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culturaepensamento

COL EÇÃO

ARTE,
CULTURA E
DEMOCRACIA
NO SÉCULO XXI
com AILTON KRENAK, ÁLVARO RESTREPO,
ANTÔNIO NÊGO BISPO, JORGE BLANDÓN,
JOSE ANTONIO MAC GREGOR C., JUCA FERREIRA,
LEDA MARIA MARTINS, LUCERO MILLÁN, MARIA THAÍS,
PAULO PIRES DO VALE E RENATA MARQUEZ.

DEZ / 2019

ANO 1

#1
Foto RICARDO LAF

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Hélio Prata - CRB6/1849)

A786 Arte, Cultura e Democracia no Século XXI.-- Belo Horizonte


: Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte,
2019.
72 p. -- (Cultura e pensamento ) --

ISBN 978-85-60151-07-3

1. Cultura. 2. Política cultural. 3. Arte. 4. Democracia.


I.Belo Horizonte (MG) - Secretaria Municipal de Cultura.

CDD: 306.086

EXPEDIENTE
Prefeitura de Belo Horizonte
Secretário Municipal de Cultura: Juca Ferreira
Secretário Municipal Adjunto de Cultura: Gabriel Portela
Presidenta da Fundação Municipal de Cultura: Fabíola Moulin

Coleção Programa Cultura e Pensamento

Conselho Editorial: Lena Cunha (coordenação), Ananias José Freitas,


Armando Almeida, Celma Ferreira, Gabriel Portela, João Pontes, Juca Ferreira,
Karime Cajazeiro, Leonardo Beltrão, Marcelo Bones, Simone Gallo
Produção Editorial: Voltz Design
Projeto Gráfico: Alessandra Maria Soares, Cláudio Santos, Ivan de Castro
Revisão: Cláudia Campos
Tradução: Paula Zawadzki
Transcrição: Tecla Transcrição
Foto da Capa: Daniel Monteiro
Créditos de fotos: Ana Beatriz M. Baêta, Alexander Krivitskiy, Cindy Paternina,
Daniel Monteiro, Henry & Co., Jackson David, Jakob Owens, Ricardo Laf,
Sandra Zea, Thaynara Souza, Thiago Japyassu
Contatos: gab.smc@pbh.gov.br

Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem,
2 necessariamente, a visão da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação 3
Municipal de Cultura de Belo Horizonte sobre o assunto.
A rte, c u ltura e
d emocracia no
s éc ulo XXI
A Coleção Cultura e Pensamento A formação de mentalidades
inaugura uma política editorial permitida pelos novos ambientes
voltada a divulgar e disponibilizar de comunicação vem ampliando a
reflexões produzidas a partir de participação da cultura não apenas
iniciativas promovidas pela Prefeitura em termos econômicos, mas também
de Belo Horizonte por meio da sob a forma de demandas sociais e
Secretaria Municipal de Cultura e de mobilização por direitos e como
da Fundação Municipal de Cultura expressão de cidadania e respeito à
de Belo Horizonte. Um de seus diferença.
propósitos é tornar periodicamente
pública a sua produção de O conteúdo destas publicações,
conhecimento de modo a ampliar o seja proveniente da realização de
debate sobre questões afins. eventos, de encontros internacionais
ou seminários, deve sempre
Essa coleção nasce do desejo de resultar das discussões e debates
promover reflexões e debates sobre de âmbito nacional e internacional
temas relevantes para a compreensão em permanente diálogo com a
do Brasil e do mundo contemporâneo cidade, em todas as suas dimensões
no âmbito do Programa Cultura materiais e intelectuais ao longo de
e Pensamento. A primeira edição sua história.
reúne parte considerável dos
debates que deram o tom do que A criação da Coleção Cultura e
DEZ / 2019 foi o Encontro Internacional Arte, Pensamento é um compromisso de
Cultura e Democracia no Século XXI, fortalecer uma política pública para
ANO 1 realizado em agosto de 2019 em Belo a cultura que tenha como um de seus
#1 Horizonte, Minas Gerais. pilares a disponibilização gratuita
e a democratização de acesso ao
Esta publicação convida a reflexões conhecimento. Daí seu caráter de
que remetem a questões cruciais projeto especial e permanente.
4 sobre a contemporaneidade. 5
1 2
14 Cultura, crise e
democracia no século
XXI – reflexões críticas
30 Cultura e participação
social no século XXI
3
46 Política, criação, corpo
e afeto – os desafios do
século XXI
66 Programação
completa do Encontro
Internacional Arte,
cultura e Democracia no
15 Cultura, Estado e sociedade 31 O que nós estamos fazendo? 47 Ser florestaS, e não pomar Século XXI
Juca Ferreira Renata Marquez Maria Thaís

20 Gestão cultural para a 36 Teatro e participação cidadã 52 Fracasso, educação e corpo


democracia Lucero Millán Álvaro Restrepo
Jose Antonio Mac Gregor C.
39 Plano Nacional das Artes – 56 Corpo, memória de afetos –
26 Fios que se entrelaçam Manifesto “Para todos, com os cantares Maxakali
numa espiral da vida cada um” Leda Maria Martins
Jorge Blandón Paulo Pires do Vale
61 Um lugar onde a Terra
42 Cultura e… Cultura ou… descansa
Antônio Nêgo Bispo Ailton Krenak

6 7
Foto THAYNARA SOUZA
AO LEITOR
Belo Horizonte, desde sempre, é para a área da cultura que são re- um intelectual de renome interna-
uma cidade que reúne e sintetiza to- ferência no cenário nacional e que cional, que nos lembrou com preci-
das as características de Minas Ge- vêm sendo fortalecidas e ampliadas são:
rais. Falo isso com o olhar de quem nos últimos anos.
adotou essa cidade há mais de dois
anos e meio e, aos poucos, foi sen- São exatamente essas razões que
do adotado por ela, admirando e fazem com que Belo Horizonte pos-
entendendo melhor suas caracterís- sa realizar e sediar esse Encontro
ticas e sua pluralidade de sentidos. Internacional com foco nas relações A história é um labirinto. Acredita-
entre a arte, a cultura e a democra- mos saber que existe uma saída,
Belo Horizonte expressa uma con- cia. É essa ousadia respeitosa que mas não sabermos onde está. Não
jugação entre o respeito à tradição, nos permite abrir mais um espaço havendo ninguém do lado de fora
característica típica das Minas Ge- institucional de reflexão e de criativi- que nos possa indicá-la, devemos
rais – o pensar muito antes de falar, dade, únicas armas capazes de fazer procurá-la nós mesmos. O que o
a cortesia no trato com todos e uma com que as cidades e as sociedades labirinto ensina não é onde está a
resistência a radicalismos supérflu- evoluam, de forma pacífica e demo- saída, mas quais são os caminhos
os – e a ousadia cosmopolita na bus- crática, em uma construção coletiva que não levam a lugar algum.
ca de soluções e inovações na cons- e solidária, sem discriminações e
trução da convivência coletiva. preconceitos de qualquer tipo. (BOBBIO, 1987)

Mas o que me chamou a atenção, Vivemos um momento especial-


desde antes de vir para cá assumir mente difícil em nosso país para a Assim, com esse espírito e com a
a Secretaria Municipal de Cultura, cultura, a educação e a ciência, ata- certeza de que seguiremos em fren-
aceitando o honroso convite do Pre- cadas e ameaçadas por retroces- te, é que realizamos esse Encontro
feito Alexandre Kalil, foi, sobretudo, sos inimagináveis há pouco tempo Internacional Arte, Cultura e Demo-
a efervescência da sua vida cultural, atrás. Mas é a sociedade toda que cracia.
intelectual e artística. Essa eferves- está sendo atacada, com conquistas
cência carrega a contribuição de ge- sociais e direitos sendo demolidos Viva a democracia, a arte e a cultura!
rações e gerações de artistas, pen- dia após dia, e assistindo atônita ao
sadores, escritores, atores, músicos crescimento de um discurso que se Juca Ferreira
e gestores culturais de vertentes apoia na violência e no culto à morte Secretário Municipal de Cultura
diversas, mas que sempre somaram e à destruição. Enquanto isso a eco-
em uma mesma direção. nomia nacional vai sendo solapada,
entrando em uma recessão profun-
Belo Horizonte produz cultura em da, e a credibilidade do país vai se
todas as suas regiões geográficas deteriorando no cenário mundial de
e em todos os estratos sociais. Do uma maneira nunca vista em nossa
centro à periferia, da periferia ao história.
centro, é uma cidade que faz teatro,
dança, música, artes plásticas para Certamente, esse Encontro, com a
todos os gostos e estilos. participação de expressões de uma
gama plural e representativa das
Uma cidade que é plural e respeita mais diversas linhas de pensamento
essa pluralidade e que demonstra e de experiências nacionais e inter-
isso sendo palco de grandes even- nacionais variadas, significará um
tos, grandes festivais, grandes gru- avanço frente aos desafios que te-
pos de dança, de música e de tea- mos pela frente. É esse espírito que
tro, ao mesmo tempo que estimula nos anima e nos congrega aqui hoje. REFERÊNCIA
as mais diversas vocações artísticas
iniciantes, reforça as culturas tradi- Não poderia deixar de, ao terminar BOBBIO, Norberto. O futuro da de-
cionais e abre espaço para todas as essas palavras, ousar citar um ícone mocracia: uma defesa das regras
8 manifestações artísticas. Isso tudo da cultura e do pensamento do sé- do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 9
é reforçado por políticas públicas culo XX, o italiano Norberto Bobbio, 1987.
Foto DANIEL MONTEIRO

AO LEITOR
Neste momento alguns conceitos Se entendemos a cultura como par- como a expressão artística. Rancière
fundamentais voltam ao debate polí- te fundamental da civilização, ela nota que é preciso ter em conta que
tico. Longe de estarem consolidados passa a ser compreendida como o há já na base da política uma esté-
no cotidiano da nossa sociedade, campo em que os sujeitos humanos tica primeira, ou seja, um modo de,
como estruturas (ou instituições), elaboram símbolos e signos, insti- ao mesmo tempo, dividir e compar-
como formas de vida e práticas so- tuem as práticas e os valores, de- tilhar a experiência sensível comum.
ciais, temas como a liberdade, o po- finem para si próprios o possível e Por isso, um regime político só pode
der, a democracia, a cultura, a sexu- o impossível, a direção da linha do ser democrático se incentivar a mul-
alidade, a arte, a igualdade, a justiça tempo (passado, presente e futuro), tiplicidade de manifestações dentro
social, a equidade, são conceitos em as diferenças no interior do espaço da comunidade.
(a percepção do próximo e do dis-
discussão. Toda ação política pres-
tante, do grande e do pequeno, do “Partilha” implica aqui tanto um “co-
supõe também a maneira como as
visível e do invisível), os valores (o mum” (a cultura, os direitos civis,
sociedades vão pensando conceitos
verdadeiro e o falso, o belo e o feio, a liberdade) quanto um “lugar de
que lhes são constituintes. Esses
o justo e o injusto). Segundo Marile- disputas” por esse comum – mas
conceitos são experiências sociais na Chaui, “a cultura é um direito do de disputas que, baseadas na di-
de larga escala do ponto de vista cidadão, direito de acesso aos bens versidade das atividades humanas,
histórico que continuam existindo (e e às obras culturais, direito de fazer definem “competências ou incom-
insistindo) no interior da vida social. cultura e de participar das decisões petências” para a partilha. Dividir e
sobre a política cultural”. E eu ainda compartilhar a experiência sensível
Os temas centrais apresentados acrescento “direito à fruição”. comum, proporcionar o encontro
para reflexões, como: 1. Cultura, discordante das percepções indivi-
crise e democracia; 2. Cultura e Se entendemos a cultura como lu- duais, talvez sejam esses os nossos
participação social; 3. Política, cria- gar de discussões sobre que tipo de grandes desafios. Constituir a rela-
ção, corpo e afeto; 4. Arte, política forma de vida nós queremos, signi- ção entre arte, cultura, civilização e
e democracia – nos dão pistas de fica, então, que ela seria uma for- política/democracia, tirando a arte
quão profundas precisam ser as ma de vida adaptada a demandas de seus limites estreitos para reve-
nossas reflexões e quão intensas democráticas. As pessoas querem lar a sua importância na experiência
devem ser as nossas discussões. encontrar novas formas políticas e contemporânea.
Buscamos aqui lançar olhares sob outras práticas sociais, quebrar vín-
diferentes perspectivas, a partir das culos de representação e ter parti- Fabíola Moulin
instituições, do lugar da participa- cipação mais direta na democracia, Presidente da Fundação Municipal de
ção social, até chegar no indivíduo, questionar o modo como o dinheiro Cultura de Belo Horizonte
no corpo e no afeto. Desdobrá-las público é utilizado e como são cons-
em encontros temáticos é também tituídas as escolhas que reverberam
uma forma de ampliar os debates, em políticas públicas cidadãs… Essas
são perguntas que poderiam levar a
pontuando questões transversais
uma transformação estrutural da
que perpassam os enunciados cha-
sociedade brasileira. E neste proces-
ves, tais como: educação, juventude,
so a cultura e a arte constituem um
liberdade de expressão, manifesta-
campo fundamental.
ção, economia da cultura, ativismo
cultural, espaços comuns, experiên- Para Jacques Rancière, política e arte
cias compartilhadas, entre outros. têm uma origem comum. Em suas
E para isso será preciso ir aos luga- obras, o filósofo francês desenvol-
res de desconforto do pensamento, ve uma teoria em torno da “partilha
lá onde se localizam as questões do sensível”, conceito que descreve
que precisamos pensar, que muitas a formação da comunidade política
vezes doem, destoam das aprendi- (e cultural) com base no encontro
zagens meramente conhecidas. Tal- discordante das percepções indivi-
vez seja necessário, como afirmou duais. A política, para ele, é essen-
Walter Benjamin, “escovar a história cialmente estética, ou seja, está fun-
10 11
a contrapelo”. dada sobre o mundo sensível, assim
COLABORADORES
AILTON ÁLVARO ANTÔNIO NÊGO JORGE JOSE ANTONIO MAC
KRENAK RESTREPO BISPO BLANDÓN GREGOR C.
Ativista indígena dos Direitos Bailarino, coreógrafo e pedagogo Mestre quilombola piauiense, Profissional de formação artística, Antropólogo social, mestre em
Humanos, pertence à etnia Krenak. colombiano, um dos pioneiros da intelectual, poeta, escritor e cultural e de políticas culturais. Desenvolvimento Rural e gerente
Em 1987, liderou a luta pelos dança contemporânea na Colômbia militante de grande expressão no Gestor cultural. Produziu El cultural. Recebeu o Prêmio
princípios inscritos na Constituição e referência de dança latino- movimento social quilombola e Habitante de abajo de la cama, Nacional de Antropologia Social
Federal do Brasil durante a americana. Seu trabalho já foi visto nos movimentos de luta pela terra. In-con-cierto, Ventana al cielo, com Fray Bernardino de Sahagún (1985)
Assembleia Constituinte. Recebeu em mais de 60 países. Em 1997, É lavrador, formado por mestras Nuestra Gente. Articulador da e o Prêmio Nacional de Arte e
vários prêmios, entre eles, o Prêmio fundou, com a bailarina, coreógrafa e mestres de ofícios e morador Cultura Viva Comunitária Latino Cultura Mil Mentes por México
Internacional para a América e pedagoga francesa Marie France do quilombo Saco do Curtume, Americana. Professor de Processo (2018). Promoveu a criação do
Latina Letelier-Moffitt de Direitos Delieuvin, o Colegio del Cuerpo, na localizado no município de São Urbano e Ambiental - Urbam Eafit. Sistema Nacional de Treinamento
Humanos (Washington), o Prêmio cidade de Cartagena das Índias, na João do Piauí. Em 2017, ministrou Publicou: Teatro jovem, Pensar a e Profissionalização de Promotores
Homem e Sociedade, da Fundação costa caribenha colombiana. o curso de Saberes Tradicionais da cultura a partir do desenvolvimento e Gerentes Culturais do México
Aristóteles Onassis (Grécia), o UFMG na categoria de Professor local, Ser-Fazer-Acontecer. (2001). Atualmente é Diretor
Prêmio Nacional de Direitos Convidado. de Cultura do município de El
Humanos. Marqués, Querétaro, México.

JUCA LEDA MARIA LUCERO MARIA PAULO PIRES RENATA


FERREIRA MARTINS MILLÁN THAÍS DO VALE MARQUEZ
Sociólogo com dedicação à política, Poeta, ensaísta e dramaturga. Estudou Literatura Dramática Professora de Artes Cênicas Curador, ensaísta, professor Professora de Análise Crítica da Arte
à cultura e às questões ambientais, Doutora em Letras/Literatura e Teatro na UNAM (México) e da ECA-USP. Dirigiu, com a Cia universitário e comissário do na Escola de Arquitetura da UFMG,
foi vereador e Secretário do Meio Comparada pela UFMG. Mestre Sociologia na UCA (Nicarágua). Em Teatro Balagan, os espetáculos Plano Nacional das Artes de com doutorado em Geografia e
Ambiente de Salvador. Secretário em Artes pela Indiana University, 1986, fundou, com o seu grupo, Programa Pentesileia – treinamento Portugal, que prevê abranger todo pós-doutorado em Antropologia.
Executivo do Ministério da Cultura e Estados Unidos. Pós-Doutora em o primeiro teatro independente para a batalha final, Recusa, o universo escolar português no É uma das editoras da revista
Ministro da Cultura. Foi Embaixador Performances Studies pela New da Nicarágua e é uma das que ganhou o Prêmio Shell de período 2019-2024. PISEAGRAMA, dedicada à discussão
Especial na Secretaria Geral Ibero- York University Tisch School of the fundadoras do Fit Nicarágua Direção, Prometheus – a tragédia da esfera pública no Brasil. Foi
Americana e Secretário Municipal Arts. Professora aposentada da (Festival Internacional de Teatro, do fogo, Západ – a tragédia do curadora da exposição Escavar o
de Cultura de São Paulo. UFMG. Diretora de Ação Cultural 1995). Como autora escreveu poder, Tauromaquia, entre outros. futuro (Palácio das Artes, 2013) e do
É Secretário Municipal de Cultura da UFMG (2014-2018). Autora de Tiempo al tiempo, Ay amor ya no Publicou: Na cena do Dr. Dapertutto: Museu de Arte da Pampulha (2011
de Belo Horizonte de 2017 à vários livros e ensaios publicados me quieras tanto, La ciudad vacía y poética e pedagogia em V. E. a 2012). Sua prática direciona-se às
presente data. no Brasil e no exterior. Em 2017, Francisca. Consultora em temas de Meierhold e o livro Balagan – relações entre arte, espaço, outros
foi homenageada com a criação do participação cidadã e teatro, além Cia de Teatro. Como pedagoga e campos do conhecimento e outras
Prêmio Leda Maria Martins de Artes de responsável pelo Teatro Justo diretora, atua na Itália, França, cosmociências.
12 Cênicas Negras (BDMG). Rufino Garay. Colômbia e Rússia. 13
1
C u lt u r a , c r i s e e d e m o c r a c i a n o s é c u l o X X I – r e f l e x õ e s c r í t i c a s
CULTURA, ESTADO E
sOCIEDADE
JUCA FERREIRA
1
Tenho a convicção de que uma A relação entre arte, cultura e demo- de mercadorias. Em outras palavras,
das vias para repensar a nossa cracia pode ser pensada de diversas quando pensamos no ser humano,

Cultura, crise e
existência no mundo e para nos maneiras. Seja a partir da responsa- em seu desenvolvimento enquanto
reformar como humanidade passa, bilidade do Estado democrático para ser, quando pensamos em sua feli-
necessariamente, pela cultura, com a arte, a cultura e o desenvolvi- cidade e em seu pleno desenvolvi-
porque é na cultura que residem as mento cultural de uma sociedade ou mento, inevitavelmente a arte e a

democracia no século representações simbólicas, o modelo


de civilização ou de democracia
a que nós podemos aspirar como
a partir da contribuição destas para
a estruturação de uma sociedade
democrática.
cultura se deslocam para o centro
da constituição do Estado democrá-
tico. Fazer essa reflexão deve ser o

XXI - reflexões
sociedade. primeiro grande desafio para que
Geralmente, arte, cultura e demo- se pensem políticas, programas e
(Jose Antonio Mac Gregor – cracia se articulam quando se reco- ações em âmbito nacional. O passo
Diretor de Cultura do município nhece a importância do Estado de- seguinte deve ser interagir com os

críticas
de El Marqués, Querétaro, mocrático para o desenvolvimento países latino-americanos, africanos
México) cultural e para a estruturação de e ibero-americanos, sempre dentro
uma sociedade sustentável em to- dessa perspectiva.
das suas dimensões. Dois movimen-
tos geralmente presentes nos pro- Uma segunda dimensão centra-se
jetos mais qualificados, que assim o na cultura e na arte como um direito
são por os possuírem no seu âmago, de todos. O Estado democrático tem
na sua essência. obrigação de cumprir sua função de
suprir, por meio de serviços, de fo-
Os desafios emergentes no século XXI Quando Lula foi eleito, quando Gil- mento, de incentivo e, eu diria, por
e como eles se relacionam com a so- berto Gil foi escolhido Ministro, a meio de uma perspectiva mais am-
ciedade em suas diversas dimensões. primeira tarefa do Ministério da pla, sua função de criar as melhores
A cultura como estratégia de desen- Cultura foi definir qual era a respon- condições possíveis para o desen-
volvimento, como direito e perspectiva sabilidade do Estado democrático volvimento cultural da sociedade.
de futuro diante das crises mundiais. para com o desenvolvimento cultu- Tornando a cultura e a arte acessível
Momento dedicado a refletir sobre ral da sociedade. Fato que nos fez a todos, tratando-as como um direi-
as políticas culturais no século XXI e compreender que tínhamos três im- to básico, como nos é a comida, a
os aspectos mais relevantes para a portantes vertentes: moradia e a saúde.
compreensão do papel do Estado, do
protagonismo da sociedade e das suas A primeira delas diz respeito a tra- A sociedade brasileira tem uma difi-
inter-relações com as várias áreas do balhar a arte e a cultura como di- culdade enorme de entender a im-
conhecimento para a construção de mensão simbólica da sociedade. portância da cultura e de entendê-
uma sociedade mais justa, democráti- Não há sociedade, não há ser hu- -la como direito, apesar de termos
ca, plural, sustentável e alegre. mano e não há desenvolvimento se avançado muito nas duas últimas
não tivermos a cultural e arte como décadas, particularmente depois da
estratégia para a organização social. redemocratização. A cultura como
Talvez essa seja sua dimensão mais direito é uma questão que está pos-
14 importante. A máquina do mundo ta na sociedade brasileira, mas que 15
não é uma máquina de produção ainda está sem solução. Especial-
C u lt u r a , c r i s e e d e m o c r a c i a n o s é c u l o X X I – r e f l e x õ e s c r í t i c a s
mente em um momento como o anos as organizações não gover- Mas é possível, e até necessário e
que estamos vivendo, quando essa namentais é que cumpriram a fun- inevitável, conviver-se com a ex-
questão tende a retroceder alguns ção de suprir esse vazio em nossa pressão econômica da cultura na
passos. Estamos passando por um sociedade. sociedade. No México, qualquer um
eclipse e, para seguir adiante, já te- se impressiona com a importância,
mos uma ideia de como avançar, já Para organizar um evento para as simbólica e econômica, dos maria-
temos uma plataforma de cidadania Nações Unidas em 2012, no Ano In- chis; temos a impressão de que esta-
consolidada, capaz de se alimentar ternacional dos Afrodescendentes, mos rodeados deles. Esse é um bom
de um desenvolvimento cultural e trabalhando pela Secretaria Geral exemplo de uma economia popular
do acesso à cultura. Iberoamericana (Segib), uma insti- importantíssima.
tuição intergovernamental, eu tive
Independentemente das condições que viajar ao longo de seis meses do Um professor mexicano, ao fazer
sociais, todos os seres humanos fa- México ao Uruguai. Foi então que uma pesquisa sobre os mariachis,
zem cultura. Mesmo nas periferias descobri que essa é uma realidade impressionou-se com o tamanho da
das grandes cidades brasileiras, con- de toda a América Latina. Encontrei cadeia produtiva que gira em torno
vivendo com altos níveis de misera- grupos culturais dedicados à cultu- deles e descobriu o tamanho da im-
bilidade, com as condições mais ad- ra tradicional, outros que atuavam portância que eles têm para a so-
versas, acossados pelo tráfico, pelas realizando intervenções urbanas brevivência de muita gente. Além de
milícias e pela polícia, a população de ponta, com linguagens bem con- desenvolver a reprodução cultural, Foto RICARDO LAF
faz cultura. Nesse cenário, a cultura temporâneas. E notei que havia um fazer a vizibilização da alma mexica-
acaba sendo a principal dimensão reconhecimento por parte do Esta- na, da identidade mexicana, os ma-
humana da experiência daquelas do dessa efervescência cultural e da riachis se tornaram exemplo de uma 1
pessoas. É gigantesca a quantidade necessidade de reforçar o protago- robusta economia da cultura. mandados números e indicadores Desde a queda da Ditadura Militar ameaçadas. É preciso ter grande
de grupos culturais nas periferias nismo cultural das comunidades e sobre o estado da arte na cultura. no Brasil, ninguém tinha sido até en- lucidez. Isso vale não só para polí-
brasileiras. Em um levantamento da sociedade como um todo. Casos semelhantes a este, com Nós constatamos que estávamos tão molestado pelo chamado delito ticos e gestores culturais. Cada ar-
ainda precário, com um nível de im- grande potencial de exploração, sendo os primeiros a fazer este tipo de opinião. Isso tinha desaparecido tista, cada produtor cultural, seja
precisão muito alto, já foi possível Não se trata mais daquela visão pa- também nós temos no Brasil inteiro! de pedido ao IBGE, instituição en- completamente da nossa cena po- ele da área tradicional, seja da área
identificar mais de 100 mil grupos ternalista do final do século passado Como nós demoramos tanto para carregada do censo e da gestão dos litica. Todos nós tínhamos direito comunitária, seja um artista de pal-
culturais, distribuídos pelas favelas, que queria levar a cultura a essas descobrir que o Carnaval também é indicadores sociais e econômicos do de dizer o que pensamos. Somen- co, cineasta, o que for, precisa de
pelas periferias das grandes cida- comunidades e à sociedade. A so- uma gigantesca economia cultural? país. Quando os primeiros núme- te num ambiente como este que habilidade para construir processos
des, das de médio e pequeno porte ciedade faz cultura, a sociedade faz Para Recife, para Olinda, para Salva- ros começaram a aparecer, embora dá conta da nossa complexidade e culturais que façam mais que resis-
e pelas aldeias indígenas. Observa- cultura inclusive de muita qualida- dor, para o Rio de Janeiro, para São não tenham nos surpreendido, não que abre espaço para o contraditó- tência, que defenda os direitos cul-
-se, neste último caso, que os jovens de. Cabe ao Estado, além de apoiar, Paulo e também para a cidade de deixaram de nos impressionar. Sou- rio é que vínhamos consolidando a turais conquistados na sociedade
indígenas vêm tomando a frente em fomentar e incentivar esse protago- Belo Horizonte. bemos então que mais de 80% dos democracia no Brasil, resultado de brasileira e aponte para sua evolu-
iniciativas culturais, organizando-se nismo, dando-lhe condições de ex- municípios brasileiros não têm um enfrentamentos, contraposições de ção. A democracia brasileira é uma
em grupos dentro de sua própria al- pressão e desenvolvimento de suas O São João é um bom caso a citar. teatro, uma biblioteca, um cinema. ideias e de diferentes sensibilidades das mais imperfeitas. Chegamos a
deia. O mesmo tem acontecido nos linguagens, disponibilizando biblio- É uma das economias da cultura Mais de 80%! Só 13% dos brasileiros e visões de mundo. um estágio de desenvolvimento e
assentamentos rurais. Seja dando tecas, centros culturais, teatros etc. mais importantes do Brasil. E mes- vão ao cinema, e mesmo assim, com inserção do qual não podemos re-
um trato à cultura tradicional, seja mo sendo maior do que o Carnaval, pouca regularidade. Nossos coefi- Agora, estão censurando os proje- troceder. Não podemos permitir
ativando cineclubes, seja implemen- A equação que se nos apresenta é em sua abrangência em todo terri- cientes quanto aos níveis de leitura tos de cinema que vão ser avaliados, retrocessos de qualquer natureza,
tando bibliotecas comunitárias. Não esta: compreender a dinâmica en- tório nacional, não tem a visibilidade indicam-nos uma média de apenas e se disse que nenhum projeto que precisamos consolidar o que foi
importando a natureza da ação e tre a sociedade e a responsabilida- que o Carnaval tem. Esquecemo-nos 1,7 livros per capita lidos ao longo de tenha alguma conotação LGBT vai constituído. Isso cabe a todos. To-
a prioridade, alguns grupos se or- de que o Estado democrático tem que o São João ocorre em um núme- um ano. ser sequer avaliado pelas comissões dos nós precisamos de uma grande
ganizam em pequenas orquestras para com o desenvolvimento cul- ro muito maior de municípios do da ANCINE para financiamento. As frente em defesa da democracia e
e até mesmo em filarmônicas. Em tural como um todo, em condições Brasil, mobiliza energias populares Superar níveis tão baixos de leitura pessoas estão sendo molestadas da evolução da nossa sociedade,
Pernambuco, você pode ser sur- de igualdade com o conjunto da gigantescas, tem fluxos econômicos e escrita é um de nossos maiores em lugares públicos. Kléber Men- porque sem cultura não seremos
preendido por uma orquestra de sociedade, principalmente das co- bem consolidados. Compreender a desafios no Brasil. Temos um dos donça, cineasta brasileiro contem- bem-sucedidos no século XXI.
jovens trabalhadores rurais que, munidades periféricas e apartadas lógica dessas economias é algo cen- índices mais baixos da América Lati- porâneo dos mais premiados, um
após sua jornada de trabalho, se en- do desenvolvimento. É preciso re- tral no campo das políticas públicas na. Em países de capitalismo tardio dos dois premiados em Cannes este
caminham para uma cidadezinha e conhecer esse protagonismo, sem o de cultura. como o nosso, ao Estado se atribui ano, acaba de ser punido por ter se
executam de Bach a Villa-Lobos com que não se consegue de fato dar a um papel incontornável para que se manifestado contra o impeachment
uma razoável qualidade. contribuição necessária. Temos que tratar a cultura como impulsione seu desenvolvimento. de Dilma Rousseff, exigindo-se dele
um direito, um direito a que todos Tenhamos claro que o Estado não a devolução do dinheiro que possi-
É lastimável ver em um Estado ex- Uma terceira e última dimensão da devem ter acesso. Ao mesmo tem- faz cultura. No máximo promove al- bilitou a produção desse filme re-
cessivamente ausente e que tem cultura está relacionada ao seu de- po, como uma dimensão simbólica gumas ações de produção cultural centemente premiado.
tradicionalmente preferido ter a senvolvimento econômico. A econo- de uma sociedade ou grupo que direta, mas esse não é seu principal
polícia como principal intermediária mia da cultura não pode ultrapassar os possibilita a qualificação das re- e fundamental papel. Cabe ao Esta- Estamos em um momento que nos
diante das populações periféricas; seu limite e hegemonizar-se em rela- lações humanas e da vivência indi- do criar o melhor ambiente possível demanda muita lucidez. Os que fa-
um Estado cuja maior preocupação ção às suas outras dimensões. Quan- vidual. No Brasil, é impressionante para o desenvolvimento cultural da zem arte e cultura não podem pen-
é o controle dos excluídos, e não do isso acontece, mercantilizam-se a precariedade da noção do papel sociedade. E dentre as funções de sar de uma forma restrita, não po-
sua inclusão de modo qualificado, em excesso os processos culturais, do Estado nesse campo. Quando criar o melhor ambiente possível, dem ter limites à sua criatividade.
de maneira a contribuir para o de- degrada-se a manifestação cultural Gilberto Gil era Ministro, nós pude- a mais importante de todas é sem É preciso compreender que a so-
16 senvolvimento das condições huma- em si, esvaziando-a de seu conteúdo mos constatar, de maneira muito dúvida a garantia da liberdade de ciedade vive um delicado momen- 17
nas dessas pessoas. Durante muitos e de sua força simbólica. óbvia, que nunca haviam sido de- expressão. to. Conquistas democráticas estão
Foto RICARDO LAF

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[…] qual é o papel do Estado?
O Estado tem papel fundamental
em todas as políticas que
dizem respeito ao interesse
público, claro. E, na cultura em 1
particular, eu vejo com muita
clareza a necessidade de o
Estado estar presente, cuidando
da infraestrutura, cuidando
do fomento, dando atenção e
trabalhando com mais clareza
a questão do financiamento.

DANILO MIRANDA

Diretor Regional do Serviço Social


do Comércio – Sesc – no Estado de
São Paulo

18 19
xo para cima e de dentro para fora; Por isso, a cultura tem uma vocação

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quer dizer, sua construção deve ges- ‘universalizadora’, pois concentra
tar uma cidadania que seja capaz de em seu sonho o projeto humano:
gerar processos de desenvolvimen- “a partir da cultura se compreende
to sustentáveis e sustentados. e organiza o humano; além da cul-
tura se une o limitado com o que
Além da violência da delinquência não tem limite humano. Na cultura
organizada, sofremos agora um re- está a aprendizagem de si mesmo
torno dos discursos da ultradireita, em sua relação vocacional com o
de neonazistas, neofascistas e ex- que inclui e excede, o outro, o mais
tremistas na Europa, Ásia e América, que humano” (GALINDO, 1997, p.
juntamente com crises migratórias 22). Além disso, se entendemos a
na América Central e África. Todos cultura, à maneira de Gilberto Gi-
estes fenômenos, indicam profun- ménez (2005), como a organização
GESTÃO CULTURAL dos conflitos vinculados à exclusão
do “outro” devido a sua origem ét-
social do sentido, fica claro que é
inerente à nossa condição humana
PARA A DEMOCRACIA nica, raça, situação econômica,
idade, seu gênero, sua ideologia
significar e representar a realidade,
mediante ações subjetivas por meio
JOSE ANTONIO e suas crenças religiosas. E se por das quais possamos compreender a
MAC GREGOR C. acaso a violência contra humanos realidade, reproduzi-la e modificá-
fosse pouco, haveria que acrescen- -la. A cultura, diz Prats (2009), pode
tar também uma crise ambiental
global, que afeta todas as espécies
ser definida então como uma rede
de interpretações da realidade e um
1
Num momento em que forças A queda do Império Romano do Oci- de boa parte dos aparelhos políti-
reacionárias e obscurantistas dente foi provocado por diferentes cos, militares, financeiros e empre- vinculadas aos ecossistemas e que sistema de formas de comunicação
empreendem uma verdadeira causas que, ao longo de um deter- sariais de nossos países, mediante tem como origem, principalmente, a dentro de grupos sociais que com-
cruzada contra o espírito libertário, minado tempo, acabaram entrando estratégias absolutamente globali- atividade humana. partilham códigos e leituras a partir
crítico e pluralista da arte, cabe a em colapso; entre elas se destacam: zadas e brutalmente violentas, que dali: “A gestão cultural tem como
toda a sociedade e, especialmente a a pressão dos invasores “bárbaros”, colocaram em crise o conceito mes- objetivo potencializar aquela fração
nós, artistas, a defesa intransigente externos à cultura romana, as per- mo de Estado-Nação: refiro-me ao dos produtos da cultura com eficá-
do direito de acesso irrestrito aos das territoriais irreversíveis, as guer- crime organizado para o narcotráfi- cia simbólica, ou seja, o patrimônio
bens culturais, sem qualquer tipo ras civis destrutivas, os governantes co, o sequestro, o tráfico de pesso- cultural, sendo entendido este, ade-
de censura ou cerceamento de incapazes e corruptos, a perda de as, a extorsão, os feminicídios e toda A área da camada de gelo da Gro- mais, como uma construção social
qualquer natureza. legitimidade do imperador, o rela- a classe de violência. elândia mostra indícios de derreti- legitimada” (PRATS, 2009).
xamento da disciplina e lealdade mento e este processo cresce dia-
(Eduardo Moreira – Fundador, de seu poder militar, e finalmente, E, todos sabemos, pessoas com riamente: quarta feira, 31 de julho Entendo a gestão cultural como
diretor artístico e ator do Grupo o estabelecimento da autoridade medo ficam paralisadas, confusas, [de 2019] chegou a um recorde de uma prática sistematizada em pro-
Galpão) dos povos “bárbaros” na maior par- visualizam de maneira distorcida 56.5% devido à onda de calor que jetos, metodologicamente susten-
te da área de dito Império. Arnold J. o ambiente, desativam seu poten- alcançou recorde de temperatu- tada na práxis participativa, que
Toynbee e James Burke, sustentam cial para conviver, e experimentam ra em cinco países europeus na incide em âmbitos significativos da
que toda a era imperial foi uma que- uma ansiedade que as leva a atuar semana passada... Quarta feira, o cultura, para orientar o esforço de
da constante das instituições funda- de forma mais impulsiva e reativa, e derretimento provocou a perda de uma comunidade rumo à transfor-
das nos tempos da República.1 não de modo racional e organizado. 10 bilhões de toneladas de gelo, to- mação de práticas sociais que fa-
Ou seja, o medo e a fragmentação talizando 197 bilhões de toneladas voreçam à recuperação do espaço
Por que inicio minhas reflexões com social incidem de maneira devasta- em julho. físico e simbólico, o fortalecimento
esta referência à queda do Impé- dora sobre a construção da cidada- (UNOTV.COM, 2019)2 de suas identidades, a preservação
rio Romano? Porque sem dúvidas nia, que significa, acima de tudo, a de sua memória e patrimônio cultu-
se tratou de uma crise civilizatória participação comprometida e orga- Já não estaremos diante de uma cri- ral, o estímulo da expressividade, a
e de profunda raiz cultural. E hoje, nizada nos assuntos públicos, o di- se civilizatória global? Na realidade criatividade e a convivência, a fim de
as ameaças à democracia ocidental álogo comunitário para intervir na não posso garantir, mas o que sim gerar condições adequadas para o
que aspira se construir a partir da transformação dos problemas que quero compartilhar é minha convic- exercício dos direitos culturais e da
cidadania têm, entre seus principais acometem a maioria e a inteligência ção de que uma das vias para repen- construção de cidadania (vide MAC
inimigos, uma nova classe de inva- coletiva e distribuída para atuar de sarmos nossa existência no mundo GREGOR, 2017). Isso permitiu abo-
sores bárbaros que se apoderaram maneira eficiente e gradual, de bai- e a refazermos como projeto de hu- nar o “desenvolvimento livre, igua-
manidade passa necessariamente litário e fraterno dos seres huma-
pela cultura, na qual se configura, nos nesta capacidade singular que
a partir das representações simbó- temos de poder simbolizar e criar
licas, o modelo de civilização e de- sentidos de vida, o qual podemos
mocracia ao qual podemos aspirar comunicar a outros” (PRIETO apud
como sociedade. Em dito processo MAC GREGOR, 2017).
histórico de configuração, se sinteti-

Foto PIXABAY
1
Disponível em: <https://es.wikipedia.org/wiki/ 2
Disponível em: <https://www.unotv.com/
zam memória, diversidade de olha- Vemos, a partir disso, como a ges-
Ca%C3%ADda_del_Imperio_romano_de_Occi- noticias/portal/internacional/detalle/solo-un-
res e linguagens, sonhos e derrotas tão cultural é capaz de incidir nos
dente>. Acesso em: 5 nov. 2019. -dia-deshielo-groenlandia-ascendio-797390/>.
de um povo em permanente e dinâ- mais complexos processos de confi-
20 21
Acesso em 8 nov. 2019.
mica transformação. guração das identidades: memória,
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linguagens, conhecimento e a cria- identidade (específica), provoca a e questionava: “Se conseguimos permanentes de criação coletiva e
tividade que todo povo requer para alienação e a anomia e, finalmen- nos desfazer de bastantes pessoas, participação, com crianças e jovens,
dar continuidade ao humano que te, conduz ao desaparecimento do nossa forma de vida pode ser mais elementos que lhes permitam cons-
conseguiu alcançar, por meio disso, ator” (SANTOS apud GIMÉNEZ, 2005). sustentável” (LABORDE, 2019). Isso, Em Medellín colocamos a cultura truir diálogos e relações solidárias [a] gestão cultural é uma alternati-
seu porvir histórico. A partir de uma É precisamente este aspecto que lhe no contexto de um aumento expo- no centro do projeto de desenvol- em seus ambientes sociais e comu- va para a construção de cidadania,
ótica freiriana, optamos por um tipo confere à identidade uma importân- nencial de mensagens de ódio de vimento […] Entendemos a cultura nitários) e os Jolglorios (festas comu- no âmbito da liberdade cultural
de gestão cultural que se construa cia fundamental. Daí que quando supremacistas brancos, racistas e como ‘o tema’ do desenvolvimen- nitárias a partir das expressões que necessária para o desenvolvimen-
como processo educativo, no qual o não está bem constituída, coloca assassinatos. Entre 2012 e 2015, to. Entendemos que é a cultura as pessoas reconhecem como as to humano. Nosso olhar foca nas
gestor se constitui como educador- seus membros em estado de inércia não foi registrado nenhum inciden- que transforma. Entendemos que que lhes dão identidade, em espa- contradições da cidade como lugar
-educando e a comunidade gradu- e passividade. Concordo plenamen- te desse tipo; de 2016 até a presente é a partir da cultura que temos ços seguros, de jogos e onde a criati- onde transcorre a vida, no mode-
almente assume o protagonismo de te com Boaventura de Sousa Santos data (ago. 2019), 18 pessoas morre- que transformar os sujeitos e as vidade gera laços afetivos). lo comunicativo (não ‘difusionis-
todos os processos, porque, efetiva- quando afirma: “O que é diverso não ram em tiroteios insanos, como o realidades; isso não se transfor- ta’) como necessidade urgente, no
mente: “Ninguém educa ninguém, é desunido, o que é unificado não é mencionado no sábado, 3 de agos- ma a partir da política. […] Não se Rodrigo Cordera, diretor do progra- território como possibilidade e na
assim como ninguém educa a si uniforme, o que é igual não tem que to (Milênio notícias de terça-feira, transforma a partir da economia, ma Misiones por la Diversidad Cul- construção do diálogo intercultural
mesmo. Os homens são educados ser idêntico, o que é desigual não 6 de agosto de 2019). Donald Trump mas da emoção que conseguimos tural, da Secretaria de Cultura, ex- como laboratório para a convivên-
em comunhão e o mundo é o me- tem que ser injusto; temos o direito defende, desde antes de assumir a instalar em um país orgulhoso de si plica: “O enfoque das Missões tem cia.
diador”. (FREIRE, 1970). Não existem de ser diferentes, quando a igual- presidência dos EEUU, um discur- mesmo e da relação com os outros uma participação cidadã muito forte (LÓPEZ BORBÓN, 2017)
seres humanos sem identidade ou dade nos descaracteriza” (SANTOS so xenófobo, cujos efeitos agora […] À medida que se construam ci- para fazer valer o direito à cultura.
sem cultura; existem problemas, apud GIMÉNEZ, 2005). Devido a tudo se manifestam nesses tipos de dadãos responsáveis orgulhosos Não levar a cultura, mas desencade- Isso se deve articular como uma
carências, insuficiências e interes- isso, apostamos na opção que apon- assassinatos. de si, orgulhosos do que têm e or- ar e gerar processos de participação obrigação do Estado, particularmen-
ses culturais compartilhados que te em direção à gestão cultural para gulhosos dos outros, com os quais para que os artistas tenham um es- te, para desenhar políticas culturais
podem ser atendidos mediante o a democracia, demarcada em políti- Talvez agora possamos compreen- fazem a cidade, vamos construir a paço”. Reconhecer as dinâmicas par- que garantam direitos culturais e 1
diálogo coletivo e desafiante que cas de Estado multiculturais que re- der melhor por que no século XXI cidadania, isto é, sujeitos respon- ticulares em cada território e dese- se comprometam com perspecti-
se orienta ao desenvolvimento de almente se concentrem no desenho os modelos hegemônicos e antide- sáveis, e vamos construir a nação, nhar estratégias territoriais requer vas como as colocadas aqui (que
capacidades e potencialidades cog- e instrumentação de estratégias in- mocráticos praticam cortes orça- isto é, nos sentir membros de uma promotores e gestores culturais surgem da análise de experiências
nitivas, criativas, expressivas e orga- terculturais a partir da própria base mentários de maneira sistemática coletividade à qual devemos cui- qualificados. Nos meses passados, já realizadas com maior ou menor
nizadoras, que abonam o exercício da sociedade. nas rubricas de cultura, ciência, tec- dar. foi feito um questionário nacional impacto em diferentes países lati-
da liberdade cultural demarcada nologia e desarticularam o sistema (CONGRESSO PANAMENHO DE que muitos deles responderam, de no-americanos e de documentos da
nos direitos culturais; isso permite Adama Dieng (2019), Assessor de educacional da educação artística; EDUCAÇÃO E MUSEUS DO PANA- todas as idades e diferentes níveis UNESCO e outras prestigiadas orga-
aos grupos e indivíduos decidirem Prevenção do Genocídio na ONU, porque é justamente nessas áreas MÁ, 2016) de formação e de trajetória; a sele- nizações e instituições nacionais ou
o tipo de cultura que desejam com- afirma: onde brota o melhor do ser huma- ção foi sustentada na experiência de internacionais). Deve também en-
partilhar e garantir, dessa maneira, no: a capacidade de se surpreender, O atual governo do México, que pre- trabalho comunitário comprovada. volver a sociedade, em geral, para
a existência, o desenvolvimento e a formação de uma consciência críti- tende realizar o que chama de “A Equipes de facilitadores em âmbito diversificar e experimentar novos
o reconhecimento da diversidade ca capaz de questionar e exigir seus quarta transformação” (que trans- nacional formam os selecionados modelos de gestão cultural, institu-
cultural. “A liberdade cultural cons- direitos; seu potencial para expres- forme o país a partir de suas funda- em âmbito regional e, desse modo, cional ou independente, cada vez
titui uma parte fundamental do de- Todos devemos nos lembrar que sar beleza e se comover diante da ções como fez primeiro o movimen- pelo chamado “efeito cascata”, vão mais inclusivas, inovadoras, colabo-
senvolvimento humano, posto que, o discurso de ódio precede os cri- emoção que ela provoca; sua pos- to pela independência – início do sendo ativadas as capacitações rativas e carregadas de esperança.
para viver uma vida plena, é impor- mes de ódios […] Lembrem-se que sibilidade de normalizar a convivên- século XIX –, após o movimento da em todo o país. Quem dirige esse
tante poder escolher a identidade as palavras matam tanto quanto cia comunitária de maneira pacífica, Reforma, em meados do mesmo sé- processo, considera que o assun- Podemos concluir que é impossível
própria – o que se é –, sem perder as balas […] Então devemos fazer o respeitosa e solidária; a capacidade culo, e depois a Revolução de 1910), to da violência, que aparece como conceber um desenvolvimento civi-
o respeito pelos outros e se ver possível para investir na educação, de ‘saber-se’ parte de um planeta anunciou que levando a cabo (com queixa no âmbito nacional de ma- lizatório profundamente humano e
excluído de outras alternativas” nos jovens, para que a próxima que requer a preservação para ga- altos e baixos, críticas, questiona- neira crescente e cada vez mais bru- uma democracia realmente viva sem
(PNUD, 2004). geração possa entender a impor- rantir a sobrevivência humana. E mentos e insuficiências orçamentá- tal, vai diminuindo paulatinamente considerar e reconhecer a relevân-
tância de conviver em paz. […] De- todas essas capacidades são as que rias), uma política cultural realmen- (MÉXICO, 2019). cia das múltiplas culturas que repre-
Diante da intervenção cultural colo- vemos usar a palavra para que se permitem a construção da verdadei- te interessante, porque aspira a que sentam nossa diversidade criativa,
nizadora, unidirecional e autoritária torne uma ferramenta para a paz, ra democracia. se gere uma cultura inclusiva que É claro que não podemos atribuir à nas quais se configuram, cotidiana
que, fora de uma comunidade, de- uma ferramenta para o amor, para dê prioridade aos grupos historica- cultura, de maneira mágica e ingê- e permanentemente, a cidadania e
cide os conteúdos e processos a se- a unidade social, para a harmonia, Em Medellín, na Colômbia, após a mente excluídos, um foco de cultura nua, a tarefa de enfrentar sozinhos suas identidades, sua memória cole-
rem seguidos, aquela que pretende em vez de ser usada para cometer experiência traumática causada por comunitária, horizontal e a partir do a violência e os desastres de que tiva e seus espaços simbólicos para
“levar cultura para o povo” (como genocídio e crimes contra a huma- décadas de violência generalizada, que as pessoas consideram como padecemos, e menos ainda fazê-la a recriação de si mesmos, na con-
se ele não a tivesse) e a absorve na nidade. construiu-se, junto ao novo sécu- prioritário; estimula o programa: Se- desaparecer. É claro que os Estados vivência para a paz, a proteção do
apatia e fragmentação, nos opomos (DIENG, 2019) lo, uma visão que atraiu a atenção milleros Creativos (formação artís- têm que fazer muito mais. Como meio ambiente e a certeza de futu-
a uma gestão participativa, planeja- de todo o mundo e continua sendo tica comunitária, mediante grupos bem afirma Liliana López Borbón, ros melhores.
da, volitiva e guiada a partir da óti- No momento em que escrevia este considerada uma visão exemplar
ca comunitária, configurada a partir texto, se difundiu a notícia do mas- de política cultural. Lucía González
da própria experiência histórica de sacre em El Paso, Texas, perpetrada Duque, ex-diretora do Museu Casa
cada povo. por um jovem de 21 anos que as- da Memória de Medellín, no I Con-
sassinou a tiros 22 pessoas e feriu gresso Panamenho de Educação e
A cultura não é produzida por meio outras 24; oito dos mortos, de nacio- Museus do Panamá, expressou cla-
de abstrações ideais, mas em con- nalidade mexicana. As autoridades ramente: 3
Segundo Mac Gregor, “Milênio notícias é um
textos historicamente específicos e apontam que Patrick Wood Crusius, programa de televisão; quando estava escre-
socialmente estruturados, isto é, em um homem branco de 21 anos, pos- vendo o artigo, estavam dando a notícia, e
22 comunidades. “E a ausência de uma tou na internet um texto que falava registrei em fotografias essa informação.” (Em 23
cultura específica, isto é, de uma de uma “invasão hispana no Texas” nota à revisora, por e-mail).
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REFERÊNCIAS

Acervo do Autor
Atividades realizadas no âmbito do
Programa Misiones para la Diversidad Cultural
1
CONGRESSO PANAMENHO DE EDUCAÇÃO E MUSEUS DO PANAMÁ, I., 7-9 set.
2016, Panamá. [Pronunciamento: Lucía González Duque]. Panamá: Associação
de Antropologia e História, 2016.

DIENG, Adama. La palabra al servicio de la paz. Depoimento em vídeo para ONU.


Original em inglês. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=U-
PFqmT2-m0>. Acesso: 8 nov. 2019.

FREIRE, Paulo. Pedagogía del oprimido. México: Siglo XXI Editores, 1970. p. 86.

GALINDO, Jesús. Sabor a ti. Metodología cualitativa en investigación social.


México: Ed. Universidad Veracruzana, 1997.

GIMÉNEZ, Gilberto. Teoría y análisis de la cultura, v. 5 y 6, México: El Consejo


Nacional para la Cultura y las Artes (CONACULTA) – Dirección General de
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(Colección Intersecciones).

LABORDE, Antonia. Tiroteo en Estados Unidos. El asesino que condujo


nueve horas para provocar un baño de sangre en El Paso, El Pais
(Internacional), Washington, 6 ago 2019. Disponível em: <https://elpais.com/
internacional/2019/08/04/actualidad/1564933988_774687.html>. Acesso em:
8 nov. 2019.

LÓPEZ BORBÓN, Liliana. La gestión cultural como construcción de ciudadanía.


Ensayo ganador del Premio Internacional Ramón Roca Boncompte de Estudios
de Gestión Cultural (España), 2015. México: 2017.

MAC GREGOR, Jose Antonio. Promoción y Gestión Cultural. In: VÁZQUEZ,


Eduardo Cruz (Coord.). ¡Es la Reforma cultural, Presidente! Propuestas para el
sexenio 2018-2024. México: Editarte, 2017.

MÉXICO. Secretaría de Cultura. Dirección General de Vinculación Cultural.


Misiones por la diversidad cultural. Cultura Comunitaria. Vídeo institucional.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Xd9sLETbarM>. Acesso
em: 8 nov. 2019.

PNUD. Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo. Informe sobre


Desarrollo Humano 2004. La libertad cultural en el mundo diverso de hoy.
Madrid: Ediciones Mundi-Prensa, 2004.
24 25
PRATS, Llorenç. Antropología y patrimonio. México: Editorial Ariel, 2009.
silencioso que é multidão. E em quina, lugar de encontro, o bairro, lugar de protagonismo, cada um é

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nossa Medellín, que dizem da ino- centro cultural comunitário que sua própria marca, referência, rota,
vação, uma cifra que aterroriza, en- anima e promove o protagonismo caminho, e entre muitos se faz uma
tre 1984 e 1994, da morte na guerra das pessoas, desde os menores até proposta que tenha identidade e
do narcotráfico de mais de 40 mil os mais experientes, com anos de memória territorial.
pessoas. sabedoria.
Somos ‘comuna unidade’. E junto
Somos filhos de uma época de A casa amarela é centro de diálogos ao sacerdote jesuíta Horacio Aran-
morte e buscas de alternativas que permi- go, dizemos: “... Há, apesar de tudo,
tem que uma comunidade conflua razões para a esperança, e essas
Somos filhos de uma democracia na formulação de seus planos de razões se vestem de história, de re-
em disputa, que demorou mais de vida, políticas de bairro de desenvol- alidade, na multidão de mãos que
50 anos para se aproximar para ver vimento social e cultural, um plano neste país tecem a vida, ainda no
a tragédia humana causada pela de ampla participação da comuni- meio da destruição feita pelos de-
guerra. dade, que perguntou a meninas e predadores...”
FIOS QUE SE ENTRELAÇAM Hoje somos militantes da “paz im-
meninos, jovens e adultos e sábios
mais velhos quais os sonhos que A sobrevivência da cultura
NUMA ESPIRAL DA VIDA perfeita”, a mesma que proferimos
com suas inquietudes, suas misé-
todos tinham e que Nuestra Gente
faria o possível para materializá-los;
comunitária

rias, suas vilezas, suas desesperan- claramente, o plano nos mostra que “Os princípios de autonomia e auto-
JORGE BLANDÓN ças que nos obrigam a trabalhar somos uma ponte entre a comuni- determinação dos povos indígenas
com ímpeto, com a força que nasce
do amor, de dizer não à guerra... de
dade marginalizada de recursos e o
Estado centralista que durante mui-
não são em si conceitos (ademais
não são discutíveis), são vivências 1
Estamos há muitas noites na época Essas velhas ideias convivem como beres acumulados, sabores cítricos saber que tudo está por ser feito, to tempo não cumpriu suas obriga- práticas, fundamentadas em princí-
do medo e de sua filha mais velha, modelo do medo, um “conservado- (mas não agridoces) e certezas que que somente se nos juntarmos será ções, ou sim, as cumpriu, mas de pios e raízes ancestrais muito pro-
a desconfiança; assistimos a uma rismo” cultural, que as instalou, que fazem cenários possíveis onde fazer possível alcançar a paz para todos. forma perversa, através da repres- fundas; parafraseando Mamo Nor-
estranha cultura da dor e, em cada ainda opera nos estamentos legíti- ajustes necessários ao sistema que são militar e policial e a “clienteliza- berto, a autonomia se expressa nas
amanhecer, alguém nos faz sentir mos da institucionalidade cultural devemos modificar com a força cria- Que todos os dias devemos exigir ção” do Estado com barões e caci- formas de viver, sentir e pensar. Isso
um novo êxito do desrespeito. que ali segue com parcimônia ten- dora de todos nós. mais democracia deliberativa, me- ques que continuam capturando o é sobrevivência.”
Habitamos a mentira. Temos que tando garantir um lugar para não nos representação, mais participa- orçamento público.
empreender uma luta dura e longa perdê-lo totalmente. “Uma elite na- Hoje assistimos ao Encontro Inter- ção real nas ruas, no congresso, no A partir de nossa concepção de
contra os que nos mentem. cional golpista, intransigente e anti- nacional Arte, Cultura e Democracia tribunal, no palco, na escola, no bair- Passar de dias de muito ativismo e cultura VIVA Comunitária, estabele-
democrática.” no século XXI como uma janela que ro, e somente assim seremos capa- com pouco planejamento, mas sim, cemos de forma permanente uma
Luis Alirio Calle, periodista, se abre para a conversa, a cocriação zes de fazer com que estas velhas com muita dedicação e reflexão, a relação harmoniosa e respeitosa
Medellín. Nesse modelo de velhas ideias, solidária, amorosa e renovadora de ideias, de algumas elites classicistas, entender que era preciso consoli- com a natureza, não como ação que
centenas de mulheres e homens nossa humanidade, soma de sabe- racistas que ainda governam o país dar o trabalho cultural nas comu- submete, mas sim como uma ação
Umas velhas ideias sustentam um conseguiram hackear o aparelho, in- res e aprendizagens, mas também conchavados com outros poderes, nidades a partir da formulação dos transformadora que pensa de for-
velho país... troduzindo-se como um “vírus” que soma de fracassos e derrotas às que sendo o judicial o que acusa e enca- planos locais, planos culturais em ma profundamente humana. Num
E novas ideias são empurradas revitaliza esperanças; sua fé poética se deve dar a volta juntos, com o deia a verdade. relação à educação; o imperativo espaço em que vivemos e no qual
para criar um novo país. conseguiu abrir o código, oferecen- firme propósito de melhorá-la, que se estabeleceu traçando cuidadosa- recriamos, de forma simbólica, nos-
do à sociedade oportunidades de novas gerações tenham a clareza Como artista, nossa tarefa é mediar, mente estratégias que permitiram sas práticas e maneiras de viver um
mudança. meridiana de serem autocríticos e para que se garanta às pessoas da que o sonho fosse mais duradouro novo tempo humanizado, onde se-
de corrigir aquilo que não fizemos comunidade a liberdade, o bem-es- e menos instável, metas que foram jamos garantia da sobrevivência de
Nada foi fácil, ainda no esgotamento bem feito. tar e a dignidade. A arte deve cum- inclusivas a toda a comunidade, mu- nós mesmos como espécie.
do aparelho, o velho chefe tira toda prir sua função estética, mas tam- lheres e homens com profundo va-
sua força e se renova em discursos Somos mudança de época bém deve recuperar seu enorme lor de seus saberes e práticas. Acreditamos que o mundo atual
de ódio, racismo, violência, se im- potencial de estimular nosso desejo deve conceber a cultura e a natureza
põe a polarização, e alguns desses Somos filhos da Teologia da Liberta- de viver a vida com toda a intensida- Nosso Povo continuava sendo a como espaço fundamental de “hos-
colegas são segregados, sofrendo ção, que se narra hoje como “evan- de e a alegria que se merece. aposta ganhadora no bairro, todos pitalidade”, onde a sobrevivência é
ameaças, expulsão. Não podemos gelho cansado”, esgotados pelos esses ganhos, dizia-se a muitos dos o núcleo central dessa relação, na
nos esquecer que os sistemas da “evangelhos das catacumbas”, que Como disse William Ospina, para- garotos pelaos, integrantes das gan- qual é possível estabelecer um diá-
economia e a comunicação que tem não têm bondade, nem amor, nem fraseando o relato de Ray Bradbury: gues do narcotráfico, que existem logo fraterno, que possibilite a ges-
sob seu poder o velho “espião” cap- verdade... “Se a tempestade vem, que sejamos opções diferentes às da morte, e a tão de uma ética cultural comunitá-
turaram o sistema da vida. nós mesmos a própria tempesta- CULTURA sim, era uma delas. ria, que facilite a compreensão das
Desde antes de assistir ao fogo do de... SOMOS as pessoas que conti- riquezas que as culturas têm, onde
Alguns dos colegas se negam a dei- nascimento, vi como em meu país o nuam acreditando no poder media- A prática artística que estimula a o direito de sonhar seja de todos, e
xar o lugar da resistência, pois se assassinato se tornou um ato natu- dor e transformador da palavra e do criatividade nos habitantes dos bair- que não seja prejudicado por uma
sabe que ter um problema adiante é ralizado. gesto artístico como mais um meio ros da periferia tem um interesse vontade desenfreada de roubar do
como ter um maravilhoso desafio a de transformação do mundo. em fazer que suas moças e moços homem sua humanidade e o valor
se resolver, o que nos permitiu pen- Como aceitar que na Colômbia tenham opções para a vida, que a da vida, por uma suposta “economia
sar em uma oportunidade de supe- tenhamos 250 mil assassinatos em A casa para amar-e-la como lugar arte potencialize a transformação verde”, onde as regras do mercado
rar-nos a nós mesmos e à sociedade uma guerra que não deixa “poder para habitar contra o mal tempo da realidade. A criação e a cultura continuam como centro das supos-
que enfrenta os problemas... para nada e para ninguém”, uma como mediadores de um tempo e tas soluções.
cruel polarização; 8 milhões de pes- O bairro como território que nos um espaço na comunidade, cada
26 ensina, a casa é formadora, a es- um busca e encontra seu próprio 27
Resta-nos, então, fazer a soma de soas que vivem o inferno do exí-
aprendizagens, de experiências, sa- lio, 80 mil desaparecidos, um grito
C u lt u r a , c r i s e e d e m o c r a c i a n o s é c u l o X X I – r e f l e x õ e s c r í t i c a s
Neste sentido acreditamos que a garanti-la, e também estabelecer mas, refinando as necessidades co-
gestão cultural deve ser capaz de algum tipo de controle político que muns que foquem num desenvolvi-
se reinventar em seus tempos, no permita que esta cidadania cultural mento geral e para todos. Para isso
compasso do saber das comunida- acesse de maneira coletiva os meca- existem atores de ambos os lados;
des e da mediação de seus criado- nismos de participação. Isto ajudará representações tanto da comunida-
res, compreendendo que o tempo a pensar em formas de articulação de como do Estado. Isso ajudará a
que se impõe a partir dos planos de que se baseiem nas necessidades fortalecer o trabalho em conjunto
cada governante fazem com que se reais das populações. É importante de pensamentos coletivos. Atuar
sucumba o sonho coletivo, por um ter uma vontade política para gerar com responsabilidade ética a partir
interesse partidário, que os planos transformação, pois isto é a chave de todos os envolvidos que se de-
de vida de uma comunidade devem para as organizações comunitárias. senvolvam relações recíprocas nas
ultrapassar os de cada quatro anos, Isso implica que se trabalhe para quais sejam compartilhadas suas
que as temporalidades exigem mar- erradicar a segmentação das orga- conclusões com a comunidade.
car um “vento/tempo” que empurra nizações, garantir as relações e uni-
de baixo para cima para que aconte- ficar as articulações dos bairros e Sabemos que na CULTURA exis-
çam as coisas numa espiral da vida. das ruas; isso se consegue mediante tem atos que fortalecem a PAZ
trabalhos comunitários em rede,
A partir da proteção das semen- integrando as zonas urbanas e tam- Os processos de Cultura Viva co-
tes que sobreviveram de mãos em bém rurais. munitária devem nos permitir fazer O estímulo, a
mãos, mediante ações de permu- acupuntura na cultura, reconhecer o
tas, valorização da própria cultura, Uma proposta para isso é criar pro- que somos, desenvolver a força que expressividade,
compreensão e reconhecimento gramas, sem necessidade de nor- nos nutre espiritualmente. A Cultura 1
dos outros. Saber fazer da gestação mas ou leis, que consigam mais Viva Comunitária nos une, apesar de a criatividade e a
um nascimento que nos aproxime acolhimento nos processos de par- tudo, nos permite resistir e sobrevi-
da conquista de novas luas e sóis. É ticipação cidadã, potencializando ver, apesar do terror, da violência e convivência geram
de suma importância que tanto os a organização, e tendo muito claro dos medos. A Cultura Viva Comuni-
gestores públicos, sociais, culturais que não será permitido nenhum tária nos permite sonhar um cam- condições para o
e comunitários possamos compre- tipo de ideologia particular, pelo po/cidade diferentes, um projeto
ender essa rota de processos hu- contrário, que tudo obedeça aos in- integral de sociedade onde a econo- exercício dos direitos
manos a partir do afazer de nossas teresses coletivos com propósitos mia não pode capturar a vida, nos
próprias culturas. unificados. permite avançar na construção de culturais e também
uma verdadeira democracia.
Quanto à sobrevivência, se faz ne- Nesta mesma ordem de ideias, o para a construção da
cessário manter a mobilização para fortalecimento político livre de dog-
cidadania.
Cuidar da vida e salvar
a América Latina de uma JOSE ANTONIO MAC GREGOR
guerra e invasão total...
Parem os tanques, detenham os Diretor de Cultura do município de
obuses, tirem as mordaças, soltem El Marqués, Querétaro, México
as algemas... e venham para o jogo
da vida, onde amar pode ter um
belo sentido de voltar
a viver...

Guerreiro não duvide, traga teus


bons princípios, teus gostos e
preferências pelo bem fazer da
vida uma arte, teu sentido belo da
educação e da cultura... tuas doces
recordações da terrinha que lhe viu
nascer...

Homem briguento é tempo do


cansaço e do tédio, é hora de unir
o amor e a Beleza para que a PAZ
tenha seu novo tempo.
Unir o amor com a Beleza para
que “a PAZ ganhe novas asas” com
rostos de criança dia, de mulher
amanhã, de homem ontem...
28 Archivo de Nuestra Gente - Mural de Nuestra Gente Amarilla 3 29
Foto CINDY PATERNINA
C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
O QUE NÓS ESTAMOS 2
FAZENDO?
RENATA MARQUEZ

Quando nós falamos dessa relação São tempos de construção de alian- nária e utópica, ressurge como uma
do artista, da arte, sociedade, ças, e aqui compreendemos a im- força capaz de desorientar o mundo
política, educação, nós estamos portância do Encontro Internacional que aqui está posto? Por que eles
falando de ser político, o que é Arte, Cultura e Democracia no sécu- estão com tanto medo?

Cultura e inerente a qualquer um de nós. Nós


todos somos esses seres políticos,
nós mediamos as nossas relações.
lo XXI: o empreendimento e a aber-
tura para uma prospecção coletiva e
reflexiva sobre arte, cultura e demo-
Como nosso espaço-tempo recon-
textualiza a centenária questão so-

participação social
cracia, que tem como pressupostos bre a função social da arte? Se hoje
(Rui Moreira – Bailarino, a recusa ao esquecimento, o elogio temos no país escolas sem arte e
coreógrafo e investigador de ao afeto e a defesa da arte como lu- ministérios sem cultura, é porque
culturas) gar estratégico. arte e cultura são perigosamente

no século XXI
“escolas de vida, em seus múltiplos
Para contextualizar este breve en- sentidos”, como escreveu o filósofo
saio, é necessário dizer que venho Edgar Morin (2002, p. 48). Porque
de um lugar híbrido. Sou profes- arte ensina a viver melhor, ensina a
sora de arte nos cursos de Arqui- pensar, a exercitar as “metamorfo-
tetura e Urbanismo e de Design ses da percepção”, como dizia Wal-
da Universidade Federal de Minas ter Benjamin (apud SANTOS, 2004).
Gerais (UFMG); fui também cura- E ninguém consegue deter essa
dora de algumas exposições e sou potência.
uma das editoras de uma revista
que existe desde 2010, a PISEAGRA- Entretanto, enquanto esquivar-se
Os textos a seguir traduzem a reflexão MA, surgida no contexto do extinto de ser alvo daquilo que vem de fora
sobre cultura e participação social. Programa Cultura e Pensamento do seja uma coisa, sem dúvida, muito
Momento destinado a discutir sobre extinto MinC. difícil de ser feita, eu gostaria de tra-
os espaços urbanos e simbólicos, não tar aqui do trabalho interno que nós
apenas como resultado de uma adap- Gosto de habitar esse lugar inespe- também temos que fazer. Porque
tação ao meio físico, mas também cífico entre a universidade e a cida- aquele lugar inespecífico de onde
como produto e resultado da cultura de. Gosto também de habitar esse falo é composto basicamente por
de um povo e suas formas de organi- lugar inespecífico entre a arte e os três espaços: a universidade, o es-
zação e apropriação de espaços co- outros campos do conhecimento, paço expositivo e o espaço editorial.
muns, e sobre ações colaborativas no porque não me atrai a arte como Espaços tradicionalmente moder-
fazer político. objeto-fim, mas me interessa a arte nos, colonialistas, elitistas e exclu-
como objeto-meio. dentes. E isso não é pouco.

E por que será que as manifestações Aqui cabe bem a pergunta contida
de afeto e de arte estão sob a mira no texto “A proposição cosmopolíti-
de grande parte das práticas políti- ca”, de 2007, da filósofa belga Isabelle
cas atuais, ou melhor, das práticas Stengers: “O que nós estamos fazen-
policiais atuais (RANCIÈRE, 1996)? do diante desse pavor?” Toda uma
30 Por que a arte, depois do esgota- história foi construída a partir de uma 31
mento histórico da arte revolucio- tradição que precisa ser repensada.
C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
A própria reflexão sobre aquela que Quando Despret fala em tomar um “tehey” é o nome que deram aos de- “O museu moderno tem que ser um Fig. 1
Foto RODRIGO ZEFERINO
talvez seja a principal dicotomia da discurso afetivo e torná-lo discur- senhos feitos para a Escola Indígena museu didático [...] para não cair em
modernidade, aquela responsável so, eu penso imediatamente num da aldeia, desenhos entendidos por um museu petrificado, isto é, intei-
por separar natureza e cultura, e programa que a UFMG desenvolve todos como “redes de pescar conhe- ramente inútil” (Ibidem, p. 100).
que assim justificou a capacidade e do qual participo desde seu iní- cimento” e ensinar as crianças sobre
exploratória ilimitada dos recursos cio, em 2014, que é o Programa de o tempo e o espaço. No final deste Casas, mas também escolas, museus
da natureza e também dos recur- Formação Transversal em Saberes ano, poderemos ver os desenhos de e bibliotecas, contra a ideia de tratar
sos humanos, segundo a qual tudo Tradicionais, que faz parte da rede Liça Pataxó na exposição Mundos in- os edifícios culturais como “um luxo
podia ser objetificado – e que ago- do Projeto Encontro de Saberes do dígenas, no Espaço do Conhecimen- intelectual”. Imaginem nossa situa-
ra nos conduz a problemas globais Instituto Nacional de Ciência e Tec- to UFMG. ção atual com essa fragilidade insti-
graves e talvez irreversíveis como o nologia de Inclusão no Ensino Supe- tucional generalizada, com a recente
aquecimento global, a contamina- rior e na Pesquisa (INCTI) da Univer- Uma vez que já fizemos esse mo- perda trágica do Museu Nacional da
ção desenfreada e a extinção imi- sidade de Brasília (UnB). Um projeto vimento para o espaço expositivo, UFRJ, nós que, na cidade de Belo Ho-
nente –, nos força a perceber que o em que a universidade se abre para lembro-me de outra perguntadora rizonte, mal temos museus moder-
tempo de hoje precisa de mudanças uma nova química, uma alquimia, maravilhosa. A artista e ativista bell nos, museus petrificados ou museus
de hábitos e de paradigmas. Então, para que as mestras e os mestres hooks (assim mesmo, escrito com le- inúteis, como pensar nosso museu 2
“o que nós estamos fazendo diante das culturas tradicionais venham tras minúsculas, segundo a vontade didático? Um museu ordinário, ao
desse pavor?” Diante da “passagem dar aulas na universidade e partici- de hooks) que, no Whitney Museum, invés de extraordinário? Então, te-
de um pavor que faz balbuciar as se- par dessa construção coletiva de co- de Nova Iorque, em 1992, pergunta mos um longo trabalho interno para
guranças” (STENGERS, 2018, p. 447)? nhecimento. aos visitantes na abertura da ex- fazer, apesar das muitas distrações
posição de Jean-Michel Basquiat o exteriores que tentam nos dissuadir
É interessante lembrar que Stengers E ainda dentro da universidade, po- que eles sentiam quando olhavam dessa tarefa e fazer com que não
é também química e antropóloga e, demos perguntar: Qual é o papel para as pinturas expostas. E ela cumpramos esse trabalho interno. Fig. 2
ao reunir essas coisas, nos dá ideias formador da arte? Não somente a percebe que ninguém conseguia Foto RENATA MARQUEZ
para imaginarmos como compor arte da Escola de Belas Artes ou de responder, que “algo parecia entra- Eu gostaria de terminar com um
esse novo mundo. Como compor Design ou mesmo de Arquitetura, var o caminho, impedindo as pes- pequeno grupo de imagens que fize-
com elementos díspares que só mas a arte como modo de conhe- soas da articulação espontânea de ram parte de programas curatoriais
juntos formam possibilidades inu- cer. A arte como leitura e escritura sentimentos evocados pela obra”. dos quais participei, para imaginar-
sitadas, inesperadas. Se o proble- de mundos integra a diversidade Percebe que ninguém conseguia mos esse possível museu de outros
ma recorrente da nossa tradição epistemológica do mundo comum e ser movido, ser tocado, deslocado, pontos de vista:
ocidental é tudo “transformar em ela é, de fato, “perigosa”, porque faz renascido de repente. “Desde uma
chave universal neutra, isto é, váli- hesitar, porque desacelera, porque perspectiva eurocêntrica só se é ca- O museu andante
da para todos”, como “desacelerar produz perguntas. paz de ver e valorizar aspectos que O museu vizinho
a construção desse mundo comum simulam as familiares tradições ar- O museu campestre
[um comum compulsório], criar um Na verdade, fazer perguntas é um tísticas ocidentais brancas”, escreve O centro [é] cultural
espaço de hesitação a respeito da- método muito eficaz. É importan- hooks (2018). O museu no teatro
quilo que fazemos […]” (STENGERS, te não formarmos respondedores,
2018, p. 445-446)? máquinas de responder. Muito mais Do outro lado do globo, a partir do Respectivamente, imagens de Jonas:
interessante é nos dedicarmos a ponto de vista de um outro mundo Lameiras, 1996. Exposição País pai-
A universidade, o espaço expositivo formar bons perguntadores, capa- coexistente, a historiadora, profes- sagem, Ipatinga, 2011 (Fig. 1); Moni-
e o espaço editorial são espaços tí- zes de desacelerar os discursos e de sora e ativista Beatriz Nascimento, ca Nador: Paredes pinturas. Exposi-
picos da “vantagem epistemológica”, criar espaços de hesitação, como di- seis anos antes de ser assassinada, ção Outros lugares, MAP, 2012 (Fig.
nas palavras de Viveiros de Castro zia Stengers. narra no filme Ôrí, de Raquel Gerber 2); Louise Ganz e Ines Linke: Museu
(2002, p. 115). Espaços de poder, de (1989): “Eu conto a minha experi- campestre. Exposição Outros Luga-
dizer o que é conhecimento e o que Como estamos lidando com a potên- ência em não ver Zumbi, que para res, MAP, 2012 (Fig. 3); Vitor Cesar: Fig. 3
Foto DANIEL MANSUR
não é, o que é arte e o que não é, o cia educativa da arte? Ao elegermos mim era o herói”. Beatriz Nascimen- Centro cultural. Exposição Escavar
que é cultura e o que não é. E temos a escrita como lugar privilegiado de to transforma afeto em discurso e o futuro, Palácio das Artes, 2013
que nos capacitar para rever essas produção e armazenamento do co- prospecta um outro mundo pos- (Fig. 4); e uma imagem do palco do
seguranças, essas certezas, esses nhecimento, nos tornamos muito sível, onde há lugar para todos os Teatro Francisco Nunes com uma
paradigmas. Pensando na univer- pouco treinados para lidar com as heróis. pintura de Liça Pataxoop projetada
sidade, como reconsiderar ou abrir imagens e com outras formas de (Fig. 5), onde estive com meu filho e
espaços de igualdade entre falas discurso não escrito que não con- E por falar em prospectar, em pro- outras crianças, no mês de julho de
que não considerávamos discurso? siderávamos como discurso episte- jeto de mundos, vamos para o es- 2019, para escutar Siwê Pataxoop,
mológico ou científico. paço editorial da Bahia, com um filho de Liça, contar histórias de ou-
Uma amiga da Stengers, a filósofa texto publicado no Diário de Notícias tros mundos, experimentando uma
Vinciane Despret, tem uma outra Isso me faz pensar em nosso en- (Salvador), em 1958, que traz uma pedagogia pela imagem.
pergunta importante para nós, que contro recente com Kanatyo e Liça pergunta ainda muito atual da ar-
é: “Como tornar um discurso afetivo Pataxó, indígenas da aldeia Muã Mi- quiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi:
um discurso?” Ela diz: “Não um dis- matxi, próximo à Itapecerica, em Mi- “Primeiro as casas ou museus?”
curso afetivo, mas um discurso so- nas Gerais. Eles dizem: “Nossa vida
bre a afetividade, sobre o corpo, so- de leitura é com a natureza”. Numa Lina responde em seguida: “Tudo
bre os modos de fazer?” (DESPRET, prática pedagógica autônoma, eles de uma só vez: as casas, as escolas,
32 2015). E assim, toda uma outra polí- transformaram o tehey, “rede de os museus, as bibliotecas” (BAR- 33
tica pode aparecer. pesca tradicional”, em discurso: DI, 2011, p. 98), acrescentando que
C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
Fig. 4
Foto DANIEL IGLESIAS

REFERÊNCIAS

BARDI, Lina Bo. Lina por escrito. Textos escolhidos. São Paulo: Casac & Naify,
2011.

DESPRET, Vinciane; STENGERS, Isabelle. Entrevista. Revista DR, n. 1, mar. 2015.


Disponível em: <http://revistadr.com.br/>. Acesso em: 13 nov. 2019. 2
GERBER, Raquel. Ôrí. Gênero: documentário. Ano: 1989. Restauração digital:
2008. Direção, argumento e roteiro: Raquel Gerber. Fotografia adicional: Adrian
Cooper, Jorge Bodanzky e Pedro Farkas. Trilha sonora: Naná Vasconcelos.
Produtoras: Angra Filmes Ltda.; Fundação do Cinema Brasileiro: São Paulo,
Brasil.

HOOKS, bell. Altares do sacrifício: relembrando Basquiat. PISEAGRAMA, Belo


Horizonte, seção Extra!, 16 nov. 2018.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento.


Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. São Paulo: Ed. 34,


1996.

SANTOS, Laymert Garcia dos. Educação desculturalizada. São Paulo: Goethe


Fig. 5 Institut, 2004.
Foto RENATA MARQUEZ

STENGERS, Isabelle. A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos


Brasileiros, Brasil, n. 69, p. 442-464, abr. 2018.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O nativo relativo. Mana, v. 8, n.1. Rio de Janeiro,


abr. 2002.

Imagens
BRAZ, Siwê. Contação de histórias tradicionais do povo Pataxó: tradição e
oralidade. Pintura Liça Pataxoop. Palco do Teatro Francisco Nunes, 2019.
Fotografia Renata Marquez.

CESAR, Vitor. Centro cultural (2009). Exposição Escavar o futuro, Palácio das
Artes, 2013. Fotografia Daniel Iglesias.

GANZ, Louise; LINKE, Ines. Museu campestre (2012). Exposição Outros lugares,
MAP, 2012. Fotografia Daniel Mansur.

JONAS. Lameira de caminhão (1996 c.a.). Exposição País paisagem. Fotografia


Rodrigo Zeferino, Ipatinga, 2011.

NADOR, Mônica. Paredes pinturas (2012). Exposição Outros lugares. Fotografia


Renata Marquez, MAP, 2012.

34 35
C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
manência e a sistematização teatral, Ulises de Sanchis Sinisterra, Música lúdica o conhecimento. Realizamos
trabalho que continuamos realizan- ligera, entre outras. vários espetáculos de alto nível téc-
do ininterruptamente por 40 anos. nico sobre a corrupção, o abuso se-
Em 2007, Daniel Ortega retomou o xual e a intolerância, baseados em
Poucos anos depois, em 1990, a poder. Não deixamos de acariciar a pesquisas sociais, para ampliar o
frente Sandinista de Libertação Na- esperança de que poderíamos re- debate com a sociedade civil.
cional perdeu as eleições para a tomar a revolução que havia ficado
União Nacional Opositora, liderada truncada em 1990. A história nos es- No âmbito desse projeto e preocupa-
pela Dona Violeta Chamorro. Esse tava dando uma segunda oportuni- dos com os altos índices de violência
fato modificou a vida no país, sem dade de mudar a cultura política do intrafamiliar, criamos Sopa de muñe-
que ninguém estivesse preparado país e modificar as estruturas eco- cas. Este espetáculo foi idealizado
para isso, nem os perdedores para nômicas, políticas e sociais a favor para realizar vinte apresentações
perder, nem os ganhadores para ga- dos mais desfavorecidos. e debates para diferentes comu-
nhar. Ter nosso próprio espaço foi nidades vulneráveis da sociedade.
justamente o que nos possibilitou Mas infelizmente, logo percebemos Até os dias de hoje, temos mais de
TEATRO E enfrentar a situação. que não seria assim. Esses valores 400 apresentações, e ele foi visto 2
aprendidos nos anos 1980 ficaram por mais de 70 mil pessoas. Servia
PARTICIPAÇÃO CIDADÃ Os artistas que não desenvolveram como lemas e desapareceram na como ponto de partida para refle-
mecanismos de independência eco- realidade. Após 13 anos de governo tir e garantir a presença do público,
LUCERO MILLÁN nômica, infelizmente, desaparece- que se proclamava como “cristão, das instâncias governamentais e da
ram, marcando essa etapa como socialista e solidário”, aos poucos sociedade civil, que por seu acesso
uma situação de crise, já que muitos foram sendo construídas duas Ni- ao poder, puderam incidir minima-
A arte exige do artista um Não tenho outra maneira de falar Nossas peças destes primeiros anos deles se acostumaram à subven- caráguas: aquela que estava perto mente na solução do problema da
novo olhar sobre o mundo mais do que conheço, por isso, a foram realizadas através da me- ção, sem criar outras alternativas. do governo, acumulando poder e violência contra a mulher, afirman-
contemporâneo, faz dele alguém própria genealogia do meu grupo de todologia da criação coletiva, pois Os que felizmente sobreviveram riqueza, e da maioria do povo invi- do um acordo simbólico chamado
naturalmente comprometido teatro servirá para expor uma expe- permitia a participação de todos os aprenderam a lição mais importan- sibilizado. “Agendas de mudança”. A experiên-
com o social. Por meio da arte e riência significativa de participação integrantes do grupo, em igualdade te de nossas vidas: a única maneira cia teve tanto sucesso que consegui-
da cultura, poderemos ampliar social no âmbito da Revolução Po- de condições e uso do teatro como de garantir a sustentabilidade do Nós continuamos a fazer o teatro no mos que se construísse um albergue
as possibilidades de um país pular Sandinista, revolução que se instrumento de luta política e comu- trabalho e a liberdade artística foi e qual acreditávamos, tentando pegar para mulheres maltratadas e que se
enfrentar os grandes desafios e as constituiu no acontecimento cultu- nicação social. continua sendo a autogestão. o melhor de cada uma dessas duas aumentasse consideravelmente as
perspectivas de futuro. ral mais importante da Nicarágua. etapas: a revolucionária e a neolibe- denúncias de abuso e violência. Foi
Todas as peças, como A golpes de Após essa virada histórica, seguiram- ral, e voltamos a ver lá fora, mas sem uma experiência importante de par-
(Gabriel Portela Saliés – Quatro meses após o triunfo da re- corazón, La virgen que suda, Escenas -se 16 anos de governos neoliberais, nos esquecer de que esse ponto de ticipação cidadã, onde claramente o
Secretário Adjunto da Secretaria volução em 1979, surgiu o Teatro de mi ciudad, abordavam diferentes uma transição que não só nos pegou vista partia de nossa própria subjeti- teatro contribuiu para ‘empoderar’
Municipal de Cultura de Belo Justo Rufino Garay, grupo que fun- tópicos da vida cotidiana, que senti- de surpresa, mas também nos ge- vidade como indivíduos. Queríamos um setor da população.
Horizonte) dei ao chegar do México, meu país mos que deveríamos expor para cui- rou um sentimento de desamparo e fazer um teatro como instrumento
de origem, com apenas 19 anos de dar desse belo processo revolucio- desproteção. De um lado queríamos de participação cidadã que voltas- Seguindo esta rota de inovação so-
idade. A partir dessa plataforma, nário que estávamos construindo. continuar trabalhando em um pro- se a ampliar públicos, contribuísse cial, desenvolvemos um projeto
nos integramos como grupo, com cesso que nos havia custado a vida, para a construção de uma cultura chamado “O público é o ator”, onde
Amamos tanto essa revolução que e por outro, não encontrávamos os de tolerância, que refletisse sobre conseguimos a participação ativa
amor e paixão por todas as tarefas
consideramos que nossa maneira suportes institucionais nem emo- os direitos humanos, a diversidade da população a partir das metodo-
revolucionárias: cortes de café, algo-
de participar seria continuar como cionais para poder continuar. Então e a igualdade de gênero, porém sem logias do Teatro do Oprimido, do
dão, brigadas culturais para o cam-
todo artista que se respeite, com um nos perguntamos: “Agora que havia ter que fazer nenhum tipo de con- conterrâneo de vocês, o brasileiro
po, frentes de guerra, treinamento
pensamento crítico em relação ao desaparecido a revolução, como po- cessão, a partir da criação de uma Augusto Boal.
militar, a campanha nacional de al-
abuso de poder, a corrupção, a in- deríamos nos inserir na sociedade?” poética que se nutra da realidade
fabetização, entre outros. Fizemos
tolerância e o machismo. Estávamos O olhar, portanto, mudou, deixamos social. Quando falo de realidade so- Com a peça Mordanzas (2013), que
um teatro festivo, alegre, colorido e
começando a ver que a lua de mel de ver para fora e nos olhamos uns cial, não estou me referindo unica- aborda o tema da cultura do medo
expressivo. Foram anos felizes, tam- dos primeiros anos se desvaía e que
bém de grande sacrifício pessoal, aos outros. Começamos a fazer um mente a assuntos externos, mas sim como um fenômeno novo para a Ni-
estávamos entregando enormes co- teatro mais íntimo, mais reflexivo, ao nosso próprio mundo interior. carágua, e com a intenção de contri-
econômico, da perda de entes que- tas de poder aos nossos líderes.
ridos, anos de escassez, de tensão, também menos alegre, as cores Peças representativas desse perío- buir para o combate à autocensura
mas tínhamos o mais importante eram cinzas. A esta etapa lhe demos do são Sopa de muñecas, La revuel- e à defesa da liberdade de expres-
Na Nicarágua, ao contrário de ou- o nome de “menos é mais”. Decidi- ta, Mordazas, La ciudad vacía e, a há são, desenvolvemos o teatro fórum
que um povo pode ter: esperança. tros países, exceto o Teatro Nacio-
Lá aprendemos valores como “so- mos que a partir desse momento pouco estreada, Francisca. com comunidades vulneráveis, con-
nal Rubén Darío, não havia salas trabalharíamos com poucos atores vidando-os para subir no palco para
lidariedade”, “companheirismo”, de teatro nem cultura para assistir e com formatos pequenos, mas Desde 2007, desenvolvemos um que decidissem, com suas atuações,
“camaradagem”, “lealdade”, “coe- às peças: O normal era fazer teatro que esses poucos atores estariam projeto que intitulamos “Teatro e qual rumo e final a peça teria.
rência”, “trabalho em equipe”, “sen- nos espaços onde as pessoas esta- comprometidos com a experimen- participação cidadã”, que teve um
timento de pertencimento”. Valores vam, e não o contrário: praças, ruas, tação, a busca de novas linguagens impacto importante em diferentes Nessa mesma linha, desenvolve-
que tentamos fazer presentes até frentes de guerra, centros produ- artísticas e técnicas, o treinamento setores da sociedade. Formamos mos o teatro invisível, realizando
os dias de hoje em nosso trabalho tivos etc. Foi então que fundamos, diário, a paixão pela arte e pelo tea- jovens atores e mestres como pro- ações com atores, sem que a popu-
criativo, sob um simples lema: “Se- em 1986, a primeira sala de teatro tro. São as seguintes peças: La casa motores culturais, que por sua vez lação tivesse conhecimento de que
remos melhores artistas somente à independente do país, com o propó- de Rigoberta mira al sur, de Arístides reproduziram o conhecimento em se tratava de teatro, nas ruas, nos
medida que somos seres humanos sito de criar um público de teatro a Vargas, El malentendido, de Camus, seus bairros e em seus centros edu- ônibus, nos mercados e nas institui-
36 37
melhores”. médio e longo prazo, através da per- La noche de Molly Bloom, versão de cativos, multiplicando de maneira ções. Ações baseadas em pesquisas
C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
PLANO NACIONAL DAS ARTES – MANIFESTO 2
“PARA TODOS, COM CADA UM”
PAULO PIRES DO VALE

Na Constituição da República Portu- 2.


guesa, podemos ler, no artigo 73º, Entendemos a cultura no plural,
depois de se afirmar que “todos têm considerando a multiplicidade das
direito à educação e à cultura”: “O suas manifestações e diferenças co-
Estado promove a democratização munitárias, ultrapassando as sepa-
da cultura, incentivando e assegu- rações entre o popular e o erudito,
La ciudad vacía rando o acesso de todos os cida- o tradicional e o contemporâneo, e
Foto SANDRA ZEA dãos à fruição e criação cultural […]”. atendendo às novas linguagens cria-
Procurando cumprir este desígnio, o das pelos jovens.
Plano Nacional das Artes foi instituí-
do pelo Ministério da Cultura e pelo 3.
sobre os assuntos mais tocantes Começando a crise, recebi ameaças espaço livre e tolerante em nossa Ministério da Educação, para o hori- “A cultura – afirmou Sophia de Mello
para a sociedade. Essas mesmas de morte e de queimadas nas insta- escola, para formá-los como atores. zonte temporal 2019-2029, por meio Breyner Andresen – não existe para
experiências foram gravadas com lações de nossa sala de teatro. Saí Voltamos a ver um grupo de jovens da Resolução de Conselho de Minis- enfeitar a vida, mas sim para a trans-
câmera oculta e projetadas nas re- do país em 24 horas. Passei um tem- com os mesmos valores aprendidos tros nº 42/2019, de 21 de fevereiro. formar – para que o homem possa
des sociais, gerando ainda mais re- po fora, mas decidi voltar, motivada naqueles primeiros anos de revolu- Estes são os princípios e valores que construir e construir-se em consci-
flexões e debates entre os cidadãos. pelo compromisso com meu grupo ção, solidários, valentes, com de- orientam a nossa ação: ência, em verdade e liberdade e em
e com a Nicarágua. Foi duro chegar sejos puros de liberdade. justiça [...]”. Nesse sentido, a estéti-
Como grupo de teatro, o caminho e me encontrar com um país, pelo 1. ca não está distante da ética nem da
não tem sido fácil; são 40 anos de qual me apaixonei por sua liberda- Esperamos voltar a viver a alegria Contrariamente à pretensão de política.
existência em que cada uma de de, que agora está sequestrado. de nos encontrarmos novamente na um conhecimento imediato de si
nossas montagens obedeceu, em Nesse momento, eu pensava nas praça, para celebrar juntos a cons- próprio ou da comunidade que se 4.
termos de conteúdo e em termos palavras de nossa poetisa Giocon- trução de uma nova Nicarágua, com quer construir, assumimos que as Compreendemos a arte como par-
estéticos, os diferentes contextos da Belli: “Como se vive duas vezes justiça, democracia e liberdade. To- manifestações culturais são a me- te da vida – e não como um mundo
políticos, econômicos e sociais da o horror da memória? Quantos tira- mara que seja assim! Enquanto isso, diação necessária para o reconhe- paralelo, fora da existência ou num
Nicarágua. Os contextos influencia- nos uma vida pode chegar a ter?” continuamos acreditando no que cimento pessoal de cada um e da âmbito isolado da “cultura”.
ram nossa obra artística, e, por sua nos salvou durante quatro décadas: comunidade que somos e proje-
vez, nossas obras contribuíram para Novamente o teatro nos salvou da o teatro, como nosso espaço de li- tamos: construímos a nossa iden-
problematizar e propor uma nova raiva e da impotência diante de tan- berdade e resistência. tidade em diálogo com esse depó-
realidade, entendida como uma re- tos mortos. Não tínhamos, de forma sito de humanidade que está no
alidade de múltiplas leituras. muito clara, como continuar partici- Obrigada! património1 (material e imaterial)
pando dessa situação de crise, dado e nas obras de arte.
Em abril de 2018, uma rebelião po- que continuo sendo mexicana e não Belo Horizonte, Brasil, Agosto de 2019.
pular pacífica estourou novamente. me permitem opinar politicamente,
O resultado, em um ano e meio, foi portanto nos dedicamos a ensaiar
de mais de 500 mortos, centenas nossa próxima peça e ajudar os
de presos políticos, dezenas de de- jovens valentes, que nas ruas vol-
saparecidos e aproximadamente taram a cobrir o rosto com panos
100.000 nicaraguenses no exílio. azuis e brancos, lhes oferecendo um

38
1
Este artigo apresenta variações ortográficas do Português de Portugal previstas no Acordo Ortográ- 39
fico da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).
5. 15.

C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
um lado, as artes exigem a educa-
Queremos criar condições estrutu- ção da sensibilidade, a tomada de Numa sociedade que enfrenta de-
rais, políticas e legislativas para faci- consciência e o assumir do que se safios decorrentes da globalização e
litar o acesso dos cidadãos às artes, sente; por outro, desenvolvem a ca- do acelerado desenvolvimento tec-
para enquadrar os muitos projetos pacidade de interpretar e pensar cri- nológico, as competências emocio-
de qualidade já existentes e para ticamente, procurando outros senti- nais, sociais, criativas e críticas que
apoiar a criação de novos. dos, outros pontos de vista, outras as artes proporcionam poderão ser
possibilidades. um instrumento essencial de adap-
tação a esse mundo que virá.
6.
Asseguraremos a centralidade das 11.
artes e do património na formação Uma relação com as artes e o patri- 16.
ao longo da vida – porque a educa- mónio de diferentes culturas, ensina As disciplinas fragmentadas e fecha-
ção só será completa se integrar a a respeitar a experiência do outro, das em si não permitem a compre-
dimensão cultural e artística. a ser mais receptivo à sua mundi- ensão da complexidade do mun-
vidência, promovendo a partilha, a do. A proximidade e familiaridade 2
argumentação, o conhecimento de com as artes e os processos criati-
7. critérios de juízo de gosto e da sua vos poderão incentivar dinâmicas
A escola, como comunidade de evolução histórica. Assumir-se-á, transdisciplinares, o cruzamento
aprendizagem em que todos os assim, a complexidade do mundo e e a integração dos conhecimentos
membros são co-construtores desse das culturas, a unidade e diversida- apreendidos nas várias disciplinas,
aprender, deve promover o acesso à de do humano, recusando o medo indisciplinando e permitindo uma
diversidade do património e a apro- da diferença. visão de conjunto. Sem cair no erro
priação de diferentes linguagens e de as instrumentalizar, iremos mo-
expressões artísticas – desse modo, bilizar as artes nas escolas como re-
ampliar-se-á a quantidade e quali- 12. curso para as diferentes disciplinas

Fotos RICARDO LAF


dade de vivências e competências, As artes podem ensinar-nos a ines- – não as circunscrevendo às discipli-
reforçando a abertura à comunida- timável lição da gratuidade e do nas artísticas.
de e ao mundo, promovendo a in- prazer desinteressado. Numa época
clusão e a participação. marcada pelo utilitarismo e pelo de-
sejo de produtividade, esta subver- 17.
são é determinante; é a mesma que O conhecimento do património e
8. valorizamos no lúdico e na festa. das artes permite-nos uma consci-
Olhamos para a escola como parte Emocionar-se e divertir-se não po- ência histórica e inscreve-nos como
de um sistema complexo – e é ne- dem estar em oposição a aprender parte de uma tarefa infinita – que re-
cessário dirigirmo-nos a esse con- e a conhecer. cebemos como herança e que deve-
texto social, administrativo e eco- mos renovar para o futuro. Fazemos
nómico de forma sistémica para parte de uma comunidade e de um
conseguir alterar as escolas de modo 13. esforço comum que nos antecede,
sustentável. Se educar é preparar para o futuro nos implica e nos ultrapassa.
(que não existe e que não conhece-
mos), é necessário que a educação
9. prepare para o desconhecido, não 18.
Racionalizámos em demasia a edu- apenas para o que já se sabe como Conscientes dos limites da cultura e
cação, não promovendo suficien- certo. As artes são, neste contexto, das obras de arte, sem ilusões sal-
temente a formação dos afetos, a um modo de alimentar a imagina- víficas, reformulamos uma citação
relação com o corpo, a valorização ção e a criatividade. de Jean-Luc Godard sobre o cinema:
da autonomia, a capacitação para O que é a arte? Nada. O que quer?
assumir os desafios e os falhanços, Tudo. O que pode? Alguma coisa.
o prazer de aprender, de interpretar 14.
e intervir no mundo. Há múltiplas A criatividade depende dos estímu-
linguagens e diversos modos de ex- los diversificados que temos: quan-
pressão pessoal e de compreensão to mais variadas e significativas fo-
do mundo que devemos ajudar a rem as experiências, maior poderá
desenvolver. ser o potencial criativo. Elas são a
matéria-prima que usamos para
criar coisas ou ideias novas: sem
10. medo de falhar, não repetindo o já
A educação da sensibilidade estética conhecido ou já pensado, alimen- A estratégia do PNA 2019-2024 está
e artística e do pensamento crítico e tando a curiosidade e a capacidade disponível à consulta em: <https://
criativo promoverá uma maior au- de questionar. www.portugal.gov.pt/download-
tonomia dos cidadãos. A intimidade ficheiros/ficheiro.aspx?v=00a06c3f-
40 com as práticas artísticas permite a f066-4036-adc2-b030b946e6ba>. 41
formação dessas competências: por Acesso em: 6 nov. 2019.
C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
Encontro Internacional Arte, Cultura, Democracia no Século XXI
Mesa Cultura e Participação Social do Século XXI

CULTURA E…
Foto RICARDO LAF
2
CULTURA OU…
ANTÔNIO NÊGO BISPO

Compreender então a força do Brasil Há quem diga que boas perguntas Assim sendo, nos parece razoável de origem, eles foram proibidos de mito da democracia racial e pela pro- um século depois de ser criminaliza-
profundo é compreender a força da nos levam a boas respostas… Po- dizer que os povos colonialistas são continuarem se comunicando com moção da imigração europeia para da, em 1990.
América Latina. O Brasil não está rém, também há quem insista que fundamentados pela cosmologia os seus [entes? seres?] sagrados, o branqueamento da população. A
sozinho, […] nós estamos aqui juntos perguntas sempre nos levam a no- euro-cristã-monoteísta, e os povos de continuarem falando as suas lín- proclamação da República, em 15 de Se não existem coincidências e
com vocês. vas perguntas… Compreendendo contracolonialistas são guiados pe- guas, praticando as suas cantigas, novembro de 1989, cerca de um ano existem semelhanças, quais são os
que são as perguntas que nos en- las cosmologias politeístas. as suas danças… Também não pu- após a abolição da escravatura, fez paradigmas? No caso da popula-
(Jorge Blandón – Profissional sinam, talvez seja importante nos deram levar as suas sementes, as com que o termo “quilombo” caísse ção negra, a criminalização levou à
em formação artística, cultural atentarmos para as seguintes ques- Podemos fazer aqui um pequeno suas culinárias, enfim, os saberes em desuso, mas a criminalização e a escravidão, ao encarceramento, ao
e em políticas culturais. Gestor tões: Quais são as contribuições dos exercício para explicitar um pouco responsáveis pelos seus modos de violência permaneceram, por meio racismo e ao preconceito genera-
cultural – Colômbia) povos africanos e dos povos origi- melhor o nosso ponto de vista. Uma fazer, ser e viver. de outros dispositivos. lizado, inclusive no âmbito das ins-
nários para cultura da sociedade grande parcela da sociedade brasi- tituições públicas do Estado demo-
brasileira? Qual é a importância da leira adestra ou já adestrou algum Sem sombra de dúvidas, o colonia- Podemos citar alguns exemplos da crático de direito.
democracia para os povos originá- animal. Seja um animal de grande lismo e o adestramento são muito continuidade dessa perseguição,
rios e para os povos africanos na di- ou de médio porte, geralmente uti- parecidos no que se refere às suas como o fato da primeira Constitui- Por outro lado, no caso dos povos
áspora brasileira? Assim, para pen- lizado no mundo do trabalho, seja técnicas e aos efeitos esperados. ção republicana, promulgada em 24 originários, além de passar por tudo
sarmos nas diversas contribuições um pequeno animal de estimação, Uma das principais diferenças entre de fevereiro de 1891, ter excluído os isso, o colonialismo também pro-
dos diferentes povos, sem cairmos como um cachorro, adquirido para eles é que o adestramento, pelo me- analfabetos do direito ao sufrágio e moveu e continua provendo o etno-
na armadilha das questões pesso- preencher suas carências afetivas. nos aparentemente, não envolve a à candidatura a cargos eletivos, con- cídio, chegando a ameaçar a exis-
ais, talvez seja melhor recorrermos questão do sagrado. No mais, todas dição em que se encontrava a esma- tência desses povos que seguem
à história das trajetórias coletivas e Os métodos de colonizar e os mé- as semelhanças nunca foram coinci- gadora maioria do povo quilombola resistindo bravamente. Isso porque,
comunitárias. todos de adestrar são bem pare- dências. e da população negra. embora o Brasil seja um país funda-
cidos, e podemos compreender o mentalmente racista e violento com
Lendo sobre a historiografia oficial colonialismo conhecendo a técnica Também nunca foi segredo para Convém lembrar que somente a par- a população negra, pretos e pardos
brasileira e ouvindo a oralidade dos do adestramento. Quando se pre- ninguém que todas as organizações tir de 1985 os analfabetos conquis- seguem sendo a nossa principal
povos originários e dos povos afri- tende adestrar um animal, uma das dos povos africanos no Brasil foram taram o direito político de eleger os matriz demográfica, portanto, não
canos na diáspora, podemos che- primeiras coisas que se faz é tentar e continuam sendo vistas como or- seus representantes, embora, ainda correm o mesmo risco de desapare-
gar tanto a pretenciosas respostas tirar-lhe do ou descaracterizar o seu ganizações criminosas. Essa visão hoje, não possam se candidatar a cimento, ao contrário da população
como a corajosas perguntas. Se não, território para, em seguida, impor- negativa faz parte de toda história cargos eletivos do Legislativo ou do indígena.
vejamos: -lhe um outro nome, anulando os do colonialismo, permanecendo Executivo.
seus saberes e modificando os seus após a Independência, a queda do Assim, apesar da Constituição de
• Em primeiro lugar, precisamos modos de vida. Em resumo, o ades- Império, a promulgação da Lei Áu- O Código Penal da República de 1988 ter declarado que o Brasil é um
lembrar que os documentos e as tramento, assim como o colonialis- rea e a Proclamação da República. 1890 proibiu a prática da capoeira país pluriétnico, o Estado brasileiro
práticas colonialistas tradicional- mo, tem como objetivo apagar as Pode-se mesmo dizer que o Brasil, e criminalizou a mendicância por não tem sido capaz de assegurar as
mente associadas à Igreja Católica memórias e impor uma identidade em seu processo histórico de for- parte dos trabalhadores adultos condições concretas para que os di-
nunca foram contestadas pelas de- sem pertencimento. mação como Estado independente e desempregados, tipificando como versos povos vivenciem plenamente
mais igrejas cristãs. como nação moderna e democráti- vadia a população de adultos desva- o protagonismo das suas trajetórias
Como se sabe, historicamente, os ca, reiterou, sistematicamente, a sua lidos em situação de rua, composta, históricas.
• Em segundo lugar, essas práticas africanos foram tirados forçada- herança colonial e escravista. majoritariamente, por pretos e par-
vão muito além da questão mera- mente dos seus territórios ances- dos. A capoeira só deixou de ser cri-
mente ideológica e precisam ser trais para serem escravizados em Ainda no alvorecer do período repu- me em 1937, após quase meio sécu-
42 analisadas desde um ponto de vista terras estranhas. Além de perder blicano, o racismo foi reforçado, de lo de perseguição, e a mendicância 43
cosmológico. o vínculo com os seus territórios forma perversa e dissimulada, pelo só deixaria de ser considerada crime
C u lt u r a e pa r t i c i pa ç ã o s o c i a l n o s é c u l o X X I
Vamos nos lembrar
de que as palavras
matam tanto quanto
as balas. Por isso, nós
devemos fazer tudo o 2
que seja possível para
investirmos na educação
dos jovens, para que
a próxima geração
possa compreender a
importância de conviver
em paz.

JOSE ANTONIO MAC GREGOR

Diretor de Cultura do município de


El Marqués, Querétaro, México
Foto JAKOB OWENS

44 45
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
SER FLORESTA S , E
NÃO POMAR
MARIA THAÍS
3
ele próprio era uma só coisa Os termos convocados – “política”, As reflexões que se seguem carre-
sem ter em si diversidade alguma “criação”, “corpo”, “afeto” – parecem gam questões, em retrospectiva, de

Política, criação,
nem para consigo mesmo indicar outras camadas a serem um tempo-passado como aprendiz
nem para outras coisas, prospectadas sobre o tema geral do e como professora, em diversas ins-
porque nenhum movimento Encontro1 – “arte, cultura, democra- tituições que se dedicam à forma-
havia nele cia”. Todos eles projetam o século ção teatral, e com as pesquisas e os

corpo e afeto – CECIM, 2008


XXI como imagem-alvo, como um
desafio comum que nos convida a
refletir sobre as responsabilidades
processos criativos desenvolvidos
junto à Cia Balagan2, na cidade de
São Paulo, onde transitamos entre

os desafios do
do tempo-presente com um tempo- os modelos reconhecidos pela tradi-
-futuro – que, além de desconhecer- ção teatral e as formas e manifesta-
mos, sabemos incerto, e no qual não ções cênicas tradicionais praticadas
estaremos como testemunhas. no Brasil, que fundamentaram a

século XXI
nossa primeira formação artística e
Para enfrentar o desafio sugerido, com as quais este coletivo de artis-
elegemos o campo da pedagogia, tas-pesquisadores sempre desejou
em diálogo com as práticas criativas dialogar.
e as pesquisas teatrais. O contexto
deve estar circunscrito nos debates Porém, foi na posição de estrangeira
sobre a formação cênica no país, que divisei, por comparação, os fun-
posto que a consideramos “como damentos dos projetos pedagógicos
um indicador – particularmente es- nos quais fui formada, e a possibi-
Como discutir a relação entre cultura, clarecedor – dos valores gerais de lidade de refletir as relações entre
criatividade, política, corpo e afeto? O uma sociedade (HEINICH, 2005, p. essas duas referências – a tradição
desejo de liberdade, de afetividade, de 14)”. Por considerarmos que o pro- teatral e as formas tradicionais.
alegria e felicidade nos processos de cesso formativo projeta o que vis- A condição de não eslava – através
vida e a sensibilidade das pessoas são lumbramos como futuro, e também de residências artísticas realizadas
os principais ingredientes para o pro- revela o que deixaremos como ras- no período de 1999-2006, na Esco-
cesso criativo e a construção de um tro, e o instrumental prático-teórico la de Arte Dramática, dirigida pelo
espaço político que garanta a capa- que compartilharemos com as gera- encenador Anatoli Vassiliev, em
cidade de expressão dos indivíduos e ções futuras. Moscou, Rússia – e de não indígena
das coletividades com uma visão cons-
ciente e crítica do mundo.
1
A autora se refere ao Encontro Internacional Arte, cultura e democracia no século XXI, acontecido em agosto de 2019, em Belo Horizonte, o qual gerou
matéria para os textos a serem publicados neste primeiro número da Coleção Cultura e Pensamento.

2
Os deslocamentos e a prática criativa junto à Cia Balagan foi se transformando ao longo dos seus 20 anos de existência. Surgida em 1999, a Cia refletia um
contexto de consolidação do chamado “teatro de pesquisa” que, naquele momento, associava-se também à retomada do movimento de teatro de grupos
na cidade de São Paulo. A expressão “teatro de pesquisa” evidenciava uma tendência de aproximação entre a pesquisa acadêmica e a produção teatral, e
uma geração de artistas pesquisadores afirmava-se, simultaneamente, em ambos os territórios, que haviam mantido um limite rígido entre si, até então;
46 uma geração que advogava pela liberdade de produzir processualmente, valorizando a experimentação e a reflexão teórica, em contraposição a uma pro- 47
dução cênica associada à indústria cultural, pautada por valores do mercado.
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
– nas trocas artísticas realizadas en- perar os juízos, os entendimentos que uma aproximação de tal natu- O que nos parece evidente é que as uma premissa que perdurou/perdu-
tre 2009-2014 com a comunidade apriorísticos, as dicotomias, fomos reza é um caminho cheio de equi- vozes que legitimam essa identidade ra, de forma intermitente, nos países
da Aldeia Gapgir, do povo Paiter-Su- instados a observar os processos, vocações mútuas, que confronta cultural comum, ainda que tenham do Cone Sul: de que as ideias que re-
ruí, em Rondônia, com os quais ain- as formas de agir, a dar atenção ao interesses, exige acordos, um diálo- origem diversas, “parecem unísso- gem a cultura deveriam ser interna-
da cultivamos o desejo de projetos como as coisas são feitas, pois nelas go franco com os guardiões destas nas quando se trata das vozes que cionais, enquanto que aquelas que
comuns – nos obrigaram a facejar, estão os modos de pensar e de in- tradições, pois não estamos imunes se pretende apagar, dos corpos que regem a política deveriam ser nacio-
de forma direta, as fronteiras, as corporação dos saberes. Nesse pro- às relações colonialistas, de dizima- serão retratados em segundo pla- nais. Assim, para não ser considera-
bordas dessa encruzilhada. Ao sair cesso, ficavam evidentes as nossas ção, de extrativismo nocivo. Se con- no, não identificados como sujeitos da provinciana e estreita, a noção de
do território, a condição de ser/estar idealizações, os descompassos de sideramos legítimo nosso desejo de históricos, senão como objetos ou arte deveria estar fundada em uma
estrangeira, transitando por lugares acesso à informação, os equívocos aproximação como artistas que vão figurantes”4. Como também soam ideia internacionalista. Como Cam-
distintos da zona de atuação, moti- históricos, e principalmente estes à campo, as trocas e as tentativas uníssonas na hierarquização de mo- nitzer reconhecemos que tal esque-
vavam outras imagens. E, por serem demonstravam que os regimes de de somar uma tradição à outra nos delos, o que denuncia um privilégio ma pode parecer simplista pois ten-
imagens em travessia, nos remetiam criação, e de produção, eram muito revelam um fosso cheio de inter- de perspectiva, produzindo um silen- ta acomodar uma realidade muito
ao lugar onde atuamos, nossa esta- distintos daqueles em que fomos rogações e de reconhecimento de ciamento que reforça certos meca- complexa mas, ao reconhecermos a
dia. formados. responsabilidades mútuas, a imen- nismos e ideias universalistas (ou tensão entre nacional e internacional
surável lacuna entre dois mundos, o coloniais), e ainda que não se ins- assumimos a existência de uma dis-
Outra circunstância, de não falante Tal constatação pode, talvez, parecer paradoxo de que fala a antropóloga taurem explicitamente, constroem sociação que, como consequência,
(ou, no caso do russo, de falar pre- óbvia para outros campos de conhe- Else Lagrou “já que não partilhamos um fundo comum, uma mentalida- borra a imagem que temos de arte
cariamente) exigia manter, parado- cimento; porém, em uma tradição das mesmas noções de arte” e eles de estruturante. - e de politica -, pois “em matéria de
xalmente, o ouvido-acordado para “que toma o particular pelo universal, “parecem representar, no que fa- cultura somos periféricos ou mar-
fabricar uma escuta-visão do corpo o contingencial pelo necessário e o zem e valorizam, o polo contrário O que nomeamos genericamente ginais, porém nunca nós mesmos” 3
– captando com presteza os atos, acidental pela eternidade (DUPONT, do fazer e pensar do Ocidente neste formas espetaculares – quando se- (CAMNITZER, 2004, p. 1)
os gestos, a diversidade de sonori- 2017)”, como afirma F. Dupont à res- campo.” (LAGROU, 2007:1). cundarizadas, ou analisadas a partir
dades, os códigos que estão além peito da tradição teatral euro-ociden- do sentido universal da linguagem Recusamos uma única resposta
da língua. Porém, como tudo pedia tal, os limites e diferenças são “acolhi- teatral, se tornam apenas informa- para prospectar o que pode ser
tradução (verbal ou não), e eu tinha dos”, ou melhor, parecem se somar ção, ou nutrientes para a produção nós mesmos, já que não nos move o
responsabilidades como pedago- à uma tradição que nomeamos tea- profissional. Ao desconsiderarmos desejo de encontrar uma identida-
ga conduzindo parte de processos tral, sem que necessariamente nos suas raízes geográficas, políticas, de cultural, nacional, muito menos
criativos – e não apenas observando perguntemos se estamos “falando Porque insistimos tanto e durante filosóficas, seus modos de pensar, em corroborar para a idealização
–, o esforço era incessante e pedia da mesma coisa”, quando dizemos o tanto tempo para participar des- etc. negamos que o fazer da arte é da miscigenação cultural ou “uma
um deslocamento constante, para termo teatro. Porém, as práticas artís- se clube, que na maioria das ve- uma perspectiva – em diálogo, dire- dessas mestiçagens de superfície
além dos domínios do teatro – ou ticas, antes de se constituírem como zes só limita a nossa capacidade to ou indireto, com o lugar onde se que descentram linguagens e refe-
das práticas artísticas observadas. formas estéticas, como obras ou pro- de invenção, criação, existência e está. E embora expressemos cada rências para melhor universalizá-las
Para enfrentar os problemas na dutos, traduzem as diferentes formas liberdade? Será que não estamos vez mais a consciência da dívida his- (GRUZINSKI, 2014, p. 453)”. Inspira-
tradução de uma terminologia apli- de existência (de ser - as ontologias) e sempre atualizando aquela nossa tórica com os povos originários e dos pelo provérbio kongo que afir-
cada na prática teatral, como atesta produzem, a partir delas, diferentes velha disposição para a servidão com os descendentes das mulheres ma: “nações são florestas – Nsi Mfin-
o diálogo entre o encenador Anatoli formas de conhecimento (outras epis- voluntária? e homens escravizados neste país, da – [...] não um n’dima (um pomar)
Vassiliev e os tradutores franceses, temologias), que exigem diferentes (KRENAK, 2019, p. 13) embora reconheçamos as culturas (SANTOS, Tiganá. 2019:45) conside-
devemos confrontar os limites e di- formas de fazer (outras tecnologias) indígenas e africanas como parte ramos como desafio para a forma-
ferenças, as noções que o termo car- (SZTUTMAN, 2007, p. 9). da diversidade cultural que carac- ção no campo das artes da cena, o
rega em sua língua e a perspectiva terizam nosso território, não for- de não ser pomar; visto que este,
cultural a que está vinculado (VASSI- É importante destacar que as rela- Os processos formativos nem sem- mulamos ainda, como uma prática independente da sua extensão, não
LIEV, 2016, p. 280), pois, como afir- ções que indagamos aqui encontra- pre consideram que, em nome de continuada, projetos pedagógicos alcança a diversidade de nossas tra-
ma o antropólogo Viveiros de Castro ram respostas singulares na práxis uma mestiçagem, que esconde um que se organizem em torno destas dições.
a partir das suas reflexões sobre as de inúmeros grupos e companhias processo de desigualdade estrutu- tradições. Ou seja, ainda desconhe-
culturas ameríndias, “nunca se pode e na produção de artistas indepen- ral e que conformam coletivos em cemos quais os pressupostos que Porém, como semear florestas –
ter certeza de que se está falando dentes pelo país afora, visto que são mais uma “comunidade imaginada”, podemos sugerir para a análise de ou outros biomas, como caatinga,
da mesma coisa” (VIVEIROS DE CAS- inúmeras as tentativas de diálogos a brasileira, a vida social no país é suas poéticas cênicas, a partir dos cerrado, pampa, pantanal ou mata
TRO, 2007, p. 65). entre os processos criativos e as construída “de forma mais ou me- seus próprios termos. atlântica –, sem antes, considerar
formas tradicionais. Porém, nossas nos contingente, tanto através da “a noção ampliada de ‘condição
Confrontar limites e diferenças se observações dirigem seu olhar para ação política e bélica, quanto por O pedagogo e artista plástico Luis humana’, que assemelha ‘a gente’
torna, então, uma complexa nego- os processos formativos. E mesmo meio da narrativa capaz de cunhar, Camnitzer observa que no período aos animais, espíritos e divinda-
ciação, feita de aproximações, apro- na produção artística, a partir das no plano discursivo, a identidade co- de sua formação artística se instala des, possibilitando a compreensão
priações, tensionamentos. Para su- nossas experiências, constatamos mum” (COSTA, 2001,p. 145).

4
Texto de apresentação do Projeto Territórios de Resistência, Narrativas em Disputa – composto
por três leituras cênicas de um material dramatúrgico que, antes de se pretender uma construção

Foto JACKSON DAVID


fabular, é uma escritura intertextual, tecida a partir de textos, documentos históricos, relatos, cartas,
fatos narrados, notícias de jornal, poesias, trechos de livros, canções e, porque não, fábulas criadas
que compõem um olhar prospectivo sobre os temas e vozes que emergem de três obras do acervo
3
No caso da Rússia, com o passar dos anos nos interessamos cada vez mais pelos escritos históricos, do Museu Paulista – Índio com arco e flecha (de Adriano Henri Vital Van Emelen), A Baiana (autoria
48 filosóficos, religiosos e, claro, pela literatura, compreendendo como as formas de ser correspondem desconhecida) e O Herói da Guerra do Paraguai (de Adriano Henri Vital Van Emelen). Sesc-Ipiranga/ 49
às formas expressas nas suas tradições artísticas. Museu Paulista, maio a julho de 2019.
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
desses múltiplos mundos que en- te enfrentar a sujeição dos corpos
contramos, por exemplo, nas cul- e da imaginação nos processos de
turas ameríndias” (HEURICH, 2007, aprendizagem, a padronização dos
1)? Uma aproximação a tal noção de currículos e conteúdos, as hierarqui- REFERÊNCIAS
humanidade afetaria os nossos mo- zações das formas e funções e seus
dos de criar, de transmitir e recla- devidos contextos e de refletirmos
mariam, talvez, a fabricação de tec- sobre os processos de uniformiza-
nologias próprias, ou seja, de meios ção do pensamento crítico, com a
que nos confronte com os espaços e difusão de conceitos, aplicados por
tempos que organizam os seus ter- vezes em experiências espetacula-
ritórios, com suas línguas (ou seus res que são oriundas de diferentes
acentos e miscigenação da língua territórios. CECIM, Vicente Franz. oÓ: desnutrir a pedra. Tessitura (on-line), São Paulo:
oficial), suas estruturas narrativas – Martins Fontes, 2008. p. 81.
que expressam suas formas de pen-
sar – e que expressam o comprome- COSTA, Sergio. A mestiçagem e seus contrários etnicidade e nacionalidade no
timento ontológico, o seu modo de Brasil contemporâneo, Tempo Social, Rev. Sociol. USP, São Paulo, 13, n. 1, p.
prestar atenção no mundo e de dar É preciso ouvir as vozes dos seus 143-158, maio de 2001.
voz às coisas que estão à sua volta. narradores e não apenas as suas
Se constituímos práticas criativas narrativas. CAMNITZER, Luis. El arte, la política y el mal del oyo. 2004. Disponível em:
considerando, por exemplo, as vo- (Célia Xacriaba, 2019)5 <https://esferapublica.org/nfblog/tag/camnitzer/>. Acesso em: 11 nov. 2019.
zes daqueles que “não têm voz” (as 3
coisas, os seres, os animais, outros Talvez, através do confronto e siste- DUPONT, Florence. Aristótelis ou o vampiro do teatro ocidental. Desterro
corpos vivos) ou cujas vozes não mática comparação, não como for- (Florianópolis): Cultura e Barbárie, 2017.
podemos ouvir, ou ainda dos que ma de julgamento, mas como forma
já não estão aqui, mas que, através de conhecimento, entre as matrizes LAGROU, Else. Arte ou artefato? Agência e significado nas artes indígenas.
dos sonhos, transmitem suas for- – uma que se estabelece sobre “o Revista Proa, v. 1, n. 2, 2010. Disponível em: <http://www.ifch.unicamp.br/
mas de pensar, seu conhecimento, regime de comunidade, que repou- proa>. Acesso em: 11 nov. 2019.
podemos, quem sabe, comparar sa sobre um imperativo de equida-
como operam sua linguagem, suas de, privilegia o geral, o coletivo, o GRUZINSKI, Serge. As quarto partes do mundo. História de uma mundialização.
forças motrizes, suas poéticas. impessoal, o público”; outra que se Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Edusp, 2014.
estabelece sobre o “regime de sin-
Mas, se desconhecemos limites e di- gularidade, que repousa sobre o im- HEINICH, Natalie. As reconfigurações do estatuto de artista na época moderna
ferenças como estes, a formação do perativo de autenticidade, privilegia e contemporânea. Revista Porto Arte, Porto Alegre, v. 13, n. 22, maio 2005.
artista fica circunscrita às práticas o sujeito, o particular, o individual, o
de coleta – aquele que reúne dados privado” (HEINICH, 2005:9) –, a flo- HEURICH, Guilherme Orlandini. Corpo, Conhecimento e Perspectiva: a
para analisá-los a partir da utilidade resta e suas formas de existência fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty e o Perspectivismo Ameríndio.
de uma obra, de um suposto resul- se mostre. Como um vislumbre do Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 102-115, jul.-dez. 2007.
tado a ser alcançado. E uma coleta conjunto de diversidade, de mun-
se baseia, principalmente, nos ele- dos que podem coexistir – ao con- KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Cia das Letras,
mentos que estão visíveis e na apro- trário do pomar, onde eliminamos 2019.
priação dos aspectos técnicos ou de as plantas que poderiam “dar um
seus resultados estéticos, que fo- outro sentido de mundo, diferente SANTOS, Tiganá Santana N. A cosmologia africana dos bantu-kongo por Bunseki
ram desenvolvidos ao longo do tem- do seu” (GRUZINSKI, 2014)”. Fu-Kiau: tradução negra, reflexões e diálogos a partir do Brasil. Tese (Doutorado)
po pelas culturas tradicionais. É por - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
isso que não nos parece suficiente Paulo. Departamento de Letras Modernas. Área de concentração: Estudos da
tomar como tema (de disciplinas ou Tradução. 2019
práticas formativas) os conteúdos
relacionados às formas tradicionais SANTOS, Maria Thaís. O que é que vocês chamam de teatro? Ou como se diz
ou culturas tradicionais – como as teatro em sua língua? Comunicação. São Paulo, Congresso IFTR, jul. 2017.
culturas ameríndias e afro-brasi-
leiras. Assentimos, porém, que tal SZTUTMAN, Renato (Org.). Entrevistas – Eduardo Viveiros de Castro. Coleção
atitude, em contraposição ao silen- Encontros, Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007.
ciamento, pode vir a ser um passo
no processo de reconhecimento de VASSILIEV, Anatoli. Diálogo com os tradutores franceses. In: VASSILIEV, Anatoli
uma práxis criativa, desnaturalizan- (Org.). Análise-Ação: práticas das ideias teatrais de Stanislavski. São Paulo:
do o que tornamos natural. Mas Editora 34, 2016.
uma intervenção de tal natureza re-
ponde apenas de forma imediata as VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A antropologia perspectivista e o método de
contestações que surgem, em toda equivocação controlada. Aceno - Revista de Antroplogia do Centro do Centro-

Foto HENRY & CO.


parte, sobre a ausência de outros Oeste, v. 5, n. 10, p. 247-264, ago.–dez. 2008. Trad. Marcelo Giacomazzi
referenciais prático-teórico para a Camargo; Rodrigo Amaro.
formação dos artistas da cena, mas, 5
Em conversa informal, durante o Encontro
50 nos parece, não semeia outros futu- Internacional Arte, Cultura e Democracia no 51
ros possíveis. Parece-nos premen- século XXI.
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
FRACASSO, EDUCAÇÃO
E CORPO
ÁLVARO RESTREPO
3
A França, um dos países que mais detalhe (e dor), o primeiro e o último de um de nossos estúdios de dança Meu corpo de criança artista, mío-
respeito inspira, justamente pelo de meus dias neste lugar, para mim, na ilha de Barú, me pediu descul- pe, um pouco flácido e desajeitado
respeito e importância que confe- um pesadelo: conto como no pri- pas pessoalmente pela sua oferta (um ga-fofo), padeceu aos rigores e
re à educação, à cultura e às artes, meiríssimo dia de aula, uma freira, de trabalho de outrora, e o padre à violência do futebol, do basquete
paradoxalmente, utiliza uma classi- cujo nome não quero me lembrar, Francis, em uma entrevista concedi- e das demais disciplinas quase mi-
ficação que me parece uma cruel- minha professora da Transição A da para a Revista Semana, quando se litares às quais éramos submetidos
dade devastadora para se referir (eu tinha naquela época seis anos) retirou da reitoria, reconheceu que diariamente. Meu pai, também pre-
às crianças que “não acertam uma”, me arrebentou, a socos, o nariz e a o fracasso no San Carlos do baila- ocupado pela educação de um ma-
que não “cabem em seu corpo” e boca, por uma instrução sua em in- rino Álvaro Restrepo, hoje diretor cho, me obrigava a acompanhá-lo
que, portanto, não se encaixam no glês que não entendi. E ao final des- do “famoso” Colégio do Corpo, ha- em inúmeras caças esportivas aos
sistema educacional: “l’echec scolai- ta longa e triste crônica, narro como via sido um fracasso do colégio e domingos, que eu detestava pela
re”: o fracasso escolar. Frequente- 11 anos mais tarde, meu professor não deste servidor… Liguei para ele violência desnecessária com os ani-
mente, introduzo minhas palestras de física do 5º ano, cujo nome tam- pessoalmente para reconhecer e mais e pelas caminhadas de mais
sobre educação com frases provo- bém não quero me lembrar, após agradecer sua nobreza… Não pude de 8 horas pelos lugares ermos e
cadoras e incendiárias: “… fui o pior lhe entregar uma prova bimestral evitar a lembrança de uma anedota gelados das “goteiras” de Bogotá.
aluno do melhor colégio da Colôm- cheia de desenhos e poemas angus- que o grande Álvaro Mutis narrou Ao mesmo tempo que apoiava meu
bia” e “a educação não serve para tiantes, me retirou da sala de aula com muita graça no dia em que re- desejo de ser pianista comprando
nada… absolutamente para nada… para me propor, diante de meu fra- cebeu a Cruz de Bocayá: seu pro- um piano e pagando aulas particula-
a menos que nos ajude a descobrir casso mantido durante mais de 11 fessor de matemática, que o detes- res, também comprou uma pera de
quem somos”. anos, um trabalho de ordenha de tava, como alçando uma bandeira boxe e a instalou na garagem, para
vacas no sítio de seu pai. Também diante de todo o colégio, lhe disse: que compensasse a delicadeza e a
Em um extenso artigo que escre- narro um episódio de abuso sexual “Mutis, você nunca receberá a Cruz de influência de Nocturnos y Preludios e
vi em 2007 (publicado em jornal e por parte de um professor de edu- Bocayá”. massacrasse esses mesmos dedos
na desaparecida Revista Número), cação física, cujo nome.... do touché chopiniano contra o couro
que me rendeu o Prêmio Nacional Ser classificado e rotulado como áspero do punching ball.
de Jornalismo Simón Bolívar, narrei Como era de se esperar, este arti- membro da casta “fracasso escolar”
ano a ano meu próprio fracasso no go caiu como uma bomba atômi- é um estigma que nos acompanha Hoje posso afirmar que o que mais
Colégio San Carlos de Bogotá, con- ca no colégio, justamente quando ao longo de toda a vida, apesar de sofreu durante todo meu processo
siderado por muitos como um dos se celebrava o 45º aniversário e ao todos os esforços para ressurgir das educativo, tanto no colégio como
melhores do país por seu elevado reitor, cujo nome sim, me lembro: cinzas. Ainda me lembro da estrela em casa, foi meu próprio corpo, e
nível acadêmico e pela exitosa tra- Padre Francis Wheri O.S.B, (q.e.p.d) preta, devido ao mal comportamen- por isso decidi criar – como uma for-
jetória de muitos de seus ex-alunos: recebeu a Cruz de Bocayá. Eu es- to ou baixo rendimento acadêmico, ma de me salvar (resiliência) –, um
ex-presidentes da República, minis- perava (e desejava) que o Colégio que a freira da Transição A nos co- colégio para o corpo: uma proposta
tros, empresários, banqueiros… you me processasse por injúria e ca- locava na testa, como a marca de educativa que mistura prazer e dis-
name it! Quando falo desta etapa de lúnia para que se propagasse e se Caim, para que a ostentássemos ciplina por meio da vocação desco-
minha vida em minhas palestras, pudessem debater estes assuntos durante todo o dia diante de nossos berta e assumida com gozo.
um pouco de brincadeira e muito a espinhosos… o que não aconteceu: colegas e demais professores. Ilustração SAVI SAWARKAR
sério, digo que eu fui no San Carlos ao contrário, um prudente e outor- (ARTISTA INTOCÁVEL DA ÍNDIA)
esse tipo de menino no lugar errado! gador silêncio para não mexer com No San Carlos, além de matemá-
Neste texto a que dei o título de LLO- o vespeiro: o famoso “abafem… aba- tica, ciências e inglês, os esportes
52 RA ET LABORA e o subtítulo de Memo- fem…!” 35 anos mais tarde meu ex- eram também prioridade e moti- 53
rias de la carne, narro com especial -professor de física, na inauguração vo, para mim, de pânico profundo.
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
E aqui chego então ao tema da edu- E por último, a região mais difusa, cinestésica (Gardner), sabemos que
cação do corpo e ao papel e o lugar velada, vedada, espinhosa, perigosa: não todos aprendem da mesma ma-
do corpo na educação: a sexualidade. O reino dos eufemis- neira: à aquelas crianças hiperativas
mos e da moral dupla… da hipocri- a quem deve-se dar ritalina (pois já
Quero introduzir as noções de ver- sia: o que na França lhe dão o nome não se deve dar surras como em mi-
ticalidade e horizontalidade na de “la langue de bois”: a língua de nha época), às que “não cabem em
maneira como abordamos o corpo madeira para não nomear as coisas seu corpo”, devemos oferecer outras
no processo educativo. E quando pelo nome. O desejo, o erotismo, a formas de aprendizagem.
falo de verticalidade me refiro não libido, os instintos (animalidade?).
somente a esquemas de poder: hie- Fala-se pouco sobre isso e com uma Em minha práxis cotidiana de peda-
rárquicos, mas à importância que linguagem cifrada… Como vítima de gogo do corpo, por meio da dança,
outorgamos às diferentes partes/di- uma educação católica fundamen- pude comprovar como podemos
mensões do corpo na educação. Aí talista, sei bem o que significa não transmitir conceitos e “perceptos”
está a revolução copernicana, implí- falar com sinceridade e transparên- de matemática, geometria, física,
cita neste novo olhar que proponho: cia sobre a sexualidade: nunca me biologia, ética, linguagem (corp/
atrevi a falar sobre os toques e es- oralidade), estética, espiritualidade
No diagrama da página ao lado, di- fregões do meu professor de educa- etc. através da disciplina gozosa da
vidi, de maneira bem esquemática, ção física no San Carlos. dança, em um país profundamente
o corpo em três principais zonas/di- corp/oral (para o bem e para o mal)
mensões/regiões: Hoje a Igreja Católica se depara como o nosso e que, além disso,
com as consequências de não haver adora dançar. 3
1. abordado com valentia e verdade
Sua majestade, a Cabeça. (O Pensa- o tema da sexualidade e da educa- Proponho então como conclusão
mento) (zona racional) ção do corpo e por haver se cala- desta apaixonada e amorosa diatri-
do e escondido durante séculos as be, um Golpe de Estado na cabeça
2. perversões de seres reprimidos e e seus aliados, e declaro o coração
O Coração (O Sentimento… ou me- torturados. Hoje, principalmente as como epicentro deste novo cor-
lhor, a sensibilidade) (zona cordial) mulheres, os menores e todas as po total que devemos educar com
demais vítimas de abusos sexuais sinceridade, valentia e criatividade.
3. estão (estamos) por fim falando e Além disso, proponho um neolo-
A Sexualidade (O Desejo) (zona eró- exigindo a verdade do corpo e suas gismo para alcançar a codireção
gena) pulsões. Esses 5% que nos restam no deste corpo holístico que se deve
currículo não são suficientes para educar e nutrir através de todos os
Naturalmente, na região da cabeça/ abordar um tema crucial, que tem a canais disponíveis, em sua aventu-
pensamento está a razão, “os con- ver com a dignidade, a plenitude, a ra de apropriação do mundo e do
ceitos”, as ciências, a matemática, afetividade humana: a origem mes- conhecimento: a co/razão no “core”
a linguagem… A partir deste centro mo da vida. da experiência educativa. A corres-
(torre de controle), são conduzidas ponsabilidade da razão, sentidos
as áreas do conhecimento consi- Este corpo vertical, compartimenta- e instintos em uma nova noção
deradas importantes, prioritárias, do e fragmentado (“masculinizado”) de educação, para os quais o fra-
competências “masculinas” ou viris: deve, ao meu ver, permanecer hori- casso seja do tédio, da frustração,
“duras”, associadas ao sucesso, ao zontal para que cada uma das três os compartimentos estancados, a
poder político e econômico… Neste zonas/dimensões tenha no currícu- repressão, a homogeneização e a
sistema solar, a cabeça (o cérebro e lo a mesma importância: as ciências hipocrisia. Para que deixemos de
a mente) é o astro sol ao redor do e as artes dialogando e interagindo seguir “tirando o corpo do corpo”.
qual gira todo o resto. Em geral, no com o corpo mental (cabeça), espiri- Assim estaremos educando uma
currículo, 85% do tempo é ocupado tual (coração), físico (sexo). O corpo “criança/corpo completo”, não so-
por matérias desta região… como um todo no centro do univer- mente para o sucesso e para a fe-
so educativo. Guilhotina para sa me- licidade, mas, sobretudo – o mais
Na zona cordial do coração, estão os jesté la tête! Já sabemos que a mente importante – para a plenitude.
sentimentos, as emoções, a senso- não está confinada no cérebro...
rialidade (os sentidos), as intuições,
as palpitações, o “feminino”, a cria- Alguém me presenteou há alguns
tividade, as artes, a poesia, a per- dias, em um painel sobre Corpo e
cepção, os “perceptos” (Deleuze). Na Movimento que fui convidado na
melhor das hipóteses, dedicamos União de Colégios Bilíngues, a equa-
10% a esta dimensão do Ser no pro- ção cérebro + corpo = mente.
cesso educativo. Artes e Humanas
são consideradas decorativas, aces- Aprendemos com todo o ser: apren-
sórias, complementares (dispensá- demos em movimento e não neces-
veis), hobbies, atividades extracur- sariamente na quietude domestica-
riculares. Competências brandas: da que nos impõe uma rígida carteira
54 para seres brandos… em uma (j)aula de aula… Sobretudo 55
aqueles que têm uma inteligência
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
ra, inverte, ou justapõe, em impor- de seus conhecimentos sobre a re- gens aparecem no sonho, por meio
tância, o visual, pois o convite ao ver gião, das suas formas de circular e do qual habitam o corpo daquele
é precedido pelo convite ao escutar. de se relacionar com as espécies da que sonha. Para melhor receber as
O pensamento Maxakali liga-se so- fauna e da flora, e até do seu direi- imagens, algumas cerimônias inici-
bremaneira à formação e ao regis- to à vida. áticas pressupõem o encobrimento
tro de imagens; mas imagens que se (TUGNY, 2011, p. xii) dos olhos, pois a imagem sonhada
apresentam primeiro à nossa escu- não pode ser vista, com o risco de
ta, e só depois ao nosso olhar, pois A terra é estéril, as colheitas precá- cegar aquele que vê. A jornada pelo
são sonoras e visuais, e estas inter- rias. As poucas fontes de água estão mundo das imagens é órfica: como
dependência e contiguidade são re- contaminadas. Miséria, álcool, do- Orfeu, cujo destino era tocar, os
levantes e fundantes de sua densi- enças, violência, suicídios. Sofrimen- Maxakali devem cantar as imagens.
dade, intensidade e construção de to. Costumam morrer antes dos 50 Aquele que sonha ou que as vislum-
sentidos. anos. Ainda assim, eles sorriem com bra, sem fixá-las ou mirá-las, em seu
ternura. E cantam. Os Maxakali não sonho torna-se o pai ou a mãe do
Há centenas de anos, os Tikmũ’ũn se rendem à ameaça de extinção e que sonha, numa inversão da tem-
CORPO, MEMÓRIA DE AFETOS: viviam na costa brasileira, cercados desafiam nossa surdez, insensibili- poralidade linear. O ancestral-ima-
por águas abundantes, por uma dade e ignorância. Em seus cantares gem deve ser alimentado, resguar-
OS CANTARES MAXAKALI luminosa e esfuziante flora e por sobrevive, no entanto, a memória dado. Quando aquele que sonha
uma rica fauna. Guerreiros, confun- das árvores, dos animais, dos inse- acorda, a imagem se torna canto e o
LEDA MARIA MARTINS diam-se com a biodiversidade da tos, das flores; os sons dos pássa- canto, por sua vez, produz imagens,
Floresta Atlântica, a Mata, sua casa. ros, os aromas das matas, toda uma em um processo contínuo de trans- 3
Atualmente, após séculos de lutas variedade de encantos, parte desa- formação e de metamorfose que é
Para Toninho Maxakali Conheci Toninho Maxakali em 2004 rios e pelas diásporas que se prolon- contra impérios, contra fazendei- parecida, outras também em risco contíguo e perene.
In memoriam e nos tornamos amigos. Me acostu- gam há séculos, trazendo consigo os ros, grilheiros e toda uma série de de total extinção.
mei a ouvir sua voz mansinha, mes- desterros, as migrações contínuas, práticas excludentes, de agressões As imagens nos veem, mas não po-
mo quando discorria sobre as muitas a fome, as doenças, a morte pre- e adversidades, a população Ma- Para os Maxakali, o estado de hu- dem ser miradas, fixadas. Só podem
agruras de sua gente, a acompanhar matura, a inoperância e displicên- xakali, em grande parte, habita ter- manidade transita entre várias es- ser ouvidas pelo canto que as são,
seu olhar reflexivo e doce, a admirar cia em relação a ele. Este pequeno ras áridas, nas quais os fulgores e a pécies animais e vegetais distintas. que lhes conferem a imanência da
seu vigor, sua postura altiva, apesar texto, assim respirado, é apenas e pujança das matas é reminiscência Em seus cantos-listas, eles são ca- presença numinosa. E como não po-
do corpo pequenino e franzino, a simplesmente uma modesta home- nos sonhos. pazes de descrever, em mínimos dem ser vistas, pelo perigo que tra-
respeitar sua autoridade e integrida- nagem ao amigo, já agora também detalhes, a roupagem e marulho de zem da cegueira eterna, a vocalida-
de. Auscultando os cantos encanta- meu ancestre, na vivência dos pa- Quem são eles? pássaros que nunca viram; dese- de do canto e o corpo do cantor lhes
tórios de seu povo, seu modo, como rentescos afetivos. nham insetos, animais e plantas que emprestam existência, vida, ser. Elas
dizia ele, de fazer oração, cumpri o desconhecem. Em um de seus cânti- são no canto daquele que as so-
delicado e fino exercício da escuta. Assim como todos os Tikmũ’ũn, To- cos, por exemplo, eles lembram 33 nhou. Pelo canto, o ancestral-gente,
Com ele andando, compartilhei seu ninho era também um combaten- espécies de abelhas, algumas das o ancestral- bicho, o ancestral-flora,
modo gentil e atento de perscrutar te, um arauto e um sonhador, um Os Tikmũ’ũn são povos indígenas quais já extintas. Como podem eles todo povo de mortos ainda é. Aura-
os arredores, de sempre exaltar pre- corpo de memória e de sonorida- falantes da língua Maxakali, per- se lembrar de algo tão estranho à ticamente, o canto numinoso torna
ocupações pela preservação da vida, des. Os cantares de seu povo talvez tencente ao tronco linguístico Ma- sua atual morada, ao seu próprio presente o que era até então uma
lembrando as crianças da aldeia, sejam o que melhor expressa sua cro-Gê, segundo as últimas classi- calendário, sem o registro e domínio ausência.
que morrem tão precocemente, ví- experiência ontológica ímpar, an- ficações aceitas entre linguistas. da letra alfabética, só mais recente-
timas de viroses, águas contamina- corada, encorpada e incorporada Somam cerca de 1.500 indivíduos, mente aprendida por alguns? De Podemos depreender, assim, que
das e de outras condições severas na presença e materialidade efeti- com uma população majoritária de que modo se inscreve esta memória para esse povo, autonomeado “Ti-
de existência. Toninho era pajé, por- va da ancestralidade que curva o crianças. Vivem em quatro diferen- que se quer uma reminiscência do kmũ’ũn”, os espíritos que visitam as
tador de imagens, mestre dos canta- tempo e instaura na memória do tes terras indígenas ao nordeste de não visto, do não vivido, do aparen- aldeias são como acontecimentos-
res, floresta de saberes, condutor da canto a história vivida e lembrada, Minas Gerais, na divisa com o esta- temente não experimentado? -imagem, continentes e visões de
cura, guerreiro da voz. assim como o que nela traduz uma do da Bahia: Terra Indígena do Pra- materialidade e concretude, sendo
complexa, desafiadora e encanta- dinho [...]; Terra indígena de Água O que nos dizem os Tikmũ’ũn? os que enunciam e que são simulta-
Não sou especialista em seus com- dora sophia. Em seu modo de exis- Boa; Terra indígena Aldeia Verde e neamente objeto da enunciação. Ro-
plexos acervos de conhecimentos. tir, de distribuir, de avizinhar-se do Terra Indígena Cachoeirinha. Eles Eles nos asseguram que são visita- sângela de Tugny revela que os es-
Inspirada pelas falas de Toninho e outro, em suas cerimônias, em seu constam como os primeiros povos dos pelos espíritos dos mortos; uma píritos são denominados “xokxop”,
com os primorosos textos e registros cotidiano, esse povo nos oferece encontrados desde os primeiros variedade de povos, seus ancestrais, e observa que a raiz linguística xop
sonoros e de imagens, publicados vias alternas de compreensão e de relatos dos viajantes. [...] Hoje os que eles denominam povo-árvore, significa “povo”, “coletividade”, e xok
pela professora Rosângela de Tug- celebração da experiência humana, povos tikmũ’ũn, vivem confinados povo-gavião, povo-morcego, povo- pode ser tanto “morte” quanto “ima-
ny, alguns elaborados em parcerias plena de afetos compartilhados, de nas menores porções de terra in- -abelha, dentre muitos outros. Es- gem”. Assim, a palavra que designa
e coautoria com Toninho e outros ambiências acústicas e de episte- dígenas do Brasil, devastadas pe- sas visitas que chegam às aldeias esses ancestrais enunciadores pode
membros das aldeias, tenho tenta- mologias e aporias. las frentes extrativistas e pelos fa- incluem humanos, bichos, fauna ser tanto “povo de mortos” quanto
do me instruir sobre seus inusitados zendeiros, estando entre os povos e flora. Os espíritos são aparições “povo-imagem”. (TUGNY, 2011, p.
saberes e com eles aprender. Assim Geralmente, adereçamos as ima- indígenas que mais se expuseram epifânicas, visões, imagens que en- 92) As imagens-povo nos veem e
vou aprendendo a história deste gens no seu caráter visual, privi- ao longo dos séculos à violência sinam. As imagens são os ancestrais nos observam, o que empresta, por
povo que se autodesigna como ti- legiando o olhar, a janela da alma, cotidiana do mundo capitalista. que vêm pelo sonho que lhes em- sua vez, ao sonhador, a condição
kmũ’ũn, constituída por resistências, como já definiam os gregos. Nas Violência que se baseou na igno- prestam morada. Os Maxakali so- necessária para então apreendê-
56 Foto ACERVO DA AUTORA embates, deslocamentos forçados, tradições tikmũ’ũn, aqui brevemente rância deliberada de sua língua, do nham imagens que designam todos -las e introjetá-las, absorvê-las, des- 57
pela despossessão de seus territó- evocadas, a imagem acústica, sono- seu pensamento sobre o mundo, os seres e o cosmos, enfim. As ima- cortinando a alteridade como algo
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
desejado, perquirido como possibi- formam sistemas dissociados das da ou que nomeia. Da exuberância O corpo porta a memória dos an- Andreas Huyssen (2000) afirma que
lidade de adensamento do ser que estruturas sonoras que os mate- da nomeação e dos cantares proli- cestrais e os cantos são eles mes- para muitos pensadores atuais, na
se constitui como ingestão acumula- rializam” (TUGNY, 2011, p. 139). As- fera a palavra-coisa, a palavra-povos mos os ancestrais. Em seu modo de nossa modernidade ou pós-moder-
tiva em si dos múltiplos e distintos sim, “nem os sons cantados, nem as que, por sua vez, instaura o ser em pensamento, os Maxakali desafiam nidade, a comodificação da lem- REFERÊNCIAS
seres que se movem em nosso en- palavras” estão “substituindo algo, sua pujança e potência de existir. também certa lógica pautada pela brança equivale ao esquecimento e
torno. Há aqui certa compreensão uma ideia, um agente”, mas são “co- Dessa nomeação copiosa advém referencialidade, na medida em que que o “marketing da memória gera
da cegueira como uma condição de mida, potência curativa, forças afe- um prazer cantante, um mais além a materialidade da imagem em si apenas amnésia”. Numa época em
visibilidade dos espíritos, um estado tantes, agentes de poder” (ibidem, de toda orfandade, de toda retóri- é que produz sua própria natureza que a lembrança se transforma em
alcançado pelas imagens flechantes, p. xxvi). Os Maxakali também não ca paralisante e estéril. Os pulsos como realidade. Por esse processo, souvenirs, comprados e imediata-
aqueles para quem as “flechas são os consideram representações dos de construção sonora avolumam e o ancestral-imagem, assim como a mente esquecidos e substituídos,
seus olhos que se deslocam em bus- seres evocados. Os cantos e as ima- adensam a ambiência acústica que mata atlântica e sua rica biodiver- por agenda e agenciamento cultu-
ca do corpo que tocam” e que “via- gens são o que denominam. Esta- reverbera, em sua qualidade mu- sidade, é restituído em sua integri- rais do turismo estéril e do consu- HUYSSEN, Andreas. Present Pasts:
jam ativamente para afetar aquilo mos aqui face a uma linguagem que sical transcendente, pelos territó- dade, de modo reversível. Falar a mismo, a ânsia de lembrar ou a re- Media, Politics, Amnesia. Public
que olham” (TUGNY, 2011, p. 99). Do recusa a figuração analógica da re- rios naturais e espirituais de todos imagem, cantar a imagem é, assim, petição mecânica da lembrança gera Culture, Duke University Press, v. 12,
olhar dessas “enigmáticas” e “ativas” presentação binária, pois este siste- os seres. produzir a-lethéa, não esquecimen- o esquecimento, impede a falta, a n.1, p. 21-38, 2000.
imagens, como as define Viveiro de ma de pensamento não concebe as to, não ocultamento. Um convite à dor, a própria construção afirmativa
Castro (apud TUGNY, 2011, p. 99), imagens como produção ou efeito Os Maxakali sonham imagens que fruição reflexiva, agente de ações e da memória. Nas performances da MARTINS, Leda Maria. Afrografias
vêm a possibilidade e a capacidade de processos figurativos analógicos. se transformam em cantares, no mutações do status quo. Na oralitu- oralitura, nos cantos e imagens Ma- da memória: o reinado do Rosário
do sonhar, pelo qual o ver-ouvir se Prevalece, pois, o princípio da conti- que me lembram os mestres dos ra performática dos seus cantos, os xakali, por outro lado, os cânticos no Jatobá. São Paulo: Perspectiva;
torna realidade cognitiva intensifi- guidade, da vizinhança metonímica. Reinados, para quem muitos cânti- Maxakali realizam quiçá o ideal de performam e compõem a memória Belo Horizonte: Mazza, 1997.
cada, multiplicativa, proferida. Essa Afirma Rosângela Tugny: cos advêm de imagens sonoras so- uma escritura vocal, um complexo do futuro, pois canta-se e dança-se 3
a “visão do morcego”, aquela que se nhadas, das quais, no amanhecer de imagens e de acústicas, cujo su- não apenas para lembrar os ances- MARTINS, Leda. Performances
perfaz como um “quase-ver”, como do que sonha, derivam os cantares porte é o corpo e suas vocalidades, trais, mas para ser pelos ancestrais do tempo espiralar. In: RAVETTI,
um “ver-ouvir”, como um “ver me- e rítmicas ancestrais, pelas quais os no âmbito do qual a memória é um lembrados. É o olhar e a voz dos an- Graciela; ARBEX, Márcia (Org.).
nos” que é o que deveras pode vir antepassados são ouvidos e presen- labor que vence o oblívio e mesmo a cestres que asseguram a existência Performances, exílios, fronteiras:
a ver o “que é quase imperceptível”, As coisas e os agentes, no universo tificados. Assim, os cantos nos con- ameaça de desaparecimento. dos vivos. Segundo esta sophia, a errâncias territoriais e textuais. Belo
segundo a sabedoria maxakali (TUG- do pensamento indígena, são o re- vidam a abrir não apenas os nossos memória do ancestral é que garante Horizonte: FaLe/UFMG/PosLit, 2002.
NY, 2011, p. 98). Por isso, três são as sultado da possibilidade de mirada olhares, mas também a nossa capa- O tempo, como espiral, move-se a produção da própria memória. As-
ações essenciais para os Maxakali: de subjetividades que povoam o cidade de ouvir e toda nossa per- para frente e para trás, simultanea- sim, enquanto os ancestrais de nós MAXAKALI, Toninho et al. Cantos dos
“Vigiar o sonho, proferir o nome das cosmos, são acima de tudo posi- cepção sensorial, pois a escuta das mente, figurando o presente. Cada se lembrarem, nós ainda seremos. povos morcego e hemex espíritos.
coisas desaparecidas, ser olhado pe- ções. [...] Se aqui, por um lado, já imagens é nossa entrada para o uni- canto-acontecimento ritual repete No canto, na dança, nas pinturas e Rosângela Pereira de Tugny (Org.).
las imagens” (Idem, 2009, p. 22). estamos dizendo que o canto e as verso cósmico em que sonoridades, em seu processo, técnica e mecâni- grafias corporais, são eles que ainda Belo Horizonte: FaLe/UFMG/Núcleo
falas não são atividades meramen- musicalidades, movimentos dançan- ca, a continuidade do próprio pro- de nós se recordam e nos permitem Transdisciplinar de Pesquisas
Falar, cantar é conceber, proferir, te semânticas, abstratas, represen- tes, gestos, cheiros têm cores e tam- cesso, reapresentando, enxertando existir. E é esta lembrança, resvala- Literaterras, 2013.
ativar. Os Maxakali nos lançam em tantes de um objeto ausente, por bém esculpem e revelam paisagens. a natureza e os antepassados an- da também por esquecimento, que
uma ambiência ontofânica, pois, outro podemos dizer que a comida, Nessa perspectiva, a memória do cestrais. Esses são sincronicamente refaz, pelas dobras espiraladas do TUGNY, Rosângela Pereira de.
como sujeitos das vocalidades e so- a carne e os corpos, essas realida- conhecimento constantemente se o antigo e o novo, o efêmero e o per- corpo, os tempos curvos da memó- Cantos e histórias do gavião-espírito
noridades, produzem, pela potência des, para nós tangíveis e palpáveis, recria e se transmite pela oralitura manente, o tangível e o intangível, o ria e da história e que imprime aos e do hemex. Rio de Janeiro: Editora
numinosa de seu cantar, os nomes- não são tampouco entidades aca- da memória, ou seja, pelos repertó- ser da lembrança como materialida- seres sua permanência desejada. Azougue, 2009.
-numes que presentificam as ima- badas, imutáveis, definíveis, classi- rios performáticos orais e corporais, de sonora transcendente. O proces- Assim é que a mata pulsante, de pé,
gens e visões, desafiando também ficáveis. hábitos, cujas técnicas e procedi- so não se resume à lógica orgânica, arejada, animada, livre de exterto- TUGNY, Rosângela Pereira de.
nossa ideia de um tempo linear pro- (TUGNY, 2011, p. 50-51) mentos de transmissão são também tão cara ao desejo ocidental, mas res, queimadas, ceivadas e ganân- Escuta e poder na estética tikmũ’ũn-
gressivo, realizado por um antes e meios de criação, passagem, repro- quiçá a uma contínua dissolução do cias da modernidade, plena de se- Maxakali. Rio de Janeiro: Museu do
um depois, aqui, sim, composto, por Na lógica do mesmo raciocínio, Vi- dução e de preservação dos sabe- retórico-discursivo em uma plura- res, sendo ela mesma um, veste-se Índio/Funai, 2011.
temporalidades múltiplas e adjun- veiro de Castro acrescenta que ali res. Assim, performances orais, ceri- lidade de novas resoluções de lin- de sons, aromas, sabores, cores e
tas, que se tocam, se avizinham e se não haveria nem “tipos, nem re- mônias e festejos, por exemplo, são guagem e de audiências, em outras risos. Como deveria ser.
afetam mutuamente. O sujeito visi- presentações”, sugerindo que “os férteis ambientes de memória dos dicções e afecções.
tado pelas imagens torna-se mãe ou conceitos amazônicos de ‘espírito’ vastos repertórios de reservas mne-
pai das imagens que nos veem, sem não designam tanto uma classe ou mônicas, ações cinéticas, padrões,
serem vistas, diluindo as marcações gênero de seres quanto uma certa técnicas e procedimentos culturais
de posterioridade e de anteriorida- vizinhança obscura entre o humano residuais, recriados, restituídos e ex-
de retilíneas. Nas envergaduras e e o não humano, uma comunicação pressos no e pelo corpo e pela voz,
dobras do tempo, não há prioridade secreta que não passa pela redun- portais de inscrição e grafias, insti-
neôntica. A força de ser da imagem, dância, mas pela disparidade entre tuindo e transmitindo saberes de
tanto visual quanto sonora, cria uma eles” (apud Tugny, 2011, p. 51). vária ordem, dentre eles os estéticos
ipseidade, ou uma primeiridade ab- e filosóficos. O corpo vozeado, nas
soluta, como diria Pierce. Os cantos-listas, assim, abrem-se à tradições orais, é local de inscrição
morte como algo não paralisante de um conhecimento que se grafa
Os cânticos, vale lembrar, não nar- ou definitivo, e o cântico, como lin- nas coreografias dos movimentos,
ram; eles recitam o ancestre; eles guagem, é um ato fiel de plena pre- nas escritas e partituras peliculares,
não são discursivos, mas perfor- sença, concretude, imanência em si nos ritmos e timbres da vocalidade
mativos. Segundo Tugny (2011), os mesmo. O nome recusa sua nature- e das sonoridades. O que no corpo
58 “cantos não devem ser tomados za fantasmática, sígnica e se apre- e na voz se repete é uma episteme 59
como metáforas e seus textos não senta como a própria coisa nomea- (vide MARTINS, 1997; 2002).
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
UM LUGAR ONDE A
TERRA DESCANSA
AILTON KRENAK
3
Acredito que a oportunidade de a Terra descansa”. Essa ideia, evocar
estar aqui fazendo essa fala é uma um lugar onde a Terra descansa,
situação de privilégio numa socie- tem a ver com o sentimento que
dade extremamente segmentada, me move nesses encontros com as
por falta de outra palavra. Numa pessoas para se pensar: que lugar é
formação social na qual uma socie- esse onde a Terra descansa? O lugar
dade extremamente discriminatória onde a Terra descansa, será que ele
com um imenso caleidoscópio de está em mim, ou está nas paisagens
critérios para discriminar, que vai por onde eu me desloco? Pelos luga-
desde a discriminação pelo tama- res a que eu atribuo valores, signifi-
nho do nariz, ou o tamanho do pé, cado? Se tem um lugar onde a Terra
pela estatura até a discriminação descansa, isso deve sugerir também
pela cor. E nesse imenso repertório que, se essa Terra descansa e se ela
que a nossa composição, digamos se cansa, ela é um organismo vivo.
assim, complexa dentro dessa socie- Ela não é a mesmice que o pensa-
dade brasileira nos coloca, ela incita mento racional, que o pensamen-
a cada um de nós a acender esses to, aliás, científico, se me permitem
faróis e refletir essas diferenças da aproveitar o destaque nesse lugar
maneira mais intensa, exatamente privilegiado, onde a ciência deita e
para não desaparecer no meio das rola, para dizer que a ciência deci-
paisagens. Porque as paisagens diu que esse organismo vivo, pelo
constituídas são paisagens para nos menos alguns séculos atrás, podia
fazer desaparecer. Aquele paren- ser esquadrinhado, recortado, even-
te que sente que é menor quando tualmente triturado e enviado para
está em São Paulo, situação diversa diferentes cantos do mundo, como
de quando está lá no Vale do Java- recurso. Assim como você pode ir a
ri, está refletindo, com este senti- uma roça e colher o trigo ou colher o
mento, o que milhares de pessoas milho, você pode ir a uma paisagem
sentem quando estão exiladas de e colher uma montanha. Você atro-
si mesmas, fora do seu lugar. O que fia uma paisagem como se ela fosse
nos põe diante de uma pergunta in- alguma coisa que se pode repor a
cômoda, que é: qual é o meu lugar? cada safra, a cada estação.
Se toda vez que eu me sentir deslo-
cado vou me sentir menos do que Eu venho de uma região do nos-
eu sou, onde é o meu lugar? Então, so país que é cheia de montanhas.
eu queria convidar vocês para gente Cheia de serras. E essa topografia
Foto THIAGO JAPYASSU

fazer uma viagem sobre esse lugar. que inspira os nativos daquela re-
gião me inspirou a nomear aquele
Costuma-se mencionar um dos tex- lugar de Minas Gerais. E esse lu-
tos que eu tive a oportunidade de gar de montanhas, essa região de
60 publicar há uns quinze anos, que ti- montanhas, ela está sofrendo, nos 61
nha o poético título de “O lugar onde últimos 50 anos, uma alteração tão
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
radical na paisagem, que se você se siões que nós tivemos de mostrar em qualquer lugar que estiverem, tuir pessoas servis e reprodutoras res. Se a universidade fizer isso, será que o preço do ouro que eles paga-
desloca por terra do Rio de Janeiro como esse conserto se dá, a gente porque estão espelhando um mo- do pensamento colonial. Em países melhor que se transforme em hor- vam naquele tempo e o que pagam
ou de São Paulo para ir para região viu quase uma metade das pessoas delo de vida que não é o que ele traz periféricos como o Brasil e alguns tas, jardins, jardins botânicos, em hoje é mais ou menos equivalente.
central de Minas Gerais, você se im- vestida de verde e amarelo, berran- em si, mas é o que estão oferecen- outros vizinhos nossos da América vez de ficar enganando as pessoas. As pessoas pagam os olhos da cara
pressiona com o tanto de serras que do no meio da rua: “morte, morte, do para ele. Nesse sentido, pensar Latina, a única coisa que as nossas Eu acredito que fica bem explicita- para serem colonizadas.
são, a cada 5, 6 anos, removidas da morte, esfola, esfola, esfola”, expul- as universidades como alguma coi- universidades fazem é convencer da a minha preocupação com o fato
sua frente. Junto com essas serras sando a outra metade do país para sa fora desse aparato que o Estado os nossos filhos de que as melhores de muitos dos jovens de diferentes O que nós deveríamos era provocar
que estão sendo removidas, estão ir morar em qualquer outro lugar manipula, que o Estado gere, pode bibliografias que existem para eles povos, desses povos chamados indí- a irrupção de um pensamento rebel-
desaparecendo também os rios, as do continente; e uma parte dessa ser muito ingênuo. As universida- são aquelas em alemão, em francês, genas, se sentirem atraídos por esse de que fosse capaz de fazer pensar,
nascentes, os corpos d’água que comunidade, dessa comunida- des, elas fazem parte do aparato, em inglês. Em qualquer outra língua, canteiro que são as universidades. junto com as pessoas de cada lugar
formavam aquela paisagem. Estão de cindida, tentando justificar por do organismo de dominação, que os mas nunca a dele. Nunca a voz que Que atração é essa que a univer- onde nós vivemos, a potência que a
sendo sequestrados por uma lógi- que é que ela se sentia tão menor Estados nacionais estendem como ele reconhece como a voz do seu sidade provoca nos jovens vindos Terra tem para se fazer respeitar. Se 3
ca absurda que não entende que a naquele lugar por onde ela estava seus dedinhos para alcançar os seus avô, do seu pai, da sua família. São desde o povo Xucuru-Cariri, do Pan- a Terra é um organismo vivo, precisa
Terra precisa também descansar. E transitando. objetivos, buscando a informação, vozes estranhas que constituem o cararu, até o povo Ticuna, que está ser respeitado. Nós não temos que
como traduzir para um pensamento buscando o conhecimento, bus- saber, são vozes de outro lugar, que lá no Solimões, ou até povos como cuidar da Terra, nós temos que res-
plural, para uma sociedade comple- A estimulante presença dos indí- cando todo o aporte que o Estado, sempre vão nos fazer sentir menor os Yanomami, que estão lá em Ro- peitar esse organismo vivo que ela
xa como a que nós acabamos por genas, dos negros, das diferentes obviamente, necessita para se re- em qualquer lugar do mundo. raima, que a gente pode pensar: é. E nós só estamos aqui porque ela
nos constituir, onde não há mais famílias de diferentes regiões desse troalimentar e continuar atualizado “bom, os Yanomami vivem numa re- ainda nos suporta, nos acolhe, nos
uma cosmovisão compartilhada, país, dos diferentes complexos de sobre como melhor dominar as nos- Se a Terra é esse organismo vivo, e gião tão afastada ainda desse cho- abriga, nos dá comida, põe a gente
onde se eu disser para você que culturas e de identidades que não sas diferenças, as nossas diversida- se nós estamos enraizados nesse que de cultura que o Centro-Oeste para dormir, nos desperta. E nós,
nós vamos dançar para suspender temos nem como listar, apesar de des. É interessante notar que essa organismo vivo, nós temos que ex- e o Nordeste já experimenta há tan- nessa nossa pouca paciência, nossa
o céu, você pode até admitir que o Estado, por meio de suas diferen- instituição chamada “universidade”, pressar a potência desse organismo to tempo, que talvez eles consigam pouca capacidade de escuta, acha-
eu faça isso, mas que eu faça isso lá tes agências, procurar criar essas o que ela menos tem de natureza vivo em qualquer lugar, em qualquer consolidar uma visão de mundo e mos que podemos nos desfazer des-
no meu terreiro. Porque o seu céu, listas, distinguindo-os como povos própria seja o caráter universal. Ela volta que ele der com a gente. Nós não se impressionem tanto com se maravilhoso organismo vivo de
esse céu que está na sua paisagem, tradicionais, comunidades ou po- trai o próprio sentido da sua origem, temos que poder nos deslocarmos os apelos dessa incrível sinfonia do que somos células. Eu não estou fa-
você ainda não admitiu que ele te- vos simplesmente, listas que o Es- que era o de dar trânsito a todas as pelo planeta sem sentir o constran- mercado, da mercadoria, como diz o zendo nenhum comentário místico,
nha alguma comunhão com a Terra tado usa para discriminar melhor visões de mundo, a todas as capaci- gimento de estarmos andando em Davi Kopenawa Yanomami, que é o não estou invocando uma transcen-
e com você. E com todos os outros e fazer sua política de segregação, dades criativas, à invenção, ao pen- corredores vigiados. Me faz pensar som dessa civilização que consegue dência. Eu só estou nos lembrando
seres que compartilham com você dirigida de uma maneira organiza- samento. Então, essa instituição, naqueles gritos dos meninos nesses transformar até o saber numa coisa que esse organismo vivo nos integra
a coabitação dessas paisagens. Esse da. Porque, na verdade, muito além que não podia trair seu sentido de corredores, dizendo, como expres- para vender. a nós também. É uma traição absur-
ensimesmamento, essa absurda dessas listas, nossas diferenças é o origem, trai esse sentido de origem são potente de raiva, que querem da nós ignorarmos nossa origem
concentração antropocêntrica, esse que constitui a potência verdadeira quando começa a estabelecer, por acabar com as expressões próximas Algumas pessoas ficam frustradas na Terra e discriminarmos todos os
pensamento antropocêntrico que que vai nos dar a força necessária exemplo, que 80% ou 90% de seus e cotidianas dessa repressão e des- de não poder pagar o que algumas outros seres que também têm essa
orientou o processo de coloniza- para não permitirmos que o Esta- frequentadores vão ser, sei lá, cor sa dominação que nós experimenta- universidades exigem para que eles mesma origem nela, que pode re-
ção das Américas e que trouxe esse do ponha uma canga sobre todos de rosa. E que os outros 9% vão ser mos na nossa forma de organização possam passar lá por dentro e sair, constituir, ou constituir, junto com
pensamento branco para ocupar nós e nos domestique a todos. Tem xadrezes, e que alguns outros vão em sociedade e que se reflete de ao final, com um MBA, com um dou- cada um de nós, uma teia de ple-
a paisagem das Américas, ele im- uma pequena parte do nosso povo ser com bolinhas. Essas estatísticas uma maneira grotesca na experiên- torado, com um mestrado. Porque na experiência criativa em seu seio
primiu nessa paisagem a visão de que continua, ainda, envergonhado que justificam para o planejamento, cia da educação. Quando jovens es- aí ele teria comprado o seu céu. À vivo. Mas, ao contrário, nós ficamos
uma platitude, a visão de um lugar em alguns lugares por onde circu- para o orçamento, elas não justifi- tão na sua formação, nessa sua ex- semelhança do que acontecia quan- rendidos a uma “dieta cerebral” e
plano, onde o saque de toda rique- la. Mas essa vergonha é potência, cam, do ponto de vista moral e do periência formativa, eles deveriam do o catolicismo era aquele pensa- temos muito pouca comunhão com
za, de toda fartura da natureza, se porque essa vergonha é estranha- ponto de vista ético, que uma insti- encontrar um lugar acolhedor, um mento. A fé católica, a fé cristã era tudo o que essa Terra nos possibilita
constitui no projeto civilizatório, no mento. Essa vergonha é não ter en- tuição aceite essas marcas. Quando jardim acolhedor que os estimulasse aquele pensamento dominante e e oferece.
projeto de conquista, no projeto de tregado ainda o seu último reduto as instituições convivem, aceitam e a pensar, e não um lugar de repres- que fazia com que um sujeito que
consolidação de um tipo de socieda- à dominação colonialista. E não ter integram essas marcas, ela se cons- são onde eles se sentem o tempo arrancava ouro e diamante nas
de. De um tipo de sociedade em que se constituído, também, num apara- titui num aparelho, numa extensão inteiro constrangidos e ameaçados. serras de Minas desse pelo menos
nós, involuntariamente, nos encai- to ou num aparelho de reprodução do aparelho do Estado, que só quer Isso não é educação. E as universi- 1/10 daquela riqueza que ele retira-
xamos, como essa sociedade brasi- do pensamento colonial. Porque a dominar, submeter e escravizar nos- dades seguem o mesmo duto es- va para que alguém desse para ele
leira. Uma abstração, porque se nós tragédia é quando uns de nós, do- sa capacidade de revolta. A nossa treito do ensino fundamental e do um crachá para ele entrar no céu. A
somos tão diversos e temos deman- mesticados pelo pensamento colo- capacidade de criação. Se nós dei- secundário e vão acessar as pessoas comparação daqueles que pagam
das tão distintas e temos desejos e nial, passamos a reproduzir isso de xarmos as universidades continua- a esse ambiente constrangedor, inti- para acessar o MBA (Master in Bu-
projeções de mundo tão distintas, uma maneira tão eficiente que, em rem a ser um aparelho de extensão midante, que faz o sujeito se sentir, siness Administration)6 das universi-
como a gente pode se constituir torno de nós, acabamos criando co- do Estado, assim como as polícias no máximo, um invólucro vazio para dades com aqueles que pagam nos
assim, de graça, num conserto cha- lônias de pessoas subjugadas, sub- são, nós vamos permitir que os nos- ser preenchido com bibliografias e locais da fé religiosa para ir ao céu
62 mado “identidade brasileira”, “povo metidas e humilhadas, que vão se sos filhos e que as futuras gerações ideias alienígenas, prostrado, para pode parecer grotesca ou até barro- 6
Em português, Mestre em Administração de 63
brasileiro”? Porque, nas poucas oca- sentir sempre menores do que são cada vez mais venham a se consti- ser uma réplica dos seus dominado- ca. Mas vocês podem ter certeza de Negócios.
Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI
Nesses tempos em que nada é
aquilo que parece, em que diante
de um mesmo fato se constroem
duas realidades paralelas, nas
quais em nome do povo se mata
o povo, eu me refugio no meu
grupo, cúmplices de um projeto de
vida no teatro, porque é o único
que se responsabiliza por explorar
essa realidade escondida que
me reconcilia com o ser humano,
me gera empatia, emoção e me
faz crer que a solidariedade e
a esperança são possíveis, já 3
que como disse o mestre Peter
Brooke, quando alguém sente,
compreende.

LUCERO MILLÁN

Atriz, diretora de Teatros e


responsável pelo Teatro Justo Rufino
Garay – Nicarágua
Foto ALEXANDER KRIVITSKIY

64 65
DIA 19 DE AGOSTO DE 2019

E n c o n t r o I n t e r n a c i o n a l A r t e , C u lt u r a e D e m o c r a c i a n o S é c u l o X X I
PROGRAMAÇÃO DAS MESAS DE DEBATES
LOCAL: TEATRO FRANCISCO NUNES
EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS

ABERTURA OFICIAL grupo, o primeiro teatro independente da Nicarágua e é uma


das fundadoras do Fit Nicarágua (Festival Internacional de
Juca Ferreira – Secretário Municipal de Cultura de Belo Horizonte Teatro, 1995). Como autora escreveu Tiempo al tiempo, Ay amor
Fabíola Moulin – Presidenta da Fundação Municipal de Cultura ya no me quieras tanto, La ciudad vacía y Francisca. Consultora
de Belo Horizonte em temas de participação cidadã e teatro, além de responsável
Sandra Goulart – Reitora da Universidade Federal de Minas pelo Teatro Justo Rufino Garay.
Gerias - UFMG
Benedita da Silva – Deputada e Presidenta da Comissão de Jose Antonio Mac Gregor - México
Cultura da Câmara Federal Antropólogo social, mestre em Desenvolvimento Rural e geren-
Adriana Branco – Secretária Municipal para Assuntos Institu- te cultural. Recebeu o Prêmio Nacional de Antropologia Social
cionais e Comunicação Social Fray Bernardino de Sahagún (1985) e o Prêmio Nacional de Arte
Leonardo Serikawa – Coordenador de Cooperação Técnica e Cultura Mil Mentes por México (2018). Promoveu a criação
da Organização dos Estados Ibero-americanos para Educação, do Sistema Nacional de Treinamento e Profissionalização de
Ciência e Cultura (OEI) Brasil Promotores e Gerentes Culturais do México (2001). Atualmente

programação
é Diretor de Cultura do município de El Marqués, Querétaro,
México.

Encontro MESA: CULTURA, CIVILIZAÇÃO E DEMOCRACIA –


DESAFIOS E RISCOS ATUAIS
Jorge Blandón - Colômbia
Profissional de formação artística, cultural e de políticas cultu-
rais. Gestor cultural. Produziu El Habitante de abajo de la cama,

Internacional Arte, EMENTA: Esta mesa inaugural se destina a refletir sobre o


In-con-cierto, Ventana al cielo com Nuestra Gente. Articulador
da Cultura Viva Comunitária Latino-Americana. Professor de
Processo Urbano e Ambiental - Urbam Eafit. Publicou: Teatro

Cultura e Democracia
papel da cultura e sua relação com os temas e desafios emer- jovem, “Pensar a cultura a partir do desenvolvimento local”,
gentes no mundo contemporâneo. Pensar em como nos posi- Livro Ser-Fazer-Acontecer.
cionarmos e atuarmos em busca de um futuro diante da crise
das democracias, do desenvolvimento tecnológico avassalador Danilo Miranda - Brasil

no Século XXI
e da crise ambiental global. Diretor Regional do Serviço Social do Comércio (Sesc) no Esta-
do de São Paulo. É especialista em ação cultural, formado em
MEDIAÇÃO: Marcelo Bones (Diretor de Desenvolvimento e Filosofia e em Ciências Sociais, com estudos complementares
Articulação Institucional – SMC) na Pontifícia Universidade Católica e na Fundação Getúlio Var-
gas, em São Paulo, e no Management Development Institute, de
CONVIDADOS: Lausanne, na Suíça. Foi Presidente do Comitê Diretor do Fórum
Cultural Mundial, em 2004, e Presidente do Comissariado Brasi-
Juca Ferreira - Brasil leiro do Ano da França no Brasil, em 2009.
Sociólogo com dedicação à política, à cultura e às questões
ambientais, foi vereador e Secretário do Meio Ambiente de Sal- Sandra Goulart - Brasil
vador. Secretário Executivo do Ministério da Cultura e Ministro Professora Titular da área de Estudos Literários da Faculda-
da Cultura. Foi Embaixador Especial na Secretaria Geral Ibe- de de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, possui
ro-Americana e Secretário Municipal de Cultura de São Paulo. mestrado pela University da Carolina do Norte em Chapel Hill
É Secretário Municipal de Cultura de Belo Horizonte de 2017 à (1990), doutorado pela mesma instituição (1994) e pós-doutora-
presente data. do em Literatura Comparada pela Universidade Columbia, em
New York (2000-2001) e pela UFSC (2008). Atualmente exerce
Fabíola Moulin - Brasil o cargo de Reitora da Universidade Federal de Minas Gerais,
Fabíola Moulin é presidente da Fundação Municipal de Cultu- tendo sido Vice-Reitora da instituição na gestão 2014-2018. Foi
ra. Mestra em arquitetura e urbanismo, com especialização Coordenadora Adjunta da área de Letras e Linguística da CA-
em crítica de arte e graduação em artes visuais. Foi diretora PES (2011-2014), Diretora de Relações Internacionais da UFMG
de difusão museológica na SEC-MG (2004 e 2005), coordena- (2002-2006), Secretária da Associação Nacional de Pós-Gradu-
dora de artes visuais do MAP (2007 a 2010), diretora de pro- ação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL) (2008-2010),
gramação e gerente de artes visuais na Fundação Clóvis Salga- Subcoordenadora do GT Mulher na Literatura da ANPOLL
do (2010 a 2014). Ainda na Fundação Municipal de Cultura, foi (2002-2004), entre outros.
Diretora de Museus.
SHOW: Paixão e Fé, com Titane e Túlio Mourão
Lucero Millán - Nicarágua
66 Estudou Literatura Dramática e Teatro na UNAM (México) e 67
Sociologia na UCA (Nicarágua). Em 1986, fundou, com o seu
DIA 20 DE AGOSTO DE 2019

E n c o n t r o I n t e r n a c i o n a l A r t e , C u lt u r a e D e m o c r a c i a n o S é c u l o X X I
PROGRAMAÇÃO DAS MESAS DE DEBATES PROGRAMAÇÃO DOS ENCONTROS TEMÁTICOS
LOCAL: TEATRO FRANCISCO NUNES LOCAL: PARQUE MUNICIPAL AMÉRICO RENNÉ GIANNETTI
EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS

MESA – CULTURA, CRISE E DEMOCRACIA TENDA LARGO DO TEATRO – POLÍTICA E ECONOMIA TENDA PRAÇA DOS PATINS – CULTURA, LIBERDADE TENDA PRAÇA DOS PATINS – COMUNICAÇÃO E MÍDIAS
NO SÉCULO XXI – REFLEXÕES CRÍTICAS DA CULTURA EM TEMPOS DE CRISE DE EXPRESSÃO E MANIFESTAÇÃO
EMENTA: Discutir os temas e desafios emergentes no século MEDIAÇÃO: Leonardo Beltrão (Diretor de Fomento e Economia MEDIAÇÃO: João Pontes (Diretor de Políticas Sociais e Participa- MEDIAÇÃO: André Di Franco (Assessor – SMC)
XXI e como eles se relacionam com a sociedade em suas diver- da Cultura – SMC) ção Social – SMC) / Paula Vartuli (Assessora – SMC)
sas dimensões. A cultura como estratégia de desenvolvimento, FACILITADORES:
como direito e perspectivas de futuro diante das crises mun- FACILITADORES: FACILITADORES:
diais. Momento dedicado a refletir sobre as políticas culturais Pablo Capilé - Brasil
no século XXI e os aspectos mais relevantes para a compreen- Alexandre Vargas - Brasil João Paulo Cunha - Brasil Produtor cultural mato-grossense, Pablo Capilé é formado em
são do papel do Estado, do protagonismo da sociedade e de Alexandre Vargas é curador de artes cênicas. Diretor Artístico Escritor e jornalista, tem passagens pelo jornal Estado de Mi- comunicação social e há anos milita em movimentos culturais.
suas inter-relações com as várias áreas do conhecimento para do Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre. Cria- nas, pela Rádio Inconfidência e pela Rede Minas de Televisão. Ele é o idealizador e criador da rede de coletivos culturais cha-
a construção de uma sociedade mais justa, democrática, plural, dor do INTERCENA – Programa de Internacionalização das Artes Foi professor da PUC Minas e pesquisador da Escola de Saúde mada Circuito Fora do Eixo, uma rede independente e coopera-
sustentável e alegre. Cênicas do Sul do Brasil, diretor da 1ª Bienal de Dramaturgia Pública. Foi presidente do Instituto BDMG Cultural. Atualmente tiva de produção cultural que promove milhares de eventos por

programação
Qorpo-Santo, integrante do núcleo gestor da Rede Brasileira de é colunista do jornal Brasil de Fato. ano em todo o Brasil.
MEDIAÇÃO: Bárbara Bof (Diretora de Promoção Dos Direitos Festivais de Teatro e, atualmente, Coordenador de Empreende-
Culturais: Acesso, Protagonismo – FMC) dorismo e Inovação do RS Criativo. João Brant - Brasil Tatiana Carvalho - Brasil
João Brant é consultor em políticas culturais e de comunicação. Jornalista. Professora no Centro Universitário UNA de Belo
CONVIDADOS: Rodrigo Michel - Brasil Doutor em Ciência Política pela USP, foi Secretário-Executivo do Horizonte. Foi repórter n’O Tempo e assessora especial de Jor-
Doutor em Economia pelo CEDEPLAR/UFMG, pesquisador de Ministério da Cultura (2015-2016) e assessor especial da Secre- nalismo na Rádio Inconfidência. Coautora de Mulheres comu-
Juca Ferreira - Brasil economia da cultura e economia criativa com interesse nas re- taria Municipal de Cultura de São Paulo (2013-2014). nicam: mediações, sociedade e feminismos (Letramento, 2016),
Sociólogo com dedicação à política, à cultura e às questões am- lações entre cultura e espaço urbano, cultura e tecnologias e Vozes negras em comunicação (Editora UFMG – no prelo), entre
bientais, foi vereador e Secretário do Meio Ambiente de Salva- cultura e políticas públicas. Atualmente trabalha no Observató- Clarisse Calixto - Brasil outros.
dor. Secretário Executivo do Ministério da Cultura e Ministro rio do Turismo de Belo Horizonte/BELOTUR. Doutora pela Universidade de Brasília. Como Advogada da
da Cultura. Foi Embaixador Especial na Secretaria Geral Ibero- União, coordenou a equipe de revisão de atos normativos da Rafael Mendonça - Brasil
-Americana e Secretário Municipal de Cultura de São Paulo. É Marta Porto - Brasil Casa Civil da Presidência da República, atuou como Assessora Rafael Mendonça nasceu em BH, foi por 18 anos um dos edi-
Secretário Municipal de Cultura de Belo Horizonte de 2017 à Jornalista, consultora internacional de políticas de artes, cultura Especial do Ministro da Justiça e coordenou a Consultoria Jurídi- tores da revista Graffiti 76% quadrinhos, passou pelo Jornal
presente data. e desenvolvimento. Autora de livros e artigos publicados em vá- ca do Ministério da Cultura. Foi chefe da Assessoria Jurídico-Le- O Tempo e é fundador do site O Beltrano.
rios países, sendo o último: Imaginação, reinventando a cultura gislativa da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Leciona na
Jose Antonio Mac Gregor - México (Ed. Pólen, 2019). Foi coordenadora do Escritório da Unesco no PUC-SP, na Escola Paulista de Direito e ocupa o cargo de Chefe Alessandra Mello - Brasil
Antropólogo social, mestre em Desenvolvimento Rural e geren- Rio de Janeiro e Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural de Gabinete da Procuradoria-Regional da União em São Paulo. Formada em jornalismo pela PUC–MG. Trabalhou nos jornais
te cultural. Recebeu o Prêmio Nacional de Antropologia Social do MinC. O Tempo e Jornal do Brasil. É repórter de política do jornal Estado
Fray Bernardino de Sahagún (1985) e o Prêmio Nacional de Arte Leonardo Germani - Brasil de Minas e, desde 2017, presidenta do Sindicato dos Jornalistas
e Cultura Mil Mentes por México (2018). Promoveu a criação Alfredo Manevy - Brasil Desenvolvedor web e jornalista, trabalhou como educador em de Minas Gerais.
do Sistema Nacional de Treinamento e Profissionalização de Alfredo Manevy é gestor e pesquisador especializado em políti- projetos próprios, ongs e na Febem. Em 2004, juntou as duas
Promotores e Gerentes Culturais do México (2001). Atualmente cas culturais e políticas audiovisuais. Coordenou a implantação coisas e ajudou a construir a área de Cultura Digital dentro do
é Diretor de Cultura do município de El Marqués, Querétaro, e foi o primeiro diretor-presidente da Spcine, organização que Ministério da Cultura. Em 2007, trabalhou na área de educação,
México. estabeleceu, em sua gestão, o circuito de 20 salas de cinema cultura e comunicação do Projeto Saúde & Alegria, em Santa-
públicas. Também foi secretário executivo e secretário de polí- rém no Pará. Foi fundador do Hacklab, onde liderou projetos
Jorge Blandón - Colômbia ticas culturais do Ministério da Cultura. Atua como professor e Web como o Catraca Livre. Foi Coordenador Geral de Monitora-
Profissional de formação artística, cultural e de políticas cultu- consultor nas áreas executiva e criativa. mento de Informações Culturais do Ministério da Cultura e atua
rais. Gestor cultural. Produziu El Habitante de abajo de la cama, como bolsista do MediaLab da Universidade Federal de Goiás.
In-con-cierto, Ventana al cielo com Nuestra Gente. Articulador
da Cultura Viva Comunitária Latino-Americana. Professor de
Processo Urbano e Ambiental - Urbam Eafit. Publicou: Teatro
jovem, “Pensar a cultura a partir do desenvolvimento local”,
Livro Ser-Fazer-Acontecer.

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DIA 21 DE AGOSTO DIA 22 DE AGOSTO

E n c o n t r o I n t e r n a c i o n a l A r t e , C u lt u r a e D e m o c r a c i a n o S é c u l o X X I
PROGRAMAÇÃO DAS MESAS DE DEBATES PROGRAMAÇÃO DOS ENCONTROS TEMÁTICOS PROGRAMAÇÃO DAS MESAS DE DEBATES
LOCAL: TEATRO FRANCISCO NUNES LOCAL: PARQUE MUNICIPAL AMÉRICO RENNÉ GIANNETTI LOCAL: TEATRO FRANCISCO NUNES
EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS

MESA – CULTURA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL TENDA LARGO DO TEATRO – POLÍTICA E ATIVISMO -EA/ UFMG) e doutora (2006, PUC SP). Professora Associada MESA – POLÍTICA, CRIAÇÃO, CORPO E AFETO –
da Escola de Arquitetura da UFMG e docente dos programas
NO SÉCULO XXI CULTURAL NPGAU e PACPS da EA/ UFMG. Pesquisadora do grupo de pes- OS DESAFIOS DO SÉCULO XXI
quisa Indisciplinar (EA/ UFMG), coordenadora do programa de
EMENTA: Esta mesa destina-se a refletir sobre cultura e MEDIAÇÃO: Aline Vila Real (Diretora de Promoção das Artes – extensão IndLab. Atua principalmente nos temas: geopolítica e EMENTA: Mesa voltada a discutir a relação entre cultura, cria-
participação social. Momento destinado a discutir sobre os FMC) território, cartografias das lutas urbanas, arquitetura contem- tividade, política, corpo e afeto. O desejo de liberdade, de
espaços urbanos e simbólicos, não apenas como resultado de porânea e coletivos ibero-americanos. afetividade, de alegria e felicidade nos processos de vida e a
uma adaptação ao meio físico, mas também como produto e FACILITADORES: sensibilidade das pessoas são os principais ingredientes para
resultado da cultura de um povo e suas formas de organização Alemberg Quindins - Brasil o processo criativo e a construção de um espaço político que
e apropriação de espaços comuns e sobre ações colaborativas Lucero Millán - Nicarágua Pesquisador, músico, escritor e artista plástico autodidata. garanta a capacidade de expressão dos indivíduos e das coleti-
no fazer político. Estudou Literatura Dramática e Teatro na UNAM (México) e Criador da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kari- vidades com uma visão consciente e crítica do mundo.
Sociologia na UCA (Nicarágua). Em 1986, fundou, com o seu ri. Recebeu as comendas da Ordem do Mérito e Ordem Cultural
MEDIAÇÃO: João Pontes (Diretor de Políticas Sociais e Participa- grupo, o primeiro teatro independente da Nicarágua e é uma do Ministério da Cultura do Brasil, Ordem do Mérito da Farrou- MEDIAÇÃO: Aline Vila Real (Diretora de Promoção das Artes –
ção Social – SMC) das fundadoras do Fit Nicarágua (Festival Internacional de pilha do estado do Rio Grande do Sul e a Medalha da Abolição FMC)

programação
Teatro, 1995). Como autora escreveu Tiempo al tiempo, Ay amor do estado do Ceará. Como consultor da Unicef, criou os progra-
CONVIDADOS: ya no me quieras tanto, La ciudad vacía y Francisca. Consultora em mas de rádio De criança para criança em Angola e Moçambique. CONVIDADOS:
temas de participação cidadã e teatro, além de responsável Foi Gerente de Cultura do SESC-RJ e hoje é Assessor de Relações
Lucero Millán - Nicarágua pelo Teatro Justo Rufino Garay. Institucionais do SESC-CE. Ailton Krenak - Brasil
Estudou Literatura Dramática e Teatro na UNAM (México) e Ativista indígena dos Direitos Humanos, pertence à etnia Kre-
Sociologia na UCA (Nicarágua). Em 1986, fundou, com o seu Álvaro Restrepo - Colômbia Jorge Blandón - Colômbia nak. Em 1987, liderou a luta pelos princípios inscritos na Cons-
grupo, o primeiro teatro independente da Nicarágua e é uma Bailarino, coreógrafo e pedagogo colombiano, um dos Profissional de formação artística, cultural e de políticas cultu- tituição Federal do Brasil, durante a Assembleia Constituinte.
das fundadoras do Fit Nicarágua (Festival Internacional de pioneiros da dança contemporânea na Colômbia e referência rais. Gestor cultural. Produziu El Habitante de abajo de la cama, Recebeu vários prêmios, entre eles, o Prêmio Internacional para
Teatro, 1995). Como autora escreveu Tiempo al tiempo, Ay amor de dança latino-americana. Seu trabalho já foi visto em mais de In-con-cierto, Ventana al cielo com Nuestra Gente. Articulador a América Latina de Direitos Humanos Letelier-Moffitt (Washin-
ya no me quieras tanto, La ciudad vacía y Francisca. Consultora 60 países. Em 1997, fundou, com a bailarina, coreógrafa e peda- da Cultura Viva Comunitária Latino-Americana. Professor de gton), o Prêmio Homem e Sociedade, da Fundação Aristóteles
em temas de participação cidadã e teatro, além de responsável goga francesa Marie France Delieuvin, o Colegio del Cuerpo, na Processo Urbano e Ambiental - Urbam Eafit. Publicou: Teatro Onassis (Grécia), o Prêmio Nacional de Direitos Humanos.
pelo Teatro Justo Rufino Garay. cidade de Cartagena das Índias, na costa caribenha colombiana. jovem, “Pensar a cultura a partir do desenvolvimento local”,
Livro Ser-Fazer-Acontecer. Maria Thaís - Brasil
Renata Marquez - Brasil Cacá Machado - Brasil Professora de Artes Cênicas da ECA-USP. Dirigiu, com a Cia
Professora de Análise Crítica da Arte na Escola de Arquitetura Cacá Machado, compositor e historiador. Professor de História Sérgio Barcelar - Brasil Teatro Balagan, os espetáculos Programa Pentesiléia - treina-
da UFMG, com doutorado em Geografia e pós-doutorado em da Música da Unicamp. Autor dos livros O enigma do homem Idealizador e diretor do Festival do Teatro Brasileiro, que está mento para a batalha final, Recusa, que ganhou o Prêmio Shell
Antropologia. É uma das editoras da revista PISEAGRAMA, dedi- célebre (IMS, 2007) e Tom Jobim (Publifolha, 2008) e dos CDs/ na sua 20ª edição, e do Movimento Internacional de Dança, que de Direção, Prometheus – a Tragédia do fogo, Západ – a tragé-
cada à discussão da esfera pública no Brasil. Foi curadora da LPS Eslavosamba (YB Music, 2013) e Sibilina (YB Music, 2018). está na sua 5ª edição, ambos já realizados em 2019. Bacelar, dia do poder, Tauromaquia, entre outros. Publicou: Na cena do
exposição Escavar o futuro (Palácio das Artes, 2013) e do Museu Foi diretor do Centro de Música da Funarte (2008/2010) e do com atuação nacional e internacional, é também criador de Dr. Dapertutto: poética e pedagogia em V. E. Meierhold e o livro
de Arte da Pampulha (2011 a 2012). Sua prática direciona-se às Auditório Ibirapuera (2011). projetos musicais. Balagan – Cia de Teatro. Como pedagoga e diretora, atua na
relações entre arte, espaço, outros campos do conhecimento e Itália, França, Colômbia e Rússia.
outras cosmociências. Alexandre Santini - Brasil Leandro Anton - Brasil
Gestor cultural, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Leandro Artur Anton, fotógrafo e geógrafo, mestrando em aná- Leda Maria Martins - Brasil
Antônio Nêgo Bispo - Brasil Teatro pela UNIRIO e mestre em Cultura e Territorialidades lise territorial. Educador popular do Ponto de Cultura Quilombo Poeta, ensaísta e dramaturga. Doutora em Letras/Literatura
Mestre quilombola piauiense, intelectual, poeta, escritor e pela UFF. Foi diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do do Sopapo desde 2007, onde também exerce a Coordenação Comparada pela UFMG. Mestre em Artes pela Indiana Universi-
militante de grande expressão no movimento social quilom- Ministério da Cultura entre 2015 e 2016. Atualmente dirige o Geral da Associação. Representante da Rede RS dos Pontos de ty, Estados Unidos. Pós-Doutora em Performances Studies pela
bola e nos movimentos de luta pela terra. É lavrador, formado Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e é autor do livro Cultura na Comissão Nacional. Foi Conselheiro Estadual de Cul- New York University Tisch School of the Arts. Professora apo-
por mestras e mestres de ofícios e morador do quilombo Saco Cultura viva comunitária: políticas culturais no Brasil e na América tura do Rio Grande do Sul e Conselheiro Municipal de Cultura sentada da UFMG. Diretora de Ação Cultural da UFMG (2014-
do Curtume, localizado no município de São João do Piauí. Em Latina (ANF). de Porto Alegre. 2018). Autora de vários livros e ensaios publicados no Brasil e
2017, ministrou o curso de Saberes Tradicionais da UFMG na no exterior. Em 2017, foi homenageada com a criação do Prê-
categoria de Professor Convidado. Ricardo Almeida - Brasil mio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras (BDMG).
Ativista do Movimento Fronteras Culturales, um coletivo de
Paulo Pires do Vale - Portugal TENDA PRAÇA DOS PATINS – ESPAÇOS COMUNS E coletivos que surgiu em 2010 na fronteira Brasil–Uruguai, e Álvaro Restrepo - Colômbia
Curador, ensaísta, professor universitário e comissário do atualmente está presente em vários territórios de integração Bailarino, coreógrafo e pedagogo colombiano, um dos pio-
Plano Nacional das Artes de Portugal, que prevê abranger todo EXPERIÊNCIAS COMPARTILHADAS cultural do Brasil com os demais países da América do Sul. neiros da dança contemporânea na Colômbia e referência de
o universo escolar português no período 2019-2024 O movimento Fronteras Culturales atua com o propósito de dança latino-americana. Seu trabalho já foi visto em mais de 60
MEDIAÇÃO: Letícia Dias Schirm (Diretora de Museus – FMC) construir corredores de integração cultural entre os países, pro- países. Em 1997, fundou, com a bailarina, coreógrafa e pedago-
mover atividades simbólicas de convivência e elaborar políticas ga francesa Marie France Delieuvin, o Colegio del Cuerpo, na ci-
FACILITADORES: públicas para a geração de emprego, trabalho e renda. dade de Cartagena das Índias, na costa caribenha colombiana.

70 Natacha Rena - Brasil 71


Arquiteta e urbanista (1995, EA/ UFMG), mestre (2000, NPGAU-
E n c o n t r o I n t e r n a c i o n a l A r t e , C u lt u r a e D e m o c r a c i a n o S é c u l o X X I
PROGRAMAÇÃO DOS ENCONTROS TEMÁTICOS PROGRAMAÇÃO DO PAINEL DE ENCERRAMENTO
LOCAL: PARQUE MUNICIPAL AMÉRICO RENNÉ GIANNETTI LOCAL: BAIXIO DO VIADUTO SANTA TEREZA
EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS

TENDA LARGO DO TEATRO – EDUCAÇÃO, CULTURA E TENDA PRAÇA DOS PATINS – CULTURA E MEIO MESA: ARTE E POLÍTICA NO SÉCULO XXI Maria Marighella - Brasil
Atriz e gestora cultural feminista. É Assessora Especial do Gabi-
JUVENTUDE AMBIENTE MEDIAÇÃO: Gabriel Portela Saliés (Secretário Municipal Adjun- nete da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Foi diretora
to de Cultura - SMC) de espaços culturais, ex-Coordenadora de Teatro na Fundação
MEDIAÇÃO: Armando Almeida (Assessor – SMC) MEDIAÇÃO: Françoise Jean (Diretora de Patrimônio Cultural – Nacional de Artes (FUNARTE). Bacharel em Interpretação Te-
FMC) EMENTA: Esse painel busca discutir a visão e o papel político atral pela Escola de Teatro da UFBA. Atuou como gestora no
CONVIDADOS: do artista na sociedade. A arte exige do artista um novo olhar Complexo do Teatro XVIII e no Teatro SESC-SENAC Pelourinho.
CONVIDADOS: sobre o mundo contemporâneo, faz dele alguém naturalmen-
Jose Antonio Mac Gregor - México te comprometido com o social. Por meio da arte e da cultura, Helvécio Ratton - Brasil
Antropólogo social, mestre em Desenvolvimento Rural e geren- Marjorie Botelho - Brasil poderemos ampliar as possibilidades do país enfrentar os gran- Cineasta mineiro, estreou na direção filmando no hospício de
te cultural. Recebeu o Prêmio Nacional de Antropologia Social Mestre em educação, pesquisadora de políticas públicas de des desafios e as perspectivas de futuro. Barbacena o documentário Em nome da razão (1980). Desta-
Fray Bernardino de Sahagún (1985) e o Prêmio Nacional de Arte cultura para territórios rurais, integrante da rede nacional de ca-se, como diretor, nos infantis A dança dos bonecos (1986) e
e Cultura Mil Mentes por México (2018). Promoveu a criação pontos de cultura e memórias rurais e gestora do equipamento CONVIDADOS: Menino Maluquinho (1995), na comédia de costumes Amor & Cia.
do Sistema Nacional de Treinamento e Profissionalização de educativo de cultura, museologia social e agroecologia numa (1998), além dos filmes Uma onda no ar (2002), Batismo de san-

programação
Promotores e Gerentes Culturais do México (2001). Atualmente comunidade agrícola. Guto Borges - Brasil gue (2007), o documentário O mineiro e o queijo (2010) e está
é Diretor de Cultura do município de El Marqués, Querétaro, Mestre em História pela UFMG. Como artista, esteve envolvido finalizando Lodo, longa-metragem inspirado na obra do escritor
México. Ailton Krenak - Brasil mais diretamente em diversas dinâmicas culturais em Belo Ho- mineiro Murilo Rubião.
Ativista indígena dos Direitos Humanos, pertence à etnia Kre- rizonte. Foi personagem de referência na retomada do Carna-
José Márcio Barros - Brasil nak. Em 1987, liderou a luta pelos princípios inscritos na Consti- val de rua, atuou junto ao grupo musical Dead Lover’s Twisted Léo Cezário - Brasil
Pesquisador e professor do PPG em Artes da UEMG e do PPG tuição Federal do Brasil, durante a Assembleia Constituinte. Re- Heart no cenário cultural da cidade e nacional. Foi organizador Produtor cultural, MC e skatista. Está à frente da Família de
Cultura e Sociedade da UFBa. Professor do Curso de Cinema da cebeu vários prêmios, entre eles, o Prêmio Internacional para a de um dos primeiros duelos centralizados de passinho de Belo Rua, que atua na cultura Hip Hop e do Skate em Belo Horizonte.
PUC Minas e da Escola de Música da UEMG. Coordenador do América Latina de Direitos Humanos Letelier-Moffitt (Washin- Horizonte. Tem uma coluna semanal na rádio pública local, A FDR realiza o FDR Game of Skate e o Duelo de MCs, que há
Observatório da Diversidade Cultural. Especialista em Políticas, gton), o Prêmio Homem e Sociedade, da Fundação Aristóteles onde divulga culturas não centrais da cidade. Também atua mais de dez anos ocupam o Baixio do Viaduto Santa Tereza e
Gestão e Diversidade Cultural. Onassis (Grécia), o Prêmio Nacional de Direitos Humanos. como professor. são referências locais de ocupação urbana e protagonismo ju-
venil. Realiza o Duelo de MCs Nacional, que conecta todos os
Paulo Vitor Feitosa - Brasil Antônio Nêgo Bispo - Brasil Rui Moreira - Brasil estados, promove engajamento e pensamento crítico para a
Empreendedor social, produtor e gestor cultural. Bacharel em Mestre quilombola piauiense, intelectual, poeta, escritor e mi- Bailarino, coreógrafo e investigador de culturas. Como artista comunidade.
Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, especialista litante de grande expressão no movimento social quilombola bailarino, atuou em importantes elencos nacionais e internacio-
em gestão cultural, mestrando em Ciências da Cultura e Comu- e nos movimentos de luta pela terra. É lavrador, formado por nais. Integra a Associação SERÁQUÊ? Cultural, sediada em Belo Apresentação artística de encerramento: Baile da Saudade
nicação pela universidade Trás-os-Montes e Alto Douro – Portu- mestras e mestres de ofícios e morador do quilombo Saco do Horizonte. É membro do Fórum Nacional de Dança e atuou no
gal. Fundador e diretor da empresa Quitanda das Artes, dedica- Curtume, localizado no município de São João do Piauí. Em processo da Política Nacional das Artes pela Funarte/Ministério
da à inovação social que tem como princípios o fortalecimento 2017, ministrou o curso de Saberes Tradicionais da UFMG na da Cultura nos anos de 2015 e 2016. Foi agraciado com a Meda-
da educação, produção e gestão cultural, por meio do desen- categoria de Professor Convidado. lha da Inconfidência pelo governo do Estado de Minas Gerais.
volvimento de programas e projetos socioculturais, inovação e
sustentabilidade. Dedicou-se à gestão de políticas públicas para Eduardo Moreira - Brasil
a cultura como Secretário Adjunto da Secretaria da Cultura do Fundador e diretor artístico do Grupo Galpão. Dirigiu o espe-
Estado do Ceará (Secult). táculo Um Molière imaginário e fez assistência de direção em
várias outras apresentações do grupo. No Galpão Cine Horto,
Bárbara Bof - Brasil dirigiu os espetáculos Por toda a minha vida e Circo do lixo, além
Atriz e gestora cultural, é Diretora de Promoção dos Direitos de vários outros espetáculos de grupos nacionais, como Clowns
Culturais da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizon- de Shakespeare (Natal-RN); Teatro da cidade e Teatro d’Aldeia
te. Esta Diretoria responde pela gestão dos centros culturais, (São José dos Campos-SP); do Grupontapé (Uberlândia - MG) e,
bibliotecas públicas, o Centro de Referência da Cultura Popular em Belo Horizonte, dos grupos Maria Cutia e Malarrumada.
e Tradicional Lagoa do Nado e a Escola Livre de Artes Arena da
Cultura. Fundadora da Associação No Ato Cultura Educação e Titane - Brasil
Meio Ambiente, entidade do terceiro setor. À frente da No Ato, Cantora e intérprete mineira, possui um repertório de clássicos
foi idealizadora e coordenadora geral do FETO – Festival Estu- da MPB, anônimos, compositores emergentes e das influências
dantil de Teatro que está em sua 19ª edição. do congado mineiro, manifestação artístico-religiosa da popula-
ção de ascendência negra de Minas Gerais. Pertence à geração
que renovou a MPB a partir da década de 1980­-1990; já lançou
6 álbuns-solo, 2 DVDs e um álbum em duo com o pianista Túlio
Mourão.

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E n c o n t r o I n t e r n a c i o n a l A r t e , C u lt u r a e D e m o c r a c i a n o S é c u l o X X I
[…] procuramos pensar
a cultura como esse
espaço múltiplo, plural, de
conhecimento, de diversidade

programação
e de encontro de saberes;
são saberes tradicionais,
saberes plurais e saberes
compartilhados. Claro que nós
produzimos conhecimento,
mas o compartilhamento desse
conhecimento, por meio da
cultura, é imprescindível para
o fazer, para a construção
do conhecimento em uma
universidade de quaisquer
outros espaços.

SANDRA GOULART

Reitora da Universidade Federal de


Minas Gerias – UFMG

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Fotos RICARDO LAF e ANA BEATRIZ M. BAÊTA