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A falácia da isonomia e a tributação sobre mulheres

Desde 1988, com o advento da Constituição Cidadã, prevalece - ou ao menos


deveria – um sistema de limites e garantias voltadas a tributação, inseridas
como propósito de limitar o poder estatal de tributar.

Dentre estas, destacam-se duas: o princípio da isonomia, que estabelece em


linhas gerais a vedação à instituição de tributação desigual entre contribuintes
que se encontrem em situação equivalente e o princípio da capacidade
contributiva que estabelece a necessidade de observância de que os impostos
tenham sua instituição respeitando a capacidade econômica do contribuinte.

Do primeiro, depreende-se que, se homens e mulheres são iguais perante a lei,


resta inconstitucional a instituição de tributação maior às mulheres pelo
simples fato de serem pertencentes a este gênero sexual.

Do segundo, de igual forma resta inconstitucional, que ao serem instituídos, os


tributos não considerem a capacidade contributiva dos indivíduos, ou seja, sua
real capacidade de pagamento.

A despeito das bem intencionadas determinações constitucionais, o Sistema


Tributário Brasileiro permite a tributação desigual graças a suas próprias
características tais como regressividade e ênfase numa tributação sobre
consumo (em detrimento da instituição de tributos sobre renda e patrimônio).
Como efeito prático desta situação, pesquisas recentes do  Instituto de Estudos
Socioeconômicos (Inesc), comprovam que o sistema Tributário Brasileiro é
injusto não só pela perspectiva de classe, mas também quando se analisa o
recorte de gênero e raça, ou seja, mulheres negras pagam, proporcionalmente,
mais impostos do que homens brancos.

Apesar de não ser explícito, tais constatações são extraídas de forma indireta,
afinal quando se tem como parâmetro a instituição de impostos indiretos
(impostos sobre o consumo), nivela-se em um mesmo patamar todos os
contribuintes, desconsiderando-se assim quem pode pagar mais ou menos
(violando-se o princípio constitucional da capacidade contributiva).
A guisa de exemplo, imagine-se duas pessoas: um homem branco executivo,
com renda superior a dez salários mínimos e uma mulher negra dona de casa,
renda inferior a um salário mínimo que vão a um supermercado comprar um
litro de leite. Sob o produto, estão embutidos impostos que oneram o preço
final desta mercadoria e que são repassados ao consumidor de forma igual. Ao
final ambos consumidores – independente de possuírem rendas distintas –
pagarão a mesma carga tributária.

Açodadamente, poderão indagar alguns: então se está cumprindo o que


determina a Constituição, afinal ambos estão pagando o mesmo valor de
tributo, respeitando-se assim a isonomia enquanto valor constitucional.

Ledo engano.

Afirma-se isso pois, a noção de igualdade enquanto valor constitucionalmente


tutelado deve ser compreendida em sua dupla acepção (formal e material), não
sendo correta a compreensão da igualdade apenas perante a lei (sentido
formal). Nesse sentido, debruçando-se sobre as duas acepções propostas,
considera Helena Costa (p. 54, 2014) ao referir-se a igualdade no seu sentido
material que “refere-se ao desejável tratamento equânime de todos os
homens, proporcionando-lhes idêntico acesso aos bens da vida. Cuida-se,
portanto, da igualdade em sua acepção ideal, humanista, que jamais foi
alcançada”. Por outro lado, ao referir-se à igualdade concebida em seu sentido
formal considera-se apenas o tratamento legal, ou seja, trata-se de vedação ao
tratamento discriminatório na lei.

Em matéria tributária, a adoção do princípio da isonomia (art. 150, II, CF) deve
ser compreendido em sua dupla acepção de sentido sobre igualdade, vedando
dessa forma o tratamento discriminatório perante a lei (sentido formal da
igualdade), bem como em seu sentido material, autorizando-se o
estabelecimento de discriminações, apenas quando estas voltam-se a
alcançar a realização de justiça (sentido material da igualdade).

Dessa forma, ao se considerar que – amparado em recentes pesquisas do


IBGE (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD) e Pesquisa de
Orçamento Familiar (POF) - os 10% mais pobres da população são compostos
majoritariamente por negros e mulheres (68,06% e 54,34%, respectivamente) e
que estes comprometem 32% da renda com os impostos, enquanto os 10%
mais ricos, em sua maioria brancos e homens ( 83,72% e 62,05%,
respectivamente) empregam 21% da renda em pagamento de tributos, tem-se
a constatação do quanto as noções de isonomia em matéria tributária não são
respeitadas e, por via obscura – o que aliás parece ser uma regra nesse país –
legitima-se que mulheres (em especial negras e pobres) paguem muito mais
tributos do que os homens, afinal proporcionalmente a carga tributária instituída
por meio de impostos indiretos onera muito mais àqueles que possuem renda
menor, o que no Brasil, infelizmente, está vinculado às mulheres negras.

Milton Silva de Vasconcellos

Advogado tributarista, Mestrando em Políticas Sociais e Cidadania


(UCSAL), Especialista em Direito Público (NASSAU), Professor universitário.