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OS FATOS E A INTERPRETAÇÃO

1789-1989:
HISTÓRIAS DA
HISTÓRIA
Como se deu que alguns ideais revolucionários
ressoassem nos tristes trópicos,
mas sobretudo pela vertente, girondina
CARLOS GUILHERME MOTA

Contemporânea. Diversamente de todas as


outras, entretanto, assistiu-se na França à
DA REVOLUÇÃO primeira experiência democrática da His-
tória.
DESCONTÍNUA A Revolução derrubou a aristocracia
que vivia do's privilégios feudais e liquidou a
"Temos de pensar que nem servidão, destruindo a base social que sus-
tudo é compacto na natureza, há vazios, tentava o Estado absolutista encarnado na
lacunas, e que nem figura do monarca Luís XVI. As massas
todo movimento se propaga populares urbanas esfomeadas, a pequena
progressivamente " burguesia radical, os pequenos produtores
Robespierre representa independentes e uma parcela do campesi-
Voltaire (1694 - 1778)
uma fase importante nato ainda imersa na servidão mobilizaram-
da Revolução, A Revolução Francesa constitui um dos se nesse processo em que se pôs abaixo o
e a contradição capítulos decisivos da longa e descontínua
entre o princípio passagem histórica do Feudalismo ao Capi- Carlos Guilherme Mota é historiador,
da igualdade — e das talismo. Com a Revolução do século XVII professor de História Contemporânea da
condições políticas e a Revolução Industrial do século XVIII Universidade de São Paulo e autor, entre
para implantá-la — na Inglaterra, e ainda com a Revolução outros livros, de Nordeste 1817, Ideologia
e as exigências Americana de 1776, a "Grande Révolu- da Cultura Brasileira e A Revolução Fran-
de liberdade tion" lança os fundamentos da História cesa.
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Antigo Regime. Além disso, instalou-se dos direitos do cidadão. Mas ao princípio O juramento dos
uma Assembléia Nacional Constituinte, da igualdade - e das condições políticas constituintes, a 17 de
onde se definiram os primeiros princípios para implantá-la - quase sempre se contra- junho de 1789.
dm nova sociedade, guilhotinou-se o rei (a poriam as exigências de liberdade: Marat Aqui definiram-se
oemplo de Carlos I, da Inglaterra, no sé- ou Brissot? Danton-ou Robespierre? Ba- os primeiros
oiio XVII), instaurou-se a Primeira Repú- beuf ou Sieyès? Chénier ou Désorgues? princípios da nova
bfica e foi abolido o sistema colonial. Voltaire ou Rousseau? sociedade,
Tendo produzido um slogan famoso - A Revolução, derrubando a aristocracia acabou-se com a
"Liberdade, Igualdade, Fraternidade" - e a e o absolutismo da dinastia dos Bourbons, monarquia e
Declaração dos Direitos do Homem, a Re- abre caminho para a Monarquia Constitu- aboliu-se o sistema
cional (1791), seguida da implantação da colonial
•ciução trouxe à luz uma série de persona-
gtns que tipifica concepções clássicas de Primeira Repúbüca (1792 - 1804). A Pri-
Estória, como Luís XVI, Brissot, Danton, meira República assiste aos períodos da
Robespierre, Saint-Just, Marat, Graco Ba- Convenção (1792 - 1795, no qual o rei é
Napoleão e tantos outros, como o guilhotinado em 1793), do Diretório (1795
«febre Marquês de Sade. Nesses densos - 1799) e, após o golpe de Napoleão em
dez anos (1789 - 1799), a história se ace- 1799, do Consulado (1799 - 1802).
kra e traz ao primeiro plano a idéia da legi- Não só as idéias de Reforma e de Revo-
Bnndade e da representatividade do poder, lução dos filósofos da Modernidade (da
c principio da igualdade social - inclusive Ilustração inclusive), mas sobretudo a fome
ãas raças - e a norma da inviolabilidade aguda que grassava nos campos e cidades
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explicam o estouro da Revolução. A estru- violenta luta de classes e de embates entre
tura jurídico-política baseada em Ordens "estamentos pretéritos e classes futuras"
(Clero, Nobreza e Povo) já não dava conta (Marx), apresentaram-se sucessivamente à
dos anseios da burguesia - nela incluída a cena histórica diversas correntes do pensa-
popular pequena burguesia - e da sans- mento social e político, desde as realistas
culotterie. Entre 1789 e 1799, novos canais absolutistas e monarquistas constitucionais,
políticos serão abertos (e alguns fechados às republicanas girondinas e jacobinas, até
depois) para expressar suas aspirações. as comunistas "primitivas" de Babeuf e, fi-
A França desse período será, juntamente nalmente, as "bonapartistas" autoritárias -
com os Estados Unidos, embora ainda es- articuladoras do Golpe de Estado do 18
cravistas independentes desde 1776, um dos Brumário (1799).
centros irradiadores das idéias de democra- Se, observada em seus resultados, a Re-
cia contemporânea. As idéias de Revolução volução deve ser conceituada como
se espraiam pelo mundo, inclusive na burguesa, dela não se pode entretanto dis-
América do Sul. Como se sabe, muitos es- sociar o movimento camponês e popular ur-
tudantes e pesquisadores brasileiros estuda- bano que lhe deu sustentação e, depois, o
Jean-Jacques ram na França nesse período, sobretudo em travou. No caso dos camponeses, dura-
Rousseau e os cidades como Montpellier, Bordéus, Tou- mente atingidos pela crise econômica, a po-
símbolos da louse, Rouen. Nesse período, destruiu-se a breza os assolava, jogando-os na miséria e
Revolução. Dizia sociedade de Ordens do Antigo Regime e aumentando a insegurança nos campos.
ele: "Os frutos criaram-se as condições para o desenvolvi- Sua ira contra os senhores ampliava-se em
são de todos e a mento do capitalismo na França, ao se con- toda a França, com levantes, tumultos e rei-
terra não solidarem os princípios de liberdade de em- vindicações contra os direitos feudais. Com
pertence a ninguém' preendimento e de lucro. Num contexto de intensidade variável conforme a região, o
movimento abala a aristocracia como um
todo. Nessa luta, segundo o historiador Ge-
orges Lefebvre, "o meio mais eficaz consis-
tia no incêndio dos castelos e dos seus ar-
quivos ao mesmo tempo". Assim, a notícia
da tomada por populares da fortaleza da
Bastilha e do Palácio de Versalhes em julho
de 1789 correria de aldeia em aldeia, ge-
rando o "Grande Pânico" que, se trazia te-
mor e insegurança aos senhores feudais, re-
forçava os ânimos da insurreição campo-
nesa. Não foram poucas as vezes, diz ainda
o historiador, que os "senhores recusavam-
se a se desfazer de seus pergaminhos - e
os camponeses incendiavam o castelo e en-
forcavam os seus donos".
A fome e a carestia da vida estavam na
base desses movimentos, e também um
pouco das idéias do grande filósofo do sé-
culo das Luzes, Jean-Jacques Rousseau
(1712 - 1778), para quem "os frutos são de
todos e a terra não pertence a ninguém".

OS MARCOS
DO PROCESSO
"Obedecer às leis, isso não é
claro ..."
Saint-Just (1767 - 1794)

A crise do Antigo Regime e a eclosão da


Revolução deveram-se em larga medida à
conjugação de uma série de fatores como
miséria, fome, desemprego, carestia, novas
concepções de sociedade, de cultura e de
política e um significativo aumento popula-
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ckmal - além das más colheitas de 1788, o obra maior da Assembléia Nacional Cons- Prisioneiro
que elevou brutalmente o preço do pão em tituinte, define a monarquia constitucional. da Assembléia, o rei
julho de 1789. A nobreza reage à crise, en- Mas a guerra com a Prússia, a agitação po- tenta a fuga com
saiando reformas e provocando uma série pular que atemoriza os deputados da As- sua família.
de conflitos que desembocam na convoca- sembléia e a fracassada tentativa de fuga de Em Varennes eles são
ção dos Estados Gerais (1788) e, estes, na Luís XVI agravam a situação, levando o re- detidos, a 21 de
Revolução. gime ao colapso (21 de setembro de 1792). junho de 1791
As más colheitas geraram a crise de ali-
mentos, cuja falta era logo sentida nas me-
sas dos sans-culottes e das classes popula-
res. O Terceiro Estado opõe-se à Coroa e Cem. 1792, a Con-
proclama a Assembléia Nacional. Esta, venção (1792 - 1795) estabelece a Re-
o? m o apoio de parte dos representantes do pública, num grave quadro de guerra ex-
dero e de deputados reformistas da no- terna. O movimento divide-se política e
breza, passa a Assembléia Nacional ideologicamente entre Girondinos (liberais
Constituinte (9 de julho de 1789). A Basti- mais ligados às províncias e preocupados
lha, prisão do Estado, é tomada a 14 de ju- com o grande comércio e com a guerra) e
lho de 1789. A 4 de agosto, a Constituinte, Montanheses (representantes da pequena
assustada, abole os privilégios feudais e, a burguesia, apoiados pelos sans-culottes de
26 de agosto, aprova a Declaração dos Paris, e querendo prosseguir na guerra ex-
Direitos do Homem e do Cidadão. A revo- terna e na revolução interna). Luís XVI é
lução popular ganha as ruas (julho a outu- guilhotinado a 21 de janeiro de 1793.
bro); o "Grande Pânico" se dissemina pela Instaura-se o "despotismo da liberdade": os
França. A 5 de outubro, o rei Luís XVI é Jacobinos dominam a Convenção.
: brigado a voltar de Versalhes para Paris, De junho de 1793 a julho de 1794, a Re-
sob pressão popular: tornara-se, em ver- volução se aprofunda, liderada por Robes-
dade, um prisioneiro da Assembléia. pierre e pelos Montanheses Jacobinos,
No período de monarquia constitucional dirigindo-se ao mesmo tempo contra a in-
(1791 - 1792), o regime divide-se entre os vasão estrangeira e os levantes contra-
roonarquistas (que preservam o poder do revolucionários. É o Grande Terror. Com o
rei, independente) e a maioria dos represen- fim da guerra, entretanto, e perdendo apoio
tantes à Constituinte, que defendem o papel popular, Robespierre, Saint-Just e compa-
dos cidadãos na fiscalização e controle do nheiros são guilhotinados, a 28 de julho (10
governo. A Constituição liberal de 1791, Termidor): é a Reação Termidoriana que
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vence na Convenção.
No Diretório (1795 - 1799), a França
torna-se "um País governado por proprie-
tários". A Constituição do ano III, que de-
DE HISTORIOGRAFIA.
fine a democracia burguesa, representou o
meio-termo do processo revolucionário.
E DE HISTÓRIA
Contidas as forças estrangeiras (Prússia,
Holanda e Espanha), o exército - que aba- "La Révolution Française? Çà n'existe
fou o perigo de uma reação dos realistas - pás", pontificou o historiador Fernand
passará a ocupar o papel desempenhado Braudel ao jovem professor Albert Marius
pelos Montanheses Jacobinos e sans- Soboul no fim dos anos 40, que o procurara
culottes, iniciando a montagem da Grande em busca de alguma orientação para seus
Nação com a criação de "repúblicas-ir- estudos sobre a Grande Revolução. Claro,
Albert Soboul mãs" em torno da França. Braudel, o discípulo de Lucien Febvre e já
desenvolveu uma tese um dos mentores do grupo dosAnnales, su-
notável sobre os geria sarcasticamente ao entusiasta dos tra-
sans-culottes de balhos do velho "père" George Lefebvre -
Paris. Acusado de JILm 1796, o clube o discípulo do socialista Jean Jaurès que es-
marxista, declara-se igualitarista do Panteão é fechado em Paris crevera para a coleção Peuples et
apenas historiador por Bonaparte e fracassa a Conjuração dos Civilisations dois fulgurantes e alentados
revolucionário Iguais, de Graco Babeuf, última tentativa volumes sobre La Révolution Française e
"clássico" revolucionária da República. No ano se- Napoléon - a necessidade de se romper
guinte, Napoleão vence os austríacos na com a tradição daquilo que imaginava
Itália. Nesse período cresce seu prestígio, tratar-se de uma medíocre história évé-
enquanto os republicanos moderados criam nementièlle.
o "Círculo Constitucional", reunindo Não se descarte na apreciação contida
Sieyès, Talleyrand, Benjamin Constant, nessa tirada braudeliana a surda disputa en-
Marie-Joseph Chénier, o general Jourdan, tre duas escolas: a liberal avançada e polifa-
Madame de Staèl... Em 1798, a burguesia cetada da Rue de Varennes (a ex-VIe. Séc-
moderada enfrenta ainda uma vitória eleito- tion de 1'École Pratique dês Hautes Études,
ral dos Jacobinos. E, em 1799, a Assem- sede também dos Annales) e a marxizante e
bléia é dissolvida e o Diretório substituído republicanista neojacobina centrada na
por três cônsules provisórios: Napoleão, Sorbonne - onde desde 1891 instalara-se a
Sieyès e Ducos. É o golpe de 18 Brumário, cátedra de História da Revolução Fran-
que dá início ao Consulado. "A Revolução cesa, sob a regência do professor Alphonse
acabou", pontuam os cônsules. Pouco Aulard, depois a Société d'Études Robes-
tempo depois, em 1804, a primeira Repú- pierristes criada por Mathiez, responsável
blica chega ao fim. pelos clássicos Annales Historiques de Ia
i,,,/

Absolvido pelo
Tribunal
Revolucionário, Marat
é carregado em
triunfo pela
multidão

. 74
dia da Tomada da Bastilha, mas também o
dia que o preço do pão esteve mais alto na
França durante todo o século XVIII...
Labrousse, particularmente, dada sua as-
cendência intelectual, percebia que seus co-
legas sucessores de Jaurès (autor de uma
notável e volumosa História Socialista da
Revolução Francesa), Mathiez e Lefebvre
sabiam pensar e manejar estruturas
históricas.
Soboul, militante do Partido Comunista
Francês, orphelin de Ia Nation e de tradição
camponesa de Nimes, desenvolveu sua tra-
jetória intelectual fora dos Annales de Brau-
del. Mas no fim dos anos 50 surge com sua
tese notável Lês- Sans-culottes Parisiens à
l'An II (Paris, Clavreuil, 1962), revelando
as características da organização e das for-
mas de pensamento do mundo do trabalho
em Paris no momento mais crítico da Revo-
lução. Tese profundamente heterodoxa se
A cidadã camponesa do fim do séc. XVIII consideradas as limitações do pensamento
"marxista" da década de 40/50, mas genui-
Révolution Française e finalmente o Institut namente marxista pela metodologia empre-
d'Histoire de Ia Révolution Française, gada. Não se trata aqui de arrolar sua cons-
criado em 1937 por Lefebvre... tante e densa produção - sobre o ano I; so-
Em verdade, trata-se de duas vertentes bre Saint-Just, Robespierre, Danton, Cou-
ou famílias de pensamento: a dos Annales thon; sobre os soldados do ano II; sobre a
(Economies, Sociétés, Civilisations), de Primeira República; nem seu trabalho de
Marc Bloch, Lucien Febvre, e depois Brau- edição de documentos, ou elaboração de
del, e a dos Annales Historiques de Ia Révo- manuais de haute vulgarisation - mas de
lution Française, de Albert Mathiez (1914 indicar ao leitor brasileiro a existência, em
- 1932), G. Lefebvre (1874 - 1959), Albert língua portuguesa, de três livros de Soboul:
Soboul (1914 - 1982), e atualmente dirigida História da Revolução Francesa (2? ed.,
por Michel Vovelle. A esta segunda Rio de Janeiro, Zahar, 1974), A Revolução
"família" pertence Jacques Godechot, o au- Francesa (3? ed., São Paulo, Difel, 1979) e
tor de La Grande Nation, discípulo de Ma- Camponeses, Sans-Culottes, Jacobinos
Marx enxergou
thiez. (Lisboa, Seara Nova, 1974), além de arti- os embates
gos referenciais, entre os quais Descrição e entre "estamentos
Medida em História Social, publicado na pretéritos e
L'Information Historique (1966) e tradu- classes futuras"
Luitas águas passa- zido na Revista de História (USP, 1968, n?
ram sob as pontes do Sena, do Garonne, do 75) - um acerto de contas com o marxismo
Ródano - mas o fato é que a resposta de- e com os Annales. Na apreciação de Gode-
sencorajadora de Braudel a Soboul conti- chot, Soboul "bien que marxiste depuis sã
nha um recado à (suposta) história factual prime jeunesse, protestait avec véhémence
ou mecanicista por vezes cultivada seja pe- lorsqu'on lê tratait d'historien marxiste. II se
la tradição comemorativista-republicanista, proclamait fidèle à l'historiographie révolu-
seja pela marxista dogmática. O autor do tionnaire 'classique'." (J) (em L'Histoire de
La Médüerranée sugeria - sem a suavidade Ia Révolution Française), "clássica", ou
de seu mestre Febvre - a necessidade de se seja, a linhagem de Michelet, Jaurès, Mat-
atentar para a respiração das estruturas so- hiez, Lefebvre .. .
ciais, econômicas e civilizacionais na Na obra de Jacques Godechot, por sua
longue durée - informado que estava das vez, o leitor poderá encontrar um manancial
pesquisas de seu colega Eraest Labrousse, riquíssimo de informações atualizadas: em
também um discreto socialista ("eu apenas português, ressaltam seus volumes As Revo-
quantifico o que Marx descobriu...", bla- luções e Europa e América no Tempo de
gueava). Recorrendo a sofisticadas técnicas Napoleão, contendo o estado atual das
de quantificação, propunha ele uma nova e questões, linhas de pesquisa e fontes a res-
desmistificadora periodização para a his-
(1) "ainda que marxista desde sua primeira juven-
tória da França nos séculos XVIII e parte tude, protestou com veemência sobre a obra do histo-
do XIX. Afinal, Labrousse-Braudel já sa- riador marxista. Ele se proclamou Jiel à historiogra-
biam que o 14 de julho não fora apenas o fia revolucionária clássica'."

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peito dos principais temas revolucionários é um dos diretores, onde escreve regular-
(e contra-revolucionários) do período de mente, e na Révue Historique (Paris), que
1788 a 1815. Em sua extensa e variada publica a cada três ou quatro anos um
obra, cobrindo desde a história do Atlân- substancioso Bulletin Bibliographique; a
tico, a articulação das "repúblicas-irmãs", a partir de 1955 e durante muitos anos Jac-
revolução colonial até as petites histoires de ques Godechot foi seu redator. Em se-
espionagem, destaque-se uma importante gundo, publicou-se em português seu ba-
coletânea de escritos vários de sua autoria lanço As Grandes Correntes da Historio-
(Regards sur 1'Époque Révolutionnaire, grafia da Revolução Francesa de 1789 aos
Toulouse, Privat, 1980) que seus ex- Nossos Dias (Revista de História, USP, n?
estudantes editaram, contendo estudos so- 80, 1970). E, finalmente, um extenso, atua-
bre a França revolucionária e sobre a revo- lizado e polêmico estudo historiográfico,
lução fora da França (inclusive sobre Por- L'Histoire de Ia Révolution Française (em
tugal e a Revolução, sobre as instituições Historiens e Géographes, Paris, Buisson,
napoleônicas exportadas e sobre Robes- fev.-março 1984, págs. 711-759) - em que
pierre e a América). E para consulta siste- indica os atuais centros de pesquisa, institu-
mática, um preciso e atualizado instru- tos, comissões, museus; as grandes corren-
mento de trabalho: La Révolution Fran- tes de interpretação; os manuais e guias, as
çaise, Chronologie Commentée 1787 - grandes sínteses; os estudos parciais sobre
1799 (Paris, Perrin, 1988), contendo minu- relações internacionais, vida política e insti-
ciosa periodização e um instigante pequeno tucional, social, das idéias e mentalidades,
dicionário biográfico dos personagens cita- militar etc.; e biografias. Nesse estudo, Go-
dos, cerca de 400. dechot apresenta, ao discutir as grandes
A análise historiográfica - sabem os his- sínteses, sua perspectiva crítica: "As gran-
toriadores profissionais - constitui o mais des sínteses, publicadas nos últimos doze
difícil campo do conhecimento. "Que é um anos, em verdade não trazem fatos novos.
problema histórico? É a história do pro- Elas se destacam essencialmente pelas di-
blema", dizia sempre Lucien Febvre. Além versas interpretações que dão à Revolu-
disso, a crítica historiográfica pressupõe a ção." E, de Soboul a Chaunu, a Cobban e
crítica ideológica, a demorada reflexão so- Furet-Richet, e a Hampson, Mazauric e Ré-
bre as "fontes", a experiência interdiscipli- gine Robin, Godechot alinha restrições ou
nar, certos cuidados com os usos da His- qualidades - fazendo notar todavia que foi
tória. nos estudos monográficos que surgiram
O historiador da Grande Nation, dentro inovações. Nesse balanço, refere-se mais di-
de uma tradição que remonta (termo fran- retamente à obra de François Furet e Denis
cês...) à linhagem jacobina, enfrentou em Richet (La Révolution Française, Paris,
várias épocas de sua vida a tarefa de ofere- Hachette, 1965), interpertação "revisio-
cer o état actuel das pesquisas e discussões. nista", segundo pensa. Negando a luta de
Em primeiro lugar, nos Annales Histori- classes, para eles a Revolução teria sido ar-
ques de Ia Révolution Française, dos quais ticulada por uma elite intelectual saída das
Achille Occhetto,
secretário do
Partido Comunista
Italiano, proclama:
"Somos filhos da
Revolução Francesa."
Mas os revolucionários,
diz ele, eram
herdeiros do
despotismo

76
-
A polêmica
sobre o<"fím" da
Revolução
também passa
pelo cinema de hoje.
Por exemplo,
pelo Danton de
Wajda

"luzes" e formada de burgueses e privilegia- para quem as palavras recentes do dirigente


dos: soviético Mikhail Gorbachev na ONU me-
"Ensuite elle a 'derapé' entrainée par lês recem meditação:
revendications desordonnées de Ia paysan- "É ingênuo cogitar de resolver os pro-
nerie, puis de Ia plebe dês villes; elle est re- blemas de hoje com os métodos do passado.
venue à sés objectifs primitifs avec Ia 'stabi- As duas revoluções, a de 1789 e a de 1917,
lisation révolutionnaire' de 1800" (2), sinte- mudaram o curso dos eventos humanos com
tiza o autor de La Grande Nalion. o seu excepcional impacto. Mas quem se
Na apreciação crítica de Godechot, esse inspira apenas numa ou na outra não dis-
tipo de interpretação pode levar a conside- põe de soluções para o dia de hoje, porque
rar que o Terror não se deveu às circuns- as duas não estão mais em condições de
tancias históricas, e que toda revolução im- exaurir as problemáticas do presente." (En-
plica Terror. Assim foi na URSS, assim na trevista a Istoé Senhor, ri> 1014, 22.2.89).
França..., e as sociedades dos Jacobinos Mas Occhetto repropõe corretamente
prefiguram o partido único, o partido co- essa discussão: somos, com efeito, herdei-
munista... Retomando a velha interpretação ros da Revolução Francesa. Herdeiros dos
de Augustin Cochin, o autor, entre outras, direitos que ela proclamou, filhos da pri-
de Lês Sociétés de Pensée et Ia Democratie meira experiência democrática. Mas os re-
(Paris, 1921), Furet-Richet aderem "às volucionários, eles sim, eram herdeiros do
alas dos historiadores mais hostis à Revolu- despotismo.
ção". Os argumentos de Furet podem ser
encontrados em sua instigante coletânea de
ensaios Penser Ia Révolution Française
(Paris, Gallimard, 1978). A REVOLUÇÃO
A polêmica sobre o "fim" da Revolução
continua acesa, por vezes áspera, nas pági- E A QUESTÃO
nas dos Annales Historiques de Ia Révolu-
tion Française, ou em torno de discussões
COLONIAL
de filmes como Danton de Wajda, La Nuit
de Varennes (Casanova e a Revolução) de " . . . o melhor era esperar
Ettore Scola e Marat/Sade de Peter Weiss/ que viessem os Francezes, os quais
Brook. Ou ainda na agressão brutal a artis- andavão nessa mesma
tas por parte de jovens skinheads - os no- diligencia pela Europa, e logo cá chegarão"
vos muscadinsl - durante manifestações Cipriano Barata (Salvador, 1798)
teatrais, num bairro de Paris, já neste ano
do Bicentenário. Prova eloqüente de que a O colapso do Antigo Regime provocou
Revolução está viva. rupturas ou, quando menos, abalos nos sis-
"Somos filhos da Revolução Francesa", temas coloniais.
proclama por sua vez o secretário do Par- A independência das ex-colônias inglesas
tido Comunista Italiano, Achille Occhetto, em 1776 e o ato revolucionário da'Conven-
ção em 1794, acabando com a escravidão
(2) "Em seguida, ela 'derrapou' arrastada pelas rei-
vindicações desordenadas da plebe das cidades; ela
sem indenização nas colônias (São Domin-
\-olta aos seus objetivos com a 'estabilização revolu- gos e Guadalupe), abriram uma nova pers-
cionária' de 1800" pectiva para as regiões de colonização.
77
Recife, na tela de
Franz Pôst. Aqui,
depois da Conjuração
dos Alfaiates (1798),
houve quem
esperasse pelo
desembarque dos
f>ranceses

Com efeito, as revoluções dos Estados Uni- a América do Sul durante todo o século
dos e da França polarizaram os corações e XIX, seja o mundo oficial local, seja o co-
mentes não só das elites nativas coloniais, mando da South American Station, que
mas também do mundo do trabalho. A am- controlava e administrava o império infor-
bigüidade da presença francesa será entre- mal da Inglaterra.
tanto uma constante, sobretudo após Bona- No fim do século XVIII, idéias de revo-
parte restabelecer a escravidão nas Antilhas lução circulavam pelo Atlântico, assistindo-
em 1802. A morte de Toussaint- se a um verdadeiro vendaval bibliográfico.
Louverture, preso em Paris, dá origem ao Os movimentos de independência em gesta-
maior dos mitos revolucionários do período ção tiveram seus agentes em revolucio-
colonial. O medo do haitianismo - o perigo nários como Francisco de Miranda, que lu-
do levante em massa de escravos - marcará tou nas tropas girondinas (sendo inclusive
culpado da derrota na batalha de Neerwin-
den), José de San Martin ou em personali-
dades como José Joaquim da Maia, o estu-
dante que se encontrou com Jefferson em
Nimes para pedir apoio dos Estados Uni-
dos para a revolução de Minas em 1789
("Inconfidência"). Também as tropas de
Napoleão eram esperadas (em vão...) em
Salvador nos fins do século XVIII, para
ajudar na libertação, por Cipriano Barata,
um dos grandes revolucionários da História
do Brasil: preso na Conjuração dos Alfaia-
tes (1798), terá atuação avançada no pro-
cesso de independência. Com efeito, nos
principais portos brasileiros os franceses
eram aguardados: Rio de Janeiro, Bahia,
Recife...
Deixando de lado certas participações
concretas de brasileiros que viveram na
França nesse período, como o padre Ar-
José de San Martin, ruda Câmara (um dos inspiradores da Re-
grande volução de 1817 e 1824 em Pernambuco),
personagem da José Bonifácio (por curto tempo, em 1790 e
independência 91 em Paris, aluno em química e minerafo-
argentina gia de Fourcroy, Duhamel, Jussieu e Sage -
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este, adversário de Lavoisier e de Chaptal) padre Arruda Câmara - não só militares
ou como o baiano mulato e filho de carpin- bonapartistas desembarcados dos Estados
teiro Caetano Lopes de Moura (o "brasi- Unidos chegam (tardiamente) para ajudar a
.eiro soldado de Napoleão", médico e autor Revolução e resgatar Napoleão em Santa
de uma biografia do corso), importa notar Helena para um novo retorno à Europa.
as relações intensas entre o processo revo- Também um comerciante bretão, o conser-
lucionário na França e a fermentação po- vador Tollenare exclama aliviado, em seu
lítico-ideológica nas várias partes do Brasil. diário, após a repressão ao movimento:
As idéias de Revolução e de Reforma "Mais um pouco mais de tempo e tería-
vêm sendo estudadas com rigor, podendo- mos revisto os sans-culottes."
se ultrapassar a história noive das "influên- As novas idéias penetram, em níveis
cias" e dos "reflexos". No imaginário da mais profundos do sistema - aguardando
França, a presença do Brasil sempre foi no- novas pesquisas. Um só exemplo: o advo-
íável, desde a famosa Fête brésilienne com gado dos revolucionários nordestinos de
a presença de indígenas em Rouen no sé- 1817 presos, Aragão de Vasconcelos, leitor
culo XVI, que tanto repercutiu na literatura de Brissot de Warville (que citava impetuo-
e na filosofia de Montaigne a Rousseau. Se samente, apesar de ser autor proibido), em
figuras da revolução pensaram e menciona- seus argumentos mais fortes para justificar
ram o Brasil no período colonial - como a insurreição e libertar os revolucionários, A morte de
Raynal e Rèstif de Ia Bretonne - em contra- utiliza-se de Rousseau, sem citá-lo embora: Toussaint-Louverture,
partida Rousseau, Mably, Montesquieu, "Nas revoltas a marcha ordinária nada preso em Paris,
Voltaire, Brissot, Raynal, Volney e mesmo aproveita, é antes nociva, as leis ficam sem criou um dos maiores
Boissy d'Anglas, entre tantos outros, eram vigor e os princípios que até então serviam mitos revolucionários
muito lidos aqui. Às vezes por brancos ad- de norma são mui mesquinhos para nos do período colonial:
vogados rebeldes, às vezes por artesãos mu- aferrarmos a eles,como âncoras de salvação, o medo do
latos e pobres. Se, em Minas de 1789, a re- o homem volta como ao natural estado ..." "haitianismo"
volução almejada era a dos proprietários
contra a colonização, em Salvador de 1798
era contra os proprietários.

'entre as leituras de
pensadores franceses, estudos recentes vêm
destacando a importância das idéias de
Raynal na gestação do pensamento revolu-
cionário no mundo colonial. Toussaint
Bréda, o futuro Toussaint-Louverture, des-
pontou nas páginas de Raynal-Diderot,
como bem analisou o historiador Fernando
A. Novais, em estudo prodigioso sobre a
crise do Antigo Sistema Colonial portu-
guês, em que revela quais leituras eram fei-
tas desses autores no universo colonial.
Em qualquer hipótese, na história do
pensamento revolucionário no fim do sé-
culo XVIII e começo do XIX ressalta a in-
tensa circulação de idéias de reforma e re-
volução, das metrópoles para as colônias, e
vice-versa, com refrações e matizes
específicos. No Brasil, de 1777 a 1824,
idéias de revolução, por vezes misturadas a
um reformismo ilustrado, ajudaram a plas-
mar a nova ordem - vencendo as propostas
que conciliassem a revolução com a escra-
vidão. Nada obstante, as "idéias france-
sas", o "perigo francês", o "jacobinismo", a
"francezia" sempre amedrontavam as for-
ças da contra-revolução.
E a presença francesa pode ser notada de
outras formas. Na primeira revolução bra-
sileira, no Nordeste em 1817, em que se
iniciou o jovem frei Caneca - discípulo do
79
petem, aqui e acolá, com novas roupagens e
outros disfarces. E freqüentemente muitas
AS REVOLUÇÕES farsas.
Nesse processo, houve várias revoluções
DA REVOLUÇÃO dentro da Revolução. Mas a melhor síntese
talvez tenha sido a do próprio revolucio-
nário Marat. Ao denunciar a traição ao
" . . . esta não era uma época a ser medida povo pelos "conspiradores educados e sutis
pelos critérios humanos cotidianos." da classe superior", que a princípio se opu-
Eric J. Hobsbawm seram aos déspotas e se insinuaram na con-
fiança popular, voltando-se depois contra
" . . . nesse emaranhado de raízes está o "os de baixo", escreveu:
cerne das resistências que hoje temos de "O que as classes superiores ocultam
vencer se não queremos apenas sobreviver constantemente é o fato de que a Revolução
como museus de r&folutas eras." acabou beneficiando somente os donos de
Vitorino Magalhães Godinho,(1970) terra, os advogados e os chicaneiros."
Nesta breve história, ressaltam as ocor-
Nesse longo percurso de apenas dez anos rências de dois momentos de ruptura na
(1789-1799), toda uma lição de História se História moderna da França: a Revolução
apresenta, tornando clássico o exemplo re- de 1789 e a Revolução de 1793. Revoluções
volucionário da França. A crise do Antigo que anunciam - e demarcam - as duas ver-
Regime; as reformas e a reação feudal; a tentes dominantes da então inaugurada
aliança (e depois o confronto e, mais tarde, História Contemporânea. Na primeira, a
a conciliação) entre burguesia e nobreza; o derrubada do Antigo Regime, a abolição
assalto à Bastilha e a abolição da servidão; das feudalidades, a construção da cidada-
o confronto entre monarquistas e republica- nia; na segunda, a emergência dos movi-
nos e, depois, entre a República burguesa e mentos populares e a primeira participação
a democracia popular; o embate do go- popular no governo da rés publica, ao lado
verno revolucionário com a ditadura jaco- da burguesia jacobina radical. O movi-
bina; a disputa entre igualitaristas radicais e mento popular, destruído depois dessa pri-
representantes da revolução burguesa; e, fi- meira experiência do ano II, somente vol-
nalmente, o golpe de Napoleão Bonaparte e tará a se mobilizar na França nas revolu-
Sieyès em 1799 completam, etapa por ções de 1830, 1848 e 1871. Mas, para além
etapa, um processo histórico que deixará desses dois momentos - 1789 e 1793 - de
marcas profundas no pensamento contem- ruptura, vislumbram-se outros traços que
porâneo. Processo que oferece ao leitor a permitem falar num movimento mais geral
rica, densa amostragem de posições - de - a Revolução Francesa, processo decisivo
estilos de pensamento, abarcando visão de da transição nem sempre contínua e com-
história, de política, de arte, de filosofia, de pleta do Feudalismo ao Capitalismo
literatura - e de situações que se tornaram (Dobb).
emblemáticas. E que, por esse motivo, se re- No contexto violento de reforma institu-

Reunião jacobina
em janeiro de 1792,
segundo uma gravura
satírica. Entre 1793
e 1794, os Jacobinos
apelaram para o
movimento popular,
mas seu poder
foi efêmero
80
O último
retrato
de Luís XVI,
no desenho
de Joseph
Divreux

ff

ciunal unificadora e racionalizadora do Es- e uma concepção industrial ainda em suas


tado monárquico, instaurou-se uma seqüên- primícias: dele não brotariam movimentos
cia de lutas de classes que levou à revolução que denunciassem vigorosa e homogênea
burguesa. Revolução que possuía uma ló- consciência de classe que confrontasse e ul-
gica muito própria: deslocados os monar- trapassasse o universo da "burguesia con-
quistas do poder, a burguesia dos negócios quistadora".
assume o comando do processo na Conven- Nessa perspectiva, a burguesia era a
ção Girondina, sendo logo ultrapassada pe- única classe revolucionária defacto no sé-
los Jacobinos que, para se sustentarem no culo XVIII, como precisou Marx no
puder e vencerem a guerra externa, apelam Manifesto mais de meio século após a Re-
ao movimento popular em 1793/1794, mo- volução. Não há que se pensar, portanto,
vimento logo cortado pela Reação Termi- em "derrapagem".
doriana. A breve experiência dessa Nada obstante, o avanço da Revolução
Segunda Revolução foi desativada por no plano social foi significativo, sobretudo no
meio de sucessivos golpes e manobras que período da Convenção - e apesar de muito
levaram a Revolução ao seu fim e à monta- atenuado no Diretório. Ao se destruir a so-
gem férrea da ordem burguesa. Em qual- ciedade de Ordens e se pôr abaixo a aristo-
quer hipótese, o mundo do trabalho - a cracia que vivia dos privilégios feudais,
sans-culotterie sobretudo - estava na eliminou-se a base social que sustentava o
França pulverizado entre uma concepção Estado absolutista encarnado na figura de
de produção e de vida artesanal em declínio Luís XVI. Ponto mais fundo da Revolução,
81
a República da Convenção jacobina do ano
II mobilizou - no limite de seus interesses,
de suas possibilidades históricas e de suas
contradições - as massas populares urba-
nas esfomeadas, a pequena burguesia radi-
cal, os pequenos produtores independentes
e, sobretudo, os camponeses ainda imersos
na servidão.
Em seu transcurso, ocorreram episódios
que tornaram clássico o "modelo" revolu-
cionário da França, dada uma certa se-
qüência de "etapas" que penetrariam fundo
na imaginação histórica contemporânea: as
tentativas de reforma do Antigo Regime; a
Babeuf e reação aristocrática, a mobilização da(s)
seus igualitaristas burguesia(s) e a convocação de uma Cons-
radicais foram tituinte; a Tomada da Bastilha, o aprisiona-
esmagados mento do rei absolutista e a implantação de
pela reação burguesa. uma monarquia constitucional; a abolição
Perdeu a cabeça da servidão feudal e a proclamação da Re-
na guilhotina, pública. Já na República, o confronto entre
em 1797 a burguesia republicana e os ensaios e natu-
rais exigências da democracia popular con-
duzindo à associação e, depois, ao desa-
certo entre o governo revolucionário e a di-
tadura republicana jacobina; com a radica-
lização das posições, assiste-se à reação da
burguesia revolucionária conservadora (ter-
midoriana) que, estabilizando a revolução,
esmaga, no Diretório, os igualitaristas radi-
cais de Babeuf e os jacobinos ressurgentes.
No fim do percurso, o golpe militar do
18 Brumário (1799), um novo "pacto so-
ciar" (sic) cimentando o regime dos "notá-
veis": a aristocracia se recompõe com a
burguesia revolucionária sob o manto con-
sular e depois imperial de Bonaparte.

derar a intensíssima circulação de pessoas,

A Liem de profunda, a
Revolução foi extensa. Consolidando-se, a
mercadorias, livros, armas e idéias pelo
Atlântico - sobretudo quando essas pessoas
se chamam Tom Paine, padre Arruda Câ-
revolução burguesa foi sendo exportada mara, Francisco de Miranda, Thomas Jef-
para outros países, sobretudo no período ferson, San Martin, Toussaint-Louverture e
napoleônico. Mas em qualquer hipótese, Napoleão? Ou mesmo José Bonifácio, o in-
como se viu, torna-se impossível explicar a contido "patriarca" da Independência do
Revolução sem se considerar a dialética en- Brasil - que em 1790-91 esteve estudando
tre a guerra interna e externa. Quase toda a com Fourcroy em Paris, cidade em que dei-
Europa e as Américas - o Brasil inclusive - xou uma filha, Elisa, com madame Delau-
sofreram suas repercussões e, em contra- nay . . .?
partida, a alimentaram; e também em larga A Revolução foi extensa também no
medida, a Ásia e a África. tempo, pois um dos dilemas centrais da Re-
Jacques Godechot, estudioso da Grande pública do Diretório permaneceu irreso-
Nation, chegou a formular a idéia de uma luto para a classe média francesa, segundo
Revolução Atlântica - para frisar o caráter o diagnóstico do historiador Hobsbawm em
ocidental e burguês do processo, tanto mais A Era das Revoluções: como compatibilizar
profundo quanto mais próximo das regiões estabilidade política com avanço econô-
ribeirinhas desse oceano. Tal fórmula entre- mico adotando-se o programa liberal de
tanto recebeu críticas daqueles que, como 1789-91? Ou seja, como evitar "ao mesmo
seu amigo Soboul, julgaram esse conceito tempo" o duplo perigo da república demo-
demasiado abrangente, esvaziando a especi- crática jacobina e do retorno do Antigo Re-
ficidade dos movimentos nacionais e sociais gime? As experiências sucessivas e alterna-
de cada região. Mas como deixar de consi- das do Diretório (1795-99), Consulado
82
Boissy d'Anglas
é saudado pela plebe
que carrega a cabeça
decepada de seu
inimigo Feraud,
a 20 de maio de 1795.
Porta-voz da direita
no Diretório, Boissy
foi autor muito
lido no Brasil em fins
do séc. XVIII

^1804), Império (1804-14), a Res- equivalentes semânticos quando falamos


;ão com a monarquia Bourbon (1815- nas "repercussões" da Revolução: eco, res-
i volta da Monarquia Constitucional sonância, influência, difusão, recepção, im-
-48), a República (1848-51) e o Im- pacto, reações, legado, herança . . . E ad-
(1851-70) levam o historiador inglês a verte: tal lista de palavras não é evocada
r que a solução só foi descoberta, a por simples curiosidade, "mas pelos matizes
de 1870, com a república parlamen- que sugerem na própria maneira de abordar
>mo "uma fórmula exeqüível para a o problema".
parte do tempo . . ." Assim, a circulação das idéias da Revo-
:ensa no tempo e no espaço, como lução deve ser cuidadosamente analisada
numa conferência recente o historia- conforme a época, o contexto social e a
Vovelle, comentando um teste preciso conjuntura política - tanto dos emissores ,*-* i
por Godechot para se avaliar o revolucionários quanto dos receptores. Pois
aento e a difusão da Declaração o estudioso da revolução no Brasil poderá
Direitos do Homem nos diferentes ficar surpreso ao observar que, na Conjura-
i: como repercutiu, qual o tempo, as ção dos baianos de 1798, os rebeldes liam
de recepção, as reações, os obs- não só Rousseau, mas também o conserva-
a tradição jornalística em cada re- dor Boissy d'Anglas - um dos redatores da
' etc. Nessa mesma comunicação ao Sé- Constituição do ano III, porta-voz da di-
Congresso Internacional das Luzes reita no Diretório e futuro liberal... Ou
1987) sobre "A Revolução seja, o que é conservador na metrópole
e seu Eco", Vovelle chamava a pode ser revolucionário nas colônias,'e vice-
para a problemática das "ima- versa, conforme a vez e a hora. Afinal, em
--- Revolução e pela enorme quanti- 1817, a revolução no Nordeste brasileiro,
e riqueza de "leituras" possíveis nos que teve um cronista magnífico em Henry
Koster, o nosso Henrique da Costa, consti- banco nacionais; uma sólida rede de insti-
tuiu - pela bibliografia e pela ação - uma tuições públicas de ensino, de cultura e de
das pontas mais avançadas de seu tempo. estímulo à pesquisa em que se destacaram
Concluindo, houve várias revoluções den- (inclusive na guerra civil, ao lado dos sans-
tro da "Grande Révolution", que ainda re- culottes e, depois, com Napoleão) matemá-
percutem cada uma a seu modo e tempo ticos, físicos, químicos, historiógrafos, es-
despertando nossa contemporaneidade. E critores e pintores como Monge, Lagrange,
desdobramentos que permitiriam repensar Berthollet, Champolion (o decifrador dos
as revoluções francesas numa seqüência de hieróglifos na trágica e curiosa expedição
mais longa duração: 1789, 1830, 1848 - de Napoleão ao Egito) e David. E, para
como o fez Ernest Labrousse em seu estudo além de suas próprias deliberações revolu-
notável sobre as flutuações econômicas e a cionárias, a Convenção Nacional - o mo-
história social, demonstrando "como nas- mento mais alto da Revolução, no período
cem as revoluções" desse período. Ou na da Convenção Jacobina - adota, revela e
O historiador inglês seqüência 1789, 1793, 1830, 1848, testa mecanismos de vivência republicana
Eric Hobsbawm 1871 . . . Afinal, o neojacobinismo e o blan- de uma instituição por Hobsbawm conside-
considera a quismo do século XIX muito devem aos re- rada "provavelmente a mais notável assem-
Convenção Nacional volucionários de 1793, e o neo-hebertismo bléia na história do parlamentarismo".
"a mais notável
das poucas semanas da Comuna de 1871
assembléia na
história do vincula-se à tradição popular sans-culotte,
parlamentarismo como demonstrou Soboul em seu estudo
Do Ano II à Comuna de 1871. r ao foi pouco. Tes-
Mas há que se perceber sobretudo a pro- tou-se a cidadania plena, sentiu-se o li-
funda revolução cultural - em sentido am- mite da História. Também novos costumes
plo - desencadeada a partir de 1789, 1793, foram praticados, que o retorno ao discutí-
1796 e mesmo 1799. Não só medidas episó- vel modelo greco-romano - nas artes, com
dicas propriamente revolucionárias ocorre- o pintor David ou os irmãos Chénier, ou na
ram - o guilhotinamento de Luís XVI, por política, com Robespierre ou Napoleão -
exemplo - como a ruptura com a antiga não conseguiu encobrir. Novos costumes
tradição estamental familiar (na ampliação dos quais não se dissociam os nomes dos
da herança, no divórcio, no reconhecimento escritores Choderlos de Laclos, Réstif de Ia
dos bastardos etc.); a consolidação da uni- Bretonne e do Marquês de Sade, nem de
dade do Estado nacional por meio de uma Madame de Staêl ou de Théroigne de Méri-
nova hierarquia de funcionários, adminis- court, a "amazona de Liège" . . .
tradores (prefeitos, por exemplo), juizes, Sintoma de viragem mental, velhas pala-
universidades e escolas; a criação e consoli- vras adquiriram novos conteúdos. E entre
dação da escola pública; a formação de mi- elas, "república", "patrício", "plebeu",
litares profissionais independentemente de "proletário", "cidadão", "pátria",, "se-
linhagem familiar, além da triplicação do nado", "diretor", "cônsul", "impera-
contingente e barateamento dos custos dor" . . . E, a mais forte, "Revolução" . . .
nesse curto período; a criação de moeda e Revolução cultural que não se traduziu

A marca da
Inconfidência Mineira
é o reformismo
dos proprietários
84
apenas no tratamento democrático por
"tu", na instituição do divórcio ou no corte
ie cabelo ao estilo do imperador romano
Tão - como a brasileira Maria Theodora
da Costa adotaria em seu casamento com o
fàer revolucionário Domingos José Martins
em Recife em 1817, demostrando publica-
mente suas convicções republicanistas.
Essa revolução cultural caminhou por meio
de idéias, projetos, hipóteses, conceitos e
ideologias que foram sendo testadas, com-
batidas, rejeitadas, perseguidas, adaptadas
e aplicadas.
"Ideologia", por exemplo, uma das
palavras-chave do vocabulário contempo-
râneo, apareceu pela primeira vez na
França naquele turbulento fim de século, no
conflituoso período do Diretório: era utili-
zada por gente - filósofos, ou melhor,
"ideólogos" - como Destutt de Tracy, Ca-
banis, Volney. E também por gente que de-
testava filósofos . . . como Napoleão Bona-
parte, ex-leitor de Voltaire. Napoleão, que
se serviria de alguns "ideólogos" em sua ir-
resistível ascensão.

A REVOLUÇÃO
í FRANCESA
E A NOSSA
CONTEMPORANEIDADE

As idéias de contra-revolução do Termi-


dor, do Diretório, do Consulado, do Im-
pério e da Restauração - mais, muito mais
que as pontas avançadas da Revolução de conservadorismo estamental de nossos revo- O pintor David,
1789 e 1793 - predominaram, em seus di- lucionários mostrou-se patente. Se no pri- ligado aos Jacobinos,
versos matizes, ao longo da História do meiro caso, em Minas, se lia a obra subver- ficou na prisão
Brasil. Não por acaso as presenças de siva de Raynal, em que o abade sugeria de Luxemburgo em
ideólogos como Benjamin Constant e, de- uma reviravolta no mundo colonial, side- 1794, Mas teve
pois, Mallet du Pan, Louis de Bonald e Jo- rando gente como o cônego Luís Vieira da tratamento especial e
seph de Maistre pontificariam, através de Silva e Domingos Vidal Barbosa (que o sa- continuou pintando
seus livros e seguidores atentos, nas biblio- biam de cor), não se deve esquecer todavia na sua cela,
tecas e nos salões das elites dirigentes do que era um reformismo de proprietários, ou transformada em ateliê.
nosso século XIX. "Fui liberal" . .. de aspirantes à propriedade, que animava Ali ele fez este
Auto-retrato
As atitudes e as formas de pensamento os sediciosos. Descoberto e cortado o movi-
conservadoras definiram o padrão político e mento, Vidal Barbosa figurará na relação
intelectual da titubeante nação que emergia dos delatores . . . Já na conjura dos "al-
no contexto da Restauração - e quem a ele faiates" baianos de 1798, liam-se trechos de
e por ele não se alinhou foi exilado, silen- Rousseau (a Nouvelle Heloise, é verdade),
ciado ou morto. As histórias de vida de Ci- Mably, Volney mas também, como de-
priano Barata, Gonçalves. Ledo e frei Joa- monstrou pioneiramente a historiadora Ka-
quim do Amor Divino Caneca são demons- tia Mattoso, Boissy d'Anglas, o pós-
trativas das férreas exigências do modelo de termidoriano homem do Diretório, um dos
exclusão sócio-política e ideológica do im- repressores ao movimento jacobino e à
pério tropical, modelo que tantaliza até hoje Conspiração de Babeuf. Em suma, de qual
os estudos sobre a historicidade da "ques- Revolução Francesa falamos no Brasil?,
lão nacional". Em contrapartida, José Bonifácio, o apli-
Mas já à época da Inconfidência Mineira cado e controverso "patriarca da Indepen-
(1789) e da Conjuração Baiana (1798) o dência" de 1822, esteve em Paris em 1790 e
85
1791, mas não parece ter bebido nas fontes
mais generosas do movimento de Danton,
nem de Marat, Robespierre, Saint-Just, ou
do sábio e ativo abade Grégoire, e nem
mesmo nas do girondino Brissot - um entu-
siasmado defensor da libertação colonial.
Ao contrário, anos depois, já em Portugal e
antes de regressar ao Brasil, comandaria o
Andrada um batalhão português contra
uma tropa invasora liderada por Masséna,
um dos generais de Napoleão.
Os "abomináveis princípios franceses",
os "conventículos" em que se cultivavam
"francezias" e as "idéias jacobinas", ator-
mentavam as elites brasileiras que procura-
vam encaminhar a independência sem revo-
lução, isto é, sem modificação no sistema
de trabalho escravista e no regime monár-
quico. O movimento republicanista de 1817
em Pernambuco e no Nordeste - a nossa José Bonifácio passou pela Revolução,
Queimada (Pontecorvo), a primeira revolu- mas evitou cuidadosamente o contágio
ção no mundo luso-afro-brasileiro - repre-
senta o limite da Revolução nestas plagas. Em verdade, alguns ideais de Revolução
Seu prolongamento, na Confederação do ressoaram por aqui, como em outras re-
Equador (1824), após a Independência de giões da América Latina. Mas, diga-se, al-
1822, em que se destacou frei Caneca, foi cançam os tristes trópicos sobretudo pela
aplastado pelas forças reacionárias do novo vertente girondina: as inspirações e cone-
Império de Pedro I e de José Bonifácio: xões do "precursor" da independência na
inaugura-se então a metodologia da contra- América Latina, o venezuelano general Mi-
revolução permanente, que se desdobraria randa (amigo do comerciante Domingos
na repressão a todos os movimentos popu- José Martins, líder da revolução de Per-
lares do Império, da Primeira República, do nambuco), são expressivas. Como o hábil
Estado Novo, do regime de 1964-84, rema- advogado dos revolucionários de 1817,
nescendo até nesta diretorial "Nova Repú- Aragão de Vasconcelos que, por sua vez,de-
blica". Confundem-se desde essa época - e fendia, como vimos, os réus encarcerados
o Patriarca é o nosso paradigma maior - o brandindo a obra Brissot de Warville. (E,
liberal e o conservador, o libertador e o re- sem citar a autoria, contrabandeava em
pressor, o moderno e o ultra-arcaico, seus arrazoados, zombeteiro, algumas
adensando-se o caldo cultural da Concilia- idéias do interdito e inaplicável Rousseau...)
ção em que se atolam todas as iniciativas Afinal, às burguesias comerciais da França,
para a construção de uma nova sociedade da Inglaterra, dos Estados Unidos, estas re-
civil, moderna, avançada. giões interessavam como mercado a ser

O diretor italiano
Pontecorvo
contou no
filme Queimada,
com Marlon Brando
no papel de
agente duplo, uma
história simbólica
também no
movimento
republicanista de
1817, em Pernambuco
e em todo o Nordeste
86
aberto ou ampliado, fora dos marcos do
erodido mercantilismo ibérico, ilustrado ou
não.
A maior região escravista do Ocidente,
entretanto, deveria ser mantida sem que os
"de baixo" se manifestassem - afinal, o pe-
rigo do haitianismo atormentava as elites
brasileiras e portuguesas, a armada inglesa
da South American Station e os franceses
do Diretório, do Consulado, do Império e da
Restauração. Só Toussaint-Louverture, um
black jacobin, igualmente leitor de Raynal,
mostraria ao mundo a face colonial da
R evolução: terminou seus dias num presídio
da França, mas seus sucessores venceram
as tropas de Napoleão...

f?
-£uii
inalmente, os estu-
dos sobre a decantada "influência" da Re-
volução Francesa no Brasil ainda aguar-
dam análises que respondam a velhas per-
guntas. Por que a esquerda brasileira não
percebe que um escritor e homem de ação
como Abreu e Lima, o "general das mas-
sas" e autor de O Socialismo (1855), foi tão
marcado pelo conservador e golpista do 18
Brumário, o abade Sieyès? Estarão, de fato,
as idéias fora do lugar? Por que, no Brasil
atual, a despeito de suas trágicas caracterís-
ticas sócio-culturais e políticas, as "perigo-
sas idéias jacobinas" republicanas e demo-
cráticas, que trariam a nós as noções de ci-
dadania plena e de legitimidade, continuam
a não vicejar, em contraste com este perma-
nente ranço cultural do despotismo esclare-
cido, do autoritarismo bonapartista e do gi-
rondinismo de meia-confecção que ine-
briam nossas elites, sem resgatar e implan-
tar entretanto nem um só traço porventura
positivo daqueles projetos históricos? E a
corrupção, os sucessivos golpes e o desgo-
verno no período do Diretório (1795-1799),
que termina com o golpe do 18 Brumário
de Sieyès e Napoleão, não iluminariam por-
ventura - guardadas as proporções e sobre-
tudo os talentos de ambos - os descami-
nhos desta ínvia "Nova República" brasi-
leira?
Quando um historiador austero como sas está em curso. Para a América Latina, O golpe de Napoleão
Jacques Godechot, meditando sobre o con- entretanto, região periférica sempre vivendo e Sieyès de 1799
formismo contemporâneo da sociedade de a eterna antevéspera, fatigada embora de encerra o período de
massas, ressalta o aspecto positivo do abalo neocaudilhos e de neogirondinos "moderni- desgoverno e corrupção
cultural e político de 1968, no sentido de se- zadores", soa histórica a advertência re- do Diretório.
rem buscados novos padrões civilizatórios cente do historiador Michel Vovello. Qualquer semelhança
para substituir formas agônicas de vida e "Tenho visitado alguns países da com a Nova
de pensamento, não é da necessidade de América Latina. Constato - e não julgo, República. ..
uma nova e profunda Revolução Cultural mas apenas observo e aprecio como histo-
que se está falando? Na China, na União riador das mentalidades - uma espécie de
Soviética, na Europa às vésperas de 1992 - consolidação da direita, e penso que isso
na Itália em particular -, ou na Europa define bem um universo: o do medo."
Central, a releitura das revoluções france- (Rio de Janeiro, 1987)
87