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04/01/2021 Conquista de Caiena - Exército Brasileiro - Braço Forte e Mão Amiga

CONQUISTA DE CAIENA

Doação da Capitania do Cabo do Norte


Felipe IV da Espanha e III de Portugal doou, em 1637, por relevantes serviços prestados,
a Capitania do Cabo do Norte a Bento Maciel Parente, então Governador do Estado do
Maranhão.
Três anos após seria restaurado o trono português e em 1645, D. João IV, Rei de
Portugal, reconhecia Parente Capitão-Mor e senhor daquela capitania, com direito de
transmissão hereditária a seus descendentes. Ela se estendia do Cabo do Norte, seu
limite sul, até o rio Vicente Pinzón, também conhecido como rio Oiapoque, ao norte,
com uma extensão de cerca de 40 léguas de litoral. Aquelas terras, portanto,
historicamente pertenciam ao Brasil.
Ao mesmo tempo, ingleses e franceses voltavam também os olhos para a região, respeitando, inicialmente, o limite do
Oiapoque. Em 22 de maio de 1604 o inglês Charles Leigh tomou posse da margem esquerda do rio, estabelecendo no
monte Lucas uma colônia com 76 homens, chamada pelos indígenas Caribote. A experiência durou pouco mais de dois
anos. O inglês Robert Harcourt, com 60 homens, desembarcou em 17 de maio de 1608 na margem esquerda do Oiapoque,
fundando nova colônia que, como a primeira, teve curta duração.
Os franceses, por sua vez, faziam suas tentativas. Em 27 de junho de 1733, com a permissão do Cardeal Richelieu, formou-
se na França uma companhia destinada a explorar a Guiana, dentro de seus limites, do rio Maroni ao Oiapoque. À frente da
empresa estavam Rosée e Robin e seus associados, negociantes de Rouen e Dieppe. Esse empreendimento recebeu a
denominação de Companhia do Cabo do Norte ou da Guiana. Não obteve sucesso.
Em 26 de maio de 1640, após a concessão de Felipe IV a Bento Maciel Parente, estabeleceu-se a segunda Companhia do
Cabo do Norte, tendo à frente Jacob Bontemps, credenciado a estender-se sobre todas as terras chamadas de Índias
Ocidentais, entre o Orinoco e o Amazonas. Dos 300 franceses que chegaram a Caiena em novembro de 1643, poucos
sobreviviam, um ano mais tarde.
Os franceses não desistiram de seu intento e, em 29 de setembro de 1652, organizaram nova companhia. Cerca de 500
homens desembarcaram em Caiena, autorizados a ocupar toda a Guiana, do Orinoco ao Amazonas, em flagrante atentado
ao domínio português entre o Amazonas e o Oiapoque. Traziam agora o pomposo título de França Equinocial, sendo o
Secretário Geral da Marinha da França o principal associado da Companhia. Em menos de um ano, entretanto, haviam
perecido mais de 400 colonos. Os sobreviventes foram transportados para o Suriname por um navio holandês.
Tratado de Nimègue
Em 17 de novembro de 1678 ocorreram fatos que abalaram a posse portuguesa da
Capitania do Cabo do Norte. França e Espanha firmaram entre si o Tratado de
Nimègue, pelo qual a segunda cedia à primeira supostos direitos sobre o Cabo do
Norte, o que anulava a concessão feita em 1637 a Bento Maciel Parente, súdito
português.
Embora França e Espanha estivessem em paz, Pierre Eléonor de la Ville de Ferrolles – o Marquês de Ferrolles –,
Governador da Guiana Francesa, baseando-se no acordo e por ordem de Luís XIV, apoderou-se dos fortes de Cumau
(Macapá) e do Paru. Destruiu este último e deixou no outro uma guarnição de 43 oficiais e soldados, além de destacamento
de índios. A reação não se fez esperar e, em 28 de junho do mesmo ano o Capitão Francisco de Sousa, mandado de Gurupá

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à frente de 160 soldados e 150 índios pelo Governador Antônio de Albuquerque, retomou dos franceses o Forte de Cumau,
restabelecendo o domínio português. A iniciativa era oportuna, visto que a Liga de Augsburgo-Grã-Bretanha. Espanha,
Holanda e Alemanha – decidiu conter o expansionismo do Rei Luís XIV.
Tratado Provisional
Uma das conseqüências das decisões tomadas pela Liga de Augsburgo foi a assinatura do Tratado Provisional entre
Portugal e França. Pelo acordo, provisório e suspensivo, a França concordava em neutralizar a Capitania do Cabo do Norte,
tendo os portugueses de abandonar e demolir os fortes construídos ao norte do rio Amazonas. O soberano português na
época, D. Pedro II, assinou-o sob pressão e ameaça de Luís XIV, com sérios prejuízos a integridade territorial do Brasil. No
entanto, curta seria a sua duração.
Tratado de Utrecht
A 11 de abril de 1713, assinou-se o Tratado de Utrecht entre Portugal e França; o artigo IX
anulava o Tratado Provisional de 1700. Pelo artigo VIII a França renunciava a todas as suas
pretensões sobre as terras chamadas do Cabo do Norte, situadas entre o rio das Amazonas e o
Oiapoque. Estava reconhecida pela França a posse plena da região pelos luso-brasileiros.
Passados 14 anos, em fevereiro de 1727, o Governador-Geral do Estado do Maranhão remetia
instruções ao Governador da Guiana Francesa, Claude D'Orvilliers, exigindo a fiel observância
do Tratado de Utrecht, o qual era com freqüência violado pelos franceses que traficavam com
os índios, em terras sob controle português. Seguiu-se um período de calma até o advento da
Revolução Francesa, em 1789.
Tratado de Amiens
Após uma série de guerras européias, inclusive na Península Ibérica, onde Portugal se aliara à Espanha para uma
intervenção na França, que fracassou, houve alteração no governo espanhol, que se tornou favorável à França. A Grã-
Bretanha resolveu assinar um tratado de paz com a França e seus aliados (Espanha e República Batava). Portugal ficara de
fora das negociações. O tratado, firmado em Amiens a 27 de março de 1802, fixava a fronteira entre o Brasil e a Guiana no
rio Araguari, contrariando naturalmente os interesses portugueses na América do Sul.
D. João atravessa o Atlântico
Com a invasão da Península Ibérica pelos franceses e a entrada do Marechal Andoche Junot
em Portugal, decidiu o governo lusitano emigrar para o Brasil, de onde continuaria a exercer
sua soberania sobre o Império português. Em 22 de janeiro de 1808 aportou na Bahia a maior
parte da esquadra, trazendo a família real, a corte e o governo. Começaria uma nova fase
para o Brasil-Colônia que, sete anos depois, se transformaria em Reino Unido ao de Portugal
e Algarve. Uma das principais medidas de D. João foi ordenar a conquista de Caiena, não só
como represália à França mas também para restabelecer a fronteira no corte do rio Oiapoque.
Decidiu-se atribuir a organização da expedição ao Tenente-General José Narciso de
Magalhães Menezes, Governador e Capitão-General da Capitania do Grão-Pará e Rio Negro.
Ela foi constituída, basicamente, por brasileiros, tendo, porém, em suas fileiras, oficiais ingleses e portugueses, bem como
algumas praças daquelas nacionalidades. Sua finalidade ficou bem clara na proclamação do Capitão-General, datada de 10
de outubro de 1808: ".., se pretende estabelecer outra vez os limites no rio Oiapoque ou rio de Vicente Pinzón, barreira
original da América portuguesa ao norte do Equador, marcada com o cunho dos antigos padrões, firmada com a posse útil
daqueles territórios já nos primeiros tempos cultivados por vassalos portugueses e depois solenemente ratificados com a
cessão e garante do Tratado de Utrecht".
Os combates

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A Força Terrestre era comandada pelo Tenente-Coronel Manuel Marques e compunha-se de duas companhias de
granadeiros e duas companhias de caçadores dos 1º e 3º Regimentos de linha e uma bateria de artilharia. Saiu do Pará a 3
de dezembro de 1808, tendo as tropas desembarcado e ocupado posição à margem do Oiapoque, na sua desembocadura. A
força naval era integrada pela corveta inglesa Confidence (com 20 bocas de fogo, comandada pelo Capitão-de-Mar-e-
Guerra James Lucas Yeo), pelo brigue Voador (com 18 canhões, ao comando do Capitão-Tenente José Antônio Salgado),
pelo brigue Infante D. Pedro (com 18 canhões, comandado pelo Capitão-Tenente Luís da Cunha Moreira, depois Almirante
e Visconde de Cabo Frio), pela escuna General Magalhães (com 12 canhões), pelos cúteres Vingança e Leão (oito canhões
cada um), por três barcas-canhoneiras e três barcos-transporte. Integravam a expedição elementos do Rio de Janeiro, São
Paulo, Minas Gerais e um contingente de soldados do Pará.
Não encontrando resistência no desembarque, as tropas marcharam ao encontro do inimigo. A 15 de dezembro o
Comandante Yeo, com alguns de seus navios, dirigiu-se para o rio Approak e intimou o reduto francês desta posição a se
render. Após um rápido combate, Lucas Yeo e Cunha Moreira conquistaram o objetivo. No prosseguimento das operações,
a 7 de janeiro de 1809, o comandante Lucas e o Major Joaquim Manuel Pinto desembarcaram às três horas da madrugada,
na desembocadura do rio Mahury, na costa oriental da ilha de Caiena.
Após o desembarque em Mahury, Lucas Yeo à frente de 80 ingleses e 80 brasileiros, depois de renhida luta apoderou-se da
bateria Diamond, com três peças, cujo comandante, Capitão Chevreuil, morreu na refrega. O Major Joaquim Manuel Pinto,
com 140 brasileiros, empenhou-se em violenta luta e conseguiu conquistar a bateria Dégras-des-Cannes. A seguir o
comandante da expedição, Tenente-Coronel Manuel Marques desembarcou à frente de 350 brasileiros e começou o ataque
à bateria Trió. O reencontro foi apoiado pelo cúter Vingança, a chalupa Leão, a escuna Invencível Menezes e as barcas nºs
1 e 2. Finalmente, às 18 horas a infantaria fincou pé na praça, na entrada da Crique-Fouille e tomou outra bateria no canal
de Torcy. Às 19 horas o Tenente-Coronel Marques repeliu um contra-ataque francês comandado por Victor Hughes,
Governador da Guiana. No dia seguinte, 8 de janeiro de 1809, o combate prosseguiu. Os franceses, à noite, ocuparam
posição junto ao canal Torcy. Coube ao Comandante Yeo, com 80 marinheiros ingleses e 100 soldados brasileiros,
desalojá-los da posição e apoderar-se de duas peças de campanha.
A expedição prosseguiu para Legrand Beau-Regard a 9 de janeiro de 1809. No dia
seguinte foi mandado um emissário ao Governador da Guiana. Hughes entregou um
pedido de trégua por 24 horas e solicitou a indicação de um lugar para as
conversações.
Finalmente, a 12 de janeiro assinou-se a capitulação de Bourda (na ilha de Caiena).
Ficou acertada a entrega da Guiana ao governo do Príncipe Regente, D. João, depois D. João VI, sendo concedidas à
guarnição as honras de guerra e o transporte até à França.
As tropas anglo-brasileiras entraram em Caiena em 14 de janeiro de 1809. O Tenente-Coronel Manuel Marques, em
relatório ao Governador do Pará, expõe: "O Art. 1º (da Capitulação) foi exatamente cumprido no dia 14 em que entrei com
minha tropa nesta cidade e fiz arvorar a nossa bandeira, solenizando este ato com uma salva de 21 tiros. A tropa francesa
embarcou logo para bordo de nossas pequenas embarcações (ao todo 593 homens) e para se dar o devido cumprimento aos
Art. 2º e 3º faz-se preciso que V. Exa. envie aqui as embarcações competentes. Os negros, a quem se devia a liberdade,
também se embarcaram. Achou-se na praça muita artilharia, porém quase toda desmontada, e muito pouca munição de
guerra. Fico inventariando todos os diferentes artigos que nos vieram às mão. Sendo necessário velar na segurança interior,
polícia e tranqüilidade da Colônia, e não tendo quem se encarregasse destas importantes comissões, organizei uma junta
provisória composta de oito dos principais habitantes, cuja constituição, deveres e condições verá V. Exa. na Ordenança nº
7, pela qual a instituí e criei..."

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Esta campanha deflagrada pelo Príncipe D. João encerrava duplo objetivo. O primeiro era impor a soberania e restabelecer
o limite norte do país no corte do rio Oiapoque; o segundo era hostilizar a França, que invadira o território metropolitano
forçando o deslocamento da família real, da corte e do governo para o Brasil.

O primeiro acerto entre as potências diretamente interessadas, após a conquista de Caiena, fez-se por ocasião da assinatura
do Ato Final do Congresso de Viena, em 9 de junho de 1815. José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco,
escreve em suas Efemérides Brasileiras: "O artigo 107 tratava nos seguintes termos da restituição da Guiana Francesa,
conquistada em 1809 pelo Brasil: Sua Alteza Real, o Príncipe Regente do Reino de Portugal e do Brasil, para manifestar de
maneira incontestável a sua consideração particular para com Sua Majestade Cristianíssima, obriga-se a restituir a Guiana
Francesa até o rio Oiapoque, cuja embocadura está entre o quarto e o quinto grau de latitude setentrional, limite que
Portugal considerou sempre como o que fora fixado pelo Tratado de Utrecht. A época da entrega da Colônia será
determinada assim que as circunstâncias o permitam, por uma convenção particular entre as duas Cortes; e proceder-se-á,
amigavelmente, com a maior brevidade, à fixação definitiva dos limites das Guianas Portuguesa e Francesa, conforme o
sentido exato do artigo 8º do Tratado de Utrecht"'.
Passados três anos chegou a Caiena, em 8 de novembro de 1818, a esquadra francesa do Contra-Almirante Jacobo
Bergeret, conduzindo o General Conde Carra de Saint-Cyr, nomeado Governador e incumbido de receber de nossas
autoridades a Guiana, nos termos do artigo 107 do Ato assinado. Governava a Guiana João Severiano Maciel da Costa,
depois Marquês de Queluz.
Este episódio poderia encerrar-se com essa devolução aos franceses. Infelizmente isto não ocorreu. Após a independência
do Brasil, mais uma vez voltaram os franceses com reivindicações inaceitáveis. Utilizavam agora argumentos ardilosos
sobre a verdadeira localização do curso d'água limítrofe, estabelecendo confusão entre o Oiapoque e o Araguari. A disputa,
militar e diplomática, haveria de arrastar-se até depois da proclamação da República.

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