da com que o assunto aborda-
mobilização das unidades básicas para a ado- do não tivesse continuidade,
ção dos Dez Passos para o Sucesso da Ama- prejudicando o desenvolvi-
mentação, tornando essa prática universal mento e desestimulando a
para a saúde e bem-estar dos bebês e suas todos. No início pensamos
mães. Em 2006, o Grupo de Amamentação como estratégia a realização
AME realizava as reuniões na unidade com a de encontros semanais, ten-
participação de 22 nutrizes e gestantes, cinco do agora o público-alvo as
ACS e equipe técnica. A proposta era sensi- puérperas e nutrizes. Houve
bilizá-la ao ver a nutriz amamentando e for- também uma redução gra-
talecer a escolha da alimentação natural para
o recém-nascido. Com base nos pressupos-
dativa de participantes, le-
vando-nos a repensar nova-
113

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
mente o grupo. Em outubro (MS. Brasília, 2001 – Relatório de Pesquisa).
de 2007 decidiu-se realizar A partir de então, surge o grupo domiciliar
as VDs em puérperas e nu- de amamentação, com o propósito de apoiar
trizes em todas as micro-áre- e promover o aleitamento materno exclusivo
as. No período de outubro a na ESF da Vila Vintém. Os oito componentes
fevereiro de 2008, a maio- do grupo realizam, conforme a necessidade,
ria mostrou dificuldades visitas domiciliares em toda a área adstrita da
quanto ao posicionamento ESF, por meio do prévio agendamento por
e pega adequada do bebê, um integrante do grupo; pelos outros ACS;
ingurgitamento mamário, ou por profissionais técnicos que observam
com maior prevalência em dificuldade no manejo da amamentação
primíparas na primeira se- em puericultura; ou por qualquer profissio-
mana pós-parto, por causa nal que identifica uma situação quer seja
da pouca freqüência das em VD ou no momento do acolhimento de
mamadas e início tardio da porta de entrada. Já houve a situação de
amamentação. As principais um pai que, ao observar a dificuldade de
orientações nesses casos re- sua esposa em amamentar, foi à unidade
feriam-se à amamentação solicitar ajuda ao Grupo AME.
oferecida com técnica cor- O agendamento é reservado a um horá-
reta de posicionamento do rio com a presença de familiares, para que
bebê, a livre demanda, esva- as orientações relacionadas à dificuldade e
ziamento manual da mama apresentação da dinâmica da amamentação
antes da oferta e armazena- sejam transmitidas a todos por meio de uma
mento correto do leite ma- educação em saúde domiciliar, desmistifican-
terno. Porém diversos outros do as crendices, corrigindo pega e posição da
fatores podem contribuir amamentação e principalmente enfatizando-
para o desmame precoce, se os preceitos do MS e Fundo das Nações
nesse período, uma vez que Unidas para a Infância (Unicef), sobre o alei-
no Brasil verifica-se que, em- tamento materno. As VDs de um modo geral
bora a maioria das mulheres buscam propiciar às mulheres o conforto ao
inicie o aleitamento materno ato de amamentar, para que esse processo se
(aproximadamente 92% na torne prazeroso, encorajando-as a enfrenta-
pesquisa nacional de 1996), rem as dificuldades, caso existam, levando a
mais da metade das crianças opção por leites artificiais, bicos, mamadeiras
já não se encontra em alei- e chupetas, em segundo plano, até que se es-
114 tamento materno exclusi-
vo no primeiro mês de vida
gotem as possibilidades do manejo correto da
amamentação, pois, como defendem alguns

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
autores, devem-se afastar os recém-nascidos de de atingi-la por meio de
desses riscos, para o sucesso da amamenta- orientações, incentivo, ajuda
ção. Outro fator considerável é o custo/bene- e proteção do grupo e de fa-
fício da amamentação para a família, pois o miliares, venceram assim os
gasto médio mensal com a compra de leite obstáculos, repensando as
varia de 23% a 68% do salário mínimo. A crenças culturais e mudaram
esse gasto devem-se acrescentar custos com de opinião para prosseguir
mamadeiras, bicos e gás de cozinha, além com o aleitamento materno
de eventuais gastos decorrentes de doenças, exclusivo, deixando de ser
que são mais comuns em crianças não ama- um ato instintivo para se tor-
mentadas (Jornal de Pediatria – Vol. 76, Supl. nar algo prazeroso, impor-
3, 2000). tante para si e para o bebê.
Essas informações são enfatizadas até quando Essa nova forma de pensar
o grupo percebe que a família não apresenta a amamentação, além de
dificuldades. Quando isso ocorre, os interva- mais abrangente, exige que
los entre as visitas domiciliares são maiores, se estabeleça um novo foco
seguindo o padrão de acompanhamento sobre a mulher, que não
mensal. Mensalmente acontece na unidade a pode continuar a ser tratada
troca de experiências exitosas ou não, relatos como responsável pelo êxito
de casos com depoimentos de mulheres que da amamentação e culpada
passaram por dificuldades e conseguiram su- pelo desmame. E no nosso
perá-las, familiares que acompanharam esse público-alvo, conseguimos
processo, sendo também um momento de trabalhar bem essas ques-
confraternização entre ACS, equipes técnicas tões, apoiando o aleita-
e moradores. A Equipe de Saúde Bucal tam- mento materno na relação
bém atua nesse momento com informações promoção–proteção–apoio.
sobre a higiene oral da mãe e do bebê. Essas mulheres continuam
a procurar à Unidade da ESF
RESULTADOS ALCANÇADOS: em puericultura ou vacinas,
Durante as VDs percebemos mudanças posi- mantêm o aleitamento ma-
tivas em relação às atitudes das mães e fami- terno, e podemos consta-
liares, que passaram a ter um olhar diferente tar a amamentação correta
porque conheceram a importância do aleita- quanto à posição e pega
mento materno e suas vantagens. Algumas do bebê. O reconhecimento
mulheres que estavam dispostas a não ama- dessas mulheres em relação
mentar e que por insistência e apoio do grupo
permitiram a abordagem e tivemos a felicida-
ao grupo aumentou expres-
sivamente, sendo necessário
115

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
nos dividirmos para o atendi- importância do aleitamento materno, asso-
mento breve das demandas ciando a um processo natural e, influenciadas
surgidas em todas as micro- por mães, sogras ou avós, iniciavam a oferta
áreas, porém sempre que de chás, água e leite artificial como comple-
possível os ACS responsáveis mentação ao leite materno, pelas práticas e
por estas M.A. também par- crenças culturais ou por prescrições do leite
ticipam das visitas domicilia- artificial complementar por profissionais de
res, de forma a manterem o saúde. O período de dias chuvosos prejudicou
vínculo com suas famílias, nosso deslocamento, pois algumas moradias
sendo também um referen- não dispunham de espaço adequado para a
cial de ajuda e promoção do reunião, impossibilitando a utilização naquele
aleitamento materno. dia do espaço aberto, antes programado. Por
Ainda aproveitamos para se tratar de uma comunidade localizada em
destacar o menor apareci- área de risco, não raro tivemos o adiamento
mento de intercorrências da VD por segurança.
gastrintestinais, de acordo Por mais empenho e confiança que a mulher
com os atendimentos de estivesse para prosseguir com o aleitamento,
urgências em pesquisa de o domicílio não dispunha de local confortável
prontuários e registros do e apropriado para uma amamentação tran-
Acolhimento de Porta de qüila, pelo espaço reduzido dos cômodos e
Entrada da Unidade. Devido quantidade excessiva de residentes. Mesmo
ao trabalho realizado, o gru- assim, se mostravam atentas às informações
po AME ficou conhecido em que recebiam e questionavam ao máximo.
toda a comunidade, haven- Aliando-se a essa dificuldade, não havia o
do uma maior credibilidade apoio da família e a baixa condição financei-
das atividades do Agente ra impossibilitava a oferta de uma alimenta-
Comunitário de Saúde, o ção variada ao período do puerpério. Mesmo
que nos incentiva no dia-a- atuando em VDs a outros grupos específicos
dia e nos fortalece a conti- e desempenhando outras atividades comuns
nuar a promover e apoiar à categoria, não desanimávamos do nosso
o aleitamento materno em compromisso, o que aumentava a união e
nossa comunidade. cumplicidade dos componentes e isso foi um
facilitador para o nosso trabalho. O agradeci-
LIÇÕES APRENDIDAS COM mento de uma família pelo apoio e incentivo
A EXPERIÊNCIA: recebido nos permitia continuar com determi-
116 Muitas nutrizes demonstra-
ram desconhecimento da
nação o cumprimento da tão apertada agen-
da do Grupo Domiciliar de Amamentação.

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.5. Grupo domiciliar de aleitamento materno
na comunidade de Vila Vintém - RJ
O conhecimento prévio da ficha de cadastro da amamentação. A aplica-
das famílias, uma vez que visitamos mulheres ção de um roteiro de visita
de outras M.A., nos adianta para planejar as domiciliar, destacando as
ações e adequar a intervenção e nos permite dificuldades encontradas,
conhecer o perfil da nutriz, ou alguma situ- padronizam e facilitam o
ação ou condição clínica que impossibilite a entendimento de todos
amamentação, mesmo que temporária. do grupo frente às ações
a serem adotadas, sendo
RECOMENDAÇOES: necessário que todos os
O aconselhamento para o sucesso da ama- componentes comparti-
mentação muitas vezes implica ajudar a mu- lhem da mesma forma de
lher a tomar decisões, devendo acontecer de abordagem.
forma empática, sabendo ouvir com dedica-
ção e disponibilidade de tempo, transmitin-
do confiança e apoio diante das dificuldades.
É também elogiar as mães que estão agindo
corretamente, aumentando assim a sua au-
toconfiança. Porém, em determinados mo-
mentos, respeitar a decisão da mulher em
não querer amamentar, mesmo tendo as
condições favoráveis para tal, apoio da fa-
mília, do companheiro, ambiente domiciliar
tranqüilo, se faz necessário. Assim, a atua-
ção em promover e apoiar o aleitamento
materno não implica somente conhecimen-
to de técnicas e habilidades para o manejo
adequado da lactação, mas uma abordagem
livre de imposições. A educação e o preparo
das mulheres para a amamentação ainda no
pré-natal facilitam e contribuem para o alei-
tamento materno exclusivo, aumentando a
sua confiança e habilidades para a amamen-
tação o mais precocemente possível, poden-
do iniciar ainda na sala de parto. Dessa for-
ma, incentivamos os grupos de gestante que
acontecem nas unidades, como um aliado
na preparação dessa mulher para o sucesso
117

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.6. Agente comunitária da saúde contra
o câncer de colo de útero
Autor Principal: e, das demais, ouvi alguns depoimentos que
JOSELMA DA SILVA SAN- as impediam de procurar a Unidade de Saúde,
TOS DANTAS como: dor ao exame, ausência de queixas, ape-
Área Temática: Tecnologias de nas as prostitutas necessitam realizar, o mari-
Cuidado em Saúde na AB/SF do não deixa, falta de tempo. Observando es-
Local onde o trabalho foi ses obstáculos, percebi a necessidade de criar
realizado: Nossa Senhora do uma estratégia para mudar esses preconceitos.
Socorro – SE Intensifiquei as visitas domiciliares, orientei e
esclareci dúvidas existentes, até enfrentei ma-
RESUMO: rido ignorante. Durante as visitas, levei material
O câncer de colo de útero é educativo como panfletos e cartazes explicati-
uma preocupação dos gesto- vos sobre o câncer. Apesar do meu empenho,
res e profissionais de saúde tinha um grupo de mulheres que trabalhava no
por seu aumento gradativo. município vizinho, dificultando o acesso ao pos-
O Programa Saúde da Família to de saúde. Em conversa com a enfermeira, ela
é uma estratégia implantada percebeu meu compromisso e combinamos de
também para melhor contro- realizar um grande mutirão no sábado. Em um
le, aumentando a cobertura único dia, do total de 70 mulheres que compa-
de exames e o acompanha- receram, 25 foram da minha área. Foram pre-
mento. Os Agentes Comuni- cisos outros sábados para atender à demanda.
tários de Saúde promovem a Nessa batalha consegui cobrir as mulheres da
interação mais direta entre as minha micro-área. Foram detectados sete casos
mulheres e o serviço de saú- de alteração de células e elas foram encaminha-
de. Incentivar a procura para das, acompanhadas e tratadas. Após trabalho
realização do exame citopato- árduo, persistente e comprometido com minha
lógico; conscientizar sobre a obrigação no combate ao câncer de colo de
importância anual do exame; útero, estou feliz por ter ajudado não somen-
diminuir o número de novos te as mulheres da minha micro-área, como o
casos e o número de mortes. município, que conseguiu melhorar esse indica-
Tendo em vista esses objeti- dor da saúde. Percebi que é difícil, mas possí-
vos, realizei levantamento em vel, realizar mudanças na forma do pensar das
minha microárea do núme- pessoas. Quando isso aconteceu percebi o salto
ro de mulheres existentes e profissional positivo que dei. Hoje me sinto uma
quantas já haviam realizado agente de mudança.
o exame, percebi que, de 169
118 mulheres acima de 14 anos,
apenas 50 haviam realizado
INTRODUÇÃO:
O câncer de colo de útero é uma preocupação

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.6. Agente comunitária da saúde contra
o câncer de colo de útero
dos gestores e profissionais de saúde por realizar um grande mutirão
seu aumento gradativo. O Programa Saúde no sábado. Em um único dia,
da Família é uma estratégia implantada tam- do total de 70 mulheres que
bém para melhor controle, aumentando a compareceram, 25 foram da
cobertura de exames e o acompanhamento. minha área. Foram precisos
Os Agentes Comunitários de Saúde promo- outros sábados para atender
vem a interação mais direta entre as mulhe- à demanda.
res e o serviço de saúde.
RESULTADOS
OBJETIVOS: ALCANÇADOS:
Incentivar a procura para realização do exame Nessa batalha consegui cobrir
citopatológico. Conscientizar sobre a importân- as mulheres da minha micro-
cia anual do exame. Diminuir o número de no- área. Foram detectados sete
vos casos. Diminuir o número de mortes. casos de alteração de células
e elas foram encaminhadas,
METODOLOGIA: acompanhadas e tratadas.
Tendo em vista esses objetivos, realizei levan-
tamento em minha micro-área do número de LIÇÕES APRENDIDAS COM
mulheres existentes e quantas já haviam reali- A EXPERIÊNCIA:
zado o exame, percebi que, de 169 mulheres Após trabalho árduo, persis-
acima de 14 anos, apenas 50 haviam realizado tente e comprometido com
e, das demais, ouvi alguns depoimentos que minha obrigação no combate
as impediam de procurar a Unidade de Saúde, ao câncer de colo de útero,
como: dor ao exame, ausência de queixas, ape- estou feliz por ter ajudado
nas as prostitutas necessitam realizar, o marido não somente as mulheres da
não deixa, falta de tempo. Observando esses minha micro-rea, como o mu-
obstáculos, percebi a necessidade de criar uma nicípio, que conseguiu melho-
estratégia para mudar esses preconceitos. In- rar esse indicador da saúde.
tensifiquei as visitas domiciliares, orientei e es-
clareci dúvidas existentes, até enfrentei marido RECOMENDAÇÕES:
ignorante. Durante as visitas, levei material edu- Percebi que é difícil, mas pos-
cativo como panfletos e cartazes explicativos sível, realizar mudanças na
sobre o câncer. Apesar do meu empenho, tinha forma do pensar das pessoas.
um grupo de mulheres que trabalhava no mu- Quando isso aconteceu perce-
nicípio vizinho, dificultando o acesso ao posto bi o salto profissional positivo
de saúde. Em conversa com a enfermeira, ela
percebeu meu compromisso e combinamos de
que dei. Hoje me sinto uma
agente de mudança.
119

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.7. A utilização de garrafas pet para produção
de berços e filtros para a comunidade carente
Autora Principal: nestes cinco anos foi o de encontrar seres huma-
SUELI MEIRA VIEIRA nos em condições paupérrimas, morando em
Área Temática: Promoção da barracos construídos a partir de materiais reapro-
Saúde na AB/SF veitados e com poucas condições de higiene, sem
Local onde o trabalho foi forros e pisos dignos em suas casas para que lhes
realizado: Petrópolis – RJ pudesse garantir alguma condição em termos de
saúde. Como a cidade é serrana e de clima típico
RESUMO: frio, esse piso, mencionado anteriormente, se en-
O projeto tem a finalidade de contrava em condições de extrema umidade, mas
produzir berços e filtros por mesmo assim crianças e adolescentes dormiam
meio de estruturas considera- sobre ele apenas utilizando pedaço de carpete
velmente rígidas para atender velho ou pano mais espesso. Essas pessoas, resu-
às necessidades de uma co- mindo, ficavam expostas a condições que não são
munidade carente em relação favoráveis a um bem-estar e uma saúde digna.
a melhores condições resi- Diante dessa situação fui motivada a encontrar
denciais, bem como facilitar o uma solução simples e barata que pudesse ser de
acesso à água de qualidade e fácil acesso a toda essa população. Desenvolvi en-
potável. O trabalho tem como tão berços em garrafas PET. Dessa forma, aliaria
premissas básicas a utilização e o ideal de reciclagem retirando essas garrafas PET
a coleta de garrafas PET, alian- do ambiente e tornando-as objetos de extrema
do-se na preservação do meio utilidade para tais famílias, sem nunca nos es-
ambiente. quecer das premissas básicas de se encontrar um
modo prático e barato. Ampliando essa idéia ini-
INTRODUÇÃO: cial, as garrafas se tornaram aliadas fundamentais
Trabalhando há cinco anos ao projeto, que se estendeu, com a ajuda de ou-
como Agente Comunitária de tra ACS, para a fabricação de um filtro de água a
Saúde (ACS) no município de partir desse material tão disponível a todos.
Petrópolis, Rio de Janeiro, en-
contramos diariamente uma OBJETIVOS:
quantidade enorme de situa- Como objetivo central do projeto, encontra-se a
ções e de problemas que po- necessidade de retirar, da maneira mais simples
deriam ser resolvidos. Mas o possível, tais pessoas dessas condições calamito-
que realmente nos motiva na sas quanto à moradia, bem como ao contágio a
profissão é encontrar uma ma- doenças que possam ser adquiridas pela ingestão
neira para que tais problemas de água contaminada. A solução se dá por meio
120 venham a ser solucionados.
Um fato que mais me marcou
dos berços e filtros de garrafas PET, confecciona-
dos pela própria comunidade, que, uma vez de-

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.7. A utilização de garrafas pet para produção
de berços e filtros para a comunidade carente
vidamente capacitada no Posto de Saúde da Fa- unem-se mais uma vez alunos
mília, produzirá seus próprios modelos de acordo e comunidade como propos-
com suas necessidades. ta da disciplina anteriormente
mencionada.
METODOLOGIA:
A metodologia fundamental para que o projeto LIÇÕES APRENDIDAS COM
se estenda corresponde à técnica de montagem A EXPERIÊNCIA:
dos modelos (berços, camas e filtros). As garrafas, As famílias carentes não preci-
uma vez devidamente preparadas, limpas e en- sam viver sob condições cala-
caixadas de maneira particular para cada fim, pro- mitosas, sem o mínimo de con-
duzem uma boa estrutura que serve para apoio a forto e higiene ou mediante a
grandes cargas, para fazer berços e camas e para ingestão de uma água possivel-
o uso nos filtros. mente contaminada. Por meio
Berços/camas: estruturas rígidas e altas podem ser do projeto das garrafas PET,
utilizadas para a obtenção de cabeceiras laterais, essas mesmas famílias ganham
traseiras e frontais (no caso dos berços), impedin- uma vida um pouco mais digna
do que os bebês possam rolar ou cair do leito. Já dentro de suas casas e ao mes-
para as camas, excluindo-se as cabeceiras laterais, mo tempo retiram tal poluente
o projeto se torna mais simples, garantindo o fácil do meio ambiente, solucionan-
acesso ao leito. do então diversos problemas.
Filtros: garrafas PET encaixadas de maneira dife-
rente podem servir para que se acople uma vela RECOMENDAÇÕES:
de filtro (do tipo de filtros de barro) e garantir as- Como recomendação final, o
sim uma filtragem para uma água previamente projeto se estenderia a todos
tratada como a fervura, por exemplo. os PSF que se depararem com
essa situação ou em situações
RESULTADOS ALCANÇADOS: semelhantes dentro de sua
Os ACSs do PSF de minha comunidade entra- comunidade atuante. Que
ram no projeto sem medir esforços. Todos com uma oficina de reciclagem, de
o objetivo de capacitar a população à fabricação maneira simples, pudesse ser
de seus próprios modelos. Também um acordo instalada nele e que, primei-
com a Faculdade de Medicina de Petrópolis fez ramente, ACS e comunidade,
com que se incluíssem no projeto os alunos da sendo expansível a outros com-
instituição que, cursando a disciplina de Medicina ponentes, pudessem fabricar o
Social, tiveram a oportunidade de confeccionar conforto mínimo da população
diversos filtros que puderam ser distribuídos por
toda a comunidade mais carente. Dessa forma,
e a qualidade básica de inges-
tão de uma água potável.
121

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.8. Uma ação simples faz uma grande diferença
Autor Principal: esses prescritos pelo médico e orientações
EDINAEL MARCIANO indicadas pela equipe. Resgatando o saber
Outros Autores: dos pacientes, junto com eles iniciou-se o
MARIA TRINDADE S. NASCI- uso de símbolos, desenhos de fácil aceita-
MENTO ção e compreensão. Providenciado copinhos
VIVIANE VITAL descartáveis e frascos de vidros reutilizados,
Área Temática: Assistência passou-se a indicar com o desenho do sol,
na AB/SF a lua, prato com talheres e xícara com ca-
Local onde o trabalho foi fezinho para a identificação dos recipientes,
realizado: Curitiba – PR aproximando assim as horas do dia e coinci-
dindo as tomadas dos medicamentos. Com
RESUMO: isso persistiu-se a realizar visitas domiciliares
O presente relato retrata a semanalmente pela ACS facilitando melhor
iniciativa de uma ação sim- a aceitação dela e de toda a equipe. O co-
ples que uma agente comu- nhecimento deles também favoreceu para o
nitária – lotada em uma uni- êxito, pois a maioria conhecia os números e
dade de saúde de Curitiba, havia alguns com ajuda de seus familiares.
no estado do Paraná, e que Percebemos que com essa parceria surgiram
desenvolve a estratégia Saú- laços de aceitação do trabalho da ACS e de
de da Família – criou para todos os membros; melhor compreensão da
dez pacientes do progra- doença pelos pacientes com as vindas fre-
ma de hipertensão e diabe- qüentes à unidade de saúde; perda de peso;
tes inscritos e classificados melhora do controle da pressão e da glicose
como de muito alto risco. no sangue; auto-estima; cuidados de limpe-
Percebendo que sete deles za em seus domicílios; inclusão em outros
são acima de 60 anos, seis programas como caminhada e artesanato;
analfabetos e um com trans- reconhecimento da dedicação e solidarieda-
torno mental, iniciou-se um de, chamando a ACS de “anjo da guarda”
período de conquista e apro- e estimulação ao auto-cuidado. Ao acreditar
ximação durante as visitas devemos ousar diferenciando medidas sim-
domiciliares. Eles não aceita- ples que têm grandes efeitos na vida do ou-
vam a equipe, apresentavam tro. Devemos ter compromisso sério, pois só
dificuldades de assimilação assim conseguiremos atendimento mais sis-
e de entender o porquê de têmico e humanizado, resgatando o elo forte
tomar as medicações e se- do ser agente comunitário, solidificando os
122 guir as orientações de for-
ma correta. Medicamentos
princípios do SUS e promovendo a qualidade
de vida próxima ao ideal que almejamos.

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.8. Uma ação simples faz uma grande diferença
INTRODUÇÃO: copinhos descartáveis e ou
Na trajetória como agente comunitário em vidros reutilizáveis, providen-
acompanhamento às famílias da micro-área ciados por mim e até mesmo
onde atuo e juntamente com a equipe que pelos pacientes. Usei como
desenvolve a estratégia de Saúde da Família, recurso para identificar os
identificamos dez pacientes com difícil enten- recipientes a simbologia. O
dimento e aceitação pela equipe, comprome- nascer do sol considerado
tendo assim a adesão ao programa de hiper- horário de tomar o medica-
tensão e diabetes, sendo eles classificados mento pela manhã; o prato
de muito alto risco. Além dessa avaliação, com os talheres o horário do
percebemos que sete deles são acima de 60 almoço; a xícara com pires
anos, seis são analfabetos e um deles tam- simbolizando o cafezinho,
bém apresenta transtorno mental. Morado- horário da tarde, e a lua
res em condições desfavoráveis de moradia, como horário de tomar o re-
sem assistência adequada por parte de seus médio à noite. Considerei os
familiares, prejudicando o vínculo de toda a conhecimentos dos pacien-
equipe. Diante dessa situação, considerei um tes que sabiam os números,
grande desafio e utilizei a criatividade esta- facilitando as quantidades
belecendo um caminho diferenciado para de comprimidos por horá-
melhor qualidade de vida às pacientes sob rios de tomadas. Após es-
minha responsabilidade. tabelecer essa maneira mais
fácil de usar corretamente
OBJETIVOS: os medicamentos, estabeleci
Criar vínculo com os pacientes, desenvolven- um monitoramento semanal
do ações simples e de fácil entendimento no domicílio separando-os
para uso correto de medicações e controle para evitar que os pacientes
adequado da doença. misturem os medicamentos.

METODOLOGIA: RESULTADOS
Realizei visitas domiciliares mais freqüentes ALCANÇADOS:
para melhor aproximação e aceitação do A implantação dessa solução
meu trabalho e de minha equipe. Conside- prazerosa e peculiar a esses
rada a dificuldade dos pacientes de identifi- pacientes trouxe a mim e à
car corretamente os medicamentos devido à equipe surpresas como:
maioria serem analfabetos e um deles com – Aceitação do meu traba-
comprometimento de transtorno mental. Ini-
ciei a separação dos medicamentos usando
lho e de minha equipe.
– Aceitação melhor da do-
123

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.8. Uma ação simples faz uma grande diferença
ença comparecendo à uni- vida desses pacientes, pois quase não tive ajuda
dade quando necessário. de seus familiares por alguns pacientes morarem
– Perda de peso principal- sem seus filhos ou até mesmo viverem sozinhos.
mente com uso correto de Resgatei a importância de que eles também po-
diuréticos. deriam me ajudar com seus saberes.
– Melhora adequada da
pressão e da glicose no RECOMENDAÇOES:
sangue. A implantação dessa ação simples e fácil é suges-
– Melhor auto-estima, cui- tiva a todo território nacional, pois o analfabetis-
dado de suas aparências e mo e as diferenças sociais, infelizmente, são pre-
de seus domicílios. sentes. Essa é uma alternativa que usei e pode
– Inclusões em outros pro- ser desenvolvida por todos os profissionais que
gramas como da caminha- queiram assumir esse tipo de compromisso para
das semanais, artesanato e fazer a diferença, resgatando um atendimento
passeios mensais promovi- mais sistêmico e humanizado.
dos pela unidade de saúde.
– Reconhecimento pela mi-
nha dedicação e solidarie-
dade aos pacientes porque
alguns deles referiam a mim
como um anjo da guarda.
– Estimulação do auto-
cuidado.

LIÇÕES APRENDIDAS COM


A EXPERIÊNCIA:
Não é fácil trabalhar com di-
ferenças e dificuldades, mas
também não é difícil, então
aproveitei os momentos de
conversas nos portões das ca-
sas durante a visita para con-
seguir entrar nos domicílios.
Nesse período de aproxima-
ção, tive que ser insistente,
124 ousando e acreditando que
poderia ajudar a melhorar a

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.9. Projeto grupo fazendo saúde com alegria
Autor Principal: são paródias de canções de
MAKISSOEL SOUZA DE ARAUJO cantores famosos para que a
Outros Autores: comunidade logo se identifi-
JEANE LUDOVICO MARIANO que com elas. Todos os mem-
CREUZA DUARTE OLIVEIRA bros da equipe participam da
ROSILENE PEREIRA composição das músicas e
Área Temática: Promoção da Saúde na AB/SF dos ensaios. Os figurinos são
Local onde o trabalho foi realizado: Brasília – DF coloridos, alegres e divertidos
para prenderem a atenção
RESUMO: dos expectadores. As apre-
O Setor Veredas, Brazlândia, região adminis- sentações ocorrem em reuni-
trativa distante 50 km de Brasília, é acompa- ões educativas, escolas, feiras
nhado por duas equipes de Programa Família de saúde, eventos em hospi-
Saudável (PFS), implantadas respectivamente tais ou qualquer local onde
em fevereiro de 2004 e janeiro de 2006. É haja necessidade de se levar
objetivo do Sistema Único de Saúde a assis- informações e alegria. Como
tência às pessoas com a realização integrada resultado, nota-se entre os
das ações assistenciais e das atividades pre- ouvintes da comunidade a
ventivas. Concluiu-se que realizar reuniões grande receptividade pelas
educativas apenas utilizando a metodologia músicas, já que as melodias
de palestras não é suficiente para prender a são conhecidas por todos, le-
atenção dos ouvintes. Dessa forma, baseando- vando informações de forma
se em experiências lúdicas positivas anteriores, descontraída e divertida. Em
a Equipe de Veredas I criou o Grupo Fazendo grupos onde ocorreram apre-
Saúde com Alegria, formado por integrantes sentações por mais de uma
da equipe, que cantam paródias com conteú- vez, os participantes já sa-
dos educativos relativos aos cuidados à saúde. bem cantar os refrões. Após
Como objetivos, buscou-se facilitar o entendi- as apresentações, os ouvintes
mento das noções básicas de cuidados à saú- sentem prazer em discutir so-
de (saúde bucal, dengue, tuberculose, gravi- bre as informações contidas
dez na adolescência, combate ao piolho etc.) nas paródias. Observou-se
por meio de paródias; proporcionar lazer e uma melhora na auto-estima
entretenimento; estimular ainda mais a união nos participantes do grupo, a
entre os membros da equipe; valorizar a cria- equipe tornou-se mais alegre
tividade de cada profissional; e reforçar cada com a presença da música.
vez mais a importância da interdisciplinarida-
de. As músicas, com conteúdos educativos,
Falta de recursos financeiros
para instrumentos, equipa-
125

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.9. Projeto grupo fazendo saúde com alegria
mentos musicais e figurinos administrativa do Distrito Federal, distante 50
e ensaios fora do horário de km da capital do Brasil, é acompanhado por
trabalho são algumas das di- duas equipes de Programa Família Saudável
ficuldades encontradas. Con- (PFS). As Equipes de PFS Veredas I e II foram
clui-se que, com boa vontade, implantadas, respectivamente, em fevereiro
união da equipe interdiscipli- de 2004 e janeiro de 2006. É objetivo do Sis-
nar e criatividade de cada um, tema Único de Saúde a assistência às pessoas
atividades simples como essa por intermédio de ações de promoção, prote-
podem fazer a diferença para ção e recuperação a saúde, com a realização
levar informações para a co- integrada das ações assistenciais e das ativi-
munidade. Palestras educati- dades preventivas, levando sempre em con-
vas podem se tornar monó- sideração a integralidade do paciente. Entre
tonas e não produtivas, e um os membros da equipe, o Agente Comunitá-
grupo musical alegre, colori- rio de Saúde (ACS) tem papel essencial, pois
do e divertido cantando sobre representar o elo entre os demais membros
dengue, gravidez na adoles- da equipe e a comunidade. No entanto, na
cência, tuberculose, doação equipe do PFS Veredas I, o aspecto predomi-
de sangue, drogas e tantos nante é a interdisciplinaridade, e não mais a
outros temas ligados à saúde multidisciplinaridade das ações. Nessa lógica,
faz muita gente rir, mas faz a relação entre os membros de uma equipe
também aprender e refletir. baseia-se na busca do consenso, mediante
Observação: a equipe de PFS o estímulo da permanente comunicação ho-
Veredas I é muito unida e rizontal entre todos. Dessa forma, além dos
trabalha com muito amor e ACS, participam do projeto os demais profis-
dedicação. Temos orgulho de sionais, inclusive o agente de portaria e au-
nossos projetos e gostaríamos xiliar de limpeza. Havia a necessidade de in-
de poder contar com um es- crementar as ações educativas de prevenção
paço num evento importante aos inúmeros agravos que acometem a co-
para apresentarmos o Grupo munidade. Concluiu-se que realizar reuniões
Fazendo Saúde com Alegria e educativas apenas utilizando a metodologia
mostrar algumas paródias so- de palestras não era suficiente para prender
bre saúde. Esperamos contar a atenção dos ouvintes, como se constatou
com uma resposta positiva. inúmeras vezes. Percebeu-se ainda que os
profissionais estavam um tanto desestimula-
INTRODUÇÃO: dos quanto às atividades educativas. Basean-
126 O Setor Veredas, situado na
cidade de Brazlândia, região
do-se em experiências lúdicas positivas ante-
riores, criou-se o Grupo Fazendo Saúde com

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.9. Projeto grupo fazendo saúde com alegria
Alegria, formado por todos os integrantes ensaios. Os figurinos são co-
da equipe, que cantam paródias com con- loridos, alegres e divertidos
teúdos educativos relativos aos cuidados à para prenderem a atenção
saúde, compondo músicas, apresentando dos expectadores e são cria-
peças de teatro, etc. dos e confeccionados pelos
próprios membros da equipe
OBJETIVOS: de acordo com o evento. As
Por meio de músicas, teatro ou qualquer ma- apresentações ocorrem em
nifestação artística e cultural, facilitar o en- reuniões educativas, esco-
tendimento das noções básicas de cuidados à las, feiras de saúde, eventos
saúde do usuário, ajudando na prevenção de em hospitais ou qualquer
doenças como a hipertensão, cáries, dengue; local onde haja necessida-
orientar sobre o tratamento de tuberculose, de de se levar informações
perigos do uso de drogas, gravidez na ado- e alegria. Para o futuro, es-
lescência e importância da doação de sangue; tamos escrevendo uma peça
proporcionar lazer e entretenimento à comu- sobre hantavirose e gravidez
nidade, principalmente às crianças; estimular na adolescência.
ainda mais a união entre os membros da equi-
pe; valorizar a criatividade de cada profissio- RESULTADOS
nal; reforçar cada vez mais a importância da ALCANÇADOS:
interdisciplinaridade. Nota-se entre os ouvintes da
comunidade a grande recep-
METODOLOGIA: tividade pelas músicas, já que
A idéia surgiu do Agente Comunitário de Saú- as melodias são conhecidas
de que tocava violão e percebeu a necessidade por todos, e recebem as in-
de incrementar as ações educativas na equipe formações de forma descon-
do PFS Veredas I. Em uma das reuniões de equi- traída e divertida. Em grupos
pe, foi colocada a idéia e aceita prontamente onde ocorreram apresenta-
pelos demais colegas. As músicas inicialmente ções por duas ou três vezes,
escolhidas foram canções de cantores famosos os participantes já sabiam
para que a comunidade logo se identificasse cantar o refrão. Em feiras
com as melodias, facilitando a assimilação das de saúde, o público sempre
mensagens. Várias reuniões ocorreram para pede que as músicas sejam
a criação dos conteúdos educativos ligados à repetidas. O reconhecimento
saúde, transformando as músicas escolhidas veio também no convite para
em paródias. Todos os membros da equipe
participam da composição das músicas e dos
participar da homenagem
pelas mulheres doadoras de
127

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
6.9. Projeto grupo fazendo saúde com alegria
sangue na Fundação Hemo- tão sempre procurando uma maneira de le-
centro de Brasília, por oca- var qualidade de vida à população atendida.
sião do Dia internacional da Palestras educativas podem se tornar monó-
Mulher, em 2008, quando tonas e não produtivas, e um grupo musical
foram compostas duas pa- alegre, colorido e divertido cantando sobre
ródias estimulando a doação dengue, gravidez na adolescência, tuberculo-
de sangue: Vamos doar! e Se se, doação de sangue, drogas e tantos outros
você quer doar... (músicas de temas ligados à saúde faz muita gente rir,
Sandy e Junior e Ivete San- mas faz também aprender e refletir. Às ve-
galo). Para participar do Dia zes, dificuldades como falta de recursos ma-
de Combate à Tuberculose, teriais, de talento para a música ou atuação,
foram apresentadas duas pa- para pregar botões nos figurinos parecem ser
ródias sobre o tema: Cidadão maiores do que a dedicação, determinação
Tuberculoso e Tuberculose e união dos participantes. Inúmeras vezes
(músicas de Ivete Sangalo e pensamos em desistir por não termos recur-
Zé Ramalho). Observou-se sos para comprar instrumentos musicais ou
uma melhora na auto-estima equipamentos eletrônicos, ou quando o ôni-
dos participantes da equipes, bus demorava a passar (Brazlândia é precária
já que alguns se descobriram em linha de ônibus e os profissionais residem
cantores e compositores e distante da cidade). No entanto, quando per-
puderam usar a criatividade. cebemos mudanças positivas em relação à
As reuniões educativas se saúde dos pacientes e sabemos que o Grupo
tornaram mais produtivas e Fazendo Saúde com Alegria faz a diferença
alegres e a equipe tornou-se na comunidade, esquecemos de tudo e con-
mais unida e produtiva com a tinuamos em frente!
presença da música.
RECOMENDAÇÕES:
LIÇÕES APRENDIDAS COM Estimular cada vez mais atividades lúdicas
A EXPERIÊNCIA: para ações educativas e preventivas. Que as
Com boa vontade, união da instituições invistam em recursos didáticos
equipe interdisciplinar e cria- e materiais que facilitem os trabalhos com
tividade de cada um, ativida- grupos musicais, teatrais e todos os tipos
des simples como essa pode de atividades artísticas e culturais que tanto
fazer a diferença para levar prendem a atenção da comunidade e levam a
informações para a comu- mensagem de prevenção e promoção à saú-
128 nidade. Os profissionais da
Equipe Veredas I juntos es-
de, que é o futuro da melhoria na qualidade
de vida da população do Brasil.

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE


RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
Autora Principal: ções de maior precariedade
ROSANA AQUINO GUIMARÃES PEREIRA socioeconômica e nas condi-
Orientador: MAURICIO LIMA BARRETO ções de gestão do município.
Área Temática: Avaliação e Monitoramento Os resultados corroboram
da AB/SF com os achados anteriores
Local onde o trabalho foi realizado: em todo acerca dos fatores locais que
o país favorecem ou dificultam a
institucionalização do PSF.
RESUMO: Em relação à adequação do
Introdução: Este estudo tem um desenho de indicador de cobertura, foi
avaliação que aborda múltiplas dimensões do demonstrado que, no perí-
Programa de Saúde da Família, privilegiando odo inicial da expansão, o
os determinantes da implementação, a co- indicador não expressava a
bertura e o impacto em municípios brasileiros população beneficiária do
no período de 1996 a 2004. PSF. Paulatinamente, porém,
Objetivos: identificar os potenciais determi- com sua consolidação, pas-
nantes contextuais da implantação e da con- sou a se constituir em uma
solidação do PSF; investigar a adequação do boa estimativa da cobertura.
uso do indicador de cobertura do PSF, anali- Finalmente, o estudo revelou
sando a sua correlação e concordância com o impacto positivo do PSF
outros indicadores; e avaliar o impacto da sobre a redução da mortali-
implantação do PSF sobre a redução da mor- dade infantil em municípios
talidade infantil. brasileiros, no período de
Metodologia: foram realizadas análises eco- 1998 a 2003. Tendo como
lógicas e longitudinais, com dados secundá- referência o grupo sem PSF
rios provenientes de diversos sistemas de in- e controlando pelas co-va-
formação de abrangência nacional, tendo o riáveis, a redução da taxa
município como unidade de análise. de mortalidade infantil foi
Resultados e discussão: A implantação do da ordem de 7%, 11,8%,
PSF nos municípios brasileiros esteve associa- 14,1% e 17,0%, crescendo
da positivamente com a condição de o mu- com nos níveis e cobertura
nicípio ser capital, estar localizado em região e consolidação do PSF. Re-
metropolitana, ter alta taxa de urbanização e sultados semelhantes foram
estar habilitado em gestão plena do sistema observados após a estratifi-
e, negativamente, com as variáveis socioeco- cação pela taxa de mortali-
nômicas. Ao contrário, a consolidação esteve
associada com variáveis que revelavam situa-
dade infantil inicial, porte
dos municípios e IDH. Con-
129

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
cluiu-se que a implementa- em periódicos científicos, estando em proces-
ção do Programa de Saúde so de revisão.
da Família esteve associada
com reduções significativas INTRODUÇÃO:
da mortalidade infantil nos No Brasil, a estratégia Saúde da Família (PSF),
municípios brasileiros. concebida pelo governo federal a partir de
Considerações finais: a com- experiências municipais e estaduais exitosas,
plexidade da Atenção Básica, tem sido adotado, nas três esferas do SUS,
traduzida na sua abrangên- como a principal estratégia de reorganiza-
cia quanto aos problemas de ção dos modelos de atenção em saúde. Seu
saúde de indivíduos, família propósito fundamental é superar os modelos
e população e na busca por assistenciais centrados na doença, a partir do
atenção progressivamente desenvolvimento de práticas gerenciais e sa-
totalizadora do cuidado, em nitárias democráticas e participativas, sob a
vez da somatória de atos es- forma de trabalho em equipe e voltadas para
pecializados, coloca novos populações de territórios delimitados, tendo
desafios para o desenvolvi- como princípios fundamentais: integralidade,
mento de pesquisas avalia- qualidade, equidade e participação social. Na
tivas que possam investigar última década, o PSF apresentou uma veloci-
não apenas o desenvolvi- dade de expansão vertiginosa. Enquanto em
mento de intervenções que 1998, alcançava pouco mais de 1.000 muni-
tradicionalmente vem sendo cípios, no final de 2007 estava implantado
realizadas nas unidades bá- em mais de 90% dos municípios brasilei-
sicas de saúde, mas também ros, com 27.324 equipes multiprofissionais,
incorporar novas práticas e muitas delas contando com profissionais de
objetos de atenção. saúde bucal, alcançando uma cobertura de
Observação: o estudo apre- 46,6% da população brasileira (www.saude.
sentado é fruto de minha gov.br/dab/atencaobasica). Tendo em vista
tese de doutorado. Desen- que a sua implementação condicionou um
volvida no formato de três conjunto de transformações nos modelos as-
artigos, a tese aborda os de- sistenciais, no desenho e operação das políti-
terminantes da implementa- cas, nas modalidades de alocação de recursos
ção, a cobertura e o impacto e na remuneração dos prestadores, o PSF tem
do PSF em municípios brasi- sido apontado por alguns autores como uma
leiros no período de 1996 a reforma da reforma ou reforma incremental
130 2004. Os artigos foram en-
caminhados para publicação
(VIANA e DAL POZ, 1998). Embora funda-
mental, a expansão em larga escala é insu-

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
ficiente para garantir a superação dos graves contribuição do PSF na intrin-
problemas da Atenção Básica no Brasil e, cada rede de determinantes
principalmente, para promover as ambiciosas macro-estuturais da mortali-
transformações na racionalidade dos mode- dade infantil coloca-se como
los de atenção e nas práticas assistenciais de relevante uma vez que o PSF
saúde. Entre os inúmeros desafios institucio- implementa um conjunto de
nais, a avaliação dos seus múltiplos aspectos ações de promoção, preven-
constitui tarefa fundamental para subsidiar e ção e atenção que têm sido
influenciar a tomada de decisão de gestores, destacadas, na literatura in-
profissionais e população na construção de ternacional, como as princi-
mecanismos que promovam a sustentabilida- pais intervenções sanitárias
de e a melhoria de suas ações. Os grandes disponíveis para redução
investimentos públicos para produzir, geren- da mortalidade infantil e de
ciar e disponibilizar uma enorme quantidade menores de cinco anos.
de dados quantitativos vêm ampliando as
possibilidades de utilização de abordagens OBJETIVOS:
epidemiológicas na avaliação de políticas e 1. Identificar os potenciais
programas descentralizados, utilizando-se de determinantes contextuais
dados desagregados por município. O pre- da implantação do Progra-
sente estudo insere-se nessa linha de investi- ma de Saúde da Família,
gação, elegendo três questões fundamentais de 1996 a 2000, e de sua
da avaliação do PSF que foram desenvolvidas consolidação, em 2004, nos
na forma de artigos. O primeiro estudo, abor- municípios brasileiros.
dando a diversidade dos cenários de imple- 2. Investigar a adequação do
mentação em estados e municípios, investiga uso do indicador de cober-
os determinantes contextuais da implantação tura do Programa de Saúde
e consolidação do PSF no Brasil. O segundo da Família, analisando a sua
avalia, do ponto de vista da validade concei- correlação e concordância
tual e operacional, o indicador de cobertura com outros indicadores rela-
do PSF, que tem sido estimada por meio de cionados ao funcionamento
um parâmetro nacional único que pode não do Programa, no período de
corresponder à população realmente atendi- 1998 a 2004, nos municípios
da e beneficiária das ações e serviços. Final- brasileiros.
mente, a efetividade do PSF sobre a redução 3. Avaliar o impacto da im-
da mortalidade infantil, um problema de saú- plantação do Programa de
de prioritário no Brasil, constitui-se na tercei-
ra e última questão de investigação. Avaliar a
Saúde da Família sobre a re-
dução da mortalidade infan-
131

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
til em municípios brasileiros, quanto à cobertura do PSF, ao cadastramen-
no período de 1998 a 2003. to da população coberta, ao acompanha-
mento das famílias e à utilização de serviços
METODOLOGIA: básicos (consulta médica, cobertura vacinal
Foram realizadas análises de menores de um ano e visita domiciliar de
ecológicas e longitudinais, agentes comunitários de saúde). As variáveis
com dados secundários independentes incluíram medidas da situa-
provenientes de diversos ção demográfica, socioeconômica, política,
sistemas de informação de de gestão do município, políticas públicas, de
abrangência nacional, tendo gestão do sistema local de saúde e de utili-
o município como unidade zação e funcionamento da rede de serviços
de análise. de saúde do município. Foi realizada análise
Estudo dos determinantes descritiva da implantação do PSF, segundo
da implantação e consolida- macrorregiões, considerando o total de mu-
ção do PSF no Brasil: nicípios que implantaram o PSF, segundo ano
Para avaliação dos deter- de implantação e o total de municípios que
minantes da implantação e mantinham o PSF em funcionamento a cada
consolidação do PSF, foram ano. Por meio de regressão logística para o
estudados todos os municí- total de municípios brasileiros, foi estimada a
pios que implantaram o PSF associação bivariada, estratificada por porte
nos anos de 1996 a 2000, populacional, e multivariada, com os poten-
sendo realizado o seguimen- ciais determinantes da adesão ao PSF no perí-
to do funcionamento do pro- odo de 1996 a 2000. Assim como para o gru-
grama até 2004, de forma a po de municípios que implantaram o PSF no
garantir, no mínimo, quatro período de 1996 a 2000, modelos regressão
anos de observação. Foram logísticos bivariados e multivariados, foram
utilizadas duas variáveis de- utilizados para estimar a associação com
pendentes: implantação do os potenciais determinantes da sua conso-
PSF no período de 1996 a lidação. Os modelos multivariados foram
2000 e a consolidação do construídos a partir das variáveis que foram
PSF em 2004. A consolida- estatisticamente significantes na análise bi-
ção do PSF nos municípios variada. As variáveis de gestão do municí-
foi analisada com base na pio e de políticas públicas, cujos dados só
regularidade do funciona- estavam disponíveis para os anos de 2001 e
mento do PSF, no período 2002, só foram utilizadas nas análises rela-
132 de 1996 a 2004, e nos resul-
tados alcançados, em 2004,
cionadas com a consolidação do PSF.
Avaliação do indicador de cobertura do PSF:

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
O estudo de avaliação do indicador de co- municipal, todos os 5.561
bertura do PSF (número de equipes de saú- municípios brasileiros foram
de da família vezes 3.450 sobre a população analisados quanto à adequa-
do município) abrangeu todos os municípios ção das informações prove-
brasileiros com o Programa de Saúde da Fa- nientes do Sistema de Infor-
mília em funcionamento, em pelo menos um mações sobre Mortalidade
ano, no período de 1998 a 2004. Realizou-se (SIM) e Sistema de Informa-
um estudo de correlação e concordância des- ção sobre Nascidos Vivos
se indicador com os seguintes indicadores: (SINASC), sendo incluídos
percentual da população cadastrada no Siste- neste estudo os 771 muni-
ma de Informação da Atenção Básica (SIAB), cípios brasileiros que apre-
percentual de famílias acompanhadas pelas sentavam informações ade-
equipes e percentual de nascidos vivos infor- quadas, segundo critérios
mados no SIAB do total registrado pelo SI- preestabelecidos (SZWAR-
NASC. Para verificar as relações estudadas no CWALD e cols., 2002).
tempo, os indicadores foram calculados para O estudo utilizou o modelo
cada ano do período estudado. Foi realizada de painel de dados, também
análise descritiva das distribuições dos quatro denominado modelo para
indicadores estudados, assim como das distri- dados longitudinais, tendo
buições das diferenças entre a cobertura do o município como unidade
PSF e cada um dos três demais indicadores, de análise. Foram obtidas
por meio da apresentação da média, des- séries temporais com infor-
vio-padrão e mediana. Foi calculado o coe- mações anuais para cada
ficiente de correlação de Spearman e ava- município, a partir de dados
liada a concordância entre as medidas por secundários provenientes de
meio do coeficiente de concordância de diversas bases e sistemas de
Lin e do coeficiente de regressão estimado informações, referentes ao
pelo modelo de regressão de Deming. As período de 1998 a 2003. A
análises foram realizadas para o conjunto variável dependente foi a
dos municípios e estratificada pelo porte taxa de mortalidade infantil
populacional dos municípios. obtida pelo método dire-
Impacto do Programa de Saúde da Famí- to. A variável independente
lia na redução da mortalidade infantil em principal foi a consolidação
municípios brasileiros: do PSF, classificado em cinco
Para avaliar o impacto do PSF sobre a mor- níveis: PSF não implantado,
talidade infantil, devido a deficiências nas
informações de mortalidade infantil no nível
PSF implantado com baixa
cobertura, PSF com média
133

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
cobertura, PSF com alta co- a taxa de mortalidade infantil, a razão de ta-
bertura e PSF consolidado. xas de mortalidade infantil (RTMI) e seus res-
Essa variável foi gerada, para pectivos limites de confiança a 95%. Foram
cada ano estudado, a partir estimadas razões brutas e ajustadas pelas co-
dos indicadores de cobertu- variáveis utilizadas. Foram testados modelos
ra do PSF, de cadastramento de efeitos fixos e modelos de efeitos aleató-
e acompanhamento da po- rios para o conjunto dos municípios e estra-
pulação e de utilização de tificados segundo o porte dos municípios, Ín-
serviços de saúde (consultas dice de Desenvolvimento Humano Municipal
médicas básicas por habitan- e média das taxas de mortalidade infantil do
te ano, cobertura vacinal por município para o período de 1996 a 1998.
tetravalente em menores de Foi utilizado o Teste de Hausman modificado
um ano, famílias visitadas para regressão binomial negativa para testar
por agente comunitário de a hipótese de que o modelo de efeitos fixos
saúde, pessoas cadastradas seria o mais apropriado. Para processamento
no SIAB e famílias acompa- dos bancos de dados e análise, utilizou-se o
nhadas pelas equipes), es- pacote estatístico Stata ersão 9.1.
timados para cada ano, no Apresentação dos resultados e discussão:
período de 1998 a 2004. Estudo dos determinantes da implantação e
As co-variáveis analisadas consolidação do PSF no Brasil.
como confundidoras foram: Dos 4.902 municípios que aderiram ao PSF no
taxa de fecundidade total, período de 1996 a 2004, 2.963 municípios
renda per capita, Índice de (53,3% do total de municípios brasileiros)
Gini, taxa de analfabetis- iniciaram a implantação do programa entre
mo funcional em maiores 1996 e 2000, sendo selecionados para esse
de 15 anos, percentual de estudo. Até 2004, o PSF estava consolidado
domicílios com água enca- em 802 (27,1%) desses municípios. Quanto
nada e taxa de internações aos determinantes contextuais da implanta-
locais. Foi realizada análise ção e consolidação do PSF, o estudo revelou
de regressão multivariada que a implantação do PSF esteve associada
para dados de painel com positivamente com a condição de o municí-
resposta binomial negativa, pio ser capital do estado, estar localizado em
utilizando modelos de efei- região metropolitana, com maiores taxas de
tos fixos e aleatórios. Foi urbanização, estar em gestão plena do siste-
estimada, como medida da ma municipal em 1998, ter uma rede de ser-
134 associação entre o grau de
institucionalização do PSF e
viços de saúde em funcionamento em 1998
e, negativamente, com as variáveis socioe-

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
conômicas, sendo maior entre os municípios educação, concebidas como
mais pobres. Ao contrário, a consolidação do sistemas complexos de re-
PSF esteve associada positivamente com situ- lações governamentais ba-
ações de maior precariedade do município, seados em recompensas e
sendo maior entre os municípios menores, lo- sanções, comprova o argu-
calizado no interior dos estados e com meno- mento de que a transferên-
res taxas de urbanização e, negativamente, cia de responsabilidades de
com indicadores de avanços da gestão muni- uma política social universal
cipal (instrumentos de gestão e planejamen- para o gestor local depende
to urbano e conselhos municipais setoriais) de estratégias indutivas que
e com a gestão plena do sistema de saúde. possibilitem a superação de
Após o controle pelas demais variáveis, fo- fatores estruturais e insti-
ram observadas associações estatisticamente tucionais limitantes. Para a
significantes e negativas com a renda per ca- autora, parece ser decisivo
pita, existência de consultas especializadas e o papel indutor do gestor
de médicos e, positivas, com o Índice de Gini, federal para a melhoria e
percentual de pessoas que vivem em domicí- sustentabilidade dessas po-
lios com acesso a coleta de lixo e cobertura líticas, embora ressalte a
de ACS. Os achados corroboram com o que importância de inovações
já vinha sendo demonstrado, na maioria por institucionais (conselhos mu-
estudos de caso, que os municípios de pe- nicipais setoriais, orçamento
queno porte e com pouca ou nenhuma capa- participativo, programas de-
cidade instalada de serviços de saúde encon- mand-driver) na promoção
tram menores dificuldades em implementar de maior envolvimento dos
o PSF como uma estratégia de expansão de governos e comunidades lo-
cobertura. Nas capitais e grandes centros ur- cais na provisão de serviços
banos, onde os sistemas de saúde se carac- sociais universais. Em resu-
terizam pela exclusão de grandes parcelas da mo, embora fatores contex-
população aos serviços de saúde, complexos tuais tenham sido relevantes
perfis de saúde-doença e redes assistenciais no processo de implantação
desarticuladas, as dificuldades da consolida- do PSF no país, a capacida-
ção são maiores e de difícil superação, envol- de de indução do governo
vendo a resistência de diversos atores sociais. federal conseguiu vencer
A variável mais importante para a descentra- os obstáculos existentes e,
lização de uma política, para Souza (2004), é no momento atual, a qua-
o desenho institucional da política. No Bra-
sil, o sucesso da descentralização da saúde e
se totalidade dos municí-
pios tem o PSF implantado.
135

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
Em relação ao processo de menores de 100.000 habitantes, a correla-
consolidação, os resultados ção da cobertura do PSF e os indicadores de
do estudo traçam um pa- cadastro e registro foi de magnitude ligeira-
norama nacional que revela mente inferior à observada para o conjunto
intrincadas relações entre os dos municípios. Os municípios com 100.000
processos de indução e estí- ou mais habitantes apresentaram coeficientes
mulo do governo federal e bem mais altos, alcançado valores em torno
fatores locais que favorecem de 0,9 ao final do período estudado. Os resul-
ou dificultam a instituciona- tados da análise, utilizando o coeficiente de
lização do programa, o que Lin, também mostraram concordância positi-
deve ser explorado por ou- va e crescente no decorrer do tempo, entre a
tras investigações. cobertura e os três indicadores (variando de
Avaliação do indicador de 0,22 a 0,75 entre a cobertura do PSF com o
cobertura do PSF. percentual da população cadastrada, de 0,39
No período estudado, ocor- a 0,82, com o percentual de famílias acompa-
reu um significativo aumen- nhadas, e de 0,20 a 0,73, com o percentual
to da correlação entre a de nascidos vivos registrados), com o mes-
cobertura do PSF e os três mo padrão de incremento para os maiores
outros indicadores estuda- municípios, quando estratificadas por porte
dos. O coeficiente de corre- populacional, observado na análise anterior.
lação de Spearman entre a Para o conjunto dos municípios, a regressão
cobertura e o percentual da pelo Método de Deming demonstrou que
população cadastrada apre- nenhum dos modelos apresentou intercepto
sentou o maior incremen- igual a zero ou inclinação igual a um, ou seja,
to, passando de 0,14, em as retas de regressão obtidas não correspon-
1998, para 0,72, em 2004. deram à linha de identidade, que expressa a
No mesmo período, a cor- perfeita concordância entre os indicadores.
relação da cobertura do PSF Entretanto, com o passar do tempo, as retas
com o percentual de famílias de regressão da cobertura do PSF e cada um
acompanhadas aumentou dos três indicadores apresentou uma incon-
de 0,41 para 0,78, e com o testável tendência à aproximação dos valores
percentual de nascidos vivos dos coeficientes observados aos valores espe-
registrados, de 0,32 para rados. Em resumo, as análises demonstraram
0,72, no período de 1998 a que, no período inicial de expansão do PSF,
2003. A mesma análise por o indicador de cobertura não expressava a
136 porte populacional revelou
que, entre os municípios
magnitude da população beneficiária, apre-
sentando valores muito superiores aos indi-

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
cadores de cadastro e registro. Paulatina- delo ajustado pela introdu-
mente, observou-se que, especialmente a ção das covariáveis – taxa de
partir de 2000, o indicador utilizado pelos fecundidade total, renda per
gestores das três esferas do SUS passou a capita, Índice de Gini, taxa
se constituir em uma boa estimativa da co- de analfabetismo funcio-
bertura do programa. nal em maiores de 15 anos,
A problematização dessas questões traz, percentual de pessoas com
como principais implicações, um melhor co- acesso à água encanada e
nhecimento do processo de implantação e taxa de internações locais
implementação do PSF no Brasil, em um as- (modelo 2), foram mantidos
pecto que é crucial para a gestão: a magni- a significância estatística da
tude da população beneficiária das ações e associação principal e o gra-
serviços de saúde. Ao mesmo tempo, ao en- diente entre os grupos, em-
fatizar, no campo da avaliação, a importância bora com ligeira redução da
dos estudos de cobertura, uma temática que magnitude da associação,
não tem sido priorizada contribui, por meio sendo as reduções da taxa
das reflexões levantadas, para o aperfeiço- de mortalidade infantil de
amento de estratégias de estudo para essa 7%, 11,8%, 14,1% e 17%,
etapa fundamental do monitoramento e ava- nos níveis crescentes de co-
liação de sistemas e serviços de saúde. bertura e consolidação do
Impacto do Programa de Saúde da Famí- PSF. No modelo 3, o nível
lia na redução da mortalidade infantil em de cobertura e consolida-
municípios brasileiros. ção do PSF alcançado em
O estudo de impacto do PSF sobre a redução um ano foi testado quanto
da mortalidade infantil, após a aplicação dos à associação com a taxa de
critérios de qualidade. mortalidade infantil do ano
Os resultados do estudo revelaram uma as- seguinte (variável defasa-
sociação negativa, estatisticamente signifi- da ou lag), ajustada pelas
cante, entre o PSF e a mortalidade infantil, co-variáveis, sendo obtidos
com gradiente de associação entre os grupos resultados semelhantes aos
de consolidação do PSF, o que foi mantido encontrados no modelo an-
nos nove modelos de regressão analisados. O terior. Resultados semelhan-
modelo 1 não ajustado, tendo apenas o PSF tes foram observados após
como preditor da taxa de mortalidade infan- a estratificação por porte
til, registrou reduções da taxa de mortalidade dos municípios (modelos 4
infantil da ordem de 10% a 24%, crescendo
com o grau de consolidação do PSF. No mo-
e 5) pela taxa de mortalida-
de infantil inicial (modelos 6
137

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
e 7) e IDH (modelos 8 e 9). infantil. Para interpretação desses resultados,
De acordo com o Teste de primeiro, faz-se necessário refletir sobre os
Hausman, os coeficientes mecanismos de atuação do PSF, ou seja, de
obtidos por meio dos mo- que forma a sua implementação resulta em
delos de efeitos fixos foram ações e serviços de saúde efetivos sobre a re-
mais consistentes do que os dução da mortalidade infantil nos municípios
gerados pelos modelos de brasileiro. Quanto às ações, todo o elenco de
efeitos aleatórios, em todas responsabilidades e intervenções que confor-
as alternativas de análise uti- mam o nível básico de atenção do Sistema
lizadas. Este estudo revelou Único de Saúde é de competência do PSF,
que a implementação do sendo prioritária a atenção ao grupo mater-
Programa de Saúde da Famí- no-infantil. Ressalta-se o desenvolvimento
lia nos municípios brasileiros, de ações de promoção, prevenção e assis-
no período de 1998 a 2003, tência, como o incentivo ao aleitamento ma-
esteve associada com redu- terno, a assistência pré-natal, a atenção ao
ções significativas da taxa recém-nascido e aos menores de cinco anos
de mortalidade infantil. A e a prevenção e o manejo de doenças infec-
associação, que se manteve ciosas (por meio de atividades de educação
estatisticamente significante em saúde, monitoramento da imunização de
após o controle de outros crianças e gestantes, incentivo à utilização da
determinantes, apresentou TRO e atenção aos casos de doença). Essas
um claro gradiente entre os medidas têm sido destacadas entre as princi-
grupos, com valores crescen- pais intervenções sanitárias disponíveis contra
tes entre os municípios com a mortalidade infantil e de menores de cin-
baixa, média e alta cobertu- co anos. O atendimento pré-natal é uma das
ra, sendo mais forte entre os medidas de maior potencial de redução da
municípios com o programa mortalidade na infância, pelo impacto sobre
consolidado, associação que as causas perinatais. Outras, como a imuni-
se manteve após a estrati- zação, pela importância de sua sustentabili-
ficação dos municípios por dade para evitar o ressurgimento de casos de
porte populacional, nível da doenças, com limitadas possibilidades de ter
mortalidade infantil inicial, impactos mensuráveis nas taxas de mortali-
Índice de Desenvolvimento dade infantil. Finalmente, estratégias como o
Humano e quando a variável AIDPI, que congregam treinamento de pro-
cobertura do PSF foi defasa- fissionais, melhoria nos serviços, suprimento
138 da de um ano (lag) com re-
lação à taxa de mortalidade
de medicamentos essenciais e atividades co-
munitárias (VICTORA, 2001), que vêm sendo

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
implementadas, prioritariamente nas Equipes nível de agregação estadual
de Saúde da Família. Para avaliar a contri- e taxas de mortalidade in-
buição específica do Programa de Saúde da fantil obtidas por estimativas
Família na redução da mortalidade infantil, indiretas. A principal contri-
foi adotada, no presente estudo, a análise buição da presente investi-
de dados de painel, técnica que tem apre- gação e, possivelmente, seu
sentado maior aplicação no campo da eco- maior mérito e a fonte de
nometria, adequada para identificar padrões suas principais dificuldades
de mudança entre unidades de observações, e limitações, foi a opção de
no caso, os municípios, levando em conta as analisar os padrões e as ten-
trajetórias de cada município e as diferenças dências nacionais dos efeitos
entre os municípios em suas trajetórias de do Programa de Saúde da
mudança, controlando o efeito de um con- Família a partir da trajetória
junto de macrodeterminantes bem estabele- dos municípios, utilizando
cidos na literatura. A vantagem do modelo dados de mortalidade infan-
de efeitos fixos utilizado é a sua capacidade til obtidos pelo método dire-
de controlar características não mensuradas to. O uso do nível municipal,
dos municípios que não variam no tempo e ou níveis mais desagregados
que podem afetar as taxas de mortalidade in- é mais adequado aos pro-
fantil, como localização geográfica dos muni- pósitos da avaliação e do
cípios, desvantagens historicamente acumu- planejamento em saúde no
ladas e características culturais locais (ALVES Brasil, dada a descentraliza-
E BELLUZZO, 2005; MACINKO & cols., 2005). ção do SUS, pois o municí-
Investigações sobre a evolução da mortali- pio representa o verdadeiro
dade infantil, realizadas com metodologia lócus de implementação
semelhante (análise de dados de painel e in- das políticas. Dessa forma,
formações censitárias), no nível de agregação apesar das limitações do es-
municipal, salientaram a importância dos de- tudo relativas à abordagem
terminantes que foram utilizados neste estu- ecológica e à qualidade dos
do como potenciais confundidores do efeito dados secundários, pode-se
do PSF. É importante enfatizar que os resul- considerar que os resultados
tados dessa pesquisa confirmam achados en- encontrados neste estudo
contrados no estudo de Macinko e colabora- são válidos e expressam a
dores (2005) de associação entre a cobertura contribuição que o aumento
do Programa de Saúde da Família e a redução da cobertura e consolidação
da mortalidade infantil, relativo ao período de
1990 a 2002, e que utilizou na sua análise o
do Programa de Saúde da
Família vem dando nas ten-
139

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
dências recentes de redução analíticas e o enfrentamento de dificuldades
da mortalidade infantil no e limitações, a importância de usar os dados
Brasil. O estudo contribui, produzidos pelas equipes de saúde e geren-
assim, para o conhecimento ciais dos municípios para avaliar um progra-
do impacto dessa estratégia ma cuja execução é municipal e que tem ação
de reorganização dos servi- local é de inegável importância. Pelas ques-
ços básicos e dos modelos de tões metodológicas já descritas, para os pro-
atenção do Sistema Único de fissionais de saúde e gestores que produzem
Saúde sobre um importante essas informações e envidam esforços pela
problema de saúde pública, sua melhoria, assim como para a população,
a mortalidade infantil. na medida em que a produção cientifica de
informações relevantes, que possam influen-
RECOMENDAÇÕES: ciar decisões em saúde, é uma das maiores
Diversos estudos têm con- justificativas para o investimento de recursos
tribuído para descortinar o humanos e financeiros na gestão de sistemas
largo espectro de possibi- de informação em saúde. O presente estudo
lidades de organização da insere-se nessa linha de investigação, enten-
Atenção Básica por meio do dendo que explorar as possibilidades de pro-
PSF, grande parte utilizando dução de conhecimento científico a partir da
metodologias qualitativas. integração de diversas bases de dados secun-
Entretanto, para a gestão do dários é relevante na avaliação de programas
SUS, também são necessá- de saúde, complementa outras abordagens
rias avaliações de âmbito na- qualitativas e quantitativas e linhas de inves-
cional, utilizando metodolo- tigação em curso e pode contribuir para o
gias e ferramentas de análise aprimoramento das intervenções de saúde. A
epidemiológica, que revelem tese, ao eleger como objeto o PSF e adotar
o impacto dessa interven- como estratégia de investigação a aborda-
ção, por meio da definição gem de múltiplas dimensões para avaliação,
de padrões e tendências na- ofereceu subsídios para melhor compreender
cionais. Mesmo que o dese- o processo de implementação de uma políti-
nho das estratégias e opções ca pública de saúde, implantada pela maioria
metodológicas adotadas dos municípios brasileiros e prioridade dos
para utilização dos dados governos municipais, estaduais e federal e,
produzidos pelos sistemas principalmente, apresentou resultados que
nacionais de informação ve- fortalecem as evidências de que o Programa
140 nha a exigir a experimenta-
ção de várias possibilidades
de Saúde da Família teve impacto positivo so-
bre o estado de saúde da população. A com-

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.1. Programa de Saúde da Família (PSF):
determinantes e efeitos de sua Implantação no Brasil
plexidade da Atenção Básica, traduzida na sua
abrangência quanto aos problemas de saúde
de indivíduos, família e população e na busca
por atenção progressivamente totalizadora do
cuidado, em vez da somatória de atos espe-
cializados, abre um amplo leque de possibili-
dades de investigação que devem contribuir
para o avanço do conhecimento nesse campo.
Assim, novos desafios estão colocados para o
desenvolvimento de pesquisas avaliativas que
possam investigar não apenas o desenvolvi-
mento de intervenções que tradicionalmente
vem sendo realizadas nas unidades básicas de
saúde (assistência pré-natal, cobertura univer-
sal de imunização para todas as faixas etárias;
tratamento das intercorrências mais comuns
na infância e ações de prevenção de doenças),
mas também incorporar novas práticas e ob-
jetos de atenção (promoção da saúde, acom-
panhamento de adultos, homens e mulheres,
com doenças crônicas de alta prevalência;
pequenas urgências ambulatoriais; controle
das doenças bucais e tratamento dos distúr-
bios mentais e psicossociais mais freqüentes).
Adicionalmente, entendendo que a atenção à
saúde deve ser organizada de forma que os
indivíduos e grupos sociais assumam cada vez
mais o controle de suas vidas e de sua saú-
de, humanização, vínculo e acolhimento com-
põem aspectos da dimensão subjetiva das
práticas das equipes de saúde que devem ser
investigadas como inovações tecnológicas fun-
damentais, assim como os aspectos da gestão
como participação popular, controle social e,
especialmente, as possibilidades de mudanças
do modelo de atenção que atendam às neces-
sidades de saúde da população.
141

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.2. Atenção domiciliar a idosos no
sul e nordeste do Brasil
Autor Principal: tradicionais e do PSF, em grandes cidades do
LUIZ AUGUSTO FACCHINI Sul e Nordeste (NE) do país.
Outros Autores: Métodos. Estudo transversal. Amostra de
ELAINE THUMÉ 4.200 sujeitos >= a 65 anos de idade, resi-
VANESSA A. TEIXEIRA dentes em áreas de abrangência de 240 UBS
MARIA APARECIDA RODRI- de 41 municípios acima de 100 mil habitan-
GUES tes de dois estados do Sul e cinco do NE.
ROBERTO XAVIER PICCINI Análises: bruta, estratificada e multivariável
Área Temática: Vigilância em (ajuste por regressão de Poisson com variân-
Saúde na AB/SF cia robusta e efeito de delineamento).
Local ode o trabalho foi rea- Resultados. Entrevistou-se 4.003 idosos. A
lizado: em todo o país necessidade de atenção domiciliar no NE
foi de 24,6% – 65% maior do que no Sul
RESUMO: (IC95%=1,45-1,88), mas não variou com
Introdução. Até 2025, esti- o modelo da UBS. No Sul, a necessida-
ma-se que aproximadamen- de em áreas de PSF (18%) foi 70% maior
te de 15% da população do (IC95%=1,34-2,16) do que nas de UBS tra-
Brasil terá mais de 60 anos. dicionais. Na análise ajustada, a necessidade
O país ocupará o sexto lugar de atenção domiciliar foi maior em ambas as
no mundo em número de regiões para idade acima de 76 anos; não sa-
idosos. As complexas impli- ber ler; domicílios com mais de cinco pessoas;
cações do envelhecimento doença crônica e queda. Ainda se associou
desafiam a organização dos com viver em área de PSF no Sul e com sexo
serviços de saúde em todo feminino no NE. A cobertura de atendimento
o mundo. Doenças crônicas, domiciliar do PSF foi de 80% no NE e 74% no
incapacidades e necessida- Sul. Nas UBS tradicionais foi de 21% no NE e
des especiais aumentam a 26% no Sul. Após os ajustes, a cobertura de
demanda por atenção do- atendimento domiciliar foi maior em ambas
miciliar. O conhecimento so- as regiões para idade acima de 76 anos; não
bre essa demanda e sobre a saber ler; queda e viver em área de PSF. No
resposta da Atenção Básica NE a cobertura ainda cresceu com o aumento
ainda é escasso. de renda e doença crônica.
Objetivos. Avaliar a preva- Conclusão. A necessidade de atenção domi-
lência de necessidade de ciliar alcançou cerca de 20% dos idosos. O
atenção domiciliar de idosos PSF foi três a quatro vezes mais efetivo na res-
142 e sua cobertura por unida-
des básicas de saúde (UBS)
posta a essa demanda do que as UBS tradi-
cionais. A expansão e a consolidação do PSF

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.2. Atenção domiciliar a idosos no
sul e nordeste do Brasil
em grandes centros urbanos do país serão a idade em ambos os sexos.
estratégicas na ampliação do cuidado domi- Entre 1998 e 2003, a PNAD
ciliar de idosos, promovendo a humanização registrou incremento no nú-
e a equidade em saúde. mero de consultas médicas,
Observação. Essa pesquisa integrou os estu- possibilitando o aumen-
dos de linha de base do PROESF e foi con- to dos diagnósticos desses
duzida em 41 municípios acima de 100 mil quadros (LIMA-COSTA et
habitantes dos estados do RS e SC, na Região al., 2003). Nesses estudos,
Sul, e dos estados de AL, PB, PE, PI e RN, na 26% dos idosos auto-refe-
Região Nordeste. Os achados do estudo es- riam três ou mais doenças
tão sendo divulgados ao município por meio crônicas e cerca de 9% es-
de publicações, oficinas de trabalho, jornal tiveram acamados nas duas
do estudo e de página na internet: www.epi- semanas anteriores ao es-
demio-ufpel.org.br/proesf/index.htm tudo (LIMA-COSTA et al.,
2003). No Estudo de Linha
INTRODUÇÃO: de Base (ELB) do PROESF
O crescimento da população idosa altera sig- (FACCHINI et al., 2006) dois
nificativamente a estrutura demográfica e no terços dos idosos (62% no
quadro de morbimortalidade, demandan- Sul e 65% no Nordeste) re-
do respostas efetivas dos sistemas de saúde feriram diagnóstico médico
(CHAIMOWICZ, 1997; SOUZA, MORAIS et de hipertensão e um quinto
al., 2006; WHO, 2007). Até 2025, o Bra- de diabetes (20% no Sul e
sil será o sexto país do mundo em número 19% no Nordeste). Aproxi-
de idosos, passando de 8,5% para no míni- madamente 15% dos ido-
mo 15% da população total do país (WHO, sos portavam hipertensão e
2005). O envelhecimento tem implicações no diabetes (16% no Sul e 14%
âmbito da vida familiar e da organização dos no Nordeste). Estudos brasi-
sistemas e serviços de saúde. Incrementa as leiros identificaram cerca de
doenças crônicas e as necessidades especiais 20% dos idosos com risco
de saúde, que, em boa medida, requerem de de fragilização da saúde, em
cuidados domiciliares, por parte de familia- muitos casos com hospitali-
res, de acompanhantes e do sistema de saú- zação recente (VERAS, 2003;
de. Estudos brasileiros evidenciam que mais BOULT et al., 1993). A capa-
de dois terços dos idosos (69%) relataram cidade funcional expressa a
ter pelo menos uma doença crônica (LIMA- interação multidimensional
COSTA et al., 2003). A prevalência foi maior
entre as mulheres (74,5%) e aumentou com
entre saúde física e mental,
independência na vida diá-
143

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.2. Atenção domiciliar a idosos no
sul e nordeste do Brasil
ria, integração social, supor- moção do envelhecimento saudável, a manu-
te familiar e independência tenção e melhoria da capacidade funcional, a
econômica dos idosos (MS, prevenção de doenças, a recuperação da saú-
2006). A incapacidade fun- de e a reabilitação (BRASIL, 1999). O Estatuto
cional alcança até 40% dos do Idoso, lei n.º10.741 de 1º de outubro de
idosos e pode ser suficiente 2003, prevê o atendimento domiciliar ao ido-
para determinar a necessi- so impossibilitado de se locomover, inclusive
dade de um cuidador formal para aqueles abrigados e acolhidos institu-
ou informal (GIACOMIN et cionalmente. A Atenção Básica, da estratégia
al., 2005). A incapacidade Saúde da Família, lançada em 1994, objetiva
funcional grave para realizar prestar atenção mais integral à população,
tarefas básicas, como tomar alcançando o domicílio e os grupos mais ex-
banho, vestir-se, ir ao ba- cluídos e vulneráveis socialmente, como os
nheiro, alimentar-se e, até, idosos (FACCHINI et al., 2006). Entretanto,
sentar e levantar de cadeiras ainda é escasso o conhecimento sobre a res-
e camas, alcança entre 10% posta às demandas de saúde dos idosos por
(RAMOS et al., 1993) e 14% parte da Atenção Básica, particularmente da
(LIMA-COSTA et al., 2003) estratégia Saúde da Família. Avaliações re-
dos idosos. Em contextos centes identificam o PSF como o modelo com
de desigualdades regionais melhor desempenho na cobertura de ações
e sociais, os idosos diferem programáticas em todos os grupos popula-
em termos demográficos, cionais, inclusive os idosos (FACCHINI, 2006;
socioeconômicos, de histó- PICCINI, 2006). A avaliação do desempenho
ria de vida ou de grau de do PSF no cuidado domiciliar de idosos será
dependência funcional, que essencial para a plena inclusão desse grupo
acarretam demandas de saú- populacional ao SUS.
de diferenciadas que, se não
atendidas adequadamente, OBJETIVOS:
determinam seqüelas, inca- Esse artigo avalia a prevalência da necessida-
pacidades e perda de auto- de de atendimento domiciliar de idosos e sua
nomia e qualidade de vida cobertura conforme o modelo de atenção
(CHAIMOWICZ, 1997). Para (PSF x Tradicional) das Unidades Básicas de
corrigir o problema, o Minis- Saúde da área de abrangência, em municí-
tério da Saúde (MS) lançou, pios acima de 100 mil habitantes das Regiões
em dezembro de 1999, a Po- Sul e Nordeste do país. O desempenho dos
144 lítica Nacional de Saúde do
Idoso, estabelecendo a pro-
serviços é avaliado em relação a diferentes
características epidemiológicas da população

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.2. Atenção domiciliar a idosos no
sul e nordeste do Brasil
de estudo, com destaque para idade, sexo e (LUIZ e MAGNANINI, 2002),
doença crônica. O estudo busca divulgar seus de modo a alcançar poder
resultados para apoiar as políticas públicas di- estatístico de no mínimo
rigidas à expansão e consolidação de mode- 80% para eventos de preva-
los de Atenção Básica à saúde mais efetivos e lência aproximada de 25%.
adequados às necessidades dos idosos. O número estimado de in-
divíduos por lote (2.100) foi
METODOLOGIA: dividido pelo número de UBS
Realizou-se um estudo transversal de base por lote (120), obtendo-se a
populacional com amostra de indivíduos ido- cota de 18 idosos a entrevis-
sos, com 65 anos ou mais, dos estados do tar na área de abrangência
Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Alagoas, de cada uma das UBS.10 A
Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte estratégia para delimitação
e Piauí, no ano de 2005, 16. Os idosos en- da área de abrangência da
trevistados residiam na área de abrangência UBS incluiu a obtenção pré-
de Unidades Básicas de Saúde (UBS) de 41 via de seu mapa e uma es-
municípios com mais de 100 mil habitantes, timativa populacional a par-
que compunham os Lotes 2 Sul e Nordeste tir das áreas censitárias do
do Estudo de Linha de Base do Projeto de Ex- IBGE. A etapa seguinte foi
pansão e Consolidação da Saúde da Família a amostragem dos idosos,
(PROESF)10,16. Uma amostra aleatória de de forma sistemática e inde-
120 UBS foi sorteada em cada um dos lotes pendente, na área de abran-
estudados, a partir de listas produzidas pelos gência das UBS, incluindo
municípios, na razão de duas UBS do Progra- apenas um indivíduo por
ma Saúde da Família (PSF) para uma UBS do domicílio. A coleta de dados
grupo tradicional. A seleção da amostra de foi realizada por meio de
UBS, em cada município, foi proporcional à questionário padronizado e
capacidade instalada de sua rede básica. Na pré-testado, aplicado por 15
Região Sul, obteve-se uma amostra de 69 supervisores de campo após
UBS de PSF e 51 tradicionais. No Nordeste, período de treinamento.
a amostra foi constituída de 79 UBS de PSF e A definição de atendimen-
41 tradicionais. A amostra de idosos foi esti- to domiciliar utilizado foi:
mada em 2.100 indivíduos por lote, totalizan- atendimento realizado no
do 4.200 indivíduos no Sul e Nordeste. Essa domicílio por qualquer pro-
amostra já inclui 10% para compensar even- fissional da área da saúde
tuais perdas, 15% para controle de fatores de
confusão e 60% para efeito de delineamento
vinculado à UBS da área de
abrangência, independente
145

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.2. Atenção domiciliar a idosos no
sul e nordeste do Brasil
do motivo–9. Foi avaliada a prevalência de necessidade de atendimento
necessidade de receber cui- domiciliar foi calculada para cada grupo das
dado domiciliar regular nos variáveis independentes e o nível de signifi-
últimos três meses. Para os cância foi testado usando os testes de Wald
indivíduos que efetivamente para heterogeneidade e tendência linear. A
receberam o cuidado, ques- análise ajustada foi realizada por regressão
tionou-se a opinião sobre o de Poisson 2 com cálculo de razões de pre-
atendimento e a satisfação valência ajustadas, intervalos de confiança
do idoso. Para os indivíduos de 95% e valores de significância usando
que não receberam o aten- os mesmos testes descritos acima. Todas as
dimento domiciliar, foram análises levaram em consideração o desenho
questionados o(s) motivo(s). amostral, utilizando um modelo hierárquico
As variáveis independentes de determinação para o desfecho. O Comitê
incluídas na análise foram: de Ética da Faculdade de Medicina da Univer-
sexo; faixa etária (65 a 75 sidade Federal de Pelotas aprovou o protoco-
anos, 76 anos e mais); es- lo do estudo, e consentimento informado foi
colaridade (zero, um a cinco obtido de todos os participantes.
anos, seis anos ou mais); si-
tuação conjugal; tabagismo APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS E
(nunca fumou, ex-fuman- DISCUSSÃO:
te, fumante atual); número Em relação à amostra estimada de 4.200 in-
de moradores no domicí- divíduos com 65 anos ou mais nas áreas de
lio; nível socioeconômico abrangência das 240 UBS estudadas, foram
(Classificação da Associação efetivamente localizados e entrevistados
Brasileira de Empresas de 4.003 idosos, sendo 1891 no Sul e 2.112 no
Pesquisa*); autopercepção Nordeste, representando uma perda de 4,7%.
de saúde; diagnóstico médi- Com essa amostra, a margem de erro para
co de hipertensão e de dia- a estimativa de prevalência de necessidade
betes. Os dados foram digi- de atendimento domiciliar foi de 1,5 ponto
tados no programa EPI-INFO percentual. Para a avaliação de associações,
6.04b e analisados no Pro- o estudo teve poder de 80% para detectar
grama estatístico SPSS 10.0 como significativas razões de prevalência de
para Windows. As análises 1,2 ou maiores, para exposições que afetam
descritivas incluíram cálculos de 10% a 90% da população, com nível de
de proporções e respectivos confiança de 95%.
146 intervalos de confiança de
95%. Na análise bruta, a
1. Necessidade de atenção domiciliar e cober-
tura por região e modelo de atenção.

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.2. Atenção domiciliar a idosos no
sul e nordeste do Brasil
A necessidade de atenção domiciliar entre cuidado domiciliar por grupo
idosos do Nordeste foi de 24,6%, superando etário foi independente da
em 65% a prevalência observada em idosos região geográfica e do mo-
do Sul (IC 95% = 1,45-1,88). O atendimento delo de atenção. Já a respos-
a essa necessidade por UBS do Nordeste foi ta das UBS no atendimento
79% maior do que o de serviços congêneres domiciliar refletiu essa ne-
do Sul (IC 95% = 1,51-2,13). Em relação ao cessidade apenas no PSF,
modelo de atenção, a necessidade de atenção onde foi 2,21 vezes maior
domiciliar entre idosos residentes em áreas no grupo acima de 75 anos
de PSF foi 42% maior (IC 95% = 1,23-1,64) (IC 95% = 1,87-2,60) em
do que a referida por idosos de áreas de UBS relação ao grupo de menor
tradicionais. A necessidade de atendimento idade. Nas UBS tradicionais,
domiciliar foi muito similar para os idosos do o atendimento domiciliar foi
Nordeste, independentemente do modelo escasso para todas as faixas
de atenção da UBS da área de abrangência. etárias, não privilegiando
Já no Sul, as diferenças foram significativas, os mais velhos. Portanto, a
sendo a necessidade nas áreas de PSF 70% capacidade de resposta dos
maior (IC 95% = 1,34-2,16) do que nas áreas serviços se mostrou depen-
de UBS tradicionais. Em relação ao atendi- dente do modelo de aten-
mento da necessidade segundo o modelo de ção. A maior cobertura do
atenção da UBS, os resultados são altamente PSF em função do grupo
expressivos, mostrando uma vantagem rela- etário ocorreu tanto no Sul,
tiva do PSF em ambas as regiões do país. A quanto no Nordeste.
efetividade da resposta do PSF foi entre três a 1.2. Necessidade e cobertu-
quatro vezes maior do que a do modelo tra- ra por sexo
dicional, respectivamente no Sul e Nordeste Em relação ao sexo, a neces-
do país. O PSF foi capaz de atender a 81% sidade de atenção domiciliar
da demanda referida por idosos da Região referida por mulheres foi de
Nordeste e 75% no Sul, enquanto o modelo 22,7%, sendo 42% maior
tradicional atendia apenas a 26% dessa ne- (IC 95% = 1,24-1,63) do
cessidade no Sul e 21% no Nordeste. que a dos homens. No Nor-
1.1. Necessidade e cobertura por idade deste a necessidade de cui-
Em relação à idade, a necessidade de aten- dado domiciliar de mulheres
ção domiciliar de idosos acima de 75 anos foi foi de 28%, sendo significa-
duas vezes maior (IC 95% = 1,87-2,39) do tivamente maior do que a
que a referida por idosos com idade entre 65
e 75 anos. Essa diferença na necessidade de
observada em mulheres do
Sul (IC 95% = 1,41-1,93). A
147

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.2. Atenção domiciliar a idosos no
sul e nordeste do Brasil
necessidade de atenção do- bas as regiões para idade acima de 75 anos;
miciliar de homens nordesti- não saber ler; queda e viver em área de PSF.
nos foi de 19,6%, também No NE a cobertura ainda cresceu com o au-
superando a dos homens da mento de renda e doença crônica.
Região Sul (IC 95% = 1,33-
2,16). A resposta das UBS RECOMENDAÇOES:
praticamente refletiu essa Ao promover a atenção domiciliar, a estratégia
necessidade, sendo o atendi- Saúde da Família tem o potencial de ampliar
mento domiciliar a mulheres o vínculo dos idosos com o sistema de saúde,
33% maior do que o de ho- favorecendo a integralidade e a qualidade da
mens (IC 95% = 1,12-1,59). atenção (SILVESTRE, 2003). Ao contemplar não
A cobertura de cuidados do- apenas o acompanhamento de doenças crôni-
miciliares foi maior entre as cas, mas principalmente a promoção e preven-
mulheres apenas nas áreas ção da saúde, por meio de ações integradas
de PSF, que prestaram esse e acessíveis, os cuidados domiciliares podem
cuidado de modo efetivo contribuir para a redução das incapacidades e
que as UBS Tradicionais tan- a melhoria da qualidade de vida (SILVESTRE,
to na Região Sul (RP = 1,57; 2003). A organização de ações programáticas
IC 95% = 1,11-2,20) quan- dirigidas aos idosos nas UBS, principalmente
to na Região Nordeste (RP = em áreas da estratégia Saúde da Família, preci-
1,34; IC 95% = 1,09-1,65). sa valorizar o domicílio como espaço de saúde,
2. Análise multivariável: mo- estabelecendo uma classificação de risco para
delo sintético para necessi- as necessidades de cuidado em casa, conside-
dade e cobertura de cuidado rando as características sociodemográficas e
domiciliar. Na análise ajusta- epidemiológicas sintetizadas na análise mul-
da, a necessidade de cuida- tivariável do presente estudo. Os mais velhos
do domiciliar foi maior em e os portadores de doenças crônicas, princi-
ambas as regiões para idade palmente aqueles com fragilização da saúde
acima de 75 anos; não saber e incapacidade funcional básica para a vida
ler; domicílios com mais de diária, estão entre os idosos de maior priori-
cinco pessoas; doença crôni- dade para o planejamento do cuidado domici-
ca e queda. Ainda se asso- liar pelos serviços de Atenção Básica à saúde.
ciou com viver em área de Da mesma forma, as mulheres constituem um
PSF no Sul e com sexo femi- grupo prioritário, pois sobrevivem mais que os
nino no NE. Após os ajustes, homens em praticamente todas as sociedades
148 a cobertura de atendimento
domiciliar foi maior em am-
e após os 80 anos para cada duas mulheres
haverá um homem (WHO, 2007).

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
Autor Principal: ordem social a carecimentos
THAIS FONSECA LIMA e necessidades ligadas ao
Outros Autores: modelo biomédico. Identi-
JULIANA RIBEIRO DA SILVA ficou-se como motivos para
DENISE ZAKABI as famílias receberem 8 a 12
DAIANA BONFIM visitas ações programáticas
FERNANDO PESSOA da unidade, dificuldade de
Área Temática: Integralidade da Atenção na acesso do usuário aos servi-
AB/SF ços de saúde e procura mais
Local onde o trabalho foi realizado: SÃO freqüente do usuário pelo
PAULO - SP ACS. Já as famílias que re-
ceberam mais de 20 visitas,
RESUMO: destacam-se: dificuldade de
Este trabalho almejou apreender a maneira acesso da família à unidade
como os Agentes Comunitários de Saúde básica de saúde e pela bus-
identificam os carecimentos e necessidades ca do usuário pelo ACS. Em
dos indivíduos e famílias durante as visitas do- alguns casos, o agente passa
miciliares em Comunidade do Butantã - São a desempenhar papel não só
Paulo, além de identificar alguns aspectos de facilitador, mas provedor,
relacionados à organização do trabalho des- devido à dificuldade de rede
tes profissionais da saúde. Utilizou-se como de apoio para cuidado. Os
método a análise de prontuários-família e um ACS procuraram interven-
grupo focal com ACS do Centro de Saúde Es- ções visando à promoção da
cola na região do Butantã, em São Paulo. Os saúde, estímulo ao auto-cui-
motivos de visita pelos ACS foram: cadastra- dado, estabelecimento de re-
mento; demandas das famílias; observações des sociais, utilizando-se de
do próprio ACS das necessidades dos indi- recursos do serviço e ações
víduos visitados; agendamento de consultas intersetoriais. A relação do
médicas; informações em relação aos serviços ACS com a comunidade, em
de saúde. Os usuários buscam informações geral, mostrou-se intensa e
sobre benefícios sociais e algumas outras de- estruturada, sendo que os
mandas que se distanciam dos objetivos do usuários, freqüentemente,
trabalho do ACS. Levantou-se como hipóte- recebem bem os ACS e são
se de determinantes para uma única visita, a agradecidos pelo seu traba-
família possuir convênio médico/ usar outro lho. Percebe-se que há uma
recurso ambulatorial e apresentar mais en-
faticamente carecimentos e necessidades de
confiança entre usuário e
ACS, levando à revelação de
149

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
confidências, o que torna a dar subsídios para identificar necessidades
visita domiciliar um espaço de saúde e orientar o trabalho de equipes de
de escuta. Os prontuários saúde voltado para estas.
para análise foram escolhidos
pela qualidade dos registros, INTRODUÇÃO:
porém, percebeu-se erros e/ As necessidades de saúde devem conformar
ou descuido com os prontu- as ações de saúde. Esta é uma afirmação apa-
ários-família. Foi constatada rentemente simples, no entanto, ela dá mar-
a riqueza de informações gem a muitas questões. Em primeiro lugar, o
sobre a história familiar, o entendimento do que sejam necessidades de
detalhamento das atitudes saúde não é de alcance tão imediato. Neste
dos ACS frente às necessi- estudo optou-se por entendê-las de dois ân-
dades e/ou carecimentos, ao gulos complementares: a busca pelo cuida-
esforço para se cumprir as do em saúde e uma intervenção de saúde. A
orientações combinadas nas procura pelo cuidado em saúde é determina-
supervisões e a relação com da pela antevisão do indivíduo da possibilida-
a comunidade e/ou família. de de modificação de situações consideradas
Na supervisão, há apoio, dis- negativas para a sua vida. As situações, a an-
cussão e orientação para os tevisão, as necessidades e os resultados das
casos, e procura de alterna- intervenções sobre quaisquer carecimentos
tivas conjuntas para melhor de um indivíduo ou de uma população que
encaminhamento dos casos. consomem cuidado de saúde são construídas
Este trabalho demonstra a social e historicamente (SCHRAIBER; MEN-
importância do registro no DES-GONÇALVES, 2000).
serviço de saúde, pois só a Para auxiliar na definição e aplicação prática
partir deste é que foi possí- do que são necessidades de saúde, utilizou-se
vel realizar essa avaliação do também a conceitualização adotada por Ce-
trabalho dos ACS. Por esse cílio (2001). Este autor trabalha com quatro
motivo, ele aponta para a conjuntos de necessidades de saúde que vi-
necessidade de um registro sam à integralidade do cuidado: 1) condições
detalhado e organizado das de vida, isto é, considera-se que a maneira
atividades realizadas. como a pessoa vive se traduzirá em diferen-
Observação: espera-se que tes necessidades de saúde; 2) acesso às tec-
este estudo possa contribuir nologias que contribuem para a manutenção
para a implementação da da saúde ou o prolongamento da vida; 3) a
150 Política Nacional de Aten-
ção Básica, no sentido de
criação de vínculos entre o profissional ou
equipe de saúde e os usuários; 4) graus cres-

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
centes de autonomia que cada sujeito deve esta deve desenvolver ati-
ter para conduzir a sua vida, o que ultrapassa vidades de acordo com o
a educação ou a informação que o mesmo planejamento e a progra-
possa ter, e também se relaciona com suas mação realizados com base
necessidades de saúde. Em segundo lugar, no diagnóstico situacional e
cabe apreender as finalidades das práticas de tendo como foco a família
saúde. No Brasil, a partir da década de 1990, e a comunidade- (BRASIL,
a Estratégia Saúde da Família foi apresenta- Ministério da Saúde, Porta-
da como uma nova forma de organização ria n.648 de 28 de março
da Atenção Primária para melhor apreensão de 2006, Capitulo II, item
das necessidades de saúde, principalmente 1). Portanto, coloca-se o
das classes sociais menos favorecidas e mais desafio para o Brasil de se
vulneráveis ao adoecimento. Nesta proposta, apreender necessidades de
a atenção à saúde é desenvolvida por uma saúde e propor a organiza-
equipe de profissionais, responsáveis pelo ção do trabalho a equipe de
acompanhamento, diagnóstico e tratamento saúde orientado por elas.
de problemas comuns de famílias adscritas.
O agente comunitário deveria visitar mensal- OBJETIVOS:
mente todas as famílias sob sua responsabili- O presente trabalho almejou
dade, além de desenvolver ações de promo- apreender a maneira como
ção da saúde na comunidade e participar de os Agentes Comunitários de
reuniões de supervisão e atividades de educa- Saúde identificam os careci-
ção permanente. mentos e necessidades dos
Em São Paulo, uma unidade de atenção pri- indivíduos e famílias duran-
mária vinculada à Universidade e com tradi- te as visitas domiciliares em
ção na reflexão crítica, propôs, desde 2001, o Comunidade do Butantã
desenvolvimento de tecnologias e formação - São Paulo, além de iden-
de pessoal para esta área. Entre os objetos de tificar alguns aspectos rela-
investigação está o estudo das necessidades cionados à organização do
de saúde e a elaboração de critérios para in- trabalho destes profissionais
dicar a visita do ACS que não se restrinja ao da saúde.
retorno mensal em todos os domicílios, mas Objetivos Específicos:
esteja baseado no princípio da eqüidade. 1) Verificar quais são os cri-
Em 2006, o Ministério da Saúde, estabele- térios utilizados pelos ACS
ce como princípio geral da Política Nacional para a realização de visitas.
de Atenção Básica, no capítulo das especifi-
cidades da Estratégia Saúde da Família que
2) Identificar em prontuá-
rios-família características de
151

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
carecimentos e necessidades visitas são registradas em prontuário-família,
de saúde da família e indiví- com descrição dos objetivos, trabalho realiza-
duos moradores em comu- do e impressões do agente.
nidade com cobertura de A partir desta orientação para a organização
equipe da saúde da família. do trabalho do ACS, em comparação com a
3) Identificar aspectos do proposição inicial da ESF de visitas mensais
trabalho do agente co- para todas as famílias, anterior à Portaria do
munitário na apreensão e Ministério da Saúde de 2006, a periodici-
abordagem de necessida- dade de visitas previstas no projeto do CSE
des de saúde. está baseada em necessidades e em retornos
considerados adequados para cada situação,
METODOLOGIA: compondo cotas variáveis de produção por
No Centro de Saúde-Escola domicílio e por agente comunitário.
(CSE) Samuel B. Pessoa, da A fim de contemplar os objetivos acima cita-
Faculdade de Medicina USP, dos este estudo apoiou-se no referencial de
as visitas de vigilância à saú- Donabedian (1988), para avaliação da qua-
de e para apoio social têm lidade dos serviços de saúde, o qual propõe
como objetivos identificar e como componentes da avaliação de um pro-
apoiar famílias e indivíduos grama de saúde: a estrutura, o processo e os
com prioridade para: do- resultados, sendo que estes não precisam ser
micílios com indivíduo que trabalhados conjuntamente.
necessite de atenção domi- Utilizou-se como método a análise de prontu-
ciliar; situações complexas ários-família e um grupo focal com ACS. Para
de dinâmica familiar ou rela- a análise dos prontuários, foram lidos relatos
ções de vizinhança que ne- de visitas domiciliares registrados pelos ACS,
cessitem de suporte social; tendo como objetivo a identificação de careci-
famílias que tiveram um dos mentos e necessidades de saúde de morado-
seus membros internado ou res da amostra estudada. Pesquisou-se uma
falecido; famílias com re- amostra de prontuários-família de microáre-
cém-nascidos de até 6 me- as pertencentes a três agentes comunitários
ses e/ou em situação de risco escolhidos devido à boa qualidade de seus
até 1 ano de idade; confor- relatos e de três subgrupos de famílias: com
me solicitação de membros uma visita desde o cadastro até final de 2006;
do domicílio, da equipe de com 8 a 12 visitas e com 20 ou mais visitas,
saúde, de equipamento so- todos escolhidos de maneira aleatória. Rea-
152 cial ou, ainda, sugestão de
parente ou vizinho. Todas as
lizou-se uma análise de conteúdo temática
dos relatos de visitas domiciliares realizadas

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
pelos ACS, através da busca e interpretação uma técnica de análise com
de seus significados, como descreve Minayo perspectiva qualitativa, que
(2004): -fazer uma análise temática consiste agrupa elementos com ca-
em descobrir os núcleos de sentido que com- racterísticas comuns ou que
põem uma comunicação cuja presença ou se relacionam entre si (GO-
freqüência signifiquem alguma coisa para o MES, 1999). A análise de
objetivo analítico visado- (p. 209). O grupo um estudo sob a perspectiva
focal foi escolhido como fonte de informação, qualitativa, de acordo com
pois, de acordo com Tanaka e Melo (2004), conceito de Minayo (1999,
essa técnica é muito útil quando se pretende p. 21) significa que:
investigar a perspectiva de um grupo sobre “Ela se preocupa, nas Ciên-
uma determinada situação a que está subme- cias Sociais, com um nível
tido, e pode ser realizada depois de outras de realidade que não pode
técnicas, podendo visar à complementação ser quantificado. Ou seja,
de informações. É uma técnica qualitativa, na ela trabalha com o universo
qual o mais importante é a interação que se de significados, motivos, as-
instaura entre os participantes. Foi realizado pirações, crenças, valores e
um grupo focal com os ACS na sede da As- atitudes, o que corresponde
sociação de Moradores da Comunidade. Este a um espaço mais profundo
grupo foi composto por dois coordenadores, das relações, dos processos
um observador/redator e mais três observa- e dos fenômenos que não
dores externos; os ACS que se dispuseram a podem ser reduzidos à ope-
participar do grupo focal receberam um ter- racionalização de variáveis.”
mo de consentimento livre e esclarecido. O O conteúdo de cada catego-
material do grupo focal foi gravado e pos- ria foi feito mediante a apre-
teriormente transcrito. Os nomes dos ACS ciação das informações das
participantes foram resguardados em sigilo, duas entradas metodológicas:
assim como de qualquer pessoa que even- a análise dos prontuários e a
tualmente fora citada durante o grupo. Para transcrição do grupo focal.
melhor compreensão dos dados levantados Categorias:
ao longo deste trabalho, com o intuito de 1) Trabalho do ACS frente
articular as informações, optou-se pela for- aos carecimentos/ necessi-
mulação de categorias que contemplassem dades;
os objetivos propostos, essas categorias fo- 2) Aspectos do trabalho do
ram construídas a partir de uma leitura prévia ACS:
de todo o material coletado e discussão entre
os pesquisadores. O estudo de categoria é
a) Relação do ACS e Comu-
nidade;
153

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
b) Registro no Prontuário Fa- bulatorial e apresentar mais enfaticamente
mília; carecimentos e necessidades de ordem social
c) Supervisão. a carecimentos e necessidades ligadas ao mo-
Apresentação dos resultados delo biomédico.
e discussão: Caso 1 - A família apresentou carecimen-
1-Trabalho do ACS frente a tos sociais também reconhecidos pelo ACS,
carecimentos e necessidades porém nenhuma proposta foi registrada
de saúde: no prontuário e nem programação de re-
Os motivos de visita pelos torno. Vale ressaltar que a família possuía
ACS foram: cadastramento; convênio médico.
demandas das famílias; ob- Caso 2 - Diante dos carecimentos (dificuldade
servações do próprio ACS visual e desemprego) e necessidades apresen-
das necessidades dos indiví- tadas pela família (bronquite e cesta básica),
duos visitados; agendamen- o agente planejou uma ação intersetorial para
to de consultas médicas; as necessidades sociais e um retorno a casa, o
informações em relação aos qual não ocorreu.
serviços de saúde. Os usu- No grupo focal pôde-se observar que o prin-
ários também buscam in- cipal determinante de uma única visita é o
formações sobre benefícios agente perceber uma ausência de demanda
sociais e algumas outras de- da família. O trabalho do agente estaria mais
mandas que se distanciam voltado a ações vinculadas ao serviço de saú-
dos objetivos do trabalho do de, pelo cronograma das atividades progra-
ACS, como casas pra alugar. máticas ou pelas dificuldades em estabelecer
Serão apresentadas hipóte- relações intersetoriais. Sabe-se que o desen-
ses para explicar o número volvimento de tecnologia para a promoção
de visitas para cada subgru- da saúde, que possibilite um olhar e cuidado
po e discussão de dois ca- mais integral do sujeito e dos coletivos, ainda
sos de cada tipo, a partir da é um desafio. Embora não haja essa tecno-
análise do grupo focal e da logia plenamente desenvolvida, observou-se
leitura de prontuários: que, frente a demandas sociais, os ACS têm
- Famílias que receberam ações mais voltadas à promoção da saúde e
uma visita desde o cadas- emancipação do sujeito: - A gente não dá ins-
tramento: levantou-se como crição pra cesta básica, a gente informa onde
hipótese de determinantes buscar, ou mais assistencialista: -Eu parei de
para uma única visita, a fa- fazer o cadastro e fui procurar comida, arru-
154 mília possuir convênio mé-
dico/ usar outro recurso am-
mei leite, bolacha e açúcar; ou: - Famílias que
receberam 8 a 12 visitas desde o cadastra-

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
mento: Levantou-se como hipótese que estas do idoso ao serviço de saú-
famílias têm suas visitas determinadas pelas de, o que também foi relata-
ações programáticas da unidade, dificuldade do no grupo focal:
de acesso do usuário aos serviços de saúde e -Os idosos procuram muito,
procura mais freqüente do usuário pelo ACS. os que moram sozinhos e os
Caso 1 - A família apresentou carecimentos que a família não cuida. En-
ligados aos relacionamentos interpessoais tende-se que esta busca se
com a comunidade e dificuldade em acessar dá pelo reconhecimento do
os equipamentos de saúde da região. Havia ACS como profissional de
uma gestante nessa família que não sabia saúde pela comunidade:
onde realizar o parto. Suas necessidades es- - As pessoas sabem que a
tavam relacionadas à gestação e aos cuida- gente trabalha no posto e
dos com a criança. O ACS orientou a família para quê.
em relação ao uso de serviços de saúde. - Famílias que receberam
Caso 2 - As visitas se caracterizaram predo- mais de 20 visitas desde o
minantemente pelo encontro com o usuário cadastramento: assim como
na rua, inclusive a primeira visita, na qual o grupo de 8 a 12 visitas, es-
ele colocou para o ACS seus carecimentos. tas foram determinadas mui-
O idoso apresentava: dificuldade em estabe- tas vezes pela dificuldade de
lecer relações interpessoais positivas com a acesso da família à unidade
comunidade e os familiares; e carecimentos básica de saúde e pela bus-
e necessidades relacionados à vitalidade (ti- ca do usuário pelo ACS. Em
nha convulsões), o que dificultava seu des- alguns casos, o agente passa
locamento. O ACS procurou estabelecer um a desempenhar papel não só
vínculo com o usuário, orientando o auto- de facilitador, mas provedor
cuidado e sendo -facilitador- do acesso à uni- (traz medicação da farmá-
dade de saúde. Desse modo, foram plane- cia da unidade para usuário
jadas estratégias para o estabelecimento de com dificuldade de locomo-
uma rede de apoio social. Não houve registro ção), devido à dificuldade de
comprovando a efetivação dessas estratégias. rede de apoio para cuidado.
Apesar de outros membros apresentarem ne- Diante dos carecimentos e
cessidades de saúde, as ações foram voltadas necessidades, os ACS pro-
ao idoso. No primeiro caso, apesar da família curaram intervenções visan-
fazer acompanhamento de pré-natal em ou- do à promoção da saúde,
tro serviço, foram realizadas as visitas estabe- estímulo ao auto-cuidado,
lecidas pelo Programa de Saúde da Criança.
Já o segundo caso ilustra a busca de acesso
estabelecimento de redes
sociais, utilizando-se de re-
155

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
cursos do serviço e ações in- minada porque um dos membros da família
tersetoriais. sofreu um derrame e a segunda foi solicitada
Caso 1 - Frente aos careci- pela própria usuária. As visitas respondiam
mentos (dor nos joelhos) e principalmente à necessidade de acesso ao
necessidades (hipertensão, serviço pela usuária, apoio social e promoção
depressão e insônia) de saú- à saúde. Estas se caracterizavam pela entrega
de, e outros carecimentos de medicação, datas de consulta e encami-
sociais da família (dificulda- nhamentos. O segundo membro da família
de financeira, falta de apoio só passou a ter destaque após este ter um ca-
nos cuidados da casa), o recimento de condições de vida (alcoolismo)
ACS buscou estabelecer re- transformado em problema de vitalidade (di-
lações intersetoriais, infor- ficuldade para andar) e necessidade (amputar
mações sobre o INSS e apoio as pernas). O ACS apresenta dificuldade em
de familiares. A maioria das abordar o alcoolismo, pois o usuário não re-
visitas estava relacionada ao conhece este como uma necessidade, apesar
acesso aos serviços sociais de sua companheira perceber desta forma.
e, principalmente, equipa- O ACS se utiliza de recursos do serviço (gru-
mentos de saúde. Notou-se po de idosos, consultas), ações intersetoriais
uma grande mobilização (INSS, igreja) e orienta o auto-cuidado. A fa-
do usuário por acesso, pela mília se depara com a dificuldade de acesso
dificuldade de locomoção, ao serviço, por apresentar problemas vitais e
o que levou a um aumento falta de apoio dos familiares. Devido a isso,
na freqüência das visitas. O apresentou-se a proposta de realizar a Aten-
ACS visou facilitar o acesso ção Primária Domiciliar, estabelecer uma rede
por meio de orientações e de apoio social junto aos vizinhos, familiares
informações ao auto-cuida- e pessoas da igreja, porém não há registros
do. Apesar do grande em- no prontuário de desdobramentos dessas
penho e mobilização pessoal propostas. Apesar de haver a informação no
do ACS, muitos carecimen- prontuário família de uma situação que exige
tos sociais e necessidades de mais atenção, como no caso de um AVE, e
saúde dessa família levaram ser uma família com um número relativamen-
um longo tempo para serem te grande de visitas, pode-se identificar uma
trabalhados. inércia inicial (do agente em tomar para si o
Caso 2 - O intervalo entre a acompanhamento de situação e/ou da família
primeira e a segunda visita em reconhecer o trabalho deste). No grupo
156 foi longo, de dois anos, sen-
do que a primeira foi deter-
focal também foi levantada dificuldade em
lidar com carecimentos e necessidades não

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
reconhecidas pela família ou pelo usuário. observados tanto no grupo
Como por exemplo, a questão da violência: focal quanto na análise dos
“É muito difícil trabalhar com a violência, se a prontuários. Percebe-se que
família não abrir, é difícil a gente abordar”. há uma confiança entre usu-
Os casos de violência mencionados são de ário e ACS, levando à reve-
violência contra mulher e/ou crianças, muitas lação de confidências, o que
vezes denunciados pelos vizinhos: torna a visita domiciliar um
“Eles pedem pra gente conversar com al- espaço de escuta: “Se você
guém, família mesmo, quando alguns casos não tivesse vindo, eu teria
mais graves, quando a família não consegue enlouquecido”. E o quanto
se entender pede uma intervenção da gente, os problemas da comunida-
o que também ocorre nos casos de uso abu- de os afetam: “São tantos
sivo de drogas”. problemas [...] nosso corpo
Diante dessa e outras dificuldades, para aten- fica exausto”. Notou-se que
der tais demandas, o ACS busca em seu tra- a relação extrapola as barrei-
balho estabelecer redes sociais na família e ras entre profissional e pes-
vizinhança: “A gente não pode ir lá e dar o soal: -“Você sai dali e parece
remédio, mas tem que articular a família pra que é seu parente”. Dificul-
estar ajudando”. E também ações interse- dades frente aos imensos
toriais e estratégias voltadas à promoção da carecimentos sociais: “Uma
saúde: “oficinas de INSS, aposentadoria, coi- vez no cadastro, um marido
sas que eram necessárias para as pessoas e preso, uma mulher grávida,
até para nós sabermos, tem época que está uma criança faminta, eu fi-
mais tranqüilo, às vezes é mais difícil, às vezes quei desnorteada. Eu parei
a gente precisa procurar ajuda”. de fazer o cadastro e fui pro-
2- Aspectos do trabalho do ACS: curar comida. Arrumei leite,
a) Relação do ACS com a comunidade: bolacha e açúcar”.
A relação do ACS com a comunidade, em ge- Outra característica funda-
ral, mostrou-se intensa e estruturada, sendo mental é o entendimento que
que os usuários, freqüentemente, recebem os ACS têm de seu trabalho:
bem os ACS e são agradecidos pelo seu tra- “A gente não vai resolver
balho, percebido nos registros dos prontuá- nada, não vai dar solução, a
rios. Os usuários têm uma expectativa de que pessoa que vai encontrar a
essa relação seja duradoura, pois reclamam solução, a gente vai ajudar”.
quando o ACS demora a fazer uma nova visi- O que também é evidencia-
ta e são resistentes quando ocorre a mudança
de agente responsável pela micro-área. Fatos
do na leitura dos prontuá-
rios através das ações: busca
157

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
do fortalecimento entre as tro é visto de diferentes formas: “É a parte
redes de relações familiares mais chata, escrever”, o que pode inferir as
e comunitárias, tanto o con- observações feitas na leitura no prontuário
vite de membros da família descritas acima. Já que, para alguns ACS,
para ajudarem a cuidar de fazer o registro é um trabalho desagradável
idosos doentes, quanto na e o serviço não incita uma escrita organiza-
promoção de encontros en- da. Os erros e/ou descuidos podem se tornar
tre vizinhos que vivem em mais freqüentes no instrumento de trabalho
conflitos, e também disponi- (prontuário família), o que acaba dificultando
bilidade do ACS para busca o uso desse instrumento por parte do serviço
de medicamentos em casos e o não reconhecimento do trabalho do ACS.
de dificuldade de locomo- A dúvida de como fazer os registros e a im-
ção do usuário. Verificou-se portância destes para o serviço aparecem nos
na leitura dos prontuários a relatos do grupo focal:
repetição de palavras como: “Ninguém chega na gente pra dizer se está
“sinto”, “preocupo-me”, claro”; “Eu fico preocupado no que eu devo
demonstrando uma inte- escrever”; “A gente tem a impressão que é
ração de tipo afetiva entre pouco lido”.
ACS e usuários. No entanto, notou-se o cuidado com que
b) Registro no Prontuário Fa- muitos ACS fazem os seus registros: -Eu te-
mília: nho uma seleção do que eu acho importante
Os prontuários para análise para mim e para o serviço. Destacam quanto
foram escolhidos pela qua- os registros são importantes para seu proces-
lidade dos registros. Porém, so de trabalho:
podem-se perceber alguns “Isso (registro) valoriza nosso trabalho”; “São
erros e/ou descuido com os informações preciosas”; “Eu relato o que é
prontuários-família: a desor- importante para o meu trabalho e para o ser-
ganização quanto às datas; viço e os passos que a gente deu(...) o meu
incongruências entre os da- registro vai servir como testemunha que eu
dos cadastrais e os registros orientei”.
que se seguem ao longo do Neste estudo foi constatada a riqueza de
prontuário; erros de digita- informações sobre a história familiar, o de-
ção nos dados cadastrais; e talhamento das atitudes dos ACS frente às
falta de clareza no registro, necessidades e/ou carecimentos, ao esforço
dando margem a várias in- para se cumprir as orientações combinadas
158 terpretações. No grupo fo-
cal, observou-se que o regis-
nas supervisões e a relação com a comuni-
dade e/ou família: “O vínculo vai para o

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
prontuário”; “A gente escreve o nome da recursos biomédicos. Dessa
pessoa pelo apelido”. maneira, mostra-se necessá-
c) Supervisão: rio, de um lado, o desenvol-
Na supervisão, há apoio aos ACS, discussão vimento de tecnologias para
e orientação para os casos, e procura de al- a realização da promoção
ternativas conjuntas para melhor encaminha- da saúde, visando um olhar
mento dos casos. As ações das supervisões e cuidado mais integral do
que apareceram nos prontuários analisados sujeito e dos coletivos. De
foram: encaminhamento para especialistas, outro, a saúde integra o
grupos temáticos e hospitais da região; dis- conjunto das políticas sociais
cussão e alternativas para benefícios sociais; e, só neste âmbito, pode ser
prescrição de remédios, exames, e auto-cui- realizada de forma mais ple-
dado; busca de soluções junto com a comu- na. Sugere-se como conti-
nidade, família e equipamentos sociais; ACS nuidade deste trabalho uma
tiram dúvidas com profissionais; entre outras. análise mais abrangente
A importância da supervisão para os ACS e quali-quantitativa de pron-
o quanto ela é fundamental para um bom tuários, a qual poderia trazer
andamento do caso também apareceram no maiores informações, propi-
grupo focal. Ela representa um facilitador do ciar a elaboração de outras
trabalho, um recurso para manutenção da hipóteses e/ou refutação das
saúde mental do ACS e um espaço para mos- até então levantadas. Uma
trar seu trabalho: “A gente tem que mostrar análise quantitativa sobre os
lá (supervisão) o que a gente está fazendo dados dos prontuários pos-
aqui, como a gente está fazendo, o que a sibilitaria uma interpretação
gente orientou”. mais abrangente, por exem-
plo, para se conhecer quais
RECOMENDAÇOES: os carecimentos, necessida-
Este trabalho demonstra a importância do des e condutas aparecem
registro no serviço de saúde, pois só a partir com maior freqüência. Para
deste é que foi possível realizar essa avalia- a continuidade do estudo,
ção do trabalho dos ACS. Por esse motivo, apresentamos as seguintes
ele aponta para a necessidade de um regis- questões a serem exploradas
tro detalhado e organizado das atividades em futuros estudos:
realizadas. Verificou-se que os ACS têm mais - Há alguma relação entre o
dificuldade para lidarem com carecimentos e trabalho do ACS e o núme-
necessidades que sejam mais de ordem social
do que com os referentes ao conhecimento e
ro de consultas e de outras
atividades programáticas da
159

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.3. Necessidades de saúde e organização
do trabalho do ACS em região metropolitana
unidade básica? Ele oferece de dar subsídios para identificar necessidades
maior visibilidade aos careci- de saúde e orientar o trabalho de equipes de
mentos e necessidades e/ou saúde voltado para estas.
cria outras necessidades de
saúde para a população?
- Como têm sido utilizados
os registros dos prontuários
família pelo trabalho assis-
tencial dos demais funcio-
nários da unidade? Como
é visto o trabalho do ACS
pelos demais funcionários?
Destaca-se um aspecto im-
portante na Política Nacional
de Atenção Básica que é o
desenvolvimento de critérios
e instrumentos para apreen-
der necessidades de saúde
e estratégias para se lidar
com elas, por exemplo, a
visita dos agentes comunitá-
rios de saúde, articuladas às
ações da equipe de saúde e
ações intersetoriais. O esta-
belecimento de contratos de
cuidados com as famílias, es-
pecialmente aquelas em situ-
ações mais complexas, pode
estimular a auto-determina-
ção e a responsabilização,
tanto dos indivíduos, como
da família, da comunidade
e da equipe de saúde. Espe-
ra-se que este estudo possa
contribuir para a implemen-
160 tação da Política Nacional de
Atenção Básica, no sentido

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
Autora Principal: va, advindos da perspectiva
MARTA COCCO metodológica da pesquisa–
Outras Autoras: desenvolvimento. Elaborou-
MARTA JULIA MARQUES LOPES se, dessa forma, a descrição
MARIA ALICE DIAS DA SILVA LIMA epidemiológica dos eventos,
TATIANA GERHARDT bem como seu geoproces-
SANDRA MARIA CEZAR samento e georreferencia-
Área Temática: Vigilância em Saúde na AB/SF mento na base municipal.
Local onde o trabalho foi realizado: Porto Os processos de trabalho e
Alegre – RS as concepções profissionais
relativas à assistência nes-
RESUMO: ses agravos compuseram
Introdução. Esta proposta de pesquisa e de- os estudos de base para o
senvolvimento partiu de uma base institu- diagnóstico dos serviços da
cional chamada de Observatório de Causas região em estudo.
Externas, criada junto aos Serviços da Rede Resultados. O reconheci-
Básica de Saúde de uma região de Porto Ale- mento da complexidade e
gre, em 2001, para dar início a um processo diversidade desses eventos
de sistematização de dados sobre os agravos permitiu a construção de di-
à saúde denominados Causas Externas (CEs). ferentes olhares, constituin-
A Rede Básica inclui as Unidades de Saúde e do-se assim em base fértil
as Unidades com Equipes de Saúde da Família para o desenvolvimento de
da região Lomba do Pinheiro e Partenon. diferentes abordagens. Essas
Objetivos. Consolidar um Observatório de abordagens, considerando
Causas Externas na região de estudo como sua dupla filiação – acadê-
base privilegiada no monitoramento dos agra- mica e assistencial, materiali-
vos por CEs; conhecer o perfil epidemiológico zam-se em trabalhos de con-
da morbidade por CEs da população atendi- clusão, em dissertações e
da na Rede Pública Municipal de Saúde, na teses, em artigos científicos,
região de estudo, no período de fevereiro/ em eventos em si, nos regis-
2002 a fevereiro/2005; construir informações tros dos serviços, na assis-
que possam contribuir com a estruturação da tência, na comunidade e nas
vigilância desses agravos no âmbito do obser- interações cotidianas nos
vatório e do município. serviços. As atividades de-
Metodologia. Baseou-se no diagnóstico situ- senvolvidas durante a execu-
acional a partir de estudos epidemiológicos
do tipo ecológico e outros de base qualitati-
ção da proposta proporcio-
naram e tem proporcionado
161

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
visibilidade à morbidade por Serviços da Rede Básica de Saúde de uma
Causas Externas como ver- região de Porto Alegre, em 2001, para dar
dadeiro problema de saúde início a um processo de sistematização de da-
pública, tendo como fonte dos sobre os agravos à saúde denominados
privilegiada de informação Causas Externas (CEs). A Rede Básica inclui as
os atendimentos da rede bá- Unidades de Saúde e as Unidades com Equi-
sica saúde. Esse ineditismo, pes de Saúde da Família da região Lomba do
advindo do conhecimento Pinheiro e Partenon. Essa base institucional
do perfil de morbidade es- aliando pesquisa e intervenção partiu da ne-
pecífica, permitiu que os cessidade de construção e planejamento de
serviços implementassem es- modos de intervenção para fazer frente à vio-
tratégias locais de enfrenta- lência e aos acidentes, eventos constituídos
mento desses agravos, con- hoje como significativo problema de saúde
siderando sua base local. pública. A parceria do Grupo de Pesquisa em
Considerações finais e re- Saúde Coletiva da EENF/UFRGS com os servi-
comendações. Os objetivos ços de Atenção Básica da região em questão
propostos foram amplamen- deu sustentação a essa proposta. A partir da
te alcançados e obtiveram década de 80, as Causas Externas passaram
repercussões para além da a ocupar o segundo lugar entre as causas
considerável produção aca- de morte no Brasil e já no ano 2000 foram
dêmica. A parceria foi exi- responsáveis por 12,5% do total de mortes
tosa e profícua, sinalizando no país. Entre as causas de morte por CEs,
a possibilidade de outras os homicídios com 38,3% e os acidentes de
parcerias universidade/ser- transporte com 25% são as principais causas
viço. Para a equipe envolvi- de mortalidade, somando 63,3% das mortes
da, consolida-se a idéia de por CEs no ano 2000. No mesmo período es-
que os estudos direcionados ses agravos apresentaram uma taxa de mor-
para a morbidade cumprem talidade de 69,7/100 mil habitantes e confe-
importante papel na elabo- riram na razão entre os sexos um risco de 5,5
ração e implementação de vezes maior de morte para o sexo masculi-
políticas públicas. no. No que se refere à morbidade, as quedas
aparecem em primeiro lugar, com 42,8%, e
INTRODUÇÃO: os acidentes de transporte em terceiro, com
Esta proposta partiu de uma 118.623 18,2%, ficando o segundo lugar para
base institucional chamada os demais acidentes, com 28,4% da morbi-
162 de Observatório de Causas
Externas, criada junto aos
dade por Causas Externas (GAWRYSZEWSKI;
KOIZUMI; MELLO-JORGE, 2004). Dados locais

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
disponíveis no momento do desencadeamen- conviverem com a violência
to da estruturação da base de observação e em suas próprias relações de
dos estudos apontavam que em 2002 foram trabalho e com a demanda
vitimados em Porto Alegre 1.022 indivíduos dos serviços, não só como
por CEs, aproximadamente 10% do total de usuários, mas, muitas ve-
óbitos. Entre a população residente na região zes, como vítimas. As difi-
da Gerência de Saúde Partenon e Lomba do culdades se potencializam
Pinheiro (locais de execução do observatório considerando a ausência
e deste projeto de pesquisa), ocorreram 122 ou fragilidade das redes in-
óbitos por Causas Externas (mais de 14%) do tersetoriais de apoio nessas
total dos óbitos de 2002 (PORTO ALEGRE, circunstâncias. Identificou-se
2005). Nesse sentido, as demandas de ações a necessidade do aperfeiço-
diárias à população mais vulnerável torna- amento e a consolidação de
ram-se prioritárias. Em alguns locais, o único um sistema de registro com
serviço público municipal presente nessas co- informações para a vigilân-
munidades é o de saúde. Constatou-se então cia desse tipo de morbidade,
a necessidade de conhecer e avaliar tanto as a partir dos atendimentos às
estratégias locais dos sujeitos, o savoir-faire demandas dos serviços. A
coletivo, quanto à ação dos profissionais e ser- inclusão da participação da
viços, a fim de auxiliá-los no enfrentamento comunidade, no que cha-
e na superação de fragilidades. Essa iniciativa mamos hoje de informação
é significativa para a região da Gerência de cidadã, disseminada nas co-
Saúde Partenon e Lomba do Pinheiro, já que munidades, foi capaz de im-
se configura em uma região de aproximada- pactar na ocorrência e pre-
mente 200 mil habitantes e por ser uma das venção desses agravos junto
mais atingidas por esses agravos e cujo im- à rede de serviços.
pacto é mais devastador em face do conjun-
to de vulnerabilidades a que está exposta sua OBJETIVOS:
população. Evidenciou-se que a morbidade Consolidar um Observatório
por essas causas tem sido invisibilizada pelos de Causas Externas na região
registros inadequados, insuficientes ou pela do estudo no monitoramen-
ausência deles nos serviços de Atenção Bási- to dos agravos por CEs; co-
ca e nas estatísticas de saúde, de modo geral. nhecer o perfil epidemioló-
Agrega-se, ainda, a dificuldade dos profissio- gico da morbidade por CEs
nais em lidar com a problemática, tanto pelo da população atendida na
desconhecimento e despreparo durante sua
formação, quanto pelo fato de muitas vezes
Rede Pública Municipal de
Saúde, no período de feve-
163

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
reiro/2002 a fevereiro/2005, tório. O aperfeiçoamento dos registros e sua
no sentido de construir in- informatização foram feitos a partir da aná-
formações que possam con- lise e avaliação das informações de pesquisa
tribuir com a estruturação advindas dos serviços da região em questão e
da vigilância desses agravos consolidá-los em um Banco de Dados sediado
no âmbito do observatório na EENF/UFRGS. Em um segundo momento,
e do município; caracterizar prevê-se a implementação e expansão do sis-
a morbidade por CEs entre tema – observatório – para a Rede Básica de
os usuários das unidades em Saúde do município de Porto Alegre.
estudo; identificar e anali- Abordagens investigativas envolveram o
sar os dados referentes ao diagnóstico situacional a partir de estudos
registro das informações e epidemiológicos do tipo ecológico e outros
dos atendimentos que ca- de base qualitativa, advindos da perspectiva
racterizam esses eventos; metodológica da pesquisa–desenvolvimento.
identificar as CEs quanto ao Elaborou-se, dessa forma, a descrição epide-
tipo de evento, sexo e faixa miológica dos eventos, bem como seu geo-
etária; georreferenciar os processamento e georreferenciamento na
eventos; relacionar os even- base municipal. Os processos de trabalho e
tos ao ambiente; qualificar e as concepções profissionais relativas à assis-
consolidar o banco de dados tência nesses agravos compuseram os estu-
do observatório; qualificar dos de base para o diagnóstico dos serviços
os atendimentos a partir da da região em estudo.
detecção e dos registros e Campo de estudo:
a capacitação profissional. O estudo de base epidemiológica e os estu-
A proposta teve apoio do dos qualitativos sobre processos de trabalho
CNPq e Ministério as Saúde foram realizados em Porto Alegre, na base ge-
no Edital 024/2005 sobre ográfica da Gerência de Saúde, localizada na
violência e trauma. região Leste no município (Distrito 7 – Lomba
do Pinheiro/Partenon). A área é constituída
METODOLOGIA: por seis Unidades Básicas de Saúde, sete Uni-
Desenvolvimento do Obser- dades de Saúde da Família e uma Unidade
vatório: de Pronto Atendimento, a saber: CS Lomba
Primeiramente a proposta do Pinheiro, PSF Herdeiros, PSF Pitoresca, PSF
ocupou-se em criar condi- Vila São Pedro, PSF Viçosa, UBS Esmeralda,
ções locais e estrutura físi- US Bananeiras, US Mapa, US Panorama, US
164 ca para o funcionamento e
manutenção de um observa-
Pequena Casa da Criança, US São Carlos e
US São José. Autores como Rodrigues e De

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
Negri (2004) descrevem a região como um o indivíduo não tenha sido
grande espaço geográfico, somando sete atendido em uma unidade
bairros e mais de 60 vilas com diferentes de saúde. Os dados foram
níveis de urbanização e infra-estrutura. Os informatizados em sua tota-
autores referem que a área possui aproxi- lidade para serem analisados
madamente 180 mil habitantes e é marcan- por meio de métodos esta-
te a incidência de população em condição tísticos, segundo os objeti-
de pobreza ou indigência. vos traçados nos diferentes
Base institucional e população em estudo: subtipos e abordagens me-
Foram estudados serviços, profissionais e todológicas.
usuários atendidos nas USs, Saúde da Família Análise dos dados:
e PAs na região Lomba do Pinheiro/Partenon A epidemiologia local da
do município de Porto Alegre, bem como a morbidade por Causas Ex-
população residente em sua área de abran- ternas foi descrita a partir
gência, no período de fevereiro/2002 a feve- da utilização do software
reiro/2005 para o estudo quantitativo e uma Epi-Info e Map-Info. Esse úl-
base temporal transversal para os estudos e timo consiste em ferramenta
dados qualitativos. essencial para o geoproces-
Coleta de dados: samento e georreferencia-
Para conhecer os eventos do ponto de vista mento, identificando onde
local, foi elaborada previamente pelos inte- ocorre com maior freqüên-
grantes executivos do observatório uma Ficha cia cada tipo de eventos.
de Notificação Local de Agravos por Causas Os dados foram analisados
Externas, que alimenta o banco de dados do por meio da categorização
Observatório de Causas Externas na Gerência dos eventos e de índices
de Saúde Lomba do Pinheiro/Partenon. O re- freqüenciais absolutos e re-
ferido instrumento foi preenchido pelos pro- lativos. A análise dos dados
fissionais de saúde (enfermeiros, auxiliares de qualitativos teve por base a
enfermagem e agentes de saúde) da Gerência proposição da categoriza-
que integra o observatório. Nesse instrumen- ção de conteúdo temático
to foram registradas as informações sobre a de Minayo (2004). Trata-se
morbidade decorrente desses agravos, tanto de análise que permite co-
dos usuários que são atendidos nas Unida- nhecer para compreender
des de Saúde, quanto da população residen- os sentidos atribuídos pelos
te na área de abrangência, pois o registro é sujeitos às suas práticas, tan-
desencadeado quando a informação chega
a um membro do observatório, mesmo que
to de trabalho como de vida
cotidiana que os instrumen-
165

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7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
talizam para o enfrentamen- cionais colocados em prática nos serviços da
to no processo saúde–adoe- região. Ao iniciarmos esse processo, consta-
cimento. tou-se a inexistência de experiências locais,
Considerações bioéticas: nacionais e mesmo internacionais que pudes-
Conforme a legislação da sem auxiliar operativamente. Nesse campo
pesquisa com seres huma- inspiramo-nos em alguns trabalhos desenvol-
nos, esse projeto implemen- vidos a partir do Instituto Karolinska, em Es-
tou a coleta dos dados após tocolmo, na Suécia. A tônica desses estudos
aprovação pela Comissão de estava focada em mostrar o decréscimo nos
Ética e Pesquisa da Escola registros de lesões tratadas nos serviços de
de Enfermagem da UFRGS saúde. Poucos se preocupam com a avaliação
e da Prefeitura Municipal de e a promoção da segurança. Essas constata-
Porto Alegre. O acesso aos ções remeteram ao programa Safe Commu-
registros ocorreu a partir da nity, que teve e tem em seu propósito basea-
autorização dos serviços para do em dados epidemiológicos, documentar o
os dados que constituíram o tamanho e a natureza dos problemas de se-
Banco do Observatório e de gurança, incluindo acidentes, lesões, violên-
um Termo de Consentimen- cia e suicídio em todos os ambientes incluin-
to Informado no caso das do casa, transporte, trabalho e lazer. Em
entrevistas com os usuários conseqüência, as prioridades para ação e de-
e profissionais de saúde da cisão são baseadas no que as comunidades
rede assistencial. consideram importante. As soluções a serem
Apresentação dos resultados alcançadas pelas comunidades só são adota-
e discussão: das quando percebidas como apropriadas
Implementação da propos- pela comunidade. A cidade de Porto Alegre
ta: sensibilização e enfren- está incluída na rede de cidades protetoras e
tamentos de profissionais, os Serviços de Atenção Básica, inclusos nessa
pesquisadores e comuni- proposta, estão em consonância com esses
dade. Considera-se que o propósitos. A idéia que fundamenta e motiva
processo de sensibilização este projeto é de promover saúde e seguran-
implementado a partir das ça, reorientando, de certa forma, a perspecti-
comunidades e dos serviços va da ação sobre as causas dos eventos que
envolvidos representou, em culminam em morbidade. Historiando nossos
si, resultados da proposta. passos, iniciamos, em dezembro de 2001, ci-
Esse processo foi a base para tando a Secretaria Municipal de Saúde de
166 desenvolvimento dos objeti-
vos de pesquisa e os opera-
Porto Alegre, que, preocupada com os índi-
ces crescentes de mortalidade por Causas Ex-

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
ternas no Município, promoveu uma oficina ciativas relativas à identifica-
onde compareceram profissionais de saúde e ção e ao enfrentamento dos
representantes comunitários da região desse agravos e de suas causas.
estudo. Os facilitadores foram pessoas fami- Essa estratégia aumentaria,
liarizadas com experiências desenvolvidas em em tese, a possibilidade de
outras cidades. Contou-se, inclusive, com a sobrevivência da iniciativa,
presença do professor sueco Leif Sundström, resistindo às mudanças de
do Instituto Karolinska, coordenador do Pro- direcionamentos políticos, já
grama das Cidades Protetoras no mundo. Os que ela estava inserida em
relatos das experiências exitosos em cidades uma estrutura de Serviço Pú-
da Suécia – safe cities e safe communities –, blico e impregnada nos fa-
sobretudo da experiência de Falköping, onde zeres dos seus operadores.
foi atingida uma redução de alguns agravos Ponderou-se também que
em até 25%, em curto espaço de tempo, en- os recursos humanos dispo-
tusiasmaram os presentes. Nessa oportunida- níveis para engajar no pro-
de, aprofundaram-se os conhecimentos so- cesso seriam os já atuantes
bre os fundamentos desse método e a análise na rede pública de saúde,
das possibilidades de implementá-los na rea- em sua maioria de longa
lidade local. Após essa oficina, considerado o data e cujas práticas estavam
momento inaugural desse processo, outros profundamente arraigadas,
encontros se sucederam até amadurecerem o que representaria pontos
propostas para dar início ao enfrentamento positivos e negativos ao an-
local a esses eventos. Considerando as escas- damento da proposta. Entre
sas possibilidades de destinação de recursos os pontos positivos, a longa
específicos para desenvolver essa iniciativa experiência em saúde públi-
avaliada pelo grupo dirigente local (região do ca, a proximidade e a fami-
distrito 7 de saúde do município), optou-se liaridade com o problema e
por imprimir uma lógica de mobilização dos as informações detalhadas
recursos já existentes, seguindo rigorosamen- sobre as comunidades locais,
te um dos pilares do método proposto, que como testemunhas diárias
é o da sustentabilidade. Diante disso, nada das histórias humanas, se-
novo foi criado, e sim redirecionado, quali- riam favoráveis. Já as práti-
ficando-se as ações. Isso, no cotidiano, re- cas sedimentadas, muitas
presentou acrescentar a escuta singularizada vezes inadequadas do ponto
e o olhar perscrutador do protetor da vida. de vista ideológico e ou me-
Significa que todas as ações tradicionais dos
serviços introduziram temas, elementos, ini-
todológico, precisariam ser
motivo de ampla reflexão.
167

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
Arriscava-se dizer que a fór- em relação ao meio em que vive sua vida co-
mula – treinamento e capa- tidiana. De outra parte, detectou-se a neces-
citação – não seria suficien- sidade de desencadear um processo de
te, a menos que houvesse, aprendizado e, conseqüentemente, de mu-
como diz Deslandes (2002), dança de comportamento. Partindo dessa
um debate corajoso sobre premissa, o apelo para adesão dos profissio-
temas como a racionalidade nais e agentes comunitários de saúde dos
médica, seus limites, o mo- PSFs foi a partir de convite a um, dois ou mais
delo de atendimento e a ci- servidores, conforme as dimensões do serviço
dadania (a que se impõe de saúde, feito em reuniões pelas coordena-
hoje e a que queremos). A ções das equipes. O único pré-requisito foi o
prática se foi, então, proces- desejo e a disponibilidade de participar do
sando. Optou-se por concre- desafio da constituição de um grupo, cujo
tizar o grupo local da região papel estava por ser construído. A continui-
Lomba do Pinheiro e Parte- dade de participação era uma condição fun-
non com as idéias de que a damental, pois não se tratava de grupo de
responsabilidade por esses representação, e sim de trabalho que, neces-
eventos é coletiva, com a sariamente, deveria construir um caminho
compreensão do papel es- coletivo de aprendizado, compromisso e mu-
pecial dos serviços de saúde danças de comportamento. Paralelamente,
que precisam trabalhar na organizou-se uma base operacional para o
perspectiva de estratégias início das atividades do grupo. Alguns docu-
promocionais em saúde e mentos, como a Portaria Ministerial n.º 1.968
qualidade de vida. Reco- de 25 de outubro de 2001, que trata da noti-
nhece-se o potencial desses ficação compulsória pelos serviços de saúde,
serviços para adotar papel de maus-tratos contra crianças e adolescen-
proativo na prevenção e ne- tes, foram afixados em local visível para am-
cessidade da ação integrada parar a necessidade do registro e subsidiar a
de diferentes segmentos da identificação dos casos (BRASIL, 2001). Esse
sociedade, tanto indivíduos processo evoluiu para o primeiro encontro do
como instituições. Enten- grupo, que ocorreu em 1º de outubro de
deu-se, nessa perspectiva, 2002, sendo iniciado com a apresentação de
que qualidade de vida é um dados estatísticos de mortalidade por Causas
tema complexo, composto Externas no município de Porto Alegre e, es-
por indicadores objetivos e pecificamente, na região de interesse. Foram
168 subjetivos, que dependem
da percepção do indivíduo
apresentados os dados com as características
dos grupos populacionais mais atingidos e

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
discutidas as possibilidades concretas de evi- finiu-se então, num primeiro
tar os agravos, basicamente retomando os momento, quais seriam as
conteúdos da oficina de 2001, citada no iní- informações imprescindíveis
cio dessa narrativa. Em um segundo momen- em todos os registros para
to, foram estabelecidos e validados os objeti- que, posteriormente, pudes-
vos do Grupo de Observadores. Por fim, sem ser agrupados. Embora
foram explicitadas as expectativas, os dese- se dispusesse de alguns mo-
jos, feita avaliação do encontro e estabeleci- delos de formulários para re-
do um cronograma das reuniões/discussões gistros de Causas Externas,
subseqüentes para o grupo, com datas, local, que foram fontes de inspi-
horário e tarefas a serem cumpridas. Essa ração como o do Ministério
metodologia de registro teve duplo objetivo: da Saúde, do Observatório
por um lado o profissional ou agente comu- das Emergências Hospitala-
nitário de saúde das Unidades de Saúde da res, Relatório Individual de
Família poderia expressar genuinamente o Notificação de Acidentes e
grau de sua compreensão/interpretação do Violências (RINAV), entre ou-
evento e, de outro, iria tratar de um diagnós- tros, optou-se por construir
tico situacional, norteador para os conduto- um instrumento que aten-
res do processo, no sentido de se constituir desse às necessidades, fosse
em valioso insumo para a problematização, pensado e entendido pela e
desconstrução e reconstrução dos saberes de na realidade local, aumen-
cada um sobre esses agravos, o que ocorre, tando, com isso, o compro-
desde então, nas discussões quinzenais (RO- misso e adesão ao processo.
DRIGUES et al., 2008). Considerando a ne- O produto foi uma primeira
cessidade de agrupar os dados levantados versão de Ficha de Notifica-
nos serviços, para melhor visualizar as reali- ção Local na qual constava,
dades, a partir do registro/relato narrativo– além da identificação da ví-
aberto, surgiram os primeiros dados estatísti- tima, o local do ocorrido, o
cos formais construídos pelas equipes. tipo de agravo, seu desfecho
Predominou enorme diversidade de variáveis e os profissionais envolvidos
e expressões, o que dificultou as comparações no atendimento. A singeleza
e a análise dos dados obtidos. Esse resultado do instrumento retratava o
despertou no próprio grupo a necessidade de exato momento do grupo,
uma padronização para efetivar uma lingua- tanto no sentido do seu ní-
gem comum que possibilitasse comparações vel de compreensão, como
entre os registros e, conseqüentemente, en-
tre as populações da região e da cidade. De-
de sua capacidade de inter-
venção. Dessa forma um for-
169

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
mulário de registro evoluiu, tas vezes solitário, das situações. Nesse caso,
acompanhando o processo novamente Freire (1996) foi inspiração: nin-
de maturação da compreen- guém é sujeito da autonomia de ninguém [...]
são do grupo. Paralelamen- a autonomia, enquanto amadurecimento do
te, iniciou-se a construção ser para si, é processo, é vir a ser. Por meio
de um banco de registros deste trabalho foi possível identificar am-
que forneceria uma base de bientes de alto risco e grupos humanos mais
dados informatizada, utili- vulneráveis, considerando a vulnerabilidade
zando-se, para tal, um sof- na perspectiva da suscetibilidade social para
tware pelo qual se pudes- adoecimento e morte. O grande ganho foi
se dialogar com os demais o rápido e fácil acesso às informações (des-
bancos de dados existentes centralizadas nos serviços). Assim, o grupo
na cidade. Como não se dis- passou a se sentir protagonista, na medida
punha de um programador, em que o conhecimento adquirido localmen-
buscaram-se potencialidades te pode ser utilizado no desencadeamen-
disponíveis no próprio gru- to de ações. Observou-se que, do ponto de
po. Um agente comunitário vista individual, situa-se o compromisso com
de saúde de um dos serviços a mudança, não só identificação, crítica à si-
de saúde da região encarre- tuação ou delegação de responsabilidades.
gou-se da tarefa, a partir de Esse processo passou a ser entendido em
seus próprios conhecimen- sua complexidade, incluindo esforços que se
tos e buscando apoio de constituíram da necessidade de modificação
outros colegas da institui- de estruturas, ambientes (físico, social, tecno-
ção. Percorrer esse longo e lógico, político, econômico e organizacional),
detalhado caminho foi uma bem como atitudes e comportamentos rela-
opção metodológica. O in- tivos à morbidade e à promoção da saúde,
tuito não foi o de inventar no sentido de transformar a realidade desses
a roda, mas sim de envolver eventos na comunidade. Foi preciso, portan-
o grupo na reflexão de suas to, mudar o olhar, transformar o agir dos in-
próprias necessidades, limi- divíduos e grupos envolvidos, profissionais,
tes e potencialidades e, des- serviços e comunidade. Um segundo objetivo
sa forma, empoderá-lo, na visou a qualificar o atendimento às vítimas de
medida em que fosse sujeito Causas Externas (acidentes e violências) na re-
de seu próprio processo. A gião, com envolvimento progressivo de toda
autonomia seria um atributo a equipe dos serviços de saúde. Na perspec-
170 fundamental dos sujeitos no
enfrentamento local, e mui-
tiva do trabalho proposto, no e pelo grupo,
tornou-se inconcebível a idéia de um levan-

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
tamento estatístico desses agravos, pura e te privilegiada de informação
simplesmente. Consolidou-se, nesse sentido, os atendimentos da rede bá-
uma visão, intrínseca ao grupo, de compro- sica saúde, o que, anterior-
metimento, partindo-se do princípio de que mente, só ocorria por meio
por trás de cada informação gerada há uma das interações hospitalares
vítima real ou em potencial. Esse princípio e dos serviços de urgência e
exigiu o desencadeamento de ações de saú- emergência. Esse ineditismo,
de, nos aspectos técnicos ou resultantes da advindo do conhecimento
articulação com atores de uma rede social de do perfil de morbidade es-
apoio. Por ser constituído somente por mu- pecífica, permite, a nosso
lheres, o grupo, em vários momentos, identi- ver, que os serviços imple-
ficou suas próprias dores, ou tomou para si as mentem estratégias locais de
dores das vítimas, dificultando a tomada de enfrentamento desses agra-
decisões objetivas para emergir das situações. vos, considerando sua base
Identificou-se, como um dos momentos mais local. O reconhecimento da
agudos e intensos, a vivência, por parte de complexidade e diversida-
alguns membros, em se reconhecerem como de desses eventos permitiu
vítimas ou algozes. Nesses momentos que, a construção de diferentes
felizmente, se intercalavam entre os mem- olhares, constituindo-se as-
bros, com momentos solidariedade entre os sim em base fértil para o
pares, a firmeza na condução do processo e desenvolvimento de diferen-
a intensa parceria foram fundamentais para a tes abordagens. Essas abor-
superação, sem maiores seqüelas. Essa pers- dagens, considerando sua
pectiva de alternância entre ação concreta dupla filiação – acadêmica e
nos serviços e aporte teórico e de pesquisa assistencial, materializam-se
constituíram diferentes resultados, materiali- em trabalhos de conclusão,
zados ora em dados estatístico-epidemiológi- em dissertações e teses, em
cos de suporte, ora em textos compreensivos artigos científicos, em even-
que foram publicados em diferentes veículos tos em si, nos registros dos
de circulação científica. serviços, na assistência, na
comunidade e nas intera-
RECOMENDAÇOES: ções cotidianas nos serviços.
Considera-se que as atividades desenvolvidas A parceria interinstitucional
durante a execução da proposta proporciona- proporcionou intercâmbios
ram e têm proporcionado visibilidade à mor- necessários ao desenvolvi-
bidade por Causas Externas como verdadeiro
problema de saúde pública, tendo como fon-
mento adequado da troca
de saberes entre a academia
171

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.4. Observatório de causas externas na atenção
básica de saúde de Porto Alegre – RS
e os serviços assistenciais. Os de morbidade configura-se em potencial re-
estudos desenvolvidos têm solutivo da proposta. Podemos concluir que
grande potencial de geração as estratégias de promoção e prevenção des-
de tecnologias informacio- ses agravos produzem impacto na qualidade
nais e comunicacionais, in- dos serviços oferecidos à população e, consi-
terferindo qualitativamente derando seu impacto ambiental, contribuem
nos processos de trabalho para o desenvolvimento da estratégia das
dos profissionais das equipes cidades saudáveis. Enfim, considera-se que
de saúde e redes de apoio, os objetivos propostos foram amplamente
melhorando sua capacidade alcançados e obtiveram repercussões para
de responder a esse tipo de além da considerável produção acadêmica.
morbidade. Nesse sentido, A parceria foi exitosa e profícua, sinalizando
tratando-se de uma pro- a possibilidade de outras parcerias universi-
posta vinculada à rede de dade/serviço. O potencial de sensibilização
Atenção Básica dos Servi- comunitária, dos profissionais de saúde, dos
ços de Saúde (US e PSF) do gestores públicos, dos acadêmicos fez-se evi-
SUS, considera-se engajada dente na elucidação do perfil de morbidade e
na melhoria dos processos na clareza em apontar possibilidades de inter-
assistenciais por meio de venção que confirmam esses eventos como
estratégias locais de enfren- evitáveis e preveníveis. Para a equipe envol-
tamento dos agravos decor- vida, consolida-se a idéia de que os estudos
rentes de Causas Externas. direcionados para a morbidade cumprem im-
Sendo assim, seu potencial portante papel na elaboração e implementa-
de intervenção, na perspec- ção de políticas públicas.
tiva da atuação comunitária,
permite o desenvolvimento
de estratégias promocionais
e preventivas no campo des-
ses agravos, considerando o
ambiente de vida e saúde da
população usuária dos servi-
ços. A qualificação de profis-
sionais e agentes comunitá-
rios de saúde dos Programas
de Saúde da Família no sen-
172 tido de aperfeiçoar um olhar
sensível às Causas Externas

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
Autora Principal: e referências são utilizados
CARINA PIMENTEL SOUZA para acompanhamento do
Outros Autores: desenvolvimento neuropsi-
JOANA ANGÉLICA OLIVEIRA MOLESINI comotor infantil; d) conhe-
JOÃO DANILO BATISTA DE OLIVEIRA cer como os enfermeiros
Área Temática: Vigilância em Saúde na AB/SF detectam os desvios do de-
Local onde o trabalho foi realizado: senvolvimento neuropsico-
Salvador – BA motor em crianças; e) apon-
tar os sistemas de referência
RESUMO: e contra-referência tomados
As questões postas neste estudo emergiram, por esses profissionais quan-
inicialmente, a partir da minha experiência do detectam desvios neu-
como terapeuta ocupacional, atendendo ropsicomotores. Esse estudo
crianças de zero a dois anos que apresentam torna-se relevante na medi-
algum desvio no seu desenvolvimento neurop- da em que busca contribuir:
sicomotor ou risco de apresentá-lo e, poste- a) com a literatura da área,
riormente, como graduanda de enfermagem, diante da lacuna existente
passando a identificar que essas crianças não sobre essa temática; b) na
eram encaminhadas precocemente pela Rede área de enfermagem, com
Básica de Saúde, acarretando atrasos signifi- a sensibilização do olhar do
cativos no desenvolvimento neuropsicomo- enfermeiro para a vigilância
tor, surgimento de deficiências secundárias e do desenvolvimento neu-
o agravamento de deficiências já instaladas. ropsicomotor infantil e com
A problemática central desse estudo foi: quais a formação e educação con-
são as ações que os enfermeiros da estratégia tinuada dos enfermeiros na
Saúde da Família (ESF) executam para fazer atenção integral à saúde da
a vigilância do desenvolvimento neuropsico- criança, além do aprimora-
motor infantil? Foi estabelecido como obje- mento da prática profissio-
tivo geral descrever as ações desenvolvidas nal no acompanhamento.
pelos enfermeiros, da ESF, na vigilância do Tratou-se de uma pesquisa
desenvolvimento neuropsicomotor infantil. qualitativa, de caráter explo-
Tendo como objetivos específicos: a) descre- ratório, descritivo, que teve
ver a atuação dos enfermeiros, da ESF, na as- como instrumento de coleta
sistência à criança; b) identificar de que forma de dados a entrevista, com
é realizada a vigilância do desenvolvimento roteiro semi-estruturado,
neuropsicomotor infantil, pelos enfermei-
ros da ESF; c) identificar quais instrumentos
sendo previamente aprova-
do pelo Comitê de Ética em
173

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
Pesquisa da Secretaria Esta- (ESF), deve contemplar a atenção integral à
dual de Saúde do Estado da saúde da criança, no contexto do processo de
Bahia CEP – SESAB. Partici- municipalização da saúde e da reorientação
param da pesquisa nove en- do modelo de saúde a partir das estratégias
fermeiros de quatro Unida- da ESF (BRASIL, 2002). O Programa de Assis-
des com ESF, de um Distrito tência Integral á Saúde da Criança surgiu na
Sanitário, da cidade de Sal- década de 80, a partir de uma ação das três
vador – BA. Os achados da esferas, federal, estadual e municipal. Essas
pesquisa nos mostram como ações devem ser desenvolvidas na unidade
está organizada a Rede Bási- básica de saúde, tendo o acompanhamento
ca de Saúde no distrito estu- sistemático do crescimento e desenvolvimen-
dado para acompanhar a vi- to de crianças menores de cinco anos de ida-
gilância do desenvolvimento de, por meio do aprazamento de retorno des-
infantil e os sistemas de re- tas ao serviço de saúde, (FIGUEIREDO; MELO,
ferência e contra-referência; 2003). A estratégia Saúde da Família surgiu
mostra-nos como os enfer- no Brasil, em 1994, como uma estratégia de
meiros têm organizado sua reorientação do modelo assistencial, a partir
prática na Atenção Básica à da Atenção Básica, em conformidade com os
saúde da criança de zero a princípios do Sistema Único de Saúde (SUS),
dois anos, materializando o ou seja, a universalidade, a equidade e inte-
processo de municipalização gralidade, devendo ser organizada, de ma-
da saúde e da reorientação neira descentralizada, hierarquizada e com a
do modelo de saúde a par- participação da comunidade (ROSA; LABATE,
tir das estratégias da ESF, no 2005). A vigilância à saúde possibilita a re-
que se refere à atenção com organização das práticas de saúde, por meio
a saúde integral da criança. de ações intersetoriais, com articulação entre
Palavras-chave: saúde da promoção, prevenção e cura, intervenção so-
família; vigilância do desen- bre danos, riscos e/ou determinantes, bem
volvimento infantil; enfer- como a ênfase em problemas que reque-
magem. rem atenção e acompanhamento contínuos.
(TEIXEIRA, 1998 apud PAIM, 2003). Dentro
INTRODUÇÃO: dessa perspectiva, encontra-se a vigilância do
A abordagem da vigilância desenvolvimento infantil, pelos serviços de
do desenvolvimento neurop- saúde, compreendemos aqui vigilância como
sicomotor infantil, pelos pro- observar com atenção, cuidar com atenção,
174 fissionais de enfermagem da
estratégia Saúde da Família
verificar se algo está se realizando como pre-
visto (HOUAISS; VILLAR, 2004). Ao discutir

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
a saúde integral da criança e a redução da vamento de deficiências já
mortalidade infantil, o Ministério da Saúde instaladas. Uma síntese dos
reitera em suas proposições que as medidas questionamentos e consta-
preventivas de atenção à saúde devem ser tações cotidianas se expres-
um compromisso prioritário nos modelos de sa na problemática central
gestão nas esferas municipais e estaduais no desse estudo: quais são as
Brasil. Entre essas medidas, está a vigilância ações que os enfermeiros da
do desenvolvimento infantil, que possibilita estratégia Saúde da Família
a detecção o mais cedo possível de desvios executam para fazer a vigi-
neuropsicomotores infantil e o encaminha- lância do desenvolvimento
mento precoce para intervenção, contribuin- neuropsicomotor infantil?
do com a prevenção de agravos físico, mental A elaboração dessa temá-
e de interação social (BRASIL, 2004; 1982). tica de pesquisa explicita o
As ações de promoção da saúde e prevenção que traz Minayo (1994, p.
de agravos, bem como a estratégia Saúde da 17), ao mencionar que nada
Família, representam uma estratégia da po- pode ser intelectualmente
lítica pública brasileira em atenção à saúde, um problema se não tiver
que tem sido foco de atenção de muitos pes- sido, em primeiro lugar, um
quisadores. Entretanto, esses estudos pou- problema na vida prática.
co têm revelado sobre como os enfermeiros
atuam frente à vigilância do desenvolvimento OBJETIVOS:
neuropsicomotor infantil, apesar de atuarem O presente estudo tem
no acompanhamento do crescimento e de- como objetivo geral descre-
senvolvimento dessas crianças. As questões ver as ações desenvolvidas
postas neste estudo emergiram inicialmen- pelos enfermeiros, da Estra-
te a partir da minha experiência como tera- tégia Saúde da Família, na
peuta ocupacional, atuando na estimulação vigilância do desenvolvimen-
precoce, atendendo crianças de zero a dois to neuropsicomotor infantil,
anos que apresentam algum desvio no seu a partir de uma abordagem
desenvolvimento neuropsicomotor ou risco qualitativa. Tendo como ob-
de apresentá-lo e posteriormente, e, como jetivos específicos: descrever
graduanda de enfermagem, passando a a atuação dos enfermei-
identificar que estas crianças não eram en- ros, da ESF, na assistência
caminhadas precocemente pela Rede Básica à criança; identificar de que
de Saúde, acarretando atrasos significativos forma é realizada a vigilân-
no desenvolvimento neuropsicomotor, surgi-
mento de deficiências secundárias e o agra-
cia do desenvolvimento neu-
ropsicomotor infantil, pelos
175

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
enfermeiros da ESF; identifi- manas, dos valores, das subjetividades e das
car quais instrumentos e re- condições objetivas onde elas atuam (SERVO
ferências são utilizados para 2001). A pesquisa qualitativa em saúde, se-
acompanhamento do desen- gundo Minayo (1999), possibilita uma apreen-
volvimento neuropsicomo- são de significados e intencionalidades, pre-
tor infantil; conhecer como sentes nas ações e relações sociais, dotadas
os enfermeiros detectam os de subjetividade, construídas historicamente
desvios do desenvolvimento por meio do cotidiano, da vivência e do senso
neuropsicomotor em crian- comum. Os enfermeiros consultados a par-
ças; apontar os sistemas de ticipar da pesquisa assinaram um Termo de
referência e contra-referên- Consentimento Livre e Esclarecido, que tinha
cia tomados por esses pro- informações sobre os objetivos da pesquisa
fissionais quando detectam e visava a levar os enfermeiros a tomar uma
desvios neuropsicomotores. decisão consciente e autônoma por participar
ou não da pesquisa (BRASIL, 1996). Buscando
METODOLOGIA: respeitar os aspectos éticos de pesquisa com
Trata-se de um estudo qua- seres humanos e proteger os sujeitos partici-
litativo, de natureza explo- pantes, o projeto dessa pesquisa também foi
ratória e descritiva, o que submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa
permite ao investigador au- da Secretaria Estadual de Saúde do Estado da
mentar a sua experiência em Bahia CEP – SESAB, atendendo à Resolução
torno do problema inves- 196 de 10 de outubro de 1996, que regula-
tigado, e em descrever os menta tal atividade (IDEM). Para critério de
acontecimentos, situações e inclusão da pesquisa, foram selecionados en-
o que pensam as pessoas in- fermeiros que trabalham em Unidades com
vestigadas acerca do objeto Estratégia Saúde da Família que realizam
estudado (MINAYO, 2004; atenção integral à saúde da criança e que es-
TRIVINOS, 1987). A pesqui- tavam trabalhando no período da pesquisa,
sa sobre as ações dos enfer- recorte temporal de maio a agosto de 2007,
meiros não pode ser resu- e que aceitaram participar. Como critério de
mida a levantar elementos exclusão para a pesquisa, não fizeram parte
apenas quantificáveis, já que os enfermeiros que estavam de férias ou de
trabalham no plano dos sig- licença. Para adentrar o campo da pesquisa,
nificados, atitudes, valores. foi solicitada, à Secretaria Municipal de Saú-
É necessária abordagem que de de Salvador, autorização para acesso às
176 perceba a realidade constru-
ída a partir das relações hu-
Unidades, pela pesquisadora. Minayo (1999,
p. 105) conceitua o campo como o recorte

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ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
espacial que corresponde à abrangência [...] um posicionamento ou ação
do recorte teórico correspondente ao objeto sobre o tema que lhes foram
de investigação. Com isso escolhemos como apresentados. A análise foi
campo para o estudo todas as unidades com realizada em três etapas: a)
estratégia Saúde da Família de um determi- pré-analise; b) exploração
nado Distrito Sanitário, da cidade de Salva- do material e; c) tratamento
dor. No total foram entrevistados nove enfer- dos dados obtidos e inter-
meiros, sendo que, dos 11 que constituem o pretação (MINAYO, 2004).
universo da população do estudo, dois foram As categorias foram esta-
excluídos por se encontrarem de licença. A belecidas após a fase de co-
coleta dos dados empíricos foi feita por meio leta de dados por meio do
do uso de entrevista, com roteiro semi-es- confronto entre o material
truturado, o que permitiu a manifestação de empírico levantado e o refe-
uma fala livre dos entrevistados acerca das te- rencial teórico estudado. As
máticas estudadas. Na entrevista foram abor- categorias consistem num
dados os aspectos referentes à atuação dos conjunto de elementos clas-
enfermeiros na atenção à criança; a forma sificados ou seriados que se
como é realizada a vigilância do desenvolvi- agrupam em torno de um
mento neuropsicomotor infantil; a detecção conceito (IDEM). A análise
dos desvios do desenvolvimento neuropsi- e discussão dos dados aqui
comotor; a utilização de algum instrumento apresentados foram feitas
para acompanhamento do desenvolvimen- com base nas categorias uti-
to; e o local para onde são encaminhadas as lizadas para nortear a análi-
crianças que apresentam atraso no desenvol- se do conteúdo da fala dos
vimento neuropsicomotor. A entrevista com entrevistados, à luz do re-
cada participante da pesquisa, de forma indi- ferencial teórico estudado,
vidual, foi realizada pela pesquisadora, suas dessa forma, as categorias
falas foram gravadas por meio do uso de estabelecidas foram: a) atua-
MP3 com gravador de voz e depois transcri- ção do enfermeiro, que visa
tas para análise. A análise e interpretação dos a contextualizar a assistência
dados foram feitas com base na Análise de à criança, pelos enfermei-
Conteúdo de Bardin (1977, apud TRIVINOS, ros da ESF; b) vigilância do
1987; MINAYO, 1999; 2004), para por meio desenvolvimento neurop-
das categorias de análise conhecer as ações sicomotor infantil, que foi
desenvolvidas pelos enfermeiros, bem como subdividido em: concepção
suas subjetividades implícitas em suas falas,
pois estes veiculam uma afirmação, opinião,
de vigilância do desenvolvi-
mento infantil e realização
177

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
da vigilância do desenvol- Todos os sujeitos referiram a realização do
vimento infantil, buscando acompanhamento do crescimento e desen-
compreender a concepção volvimento, no entanto, sem fazer alusão
dos enfermeiros sobre a vi- ao desenvolvimento neuropsicomotor, bem
gilância do desenvolvimento como a sua vigilância. Verificamos que as
infantil; c) uso de instrumen- ações realizadas, pela enfermagem, foram
tos para acompanhamento designadas como puericultura, sendo prio-
do desenvolvimento neu- rizadas a nutrição, o peso, a medição de
ropsicomotor infantil, bus- perímetros e a vacinação, visão restrita da
cando verificar embasados vigilância do desenvolvimento infantil, hoje
em que realizam a vigilância norteadora do processo de atenção integral à
do desenvolvimento neu- saúde da criança. Podemos perceber na fala
ropsicomotor infantil; d) o dos enfermeiros B e G, por meio dos recor-
enfermeiro na detecção de tes expressos abaixo, que a referência de sua
desvios neuropsicomotores atuação, junto à saúde da criança, está situa-
infantil, cujo objetivo consis- da no exame em puericultura:
te em compreender de que – Avalia o desenvolvimento, testa a pupila,
forma é feita a detecção dos mede, mede o perímetro cefálico, o compri-
desvios psicomotores; e) sis- mento, observa cartão vacinal, teste do pezi-
tema de referência e contra- nho, orientação de aleitamento, vacina (EN-
referência buscando identifi- FERMEIRO B).
car o local para onde estas – A gente acompanha o crescimento e desen-
crianças são encaminhadas e volvimento na parte de puericultura (...) pra
como se dá o retorno desse crianças de zero a dois anos. Desde o pré-na-
encaminhamento e posterior tal as mães são orientadas a comparecer aqui,
acompanhamento. Visando antes disso até, para a gente acompanhar o
a respeitar o anonimato dos crescimento e desenvolvimento dentro de to-
sujeitos entrevistados, as fa- das as ações (ENFERMEIRO G).
las referentes aos achados Apresentando um olhar mais amplo sobre
de cada categoria de análise o papel do enfermeiro na vigilância do de-
são indicadas por letras do senvolvimento infantil, do que os sujeitos su-
alfabeto. pracitados, apenas o enfermeiro H destacou
também a importância da observação dos re-
APRESENTAÇÃO DOS flexos que a criança apresenta e sua interação
RESULTADOS E DISCUSSÃO: social, fazendo uma menção à vigilância do
178 Categoria: Atuação do en-
fermeiro.
desenvolvimento neuropsicomotor infantil.
– A gente faz mensal até dois anos (...). Peso,

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
altura, perímetros no geral, reflexos, qual é a preensão adequada, da
interação da criança com o meio, cartão de va- maioria dos pesquisados, so-
cina, o teste do pezinho (...) (ENFERMEIRO H). bre o termo supracitado.
A partir da análise dessa categoria, depreen- – O acompanhamento pelo
demos a persistência do termo puericultura e crescimento da criança em
ausência do termo ACD – acompanhamen- todos os aspectos neuroló-
to do crescimento e desenvolvimento infan- gicos, psicossociais, psíquico
til, atualmente preconizado pelo Ministério mesmo (ENFERMEIRO A).
da Saúde. O Ministério da Saúde preconiza – É a vigilância para fazer
o acompanhamento o desenvolvimento e a uma detecção precoce de
vigilância do desenvolvimento neuropsico- um retardo de crescimento
motor infantil como uma das ações básicas e desenvolvimento de uma
de saúde com eficácia comprovada, devendo criança para poder fazer a
constituir o centro da atenção da rede básica estimulação precoce pra di-
dos serviços de saúde. (COELHO, 1999; BRA- minuir os danos (ENFERMEI-
SIL, 2002; FIGUEIREDO; MELLO, 2003). A de- RO B).
tecção de desvios psicomotores não é um dos Contudo, alguns demonstra-
aspectos mais avaliados pelos enfermeiros, na ram fragilidade no entendi-
atenção à criança, devendo este ser um fator mento, fazendo referência à
preponderante para a não realização da vigi- vigilância do desenvolvimen-
lância do desenvolvimento neuropsicomotor to europsicomotor infantil
infantil (NÓBREGA, 2003; FIGUEIRAS, 2003; como um programa especí-
FIGUEIREDO; MELLO, 2003). fico, e não como uma das
Categoria: Vigilância do desenvolvimento ações que deve está incor-
neuropsicomotor infantil. porada à sua prática.
A vigilância do desenvolvimento neuropsico- – Um programa específico
motor infantil seria o acompanhamento inte- mesmo pra essa caracterís-
gral e contínuo da interação da criança com o tica do desenvolvimento da
meio e no que resulta essa interação para ela criança (ENFERMEIRO G).
nos aspectos motores, intelectuais, sensoriais Subcategoria: Realização da
e sociais. Com isso, dividimos essa categoria vigilância.
de análise em duas subcategorias, ou seja, Observamos que alguns en-
concepção e realização da vigilância do de- fermeiros demonstraram
senvolvimento neuropsicomotor infantil. compreensão e incorpora-
Subcategoria: Concepção de vigilância do ção na suas práticas, descre-
desenvolvimento neuropsicomotor infantil.
Nos achados, constatamos que há uma com-
vendo inclusive as técnicas
utilizadas.
179

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
– A gente faz. A gente testa parte das ações dos enfermeiros, da ESF,
os reflexos, a força, a atenção uma vez que o acompanhamento da criança
da criança (ENFERMEIRO B). é realizado mensalmente desde o pré-natal
Outros negam fazer a vigi- da mãe e que existem fatores pré, peri e ne-
lância. onatais que podem trazer implicações para o
– Não, não existe uma vigilân- aparecimento de atraso no desenvolvimento
cia não (...), não existe uma infantil. Os fatores de risco para o desenvolvi-
vigilância padronizada, acon- mento infantil podem ser agrupados em três
teceu um caso X vamos fazer categorias: pré-natais– infecções congênitas
isso, não (ENFERMEIRO A). (TORCH), doenças de base materna, hiper-
Embora o enfermeiro realize tensão arterial materna, diabetes materna,
contato mensal com a crian- uso de medicamentos pela mãe, oligo ou
ça, acompanhando-a desde polidramnia; perinatais – hipertensão arterial
o pré-natal da mãe, a obser- materna, toxemia gravídica, asfixia perinatal,
vação do desenvolvimento circular de cordão, anestesia, fórceps; e as
neuropsicomotor infantil pós-natais – distúrbios metabólicos, convul-
não é foco da sua atenção, sões, icterícia, infecções, desconforto respira-
prevalecendo aspectos re- tório, PIG (pequeno para a idade gestacional)/
ferentes ao desenvolvimen- GIG (grande para a idade gestacional), pre-
to ponderal, como peso e maturidade (BRANDÃO, 1989; FIGUEIRAS et
altura, bem como aspectos al., 2005). Em Nóbrega et al. (2003), em sua
referentes às doenças pre- pesquisa, é reiterada a importância da corre-
valentes na infância, não se lação do acompanhamento do desenvolvi-
dando conta que suas ações mento psicomotor da criança com a história
também integram a preven- gestacional da mãe, condições do parto, in-
ção de deficiências. Percebe- tercorrências, sinais de sofrimento fetal, AP-
mos isso com o enfermeiro I, GAR da criança ou outras complicações que
que concebe idéias equivo- ele considera como de extremo valor para a
cadas sobre a vigilância do promoção da avaliação global da criança e
desenvolvimento neuropsi- imprescindível para a prevenção de distúrbios.
comotor infantil. A vigilância do desenvolvimento neuropsico-
– (...) eu prefiro fazer essa motor infantil deveria ser normatizada pelos
vigilância mensal (...) às do- serviços de saúde, da Atenção Primária, em
enças da infância (...) (EN- primazia, a estratégia Saúde da Família, enfo-
FERMEIRO I). A detecção cando as distintas fases do desenvolvimento,
180 precoce de desvios neurop-
sicomotores deveria fazer
visando à identificação o mais precocemente
possível de desvios, além da adoção de medi-

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
das específicas após a detecção, como o en- Categoria: O enfermeiro na
caminhamento para unidades especializadas detecção de desvios neurop-
e orientações sistemáticas às mães. sicomotores infantil.
Categoria: Uso de instrumentos e referências A ausência do acompanha-
para o acompanhamento do desenvolvimen- mento do desenvolvimento
to neuropsicomotor infantil. infantil traz grandes impli-
No que diz respeito à utilização de instru- cações, uma vez que, mui-
mentos e referências para acompanhamento tos desvios, ao deixarem de
do desenvolvimento infantil, foi identificado ser diagnosticados precoce-
que não há uso de instrumentos e referên- mente, podem agravar-se
cias, com a maioria dos entrevistados. à medida que a criança vai
– Não. Você identifica assim pelas queixas da se desenvolvendo, repercu-
mãe ou por alguma coisa que você perceba na tindo, muitas vezes, num
criança que não está normal (ENFERMEIRO C). quadro grave de desenvol-
– Não, aqui a gente não utiliza escala não. A vimento, gerando prejuízos
gente vai por meio do exame clínico mesmo para a criança, bem como
(ENFERMEIRO E). para a família. A não-detec-
Apenas dois entrevistados destacaram a existên- ção precoce e conseqüen-
cia de referências do Ministério da Saúde. No en- temente o acesso tardio
tanto, apenas um referiu fazer uso dele. a serviços especializados,
– (...) um guia de Atenção Básica (...) (ENFER- quando já instalado algum
MEIRO B). quadro grave de desvio do
– Não. Existe o protocolo, o livro de puericul- desenvolvimento, ocasio-
tura que é o que a gente segue todas aquelas nam prejuízos não só para
orientações e do Ministério da Saúde que tem a criança, mas para a famí-
toda essa parte neuropsicomotor do desenvol- lia também, visto que isso
vimento da criança (...) (ENFERMEIRO H). lhe trará custo financeiro
Isso contradiz com o que encontramos no com o tratamento, bem
Manual de Acompanhamento do Crescimen- como social, em virtude da
to e Desenvolvimento Infantil, que consiste estigmatização da criança
num instrumento técnico, do Ministério da em retardada, que poderá
Saúde, destinado aos profissionais que rea- culminar num processo de
lizam atenção integral à criança, no âmbito exclusão escolar e social.
da Atenção Básica de Saúde, cujo objetivo é Depreendemos que uma
contribuir com a melhoria das suas práticas e, das razões para o que foi
conseqüentemente, a qualidade de vida das
crianças (BRASIL, 2002).
discutido acima se encontra
nesta categoria de análise,
181

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
ou seja, que a detecção dos engatinhar, ficar de pé e marcha. O acom-
desvios neuropsicomotores, panhamento sistemático possibilitaria, além
pelos enfermeiros, está re- do diagnóstico precoce, o encaminhamento
lacionada à visibilidade do imediato para serviços especializados de es-
problema, como podemos timulação precoce, quando necessário, visto
observar na fala dos enfer- que, quanto mais cedo ocorrer, melhor será
meiros A e C. o prognóstico da criança. Por meio dos acha-
– (...) tendo algo de propor- dos, como a atribuição dos critérios de visi-
ções grandes (...) algo muito bilidade do problema para a identificação de
visível (...) isso é até tranqüi- desvios neuropsicomotores infantil, podemos
lo (ENFERMEIRO A). encontrar também como possível causa para
– Menor de um ano (...) eu a não-detecção precoce o fato de o profissio-
não detecto muito não (...) nal conceber problemas de desenvolvimento
só se for aquela criança que neuropsicomotor infantil, sempre como casos
dá pra perceber pela carinha clássicos de livros, deixando assim passar os
dela que ela não é normal casos leves e moderados. Essa ausência de
(...) (ENFERMEIRO C). uma intervenção primária por meio da pre-
Isso denota falta de preparo venção, diagnóstico e intervenção precoce
profissional para a realização traz implicações ao desenvolvimento desses
da vigilância do desenvolvi- sujeitos, como também torna a intervenção
mento neuropsicomotor e terapêutica mais complexa e aumenta os
conseqüentemente uma custos com o tratamento. As repercussões
detecção precoce, uma vez de desvios neuropsicomotores, muitas vezes,
que se desconsideram as só são percebidas quando a criança entra na
etapas do desenvolvimen- vida escolar, repercutindo em problemas de
to infantil e seus marcos. A coordenação, equilíbrio, atenção, concentra-
realização da vigilância do ção, interação social comprometendo o pro-
desenvolvimento neuropsi- cesso de aprendizagem. Tais problemas con-
comotor infantil é imprescin- tribuem com o processo de estigmatização e
dível para a detecção preco- exclusão social, visto que o processo educa-
ce de tais desvios, uma vez cional ainda está erroneamente pautado na
que o desenvolvimento nor- uniformização do saber, desconsiderando ca-
mal se dá no sentido céfa- racterísticas individuais de cada indivíduo.
lo-caudal, seqüencialmente, Categoria: Sistemas de referência e con-
com a existência de marcos tra-referência para a organização da aten-
182 destacáveis, como controle
cervical, controle de tronco,
ção em saúde.
Como sistema de referência, foi referido o

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
Hospital Martagão Gesteira, por ser conside- das crianças que apresentam
rado referência em pediatria, na cidade de desvios no desenvolvimen-
Salvador, segundo os enfermeiros. No entan- to também pode se dever
to não percebemos a contra-referência, sen- ao fato do estigma que en-
do referido pelos profissionais que ele não volve essas instituições, por
existe e que o retorno do encaminhamento atenderem em sua primazia
feito é dado, muitas vezes, pelas mães e/ou portadores de deficiência (FI-
pelos agentes comunitários, durante a visita GUEIRAS et al., 2005). Outro
domiciliar. Um único enfermeiro referiu a ne- fator destacado na literatura
cessidade da contra-referência: que traz implicações ao não-
– “(...) infelizmente no PSF, a gente não tem encaminhamento precoce
essa coisa de referência e contra- referência dos desvios do desenvolvi-
(...)” (ENFERMEIRO I). mento é que as Unidades
Isso torna explícita uma falha do segmento de Saúde não apresenta-
da saúde, pois contribui com a limitação do rem sistema de referência
acompanhamento do desenvolvimento neu- e contra-referência com
ropsicomotor infantil, pelo enfermeiro, bem nenhuma instituição espe-
como do trabalho com a família acerca da cializada (NÓBREGA, 2003;
importância do encaminhamento e da ade- FIGUEIRAS, 2003).
são ao tratamento de estimulação precoce,
quando necessário. A Secretaria da Saúde RECOMENDAÇÕES:
do Estado da Bahia (SESAB), em seu Progra- Para que haja uma efetiva vi-
ma de Atenção Integral à Saúde da Criança, gilância do desenvolvimento
tem como proposta promover o acompanha- infantil, levando-se em con-
mento do desenvolvimento físico e psíquico ta que os enfermeiros do es-
da criança, como ação eixo da assistência e tudo referiram ausência de
incentivar a identificação de crianças de ris- embasamento teórico para
co para atendimento especial (BAHIA, 2007). o acompanhamento do de-
Apesar disso, nenhum dos enfermeiros citou senvolvimento infantil e de-
como encaminhamento o CEPRED (Centro tecção de desvios, torna-se
de Prevenção e Reabilitação de Deficiências), necessária a capacitação des-
órgão da Secretaria de Saúde do Estado da ses profissionais, por meio
Bahia que possui o serviço de estimulação pre- de educação continuada,
coce, voltado para crianças que apresentam sobre desenvolvimento in-
atrasos no desenvolvimento neuropsicomo- fantil, seus marcos, desvios,
tor ou risco de apresentá-lo. A dificuldade no
encaminhamento, por parte dos enfermeiros,
fatores de risco, sendo res-
saltados aspectos relativos às
183

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
7.5. Vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor
infantil na Estratégia Saúde da Família
conseqüências de um diag- mento e às doenças prevalentes da infância,
nóstico e tratamento tardio, mas aqueles referentes ao desenvolvimento
visto que esses últimos tra- neuropsicomotor de ordem biológica, psíqui-
zem sérias repercussões para ca ou social.
a qualidade de vida dessas
crianças. As orientações à
família, sobre o desenvol-
vimento da criança, bem
como a importância, para
ela, dos estímulos oferecidos
e o prejuízo da ausência des-
tes, devem ser incorporadas
à prática da enfermagem, na
estratégia Saúde da Família,
no que concerne a vigilância
do desenvolvimento infantil.
A estratégia Saúde da Famí-
lia, a partir dos seus pressu-
postos, como o vínculo com
a comunidade, a atenção
à população adstrita, ofer-
ta organizada, seguindo o
princípio da vigilância à saú-
de, possui todos os requisi-
tos necessários para que a
enfermagem preste atenção
integral à saúde da criança.
O vínculo entre a mãe e o
enfermeiro, o retorno perió-
dico da criança ao serviço e
o acompanhamento desde o
pré-natal da genitora favore-
cem a enfermagem, prestar
atenção integral à saúde da
criança, de modo que venha
184 a contemplar não só os as-
pectos referentes ao cresci-

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela
Autor Principal: (AVISA). Selecionamos uma
CICERO EDJEDAN ALVES DA SILVA amostra de seis E.S.F. para re-
Outros Autores: alização da coleta de dados,
MARIA MISRELMA MOURA BESSA que se deu por meio de uma
Área Temática: Assistência na AB/SF pesquisa de campo onde fo-
Local onde o trabalho foi realizado: ram entrevistados e observa-
Juazeiro do Norte – CE dos trabalhadores das E.S.F.,
médicos(as) e enfermeiros(as).
RESUMO: Os dados foram coletados
A magnitude com que a violência acomete a por meio de uma entrevista
sociedade deixa na população seqüelas físicas semi-estruturada, check-list e
e psíquicas que demandam grandes gastos diário de campo e, posterior-
para a saúde. Por sua função estratégica, ob- mente, submetidos à análise
servou-se a Atenção Primária como uma vital que permitiu o levantamento
ferramenta na estruturação do atendimento à de importantes informações
vítima de violência doméstica, pois são as E.S.F. apresentadas em seis cate-
a porta de entrada para o atendimento a essa gorias: percepção do setor
clientela, representando assim uma importante saúde na atenção à violência
estratégia tanto no tratamento das seqüelas, doméstica; estruturação das
quanto no encaminhamento, acompanhamen- unidades de saúde; coleta,
to e prevenção dos casos de violência. Para registro e notificação dos da-
tanto é necessária às E.S.F. a existência de de- dos; capacitação dos recursos
terminados requisitos, como recursos humanos humanos; aspectos relaciona-
capacitados; estrutura física adequada das uni- dos ao atendimento; e desa-
dades de saúde; equipamentos/instrumental; fios e expectativas. A atenção
atendimento integral e humanizado, com flu- à vítima de violência domés-
xogramas e encaminhamentos; coleta, registro tica apresenta diversos desa-
e notificação dos dados; e participação comu- fios. A participação da saúde
nitária. O presente estudo tem como objetivo é de fundamental relevância
analisar a atenção prestada, pela Atenção Pri- e, para tanto, é necessário
mária à Saúde, à vítima de violência doméstica investir na formação dos pro-
no município do Juazeiro do Norte, Ceará. A fissionais, criação de rotinas
pesquisa foi realizada no período de setem- institucionais diante dos casos
bro de 2007 a abril de 2008, sendo abordada de violência doméstica, arti-
a rede de Atenção Primária à Saúde que con- culação de listas de referência
templa 50 Equipes de Saúde da Família (ESF),
distribuídas em seis Áreas de Vigilância à Saúde
de instituições, serviços, orga-
nizações que possam receber
185

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela os encaminhamentos para os fenômeno violência doméstica para o sistema
casos atendidos nas U.B.S., de saúde, dadas as seqüelas físicas e emocio-
integrando uma rede de pre- nais proporcionadas às vítimas. A Organização
venção e melhoria do registro Pan-Americana de Saúde (OPAS, 1993) anali-
dos casos de violências a fim sa que a violência, pelo número de vítimas e a
de poder subsidiar o planeja- magnitude de seqüelas orgânicas e emocionais
mento de ações futuras. Com que produz, adquiriu um caráter endêmico e se
os resultados emergentes des- converteu em um problema de saúde pública
se estudo, pretende-se pro- em vários países. Ainda que a família seja o gru-
porcionar um momento de po onde buscamos apoio para repor as energias
reflexão entre os profissionais com afeto, cuidado e companheirismo, grande
de saúde em suas três áreas parte das situações de violência desenvolve-se
de atuação: ensino, pesquisa dentro do ambiente doméstico. Esse tipo de
e assistência, para que, pela violência é chamada de violência doméstica,
da voz desses profissionais, caracterizada por atos violentos dentro da uni-
possa-se repensar, urgente- dade doméstica, geralmente por um membro
mente, o papel do profissio- que vive com a vítima. Apesar de esse tipo de
nal frente à problemática da violência puder ocorrer com qualquer membro
violência doméstica. da família, as crianças, idosos e mulheres estão
mais propensos a serem vitimizados. Como
INTRODUÇÃO: apresentado, o setor saúde, em especial a Aten-
A importância da saúde na ção Primária, pode ter impacto significativo no
assistência à vítima de violên- combate à violência e aos problemas de saúde
cia não se observa somente relacionados a esta. Nesse contexto se faz neces-
na atualidade. Desde 1993, sária a participação dos profissionais de saúde
a ONU (Organização das para uma mudança histórica de pensamentos e
Nações Unidas) reconhece paradigmas, uma vez que têm a oportunidade
tal problemática como uma e a obrigação de identificar os casos de violên-
questão de saúde pública. cia. No contexto da atenção integral à saúde,
Essa tendência está embala- a assistência à vítima de violência doméstica
da na constatação crescente deve ser organizada mediante conhecimentos
da violência doméstica estar científicos atualizados, bases epidemiológicas
associada a um maior risco sustentáveis e tecnologias apropriadas. É essen-
para diversos agravos à saú- cial que existam mecanismos bem definidos de
de física e mental das vítimas. detecção, acolhimento, encaminhamento, no-
186 Estudos recentes comprovam
haver grandes implicações do
tificação e tratamento às vítimas. Para efetiva-
ção e eficiência do serviço, é necessário mínimo

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela
de estruturação, como instalação de área física, Objetivo geral:
recursos humanos capacitados e sensibilizados, – Analisar a atenção prestada
equipamentos e instrumental, registros de da- à vítima de violência domés-
dos, fluxogramas e sistema de informação. tica pela Atenção Primária à
A realidade sociocultural do Cariri não é di- Saúde no município do Jua-
ferente do restante do país e a problemática zeiro do Norte, Ceará.
da violência doméstica potencialmente está Objetivos específicos:
presente no cotidiano dos profissionais de – Verificar a existência de es-
saúde. A experiência vivida pelo pesquisador paços físicos adequados para
durante dois anos em uma organização não- o atendimento da vítima de
governamental (ONG) feminista, no municí- violência doméstica.
pio de Crato, Ceará, como bolsista, desper- – Reconhecer o nível de co-
tou o desejo para a discussão desse quadro. nhecimento e sensibilização
No decorrer desse período foi observada a dos profissionais acerca da
magnitude com que a violência acometia as problemática.
mulheres e crianças do Cariri e a necessida- – Investigar a existência de
de e importância do setor saúde no com- fluxogramas e instrumentos
bate a essa realidade. Diante dessa situação de notificação nos casos de
apresentada, propõe-se a realização desse violência doméstica.
estudo, onde será analisado o nível de aten-
ção prestado à vítima de violência doméstica METODOLOGIA:
pela Atenção Primária à saúde, no município A natureza desse trabalho é
de Juazeiro do Norte, buscando conhecer a qualitativa, pois buscamos
existência dos vários elementos necessários a interpretação da realida-
à Rede de Atenção à Vítima de Violência de por meio de observações
Doméstica. Sabendo que a problemática da acerca da problemática, ob-
violência doméstica é de grande significado jetivando captar as dimensões
para a saúde pública, sendo uma questão subjetivas da ação humana
inerente à Atenção Primária e, ainda, um que os dados quantitativos
entrave à assistência integral e humanizada, não conseguem captar. Se-
percebe-se a relevância desse estudo, uma gundo Lakatos, E. M. e Mar-
vez que permitirá conhecer aspectos refe- coni, M. de A. (2005, p.140),
rentes ao tema, de grande valia para a área a pesquisa qualitativa deseja
da saúde, assim como para os demais seto- encontrar dados subjetivos
res envolvidos no combate à violência. condizentes com o problema,

OBJETIVOS:
procurando entendê-lo como
um todo e assim como ocorre
187

ATENÇAO BÁSICA / SAÚDE FAMÍLIA


ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela naturalmente. Com relação Saúde da Família (ESF), situadas na zona rural
aos fins, esse estudo é do e urbana, distribuídas em seis Áreas de Vigi-
tipo exploratório-descritivo. lância à Saúde (AVISA). A coleta de dados foi
Exploratório porque, de acor- realizada por meio de uma pesquisa de cam-
do com Minayo et al. (1994, po, tendo como população profissionais com
p.152), apresenta característi- nível superior da Atenção Primária a Saúde,
cas como: investigar, analisar mais especificamente trabalhadores das ESF,
e definir os objetivos, como médicos(as) e enfermeiros(as). Tendo em vista
também obter mais infor- o objetivo principal da amostragem (que é re-
mações acerca do problema duzir as limitações financeiras, a saturação dos
descritivo, pois expõe caracte- dados, as discrepâncias entre os resultados dos
rísticas da realidade pesquisa- dados colhidos e as verdadeiras características
da, estabelecendo correlações da população em estudo), optamos por: (1) se-
entre as variáveis, como insta- lecionar uma amostra composta de seis E.S.F.,
lação da área física, recursos onde foi escolhida uma equipe por cada AVISA
humanos, equipamentos, ins­ a fim de obter maior cobertura e representativi-
trumentos e registros dos da- dade; (2) utilizou-se o critério inclusão-exclusão
dos pertinentes à questão da para seleção das respectivas E.S.F. dentro de
violência doméstica. A pes- cada AVISA. A seguir encontram-se descritos,
quisa foi realizada no interva- em detalhes, os critérios usados para definição
lo de oito meses, de setem- dos sujeitos a amostra segundo o método da
bro de 2007 a abril de 2008, inclusão-exclusão. Inclusão:
sistematicamente conforme – Profissionais de nível superior, especifica-
o cronograma, no município mente enfermeiros(as) e médicos(as), que
do Juazeiro do Norte, situa- compõem as Equipes de Saúde da Família
do na região sul do Ceará, a de Juazeiro do Norte – CE.
600 km da capital (Fortaleza), – Profissionais de nível superior, enfermeiros(as)
com uma área de 248,558 e médicos(as), que aceitem participar de forma
km2, a uma altitude média livre e esclarecida dessa pesquisa.
de 350 metros. A população – Profissionais de nível superior, enfermeiros(as)
do município é estimada em e médicos(as), que trabalhem em unidades
240.638 habitantes, sendo acessíveis ao investigador.
sua taxa de urbanização de – Unidades de Saúde da Família localizadas na
95,3% (WIKIPÉDIA, 2007). zona urbana.
O município dispõe de uma Exclusão:
188 rede de Atenção Primária
que contempla 50 Equipes de
– Profissionais das Equipes de Saúde da Família
de nível fundamental e médio

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela
Utilizamos como instrumentos de coleta de da- (2006), o diário de campo é o
dos: a entrevista semi-estruturada (apêndice II), relato escrito daquilo que o in-
o check-list (apêndice III) e o diário de campo, vestigador ouve, vê, experiên-
o que permitiu uma triangulação entre os di- cia e pensa no decurso da co-
versos instrumentos, levando a alcançar uma leta de dados. Muitos autores
ampla cobertura das variáveis e, conseqüente- consideram o uso adequado
mente, melhor reconhecimento da realidade. do diário de campo para estu-
A entrevista semi-estruturada, recurso esse nas dos qualitativos. Por se tratar
quais as perguntas foram direcionadas aos di- do detalhamento descritivo e
versos atores da amostra, permitiu maior ob- pessoal sobre os interlocuto-
jetividade no processo de coleta dos dados por res, grupos e ambientes estu-
favorecer a condução da entrevista de acordo dados, permitindo assim uma
com os objetivos almejados. Permitiu ainda ob- maior efetividade na coleta de
ter informações contidas nas falas dos sujeitos dados subjetivos. A coleta de
do estudo, a fim de esclarecer determinantes e dados foi realizada de acor-
condicionantes da realidade discutida. As res- do com os instrumentos in-
postas foram registradas integralmente com dicados anteriormente, onde
uso de gravador, que, de acordo com Minayo foram selecionados e identi-
et al. (1994, p. 98), é o instrumento mais usual ficados mediante semelhan-
no campo de trabalho. O roteiro de entrevista ças e diferenças. Logo após
foi composto de um questionário, com ques- foram analisados e reunidos
tões enunciadas como perguntas subjetivas, em categorias, permitindo ser
de forma organizada e sistematizadas, tendo feitas conclusões com base na
como objetivo alcançar informações adequa- literatura referente sobre essa
das para oferecer fidedignidade nos resultados. problemática. Tendo em vista
O check-list, instrumento que permite realizar reconhecer a adequabilidade
a observação sistematizada dos pontos consi- dos instrumentos de coleta de
derados importantes ao estudo, foi elaborado dados, para atender aos obje-
considerando os pontos e conceitos encontra- tivos da pesquisa, foi realiza-
dos na literatura relacionados à temática traba- do um pré-teste dos referidos
lhada, sobre tudo a estruturação dos serviços instrumentos em duas E.S.F
de saúde na atenção às vítimas de violência do município de Crato, Cea-
doméstica. No diário de campo, o investigador rá. Segundo Andrade (2001,
utiliza a observação como instrumento de co- p. 145), fazer o pré-teste: [...]
leta de dados e pode registrá-los em um diário consiste em aplicar os instru-
de campo, que tem nessa observação o ponto
de partida para a sua utilização. Segundo Roese
mentos de pesquisa em uma
parcela da amostra a fim de
189

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela verificar a validade ou relevân- pelo Comitê de Ética em Pesquisa – CEP, da
cia dos quesitos, a adequação Faculdade de Medicina do Juazeiro do Norte
do vocabulário empregado, o (FMJN), Ceará, o qual emitiu parecer favorável
número e a ordem das per- à realização da pesquisa.
guntas formuladas etc. Rela-
cionados aos aspectos éticos, APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
seguimos o que preconiza a E DISCUSSÃO:
resolução 196/96 do Minis- Na busca em conhecer como a Atenção Primá-
tério da Saúde, que dispõe ria atua frente à violência doméstica, apresenta-
sobre pesquisas envolven- mos dados e informações, segundo as interpre-
do seres humanos (BRASIL, tações dos trabalhadores das E.S.F., quanto ao
1996), em que incorporamos atendimento prestado pela Atenção Primária à
as quatro referências básicas Saúde à vítima de violência doméstica no muni-
dessa resolução, as quais são: cípio de Juazeiro do Norte, Ceará. A partir dos
autonomia, não-maleficência, depoimentos dos sujeitos foi feita análise e in-
beneficência e justiça, visan- terpretação dos dados, que foram organizados
do a assegurar os direitos e mediante a construção das categorias, como se
deveres que dizem respeito seguem: percepção do setor saúde na atenção
à comunidade científica, aos à violência doméstica. No que diz respeito ao
sujeitos da pesquisa e ao esta- tema, os sujeitos dessa pesquisa vêem a violên-
do. Dessa forma garantimos cia doméstica como um problema como uma
o sigilo perante os achados, questão complexa e de múltiplas dimensões
liberdade em participar ou que envolvem uma diversidade de fatores tanto
não do estudo, bem como se sociais, econômicos, culturais e político.
retirar da pesquisa se assim Enf. 6 – “É um problema de diversas faces. É a
os sujeitos desejarem. A pes- falta de perspectivas para as pessoas, é falta de
quisa contou com o consenti- educação, de trabalho...”
mento livre e esclarecido dos Méd. 1 – “São fatores como a fome, o desem-
entrevistados, onde assinaram prego, o alcoolismo que geram a violência”.
um termo de consentimento. Os depoimentos acima revelam diferentes per-
Também foi encaminhado à cepções, por parte dos profissionais abordados,
Secretaria de Saúde do muni- dos fatores desencadeantes da violência do-
cípio um ofício, o qual apre- méstica. Entretanto a determinação social mos-
sentou o projeto ao secretário tra-se implícita aos depoimentos. Em alguns
vigente. Para maior relevância momentos, a violência doméstica é confundida
190 e seriedade da pesquisa, ela
foi submetida à aprovação
com outras formas de violência, como a intra-
familiar, contra a mulher ou infantil. Por outro

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela
lado, algumas falas definem o significado do to ginecológico. Observa-se
termo violência doméstica com precisão: que 16,7% das E.S.F. não
Méd. 1 – “É qualquer tipo de violência que dispunham de pinças cheron;
ocorra dentro do domicílio. Pode ser sofri- 33,3% não dispunham de
da por parentes ou por pessoas que moram ácido acético a 2% e lugol; e
dentro de uma casa, tenham esses graus de nenhuma das equipes tinha
parentesco ou não”. vaselina (agente lubrifican-
Para maioria dos entrevistados, a participa- te) e papel filtro, todos insu-
ção do setor saúde no combate à violência mos necessários ao exame
doméstica é de grande importância. Segun- ginecológico.
do esses, a Atenção Primária, em especial as Coleta, registro e notificação
E.S.F., é a porta de entrada para o atendi- dos dados.
mento à clientela, funcionando assim como A análise dos depoimentos
uma importante estratégia no tratamento revela que não existem instru-
das seqüelas, encaminhamento e acompa- mentos de coleta, registro e
nhamento dos casos de violência. notificação dos dados.
Enf. 2 – “O papel da gente é primordial, uma Enf. 3 – “Não possuímos ins-
vez que a gente, no caso das E.S.F., é a porta de trumentos específicos para a
entrada ao sistema de saúde... Então quem faz coleta de dados”. O serviço
o primeiro atendimento ao cliente é a E.S.F”. não oferece especificidade ao
Porém foi relatada por outros profissionais atendimento à violência do-
que é desconhecida qualquer relação do setor méstica.
saúde, mais especificamente das E.S.F., com a Parte dos profissionais en-
questão da violência doméstica. trevistados informa registrar
Enf. 4 – “Não sei te falar como está o PSF com os dados coletados acerca
relação à violência doméstica”. dos episódios e violência
Estruturação das unidades de saúde. doméstica nos prontuários
A análise das falas de parte dos sujeitos dos pacientes. Entretanto os
entrevistados informa a não-existência de prontuários das E.S.F. não
uma estrutura física adequada para um oferecem segurança e pri-
atendimento de qualidade. vacidade das informações
Méd. 6 – “A gente não tem sala para atender coletadas, essencial ao aten-
individualmente esses pacientes. Aqui funcio- dimento de qualidade.
nam duas equipes”. Enf. 2 – “Quem tem acesso ao
A aplicação de um check-list que determinadas prontuário: o auxiliar, o agen-
equipes não dispuseram de certos materiais,
principalmente alguns essenciais ao atendimen-
te administrativo, os A.C.S...
Então a gente procura não
191

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atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela escrever tudo que acontece, muito provavelmente no Brasil esse tipo de ca-
procuro escrever com siglas. rência estrutural dos prontuários tem ação dire-
Sempre tem pessoas que pro- ta sobre a qualidade dos serviços prestados.
curam espionar, divulgar”. Capacitação dos recursos humanos.
No caso específico da violên- Quanto à capacitação para o atendimento à
cia doméstica, é comum ser vítima de violência doméstica, os profissionais
praticada por integrantes da abordados referiram-se algum contato prévio
família da vítima. Inoportu- com o tema, porém enfatizaram que foi em
namente os praticantes da momentos pontuais e abordados de forma
violência, quando familiar sucinta. Não se consideram capacitados para
da vítima, compartilham o abordar as questões inerentes ao atendimento
mesmo prontuário na uni- à vítima de violência doméstica, tendo muito a
dade de saúde, têm o direito avançar nesse sentido.
ao acesso às informações re- Enf. 3 – “Os profissionais não estão sensi-
gistradas nele. bilizados e capacitados para atender a ví-
Méd. 6 – “Registro no pron- tima de violência doméstica no município
tuário do paciente. Esse pron- do Juazeiro do Norte”.
tuário só quem tem acesso Entretanto, são unânimes quanto à importân-
é o próprio paciente ou os cia da capacitação dos profissionais da saúde
familiares. Infelizmente, eles para a realização do atendimento à vítima de
são colocados todos no mes- violência doméstica nas E.S.F.
mo prontuário, se o pai quiser Méd. 1 – “É importantíssimo os profissionais
ver o prontuário da filha agre- terem essa noção de violência e saberem lidar
dida, ele tem acesso, o que com essa situação”.
a meu ver é errado. Mais a Enf. 3 – “O setor saúde deve oferecer capacita-
gente não tem estrutura física ção aos profissionais quanto ao atendimento à
para separar os prontuários”. vítima de violência doméstica”.
Apesar da subjetividade des- Infelizmente alguns dos sujeitos entrevistados
sas informações, observadas desconhecem a importância da capacitação e
nas falas dos profissionais sensibilização dos profissionais das E.S.F. quan-
abordados, é possível especu- to ao atendimento à vítima de violência domés-
lar que tenha associação dire- tica, em relação a outros temas.
ta com a baixa qualidade do Enf. 6 – “Então, não é que isso não seja impor-
prontuário utilizado, por não tante, mas existem outros temas que são mais
preservar o sigilo do atendi- relacionados à Atenção Primária mesmo, como:
192 mento. Segundo Negreiro, M.
M. e Tavares-Neto, J. (2006),
diabetes, hipertensão, desnutrição, a gente
deve mais atenção a eles”.

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela
Tal relato demonstra o desafio de se discutir bulatoriais. Porém referem-se
cada vez mais essa questão no âmbito da saú- a um atendimento sem fluxo-
de. É necessário, para uma atuação de qualida- grama, o que torna a atenção
de e boa aceitação do serviço pela comunida- confusa e casual. Sente-se
de, que os profissionais busquem qualificar-se falta de normas específicas no
para melhor atuação frente à problemática. A atendimento. Alguns pontos
análise dos relatos abaixo permite observar a importantes como o acolhi-
importância de outros profissionais na atenção mento e a escuta ativa não
à vítima de violência doméstica. Entre eles, den- são observados como ativida-
tro da Atenção Primária, destaca-se o Agente des inclusas na atenção às ví-
Comunitário de Saúde (ACS). timas de violência doméstica.
Méd. 02 – “O A.C.S. tem condições de estar Enf. 1 – “Se faz a orientação,
detectando por conta de estar visitando as ca- registra-se tudo no prontuá-
sas, então informam a gente”. rio e fazemos o encaminha-
Enf. 06 – “A gente tem um elo com a comuni- mento à delegacia da mu-
dade, que é o A.C.S. E quem está inserido na lher. Pede-se a visita de um
comunidade é quem nos traz isso aí. Pode estar agente social”.
fazendo visita e investigando aquele caso”. Enf. 3 – “Eu tento orientar
O agente comunitário de saúde é visto como e da melhor forma possível
um profissional de grande valia para o aten- resgatar seu amor próprio.
dimento de qualidade. É relatada sua inser- Valorizar sua auto-estima.
ção na comunidade como uma boa oportu- Passar conhecimentos do
nidade de detectar e acompanhar casos de que aquele ato pode gerar
violência. Os agentes comunitários de saúde, para a sua saúde”.
por meio de apoio social e de ações interseto- Segundo Rufino (2001), a
riais, garantiram sua forte identificação com aplicação de um plano de
a comunidade e com um perfil social de forte ação e protocolos específicos
solidariedade, constituindo-se um trabalha- para o atendimento é funda-
dor singular em saúde. mental para promover a con-
Aspectos relacionados ao atendimento. fiança das vítimas e, em con-
Os profissionais apresentaram deter certa no- seqüência, tornar visíveis as
ção de alguns procedimentos, recomendados dimensões reais do problema,
pela literatura, frente a um caso de violência criando assim condições para
doméstica. Os procedimentos de práxis são: a o seu enfrentamento. Parte
orientação da vítima quando a direitos e deve- dos profissionais admite re-
res, registro dos dados no prontuário, encami-
nhamento e alguns procedimentos clínico-am-
ceio na prestação do atendi-
mento às vítimas de violência
193

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela doméstica. Consideram um que a gente não recebeu”.
assunto complexo e delicado Méd. 1 – “Não existe fluxograma de atendi-
de ser abordado, estando os mento aqui na unidade”.
profissionais à margem da Foi relatada a deficiência da Rede de Atenção
justiça e passível à repelia pe- à Vítima de Violência Doméstica em ofere-
los agressores. cer uma estrutura de serviços necessária a um
Enf. 5 – “Alguns colegas, atendimento integral e seguro. A questão da
que eu já ouvi falar, quando intersetorialidade foi dita como ausente no mu-
sabem de caso de violência nicípio. Foi alegada a falta de parcerias entre os
na comunidade, chegam até setores saúde, polícia, justiça e ação social.
a unidade de saúde e ficam Enf. 3 – “A gente não trabalha com uma par-
receosos de intervir. Porque ceria dos serviços. Deveria existir uma parceria
ele vai ficar desprotegido. entre justiça e saúde, já que é grande o número
Não tem nada que regula- de casos de violência no Juazeiro. A ação so-
mente ou proteja a gente cial... Algum órgão que pudesse manter parce-
para fazer a denúncia” ria com a saúde”.
O encaminhamento é um dos Desafios e expectativas.
procedimentos referidos mais Entre as principais dificuldades apontadas pelos
praticados pelos profissionais profissionais entrevistados, estão as relaciona-
durante o atendimento. Po- das às E.S.F. Segundo eles, a capacitação das
rém parte dos entrevistados equipes, responsável por esse atendimento,
mostrou-se desconhecer ou é um dos pontos de grande relevância para a
incerteza quanto aos órgãos prestação de uma boa atenção.
para ser encaminhadas as víti- Méd. 1 – “A capacitação dos profissionais... Já
mas de violência doméstica. que a gente está falando do nosso serviço, te-
Méd. 1 – “Não existe fluxo- mos que capacitar todos bem para esse tipo de
grama de atendimento aqui acompanhamento”.
na unidade”. Outros aspectos referentes às E.S.F., como so-
Segundo os entrevistados, brecarga de trabalho, ausência de assistência
não existe um fluxograma de- de outros profissionais e o envolvimento com
finido para o encaminhamen- a comunidade, foram ditos como desafios a se-
to da pessoa vitimizada. rem vencidos.
Enf. 1 – “Eu participei de uma Méd. 2 – “Nossa demanda é muito grande. Não
palestra e mostraram como a dá tempo fazer os encaminhamentos. Você se
gente deve dirigir as pessoas. acomoda. Não dá acompanhamento. Às vezes
194 Esse fluxograma ficou de ser
passado para as equipes, só
a gente se esquece”.
A ausência de uma Rede de Atenção à vítima

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela
de violência doméstica atuante é tida como tência de uma estrutura ade-
outra grande problemática. Segundo os en- quada para um atendimento
trevistados, questões como a falta de órgãos de qualidade, de modo que
competentes para acolhimento das vítimas de seja garantida a necessária
violência e a desarticulação dos já existentes di- privacidade dessas pessoas
ficultam ainda essa realidade. durante a entrevista e o exa-
Enf. 3 – “É... de fato não tem uma rede, uma me, compromete em parte o
intersetorialidade. Tem até alguns órgãos, o atendimento. Devem-se criar
que está faltando é uma articulação. É esses instrumentos específicos para
setores se unirem na luta por uma organização a coleta, registro e notificação
mais atuante”. dos dados. Por outro lado, é
Para alguns, não há uma organização da socie- preciso combater a relutân-
dade civil, precisando-se de uma maior parti- cia por parte dos profissionais
cipação da comunidade. Para isso, apontam a das E.S.F. quanto à notifica-
educação em saúde como uma forte ferramen- ção, criando os mecanismos
ta na sensibilização e articulação da comunida- sociais (e exigindo a atuação
de na reivindicação de uma melhor assistência dos já existentes) para que a
à vítima de violência doméstica. notificação não signifique de-
Enf. 1 – “A primeira coisa que deve melhorar núncia, no sentido repressivo
é a sensibilização da comunidade. Porque eles do termo. É necessário tam-
precisam chegar até a gente”. bém evitar o acesso desneces-
Observa-se nos depoimentos acima que é re- sário de outros profissionais
conhecida a importância da mobilização da co- das U.B.S. aos prontuários,
munidade na procura de soluções para a pro- o que acarretam maior risco
blemática e o mais importante é que apontam de expor informações de ca-
a educação em saúde como uma ferramenta ráter sigiloso. Por outro lado,
transformadora dessa realidade. é importante bom senso por
parte da E.S.F. em manter os
RECOMENDAÇÕES: prontuários que contenham
O atendimento prestado pelas E.S.F. da Aten- esse tipo de registro em segu-
ção Primária do município de Juazeiro do Norte rança, principalmente longe
ainda não se encontra estruturado, pois faltam dos agressores. É necessário
aos profissionais de saúde capacitação e sensi- promover sistematicamente
bilização para um serviço integral e de qualida- oficinas, grupos de discussão,
de e, ao poder público, articulação dos diversos cursos ou outras atividades
setores na construção da Rede de Atendimento
à vítima de violência doméstica. A não-exis-
de capacitação e atualização
dos profissionais, no intuito
195

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ESTUDOS E PESQUISAS
atenção primária à vítima de violência doméstica
7.6. Análise do atendimento prestado pela de sensibilizar e prepará- secos: a) sensibilização/capacitação dos
los para prestar um atendi- profissionais de saúde para a importância
mento adequado. Quanto do reconhecimento e da atuação diante
ao atendimento, é necessá- dessas situações; b) criação de rotinas ins-
ria maior articulação entre titucionais diante dos casos de violência
os diversos setores e cria- doméstica a fim de que os devidos encami-
ção de normas específicas nhamentos sejam realizados; c) articulação
para cada atendimento. É de listas de referência de instituições, ser-
importante a elaboração viços, organizações que possam receber os
ou aplicação, se existentes, encaminhamentos para os casos atendidos
de fluxogramas claros e vi- nas U.B.S; e d) melhoria do registro dos ca-
áveis para maior sucesso sos de violências. Todos esses comentários
nos encaminhamentos das e recomendações só têm um mínimo de
vítimas, evitando um aten- viabilidade se houver: a) reconhecimento
dimento confuso e trans- por parte das Secretarias de Saúde de que
tornos dentro da Rede. a violência doméstica demanda definição
Lembremos ainda que o de estratégias de atuação; b) preocupa-
dever do estado não exclui ção real com tais questões por parte das
a importância da participa- direções e chefias de E.S.F.; c) atitude de
ção da população, é vital a escuta às opiniões e experiência dos pro-
construção do vínculo pro- fissionais envolvidos; d) trabalho de equi-
fissional–comunidade na pe que conte com uma participação maior
busca de medidas seguras dos serviços de saúde mental e serviço so-
e efetivas na abordagem cial (inclusive nos plantões noturnos e de
da questão da violência fins de semana); e) ações de valorização e
doméstica. Assim, apon- estímulo ao profissional ligado a esse tipo
tamos que, para se conso- de atendimento; f) dinâmica contínua de
lidar uma perspectiva de comunicação e cooperação entre os diver-
atendimento pelas E.S.F. sos setores envolvidos nesse atendimento
às vítimas da violência do- com a rede básica da área; g) valorização
méstica integral, capaz de da informação (registrada com qualidade,
prover os cuidados clínicos sigilo, segurança, sistemática e de forma
com a qualidade necessária continuada); e h) articulação da Atenção
e que também inicie uma Primária à Saúde, por meio de serviços,
atuação de prevenção, tor- grupos e organizações da sociedade civil
196 na-se necessário investir
em quatro aspectos intrín-
e outros setores públicos no sentido de
apoiar as vítimas e prevenir tais agravos.

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ESTUDOS E PESQUISAS
interdisciplinar de famílias de crianças hospitalizadas
7.7. Ensino e assistência com abordagem
Autora Principal: mês residentes de segundo
NORMA BEATRIZ PIRES ano das áreas de medicina
Outros Autores: de família e comunidade,
MARIA LUCIA MEDEIROS LENZ, odontologia, enfermagem,
CARMEN FERNANDES, serviço social e psicologia.
LEDA CURRA, A equipe responsável pela
RODRIGO CAPRIO supervisão é formada por
Área Temática: Processos de Educação e médicos de família e co-
Formação em Saúde na AB/SF munidade, enfermeiras e
Local onde o trabalho foi realizado: terapeutas de família. O
Porto Alegre – RS estágio vem sendo avalia-
do pela equipe responsá-
RESUMO: vel pela supervisão, pelas
O Programa de Residência em Medicina de equipes de saúde e pelos
Família e Comunidade do SSC forma pro- residentes como momento
fissionais por meio de atuação em equipe favorável para o diagnós-
multidisciplinar, inserida nas comunida- tico da situação familiar,
des sob seus cuidados. Em 2004 iniciou- para a identificação de si-
se o Programa de Residência Integrada tuações de maior impacto
em Saúde da Família e Comunidade, am- na saúde dessas famílias,
pliando-se o número de categorias profis- para as discussões de casos
sionais que passaram a receber formação. interdisciplinarmente, para
O compromisso com a qualificação do a elaboração da sugestão
ensino na prática integradora estimulou a de plano de acompanha-
criação de campo de estágio vinculado ao mento às equipes de APS e
projeto “De Volta pra Casa” que identifi- para o reconhecimento da
ca crianças internadas pertencentes à área importância da integração
de abrangência desse serviço, fac