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JAGUAR CIBERNÉTICO

Francisco Carlos
I ATO

BANQUETE TUPINAMBÁ

NOIVA CANIBAL

SOGRO-CANIBAL

NOIVO-PRISIONEIRO

MATADOR

JAGUAR

JAGUAR-ONCA-PRETA-MORTE

COLETIVO TUPINAMBÁ DEVORANDO O INIMIGO


II ATO

ABORÍGINE EM METRÓPOLIS

YVES SAINT LAURENT

KOTOK

JANE-DREAM (NOIVA CANIBAL)

DR. CLAUDE

LOURA BB

TARZAN

ANJO TATOO

ERUS-CÁFTNE

ANJO EXTERMINADOR

UM JOVEM ÍNDIO ATIVISTA

UM-GAROTO-PUNK

A VOZ DE UMA TOP MODEL VINDA DO AR

CORO-DE-OPERÁRIOS-E-CLASSE-MÉDIA-EM PASSEATA

UM CORO DE LUPENS-GAROTOS POBRES DESEMPREGADOS


III ATO
XAMANISMO THE CONNECTION

ALICE ESCTASY (NOIVA CANIBAL – JANE DREAM)

NAMORADO DE ALICE ESCTASY (PRISIONEIRO TUPINAMBÁ)

IRMÃO DE ALICE – (MATADOR TUBINAMBÁ)

PRODUTOR DO FILME – MISTER ESTADO

JAWAT - JOVEM XAMÃ

JAGUAR - DÂNDI MISTERIOSO

COLETIVO AGITADOR

IV ATO
FLORESTA DE CARBONO - DE VOLTA AO PARA ヘ SO PERDIDO

LOURA-DO-TÁXI-CHUVOSO (LOURA BB)

JAWAT (KOTOK –JOVEM XAMÃ)

TARZAN

CONDUTOR COM CORPO HUMANO E CABEÇA E UNHAS DE PÁSSARO

ANJO MIGUEL

UM MILITAR JOVEM PATRULANDO UMA FRONTEIRA INTERNACIONAL DA


FLORESTA FUMANDO UM CHARUTAO

JOVEM-FUNCIONARIO-FEDERAL-DEMARCANDO-TERRAS-DE-INDIOS-NA
FLORESTA
A UNIÃO NACIONAL – A NAÇÃO – A PÁTRIA

I ATO
BANQUETE TUPINAMB チ

A CHEGADA DO PRISIONEIRO DE GUERRA

SOGRO-CANIBAL
Estás entrando no terreiro da aldeia inimiga.
Te obrigo que grites, grita Eu, sua comida acabo de chegar.

PRISIONEIRO
(Grita)
Acabei de chegar eu sou a tua comida-outra,
Eu-Outro entro dentro de Outrem-Eu.
Cadê a bebida, cadê o sangue vinho-cauim? Se não tiver cauim não morro-
inimigo, não viro, não viras deus eu não viro. Eu, sua comida-inimiga estou
chegando.

MATADOR
Serás transformado em cunhado.
Entra, Eu-outro dentro de outrem-Eu, Eu-Outro.
Inimigo domesticado, inimigo familiarizado
Capturado, te transformaremos em cunhado, meu inimigo, os meus que matastes
serão vingados em ti.

SOGRO
Doce-amargo prisioneiro, inimigo de nós todos, esta noiva-máquina-despida,
movida a gasolina será tua esposa, essa filha minha, minha nação te oferece,
recebe-a, casada ela cuidará ti, cuidará do teu fim (Risos gerais) vais morrer
cauim.

SANGUE-CAUIM

JAGUAR
Bebo sangue, sangue, meu refrigerante ideal.

SOGRO-CANIBAL
Não é sangue, Jaguar imortal, é cauim, bebida de ritual tupi, milho fermentado
mastigado por garotas virgens e velhas desdentadas, droga-indígena, droga da
memória, nossa bebida cósmica, nossa coca-histórica. Caium é bebida
fermentada de mandioca. Preparadas por velhas gulosas. Não é sangue Jaguar,
é cauim, cachaça de índio, wisk nativo, confundes cauim com sangue, ofuscado
por jogos de espelho, caleidoscópio, máquina do tempo morte.

JAGUAR
Cauim é sangue, bebo e fico bêbado
Para praticar uma boa metamorfose-cosmológica, para me trransformar em uma
outra pessoa, para virar revirar meus bichos. Curtir, transar, experimentar meus
bichos. Minha visão está alterada, bebo sangue, wisk e vinho-tinto, cauim.

PRISIONEIRO
Bebe o nosso sangue como se bebesse cauim, como se bebesse wisk ou
cachaça, como se bebesse refrigerante de lata e até fere os lábios de sangue na
lâmina da lata do refrigerante-sangue-cauim.

JAGUAR
Esse sangue, vinho sangue, cauim, sinto o cheiro, o fedor, o aroma de sexo
desse sangue, da podridão desse sexo desses bichos. Que bebida! Que delícia!

MATADOR
Bebo cauim, droga que ativa a memoria
e vejo – lembranças de guerra
cenas e cenas de vingança no passado, no presente
e no futuro, presente-vinganças
O nome do futuro é vingança, o passado é vingança, tudo vinga, o motor da
vingança jamais cessa, a máquina animal de guerra e vingança jamais cessa.

DEVEDOR E CREDOR E MOEDA MULHER

NOIVA
Eu desejo um noivo, eu desejo um outro, um abraço estranho, um pênis diferente,
uma alter-rola. (Falando de dentro da maloca sendo ouvida pelo Sogro e o Noivo
que estão no terreiro da Aldeia)

SOGRO CANIBAL
Vamos fazer uma troca de mulheres e noivas.
O que você me dá em troca dessa mulher?
Outra mulher? Uma mulher só se paga com outra, outra noiva.

NOIVO PRISIONEIRO
Preso aqui dessa maneira não posso dar uma mulher em troca, nem uma irmã
cunhada, prima ou mãe. Outra coisa posso eu te dar nessa prisão. Qualquer
coisa. Qualquer rola. (Risos, farra)
SOGRO CANIBAL
Não, só recebo como pagamento em troca de uma, outra mulher.
Uma outra. Uma noiva. Uma outra máquina-mulher.

NOIVO PRISIONEIRO
Nao tenho como te dar uma irmã, minha, tia,
cunhada, prefiro morrer logo num festim terrível. (Risos gerais, farra)

SOGRO CANIBAL
Porque te dei a minha filha em casamento, porque roubastes a minha filha, ave de
rapina, invadistes a minha maloca-inimiga e roubastes a minha onca-máquina-
filha, Sou teu credor, tu o meu devedor, estais endividado a mim, meu prisioneiro-
inimigo. Tomastes a minha filha em casamento, mas não destes outra em troca.
Só uma mulher vale por outra. Só uma pessoa vale por outra. Uma moeda
mulher-máquina só se paga por outra moeda-máquina-mulher. Es meu devedor
abominável inimigo.

NOIVO PRISIONEIRO
Não tenho uma mulher-máquina pra te dar em troca no lugar da que te tomei, sou
teu devedor, é assim sou teu devedor e ponto no Fim.

SOGRO CANIBAL
Abro um crédito. Como meu devedor e eu o teu credor posso te devorar num
Festim Canibal e assim sucessivamente, daí ficarei devedor dos teus ao te comer,
aí eles terão direito de outra Noiva-máquina-nossa ou de comer outro dos nossos.
O que preferes, pagar o que me deves com uma moeda-mulher-máquina, tua
mãe ou irmã, ou ser comido por nós num Festim Canibal? Paga! Paga! Paga logo!
Paga agora, paga com tua mãe, seu filho da puta!

NOIVO PRISIONEIRO
Que credor terrível! Prefiro ser morto num festim guloso monstruoso.

SOGRO
Vem Noiva-Robotizada, surge com tuas garras-garras-caçadoras sai desse
gabinete-de-máquina-feminina-adolescente, já menstruas, o sangue adulto já
escorre espirra do teu sexo, vem pro pátio da aldeia, vem pra farra, te agrega ao
coletivo-juagarizado alcoolizado-de-cauim, enfeita teu noivo, cobre o corpo do teu
noivo de penas de pássaros, arranca os pelos e sobrancelhas dele. Mack-up-
suprema, prepara teu noivo para a longa estada na nossa aldeia de presas e
vingancas, cuida do teu macho, alimenta ele de comida-de-estômago e comida-
de-buceta, até o dia em que todos virados jaguares, devoraremos seu corpo
hóstil, hóstil inimigo!

NOIVA E O PRISIONEIRO

NOIVA
O Cosmo nos casa
O nosso casamento lacra o cosmo
Lacra a economia
Política-cósmica
Vingança-política-econômica
O cosmo nos come
Nos absorve
Desaparecemos na avidez desse cauim vinganca,
nessa luminosidade alucinada multiplificada do cauim
na liquidez dessa bebida divina que vinga,
cauim veneno que envenena e castiga,
bêbados de honra e de vingança
A luminosidade infinita é o Jaguar, esse projétil de outros.
Esse alter cosmos, de monstros, mortos, fantasmas e outros animais.

O Jaguar vem nos casar


Vem casar conosco
Nosso almoço e almoço dele
Eu, outro
O Jaguar vem cruzar nossos
nós-outros-nós-outros
com seus dentes afiados

JAGUAR
Lascas de coração
Pedaços de coração
Picados de coração
Fatias do coração
Glóbulos sanguíneos
retorcendo o meu estômago
Lascas do outro
Fatias de alter-ego
Com os seus mesmos
Com os outros
rodelas de coração sangrando

Mastigo lascas do teu coração


contagio teus outros
vais adoecer de mim
te contagiar com os ardores
e as embriaguez das minhas pestes-outras
Como pedaços de teu corpo
Lascas de teu coração
Bebo gotas e gotas de teu sangue-outrem.

PRISIONEIRO
Esse deus animal se alimentando
saciando-se de nosso sangue outro
de nós-noivos-inimigos
bebendo e gozando do nosso sangue
sangria, sagrando altersangue
somos aquilo que comemos-sangre.

NOIVA
O Jaguar está em outro lugar
Um patamar inimigo, um céu floresta de vidros
Fulminado bêbado de cauim por milhares de raios luzes,
Bebendo cauim luz em excesso eu o vejo através de vidros enfileirados
multiplicados infinitos.

PRISIONEIRO
Bebemos o cauim dos reflexos desse cauim vinho vermelhão sangrento de deus
trespassado de multidão de filamentos-luz, fileiras de vidro JaguarLuz.
Diafaneidades cantos vozes ruídos perfumes odor de feras, tintos, Cauins, Vidros
transparências jaguar deus experiências animais.
O Jaguar está em outro lugar, entre luz vidros, espelhos reflexos resplandecentes.
Ele está no escuro de tanta luz e luz incandescente de reflexo de vidro.

NOIVA
Bêbada de cauim alucinada de noivado e de meu noivo-inimigo eu não vejo nada,
obscuro Jaguar, chapado chapada de tanta droga cauim de deus e luz.
Luminosidade sangrenta atravessando múltiplas fosforescências Jaguar.

NOIVO E NOIVA
Entre os mortos está o raio-Jaguar-luz, esse comedor de outros
sangrando alteridade e coito, a face dele sangrando de tanta vermelhidão de
urucun sangue jorrando veneno-cauim, enfiando suas garras afiadas em nossa
alma cósmica. Economia. Nos casaremos nele,
em sua lagoa de sangue-vidro-luz, até que a morte nos separe-outros.
(Ela o noivo e irmão matador, bebem cauim em excesso, com cuias retiram a
bebida aquecida, fervendo, de potes de barro, bebem em excesso, bebem uma
cuia cheia de uma única virada, bebem cuias e cuias de cauim, bebem em
excesso)

PRISIONEIRO
O Jaguar experimenta o fim, faz o fim.
Nos encontraremos no fim Jaguar.
Eu outro morremos nos dentes e nas garras do Jaguar, devorados por ele,
banhados em seu sangue, no reflexo de seu espelho-feroz.

SOGRO CANIBAL
O destino está no outro, na Outra-Noiva-Outra, nos mortos, nos inimigos, no
Jaguar-Gozo-Morte-Outro.

A Noiva vem de fora, a Noiva vem do inimigo. Os mortos estão fora. ノ preciso que
a noiva venha de fora, para administrar a nossa morte interna-externa. O Jaguar
vem de fora do grupo, da alteridade, vem do céu, vem do lugar da morte, vem do
nada. O nosso duelo amoroso com o Jaguar experimentaliza a nossa e toda a
morte. Os caçadores trazem os prisioneiros de fora, são bons matadores, tudo
vem de fora: as alteridades, os laços sociais, a economia a arte, o amor, o ódio,
guerra, os venenos, A Morte, o Jaguar, a vítima que é a carne que mata o nosso
desejo cósmico. Tudo vem de fora. Como doe. O que comemos é o que
morremos-matamos e o que somos. Somos o que comemos o que matamos o
que morremos e o que gozamos, veneno cauim, beba morra, bebo me enveneno
de cauim, beber cauim em excesso até cair bêbado, bêbado e morto, envenenado
de tanto cauim, de tanto deus Jaguar imortal eu estou bêbado eu estou comendo
bebendo cauim, eu Jaguar.

TODOS
Vamos Jaguar
Vamos nos Vingar em Jaguar, experienciar jaguar, vamos fazer Jaguar.
Guerra amor no colo e na coxa do Jaguar-fera-morte,
na luz jaguar desse animal deus belo monstruoso.
Luminosidade animal humano e fim.

JAGUAR
Meus inimigos
Meus reflexos
Atravesso milhares de espelhos, vidros luminosos enfileirados inumeráveis,
inimigos inumeráveis, inumeráveis vinganças diáfanas.
Labirinto selva de vidros grossos enfileirados
Sempre coagulando
Sangue talhado
Vinho e sangue talhado de significados

INICIA ヌテ O EM JAGUAR
MATADOR
aqui estou
pronto para ser iniciado
completado25 anos
desejoso-de-nome-novo é meu nome
futuro guerreiro é meu dever
matador o meu ideal
matar um inimigo
em festim canibal
vingar sempre
novo nome receber
nome nome nome-novo
nomes muitos nomes - honra maior
ganhar cortes-sangrentos pelo corpo
o corte sangrento é marca do que matei
prestigio e consideração entre meus companheiros,
nome novo receber
ganhar uma esposa
contrair núpcias
gerar um filho
adentrar mundo adulto
bravo é meu segundo nome.

Eu sou um jovem tupinambás


em estado de preparação para o gozo
um iniciando explodindo esperma e sêmem
esperando contrair núpcias
Preciso marcar meus tempos
executar cerimoniosamente
um prisioneiro inimigo
preciso executar um meu-outro.
O Jaguar vem, estou sonhando
estou atravessando espelhos de tempo
espelhos de guerra, vingança
espelhos de morte
Jaguar entorpecente pesadelo fim vem
deus-final-feroz,
O Jaguar esse animal deus sexual
O insaciável
passeia por meu drogg
com suas patas de pelos macios
e seu peso monstruoso de deus
roçando seu pelo venenoso e gostoso
no meu corpo-iniciado
no corpo-coletivo da minha nação
arranhando com suas unhas afiadas
os meus transes sociais jovens
pegadas de feras rosnando
horrores pelos meus transes
me masturbo e ejaculo,
sangue, sêmem sede de cauim
e gula de vingança.
Um homem-jovem se armando de sangue,
guerra, desejo e vingança e inimigo-eu-outro.
E aqui mesmo na terra tornar-me um deus
ser divino aqui mesmo,
aqui mesmo deus-inimigo-destino,
apos ter executado em terreiro
meu cunhado rival
neste festival canibal
sexo, violência e rock-pesado
cada cunhado matado um nome novo
assim mudo de nome,
aumento minha lista de nomes,
que honra ter muitos nomes,
ser um homem adulto,
contrair núpcias em Jaguar
procriar em Jaguar.
Meu destino é ser deus-inimigo
aqui na terra é animal-divino.

PRISIONEIRO
No transe cauim
O Jaguar com seus dentes-lâminas-pênis,
dentes afiados como navalha de barba
o Jaguar vem fazer figuras-vinganças
no meu corpo, sinto dor sinto honra.

VOZ DIVINA E FEROZ DO JAGUAR


Sou teu outro, minha vítima inimiga.

PRISIONEIRO NOIVO
Me suja com tuas tintas de sangue.
Desenha teus sentidos cortando o meu corpo, meu dono odioso.

JAGUAR
Te odeio, meu eu-outro.

PRISIONEIRO NOIVO
Me vingo.
Te vingas de mim.

JAGUAR
Eu sou o todo
Eu outro
Tu o outro eu
Eu sou o nada
Eu sou o nada onde te casas com noiva inimiga.
Te casas em mim
Te afogas no meu sangue
Lençol de espumas de meu sangue
Nada. Eu sou o nada. Amigoinimigo, vingança atrás de vingança. Eu sou o rio de
sangue que afoga e suicida de gozo.
e tu e todos os teus outros estão contidos na minha esporra,
lagoa de sêmem e sangue.
Mordo o teu coração, pedaços de teu coração

Eu sou teu abismo, teu duplo ego, teu dono-outro.


Só comendo teu coração te encontro meu inimigo.
Meu duplo, metade minha.
Me transa através de teus espelhos sangue atravesso.
Meu transe sangra.

NOIVA
Eu e meu inimigo casamos no fim Jaguar.

CUNHADO-MATADOR
Como teu corpo para comer tua alma.
Como teu corpo para comer tua pessoa.
Como teu corpo para comer meu inimigo.
Como teu corpo para comer tua lama.

Te como, me comes. Comos. Cosmos. Gozo.

JAGUAR
Bebo teu sangue, minha cerveja, meu vinho tinto e seco, branco e vermelho, nada
e sociedade, vazio e cosmo, zero e tudo. Chamo cauim sangue. O que chamas
sangue, te digo, é o meu cauim.

PRISIONEIRO
Quando o Jaguar come o nosso coração
penetramos no outro.
Atingimos o alter-inimigo, a sociabilidade e o jogo.
Comungamos vingança.

PRISIONEIRO-NOIVO E NOIVA
Meu senhor sangue Jaguar
Alter sangue garras fim
Sermos dois.

PRISIONEIRO
Me afogo no teu ódio,
Poça de sangue tua urina
Cerveja meu sangue, te atolas, meu sangue é tua lama.
Quero morrer afogado no teu ódio meu inimigo.
Sobre o meu corpo, lutas Jaguar, tu e tua noiva, teus inimigos, tuas mortes, tua
noiva. Lutas.

NOIVA
Transo com o Jaguar
fodo com um deus
o corpo campo luta humanóide
com oralidades, com palavras códigos.
Lutas. Lutas. O meu corpo é a arena, a arenga.

PRISIONEIRO
Morrer lutando contigo nos reflexos líquidos do teu espelho carmim, lugar de
escarlate e de vingança de inimigos.

NOIVA
Afogada no teu poço de alter sangue
meu felino divino.
vejo através do corpo transparência luminescência do Jaguar
nosso-inimigo-noivo morto,
através do corpo luz do animal humano deus lux,
vestígios efeitos de luz efeitos do deus animal pessoa.
Tem sempre uma fileira de vidros grossos explodindo luz do deus onca,
distorcendo e ofuscando a imagem, explodindo múltiplos, esporras, noivos, noivas
casamentos, vinganças, porras, noivas, explosão de luzes noivos noivas outros
inimigos, porras!

NOIVO NOIVA CASAMENTO

NOIVO PRISIONEIRO
Assassina! Noiva assassina! Virtual assassina. Arma assassina.
Assassinos os teus!
Esse teu irmão matador!
Esse sogro-antropófago!
Inimigos! Vingadores!
Comedores de outros!
O que comem de mim?
Minhas pernas, meus dois braços, meu tutano, meu crânio, meu pau?

NOIVA
Comemos nosso duplo, nosso outro, o reflexo nosso teu no vidro esporrado de luz
do Jaguar, esse outro gozoso, esse coito belo e monstruoso.
Comemos nosso parente inimigo, nosso hostil.
Meu noivo, meu bem amado-odiado,
comemos nossa exterioridade incompleta, é muita carne, é muito osso, é osso em
excesso, é tripa, é mingau de tripa uuuuuuuu(suga o mingau) excesso de osso,
de carne, de membro, de carne e tripa, é muito membro inimigo, é muito outro,
que gula de outro meu noivo-odioso.

NOIVO PRISIONEIRO
Vejo a clava descendo sobre a minha cabeça
esse cacete final.

NOIVA
Cacete bom é o teu, meu bom escravo, meu cacete corajoso e doce, doce e
odioso.

NOIVO-PRISIONEIRO
Noiva fatal, me assombras, noiva homicida.

NOIVA
Meu noivo tem uma piroca diferente. O gosto da piroca do meu noivo não tem o
mesmo gosto da piroca dos mesmos da minha nação. Todos eles bons
caçadores, caçam pirocas estrangeiras, pirocas de inimigos estrangeiros, para
que eu sinta novos sabores, para que a aldeia sinta novos sabores, embriagados
de outros, outros pênis, outros sexos, outros sinais, pirocas sabores de alters.

NOIVO PRISIONEIRO
Bate mais, noiva sórdida e carinhosa.
Bate mais.
(Ela bate nele enfurecida)
NOIVA
Mais te bato
Bato, mais e mais e mais
até teu corpo ficar cheio de marcas vermelhas de meu amor vingança e núpcias.
Te bato, mais e mais meu preso, mais amor meu odioso, mais honra. Casaremos,
isso meu amado, me escolheram , um Xamã-humano-animal-e-divino celebrará
as nossas bodas no Jaguar. Deus casador, nossa economia, aliança de vingança,
honra, veneno, Morte. O Jaguar vai nos casar, vai nos celar, no Fim.

Porque eu e meu coletivo nos vingamos de ti, meu noivo?


Amor vingança
Amor e vingança
Vingança pivô de amor
Me vingo de ti meu amor

SOGRO CANIBAL
Não deixaremos nunca da guerra e vingança, de Jaguar.
Não é assim meu inimigo?

NOIVO PRISIONEIRO
ノ assim eterno inimigo, eterna noiva
Noivo vítima, noiva assassina, onça.

NOIVA
Meu noivo, meu bem amado, meu odiado
caçador de vingança e de honra
caçador de feras,
As feras se dobram diante teus punhos
vais morrer, meu noivo, os meus vão te matar
neste festim macabro
Que bom te vejo assim feliz!
Te vejo assim sorrindo
Ajuda na tua morte, colabora com o teu fim.

Porque te amo muito.


Foi bom o tempo que passei contigo
raspando os teus cabelos
cortando tuas sonbracelhas,
enchendo o teu corpo de penas de pássaros,
araras e papagaios,
ficas bem assim
com essa cara de estrangeiro lunático
crianças e mulheres vão beber mingau de tuas vísceras.

NOIVO PRISIONEIRO
Estou muito feliz, uma alegria infinita me contagia,
embriaga o meu riso, contagia o meu corpo feliz,
tudo isso porque serei morto e devorado neste animado Festim-
Canibal. Saborosos e fartos alimentos, belos enfeites e soberbos presentes. Que
mais pode querer um homem com honra. ノ só ter coragem. Morrer com coragem,
se despedir, e honrar a sua nação. Se vinguem de mim, porque comi os seus, os
meus se vingarão de mim comendo os teus-mesmos, vingança atrás de vingança,
assim sucessivamente, até o infinito da morte. Sinto pontadas de sorriso que arde
e sangra o feliz.

Não era isso que querias? Um outro inimigo, estou aqui, alteridade tua e dos teus,
me abraça noiva linda aliança, me mata
devora meus pedaços,
Bebe mingau das minhas vísceras cozidas.
Não era isso que querias?
Que os teus queriam?
a exterioridade que procuravas, tu e os teus. sou eu.
Aqui estou, sociabilidade estrema.
Pedaços de churrasco. Duas pernas e dois braços. Mingau de vísceras cozidas.
Bebe, bebo agora neste cálice da aliança, cauim-vinho-sangue-envenenado.
Cauim veneno. Bebida veneno da tua boceta cauim. Bebe comigo.
ノ gostoso o mingau das minhas vísceras cozidas
O Jaguar é o teu juiz, teu Deus, nosso fim.
Bebe noiva tarada de alteridade.

DUELO ENTRE CUNHADOS

CUNHADO-MATADOR
Estás no centro desse terreiro
Execução-ritual em terreno-morte-ideal
Amarrado pela cintura por essa
corda da morte
Dois guerreiros menores seguram as pontas da corda,
Vaes morrer meu cunhado-vingado, que fostes vingador, eu teu cunhado sou teu
matador-vingador.

NOIVO PRISIONEIRO
Esse matador absoluto, absoluta vingança, que morde o próprio rabo, girândola
de vingança, círculo vicioso de feras abanando o rabo de ódio eterno e de honra.

PRISIONEIRO
O inimigo e seu vingador.
Todos os homens são cunhados

CUNHADO-MATADOR
Todos os homens são cunhados
Todos os matadores cunhados, depois capturados em guerra
por outros inimigos e tornados cunhados, domesticados
Todos todos são cunhados. Homens cunhados, não são irmãos são cunhados,
cunhados vingadores, vingados, matadores e executados por cunhados.

OS DOIS
Todos os homens são cunhados, todos são cunhados vingadores
Cunhados vingados matadores cunhados
Cunhados executados
Prisioneiro de guerra alvo de vingança a serem vingados
Todos os cunhados são matadores-vingança
Ex e futuros vingadores
Todos os homens são cunhados
Quanta honra matar um cunhado ex-matador
A vingança confere honra confere novos nomes
nomes e nomes
Vingança de um parente morto anteriormente
por uma vingança real de outra vingança de outra que no início
era apenas uma vingança-ideal,

PRISIONEIRO
(Se dirigindo a noiva feroz)
O matador implacável é o teu irmão, cunhado fatal, cunhado Jaguar.
O teu irmão é o meu fim, noiva amada, noiva odiada.
Esse cunhado-afinal-agora pinta seu corpo pardo, cercado de 15, 14 afins.
A vista me falha, mesmo assim, permaneço alegre e feliz.
Ele está de volta, se aproxima de mim, esse vingador,
teu irmão, teu sangue-vingativo.
Ele traz a clava ornamentada e funerária,
essa clava é o meu fim,
a clava é a mão do Jaguar,
nossa eternidade – dentes de Jaguar – ocaso dele.

CUNHADO-MATADOR
ノ a minha borduna,
arma de morte decorada
da mesma forma que teu rosto está decorado para a morte,
meu cunhado-vítima.
Borduna-mortal.

MATADOR
Só depois de ter quebrado o crânio de algum cunhado inimigo
posso virar homem de verdade
posso ser deus na terra.

PRISIONEIRO
Podes, podes ser deus-humano, caro cunhado odiado
ganhas nomes e nomes
que honra Hu! Hu! Hu!

MATADOR
Hu! HU! HU! que honra

Eu sou o que há de te sacrificar meu cunhado inimigo


Onde está aquele que será por mim sacrificado?
Que me iniciara em sua morte inimiga?
Que me dará a honra de ser deus
ainda em vida ainda?

PRISIONEIRO
Eu estou aqui
Esperando para levar a porrada fatal no crânio
Com muita coragem e com muita honra
HU HU HU HU

MATADOR
Sou eu o teu Matador sou outro
Me inicia meu cunhado inimigo

PRISIONEIRO
Minha morte te inicia te nomeia de novo
tua morte enche teu corpo de incisões de
sócio e vingança,

MATADOR
Eu estou aqui, pronto para ser iniciado,
me inicia na tua outra-morte
Me diviniza.

PRISIONEIRO
Eu estou aqui animado
Cheio de coragem
Pronto pra levar a pancada no crânio
Pronto pra pagar o pato de vingança
Cheio de tanta coragem e que honra

MATADOR
Quebro o teu crânio,
primeira vingança,
primeiro renome,
primeiro acesso a uma mulher fertil,
a um casamento verdadeiro,
pai pela primeira vez.
Quebro o teu crânio meu cunhado.
PRISIONEIRO
Honrada morte em terreiro pelas mãos de renomado guerreiro

MATADOR
Suprema honra matar o inimigo cunhado

PRISIONEIRO
Suprema honra morrer por mão do inimigo-cunhado
Formamos um grande par meu cunhado inimigo, meu matador

MATADOR
Um par: matador-cativo. Um duelo de inimigos.
Dois inimigos – dois cunhados
Tu morto
Eu que esfacelei teu crânio
Quebro-te a cabeça

CUNHADO-MATADOR E PRISIONEIRO
Nós dois, dois cunhados-inimigos,
dois exterminadores-exterminados
Dual matador-cativo,
vingadores-vingados
Que papéis encarnamos nesse teatro mortal?
Duas máscaras,
duas fases da persona-mortal-tupinambá
Uma inimizade-vital nos liga
Duas faces da mesma moeda-canibal
Meu partner sabemos ser esse tempo morte.

PRISIONEIRO
Eu o cativo, tu o matador
Dois guerreiros jovens, dois inimigos,
dois cunhados executadores-executados,
dois vingados. Duas mortes.

MATADOR e MATADOR
Meu cunhado perfeito, com cuja irmã não casei, ou que com minha irmã não
casou.

NOIVA
ACABAMOS N テ O NOS CASANDO DE FATO, E MEU IRM テ O, DE FATO
ACABOU N テ O VIRANDO DE FATO TEU CUNHADO. Quase casamos,

MATADOR E PRISIONEIRO
Quase cunhados, quase

NOIVA
Mas quase, acabamos não casando meu irmão, meu noivo.
MATADOR E PRISIONEIRO
Meu cunhado, quase, quase. O ideal é quase cunhados, meu inimigo-cunhado-
quase-quase.

NOIVA
Acabamos não casando meu prisioneiro amado, quase marido, quase cunhados,
cunhados quase quase.

CUNHADO-MATADOR
Tu o cativo eu o matador, cunhados, dois inimigos, dois vingados,
duas máscaras da morte.
ノ essa onça-preta e o coletivo
que nos colocam nessa partida-brutal,
nesse fim de jogo.
Fazem nosso destino nesse duelo
e a morte nos serve de escada.
Você veio fazer o que onça, mortal, ou você é o fim, o nosso Fim?

JAGUAR-ONCA-PRETA-MORTE
Eu vim aqui acompanhado de meu consorte, o Coletivo-Tupinambá, o laço social,
vim laçar vocês dois, cativo-matador, dois lados da mesma vingança. Eu sou a
Juíza dos outros
dos outros outras,
das tais vinganças consecutivas,
eu vim apitar o jogo-odioso,
apito e a partida deve-quer-ser iniciada logo,
a vingança vingada e o elo-social-consorte casado.

PRISIONEIRO
Jogamos essa partida-social até o nosso fim
Morto-inimigo-matador
O inimigo é o nosso destino
O nosso FIM
O morto-inimigo, é o tal destino.
ネ o FIM.(ela apita)

NOIVA LAGRIMAS DE CROCODILLO

NOIVA
Mataram meu noivo, comeram meu noivo.
Choro choro berro berro pelo terreiro-canibal.
Meu marido-prisioneiro, choro por pouco tempo, choro choro lágrimas de
crocodilo, olho de crocodilo, choro junto de meu homem antes de comê-lo, choro
meu marido-inimigo morto a cacetadas de tacape de meu irmão-vingador-
matador. Que pena, não devias ter morrido meu marido-inimigo, meu vingativo.
Eu choro, eu estou chorando, eu lamento, é uma pena que tenhas morrido meu
marido-comida. Urino pelos olhos. Choro falso. Derramo lágrimas fingidas sobre o
meu marido morto, sempre na esperança de comer um pedaço pedaço, comer
um pedaço, te comer um pedaço meu marido-carne. Choro e desejo comer
pedaços do meu marido-vingança-carne. (Tem um acesso de prantos)

VELHAS
Vem comer junto conosco pedaços de teu noivo, antes dos dele se vingarem de
nós.

NOIVA
Prefiro a parte do meio, o pênis, o membro dele, o belo que me alegrava, conforto
doce.

MINGAU

NOIVA
Adoramos mingau, tomarei teu mingau, meu noivo, meu amado, tesão meu, meu
ardor, minha aurora, minha fúria, meu amor. Tomo mingau, o teu mingau, mingau
do teu corpo, e gozo de ti. Essas velhas gulosas tratam muito bem tuas vísceras,
o teu intestino, cordões do meu paladar e do meu gozo. Gozo de ti meu noivo
amado, meu noivo morto. (Mulheres pegam e comem pernas e braços do noivo-
prisioneiro e correm ao redor da maloca fazendo um grande vozerio).
E essas mulheres histéricas, vingadoras, essas meninas virgens, essas velhas
gulosas, séculos de vingança, velhas sombras, velhas honras, velhas pesadelos
da nação, que tanto contribuem no festim trazendo louça e cozinha, trazendo
cardápio e mestres-cuca, noivas vinganças velhas. Peguem pedaços de meu
homem bom de caça, quatro pedaços de bom caçador que agora é caça desses
monstros vaginas estranhas, vaginas esfomeadas, dragam os membros do meu
homem-caça, pegam os quatro membros de meu noivo-preso e correndo como
loucas ao redor das malocas fazendo um grande vozerio. Velhas loucas, loucas
garotas, dragando o meu homem prometido, meu matrimônio, minha aliança
cósmica, aliança cósmica política de nosso nação. Tudo isso é legal, tudo isso é
vital, essa dança louca, dessas noivas moças-velhas nesse Festim Mortal,
repartem entre si pedaços de meu consorte-inimigo. Guardemos as vísceras.
Moças velhas, moças e velhas guardam os intestinos de meu noivo-inimigo como
se guardassem tesouros, fervem os cordões de meu noivo morto, e do caldo
fazem sopa que chamam mingau. Daí é o Fim, o mingau é o Fim. ノ a sopa, a
sopa é o Fim. ノ a aliança, dos cunhados e do Jaguar. Bebem, bebo, ficam loucas,
fico louca. ノ a sopa, é o Jaguar, é o Fim, é a Aliança.

RELEMBRAN ヌ AS DE UM MATADOR

MATADOR
Quem sou eu, porque me encontro aqui escondido e recluso dentro desse
gabinete de luto.Lá fora no pátio da aldeia a coletividade enfurecida berra urra,
despedaça, destroça, desmembra o inimigo, excesso de encenação de ferocidade
coletiva. Som, ódio, vingança e fúria.

COLETIVIDADE URRANDO
Quebra, quebra tudo, quebra bruta, come tudo, desmenbra, destroça tudo!

MATADOR
Eu, recluso e solitário, eu cauteloso, a revelia do bando furioso, longe da farra e
da fúria da matilha, bacanal de onças, rock and roll , metal pesado, só porque
procedi o massacre de meu, de nosso inimigo, só por ter vingado nossa nação,
devo permanecer em jejum enfiado na minha rede de recluso o dia todo, não
posso foder mulher, não posso fazer meu sexo, abster-me de minhas vontades
de gozo, reprimir meus desejos de sexo, me guardar dos desejos de meu sexo e
não por o pé em terra por três dias, não posso pisar na terra porque sou poesia,
lei e cultura e os outros lá fora são fúria e animalidade, por que nesse tempo
furioso sou poeta e silêncio. Alheio estou aqui á festa furiosa.

COLETIVIDADE URRANDO
Nós a coletividade estamos aqui fora, no terreiro, no banquete terror, na farra,
orgia de onças, devoradora, coletividade aqui fora, livre das leis do dia a dia,
pervertida, transviada, rebelde, tresloucada e desvairada, porralouca, arruaceira,
baderneira, destruindo e quebrando tudo que encontra pela frente.

MATADOR
Sem lei e sem regra, nada de social, em mim so em mim sobrou o social o
símbolo, meu corpo é santo, o deles esta perdido no animalesco. ノ tudo diferente,
é divinal, é tudo vingança é tudo relação desigual.

MATADOR
Afastado de todos, afastado da fúria múltipla e diferente do bando, eu que por
demasiada coragem, por honra demasiada, matei meu inimigo, inimigo meu, de
todos, inimigo de todos em mim por mim ferido e morto, decepei-lhe a cabeça, foi
minha clava que te levou ao fim, meu-nosso-inimigo - e agoro me privo, me
privam de comer pedaços de teu corpo, restos de teus membros, todo comem de
ti, comem teus pedaços, menos eu que te abati que fui o teu fim por nós inimigos.
E agora estou só, faminto, enquanto todos comem até estarem entupidos de tua
comida, ate não te sobrarem mais nem um pelo, nem uma unha ou cabelo,
sobram nada de ti de tão furioso que esse bando punk e enfurecido te come, os
anfitriões e seus convidados das aldeias aliadas são todos feras são todos
animais de presa, e não param de te comer e te comem tudo até o fim. Toda
gente te come, tudo teu é comido, braço, cabelo, perna, pés, cabeça, mão, orelha,
olho, pelos, nariz, pênis,

COLETIVO URRANDO
Muita gente muita carne, tanta carne tanta gente, máxima gente, máxima carne,
carne carne, comida, nossa comida comida.

Muita carne para muita gente, muita carne então chama muita gente, chega
muita gente pra comer muita carne carne em abundância

MATADOR
A tua carne meu inimigo meu outro açougue.
COLETIVO URRANDO
Jaguares, nós somos todos jaguares
Viramos todos jaguares
somos jaguares comemos tudo
Comemos cozido e está gostoso
Comemos todo
Comemos assados
Jaguares somos jaguares
Comemos todo
E está gostoso

MATADOR
Nessa rede adormeço, morto temporário teatro cena de individuo contrapondo o
coletivo bêbado enlouquecido e furioso.

COLETIVO URRANDO
Você cumpre o papel do social e a agente cai na farra. Você caga a regra e
agente se desvaira violenta.

MATADOR
Não tenho nada só carrego comigo em terra o teu símbolo, meu coletivo
ensandecido.

COLETIVO URRANDO
Você se policia, se reprime, reprime o coletivo contido em ti, a gente caia na
gandaia e na fúria.

MATADOR
Só eu não me alcoolizo de cauim, só eu não como carne-inimiga, só eu não entro
em êxtase coletivo, meu duplo.

COLETIVO
Nós incorpora nós somos jaguar
Nós cai na real, nós cai na farra nesse festival de doidos
Você fica ai no espírito, você fica ai meditando
Nós aqui devorando
Nós virando jaguar
somos jaguar
E está gostoso
Nós quer carne nós quer sangue
Você fica ai com as palavras você fica ai recluso
cuidando do espírito

COLETIVO EXTASIADO
Como é teu nome, matador recluso, garoto solitário?
MATADOR
Durante o tempo desse festival-destroço-de-carne, estou sem nome, sou pessoa
sem nome, sou anônimo, só finda a festa vou dizer meu novo nome, outro nome.

COLETIVO EXPLODINDO
Você ai recluso é puro espírito é sozinho
HA! HA! HA!
Você é puro espírito!
Nós vira jaguar
Jaguar Nós
Está gostoso!

COLETIVO URRANDO – DISTOR ヌテ O DE BAIXO E GUITARRA -ESTRONDO


DE BATERIA
Olha como eu estou, máquina social em exuberante funcionando, em atômica, em
explosão, fúria-euforia. Louca máquina social desregrada.
Perdida minhas regras, larguei minhas leis, soltei minhas frangas, minhas gralhas
negras. Barulhenta e agressiva, estrondo de bateria animalesca,
ouve o meu barulho, ouve o meu ruído, ouve a pancada de tanto som, estouro os
teus ouvido de louco-coletivo.
Nós berra, destroça devora.

MATADOR
Silêncio, silêncio, psssssiiiiiuuuu, stop, eu estou só aqui recolhido eu preciso de
silencio. ノ muito barulho é tanto coletivo desmedido, doido de êxtase, silencio, eu
estou pra dentro do individuo.

COLETIVO IRADO
Nada de silencio, aqui no terreiro tudo é infernal-barulho, e ainda tem mais som,
mais baderna e fúria, mais devorarão.

MATADOR
Eu sou o símbolo de vocês, vocês são a fúria seus animais, sou a pessoa social
vocês são o animal, o caos total, vocês são brutos, vocês são brutos eu aqui
encarnando o coletivo, sem sexo e sem comida sem devorador de carne,
bêbados de cauim enquanto eu aqui sem beber nada morto de sede de álcool e
de gozo, porque tudo cai em cima de mim, meu corpo é que suporta tudo, porque
todo esse fardo coletivo, que honra, lembro mas não reclamo, o que digo é uma
fala honrosa não uma lastima, nem levem por lamento, entupido e chapado de
sangue místico de minha vitima, entupido de sangue, da minha vitima, sangue e
poesia símbolo místico. Quase vomito esse sangue místico da minha vitima,
porque meu corpo está encharcado de tanto sangue teatro místico. Eles bebem o
sangue da vida de verdade eu bebo o sangue é de teatro. ノ truque sangue de
teatro, é experiência de cena e sangue.

O que imaterial de ti, trago dentro de mim recluso, meu partner.


E tem algo de imaterial de ti que trago dentro de mim, meu cunhado-vitima, meu
duo.
Não bebo cauim, não comp de tuas partes, não almoço os teus pedaços, meu
par.
Como não comi tua carne material, como algo imaterial de ti, meu duplo.

Continuo aqui dentro recluso. Me limpando de teu homicídio, fugindo do nojo e da


praga e contágio do teu sangue inimigo. Também comestes e comeste os meus,
comestes a mim através de meus anteriores, cometes meus mortos, agora te
mato e os teus hão de se vingar de mim e sei que serei também comido pelos
teus a seguir, que posso querer mais que isso, que honrar maior morrer no
túmulo-estômago dos teus-meus-inimigos, pareço um covarde aqui escondido
nesse gabinete recluso no escuro dessa solitária do cosmos tupi inimigo e
assassino, desse jogo de vingança e vingança sucessiva ate o fim do fim do fim.

(Corre até o terreiro da aldeia que agora está vazio.)


A festa está encerrada, acabou a comida acabou o cauim.Tragam o microfone eu
você cantar eu vou dizer, eu vou berrar meu nome: inimigo!!!!!

Fim 1 ATO

II ATO
ABOR ヘ GINE EM METR モ POLIS

500 Anos após

MAISON D'AMOUR

YVES
E você que entra na minha loja de vestidos,
la Maison D'Amour
despido como um Selvagem no princípio dos tempos

KOTOK
Eu sou a sociedade primitiva hiper conservadora
vim impedir o aparecimento da moda
essa desqualificada de passado
nada de sagração das novidades
nada de fantasias individuais
nada de autonomia artística da moda.

YVES
Deprecio a ordem antiga, abaixo a ordem antiga
desqualifico o passado
prestigiosos e superiores são os modelos novos
Eu sou o rei das metamorfoses
Eu mudo, eu mudo eu uso tudo e todos
os enfeites. Eu mudo os ares em cada estação
sou muitos em um. Sou todos em nenhum.

KOTOK
Pertenço a uma sociedade primitiva organizada para frear e negar a dinâmica
da mudança e da história estou preso ao passado, não posso cair volúvel nos
braços de tantas e tantas modas tentadoras.

YVES
I love mudança
Consagro tudo que é diferente, tudo que é estrangeiro
Sou um ser mutante, eu sou uma cobra moderna.

KOTOK
Detesto tudo que é estrangeiro, vomito nesses modos estrangeiros,
vírus que penetram no nosso corpo social primata
ingerindo novidades alienígenas
apodrecendo a sagrada e milenar tradição de nossa tribo.

YVES
Eu te digo King-Kong
nas eras da moda domina o culto da novidade
imitam-se os modelos presentes e os estrangeiros
é por isso que lhes conto essa passagem prosaica:
um marinheiro estrangeiro me visitou trajando
um exótico e belo modelo, louco por novidades
copiei-lhe o modelo estrangeiro. Já não sou mais o mesmo,
mas continuo o mesmo.
Viajo no trem veloz
dessas rápidas flutuações
sem amanhã
vivendo nesse reino,
la Maison do Amor,
esse trem veloz
a lei é o efêmero.
ノ só hoje, amanhã é outro hoje,
é só hoje, GLUB!

KOTOK
Vês, essa corrente imaginária,
essa corrente é a ordem tradicional
do espaço social do meu clã.
Se os anéis dessa corrente se quebram
se desfaz o espaço social do meu clã
devo mantê-la sempre atada
nunca devo quebrar a corrente que é a
ordem tradicional do espaço social do meu clã
me ofereces um presente versátil.
Não sou um camaleão volúvel
não me deixo seduzir.

YVES
O presente feérico, feérie
Ah! Ah! Ah! Os meus acessos de feérie, feérico,
a novidade farfalhante me fere me diverte
Uma criança brincando em ser muitas e muitas pessoas,
uma caixa de sapato é seu teatro de metamorfoses fugidias
e seu guarda-roupa de variados vestimentos, sagração das novidades.
Rei do Fashion, eu te consagro ó frivolidade!
Se quiseres te liberto da autoridade imemorial do passado, pequeno Rei da
Selva
Voa meu pássaro selvagem de penas azuis
na minha gaiola de agulhas douradas

KOTOK
Não sei ainda se quero ou se não quero,

YVES
Me ofereço a te servir de guia,
nessa tua viagem de reconhecimento do inferno,
purgatório e céu de Metrópolis,
vem e segue-me, te apresentarei as delícias
e os terrores de Metrópolis.
aceitas o meu convite?

KOTOK
Acho que aceito,
me atrai o fato de conhecer uma outra cultura diferente
e estranha, uma curiosidade alter me invade.

METR モ POLIS

YVES
Metrópolis é a nossa cidade pesadelo
Os edifícios são altos como torres afiadas
penetram as nuvens
perfuram o céu, “esse monstro, estranho, pálido calmo,
jovem belo e nu,” o céu esse teto nosso marginal.
Compridos e finos, os edifícios da vertigem,
concreto, ferro e vidro
se alongam em direção ao céu
falando 700 idiomas
criando uma confusão
que só Babel vendo e rindo. Chove o tempo todo em Metrópolis,
chuva de doce vítrolo, uma chuva rubra permanente,
em trevas ou luzes de edison
Estamos outra vez na idade das trevas
só os anúncios luminosos são os nossos sinais de redenção
Em MetrópolIs comemos pó porque só a ele devemos voltar no fim
ou comemos macarrão cósmico e outros vegetais, legumes, raízes, verduras e
batatas quentes.
Já não há mais carne e pescado, o restaurante de carne animal já está
fechado
porque toda a vida animal foi extirpada da terra por esse animal superior: o
homem.
Comemos macarrão cósmico, cheiramos perfumes-opium e assistimos filmes
de pesadelo e sonho
O filme que mais nos hipnotiza é o desses
salmos sagrados nesses anúncios luminosos.
(Gritos altos e gemidos, cantos guturais dos torturados fantasmas índios
urrando como coyotes feridos.)

KOTOK
Esses gritos, que gritos horríveis
parecem coyotes feridos?

YVES
São os fantasmas ameríndios, gemendo, gritando assustando e torturando a
cidade de São Paulo, reclamando justiça.

UM JOVEM ATIVISTA
Debaixo dos pavimentos das ruas de São Paulo podem ouvir gritos e gemidos
dos índios
Não pisem os índios, uma cultura que foi grande e que agora está diminuída,
quase extinta
A América edificou-se sobre um genocídio, esses índios que a América
massacrou e que eram milhões.
Quando você anda sobre as ruas de São Paulo está literalmente pisando em
ovos. Ou melhor, nos ossos dos ovos dos índios. Não pisem, não pisem nos
índios, não no living teather, não pisem nem nos ossos, nem nos esqueletos,
nem em Mawutsini – que começou o Kwarup, a festa -cerimônia-dos mortos –
Mavutsinin demiurgo por excelencia, não pisem nos troncos do Kwarup, efígies
dos mortos, pranteadas com austeridade, enviadas para fertilizaçao
-continuidade nas águas. Não pisem nos índios. Ouçam os barulhos de seus
ossos e esqueletos estalando..
Não pisem na caveira, no fóssil dos índios
Não pisem nos ossos, nem nos fantasmas dos índios.
Uma maldição milenar se abaterá sobre vós,
sua cidade voltará a era da barbárie, um grande monstro se instalará na porta
de sua cidade interrogando difícil adivinhação, que a cidade não terá resposta,
como castigo de sua ignorância terá que alimentar o monstro com sete pares
de jovens. Não pisem, não pisem os índios.

(Uma tempestade nos céus de São Paulo, relâmpagos no horizonte a


transbordar de miragens, relâmpagos hologramas saído do meio do barulho
de raios e trovões bombardeiam São Paulo de explosões sobrenaturais,
relâmpagos hologramas disparam seus flash e imprimem nas paredes dos
prédios e igrejas os rostos dos cordeiros dos sacrifícios do martírio indígena.
As vítimas do genocídio indígena, os anônimos inocentes massacrados
deixam suas marcas vermelhas, seus rostos fantasmas nas paredes dos
prédios e das igrejas de São Paulo)

Essa chuva rubra eterna que cai eternamente sobre a cidade de São Paulo
são as suas lágrimas. São Paulo a cidade grande chora, mas não reconhece
suas próprias lágrimas. Chora pelos índios que massacrou, não reconhece
suas próprias lágrimas, pois ela própria massacrou.
Um olho chora lágrimas de sangue de compaixão dos índios massacrados, o
outro é o olho sádico que olha, ordena e massacra. São assim os dois olhos e
a chuva eterna e rubra de São Paulo.

KOTOK
(O Selvagem, com uma picareta, começa a escavar a calçada de uma rua de
São Paulo)
Escavo, escavo, escavo o chão de São Paulo
Vasos, louças, caco de barro, urnas funerárias
ossos, ossos, esqueletos, fóssil petrifique é só esqueleto de índio.

JANE-DREAM-VER ヤ NICA
Você está tão suado meu garoto encarnado, deixa eu enxugar o teu rosto.
O rosto dele está sangrando, tragam ataduras esterilizadas para enxugar o
rosto desse novo crucificado. (Ela tira uma fotografia dele com uma máquina
polaróide, retira o retrato da máquina e entrega ao Selvagem uma foto preto e
branca. O rosto dele manchado de sangue.)

KOTOK
Obrigado pelo retrato, fotógrafa contorcionista. (Dá-lhe um beijo na boca,
desses de desentupir pias.)
Continuarei escavando, escavando sempre amém. Varar a eternidade, esses
cemitérios índios, esses túmulos.

UM JOVEM ATIVISTA
Essa civilização esquisita, nua, é só cemitério, crânios esqueletos, ossos
perucas, múmias. As nossas citys-modernas megalópolis foram erigidas todas
sobre os escombros dessas civilizações nuas selvagens. Somos super
engenheiros bravos

YVES
Mas tudo isso são ossos, ossos e miragens e nós não acreditamos em
histórias de fantasmas.

ATOR ATIVISTA
Vamos fazer um ritual cósmico para tentar ressuscitar os índios.
(Estendidos de barriga para baixo, fazem vibrar a terra. Com as mãos batem
em cadência no soalho, um barulho surdo)

KOTOK
A civilização é uma civilização sanguinária
Vocês são um bando de sádicos
ノ sempre sangue jorrando
Chuveiro derramando chuva de sangue
vocês são piores do que o animal mais selvagem
vocês são o mais selvagem de todos os animais
e foi a natureza que vos criou selvagem assim,
tão ferozes
De todos os animais o homem da cidade é o mais feroz
construíram uma cidade cheia de aparatos morais
A lei maior, não matarás.
Foi a sociedade e suas leis implacáveis que te fizeram assim?
Foi a natureza que te fez assim
ou foi a civilização essa meretriz escarlate
que dança espumando sangue pela boca
até morrer em Tóquio ou em Babilônia?
Foi a jaula da cidade ou a mãe natureza violenta
com suas cabeça de serpentes e venenos?
Quem te picou de tanto veneno e maldade?
Quem injetou nos teus genitais venenos de violência?
mas, cuidado com o lobo
esse inimigo do homem
que com suas garras te arranhará
bem no rosto, ou nos peitos, ou nas nádegas
ou cuidado com o homem
ele é que é o lobo do lobo homem
A natureza essa gralha perversa!
A cidade legislada essa gralha perversa!
Quem te fez assim, homem sádico?

YVES
Você que é o Selvagem
é só você se olhar naquele espelho
que você vira Jaguar e preda tudo
(Ele se olha no espelho, vai quebrar o espelho com seu machado de pedra,
mas, Yves agarra-o pelo braço impedindo o estardalhaço, lutam. Yves tenta
imobilizá-lo, o Selvagem se desvencilha de Saint-Laurent e começa a bater em
tudo o que encontra pelo atelier, móveis, materiais com seu machado de
pedra, Yves abre apressado uma gaveta e de lá retira um revólver e aponta
para o Selvagem que está alucinado e violento.)

YVES
Pára, pára você está destruindo tudo, seu bárbaro, bárbaro, seu monstro
rebelde, destruindo produtos, perfumes, modas, artes, destruindo convenções
de consumos, leis financeiras, sistemas burocráticos, métodos publicitários,
invenções, invenções, invenções, pare seu predador, não destrua meu mundo.

(O Selvagem avança em cima de Yves, agarra-o pelo braço tentando


desarmá-lo, lutam, rolam pelo chão, na luta um tiro é disparado, mas não fere
ninguém, na luta o revólver voa das mãos de Yves e vai cair num espaço fora
da arena dos lutadores. Yves rápido se desvencilha, larga seu adversário,
aponta o revólver e dá tiros para o alto. O Selvagem apavorado atravessa uma
janela de vidro. Yves recolhe-o do meio da rua , coloca-o debaixo do chuveiro
para que ele se lave de sua violência, depois ele sai do banheiro limpo e
tranqüilo)
(Yves e o Selvagem saem a passear por um subúrbio de São Paulo, um som
de samba punk negro invade a rua )

VIVAS AO PR ハ T-チ-PORTER

CORO-DE-OPER チ RIOS-E-CLASSE-M ノ DIA-EM PASSEATA


Viva o prêt-à-porter
Viva a revolução do prêt-à-porter
Roupas em série
de boa qualidade
a preço baixo
acessível até às pessoas de classes populares,
viva o prêt-à-porter
Viva a revolução democrática do prêt-à-porter
Com o prêt-à-porter, o sonho de usar o modelo da griffe de um grande
costureiro se torna realidade a qualquer cidadão
O prêt-à-porter quer fundir a indústria a moda,
Quer colocar o estilo, a arte na rua
Abaixo o Rit, viva a rua!
O prêt-à-porter é o paraíso da moda das classes populares
todas as classes populares agora sonham
com roupas dos costureiros metafísicos.

YVES
Mas a alta costura ainda continua sendo o grande império criativo da moda
O seu laboratório profundo
Todas as grandes invenções da moda saíram desse fundo, vejam essa parábola
da bíblia da alta costura. Capítulo dedal, versículo linha e agulha
(Jane Dream aparece vestida em traje masculino como Marlene Dietrich no Anjo
Azul.)

YVES
Boa noite, anjo azul

JANE-DREAM
Boa noite, áspide-moderna

YVES
Estou contando a esses bárbaros adolescentes que foi a esfinge-Chanel que te
vestiu
ah! Chanel, esse espectro-andrógino
vestiu rainhas com macacão de mecânico de fábrica

JANE-DREAM
Foi Chanel que me vestiu assim com esse casaco preto
vôo e aspiro liberdades
cheia de autoridade social
subo ajoelhada os degraus dos joelhos do poder
Fumo esse cigarro perfumado. Chanel cochichou no meu ouvido
fazendo ciricutico na minha orelha
com sua língua de víbora
- Fuma esse cigarro perfumado
le libertat!

CORIFEU
Antes só a Rainha da noite
podia se vestir bem, com luxo e grande arte
os vestidos feitos por encomenda aos grandes costureiros pelas grandes damas
custavam tão caro que só as grandes damas podiam se bem vestir, até que
chegou o prêt-à-porter, então todos poderão se vestir na fonte da grande moda, a
classe média e todos os operários de fábrica.
O prêt-à-porter nos livrou do desprivilegio de não poder se vestir bem, distribuiu
modelos de arte à massa bruta sedenta de fashion. O prêt-à-porter é a nossa
revolução. Viva o prêt-à-porter. Viva a revolução democrática da moda!

UM CORO DE LUPENS-GAROTOS POBRES DESEMPREGADOS


Não, o prêt-à-porter ainda não é a grande revolução democrática da moda, somos
pobres, tão pobres que não conseguimos comprar ao menos um espécime barato
de roupa de alguma série industrial do prêt-à-porter. Somos lúmpens,
desempregados. Fomos paridos no seio da plebe rude. O prêt-à-porter é para
operários empregados. Abaixo o prêt-à-porter. Viva a moda jovem marginal barata
desfiada!

MARLON BRANDO SELVAGEM


YVES
Veste essa calça jeans, essa camiseta e esse casaco de couro.
Agora você é Marlon Brando.

KOTOK
Quem é Marlon Brando?

YVES
Marlon, um selvagem como você, no cinema ele chegou aterrorizando uma
cidadezinha rural da Califórnia, mau, com sua gang-de-motocicletas e as pessoas
lhe perguntavam: contra o que você se rebela Johnny? E ele não sabia e
respondia: O que você acha? Aí ele conheceu uma mocinha da cidade e ficou
dividido entre o amor e a violência, entre a revolta contra o conservadorismo da
cidadezinha provinciana e o amor da menina. E ele não sabia o que preferir, o
amor ou a revolta, esse adolescente confuso, agressivo e perturbado e o amor lhe
perguntava sempre: Você se revolta contra o que Marlon-Johnny? E ele respondia
só: o que você acha?

MODA JOVEM MARGINAL

YVES
Existe uma forma de moda
A mais radical - a moda marginal
Seus inventores são jovens rebeldes
Hoje, todos querem ser jovens
A juventude está na moda
ノ moda ser jovem
Veja aquela esfinge setuagenária
trajando short-esporte
se sente jovem
Jovem é estar na moda; é ser esporte
Olha aquele bando de jovens pobres, cuspindo, vomitando
chutando baldes de latas, atirando latas de cerveja vazias em direção ao meu
império de moda,
gritando quebra-quebra, almejam o meu castelo de vidro, o meu castelo de amor,
são outros selvagens, a eles só restam as drogas, rock, revolta e sexo feroz. Tudo
alimenta a moda, é material pra cachola criativa e mutante da moda.
Todo dia ao meio-dia é esse mesmo ritual de revolta. Agem pela lei dos
marginais, tentam destruir aqueles códigos que não conseguem assimilar.
Ignorância ou justa revolta?
A moda absorve tudo isso e depois devolve esse detrito em forma de lazer, para
vestir, sentir prazer e ser feliz.
Os pobres são o lixo do mundo,os que governam o mundo varrem esse grande
lixo para debaixo de ricos tapetes persas.
Vamos até a galeria das revoltas, lá você vai ver
o filme-mundo desses jovens brutos
(Entram numa galeria freqüentada por garotos rock and rooll cheia de lojas de
discos, livrarias e revistas em quadrinhos. Dentro da galeria, um grupo de punks,
revoltados, revirando e quebrando tudo).

UM-GAROTO-REBELDE (gritando em hardcore no meio da galeria)


Não pense que o meu amor pode te destruir
porque eu estou vestido assim
minhas camisetas brancas mutiladas
roupas esfarrapadas e desfiadas
vomitando rancor.
Roupas furadas com alfinetes de segurança
perfurando o teu olho
eu sou um garoto podre sado-masoquista,
e este é o meu look selvagem
O que está na moda?
o lixo, o traje rasgado, descosturado
me trajo assim só para te chocar
minha roupa é pura provocação
desmazelado, ostento o paupérrimo e o disforme
e você se choca contra o muro de suas formas
eu sou uma criança perversa furando ânus nas minhas roupas pra te agredir
meus jeans gastos
cheios de buracos puídos
é pra te agredir
você olha pra mim com essa sua cara pálida de pavor e me insulta:
"garoto transviado
o teu traje roto já diz que você é
um porco jovem, bem marginal", ao que eu respondo:
"Sabes o que eu fiz vestido assim de desalinho?
Joguei ácido na cara da Mona Lisa no Louvre."

(Yves arrasta o Selvagem do meio da confusão da galeria do rock, em meio ao


alucinado alarido das tribos urbanas nos corredores da galeria, o herói Selvagem
se perde e acaba entrando num Estúdio de Tatuagem).

TATUAGEM

KOTOK
(Entrando no estúdio de Tatuagem)
Ao entrar na porta da vossa grande mãe civilização desejo marcar esse fato
especial com um novo rito iniciático
Gostaria que me tatuasse com tuas tintas e tuas marcas culturais. Eu sou um
herói índio, um astronauta da floresta

ANJO TATOO
Você também se tatua meu jovem selvagem, o jovem selvagem da floresta
também se tatua como os jovens selvagens de Gothen-City, a Metrópolis dos
vampiros, que é uma floresta de vidro, sombra, pedra e ferro. A plenitude da
pessoa é fartamente decorada com combinações inventivas

KOTOK
Urucun e genipapo.
o vermelho e o preto
como cores básicas da pintura corporal
dos indígenas plásticos
resumem no jogo do vermelho e preto
temas cruciais da vivência humana
ANJO TATOO
Temas cruciais da vivência humana
baby, da vivência humana, baby.
A vida procriação e a morte agressividade, urso, porco.

KOTOK
Urucun e genipapo

ANJO-TATOO
Deixa de papo furado seu pato nativo,
seu transviado juventude transviada
idade 17. Lúmpem fora do mercado de trabalho
tumulto e agitações desespero dessa juventude
Transviagem

KOTOK
"Uma luz cegante e tormentas de fogo agonizante gritando: Nunca! Nunca mais!"
Jenipapo fruta de esfregar
esfregar para pintar-se
com a bonita cor azul negra
dos pés a cabeça como ornamentação
individual, tribal, religiosa

ANJO TATTO
Ilustrar a nossa Pele
trazer de volta a nossa tela-memória
origens de civilizações mais remotas - Idade da Pedra:
Corpos marcados corpos tatuados
Imprimir as nossas revoltas modernas
Urbes urrando pelas cidades metáforas.

KOTOK
Tatuagens marcas religiosas
para se obter junto aos super espíritos
poderes de procriação
e agressividade e agressividade
Lobistas querem saber os nossos motivos decorativos
Lobistas consumistas
Os nossos motivos decorativos:
Flora e fauna
Especialmente das espécies aquáticas:
Comunicação, mensagem através das cores
Vermelho, preto, branco, cinza
Comunicação com o mundo da natureza encantada
Comunicação na selva agônica
Permite ao caçador aproximar-se dos animais
Confundindo-se com eles pelo cheiro dos remédios
e pelos motivos gravados na pele
ANJO TATOO
Os nossos motivos decorativos
cavalo-alado, escorpião, samurai, borboleta, praia-selvagem,
maça do pecado, sereia, estrela, orquídea selvagem, tribal, pegasus.

KOTOK
Urucum afasta os maus espíritos os maus amantes
O cheiro do urucum é extremamente desagradável
aos espíritos terrestres ou aquáticos
permite evitar contato com os espectros da morte
Tatuagens, saturados
corpo do herói da tribo
todo marcado, a pintura do carvão misturado
com resina nas expedições de caça e guerreira
desde o olho até o membro genital
e a língua, não sobra um centímetro de pele
para imprimir uma borboleta minúscula no prepúcio

JANE DREAM - (Entrando no estúdio)


Abençoado seja o Anjo Tatoo
O varão tatuador
Dono do Estúdio Nirvana
Ilustrando sempre a nossa pele
Com seus desenhos arqueológicos
carimbos arquetipicos

KOTOK
E a garota que acaba de entrar no estúdio
com o corpo fechado de tatuagens tribais?

ANJO TATOO
ノ Rose Tatoo, ou Jane Dream, a virgem tatuada, ou Rosa Tatuada simplesmente,
ou a trapezista Lilly Braum, dependendo do disfarce ou do território que desponte.
Dizem que foi Deus que a tatuou no dia da Queda, desenhou no corpo dela a
serpente, o anjo e a cruz
Todas as virtudes e os pecados do mundo estão impressos nas costas e no
ventre de Rose Tatoo.

JANE DREAM
(Percebendo o Selvagem.)
Nu e com esses arabescos de sua tribo desenhados em cada face.

KOTOK
Nu me sinto vestido apenas com essa tatuagem, estou sempre com alguma parte
do corpo pintado.
JANE DREAM
Deves ser um soldado herói com esse
uniforme desenhado e pintado sobre tua pele
e com essa medalha marcada no teu pau
que balança ao vento e ao leu da arte.

KOTOK
Estas tatuagens são o uniforme da minha nação, meu brasão Nacional

JANE DREAM
Os meus amantes.
tive muitos amantes tatuados
Um marinheiro heterossexo
um trânsfuga do sexo
um amante com quem quebrei muitas louças de porcelana,
quis saber as minhas datas, meus estados eliminares
em que me tatuo-tatuo
Sempre celebro meus ritos de amor
tatuando uma tribal no corpo
tenho quarenta tatuagens impressas fechando as minhas costas
Quarenta são os meus estupradores
Já não morro mais virgem como uma santa

KOTOK
As minhas datas...meus ritos de passagem:
Nominação, menstruação, luto, nascimento, resguardo, casamento, iniciação do
xamã.
Um comportamento discreto e um afastamento da vida social

ANJO TATOO
Jéan de Léry: touriste
simples sapateiro
exilado da religião reformada
acolito do reformador Calvino protestante
viajante estrangeiro
desejoso de novidades
observou e comentou o que viu, relato de viagens:
"Pintam, muitas vezes o corpo
com desenhos de diversas cores
e escurecem tanto as coxas e pernas
com o suco de jenipapo, que vê-los de longe
pode-se imaginar
estarem vestidos com calça de padre
essa tintura preta do fruto de jenipapo
imprime-se de tal maneira na carne
que, embora os silvícolas vaidosos
se metam n'água e se lavem amiudamente
dura de dez a doze dias"
OS NOVOS MODELOS
YVES
Experimenta esse novo modelo um terno-gravata
escolhido e aprovado por clientela exigente, gente da imprensa, revistas de moda
e estrelas de cinema
é o que está na moda, mudar de pele, veste
ficas muito bem nesse terno-gravata
com calça saia
e esse imenso colar de pérolas-verdes
vem te ver nesse espelho de muitas faces
(Ele vem para frente do espelho e se observa como um Narciso radiante, com seu
new look)
mudas assim depois de milênios a tua imutável, imóvel, estática imagem
pareces um dandi, ou um lord.
Antes te vestias com adornos de tua tradição
Durante milhares de anos te vestias assim
Agora mudas, mudo o teu look,
entras na ciranda feérica e alucinada da moda.
Cheira esse vidro de perfume opium, perfume que ajuda sonhar, é a droga da
moda das Metrópolis.
Pronto, você está bem vestido, agora pode sair por aí seduzindo touros e leoas.
Poder de mistério e segredo, você vestido assim é o que seduz.

STRIP-TEASE DA TV DIABA
(No Cabareth da TV-Diaba, Yves, Kotok , Loura e Tarzan assistem um Strip-
Tease)

ERUS-C チ FTNE
Lady e gentlemam
O nosso espetáculo chega agora ao seu clímax
Senhores feitichistas, voyers hipnotizados
O Cabaret da TV Diaba
Orgulhosamente vos apresenta
A sua mais ardente atração
O clímax de sua global programação
Jane Dream, a garota dos Sonhos
Tira a roupa toda para todos
Mais sedutora que Salomé essa tarada por cabeça de santo
Ou mais que Mata-Hari
Que levava agentes militares para a cama em troca de segredos
A espiã que dançava atrai a e traia
Jane Dream!
tão ou mais misteriosa que a noite arcaica
O fascínio penetra vossas órbitas
Magnetizando-os
Se delicie, doce colírio para os olhos de narcose
Olhe e goze. Goze pelo olho. Lágrima e esperma. Gotas de coito.
Colírio e massagem no vosso olho egípcio
Surgindo do oculto onde habitam os gatos
essas errantes e misteriosas criaturas da noite
Dream criatura da noite invade seu sono
Penetrando seus sonhos com seu strip-tease de rapina
E com vocês Jane Dream
(Jane Dream aparece iluminada por uma luz lilás envolta em todos os mistérios.
Inicia o Strip, ela começa a tirar partes da roupa. Ao fundo um Go-Go-Boy, dança
se contorcendo todo como uma serpente)

JANE DREAM
Então gostaram do meu strip-tease? Gostaram da minha arte? Strip-tease, balé
moderno antigo. Grande arte. Você diz que o que eu faço é pornografia. Você me
acusa. Eu te respondo: PORNOGRAFIA ノ ARTE. Eu sou a TV Diaba, cheia de
sexo e violência, cheia de carne. Quem me estupra. Guerra de Sexo. Quem
estupra a tv-natureza, o comercial-eletrônico? Quem compra uma poça de lama?
Com tanta publicidade assim acabo afogando na minha torrente sensual os meus
expectadores fanáticos. Onde está a minha cobra mitológica para picar meus
seios publicitários? Não uso soutiens, se os usasse usaria os de lingerie, para não
ser picada por minha cobra. Sou Cicciolina Rainha Pagã de Roma pagã, os
Ignudis urinam no meu corpo enquanto falo no meu telefone vermelho. Vê se me
suporta, os meus vestígios estão em toda parte, em toda arte. Sou comunicação
de massa, notícia, cantora de ópera pop, programa de auditório, olimpíada
esportiva, comercial de tv, teatro, vejam estou tirando a última parte, depois disso
fico totalmente nua, totalmente Eva.

TODOS
Tira! Tira! Tira! Tira tudo! (Agora o Go-Go-Boy-Serpente está filmando o final do
Strip-tease com uma câmera de cinema. O Strip-tease acaba, a Prostituta Pagã
some levando para fora do palco uma ocultação final.)

(O Selvagem sai da Boite excitado, caminha por uma rua escura do submundo da
cidade, numa esquina encosta-se num poste de eletricidade. Chuva de esporra.
Névoa de semente borrifando de luzes de nascimento e treva da cidade. )

FASHION

YVES-SAINT-LAURENT
Elas desfilam na passarela-espacial
Modelos femininos. Manequins de vidro. Seres de silicone
Mulheres artificiais. Andróides da Moda.
A passarela é um mundo luminoso
Um caminho iluminado réstia de glamour e alumínio
.Um mundo de vidro transparente
onde está guardado o homúnculo fictício de Goethe
em versão feminina mais frágil ainda
onde mulheres anoréxicas vagueiam como seres mecânicas
Vagabundos tontos de Samuel Bechkett num vai e vem
Criaturas autômatas, sobrenaturais, sedadas de indiferença teatral
Fêmeas incomunicáveis
Cabides humanos de indumentárias históricas bem antigas
desfilam entre fantasmas e fumaças
Música techno e muito silêncio emblemático
Nenhuma palavra Teatro não verbal Teatro da incomunicabilidade
Muda está a árvore serpente no meio do Paraíso.
Mudas, indiferentes como um dândi
que sente prazer em provocar admiração e satisfação
orgulhoso de jamais ficar admirado
Baudelaire um homem que era uma rosa e um espinho no pé
me disse: Todas as modas são encantadoras, todas são flores
Quem se veste? Quem fica nu?
Eu visto e desnudo quem bem quero
bem e mal me quer
Deusas da indiferença eu vos suplico chova ao menos
um suspiro de emotividade para a minha bola que te aplaude!

A VOZ DE UMA TOP MODEL VINDA DO AR


モ círculo de compradores, ó esfera de cédulas
Você compra a roupa que eu exibo
mas, eu não me emociono
e nem precisa me aplaudir
o aplauso cria uma relação
e a indiferença é o nosso pacto de compra e venda.

YVES SAINT LAURENT


A natureza é o horror e beleza embeleza a natureza?
Ou a natureza embeleza a beleza?
Quantas estações dura um vestido?
Acaba a estação a roupa sai de moda?
Acaba o verão e desponta uma ponta de inverno na minha vida.
Os grandes vestidos são eternos.
Modelos antigos. Modelos novos.

YVES SAINT LAURENT


Maquiar Garbo para que ela seja eterna
no cofre do tempo longe da natureza.
Garbo tinha medo de ser invadida
pelo tufão da terra
e que no rosto dela se formassem rasgaduras de rugas
que o corpo dela fosse inundado ou queimado
por algum vulcão erupto
e que ela se tornasse novamente pó da terra.
Por isso ela vive sempre cobrindo o rosto com pó de arroz
congelada no iceberg do tempo.

Z ヤ O E A ARTE DO CORPO-CIBORG
(Viajam num bonde-chamado-Desejo em direção ao Zôo de Metrópolis)

IVES SAINT LAURENT


Estamos chegando ao Zôo de Metrópolis. O nome do Zoológico é Cova dos
Leões, o nome da rua de Metrópolis onde fica o Zoológico é Babilônia, a rua do
bonde desejo é Campos Elíseos, viajamos nesse bonde, o bonde desejo, até o
Zôo de Metropolis, Cova dos Leões.

(No Zôo são recebidos por Dr. Claude o diretor do Zoológico.)

DR. CLAUDE
A que devo a honra da visita de tão ilustre comitiva nesse automóvel-cyber?

IVES
Dr. Claude, este-estes é Kotok
Daniel Kamaiurá para os brancos,
o nome Ocidental
um Kamaiurá do grande tronco tupi
quase transformou-se num felino violento

DR. CLAUDE
Eu não sou Frankenstein.
Eu não sou o criador.
Kotok não é a criatura.

KOTOK
Eu não sou a criatura
Nem sou eu Frankenstein

DR.CLAUDE
Eu sei, uma alma selvagem
Um self-ciborg-animal
Eu conheço bem esse pensamento feroz.

IVES-SAINT-LAURET
Dissemos para nos próprios: porque ficou tão agressivo e violento precisamos
levá-lo a presença do Dr. Claude, o Diretor do zoológico “Cova dos Leões”, o
Dr.Claude entende muito bem dessas almas-selvagens.

DR. CLAUDE
Eu conheço bem esse pensamento feroz.
Mas antes de lhes falar de alma-selvagem os convido para jogarmos um lance de
dados com a arte moderna, aceitam?

LOURA BB
A arte moderna...
O que a arte da era moderna fez do meu corpo? O que fez a arte moderna com o
meu corpo? Retalharam meu corpo, o que o dadá fez, o que fez o surreal, besta
surrealista, o meu corpo torto, entortaram todo o meu corpo, retalharam, pedaços
e pedaços, esses açougueiros-experimentais-modernos, esses outsides,
sensibilidade-moderna, o meu corpo torto, bela, deusa bela, o corpo e o rosto
perfeitos, deusa, deusa de hollywood, virgem Maria despida por seus celibatários,
mesmo, por seus operários, corpo-elétrico, des-matéria, noiva-máquina, virgem-
de-vidro-rachado, voyers-operários, proletários-robotizados, escravos dos
serviços mecânicos das metrópoles, a arte problematizou o meu corpo, arte
moderna, arte contemporânea, disforma e distorce o meu corpo, linda que sou,
linda, distorceram o corpo, disseram: o corpo dela se disforma se distorce. Goya,
Picasso, Duchamp, Chirico, Francis Bacon, linguagens e linguagens do meu
corpo,
garota abstrata musa-híbrida
boneca-multimídia eu estou morta
eu estou sonhando eu estou levitando
inflável e budista
deslizo com meu automóvel pelas ruas siderais e Alphaville
uma atriz Godard, uma estética fragmentada
eu estou nos dois estados
de sonho e morte
Um critico cego, um travesti-Tirésias, uma trava-romana de 3 mamas, um pata-
cega e adivinha, disse que o meu corpo aparece sempre em público como "um
invólucro sem interior, uma carcaça vazia, um molde oco, um casulo sem carne,
uma película, um ogro." Ha! Ha! Ha!
levito, transcendo, polifônica, tenho tantas vozes tenho microfônicas e microfonias
sintética e abstrata, cubista
cubesta, besta-surrealista, virgem-virgem
eu sou a noiva da arte moderna, me casei com ela, diáfana noiva do anjo e do
demônio, noiva do mal, papoula e ópio do mal orquídea negra diáfana e sublime
lindíssima e disforme me mirando no espelho biforme-disforme deformante e
aleijado da arte moderna na nada suave e maligna
mas não sou eu, sou uma atriz, uma performer, um figurino variado e trocas e
trocas de roupas, lá vem BB, lá vem a atmosfera sideral e os automóveis-
futuristas de Alphaville, Deusa das Metamorfoses

DR. CLAUDE
Mas a arte na era moderna quer mais, a arte pós-humana
quer parafusos e parafusos enfiados no corpo, implantes de microchips, implantes
de memórias, implantes de glóbulos oculares, a arte da era moderna quer
ciborgs, robôs, andróides, quer imagens de seres-hibridos perambulando com
suas próteses pelas ruas escuras e sujas de alguma metrópole, Roma, Los
Angeles ou Babilônia ou Nínive-baleia ou Tróia esfumaçada em ruínas e cheiro de
enxofre, ou Sodoma que olhou para trás, ou Gog Magog cidade dos demônios, ou
Zion dos rastafaris, ou Paris das Luzes, o artista da era moderna diante de tantos
avanços tecnológicos, diante de tantos Faustos-modernos e de tantas maquinas
de diagnósticos médicos, a arte da era moderna quer erotismo mecânico, drogas
sintéticas, próteses midiáticas e militares nos corpos humanos, implantes de chips
no córtex celebral, fusão de metal e carne.
O que faz com o corpo a arte contemporânea? Faz artimanhas e faz ciência-
disforme, faz arte-homem-máquina. Corpo mutante, corpo virtualizado, Musa-
robótica,

LOURA BB
Mulher monstra, esfinge-moderna, tenho corpo de mulher, asas da águia, chifre
de touro, pés de pata e cabeça de Tv, antenas de arames enfiadas no meu
ventre me emprenhando com seus espermas-metálicos, eu dou nó, eu liberto, eu
gozo, você goza, a aldeia-global goza, a Freeside goza
erótica e autofágica meu corpo transcende, se disforma, se multiplica, em formas
e formas,
formas de bolos e rebolos, lúcida e zonza, científica e aleatória, arte e ciência
levito outra vez pelo milésimo recorte, e a experiência cientifica...
Eu fumo o meu rabo há há há eu sou moderna, eu sou obra de arte da era
moderna
eu sou arte e ciência

DR. CLAUDE
Que tal um ritual eletrônico, uma homenagem a arte-ciborg, uma sessão de
experimentalismo artístico transmoderno? Algo como uma rave, alucinações-
cibenéticas, LSDs virtuais, drogas sintéticas, entusiasmos, êxtases
transexamânicos, xamanismo e virtualidade, transe, roda-mística, interatividade-
eletro-magnética, ambientes-computacionais, espírito-espírita, sessão-espírita,
imaginário maquínico
mesa branca, mesa preta e branca, mesa tecnicolor, psicodelia, mesa de cirurgia
plástica, de rosto monstro. beleza. rôbos-beleza. gens, genomas, djs, celurares
com câmeras. homem-máquina ou homem-homem através da maquina. a arte
quer ciência. a arte tem fome e come a ciência. a arte tem tara de máquina.
ciborgs-sublimes. a arte quer nanotecnologias, quer engenharia molecular, quer
inventar criatura híbrida, seres monstros, quer homem máquina, monstros
eletrônicos, humanos-humanos-cheios-de-implantes-metálicos. abra sua carne e
enfiei nela chips e proteícos-proteícos, tecnologias computacionais, engenharia
molecular, explosão de raios das redes de informações e comunicações, raios x,
tomografias computadorizadas, clonagens, ecografias de um coração com som
cardíaco em pulsão continua, ecografias, imagens em video-endescopias. o
artista moderno quer bio-arte, quer radioatividade, bio-tecnologia, neurociência,
genética, engenharia molecular, radiação ultra-violeta, games eletrônicos,
metrópole soturna, um mundo futurista em que a genética determina os
relacionamentos amorosos, Dr. Ocputus que possui braços mecânicos
implantados que acabam por tomar conta do celebro desse personagem-ciborg.
ódio, ciúmes, invejas, paixões profundas, picantes, paixões ardentes, mediadas
pelas maquinas. Sinto-tonto uma atração sexual pelas máquinas, sinto um desejo-
maquínico, erotismo-maquínico. Numa temporada de ferias numa praia-artificial
em Alphaville tive um caso ruidoso com uma bailarina androide que dançava com
uma serpente-robô num night-clube virtual. Ciborgs, andróides, robôs,
scaneamentos, humanos-maquinizados. Arte genética.

Há também o caso daquele robô Andrews,


que empregou todos os esforços e recursos disponíveis e ficcionais
para transformar o seu corpo maquínico em corpo humano.
Complexidade das trocas
entre o homem, as máquinas e seu entorno.
O humano, oposto ao robô Andrews,
segue em direção ao maquínico pelo uso de próteses,
para compensar o corpo humano de sua obsolescência
partindo do maquinico, buscando o humano.
Tivemos dor e compaixão de Andrews, o robô,
uma máquina que sofria em seu corpo os efeitos tecnológicos
e desejou tornar-se semelhante à configuração humana,
e tanto fez que consegui.
O maquínico de Andrews procurou pelo humano,
interiorizando de tal forma o desejo de ser humano,
Andrews abdicou de sua imortalidade, correndo o risco de
ser mortal, não teve medo de ver a face terrível da morte,
Engraçado esse Andrews, esse robô, quis ser mortal.

TARZAN
(Num acesso estético-histérico-cibernético)
URURURURURURURURURURU!!!!!!
Quero ser uma máquina!
Urinar gasolina Duchamp.
Um rádio, um celular, um computador portátil
Urinar gasolina-Duchamp.
(Urina gasolina azul no centro do laboratório)

DR. CLAUDE
A arte quis ver o homem-Robô, recitando versos mecânicos, recitando Ovídio
latino e antigo em voz robotizada:
“Sombras no espelho: fera
Uma calda felpuda sobre o nada
Rosnar de lince, e um ocre odor de feras
onde havia cheiro de alcatrão.
Refôlego e pisadas de feras, pêlos roçando meus joelhos.
(...)Vácuo se incorporando
Ar sem vida ganhando nervos
Felino lazer de feras”

DR. CLAUDE
Por tudo isso proponho uma experiência científica-estética,
artes do corpo-bio-cibernético.
Uma experiência de teatro. E a nossa era. Era dos teatros virtuais.
Por isso encenaremos esse teatro virtual. Aceitam?

TODOS
Aceitamos, adoramos a arte contemporânea, seus hibridismos, seus corpos-
monstros-eletrônicos.
IVES-SAINT-LAURENT
Vamos amarra-lo nessa experiencia, senão ele incorporado quebra todo o nosso
laboratório, nesse vôo-avatar. (Amarram Kotok, que se deixa amarrar
espontaneamente.)

(Inicia a experiência. Kotok qestá numa bandeja-prateada no centro do laboratório


o corpo nu, vestido de idiogramas-indígenas, pintas de onça amarelas e pretas,
pinturas no corpo imitando marcas do felino, tatuagem kamaiurá.)

(O corpo de Kotok é escaneado pelo Dr. Clauss, ele está deitado nu sobre o visor
do escaner, ele é escaneado por inteiro e em pedaços: membros, braços, pernas,
tronco e rosto. O Dr. Clauss operacionaliza o escaneamento no computador, vê a
imagem na tela do computador,
transporta essa imagem para o photo-shop
no phot-shop funde a foto humana de Kotok
com a fotografia- de um animal, um Jaguar –
superposição de imagens – a do humano-Kotok e a foto da onça. Justapõe-se as
duas imagens submetendo-as a um processamento de layers (“camadas”) do
Photoshop. Aplica-se filtros, efeitos de opacidade e transparências às imagens,
sobrepostas às imagens do humano Kotok com uma foto de Jaguar.)

(Essa imagem-híbrida, fusão de imagem-humana e Jaguar - é transferida para o


programa power-point onde é transformada em slide. O Dr. Clauss conecta o
projetor digital ao computador. Projeta essa imagem espectro-humano-Kotok-
Jaguar sobre o corpo selvagem de Kotok, o corpo contraído e lânguido como o de
um felino.)

DR.CLAUSS
Descarga de imagem projetada através
de projetor digital
no corpo de Kotok
veste ele de animal
roupa digital de Jaguar
roupa imagem animal digital

KOTOK
Imagem projetada no meu corpo
essa imagem entra no meu corpo,
extensão do meu corpo,
prótese - cyborg
criando um ser humano-animal-imagem
alterado o meu corpo
a luz da tela imersão
bits de dados eletrônicos
partículas de luz
espaço incorpóreo de bytes e luzes.
A tele-imagem imersa no meu corpo,
alterando meu corpo, imagem-protese,
ciborg, ser frankesteiniano
ciborg, híbrido – dividido entre o orgânico e o maquinico
imagem-criatura humano e animal
criatura-outro – outro-criatura
percepção hibrida
monstro-eletrônico
frankenstein-digital

(A imagem vai gerando um processo de metamorfose, a parte da imagem-


humano vai desaparecendo permanecendo apenas a imagem-feroz-animal, a
imagem Jaguar.)

KOTOK
O que é o meu corpo, um humano, uma roupa animal, uma imagem?
são peças de software, são avatares.
Meu corpo são corpos audiovisuais
as pessoas usam meu corpo-bit para comunicar
umas com as outras no metaverse.
Perdido estou e sou nesse espaço-ciber
as coisas não tem forma física,
meu corpo não tem forma física,
compostas as coisas todas e meu corpo
de bits, de dados eletrônicos e partículas de luz.
Homem neurônios, superestradas-labirintos-eletrônicos,
ciber-espaço criado por computadores e megamemorias perdido e salvo, com fio
e sem fio de Ariadne, nesse novo meio ambiente eletrônico do pensamento
coletivo da ciberarte. Nu no mundo virtual em meio a troca troca e confusão de
informações de homens nas redes de comunicação, mil janelas abertas.

JANE-DREAM
A fera, o felino feroz-animal continua atado, do contrário seria um caos no
laboratório, ele poderia destruí-lo com sua ferocidade animal.

DR. CLAUDE
O Jaguar é humano
Ele foi humano
Ele é gente mas é também Jaguar
O Jaguar é Jaguar, mas tem
um lugar oculto que é humano

KOTOK
Eu era Hamlet.
Eu sou Ofélia.
Não sou Hamlet.
Aqui fala Jocasta-ノ dipo.

Eu sou gente
Eu vejo como gente
Eu me auto enxergo como uma pessoa
Nós Jaguar nos vemos como gente
Olho a imagem me vejo
Que vejo a mim olho
Eu sou gente eu vejo gente
Olho a imagem me vejo
Eu sou gente eu vejo gente dentro’deu
Eu me enxergo como Jaguar pessoa
Pessoa Jaguar a mim vejo
A minha voz é uma voz humana
o meu ronco humano a roupa é que é Jaguar
O envoltório que é Jaguar
A forma manifesta de cada espécie é um envoltório
ノ uma roupa de animal

(Trazem ma prancha-vólatil, colocam o feroz sobre ela, transportam-no até uma


jaula onde ficará encerrado na ala dos felinos ferozes. Deixam-no trancafiado e
partem. No dia seguinte a surpresa, ao chegar no Zôo, o Dr. Clauss, movido por
obsessiva curiosidade de pesquisador encontra o corpo de Kotok-humano nu,
dormindo enrolado no chão da jaula, apenas com garras de Jaguar, ao lado uma
pele (roupas, envoltório) de uma onça.)

DR. CLAUDE
O animal despido assume sua figura humana.
(O Tarzan está vestido num escafandro, um peixe fora dágua, a Loura do Táxi-
Chuvoso-de-Dali num traje de astronauta.)

KOTOK
O animal é a roupa
Você veste o escafandro você funciona como peixe
Você veste como o astronauta e domina o aeroespaço.
O animal é o envoltório
O que está dentro é o humano
Debaixo da roupa animal
Ao tirarmos o envoltório, o animal
Está o humano,

IVES SAINT LAURENT


Aquele vestido, calça e camisa
Luvas garras
Aquele macacão de panterus
ノ o animal
Coloca o figurino na arara
No camarim da Maison do l’amour

DR. CLAUDE
O envoltório manifesto da espécie Jaguar
Despido está o humano, a roupa, o envoltório é o Jaguar é o animal
Admirável mundo selvagem
Admirável mundo animal
Pensamento selvagem
No fundo está o humano
Na origem todos os animais são humanos
Na origem a humanidade.

IVES SAINT LAURENT


Darwin nos disse, nos cuspiu essa praga. Antes era o animal depois veio o
humano brutal, é o ocidente. Isto é ocidental. A metamorfose do animal pro
humano. Não a metamorfose do humano ao animal. Logus selvagem.
Pensamento animal. A arte bem pode pensar assim. Eu não posso. O que eu
posso pensar? O animal virando humano civilizado. Por isso construí infinitus
vestidos gregos-latinus, latindo humanos ocidentais. Pragas, baratas, gafanhotos
pragas animais, animus meu costureiro de gentes e civilizados. Crus-crus, nus-
nus, cozidos, costurados em máquina de costuras industriais.

KOTOK
Onde está a minha roupa animal? Só ficaram as minhas garras, as minhas
unhas, unhas de felino. Onde está a roupa d エ animal?
Quero virar Jaguar outra vez.
Depois do humano o animal
Depois volto ao humano original.
O xamã é o processador
O xamã é o programa
O conectador do espaço virtual
ノ o softweear
(Imediatamente diante de todos, veste as roupas de Jaguar e vira um felino outra
vez

DR. CLAUDE
ノ um envoltório, uma roupa
Esconder uma forma interna humana.

IVES
(Ives transtornado e altamente irritado rasga a roupa de Jaguar,
arranca-a aos pedaços e por debaixo vai reaparecendo outra vez a forma
humana escondida sobre o envoltório animal. Irritado)
Tira a máscara animal
Tira a máscara Jaguar
O que está oculto atrás daquela roupa?
Não é um a roupa, é apenas uma máscara, a do Jaguar
Oculta sobre a máscara do animal está o humano
O jovem Kotok
A essência é o humano Kotok
Só a máscara é o Jaguar
Uma roupa trocável e descartável
As roupas são para serem trocadas e descartadas
As roupas são sempre trocáveis e descartáveis
Toda hora mudamos nossa camisa
A moda passa mudam-se as estações
Os grandes vestidos são eternos
E o eterno é o humano.
A roupa passa, o ferro de engomar
No fundo está o humano
O Jaguar é a roupa e a máscara onde fazemos o serviço do animal.
As folhas cinzentas do bosque caem no frio da minha alma efêmera
O que vestirei no inverno-inferno?
Veste essa roupa de Jaguar.
Tudo muda
Só não muda o interno humano
Veste esse terno de urubu, esse cinzento
São Paulo Metrópolis céu cinzento.
Como vamos vestir todos esses bichos nessa grande festa
do céu? Deus como vamos vestir de animais esses humanos voláteis?
A metamorfose dos seres, espíritos mortos, Xamãs, bichos que viram outros
bichos. Humanos que são inadvertidamente mudados em animais. Quas! Quas!
Quas! Onde arrumarei tanta roupa para esse baile de feras. Culturas amazônicas,
de metamorfoses radicais, metamorfose o reverteu em algo belo e humano em
animal.

IVES-SAINT-LAURENT
Olha o que estava escondido
embaixo do envoltório felino
uma forma humana
um interno humano é o que é.

KOTOK
(Ingênuo e promíscuo)
O meu corpo é o nu primordial,
Despido da roupa animal
Self-nu-ciborg.
Corpo, alma do corpo, o meu corpo, o meu coito.
Humano nu, sem roupa animal.
Eu sou o nu corpo, o humano. Eu sou o que sou o corpo nu-mano.
(Yves recolhe os trapos de roupa do Jaguar e abandonam o Zoológico no mesmo
bonde-ciber-espaço que chegaram)

LUA-DROGA

YVES
Cheira essa droga das Metrópolis, Opium. Flores de papoulas, perfuma e ajuda a
sonhar. ノ a Droga das Metrópolis. Cheira mais esse perfume, aspira aspira e
sonha. Sintéticos, flores e papoulas. (Ele cheira, aspira fissurado, asfixiando-se,
fica chapado alucinado se olha no espelho)
KOTOK
Eu estou nu, só agora vejo que estou nu outra vez. Preciso colocar meu cinturão
peniano, preciso me cobrir.

YVES
Quem te disse que estavas despido, e que precisavas te cobrir.

ANJO EXTERMINADOR
Eu o anjo Exterminador. Deus meu grande general me ordenou:
Vai lá e acaba com os abusos dele.
Depois de comerem o fruto proibido, Deus mandou que andassem vestidos,
é só ler no livro do Gênesis. O Gênesis é um belo poema de origem
carregado de soberbos símbolos.
Esse aí resolveu continuar nu
por isso vim lhe anunciar um castigo
avivar-lhe a memória
você está nu animal ferido
precisa se cobrir.
Você é um Selvagem, não conhece a fábula do que comeu o fruto
e precisa se vestir. Só porque comeu fruto proibido precisa se vestir.
Quem desconhece a fábula não sabe que precisa se vestir e anda nu.

KOTOK
O poeta Milton me disse em seu paraíso perdido.
"Busquemos algumas árvores que tenha largas
e brandas folhas que a cintura,
cozidas juntas, a ocultar nos sirvam
e com esse adorno cobrir nossa horrenda vergonha
tal qual achou Colombo
em selvagem nudez
e vivendo entre árvores dilatadas
no fértil continente em férteis ilhas.." (Paraíso Perdido - Milton)

ANJO EXTERMINADOR
Você está nu, outra vez, sim, seu drogado.
(Atinge-o no queixo com um soco inglês, o Selvagem desaba no chão, Yves
protetor acode-o e coloca-o de pé outra vez diante do espelho.)

YVES
Cheira esse vidro até o fim, até que fique seco, cheira tudo até que o frasco de
Opium fique vazio.
(O Selvagem cheira todo o conteúdo de perfume Opium depois olha pela janela e
vê a lua cheia)

JANE-LUA
( Uma voz off. Como se estivesse falando numa linha de telefone cruzado.)
Meu afilhado amante overdose, se me alcançares, enfiarei meus dentes afiados
de luz em tua jugular, te vampirizo, como vampirizo frutas até que fiquem
chochas, caju queimado, eu o queimo com minha luz, goiaba minguada, raízes
alimentícias defeituosas mirradas e finas, gomos de cana encarnada e azeda é
sempre participação criminosa desse astro frio e romântico, tua madrinha, vem
que te vampirizo, se conseguires alcançar o fio deste poste de eletricidade, me
atinges. Tenta, meu bom equilibrista, tenta e vem dançar comigo uma valsa
iluminada e fria.

KOTOK
Lua minha madrinha mítica apaixonada
Quero te apertar nos meus braços, lua louca lua alucinada.
Quero nadar nos teus braços de luz, lua laminada, lua inundada, lua nua,
Estou nu lua, nu e confuso
Lua cheia, grávida de graça e de ácido
Luz de excessos
Quero tocar o teu corpo lâmpada-raínha

Me banha, me lanha, me veste, me veste com teus raios de luz.


(Vê um fio no parapeito da janela)
Acho que posso tocar nesse fio elétrico
lua Ariadne me tira desse labirinto vil, humano, da história, esse pesadelo drogg,
Quero acordar mais não consigo, que torpor, os teus raios são fios telefônicos que
me tiram desse labirinto, estou drogg te peço um fio só de tua luz, te toco, te
abraço, vertigem. (Agarra-se ao fio e cai pela janela, na rua em meio a multidão lá
está ele, no chão, completamente nu e sujo de sangue com todos os ossos
misgalhados)

LOURA BB
Eu quero ir pro baixo
quero ir em direção a animalidade, me fundir e me sujar com ela
eu quero ir para o lugar das bestas
me misturar no estrume e na glória das bestas
eu quero fugir para floresta das florestas

FIM 2 ATO

III ATO
XAMANISMO THE CONNECTION

- o eu é sempre o outro, mas o outro não é o eu, é o outro do outro. –


- esse Ato está livre-anarquicamente inspirado na montagem de “The
Connection” –- do Living Theatre de Julian Beck e Judith Malina, texto de Jack
Gelber(1959) -

NAMORADO DE ALICE ESCTASY


Uma reunião de drogados que espera Cowboy, um negro fornecedor de
drogas, que o grupo de drogados espera. Os drogados estão conectados, o
Xamã realiza essa conexão fumando o seu cigarro de tabaco-Jaguar, o Xamã-
jovem está na reunião de drogados, o Xamã ativa o devir-onça,

PRODUTOR DO FILME
o Produtor de um filme que imagina a reunião de drogados tem um sonho
aflitivo, que uma peste contagiosa iria invadir a reunião de drogados e por
conseguinte o filme, afetosJaguar, unhadas e dentinas, caricias e rancores,
vão invadir as cópias de filme de nitrato e as imagens da imagem do filme, a
imagem Jaguar, vai invadir a reunião de drogados, o roteirista do filme entra
em pane, ele-eles vêem o roteiro se fragmentar todo, ele-vêem os fragmentos
se derretendo, as partes do filme as cenas e as sequências do filme se
alternando, montando e desmontando, eles reforçam a segurança da festa ao
invés de 1 segurança 3 fortemente armados, mas a peste já está instaurada,

IRM テ O DE ALICE
o Xamã já ativou o devir Jaguar e o ambiente já está contaminado de
afectividade Jaguar, de agressividade, de opostos, o Xamã traiu a reunião,
mudou o roteiro do filme e o roteirista está bravo vomitando no vaso sanitário
do banheiro, logo o Xamã que fora convidado para dar um ar místico, um afeto
da natureza, uma mística da natureza e do cosmos,

PRODUTOR
a construção do roteiro está parada, as imagens futuras estão embaralhadas
no passado e o presente está suspenso, os tempos todos da ação, de dia ou
noite, é mais noite, estão embaralhados,

NAMORADO
o roteirista vê tudo nublado e não sabe se é interno ou externo e vomita no
vaso de merdas, peste, a arte tornou-se peste e a epidemia Jaguar se espalha
pelas cópias de filmes de nitrato.

ALICE ESCTASY
Alice Esctasy, ingere sua última bala, um comprimido e água, meio
comprimido, um quarto e mais um quarto de comprimidos, comprimidos de
esctasy, tentando achar sua medida, como uma médica ela mesma se
prescreve – eu me prescrevo, eu preciso saber as medidas do meu corpo
minha resistência, meus excesso, eu me prescrevo eu me meço, eu me
excesso, eu me afeto desafeto, eu me iro, agora é sábado e na segunda eu
tenho que estar careta no trabalho, com cara de boa mocinha, os outros os
outros prescrevem Alice, prescreve doses de ecstasy, ela vive sempre
tentando descobrir a medida de seus afetos e de seu corpo e o corpo dos
amigos e dos antagonistas, doses e doses, comprimidos, meio compridos, um
quarto e mais quarto de comprimidos,

NAMORADO
recebe uma pancada forte da bala, fica doida, Alice sonha aflita, que uma peste
invade o seu pequeno mundo outro, adoece, febre e tontura é a peste que está
invadindo contagiando infeccionando o corpo dela, queimando as suas entranhas,
pulverizando organicamente seu corpo de uma liquidez animal,

IRM テ O
no rádio (o rádio-Xamã) a notícia de que uma peste invadia e arrasava a cidade, o
corpo da cidade e o corpo das pessoas outras da cidade, contagia a cidade e as
pessoas estão todas acamadas, os hospitais estão lotados, os outros estão
relacionados, dois garotos o irmão e o namorado de Alice Ecstasy que se
adoravam, que tinham entre a eles a figura referencial da irmã de um e namorada
do outro, dois cunhados, iniciados em balas e doce, terminado o serviço militar,
começam a se odiar, declaram guerra um contra o outro e Alice no meio do
tiroteio do irmão-namorado, referência do duelo entre cunhados sem o qual não
há outro, não há dois, 3, não há muitos..

NAMORADO
e o Xamã continua a fumar seu cigarro-mágico, cigarro canal que liga regiões,
que transmite notícias, cigarro onda de rádio, seu tabaco-Jaguar, cigarro antena
que conecta e ativa mundos e mundos, que atrai deuses, bichos, espíritos,
monstros, Alice Ecstasy em seu leito de contágio, abatida e consumida pela
virulência, que invade corpos, que invade cenas, cenários, peças de teatro…

PRODUTOR
Alice a atriz Alice Atriz premiada em Festivais, cobiçada pelos diretores de teatro,
o talento e as técnicas teatrais de Alice,

ALICE
o atletismo afetivo dela, Alice atriz de teatro, cinema e televisão, o irmão ator,
namorado ator, tornar-se teatro, a experimental Alice, ela o irmão e o namorado,
os cunhados, tornar-se teatro e Alice ali naquele leito vermelho invadida pela
peste de um teatro selvagem, aniquilada, destruída, pulverizada organicamente,
queimada as suas entranhas pela peste animal de um animal selvagem, abduzida
por um predador virtual, mediando o irmão e o namorado, cunhados, a Alice o
Alice, o namorado o cunhado, os dois adversário e ela no meio, fora, dentro e
separada da adversidade dos dois, da relação intriguenta dos cunhados irmão
namorado,

XAM テ
o Xamã se oferece, oferece para curar Alice da peste e do teatro empurrando-a
mais para o fundo e para o dentro da peste do animal e do teatro, o Xamã
atravessa, o Xamã conecta que a peste do teatro que invadiu Alice é a peste
Jaguar, são os afetos dele, suas caricias, seus atrativos e sua mordidas, um
comportamento fera do coletivo de Alice e Cia.
ALICE
e Alice sente todos esses tremores e essas feridas no seu corpo de atriz, os
caninos desse animal pesado e enorme mordendo a cervical dela, ela quis
experimentar o teatro-Jaguar, com irmão e namorado, acompanhada pelos dois,
abduzida pela intriga e adversidade dos dois, agora eles estão conversando e
discutindo do lado de fora do quarto e Alice os vê através do vidro da porta do
quarto hospitalar, eles conversam e as vezes discutem alterados, ela não ouve o
que discutem, ela que antes fora elo da discussão entre os dois, irmão namorado,
inimigos lá fora conversam discutem, uma relação uma aliança e ela dentro e fora
dessa relação Alice..

JAWAT - JOVEM XAM テ


O Xamã esta do lado de Alice, libertando Alice da doença da peste do Jaguar e do
teatro, afundando cada vez mais Alice nesse contágio da peste do teatro e do
Jaguar e os dois lá fora do quarto se intrigando em elo de cunhados.

NAMORADO
Os drogados esperam a droga pesada e o Cow-boy o fornecedor não vem, o vôo
dele não aterrizou, os aeroportos estão fechados em função de uma forte
tempestade que se abateu sobre a cidade, ventos fortes a epidemia Jaguar, eles
surrupiam a bolsa de Alice e encontram balas, as ultimas balas de Alice
misturadas com heroína e ingerem a seco, a bala bate pesada, é uma puta
porrada nos membros e nos músculos dos caras, o corpo deles fervem como uma
panela de pressão, fritam como se tivessem fritando numa frigideira de ferro ou no
chão do asfalto fervendo do sol de dezembro, ratos fervendo num azeite de tão
quente, fritam ficam na maior doideira, caem num excesso animalizados, viram
bichos, djs colocam música psychodelic trance ou transe psicodélico.

ALICE
Alice toma uma lata de sopa Campbells, Alice spirita, religiosa, evangélica,
solidária, caridosa distribui latas de sopa Campbells, latas de sopas imagens
multiplicadas comercializadas, toma sopa de latas na tua cara, na cara do teu
estômago, um soco no estômago, um alimento, toma sopa soco de sopa
Campbells, Alice distribui para mendigos perdidos dormindo-sonados debaixo
daquele viaduto gelado, Alice distribui afetos abraços, laços, inimizades, laços,
abraços quentes gelados, agasalhos, corpos moles, corpos lixos, macarrões de
letrinhas derretidos, derretidas palavras, sopinhas, corpos derretendo, larvas,
Alice recita, doa, abraça, abarca, sopas Campbell, distribui e bebe fluida
gelatinoso corpo de Alice dissolvente doente abraços e recita a sopa de tartaruga
para os pedintes, só-Alice sonha voa, o Xamã assopra o cigarro do rito dos
animais, bichos se arrastando pelo lodo das paredes e do chão dos viadutos
nojentos êxtases.

“Que bela sopa, tão rica e verde,


Esperando no caldeirão a ferver!
Quem consegue parar de comer?
Sopa do jantar, bela sopa!
Sopa do jantar, bela sopa!
Que be....la so....pa!
Que be....la so....pa!
Soooo...pa do jantar!
Bela, bela sopa!
Que bela sopa, quem liga para um peixe,
Carne ou outro prato?
Quem não daria tudo o que tivesse por essa bela sopa?
Sopa do jantar, bela sopa!
Sopa do jantar, bela sopa!
Que be....la so....pa!
Que be....la so....pa!
Soooo...pa do jantar!
Bela, bela sopa!”

NAMORADO
Alice ciborgue – enfiam um chip no corpo de Alice, anti cutânea e os sonhos, o
delírio febril de Alice se comunica com a embriaguez-cauim do Jaguar no seu
estúdio-celeste-animal – Esses chips transmitem, vozes, imagens de sonhos e de
delírios de Alice para o lado de lá.

ALICE
Com esse chip minúsculo, miniatura do que antes fora máquina-grande,
minúsculo chip de tão minúsculo cabe na epiderme de Alice, Alice diminui mínima,
diminuída menina entra debaixo da cama, casa de boneca. Brinca com suas
bonecas de porcelanas minúsculas, bonecas chips, destrói as bonecas-
minúsculas-miniaturas, enforca-as, renasce-as, depois Alice foge se estica, volta
para seu leito de comunicação inter-étnica. Grita, sofre, goza, sonha, morre, vive,
chora, respira, ouve, exala, ri, acorda. Anotando em seu diário-digital-minúsculo,
nas linhas da palma da sua mão digital, anota essa nova dimensão, espaço novo,
sala nova de espelho vidro e transparência.

XAM テ-JAGUAR
Alice delira, o Xamã ativa novos contágios.
O corpo o perfume o gosto Jaguar, azedo odor de feras, o Jaguar está ali
rondando o leito enfermo e alucinado de Alice ecstasy, invisível Jaguar,
ministrando, regendo adversidade, outros mundos outros, estranhos, desiguais,

ALICE
Alice respira, absorve o que o corpo dela pode absorver, Alice delira, Alice cai,
flutua, o Xamã voa, o Xamã traz e leva correspondências, o Xamã leva e traz,
embaixo em frente, atrás, no fundo no fundo do fundo, no rio e na selva, na água
e no ar, luz e obscuro, luz que cega os olhos de Alice febril e em delírio, o Xamã
ativa o Jaguar, instala a reunião de drogados, o Jaguar é a virulência, Alice está
afectada o corpo dela pulsa, ferve, amolece derrete de Jaguar, micróbios Jaguar,
Alice afectada, excitada, o afecto, a tristeza a alegria o amor, o ódio de Alice é
Jaguar, a saudade de Alice Jaguar água ar, água deliciosa que ela sente
escorrendo pela boca, garganta e estômago dela é a água Jaguar, o ar que ela
respira, é o vírus do bicho.

JAGUAR-XAM テ
E ele esta lá no canto do quarto-anticéptico, sentado, invisível, obscuro e radioso,
noturno e vampírico, sugando as energias juvenis e eletrizantes de Alice maluca,
comungando e se intrigando com ela, com essa doida, ele está não esta lá no
quarto do hospital em pé sentado, urrando, silenciando, diáfano, transparente,
invisível, diabólico e terrivelmente luminoso ferindo a visão febril de Alice que não
vê esse deus maldito, deus-animal, esse bárbaro, só o Xamã e a lente de
aumento dele, - a fumaça do cigarro ritual, vêem a luz cegante desse deus
predador,

ALICE
Alice sente o corpo dela sendo mordida e mastigada em partes por esse deus-
animal-carniceiro, a cervical dela sendo mordida pelos caninos ferozes desse
animal-deus-gigante e pesado, o que o corpo dela sente e aguenta, um corpo que
se entrega e que foge, que goza e que reage que flui e se joga, o animal guloso
voraz mastiga a tudo ali naquele quarto real de hospital e drogas, naquele
ambiente imanente e jovial de Alice.

XAM テ JAGUAR
O enfermeiro entra no quarto para trocar o soro de Alice, o enfermeiro toma o
braço de Alice, retira a agulha, o local que a agulha estava enfiada sangra – o
Jaguar sedento aproxima os lábios do sangramento de Alice, deseja a todo susto
sugar o sangue-Alice, -é cauim, siiiisssss que gostoso, é cauim cerveja de bicho,
é gostoso.

ALICE
Ela recusa o braço. Não Jaguar não é cauim,
é sangue é sangue das minhas veias é sangue da minha tribo.
A imagem Jaguar vem me invade com seu afeto predatório, se aloja dentro do
meu corpo, do nosso corpo ele o corpo-cosmos-predatório. Eu sinto o seu
perfume vinho sangue, o gosto do seu cauim, eu sinto o seu paladar eu sinto a
imagem entrado no meu sangue como se bebesse caium como se ele se
apoderasse de mim. Estou afetada de jaguaridade, adoeço Jaguar, deliro de tanta
febre Jaguar, onde estou, em que tempo em que corpo habito, adoeço de qual
moléstia? O Jaguar me possui em sonho, o Jaguar transa comigo, é ele, esse
violador de espaços, pessoas e tempos.

Alice está imanente, não está transportada para um outro pólo, tudo que ela vê é
real, as coisas, as pessoas, tudo é real, é palpável, o Xamã, os remédios, os
amigos drogados, o namorado, o irmão, as pílulas, o soro fisiológico, as agulhas,
as seringas, o cigarro mágico do Xamã, a maca que ela esta deitada, tudo é tato,
é tudo textura, Alice toca e sente, o corpo dela sente, absorve, modifica outros
corpos e se modifica, Alice Ecstasy.
NAMORADO
Alice esta cada vez mais afundada na doençaJaguar, sente que o seu fim esta
próximo, a proximidade do fimJaguar, sente que vai morrer.

NAMORADO E IRM テ O
Você vai ficar curada logo Alice, os médicos garantem.

ALICE
Mas, o corpo de Alice frita e derrete encolhe e estica do mal Jaguar, desse
contágio animal, da peste desse comilão, desse deus briguento - e sente que vai
morrer, em sonho ou alucinada de bala vê seu corpo apodrecendo, sua carne
putrefata e Alice sente pânico dessa imagem decadente do corpo, Alice quer ser
devorada para não ter o corpo putrefato, para que o estômago do animal inimigo
seja seu túmulo, ser cremada no interior do animal-divino.

PRODUTOR DO FILME
O produtor chama Alice, Alice acorda, o Xamã pára a cura,

ALICE
Alice está morta ou está purificada do Jaguar e do teatro, a aliança dos cunhados
irmão e o namorado está concretizada, os dois concretizados aliançados, eles se
abraçam, o namorado Alice, o irmão Alice.

NAMORADO
(Viajando na Mademoiselle D'Avignon de Pablo Picasso)
Alice o namorado e o irmão e os outros drogados ingerem meio-comprido de uma
bala-cubista, o nome da bala, do ecstasy é Picasso, daquelas balas que deixa
saudades quando saem do Mercado, a droga bate rápido, os drogados(4)
experiencializam uma bissexualidade, baixa no lugar um espírito travesti e rola
um transformismo, um afeto mulheres, os drogados montados experimentam 4
mulheres livres, 4 free lovers, 4 putas, uma é um ator-atriz que interpreta uma
lover-cadela, Judith Malina, eles estão ali no quarto olhando Alice no leito afetada
de doençaJaguar, estão em Avignon, num festival de teatro experimental,
alucinados de porre-cauim-Jaguar e travestydos, Alice é a doente imaginária, a
doente afetada, atingida de balas excitada, o Xamã serve cauim-lente-de-
aumento, todos ingeridos balas, todos bebericados-cauim, uma quarta dimenção,
cada uma das 4 cortesãs está num ponto do quarto e cada uma observa voyer o
corpo extasiado de Alice de um ponto diferente e de uma perpectiva pornográfica-
artística, um-uma vê bunda na cara, outro-outra vem a buceta na testa, outra-
outro as pernas na cabeça, bi-outra-outro os peitos na costa, cada uma das
putanas vê o corpo de Alice em 3/4, então desse jogo alucinado e comercial de
corpo e de óticas simultâneos-simultâneas das 4 putas, Alice é corpo e múltiplos
corpos, um desejo e muitos, uma putaria e tantas, uma fotografia e uma
seqüência de fotos.
IRM テ O
O Xamã começa a cantar cantos-de-curas, canções-do-Jaguar, três garotos-
drogados-rock and rool, calça jeans, camiseta branca e casaco de couro preto,
começam a tocar cada um o seu baixo, guitarra e bateria, os outros garotos-
drogados cada um com um aparelho celular começam a filmar e a tirar fotografias
do show, enviam essas fotografias para amigos roqueiros de outros continentes,
os que ouvem e vêem as imagens do show-cura-Xamã-ecstasy, ficam loucos e
com dores de cabeça do som tão ensurdecedor, som porrada, som pesado,
pancada de som, tapa no ouvido, os ouvidos deles estouram, eles caem
acamados de febre, entram em coma do som-peste-Jaguar-virtual, nos hospitais
desses paises estrangeiros em longínquos continentes, garotos cheiradores de
ópio com seus aparelhos celulares filmam essas epidemia de som Jaguar nos
corredores dos hospitais e nos campus das universidades, enviam essas imagens
através de seus aparelhos celulares, para estudantes de outros continentes, na
universidade de Nanterre nos arredores de Paris, os estudantes ocupam a
universidade em sinal de protesto. Estamos em maio 68.

NAMORADO
Com a tempestade falta luz e ficam sem comunicação virtual, sem correio
eletrônico e sem internet, eles acusam o Estado pela calamidade pública, pela
falta de solução e socorro, pela omissão do poder dito público, “a culpa é do
estado” eles são contra o Estado, são contra o dar ordem do Estado e o ter que
obedecer da população, eles se imaginam grupelhos amotinados, tribos urbanas
revolucionárias, micro revoluções juvenis, rebeldes virtuais, zapatistas,
escondidos na montanhas do México, convocando pela internet a solidariedade
de todos os indignados do mundo contra as barbaridades do capital e do
mercado, o mundo não é mercadoria,

IRM テ O
Jovialmente revoltados eles pensam-almejam-planejam queimar o dinheiro e por
conseqüência o Estado, pretendem destruir o Mercado e seu filho enjeitado o
Estado e o capital, pensam saquear Hollywood, o império dos sonhos e incendiar
seu arquivo de filmes de nitrato, com esses equipamentos, câmeras e parques de
iluminação, pretendem fazer um filme, o seu próprio filme, o filme dos obedientes
do mundo que não querem mais obedecer, então pensam um plano e executam
esse plano.

NAMORADO
Eles fazem refém o produtor do filme , eles transformam esse magnata num
personagem, num grande magnata do cinema e do Estado, nessa
experimentação teatral para eles o magnata é a Persona do Estado, o estado
associado ao capital, o último magnata da grande industria cinematográfica, o
Estado último, eles querem por fim ao Estado. Eles se intitulam os novos-
Japatista, os herdeiros reais do revolucionário mexicano Zapata. Um coletivo
ameríndio ateando fogo no Estado Ocidental.
PRODUTOR DO FILME
Os drogados rebeldes após fumarem ópio dormem, após vários dias de vigília, em
que ficaram dia e noite vigiando o Produtor-Estado encarcerado, entorpecidos e
cansados de tanta vigília eles adormecem, adormecidos eles esquecem o refém
Magnata, o produtor do filme, que consegue se desamarrar do cativeiro até com
certa facilidade em grande parte pela falta de experiência dos seus
aprisionadores, ... fugindo daqueles jovens entorpecidos que o mantiveram refém
ele chega no estacionamento e embarca no seu automóvel blindado, os
estudantes rebeldes de maio agitadores saem em sua perseguição e ocupam a
faculdade de Nanterre...2 de maio, o produtor do filme sofre uma metamorfose
absoluta agora ele é Leviatã, o estado moderno, o deus estado, o estado-
monstro-absoluto.

IRM テ O
Os estudantes agitadores extasiados de liberdade pelas ruas de Paris, bebem
cauim, fumam haxixe, ingerem balas de êxtases.
Quem pode enfrentar o monstro Leviatã?
Os estudantes de Nanterre podem, os rebeldes de maio,
os revolucionários de 68, ou universitários rebeldes da Sorbone
atiram paralelepípedos, incendeiam carros, atiram coquetéis molotov,
fazem barricadas, barricadas.

NAMORADO
E protestam contra o que? Contra que poder?
Contra o poder dos pai, o poder do Estado e o poder de Deus-Pai.
Contra o único.
Leviatã o Estado absoluto é o alvo preferido deles.
Zapatistas escaneiam seus-corpos-indigenas-rebeldes
enviam através da internet,
enviam através de e-mails,
blogs e site apelos de solidariedades
para toda sociedade cível solidária e libertária do mundo.

IRM テ O
Joguem pedras contra o estado e seus veículos policiais,
incendiamos carros pois entendemos que os automóveis
são o signo maior dessa sociedade industrial consumista,
joguem pedra, pedregulhos, paralelepípedo,
viramos carros de cabeça para baixo
as rua de Paris de cabeça para baixo,

NOIVO
Formam barricadas com automóveis virados e incendiados,
quebram automóveis com pedradas pedras arrancadas
das calcadas das ruas, eles não querem chefes,
Não queremos chefes, comandantes, partidos políticos,
querem liberdades individuais e anarquias.
COLETIVO AGITADOR
A revolução será feita!! A revolução é a festa!!!!!!
Viva o sonho! Viva o Surrealismo!
A imaginação ao poder!
A imaginação ao não-poder!
Para as ruas! Para as ruas! Para as ruas!

ALICE
Quando mais eu faço amor mas eu faço a revolução.
A revolução das flores ou a revolução das armas,
ou revolução das balas e dos doces, a revolução dos cigarros.
A revolução da palavra. A palavra é o ato revolucionário.
A revolução são os e-mails, os sits e os blogs,
são os designers virtuais, são os vírus da internet.

Eu estou maravilhada a vida é bela.


Eu estou tão maravilhada, viva a vida!

NOIVO
Eles fazem barricada, apedrejam e incendeiam automóveis
nas ruas centrais da cidade, confeccionam coquetéis molotov,
atiram coquetéis molotov contra a polícia,
contra os policiais punitivos do estado.
Se confrontam brutalmente com as forças policiais
e repressivas do estado.

IRM テ O
Guerra de paralelepípedos contra o gás lacrimogêneo da polícia.
Levam porradas de policiais,
ferem policiais a pedradas,
ferem a faces repressiva do Estado.
Se sentem índios peles vermelhas
enfrentando o órgão oficial punitivo do estado
e fazendo refém o órgão oficial do estado.

JAWAT JOVEM XAM テ


Emilano Zapata
herói revolucionário camponês martirizado,
reverbera o mito até hoje
os zapatistas cyborg mediatizam o mito
O cadáver de Emiliano
está lá exposto
embaixo do ardente sol
para os abutres de Vestuniano Carranca comerem,
o fantasma de Porfirio Diaz ainda ronda,
esse pai do-Hamlet-México-Dinamarca,
fazendo índio escravo,
esse papel podre do México
querendo posar
de país de primeiro mundo,
esse boçal neo-liberal,
eles vão te destroçar Emiliano,
tu e tua imagem de mártir popular.

ALICE
A carcaça de Che,
algo de erótico nesse terror-guerrilha,
tem todo um marketing das revoluções,
tem toda um causa social por trás,
e tem a compaixão,
tem gente solidária,

JAWAT JOVEM XAM テ


Huka! Huka! Meu face-rubra
tem todo uma questão de terra surrupiada,
tem toda uma questão de índio sem terra,
de toda uma dívida de 500 anos,
desde o turismo católico de Colombo,
o ovo em pé,
é melhor um morto em pé
do que um vivo de joelho,
será que eu aguento, que meu cu aguenta,
tranca o cu e aguenta,

ALICE
ajoelha e viaja na net,
solidariedade Chiapas pede “não nos deixem sós”
não nos deixe nos altiplanos de Chiapas,
não deixem só no físico
nos buracos das montanhas
dos altiplanos,

IRM テ O E NOIVO
queremos ser ficção cientifica,
queremos ser mídia-ciborgue da revolução,
o peso muito grande que carregamos
das utopias sociais das libertações
ou não tem peso nenhum,
a solidariedade de outros cibernautas,

ALICE
e tem um scaner que copia o corpo da garota Zapatista,
o jovem corpo da moça virado dígito,
virado ciborgue ,musa da máquina,
musa da guerrilha ciber de Chiapas
garota propaganda da zona de conflito.
JOVEM XAM テ
Quanto custa a cabeça de Emiliano Zapata?
general do exército formado em Morelos
o Ejército Libertador del Sur, Exército Libertador do Sul.
Defendendo os indios maias.
O governo de Vestuniano Carranza
oferece um resgate
pela cabeça de Zapata.
Instável exército Zapatista
não vá trair seu líder,
não vá se desencorajar os outros chefes.

Taí a cabeça de Emiliano,


paga inteira a recompensa,
pagaste pela metade, Vestuniano.
A cabeça não vale pra Vestuniano,
o abate vale menos ainda,
vale para o poder de
Justiano-manchado-de sangue.
O que vale o que não vale.
O cadáver de Zapata é exibido
em Cuautla, Morelos.
Não veremos terror assim,
terror-fascínio,

NOIVO
a cirurgia no braço
para implante de orelha
de Sterlac, artista-cyborg
ele vai ouvir pelo ante-braço,
pelo abano do braço,
pelo alto-falante,
pelo altiplano de Chiapas,
O filho Pantagruel, de Gargantua, parido pelo ouvido.
Confusão e mudança de sentidos.
He!He!He!

JAWAT JOVEM XAM テ


Os abutres-generais de Vestuniano Carranza,
os do dita-dor de cotovelo-muque de Porfirio Diaz,
que deixava índios sem terra,
Emiliano mestiço,
dito não-índio,
índio-espanhol-índio,

IRM テ O
a orelha perdida do azul veludo
achada pelo jato de mangueira
de cidade limpa
cidadezinha-norte/americana suja,
orelha cheia de formiga,
achada pelo cão,
eu sou todo ouvido,
cana de braço de Sterlac
casando humano-máquina.

JAWAT JOVEM XAM テ


Pum pum pum
os tiros vários
os variados tiros
de mexicano estado
disparado pelo general Jesús Guajardo, pelú amúr de Jesús Cristús,
não vá nesse falso-encontro Emiliano, Jesus, mentira desse general Jesús,
ele não acredita nada na causa Zapatista, mais falso que Judas,
tá aqui, tá pago, pago pela metade. 9 noves fora nada.
Pela metade a cabeça de Zapata, a cabeça do exército da libertad pará.
Tierra y libertad!Terra e liberdade!
Pára, stop,
toda revolução gera vaidade,
gera carro e cargo de luxo.
Gera outra classe elite,
gera outro boçal.

COLETIVO AGITADO
Para rua para rua!
Isso é só o começo
a guerra das palavras continua,
o intertexto, a revolução da intertextualidade,
a guerra da linguagem.
O corpo vira digito,
Para rua para rua!
Para o cyber-espaço! Para o cyber espaço! Para o cyber espaço!
A máscara, o teatro grego a catarse dos dominados,
todos somos Zapatista, todos Chiapas somos todos virtuais.
Para o espaço, para o espaço, isso é só o começo a luta virtual continua.
Para lua para lua para o mundo dos sonhos para os sits,
boêmios cyborgs, românticos-cybers,
para a rua para rua para os e-mails enviados.

NOIVO E IRM テ O
Agora não tem mais história,
parou o tempo da história,
só tempo revolução
a revolução é agora
a revolução é a festa
é a pedra a pedra no teu olho Leviatã,
Estado ambicioso.

ALICE
Eu estou refugiada num buraco das montanhas,
entre as pedras de Chiapa,
num buraco entre as pedras não nos deixem
só cybernatas alucinados do torpor dos computadores.
Quantos computadores tem em Chiapas?
Quantos com-puta-dor.
Que puta dor esse exército mexicano,
a força bruta desse estado,
quanta violência-Leviatã.

(Soldados mexicanos curram o corpo-físico de uma garota-índia-maia-Zapatista


em computadores do quartel general do exército mexicano, curram o corpo
digitilizando-a tranformando-a em digito para ser currada por eles, querendo
converter o corpo dela em base de dados para ser currada.)
Não me estupra soldado do exército mexicano,
não me curra, tropa de Leviatã-mexicano.
Não viola o meu corpo físico, não viola o meu corpo-digito.

COLETIVO AGITADO
Atirem pedras, incendeiem automóveis, mastiga abacaxi, devora perdiz Leviatã-
burguês chegou a tua vez. Atirem coquetéis, atirem garrafas de explosões
juvenis, atirem fogo,
fogo nos automóveis, esse teu símbolo-estado Leviatã, ninguém vai dar ordens,
ninguém obedece, devora abacaxi, tritura perdiz, devora palavra, tritura
intertextualidade, repolho e intertexto no teu olho seu cara de repolho. Bombas de
intertextualidade, coquetéis molotov virtuais, o mundo virtual será reencantado o
nosso mundo.
Todos somos índios, todos somos zapatas virtuais.

NOIVO
Vê aquele senhor dentro daquele automóvel blindado?
Ele é o Sr. Estado,
o inabalável,
o vidro do carro dele é inquebrável,
não adianta jogar pedra no telhado dele.
O pai dele é um deus, o deus mercado.

JOVEM XAM テ
E onde mora o pai desse sr. Estado?

O NOIVO
“O mercado essa instituição fantasma”
Lá vem o fantasma,
o Mercado,
o fantasma do Mundo
ele vem cobrar o dizimo,
nosso assombroso fantasma,
ainda bem que ele vem
nos cobrar tributos
ainda mal,
ele cobra
o tributo que lhe devemos
através desse filho dele enjeitado,
o Mister Estado

IRM テ O
Lá vem o fantasma,
o nosso fantasma,
abarcando o nosso mundo todo
de assombrações.
Huuuaaaaaa!
(Fogem assustado, Mister Estado se mija de rir,
eles se urinam de medo do fantasma-Mercado.
O Fantasma-Mercado é um raio de luz, um raio sombra,
projetado por um canhão de luz invisível oculto num Centro invisível,
nas paredes dos prédios da cidade como em Gotham City,
causando pânico e apavorando as pessoas da cidade-inferno.)

NAMORADO
Eles invadem o mercado,
eles acoitam os vendedores
com suas correntes de punks
eles esmurram os vendedores
com suas munhequeiras tachadas
derrubam as bancas dos vendedores,
eles se sentem Cristos-rebeldes jovens violentos
expulsando os exploradores do templo
que transformam tudo em mercado e mercadoria,
eles sentem mas não se sentem um cristo violento,
pois Cristus o rebelde nazareno acreditava no Uno
e o uno é a selo da bolsa e do Mercado
é a marca do monarca Mercado
é a idolatria de toda mercadoria
e eles querem correr atrás
dos múltiplos dos mundos
dos abandonados
dos loucos de pedra,
das cabeças e dos corações
dos jogados fora do templo do mercado,
o mercado não é publico é privado,
eles querem ser a diferença
a periferia dos múltiplos
eles querem ser vários,
eles são periféricos,
vândalos suburbanos,
é privada é merda,
puxem as descargas
das pocilgas do mercado.

MISTER ESTADO
Sai daqui,
só eu posso cagar nessa privada,
sou eu defeco na privada privada,
só se pagar eu privatizo a privada privada
ou senão vá cagar no banheiro público,
vá meter o cu no pardieiro público.

Papai-Mercado é inabalável,
ele reina único sobre o mundo,
sobre todos os vários estados
sobre todas as bolsas fechadas-rasgadas,
ele recolhe todos os dízimos,
todas as moedas,
recolhe tributo a tributo.
(Sai recolhendo dízimos com um sacola de padres)
Eu adoro essa hora que parece a hora da Missa.

Papai, de joelho
eu teu, filho-Estado,
de primeiro de terceiro e imundo
e me arrasto de joelho
eu reafirmo, sou teu servo,
adoro e cultuo todos os dias
a tua religião de juros e de duros
de compras e vendas;
onde tudo deve ser pago ou negociado.
Eu pago e negocio
deus meu, religião minha, tudo é pago, tudo é negociado
meu joelho desfolhado de tanta tortura
de tanta mercadoria e venda, meu deus.
Eu sou um Estado em vários entre muitos,
ou um perdido um achado
primeiros e terceiros,
ricos uns,
miseráveis muitos,
eu sou um Estado de tensões,
de armamentos fortes e pesados
eu sou uma tontura,
e tu pai Divino,
pai mercado és um レ nico.
Inferno de Wall Street,
meus joelhos estão desfolhados
de tanto esse vândalos suburbanos
atirarem pedras,
mais adoro e oro por meu pai Mercado,
os sinos dobram eu
adoro meu pai Fantasma,
eu me assusto, até caio da cama desse pavor sinistro,
desse pai infame. a minha fé as minhas notas.
Cédulas de sonhos.
Benção meu pai, bons valores, tributos muitos, tempo de trevas.
O mundo esta muito agitado, a juventude anda muito agressiva
e eu mordo os meus pulso
eu estou no centro do mundo, no centro da cama,
no coma da grana e do poder,
ai as minhas torres de duro marfim
de fortalezas de blindados chapa branca.
De onde atiro as minas ordens
as minhas notas-esmolas.

Pai-Mercado, grande-fantasma.
Ele é um fantasma que habita e governa o mundo todo,
o planeta todo é o seu domínio, o domínio dele é o mundo,
o que há de imundo no mundo, o que de sujo e sórdido existe no mundo,
ele só vende e negocia e os microfones de Papai anunciam
e alardeiam pelos quatros cantos do mundo:
(imitando a voz do Pai Mercado-auto-falante)
tudo nu mundo é mercadoria, tudo vende no mundo,
tudo é grana é grana e grama,
miligrama, tudo no mundo é imundo,
tudo o que compra e vende
é o imundo do mundo-mercadoria, merda.

NAMORADO
Agora, as 6 da tarde eles realizam um culto estranho.
Seguido de uma cerimônia de chá,
de ervas envenenadoras,
é o culto capital, a religião da grana, o
culto da lombra, eles comungam moedas,
vomitam cédulas engorduradas,
stock-exchang Drs. da bolsa larga.

IRM テ O-MATADOR
estado déspota, estado esnobe
besta esnobe
indiferente, vidraça blindada
toma essa pedra no teu caolho
no olho do teu cu
ESTADO
Vocês jogam pedras e eu não ouço
os meus ouvidos estão tapados com algodão-palha-de-aço
estão acimentados, eu não ouço nada
jogem, podem atirar pedras, grandes pedras, paralelipípedos,
pedregulhos das ruas de Paris.

JAGUAR PERSONALIDADE FASCINANTE

ALICE
Que personalidade magnífica, como é deslumbrante, esse mestre Jaguar.
Jaguar fascinante. Jaguar magnífico. Que personalidade esse Jaguar.
Que charme cósmico, fascínio e carisma selvagem,
estamos extasiados com essa aparição-fera desse super-star.

NAMORADO DE ALICE – (PRISIONEIRO DO 1 ATO)


Esse Jaguar é mesmo um grande personagem,
é o personagem principal,
personagem dos personagens, Dionisius,
é o nosso Hamlet ser ou não ser amigo-inimigo, amor-ódio,
um singular refletindo e espetacularizando toda
a pluralidade do nosso coletivo espetacular,
é muito fascinante esse predador,

IRM テ O DE ALICE (MATADOR DO 1 ATO)


O Jaguar é uma celebridade, ou não é? ノ ou não é?
Ou é um vulgar, um estranho no ninho dos outros.

ALICE
Esse ator divino é o centro da nossa peça.
Drama, comédia, farsa ou tragédia?
Ou ele é o limite da nossa tragédia, vivemos aos risos, porque rimos tanto?
Rimos choramos Jaguar. Viva o protagonista do nosso teatro-cósmico.
Viva o Jaguar. Ou vaias.

IRM テ O DE ALICE (MATADOR DO 1 ATO)


Ele tem duas faces, duas caras, ídolo de duas caras, ele é um ator,
o mais completo de todos os atores, representa dois personagens ao mesmo
tempo,
não ele não é um ator versátil, se ele é um monstro disforme de duas caras, bi
face,
ele é mesmo o ator dos atores, o mais completo, nenhum outro ator possui tantos
recursos técnicos, ele é um jogo de espelho, o ídolo virado monstro.

ALICE
Eu o vejo como um doninho que protege, eu me deito no seu colo ele me afaga,
me protege pai-Jaguar, meu protetor, meu dono.
NOIVO
Eu o vejo como um devorador. Apavorado, morto de pavor eu o vejo em meus
sonhos,
esse monstro predador, arrancando o meu coração, bebendo o sangue que
escorre
do meu coração em pânico, meu dono devorador.

ALICE
O Jaguar é o nosso dono nosso mestre magnífico. Eis que surge o magnífico.
Aparece magnífico, Jaguar mestre. Cuida dos noivos. Protege o nosso amor-ódio.

IRM テ O DE ALICE (MATADOR DO 1 ATO)


Mas se é o nosso mestre porque nos devora,
porque simplesmente não nos protege, nos apóia, nos ensina.

NAMORADO DE ALICE – (PRISIONEIRO DO 1 ATO)


Todo mestre é um Jaguar.
Gostou da charada meu parente, meu agregado.
Todo Jaguar é um grande mestre super-star.

NAMORADO DE ALICE – (PRISIONEIRO DO 1 ATO)


O Jaguar é o nosso mestre chefe
ノ a nossa imagem, imagem do nosso coletivo-canibal.
Espelho-eu-outro
Singular o Jaguar se apresenta pra nós como nós-outros-caçador-comida.

NAMORADO DE ALICE – (PRISIONEIRO DO 1 ATO)


Esse ator é Xamã ou o Xamã é um ator que incorpora vários papéis, que
experimenta vários estados, vários corpos?
Interpretou grandes e variados personagens da dramaturgia mundial selvagem,
ele atravessa espelho, ultrapassa fronteiras, rompe barreiras.
Atravessa paredes e cristais. Atravessa grossos vidros enfileirados.

IRM テ O DE ALICE (MATADOR DO 1 ATO)


Se ele atravessa espelhos então estamos no universo mágico
dos efeitos especiais do cinema, então ele é ou deve ser o Orfeu de Jean
Cocteau(risos)

NAMORADO DE ALICE – (PRISIONEIRO DO 1 ATO)


Aqui está o Jaguar, esse espelho do nosso coletivo é nós.
Mestre-dono-Jaguar. Jaguar magnífico. O magnífico.
Singularidade magnificada.

IRM テ O DE ALICE (MATADOR DO 1 ATO)


Ele é divino, o maestro-Jaguar é o brevíssimo, se ele é divino-bravíssimo
maestríssimo então vamos invadir o corpo-regência-musicalidade-dele com
nossos estados coletivos.
(Todos que estão no teatro invadem a regência-corpo-movimento do maestro, o
maestro fica afetado por todos e rege distorcidamente o tornar-se outros sons-
movimentos.

O Jaguar-Xamã está vestido com uma roupa-imensa-dançante, um sobretudo


imenso e inflável, que é simultaneamente a roupa e o corpo-humano-coletivo-
cósmico do Jaguar. Todos os seres que estão no teatro, humanos, animais,
deuses, mortos e espíritos, se enfiam dentro dessa roupa-corpo-do-Jaguar
formando um corpo múltiplo e diversificado.)

BAILE DE HUMANOS E ANIMAIS


(Um Salão de baile imaginário, uma pista de espelho onde todos dançam, painéis,
portas de espelhos, espelhos infinitos e variados, que serão atravessados pelo
Xamã, esse atravessador de espelhos, vidros grosso enfileirados, milhares de
painéis de vidros.

Os animais chegam na festa, homens, mulheres, antas, porcos do mato, lagarto,


pássaros, peixes, tucanos, araras, garças, cobras, caititu, jabutis, tamanduá,
ariranha, borboletas, minhocas, gavião-real, arara, papagaio, tucano, jacarés,
abelhas, cupins. Entram, na entrada está a Sala das Roupas, cheia de guarda-
roupas e araras, os animais vestem roupas humanas e ganham forma humana e
entram na festa se misturando com os humanos, zapatistas, estudantes maio-68,
garotos rock-and-roll, adolescentes drogados, luzes, vídeo-makers espalhodas
captando imagens, olhares em pontos diferentes captando cada-um um mundo
particular, um ponto de vista, múltiplos pontos de vistas muitos mundos, o salão é
um caleidoscópio, garotos tatuados perfurados de piercings invadem o salão,
bandos variados, uma variedade de gangs urbanas juvenis, tribalismos juvenis,
diversidades de bichos, coletivos de ferocidade juvenil, carecas do subúrbio,
skinheads etc. Tribos urbanas)

XAM テ
Eu estou aqui no baile no mundo dos humanos, os humanos bailam, eu estou
bebendo aspirando coca e rape, bebendo cauim e fumando o meu cigarro de
tabaco sagrado, aqui no baile dos humanos, e pelo fato de eu estar me
drogando aqui, os animais lá na maloca no mundo deles também bailam e se
drogam e se multiplicam, viram múltiplos e múltiplos, metamorfose os verte em
algo múltiplo e nobre, e os nossos espíritos também bailam e se entorpecem lá
na maloca dos animais, bebendo e fumando. Nós eufóricos aqui no nosso mundo
e os nossos espíritos eufóricos lá no mundo dos animais fumando dançando
bebendo cheirando enlouquecendo de êxtase lá no outro mundo na maloca dos
nossos parentes animais. Nós aqui bebendo dançando, fumando – e animando
todos os humanos a dançarem, porque se não bailamos e se não fumo eu o
cigarro de tabaco e não aspiro o rape, lá na maloca dos animais, no mundo deles,
eles não dançam e nem se multiplicam, por isso, precisamos dançar
euforicamente e devo eu cheirar muito rape e muita coca, beber muito cauim para
que lá na maloca deles os animais no seu mundo dancem euforicamente e se
multipliquem, vamos bailar meus parentes humanos, vamos cair na farra, beber,
fumar, cheirar bailar.

(O Xamã bebe Cauim. Fuma o seu charuto ritual. Fumando aqui ele oferece
charuto e cauim para a maloca dos animais, no mundo deles – as pessoas entram
em transe e dançam alucinadas com o Xamã.)

(No Baile dos Humanos)

Eu bebo whisky

Eu bebo coca, eu cheiro cocaína.

Eu fumo maconha.

Eu fumo ópio e haxixe.

Eu cheiro lança perfume

Eu engulo um comprido de ecstasy.

Eu mastigo um lisérgico.

Eu bebo cerveja, eu bebo cachaça, eu bebo rum, gim seco.

(Um Dândi elegante e misterioso, chega no Baile trazendo consigo o seu cachorro
de estimação)

ALICE
Que lindo esse seu animal de estimação, esse seu cão de guarda.
Como se chama esse belo-cão?

D ツ NDI MISTERIOSO
Jaguar, o nome do amigo é Jaguar. Cumprimente a moça Jaguar.
(O cachorro faz um cumprimento estranho, excitado e levemente agressivo,
assustando levemente Alice)
Cuidado Jaguar, não assuste uma jovem tão bela.
Permita que me apresente. Muito prazer. Jawat.

ALICE
Jawat. Que nome curioso. Lembra Jaguar o nome do seu cão.

D ツ NDI MISTERIOSO
Uma adorável coincidência.

ALICE
Prazer Alice. Alice Sctasy.

(Lá da maloca no mundo deles os animais recebem(vêem) a cuia de cauim e a


fumaça do charuto do Xamã daqui do nosso mundo, esses animais entram em
transe, suas imagens se multiplicam como naqueles espelhos multiplicados nos
musicais de Hollywood, com Fred Astaire, as imagens deles sobem pelas paredes
e tetos de espelhos, andam de cabeça para baixo nos espelhos multiplicados-
multiplicadores do teto.)

XAM テ
Estou convidando todos vocês meus animais, meus parentes animais.
Dancem, dancem meus animais deuses, dancem como só os deuses-selvagens
conseguem bailar, com os outros, na maloca de vocês, nesse adorável mundo de
animais-mortos-deuses.

(Os animais lá na maloca deles enlouquecidos, dançam, comem num banquete


dabacuri, jogam-lutam Jawari na Festa da Jaguatirica)

eu bebo cauim,

eu fumo tabaco, eu aspiro coca e rape. Eu canto, eu danço, eu toco minhas


flautas, eu bato o meu tambor.

eu danço danço.

nós estamos realizando a festa da Jaguatirica em 5 dias seguidos, 5 dias e 5


noites.

vamos ver quem será o campeão nos Jogos e nas lutas do Jawari.

o banquete dos banquetes é o nosso dabacuri.

Eu danço rock-and roll. Eu danço valsa. Eu danço um foxtrot.

Eu sapateio eu tenho samba no pé.

Eu danço, eu chuto um pôgo. Eu danço um punk-rock.

Eu danço um maxixe.

(O Dândi misterioso agora sem o seu cachorro-guia-Jaguar, ele mesmo uma


máscara de Jaguar, pois não podemos esquecer que estamos num baile de
Máscaras, em movimentos lentos e solenes, como se quisesse representar mais
completamente seu papel, rodopiava aqui e ali entre os dançarinos, cada vez
mais se transformando numa espectral figura, de humano e Jaguar animal com a
face toda borrifada de placas escarlates, placas de sangue, dançando e
rodopiando, o seu rodopio vai apressando aumentando a velocidade até que ele
cai num rodopio infernal gargalhando-urrando

Os olhos do Produtor do Filme caem sobre a figura do Dândi-Misterioso-


Dançarino-Jaguar-Ensanguentado, todos os foliões que estão no Baile dos
humanos e os que estão lá no baile da maloca dos animais no mundo dos bichos,
vêem o Produtor ser tomado de convulsões, a princípio um forte tremor de pânico
ou repugnância, para logo depois enrubescer-se de fúria.)

PRODUTOR DO FILME
Quem ousa, quem ousa insultar-nos com tão blasfema pilhéria, com tão radical
provocação? Agarrem-no e desmascarem-no, para podermos conhecer quem
teremos de enforcar, ao amanhecer, no alto da montanha! Que silencie a música.
Silêncio!

(O Produtor que está distante desse dançarino radical e selvagem atravessa


violentamente umas 30 paredes de vidro e voa em cima desse mascarado-Dândi-
Jaguar para estrangulá-lo.)

O produtor ordena:

PRODUTOR DO FILME
Agarrem-no com suas mãos e enforquem esse monstro.

(Todos correm enlouquecidos e furiosos alucinados e entorpecidos em direção ao


Dândi-Jaguar, que os recebe com abraço apertado e furioso, o produtor berra.)

PRODUTOR DO FILME
Bastardo, traidores, abraçando o monstro ao invés de enforca-lo, tragam o meu
punhal.

(O Produtor do Filme brande um punhal desembainhado e se aproxima, com


rápida impetuosidade, a poucos passos do vulto do Dândi-Jaguar que se retira,
quando o Dândi-Jaguar-Radical, tendo alcançado a extremidade do salão, volta-
se subitamente e arrasta seu perseguidor-Produtor. Ouve-se um grito agudo e o
punhal cai, cintilante, sobre um tapete ensangüentado, onde, logo,
instantaneamente, tomba ferido o Produtor do filme.

Uns desmaiam de overdose, outros de tanta bebida tropeçam pelo salão de


espelhos, outros rolam pelo chão alucinados, outros doidaços de ecstasy correm
de uma lado para outro como uns coelhinhos entre o labirinto de milhares de
vidros grossos enfileirados, outros lutam pelo chão, se esmurram, dão chutes no
ar, muitos se abraçam se abraçam afetos apertados, abraços afetos infinitos,
muitos ficam, outros ficam só, outros entram na maior pancadaria, se enchem de
socos e porradas, o Xamã atravessa espelhos e espelhos e territórios infinitos, na
maloca dos animais lá no mundo deles os animais dançam e se multiplicam.)

....................................................

PRODUTOR
O produtor, se aproxima do leito de Alice, chama Alice para explicar o papel que
ela vai fazer no filme.
ALICE
O irmão e o namorado começam se xingar e a se abraçar, é a relação dos
cunhados que interessa que está em jogo, a aliança esta aí, na arenga dos dois.

NOIVO E IRM テ O
Alice diz ao produtor que não quer fazer Anabella de Ford.

ALICE
“Não produtor eu não quero fazer Anabella de Ford no cinema, eu me recuso
interpretar esse papel”, ela não ama incestuosamente o irmão, nem quer casar
com o namorado, só se interessa pela aliança briguenta, intriguenta e adversária
dos dois cunhados que ela como figura feminina media, essa experiência-radical-
contágio-Jaguar é o que ela curte, a rixa dos dois irmão-cunhado, retira dois
comprimidos de ecstasy e ingere ali, na frente do produtor e do roteirista do filme,
ali no quarto do hospital profundamente penetrada naquela enfermidade de
Jaguar, sente o corpo dela amolecer, lânguida ela sente uma necessidade de
caricia humana e animal, se abraça amolecida com todos, distribui abraços e
abraços moles derretentes, como um macarrão mole derretendo que Alice
acostumava comer numa Casa de Massas Italiana, escorrida líquida pelo
estômago, escorre leve água e delícia, distribui abraços, beijos e afectos,

XAM テ
e o irmão e o cunhado num efeito contrário numa ferveção, lá fora e Alice os vê
novamente através do vidro da porta daquele quarto de hospital, começam a se
pegar, numa intriga continua, rola a maior briga, a maior porrada, a maior
pancadaria, esmurram um a cara e o corpo do outro se atracam, se esmurram,
por cima dos móveis, rolam pelo chão do estúdio aos murros e socos e
pancadaria.

Fim 3 ATO

IV ATO
FLORESTA DE CARBONO - DE VOLTA AO PARA ヘ SO PERDIDO

T チ XI CHUVOSO

(O Táxi Chuvoso entra na floresta do Paraíso Perdido. O Táxi Chuvoso é um


velho calhambeque no interior do qual um engenhoso sistema de tubos faz cair
uma violenta chuvada sobre 3 passageiros: um Condutor com Cabeça e Unhas
de Pássaro e Corpo de Homem, uma Loura divertida e desgrenhada em vestido
de noite - branco - e coberta de caracóis, um galã decadente de Hollywood -
Tarzan, ele e Loura sentados no banco de trás. O Táxi pára numa clareira da
floresta, a Loura alegre, o Tarzan escondido atrás de óculos escuros, deprimido,
encerrado em si, como aqueles adolescentes góticos. Loura tenta animá-lo.)
LOURA
Enfim chegamos Tarzan, meu namorado galã, a reconquista do Paraíso Perdido,
a floresta é o Paraíso Perdido, desde que o nosso pai Adão, pai de nossa prole,
foi expulso com nossa mãe Eva, mãe de nossa prole, desde que o Caudilho
Celeste o Arcanjo Rafael pau mandado, trouxe o recado divino.

ANJO MIGUEL
Eva e Adão, brinquedos primordiais, Adão boneco de barro, Eva boneca de
costeleta de porco, papai-deus me incumbiu e vim aqui expulsar os dois, estou
achando um barato essa brincadeira-tiranicazinha de expulsar vocês, me cinto
como uma criancinha malvada beliscando a barriga de dois adultoszinhos
irresponsáveis, caiam fora desse jardim de sexo, luz de neon, e ócio, casalzinho
ociosos em férias, as férias terminaram, terminou o sonhado recreio eterno.
Pensaram que viveriam em eterna mamata, só comendo e dormindo? Engano,
vamos ao trabalho (Chuta Adão e eva imaginários que estão se estão se
escorregando pela terra enlameada). Um casalzinho bem preguiçoso é hora de
trabalho, e vão os dois logo colocando a mão na massa. Acharam que era só
gozo, só descanso, agora vão gozar é na ralação. O que fizeram? Não tem mais
comida e nem casa de graça, nem essa de ficar nuzão. Violaram jardim formoso,
saqueando proibidos frutos, traidores, espíritos vagabundo, fora (chuta arruaceiro
os dois) Adoro ficar fazendo esse papel de anjo-jovem-arruaceiro que cumpre
ordens de expulsar, gozo, aí como gozo nesse de jogo de expulsa, expulsa! Fora!
Vocês dois foram enganados por suas fraquezas humana, dois bobões, babacas,
bonecos de lama, fracotes, só querendo lazer, querendo saber, queriam ficar
lendo nas férias-de-sempre, expulsos e fora do ノ den, privados das mordomias
divinas, longe das delícias e dos alimentos abstratos. Para sobreviver deverão
plantar terra fértil ou estéril e os frutos tirados dessa terra queimada, serão os
seus alimentos-mortais, adoecerão de tédio e de câncer - e o prazer será
acompanhado sempre de uma tremenda-dor-prazer, sádicos e masoquistas,
carne e canivete, teu destino e de teus irmãos: subir sempre uma imensa
montanha carregando uma pesada cruz de ferro. Um nazareno crucificado será
despedaçado por causa da malandragem dos dois, que como dois-burricos-de-
carga carregarão por toda eternidade, eterna culpa. Fora! Caiam fora, do jardim
gozoso, panacas!

LOURA
Tarzan meu querido quero encontrar a inocência perdida
bem divertida.
a inocência perdida desde aquele dia
em que o Arcanjo Benigno meio cúmplice
de nossos pais, dos pais da prole humana
vendo fulgurantes esquadrões de guerreiros descendo
para a marcada posição guardarem
expulsar nossos pais e o arcanjo simpático
vendo de Deus a espada diante do pelotão
brandindo acesa e feroz
toma apressado pelas mãos
nossos pais que se demoram,
até a porta assim os leva
e chegando a planície que se alonga
fora do ノ den
deixo-os e sumiu-se.

LOURA
Imagino o que devem ter sentido os nossos pais
nesse momento, Tarzan
olham para trás o ノ den em chamas
de pena algumas lágrimas verteram
mas resignados logo as enxugaram
dando-se as mãos os pais da humana prole
os nossos pais
vagarosos lá vão com passo errante
afastando-se do ノ den solitários
Acorda Tarzan
meu macaco promíscuo
estamos de volta
estamos outra vez na porta do Cine ノ den
vem meu galã, Arcanjo das minhas neuroses
levanta tua espada
ergue o teu pênis, me guia, meu Rafael
Foi Margaret Mead que chamou atenção
L チ NA FLORESTA TEM UM TEATRO: O PARA ヘ SO PERDIDO
Tem uma rave, festas alucinógenas, música, performance e malabares e muita
droga sintética, festa ao ar livre por 5 ou 7 dias seguidos, longe dos grandes
centros urbanos apocalípticos e poluídos a busca de êxtase, esta o êxtase o
LSD? longe ou perto da besta. Fugir da metrópole poluída, polis violentas
arranhas céus estupradores de nuvens, nuvens de fuligens, deusa de Hollywood,
fujo das fitas cinematográficas sinistras e dos rolinhos e rolos de nitrato
inflamáveis, das festas dos magnatas donos dos estúdios de sonhos e aflições
das festas dos grandes milionários, do cansaço das máscaras, foge dos holofotes,
foge para a floresta, foge do star sistema de Hollywood, das ascensões e das
quedas.

ANJO MIGUEL
Estais pálida, estais desmaquiada, crepúsculos dos deuses, caístes deusa dos
panqueiques e da feridas overdoses de álcool, barbitúricos.

LOURA
Altos cachês, altíssimos sapatos de saltos altos altíssimos, altíssimos deuses, não
tenho mais para onde subir nem para onde mais cair, crepúsculos dos deuses,
amantes milionários, festas Fitzgerald, automóveis automóveis limosines e
quedas em poças de lama fogos fogos foges para a floresta, fãs fãs muitos fãs fãs
fãs cães cães cães latindo balindo a língua de sede da estrela das luzes da luz
negra rave foges das luzes cegantes .

Aqui é o paraíso, lembrei.


Eu eu sou uma grande atriz, eu não sou, ou cães, fãs ainda vem e querem
sedentos beber a minha luz, mas eu não quero, eu não lembro, eu bebi, fumei
cheirei droguei e fiquei tonta, tonta, tão tonta que até vomitei rolos e rolos de
filmes de nitrato na cara dos meus fãs-cães e parem de latir que já não agüento
mais de tanta fama lama e tantos barulhos de clack e de latidos de cães. Porque
os sinos dobram. Isso é Casablanca ou o far west ou a minha euforia ou o meu
fim. Ufa! Cheguei enfim, isso aqui é o Paraíso.

Eu fiquei noites e noites sem dormir, que ressaca é só fumaça de chaminé


cinzenta é só sucata, espectros de automóveis, a luz dessa floresta é o dia, é a
luz éden, eu estou aqui, nascida de novo no gênesis, na origem da memória, é a
porta do éden que de novo está aberta, sem aquele general-anjo e seu exercito,
onde estão os tanques de Guerra desse arcanjo-general, Ufa é o paraíso, eu
estou aqui de volta e sem culpa, esquecida a culpa, liberada de tudo,
teurapetizada, longe e fugida das luzes de artifício.

Achei de novo o Paraíso.


perdido pelos pais da prole humana
Serpente, fruto e sedução, nudez barata
mas deixa prá lá
o que vale é que foi reencontrado
a memória dá muitas reviravoltas
teatro da memória
Acorda Tarzan vem ver essa última página a ser escrita. Pega tua esferográfica
parker, teu note-book, vem ajudar escrever essa ultima página bendita, essa
página pornográfica desse livro de fim-origem. Vem para esse poema de fim-
origem, vem para esse cine-éden-overdose. Vem meu primata, vem andar de 4.
Tarzan meu macaco promíscuo, o Paraíso é isto,
a Floresta Encantada
só falta agora encontrarmos esses selvagens
sociedades harmoniosas que não conhecem nem o mau
nem os conflitos do mundo moderno
nem essas águias aéreas invisíveis
essas midiotas dando bicadas
no nosso fígado contemplativo
perturbando as orações dos nossos intestinos secretos
aqui no Paraíso Floresta não tem pobreza nem crime
acorda Tarzan Lisérgico
abre o olho vermelho Tarzan neurótico
Tarzan promíscuo, aqui se transa a vontade
sociedade permissiva de promiscuidade droga e sexual
praticam amor livre como em Woodstock
Não é uma delícia, Tarzan?
Banheiro das delícias. Jardim-Jardim.
Acorda tarzan vem ver diversidade
de estonteantes borboletas
mais de 700 espécies
nesse éden floresta rente ao chão
borboletas ou pétalas esvoaçantes de flores.

ALUMBRAMENTO DA FORMA DAS BORBOLETAS


(reescrevendo Bates)
Lagarta transformada borboleta
“Metamorfose o reverteu
Em algo estranho e nobre.”
Diversidade de borboletas
esplendida morfho azul metálico
confinada a maior parte do tempo
às sombrias veredas da floresta
e ocasionalmente aparece em plena luz do sol
ofuscante é o seu elemento
sublime o nome de sua espécie ou se preferir poesis.
E tem as espécies papilio batizadas de troianas por Lineu
notáveis pelo veludoso negror de suas asas
os seus belos matizes de verde e rosa,
essas belas não se afastam nunca da penumbra da floresta
e a morpho menelaus, entre as espécies as mais belas
batendo suas imensas asas como se pássaro fosse
tem sempre um mito grego na elegância de Lineu,
no nomes das borboletas
e tem a morpho rhetenor
brilho esplendoroso
a face externa da asa
alto sobrevôo
em pontos ensolarados da floresta
ocasionalmente voando
o azul que recobre as sua asas
refulge a luz do sol
visível a 400 metros de distância.
Chove de vez em quando
show de belíssimas borboletas
no auge da estação da seca
em número maior
e variedade infinita
espécies raras e curiosas,
cores formas desenhos
umas amarelas, outras viva cor vermelha,
algumas verde roxa ou azul,
riscos pintas prateadas nas borda das asas,
revestida de prata ou dourado,
outras asas transparente como vidro,
ainda outras manchas opacas
na asa tons rosa e violeta.
Meu deus, que ofuscamento cromático,
que voadeira dodeira,
que cegueira de vôos
de cores de dourado,
prateado, de envidraçado.
Espetacular borboleta.

VIS ユ ES DO VELHO E NOVO PARAISO

TARZAN
Essa é a floresta amazônica visões e sons
de um novo e falso éden
eu estou ouvindo Villa Lobos
Estou ouvindo cantos, tambores e flautas de índios
Villa Lobos sinfonia, melodia de pássaros,
garças brancas luto branco
Trinados invisíveis de uirapurus
Trinados tristes
sinfonia de pássaros vivos
colibris mortos empalados souvenirs
Estou ouvindo a Floresta do Amazonas de Villa Lobos,
encomenda da metro Metro-Goldwyn-Mayer
para trilha de um filme, que foi um grande fracasso,
e sendo aqui nessa real floresta, inesquecível sinfonia,
floresta-inesquecivel-música.

No silêncio da selva enigmática


leio o livro de Henry Walter Bates –
“um naturalista em viagem pelo rio das Amazonas”
me sinto um naturalista nessa floresta
colecionando emoções curioso de tédio, que tédio,
como me conforto com esse ambiente entediante
na sombra dessas arvores gigantescas,
arvores de 30 metros, altura colossal
me assusto com esses gigantes
como dou certo em meio a floresta entediante

tudo é efeito melancólico


me afasto da minha tribo urbana
fujo do coletivo com o qual cheguei aqui.

Pios solitários de pássaros,


no meio da mata
evocando longe
chegam um a um
chamam uns aos outros
voando de árvore em árvore.

Pios solitários de pássaros


eu solitário
melodiosos
o canto ressoa sombrio por toda selva
misteriosos
pássaros de plumagem negra e lustrosa
litania de pássaros
anunciam com seu canto estridente
floresta crepúsculo.
Que tristeza crônica,
que vontade de sumir da vida.
Que desânimo o canto melodioso
desses misteriosos pássaros.
O tom escuro desses cantores de penas,
cantores voadores,
trinados alados,
ao invés de me deixarem todo animado,
cheio de idéias de festas,
em vez de baixar no meu cavalo de aço
um Dionísio eufórico cheio de vida,
esses cantares tristes de pássaros
me deixam mais deprimido ainda.
Só aqui em melodiosa floresta
se ouve canto singular.
Canto sombrio, estremeço.

Sombria esta minha alma jovem, meu espírito juvenil


eu que desejara e tantos planos fizera de interpretar Mercucio
no teatro, tão cheio de vida, cheio de gírias e jogos de palavras
no I, II e terceiro Ato,
podes crer? Morou? Sacou? ノ isso ai bicho.

estou no centro dessa floresta primitiva


tudo é silêncio assustador
quebrado por ruídos estridentes
de animais soturnos,
espíritos invisíveis
floresta sinistra.

a água do regato manchado de folhas apodrecidas, Narciso me olhando em


espelho-contrário, espelho convexo deformante, me deixa com o maior carão, não
me vejo belo não vejo feio espelho distorcido do regato manchado por folhas
apodrecidas o que é diferente é feio, será que me atiro nesse regato, será que me
despeço? Será que parto? Não sei se nado em águas manchadas de folhas
apodrecida ou se me afogo nesse espelho sufocante de outro feio, o que é belo é
espelho, o que não é espelho feio é, é diferente é estranho, não quero nadar no
espelho-água do regato manchado de folha, não quero me ver no espelho.

ARGONAUTA JAS テ O
O que não é espelho é feio é marginal, é fora de linha, é cara de macaco, é pele
vermelha. O espelho é branco louro ocidental civilizado adulto macho. O espelho
é eurocentro. ノ o centro do globo torto. Reflexões, reflexões, pensamentos
tormentos o certo é filosofar em europeu ou em selvagem, não sei se fico
confuso, sou ou não sou.

TARZAN
O chão está forrado como sempre de musgos e montes de detritos vegetais,
revestido de grossa camada de folhas, agora acrescento lixo industrial, lixo
branco e químico, detrito radioativo. Frutos de todos os tipos espalhados pelo
chão, pareço um Narciso egocêntrico, deprimido, olhando somente para o meu
umbigo, definhando comendo a carne de meus macacos coleginhas, meus
irmãozinhos de criação, me alimentando para não morrer de fome nessa floresta
de tristes, porque ouve falta de carne vermelha de animal no mercado da selva,
na devoração das espécies, silêncios e ruídos de fantasmas-bichos ou de
pessoas-bichos de mitos-mortos.

E esse passarinho com um tufo de penas no papo


voando ao meu redor bicando o meu corpo,
emitindo com suas asas um ruído estranho,
a pele, carne minha, meus músculos,
sinto as picada desse passarinho nos nervos, adrenalino.

Esse cipoal fervilhando de formigas e pássaros que vem me devorar


O que sinto, o que meu corpo será,
Devorado por pássaros e formigas
Caminho a sombra das árvores
Fico aqui na sombra dessa arvore,
Só, sem outro, pois o outro para mim é sombra e pó.
Narciso só, o que não é espelho é detestável
é um pawor.

os livros de viagens nos disseram sempre


“ opressivo é o silencio reinante nas florestas do Brasil”
Dizem que em alguma floresta,
talvez no Brasil existe um homem e um animal triste.
E esse tédio da floresta é tão real, um tédio coisa real,
de uma sensação tediosa que vai se aprofundando
a medida que aumenta a nossa imersão na selva,
que penetra o nosso corpo na selva
que aumenta o nosso conhecimento-desconhecimento da selva
em que afundamos nela.
Reina uma quietude geral
Reina um silencio
E do meio da uma quietude geral ouve-se um berro súbito
sobressaltado
me encho de pavor
estou senhor dos medos,
do meus medos e medos deles
é um grito animal, quem grita?
quem grita? de que corpo animal parte esse grito?
Que voz-bicho emite berro súbito?
um roedor indefeso comedor de frutas atacado pelo Jaguar ou pela serpente.
Outra vez o silêncio, de volta e de novo o tédio outra vez a tristeza do Jeca, do
garoto ecstasy, do jovem alcoólatra. ノ a hora quieta do meio dia em que descanso
deitado no solo, nessa cama da terra que é uma grossa camada de folhas secas
umedecidas. Sensação de inóspita solidão.
Eis que sou, que meus ouvidos
são invadidos por um susto monstruoso
uma gritaria de bichos doidos,
de macacos alucinados em horrenda gritaria,
arrepiante algazarra tremo de tanto medo,
não consigo me livrar de meus medos jovens,
de meus traumas ocidentais, de meus 3 3dipos,
Papai me acode, mamãe me acode,
mas eles estão longe muito longe dessa floresta de assombro,
longe a memória de pai mamãe socorro help, longe esta a civilização papai
mamãe.
com essa infernal gritaria de macacos não consigo
os uivos dos macacos compõe uma arrepiante algazarra,
tornando difícil para quem os escuta conservar animação de espírito.
Interrompo o meu descanso, levanto da minha cama de folhas quentes,
umedecidas, é difícil conservar animação de espírito com a estridência arrepiante
da algazarra desse macaquinhos-demônios, minha alegria está arrebentada
dessa algazarra e dessa estridência desses macaquinhos vândalos.

JAWAT
e
os ressecamentos
a queda das folhagens secas
folhas apodrecidas natureza entrópica
E essas orquídeas negras amassadas
E o ritmo acelerado de abate de árvores
Selva devastada
balés de borboletas multicoloridas tristes
dançando a morte das garças alvas
Germina orquídeas azuladas enferrujadas
na terra ressecada
abate ilegal de árvores
TARZAN
Que bom morrer carbonizado nessa floresta incendiada,
Melhor morrer aqui do que na cidade poluída-policiada
Engarrafamento de automóveis
Engarrafamentos de humanóides noiados

JAWAT
Ritmo acelerado de corte de árvores.
Inimigos da floresta e do planeta
ritmo alucinante de moto-serras
enfurecida de capitalistas Gerions-dragões-dantescos
besta de cem pernas
com usara floresta e beleza viram cinzas
Floresta gigante
mãe suprema
mãe monstro
me engole no teu útero fervente
me derrete
me dissolve liquido
sou só dissolução
Máquina liquida Co2

TARZAN
E esse inferno verde
Esse calor carboniza amolece o meu corpo
Enfraquece as minhas joviais energias
Eu que sou um ator fracasso
Não consigo interpretar nem Hamlet nem Laerte,
nem Horácio e Horácios, nem Curiácios. Fracassos.
Nem papeis fortes nem fracos, nem figurações, nem tristes figuras.
Meu professor de esportes-radicais me levou ao autódromo,
depois ao mar para que eu surfasse
Disse-me ele: vá ser Mercúcio no Globo Theatre
Vá lutar esgrima com seus pares, fazer jogos de palavras,
se meter em intrigas de amor e ódio de família nobre
Cheio de velocidade de automóvel,
Cheio de acelerador de moto
Achava que podia ser Mercúcio,
cheio de energia juvenil, jovem e agitado
e quis tanto ser Mercúcio no teatro
no Globe Theatre, construído em
forma circular

LOURA
A ilha da tempestade de Miranda
é um circulo
com ou sem utopias
sem Thomas Morus
sem projeto de vida alternativa
O Globe Theatre esse teatro famoso.

TARZAN
Será que um dia serei famoso nessa floresta de tédios?

LOURA
O que posso querer aqui nesse falso paraíso?
Globo Theatre circulo esfera,
damos volta eternamente em volta do meu umbigo círculo
no circulo do Globe Theatre, no círculo da ilha-tempestade
de Próspero e de Miranda.

TARZAN
Fumo, canso, fumaço
Caio no ópio caio na gandaia
No sucessivo da balada
Caio no tédio aqui
Esse espírito da floresta maroto escondendo meu walkman
Mercúcio perturbado, festas farras e porres de cachaça
Achei que podia ser um ator-Dionisius
Cheio de entusiasmo
Tomado de êxtase
Preenchido de tanto vigor vigor
Que podia ser James Dean
Az da motocicleta,
velocidade jovem

LOURA
Luxuriante floresta
as flores das árvores atraem algumas espécies de colibris.
As arvores estão cobertas de flores, um epidedron
flor espetacular, bela orquídea, leve resistente
cobrindo o tronco das árvores
de profusão de grandes flores brancas.
Orquídeas brancas vivas
orquídeas belas
orquídeas azuladas
lindas, ornamentando
sugerindo ornamentar o nosso tédio urbano
flores do entusiasmo

TARZAN
Orquídeas negras mortas apodrecidas
orquídeas enlutadas
vou mastigar pétalas de orquídeas,
minha amiga atriz,
deusa de Hollywood
sugar o pólen de orquídeas viúvas
de orquídeas vivas
de viúvas orquídeas alegres
apodrecidas enferrujadas orquídeas
contagiadas de venenos químicos

LOURA
Tudo está perdido,
geração perdida,
floresta perdida
selva desmatada,
sem armazenamentos de carbono
sem chuva que resfria
sem nutrientes acumulados nos troncos de árvores
e cascas milenares
ecossistema perdido,
desaparecem milhares de espécies
e esse calor medonho,
efeito estufa, defeitos,
e os meus defeitos,
os meu direitos, meus deveres
Ofélia com o coração despertador
saindo pela boca
aos vômitos incêndios na floresta

E a cada década
sobe a temperatura do planeta
a uma taxa de 0,2 grau.
Floresta perdida
O que dizem de ti selva magnífica.
Dona Hiléia, Miss-mundo-verde.
mata-exuberante.
Crise. Crise do clima, do gás-carbônico,
das chuvas reduzidas,
ah vomitei meu coração torrado pela boca
esse relógio-despertador enferrujado.

TARZAN
Que calor, que tédio, trópicos tristes,
selva melancólica,
estou tão entediado desse silencio
do zumbido inquietante desses mosquitos,
mas tem essa farra de borboletas,
nuvem de insetos multicoloridos.

E eu que fora Mercúcio no 1 e 2 ato,


cheio de adrenalina jovem e jogos de palavras,
agora sou Mercúcio falecido e toda juventude morta,
juventude perdida,
consumida sem causa e sem ideal,
sem calça jeans, de jeans blue estou aqui vestido,
de camiseta branca eu sou Dean sem calca e sem causa,
me arranhando e me sangrando nessa floresta de carbono.
Floresta falecida, orquestra funerária de insetos ferozes,
ferozes formigas, orquídeas roxas,
orquídeas murchas,
será que ainda posso ir para álbum baile de máscaras,
máscara de humanos e animais, lutar esgrima

LOURA
E Euclides da Cunha quem nos disse,
a floresta Amazônica é a página última,
ainda por escrever-se, do gênesis.
Você e eu e ele somos geração perdida.

TARZAN
Melodia sentimental Villa Lobos invade o meu ser
entristece e sensibiliza os meus sentidos
o meu corpo derrotado
o meu corpo alcoolizado, alcoólatra
nem sei se faço um 4 ou um quadro uma paisagem
uma plástica esverdeada uma sombra verde
natureza morta floresta viva
incêndio de florestas torpor calor derreto

LOURA
Final de tarde na selva perdida,
perdidos, geração perdida

TARZAN
Ator derrotado geração perdida
Villa amolece os sentidos dos meus ouvidos perdidos
Paraíso perdido esse é o reencontrado atriz amiga
Deusa de Nitrato

LOURA
Mas o stress da grande cidade
sugou os nossos instintos joviais de artistas
Miranda triste e perdida em meio a tempestade da ilha
esperando um príncipe
Projetando libido de elfos, Ariel e o bruto Calibã
Vegetando com o triste pai Próspero perdida a magia,
Perdida a utopia na cidade
Tentando inventar utopias novas na ilha
Com velhas manias
Sem alternativas
Guardar roupas novas em velhas gaveta
E nós aqui tentado inventar paraíso agora
Em magnífica floresta magnífica
O que essa floresta pode nos dar
o que pode fortalecer a nossa juventude perdida
Somos todos uma geração perdida

TARZAN
Desisti desisti o teatro não tem mais papel
Ou eu não tenho mais ator pro papel teatro
desisti aqui
Em meio a essa floresta
Ouvindo esse cantar de pássaro
Assustado
No meio dessa mata
Ouvindo esses cantos melancólicos de pássaros
Devorado por essas formigas ferozes
Nessa mata formada
emaranhado de árvores,
Formigas ferozes devorando folhas de plantas
e folhas miúdas do meu corpo e dos meus pelos pubianos.

O livro de Henry Walter Bates


me sinto um naturalista nessa floresta colecionando emoções curioso de tédio,
que tédio, como me conforto com esse ambiente entediante na sombra dessas
árvores gigantes
sinfonia de villa lobos que fora encomendada pela metro Metro-Goldwyn-Mayer
para um filme que no final foi um grande fracasso
mas depois disso foi gravada em disco em forma de sinfonia
que agora ouço nessa floresta de tristes bichos, sinfonia real triste triste.

JAWAT
Novo éden
Apocalipse agora
Floresta máquina cinematográfica
Paraíso já
Uma imaginação estonteante bela
Delírio psicodélico cinema transcendência
Filme lisérgico
Floresta filme laboratório de ficção cientifica
Atômica preparada para a implosão carbono
Armazenando carbono
Floresta armazém de carbono
Sem chuva e sem aguaceiro
Pois de tanto abate de árvore veloz abate
De tanto desmate de tanta fogueira
Foge o carbono do armazenado da floresta
Impregnando a atmosfera contagiando ar
Um aquecimento geral, um vegeto infernal
A estufa é o efeito
O feito de tanto de tanto o desmatar matar.
Morte no ar. Atmosfera ar stop. Parou o ar ou a motoserra.
Ou Dean de Jeans, o acidente de automóvel no cinema do novo éden, apocalipse
já. Stop ar arrrr arrrr stop Stop a diversidade plantas, mamíferos, anfíbios, peixes,
pássaros. parar já, respira, o pulmão parou, o ar, coração, respira, respira já, diz
33, 33 stop, respira, ar CO2, respira carbono, o pulmão está carbonizado,
carbonizado o coração, a emoção a cueca, o casaco de couro, a camiseta
branca, a calca jeans blue, diga 33, respira, Dean velocidade, já, parar, James o
acidente de automóvel o novo o falso éden o novo.
Usura carboniza morpho nobre borboleta lagarta metamorfose em algo estranho e
mórbido converteu.

WALPURGISNACHT NA FLORESTA AMAZ ヤ NIA

KOTOK
Você é a Mulher-Escarlate?

LOURA
Sim, me reconheceu pela taça de imundices ou pelo excesso de batom nos meus
lábios imorais?

KOTOK
ノ, você fala belos palavrões.

LOURA
Vá se fuder seu panaca, vá tomar no seu cu de índio-troxa, vá ferrar a puta que te
pariu.
O QUE ノ UM SELVAGEM?

MULHER ESCARLATE
Pensa que eu não sei, seu transviado
você se delicia consumindo
nossos produtos industrializados
você se prostitui
não é mais um selvagem

KOTOK
Sou galinha-metálica
sou um Selvagem

MULHER ESCARLATE
O que é um selvagem?
Um índio?
KOTOK
Um índio:
"ノ todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é
identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características o
distinguem da sociedade nacional."

MULHER ESCARLATE
Bebe, bebe essa cachaça
Essa volúpia esse cd-room
Mama as minhas tetas amarelas
Cogumelos-urbanos
Vê se adoece
Perfumes-perfumo
Perfumo-te
Opium vê se te vicia
Vê se fica viciado

ELA
Você se apropria das rezas de padre nas tuas sessões de cura,
você se aladainha.
Você reza demais, seu credo-misturado.
Você crê em deus-Pai.
Você se diminui.
Você faz muito sinal da cruz, cruz, credo, arremeda.
Você se entorta todo na cruz de dólar, você me enrola toda, não me enrola que
não sou carretel de arame.
Você me enrola toda, você me deixa doida de tanta identidade,
de tanta moda, de tanta mistura de roupas e roupas.

KOTOK
Sim garota-Cadilaque, curto uma puta-loira, uma interétnica. Curto um rossa
rossa de puta de fora.

LOURA
ヘ ndio-come-cru, índio come-cozido, espera índio cru, espera índio-come-cozido,
deixa de ansiedade-urbanóide, humanóide, vê se tira roupa, vê se fica nu,vê se
fica de bunda de fora, vê se mostra a mandioca brava, vê se pára de ficar botando
roupa de branco, tira esse calção de futebol, chuta essa bola, camiseta de junkie,
casaco jeans, agora você é sid-vicious.

ELE
Yes, garota-gasolina, sou bem conhecido por compatibilizar cocares de penas
com ternos e camisas sociais.

ELA
Come esse sandwich-podre-gigante, viaja nessa maionese, nessa magnésia,
arregaça essa selva. Nome do pai do filho e do automóvel. Vê se põe a piroca de
fora, era isso que esperávamos de ti, novo Adão, Adão selvagem, isso aqui não é
afinal o Paraíso? Não voltamos, enfim, ao Paraíso, o eterno paraíso o novo o
velho, e te encontro aqui vestido como um puta, arrastando a tamanca arrastando
a genital na calçada correndo atrás de grana, um michezinho vendido numa rua
profana de Paris ou de Hollywood, ou de Istambul. Vê se mostra a rola, se faz boa
publicidade do pau-grosso-pavão. Vê se vende a mandioca-de-cristão. Vê se roda
a bolsa de valores seu trottoir. Vê se fatura, se faz boa fatura. Jura. Jura. Jura que
perjura. Jura de Pau-fincado, de rola-dura. Dá uma de galo, berra-cacareja nesse
terreiro de bolsa-de-valores. Meio-indio, meio civilizado. Você se dupla todo. Vê
se abre as pernas. Toma, come esse croquete azedo, enfia na goela baixo, toma
essa pílula de piada besta, vê se se consome, vê se me consome, vê se come ou
sou eu que te consome-come. Você crê em deus pai, você acredita na piada do
rei nu, do rei vestido rico vestido de vento um vestido de nada e uma roupa
invisível deu um pum!!

ELE
Não creio no Uno. Corro atrás de diversas paradas, apenas misturo rezas
pajelanças, girl-motorizada.

ELA
Você vive correndo atrás de xoxota branca, você curte uma boa pornochanchada.

ELE
Mas não estou assim tão vestido, alguma parte do meu corpo está de fora. Algum
índio-Nu. Algum vestígio de índio, do que imaginas de mim-indio, o índio que te
vendi, o índio que procuras desejas em mim-nu, garota-automóvel.

ヘ ndio de dois corpos, de duas caras e de duas bundas. Shorts e calcas


compridas, camisas de pólo, terno de urubus. Com que roupa? Pinturas corporais,
short, o que você vê em mim, as minhas tatuagens, as minhas antigas tatuagem,
esse short, essa camisa cobrem as minhas tatuagens antigas, as minhas marcas
nativas. Eu vou de maiô eu vou de tanga de lycra. Eu vou de moleton enfrentar o
frio sulista. Eu vou de street wear, eu vou de boné. Eu vou te touca-roxa. Não vai
dormir de touca, seu trouxa. Eu vou de tênis wall star. Eu vou de vulcabras.
Bermudão. Eu vou de bermudão.

ELA
Vê se esconde ou se mostra de vez essas pinturas corporais, essas marcas de
jaguar, vê se faz tatuagens ocidentais. Vê se te missigeniza, vê se cai na farra do
ocidente, vê se morre de acidente de moto ou de carro. Para de exibir essas
pinturas corporais indígenas – essa marcas de Jaguar, índio-exibido.

ELE
Vê essa pinturas corporais, são as minhas marcas. ヘ ndio Bi-corpo branco, girl-
carbono.

ELA
Você é o que anda nu?
Você é filho de Noé.
Você ficou bêbado e tirou a roupa
Você bebeu cauim e tirou a roupa
Bebe cauim e fica nu, e se lembra que fica nu
Só porque bebeu cauim resolveu ficar pelado
Resolveu strip tease

ELE
Agora eu sou um índio com traje
completo de vestes ocidentais,
para viver em paz entre os ocidentais.
Agora sou um índio-ativista precisando
de marcas tradicionais, meu merchandise cultural.
Qual você prefere.?

ELA
Prefiro um índio nu idealizado.

ANJO CAFTEN
Você não segue a tradição.

JAWAT
Eu reinvento, eu me reinvento, eu reinvento a minha cultura a minha natureza.

LOURA
Porque você não vira logo branco de vez se gosta tanta de ir para maracangalha?
Se gosta tanto de se produzir, de se trotoir? De se jogar, de badalar. De cair na
gandaia. Vê se cai na gandaia. Vê se te usura, vê se te enche de vaidade, vê se
te volúpia. Vê se babilônia. Vê se mete nabuco nu nosso cu branco.

Vê se promove ocupação induzida da Amazônia. Vê se fica emancipado, vê se sai


dessa tutela do estado, vê se te maioriza, vê se te independe, te independe ou
morre, ou morre independente, vê se te maioriza, vê se tira RG.

UM MILITAR JOVEM PATRULANDO UMA FRONTEIRA INTERNACIONAL DA


FLORESTA FUMANDO UM CHARUTAO
ANJO CAFTEN
Você se perde, você se prostitui na interzona, na zona franca.
Você roda a bolceta no mercado de Free zone, você trai tua cultura.
Você perde a tradição de tua raça.
Você cheira perfume ópio no opiario de free zone.
Enfio esse charuto aceso no teu rabo sua puta imunda, vê se agüenta.
Puta-papagaio, agüenta o rabo, agüenta a rola-quente, a pica acesa, agüenta a
pimenta ardente quente no rabo, meretriz barata de free zone de zona fácil, fácil
zone. Vida fácil é arder o cu. ノ ferver free zorra, puta zonza. Enfio a rola acessa
na tua zona franca, que fraca, enfio a faca. O cu é a faca e a ferida, e o charutão
acesso enfiado. Credo e cruz. Agüenta, sua nojenta, a rola, o charuto aceso e a
pimenta ardendo, lá dentro, se índio agüenta se pula pra fora da zona fria ou pra
dentro de free zone quente.

JOVEM-FUNCIONARIO-FEDERAL-DEMARCANDO-TERRAS-DE-INDIOS-NA
FLORESTA
Nós temos um problema de consciência, uma culpa, uma divida longa, no inicio
você estava aqui dono natural da terra, nos caímos aqui de para-queda e te
arrancamos na marra, na guerra justa, na força bruta, da terra tua, e agora queres
tua terra de volta, achas que tens esse direito.

JAWAT
Acho, tenho todo direito.
Essa terra toda era minha
Eu estava aqui muito antes de ti
Se agora acha que tens direito a terra
Tenho direito muitos, antes muito antes de ti
Tenho um direito antigo um atrasado

JOVEM-FUNCION チ RIO-FEDERAL-DEMARCANDO-TERRAS-DE-INDIOS-NA
FLORESTA
E porque estou falando em nome deste pais, porque esse país reconhece esses
teus direitos originários, a voz do Brasil fala em mim, reconhece que tem uma
dívida contigo, com teu povo, mesmo que fale só de malandragem.
E eu que me apossei do que era teu resolvo se agora tens algum, se realmente
tens esse direito, e se te dou, e que pedaço te devolvo ou te empresto por algum
tempo a terra que era tua, te devolvo ou te empresto um pequeno pedaço uma
migalha do que era tua propriedade, um grão de terra, um pedacinho, quase uma
esmola cristã, uma migalha, por que tenho tido durante esses séculos problemas
de insônia, porque te roubei na maior, não admitia que tivesse, não consigo
dormir a noite, dou cabeçadas no meu travesseiro de ferro e não descanso a noite
insone atormentado, porque roubei tua terra há séculos e por problema de
consciência de vaga e falsa consciência, de saber se te devolvo pequena parte ou
se te empresto para que sobrevivas um pouco descentemente, para não passares
vergonha para que eu não passe vergonha diante do consciente inconsciente do
ocidente, para que eu não sofra de dor de dente, para que eu não arranque meu
senso, que eu não arranque meus pentelhos a força.
Porque tirei tua língua e te dei outra, te dei escrita a força, te dei inconsciente e
ノ dipo. Te dei duvida sei ou não sei, não ser ou ser, ser, sei não sei sei sei não sei
não sei será que sei? Não sei, se não sei, ou não. Te dei toda confusão de luva,
mudar te credo te fiz, aleluia late pra valer ale luiiiiii ahhhhh deus me
acudaaaaa!!!!!!bla bla bla balelalá bla bla bla

JAWAT
Antes de tudo, de todos, os nossos direito a terra, a nossa terra perdida na nossa
memória, eu já sou o dono da terra eu sempre fui, a terra vermelha, imemorial, a
terra torpor, o corpo terra, o meu corpo imerso na terra vermelha, vigília e sonho
corpo cosmos terra, o apego o amor a selvagem terra, sai daqui deixa que eu
fique só eu e meu coletivo os donos primeiro dessa floresta, povos dessa floresta
primitiva, dessa floresta supérflua, desse simulacro da floresta, fujo para o alto da
floresta, para alto dessa terra, floresta primitiva aqui te encontro de novo virgem
bruta reservada, escondida, minha mãe vegetal animal humana, bem no teu alto
do teu útero me escondo dos brancos, das armas de fogo, das doenças deles,
máquina-de-vegetal, chuva eterna, árvores de 30 metros, mamífera, ave-inseto,
aguaceira, barro, meu corpo plantado na terra fera eu a fera a terra, torpor, entro
em transe térreo, a terra obsessiva, armazém de carbono, a embriaguez da terra
da lama da terra, enlameado da memória dessa terra, barro.

A UNI テ O NACIONAL (trôpega, senil e insana)


Eu sou a União A Nação eu não durmo a noite toda, eu tenho pesadelos bizarros,
eu tenho sonhos assombrosos, sombrios, escuros eu te vejo índio-perdido,
pedinte, miserável, maltrapilho, longe da tua aldeia, longe dos teus afins, te
arrastando mendigo por áreas urbanas do pais ou Manaus ou São Paulo ou
Belém ou Babel em Boa Vista, Corumbá, Rio Branco atroz Babilônia, cidade cruel
e tu índio desaldeado, exilado da tua aldeia, do teu chão, da memória da tua terra,
cão faminto, mendigo lazarento comendo a sobra das migalhas que caem do
banquete da minha mesa-rica-opulenta, eu a União-metrópole, a cidade maça,
cidade-porrada, náááãããooooo, eu tenho pesadelos, eu me apavoro toda eu me
arregaço, esse martelo de acusação martelando a minha consciência, “eu quero
terra, eu quero terra, você roubou saqueou a minha terra”, a 500 anos eu ouço
esse berro aflito. E esse cães latindo, esses estridentes na noite dos horrores dos
meus sonhos, tem o artigo 231 da constituição, tem um alivio na consciência,
dessa forma não devo tanto, me sinto mais humana, eu sou muito egoísta, eu sou
injusta eu só penso nas minhas ancas e na minha vulva, eu quero ficar
confortada, eu quero Hamlet alienada, eu quero aranhas-sombras alienadas de
Hamlet, atriz alienada, eu não vejo miséria em lugar nenhum, eu só vejo ópera e
luxo, e vem essas Ofélias-ferozes, esses cães latindo, arranhado a minha
consciência-de-culpa-e-posse com seus dentes e latido, do que me apossei
desses cães.

JOVEM-FUNCION チ RIO-FEDERAL-DEMARCANDO-TERRAS-DE
INDIOS-NA FLORESTA
A senhora pode ficar tranqüila Imperatriz União, louca e histérica.
Tome esses comprimido, esses calmante, se acalme, durma tranqüila.
Já latiram muito esses índios-cães-ativista, vamos dar-lhes um mínimo-pedaço de
terra. Daremos a eles um artigo na Constituição, um pedaço de terra, uma
segurança, um usufruto, daremos o artigo 231, assim eles não latem tanto e a
Sra. volta a dormir, a sua enfermeira-federal já esta ai lhe medicando, trazendo o
seu lexotan, um comprimido calmante para a senhora ter sonhos de santa-cruz.
(Entra a Enfermeira-trôpega com os compridos calmantes)

GRITOS-PESADELOS-DE-INDIOS-ATIVISTA
Eu quero mais, quero tudo que nos deve louca, rainha, Imperatriz injusta e estéril,
queremos um bom-bocado quero a terra que era minha e que me roubaste,
imperatriz-louca-galinha, vaca-acumuladora.
A UNI テ O NACIONAL
Meus filhos enjeitados, meus índios perdidos
Esse livro que tenho aqui nas minhas mãos absolutas
ノ a constituição do nosso pais é a minha lei,
ノ a tabula da minha lei é a tua conquista e o teu dever
A demarcação de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios
encontra-se no parágrafo primeiro
do artigo 231 da Constituição Federal:
são aquelas terras "por eles habitadas em caráter permanente,
as utilizadas para suas atividades produtivas,
as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais
necessários a seu bem-estar
e as necessárias a sua reprodução física e cultural,
segundo seu usos, costumes e tradições".
No artigo 20 está estabelecido
que essas terras são bens da União,
sendo reconhecidos aos índios
a posse permanente
e o usufruto exclusivo das riquezas do solo,
dos rios e dos lagos nelas existentes.
A terra é minha propriedade
A terra é da nação
Mas vocês tem o usufruto permanente dela.

Os indígenas podem usar tudo para o uso de seu coletivo:


podem fazer roça, aldeia,
extrair lenha e alimentos
sem qualquer restrição.
Essa reserva indígena é tua,
essa terra tua, só tua,
para sempre, eternamente, para sempre tua.
podem plantar, fazer roças e aldeias mas não abusa
Mas não vai dar pra outrem, nem vende, nem aluga
nem deixe de te bulem
não és um surtadinho
para que te surrupiem
e venham mexer a terra tua,
tua e dos teus, índio-índios.
“dos recursos naturais de suas terras
podem tirar todos os frutos,
utilidades e rendimentos possíveis,”
Você não pode dá nem vender um tiquinho de terra a outrem,
Não dê presente de terra a homem branco,
ela é tua, goza com ela, não deixa que te roubam,
vê se não te fode dessa vez.
Não abusa, não abunda
Se não te encho de bolos de palmatória
Meus segurança te enche de porradas, de hematomas.
A terra é a tua última chance, senão,
não durmo a noite com teus latidos
nem a base de tanto lexotan-tan-tan.

JAWAT
UFA quanta luta pra conseguir de volta o que é meu o que foi tirado a bruta, puta
luta puta batalha esse branco é mesmo de fuder.
Longo e demorado, e lento é esse processo de demarcação de nossas terras.

ANJO MIGUEL
Nossa Senhora nação transtornada
Eu o teu general maior vim te tranqüilizar,
rainha louca, monárquica e republicana
Falsa imperialista, colonizadora,
colonizada, confusa e ardente
Pátria amada, odiosa e bélica,
cínica e fascinante, legisladora
doce amarga raínha, aranha venenosa
sou teu apoio
tua mortal segurança
fica calma vulgar Imperatriz,
estou no limite do pais,
protejo as tuas fronteiras.

LOURA BAIXADA CLE モ PATRA-MARCO-ANTONIO


Eu sou um terceiro, um sou um não-indio
Eu cheguei nessa floresta imensa
Eu vim invadir a terra indígena
Eu sou um homem branco
O meu interesse é o interesse do mercado-de-Sodoma.
O que me move é o feroz capital.
Eu vou aonde ele me leva, ele grita vai, vai fazer colônia. Eu louca e apressada
gulosa e inconseqüente, porralouca, desesperada e ansioso aos tombos e as
trombetas aos vôos, vou as torres eu vou, aos terremotos, aos trovões eu já vou,
recebo ordens de meu senhor absoluto, o Sr Mercado-Capital
Eu colonizo, eu sodomizo, eu faço você virar colônia já já, eu te submisso.
O mercado de Sodoma é meu amo, meu Sr.
Ele é o meu cafetão eu sou a sua puta
Eu me prostituo a mando dele
Então eu vim invadir a terra indígena
Eu vim invadir a floresta das fortunas. Usura é minha logo.
Soberba é minha marca. Volúpia é meu oficio.
Latrocínio a minha profissão. Com usura flora e beleza viram cinza.
Imoral e sem lei e imunda eu sou a lei do dinheiro, a Constituição da grana, a 69.
Eu dou e sugo eu finjo que dou eu só sugo.
Agora invado essa floresta de édens.
Muitos e infinitos são os seus produtos
A floresta é uma fabulosa mercadoria
A terra dos índios uma mina
Eu eu sou uma prostituta do mercado
Eu sou uma puta demônia do inferno de Wall-street
Uma vênus-suja, vênus-gonorreia, vênus-grana
Vênus-galinha, vênus-vaca, vênus-Babilonia, vênus-venérea,
Vênus-bolsa, vênus-cloaca, vênus-gargantua-profunda
Eu drago tudo eu dou beijos mortais
Eu faço sexo com a pessoa, a pessoa morre,
eu sodomizo o animal e ele se carboniza ele vira um fóssil.
Eu sou antiga e super-moderna,
eu sou super-boneca eu sou super-militarizada,
facista e sensual, nazista e fashion,
boneca-SS-opium-design-novo.
Deus-Malditos!
Eu vim seduzir esses selvagens
Eu vim trepar com esses animais.
Lisa e libidinosa, vênus-satelite,
Vênus-máquina – vênus-serra-elétrica vênus-loba, virago,
invado a floresta eu tenho varias máscara de vênus e de ferro eu tenho várias
armas, pistolas de sêmem e de sexo.
Metralhadora de orgasmos
Eu tenho muitos, muitíssimos interesse nessa floresta soberana
Eu represento muitas nações muitas taras,
Eu sou cleópatra
Eu sou Cleópatra raínha egípcia eu sou o conquistador
Marco Antonio.

EXPULS テ O DO (NOVO)PARAISO 2

(O Anjo Miguel chega na faixa de fronteira, instala o seu pelotão-militar-de-Anjos e


as operações de treinamento e vigilância, é a presença das forcas armadas na
zona de fronteira)

ANJO MIGUEL
Eu sou, eu fui o Arcanjo Miguel, o general celeste, general Patton, democrático e
fascista, o que expulsou os pais da espécie humana de éden ultrajado, o que
anunciei o pecado da carne e da comida e da terra. O anjo bélico general
americano, em novo éden e de novo e outra vez, amem. Brincando eternamente
com meu tanquezinho eletrônico de Guerra, meu carro de combate. Agora estou
aqui nessa faixa de fronteira da Amazônia brasileira, em meio a terra indígena,
comandando a atuação de um Exercito de anjos das Forças Armadas, nessa faixa
de fronteira, nessa zona onde tudo passa, onde passa tudo, onde tudo é ilícito.
Instalada a minha base militar,
O meu Exército se faz presente. ノ que resolvemos intensificar a presença direta
de bases permanentes de nosso Exército-de-Anjos-Militares em regiões de
fronteira na Amazônia brasileira, por meio da instalação de pelotões e de
operações de treinamento e vigilância, para garantir a segurança total das
fronteiras e manter a soberania real da rainha-União.

JAWAT
O seu exército esta montando bases permanente dentro da nossa terra-indígena.

ANJO MIGUEL
Não atrapalhe as ações militares na zona de fronteira. Estamos fiscalizando as
fronteiras. Defendendo a soberania nacional dos invasores-estrangeiros. Garantir
a segurança nacional. Que a segurança nacional não corra risco. Que não corra
risco a segurança da nossa nação. Que não corra risco a nossa segurança, que
não venham os invasores.

JAWAT
Essa faixa de fronteira esta dentro da nossa terra indígena.

ANJO MIGUEL
A terra indígena é que está dentro da faixa de fronteira, quem mandou demarcar,
sempre fomos contra. Sempre fizemos campanha e propaganda contraria que
não demarcassem terras indígenas em faixa de fronteira.

JAWAT
Já estávamos aqui, sempre estivemos aqui, povos indígena, sempre defendemos
a soberania nacional em faixa de fronteira.

ANJO-MIGUEL
A ocupação indígena em faixa de fronteira põe em risco a soberania nacional,
precisamos tirá-los daqui, precisamos tirá-los, da zona, da interzone de fronteira,
a soberania nacional, a soberania da rainha-União corre muito risco. A faixa de
fronteira corre risco, core risco demais.

JAWAT
Ao contrário, os povos indígenas em áreas de fronteira defendem a soberania
nacional, anjo-militar-confuso, General-Patton.

ANJO MIGUEL
Sempre colocaram em risco a nossa soberania, a soberania da Rainha.
Vocês querem entregar o país pros estrangeiros, colocar em perigo total a
soberania do nosso pais. Vocês querem entregar as riquezas da Amazônia e da
floresta pros gringos.

JAWAT
Anjo-da-Morte e da Polícia, invertes tudo, anjo-cão, cachorro-interesseiro. Há um
coro-constante de descontentes com a demarcação das nas nossas terras-
indígenas. Arrozeiros, políticos estaduais, empresários, governadores de estado,
Anjo Miguel, esse Coro acusa, planta matéria falsa na imprensa-global, difama,
campanha de informação falsas, mentirosas, vinculadas pela imprensa(mídia) por
uma meia dúzia de arrozeiros poluentes, políticos e empresários de garimpos,
stock exchange, e tem muita declaração de certos militares, daquele Anjo militar
Miguel, visando anular ou modificar a demarcação de nossa terra em áreas de
fronteiras, violência e agressões de alguns arrozeiros contra os índios, ações
movidas por fazendeiros e pelo governo do estado, acusação acusação, os índios
vão entregar as áreas de fronteiras aos gringos-velhos, os índios ameaçam a
soberania nacional Aaaarrrrrrr, cansei, pifei, caí, derrotei, levanto, luto, faço
guerra, urro, xingo, berro, mau-selvagem, protesto, hurrrrr, e nós que sempre
estivemos nas fronteiras, defendendo as tais fronteiras nacional.

ANJO MIGUEL
Se querem ficar fiquem mas como mão de obra-escrava construindo nossas
pistas de pouso. Foge índio, índio não quer fazer trabalho-escravo de novo, que
preguiça, vamos invadir séculos e mais séculos fazendo elogios, fazendo midias-
de-elogios da preguiça desses selvagens-nativos.

JAWAT
E o Exército tem acesso as nossas terras para fiscalizar as fronteiras, os militares
azucrinam as mídias com mentiras “os índios põe em riscos a fronteira”os indios
querem entregar as áreas de fronteira pros gringos velhos velhos, mentiras velhas
mentiras mentiras antigas dos tempos das colônias, e o que eles querem qual
pesadelo desses milicos “o que está em jogo é o interesse sobre as riquezas
minerais, florestais e hídricas e, também, sobre aquelas existentes em outras
Terras Indígenas em faixas de fronteira. A visão militar predominante é de
entregar o patrimônio público para a exploração econômica, visando povoar as
Terras Indígenas com não-indígenas para entregá-las às grandes empresas”, é
isso que esses tubarões do agro-negócio querem. Fecha a fronteira ou seremos
comidos pelos tubarões do agro-monstro.

ANJO GABRIEL
Eu não quero ver isso, eu não consigo ouvir esse ruído infernal. Eu quero frito, eu
não quero, nem cozido, o que eu quero meu deus nesse inferno meu deus, não
me abandones pai meu assado, eu quero congelado, eu quero a transcendência
desse estado de coisa, eu vim cheio de verdades, de verdades antigas, profundas
inverdades, e essas mentiras atracando meu corpo, as serpentes da floresta de
novo, eu vim do principio das coisas, eu vim do infinito. Eu não gosto de nada,
não suporto nada que tenha ヘ ndio, e programa de índio me enoja, me dá ânsia
de vômito.
Mentira, verdade inverdades ordens desordens ordens oficiais desarranjos gerais.
Minas gerais, explorações cobiças, missas, missais, abismais. Carro de combate
tanque de guerra, um feixe laser que permite avaliar a distância exacta ao alvo,
General Patton, Deus que me perdoe, mas eu amo esse campo de batalha, eu
amo essa guerra sangrenta, Aquiles, Julio, César, Aníbal Barca, Napoleão,
General Patton. Palavras palavras faladas, fiadas palavras. verbais, não verbais,
orais, sexo oral, boquetes, leis, artigos, constituição, artigo.

JAWAT
Esse jovem angélico SS
Esse anjo-nazi, arcanjo skin-heads
careca racista,
cheio de rigidez moral
e doutrina racista,
com esse seu brinquedinho eletrônico maligno,
tanquezinho de guerra
carruagem divina de combate
destrutiva, terrifica diabólica
Anjo-jovem-facista
espalhando ideologia racista
Propondo limpeza de raça perseguida,
cheia de estigmas.

A UNI テ O NACIONAL
(jogando um baralho vidente)
Você é um palhaço trôpego, uma carta que eu tirei fora do baralho e quando você
aparece bêbado e pedinte com o pires na mão eu te vejo com um palhaço de
fraca piada, de um circo decadente e ate faço graça. Filho enjeitado, no meu
pesadelo, no fundo, na sombra da minha culpa até tenho orgulho de ti eu tenho
medo de ti eu tenho orgulho de ti, eu sou psicanalizada, Dr. Freud me tem a
porrada, me enfia muita pimenta pelo rabo me acha divertida e bem humorada.

BRANCO-ESTONTEANTE-CASSANDRA
Todos os viragos-colonizadores vão te invadir
Flora magnífica
Falsa soberana
ヘ ndio sem soberania
Todos os conquistadores vão te sangrar
Vão atingir tuas veias
Vais jorrar sangues e sangues vais secar vais morrer,
seca sem chuva e sem atmosfera, enfim, o horror!
Vais confundir tuas milhares de bios diversidades
Vais te perder nos teus ecocistemas
Vais te perder na fúria de nossos viragos colonizadores.

ESTUPRO DA LOURA
LOURA
Deixe eu me aprontar
Colocar os meus enfeites-babilônicos
Visto um vestido púrpura e escarlate
Pedras preciosas e pérolas, me adorno
Melo a boca toda de batom-vermelhão
Bebo uma taça de ouro cheia de abominações
Bebe comigo Selvagem, bebe comigo Tarzan

KOTOK
ノ bebida-de-frutas-fermentadas?
ノ caxiri? Cauim? Cachaça?
LOURA
ノ sangue das minhas-vítimas
vê, meus lábios estão vermelhos de sangue das minhas vítimas
estou bêbada de licor-de-sangue-dos-santos
e do sangue-dos-mártires
bebe Tarzan, bebe Selvagem
( A Loura serve aguardentes, bebidas industrializadas, wisky, rum, gim, drinks &
drinks, vinho tinto, Martine seco. Tarzan, Loura e o Selvagem, se embriagam.
Cheiram coca e crac, ficam alegres e agressivos, rolam no chão, orgia romana, o
Selvagem morde as coxas da Mulher-Escarlate, arranha seu peito e outras partes
do corpo, perde o controle, estrupa-a ( na posição more bestiarium a dos
quadrúpedes). A Escarlate grita bêbada, apavorada. Quando acaba a orgia-
estupro, a Loura está toda arrasada, o vestido-vermelho rasgado não existe
mais. Com o corpo todo branco, melado de sangue, os cabelos amarelos, a
Loura é outra vez a imagem da inocência perdida.

JAGUAR EPIFANIA 1

LOURA
Acre odor de feras
Olha o Jaguar
O Jaguar é um predador
Ele vem derrubando tudo
destruindo corações alados
quebrando culturas
depredando florestas sagradas
ouço uma voz
a voz é
a voz é o Jaguar
hy...
o Jaguar vem nos almoçar
talheres e pratos
garfos prata
arrumar nossa mesa ritual
almoça meu coração meu namorado animal
meu Jaguar
me lancha panterus
arranha o meu ouvido
com tua afiada canção.
Meu Leopardo, voz unha
Voz-unha
hy hy hy
Não levem a boca as mãos sujas de sangue
Há o caso do pai do Xi Vara
Que ao assar um cadáver
lambeu seu próprio dedo sujo de sangue,
ao retornar a aldeia após o funeral
foi devorado por um Jaguar
aqueles que ingerem sangue cru
serão devorados por Jaguares
ou se transformarão eles próprios em Jaguares
Não deve o indivíduo comum tocar o sangue do inimigo, pois assim o fazendo
pode transformar-se num homicida descontrolado contra os próprios familiares e
até devorá-los.
Jaguar celeste do céu
medianamente alto o vôo
devorador de almas
no caminho deste para a aldeia celeste

JAGUAR EPIFANIA 2

LOURA
Ele é o Jaguar!
O Jaguar-Divino!

TARZAN
Você tem certeza de que a roupa-metamorfose é o
Jaguar-imortal-destino-fim-inimigo?

LOURA
Tenho, olha a voz, o som
do Jaguar hy hy hy hy hy hy hy
a voz do Jaguar sinaliza que a comida se
aproxima - a comida-O-OUTRO
metáfora-ritual

JAGUAR EPIFANIA 3
JAGUAR
Que carnes me chamam?
Quem chama o Jaguar imortal?
Ser canibal por excelência
Come o coração da vítima
a parte do corpo que contém mais sangue

LOURA
Você me ama Jaguar-Imortal?
Jaguar-letal?

JAGUAR
Te amo, te amo tanto que desejo
comer teu coração cru e apaixonado
Só o sangue só alimenta o Jaguar humano
Vinho e sangue

BODE EXPIAT モ RIO


TARZAN
Eu sou James Dean, o rebelde
eu sou o bode
Ofereço-me como vítima sacrifical
Animal expiatório
Refeição totêmica
Venha eu me ofereço
Arranquem meu coração!
Coloquem numa bandeja de prata
não vou fugir
sou corpus-cristus!

SACRIF ヘ CIO

(O Jaguar agarra o Tarzan com força-brutal, arrasta-o até uma árvore seca e
sadiana carregada de frutos podres, amarra-o á árvore com cipós gigantes.
Rasga-lhe o peito nu com suas garras poderosas, extraindo o coração vivo e
trêmulo, gritos alucinados de Tarzan. O Jaguar, urrando, segura o coração do
Tarzan, devorando-o. Jatos de sangue, o Jaguar bebe o sangue urrando. Berros
desesperados de Tarzan. Robôs-Cara-de-Cachorro assistem tudo, metálicos,
esperando os restos. No final o Jaguar saciado, com a boca e os dentes
encharcados de sangue atira as entranhas de Tarzan para os Robôs-Cães
comerem. Os Robôs Cães devoram tudo, metálicos)

LOURA
Morto num acidente automobilístico
meu Selvagem
Brando. Brando. Dean, velocidade jovem.
Byron que inventou a velocidade jovem
O casaco de Dean o cabelo
A causa a calça o sem-causa
O sem calça. O indío-nu
Dean.

CASAMENTO

(O final do desfile, aparece na passarela a Noiva-Loura-divertida do Táxi-Chuvoso


vestida de noiva-fecho-de-desfile, a noiva perfeita, daquelas que vem envoltas em
véus diáfanos. Aparição divina. Virginal. Inocência celeste. Epifania. Trazida pelas
mãos de Yves Saint Laurent - envolto numa nuvem de timidez estrelar. No final da
passarela Yves deixa-a sozinha para que ela encontre o seu noivo (Tokok) que
está como aqueles prisioneiros-canibais daquelas gravuras quinhentistas de
Theodoro de Bry - amarrado pela cintura com corda de fibra de árvore. Dois
guerreiros-anibais arrastam-no segurando as pontas da corda, passeiam, assim,
pela passarela, o Noivo (Kotok) está alegre e vitorioso mesmo sabendo que vai
ser devorado num rito antropofágico. Saint Laurent agora está metamoforseado
em Sogro-Canibal e fala em voz robotizada.)
SOGRO CANIBAL
Como te dei a minha filha em casamento e não me deste nada em troca és o
meu devedor eu o teu credor. Uma pessoa só se paga com outra pessoa, uma
mulher com outra. Na pessoa de meu devedor me dás direito de te devorar num
festim canibal depois de ter te despedaçado e assado no moquém os teus
pedaços. Estás satisfeito.

KOTOK
Estou!

SOGRO-CANIBAL
Então, até que a morte vos separe.

KOTOK-NOIVO-PRISIONEIRO-SELVAGEM
Até que a morte nos separe, baby.

NOIVA
Até que a morte nos separe, bode.
(Nova metamorfose-Sogro-canibal-Saint-Laurent. Saint Laurent abençoa-lhes
entregando-lhes as alianças.)

SAINT LAURENT
Eu vos declaro marido e mulher.

KOTOK
Eu sou o teu outro! Definitivamente é o que eu sou, tua comida mortal, teu osso,
teu outro. Eu sou o teu outro!
(Chuvas de flores e confetes caem do céu, é um grande teatro. Refletores de
show-pop-star iluminam o desfile. Saint-Laurent (fotógrafos, convidados, estrelas-
pop, compradores) pede aplausos da platéia. Um outro guerreiro-anibal entra na
passarela carregando uma borduna tupinambá imensa, caminha em direção ao
Noivo-Prisioneiro preparado para despencar-lhe um golpe mortal no meio da
cabeça, o Noivo xinga e ofende corajoso o agressor, a platéia aplaude
entusiasmada. O desfile acaba.)

FIM